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GABI: oi Silvio eu tô de frente hoje com um baiano que tem sorte e competência.

Jean Wyllys
nasceu em Alagoinhas 37 anos atrás e conseguiu o que raros habitantes da sua cidade tem a
chance de conseguir como ele mesmo diz em alagoinhas vivia-se abaixo da linha da pobreza a
expressão que os economistas usam para definir quem consegue sobreviver com menos de um
salário mínimo mas tinha escola e dela Jean tirou tudo de bom virou jornalista repórter e escritor
e acabou na casa do Big Brother Brasil de onde saiu milionário gay assumido Jean Wyllys de
Mattos Santos hoje deputado federal pelo rio de janeiro e em Brasília é um dos líderes da luta
contra a homofobia e pela igualdade de direitos para os que gostam de gente do mesmo sexo,
ai Jean você vai ter que matar uma curiosidade minha agora de onde é que vem esse Jean e
esse Wyllys porque eu me lembro de Wyllys na minha juventude ser a marca de um automóvel
o Aero Wyllys o Rural Wyllys etc. e tal de onde...

JEAN: justamente da marca do automóvel...

GABI: Não acredito...

JEAN: juro pra você meu pai é minha mãe queria me batizar como Jean né ela queria esse nome
e meu pai...

GABI: por que o Jean...

JEAN: Jean foi sugestão de uma tia minha que lia foto novela e algum personagem se chamava
Jean e ai ela gostou desse nome e sugeriu pra minha mãe e meu pai queria me chamar Wyllys
por causa da Rural Wyllys (inaudível) o meu pai era pintor de automóveis né ele pintava
trabalhava em oficina...

GABI: e ele achava aquele nome lindo...

JEAN: bonito exatamente (risos) e eu ganhei esse nome e eu acabei adotando com o tempo
quando publiquei meu primeiro livro em 2001 eu acabei adotando como sobrenome virou é um
segundo nome e é escrito exatamente dessa maneira com dois Y, LL, W-Y-L-L-Y-S assim mesmo
que é escrito...

GABI: cê eu .. cê sabe eu li já várias vezes você deve ter lido também que esse negócio de
nome tem muita importância na vida de alguém...

JEAN: tem...

GABI: por isso que tem tal da história da numerologia o som das palavras o som do nome que
pode destruir a vida de alguém mas pode construir...

JEAN: pode construir...

GABI: pra você foi bom...


JEAN: foi bom acho que me ajudou e eu sempre digo isso acho que de onde minha mãe e meu
pai tiram essa ideia de me batizar de Jean Wyllys quando o nome dos meus irmãos é George,
Romulo, Ricardo me batizaram com nome diferente e parece que isso selou o meu destino eu
acredito em destino...

GABI: venha cá essa linha da pobreza que você já admitiu que a é ... que se vivia em Alagoinhas
abaixo da linha da pobreza isso é uma lembrança verdadeira você .. vocês chegaram a viver
dificuldades?

JEAN: muita dificuldade Marilia a gente não tinha banheiro em casa pra você ter uma ideia não
tinha saneamento básico na rua que a gente morava né a gente o meu pai improvisava um
banheiro no fundo do quintal assim a gente eu passei fome terrível assim várias vezes fui pra
escola com fome minha mãe não queria que eu fosse com fome pra escola mas eu ia porque eu
... eu alguma coisa dentro de mim uma intuição dizia que eu ia mudar de vida pela escola e por
conta da pobreza eu fui pro mercado de trabalho com 10 anos de idade eu e meu irmão eu com
10 meu irmão com 11...

GABI: vocês .. vocês são quatro

JEAN: cinco

GABI: cinco?

JEAN: cinco, seis comigo

GABI: todos homens

JEAN: não, éramos sete vieram três meninas antes de mim a terceira morreu de febre é depo...
ai nasceu eu e depois de mim três rapazes três garotos então eu sou o do meio mesmo antes
de mim três meninas e depois trem meninos e a gente começou a trabalhar muito cedo eu e meu
irmão porque minha irmã mais velha é trabalhava também minha segunda irmã Josiane foi morar
com uma tia minha porque minha mãe tinha que distribui os filhos por conta da questão da
pobreza e nós ficamos em casa e fomos trabalhar cedo então...

GABI: Com 10 anos de idade você foi fazer o que? ...

JEAN: eu fui vender nas ruas algodão doce era o que a gente vendia...

GABI: bom você deve ser um grande defensor da não empregabilidade de crianças...

JEAN: total...

GABI: mercado infantil de trabalho...


JEAN: total, trabalho inclusive nessa frente na erradicação do trabalho infantil é inadmissível
apesar de eu ter trabalhado de eu ter ido cedo pras ruas lugar de criança não é nas ruas muito
menos trabalhando é hoje quando eu penso atrás na vulnerabilidade que a gente vivia eu e meu
irmão que a gente andava a cidade inteira é bairros distantes apé com o algodão doce fica numa
vara assim né e a gente carregava a gente era muito pequeno e tudo e todo dinheiro que a gente
arrecadava a gente trazia e dava pra minha mãe porque meu pai é meu pai tinha problemas de
alcoolismo assim ele era alcoólatra não parava em emprego vivia de subempregos em oficinas
em diferentes oficinas e.. e de alguma maneira a gente tinha que ajudar em casa porque as
vezes a gente ficava horas a fio esperando ele chegar em casa com alguma coisa pra comer e
ele não chegava, chegava bêbado mas sem nada pra comer e era terrível assim e essa de
alguma maneira essa isso prejudicou muito tempo a relação com o meu pai sabe Marilia eu
sempre tive uma relação difícil com ele...

GABI: diga uma coisa pra mim você é o único homossexual da família? ...

JEAN: sou o único homossexual da, da família grande não mas, da família ali nuclear sim...

GABI: ham ... agora você se percebe homossexual em algum momento como é que se á isso?
...

JEAN: é engraçado né eu todo mundo me pergunta isso e a na verdade a homossexualidade é


uma coisa tão atávica ali que num num a gente não percebe quando é que a gente desperta
mas eu posso dizer que a primeira vez que eu me senti a primeira vez que eu ouvi uma ofensa
um insulto por ser homossexual foram... foi aos seis anos de idade seis anos eu fui comprar pão
é numa é a gente chama de venda essas mercearias né que tem...

GABI: sei sou do interior também...

JEAN: você é do interior você conhece eu fui comprar pão e eu lembro que eu cheguei assim e
pedi eu quero seis pães fiz a concordância de número correta e tinha um cara do meu lado uns
30 na minha memória deveria ter uns 33 anos por ai ele falou você é viado ou você é estudado
e ele falou num tom agressivo então foi a primeira vez que eu ouvi a palavra na minha vida...

GABI: foi a primeira vez que você foi classificado como tal...

JEAN: isso como tal...

GABI: embora aos seis anos de idade...

JEAN: não se saiba o que que é...

GABI: não se saiba o que se é...


JEAN: isso a gente não sabe o que é mas o tom de voz a maneira como é foi falado me deixou
claro que eu não deveria ser então de cara ali eu já fui empurrado para um lugar subalterno e eu
queria entender porque que eu era chamado dessa maneira e só mais tarde é que eu entendi
que eu era chamado dessa maneira porque eu fugia do padrão do papel de gênero assim papel
social atribuído aos homens ness... o papel que a sociedade atribui aos homens por exemplo eu
não gostava de futebol nunca gostei gostava de desenho passava horas com um palito de fosforo
no chão desenhando muita gente dizia para minha mãe que eu era louco porque ficava hora
falando sozinho desenhando esse era meu universo gostava dos livros eu era da igreja a gente
né era fui coroinha durante um tempo antes de entrar na pastoral da juventude estudantil eu
gostava desse universo e o fato de gostar desse universo num lugar pobre como aquele com as
pessoas de com pouquíssima informação automaticamente eu fui classificado como
homossexual...

GABI: então você ta me dizendo você foi discriminado em alagoinhas você continuou...

JEAN: muito cont... fui muito discriminado em Alagoinhas fui discriminado no seio da minha
família porque os homossexuais passam por isso primeiro lug... espaço de violência contra o
homossexual é a própria família porque quando ele vai apresentando esses sinais da
homossexualidade da orientação homossexual ele é constrangido pela família a dizer que não a
negar a si mesmo a tomar jeito de homem como eles falam lá toma jeito de homem homem não...

GABI: homem não chora...

JEAN: homem não chora homem não brinca dessa maneira homem não fica com as meninas
então você a o primeiro espaço de violência é a família agora a primeira vez que eu percebi o
meu desejo porque aí a orientação sexual ta ligada muito ao desejo o afeto foi aos 16 anos de
idade quando eu passei e olhei para um rapaz e falei e senti algo diferente...

GABI: agora vou fazer uma pergunta delicada difícil...

JEAN: sim...

GABI: você acha que se já não tivessem te classificado você poderia ter tido um destino sexual
diferente? ...

JEAN: ai eu acho que não...

GABI: cê já se perguntou sobre isso? ...

JEAN: eu já me perguntei sobre isso eu acho que não eu acho que não porque é a o que tece a
nossa orientação sexual é uma relação ali muito inseparável entre natureza e cultura tem uma
dimensão natural na homossexualidade tanto é que eles estão aí no mapeamento no genoma
no projeto genoma tentando mapear se há o gene gay digamos assim se há um componente
genético (inaudível) não ta claro ainda isso isso não ta claro...
GABI: já chegaram a uns escaneamentos do cérebro interessante que dão colorações que não
é que aproximam cérebros gays masculinos do cérebro feminino isso tudo a gente já viu...

JEAN: já tem também a questão hormonal os estudos sobre os hormônios o que é certo é tem
componente biológico sim e tem um componente cultural claro das relações das relações de
prazer e desprazer a maneira como você constrói e que se relaciona com as figuras paterna
materna toda sexualidade é construída assim não só homossexualidade a heterossexualidade
também é construída assim a heterossexualidade é uma face da sexualidade humana a
homossexualidade é outra nenhuma das duas é absolutamente natural todas as duas são
construídas né numa relação entre natureza e cultura por isso mesmo e que muitos
heterossexuais muitos homens e mulheres heterossexuais tem uma vida heterossexual e depois
de um dado momento tem experiências homossexuais por exemplo a Elza Berquó que é uma
demógrafa do IBGE ela disse por exemplo que muitos arranjos homossexuais entre mulheres
depois dos quarenta anos se dá por uma pressão demográfica ou seja há muitas mulheres e
poucos homens então pra vencer a solidão a ausência de afeto e como as mulheres são
preteridas depois dos quarenta por homens que querem meninas mais novas elas acabam
fazendo arranjos afetivos com outras mulheres...

GABI: bom e aí a gente pode inclusive estender isso estender isso pra seminários estender isso
pra prisões...

JEAN: exércitos, prisões ...

GABI: tudo ...

JEAN: exatamente...

GABI: agora ahm o que eu quero saber de você é você foi salvo pela educação...

JEAN: pela educação...

GABI: to dizendo salvo na sua integridade na sua força pela educação...

JEAN: fui salvo mesmo Marilia salvo pela educação, muitos dos meus colegas da Baixa da
Candeia que era o lugar onde a gente morava morreram vítimas da violência policial ou da
violência entre quadrilhas de traficantes é eu tive uma educação familiar muito importante apesar
de semianalfabeta minha mãe foi uma mulher muito me deu valores muito íntegros de integridade
de respeito né de honra de orgulho e meu pai também apesar de beber do conflito que eu tinha
com ele, ele tinha uma coisa do orgulho de passar um orgulho assim eu tive essa primeira
educação em casa a igreja foi importantíssima pra mim a comunidade eclesial de base lá da
Baixa da Candeia e depois a escola eu adorava a escola Marilia apesar de sofrer bullying isso
que a gente hoje chama de bullying na época a gente não chamava apesar de sofrer bullying de
ter dificuldades de sair pro recreio por causa da né do xingamento do insulto eu adorava a escola
eu adorava meus professores eu ia com fome como eu disse pra você várias vezes minha mãe
falava não você não vai eu ia ela tinha medo de eu desmaiar na escola né eu ia assim mesmo
eu adorava a escola adoro ler adoro aprender e foi isso que foi mobilizando a minha vida e eu fiz
uma escola no ensino médio chamada Fundação José Carvalho que essa mudou radicalmente
a minha vida que era um colégio interno...

GABI: por que?

JEAN: porque era um colégio...

GABI: um colégio interno?

JEAN: era um colégio interno e era um colégio de excelência um modelo de ensino


individualizado sem professor em sala de aula o aluno construía seu próprio saber a partir de
módulos que recomendavam as leituras então a gente só conseg...

GABI: bárbaro...

JEAN: era muito bacana...

GABI: uma escola experimental mesmo...

JEAN: era uma escola experimental e era hiper seletiva assim ela era havia um vestibular que
eles aplicavam para alunos de escola pública depois da oitava série eles selecionavam oitenta
alunos desse vestibular que eles aplicavam depois os oitenta passavam um mês e desses oitenta
selecionavam vinte e cinco para fazer o curso e eu estava entre os vinte e cinco e eu fiz o curso
de informática numa época que informática era pra poucos e eu fiz informática fui pra salvador
trabalhando como proce... programador de computador e ai minha vida deslanchou começou a
deslanchar fiz o vestibular pra jornalismo e foi a educação que me salvou e acho que a educação
pode salvar esse pais...

GABI: eu também acho eu acho que antes de tudo porque tudo depois é consequência de uma
boa educação você não acha? ...

JEAN: com certeza com certeza ...

GABI: o bom senso a tolerância ...

JEAN: a cidadania...

GABI: a cidadania...

JEAN: aprender a votar tudo é questão de uma boa educação isso se reflete no país como um
todo porque você já pensou se a gente conseguir pra cada cidadão brasileiro uma educação de
qualidade como esse país vai se transformar porque as pessoas vão saber escolher candidatos
por exemplo você incide sobre a corrupção que hoje drena parte do dinheiro público né que
poderia ser investido na saúde na educação você não vai mais eleger gente corrupta enfim...

GABI: me diga uma coisa quanto é que você ganhou mesmo no BBB? ..

JEAN: um milhão...

GABI: o quê que o quê que deu pra fazer? ...

JEAN: olha eu comprei uma casa pra minha mãe primeira coisa

GABI: isso eu sabia que essa era a primeira coisa ...

JEAN: eu comprei uma casa pra minha mãe Marilia a gente morou numa casa a gente num
tempo que deu uma chuva muito forte e como era uma casa de taipa né casa que a gente chama
de pau-a-pique é parte da casa derreteu assim o barro derreteu e a gente ficou com aquele
buraco ali durante muito tempo quando eu comecei a trabalhar como programador eu e meu
irmão a gente começou a construir uma casa por fora essa casa ficou dentro e a gente foi
construindo a casa por fora mesmo assim minha mãe ela era um pouco insatisfeita de morar ali
de continuar morando naquele lugar e eu pensei bom vou dar uma casa pra ela eu dei uma casa
pra ela confortável muito bacana porque meu salário de professor universitário ainda que fosse
bom...

GABI: não era suficiente...

JEAN: não era suficiente pra eu dar uma casa pra ela eu dei uma casa confortável pra ela e
comprei um apartamento pra mim que é eu preciso de um porto seguro né o restou eu ajudei a
fam... muita gente da minha família que precisava ajudei bastante muita gente amigos também
e apliquei o restante ...

GABI: como eu fico impressionada como pode render um milhão de reais bom eu quero saber
muito daqui pra frente da política nacional estamos terminando o primeiro bloco de frente com o
deputado Jean Wyllys voltamos em seguida ate já...
De volta e mais uma vez de frente com Jean Wyllys está gostando de ser deputado?...

JEAN:to to gostando...

GABI: por que?...

JEAN: olha Marilia eu tenho a re... hoje a real chance de intervir mais é em coisas que eu gostaria
de intervir que por exemplo o papel de professor de jornalista e escritor não me permitia por
exemplo a defesa dos direitos humanos eu já fu vinha fazendo a muito tempo né eu criei por
exemplo na Faculdade Jorge Amado onde eu dei aula muito tempo uma pós-graduação em
jornalismo e direitos humanos ou seja agora como deputado com a política institucional eu posso
de fato defender os direitos humanos sabe eu acabei de chegar de uma viajem é a povos
indígenas do sul da Bahia que vem sendo tendo seus direitos ali violados por posseiros grileiros
então a chance de real de ter autoridade de intervir de fazer algo em favor das pessoas só você
sendo...

GABI: sendo político...

JEAN: político institucional...

GABI: bom você chega ao congresso Jean já não um anônimo, não é? você tinha fama eu
gostaria de saber se a fama nessa hora ajuda ou atrapalha ...

JEAN: ajuda num ponto porque como muitos dos deputados e conheciam da experiência do
reality show é e eles me viram ali naquela relação naquele conflito me consideram um cara
bacana facilita muito a relação entre nós até chegar mesmo nos opositores nas pessoas que se
opõe por exemplo as minhas bandeiras é mais fácil chegar atrapalha na medida em que há um
preconceito muito grande com o reality show no Brasil né de uma forma geral as pessoas veem
esse gênero televisivo como algo menor e as pessoas que trabalham nele também como algo
menor então muita gente fala assim pra mim ai eu to surpreso com o seu conhecimento eu to
surpreso como você é articulado como você conhece...

GABI: eu vou dizer uma coisa é surpreendente é de fato...

JEAN: pois então...

GABI: mas eu não acho que seja por pelo BBB...

JEAN: sim...

GABI: eu acho que por um país é que ainda é desfalcado na sua educação no conhecimento na
cultura a verdade é essa...

JEAN: é verdade é verdade você tem razão aí eu falo pra eles olha tem que dar chance tem que
se permitir que abrace outros preconceitos todo tipo de preconceito é ruim então a gente tem
que se permitir conhecer ai eu falo pra eles olha eu já tinha uma história de vida eu não nasci em
2005 né a impressão que se tem é que a gente nasce ali não eu tinha história de vida muita gente
fala assim o Big Brother foi importante pra você? eu falo foi mas foi importante pra mim também
entrar na Universidade Federal da Bahia ser passar no meu primeiro vestibular foi importante pra
mim lançar meu primeiro livro pela Fundação Casa Jorge Amado graças a um premio foram
momentos da minha vida marcantes o BBB é só mais um deles...

GABI: mais um que te dá um milhão...


JEAN: me deu um milhão e me deu visibilidade...

GABI: isso aí ...

JEAN: bacana...

GABI: agora a imagem que a sociedade tem dos políticos você sabe qual é...

JEAN: sei...

GABI: não é nada boa esses primeiros meses em Brasília qual a impressão que você ta tendo?

JEAN: eu tenho a impressão que as pessoas têm uma imagem equivocada...

GABI: equivocada no geral?

JEAN: no geral porque quem vai pra lá pensar em seus privilégios em garantir privilégios
pessoais em enriquecer ilicitamente quem vai pra lá pensando em si e não no coletivo é uma
minoria essa minoria acaba ganhando mais visibilidade é claro é...

GABI: porque a função da imprensa da mídia é mesmo denunciar...

JEAN: claro claro...

GABI: pra concertar...

JEAN: isso pra concertar não to reclamando papel da imprensa é esse mesmo quando a
imprensa se dedica só aos canalhas por exemplo dá-se a impressão de que todo mundo age
dessa maneira e não é verdade independente da ideologia política né se direita ou esquerda há
gente honesta trabalhando muita gente honesta ali trabalhando...

GABI: aliás você acredita ainda que seja possível dividir ahh os ideais vamos dizer em...

JEAN: direita e esquerda...

GABI: direita e esquerda alias a sua cadeira fica onde eu entrando pela entrada principal você
fica a direita ou a esquerda ?...

JEAN: a esquerda a esquerda fico à esquerda e quando eu falo na tribuna eu falo a esquerda...

GABI: ham...

JEAN: é um pouco difícil hoje né Marilia dividir porque se a gente pensar que o PT foi um partido
que no seu nascimento e na sua trajetória esteve à esquerda e hoje é governo e se alia a politicas
consideradas de direita a gente ve que essa linha não ta tão marcada essa divisão não ta tão
clara...

GABI: claro...

JEAN: mas o meu partido PSOL ainda é um partido de esquerda

GABI: você se considera um socialista por exemplo ou não?

JEAN: é eu me considero...

GABI: mas o seu partido se chama

JEAN: socialismo e liberdade exatamente, mas é importante pensar na conjugação do socialismo


e liberdade porque as experiências do socialismo que nós temos na história foram todas a custo
dos sacrifícios das liberdades

GABI: é

JEAN: né a gente sabe disso então por isso o PSOL deixa claro marca já na sigla que nós
estamos aqui defendendo também as liberdades então no sistema capitalista que a gente vive
sem a chance de uma revolução porque eu acho uma ingenuidade acreditar que vai haver a
grande revolução socialista em que as massas vão tomar o poder tomar os os instrumentos de
poder os regimes é a eu vou receber um certo pau do pessoal por dizer isso, mas na verdade eu
acho que o que a gente pode fazer é promover a justiça social dentro de um sistema capitalista
diante do triunfo do capitalismo no mundo a gente tem que construir o estado do bem estar social
radicalizar a democracia os princípios democráticos sabe de uma constituição cidadã como a
nossa que tem como princípio soberano a dignidade da pessoa humana esse é a nossa tarefa
e essa tarefa nos coloca a esquerda acaba nos colocando a esquerda

GABI: você é um cara de esquerda então

JEAN: eu me considero um homem de esquerda

GABI: bom você não acha que hoje os partidos estão formados muito mais em cima de interesse
do que propriamente em torno de ideologias

JEAN: sim

GABI: o que você conversa por exemplo no cafezinho da câmara conta pra mim

JEAN: olha eu converso coisas meio que bacanas no cafezinho da câmara com os colegas assim
porque eu não me relaciono com todos né tem um grupo de parlamentares que eu me relaciono
mitos deles do PT inclusive é eu acho que a maioria dos partidos não tem compromisso
ideológico mesmo estão preocupados com outras questões eu acho que ainda há um partido
com identidade no Brasil que é o PT o PT tem uma identidade quer queira quer não mesmo
sendo governo ele tem uma identidade o PSDB se debate pra criar sua identidade com uma
oposição ao PT e o pessoal tenta também construir sua identidade como um partido de esquerda
bom no cafezinho quando a gente se encontra a gente fala das coisas mais pontuais ali da pauta
da matéria que a gente acabou de votar mas a gente fala das coisas muito questões maiores
também por exemplo outro dia tive uma conversa sobre essa primeira pergunta que você me fez
que um deputado me interpelou para do Partido Social Cristão me interpelou pra perguntar sobre
a origem da homossexualidade porque ele achava que era uma coisa que se adquiria era uma
questão de opção ai eu perguntei pra ele você acha mesmo deputado que alguém vai optar por
ser homossexual num horizonte de injuria e violência

GABI: que é o que acontece

JEAN: que é o que acontece

GABI: o Brasil e o Brasil é hum mata os seus homossexuais é o país que mais mata
homossexuais no mundo

JEAN: é um dos que mais dos que mais mata e olha que aqui não é institucional a violência não
é institucionalizada o estado não pune a homossexualidade como em outros países onde a
homossexualidade é considerada crime de estado aqui é no vácuo da legalidade que acontecem
as mortes

GABI: como é que você explica isso?

JEAN: Marilia eu explico pur por uma falta de uma política pública do ponto de vista educacional
mesmo e no engajamento dos meios informais de educação de instruir as pessoas de construir
um espirito republicano no sentido de que você pode até discordar de determinados modos de
vida, mas você não pode se negar direitos dessas pessoas entendeu é além disso a gente a
gente vai deixando um vespeiro aqui mas eu vou vou falar existe um discurso de ódio mesmo
sendo é reproduzido em determinados espaços é nem todos os pastores evangélicos são
homofóbicos nem todas as igrejas evangélicas tem compromisso com a homofobia muito pelo
contrário muitas igrejas cristãs absolutamente abertas a diversidade cultural ao modo de vida
aos diferentes modos de vida mas há pastores que radicalizam no discurso homofóbico

GABI: bom e a bancada religiosa foi que atrapalhou ou que negociou o projeto ante kit né

JEAN: exatamente o projeto escola sem homofobia

GABI: e negociou com?

JEAN: com o Paloci usando o Paloci como moeda


GABI: que vocês do PSOL eu sei que votaram vocês votaram a favor da CPI

JEAN: da CPI nós votamos a favor da CPI do Paloci a gente eu tentei a pouco tempo na comissão
de tributação e finanças que eu faço parte eu tentei convocar o ministro é pra ele se explicar no
congresso nacional mas a base do governo blindou ele eu quero primeiro deixar claro assim eu
votei na Dilma no segundo turno eu votei no Plinio no primeiro turno e no segundo turno eu votei
na Dilma eu acredito ainda que Dilma sendo mulher pode fazer um governo de fato que seja
intransigente na defesa dos direitos humanos eu não gostaria de ver o governo Dilma
desestabilizado mas a história do enriquecimento do Paloci criou ali um espaço pra o governo
ser desestabilizado e pra servir de moeda de troca pra forças conservadoras e reacionárias então
essas forças se articularam não só pra barganhar dizer o ou vocês suspendem o projeto escola
sem homofobia e a e ou a gente chama o o ministro pra se explicar não só como essas forças
conservadoras apresentaram um material que não era o verdadeiro material do projeto

GABI: me explica isso direito eu já li você dizendo usaram de má fé

JEAN: usaram de má fé deliberadamente Marilia deliberadamente

GABI: porque o que eles apresentaram

JEAN: é eles pegaram um material da do programa de redução de danos do ministério da educação redução
de danos entre travestis e usuários de drogas injetáveis o material para essa população pra ser distribuído
para essa população e apresentaram como se fosse o projeto escola sem homofobia nesse material pra
ser distribuído entre as travestis que se prostituem

GABI: então é um material pra ser distribuído para travestis que se prostituem

JEAN: isso do ministério da saúde que não tinha nada a ver com o ministério da educação

GABI: ham

JEAN: eles pegaram esse material esse material trazia gravuras que ensinavam sexo seguro como fazer
sexo seguro como usar camisinha traziam ilustrações e disseram que esse material ia ser distribuído entre
crianças de cinco e seis anos

GABI: seria o tal do kit

JEAN: é eles disseram que seria, mas não era

GABI: é é mas é eu vi publicado também

JEAN: é eles publicaram botaram em blogs setores da da

GABI: e a imprensa acreditou


JEAN: setores da imprensa setores da imprensa setores, não todos, acreditou e publicou como
se fosse que isso é que provocou uma histeria coletiva contra o projeto

GABI: bom vamos seguir nessa linha OK então este não era já sabemos pra que servia isto

JEAN: isto

GABI: que não só não serviria para crianças na primeira infância como não serviria
evidentemente para alunos

JEAN: de ensino médio

GABI: de ensino médio

JEAN: de jeito nenhum

GABI: o que era que tava se propondo para ensino médio nunca se propôs nada para crianças
na área da infância

JEAN: nada nada nada o projeto escola sem homofobia desde do seu do seu da sua origem que
foi antecedido por uma pesquisa na verdade antes de confeccionar o material houve uma
pesquisa que diagnosticou bullying homofóbico nas escolas desde esse início ai o projeto ficou
claro o projeto seria distribuído pra alunos de ensino médio alunos professores e monitores desde
que a escola solicitasse e seriam as escolas que tivessem problema com homofobia não seria
distribuído compulsoriamente e além disso além da escola ter que solicitar um técnico do
ministério ou da secretaria de educação do estado iria acompanhar pra explicar como usar o
material junto aos alunos isso foi explicado em novembro do ano passado numa audiência
pública organizada pela então senadora Fátima Cleide do PT ela na comissão dos direitos
humanos do senado ela fez essa audiência pública eu estava na audiência pública antes de ser
deputado falando como professor universitário o desde ali ficou claro que o projeto era esse e
esse ano Marilia numa manobra numa má fé num ardil as pessoas confundiram um material com
o outro e jogou a população contra a parede

GABI: mas foi só isso e esse material para ensino médio ele é aprovado ele foi aprovado ele é
conveniente ele é adequado

JEAN: ele é conveniente adequado porque ele tem um parecer do da UNESCO ele tem um
parecer do Conselho Nacional de Psicologia ele tem um parecer da do Conselho de Classificação
Indicativa da UNE a União Nacional dos Estudantes, ou seja, todas ezas essas entidades mais
os próprios técnicos do ministério aprovaram o material

GABI: você foi muito dura ahh com a com a presidente Dilma Rousseff quando foi adiado foi
adiado o programa ou foi suspenso
JEAN: foi suspenso foi suspenso o ministério garantiu que vai voltar com o projeto vai fazer uns
arranjos técnicos colocar linguagem de LIBRA e vai voltar com o projeto pelo menos foi o que eu
li ele dizendo que o projeto não vai ser suspenso pra sempre

GABI: am

JEAN: vai voltar e na verdade Marilia eu eu é diferente você ser um aliado da causa LGBT e
você seu um gay e você conhe é te vivido uma vida inteira num horizonte de injuria de insulto e
de violação de direitos quando eu vi que essa migalha que o estado tava dando a população
LGBT foi suspensa graças a uma chantagem eu a a emoção falou mais forte que a razão e eu
escrevi uma nota em que eu dizia já que apresentara uma contra pra Presidenta nós também
podemos apresentar uma contra depois não votar nela claro que eu fu eu escrevi isso no calor
de alguém que tava decepcionado com uma mulher que cedeu tão facilmente a uma chantagem
e depois o as entrevistas que a presidenta deu foram entrevistas que só prejudicavam a própria
atitude dela porque ela dizia eu não vi o vídeo inteiro vi um pedaço do vídeo e decidi suspender
ninguém suspende um projeto inteiro por causa de um trecho de vídeo e ela e outra coisa é a
presidenta tem técnicos importantes e bem preparados que poderiam ter dito pra ela que não se
trata de opção sexual mas de orientação sexual não se trata de propaganda de uma orientação
sexual mas uma política pública de combate a violência homofóbica então eu achei que ela
também foi precipitada a na hora da sua justificativa na hora de justificar e eu no calor da emoção
de alguém que é vítima da violência junto com toda a comunidade da qual eu faço parte escrevi
um texto no calor da emoção não retiro nada do que eu disse não Marilia eu acho que eu eu fui
preciso

GABI: deixa eu arredondar aqui esse assunto ahm você diria a a que vamos diz vamo vamo
vamos dar isto pra quem olhe aquele material e diga assim ahhh isso é propaganda

JEAN: humrum

GABI: ahm isso doutrina para uma vida sexual eu quero saber de você homossexual assumido
e que se descobre ou pelo menos descobre o desejo aos dezesseis anos de idade, ou seja,
aluno de ensino médio nessa fase

JEAN: sim exatamente

GABI: bom eu quero saber você acha que é possível seja honesto comigo

JEAN: certo

GABI: influenciar jovens nessa faixa com um um

JEAN: um material como esse

GABI: um material como esse ?


JEAN: de jeito nenhum

GABI: não se influencia a sexualidade de alguém?

JEAN: não se influencia não se influencia não se influencia Marilia não fui influenciado por
ninguém sou filho de pais heterossexuais meus irmãos são heterossexuais não fui influenciado
por ninguém é algo que ta na gente como eu disse pra você é tão difícil saber quando começa
mas em algum momento a gente se dá conta do nosso desejo do nosso afeto

GABI: e essa é uma defesa dessa maneira você defende por exemplo a adoção de a a de
crianças

JEAN: por casais

GABI: por casais homossexuais masculinos porque mulheres me parece que existe uma
tolerância maior quando o casal é gay e feminino

JEAN: gay e feminino é eu defendo, defendo e digo mais se na minha época que eu era aluno
do ensino médio eu tivesse um pro é eu tivesse um material na escola como esse eu teria sido
protegido de uma série de violências da qual eu fui vítima entendeu se os meus professores
estivessem preparados pra lidar com a diversidade de comportamentos inclusive do
comportamento homossexual eu seria protegido de uma série de violências das surras do do
insulto entendeu um material como esse iria me proteger eu digo que eu sou muita gente fala
assim você é uma pessoa leve você é um cara leve Jean eu falo assim eu sou leve apesar do
que eu vivi a o que eu vivi não me tornou uma pessoa rancorosa eu sou uma pessoa leve mesmo
eu tenho uma rela meus amigos tenho vários amigos heterossexuais que tem uma excelente
relação comigo então qualquer preconceito eu frequento lugares heterossexuais sou bem
recebido mas eu seria protegido de uma série de constrangimentos e violências se houvesse um
material como escolas que eu

GABI: porque você teria uma existência e com as pessoas com o outro porque a gente precisa
sempre do outro pra se enxergar

JEAN: claro

GABI: com o outro respeitando a sua diversidade

JEAN: claro

GABI: é isso

JEAN: é isso a escola precisa ser inclusiva e do jeito que ta a escola não é inclusiva
GABI: e é pra isso que existe esse material

JEAN: é

GABI: a ser distribuído

JEAN: a ser distribuído

GABI: que vocês pretendem que seja distribuído

JEAN: é que seja distribuído que as escolas solicitem né as escolas os professores e monitores
que

GABI: não vai ser obrigada

JEAN: não não não vai ser de hipótese nenhuma desde o início tava claro ou seja na escola em
que tiver esse problema com muito mais gravidade ela vai solicitar e aí só pra dizer pra você
importante a gente reiterar isso porque muita gente acha que nós homossexuais nascemos de
chocadeira e nós não nascemos nascemos de pai e mãe nós temos família família que nos ama
pais heterossexuais então meus pais não determinaram minha orienaza orienta orientação
sexual então dois pais homossexuais digamos assim um casal homossexual masculino não vai
determinar a orientação sexual da criança não vai o que vai prejudicar sensivelmente essa
criança é ela apodrecer de solidão num orfanato

GABI: ela se sentir diferente

JEAN: diferente

GABI: e tratada diferente

JEAN: claro que ela vai ser tratada diferentemente não conhecer a experiência do afeto da
família, família Marilia é aquela constituída pelo afeto ligada pelo afeto se há afeto ali se um a a
proteção material que o o casal pode dar o amor isso é família

GABI: termina aqui o segundo bloco de frente com Jean Wyllys ele não é bom mesmo? nós
voltamos daqui a pouco até já

GABI: de volta de frente com o deputado federal Jean Wyllys aí o Jean me deu pra ler uma coisa
espantosa aqui isso é twitter né

JEAN: é o twitter
GABI: é eu to perguntando porque eu sou ignorante disso é aguem alias um negro um negro
escreveu assim pra ele é melhor ser ladrão apoiar político safado do que apoiar esses
homossexuais podres e nojentos ahh você recebe isso e a e a aí o que acontece

JEAN: Marilia eu ignoro procuro ignorar na medida do possível porque é blindar meu ego é pra
continuar a luta mas diariamente eu recebo ofensas dessa natureza

GABI: mas é mais do que ofensa é acho isso uma ameaça

JEAN: não ele essa mesma pessoa antes me ameaçou dizendo que ia me dar um tiro de R15
que eu merecia um tiro de R15 é é uma tentativa de intimidar eu acho que o fato de eu ser um
modelo positivo de homossexualidade prejudica muito o trabalho de quem é contra a cidadania
LGBT eu sou um

GABI: a não deixa eu falar fazer um parêntese aqui em eu só falei que o homem que escreveu
isso era negro porque eu acho que de repente é uma não percepção da realidade dos fatos no
Brasil

JEAN: sim

GABI: existe preconceito ele é discriminado

JEAN: ele é discriminado

GABI: com certeza

JEAN: certamente

GABI: ainda que ele não queira aceitar

JEAN: ele não aceita com certeza ele deve ser vítima do racismo, mas mesmo sendo vítima do
racismo e provavelmente da pobreza o fato de ser pobre é discriminado também por isso ele não
consegue ser solidário com a questão homossexual e isso é muito comum é muito comum as
pessoas colocarem direitos LGBTs abaixo de tudo então esse tipo de insulto eu leio todos os
dias é uma tentativa de intimidar mesmo

GABI: agora a ameaça essa coisa violenta eu acho que o insulto é uma violência

JEAN: é

GABI: mas uma ameaça de fato vou te dar um tiro com um R15 ou seja lá o que for essa arma
pavorosa que deve ser porque qualquer arma é pavorosa me traz de volta o assunto que eu já
levantei com você aqui antes que é a questão da violência no Brasil
JEAN: sim

GABI: é e que apesar né apes como você mesmo explicou

JEAN: humrum

GABI: ela dentro da legalidade existe e impunimente

JEAN: impunimente

GABI: é agora um relatório dum grupo gay da Bahia que é um dos mais atuantes mostrou que
260 homossexuais foram assassinados no ano passado no Brasil

JEAN: isso

GABI: e que houve um aumento de 31% em relação a 2009 o estado que mais matou gays foi
na Bahia com 29 mortes justamente o seu estado natal

JEAN: justamente o meu estado natal

GABI: isso tem uma explicação Jean porque é surpreendente pra mim porque eu acho que a
Bahia eu sempre usei aquela história é aquela história de sorria você tá na Bahia sempre me deu
essa sensação e sempre tive a sensação de que um estado cuja a religião não castiga não é
não tem pecado no candomblé então o que que significa isso é é uma ilusão

JEAN: é significa que há uma nova Bahia aí ou uma Bahia de verdade Antônio Risério
antropólogo ele tem uma frase em que ele diz assim Salvador é a cidade menos racista e mais
racista menos porque é uma população majoritariamente afrodescendente e a cultura digamos
assim hegemônica é a cultura de herança africana vida e axé music toda valorização que tem as
iyalorixás e os orixás mas é a cidade mais racista porque os negros estão excluídos dos espaços
de cidadania os negros ocupam os índices de pobreza ocupam os hospitais psiquiátricos os
presídios são maioria em todos esses lugares o mercado informal o mesmo eu digo da
homossexualidade em termos da homofobia é a cidade menos homofóbica e mais homofóbica é
a menos homofóbica porque tem o carnaval o maior carnaval do mundo mais permissivo mais
lascivo em que todo mundo ninguém é de ninguém digamos assim mas é a cidade também que
mais mata homossexuais em especial travestis então é a cidade menos homofóbica e mais
homofóbica e mesmo esse lance da religião apesar de nós termos as grandes iyalorixás é Mãe
Stella de Oxóssi Mãe Carmem a própria Mãe Menininha que morreu que são super valorizadas
o candomblé não é a religião majoritária lá as religiões neopentecostais tem crescido de maneira
assustadora na periferia inclusive com violência e perseguição aos aos terreiros de candomblé
recentemente acho que tem acho que foi o ano passado um terreiro centenário teve os pejis que
são as casa dos orixás derrubados por um um funcionário da SUCOM Secretaria do Controle do
Solo é evangélico que deliberadamente foi lá e derrubou os pejis o movimento negro se articulou
o terreiro foi tombado só depois da articulação e de alguma maneira o terreiro foi protegido a
iyalorixá foi protegida então existe uma Bahia cantada em verso e prosa e a Bahia real

GABI: olha aqui o risco de um homossexual ser assassinado no Nordeste é 80% maior do que
no Sudeste segundo o último relatório do grupo gay da Bahia

JEAN: por causa do IDH

GABI: existe uma forma de mudar essa realidade?

JEAN: existe, existe Marilia eu acho que assim como eu disse pra você além de políticas de
educação que vai elev é essas políticas vão elevar digamos assim o nível cultural ampliar o
repertorio cultural da população eu acho que se a gente resolve o problema da injustiça social
tira um número maior de pessoas da pobreza da miséria dá a ela a chance de viver espaços
como cidadão e conviver com diferentes modos de vida ajuda além disso é preciso pluralizar
também a representação na TV na TV aberta a TV aberta precisa entrar nessa luta e representar
a homossexualidade de uma maneira menos caricaturada digamos assim como ela representa
né a publicidade precisa abrir espaço pra isso nos países do primeiro mundo considerado
primeiro mundo Europa Estados Unidos a publicidade já se abre já incompreensível produtos
não to dizendo que a cidadania tem que vir pela via do consumo não eu só acho que a publicidade
também pode ajudar na construção de mundo na visão de mundo aí eu peço que também essa
reação aí que você viu esse aumento é por conta da própria visibilidade gay a medida que os
gays conquistam mais espaços conquistam voz a reação é digamos assim proporcional esse
esses grupos de resistência a cidadania LGBT eles recrudescem na maneira como violentos
homossexuais

GABI: escuta aqui ahh a impunidade também encoraja esse tipo de reação

JEAN: encoraja sim sim sim a gente pode então dizer que é há uma contribuição do estado
também é uma violência institucional porque muitos homossexuais não vão a delegacia prestar
queixas das violências porque quando ele chega pra prestar queixa o delegado em geral ou o
detetive que ta ali da razão pro algoz não pra vitima

GABI: olha ahm ainda que seja por um motivo econômico ou que é bom que é muito bom você
deve ter ficado satisfeito com a a a tomada de posição do governo carioca em oficializar o Rio
de Janeiro como um destino gay

JEAN: sim e não nesse sentido o governador Sergio Cabral ta de parabéns ele sempre foi um
aliado foi um cara que sempre se comprometeu em estender a cidadania ao conjunto da
população do Rio incluindo ai os homossexuais ele não só converteu o Rio não foi só convertido
num destino turístico LGBT como ele acabou de criar uma campanha que custou acho que sete
milhões com spot de rádio e VTs contra a homofobia ta numa campanha linda que eu

GABI: que deu bode já teve aquela história lá do do uniformes policiais e aquilo ficou como?
JEAN: ficou olha ele deu no calor da hora ele falou olha os policiais podem ir depois ele voltou
atrás e disse que não claro ele falou no calor do lançamento da campanha até porque os
opositores pegaram muito no pé dele, mas a verdade é que ele tem um compromisso em proteger
a campanha é muito bacana eu acho que é eficaz que parte duma coisa simples assim tem um
casa dois amigos aqui e um casal homossexual ali e ele fala assim cê ta vendo aquele boiola e
si si é desfila uma serie de insultos e o amigo diz não não vejo ai quando ele diz assim você está
vendo aquelas duas pessoas ali ele fala ahh duas pessoas eu to vendo

GABI: é bonito

JEAN: muito bonito e isso tem surtido efeito na cidade agora também é como eu disse pra você
a contrapartida sempre é na mesma proporção ahh recentemente uma musicista entrou com a
namorada dela num taxi no Rio de Janeiro saindo de Santa Tereza e ele começou a andar muito
rápido e ela falou olha o senhor pode andar mais devagar ele disse deixa eu fazer meu trabalho
enquanto você faz sua porcaria ai atrás ai ela pediu pra parar então para o taxi quando ela desceu
ele abriu a porta desceu e deu uma bofetada nela que ela ficou desacordada por alguns minutos

GABI: cê ta brincando

JEAN: o Ancelmo Gois é de é denunciou isso ta toda imprensa lamentável lugar onde o destino
é considerado um destino LGBT o taxista que presta um serviço pra população inclusive pros
turistas comete uma barbaridade dessas

GABI: bom isso vai acontecer num é

JEAN: vai

GABI: o que tem que e a sensação que eu tenho é que as pessoas acham que na violência se
eu der um tapão aqui ou se eu der um tiro aqui

JEAN: cê vai matar

GABI: eu vou matar isso que me perturba que com o qual eu não sei lidar

JEAN: isso mesmo

GABI: na minha sexualidade em particular que deve ser isso né

JEAN: é isso mas é isso ai a gente aqui entra no terreno da psicologia mas é exatamente isso
eu acho que a homossexualidade desestabiliza a certeza que os heterossexuais tem da
naturalidade da sua sexualidade entendeu os heterossexuais acreditam que sua sexualidade é
natural foi a natureza que deu e a homossexualidade mostra o contrário mostra que as
sexualidades humanas todas elas são um construto uma construção de natureza e cultura
GABI: venha cá você apresentou uma proposta de emenda à constituição pra tornar possível o
casamento entre gays

JEAN: isso

GABI: como já existe na Argentina aqui tão pertinho

JEAN: tem

GABI: esse projeto você acha pode ser aprovado ainda nessa legislatura e vamos ficar muito
contentes porque temos um supremo que votou por unanimidade

JEAN: é eu já to feliz com a decisão

GABI: a união

JEAN: a união estável

GABI: estável entre homossexuais

JEAN: é bom esse resultado do supremo foi maravilhoso ainda bem que nós temos vivemos
numa república federativa e num estado democrático que os poderes são há uma tripartição dos
poderes em que eles são autônomos em relação um ao outro que bom porque se não fosse a o
judiciário os homossexuais não teriam direito nenhum se dependesse do congresso nacional é
essa proposta de emenda constitucional pra ela começar a tramitar depende das assinaturas eu
to em fase de recolhimento das assinaturas eu num tenho eu não sei não saberia te dizer se eu
tenho esperança se nessa legislatura ela seja votada ou não eu quero pelo menos coloca-la em
tramitação nessa legislatura entendeu a sociedade o debate já ta pautado o supremo pautou o
debate na sociedade então cabe agora o congresso nacional levar esse debate pra lá entendeu
e discutir isso eu quero que os opositores ouçam os meus argumentos estamos falando do
casamento civil não do casamento religioso em nenhum momento estamos pleiteando o
casamento na igreja queremos o direito ao casamento civil ou seja o direito inalienável a vida e
a felicidade a você escolher alguém pra se ligar pelo afeto e construir com ela um patrimônio
uma vida comum isso é um direito de todo cidadão

GABI: e se voc e se passasse a lei você vai casar?

JEAN: vou com certeza

GABI: cê já tem noivo e tudo


JEAN: ainda não Marilia o trabalho tem me tirado tanto dessa digamos assim dessa ceara da
ceara do afeto, mas eu quero me casar eu quero me casar eu espero encontrar nesse imenso
Brasil um coração batendo em sintonia com o meu

GABI: vem cá pra terminar o ne nosso bloco você já viveu um momento de grande ebulição na
câmara né que foi a votação do código florestal seu partido foi o um dos únicos a votar contra o
relatório do deputado Aldo Rebelo e contra a emenda que anistia os desmatadores quê qui cê
aprendeu nesse verdadeiro batismo de fogo

JEAN: foi um batismo de fogo olha eu aprendi que na verdade os interesses da coletividade
estão menos em jogo do que os interesses é individuais e dos grupos dos deputados porque a
bancada ruralista né defendendo os seus interesses os interesses dos seus negócios eu eu pois
em risco na verdade o destino do planeta quer dizer o destino da sustentabilidade do Brasil
porque da a nossa sustenta sustentabilidade econômica inclusive depende da preservação das
nossas florestas ou de uma exploração responsável desses espaços entendeu então foi o que
eu aprendi nós batalhamos o que pudemos lá e é o Chico Alencar e o Ivan Valente o Ivan
principalmente que foi quem tocou na verdade a a batalha e inclusive convocou a a ex-senadora
Marina Silva e foi candidata a presidente pra trabalhar com a gente ali enfim foi o que eu aprendi
que lamentavelmente não é não se pensa no país nem se pensa na coletividade se pensa nos
interesses imediatos

GABI: você sabe que a gente tem um a gente fica muito ressabiado com essa facilidade de casa
verbas ahm funcionários que um deputado tem

JEAN: sim

GABI: você conhecia Brasília?

JEAN: não. não conhecia Brasília não

GABI: você tem todas essas facilidades e aceitou-as todas?

JEAN: não eu não tenho todas as facilidades não por exemplo eu pago meu taxi é eu não fui
para os apartamentos funcionais eu aluguei um apartamento claro eu recebo ajuda de custo
porque eu to num outro estado é eu limitei o número de assessores pro mínimo aqueles que
podem me atender entendeu eu sou eu tenho uma relação com o dinheiro público como dinheiro
publico entendeu eu to prestando um serviço à população e a população me paga pra prestar
esse serviço e eu trabalho em nome desse dinheiro que a população me paga não tenho nenhum
interesse em enriquecer ilicitamente nem mudar multiplicar meu patrimônio eu to lá pra trabalhar
trabalhar mesmo

GABI: bom assim estamos terminando mais um bloco com alguém que eu acho que fez valer o
seu voto nele o Jean Wyllys daqui a pouco a gente volta até já
GABI: de volta pro último bloco de frente com Jean Wyllys bate bola jogo rapidíssimo amor

JEAN: é tudo

GABI: religião

JEAN: olha tenho religiosidade não religião

GABI: preconceito

JEAN: quebrou não tem mais jeito

GABI: politica

JEAN: fundamental importantíssima pra construção do bem comum

GABI: intolerância

JEAN: inadmissível a gente tem que construir um mundo que esteja livre da tolerância e da
intolerância porque mesmo a tolerância implica uma certa superioridade de quem tolera sobre
quem é tolerado

GABI: um sonho

JEAN: um sonho poxa eu queria que eu queria que esse país desse mais felicidade e bem estar
social pra mais gente entendeu esse é um sonho de verdade meu

GABI: um medo

JEAN: um medo de perder minha mãe

GABI: futuro

JEAN: a deus pertence

GABI: Bahia

JEAN: adoro adoro já me deu régua e compasso

GABI: e Jean Wyllys por Jean Wyllys

JEAN: poxa Jean Wyllys por Jean Wyllys tão difícil me definir assim olha Marilia eu sou um cara
que eu comprei um destino eu não sei onde ele vai dar e na no cumprimento desse destino eu
quero bem de todos felicidade urgente pra todos de verdade
GABI: um beijo muito obrigado pela bela entrevista

JEAN: obrigada amada voce obrigada de verdade

GABI: nós voltamos no domingo que vem logo depois do Silvio Santos até lá