Texto 02: O demônio da teoria: Literatura e senso comum – Antoine
Compagnon.
Tradução por Cleonice Paes Barreto Mourão.
O mundo
A literatura e a mimèsis, desde a Poética de Aristóteles, iniciou-se a relação entre
literatura e realidade. Para Erich Auerbach, “Mimese. A representação da Realidade na
Literatura Ocidental” (1946), que estudou de Homero a Virgina Woolf, a noção não era
questionada. Porém, a teoria da literatura que insistiu na autonomia da literatura em
relação à realidade, ao mundo, defendeu a tese do significante sobre o significado, da
significação sobre a representação, em linhas gerais e esta doutrina culminou no auge
com o dogma da auto-referencialidade do texto literário, ou seja, “o poema fala do
poema”. Caso contrário, a realidade expressa no realismo não expressando alguma outra
coisa que não seja dada no texto da escritura, é necessária que exista uma convenção
prévia sobre realidade, um conformismo e contrato tácito entre o indivíduo e o seu
grupo social. Com o desenvolvimento da teoria literária, apontou Philippe Hamon,
posto o problema da representação e mimèsis, e questões de intenção ou estilo. Depois
de problemas ou questões do autor e sua intenção, é importante observar nas relações da
literatura e o mundo.
Uma série de termos coloca em questão sem nunca oferecer uma solução para
resolvê-lo inteiramente – o texto e a realidade, a mimèsis. A começar pela definição
Aristotélica entre “imitação” ou “representação” (a escolha do termo em si já é uma
opção teórica). Há também adágios, como o célebre “ut pictura, poesis”, de Horácio; ou
outra frase famosa “a momentânea suspensão voluntária da incredulidade”, é o contrato
realista ligando autor e leitor, mesmo que uma ilusão poética por uma imaginação
romântica que Coleridge disse nestes termos “willing suspension of disbelief for the
moment, which constitutes poetic faith”. Dado estas ideias iniciais, começa a
necessidade de noções rivais de “dialogismo” ou de “intertextualidade”, cujo referente
da literatura, é a própria literatura.
De Platão a Barthes, a mimèsis “subversiva” ou “repressiva” são totalmente
contrapostas. Mas Aristóteles e Auerbach, não houve tantas alterações. Seguem-se
alguns tópicos do Capítulo de Antoine Compaignon para discutir o clichê – o antigo e o
moderno.
Contra a mimèsis:
Em “A poética da narrativa”, Thomas Pavel – a formalidade retórica em
detrimento da sua força referencial. Saussurre, Jakobson, Peirce e outros, terminam de
tal modo que O mundo já é interpretado, a linguística primária ocorreu entre
representações, e não entre a palavra e a coisa, e nem entre o texto e o mundo. Assim, o
mito da referência se dilui.
Jakobson marca duas funções de comunicação – a referencial e a mensagem, a
referencial orientada para o contexto da mensagem, o real; e a mensagem – Jakobson
referiu-se como predomínio da função poética, embora ressaltasse que seria inútil
simplificar toda mensagem em apenas função poética, ou pior, confinar a poesia à
função poética, e por fim observa que na literatura, segundo o autor – Roman Jakobson
– a função poética é dominante em relação às outras, principalmente a função
referencial (denotativa).
Com Levi-Strauss em “A análise estrutural em Linguística e Antropologia”
(1945), forneceu base à linguística estrutural, principalmente a fonologia. Com a análise
do mito e em seguida da narrativa, deu lugar a narração e a narratologia francesa,
preferencialmente a semântica, mimèsis, à representação do real, e, sobretudo à a
descrição. Por fim, Barthes adepto da ideia de que a referência é explicitamente
acessória, cita Mallarmé, a linguagem substitui um real, como se fosse necessário um
real, e não o é. A literatura recusa a dimensão expressiva, referencial e representativa,
mas não somente ela, também é característica da estética moderna que se concentra no
“médium” (abstração em pintura).
A mimèsis desnaturalizada:
A teoria literária retoma a herança aristotélica e ao mesmo tempo a exclui, desde
Aristóteles, pois houve uma mudança de sentido do termo mimèsis que em Aristóteles é
a verossimilhança em relação ao sentido natural (eikos, o possível), e para os poéticos
modernos se tornou a verossimilhança no sentido cultural (doxa, opinião).
Apenas para conhecimento – no livro III, para Platão diègesis ou narrativa,
possuía três modos, com ausência ou presença de discurso direto – o modo simples,
com narrativa em discurso indireto; o modo imitativo ou mimèsis, tal qual a tragédia e
em discurso direto, e o modo misto como na Ilíada, com discurso direto e indireto. E a
mimèsis, segundo Platão, o termo provém de “mimesthai” (teatro), a narrativa é
conduzida por um outro que não o autor e de algum modo, por este motivo, Platão
retorna no livro X condenando os poetas e a arte da Cidade, “imitação da imitação,
distante dois graus daquilo que é” (596-597b).Em seguida, Aristóteles em a Arte
Poética, a diègesis toma um sentido e noção mais geral definindo a arte poética, e o
texto dramático e épico não se opõem mais, de modo que no interior do drama e da
epopeia se opõem em termos de modo direto (representação na história) ou indireto
(exposição na história). Toda literatura e toda poesia como imitação. A superioridade da
tragédia em relação a epopeia – “A tragédia, segundo Aristóteles, é mimèsis não do
homem, mas da ação” (1450ª 16). O espetáculo era de menor importância para
Aristóteles, restringe-se essencialmente para a obra poética enquanto linguagem – logos,
muthos e lexis enquanto texto escrito e não realização vocal – a poética seria uma
narratologia. Toda época reinterpreta os textos base à sua maneira, cabe aos filólogos
determinar se há contra-senso. O dilema natureza e cultura existem desde Aristóteles, e
Aristóteles disse pouco sobre o necessário (annakaion) ou natural, mas muito sobre o
Verossímil ou provável (eikos), ou humano. Passou-se da natureza (eikos), ou à cultura
e à ideologia (doxa), como referência da mímesis – segue-se: “é preciso preferir o que
impossível, mas verossímil ao que é possível mas não persuasivo (1450a 27)” e além
disto “um impossível persuasivo é preferível ao não-persuasivo, ainda que possível”
(1461b 11). Assim sendo, a antonímia de “eikos” (o verossímil) torna-se “apithanon” (o
não-persuasivo), e a mimèsis volta-se para a retórica e a “doxa”, a opinião. Na Idade
Clássica, o verossímil era comprometido com as conveniências, e dependente de uma
norma social.
O realismo: reflexo ou convenção
A teoria literária para compor-se é inseparável de uma crítica da ideologia que teria
como natural, o que é cultural ou convenção (o tema ou conteúdo de uma boa parte da
obra de Barthes). A mimèsis oculta o objeto imitado em lugar do objeto imitante e isto é
próprio do realismo e este ao romance e romance ao individualismo: a crítica da
mimèsis é uma crítica de ordem capitalista. Do Renascimento do século XIX e com
análise do livro de Auerbach, a preocupação era a representação da realidade. A crise do
humanismo literário como a do autor e da mimèsis ocorreu no final do século XX, a
inocência não nos é mais permitida. Além destes autores, Derrida critica o conceito
idealista de mimèsis como a crítica do mito da linguagem como presença. E até mesmo
antes dele, Blanchot numa utopia da literatura moderna, retoma Holderlin, Mallarmé e
Kafka em busca intransitividade.
O realismo de Roman Jakobson, entre metonímias e sinédoques em oposição à metáfora
no romantismo e no simbolismo. E os estruturalistas e pós-estruturalistas foram
convencionalistas, sem nenhum referencial fora-do-texto da ficção literária. O fora-do-
texto é um efeito enganador de jogo de ilusões, pois o real é convencional rigorosas e
arbitrário.
O realismo esvaziado de conteúdo foi analisado como efeito formal, e foi objeto de
estudo de toda a narratologia francesa – seja em Todorov – Literatura e significação ou
pelo sentido inverso e absurdo – Introdução à literatura fantástica. E Barthes em “O
efeito do Real” leva ao limite extremo este tipo de análise.
Ilusão Referencial e Intertextualidade:
O texto não é um roteiro, e Barthes rejeita toda referencialidade entre literatura e
mundo, ou linguagem e mundo, dentro da teoria literária. Esta ilusão referencial é uma
convenção na manipulação de signos que os realistas camuflam, e fazem crer na
naturalização do signo – um código tácito pelo autor e leitor. Assim como os diários dos
viajantes do Renascimento para o Oriente ou América (Novo Mundo) – um locus
amoenus da retórica antiga, nunca é o real, mas um texto de clichês e esteriótipos. E cita
até mesmo Platão ao dizer que o realismo era um “pastichador”, ou seja, copia o que já
é cópia. A mimèsis produz uma ilusão do discurso verdadeiro sobre o mundo real, a
intertextualidade – imensidão de escrituras. Esta intertextualidade é uma segunda
geração da teoria de Barthes, depois da clausura do texto em sua imanência, abre-se
para a intertextualidade e o mundo. Este termo “intertexto” foi introduzido por Julia
Kristeva em 1966 que com estudo de Bakhtine e Barthes, percebeu um “dialogismo”
entre os intertextos, um enunciado mantém relações com outros enunciados.
E percebe-se com Bakhtine, textos mais dialógicos e menos dialógicos, textos
monológicos como em Tólstoi e polifônicos de Dostoievski (mais realista), assim como,
vê-se o romance como realista e dialógico. Além de plurilinguismo na genealogia do
romanceu europeu, alguns romances cujo plurilinguismo está fora do texto como
unidade linguística e outos em que o plurilinguismo está integrado a estrutura
romanesca. E é vista como uma teoria que se aprisiona ao texto, podendo incorrer em
plágio, citação, alusão e suas formas correntes ou pode substituir a velha noção de
“influências” ou “fontes” para a história literária.
Críticas como a de Riffaterre que diz sobre a “ilusão referencial” como “ilusão
intencional” (New Critics americano), a referencialidade não está no texto, mas no
leitor, e fala apenas de estado de coisas que lhes são exteriores. Daí advém um novo
termo “significância”, ou seja, na linguagem cotidiana as palavras se referem aos
objetos, já o texto trabalha com a perda de referências particulares, o co-texto
diferentemente do conceito de “contexto” de Jakobson fora do texto, no real. Tal qual o
conceito de valor de Saussure (relação entre signos), a significação (significante e
significado) é diferente da significação literária.
Crítica da Tese Antimimética:
A mimèsis não operacional para Barthes, para estudar Barthes deve-se identificar o real
e o “operável” e ele mesmo conclui que a literatura como manual de instruções ou um
romance de Balzac às vezes como impraticáveis. E o melhor exemplo está em “O efeito
do real” (1968), no romance “Um coração simples” de Flaubert, uma anotação inútil,
como “Um velho piano suportava, sob um barômetro, uma pilha de caixas e pastas”.
Esse signo insignificante para além do sentido literal possui uma resistência de sentido,
é a representação concreta e direta do real.
Para Barthes, a carência de significado somente para ter o referente, torna-se o próprio
significante do realismo, um efeito de real, ou seja, o barômetro de Flaubert apenas diz
“somos o real”. A “ilusão referencial” é uma ilusão que não leva em conta a enunciação
realista para um significado de denotação.
E não invalida a posição de Barthes que sempre afirma a literatura como um código de
significação para a figuração do mundo, com detalhes insignificantes somente para
ocultar a autoridade do texto mimético e onipresença do código.
O efeito de real seria uma alucinação – a inexistência da significação, uma passagem
direta do significante ao referente, sem esta significação – o objeto é uma alucinação,
que para Barthes deveria acontecer com o leitor do romance autenticamente realista com
os detalhes insignificantes para camuflar.
Mucho más que documentos.
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