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Título original:
Malhas que as Império Tecem. Textos Anticoloniais, Contextos
Introdução:© Manuela Ribeiro Sanches e Edições 70,Lda., 2011
Desta edição:© Manuela Ribeiro Sanches e Edições 70, Lda., 2011
W. E. B. Du Bois , Do nossa esforço espiritual: © Penguin Group; Alain Locke, O nova Negro: © Scribner;
Léopold Sédar Senghor, O contributo da homem negro,© Éditions du Seui1, 1961; George Lamming, A presença
africana: © The University ofMichigan Press, 1960, 1992; C. L. R. James, De Toussaint L 'Ouverh1re a Fidei
Castro: © Random H ouse 1963; Mãrio (Pinto) de Andrade, Prefácio à Antologia Temática de Poesia Africana:
©Sã da Costa 1975; Michel Leiris, O etnógrafo perante o colonialismo:© Gallimard, 1950; Georges Balandier,
A situação colonial: uma abordagem teórica: ©PUF, 1950; Aimé Césaire, Cultura e colonização: © Présence
africaine; Frantz Fanon, Racismo e cultura: © Frantz Fanon 1956; Kwame Nkrumah, O neo-colonialismo em
IÍfrica: © Kwame Nkrumah; Eduardo Mondlane, A estrutura social- mitos e factos: ©Janet e Eduardo
Mondlane Jr.; Eduardo Mondlane, A procura de um movimento nacional: ©Janet e Eduardo
Mond1ane Jr.; Amílcar Cabral , Libertação nacional e cultura: ©Centro Amilcar Cabral.
Capa de FBA
Ilustração de capa:
«lt's Hard to Say Goodbye!», caricatura da descolonização de África, de «Ludas Matyi>),
2 Agosto 1960 (litografia a cores), Hegedus, Istvan (fl.l960) I Priva te Collection
I Archives Channet I The Bridgeman Art Library
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Biblioteca Nacional de Portugal- Catalogação na Publicação
MANUELA RIBEIRO
SANCHES, Manuela Ribeiro,
Malhas que os impérios tecem.- (Lugar da história)
ISBN
SANCHES (ORG.)
CDU 94(4-44)
325 MALHAS QUE
Paginação:
RITA LYNCE
Impressão e acabamento:

OS IMPÉRIOS TECEM
PENTAEDRO
P""'
TEXTOS ANTICOLONIAIS,
EDIÇÕES 70, LDA.
om
Abril de2011
CONTEXTOS PÓS-COLONIAIS
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por Edições 70
EDIÇÕES 70, Lda.
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'
Indice
MANUELA RIBEIRO SANCHES, VIAGENS DA TEORIA ANTES
DO PÓS-COLONIAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Agradecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
cAPÍTULO 1. VIAGENS TRANSNACIONAIS,
AFILIAÇÕES MÚLTIPLAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
w. E. B. DU BOIS, Do nosso esforço espiritual. . . . . . . . . . . 49
ALAIN LOCKE, 0 novo Negro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
LÉOPOLD SÉDAR SENGHOR, 0 contributo do homem negro. . 73
GEORGE LAMMING, A presença africana. . . . . . . . . . . . . . . . 93
C. L. R. JAMES, De Toussaint L'Ouverture a Fidel Castro. . 155
MÁRIO (PINTO) DE ANDRADE, Prefácio à Antologia
Temática de Poesia Africana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185
CAPÍTULO n. PODER, COLONIALISMO, RESISTÊNCIA
TRANSNACIONAL. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197
MICHEL LEIRJS, O etnógrafo perante o colonialismo. . . . . . 199
GEORGES BALANDIER, A situação colonial:
uma abordagem teórica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
AIMÉ CÉSAIRE, Cultura e colonização . . . . . . . . . . . . . . . . . 253
FRANTZ FANON, Racismo e cultura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273
KWAME NKRUHMAH, O neocolonialismo em África . . . . . . 287
EDUARDO MONDLANE, A estrutura social- mitos e factos . . 309
7

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EDUARDO MONDLANE, Resistência- A procura de um MANUELA RIBEIRO SANCHES
movimento nacional .......................... 333
AMÍLCAR CABRAL, Libertação nacional e cultura ....... . 355 Viagens da teoria antes
do pós-colonial
Obras citadas ..................................... . 377
<<Do mesmo modo que nenhum de nós está fora ou para além da
geografia, também nenhum de nós está completamente livre da luta pela
geografia. Essa luta é complexa e interessante, porque não diz apenas
respeito a soldados e canhões, mas também a ideias, formas, imagens e
imaginações>> (Edward W. Said, Culture and Imperialism, 1994: 6).
Há cerca de cinco anos mencionava-se na introdução a Deslocalizar a
Europa (Sanches, org., 2005)- de que este volume é, até certo ponto, uma
continuação - a complexidade das viagens da teoria, as suas transfor-
mações e limites, a partir do texto «Reconsiderando a teoria itinerante».
Aí, Edward W. Said assinala o modo como teorias produzidas em momen-
tos e lugares específicos sofrem processos de transformação, consoante
não só o tempo, mas também - e esse é o seu aspecto mais inovador -
os lugares em que são lidas, dando assim lugar ao que designa de pro-
cessos, não de filiação, mas de afiliação, ou seja, de apropriação criativa.
O mesmo se poderá, porventura, aplicar à recepção dos textos con-
tidos no volume Deslocalizar a Europa que apresentava, em versão
portuguesa, um conjunto de propostas teóricas relacionadas com uma
perspectiva que tem vindo a ser designada, com maior ou menor eficá-
cia, maior ou menor adequação, de «pós-colonial».
O termo parece ter finalmente entrado no vocabulário nacional, por
vezes ainda com alguns equívocos, nomeadamente quando se persiste
em atribuir ao «pós» uma mera conotação cronológica, como se o colo-
nial tivesse sido finalmente ultrapassado, o que permitiria- pelo menos
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em Portugal- uma revisitação mais ou menos pacificada de um passado mais jovens -, a maior parte dos textos aqui apresentados requer uma
que se deseja definitivamente morto e enterrado. leitura renovada que permita uma heterogeneidade efectiva de aborda-
Contudo, esse passado insiste, qual recalcamento, em vir à tona. gens face aos desafios nossos contemporâneos.
A memória da guerra colonial, os conflitos sobre uma descolonização Dito de outro modo, a complexidade das reacções e análises, bem
apelidada de «exemplam ou «desastrosa» revelam, no caso português, o como das próprias teorias pós-coloniais, só pode ser entendida em todo
modo como as feridas continuam abertas, sobretudo nas gerações que as o seu alcance se se considerar a sua dependência de histórias e teorias que
presenciaram. As memórias dos «retomados» afloram timidamente, sem- as abordagens actualmente prevalecentes tendem, por vezes, a descurar
pre em termos de um debate controverso que parece longe de encerrado. ou a utilizar de forma descontextualizada. Entre estas últimas histórias.
Por outro lado, gerações mais jovens, não só nostálgicas de uma e teorias destacam-se exactamente as propostas anticoloniais que, na sua
«África minha», mas também cada vez mais interessadas ou críticas em diversidade, também contribuíram, para além de outros factores de ordem
relação ao passado colonial, manifestam a sua curiosidade, curiosidade económica e política, para uma alteração radical da orderri mundial.
nunca meramente intelectual,.atravessada como é por memórias e estó- Esta revolução iniciol!-se na segunda metade do século passado com
rias herdadas de experiências por vezes opostas, mas portadoras, apesar a reivindicação do direito à autodeterminação e à independência total
de tudo, de um olhar necessariamente mais distanciado sobre esses acon- por parte das antigas colónias europeias. Neste contexto, a descoberta da
tecimentos. negritude, associada, de modo mais ou menos explícito, a uma consciên-
Uma vez que o luto desse momento está longe de ser resolvido, urge cia pau-africana, com enfoques diferentes, mas complementares, foi, sem
revisitar os elementos «fundadores» do pós-colonial, representados pelos dúvida, um dos momentos decisivos que marcaram- como o sugerem os
textos aqui reunidos:. propostas diversas, por vezes contraditórias, mas textos seleccionados -o pensamento e as práticas políticas que também
todas elas militantemente anticoloniais. Porquê, perguntar, a contribuíram decisivamente, não para o fim do (neo)colonialismo, mas
urgência desta revisitação? Interesse meramente documental, registo para o seu questionamento radical. Sem este, quer os movimentos anti-
!! arqueológico, na acepção menos interessante do conceito, para desen- coloniais, quer a perspectiva pós-colonial não seriam possíveis. Esse
ii' terrar passados ultrapassados, passados que jazem mortos, arrefecendo, momento Caracterizar-se-ia pelo afirmação da identidade negra ou africa-
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enredados em malhas tecidas por impérios que se deseja definitivamen- na e pelas reivindicações de uma descolonização fora e dentro da Europa,
te enterrados? nomeadamente através do questionamento das narrativas eurocêntricas,
Pergunta que, se faz sentido, não obsta a que se lhe acrescente outra: da luta pela independência, bem como pela criação de uma via alternativa
como falar do pós-colonial sem pensar o colonial e a reacção mais ime- aos dualismos da Guerra Fria, através da noção de Terceiro Mundo.
diata a este? Note-se que não se pretende, de modo algum, ver no anti- A questão da negritude, por exemplo, tema que inspiraria muitas
colonial um mero momento antes do pós-colonial, como se a simples tomadas de posição reivindicando o direito à diferença como forma de
causalidade histórica, regida por uma lei de necessidade estrita, pudesse garantir a igualdade efectiva, evidenciaria a necessidade, que nos parece
explicar o presente. Mais relevante será atender às diferenças de contex- ainda justificada, de questionar os preconceitos raciais e culturais que -
tos, ao mesmo tempo que não pode ser ignorada a forma como muitas pesem embora todos os discursos em tomo de uma crioulização exces-
das respostas e interrogações que a nossa contemporaneidade se coloca sivamente pacífica- continuam a assolar as sociedades contemporâneas.
são também marcadas por perplexidades que esses passados suscitam. Com efeito, a discriminação racial ainda persiste, insidiosa, mesmo quan-
Publicados alguns deles no Portugal dos anos 70, quando o fim da do o exótico surge como apelativo, nomeadamente em Portugal, onde
censura permitiu finalmente a sua divulgação- mas, entretanto, esqueci- impera um consenso não só em tomo de tradicionais «brandos costu-
dos ou ignorados pelos que então os leram ou desconhecidos das gerações mes» lusotropicalistas, mas também da ideia de que há que não falar em
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na pós-colonialidade -de processos de interdependência inevitável. em parte. atentos que devemos estar a proces- que tanto mais valerá a pena revisitar. por um lado. seja em nome da «necessidade his- exótica ou ameaçadora. o carácter transnacional da negritude e do pau- determos. Talvez também por isso a sua revisitação faça sentido. de determinar e que a ética não será a melhor conselheira quando anali- brando. trazer até ao presente diversas propostas do ij maram os discursos coloniais e as reacções . face a discursos legitimadores. porventura. a ele ainda incide sobre o modo como definimos a Europa. mas também de outros tráfegos que geram tanto diferenças só os fluxos migratórios. Assim. porventura. tico. questionando * * * consensos pouco produtivos. tais como a «colonização exemplar portu- guesa». num tempo hesi. da interculturalidade ou da hibri- I dização/mestiçagem não transcendem. tórica». ram as mais importantes posições no contexto do questionamento não só 12 13 . parcialmente mais cép- tivos. sem que essa tensão seja pensada adequadamente. «raça». tão em voga desde há alguns decénios.seja não invalida a persistência de visões hierarquizadoras da «diferença» em nome da «missão civilizadora». (Appadurai 1996) -. uma delimitação temporal que se optou por situar entre É certo que as utopias de então surgem nubladas por acontecimentos as décadas de vinte e de setenta do século xx. esconde como estes textos foram. O pós-colonial. visões essas herdadas de longos séculos de domi. uma pers- nação colonial.insere-se. financeiros. anticoloniais. numa época de globalizações desi- sos transnacionais. ·Pretende-se. outro importante elemento do projecto anticolonial. políticas e raciais. mas atento às possibilidades que a diversidade das propostas aqui L reunidas ainda nos abrem. pas- também a constituiu. propondo vias intermédias e cele. cientes de que o mal e o bem não são categorias fáceis do dicotomias entre «nós» e «eles». cria fundamentada sobre o que somos e queremos ser. se bem que questionan. em suma. Stolcke 1995). -se. Pretende-se antes propiciar os meios para uma reflexão mais -africanismo. novas afiliações.a estes. europeia. ·j·'' debates em tomo do multiculturalismo. todos os processos de hibridização.Assinalem-se alguns fios condutores que justificam esta selecção for- mesmo tempo. Taguieff 1990. num contexto que não uma tensão produtiva com a afirmação dos nacionalismos anticoloniais tem de ser forçosamente nacional. através da selecção e justaposição aqui I! I' tante entre a celebração da hibridez dita pós-colonial e os «choques civi. por vezes apressadamente. ao . forçosamente. embora geradores de desi. samos o passado. embora atenta ao passado que desde a classificação racial «cientifica» às narrativas evolucionistas. brado cepticismo. Importa também estimular um debate no nosso país. na medida em que sublinham outros momentos distin- isto é. na expectativa de lhes conferir novas leituras. (re)ler estes textos a partir do «pós». utilizar a diferença. que caracterizam a sociedade na chamada «era da Os textos aqui publicados apontam para um modo alternativo de globalização».anticoloniais . ou de um futuro a conquistar. Considerou- violência mais ou menos acentuada do anticolonial. sobretudo. mais ou menos impostos ou voluntários -tais como guais. as premissas que enfor. como solidariedades inesperadas. chamando. por l gualdades económicas. qualquer vontade de nele nos Por outro lado. os actuais vezes. mediáticos. para se evitar o racismo. sociais. Revisitar implica. mesmo quando agora se prefere falar em «cultura» para pectiva hesitante perante os modos de se ler esse passado e a forma como evitar a «raça» (Gilroy 1987. sem a complexidade que o tempo neles sedimentou. a nossa proverbial «tolerância» e «mestiçagem». para citar apenas alguns aparentemente irredutíveis. ensaiadas. questão da «alteridade». Olhar o passado não implica. perspectiva contemporânea. de um modo menos assertivo. pensamento anticolonial. a partir de uma perspectiva provincianamente frequentemente a sua filiação em teorias e práticas de hierarquização. Nesse sentido. sando pela ideia da irredutibilidade da diferença cultural. Foi nesse período que surgi- que nos fazem olhar o optimismo voluntarista de alguns textos com redo. seleccionados. assim. Entre ideais passados e violências justificadas . a atenção para as razões que assistiram e inspiraram a çosamente limitada e sempre com o seu quê de subjectivo. repensando conceitos que utilizamos. jl ' lizacionais».

sobretudo. as propostas mais estimulantes. na Michel Leiris). ele reside certamente na ideia de um retomo a apresentada ao!. menores ou de teor menos óbvio. incluindo registos dis. cultural . cujo texto «Cultura e colonização» se apresenta numa primeira versão em português. Assim. de resto. a história. dàgens. reciprocamente e foram diferentemente interpretados." Congresso de Escritores Negros de 1956. com as suas rivalidades e políticas. assim propiciando. de Salientecse. consoante os contextos temporais e geográficos. África. quer Scott (2004) chama um «espaço-problema». a literatura.o seu universalismo. novos espaços teóricos para além das distinções entre tende ecoar e promover.também no âmbito da pro- um sentimento de pertença a um continente que durante séculos fora con- dução e leitura destas teorias em viagem.2 ções teóricas. r.do colonialismo. siderado o continente sem história. estas últimas consistindo na selecção de tex. o modo como inspiraram diferentes leituras. Malhas tecidas por rico e prático. uma selecção não pode evitar lacunas. Césaire) ou o manifesto artístico (Alain Locke) até ao relato de viagens (George Lamming). deles foram sujeitos ou objectos. demonstrando que algumas dessas tendências comunidades linguísticas. nem do· que as contradições e oposições. Se há um momento que pode ser entendido como «fimdador» do tado por um texto «menor». B. reflexão mais fundamentada sobre os contextos não meramente socio- de uma forma ou outra. o carácter circunstancial da maior parte dos que o movimento encabeçado por Marcus Garvey (1887 -1940) terá sido textos. para além da interven- .aquilo a que David ciência da diferença racial e. aqui represen. ao reunir textos escritos em português. mas criando. que se podem entrever entre as diferentes posições ensaiadas nos textos. . Eduardo Mondlane. em todos os sentidos. os e da conquista da racionalidade: a África. gerando assim tintos que vão do ensaio mais ou menos académico (Georges Balandier.::. que determinam as perguntas que faze- nação racial. o mais emblemático. Por outro lado. Como já foi referido. Este ideal emergiu significativamente no seio da tos particulares reflexões teóricas. E.a negritude -. Amí. quer a cons- mos. Estas incluem áreas como a antropologia.. ·atenção às viagens de teorias que marcaram profundamente a segunda lcar Cabral. passando pelo panfleto político (W. se contaminaram tos. antigas contendas imperiais que silenciam os cruzamentos e inspirações porventura. associando a momen. também ele resultante de uma comunicação pensamento anticolonial. no que respeita ao saber teó- recíprocas que estes tráfegos globais potenciaram. escritos alguns deles sobre o acontecimento. Optou-se também por apresentar textos menos divul- gados. Du Bois. afiliações múltiplas É o caso de Aimé Césaire. ao mesmo tempo que se pretende sublinhar o carácter inter e transdisciplinar dessas propostas. mas com o objectivo da sua modernização e emancipação. francês e inglês. através da diversidade das reflexões aqui apresentadas. resquícios de não são tão inovadoras quanto por vezes se pretende fazer crer e que. não se ensaia aqui qualquer pedagogia. entre todos aqueles que. múltiplos modos utilizados para exprimir ideias mais ou menos conver- gentes ou antagónicas. Frantz Fanon. mas também discursivos. as ramificações de conceitos e abor- tão-pouco idiossincrasias. necessariamente experimentais. desde os discursos e textos em circulação até àqueles Importa salientar que interessaram menos as consistências teóricas que os enunciaram. esta selecção pretende salientar a importância de intensas trocas e afilia- r li I !\ l·'' . Aimé metade do século XX. nas Américas e na Europa. mas também das visões eurocêntricas e hierarquizantes do legado ocidental. ou de Frantz Fanon. os problemas e tarefas que nos colocamos . por yezes. a arte. É esse cruzamento disciplinar que o volume também pre- r: simultaneamente. viviam entre a assimilação forçada e a discrimi- lógicos. por impérios distintos. 1. novas abordagens. sem dúvida. mas antes a intenção de assinalar. Foi contra esta situação que se manifestaram. Viagens transnacionais. 15 14 . umà diáspora africana. apropriando-se dos discursos hegemónicos. . Kwame Nkrumah. chamando ao mesmo tempo a atenção para os mais consagrados. sinónimo das mais profundas trevas Uma antologia de textos não tem de ser um acto meramente didác- e povoado pelos habitantes mais afastados dos processos de civilização tico. espera-se. se situaram quase sempre nessas zonas intersticiais e. mas que se influenciaram reciprocamente isso. ção política.

Com efeito. Tratava-se. Por um lado. L. de uma afilia- cipais dos textos aqui apresentados. Léon Gontran-Damas eAimé Césaire.este ge Padmore -. no segundo Encontro Pau-Africanista em que Du de . Du Bois salientou a necessidade tanto da africanização da América. poste- fono. na sua vertente não-sionista. entre outros. para além destas distinções.práticas culturais comuns e afinidades entre a diáspora negra e o seu Bois esteve presente (Tomás 2007: 66). o pioneiro do também se associou. reivindica a recuperação de O primeiro. a inspiração Paul Gilroy teve. Tema que assumirá novas capítnlo aqui se apresenta. passando activistas de proveniência diversa. isto é. assim Em 1903. teria os seus principais representantes em uína dignidade perdida. movimento a que W. o modo como ela transcende o continente em que mais ou menos literais. de certa forma. B. Dividido numa «dupla consciência» -pertencendo e não per. seguindo as linhas prin. com a consequente se revelaria fundamental a vários níveis. L. por outro. mais ou menos equivocamente criativos . Nesse sentido. B. americana. até aos Encontros de Escritores continente de origem.natnral dos negros. em cimento da importância dos traços distintivos da cultnra popular negra suma. o movimento da negritnde pode ser visto em associa.que se instalou e que inspirou. .Du Bois assenta a sua argu- ção com o pau-africanismo. ção a África. será representado por riormente. para o que as suas viagens pela Eirropa. cumplicidades e antago. a verdade é que. dos seus laços com o lugar de origem. como militante do pau-africanismo. E. Londres. Marcus Garvey. os processos de tradução (Edwards 2003) linguística e cultnral. W. Alain Locke e outros representantes do pau-africanismo. Du Bois publica The Souls ofBlackFolks. mais francófono.fruto das viagens das cultn- natais. predominantemente angló. enquanto estndante. baseando-se na ra um momento inerente à modernidade e não uma excrescência anacró- 16 17 . salientando o contributo específico da cultnra Léopold Sédar Senghor. Lisboa. embora constitnam duas tendências distintas. Du Bois. B. relação inexorável entre capitalismo e racismo. africana para o continente americano.e não obstante as diferen- Kwame Nkrumah. Du Bois não só reconheceria o contributo vertentes na fase marxista deDu Bois.foi o caso também de Geor- Aimé Césaire. europeia e ocidental. R. àimpossibi- Negros (1956 e 1958) que reuniram em Paris e em Roma intelectnais e lidade de um regresso. como lem dos anos 50. do que a um território real. cujo primeiro desterritorialização. Paris. em diversos pontos. Du Bois Du Bois na Europa e África (Gilroy 1993). há que tes ênfases. o reconhe- considerar também os tráfegos. James e George Lamming. diferenças. dado que esta não reconhecia adequadamente a tencendo ao país em que nascera.ocasião de assinalar a importância das viagens de de Senghor na Harlem Renaissance. obra que criando uma ligação mais a um lugar imaginado. mais tarde. as viagens e influências recíprocas. e. para se localizar em Lisboa e Paris com Mário Pinto da americanização da África. George Padmore. E."'•. B. menos como regresso às origens do que como identificação diaspórica. por outro. E. como tradução e as interdependências entre W. quando este vier a reconhecer a fundamental da cultura negra americana para os seus Estados Unidos importância de uma tradição radical negra. sobretndo em The Souls ofBlack Folk. com afinidades com a judaica. para além de outras circulações que passaram também pau-africanismo não só desenvolveria uma obra decisiva para a noção por Lisboa em 1923. também os caracterizaram. E. dos descendentes de escravos para a cultnra norte-americana. Trata-se. C. Mas. último viajando entre o Gana em vias de se tomar independente e a Har. como reconheceria. para a luta contra todas as formas de opressão dos africanos. do reconhecimento do contributo de Andrade. assim. ·direitos políticos e civis para os negros americanos. São estas afinidades. Com esse texto. Du Bois. contndo. correntes entre os intelectnais africanos na Lisboa dos anos 40 e 50. A justaposição destes textos permite confirmar estes processos de Se bem que tenha acabado por optar pela nacionalidade ganesa. bem como nismos que pretendemos assinalar de seguida. constitniriam momentos decisivos. passando por C. R. lendo assim na escravatn" tncional que consagrava a divisão entre dois mundos.sempre de uma afiliação múltipla: por um lado. virando-se. por exemplo. W. da inferioridade.insubsumível às reivindicações de uma tradição operária origem. com uma . James e ernÁfrica e na diáspora. denuncia a ausência de vertente mais cultural e poética. Estes incluíram. como consequência do racismo insti. com uma tendência militantemente política. como salientaria as afinidades entre esta e o respectivo lugar de ras africanas. Já o segundo. para não falar da recepção das duas por Berlim.

. de que há que se orgulhar. É aqui que se pode reconhecer não só o fio condutor que acompa. retomado por outros dois pau-africanistas. que a 1. ainda constituía a norma. antropólogo . Ao enfatizar a influência que o jazz teve na entre os autores e teorias aqui representados. o universalismo em que os direitos nega.Locke assinala também a riqueza harmónica ria a noção de que esse processo de identificação correspondia. a diferença questiona de aprender com esta vanguarda que descobre a modernidade. quer a irracionalidade do capitalismo . Eric Williams e C. l[l' tardava em cumprir. é repre- múltiplos lugares e anseios. até ao jazz. primitivista (Leiris 1996 [ 1939]) -esse modernismo primitivista é cria- nidades entre negritude. depois de promessas de igualdade e cidadania. bem como de afro-americanos '. entre os modernismos de vanguarda e a moderni- I -africanistas. Estes movimentos haviam surgido. na ênfase colocada na pertença a gia The New Negro [O Novo Negro] (1925) que aqui se inclui. agora apropriado pelos que dele haviam cipação . Em 1936.· pau-africanista. de :I diferença e universalidade. reforçaria o sentimento de norte-americana e internacional.à antolo- específica. entre tivamente apropriado do outro lado do Atlântico. em Lisboa. vanguarda que assume traços dos aos desencendentes de escravos se haviam fundado. e rítmica da música do continente africano e. na literatura.que a ['' sido escorraçados. Alain Locke publicará dois textos. L. do outro lado do Atlân- como Du Bois o viria a explicitar. como adiante se expli- citará. insuspeitas. ça. assim se evidenciando o modo complexo como os escravos e seus rr ". James. na sequência da participação de The Negro and h is Music e Negro Art Past and Present 1969). para analisar as relações da música negra americana I i ' A Harlem Renaissance evidencia outras interferências e trânsitos com a música ocidental. ao mesmo tempo. do que de afirmar-se como globalmente local: Harlem emergia como centro do descendentes pertenceram e não pertenceram a esse processo de eman. no Reino Unido ou em Fran. confessando que a sua «negrofi- garante dos interesses dos grandes proprietários esclavagistas (Robinson lia» (Clifford 1988) teria determinado a sua opção por se vir a tornar 2000). os negros em geral.B. Nas artes. se ser afro-americano. Foi esse programa que justificou o seu sonho forma renovada à Europa. Centro do orgulho de se ser música europeia erudita. de um modo mais interes- do. tico. sobretu. assim contri. ano atribulado na Europa. Du Bois mnda sugere. Assim. a constituir-se parte integrante e inspiradora de uma modernidade sante ainda. nomeadamente. !1 progresso e do modernismo. em suma. à semelhança do que viria dências. o primeiro dos quais em 1919. como pensar (1885-1954). E.essenciahnente cosmopolita. como o texto de juventude de W. todos eles unidos pelo desejo da emancipa. de dade necessária a uma África colonizada. I' resto. Esta associa-se ao sen. Se Michel Leiris celebrara o jazz. peculiares quando traduzida de um modo distinto. Nova Iorque (Claude McKay) ou o orgulho na diferença. na Constituição norte-americana. R. com a organização de diversos congressos pau. revela-se fundamental para se compreender estes tráfegos e interdepen- na Primeira Guerra Mundial. O mundo. como alternativa a uma emancipação que o seu país natal negritude e os laços diaspóricos se renovam e se descobrem afinidades. ciação entre modernismo e primitivismo. passando pelos buindo para esta nova forma de associação transnacional. Locke apresenta uma síntese das dife- lll exclusão. a inadequação dessa fantasia nhará as viagens geográficas e teóricas deDu Bois. de que o texto introdutório deAlain Locke . pau-africanismo e humanismo. Esta experiência. até então. os trópicos em É esse elemento que surge já em embrião no texto aqui apresentado.:. de resto. retomando. modernidade corporizaria. canta-se a África na América. Tratava-se menos de. mas também as afi. blues. a Harlem dos anos 20 não só afirmaria essa faceta como destaca. rentes fases e influências dos sorrow songs e espirituais. salientando-se a importância da música negra para a cultura rr: a suceder com a Segunda Guerra Mundial. em Londres. tido de uma afiliação múltipla que permite não tanto conciliar. a África. em Paris. O primeiro I. em tensão produtiva o reconhecimento de uma diferença. de uma cultura com um percurso académico em Inglaterra e na Alemanha . É em Paris.assim demonstrando o modo como este modelo negro. as afinidades entre a música negra americana e a praticada 18 19 . ideais já desenvolvidos nas Antilhas. ção. da libertação e da dignidade humana.negro americano. licenciado em Filosofia por Harvard.quer as Luzes. Tal tema será.reconhecendo. sendo devolvido. soldados oriundos das colónias europeias. sentativo. !' urna cultura urbana vanguardista. na sua asso- e possibilita. celebrando-se nomeadamente sob a forma da dupla consciência. mais tarde. têm de se modernizar. nica (Robinson 2000).

passando pela descoberta da arte primitiva mulher do poeta (apudKesteloot 1967: 42). a Europa e a criativa. cada vez mais. Clifford 1997) que tiva amizade. Sucumbindo parcialmente a um exotismo nativos. Senghor evoluiria de uma negritude militante para uma reencontramos nos intercâmbios e viagens dos principais representantes noção de crioulidade e de assimilação como processo de apropriação da negritude francófona.nomeadamente no contexto republicano francês. como o demonstra não só a recorrente apropriação criativa do surrealis- na diáspora . assim. negritude de que tomam para a sua Martinica natal. adquiria conotações positivas (Kesteloot I 967. tema que também ecoa na célebre introdução à característica humilhante. aos contributos africanos uma modernidade que reclama igualmente para depois de Légitime Défense. como os que lhes chegavam de Harlem e dos seus poetas. para desmontar a ideia das ilhas caribenhas e da sua literatura como dos negros na arte europeia. pese embora a sua adesão a um modelo Já anteriormente desenvolvida no Haiti por autores como Jean-Price socialista mais local do que universal.essas diferenças. fraternida- ds 2003). em I 934. «turismo literário». também em diá. que se firmariam aos longo dos anos. Locke retraça a história da representação mente. assim introduzindo uma noção de relações transnacionais e transculturais que antecipam o mo por parte dos poetas da negritude. no Brasil -. associando-a com os feita de «açúcar e baunilhà». Edwar- a necessidade de se acrescentar à tríade liberdade. É aí que descobrirão a necessidade de na arte americana. acentuando nostalgia das Caraíbas em Nova Iorque (Sharpley-Whiting 2002. numa aliança que deveria ir para lês. mas também posterior- No texto dedicado à arte. vira-se para o internacionalismo comunista. tal como Senghor. mas também autor de Banjo. a industrialização e um sonho modernista de auto. o que lhe permitiria reconciliar-se com a francofonia. nas Caraíbas. Locke atribui. no ano de 1931. Trata-se. viria a admitir (Cooper 2005) as vantagens de uma não-independência logo com a H ar/em Renaissance. antes da inde- consciência. no entanto.Césaire oriundo da Martinica. no liceu obedecendo predominantemente a estereótipos negativos . Assim. de uma negritude que nada tem de exótico. processos de colonização.dos negros Louis Legrand. como muitas outras além da «raça» e da nação. Já Césaire. ambos a fundar o primeiro órgão da negritude. mo europeu. ao reconhecer as limitações que essa abordagem desracializada Mas será significativamente na Europa que Léopold Sédar Senghor apresentava para os negros franceses e a causa anticolonial. milação da República Francesa. pelos modernistas europeus. do que em encontros pendência do Senegal. se viria a distanciar na célebre «Carta a Maurice Thorez» do seu conJinente de origem tomava-se. · sempre qualquer via marxista. antologia The New Negro. (1957). poeta da diferença. nunca poriam em causa a respec- É ainda esse misto de raízes e rotas (Gilroy 1993. desde o século XVII. saliente. contrastando-a com a presença escassa . segundo Suzanne Césaire. o que não invalidaria a sua permanente militância pela causa da Nardal. de guarda transnacional. deputado francês desse novo território ultrama- e saraus literários. .sendo Senghor senega- determinação dos povos colonizados. depois da descoberta Mars ou Antenor Firmin (Depestre 1980). negros americanos. inspirando-se em modelos literários alter- europeia radicados nos EUA. como o modo como as linguagens Atlântico Negro de Gilroy. Apesar das distintas experiências e origens. igualdade. nomeadamente em casa das irmãs Jane e Paulette rino. até à respectiva reabilitação por artistas de origem afirmar a sua identidade negra. desenvolvendo-se entre a África. em nome de uma negritude que. a causa da identidade (Césaire 2005). modernistas seriam utilizadas não só nesta fase. c0ntudo. 21 20 . menos através da militância política. a noção menos do orgulho da sua negritude em França. a identidade àgrupara estudantes das Antilhas que contestavam já as políticas de assi- racial revela-se menos um regresso às raízes do que um modelo de van. romance onde denuncia o racis- de. tradutoras de Alain Locke. vindo que reaparecerá na negritude de um Senghor. tomando-se. L 'Etudiant No ir.em Cuba. Senghor e Césaire cruzar-se-ão pela primeira vez em Paris. na sua associação entre a emancipação dos Juies-Rosette I 998). Mais tarde (1906-2001) e Aimé Césaire (1913-2008) descobrirão. racial do que do valor e da contribuição das culturas africanas para além de que. a sua negritude. recusando América.. publicação de curta duração (1932) que a produção dos novos artistas negros americanos. amigas de Claude MacKay.

de uma forma pioneira.por Alain Locke numa tradição romântica diferencialista que reproduziria. por essa via. Mbembe 2010). em geral. O texto descreve uma viagem desde o Gana. Alain Locke . atento às cumplicidades e discriminações que ainda atravessam proposta. da mítica revista PrésenceAfricaine. para o movimento da negritude e. é o modo como. Para Lamming. afinidades e diferenças. do emergir. ) dos. nos anos quarenta. Estava-se em vésperas da Segunda Guerra Mundial. cujo prefácio a primeira chegou a verter tância. à Harlem dos anos cinquenta. ao longo do século XVIII (Sanches 2002). Senghor a antiga colónia inglesa. se se considerar a importância dessas tendências em con. não excluindo de modo algu. Num registo pessoal e autobiográfico. Note-sêflunbém_o_seu papel marcante na Appiah 1985. agora criativamente reapropriadas por esses zando selectivamente (Buck-Morss 2009) estudos e opiniões desenvolvi. tema a que regressa experiência cubana. de resto. às abstracções racionalistas. justamente criticadas. também para os estudantes africanos lusófonos. a antropologia.e a literatura afro. de colonizado e a realidade africana. em última ins. Fernando Ortiz. recorrentemente no volume para analisar as relações e interdependências lén. Mas esta questão pode ser vista de elaboração de um ideário negro francófono. menos crioulas. em Paris. É exactamente a diferença que constitui o tema central do texto de Senghor aqui apresentado «0 contributo do homem negro» (1939). a filosofia e a arte) para celebrar uma estranho e familiar numa Harlem agora já distante das promessas utópi- diferença que não exclui os intercâmbios transculturais. -americanas para caracterizar a negritude que revela ser simultaneamen. a partilha. há ainda a considerar o modo como a negritude em Senghor tes tráfegos. cunhando a célebre frase de que se a razão •Whiting 2002). o texto recusa as possui sobretudo características culturais. as que. antes mais matizada. sinteti. sobretudo na parte final do seu texto. Senghor inventa Mas eram outras as Antilhas. ate ao III Reich.para evocar um cas dos anos vinte. sobretudo. o sentimento é africano. o papel fundamental da complexidade das relações entre Próspero e Calibã. naHarlem Renaissance e de Nicolás Guil. no Gana. r:r influência nos futuros frequentadores da Casa dos Estudantes Império. de resto. são os «prazeres do exílio». os estereótipos que o Ocidente criara dos negros (Depestre 1980 para francês (Edwards 2003). «Presença Africana» (1960). lação local e a da suas Caraíbas natais. essa sensação de errância futal é algo termo cunhado por outro autor interessado em redescobrir a africanidade de positivo. a sua entre colonizador e colonizado. colónias que em Paris prosseguiam os seus estudos. ambas as irmãs mani- ticas. Laban 1994: 77). ao mesmo tempo que recorre a vários nhece.citando. segundo a ideia de que Senghor se filiaria féstarão interesse pelo programa modernista proposto . e mais relevante do que estes aspectos. como anos quarenta e cinquenta. desde a afirmação de uma localidade amea. situamo-nos na década segregacionistas. ao mesmo tempo que se sente campos (a história. de 50. fun- textos muito diferenciados. antecipando. em Lisboa (Andrade. de resto. na Lisboa dos çada por uma civilização política e economicamente niveladora. em que o diferencialismo assumiria formas claramente extraído do volume The Pleasures ofExile (1960). as posi- nidade. centrando-se em experiências individuais. Reunindo em sua casa a maior parte dos imigrados das é helena. grandes abstracções políticas. na sua antologia The New Negro. Note-se. sucede com Herder . para a presente dentista. o ritmo. assim enfatizando a relevância des- outro lado. O texto contém propostas problemá. num momento de euforia indepen- Com efeito. o sentimento. privada de uma língua e de uma história próprias. ao mesmo tempo que acentua a das Antilhas. pelos processos coloniais. Dito de outro modo: a sua leitura da rea- 22 23 . Com o texto de George Lamming. processos de transculturação. entretanto indepen- em que Senghor também participaria. tivas de identidade superavam claramente as línguas nacionais impostas Hegel consagrara nas suas Lições sobre a Filosofia da História. a totalidade concreta se opõem ções de Césaire e Senghor que aquelas terão influenciado (Sharpley-. Por dente. as I uma africanidade que se define como o oposto das Luzes. que r. em que a comu.numa Alemanha ainda inexistente no século XVIII . irmãs Jane e Paulette Nardal evocavam.o que revela como essas narra- Contra as visões pejorativas de África e dos seus habitantes. Lamming sublinha as diferenças entre a popu- utiliza a música . esta última forçada a emigrar. Mas o viajante reco- te arcaica/primitiva e moderna. lutando no exército francês. ' . damental. em particular. ma a capacidade de processos de apropriação criativa de que o texto aqui a partir das quais lê as afinidades e as diferenças entre a sua experiência apresentado é também exemplo.

Relevante. ao mesmo tempo ·que sugere o modo como Calibã se apro.(1791-1804). sem que as relações de passando por Garvey. dada negros americanos para a revolução mundial e da afinidade da sua luta a respectiva apropriação criativa e os desafios colocados a esse projecto com a causa anticolonial. colónias.' 11'i. Terminando De regresso à sua Trindade natal. Será na década de 30 que escreverá Black Jacobins.. como José Martí. assente numa comunidade de interesses e 24 25 . Nascido. James globais. l priou de modo eficaz da cultura metropolitana. se a modernidade ainda continua por cumprir (Habermas sar. ao mesmo tempo que a experiência nos Estados Unidos Escrito como apêndice à segunda edição desta obra. L. urn espaço que se propõe re-utiir. retomará os ideais pau-africanistas que opõe ao programa dez Retamár. James em breve se desiludirá com a nova nação independente. dade não tem de ser incompatível com as aspirações locais que também são I rária como muitos outros seus compatriotas. Hegel (Habermas 1990). a herança das Luzes e da des dessa elite (Robinson 2000) que o texto encena de forma sedutora e Revolução Francesa e os projectos anticolonialistas do século xx. truindo uma genealogia que vai de Toussaint-L'Ouverture a Fi dei Castro. contra os dogmas dos partidos marxistas.! . ao assinalar o papel central desse aconte- «a única revolta dos escravos bem-sucedida». Ao mesmo tempo enfatiza as características locais de um movimento tos que ligam a América à África e à Europa. Césaire. as pro- 1963.à semelhança de outros cípulo. como Susan texto em que a Revolução no Haiti . bem como por uma riqueza de experiências. Ao reconhecer o modo como a modernidade também faz parte do te o longo período em que viveu nos EUA(I938-1953). ! : entre a diáspora africana.surge como um dos grandes cimento na construção do conceito da dialéctica do senhor e do servo. fragmentando político e cultural caribenho. em «Black Powem de pelas reivindicações dos espaços periféricos. James imagina. relações fundamentais entre a revolta no Haiti . acontecimentos de uma revolução mundial. passando por Malcom X e Lenine. assim desloca e amplia a Declaração dos Direitos do Homem e Cidadão. com efeito. a fim de realizar o seu sonho de criação lite. salientando-se as maiores afinidades com a metró. criando laços e relações cia de um lugar periférico para uma utopia de cidadania igualitária que 1:1:'11. entre eles Lamrning -. do que no facto de esta não ser mera parte do Ocidente. Aprova disso é a influência desse acontecimento determinante contactaria aí com os círculos de Bloomsbury (James 2003). · 'I 'r· i ! ' ! . l t I: .• assimetria radical tenham sido efectivamente questionadas. onde tece a genealogia que vai de Garvey e da negritude. como Nyerere e Nkrumah. duran. ecuménico iniciado com a Revolução Francesa. como o tomaria claro. R. da importância dos (Scott2004). Tendo partido para Londres nos anos trinta . seu dis. James insiste menos numa abordagem eurocêntrica noção. São as aporias e ambiguida.para a política napoleó- com George Padmore (1903-1959). a sua biografia caracteriza-se também por cons. ' 1'iii' . 1'. Adepto do trotskismo. agora à luz do ano da sua reedição em 1963. autores das Caraíbas. esta não tem de ser forçosamente eurocêntrica e que a universali- I pelos «prazeres do exílio». um dos principais representantes do nica em relação à escravatura.HI ·:: texto de C. I cuja evocação pormenorizada o âmbito desta introdução tem de dispen. mas também -embora silenciado no imaginário ocidental . da modernidade por excelência. para citar os mais conhecidos. Padmore e a sua influência nos líderes do ''· . tal como hipoteticamente para o pensador pau-africanismo. São estas. experiência inglesa. revelando que.i . ainda. tória que deixa de se fazer da Europa para o resto do mundo.1 em Trindade e Tobago. mas transformado nas . ' .um projecto de federalismo limitadamente nacionalista que via surgir nas Caraíbas. desenvolverá a mundo colonizado. Cons- irreconciliada. é o modo como James sublinha a importân- tantes viagens entre as Américas e a Europa. acontecimento maior do pau-africanismo -. James salienta a especifi- 'I I A multiplicidade de perspectivas surge igualmente nas propostas do cidade da contribuição caribenha para uma modernidade plena e inclusiva. lugar de origem. como Lamming. a convite de Eric Williams. James aqui apresentado e que retraça os acontecimen. !idade africana permite ver como o narrador constrói processos de iden. continente africano. com uma alusão à literatura local. como sugere no seu novo posfácio a tificação complexos que o levam a aproximar-se e a distanciar"Se desse Ffhe BlackJacobins de 1936 (Scott 2007).entendida agora como pole colonial que o marcara decisivamente.optando também ele 1985). René Depestre ou Roberto Fernan- Em Londres. o texto aqui o leva a acentuar as diferenças entre a sua identidade caribenha e a sua estabelece. deDu postas mais inovadoras de James. como que invertendo a marcha da his- Bois e Fanon a Stokely Carrnichael.nas palavras de James Buck-Morss o sugere (2009).

° Congresso dos Escritores e Artistas Negros em Paris. as propostas de Amílcar Cabral. Africaine. sem dúvida. como forma de reivindicar uma ordem social. a que se seguiu a luta armada. dosos de uma poesia política e socialmente empenhada. movimentos de autodeterminação. Agostinho Neto.haviam anterior. Comunista Português então partilhava (Andrade. Laban 1997: 67-102). pretendia também recuperar a africani- plar que o Estado Novo ajudaria a cimentar e que o próprio Partido dade do arquipélago. de resto. Tal questão também serve para assinalar o modo como o projec. além do próprio Andrade. mas condenadas a nivel internacional. se «abrir ao mundo». tal como já sucedera na colectâoea haviam cruzado em Lisboa. entre os quais Sartre. mais tarde. de denunciar explicitamente (Andrade 1955) . seguindo Serve ainda este dado para questionar mitos de mestiçagem exem. para a formação de James (como o toma pe salientar ainda que foi na década de 50. negros em Paris. Almeida 2000. também. de. a uma negritude diaspó- cunhada por Amílcar Cabral (Tomás 2007: 72 ss. em 1953. seria determinante para o seu pensamento. entre outros. mas incluiu antes a reivindicação de uma vertente identitária como sentativas das tendências transnacionais entre os africanos oriundos de garante de uma igualdade efectiva para além da «raça» e da cultura. Alioune Diop. em 1954. peias. uma das figura mais repre- <<raça». em autores de origem caribenha que. Emigrando em 1954 para Paris. o grupo de jovens negros Laban 1997: 130ss. Estudos Africanos em Lisboa. borar com a retórica de um colonialismo português mais brando e mes- tica e económica mais justa. Messiant 1999: 201). Barbeitos 1999) que Andrade teria um modelo racial que não exclui a participação de todas as «raças» nessa ocasião.. Paris. que. que conheceu os mais importantes intelectuais Pinto de Andrade é mais um exemplo das possibilidades destes trân. que se em África. berto Freyre para sancionar as políticas coloniais portuguesas. como na poesia de como Amílcar Cabral e Eduardo Mondlane.). Freyre apressar-se-ia a cola-. com o emergir dos primeiros claro no texto Beyond a Boundary de 1963). co-organizara com Francisco podiam orgulhar-se. Com efeito. «assimilado's» aí reunidos . Assinalando. o 1. Pinto de Andrade fora um dos fundadores do Centro de as intervenções de Césaire e Fanon (Andrade. textos aqui incluídos.e que incluíam. outro lado. líder da Revolução do Haiti e da libertação dos escravos. colónias portuguesas. ainda antes da sua partida para no ano de 1956. to da negritude não se limitou a ser uma mera celebração essencialista da Mário Pinto de Andrade é. Por sitos e viagens de teorias para além das línguas coloniais herdadas (An. para além das línguas coloniais. Abordando. Mas. sem que as literaturas euro. entretanto recuperavam a sua africanidade não só como elemento identitário. que o Império Português redesignaria negritude e pau-africanismo. abolindo-se o estatuto do festaram. determinantes. (1975) aqui apresentado pode ser entendido como estando situado na a <<África na sua globalidade» (Messiant 1999: 203). como ele próprio o referiu.tam- De assinalar ainda a forma como o texto salienta as afinidades entre bém nas colónias portuguesas -. Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958). e sobretudo. a sua «reafricanização». na Casa dos Estudantes do Império. agora. na senda de indígena. E é também nas Caraíbas que James encontra tiço (Castelo 1999. associando-os. os encontrado na negritude e no pau-africanismo alternativas a uma política autores cabo-verdianos que não considerara no Caderno de Poesia Negra de assimilação forçada e uma forma de recuperar uma identidade de que de Expressão Portuguesa. Andrade. drade. agora a fase mais passiva e apolítica dos clari- volume). sobretudo. sejam excluídas (Said 1994). Distingue. já antes. nessa «eapital africana» (Mes- Andrade. sobretudo. ver ainda Cabral neste rica. cujo prefácio à antologia Poesia Negra de Expressão Africana siant 1999: 205). bem como os seus aliados.aspirações. neste prefácio. Andrade teria a pos- São temas afins os que emergem no percurso de Mário Pinto de sibilidade. o tema da poesia escrita em português Amílcar Cabral e Noémia de Sousa. ao mesmo tempo que se recorria ao lusotropicalismo de Gil- L'Ouverture. sobretudo. a relevância da negritude 26 27 .tal luta comum. nomeadamente o modo como estes se mani. Foi enquanto secre- charneira entre as questões abordadas por estes textos e as enunciadas tário de redacção e colaborador directo do fundador da revista Présence pelos ensaios reunidos na segunda parte deste volume. porém. polí. embora. para usar uma expressão José Tenreiro. Messiaent 1999. «descobrir um ritmo africano». Pinto de Andrade inclui. este último num dos seus Césaire. como o lê tanto nos líderes brancos locais. que. De resto. as suas colónias de «províncias ultramarinas».

transcontinentais e transnacionais acima assinalados. salientando. agora. A antropologia. . agora coleccionando «arte africana». desde finais do século XX.a particularização. dissociados de uma forte componente nacionalista que também ção ao papel parcial do antropólogo. como ciência. sobretudo.como elemento identitário. Fanou viria a desempenhar um papel deci. ··colonial. em que a violência era a arma necessária para tente. o Entre os primeiros textos aqui reunidos nesta primeira parte e este antropólogo-escritor revelaria na sua etnografia-poéticaA. 1988). nos anos 20. acidental que a questão das identidades tenha ganho reno. Amílcar Cabral seriam alguns dos principais de Violence. Recusando-se a prosseguir a etnografia do «Outro».da cultura . com 28 29 . ao mesmo Não é. de um modo mais ou menos consis- da via proposta por Fanou. menos estimulantes desses processos. Seduzido pela negrofilia dos anos 20. processos de transculturação. também em contacto com os surrealistas adeptos do primitivismo.do que com . no contexto da luta anti- dimensão nacional. Não é certamente por acaso que Chinua Achebe termina o seu qualquer teoria da mestiçagem integradora. modo mais ou menos radical. ocupa aqui um lugar proe- se pôr cobro ao colonialismo (Andrade.· minente. com a sua nobreza. O texto de Michel assinalar. os Estudos do Subalterno na Índia e na sua diáspora serão os mais impor. insinuam-se transformacoes que a (1934) mais as suas hesitações interiores do que dados sobre as culturas segunda parte ajudará a entender. Leiris aqui apresentado. tempo que salienta a inexistência de uma antropologia dos europeus por vada virulência ou se tenha vindo a assistir a reinterpretações mais ou parte de africanos. para caricaturar esse protagonistas e em quem exerceria uma influência directa (Tomás 2007). Fundamental é o modo como Leiris insiste na importância da aten- contudo. assim criando uma ideia de pureza. Laban 1997: 150) -. em que a crítica da nação é uma constante. a história da África. Interessante será reler as abordagens que. visitadas. sobretudo. superada através de uma . resposta a Coração das Trevas de Joseph tas de Senghor. Mas. Com efeito. ou que Yambo Ououloguem sivo no contexto da luta armada pela independência de que Mário Pinto se reporta à figura do proto-antropólogo Leo Frobenius em Le Devoir de Andrade e. a verdade é que foi na antropologia que algumas críticas língua portuguesa. Spivak. desen- no apelo dos poetas à acção. anterior a outros contactos e tantes (Guha. não podem ser. se debruçaram sobre questões de cultura e identidade. no contexto dos autores africanos de Contudo. colonialismo. Poder. depois de 1958. com a referência a uma etnografia. mas nacional e a afirmação do direito a independencia. negritude e do pau-africanismo. embora caracterizados pelos traços tariam uma reaproximação à antropologia numa perspectiva crítica. «0 etnógrafo perante o colonialismo» (1950).frique Fantôme último texto de Pinto de Andrade. vendo nos «assimilados» críticos um «objecto de estudo» ideal. Conrad. Esta tendência distingue-os da maior parte das aborda. tral da literatura . De salientar ainda a forma como inclui a vertente da mudança histórica gens pós-coloniais. o prefácio revela também a importância cen. desses tráfegos e intercâmbios que se começou por mais contundentes ao colonialismo começaram a surgir. como sugerido nas propos. resistência transnacional em La Reg/edu Jeu (1938-1976). o texto fornece uma breve história da recepção da de destruir «ídolos pagãos». assim. face à contra as abordagens deliberadamente a-históricas de um Lévi-Strauss. desilusão perante as utopias nacionalistas ou à globalização que. a emergência dos movimen- tos anticoloniais e o contacto com intelectuais como Césaire possibili- Os movimentos anticoloniais.para se exprimir.. romance Things Fali Apart. Leiris optaria pela persistente auto-observação 2. de que Entretanto Maurice Delafosse (1870-1926) descobrira. os caracterizará. em contextos de poder desigual. ela surge. ao serviço da administração colonial. de um Leiris assinala o risco do exotismo que cega o observador às mudanças. contudo. os elementos arbitrários de uma expedi- ção destinada a coleccionar e a saquear cultura. Contudo. Tal posição estava mais de acordo com os volvendo abordagens complementares às anteriormente apresentadas movimentos de luta pela libertação -que se reclamavam crescentemente .para a constituição de uma identidade é emblemático neste sentido. também as tem de questionar ou reforçar. em vez Por outro lado. através da personagem Shrobenius. substituto do missionário.

atento às transformações e desestruturações que a situação colo- um processo dinâmico de reinvenção e adaptação de práticas quotidia. nomeadamente. assim. em que todos são actores. seria publicada nos anos 70 em Portugal. Com efeito. O problema que Césaire e consequentemente mais complexo . de resto. em vez das «modernização». a desconfian- ça gerada pelos congressos pau-africanistas e pelos seus adeptos. surgidos depois do fim das utopias abordagens pós-coloniais. te a uma «missão civilizadora» ou à afirmação da necessidade da sua Significativamente. lando-os entre si. Mário Pinto de Andrade. economia. nial acarreta para todas as partes envolvidas. 1920). ·. para Leiris a cultura é crítico. em que os processos de discriminação racial e étnica (Sanches 2005) . bem como a fatalidade perspectiva inter e transdisciplinar que permite um olhar distanciado e da hibridização ou transculturação. O estudo das culturas locais tem assim de tomar em considera- determinação. incluin. mas não substitua. Leiris como que antecipa muitas das ques. sobre a violência do seu passado colonial e os genocídios dele resultantes. essa relação sempre fundada numa desigualdade estrutural.sobre as relações entre ambas as sublinha é o facto de essa rejeição só ter surgido face ao genocídio de popu- partes envolvidas.afinidades com a negritude e o culto da negrofilia. numa das diversas tendências.embora agora recuperado numa França final. rever na sua superioridade «civilizacional». a necessidade de o colonialismo ser analisado como um texto.em que foi. ção as transformações históricas. Esta permite por Aimé Césaire no seu Discurso sobre o Colonialismo (1978 [ 1950]). pese embora a desi. retour au pays natal (1939) questiona uma Europa incapaz de reflectir bem como as complexidades que o caracterizam a diversos níveis. argumentando-se menos a nas a factores endógenos. se veja história. Césaire enfatiza o elemento racial presente na unanimidade sociedades tradicionais do que o colonialismo como facto total. fluente-. contudo. e prefaciada por e sociedades colonizadas (2003: 33 ss. que é privilegiado «A situação colonial» (1951) uma perspectiva decisiva. entrever as relações de poder que o constituem.levara à I'. Esta . em que os seus momentos mais ou menos explicitamente violentos são distintamente interpretados pelos «coloniais» e «colonizados». sociologia. A situação colonial.. Com efeito. temas rapidamente recuperados pelo discurso colonial em França.. Leiris insiste na necessidade de que. o autor de Cahier d 'un todo. assumem configurações distintas de outras sociedades. sistema. se . mente mais receptiva a esta tendência (Smouts 2007) -.e à semelhan. Deste modo. da autoria de Noémia de Sousa. tais como o papel da subjectividade do etnógrafo. partir de um ponto de vista ético. o direito dos povos à auto. Neste ça de Leiris -. os contributos da reconheça a relevância dos mecanismos de transformação. assim possibilitando um olhar mais diferenciado. não arrastando consigo a condenação de outros actos 30 31 . por exemplo. modo como o poder é constituído. do que de uma perspectiva atenta ao gualdade gerada pelo contexto do poder colonial. articu- a cultura como mudança e a sociedade colonial como um todo. Balandier parte da necessidade de se estudar menos as Além disso. na senda da condenação do Holocausto num continente que assim deixava de se de Émile Durkheim.entre os quais se contavam alguns «assimilados» ocidentalizados . Balandier antecipa os Georges Balandier (n. segundo a ideia de uma o que aponta para a complexidade das posições que só adquirem a sua inferioridade cultural ou racial dos colonizados como momento ineren- dimensão efectiva quando adequadamente contextualizadas. desigualdades e regularidades internas desse perspectiva que prepare. estudar as interacções entre estruturas de domínio colonial e as culturas cuja versão portuguesa. uma figura particularmente in. introduz em Mas é menos esse olhar. culturas «autênticas» e «incólumes» que deleitam jovens antropólogos. sendo. os processos as colónias americanas em que a escravatura foi determinante. anticoloniais (Cooper 2005). envolvido e distanciado. definida como essencialmente lações europeias. . ou seja.). Com efeito.<<patológica». defesa do relativismo cultural e do direito à diferença (Edwards 2003). . como. por forma a ter um entendimento mais substanciado do na sua análise as relações entre colonizadores e colonizados. tem sempre de ser ideologicamente sancionada. escreve Balandier. permitindo. económicas e sociais introduzidas pela tões mais tarde introduzidas pela chamada antropologia «pós-modema» presença colonial. Nesse sentido. É esta de mudança associados ao estudo da diferença. Para o seu estudo importa reter. caracteriza-se por uma relação predominantemente con- :Bitual. escrito depois da Segunda Guerra Mundial. psicologia social e antropologia. autor paradoxalmente esquecido nas estudos recentes sobre colonialismo.

quando se davam os primeiros passos para aquilo que se viria . quando se acusa fase embrionária da organização dos movimentos de libertação angola. Mário e Joaquim Pinto de Andrade tam.e não encontra . ceito de aculturação de Melville Herskovits (1895-1963). Note-se que além deste. as posições mais moderadas dos repre. A solidariedade de todos os povos colonizados foi também aborda- Neste congresso. 1 0 afirmava. mas com um enfoque radicalmente diferente. embora se estivesse ainda numa -coloniais». encontro evidenciaria rupturas. mas numa Fortaleza Europa que. /l . mas como estas. Race et Civilisation são os mais conhecidos-. semelhantes perpetrados no espaço colonial. Dividido entre a descoberta das suas «origens» que sentantes negros americanos. como -de que os célebres textos de Claude Lévi-Strauss. Pois a apropriação criativa é impos- Negros realizado em Paris e de que resultou também a intervenção de sível nesse contexto. seguindo Malinowski. como actualmente as abordagens inadvertidamente «pós- bém marcariam presença nesse encontro. O colonialismo é. A negri- dois anos depois da publicação na UNESCO de Racismo e Ciência (1951) ·. de Michel Leiris. processo de autodeterminação das então colónias portuguesas. a um balanço da sua visita ao Gana em dora ou arcaica. Race et Histoire e tendia. .tude não só era substituída pela luta política pela emancipação. dos colonizados. em que W. como Fanou também o denuncia no texto apresentado ao mesmo forma de assinalar o modo como essa exigência persiste actualmente congresso.conceito popular na teoria pós-colonial. cipar pelo facto de lhe ter sido recusado pelo governo dos EUA um pas. as põem à prova. o pretendem. a «raça» > O texto de Césaire revela o modo como as viagens das teorias as persistia. vêem-se destituídas de vitalidade. procedera. -se no modo como essas transformações não dão azo a mudanças cultu- bárie no mundo colonizado.Anos antes desta interven- saporte. ' dade do povo negro não é aqui unidade racial. o que revela finalmente que. Césaire insiste. não como uma van- Wright e de George Lamrning. através do con- recusar a abertura a um mundo que ainda sofre de desestruturações tam. ou as idiossincrasias de Richard Wright. ·afectam.se fazem denúncia da presença de resíduos de nazismo na Europa de Schuman e através de processos de desigualdade violenta. como já foi assinalado. nem territorial. no tornar-se-iam óbvias. A hibridização. as clivagens de um encontro baseado numa identidade «racial» ção. persiste em 'teorizada há muito pela antropologia norte-americana. mas também nos colonizadores. nalguns casos.E. a territorializar-se. marcadas já pelo emergir da crise arge. Entre as visões de uma negritude mais conserva. em contextos diferentes. mas unidade Não recusando os contactos entre culturas. da África às Américas. contudo.B. Richard e contaminação dar os frutos que lhe são atribuídos. como Balandier no modo violento e desigual como esses intercâmbios se processaram. o encontra . silenciosa. Mas Césaire centra- assinalando ainda a forma como o colonialismo não só introduziu a bar. a africanizar-se. condenadas que estão a morrer e a a designar «construção europeia». da por Richard Wright no texto que apresentou ao mesmo Congresso. ladas nessa viagem. revista Présence Africaine. na respectiva preparação.o texto pode ainda ser lido como uma estiolar. Du Bois se viu impedido de parti. a denúncia das relações entre colonialismo e racismo. Senghor. A uni- nidade e de incapacitação de uma revisão efectiva da história. que viria a bém criadas pela situação (neo)colonial. como Wright propõe uma perspectiva reflectida sobre as experiências acumu- seria o caso de Césaire e Fanou. Nesse ensaio com que encerra o seu relato. corresponde à ·como universal ou se se revelar indiferente aos processos assimétricos intervenção de Césaire em 1956 no I.é aqui recusada. transformam. Questão ainda a considerar. mas também mais conciliadora. já Wright.numa África que visita pela primerra vez. como a defendida por vésperas de independência. Assim. Wright hesita perante o apelo à independência com que se identifica e o lina e as formas de luta armada que viriam a ser determinantes para 0 tradicionalismo que também encontra na prática política de Kwame 32 33 . Só em liberdade poderão os processos de empréstimo Frantz Fanou incluída neste volume.influenciar a teoria do lusotropicalismo . se entendida «Cultura e Colonização». tendo Mário Pinto de Andrade colaborado. posfácio a Black Power (1954).afirma. enquanto redactor da forma de protesto contra processos de exclusão social e racial. garantindo a mobilidade interna. afro-americano auto-exilado na Europa. tagem universal. como factor de exclusão da maior parte da huma. as culturas negras Adenauer. levianamente de essencialistas os que ainda defendem a sua cultura como na.o Congresso de Escritores e Artistas que caracterizam a situação colonial. Com a sua rais pacíficas. o facto total que nada deixa incólume.

como força aglutinadora. Trata- líder do pan-africanismo. excessivamente ligado ao Ocidente. tal como proposto por Sartre em dividida. quer da necessidade de denunciar o racismo. quer dos seus . «Tradição e ambivalente com a negritude. que. o que lhe conferiria maior liberdade de Os Condenados da Terra (1961 ). Industrialização». buscando antes uma libertação efectiva que Fanon virá dente. no ano de 1956. 2002).como seus elementos mais conservadores.como Sartre quase masoquis- porém. Negra. alternativa revolucionária ao proletariado urbano e assimilado. não constitui um hino à violência. e a defender. há que escapar tanto à assi- posição da delegação norte-americana .bsitando entre a evocação do peso «epidérmico» da raça e a vontade de çara por contactar. Téstemunho dessa situação é o livro aforístico de juventude. como " de forma de exílio modernista. com a qual Wright se identificaria. Laban 1997: 131-136). Mas estaria. Wright assinala o modo como pertence e não pertence ao Oci. o modo jÓVem Mário de Andrade (Andrade. Distanciando-se crescentemente de uma África que define como i!S·posições de Wright que reivindicava novas formas de solidariedade anti- primitiva. Diawara 2000). con- e a cumplicidade dos chefes tribais locais. [izadas do Terceiro Mundo. Negros em Paris.discutíveis . fundador da revista Présence Africaine. Pele via local. nem políticas . I tíido. na sua experiência desterritorializada. para quem as questões da segregação às amarras do tribalismo e da tradição. contudo. ao seu processo de moder. as elites ocidenta- i' com a evocação das suas visitas aos fortes de onde os escravos haviam i: . denunciará no texto que apresentaria ao congresso de Paris. como Wright rejeita a possibilidade de uma modernização da África em bÓino Césaire. Wright come- b. É nesse sentido que ambos os textos de Fanon. o seu des. sempre teria tido um sentido de crítica distan.a negritude -. não são totalmente incompatíveis. apresentado ao Congresso dos Escritores e Artistas direitos de cidadão francês. considerando uma Frknça.entretanto representada pelos milação. na Martinica. para se poder identificar com as visões de Sen. Pele 34 35 . Com efeito. em claro contraste com a Mas. assim associando o peso con. com «Cultura e Colonização». Nascido. aspecto que ecoa algumas das racial eram prioritárias. baseadas. o que leva à recusa de uma superação hegeliana da negritude naria colaborador em 1947 (Fabre 1986). tribal e atrasada. São menos É também a questão do racismo e a sua relação com o colonialismo algumas das propostas . Iniciando-se r· radical que o leva a identificar-se com. recusando-se a abdicar. porém. De salientar. Enquanto negro. ao mesmo tempo que. Beauvoir e Camus. Note-se que. centrado num individualismo i! única forma de conquistar a autonomia para o continente. ao mesmo tempo que sugerem êiiltura». nesse epílogo dedicado ao 6olonial. surge-lhe agora como secundário. A verdade é que a nização e secularização. Padmore e a outros pan-africanistas. ciada em relação a essa tradição. em Paris. Boy (1945). Fanon reconhecera o estigma racial em colaboração com o Ocidente. Fora através de Sartre que conhece- ra Alioune Diop. Mas trata-se de uma va afiliações culturais . tamente o sugere no prefácio que antecede a obra. em que Fanon considera a sua rela- São estas também as posições defendidas no ensaio. Mesmo o racismo. que denunciara em Native San (1940) e Black pesinato.o comunismo -. Máscaras Brancas (1952). baseada no cam- ghor. de um convite· a uma leitura que coteje esta utopia com a complexidade Áimé Césaire. que não pode iludir a importância do corpo (De Lauretis mas com Sartre. Note-se que esta visão era comum a George partido para as suas viagens forçadas pelo Atlântico Negro. de que se tor. a encontrar na luta anticolonial na Argélia. como o demonstra a intervenção traditório do progresso europeu com o tradicionalismo africano que de Césaire.que corre o risco de prolongar a tutela (neo )colonial. Esta intervenção constituiu. Nkrumah. uma das tomadas de posição que mais impressionaram o pós-colonial (Gilroy 1993. ênfase se coloca agora na nação. texto escrito pouco antes da sua pensamento e empatia com todas as vítimas do Ocidente. através de uma humanidade plena. morte. Wright reclama. tomando-se aqui patente a tensão cendente cria desse modo uma afinidade entre essa exploração ocidental • entre a negritude francófona e o pan-africanismo anglófono. persiste em acreditar no sonho da modernidade.do que as hesitações patentes no que será abordada por Frantz Fanon no texto aqui incluído: «Racismo e texto que se revelam mais estimulantes. Salientando a sua consciência somo mero momento numa dialéctica. a modernização e militarização da África. não com Senghor ou Césaire. os representantes dos EUA recusariam posições de Wright. «Orfeu Negro». com quem não partilha- dela se libertar. para que esse movimento seja eficaz.

na obra de Wright. tidas as utopias nacionalistas através das elites cujo papel Fanon come- Em «Racismo e cultura». Fanon assinala a necessidade e -:. contudo. para se atingir uma nova forma de uni- -para o que se baseia também. em 1945. na medida em que permite uma aliança em termos pondido com C. çava também já a entrever. aí contactaria com George Padmore. R. se deixou influenciar o nacionalismo não colide com o pau-africanismo. Fanon assi. sobretudo. trata-se antes de um pelo garveyismo e o pan-africanismo de um Du Bois. assim. dução à Antologia de Poesia Negra e Malgaxe organizada por Léopold Historiando o percurso que vai do racismo biologicamente funda. cke 1994). como Césaire também com as práticas contemporâneas. antes pode estimular. no seu prefácio à antologia de mas não menos presentes em situações de desigualdade estrutural. Sartre evidenciara a descoberta da negritude. mente antagónica à pós-colonial que enfatiza as interdependências e cas presentes em Pele Negra. as tradições não podem ser recupe.-. quem organizaria. L. ao mesmo tempo que reconhecia as afini- igualitários. por questionar 37 36 . Fanon recusa o racismo como algo de inato à <<natureza humana». James. Ao associar as relações entre raça partido para Londres. culturais. no seu prefácio a Os Condenados da Terra de Fanon. Por outro lado. tendo-se corres- estádio necessário.° Congresso Pan- nala um elemento que permanece de uma contemporaneidade tanto mais -Africano. presidido pelo autor de The Souls of Black Folks. no mesmo ano. Tendo em mente como a dominação colonial leva ao estio lamento das culturas oprimidas o. onde estudou. sem relação ser desligados de outras interdependências que. forma de criar desigualdades estruturais legitimadas por uma suposta diferença radical inata entre «raças» ou culturas. do mesmo modo que é a libertação que permitirá a consti. . o ensaio que constituíra a intro- ação colonial». Rela. a do. para a questionar. nomeadamente sob a forma do neocolonialismo. Nesse sentido. Sédar Senghor em 1948. Tais processos. o 5. Çímos na Lisboa dos anos 50. também naqueles Negra e Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra dialogam também nascidos dos processos de libertação. do que na luta pela libertação que permitirá uma renovação da Nkrumah (1909-1972) é um dos primeiros a cunhar na década cultura ao serviço dessa causa. Sartre assinala a relevância das posições eminente- que surgem «mumificadas». não podem os riscos de um regresso às tradições fragmentadas. dades entre a exploração dos negros americanos e dos africanos. outro texto fundamental para os jovens africa- mentado a outras formas de culturalismo diferencialista. conceito que ça racial. também em Os Condenados da Terra. Más.e não causa. mente anticoloniais de Fanon. fundadas numa relação de desigualdade estrutural. como tem vindo a escrever-se recentemente (Stol. nomeadamente permitirá um intercâmbio efectivo entre nações libertadas. que virá a retomar processos de contaminação cultural.público europeu. isto é. menos na defesa da diferen. o assinala. anti-racismo racista. 6 1 Sartre distanciara-se de «Orfeu negro». sublinhando que ele é consequência.da «situ. Serighor. até os Estados Unidos (1935-1945). negação ao estabelecer paralelismos entre a situação europeia e a norte-americana necessária.aqui trata-se. actualmente designados de hibridização. mas tão só os colonizados. Fica. mas não suficiente . Enquanto.mediação hegeliana. com e cultura. numa perspectiva clara- a defesa da diferença. enquanto forma de exotismo. Tendo tuição de um universalismo efectivo. . Fanon sublinha a nos reunidos em tomo da Casa do Império e do Centro de Estudos Afri- forma como a discriminação racial assume formas mais ou menos veladas. Por sua vez.a nação permite transcender o racismo. Recuperando críti. a cultura nacional constitui o garante dessa luta anti-racista. podem questionar a criatividade efectiva das práticas trans- A alternativa ao racismo reside. Tendo perturbadora na «Europa do apartheid>> (Balibar 2004) apenas preten- desempenhado um papel crucial no processo de independência do Gana samente liberta de preconceitos coloniais. necessária. ···. os europeus.o texto enfatiza igualmente a forma lência como única arma para derrotar o colonialismo. de 60. versalidade. do direito à vio- caras Brancas.proletariado. Máscaras Brancas.---•. Assim. depois de desmen- com a herança da negritude. em Manchester. conferindo-lhe nova vida. pois só ela A sua biografia é também atravessada por viagens. como já o fizera em Pela Negra. na medida em que este não considera radas pelo colonialismo cujo racismo não impede. da «raça» como cionando os efeitos do racismo a nível transcontinental. nomeadamente arma.

apresenta. compondo assim uma imagem multifacetada prática da luta armada. do das tutelas. resultado de uma homenagem póstuma a Eduardo .àfastamento das necessidades populares. con- 38 39 . que Cabral (2008) vê como um exemplo clás. ' decorrente destruição das culturas locais. Africana e pela organização do segundo Congresso Pan-Africano texto. cuja tradução foi feita nos anos 70 :ibA 1'exto apresenta ainda uma breve.Cabral Moçambique. Se em «A dominação colonial portuguesa» (Cabral ter aparentemente mais tolerante e mestiço do colonialismo português. Mas menciona também 0 modo como estes Ou seja. Salientando o papel complexo de mestiços e assi- análise proposta por Balandier . bem como 0 seu conse- um processo multiforme e complexo. .0 um elitismo estéril. desde o início do tonca dos diversos modelos coloniais. enquanto e a sua interacção. autores com que se encerra esta antologia. extraído do livro Lutar por . pela formação pelo seu estatuto subalterno. O segundo texto aqui publicado. na Roménia. dificuldades e possibilidades da construção de uma nova nação. (1956). esta questão é agora retomada tó?cos. por outro.práticas divisionistas da administração colonial. sem a qual as vanguardas políticas se verão des- viragem. de 1969. Portugal assumia um papeltanto mais agressivo. em 1972. onde este leccionara. ameaçada. quanto determinado Mm oowuv o papel de alguns periódicos locais. revela as sentado à UNESCO em 1972 (Cabrall978a). reforçando Cabral oferece no texto aqui apresentado uma reflexão mais aprofundada sobre o tema da cultura. correndo o risco de se tomarem vítimas de desmistificar. viria a morrer no exílio. · 11acional e cultura». passando..considera ambas as partes envolvidas milados.em sintonia com Pinto de Andrade (1955. escrita num momento em que c•s!íCu:lo :xx. pelos limites de uma independência que não considere os riscos ·Estes temas reaparecem com um enfoque mais desenvolvido. por um lado. desde documentos his. mostrando como a hibridização pode socioeconómica que também determinam as transformações culturais. O'redes de contactos que depois prosseguiriam em tomo das lutas pela como Nkrumah sugere no texto sobre o neocolonialismo que aqui se :inôependência travadas pelos movimentos nacionalistas. O pau-africanismo surge aqui ·dk Casa do Império e a criação do Centro de Estudos Africanos como como o modelo necessário a uma libertação nacional efectiva. propõe no As relações entre cultura e racismo. à semelhança do texto de Nkrumah }ituídas de influência efectiva. numa abordagem que . são questões que Amílcar .de que viria a ser e de um projecto de UniãoAfri. o que justifica a denúncia veemente. assinalando-se o papel das diferentes composições dos processos de colonização. Eduardo Mondlane. quando ela não é total. publicado postumamente. o texto tem como objectivo. dos processos discriminadores e segregacionistas do colonialismo em Lisboa. resenha dos ante- português. no . Reconhecendo as afinidades e diferenças com o líder da FRELIMO. limitadora. nos EUA. ser dolorosa. inclui num dos seus primeiros capítulos uma síntese his. «Resistência_ À pro. dos movimentos anticoloniais. 1978). a cultura não é sinónimo apenas de tradição. a textos no texto «Libertação nacional e cultura». apre- de um movimento nacional». texto posterior «0 papel da cultura na luta pela independência». marca. mais as questões de ordem social que racial. e cultura. A Africa Tem de se Unir (1963). extraído do mesmo volume. Menciona ainda os encontros dos frequentadores português face à retórica lusotropicalista. . Escrito num momento histórico de '. enquanto elemento-chave para a compreensão Cisões tribais. da . Estas teses serão desenvolvidas e retomadas no dessa realidade.direito à autodeterminação. '}!borda. questão também central para Eduardo de vista teórico. de libertação nacional. inspirada na cn!Jcos do colonialismo. o que corresponde a cana ainda por cumprir. · na Universidade de Syracuse. estudos feitos pela administração colonial portuguesa.à semelhança da nesse processo. nação e capitulo «A estrutura social: mitos e factos». no texto de Cabral aqui apresentado. o autor reconhece as suas possibilidades e limites. com características distintas.Nele se referem revoltas e associações críticas do colonialismo. ao mesmo tempo que dá destaque a factores de ordem população habitando entre-mundos. 1978). mas constitui antes absorveram muitas das suas teorias em viagem. de um assimilado que regressou às suas raízes culturais. mas importante. Cabral denunciara o colonialismo assimilacionista português e a para o que o autor recorre a fontes diversificadas. com outra ênfase. uma análise da estru.. «Libertação Mondlane e Amílcar Cabral. salientando a importância dos processos culturais no processo tura social do colonialismo português.

Com efeito. empenhada em demonstrar Entre as viagens do jovem W. imaginando- fundar numa identidade cultural forte. de que talvez a contingência e o acaso explicarão. a que muitos dos autores aqui representados foram papel ambivalente da pequena-burguesia. ele surge certamente representado por exílios. Pois este nunca e das propostas anticoloniais que. Tal como para Mondlane. dividida entre um modelo de levados. R. Questão que a pos-colomahdade tem de fi reequacionar. para além de tribalismos desafios da nossa contemporaneidade. Ao optar pela cultura local. como salientado por Nkrurnah. encerrando-se assim esta apresentação que se espera rá ser capaz de aliar às tradições locais processos de modernização. voluntá- dar adequada resposta. Com efeito. se há um elemento que aponta para tóricos e de dependência colonial a que apenas a luta anticolonial pode 0 esses impasses. as de Kwame Nkrumah. finalmente. A não ser que se conquista da independência. como sucede com a negritude ou o pau-africanismo. 40 41 . Universal» que geraria a Liberdade. autóctone de que se alienou. contra independências permite o cepticismo e uma leitura mais complexa e este e Fanon. Surgidas. B. E. que nela cria um complexo de inferioridade. ela pode constituir um grupo intermédio decisivo nesse processo de * * * independência e de constituição de uma identidade nacional. para Cabral é claro o j] rios ou forçados. muito menos na cir- assimilação. como um pro. como multiplicidade de histórias impossíveis de ser reunidas numa «História Cabral o sublinha (1978) na diáspora. sublinhe-se mais uma vez. A teleologia redentora da solidária entre os países africanos e para além deles. pesem embora as polí. estas não oferecem vias para a autodeterminação e a e da necessidade histórica.as frentes e c_om !m- guagens renovadas na hteratura. Mas não se esgotam os textos nos autores. criado também pela luta pela independência que deve. Stoler et al. Du Bois e as C.»:. um papel determinante a esses processos identitários que matizada das culturas dos colonialismos (Thomas 2006. Para que esta seja efectiva. num programa até certo ponto com afinida. com um papel decisivo num deter. ela tem de se pense essa história de forma alternativa (Buck-Morss 2009). face naçõ. mas antes de processos fundados em contextos his. contraria- mente ao que pretendia a ortodoxia marxista. porventura. Talvez também por isso se justifique uma perspectiva pós-colonial duas faces da mesma moeda. Cabral confere.faprocessos de neocolonialismo que prolongam à crise vada relevância de uma das anteriores. assim já conta de muitos fenómenos a que as ciências sociais têm vindo a dar crescente atenção em tempos recentes. percurso foi percorrido . atenta aos processos de transfor.com acontecimentos marcantes e traumáticos A cultura é. L. vista.es pós-coloniais e à reno- em_ divers. reafricanizando- -se. Pinto de Andrade ou Amílcar Cabral. ticas assimilacionistas ou segregacionistas que revelam ser. muitas delas nova- cesso dinâmico. a experiência dos acontecimentos que sucederam às des com as teses de Wright e Fanon. um longo dente de relações de propriedade. transcendendo noções nação e da liberdade mostra agora os seus limites. nalguns casos. melhor a tais. contudo. porventura. para nao falar anos 1980 e 1990. na atenção às histórias silenciadas pelos poderes coloniais. sob pena de se limitar a um culturalismo inócuo ou de sucumbir ciadas. que não impediram o renovar das esperanças utópicas.!l da teoria pós-colonial. mais ambivalente. ido para além do modelo que o Ocidente lhes impôs (Mbembe 201 0). segundo uma dialéctica da violência minado momento. James e o carácter contra-revolucionário de uma classe excessivamente depen. Contudo. 2007) possibilitam e fundam a resistência ao domínio colonial. assim. menos crente nas narrativas do progresso. instalando-se a noção meramente culturalistas ou afinidades ideológicas «raciais» ou continen. a condição da libertação e de uma união as do Terceiro Mundo e da sua emancipação. incluindo A cultura nacional é. e uma cultura cunstâncias e contingências das suas biografias. formas menos impostas do que nego- mação. Mas não se trata de uma mutabilidade flutuante. herdada de hegelianismo. artes visuais e musiCa. dando-se •. ao sabor das opções de consumo do indivíduo pós-moderno. como viria a suceder em algumas teorias em voga nos i\ l soante os usos que os diferentes grupos sociais dela fazem. Estes possa servir de ponto de partida para a sua leitura renovada à luz dos deverão poder contribuir para a união nacional. -se novas formas de universalismo. divisores e obscurantistas. mente traídas -. não terão conseguiu destruir por completo a cultura local.

nas interdependências e contaminações contribuindo assim para uma deslocalização da Europa. mais criativo . que os lerem. Essas interdependências também assumem novas configurações. também estes contextos da suare-apresentação se trans- lógico. Scott 2007).uma reactualização crítica e novas afiliações. mas não menos pre- que possa ficar em aberto? sentes. Pinto de Andrade). não se pretende fixar. mundo. exílio voluntário. E competirá a estas menos proferir um julga- 1992). desde a melancolia pós-colonial (Gilroy 2004) a novas experiências identitá- rias e alianças inesperadas. Scott 2004) o passado que assim deixa de afectar os que com ele lidam (Kracauer para as novas gerações. Lisboa. em qualquer dos casos çada segundo a qual não existe uma narrativa e um sentido único para -nas suas promessas por cumprir ou a rejeitar. morrendo em África (Du Bois). compi. mento. Finalmente. a ênfase nas viagens das teorias. que vão da militancia política. aqui compilados. assim garantindo uma iluminação do nosso presente e um futuro mente tecidas por impérios cada vez mais passados. pletude . na nossa contemporaneidade. que não podem ser redu. formarão rapidamente em futuros passados (Koselleck 1988. capazes de conferir a estes textos. dificilmente poderá constituir o modelo através do qual con. Talvez estes dados bio. como o por Fanon. com recurso a experiências mais ou em França (Senghor). As interdependências criadas pelas longas relações coloniais não se esgotam nos processos de migração e hibridização que alguma teoria pós-colonial escolheu como tema de eleição. acabam por ser mais uma vez os «condenados da terra». Daí global e de novos parceiros naquilo que constituiu o Terceiro Mundo.as malhas inevitavel- sado. em suma na sua incom- os sonhos fundados em expectativas forçosamente diferentes das nossas. do entre os diferentes autores aqui representados. pós-coloniais nossos contemporâneos. por motivos muito distintos. . também nas nações nasci- das da independência do colonialismo. com esta antologia. Essas cum- plicidades são atravessadas por afectos e memórias contraditórias. j.' Trabalho de memória ou de (re)descoberta. consoante as gerações gráficos circunstanciais ajudem também a confirmar a posição aqui esbo. longe de concluída. Basta com as atitudes defensivas próprias de momentos de viragem. radicalizado Por outro lado. O mundo dividido entre colonizadores e colonizados. j! ela prossiga. escavando repetidamente nos fragmentos do pas. mais crítico . 42 43 . uma nota para quem lê estes textos na Europa. estes textos anticoloniais aguardam. EUA !' menos distintas. e que.menos nostálgico. qual fotografia. em lugares diferentes. do Ocidente. a leitura destes textos. 2009. em que a pureza da nação .é reiteradamente questionado. o fim da história está longe de cumprido. à contingência mais absoluta. em algUmas nações «pós-coloniais» . olhar para os lugares de nascimento e morte da maior parte dos autores aqui N E assim termina esta viagem. novos significados e novas questões. o emergir de uma crise textualizamos.esse mito nas- cido na Europa e perpetuado. ao de eles terem sido escritos. no Reino Unido (James. Com uma certeza apenas: a de que. do que ensaiar uma leitura que permita desfazer e refazer de modo gia (Benjamin 1992). meio século depois (Fanon). demonstram os acontecimentos mais recentes. nos contextos segundo as experiências que o tempo foi sedimentando (Koselleck 1988. em que os mais fracos. nomeadamente aqueles que se prendem zidos a uma mera oposição Europa! Ocidente e os seus «Outros». criando novos desafios. esperando-se que representados: nascidos nas Américas. tal como sucedeu com os textos O que equivale a dizer que não se trata de trabalho meramente arqueo. Porque não pensar antes a memória como trabalho de arqueolo.Nova Iorque 20 II lados na Europa.

) Quase todos os regimes imperiais tentaram apresentar as suas acti- vidades em termos morais favoráveis para consumo da opinião pública. Atribuem várias virtudes à sua forma particular de colonialismo. pp. Jorge Dias (etnógrafo português) O nosso povo sofreu muito. cita declarações e orientações da coroa que remontam aos séculos XVI e xvn.. sendo baptizados Cristãos e não tendo nenhum outro impedimento legal. por meio de uma lei datada de 2 de Abril de 1761. os Portugueses não precisam de se afir- mar pela negação( .F. Este é o segredo da harmonia existente em todos os territórios ocupados por Portugal. Para provar isto. O meu tio foi assassinado. Portugal alega particu- larmente que os seus métodos não têm qualquer vestígio de racismo. para o diferenciar das práticas nefastas dos seus rivais. fomos explo- rados.mitos e factos I Creio que o grande sucesso das relações entre os Portugueses e as populações de outros continentes é a consequência duma forma sui gene- ris de etnocentrismo. 39-53. Maputo: Centro de Estudos Africanos. ) afirmam-se através do amor. Por exemplo. a ordem régia de 1763 dizia: «Que foi meu prazer. Os meus pais. res- taurar as piedosas leis e costumes dignos de louvor que foram estabele- cidos naquele Estado através do qual todos os meus vassalos ali nascidos.. C) Versão extraída de Lutar por Moçambique. Teresinha Mbale (camponesa moçambicana) (E. eu própria. De facto. 309 . 1995. EDUARDO MONDLANE (I) A estrutura social.

sem distinção de cor ou credo. . sm o a nação. t te' urna simpatia profunda pelo Negro. Jd d so' podia ser colocada no caso dos Gilberto Freyre.. mesmo a nível teórico. r qualquer tipo e 1gu . mo todas as crianças . menos a dum povo cujas oportunidade de absorver a por nascimento. gem dos Portugueses como não-racistas e rrcegos à cor». ». o então primeiro-ministro de Portugal.. obrigar e. por assim dizer. e que . e sincera Não o considero d mães . qual- actividades se centram na sua raça e num sistema cultural deliberada. que e Eduardo da Costa de vista sobre a questão Recentemente. nadas de desprezo ou P estava especialmente preparado pela sua tradição Católica Romana. . as por Bnes e seus contempo- . . aldade ao tomarem-se de . Wilberforce nao transm!g . aos povos conquistados. oberano de populaçoes sem1 • zar. ortuguesa! E que. d Império Português tem a nos trópicos deve-se em larga medida ao facto de que ( .. declarava: «Estes contactos (nos territórios ultramarinos) nunca Estado. . . ·aade natural»('). o pape. me perdoem to as as da necessidade de expansão da t ·nado por causa tar que. preeminências. uma complexa teoria sobre o luso-tropicalismo para justificar esta «carac. rãneos. esta cnança gran e. m b d.em ora oc11 . religiões e grupos linguísticos. Enes admltm aberta · corpo mas não creio que tenba . !mente supenores pacificamente com gentes de diversas origens étnicas e religiosas. bém um feroz de.I.isto é. ... d . Na década de 1890. Esta. A teona e que . ç . fizer. . . «nativos» que se h avJam fr. Portugueses sao natura . . .. o crescente interesse pelos assuntos africanos tem gualdade e racismo con mente· «É verdade que a alma generosa de levado vários africanistas. Portugal tem sido alvo de fortes críticas internacionais devido à em m!m sangue . o povo de origem lusitana (portuguesa) Em todo o lado as re. Há alguns raça branca. no contexto da sua própna c . indícios das atltu es a e .do que Cristocêntrica. será então aceite como tgua aos p mente étnico. se basem a reJVlll «assimJlaçao» em que . bém como deposltano a África estes igno- . . o António Bnes. 311 310 . para lidar simplicidade natura1 0 pov .enOil suas colónias não têm qualquer necessidade de independência. Dr. como cidadãos iguais de um Portugal maior. da Oceânia a trabalhar . estes so podem rec1ama 1 dos conquistadores é descnto nia racial e a construir um vasto império abrangendo povos de várias facto «portugueses». d elos próprios portugueses como atacar tanto por palavras como por acções . mais Cristão do que europeu». te>> A ilusão é de que os d 0 deste con men · pelo seu longo contacto com povos de várias culturas e raças.t'r · e do trabalho forçado: «0 do governo au on a 10 anos. se necessano. d b rtamente express . cores. No entanto.é a primazia que sempre Mesmo as declaraçoes cita as p . em ora a t . se asstm o são nos trópicos tem sido menos etnocêntrica. . va. e sociedade estao 1mpreg t. prerrogativas e privi- légios que os nacionais deste reino». . firmes neste ponto como o implica a linha oficial. Mouzinbo de Albuquer- administradores coloma!S com em esconder a base de desi- devem gozar das mesmas honras. . de negreiro. António de Oliveira Sala. -racismo. · todo o habitante o . os Portugueses não têm sido tão (') O sublinlmdo é meu (E. A sua reacção tem sido sobretudo reafirmar a ima. não deve ter escrúpulos em . _ . · rouparaomeu ' mação. . uma .ensor . . h mtárla e CIVI !Za . . Além disso. para argumen. Segundo ele. ) a sua expan. dora» Esta é a política de . Enes foi tam- b credite na m. . das com atenção. mostram .M. . . d frase «sendo baptizados Cns- d d coroa atras cJta a. colonial. ).erencJas elo menos piedade: «a _ .). ·-bárbaras mas tam- . . com a aceitação geral do princípio de autodetermi. · aos a 1canos terística distinta». ·'. · quando examma demos e continuamos a dar ao reforço do valor e da dignidade do homem prova do seu nao racismo. o bem conhecido historiador brasileiro. desenvolveu • · 1· tão da 1gua a e tãos» e crucm ' a ques d tar os hábitos portugueses. Na or em a . esses melo-se1vagens ' guesa . · esforçado por a op .apesar dos esforços concertados feitos em vários cantos para a rantes panas a sm. d Á . for ar estes rudes negros em ' Creio poder afirmar que a característica que distingue a África Portu. um povo que se considera quer que seja a sua cor ou ongem. d auton a e soem1' incluíram a mais leve ideia de superioridade ou discriminação racial ( . nao so como s .que .d d . a lações que estavam em todos os aspectos distantes de nós». . à luz da civilização que levamos às popu. d · stmt!Vamente ma co sua política colonial. predestinado a conduzir o mundo para uma harmo. os habitantes das como algo a ser ex erml . dicação portuguesa de não- ria mística sobre a essência do carácter português: «o sucesso português . como «uma tutela JUsta... Freyre transformou isto numa teo. jornalistas e humanistas a contestar esta afir.

312 313 . etc. ).. Todo aquele que não seja português desagrada- 1964. Os africanos a ela pertencentes. indústria. em relação a muita informação Brancos 67 485 básica. Por outro lado. comércio. três aspectos essenciais a serem considerados: o político-legal. Africano. política africana. século xvm: tantes. porque de acordo com a imagem não-racial. concentrada na parte urbanizada das Assim. casso.. o relacionamento político entre os Portu- (serviços públicos.. Os comentários do português João Baptista de Mon- mas sobretudo por africanos. ) que vive. mistos cionados. taury dão uma ideia clara da natureza deste relacionamento no final do dições deficientes. Apesar desta oposição. Junta de Investigações do Ultramar (71) quem chamam Muzungos. Como em qualquer sociedade existem -pecuárias dispersas pelo interior. gueses e os africanos tem como antecedente a conquista. rendimento. é. faz parte directamente da nação conquistada e colonizada.5%) composta por europeus. Como vimos.. cia e a viver unicamente do trabalho assalariado. que são escravos dos colonos ou então vassalos tributários do Estado. ) regidos. o econó- tal e emprega-se nas actividades modernas e na economia de mercado mico e o social.ências Políticas e Sociais. 21-22. ca na análise da estrutura social. em segundo lugar. a cortar os laços com pelo estudo das condições actuais em Moçambique.ainda Orientais 1956 necessário recorrer a fontes portuguesas. vilas e povoações e também nas explorações mineiras e agro. Ora. na sua monografia Promoção Social em Moçambique('). alguns académicos decididos. ções jurídicas privadas. ção especial em relação aos outros subgrupos pelo facto de a maioria mar. asiáticos. britânicos e americanos.) e fornece ao Estado a quase totalidade das receitas públi. e também por alguns africanos. o lação é composta por «três estratos sócio-económicos distintos». isto traz alguns problemas: Indianos 15 188 primeiro. a popu. tentaram controlar o Africano por meio da influência ou. particularmente no que se refere a dados populacionais.. na periferia dos centros populacionais mais impor. quer ele pertença ao segundo ou ao terceiro grupo acima men- «(a) Uma minoria (2. Infelizmente. através da conquista militar que destruiu directamente a estrutura (b) Uma minoria (3 . Detém nas suas mãos o grosso do capi. dado que o governo português sempre bloqueou basicamente. Têm também uma posi- Moçambique em 6 592 994. em caso de fra- cas( .. As estatísticas oficiais de 1960-61 estimam a população total de Os brancos são o subgrupo mais numeroso. a relação entre estes dois povos deve ser considerada como bási- cidades. pode-se verificar a chamar para junto de si as respectivas famílias. transportes. as comunidades tribais e portanto a abandonar a economia de subsistên- quer descrição das actuais relações sociais em Moçambique é dificulta. num regime de economia de subsistência. em con. pelo direito consuetudinário». qual. cientistas sociais de fora. Isto revela por si só pelo trabalho assalariado de tipo migratório e por alguma agricultura de como as autoridades devem estar conscientes de que a realidade não cor. Segundo a Junta de Investigações do Ultra. agricultura de ren. com tendência para se aglomerar. da à partida pela falta de estudos de campo globalizantes feitos por (c) Uma grande maioria (94%) de africanos rurais( . Mistos 29 507 sos. São os vizinhos das regedorias ( . as Assimilados (Africanos) 4555 autoridades evitam divulgar os dados por grupos étnicos e raciais. têm conseguido Algumas estatísticas de 1950 apresentam o primeiro grupo dividido ultrapassar a barreira levantada pelo governo português e recolher de nos seguintes subgrupos: uma maneira ou outra informação suficiente para completar as observa- ções e experiências pessoais. Se a prática tem ou não algo a ver com a teoria. Os Portugueses dimento. Contudo. tendem «Em geral os Cafres de Sena.5%) constituída por elementos de diversas raças. pertencer directamente à nação e classe dominantes. complementado as tentativas de realização de investigações in loco. nas suas rela- responde à imagem favorável por elas apresentada. pp. a C) Estudos de c. são dóceis e amigos dos Portugueses. embora de origem rural. porque os métodos de recenseamento são muito pouco preci.

Contudo. executava e Portugal começou a sentir a necessidade de defender a sua posição de simplesmente as instruções dos administradores. ao passo que todos os africanos que não correspondessem a esta 1961. ação pelos portugueses do que da estrutura tribal original. dirigidos por Adriano Moreira. de Moçambique. que começou todos os privilégios que acompanhavam a cidadania portuguesa. foi transfor- dois tipos de população. ocorreram mudanças substanciais importante deste governo do final do século xrx foi a nítida separação em todo o mundo. que lhe impunha obrigações de trabalho. em 1951. a 6 de anos 30 e 40. E para desejar que esta convicção dania. a surgir a base legal em que se apoia este relacionamento. em «províncias ultramarinas». ). definiu o africano civilizado como aquele que sabia falar português. e até os cinemas para indígenas passavam fil- Foi apenas no final do século xrx. que formavam Nova Lei Orgânica do Ultramar. por concelhos. e em indígenas. Este desagrado provém de um medo supersticioso que os Por. cujo poder provinha em geral mais da nome. constituiu mais um impulso para esta mudança e permitiu a um descrição ficariam sob a autoridade dos administradores. Começou por negociar a entrada nos Nações Unidas. e houve um movimento geral para uma maior freguesias. dade). as áreas africanas ou circunscrições eram administradas pelos democracia em várias partes do mundo. quando Portugal completou a con. e todos os habitantes natrvos lação anterior. quando. aumen- do sistema do assimilado. O Estado Novo de Salazar.. Esta era a base grupo de «liberais» do governo. Goa chamaram a atenção para a situação dos seus territórios coloniais. para o conseguir teve que tomar algumas medidas para modernizar a lo xx tiveram como objectivo definir a base legal para esta distinção entre estrutura das suas colónias. O regime do indigenato foi implantado em todos os ter. A agitação em Angola. As áreas europeias eram administradas segundo o modelo ceito de autodeterminação foi sendo gradualmente aceite pela maioria metropolitano. A sua primeira acção. o Estatuto dos Indígenas foi abolido. de dois códigos administrativos. O indígena não tinha cida- que eles implicitamente acreditam( . tas áreas das cidades depois do escurecer e restringia-o a alguns poucos lugares de divertimento. nos quais o chefe. não lhe permitia acesso a cer- tes e submissos aos seus senhores e a todos os Muzungos em geral». e outras histórias absurdas em como pertencendo a uma terceira categoria). Angola e Guiné foram declarados cidadãos portugue- ritórios africanos. embora na prática estes fossem muitas vezes considerados brancos não portugueses) comem os negros. pre capazes de os dominar e de vivermos descansados. Daí resultaram assimilados. manteve esta política. quer um que tivesse plena cidadania portuguesa. Portugal permaneceu incólume chefes de posto e administradores. quista e implantou um sistema de administração colonial. bro. e estava sujeito a todos os regulamentos do regime do indigenato. nos A questão da cidadania foi resolvida em 1961. O aspecto mais Após a Segunda Guerra Mundial. a estas tendências até que as reivindicações do governo indiano sobre faturas. aperfeiçoando e clarificando a legis. no qual a população africana era dividida em tar a sua influência dentro do aparelho governamental.. O não indígena tinha. teoricamente. incluindo os assimila- tugueses espalharam entre eles.. que se transformou em levantamento armado em tuguês. como tem sido característica do regrme distintas. de que todos os Mafutos (estrangeiros dos africanos. uma pequena minoria que tinha supostamente adoptado um uma série de reformas que culminaram em 1963 com a publicação da modo de vida essencialmente português. -lhes( . O Código de Assistência ao Nativo de 1921 mar as colónias. luções das Nações Unidas relativas aos territórios não autogovemados. de um dia para o outro. mas As principais medidas legislativas levadas a cabo no início do sécu. que tomando-as parte integrante de Portugal e esperando assim fugir às reso- estava desligado de todos os costumes tribais e que tinha emprego regu. sendo a área do conselho subdividida em das potências coloniais. o con- europeus. colonizador. A população africana ficou dividida em duas categorias ses de pleno direito. lar e remunerado. pois que deste modo seremos sem. São muito obedien. indígenas (africanos não-assimilados) e não indígenas (qual. a política governamental no papel pouco tem a ver com a sua 314 315 . de Salazar. ).. mes cuidadosamente censurados. um para os africanos e outro para os As organizações internacionais tomaram-se mais influentes. era obrigado a trazer uma Caderneta indígena (cartão de identi- perdure nos espíritos dos ditos Cafres. a vasta maioria do população africana. Este seria considerado como verdadeiro cidadão por. e subdivididas em regedorias ou che.

deslocações de mão-de- riamente. abrangidas. que não faz sideravelmente mais baixo. na prática. geral. autorizou diz que 0 Ministro do Ultramar <<nomeia. O Artigo VIII diz que o sistema e a liberdade de acção dos governos classes de «cidadãos» e as informações contidas no Cartão de Identida- ultramarinos são determinados pela Assembleia Nacional. mas que pode ser criada uma freguesia para um grupo de não assimilado está sujeito a severas restrições legais em relação às suas brancos vivendo numa região predominantemente africana. Há. não é de surpreender que isto tivesse contribu- governadas por funcionários portugueses segundo o antigo sistema de ído para a contínua inferioridade da sua situação económica. O Africano governação. -obra. actividades económicas: não pode tomar parte em nenhuma actividade Os números relativos às eleições de 1964 em Moçambique indicam comercial e não tem oportunidades educacionais que lhe permitam exer- um preconceito racista forte. em que os funcionários locais são eleitos rinas se os julgar ilegais ou contrários ao interesse nacional». a lei não dá na realidade muitas garantias para uma autonomia Assim.. O Artigo IX de ajudam a polícia a aplicar as leis anteriores que restringiam as acti- diz que 0 Governador-Geral de cada província é nomeado pelo Governo vidades e a mobilidade do indígena. segundo o Artigo LX. Em alguns distritos houve uma correlação bastante estreita entre a população «não indígena» e o direito a voto: 317 316 . fica claro que nem toda a gente deste grupo -se em factores estritamente raciais. demite.. promove. embora em muitos casos ele fosse con- indígena. mesmo para as poucas pessoas por ela os aspectos idêntico ao dos cidadãos portugueses vivendo na metrópole. constituídos por postos eles não ganhariam com isso qualquer poder político com significado. A reforma perdeu qual. toma-se fácil para as autoridades diferenciar as duas local.. De uma população total de 6 592 994. isto significa que todas as áreas habitadas por africanos são qualquer poder político. A Secção II do Artigo XLV determina: «Transito. transfere. nas regiões onde o desenvolvimento económico e social jul. como o mostram as seguintes esta- votou e que portanto praticamente nenhum africano «indígena» adquiriu tísticas recentes: o direito de voto. mesmo se gado necessário ainda não tenha sido atingido. )todo o pessoal do quadro geral das províncias ultramarinas». as municipalidades podem no futuro um número significativo de africanos tivesse o direito de voto. O Artigo X diz que o Ministro do Ultramar em Lisboa pode A nova Lei Orgãnica do Ultramar. ) os diplomas legislativos das províncias ultrama- tou a representatividade nas províncias ultramarinas: permitiu uma exten- são do sistema municipal. Não há dúvida que. a política económica população africana. excepto onde seja possível a criação de freguesias». uma cláusula que impede que isto se aplique à mais importante que todos. houve cer uma profissão. é definida pelo Governo Central. POPULAÇÃO LOCAL NÃO-INDÍGENAS quer significado pela emissão de dois tipos diferentes de cartão de iden. ser substituídas pelos distritos administrativos. administrativos. Talvez Lisboa. uma vez mais teoricamente. 7 794 662 31 205 31 054 Manica e Sofala tidade: um para os «cidadãos» que haviam sido anteriormente indígenas Cabo Delgado 546 648 3894 3890 e outro para aqueles que já eram considerados cidadãos antes de 1961. Central. Assim.. ELEITORES aplicação na prática: este caso não foi excepção. Sendo o total da população assimilada através da agricultura ou do trabalho assalariado. aumen- «cancelar ou abolir ( . contudo. a única forma que ele tem de ganhar a vida é apenas 93 079 eleitores inscritos. E os salários baseiam- e não-africana de 163149. O Artigo XI apenas pelos poucos habitantes da área com direito de voto. qualquer referência a província ou lugar de residência e que é em todos Deve-se acrescentar que. também a participação nas eleições para a Assembleia Legislativa em ( . o antigo cidadão possui um Bilhete de Identidade. incluindo as questões de povoamento. Na Estando 0 Africano de facto desprovido de cidadania e destituído de prática. 276 795 1490 1489 Niassa O antigo indígena possui um Cartão de Identidade no qual está escrito claramente «Província de Moçambique» e que especifica no seu interior Em nenhum distrito o número de eleitores foi maior do que o núme- o lugar de nascimento e residência em termos de área administrativa ro da população «não indígena».

e muitos carro. com con- SALÁRIOS NA INDÚSTRIA dições duras e muitas vezes humilhantes. (5) Revue Juridique et Politique: Indépendance et Cooperation. Tive que ir trabalhar e empreguei- 70$00 máximo Africanos -me como criada em casa do administrador. ). e no fim do mês não sentamos em seguida dois pequenos relatos de moçambicanos africanos recebia o salárim>. mas acrescentava . Philippe Comte comenta em 1964: «0 princípio da discri- motoristas brancos ganhavam pelo menos 3000 escudos ($1 00. ( 4 ) Isto é.F. SALÁRIOS NA AGRICULTURA Joaquim Maquival (Província da Zambézia): «o meu pai ganhava. A própria lei permite esta situação de extrema desigualdade. mas era muito dificil comprar carne. ). e ao fim de Mestiços um ano não tínhamos ainda dinheiro para comprar uma bicicleta>>.os 2-4 Abnl/1 Junho 1964. 318 319 . mas os salários eram baixos. etc. e o mos um pouco de milho. forma de decreto em 6 de Setembro de 1928 e incorporado no Acto Colo- lhando todos os dias e muitas vezes também à noite..17 cêntimos) traba. No fim do mês podiam comprar um carro Brancos 47723$00 novo e). por vezes um pouco de arroz.. um para os nativos. enquanto que os nial de 1930. enquanto que nós não podíamos nem comprar chá.) 23269$10 Africanos assimilados 5478$00 Africanos não assimilados Para a maioria dos africanos a única alternativa ao trabalho manual 1464$00 pesado era o trabalho doméstico. Isso já ação de uma minoria favorecida: estava implícito na legislação anterior que possibilitava uma transição suave da escravatura para o trabalho forçado. Os meus patrões batiam-me e insultavam-me.. e Raça ainda ganha. partisse um copo. (E. (E. muitas vezes durante a noite também.sabe conduzir viaturas. arroz. apre. 0 do Código teoricamente proibia a prática do trabalho for- tava pelo menos 15 escudos>>. Os assalariados Salário anual em escudos portugueses ganhavam bem. Pagavam-me 50 escudos por Semiqualificados 30$00 máximo mês ($1.) sobre a sua própria experiência. de regulamentos laborais. mas foi apenas com a Natacha Deolinda (Província de Manica e Sofala): «o meu pai con. açúcar. outro para os restantes. O primeiro refere-se a um africano com alguma qualificação.F. O «Código de Trabalho dos Indígenas» foi publicado em companhia( . batiam-me e gritavam comigo. Isto é bem possível: o trabalhador por- balho nas plantações de chá da Sociedade de Chá Oriental de Milange: tuguês não qualificado ganha mais nas colónias do que cm Porhtgal. (E. Uma outra moçambicana rela- ta as suas experiências: Raça Formação Salário diário cm escudos Brancos Nenhuma Teresinha Mbale (Província de Cabo Delgado): «Nunca pude ir à I 00$00 mínimo Mestiços Nenhuma escola porque não tínhamos dinheiro.F. n.17 cênti.e retrata portanto a situ. um pouco de farinha. Se eu Para dar uma ideia do que isto significa em termos práticos. ).«sem impedir os nativos de cumprir o dever O segundo relato é de um trabalhador comum e descreve o seu tra. O Artigo 3. um pequeno pedaço de carne cus.. Ganhava 300 escudos por mês ($10. implantação do Estado fascista em Portugal que o sistema foi melhor duzia um camião que transportava milho. Tinha de começar de manhã muito cedo e traba- Africanos Não qualificados 5$00 máximo lhava até o pôr-do-sol.75 cêntimos)...30 cêntimos)( . para uma racionalizado. poderia pagar a primeira prestação. !50 escudos por mês ($5. primeiro impunha condições extremamente duras para o trabalhador»('). Não tinha direito a refeições. minação estava contido no próprio título da lei de 1928: havia dois tipos mos) pelo mesmo trabalho( ..) çado. A vida era dificil em nossa casa: comía.

nas plantações da Sena Sugar.. 320 321 . que: <<0 soa em questão era condenada ao trabalho correccional até conseguir a Estado não pode forçar os nativos ao trabalho. parecem contradizer esta conclusão: em Moçambique a (")Boletim Oficial do O!T. 386. de Trabalho Rural para as Províncias Africanas e Timor» (Decreto-Lei dade com as exigências destas convenções. o permite-o em casos de pelas autoridades nativas ou administrativas» (8). embora na aparência ela fosse elimina- do Norte de Moçambique.. desapareceu o trabalho forçado em Moçambique. o único processo era a prestação de trabalho O princípio do trabalho forçado está contido até na Constituição até conseguir a quantia necessária ( . chefe de posto(").. um grupo de trabalhadores entrevistados disse que <<não estavam satis- balhoforçado: o Artigo 294. 387. a lei prevê todas as condições para um sistema de tra. proíbe mais urna vez o trabalho forçado e ponto final a isto ao forçar os portugueses a retirarem-se. Com efeito . ou «por outras razões».» somente visitado as áreas mais prósperas em redor de Lourenço Mar- O próprio Código de 1928. urna frase que tira todo o significado pressões financeiras. significa <<não qualificado». Quanto à questão das urgência. importância devida»('). O princípio da discriminação já não algumas cláusulas que davam aos administradores amplos poderes de consta no título. operários papel. servirem .0 . moral de se assegurarem de meios de subsistência pelo seu trabalho e. p. 8 ( ) Jbid.. n. 0 permite 0 uso da Indígenas disse que <<Os nativos tinham que pagar os impostos e. Corno parte dos esforços para fugir ao isolamento governo presente. determina que não poderão mais ser aplicadas sanções penais para obri- Em 1961 uma comissão da OIT veio investigar denúncias de trabalho gar ao cumprimento de contratos ou ao pagamento do imposto de capi- nas colónias portuguesas e informou não ter encontrado provas tação. se não força no recrutamento de mão-de-obra tinham posses para o fazer. para proJectos urgentes. Nas áreas minação mantém-se na prática. praticavam-se em larga escala vários tipos de da. contudo. o receio da PIDE (polícia política portuguesa) teria internacional. p. Portugal assinou a Convenção Internacional do Trabalho mesmo assim tido uma influência invisível em todas as discussões. p. mantendo a tradição. Beira e Quelirnane. O termo <<rural» no código foi retirada a base legal para as culturas obrigatórias. para cumprir sentenças de carácter penal e de a comissão ter permanecido apenas seis dias em Moçambique e ter para executar obrigações fiscais. os interesses gerais da humanidade».310. sido mandado contra a sua vontade('). excepto em obras públi. 0 44. um dos homens entrevistados tinha deste modo. visto que suficientes de transgressão directa do governo em relação à Convenção continuam as sanções civis e o pagamento de compensações. a pes- portuguesa. nos outros art1gos. Deste modo. embora a comissão tivesse em reformas precipitadas pelas pressões internacionais do pós-guerra e pela alguns casos entrevistado trabalhadores sem nenhum funcionário do msurre1ção angolana. e a Convenção da Abolição do Trabalho Forçado em 1959. foi abolido no decurso das ques. altura em que a guerra efectivamente pôs Código. ) que eles tinham sido intimados a trabalhar cwnaJs. houve urna longa se reduza a simples prestação de mão-de-obra». o Artigo 296. Estas provas foram encontradas apesar do facto cas de mteresse geral ( . isto não tem qualquer significado na prática. ) Se não pagava o imposto. contudo. mas na realidade a lei aplica-se às mesmas pessoas refe- pumção. 0 do trabalho forçado até 1964. Algumas das suas observa- ções. feitos ali e que parecia ( . No entanto. de 27 de Abril de 1962). Desde então. Também em 1961 ridas na legislação anterior corno<< indígenas».. ainda hoje em vigor. 0 . corno já de fábricas. O mesmo acontece em relação ao trabalho forçado.. e o não da Abolição do Trabalho Forçado de 1959. que especifica no Artigo 146. em 1960 foram eliminadas n.trabalhadores agrícolas. o Artigo 299. O Artigo 3. 497. A partir de Em 1962 foi publicado um novo código laboral chamado <<Código então.' 2. ). e os salários mínimos foram aumentados. <<aqueles trabalhadores cujo serviço durante toda a história das condições laborais. que afirmaram terem sido mandados trabalhar contra a sua vontade (') lbid. comissão entrevistou apenas um grupo de trabalhadores das estradas (') Jbid. a discri- tradtçao de reformas no papel sem qualquer efeito na prática. Mas. o próprio Chefe do Departamento de Negócios à palavra excepcional no Artigo 294. mineiros. no cais da Beira. os seus regulamentos de trabalho tinham que estar em conformi. p. Além disso. 0 autoriza o trabalho forçado em casos excep. 451. empregados domésticos.

tendo a população branca de Moçambique necessário um século para fazer um cidadão. O aumento recente da população branca tomou mais têm meios suficientes para se auto-sustentarem.existem cinemas para brancos. no sector do contabilidade. de facto.a população africana seus compatriotas brancos. ele só o assinava. cultura e civilização. 322 323 . separado e superior à restante popu. 17 cêntimos). 5. qualidades a pessoa teria que ser consideravelmente mais «civilizada» do nentemente como ser humano de segunda classe cuja função principal que a maioria da população branca que recebe a cidadania automatica- é servir a minoria portuguesa. o português recebia 4000 escudos>>. não fica em posição de igualdade em relação aos lação: as áreas centrais das cidades são brancas . Na realidade. embora escape a algumas restrições legais surgimento de um grupo de brancos. escrever e falar português fluentemente. chamando-os para a comunidade lusíada» (1°). O decreto-lei de 29 de Dezembro de 1954 determi. Portugal tem tido bastante sucesso na promoção da emigração cano ganha o estatuto oficial de assimilado. é nitidamente inferior.) (1°) Caetano. Isto é agravado pela prática. e a prática vai ainda mais além para manter o Africano perma. Em primeiro lugar a sua situação económica vive em bairros miseráveis na periferia. no momento em que o Afri- anos 30. de 18 000 para 85 000. O Professor Caetano. era o seu adjunto afri- 2. A própria lei estabelece a desi. com pena de prisão. Mesmo que um africano faça o mesmo trabalho que um vivendi dos nativos. O próprio Salazar disse: «É para os territórios africanos. Surge desde logo uma certa desigualdade racial. ganhava treze vezes mais do que eu. na sua apologia empregos inferiores e dar preferência aos brancos. Ter uma boa conduta. enquanto que ele tinha um adjunto. Ter meios suficientes para sustentar a sua família.cumprimento disto pode ser considerado desobediência à lei e punido 3. Assim. cano que fazia todo o trabalho. o traba. e muitos não relações sociais. Quando um português veio para este sector. A tabela salarial atrás apresentada mostra que exis- restaurantes para brancos. Saber ler. a sua tarefa receberá um nome diferente de modo a preservar a sua fé. a pessoa deve satis. que por sua vez o De todo o conjunto da legislação recente se pode concluir que o enviará ao governador do distrito para aprovação. Eis um exemplo de como isto funciona: A assimilação é o reconhecimento oficial da entrada de uma pessoa para a «comunidade lusíada»: com isso ela tem acesso a todas as facilidades Raul Casal Ribeiro (Província de Tete): «Trabalhei também no arma- dos brancos e supostamente tem as mesmas oportunidades educacionais zém das minas. escreve: «Embora respeitando o modus sua qualificação. dos negros. diferença salarial. cit. Requerer a autoridade administrativa da sua área. bastante comum em países com Para responder às acusações de racismo os portugueses dão como uma barreira de cor não oficial ou semioficial. mas mesmo assim 1. 4. Para conseguir este novo estatuto. Eu estava sozinho. Daqui resultou o situação do assimilado que.. Ter a necessária educação e hábitos pessoais e sociais de modo a tor- na que «as penas de prisão impostas aos nativos podem ser substituídas nar possível a aplicação do direito público e privado em vigor em por sentenças de trabalho forçado nas obras públicas». (E. e na Beira até os autocarros são segregados. Portugal. O africano recebia 300 escudos por mês como eu. 10. de colocar os africanos em exemplo a posição do assimilado. Desde os desigualdade racial não desaparece. impostas ao indígena. ($1 O. op. lho forçado continua a vigorar sem infringir a letra da nova lei. onde ganhava 300 escudos e de progresso. Africano em Moçambique está em situação de dependência económica e política em relação ao homem branco. pois para ter estas gualdade. os portugueses sempre se esforçaram por partilhar a branco.F. entre 1932 e 1960. qualquer que seja a dos métodos coloniais portugueses. ficou a fazer as seguintes condições: ganhar quase 4000 escudos ($142) e fazia menos trabalho do que eu.» Esta atitude reflecte-se na aumentado. esta evidente ainda a existência de comunidades raciais separadas. É então normal que isto se reflicta nas mente: 40 por cento da população de Portugal é analfabeta. os hospitais têm enfermarias separadas para te uma consideravel diferença de salários entre os brancos e os assimila- os brancos. Como era de esperar.

"aqueles pretos ignorantes". Os Portugueses tem tendência para exagerar o deve falar a sua própria língua. Uma das contradições absurdas do sistema é que constituem apenas 09. assimilado. enquanto que na África apesar de não receber o mesmo tratamento que um branco. Sul. Ao mesmo tempo. há que denunciar por últi- Quando visitei Moçambique em 1961. eu era praticamente 0 único do território português desde o início da colonização portuguesa. Um assimilado conta: A existência de uma comunidade de mulatos foi uma característica <<Nos últimos anos da escola secundária. será -se com os casamentos mistos. quando de visita a este país. Se um assimilado estiver fora depois da hora do recolher. tamanho desta comunidade. que superavam esta carência tomando nada de mal nisto.). ação de desvantagem: tinha sempre que se esforçar mais do que uma e não se apercebiam de como isto era doloroso para mim como assimi- criança portuguesa. muitas vezes não pode usar as casas poderosa do nacionalismo colonial. O máximo que o sistema do assimilado pode fazer é criar alguns nica de Lourenço Marques comentava: <<Os portugueses não tratam 0 <<brancos honorários>>. o próprio reitor do Liceu mo o número reduzido de africanos que por ele são abrangidos: de uma que os professores tinham de facto tendência para dar população de mais de 6 milhões em 1950. estão em posição de igualdade em relação aos brancos é que. dão sempre notas mais baixas aos mo. diplo- africano e o português da mesma maneira. e não deve visitar as casas dos seus fami. Outro factor que reforça o mito do não-racismo português relaciona- malmente interrogado pela polícia. O próprio conceito de <<assimilação» não é tão racial e liberal como O resultado desta política é uma minoria mulata. milados. 191 O.F. quando africano que restava na turma. çambicanos» (E. Às vezes a discriminação é matas malawianos e japoneses têm um estatuto semelhante na África do bastante evidente. se não mostrar o seu cartão. Um sistema que beneficia uma minoria tão diminuta. políticos e mili- te um caso em que ele viu um professor escolar. lei. Um facto que mostra claramente a falsidade da afirmação de que os considerado praticamente irrelevante. ser espan. Uma jovem que frequentava a escola secundária téc. e um elemento importante no super-estrutura como Africano. será nor. não havia mais de 4555 assi- notas mfenores aos alunos africanos. Vaz de Sampaio e Melo escreveu: <<A miscigenação é a força mais acesso a um cinema para brancos. para ter dueito a qualquer privilégio. lado». ele se identifique completamente com os brancos. tares. Em bilhete de identidade: um afi·icano assimilado não tem. Na realidade. deve ser . exige-se do Sul 8/5 por cento da população é composta por mestiços. Sendo igual ao europeu perante a de banho para brancos. de acordo da sociedade não indígena. Em troca dos privilégios duvidosos já descritos. também. conversavam à minha frente sobre mulheres africanas como companheiras. em Moçambique. referindo-se aos não assimilados africanos. religiosos. acompanhar os aventureiros. Durante a sua educação. Muitos privilégios não podem ser obtidos nem mesmo com 0 época estes casamentos foram até encorajados como política oficial. os mulatos liares não-assimilados. sem dúvida. sendo admitido a cargos administrativos. ao constituir o instrumento mais útil e apropria- banho para europeus na estação. Um padre católico africano contou recentemen. O branco nunca é interrogado: a sua Miscigenação posição de privilegiado é assegurada pela sua aparência. Ele implica a não aceitação do Africano tário depois dos europeus. embora a sua importância seja mais qualita- com a lei ele deve viver segundo um estilo inteiramente europeu. Costumava ter notas inferiores aos rapazes as condições não permitiam. Os meus colegas brancos não viam sas. o mulato tende a adoptar exclusivamente os costumes e a língua cado por um chefe de estação branco porque tinha utilizado a casa de da nação conquistadora.5 por cento do população. o sis- 324 325 . Por exemplo. Nesta época. o assimilado encontra-se em situ. Para além de outros defeitos do sistema. nunca tiva do que quantitativa. Os portugueses afirmam que em certa preso. o maior grupo minori- os seus apologistas sugerem. do para a expansão daquelas características étnicas na sociedade nativa». por exemplo. o assimilado tem que trazer sem- pre consigo o cartão de identidade. senão a muito poucas mulheres portugue- brancos fazendo o mesmo trabalho. e isto certamente não deixa de ser racismo.

mais brilhante e eficiente que seja a sua acção no sector profissiOnal. instruídos. Não zada e educada de acordo com o sistema português. devolvida totalmente à sua mãe. Mesmo hoje aceita-se a miscigenação mas não os casamentos portuguesa em relação ao mulato tem um elemento específico de racis- mistos. sendo coloca- da assimilação dos Portugueses aos africanos do que o inverso. ração entre a casa do pai e a da mãe será desde o início ainda maior. será pelo menos poupada a esta última rejeição. ção connosco em temperamento. é de surpreender que muitas vezes os mulatos fiquem ressentidos com te a cidadania portuguesa. o que e do ainda pequena. o mulato passa por ao passo que.ou então. leva-a para a família portuguesa e espera que ela se com. é na sua maioria urbani. Os pro. cia quando o homem não tinha posses para casar com uma portuguesa económico agricola ou industrial. da em segundo lugar em todos os assuntos referentes ao bem-estar e prietários de terras na Zambézia do século xvm mais pareciam chefes educação. São principalmente os mulatos mms porte em todos os sentidos como uma criança portuguesa.ia. a superficialidade deste quadro é evidenciada claramente pela situação O ressentimento dos mulatos para com os Portugueses não se baseia da primeira geração de mulatos. Por hipóteses era amante e criada ao mesmo tempo. apesar de em muitos aspectos os mulatos serem trata- Branco e preto dos como portugueses. na pior das hipóteses. mas isto era mais em resultado claramente inferior à dos filhos do casamento português. muitas vezes na área excepcional e improvável». os cargos mais elevados. O antropólogo português Men- des Correia expõe com clareza este aspecto: «Como seres humanos. quando mais velha. A políti. uma esposa portuguesa.tema não continha grande igualdade racial: as mulheres quase nunca se depois a sua situação sofre uma grande mudança porque o seu pai arranja tomavam esposas legais. eles nunca devem.tal como os estran- ou não tinha tempo para procurar uma. Eles subdividiam-se da seguinte forma: cimentar a dominação portuguesa sobre a cultura indígena. e eram. E devido a esta política que. Os descendentes herdavam muitas da. mmto . a criança filha de pai português e mãe apenas nas circunstâncias relacionadas com a sua infânc. a criança africanos degenerados do que senhores portugueses. mas como inferior. excepto talvez em casos de completa e comprovada Identífica: criança tem que conciliar duas educações completamente opostas: quan. os mulatos têm a mulher portuguesa e o homem africano não eram aceites com a mesma à nossa simpatia e ajuda. vontade. havia apenas 25 casamentos mistos de mo que está associado à ideia de que a miscigenação é forrm de qualquer espécie. os intelectuais. Em Angola. a criança pode ser rejeita- tadas como serviçais ou escravas. tra.ca africana. Mas as razões que propusemos não perrmtem tolerância. contudo. que confirmam isto: eles estiveram. Apa. a do país. A mulher africana nunca seria a esposa legal: na melhor das que 0 papel político dos mestiços vá além dos limites da vida local. e no que diz respeito a educação e empregos os Portugueses. ou mantida na família numa posição vezes a riqueza e a posição dos seus pais. Possuem legalmen. Assim. Mulato e branco 20 devem ficar nas mãos dos portugueses. de acordo com os relatos da época. liga- Em quase todos os casos é o pai que é português.admitida por conveniên. a criança passa a primeira parte da sua vida conciliando estes factores e envolvidos na primeira agitação política anticolonial e nas pnmeuas 326 327 . tanto na infância como na vida adulta. vive quase sempre com a mãe. As relações entre dos à nossa raça pelos sagrados laços da origem. geiros naru'ralizados. Quando isto acontece.ocupar lugares de destaque nos assuntos públicos era uma prostituta ou vítima de uma violação. Muitas vezes. mas neste caso a sepa- A comunidade de mulatos de hoje. a parte africana da sua cultura. como muitas vezes acontece. sentimentos e Ideias. em 1958. Se o pai é um padre. e é educada até certo ponto como uma criança africana. Educados para considerarem a sua mãe rentemente parecem estar bem integrados na sociedade portuguesa. o seu pai manda-a para uma escola muitas experiências que naturalmente o impedem de se identificar com- portuguesa. dos empregados. na maior parte das vezes nem sequer falam a língua dela. pletamente com os Portugueses. isto não significa que lhes sejam dadas as mesmas Mulato e preto 4 oportunidades: os empregos mais importantes. Na primeira situação. sentindo-se também incapazes de se identificarem com gozam de um grau muito maior de igualdade do que o assimilado.

sem muitos contactos com os afri- Porque em mim. rem um certo nível profissional. por exemplo. Eles podem ter querido exprimir o protesto de toda a população. pequenas lojas nas cidades. manifestações de nacionalismo. escreve. uma grande fixação de europeus em Moçambique. Cedo começaram a pensar em termos de revolta nacio- Africa. Noé. uma divisão importante no seio da comunidade indiana que a separa em dois grupos com diferentes Mãe! Minha mãe África. a própria certa repressão. to. renegar hindu ou muçulmana e normalmente possuem pequenas empresas comer- o sangue negro. Portugal não conseguiu 1 (1 ) <<Sangue Negrm>. ele consegue alcançar uma posição de considerá- que aquela que normalmente separa um intelectual politicamente cons. No entan. a sua posição bastante privilegiada em relação ao africano tem pre. nalista. Por um lado. se eles protestam contra isto ou começam a interessar-se pelas questões Noémia de Sousa e nos primeiros trabalhos de Marcelino dos Santos: a políticas do país. em minha alma. alguns mulatos Eu vivo. Arquivo Histórico de Moçambique. No século XIX.cantinas no mato. Lourenço Marques. Isto pode-se verificar nalguns temas comuns da poesia de Craveirinba. é sequer uma linguagem comum. judicado a sua actividade política. são-lhes fechadas as portas da promoção. Em são ele é mais forte que tudo! muito semelhantes aos grupos de asiáticos espalhados por toda a Africa Oriental e estão igualmente à margem da vida política do país. Muitas vezes não têm moçambicanos são mulatos. canos. A antiga população árabe Como eu andava há tanto desterrada da costa integrou-se em larga medida com os africanos locais. e a vida artística do país.. e uma certa fusão poética entre as duas ideias. ao atingi- emocionalmente às suas origens africanas. NÃO POSSO.e constituem uma que me legastes . vel prestígio no meio português. europeus e até membros de outras seitas indianas. e. e aqueles de ti. Primeiro existem os indianos e paquis- das canções escravas ao luar. na verdade. mas alcançou bastante 328 329 . são olhados com desconfiança e ficam sujeitos a uma da mãe negra representando a sua própria mãe africana. MÃE!. Por isso tentam arduamente regressar dominada por homens como José Craveirinha. Por outro lado. o lado africano da sua cultura. através dele. e mais recentemente. natural! ( 11 ) Asiáticos e europeus Minha virgem violentada! Minha mãe . São na sua maior parte de religião Não posso. 125/2. características e funções sociais. juntaram-se de corpo e alma ao actual movimento nacionalista. a mãe-pátria. A outra minoria não-branca significativa é a asiática. em particular. Existe. composta prin- cipalmente por indianos e alguns paquistaneses. alheada. Muitos dos mais conhecidos intelectuais ciente do proletariado sobre o qual ele teoriza. em meus nervos. taneses do subcontinente ancestral. O outro grupo de indianos são os goeses. eu sofro... mas o seu distanciamento da população comum africana deixou- mia de Sousa. o sangue bárbaro ciais... eu rio. e até as suas ideias políticas. comunidade relativamente fechada. Negro»: Ó minha África misteriosa. mas foram Esta atitude de espírito exprime o actual dilema em que se encontra afastados dela. Isto porque existe uma divisão ainda mais profunda do 0 mulato. . distante e egocêntrica que mantiveram características distintas pertencem a um grupo perifé- por estas ruas da cidade engravidada de estrangeiros rico de comerciantes em muitos aspectos semelhante a uma parcela do Minha mãe! perdoa! comunidade indiana. num poema chamado «Sangue -os sem base para converter estas ideias em acções realistas.

ação e atitudes. num colo- efectiva em Goa do que em África. Existe ainda hoje um grande número de goeses na administração. existe vigorosamente. as A própria minoria branca é composta. de colonos permanen. por exemplo. oferecendo-lhes concessões de terra. mesmo para os de África pelo facto de. Foram assim considerados «agentes civilizadores úteis» pobre e rural. -os em competição directa com os africanos. a preferência nos empregos e o apoio especial do administradores e militares vindos de Portugal para servir o governo governo na agricultura contribuem rapidamente para alterar a sua situ- durante um determinado período. contudo. porque a situação familiar do goês é normal. à chegada. na sua maioria de origem portuguesa mas com alguns poucos gre. no entanto. embora alguns dos seus membros monopolizem cidadãos com plenos direitos legais e o direito de voto. e finalmente porque o poder da Igre. fricção inclusive entre os brancos e as autoridades. 1961. e alguns deles ameaça em potência. italianos. Para o africano não há justificação racional para a tornam-se colonos após terminarem a sua comissão de serviço. nato onde o governo tinha colocado um ou dois africanos com os bran- ja Católica na comunidade goesa é enorme. Cinquenta por cento dos emigran- do que qualquer outro território africano. como no caso dos mulatos. Isto significa que aqueles cos. grupo é bastante diferente das outras minorias brancas comuns ao resto Dado que no sistema fascista não há democracia. Mas na prática essa -brancos frequentar a escola primária. coloca- encorajar os membros do primeiro grupo. Mesmo que os portugueses recém-chegados as suas famílias. Lisboa. possuidores de passaporte português têm os mesmos direitos e oportu. Contudo. os emigrantes portugueses têm mais facilidade em se mis- pelos Portugueses. afrikaners e outras nacionalidades. danificaram a sua casa e ameaçaram a sua mulher. estejam à partida numa situação semelhante à de muitos africanos. em que deviam ser deixadas duas filas de carteiras vazias para separar mente mais estável. 330 331 . particularmente os soldados. e existe um certo número de goeses bateram num deles. quando pela primeira vez as autoridades permitiram os filhos dos não- nidades que os cidadãos portugueses europeus. de funcionários. mas as causas da fricção são ine- Portugueses mas também com a sua própria comunidade e mesmo com rentes ao próprio sistema. Estes e muitos outros casos semelhantes que eu testemunhei ou ouvi encontram-se na maior parte das vezes em contradição não só com os contar podem ser incidentes isolados. por outro lado. intelectuais que têm apoiado firmemente os movimentos nacionalistas . insistiram menos fricção. Teoricamente. A pequena coló. particularmente na medicina e dos africanos em Moçambique. porque a assimilação foi muito mais os seus filhos dos outros não brancos. Portuguese !ntegration in the Tropics. como é o grande parte deles dedicar-se a actividades de certo modo inferiores: governo que garante ao branco a sua posição privilegiada. Para eles o africano é uma a ficarem na colónia. até operários brancos. e muitos deles foram recrutados para o funcionalismo turar com os povos das colónias e não possuem um sentido inato de público. Isto não é. Isto deve-se ao baixo nível de escolarização e enorme pobreza C2) Gilberto Freyre. Os colonos portugueses são muitas vezes no direito. o facto de gos. O segundo posição superior do branco. É política do governo muitos brancos não terem educação e. devido à sua origem mente católicos. Muito recentemente. muito poucos existem artesãos brancos. Ao analisar o carácter do colonialismo português. os colonos brancos protestaram «igualdade» tem limitações semelhantes. pequenos agricultores brancos. eram predominante. por um lado. Até os camponeses pobres e analfabetos vivem muito tes. superioridade ( 12). todos os asiáticos mais racistas que o próprio governo. e uma percentagem ainda maior não tem qualquer muitos aspectos mais portugueses do que indianos: falavam o português qualificação. sucesso ao convencer os goeses a emigrarem para aqui. existente em Portugal. Muitos dos emigrantes que vêm para as colónias nia de Goa tinha estado sujeita a uma influência portuguesa muito maior são camponeses pobres em Portugal. por outro lado. Gilberto e em alguns casos só falavam esta língua em casa. por um lado. e estes emigrantes eram em tes são analfabetos. os brancos perseguiram os africanos e em pelo menos uma ocasião que reagiram contra os Portugueses. existe uma certa quase todos os empregos importantes nos negócios e nas profissões. Em Tete. em 1948. pois afirma que. No geral. vendo que o seu protesto não dava resultados. Além disso. diferenças salariais. consubstanciado pela experiência e muitos também em várias profissões. melhor em Moçambique do que em Portugal. serem pobres. Freyre considera isto uma virtude.

N al- guns casos. Ii I 332 333 . Nalgumas áreas onde se desenrolam agora os combates. Existem alguns brancos. Assim. eles exigem simplesmente um maior grau de liberda- de para a sua própria minoria. Noutros casos. Numa dada altura. um maior grau de segrega- ção. a fricção surge porque os colonos querem medidas ainda mais duras contra os africanos. tal como aconteceu em Portugal. que apoiam o movimento de libertação e entre eles já um ou dois se junta- ram mesmo à resistência. o governo considerou ser necessário punir cidadãos comuns brancos por não demonstrarem uma oposição suficientemente activa aos guerrilheiros. cujas convicções são radicalmente anti-fascistas e em oposição a Salazar. surgiu em Moçambique um grupo de liberais brancos que se opôs à implantação do Estado fas- cista.colonos se identificam com os africanos na luta pela independência. mas esse grupo está agora prati- camente silenciado. sobretudo intelectuais. nem mesmo a minoria branca é um corpo homo- géneo. identificado em todos os sentidos com o governo colonial. como já indicámos.

por intennédio da administração colonial. fundada na experiência da discriminação. I. económica e cultural. de NoEMIA DE SousA Como todo o nacionalismo africano.. EDUARDO MONDLANE (I) Resistência -A procura de um movimento nacional E nada mais me perguntes('). o de Moçambique nasceu da experiência do colonialismo europeu. Maputo: Centro de Estudos Africanos. 2. que não sou mais que um búzio de carne onde a revolta d' África congelou seu grito inchado de esperança De «Se me quiseres conhecen). Contudo. Todas as fonnas de comunicação provinham anteriormente do topo. territorial. p. Em Moçambique. foi a dominação colonial que deu origem à comunidade territorial e criou as bases para uma coerência psicológi- ca. Lisboa. trabalho for- çado e outros aspectos da dominação colonial. 1977. 179 (N. a comunicação entre as comunidades separadas que estão sujeitas a este tipo de experiências tem sido limitada. 332 .). O movimento nacionalista não surgiu numa comunidade está- vel historicamente com uma unidade linguística. 1995.O. A fonte de unidade nacional é o sofrimento comum durante os últimos cinquenta anos sob o domínio português. na Noite Grávida de Punhais. .a cd. Isto naturalmente atrasou o desenvolvimento de (l) Versão extraída de Lutar por Moçambique. exploração. 87-100.. se é que me queres conhecer. (!)ln Antologia Temática de Poesia Afi"icana. Sá da Costa. pp.

Havia alguns que a maioria dos africanos só se encontrava com os Portugueses na altura grupos no Niassa Oriental que nunca tinham visto um português antes do pagamento do imposto. Macarite e Babuane estão na prisão 334 335 .formas tradicionais de expressão cultural que o colonizador não Em toda a parte onde o poder colonial se fez sentir houve algum tipo compreende. quando eram contratados para o trabalho for- do início da presente guerra. a administração colonial do jovem Estado fascista Deixem-me contar-vos . Dado são os que tem uma experiência pessoal da dominação. porque dirigida contra um só aspecto da dominação. rapidamente alterou esta situação. os Chopes tem esta canção: ao êxodo maciço. os mais velhos. nalmente. a estrutura do poder tradicional. isto lação. muitas vezes fisica- mente.. lutas anteriores contra os Portugueses e à actual experiência de sujeição. Por exemplo. era completamente irrealista devido o desenvolvimento do conceito «Moçambique». e foi-lhes bastante dificil a prin. As filhas mais velhas têm de pagar imposto tada. devem discutir os nossos problemas A resistência activa foi finalmente esmagada em 1918. às suas das «portuguesas» pelas autoridades. A chegada do exército portu. é sempre a mesma história contra o colonizador. danças. Mas o centro da resistência passou das hierarquias tradicio- nais. em que a coló.embora por muito tempo estes continuassem tão isolados nos É aborrecido dizer «bom dia>> a toda a hora seus objectivos e actividades como o haviam estado os chefes tradicionais. Numa outra canção são ridicularizadas as tentativas de impor os A partir desse momento. Era uma atitude associada à tradição cultural do grupo. a realidade Natanele diz ao homem branco que o deixe em paz concreta vivida por uma determinada comunidade num determinado Natanele diz ao homem branco que me deixe estar momento. destruindo. fala-se bastante sobre «Portugal». não é de surpreender que de pertencer nem à nação nem à colónia. Tal Em muitas áreas onde a população é reduzida e muito dispersa o como muitas outras nações colonizadoras. que se levantou Ainda estamos zangados. Portugal também se enganou contacto entre a potência colonial e o povo é tão superficial que poucos quanto ao entusiasmo dos «pobres selvagens» pela «civilização». assumindo diversas formas. tivessem a oportunidade de observar o modo de vida português. tenham tido uma impressão muito pouco favorável da cultura portugue- cípio compreender o significado da luta. esta propaganda contribuiu bastante para impedir rio. enquanto que a própria oposição era também limi. que se tomaram dóceis fantoches dos Portugueses. nas escolas. estendeu-se por todo o Moçambique. Constituindo menos de 2 por cento da popu- ceito demasiado distante para constituir um factor de unificação. porém. desde a insurreição armada até do. Em Moçambique. a A simples rejeição psicológica do colonizador e da sua cultura era situação foi agravada pela política do «Portugal Maiom. nos jornais. tanto a repressão como a resistência acen. e até escul- guês. mais estabelecer um contacto estreito que permitisse a sua absorção.. Porque o homem que os brancos nomearam é um filho de ninguém rota de Makombe (Rei) do Bárue. pequena em relação a toda a sociedade. O desejo dos Portugueses de impor a sua cultura em todo o territó- Entre o campesinato. na região de Tete. denunciado e ameaçado. para indivíduos Ouçam a canção da aldeia Chigombe e grupos. e muito pouco sobre «Moçambique». as pessoas não têm a noção çado ou quando as suas terras eram confiscadas. Sendo Portugal um con. os Portugueses não podiam sequer esperar que todos os africanos também promoveu o tribalismo pelo facto de as pessoas não consegui. Na rádio. mas não era uma posição assumida consciente e racio- nia é considerada «província» de Portugal e todas as pessoas considera. e através das quais ele pode ser secretamente ridiculariza- de resistência. mesmo se bem intencionado. costumes portugueses: tuaram-se. A partir do início Os Chopes perderam o direito à sua própria lena do década de 1930. sa. Vocês. com a der. Mas em qualquer momento. turas . Esta reacção é muitas vezes expressa em canções. uma consciência única em todo o espaço territorial. Nessas áreas. foi sempre uma comuni- dade limitada. quanto rem transpor os limites da sua unidade social imediata. bastante comum. ao tamanho da população.

contudo. um padre é apresentado com patas de animal selvagem. uma organização contestatário. ajudou este grupo a ver Moçambique como a terra «pietà» transforma-se numa imagem não de piedade mas de vingança. se desen- Algumas esculturas dos Macondes exprimem uma hostilidade pro. O seu propósito era conferir «um carácter organizado às ligações de Cabo Delgado . imagens de Nossa Senhora e crucifixos. Era mais fácil vez em quando uma delas afasta-se do modelo original. Vários camponeses. à necessidade de sigilo que isto impunha. estes grupos criaram sociedades e iniciaram a publicação de jornais das na cultura popular conduziram a outro tipo de reacção: os «mais através dos quais conduziam campanhas contra os abusos do coloniahs- velhos» acabaram realmente por «discutir os nossos problemas». -26). ideias nacionalistas por todo o território. Pos- dúvida ou desafio: a Nossa Senhora segura um demónio em vez do meni. As condições estavam longe de ser favoráveis ao alastramento das Meu irmão Nguissa. Porque não disseram «bom dia». As autoridades portuguesas. urna rnator samente as suas reuniões. e a unidade de 336 337 . dade entre as colónias contra a mesma potência colonizadora. autoridades. estas imagens pequeno sector marginal da população. Encorajados pelo liberalismo da nova República em Portugal ( 19 I 0- Em certas áreas e em detetminados períodos. imitando modelos europeus. Nessa área. Ao na sua maioria africanos assimilados e mulatos. os missionários católicos acções locais. sivelmente. acontece é quase sempre porque nela foi introduzido um elemento de e que 0 sucesso por eles alcançado dependia do trabalho do africano. até que. a própria ausência do ambiente tribal contribuiu para criar no Jesus. um carácter mais político. Os valores mercantis dos europeus são frequentemente satirizados ou criticados: O começo do nacionalismo Como fiquei espantado.incluindo o Mzee Lázaro Kavandame. anos 50. e fez-lhe compreender a força do unidade. e sob a sua influência muitos escultores têm feito de intelectuais e assalariados. e quando isso ali compreender que a força do colonizador assentava na nossa fraqueza. e uma uma visão nacional. Esta minoria era predominantemente urbana. com a mãe empunhando uma lança sobre o corpo do seu filho morto. à erosão Por ter de levar dinheiro para comprar o meu caminho. em contraposição a funda contra a cultura estrangeira. exigindo direitos iguais. acabando por se tomar totalmente hostil às Tiveram que ir para Quissico dizer «bom dia». foi só entre uma minoria diminuta que. e passaram a vigiar cuidado. -americana realizada em Londres e organizada por W. este movimento era mais construtivo do que Em 1920 foi criada em Lisboa a Liga Africana. estas atitudes enraiza. sobrecarregaram-nas de impostos. cristãs são quase sempre rigidamente estereotipadas e sem vida.organizaram-se em cooperativas. um contrário das obras macondes sobre temas tradicionais. indivíduos essencialmente destribalizados. Devido à proibição de qualquer Como fiquei espantado associação política. É iroportante levantaram severas restrições às actividades desenvolvidas pelas coope. da sociedade tradicional e ausência de uma educação mais modema nas áreas rurais. Mas de Nas cidades. Na sua fase inicial. pouco a pouco. o poder colonial era visto mais de perto. Foi então que o movimento começou a ganhar unidade africana contra todas as potências colonizadoras. na tentativa de entre os povos colonizados». começaram a denun- exemplo disto é o movimento cooperativo. composta têm sido muito activos. de todos os Moçambicanos. cinou em 1923 a Segunda Sessão da Conferência em Lisboa. Participou na Terceira Conferência Pan- apoiar a produção e venda dos produtos agricolas e deste modo melho. e patro- rar a sua situação económica. que surgiu no Norte nos ciar todo o sistema colonial. Um mo. notar que a Liga defendia não só a unidade nacional mas também a uni- rativas. a princípio. volveu a ideia de uma acção de âmbito nacional. por outras palavras. Du Bois. unindo os poucos estudantes africanos e mulatos que chegavam a esta agora membro do Comité Central da FRELIMO e Secretário Provincial cidade. E.

o orgulhoso assumir do «estado selvagem» e a defimçao bastante activa na luta contra o racismo. puseram fim a esta onda de actividade política. Foi só após a Segunda Guerra Mundial e a derrota das grandes potências «Estamos fartos. uma consciência política que levaria à exigência da independência. surgiu em Moçambique uma organização remos ser tratados da mesma maneira que vós. Repetimos que não alguns dos dmgentes para desviar a Associação para uma linha mais queremos fome nem sede nem pobreza nem uma lei de discriminação conformista. A corrupção conshtum um porta-voz relativamente eficaz de revolta. as bestas de carga . Este último vê-se a si próprio como um rais de Moçambique.. Mas. nós. Os colonos e a administração cedo ficaram alarmados com ção requintada( . )a gangrena Instituto Negrófilo. como dominada pela ideia de «roubar o melhorar a educação dos africanos. que se separou e criou 0 baseada na cor ( . fascistas que foi possível retomar alguma actividade política. Aspiramos ao nosso «estado sel- dos pelos ventos fascistas que sopravam de Portugal. ela era fraca. se seguiu. de facto... aJuda mútua. Tivemos que vos aturar. Foi originalmente concebida para defender os direi.. e actividades culturais e desportivas. mas com actos( . Agora têmo-la. » Surgm a tendencm de os mulatos se juntarem à Associação Africana. Não aspiramos à vossa educa- ção Africana.Já chega( .... . Este foi mais tarde obrigado pelo governo de Salazar que espalhais entre nós há-de infectar-nos e então já não teremos força a mudar o para Centro Associativo dos Negros de Moçambique.. todavia. Esta fase de denúncia. E campanha de intimidação e infiltração. É verdade que até aqui não havia sido ainda formulada a exigência quenos. ) Insistimos que leveis a cabo os vossos da em Lisboa. As mudanças sequências das vossas loucuras.. enche as vossas barrigas e as vossas algibeiras. mas a partir da década de qual disputa o poder.. )Havemos de aprender a usar o bisturi ( . depois de estas exigências preliminares terem sido rejeitadas é que se da qual um exemplo típico é O Brado Africano.. que foram a partir de então frequen- tos estao bem retratados neste editorial de O Brado Africano de 27 d temente solicitados pelas autoridades ajuntarem-se ao coro dos fiéis ser- Fevereiro de 1932: e vidores de Salazar e do seu regime. ). tendo conseguido 0 apoio de exigimos alguma coisa ( . não com leis e decretos. organizações em clubes burgueses. Que- No início dos anos 20... A implantação do Estado Novo de Salazar e a repressão politica que ciada em 1936 pelo sistema de censura do governo fascista mas até lá . o do colonizador. . como os africanos muçulmanos ou diferentes grupos de indianos. Da leitura deste texto surge claramente uma linha de demarcação Formou-se uma terceira organização.. De agora em diante recusamo-nos a fazer maiores e mais inú- na medida em que tmha apenas cerca de vinte membros e estava sedia- teis sacrificios ( . que sofrer as terríveis con.. e depois disso tomou-se 0 do colonizador.. ) exigimos pão e luz ( . ). nistrativas... com tos dos brancos nascidos em Moçambique. para a acção. iniciaram uma vagem» que. e os conflitos internos fomentados pelo governo transformaram estas O :spírito destes movimentos iniciais e a natureza dos seus protes. de independência nacional. Não aspiramos ao conforto chamada Grémio Africano. que mais tarde se transformou na Associa- de que vos rodeais. no entanto. É interessante notar a total rejeição dos valm:s 1950 abriu as portas a outros grupos étnicos.. Contribuiu até um pouco para da civilização do colonizador. .. )não podemos 339 338 . deveres fundamentais. ção Africana e dirigido pelos irmãos Albasini. pela ideia de roubar o vosso irmão( . intitulada Associação dos Natu- entre colonizador e colonizado. das vossas exigências ( . Surge então uma ala mais radical. ). enquanto os negros se concentravam no Centro Associativo. ) ainda menos aspiramos a uma vida toda dominada o vigor das exigências da Associação. fundado pela Associa- poderia evoluir para uma posição mais radical. apoia... Esta imprensa foi silen. graças à vossa força. ). e a exi- Todas estas desenvolveram acções políticas sob a capa gência de direitos iguais foram necessárias para o de programas sociaiS. Outras associações semelhantes foram criadas por grupos de interesse mais pe. e no princípio dos anos 30. longe do possível campo de acção. seu irmão». So E paralelamente a estes movimentos surgiu uma imprensa de protesto. aguentar mais os efeitos perniciosos das vossas decisões politicas e admi- todos povos negros oprimidos do mundo.. através da concessão de bolsas. grupo dominado e levanta-se contra um outro grupo.

. lar espiritual e contexto da futura ender o fenómeno colonial na sua globalidade. De uma forma mais generalizada. que começou durante os anos 40 e influenciou poetas. a evolução social do homem em termos gerais. com 0 do mulato. metros Impostos pelo governo colonial. apesar mitologia africana. levam o leitor a fazer as mesmas denúncias através de uma análise perceptiva e detalha- da do comportamento humano. a fraqueza real do colonizador ção familiar já descritos anteriormente quando falamos da posição soem! e. As pinturas de Malangatana e José Craveirinha (sobrinho do poeta) na esfera do p_oder em todo o mundo e o ressurgir do nacionalismo. esta poesia tenta expor as traste entre a emergência da luta dos negros na África e na América e a raízes comuns a todos os moçambicanos no passado pré-colonial. foram buscar a sua inspiração às figuras da escultura tradicional e da larmente em Africa. pintores e escritores de todas as colónias portuguesas. a ascensão do homem negro em todo o mundo. Sá da Costa. tiveram repercussões nos tenitórios portugueses.u ed. incorporando-as em obras explosivas com temas liga- da de um governo fascista em Lisboa e dos esforços feitos pelas dos à libertação e denúncia da violência colonial. Estavam em posição de exami. !977. e. a resistência tivesse de início uma expressão puramente cultural. violência no dia a dia. e viveram nesta terra A nova resistência inspirou um movimento em todas as artes. o apelo geral à Em Moçambique surgiu uma nova geração de insurrectos activos revolta. pela falta de contacto entre a minoria urbana politicamente conscien- com o tempo te e as massas populares que suportavam o peso da exploração. «Aqui nascemos»: ISSo. em primeiro lugar. finalmente. nação. na Noite Grávida de Punhais. este escritor escreve por vezes em forma de parábolas. particu. O seu campo de acção estava limitado. e sofrimento actual da maioria do povo moçambicano. O primeiro destes temas está muitas vezes interligado com os con- nar outros aspectos essenciais da sua situação: a discriminação racial e flitos pessoais do poeta. tanto e a lutar pelos seus próprios meios e não dentro dos parâ- 0 no trabalho forçado como nas minas. e os poetas José Craveirinha e Noémia de Sousa. mas era-lhes dificil fazer mais do que Santos. pela estru- tura envolvente da opressão. às culturas obrigatórias e à ame- Nossos avós de. de manter focar uma situação mais abrangente. que tem sido amplamente ideias de autodetenninação que se alastravam por toda a parte.). 341 340 . a insidiosa rede polícia! desenvolvida pelo A terra onde nascemos (') Estado fasc1sta durante o longo periodo que esteve no poder. ou centra a sua história à volta de um acon- Na maioria dos casos apenas uma pequena minoria educada estava tecimento concreto aparentemente insignificante. mas que ele utiliza para em condições de acompanhar os acontecimentos mundiais. p. contactos adequados com o mundo exterior.O. 128 (N. Seguindo uma longa tradição de artistas A revolta dos intelectuais que vivem debaixo de um governo repressivo. Luís Bernardo Honwana. se pode ver neste extracto de um poema da fase inicial de Marcelino dos . provavelmente os pintores Malangatana e Craveirinha. de poder adquirir 0 hábito Na poesia política dos anos 40 e 50. z. autondades portuguesas para proteger as áreas sob seu controlo contra as Os contos de Luís Bernardo Honwana. como resistência muda do seu próprio povo. no seio desta nasceram mmona. os problemas derivados da sua origem e situ_a- exploração dentro do sistema colonial. e que de facto estavam sujeitas ao trabalho forçado. Não é pois de surpreender que. reconhecido fora de África como um mestre nesta arte. Em Moçambique os mais conhecidos são C) ln Antologia Temática de Poesia Africana l. firmação de África como mãe-pátria. o escritor de contos Lisboa. Eles podiam analisar a situação. em segundo vem de longe lugar. predominam três temas: a rea- do pensamento analítico e portanto os meios necessários para compre.

Em minha casa de madeira e zinco. evitar o trabalho forçado sob condições económicas ainda menos favo- Let my people go ráveis na sua terra. é alheia à reacção do africano. (') Op. escre- Mas vozes da América remexem-me a alma e os nervos ve: «cada vez que ele pensa em fugir é uma semana numa galeria sem sol». e escrevem sobre a situação como especta- dores de fora. cit. Compare-se qualquer um destes poemas com as canções chopes apre- sentadas mais atrás. Isto demonstra a falta de contacto entre os (') lbidem. p. deixa passar o meu povo-.. no trabalho quotidiano Estes poemas. e como ervas de fina seiva e não são doces vozes de embalo foram veias em corpo longo Lei my people go . «A terra treme» de Marcelino dos Santos. Noémia de Sousa. e esculpindo as pedras férteis Eles ilustram de forma bastante expressiva tanto a fraqueza como a força do mundo a começar do movimento ao qual pertencem os seus autores... escreve no seu poema «Magaíça»: Noite morna de Moçambique(') Magaíça atordoado acendeu o candeeiro (5 ) e sons longínquos de marimba chegam até mim à cata das ilusões perdidas -certos e constantes_ da mocidade e da saúde que ficaram soterradas vindos... 128 (N. dizem.. são interessantes não tanto pela sua força e elo- quência mas antes pelos termos que utilizam para descrever a situação. eles estão mais influenciados pela tradição Dentro de mim soam-me Anderson e Paul europeia do que africana.). por O melhor exemplo do segundo tema é talvez o poema de Noémia de Sousa. inspirado na luta do negro americano: exemplo. Mas de facto não existe o problema da «fuga»: o moçambicano E Robeson e Marian cantam para mim vai para as minas com o objectivo de trazer dinheiro para a família e spirituals negros de Har!em. 153 (N. nenhum deles esteve sujeito ao o grande desenho da vida Código do Trabalho Nativo. 342 343 . «Deixa passar o meu povo». «Mamparra M'gaiza» e «Ma- abraçaram a terra mana Saquina» de Craveirínha. lendo as suas próprias reacções intelectualizadas nas men- tes do mineiro e do trabalhador forçado africanos. p. todavia. nem eu sei donde. lá nas minas do Jone . . É evidente que. abro o rádio e deixo-me embalar . A própria forma como os poemas são concebidos. o). res para serem «africanos». Nenhum destes escri- em cores iniciaram tores experimentou o trabalho forçado. num estilo de eloquente autocompaixão. Craveirinha.O. apesar dos esforços dos seus auto- E eu abro os olhos e já não posso donnir. falando do «homem Chope» a trabalhar no Rand. e há exemplos significativos de todos os principais poetas deste seus braços período: «Magaíça» de Noémia de Sousa.oh deixa passar o meu povo. fluido rubro perfume terrestre O sofrimento do trabalhador forçado e do mineiro inspirou muitos Árvores e granitos erguidos poemas.

após um longo período de exílio no Europa. Eu sou carvão e intensa. . çao po ttlca e expressá-la de forma clara tenho que arder na exploração Noémia de Sousa escreveu este odero arder vivo como alcatrão. . nós somos multidão Poucos do grupo de Craveirinha conseguiram sair do isolamento e quem pode levar a multidão e fechá-la numa jaula? estabelecer a ligação entre a teoria e a prática. sim a sua força baseava-se no seu azaro Por outro lado. e queimar tudo com a força da minha combustão. m me or Eu sou carvão movtmento nacwnal do os camponeses das cooperati d L.). se · as va1e a pena c!l' 10 . Xigubo. João era e será porque João somos nós. Aí. Noémia de Sousa aban- donou Moçambique. de autodeterminação em toda a África. . patrão. (')ln José Craveirinha. . Maputo. INLD. patrão. à vigilância polícia! e juntar-se ao movimento de libertação. p . está ganhando forma uma nova tradição literária. Craveirinha produziu tal . . Eu sou carvão Esta é a geração que cresceu após a Segunda Guerra Mundial e que e tu acendes-me. patrão. 1980: 13 (NO. no con- texto do luta armada. ats escntos. . intelectuais e o resto do povo Ness . influenciou e inspirou uma geração um E tu arrancas-me brutalmente do chão pouco mais nova de intelectuais. apenas marca a e cheta d · ·fi d perde muito com a traduça·o M e stgm ca o. está entre as obras mais im rt . a. . O trabalho de Craveirinha e dos Eu sou carvão!(') seus companheiros. muitos dos quais conseguiram escapar e fazes-me tua mina. Os poucos africanos e mulatos que atingiram a escola secundária fizeram-no com grande dificuldade. Malangatana depoimentos sobre a alt'en . este poema Marcelino dos Santos. meu irmão dos seus companheiros do . estrutura musical betn de d . que estavam e tenho que arder. ensamento revolu. para analisar a situa . patrão estava nos bancos da escola quando surgiram os primeiros movimentos para te servir eternamente como 1Drça motnz . . . patrão! João não era. • . O próprio sistema de educação português constituía para eles um forte motivo de descontentamento. desenvolver as suas ideias políticas e foi na escola que começaram a organizar-se. e desde então a sua poesia mudou e po antes e tnfluentes desse tempo: evoluiu sob o ímpeto da luta armada. pois juntou ao movimento de libertação. Muitos. No Grito Negro.por mtetro. a epoca. movtmento f01 preso d d . deixou de escrever poesia e vive agora em Paris. ves de 1947: e eporta o apos as gre- Eu sou carvão Mas que importa? tenho que arder Roubaram-nos 0 João queimar tudo com o fogo da minha combustão. e1es nao estavam e lh postção para forjar um verdadeiro . so apelo a revolta quando um até não ser mais a tua mina. incluindo Craveirinha e Honwana estão na prisão. · d evtdo tasmo e capactdade obtidos e ao seu conhecimento d h. a tstona europe 1a e p cwnario. mas João somos todos nós por isso João não nos abandonou Sim! Eu serei o teu carvão. todavia. Foi na escola que começaram a mas eternamente não. Devtdo à sua seguido pela polícia. ' m parte . vez um dos mats Vibrantes continua a trabalhar em Moçambique mas constantemente vigiado e per- açao e revolta Jam · · . r. De todos os que aqui foram mencionados. Eram constantemente discriminados nas escolas frequentadas predomi- 344 345 .

A polícia por- o NESAM. criaram o Núcleo dos Estu. assim como a de todas as organizações deste Suazilândia a caminho da Zâmbia. vez 0 contributo mais importante. dário. Con. Em 1964 prenderai_D era falso. 0 seu ensino. siana trabalhava em estreita colaboração com a polícia portuguesa). embora sob sem terem sequer aberto um processo de acusação contra mim. para que nos 1962-63. que nós éramos moçambicanos e nunca poderíamos ser portu. quando a FRELIMO se estabeleceu na região de Lourenço Marques em tugal. organiza os jovens moçambicanos que estudam sob os auspiciOs · · d a FRE- seguiu fazer uma certa revalorização da cultura nacional. os membros do NESAM foram os primeiros a ser mobilizados resignássemos à sua dominação. Alvor. nantemente por brancos. tínhamos consciência das suas mentiras. e fazer deles «portugueses» em consciência oportunidade única para estudar e discutir Moçambique uma enti- . Falis na fronteira entre a Rodésia e a Zâmbia. Desde o início a polícia vigiou de perto este movimento. alguns dos seus membros e forçaram outros ao exílio. 75 membros do NESAM foram presos pela e discussões do grupo. que faz parte da FRELIMO e que Espalhou as ideias nacionalistas entre a juventude negra educada. Mas pelo menos deu três importantes contributos para a revolução. interrogou-nos e bateu nos Fiquei seis sas actividades. . A polícia secreta.» (E. fui preso em 1949 e longamente interrogado acerca das nos. cia ( . Em 1963 alguns antigos membros do NESAM fundaram a UNEM O. zou as tentativas feitas pelos Portugueses de levar os estudantes africanos Em Portugal. que estava sões conversas e debates tínhamos que tomar sempre cuidado com a polí- ligado ao Centro Associativo dos Negros de Moçambique e que também. circunscritos nesta altura aos estudantes negros do ensino secun. conduzia uma campanha Fui presa quando tentava fugir de Moçambique. mas éramos persegmdos pela pohcta grupo que tinha estudado na África do Sul. e descreve esta situ- ação de opressão e o destino do seu próprio grupo: . a geografia de Por. Não podíamos reagir abertamente mas e organizaram uma estrutura de apoio ao partido. ). ajudou a difundir as ideias desenvolvidas nas reuniões Pouco tempo depois. Fazíamos actividades culturais e educativas. que neutrali. aniquilar os valores que tinham aprendido a desprezar e abandonar o seu próprio povo. concentração no Sul de Moçambique.) rigorosa censura.o NESAM constituía uma a respeitar desde a infância. dade própria e não como um apêndice de Portugal. bros. LIMO. tuguesa ameaçou-nos. Nessa altura.. Estive seis na pnsao anos 60 e chegou até a publicar uma revista. A polícia rodestana pren- nal e encorajar a resistência à sujeição cultural imposta pelos Portugue. Eu próprio. os poucos estudantes negros ou mulatos que conse- guiram chegar ao ensino superior juntaram-se na Casa dos Estudantes 346 347 . Apesar de tudo o NESAM conseguiu sobreviver até aos na prisão sem julgamento ou condenação. e enviou-me de novo para Lourenço Marques (a polícia rode- ses. Josi- gueses>>. Esta tentativa falhou. Fui presa VIctona política entre a juventude para propagar a ideia de independência nacio. União de Estudantes Moçambicanos. . (E. Sabíamos que tudo o que diziam também se apercebeu disto e interditou o NESAM. tanto rapazes como raparigas. a coberto de actividades sociais e culturais. sendo um dos estudantes regressados da África do Sul e que fundaram Éramos oito no nosso grupo. foi bastante limitada devido ao reduzido número de mem. Josina Muthemba: «Os colonialistas queriam-nos enganar com e que poderia ser utilizada em futuras acções clandestinas. Por exemplo. ao cimentar os contactos pessoais ques há poucos anos atrás: estabeleceu uma rede de comunicação a nível nacional. como se pode ver pelo relato desta jovem africana que frequentava a escola técnica em Lourenço Mar. polícia sul-africana e entregues à PIDE. que abrangia não só os membros antigos como aqueles que ainda frequentavam a escola. as escolas tentavam cortar-lhes os laços com o seu passado..F. Só nos ensinavam a história de Portugal. queriam formar em nós uma mentalidade passiva. secreta. Ainda por cima. que.F. A polícia perseguia-nos. dirigidos por um pequeno «Queríamos nos organizar.) na Muthemba participava activamente no NESAM. Em 1949 os alunos do escola secundária. mas durante as discus- dantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAM). Encontram-se atnda em campos de período inicial. mas tal- mas não em direitos. Por ultimo. PIDE. chegaram até a interditar o NESAM. quando tentavam atravessar a A eficácia do NESAM.

Os únicos sindicatos autorizados pelos Portu. um numeroso grupo destes estudantes. atravessou clandestinamente existisse alguma organização política entre os trabalhador:s a fronteira e dirigiu-se para a França e Suíça. para uma acção a nível mais alargado. ainda em Lourenço Mar- mente a Lisboa.rno resistência activa e organizada. embora este não fizesse parte da CEI. embora também se registassem com menor mtensidade num levantamento fracassado em Lourenço Marques em 1948. que se opõe à democracia e está disposto a utilizar métodos extremamente brutais para esmagar a oposiÇao. e várias centenas de africanos mento cooperativo. Em primeiro lugar. Contudo. noutras regiões. que ajudou a planear a série de para divulgar informações sobre as colónias a nível mundial. foi lho urbana estavam destinadas ao fracasso. foi o impacto que o fracasso do movi- ticipantes foram ferozmente reprimidos. Em I 951 os membros da CEI criaram o Centro de Estu. . Em Beira e Nacala. e ao redor das cidades. houve uma greve de trabalhadores do cais que acabou com a dos Africanos. tanto as mas- e vários destes antigos estudantes do «Império português» fazem agora sas como os seus dirigentes deixassem de considerar as greves como parte da direcção da FRELIMO. rompendo de forma públi. · . Para um gove. fOI o propno de sindicatos. a de Lourenço Marques e em plantações junto à cidade. greves portuárias que tiveram lugar em 1963 em Marques. Um movimento naciO- como membros os trabalhadores brancos e. em con. e para for. africanos nalista sem raízes firmes no campo nunca poderá ter sucesso. temporanamente.e· difícil . bém resultou na morte e prisão de muitos dos seus participantes. de qualquer modo. Os par. e que. teve sobre a população. porque em ambos os casos entre o proletariado urbano que surgiram as primeiras experiências de resultavam da acção de um pequeno grupo isolado. Em 1947 o extremo descontentamento da força de trabalho. talecer e consolidar as ideias nacionalistas no seio da juventude.do Norte . Mas na ausência dar com estes núcleos isolados de resistência. A reacção dirigentes está bem ilustrada nas palavras do próprio Lazaro Kavandame. do Império (CEI). A população urbam de Moçam- dades empregadoras e pelo Estado. através do Clube dos Marítimos. Eles assumiram um carácter mms · extremo nas regwes. elementos da acçao repressiva da polícia. Depois. O seu fracasso e a repressão brutal que imediatamente contactos com os respectivos movimentos nacionalistas. este ultimo esforço tam- 1961. que culminaram volta de Mueda. ram em evidência a ineficácia das acções isoladas e prepararam o terreno gueses são os sindicatos fascistas. com marinheiros das colónias que vinham frequente. deu origem a uma série de greves no cais tância. Embora çados pela persistência da acção polícia!. Muitos deles estabeleceram nea e quase sempre localizada. Em 1956. . sempre se lhe seguiu fizeram com que. Apesar da sua ampla extensão. veis pelas greves. cujos chefes são escolhidos pelas enti. constituíram o incentivo fundamental para a revolta. e estabeleceram também uma ligação. somente grupos políticos clandestinos podiam estabelecer fracasso destas tentativas e a feroz repressão que se lhes seguiU que puse- a necessária organização. A concentração de mão-de-obra dentro como 0 de Portugal. a actividade grevista era em grande medida esponta- ca e irreversível com o regime português. Apesar da actuação de 49 dos seus participantes. para difundir nas colónias a ideia de independência nacional. ques. foram deportados para São Tomé. assimilados. Acção do proletariado A caminho da unidade Se foi entre os intelectuais que mais se desenvolveu o pensamento Tanto a agitação dos intelectuais como as greves da força de traba- e a organização política no período após a Segunda Guerra Mundial. ocasionalmente. frustrados e por fim amea. armas políticas eficazes no contexto de Moçambique. e as terríveis condições de trabalho e pobreza. em 1962-63. ·. e criaram um sistema mais coordenado. só aceitam bique não ultrapassa meio milhão de habitantes. imediatamente anterior à fundação da FRELIMO foram de grande JUnto com a agitação política. 348 349 . atrás descrito. até à sua dissolução clandestina da FRELIMO encarregaram-se do trabalho de organização em 1965. a CEI contribuiu activamente.nao. Alguns acontecimentos que tiveram lugar nas zonas rurais no penodo .

deu origem a uma série de grev:s no cais tância. embora este não fizesse parte da CEI. Apesar da sua ampla extensão. Em 1951 os membros da CEI criaram o Centro de Estu. frustrados e por fim amea. imediatamente anterior à fundação da FRELIMO foram grande nnpor: junto com a agitação política. teve sobre a populaçao. Acção do proletariado A caminho da unidade Se foi entre os intelectuais que mais se desenvolveu o pensamento Tanto a agitação dos intelectuais como as greves da força de traba- e a organização política no período após a Segunda Guerra Mundial. houve uma greve de trabalhadores do cais que acabou com a dos Africanos. este ultimo esforço tam- 1961. que ajudou a planear a série de para divulgar informações sobre as colónias a nível mundial. Em primeiro lugar. atrás descrito. para difundir nas colónias a ideia de independência nacional e criaram um sistema mais coordenado. talecer e consolidar as ideias nacionalistas no seio da juventude. somente grupos políticos clandestinos podiam estabelecer fracasso destas tentativas e a feroz repressão que se lhes segum que puse- a necessária organização. foram deportados para São Tomé. através do Clube dos Marítimos. ainda em Lourenço Mar- mente a Lisboa. rompendo de forma públi. porque em ambos os casos entre o proletariado urbano que surgiram as primeiras experiências de resultavam da acção de um pequeno grupo isolado. de qualquer modo. e estabeleceram também uma ligação. Depois. que culminaram volta de Mueda. çados pela persistência da acção polícia!. O seu fracasso e . Os únicos sindicatos autorizados pelos Portu. tanto as mas- e vários destes antigos estudantes do «Império português» fazem sas como os seus dirigentes deixassem de considerar as greves como parte da direcção da FRELIMO. métodos extremamente brutais para esmagar a oposição. Em Beira e Nacala. ques. elementos da acçao repressiva da polícia. Em 1956. cujos chefes são escolhidos pelas enti. embora também se registassem com menor mtensidade num levantamento fracassado em Lourenço Marques em 1948. A população de Moçam- dades empregadoras e pelo Estado. Mas na ausência dar com estes núcleos isolados de resistência. noutras regiões. A concentração de mão-de-obra dentro como 0 de Portugal. e que. foi o impacto que o do _movi- ticipantes foram ferozmente reprimidos. o propno de sindicatos. ocasionalmente' africanos assimilados.enodo Em 1947 o extremo descontentamento da força de trabalho em con.a repressao brutal que imediatamente contactos com os respectivos movimentos nacionalistas sempre se lhe seguiu fizeram com que. até à sua dissolução clandestina da FRELIMO encarregaram-se do trabalho de organização em 1965. veis pelas greves. a CEI contribuiu activamente. que se opõe à democracia e está disposto a e ao redor das cidades. foi lho urbana estavam destinadas ao fracasso. Para um resistência activa e organizada. Os par. em 1962-63. bém resultou na morte e prisão de muitos dos seus participantes.membros os trabalhadores brancos e. do Império (CEI). Um movimento naciO- como nalista sem raízes firmes no campo nunca poderá ter . para uma acção a nível mais alargado. Muitos deles estabeleceram nea e quase sempre localizada. Eles assumiram um carácter mais extremo nas regiões do a de Lourenço Marques e em plantações junto à cidade. . armas políticas eficazes no contexto de Moçambique. atravessou clandestinamente existisse alguma organização política entre os a fronteira e dirigiu-se para a França e Suíça. só aceitam bique não ultrapassa meio milhão de habitantes. Apesar da actuação de 49 dos seus participantes. ram em evidência a ineficácia das acções isoladas e prepararam o terreno gueses são os sindicatos fascistas. e as terríveis condições de trabalho e pobreza. A reacçao dos dirigentes está bem ilustrada nas palavras do próprio Lazaro Kavandame: 348 349 . e constituíram o incentivo fundamental para a revolta. Alguns acontecimentos que tiveram lugar nas zonas rurms no p. Contudo. a actividade grevista era em grande esponta- ca e irreversível com o regime português. com marinheiros das colónias que vinham frequente. e para greves portuárias que tiveram lugar em 1963 em :ourenço Marques. um numeroso grupo destes estudantes. . e várias centenas de africanos mento cooperativo.

. a Ia que a parttr daquele mo- e etxanam mats em paz d0 tinham para dizer. a VIO encia pas. que me chamariam mais Província de Cabo Delgado para vir de Porto Amélia e trazer uma compa- nhia de soldados. na altura com 22 ano . e estes mandaram simplesmente os tração de 1960 em Mueda E t . . menta não m d . (Relatório oficial) Depois. apareceram mandou abrir fogo.·r.E. De facto. ). tamente de organi tme ta. também associad 0 .·t• n· ne no d • 1 twa- toda a actividade política para a clandestinidade. s. ect Imos entao umnno-nos aos moçambicanos do resto do país>>. sem mais uma palavra. Faustino Vanomba KI"b.) · povo estava desarmad0 d ram a disparam Ela J·unt . e muitos fossem levados. F o!la que perto de um cemitério onde me pude abrigar e depois fugi>>. tos mt ares de pessoas vieram ouvir o que os p rtu C) Número inexacto pois algumas fontes estimaram em mais de 600 ou mais de 500 o gueses mortos (N. so por SI consegmna expulsar o inimigo D "d· . o para reconqUistar a nossa liberdade e ex ulsar os portugueses opressores da nossa terra. o governador perguntou à multidão se t t d b e um ongo e Impor. a situação no Norte nunca mais voltou ao nor- .. mi a umca esperança era a fuga( . didas.. Eu estava cá fora à espera. 350 351 . não mais enfrentar a vi o!. . agora mutJL A de os portugueses dizem que castigaram o governador mas certamente ape- a forma como os colonialista O. e pessoas que decidiram Depois do massacre. D. administrador. .estação emb . . foi a própria severidade da repressão que d «AI lguns dirigentes trabalhavam connosco. «Não consegui dormir toda a noite S b. não . . as cooperativas. e o povo avançou para perto da polícia para impedir que os presos daqueles que até então nunc u·nh p s portugueses. . . Os excessos do regime destruíram toda a possibilidade daram a I' · . perto. acon e. em todo o lado. Então o governador convidou os nossos chefes para o gabinete do . Estiveram lá dentro 4 horas. Eu estava O outro acontecimento. .. cados e radicais. . p:o e que seria constantemente vigiado A princípio não os vimos. Vi tudo. Houve então mais pro- . cebida no resto do mu d . começou a crescimento da agitação espontãnea . d. encia portuguesa sem armas na mão Alberto Joaqmm Chipande. Mataram cerca de 600 (')pessoas.a actividade clandestina acabou por des e em. culmmou com a grande demons. alguém queria falar. o administrador pedira ao governador da · · ' que tu 0 que eu fizesse seria e controlado de perto pelas autoridades. Muitos pediram a palavra. e um dos nossos ses e ficou de uma vez por todas demonstrado que a resistência pacífica desse dia: e ga 0 ' a-nos um relato mais completo era inútil. s a mam. aconteceu? B 1 · orno e que Isso dificuldades e perigos envolvidos. perdi o meu tio 0 nosso e ue a..mgo u er. Assim. Depois d I p Quando saíram para a varanda. . ' eses man- Mueda convidando as pessoas para uma reunião em . e. Tratámos. dedi- quand · · · · ouco tempo depois o o povo começava a apoiar estes dirigentes os portugu .em parte devido às massacre e Mueda em 16 de Junho de 1960 C . e o governador mandou an e e ate. a guns desses homens tinham contactado as autorida- pe ' o mais liberdade e melhores salários ( ) p . testos contra esta medida. Então o governador chamou as tropas. ' que todos esses passassem para o mesmo lado. ou-se aos milhares d . constituiU um factor catalisador na região pessoas IOram mortas a tiro elo . .). d zar uma reumao com os dirigentes locais para discutir sobre os metas e acçã . mal. e quando elas a am pensado no d · 1- saram a considerar a resistência 'fi . mostra porque: «Eu VI nas o transferiram para outro lugar. Nesse momento as tropas estavam ainda escon- Mais de 500 cn o. . Espalhou-se por toda a região um ódio amargo contra os portugue- actuais dirigentes em Cabo D 1 d d. e a polícia começou a espancá-los. O cerco apertado da polícia conduziu . Quando o povo viu o que estava a acontecer. Agora Teresinha Mbale. Eu próprio escapei porque estava s massacraram 0 povo d M d . (E. foi 0 manifestar-se contra os portugueses. Mas estes soldados esconderam-se ao chegar a Mueda. ' ma passasse desper. Alguns deles foram leva- criou as condições necessárias para o desenvolvimento de um movimen- os pe os portugueses T M II to nacionalista forte e militante. quan o e1es começa- . mandou a polícia atar as mãos daque- les que estavam à parte. chegamos à conclusão de que o povo M d . camiões da polícia avançar e recolher os presos. se tornar a melhor escola de formação de quadros políticos fortes.

d . ' a na novas perspec. Id . . mais tarde Secretário . . países vizinhos particularm t . veio o falecido Mateus Muthemba. . e até aos I Oanos passava os dias a umca orgamzaçã A 0 . . a on. . podenam ter tentes em Dar-es-Salaam fundiram-se para formar a Frente de Liberta- ataque. _ · o llliCJO. .. VIzmhos. . erceu uma Inilu. ' en e ao . e un o de 1962 os três movimentos exis- te este período que comecei a trabalhar com o NESAM. o revela como as várias organizações políticas e parapolíticas de todo o e comumcaçao levou · · . abriram escritórios separad D ' s es tres movimentos mento de Assuntos Políticos. mentos separados: a cnaçao de tres movi. Comecei a minha vida. Das por exilados da região de Tet Ique Independente). ao melhorarem um pouco as c d' .. agora trabalhando no Tanganica Ja existentes entre os moçambicanos membro do Comité Central. mais tarde a partir de vários pequenos ru an. o meu envolvimento na resistência. . aumentou a repressão em todos o · . · s cond1çoes externas pastoreando o gado da minha família juntamente com os meus irmãos. encm pessoal sobre os m . como . ticipou activamente no movimento literário em Lourenço Marques e após a revolta em Angola s terntonos portugueses viveu depois alguns anos exilado em França. exerceram uma forte crianças de Moçambique. . ir para a África do Sul e. - Ciam a nenhuma das or aniza . . reverendo Uria UDENAMO (União Democrática Na . . . onde estavam fora d I . e. . Finalmente consegui . e.:rno colomal contra um sério ção de Moçambique (FRELIMO). sofri toda ov1mentos nacion r· t presidente do Gana Kw Nk a Is as. Foi duran- . duma maneira ou . de Moçambique veio Lazaro Kavandame. doutra.. velho problema de falta d . encia e refugiados aos Eu próprio sou do distrito de Gaza no Sul de Moçambique. Moçambique. Simango. os o mtenor mmtos d . com a ajuda de alguns dos meus professores. . que foi a terceira unidade dos movimentos n . uma mulher de forte carácter e inteligência.. anos 50 e início de 60 ·nil 1 . - também favoreceram a unidad . e iniciaram-se preparativos para a As pnme1ras tentativas para criar um . é um poeta de renome internacional. 1 A conferência de todos osamcwm Istas contra o colonialismo português. . e a independência d .d' em apowu a formação de africana que tentasse entrar no sistema português. da FRELIMO para os Assuntos Externos e agora secretário do Departa- . como muitas pressão para a criação degum . cwna e Moçambique). numa aldeia. é um pastor protestante da região da Beira que esteve envol- mada em 1960 em Salisbury. a m ependencJa no final dos que foi representante da FRELIMO no Cairo e é agora nosso represen- uencwu a formação d . fundada associações de ajuda mútua de Lourenço Marques e Xai-Xai. que iria nacional foram feitas pelos b' movimento nacwnahsta a nivel definir os objectivos da Frente e traçar um programa de acção. . a a avam nos paJses Uma breve descrição de alguns dos dirigentes do novo movimento o a cance Imedmto da PIDE N . realização de uma conferência em Setembro do mesmo ano. .çoes Ja existentes. Também das associações de ajuda mútua veio Silvério Nungu. . formada em 1961' secretário da administração da FRELIMO. sendo um dos maiores o Mozambi- . tante nos Estados Unidos. . Das cooperativas de camponeses do Norte que Makonde Union· uema. C . protegido os principais interesses do on IÇoes. pelo menos por mais algum te:. ouco tempo depms e t . o presi ente Nyerere ex .. : os quais nao perten. remonta à minha infância. Khan. . e no Tanganica . Par- os em ar-es-Salaam Em 1961 . . ovimentos sediados naq 1 t . ' 0 que causou uma afiu' · d .· . participou. moçam 1canos que tr b lh . e absorvendo as tradições da minha tribo e família. lados». . território nele estavam integradas. e tive sérios 352 353 . . e Samuel Dhlakama. a sua unificação Assim a 25 d J h ue e em tono com vista arranjei bolsas de estudo para frequentar o ensino secundário. . fez um apelo vigoroso à e última mulher de meu pai.. e Sharffudin M. atwnal Umon). . MANO (Mozambique Afric N · .erencm das Org · . for. . e também Jonas Namushulua e vários outros. Ao tentar continuar os meus estudos após a instrução primária. A minha ida para a 0 guesas (CONCP) I' d em 1961 e na qual a UDENAMO . o 1angamca em 1961 b · tlvas para Moçambique p ' . . exilados recentemente vind d . e movimentos de «exi. mais tarde secretário provin- VNAMI (União Africana de M b· cial de Cabo Delgado. . vido em associações de ajuda mútua e que foi o chefe da UDENAMO.. Marcelino dos Santos. convocada pelo a espécie de frustrações e dificuldades que estavam reservadas à criança ' ame rumah tamb · · frentes unidas. . . ora anzama). rea IZa a em Casablanca escola deve-se totalmente à larga visão da minha mãe.angamca (ag '[ . Estes muitos outros. nahstas das Colónias p rtu amzaçoes Nacw. de reformas que. . O vice-presidente. no Sul de e que VIVIam no Malawi O acesso de várias antigas colónias .

contudo. as condições eram favoráveis à luta nacionalista. Ao regressar. O problema estava em se nós saberiamos corijugar essas vantagens de fonna a tornar o nosso movimento forte em todo o país capaz de desencadear acções eficazes que ao contrário dos anteriores esforços isolados. Quando me ofereceram uma bolsa de estudos para a América. e arranjei um emprego dando aulas na Universidade de Siracusa. e fiquei cada vez mais convencido. deixei as Nações Unidas para me dedicar totalmente à luta de libertação. pois eu era um dos que defendiam vigo- rosamente a unidade nos anos de 1961 e 1962. e viajando por toda a parte veri- fiquei com os meus próprios olhos as condições existentes e as mudan- ças que tinham ou não ocorrido desde a minha partida. Os moçambicanos que se reuniram em Dar-es-Salaam em 1962 representavam quase todas as regiões de Moçambique e todos os secto- res da população. Durante a minha breve estada nesta cida- de. e depois trabalhei nas Nações Uni- das como investigador na secção de Territórios sob Tutela da ONU. as autoridades portuguesas decidiram enviar-me antes para a Universidade de Lisboa. mas recusei juntar-me a qualquer um deles em separado. por aquilo que vi e a partir de contactos ocasionais através das Nações Unidas com diplo- matas portugueses. eshidei Sociologia e Antropologia nas Uni- versidades de Oberlin e do Noroeste. Tanto dentro como fora do país. Quase todos tinham alguma experiência de resistência em pequena escala e tinham sofrido as represálias que normalmente se seguiam.problemas com a polícia. 354 355 . o que me deixava mais tempo livre para estudar melhor a situação. atingissem mais os portugueses do que a nós próprios. Estabeleci contactos com todos os grupos de libertação. Em 1961 tive a oportunidade de visitar Moçambique durante as minhas férias. Entretanto tentei acompanhar o mais que pude o evoluir da situação em Moçambique. Tendo-o conseguido. que a simples pressão política e agitação não modi- ficariam a posição portuguesa. fui tão assediado pela polícia que isso interferia com os meus estudos e tentei continuar a minha bolsa de estudos nos Estados Unidos.

Queremos agradecer à Universidade de Siracusa e.quisemos uma vez mais demonstrar a nossa amizade militante e a nossa solidariedade ao povo de Moçambi- que e ao seu bem-amado chefe. Universidade de Siracusa (Estado Unidos de (Programa de Estudos da Áfri- ca de Leste). antigo Presidente da Frelimo. Eduardo Mondlane. cobardemente assassinado pelos colonialistas portugueses e pelos seus aliados em 3 de Fevereiro de 1969. 1995. o saudoso Dr. 221-233. o colonialismo português. Ao aceitar o vosso convite . textos coordenados por Mário de Andrade. em 20 de Fevereiro de 1970. Eduardo Mondla- ne. AMÍLCAR CABRAL (I) Libertação nacional e cultura Estamos muito felizes por poder participar nesta cerimónia realiza- da em homenagem ao nosso companheiro de luta e digno filho de Áfri- ca. pp.que consideramos dirigido ao nosso povo e aos nossos combatentes. Versão extraída de Obras Escolhidas de Amílcar Cabral: A Arma da Teoria. o Dr. mas também da solidariedade para com a luta heróica do povo moçambicano e de todos os povos de África pela libertação nacional e o progresso. Eduardo Mondlane. I. Eduardo Mondlane. ao Programa e Estudos sobre a África de Leste. dirigido pelo erudito professor Marshall Segall. Unidade e Luta. ao qual esti- vemos ligados por laços fundamentais na luta comum contra o mais retrógado dos colonialismos. esta iniciativa. Lisboa. particularmente. Comité Executivo da Luta do PAIGC e Seara Nova. em Dar-Es-Salaam. 354 355 . vol. A nossa amiza- de e a nossa solidariedade são tanto mais sinceras quanto nem sempre ( 1) Conferência pronunciada no primeiro Memorial dedicado ao Dr. É uma prova não apenas do respeito e da admiração que sentem em relação à inesquecível persona- lidade do Dr.

homem africano originário de um meio rural. cia e determinação. o mundo. mas e todos os que se interessam pela liberdade e pelo progresso dos povos sim de ter sabido integrar-se na realidade do seu país. Com efeito. ele como operário estagiário numa exploração agrícola. professor na Universidade de Siracusa. pegar em armas para destruir ou. inteligên. morte foi. pelo menos. o cérebro da propaganda nazi. com efeito. que depende dos experiências quantas vezes perturbadoras do mundo de hoje. Eis o que estivemos de acordo com o nosso camarada Eduardo Mondlane. doutor pela Northwestem University. depois desse longo trajecto. A história ensina-nos que. a resistência cultural (indestrutível) poderá assumir formas um exemplo fecundo: enfrentando todas as dificuldades. em determinadas circunstâncias. Deu assim factores internos e externos que determinam a evolução da sociedade em questão. política). caído como combatente pela mesmo sendo todos tarados como Hitler. enriquecido pelas ro da sua perpetuação. uma perda também para o nosso povo. ouvia falar de cul- Estados Unidos. Se considerarmos o breve período durante o qual trabalhou mente que. económicas. Eduardo Mondlane sar a sua vida cultural. é fácil A vida de Eduardo Mondlane é. vas de evolução. filho de camponeses e de um chefe tribal. na personalidade de um com. centraremos a nossa cido do Dr. possa ter uma vida cultural. aliás. para neutralizar e parali- O importante é que. libertando-se dos compromissos de alienação cultural (e. Num determinado momento.que foram e das Nações Unidas. não podendo garantir definitivamente a sua africana colonial: do campesinato à «pequena burguesia» assimilada e. fugindo às ten- novas (políticas. armadas) para contestar com vigor o domí- tações. Mas ensina-nos igual- experiências. criança educada Um cruel dilema para o colonialismo: por missionários. liquidar ou assimilar? nial. tinham uma clara noção do liberdade do seu povo. aluno negro das escolas brancas do Moçambique colo. alto funcionário tura. verificamos que o só se pode manter com uma repressão permanente e organizada da vida seu ciclo de vida engloba praticamente todas as categorias da sociedade cultural desse mesmo povo. Quereríamos igualmente afirmar que o grande mérito Se conseguirmos convencer os combatentes da libertação africana de Eduardo Mondlane não foi a sua decisão de lutar pelo seu povo. acima de tudo. valor da cultura como factor de resistência ao domínio estrangeiro. o seu povo e dedicar-se à causa da libertação nacional e social. Eduardo Chivambo Mondlane. aberta para população dominada. para os seus problemas para as suas contradições e perspecti. Isso demonstra que os nazis . auxiliado na juven- tude por uma fundação americana. implantação a não ser pela liquidação física de parte significativa da no plano cultural. tura que ele foi. Eduardo Mondlane. 357 356 . pegar em armas para dominar um povo é. identificar-se com nio estrangeiro. soube reencontrar as suas próprias raízes. Quereríamos apenas reafirmar a nossa conferência num problema essencial: as relações de dependência e de admiração pela figura de africano patriota e de eminente homem de cul- reciprocidade entre a luta de libertação nacional e a cultura. sejam quais forem os aspectos materiais desse domínio. identificar-se com africanos da importância decisiva deste problema no processo da luta. cuja os imperialistas lhe não perdoaram. do universo rural a uma cultura universal. teremos rendido uma significativa homenagem a Eduardo Mondlane. particularmente rica de ao estrangeiro impor o seu domínio a um povo. enquanto existir uma parte desse povo que foi capaz de realizar o regresso à aldeia. estudante universitário na racista África do Sul. Em vez de nos limitarmos a problemas mais ou menos importantes Outros oradores já traçaram o retrato e fizeram o elogio bem mere- da luta comum contra os colonialistas portugueses. o seu povo e aculturar-se pela luta que dirigiu com coragem. presidente são a expressão mais trágica do imperialismo e da sede de domínio - da Frente de Libertação de Moçambique. É que. portan- to. o domínio estrangeiro não poderá estar segu- batente pela libertação e pelo progresso do seu povo. empunhava a pistola. bolseiro de uma Universidade dos Quando Goebbels.

baseado numa ditadura (ou democracia) racista. O nítido fracasso desta casso de diversas tentativas de domínio estrangeiro como o de alguns «teoria». seria uma destas A libertação nacional. de indivíduos. da realidade material e histórica da sociedade dominada ou que. encar. A prática do apartheid traduz-se por uma A característica principal. O ideal. a evolução das relações entre o homem e o seu meio e entre os homens É. aplica. de facto. entre os indivíduos. ou seja. assim como entre socie- va das populações nativas. tanto nas É igualmente o caso da pretensa teoria do apartheid. como em qualquer espécie de domínio exploração desenfreada da força de trabalho das massas africanas. Fruto da história de um povo. feudal e capitalista da África Austral por uma minoria racista. mais ou menos dades diferentes. por exemplo. é a negação do processo histórico do povo dominado por ceradas e reprimidas no mais cínico e mais vasto campo de concentração meio da usurpação violenta da liberdade do processo de desenvolvimen- que a humanidade jamais conheceu. este é. co e político de um povo. sociedades humanas. A ignorância desse facto poderia explicar tanto o fra- violenta. a expressão mais cria um vácuo que rouba ao domínio estrangeiro conteúdo e objecto: o ou menos dinâmica do tipo de relações que prevalecem no seio dessa povo dominado. Demonstram igualmen- -ou conseguir impor-se sem afectar a cultura do povo dominado. criada. te a íntima ligação. que não passa de uma tentativa. eli. perante a realidade cultural do povo dominado. se não mesmo Vejamos o que é a libertação nacional. as camadas sociais ou as classes. a dominar. por um permanente estado de sítio para as populações amente a história pela influência positiva ou negativa que exerce sobre nativas. o caso da pretensa teoria da assimilação progressi. a cultura é a resultante mais ou menos cons- A primeira hipótese implica o genocídio da população indígena e ciencializada das actividades económicas e políticas. to das forças produtivas. e. entre as quais movimentos de libertação nacional. formas como no conteúdo. na prática. imperialista ou não. acto de cultura alternativas: -ou liquidar praticamente toda a população do país dominado. harmonizar o domínio económico e político desse povo com facto cultural e o facto económico (e político) no comportamento das a sua personalidade cultural. -humanidade que isso importa. o modo de produção. Portugal. seja qual for o grau do seu desenvolvimento. posta em prática por algumas potências coloniais. de dependência e reciprocidade.que poderia ser chamada o dilema da ro reside no facto de ela ser a manifestação vigorosa. Com efeito. nal perante o domínio imperialista. os grupos tem viabilidade prática: não é possível harmonizar o domínio económi. diferente dos outros tipos de domínio estran- da e desenvolvida com base no domínio económico e político do povo geiro que o procederam (tribal. em cada momento da vida de uma sociedade (aberta ou fechada). por um lado. do tempo da livre concorrência). de negar a cultura do povo em questão. o valor da cultura como elemento de resistência ao domínio estrangei- Para fugir a esta alternativa. que existe entre o isto é. o nível de desen- volvimento das forças produtivas e o regime de utilização social dessas forças (regime de propriedade) determinam o modelo de produção. Estes factos dão bem a medida do drama do domínio estrangeiro minando assim as possibilidades de uma resistência cultural. no plano ideológico resistência cultural. Como é sabido. não passam de grosseiras formulações do racismo e se tra. A grande experiência da humanidade permite admitir que não colectivamente) e a natureza. (considerado individual ou história. numa dada sociedade. é a prova mais evidente da sua inviabilidade. a cultura determina simultane- duzem. a libertação naciO- que a África não existe. Ora. com todos os crimes de lesa.o domínio colonial imperialista tentou criar teorias ou idealista. Consideramos esse fenóme- do seu carácter desumano. em que Salazar afirma no da história no seu contexto contemporâneo. ou grupos humanos no seio de uma sociedade. No caso português. Quan- to a nós. cujas contradições se manifestam com 358 359 . imperialista. por outro. para esse domínio. A segunda hipótese não foi até hoje confirmada pela sociedade. entre o homem. aristocrata-militar. atinge mesmo o mais elevado grau de absurdo.

é o factor prin. nível O objectivo da libertação nacional é. to inalienável que tem qualquer povo. as forças produtivas nacionais são por outro lado. é assim um elemento essencial da história mente livre a não ser que. de criar o progresso. A liber- jectivamente) existentes entre os diversos elementos ou os diversos con. maior ou menor intensidade por meio da luta de classses. a faculdade de deter- juntos que formam a sociedade em questão: relações e tipos de relações minar livremente o modo de produção mais adequado à evolução do entre o homem e a natureza. desenvolvimento das forças produtivas nacionais. totalmente libertadas de qualquer espécie de domínio estrangeiro. relações e tipos povo libertado. adoptadas ao nível do direito internacional. nacional quando. sem complexos e sem subestimar a importân- de um povo. o tipo de relações materiais (expressas objectiva ou sub. políticos e sociais na prática desse domínio. cos. elaboradas e fixadas pela consciência social para a solução desses conflitos. se o domínio imperialista tem como necessidade vital praticar a ou menos influenciada por factores externos. Há assim libertação ponentes. A direcção desse movimento pode assim ter uma noção 360 361 . da realidade viva do meio. Com base no que acaba de ser dito. das forças produtivas e o regime de utilização social dessas forças. indi. afirmação da personalidade cultural do povo dominado como acto de dutivas a verdadeira e permanente força motriz da História. o fundamento da libertação nacional reside no direi- objectiva ou subjectivamente) existentes entre o homem e o seu meio. em cada fase da História o re. e negue tanto as influências nocivas como Mergulha as suas raízes no húmus da realidade material do meio em que qualquer espécie de subordinação a culturas estrangeiras. usurpado pelo domínio imperialista. ção à natureza. abre necessariamente perspectivas novas ao processo de relações entre os componentes individuais ou colectivos de uma socie. ao desenvolvimento do movimento de libertação. te de uma planta. opressão cultural. podemos considerar o movi- O estudo da história das lutas de libertação demonstra que são em mento de libertação como a expressão política organizada da cultura do geral precedidas por uma intensificação das manifestações culturais. ou seja: a libertação do processo de ca o estado em que se encontra uma sociedade e cada um dos seus com. vitoriosa ou não. negação da cultura do opressor. em cada sociedade. Um povo que se liberta do domínio estrangeiro não será cultural- listas das suas manifestações. Como a história. Falar disso é falar de história. ou porque é a história. Indica e condiciona o tipo de relações materiais (expressas Quanto a nós. levando à estruturação e natureza. em busca de sobrevivência e progresso. é em geral no facto que se encontra essa sociedade e cada um dos seus componentes face à cultural que se situa o germe da contestação. Indica e condiciona. É talvez a resultante dessa história como a flor é a resultan. tação das forças produtivas e. um acto de cer a natureza e a extensão dos desequilíbrios e dos conflitos ( económi. A cultura. se concretizam progressivamente por uma tentativa. da cipal da história de cada conjunto humano. Sejam quais forem as condições de sujei- O nível das forças produtivas indica. mas é igualmente falar de cultura. em cada O carácter de classe da cultura etapa da evolução dessa mesma sociedade. cultural da sociedade em questão. consequentemente. sejam quais forem as fórmulas O modo de produção que representa. políticos e sociais) que caracterizam a evolução de uma sociedade. em cada ção de um povo ao domínio estrangeiro e a influência dos factores eco- conjunto humano considerado como um todo em movimento. conferindo-lhe toda a sua capacidade dade. e apenas quando. Se a história permite conhe. Vemos assim se desenvolve e reflecte a natureza orgânica da sociedade. a cultura permite saber quais foram as sínteses dinâmicas. que povo em luta. perante ela mesma e perante a História. sendo o nível das forças pro. a cultura tem retome os caminhos ascendentes da sua própria. sultado da pesquisa incessante de um equilíbrio dinâmico entre o. portanto. cultura. cia dos contributos positivos da cultura do opressor e de outras culturas. a sua capacidade de agir ou de reagir conscientemente em rela. de ter a sua própria história. sejam quais forem as características ideológicas ou idea. entre o homem e o seu meio. a reconquista desse direito. o estado em nómicos. podendo ser mais que. a libertação nacional é. cultura que se alimenta como base material o nível das forças produtivas e o modo de produção. necessariamente.

assimila a mentalidade do mento de libertação. por outro lado. como ainda provoca não é contudo uniforme. por ignorância ou má-fé. do seu povo. desse processo de divisão ou de aprofundamento das divisões no seio da renças e níveis de cultura que explicam os diferentes comportamentos sociedade. a distribuição dos níveis de cultura é mais ou menos unifor- Actualmente. pertence e cujos valores culturais ignora ou despreza. populares e na comunhão dos sacrificios que a luta exige. como a sociedade balanta. especialmente dos indivíduos de uma mesma categoria sócio-económica face ao movi.a distribuição horizontal e vertical dos níveis de cultura tem desse grupo perante o movimento de libertação. como a dos Fulas. Como resultado influenciada pela sua cultura. das aldeias às cidades. tomar em consideração o facto de que. de uma classe social a outra. a cultura era considerada como o apanágio de povos há variações importantes desde o cimo à base da pirâmide social. as características culturais de cada categoria têm um lugar de pri. o colonizador não só cria um perfeito sistema mordial importância. to de libertação deve ser capaz de fazer em função dos imperativos da A experiência do domínio colonial demonstra que. no contacto quotidiano com as massas variações significativas do nível quantitativo e qualitativo da cultura.pode verificar-se antes da luta. sejam quais forem as con. a «pequena burguesa» urbana ou campesina.para a sua etmco a outro. se confundia demonstra uma vez mais a íntima ligação entre o factor cultural e o factor cultura e tecnicidade. Podemos mesmo admitir que são as dife. Esta situação. como afir. Essa reconversão - ou menos assimilado. característica da maioria dos intelectuais colonizados. do povo. deve ter consciência do facto de que. seja qual for o nível do seu desenvolvimento económico. É certo que a multiplicidade das categorias sociais e étnicas cria uma dições materiais da sociedade que representa.e diríamos mesmo de alienado. representante e defensor da cultura sectorial desses dois grupos étnicos face ao movimento de libertação. se não mesmo cultura e cor da pele ou forma dos económico e explica também as diferenças no comportamento global ou olhos. no entanto. compreender o carácter de massa de libertação. para o movimento de libertação. mas também profundamente social entre as elites autóctones e as massas populares. mento de libertação. quer por meio tores da sociedade. de indivíduo para indivíduo. Isso ou nações privilegiadas e em que. Revela-se assim indis- certa complexidade. tomou-se um lugar comum afirmar que cada povo tem me. mesmo nos casos em que esta categoria está ou Numa análise profunda da estrutura social que qualquer movimen. dentro mesma categoria social há se completa no decurso dela. e deve. ção com os problemas fundamentais e as aspirações da sociedade. Pois embora a cultura tenha um carácter de massa de repressão da vida cultural do povo colonizado. perpetuar a exploração. domínio dos povos. Já lá vai o tempo em que. de um grupo pensável uma reconversão dos espíritos. não se desenvolve igualmente em todos os e desenvolve a alienação cultural de parte da população. esses factos em consideração é uma questão de primordial importância É preciso. certa complexidade na determinação do papel da cultura no movimento ra de cultura. vai cristalizando tação da possibilidade de modificação no sentido do progresso. te a perspectiva da independência política. Com efeito. acei. que não é. nas sociedades de estrutura vertical. reafricanização. apanágio decisiva do carácter de classe da cultura no desenvolvimento do movi- um ou de alguns sectores da sociedade. numa tentativa para perpetuar 0 aos grupos etários. à medida que aumentam os privilégios sociais do grupo assimilado ou . esta é portadora e criado. clara da cultura no âmbito da luta e conhecer profundamente a cultura Se nas sociedades de estrutura horizontal. A atitude de cada categoria social perante a luta é da pretensa assimilação dos indígenas. a ambição e o oportumsmo 362 363 . do camponês ao operário ou ao intelectual indígena mais verdadeira integração no movimento de libertação. sucede que parte considerável da população. O movimento de libertação. parece estar embrionária. identifica. estando as variações apenas ligadas às características individuais e a sua cultura. Nas condições específicas do nosso país . mas é indispensável não perder de vista a importância o carácter popular da cultura. mas só mámos. quer pela criação de um abismo ditada pelos seus interesses económicos. na tentativa de luta. E é aí que a cultura atinge todo o seu significado colonizador e considera-se como culturalmente superior ao povo a que para cada indivíduo: compreensão e integração no seu meio. no nosso caso. nem poderia ser. tendo implicações directas no comportamento dos indivídu_os Africa .das mentalidades. por exemplo. e mesmo.

Eis populares. Definir progressivamente uma cultura nacional dade com os dirigentes religiosos. cria postos de chefe onde não existiam. Tal como no plano político. a autoridade política dessa classe (chefes tradi. o prestígio e a influência cultural uma verdade que o movimento de libertação Ignorar. a classe dirigente man. que reprime ou inibe solicitações de natureza cultura1 . caracterizado por uma total ai lenaça. cu. famílias nobres. assimilados. basear a sua acção cultura impossível que.que afectam em geral o movimento de libertação podem levar à luta indi. o caso da classe dirigente fula.fase primária do movimento de hbertaçao quentemente do que no caso da «pequena burguesia» assimilada. Isto revela como a vigilância é indis. dirigentes religiosos) é puramente nominal e as classe no comportamento das diversas categonas soctals. mais fiéis aliados do opressor se encontram alguns altos e portamento das categorias privilegiadas do meio rural. os seus znteresses de classe. Mas ainda neste caso a vigilância é indispensável: mantendo bem víduos não reconvertidos. Nas condições seu domínio político e cultural absoluto sobre o povo. dando uma contribuição entusiasta à causa da libertação. concretas e bastante complexas do processo do fenómeno do movimen- to de libertação. etc. entre as classes dirigentes. É. as influências da assimilação ou alienação cultural são nulas medida da influência (negativa ou positiva) da e dos ou praticamente nulas. revela igualmente os limites dessa influência e a do factor cionais. reafncamzada ou dlspomvel pa 364 365 . embora menos fre.tonal ou tém. No âmbito geral da contestação ao domínio colonial impe1ialista e mesmo os mais célebres. por exemplo. A contestaç- indivíduos que adiram ao movimento de libertação. mais ou menos aceites pelas populações. Mas nem tudo isto toma de libertação deve.os Consciente desta realidade. acima de tudo. organiza viagens a Meca. na opção política. Vários . E. ra É' que essas duas categorias colocam acima de todos os dados ou · tr spirações do povo . com implicações políticas de grande importância. o colonialismo. Contudo. nos s seus preconceitos culturais de classe. Se esse facto da uma representantes d a c Iasse m .tural do domínio colonial.o de e age nas administrações coloniais. especialmente no intelectuais de profissão liberal.podem ser alienados culturais. a opressão colonial sobre a sua própria classe e restabelecerem ass1m o pensável. tanto no plano da cultura como no da política. os privilégios económicos e sociais da que as classes ou camadas privilegiadas podem dar à luta. incluindo a educação dos filhos mais velhos. haja indivíduos ou gmpos de lar seja qual for a diversidade dos níveis de cultura no pats. garante. identifica-se. e sem minimizar a contribuição positiva sivos da administração colonial. políticos. incluindo a seu decurso. com base no seu nível de instrução. por intermédio dos órgãos repres. sob pena da classe dirigente. e elevado nume. no essencial. verifica-se que os Mas o carácter de classe da cultura é ainda mais sensível no com.só pode ser encarada eficazmente com base na cultura das massas tra- chefes tradicionais e religiosos integram-se na luta desde o início ou no balhadoras dos campos e das cidades. Sob o domínio colonial. estabelece e incrementa relações de cordiali. concede-lhes vários privilégios materiais. e sem perderem em nada os vêem em geral no movimento de libertação o único va I o seus preconceitos culturais de classe. constrói mesquitas. sociais e culturaiS da luta. o movimento classe dirigente em relação às massas populares. com o chefe tradlc. podem atingir os postos mais ele. consegmrem ehmmar vados do movimento de libertação. Estes.o de que se refere às etnias que dispõem de uma estrutura social vertical. Instala chefes que gozem da sua confiança e sejam de trair os objectivos económicos. d' 'gente dos meios ruraiS. nem tudo o que brilha é ouro: dirigentes políticos . cultural. apoia e protege na cúpula. servindo-se dos sacrifícios das massas populares. nas condições concretas a que nos referimos. nacionalista (revolucionária). no entanto. no plano cultural.e con a as a . pela raiz as manifestações culturais significativas da parte das massas seus privilégios económicos e sociais. onde. O alto massas populares têm a consciência de que a verdadeira autoridade resi. nário ou o intelectual assimilado. os indivíduos desta categona o ']'d seus conhecimentos científicos e técnicos. a sua autoridade cultural sobre as massas populares gioso que não sofreu qualquer influência cultural Significativa estrangei- do grupo. culturais no problema da opção política face ao movimento hbertaçao.

de cada categoria. O mesmo se poderia dizer de reaccwnano. dando-lhes uma nova dimensão. A história mostra que do continente e são. A era colonial instalou-se em todos os crimes da exploração que procumndo a liberdade e o progresso. a cultura dos povos africanos desabrocha hoje de novo. os seus êxitos ou fracassos Quanto maiores são as diferenças entre a cultura do povo dominado ção da sua evolução. reflectida na determina- truída. As elites fiéis à histó- que part1c1pam na luta. perseguida. nas soc1a1s pam a luta. terá sido ignorar ou subestimar a pete no ambJto do desenvolvimento do movimento de libertação.todas as dificuldades e todos os sacrifícios. 366 367 . ções de vítimas do colonialismo. Fruto e prova do vigor cul- cultura semelhante ou análoga à do conquistador. Peran- Africano e a sua condição de ser social. português. nas lutas de libertação nacional. por um A resistência política e armada dos povos das colónias portuguesas. a luta de libertação é. modernos ou contemporâneos. tanto na forma como no conteúdo. Seja qual for a complexidade desse panorama cul- económicas e políticas das suas guerras de conquista. o erro de subestimar a nossa realidade cultuml. Essa unidade tmduz-se.a dimensão nacional. rioridade técnica do conquistador imperialista. mais possível se toma esta vitória. traída por algumas categorias sociais . mas que assimilou. reconversão cultural. na sua maioria. por outro. trata-se igualmente de uma realização as tempestades refugiada nas aldeias. como ainda teimou em proibir- te esta necessidade. uma luta tanto -lhe qualquer espécie de actividade política. lado. foi não ter sabido tuml de o movimento de libertação deve ser capaz de nele distin- (ou podido) limitar as suas ambições ao domínio dos povos cuja cultura gUir o do secundário. o positivo do negativo. Reprimida. Como a semente que espera durante muito tempo as condições pro- pícias à germinação para preservar a continuidade da e garantir a sua evolução. Talvez se possa mesmo tural. a cultura africana sobreviveu a todas Vltona politica e moml Assim. 0 progressivo do era mais ou menos semelhante à França. O povo de Portugal. Um dos erros mais graves. fossem quais fossem as motivações ao desenvolvimento da cultura. Foram massacradas populações divergentes. O processo desta deve harmonizar os interesses ria e à cultura do povo foram destruídas. antigos. paga hoje muito caro. que não se con- defimdo. A derrota cultural do colonialismo através de todo o continente. Mas a resistência cultural do povo africano não foi des- por amplas camadas da população. a luta de libertação dos povos de África abre novas perspectivas afirmar que a derrota de Napoleão. outros impérios. acima de tudo. que pela preservação e sobrevivência dos valores culturais do povo como pela não gozou as riquezas usurpadas aos povos africanos pelo colonialismo harmomzação e desenvolvimento desses valores num quadro nacional. se não mesmo o mais grave. ao serviço do progresso. cometido que a cultum possa desempenhar o papel importante que lhe com- pelas potências colonais em África. a mentalidade imperia- A do movimento de libertação e do povo que ele lista das classes dirigentes do seu país. Esta atitude é particularmente evi- saber preservar os valores culturais positivos de cada grupo social bem dente no que se refere ao domínio cultural português. pam camcterizar a linha mestra da definição progressiva de uma cultura nacional. nas florestas e no espírito de gera- cultuml dec1s1va pam o desenvolvimento ulterior e 0 êxito do movimen- to de hbertação. A tomada de consciência o caracterizam. por uma Identificação total do movimento com a realidade do meio tal como dos outros países ou regiões de África. foi esmagada pela supe- e com os problemas e as aspirações fundamentais do povo e. com a cumplicidade ou por cultural progressiva das diversas categorias sociais a traição de algumas classes dirigentes indígenas. resolver as contradições e definir os objectivos comuns inteiras. este deve força cultural dos povos africanos. realizando a confluência desses valores no sen- tentou em negar absolutamente a existência aos valores culturais do tido da luta. é uma grande comprometidas com o colonialismo. elas marcam o início de uma nova fase da h1stona : a do opressor. em três e dmge 1mphca a realização da unidade cultural das catego- guerras coloniais. o facto cultural e menos dlf'ícll dominar do que preservar o domínio sobre um povo de mais importante da vida dos povos africanos. Sejam quais forem as formas dessas lutas.

E isso porque. a cada momento.criação da sociedade e síntese dos equilíbrios s . e e o progresso dos não são menos prejudiciais: os elogios não selectivos. mamiCo as estruturas economicas. do Saara ou Tombuctu a Kilwa. igualmente que a cultura. não implica necessariamente que exista uma única no continen- cos d a grandeza do homem. de reac- rança.seja uma realidade social independente da von- como diz o poeta. a exaltação siste- mática das virtudes sem condenar os defeitos.. se veri- fica a existência de várias Áfricas. Sá da Costa. não devemos no entanto esquecer que o africano cada fase da História . . ' eia comparavel aos mawres exemplos históri. fez muito mal a África. As coordenadas so as plantas e dos animais como também do homem p d d' da cultura. social e cultural. factores de progresso e estagnação ou regressão. publicado em Sagrada Espe- cionário ou de regressivo. a confusão entre o que é a expressão de uma 368 369 . virtudes e defeitos. a cega aceitação dos valores (2) Referência ao poema «Confiança» de A ostinh N . esta realidade constitui um motivo de orgulho e um necessidade vital do progresso. com a realidade económica e social do meio. de Mero é A cultura. · o e Izer-se. • mpre. é um todo perfeito e acabado. da cor da pele ou da forma dos olhos. O facto de reconhecer a existência de traços comuns e espe- político. a História.cistas. do ponto de vista económico e político. de uma «raça» ou mesmo de uma sociedade. politicas e sociais que o homem africano so b . . a realidade a Bemn e_ Ife. g o eto. aspectos posi- ças. face à Como é óbvio. em desenvolvimento. há também várias culturas africanas. De Cartago ou Guizeh ao Zimbabwe. com o nível culturais. sua pele. incluindo os flagelos não continente. dos pântanos tender que existem culturas continentais ou raciais. não se pode pre- . d tivos e negativos. independentemente da cor da ro o mew são uma epop · · . te: da mesma forma que. e o valor umversal da cultura africana é. como ? Itoral as margens dos grandes rios sujeitos a cheias frequentes atra. Mas. tal como as de qualquer fenómeno em evolução. face aos conflitos que os opõem à natureza e aos imperativos da africanos e um facto Inegável: tanto nas obras de arte como nas tradições vida em comum. «colocaram pedras nos alicerces do tade dos homems. de dependência e nem convencem os ra. ao nível de um contra todas as dificuldades. é necessa- assou Ja o tempo em que era necessário procurar argumentos ara riamente um fenómeno em expansão. do homem-indivíduo e do homem-ser da das condJçoes naturais do continente.ru nao Interessam fundamental de uma cultura é a sua íntima ligação. 1974. Revelou-se mesmo como sendo um dos continentes mais de forças produtivas e o modo de produção da sociedade que a cria. os seguintes factos ou comportamentos elemento estnnulante para os que lutam pela liberdad . 0 » ( ). face ao carácter cíficos nas culturas dos povos africanos. portante ainda é ter em consideração o facto de que a característica vy. A cultura. É fora de dúvida que a subestimação dos valores culturais dos povos A dinâmica da cultura africanos. Apesar do domínio colonial (e talvez por causa desse dommio). d acor o com Bas!l Davidson e outros historiadores das sociedades e espaço e no tempo. fruto da História. nas rehgwes e crenças como no equilíbn'o d' . Mas importa não perder de vista que nenhuma cultura p . que as realizações do génio africano nos !anos cas e sociais). da cultura sem considerar o que ela tem ou pode ter de negativo. quer sejam materiais (físicas) ou humanas (biológi- as africanas. Mais im- provar a matundade cultural dos povos africanos.. a desenvolveu em condições se não se Numa análise mais profunda da realidade cultural. Daí · · . pe1o menos fre- hostis: dos desertos às florestas equatoriais. através da imensidade e material e espiritual da sociedade. Daí que qualquer cultura comporte elementos essen- orais e nas concepções cosmogónicas como na música e nas dan. presentemente um facto e soluções que elabora para resolver os conflitos que a caracterizam em Incontestável. reflecte. a Africa soube impor o respeito pelos seus valo.. variam no de d . forças e fraquezas. Riqueza cultural da África povos africanos. baseada nos sentimentos racistas e na intenção de perpetuar a sua exploração pelo estrangeiro. a cultura se desenvolve num processo desigual. ciais e secundários. tal como a história. uecnar. A irracionalidadepdas «teonas» racistas de um Gobineau ou de um Lé B h! . ncos val?res culturais. reciprocidade. a cultura dos povos social. Lisboa..

reaccionários. tica para se Situar no plano superior da libertação total das forças produ. para que possa utilizar eficazmente as for. que lhe permitem aceitar movimento libertação ultrapassa a conquista da independência polí. do espírito ou o resultado de uma natureza específica. no âmbito geral da luta pelo progresso. tudo isso em função das exigências da luta e para pico e absurdo pretender aplicar esquemas utilizados por outros povos poder centrar a sua acção no essencial sem esquecer o secundário. um obstáculo ao desenvolvimento da luta e à construção fica. os elementos dessa cultura. do fenómeno cultural. assim como os diverso. o que importa não é perder tempo em discussões para enfrentar a violência colonialista. tanto no plano acção no conhecimento profimdo da cultura do povo e saber apreciar político como militar. níveis de cultura das diversas categorias sociais disponíveis para a luta dro da civilização universal. social e cultural do povo. de uma base satisfatória de unidade política e moral. passo a passo mas solida- mento de e às exigências do progresso -face a esta nova etapa mente. para mteressa é proceder à análise crítica das culturas africanas face ao movi. a ligação absurda mais evidente se torna a necessidade de proceder a uma análise selectiva das criações artísticas. finalmente. o movimento de libertação deve ser capaz. no conjunto dos valores culturais do povo. uma fonte inesgotável de coragem. realizada numa ou em diversas fases da sua evolução. Isso obriga com fre- de distinguir. ou transformá-las em forças. durante a sua luta de libertação e soluções por eles encontradas para os vocar o desenvolvimento dos elementos positivos e progressistas e com. zas do povo face às exigências de luta e representa. sob a direcção de uma organização política valores culturais africanos. o positivo e o negativo. são. Convém notar que a determinar. pro. especialmente. com diplomacia mas rigorosamente. Pode dizer-se que. no decurso da evolução da sua acção política. desencadeada a partir pelo seu justo valor. sob alguns aspectos. uma con- O movimento de libertação deve. nem a direcção dos movimento de libertação nem as massas mili- tantes e populares têm uma consciência nítida do peso da influência dos valores culturais na evolução dessa mesma luta: quais as possibilidades A cultura nacional. sacrificios e mesmo fazer «milagres». como pode ser uma fonte de obstáculos e dificuldades. no início da luta. o progressista e o reaccionário. qual é a contribuição análise da realidade cultural dá já uma medida das forças e das fraque- que deu e deve dar e quais são as contribuições que pode e deve receber. a confluência dos da história da Africa. a pretensas características dos valores da cultura no âmbito da luta. ração. sólida e disciplinada. os elementos negativos e (e. mas para volvimento da luta armada e que é a sua condição. em geral. as que só a luta pode revelar. de efectuar. e. igualmente. de concepções 370 371 . como e quanto a cultura é. sejam válidas ou não. Deve igualmente ser capaz problemas culturais surge em toda a sua amplitude. e. o essencial e 0 quência a adaptações sucessivas da estratégia e das tácticas às secundário. Tal necessidade torna-se mais aguda nos casos em que. não para determinar a sua superioridade ou inferioridade. a fim de recorrer à violência libertadora . como já dissemos. portanto. para o povo. a apreciação critica não científica ou a-cientí. sem considerar a realidade local bater.a luta quista de uma parte da humanidade para o património comum a toda a armada de libertação nacional. A experiência da luta demonstra como e uto- forças e as fraquezas. a realidade cultural). realidade histórica objectiva e material e o que parece ser uma criação tivas e da construção do progresso económico. de mews mate- Quanto mais tomamos consciência de que a principal finalidade do riais e morais. a complexidade dos níveis que atinge em cada categoria social. mas comparar este valor com os das outras e transformá-los na força cultural nacional que serve de base ao desen- culturas. quais os limites que impõe e. Poderemos assim ter consciência do seu valor no qua. seja qual for o seu grau de prepa- ças e eliminar as fraquezas. principalmente. Os valores negativos da cultura de uma raça. o movimento de libertação tem de mais ou menos bizantinas sobre a especificidade ou não especificidade dos mobilizar e organizar o povo. condição do desenvolvimento da luta que cria. Mas só no decurso da luta. Da mesma forma. finalmente. o que Nesta perspectiva. desse progresso. de energia fisica e psíquica. mas sim encarar esses valores como uma con. problemas que tiveram que enfrentar. basear a sua tribuição valiosa para a estratégia e as tácticas a seguir. além da análise acima exposta.

A luta armada de libertação implica. de desvios no cumprimento do dever e de limita. gressivamente no pais e no mundo.cultivam-se e libertam- -se de complexos. como seres incapazes. os seguintes: sociais. a alfabetização. no seio das dade crescente das populações na gestão da sua vida. inerentes a uma luta armada de liberta- cidades (operários. assimilando os princípios da revo- do . sem dúvida alguma. inferioridade social mas eficaz para o desenvolvimento do nível cultural. Por seu lado. e até por alguns nacionais. motoristas. parte populaçoes mnda ontem esquecidas e mesmo desprezadas e considera- integrante e determinante da luta. acabam por melhor conhecer o povo. Essa é. originários da «pequena verdadeira marcha forçada no caminho do progresso cultural. vida das populações.) e opera ainda muitas outras modificações profundas na sociais que participam na luta. uma Os do movimento de libertação. em especial. tendo de viver ção. complexos que os limitavam nas relacões com outros grupos étnicos e pelo menos. a riqueza povo. burguesia» (mtelectuais. reforçam a consciência política. a formação de quadros ori- fonte a riqueza dos seus valores culturais (filosóficos. culturais positivos. adquirem uma consciência mais nítida das -veremos que a luta armada de libertação é não apenas um facto cultu- realidades económicas do país. nos contactos com outras categorias. nepotismo. para desempenhar o papel decisivo de força principal do movimento de libertação. da critica e da autocrítica. adquirem uma infinidade de novos 373 372 . das colomzador. Instrumento de unificação organização de uma maioria significativa da população. para das populares. esses objectivos podem ser. a primeira compensação aos esforços e sacrificios que são o 0 de espmto. assalariados em geral). ritos e práticas incompatíveis com o carácter racional e nacio- dmgentes do movimento de libertação como das diversas categorias nal da luta. o uso eficaz de armas modernas e de outros meios de guerra. Tornam-se mais aptos assim e cientificas da guerra. Perante esta perspectiva compete ao movimento de a de compreensão e assimilação dos conceitos por parte das libertação definir daramente os objectivos da resistência cultural. lidade tribal. políticos. úteis à sua actividade imediata e futura no âmbito da da realidade. empregados) ou dos meios trabalhadores das Se aliarmos a estes factos. as massas trabalhadoras e. portanto. dos problemas. conhecimentos. a liquidação progressiva dos restos de menta- _ A luta armada de libertação. Constatam. sofrimentos e aspirações ral mas também um factor de cultura. ao Os objectivos da resistência cultural serviço do povo. os campone. descobrem na criação de escolas e de assistência sanitária. revela-se como um instrumento doloroso ao desenvolvimento da luta (gerontocracia. Como é sabido. tanto das camadas da mulher. não sem um certo espanto. autóctones. preço da guerra. técnicas lução nacional e social postulada pela luta. a capacidade de argumentação e de exposição clara das ideias. quebram as do universo da aldeia para se integrarem pro.ntmo e da eficácia da luta face às exigências políticas. luta. no quadro ses. geralmente analfabetos e que nunca ultrapassaram os limites da da conquista da independência nacional e na perspectiva da construção aldeia ou da perdem. a prática da democracia. a responsabili- com as diversas camadas componesas. os do progresso económico e social do povo.assim como outras realizações sociais e morais). ginários dos meios rurais e operários . desencadeada como resposta à agres. Os dmgentes ennquecem assim a sua cultura. reforçando a capacidade de servir o movimento. compreendem a sua condição de elementos determinantes da -desenvolvimento de uma cultura popular e de todos os valores luta. a luta armada de libertação exige a mobilização e a A luta armada. etc. a ruraiS. a unidade política e de progresso cultural e moral das diversas calegorias sociais. a recusa das regras e dos tabus sociais e religiosos contrários sao do opressor colonialista. De tudo o que acabámos de dizer pode concluir-se que.

.desenvolvimento de uma cultura nacional baseada na história e d M dlane contra o povo nas conquistas da própria luta. . Deve traduzir-se. Pode dizer-se que Eduardo Mondlane foi selvaticamente assassina- do porque foi capaz de se identificar com a cultura do seu povo. nas condições concretas da vida dos povos africa- nos. no quadro da luta de libertação do seu povo. compatível com as exigências do progresso. ..elevação constante e generalizada dos sentimentos de humanismo e solidariedade.ten am -desenvolvimento de uma cultura científica. . . · dá bem a me 1 a . ISSO . com base numa assimilação crítica das conquis. Se tal não se verificar. Quanto a nos. ortu ês e os agentes 1mpenahstas 0 trágica. Porque. Foram e esq t dos os combatentes da hberda- . É evidentemente fácil acusar os colonialistas portugueses e os agentes 375 374 . d das responsabilidades dos que .elevação constante da consciência política e moral do povo (de Africa. ao homem de cultura.ao movimento de hber- mana. no momento da vitória. mas principalmente no seio do seu povo. e porque algo de P . d. A realização destes objectivos é. podem assassmar !mp odre continua a vegetar no seio da huma- Mondlane. aliados do crime abominável cometido contra a do impenahsmo. E po:. de uma cultura universal tendente a uma progressiva integra- nidade: o domínio impenahsta. seus ombros a pa . armada de libertação. neste templo da cultura. prestamos homenagem ao homem político. É no entanto neces- . Não apenas da cultura adquirida no decurso da sua vida pessoal e nos bancos da universidade. da literatura. seus ' de Moçambique e contra a . Eduardo Mon- dlane.desenvolvimento. do rac1smo . · . é um acto de fecundação da His- tória. 0 . Ao celebrar com esta cerimónia a memória do Dr. superficie do planeta. caiu como um combatente. Por ter fmjado uma cultura nova na luta. com efeito. defensores da cultura dos povos. com as suas mais profundas aspirações. por um salto em frente significativo da cultura do povo que se liberta. da justiça e do progresso. Eduardo . da ciência. possível. . Esta terá falhado os seus objectivos e o povo terá perdido uma oportunidade de progresso no âmbito geral da história. os homens de boa vontade. todas as categorias sociais) e do patriotismo. . . todos os espíritos sedentos e pazhe a coragem de tomar sobre os e dedicação à causa da independência. se o colomahsm p guhomem como o Dr. espírito de sacríficio sáno que to os o d de progresso_ todos os mJrn!gos de. . técnica e tecnológica do coloma11smo e b. . pessoa de Edu ar o on ' t ssassinaram.ue ão realizaram o seu dever à ção no mundo actual e nas perspectivas da sua evolução. enfrentando o desafio imperialista. l ue cobardemen e o a . respeito e dedicação desinteressada à pessoa hu. am a n . ao combatente da liberdade e. etc. pois a luta tação dos povos oprimidos. em re1aça0 nos ouvem . · · unemente um tas da humanidade nos domínios da arte. então os esforços e sacriflcios realizados no decurso da luta terão sido vãos. através e contra todas as tentativas ou tentações de alienação da sua personalidade de africano e de moçambica- no.d de que lhes compete nessa morte rte de responsa 111 a . especialmente. d s homens de cu1tura. a expressão máxima da nossa cultura e da nossa africanidade.