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ENTREVISTA

Paul Lovejoy
"A escravidão stá
por todos os lados"
le não exime ninguém. Quando o assunto é escravidão, o mundo intei-
ro entra em pauta. Professor da Universidade de York, em Ontário, no
Canadá, e referência certa nas pesquisas sobre a escravidão no próprio
continente africano, antes da chegada dos europeus no século xv,
Lovejoy vai direto ao ponto: "A história dos' descendentes africanos não
é somente deles. É a de todo mundo".
Naturalizado canadense, Lovejoy nasceu nos Estados Unidos. Efoi
ainda jovem que ele se envolveu com a História. Com o tempo, chegou
à América Latina, mas se apaixonou mesmo pela África. "Quando
percebi o quanto o continente era fascinante e o quanto as pessoas
eram incríveis ... isso simplesmente dominou minha vida", diz ele,feliz
por estar hoje celebrando o surgimento de uma geração de historiado-
res capacitados para tratar a África "de um modo cientlfico".
Em recente visita ao Brasil, Lovejoy conversou com a equipe da
Revista de História na residência de Alberto da Costa e Silva, espe-
cialista na História da África, e falou sobre a escravidão do passado
e suas implicações no presente. O Canadá vem à tona vez ou outra,
seja como liderança no cenário multicultural atual ou como porto
seguro para escravos fugidos dos EUA em meados do século XIX.
Lovejoy tratou das diferentes etnias africanas que atravessaram os
mares e do quanto os senhores estavam conscientes das caracterís-
ticas, origens e habilidades de seus escravos. E terminou nossa con-
versa com um alerta: "Um escravo é antes um indivíduo com uma
personalidade, desejos e heranças".
ntrevista J r Bruno Gorclo, Joice Santos e Rodrigo Eltas

REVISTA DE HISTÓRIA Como igualmente. Acho que nessas PL Com certeza. A escravidão
um canadense acabou virando duas décadas vimos os resul- é um problema para todo
especialista em História da tados desse investimento. É mundo. Às vezes ela é perce-
África? um verdadeiro fenômeno tudo bida como um problema para
PAUL LOVEJOY Eu me envolvi o que foi produzido nessas os povos da África ou para os
com a História quando ainda décadas, seja em termos quan- que são percebidos como des-
era jovem e lutava contra o im- titativos ou qualitativos. Não é cendentes africanos, mas, na
perialismo norte-americano. A mais possível para uma única verdade, a escravidão está por
tentativa de entender as forças pessoa estudar todos os ramos todos os lados. Um pequeno
políticas e sociais em jogo no de pesquisa sobre a África. Era fazendeiro canadense do século
final dos anos 50 e 60 me levou, o que acontecia nos final dos XVIII produzia coisas que eram
inevitavelmente, a uma forte anos 60, quando comecei a automaticamente vendidas no
crítica aos Estados Unidos. E me interessar pelo continente. Caribe para sustentar o sistema
isso me trouxe para a História Não é mais possível fazer isso. escravista. Então, todo mundo
porque eu queria entender É demais. Hoje nós temos 80 tem sua parte. Essa é a verdade.
como os Estados Unidos se tor- universidades e muitos pes- A história dos descendentes
naram um país tão racista e im- quisadores. E olhe que ainda africanos não é somente deles.
perialista, mas poderoso. Depois existe muito material a ser É a história de todo mundo.
de um bom tempo, comecei a investigado. Esta, aliás, foi uma
das surpresas que tive quando RH Qual foi o impacto da es-
Eu acreditava que era preciso trabalhar me interessei pela África. cravidão sobre a economia e a
política interna da África?
a História da África justamente porque RH Você achava que o material PL A escravidão cobra um pre-
as informações eram muito limitadas. era escasso? ço terrível em qualquer lugar.
PL Sim. Eu acreditava que era Havia muita violência e des-
Estava redondamente enganado preciso trabalhar a História da truição. Tanto foi construído e
África justamente porque as destruido ... E esse tipo de coisa
ficar muito mais interessado informações eram muito limi- é muito duro para a população.
em outras partes do mundo. tadas. Estava redondamente Uma das consequências da
Primeiro a América Latina e de- enganado. A quantidade de escravidão nas sociedades afri-
pois a África. Eu me apaixonei fontes existentes na Europa é canas modernas foi o estabele-
pela África. Quando percebi o enorme. E eram documentos cimento de regimes de força. A
quanto o continente era fas- que demandavam todos os ti- escravidão foi substituída pelo
cinante e o quanto as pessoas pos de técnica. Todo arquivo no colonialismo, que era uma for-
eram incríveis ... isso simples- Brasil tem alguma relação com ma de ditadura. E como foram
mente dominou minha vida. a História da África. Todos. E os colonizadores que criaram
você sabe de uma coisa? Dá-se as bases dos exércitos afri-
RH Como vê os últimos 20 anos o mesmo nos Estados Unidos. canos, após a independência
de pesquisa sobre a História do Cada condado, cidade ou biblio- instalaram-se novas ditaduras.
continente africano? teca local tem material relacio- Isso é algo complexo, mas que
PL Houve uma verdadeira re- nado às pessoas que descendem começou com a escravidão. Não
volução nesse período. E o que de africanos. Eles estão no é que a África tenha se tornado
vemos hoje é a consolidação de centro do desenvolvimento da mais corrupta do que qualquer
uma geração inteira de pesqui- América. De todas as partes da outro lugar. Mas os recursos
sadores que foram profissional- América, incluindo o Canadá! eram mais escassos; portanto, o
mente treinados para tratar a O primeiro africano chegou ao impacto foi mais severo.
África de um modo científico. Canadá em 1604.
E esse treinamento, do qual RH Como pode ser explica da a
eu penso que fiz parte, nos RH Os estudos sobre a escra- continuidade da escravidão na
levaria a um sistema de inves- vidão também estimularam África mesmo depois que a de-
tigação de qualidade que trata- uma maior aproximação com a manda externa se extinguiu?
ria todas as partes do mundo África? PL Nós podemos usar o
Entrevist
modelo econômico de oferta e línguas no campus. Quer dizer, Havia comunidades inteiras de Verbetes
demanda. Se o fator demanda nós temos asiáticos, africanos, negros, como as dos maroons,
Big Dipper
desaparece na América, o que caribenhos, latino-americanos ... os palenques ... Eu trabalhei
É um conjunto de sete es-
acontece com a oferta? Ela não E isso é maravilhoso. É o lado com uma comunidade em trelas no interior de uma
desaparece simplesmente. O bom do multiculturalismo. Ontário que foi fundada no grande constelação do
hemisfério celestial norte
que acontece com o preço? Ele O lado ruim, basicamente no final dos anos 1840. E os des-
chamada Ursa Maior.
cai. O preço caindo, qual é a Canadá, é que não falamos uns cendentes dessa comunidade Uma de suas estrelas mais
alternativa? Você usa o mais com os outros. Todos os corea- criaram um museu que tem brilhantes é a Polaris.

barato possível. O escravo nos falam com outros coreanos, um espaço histórico nacional.
Maroon
fica muito barato. Esse é um todos os chineses falam com os É um exemplo maravilhoso. Nome que se dava ao
modelo econômico simples. outros chineses, os jamaicanos Afinal, essa história, que produ- quilombola nas ilhas do
Caribe, nos EUA, na
A escravidão, na verdade, se falam com os jamaicanos. .ziu tantos impactos negativos
Guiana e no Suriname.
expandiu na África no século ao longo dos séculos, teve certa
XIX. Para você ter uma ideia, RH E as comunidades negras continuidade. O mesmo não Palenque
Povoado colombiano
no norte da Nigéria ainda ha- que se instalaram no Canadá ocorre em outras partes, como
criado por africanos
via escravos no final dos anos no século XIX? nos países islâmicos. fugitivos da escravidão. O
1930. O que é surpreendente PL O Canadá, principalmente Palenque se tomou co-
nhecido pela manutenção
é como isso pode ter continu- quando avançou para o oeste, RH Como os países islâmicos
da maioria das tradições
ado se passou a ser ilegal. No tornou-se uma área segura para lidam com a memória da culturais africanas, e em
passado, os países fizeram isso africanos americanos. Isso se escravidão? 1987 foi declarado pela
Unesco "Patrimônio in-
legalmente. Cometeram toda intensificou por volta de 1850, PL Eles têm muita dificuldade.
tangível da humanidade".
sorte de crimes contra a hu- quando os Estados Unidos Nós só precisamos olhar para
manidade sem descumprir ne- passaram pelo que chamamos o time de futebol da Arábia
nhuma lei. Mas agora há uma de guerra escravista. E, na ver- Saudita. Não é todo mundo nes-
lei. Em qualquer lugar que se dade, desde 1844, quando o se time que se considera afri-
descubra que isso é' feito, você Canadá passou a fazer parte do cano ou negro, ainda que eles
vai para a cadeia. E as pesso- Império Britânico, a escravidão pareçam mais negros ou afri-
as continuam fazendo. Isso é estava abolida. Em Ontário, já canos do que eu. Porque eles
muito impressionante. no começo dos anos 1790, não são sauditas, árabes. Há, então,
era mais permitido ter escra- uma manipulação dessas carac-
RH Como o Canadá se posicio- vos. Ir para o Canadá se tornou terísticas fisicas e da memória
na na história dos descenden- uma das formas de escapar da escravidão. Contudo, há um
tes africanos? da escravidão. As pessoas que clima de debate que não existia
PL Eu acho que o Canadá é escapavam eram chamadas de
uma liderança nas questões "passageiros". E eles vinham Na África Ocidental há muitos brancos.
históricas relacionadas ao de olho na Estrela do Norte.
multiculturalismo e à manu- Porque, geograficamente, é
Depois de gerações, eles parecem negros
tenção da paz internacional. muito fácil localizar o Canadá como todo mundo. Surpresa!
Para mim, um exemplo forte na América do Norte. Você
disso é o fato de alunos da es- só precisa saber onde está a há dez anos. E há muita pes- Muamar Kadhafi
cola secundária terem muitas Estrela do Norte e seguir em quisa. Eu estive envolvido em (1942-2011)
Liderou um golpe de
opções para o futuro. Eles vão frente. É uma estrela muito vários congressos. Organizei
Estado na Líbia em 1969
além-mar, trabalham fora do proeminente no céu, que per- um evento que aconteceu no e permaneceu por mais
Canadá, em ONGs ou nos mais manece estática e conectada Marrocos e tratava do assunto. de 40 anos no poder,
combinando radicalismo
variados projetos. Isso faz parte com o Big Dipper. Havia um grande movimento
religioso e repúdio à
da experiência de crescer no na Líbia neste sentido. O gover- democracia ocidental.
Canadá. O que é bem diferente RH E foram muitos os fugiti- no líbio sob Kadhafi investiu O general foi executado
por soldados rebeldes
do que acontece nos Estados vos? em temas relacionados à diás-
em agosto de 20 I I, após
Unidos. E isto se relaciona ao PL Veja só: há uma informa- para africana e à escravidão violenta guenra civil.
fato de que há muitos imigran- ção de que 20.000 escravos africana. Agora, a escravidão
tes no Canadá. Na minha uni- americanos estavam vivendo continua sendo uma importan-
versidade, é possível ouvir oito em Ontário por volta de 1850. te instituição no Islã.
ntrevisto
RH Por quê? dos povos, e eles tentaram jus- quantas gerações foram neces-
PL A escravidão se deu de tificar o que emerge como um sárias até que várias das lín-
maneira diferente por lá. Em sistema de duas castas. Todo guas desaparecessem? Quanto
todas as sociedades europeias, mundo que é percebido de al- de reforço foi preciso? Esse era
o status da criança segue o da gum modo como descendente o jogo que estava sendo joga-
mãe. Então, se a mãe é escrava, de africanos pertence a uma do: o deslocamento da popula-
a criança também é. No Islã, dessas castas. E todo o resto é ção por meio da escravidão. E
não. O status a ser seguido é o branco. Uma só gota de san- eles eram de diferentes tribos
do pai. Se o pai é livre, a crian- gue africano, e você é negro. e culturas.
ça também é. Estamos falando Passar a ser branco se torna
de uma atitude completamente um conceito. Isto jamais faria RH Os donos de escravos esta-
diferente. E eu digo que esta sentido em um país com a his- vam conscientes dessas dife-
instituição permanece porque tória do Brasil. renças?
ela faz parte de uma certa ide- PL Eles estavam conscientes
ologia. É como se a escravidão RH Por quê? e tentavam manipulá-Ias. Em
pudesse ser explicada em deter- PL Eu vou pegar um ano arbi- muitas partes do Caribe, os
minados termos, especialmente trário: 1800. Nesse ano, havia senhores estavam bem mais
religiosos. É um componente no Brasil mais descendentes conscientes dessas distinções
de uma sociedade hierárquica. do Congo do que de Portugal. étnicas do que muitas das ge-
Nesse tempo, as pessoas eram rações posteriores. De algum
RH E a escravidão para além do seguramente mais semelhan- modo, os senhores entendiam
mundo atlântico e islâmico? tes às mulheres do Congo do as diferenças étnicas, sem Sa-
PL Bem, toda sociedade, em al- que às europeias. Muito mais. ber nada de história africana.
gum ponto, teve escravidão. Ela E, mais tarde, quando começa- Eles sabiam que algumas pes-
não é um fenômeno específico mos a olhar através das gera- soas vinham de áreas próspe-
e unicamente africano. Já se ar- ções que nasceram aqui, quem ras e tinham habilidade para
gumentou que a escravidão foi são as mães? Do Congo ou a administração de estoques,
o primeiro fenômeno de pro- da Europa? por exemplo. Os senhores
priedade privada. Até mesmo discutiam as habilidades e
anterior à propriedade privada RH Essas identidades permane- características dos escravos
de animais. E, na verdade, a ceram? e chegavam até a construir
PL Até certo ponto. É o modo certos estereótipos. Havia es-
como os grupos imigrantes cravos que cometiam suicídio.
Ninguém se diz descendente de crimino-
operavam. Você sabe, há uma Outros eram mais resistentes.
sos, prostitutas ou escravos. Você sabe, grande imigração de italianos Estes estereótipos, como todo
e alemães para o Brasil. E isso estereótipo, tinha uma pouco
toda família limpa sua história
levou quantas gerações até que de verdade e muito nonsense. O
esses tipos fizessem diferença? historiador precisa ter cuidado
capacidade de controlar outro Os chineses levaram muito quando depara com essas des-
indivíduo, mesmo que não pos- tempo para se integrar total- crições feitas pelos senhores.
samos provar isso, mesmo que mente. Mas acontece. E não é
não seja verdade, é uma rela- verdade que os brancos não RH Como fazer isso?
ção de poder. foram para a África. Na África PL Bem, infelizmente, esse é
Ocidental há muitos brancos. o trabalho dos historiadores
RH O que acha do termo afri- Depois de gerações, eles pare- (risos). Nós temos que ter trei-
can-amencan usado nos Estados cem negros como todo mundo. namento para fazê-Ia. Lidamos
Unidos? Surpresa! Como aconteceu com a informação disponível
PL African-american é um con- aqui no Brasil, estamos falan- e tentamos interpretá-Ia, pre-
ceito usado pelos racistas do de uma situação colonial. encher as lacunas. Os histo-
norte-americanos. Eles costu- Os europeus tinham o poder, riadores são muito espertos
mam conceber a História como controlavam todos os recursos ao usar os registros criminais
a fenomenologia da mudança e a própria língua. Veja bem: onde há, frequentemente, os
Entrevist
testemunhos. É claro que nem Talvez esta preocupação com especialmente no corte e Obras do autor
todos os testemunhos e regis- a dimensão individual seja até no carregamento de pedras. S/ow Death for S/avery.
tros criminais podem ser con- mais interessante quando pen- Mahommah tentou matar seu The course of abo/ition
fiáveis. Se você matou alguém, samos nos descendentes dos senhor algumas vezes. Também in Northem Nigeria,
/897-/936. Cambridge
não vai admitir. Nos registros escravos. tentou o suicídio duas vezes, University Press, 1993
criminais você encontra pesso- fugiu e foi pego. Conclusão? (com Jan S. Hogendom).
as que foram acusadas por cri- RH Por quê? O senhor o vendeu (risos). Escravidão na África: uma
mes que não cometeram, e as PL Qualquer descendente de Mahommah acabou sendo história de suas transfor-
mações. Rio de Janeiro:
pessoas mentem. Nosso papel africanos no Brasil tem um comprado pelo capitão de um
Civilização Brasileira,
é tentar descobrir o que estava passado na escravidão. Esse navio aqui, em 1847. O capitão 2002.
acontecendo, identificar o ní- conhecimento, essa informação do navio mostrou que não era
Ens/oving connections (or-
vel de verdade que você pode e o modo como ela é interpre- muito esperto. Ele o levou em ganizador). Prometheus
depositar num documento. Em tada são realmente cruciais na uma viagem para a cidade de Books, 2003.

geral, nesses materiais produ- base individual. O que acontece Nova York. Consuming habits.
zidos por escravos há uma voz quando uma criança apren- Routledge, EUA, 2007
(organizador, com Jordan
forte. Então, é possível captu- de que um ou mais dos seus RH Mas em Nova York a escra- Goodman).
rar, de algum modo, esses ní- ascendentes eram chamados vidão já havia sido abolida em
/dentity in the shadow
veis de verdade e mentira. de escravos? E para as outras 1845, não é? of s/avery. Continuum
crianças na classe, que não têm PL Pois é. Então o nosso ho- Publishing: EUA, 2009.
RH Como as histórias individu- essa ascendência? Isso se dá mem foi, felizmente, posto Transformations in S/avery.
ais podem ajudar os estudos da hoje em dia nas idades de seis, para fora do navio e acabou Cambridge, EUA, 20 I I.
diáspora africana? dez e 12. Qual a diferença que numa prisão. Alguns amigos o
PL Meu trabalho é justamente isso faz? Nós precisamos saber tiraram de lá e o levaram para
sobre histórias individuais. Eu isso. É curioso como percebe-
fiquei cada vez mais interessa- mos que ninguém quer falar o que acontece quando uma criança aprende
do em biografias. A biografia sobre o assunto. Ninguém se
que um ou mais dos seus ascendentes eram
é realmente maravilhosa. Ela diz descendente de criminosos,
nos faz perceber que estamos prostitutas ou escravos. Você chamados de escravos?
lidando com um indivíduo. Nós . sabe, toda família limpa sua
não podemos usar a palavra história. E um resultado possí- Boston, onde permaneceu es-
escravo no sentido nuclear de vel é um grave e profundo pro- condido por dois anos. Depois
escravidão. Um escravo é antes blema social. foi cursar o ensino secundário.
um indivíduo com uma perso- Mahommah foi um dos primei-
nalidade, desejos e heranças. RH Quais são os documentos ros africanos a se formar e ir
Ele tinha uma personalidade, usados para a construção des- para o que chamamos de college
veio de algum lugar, buscava sas histórias individuais? nos EUA. E ele escreveu toda
objetivos. O indivíduo come- PL São muitos. Nós trabalha- a sua biografia no Canadá em
çou vivendo uma vida livre. A mos, por exemplo, com algu- 1854. O que é bom para mim
escravidão é apenas uma parte mas autobiografias. Posso citar que seja alguém do Canadá.
de sua vida. Então, o que nós uma, de um homem que estava Três anos depois, foi para a
realmente vemos e reconhe- aqui mesmo no Rio de Janeiro. Inglaterra. Não sabemos mais
cemos é que, quando um indi- O nome dele era Mahommah nada. O fio se perdeu. Sabemos
víduo está em uma condição Baquaqua. Ele veio do interior somente que Mahommah que-
de escravidão, ele não perde a do que agora é a República do ria voltar para a África, como
sua individualidade. Dentro de Benim, na África Ocidental. Era muçulmano. Ele sempre quis
uma situação de vitimização um escravo em 1845 e sua ci- retomar à África. É uma histó-
econômica, política e legal, ele dade natal era Djubo, no norte ria maravilhosa ... Uma história
vai tentar maximizar e desco- de Benim. Ele foi vendido em atlântica. Ele veio da África
brir como sobreviver, como Pernambuco, comprado por um Ocidental, chegou ao Brasil,
levar as relações, como ter re- padeiro que vivia em Olinda. foi para os Estados Unídos,
ligião ... É por isso que eu acho Ele não foi usado na produção Canadá, Inglaterra. Como um
que o indivíduo é importante. de pão, mas na construção, canadense (risos).