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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

LUCAS TAVARES HONORATO

DOS “TERRITÓRIOS EM LOUCURA” AOS “TERRITÓRIOS DA LOUCURA”:


DESAFIOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS, PRÁTICOS E POLÍTICOS PARA
A ABORDAGEM TERRITORIAL NA SAÚDE MENTAL.

Niterói, RJ /2017
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA

LUCAS TAVARES HONORATO

DOS “TERRITÓRIOS EM LOUCURA” AOS “TERRITÓRIOS DA LOUCURA”:


DESAFIOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS, PRÁTICOS E POLÍTICOS PARA
A ABORDAGEM TERRITORIAL NA SAÚDE MENTAL.

Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-graduação
em Geografia da Universidade
Federal Fluminense, como
requisito parcial para obtenção
do grau de Mestre em
Geografia. Área de
concentração: Ordenamento
Territorial e Ambiental.

ORIENTADOR: Prof. Dr. Ruy Moreira.

Niterói, RJ/2017
DOS “TERRITÓRIOS EM LOUCURA” AOS “TERRITÓRIOS DA LOUCURA”:
DESAFIOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS, PRÁTICOS E POLÍTICOS PARA
A ABORDAGEM TERRITORIAL NA SAÚDE MENTAL.

Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-graduação
em Geografia da Universidade
Federal Fluminense, como
requisito parcial para
obtenção do grau de Mestre
em Geografia. Área de
concentração: Ordenamento
Territorial e Ambiental.

Aprovado em 25 de julho de 2017.

COMISSÃO EXAMINADORA

___________________________________________________
Prof. Dr. Ruy Moreira (orientador)
UFF – Universidade Federal Fluminense

___________________________________________________
Prof. Dr. Ivaldo Lima
UFF – Universidade Federal Fluminense

___________________________________________________
Drª. Ana Paula Guljor
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca – ENSP/FIOCRUZ

___________________________________________________
Prof. Dr. José Carlos Milléo
UFF – Universidade Federal Fluminense
AGRADECIMENTOS

Ao sábio e imponente dono da quentura, Senhor da Terra, da minha vida.

Ao sagaz e ousado dono da palavra, Senhor dos Caminhos, dos meus intentos.

À maternal e misteriosa mãe de todos, Senhora das Cabeças, da minha razão.

A vaidosa e pulsante fonte da beleza, Senhora do Encanto, da minha graça.

Aos antigos que me lançam nos mares, leme e âncora.

Aos sabores de hoje, prenuncia.

A tudo aquilo que se dedica ao outro enquanto o outro se dedica, laço.

Ao profundo, incondicional e verdadeiro vínculo, cuidado.

Aos companheiros de Luta e resistência, sonhadores e construtores de outro


caminho possível.

A família, início e fim de tudo, sentido de toda existência.

Aos ancestrais, pelo legado e pelos constantes re-encaminhamentos.

Ao amor verdadeiro, daqueles do peito e dos de abraço, que nunca se


deixaram, e nem se deixarão, esmorecer.
RESUMO

O presente trabalho se insere na interface Geografia e Políticas Públicas, com


o objetivo de analisar os novos ordenamentos, práticas institucionais e ações
previstas e orientadas pelo Modelo Assistencial em Saúde Mental, a partir da
Lei Federal nº 10.216/2001 e legislações e normas subsequentes, a partir da
problemática do território. Implica na elucidação de dois objetivos específicos:
a) analisar quais os elementos, contextos e trajetórias que permitem a
emergência gradual da problemática espacial no campo da Saúde Mental; b)
analisar quais os elementos, contextos e trajetórias que justificam a abordagem
territorial no discurso das políticas de saúde mental, a partir da promulgação da
Lei Federal nº 10.216/2001 (―Lei da Reforma Psiquiátrica‖). Partimos de uma
abordagem genealógica, para entender as várias ―entradas‖ e sentidos
atribuídos ao conceito de território, que vieram a coadunar-se nas políticas de
saúde mental e reorientar o arranjo espacial e as práticas espaciais no
cotidiano dos serviços. Em seguida, um esforço analítico de alinhavar possíveis
desafios teórico-metodológicos, práticos e políticos concernentes à adoção da
abordagem territorial como fundamento da organização, planejamento e
execução das práticas no campo da Saúde Mental.

PALAVRAS-CHAVE: território, políticas públicas, saúde mental, Reforma


Psiquiátrica Brasileira
ABSTRACT

The present work it inserts of the Geography and Public Policies interface, with
the objective of analyzing the new legal frameworks, institutional practices and
actions foreseen and guided by the Mental Health Assistance Model, based on
Federal Law 10.216 / 2001 and subsequent legislation and norms, from the
problematic of the territory. It implies the elucidation of two specific objectives:
a) to analyze the elements, contexts and trajectories that allow a gradual
emergence of the spatial problem in the field of Mental Health; b) analyze the
elements, contexts and trajectories that justify a territorial approach without
discourse of mental health policies, as of the enactment of Federal Law 10.216 /
2001 ("Psychiatric Reform Law"). We started with a genealogic approach, to
understand how various "inputs" and senses attributed to the concept of
territory, which came to be consistent in mental health policies and reorient the
spatial arrangement and as spatial practices of services. Next, an analytical
effort to introduce potential theoretical-methodological, practical and political
challenges concerned the adoption of the territorial approach as the foundation
of the organization, planning and execution of practices in Mental Health.

KEYWORDS: territory, public policy, mental health, Brazilian psychiatric reform


Figura 1- Muros: 18 de Maio. Fotografia por Lucas Honorato (2017)
LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS

CAPS - Centro de Atenção Psicossocial

DINSAM - Divisão Nacional de Saúde Mental

DIS - Distritos Sanitários

HPJ - Hospital Psiquiátrico de Jurujuba

IAP - Instituto de Aposentadorias e Pensões

INPS - Instituto Nacional de Previdência Social

MRPB - Movimento de Reforma Psiquiátrica Brasileira

MRS - Movimento de Reforma Sanitária

MTSM - Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental

NAPS - Núcleo de Assistência Psicossocial

NOAS - Norma Operacional de Assistência a Saúde

OMS - Organização Mundial de Saúde

PDR - Plano Diretor de Regionalização

RAPS - Rede de Atenção Psicossocial

RPB - Reforma Psiquiátrica Brasileira

SILOS - Sistemas Locais de Saúde

SUDS - Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde

SUS - Sistema Único de Saúde


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Muros: 18 de Maio, p.8


Figura 2 – Armando Corrêa da Silva, sala de aula 1998, p.13
Figura 3 – Muros: Sergio Affonso, p.61

Quadro 1 – Síntese dos três blocos, p. 74-76


Figura 4 – Modelo de determinantes sociais da saúde adaptado de Dahlgren e
Whitehead (1991), p.105

Quadro 2 – Conferências Nacionais de Saúde Mental, p. 109-112


Figura 5 – Rede de Atenção à Saúde Mental exposta em Brasil (2004b), p. 117
Figura 6 – Síntese para além da dimensão da gestão/planejamento/execução,
p.122
Figura 7 – Passe Livre, p. 123
Quadro 3 – Dimensões de práticas territoriais orientadoras das práticas
Institucionais, p. 129
Quadro 4 – Sintese de paradigmas, p. 130
Figura 8 – Rede de Serviços, p. 151

Figura 9 – Rede Rizomática, p, 152


Figura 10 – Redes de Sociabilidade, p. 153
Figura 11 e 12 – Muros: Convocação para reunião dos usuários, p. 176

Figura 13 – Muros: Denilson, p.184


Figura 14 – Muros: João Rodrigues II, p.204
Figura 15 – O que Armando Corrêa da Silva pensaria?, p. 217
SUMÁRIO

PRELÚDIO – O QUE ARMANDO CORRÊA DA SILVA PENSARIA? 13

ENXERTOS Nº 1: “PEQUENOS CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS –


PEQUENA HISTÓRIA DA INCRÍVEL LUTA DE LUCAS CONTRA SEUS
FANTASMAS OU A TERAPIA INTENSIVA DA LIBERAÇÃO PELO CAOS.”
47

CAPITULO 1 – DESCOBRINDO O ESPAÇO, ENCONTRANDO O TERRITÓRIO: AS


REVOLUÇÕES E REFORMAS NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL. 55

ENXERTOS Nª 2: “PEQUENOS CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS – O


PARTIDO OU A DESCOBERTA DA POLÍTICA” 89

CAPITULO 2 – TERRITÓRIOS EM LOUCURA – A REFORMA PSIQUIÁTRICA


BRASILEIRA 95

ENXERTOS Nº 3: “PEQUENOS CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS – A


BUROCRACIA” 124

CAPÍTULO 3 – TERRITÓRIOS DA LOUCURA – ENCRUZILHADAS EM REDE,


TERRITÓRIOS EM EVIDÊNCIA. 128

ENXERTOS Nº 4: “GUARDANAPOS DE PAPEL – HOJE” 177

CAPÍTULO 4 – LOUCURA NOS TERRITÓRIOS – OS DESAFIOS TEÓRICO-


METODOLÓGICOS, PRÁTICOS E POLÍTICOS PARA A ABORDAGEM
TERRITORIAL NA SAÚDE MENTAL. 178
I - A MORTE DA GENTILEZA DO PROFETA GENTILEZA – A „ENTIFICAÇÃO‟ DO
CONCEITO E A DESPOTENCIALIZAÇÃO DA ABORDAGEM 185
II - O INCOMPREENDIDO ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO – A DIFICULDADE DA
ALTERIDADE RADICAL E A DESARTICULAÇÃO DOS PODERES INSTITUINTES
186
III - O TRISTE FIM DE LIMA BARRETO – O PROBLEMA DA
TECNOBUROCRATIZAÇÃO DO CONCEITO E OS DESAFIOS DA
TERRITORIALIDADE 189
IV - OS LIMITES DE HELIO OITICICA – O MITO DO CONCEITO INTEGRADOR E
O DELIRIO DA EXPERIÊNCIA TOTAL 193

ENXERTOS Nº 5: “GUARDANAPOS DE PAPEL – ELEIÇÕES” 203

CONCLUSÃO 204

“FINIS OPERAE – FIM DE PAPO” 216

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 218


―As pedras nos sapatos me desfatizam.
Me faço profundo de canto em conto
A cada doce dose de submundo.
Me fazendo tudo e nada - sem igual.

Sou inato de cheios-vazios.


Me vejo um príncipe, vagabundo e poeta.
De cetro em punho e coroa de prosas
A esquina me versa:

―Sois o grave dos acordes,


O intenso dos afetos.
Expressa-te com fúria.
Faça-te delito.
É a rua quem transborda do teu corpo,
Pois a estética é o grito do espírito.‖
Ode à Encantadora Alma das Ruas, Lucas Honorato.

―Começou de má vontade, mas no fim de alguns minutos


já trabalhava com amor. A inspiração, com os olhos no
céu, e a meditação, com os olhos no chão, ficam a um e
outro lado do espaldar da cadeira, dizendo ao ouvido do
cônego mil coisas místicas e graves. Matias vai
escrevendo, ora devagar, ora depressa. As tiras saem-lhe
das mãos, animadas e polidas. Algumas trazem poucas
emendas ou nenhumas. De repente, indo escrever um
adjetivo, suspende-se; escreve outro e risca-o; mais outro,
que não tem melhor fortuna. Aqui é o centro do idílio.
Subamos à cabeça do cônego...‖

Cônego ou Metafísica do Estilo, Machado de Assis


PRELÚDIO – O QUE ARMANDO CORRÊA DA SILVA PENSARIA?

Figura 2: Armando Corrêa da Silva, sala de aula 1998. Fonte:


www.grupogeobrasil.com.br

PRELÚDIO: pre·lú·di·o, subst. masc., latim præludĭum, 4. Música: “Introdução


instrumental ou orquestral de uma obra musical, podendo ser absolutamente
independente e não ter caráter introdutório;”

***

Em seu livro ―De Quem É o Pedaço? Espaço e Cultura‖, Armando Corrêa da


Silva (1986), desafiou o campo científico da geografia apresentando uma proposta
ousada. Em suas próprias palavras ―ao leitor‖:

13
O tema substantivo deste livro pretende ser uma contribuição não
sistemática sobre a noção contemporânea de território. O autor
expõe O TERRITÓRIO DA CONSCIÊNCIA [parte um], A
CONSCIÊNCIA DO TERRITÓRIO [parte dois] e pergunta-se: O
ESPAÇO NO LUGAR [parte final]? Em livro anterior (O espaço fora
do lugar, HUCITEC, 1978) punha-se o problema da consciência da
fragmentação da cultura e do conhecimento; a questão da unidade
do objeto geográfico. (...) A solução apresentada neste livro avança o
entendimento da questão. Por quê? Por que o autor procura
enfrentar todos os seus fantasmas. Isto é, mente dividida é resultado
do mundo dividido. Pensar e fazer é, por isso, reproduzir e montar.
(SILVA., p. 9) [caixa alta adicionado].

As dificuldades de um projeto de tal alçada são antecipadas ao iniciarmos a


―Parte I – O TERRITÓRIO DA CONSCIÊNCIA‖:

A sobre-reflexão do território da consciência apresenta dificuldades


singulares. Pois é preciso ir além da máxima consciência possível. O
saber, então, põe-se como subjetividade plena na construção das
imagens que remetem à busca das predeterminações e pré-
ideações. O modo possível de sua realização é, portanto, o projeto.
(...) A subjetividade deve expor-se à consciência dos outros. Por isso,
exponho o trabalho realizado em sua sequência positivada, como
escolha do caminho, que remete à consciência do território. ‗A
Paranormalidade: Sugestões para Pesquisa‘ é um texto de 1967. Foi
redigido, inicialmente, numa perspectiva sociológica que, aqui, muda
de significado. Trata-se da investigação sociológica do espaço
mental, referida a uma experiência pessoal (evidentemente, não
desejada), que se defronta com o ‗espaço da loucura‘. (ibid., p. 11-
12)

Paremos por aqui, já temos o suficiente. É possível uma contribuição


geográfica genuína para a compreensão da subjetividade humana (ou os ―territórios
da consciência‖)? Uma Geografia da Paranormalidade? Quais os (des)limites
subjetividade-espaço?1 Pode a ―consciência do território‖ permitir uma abertura à
consciência do Outro?

Armando Corrêa da Silva, o ―geógrafo-filósofo‖ (SPOSITO, 2008), aquele


―professor estranho e genial‖ (SOUZA, 2014), doutorou-se em Geografia na
Universidade de São Paulo - USP, aonde veio a lecionar na área de Geografia

1
Fazendo um balanço do meu próprio texto enquanto escrevo este prelúdio acabo refletindo sobre a
seguinte questão: frente ao vigor intelectual desta alçada de Armando Corrêa da Silva, uma
investigação acerca dos desafios de uma abordagem territorial para a Saúde Mental a partir das
políticas públicas me parece bem pouco ousado... Talvez ―Simplesmente Armando‖ pensasse: ―é
preciso ir além, meu rapaz...‖ (((DEVANEIOS)))
14
Humana. Chegou a Professor Titular, na década de 90. Nesta mesma época,
trabalhou como convidado no Programa de Pós-graduação em Geografia da
Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNESP, em Presidente Prudente, onde, enfim,
escreveu sua ―segunda‖ tese de livre docência, sendo esta aprovada.

Flashback. Em 1989 assisti à reprovação de Armando em seu exame


de livre docência. Ele apresentou um texto intitulado Quatro paralelos
e um meridiano. Contrastou sua ousadia, seus termos com forte
apelo teórico e o conservadorismo (mesmo que com a competência
de estar por ali) dos membros da banca. Ele pagou o preço de
desafiar a banca, que o havia prevenido para que ele não fosse para
o exame, mas ele pediu que fosse reprovado publicamente, na
presença de seus pais, alunos e amigos. Alguns membros da banca,
com comportamento irado, não aceitaram o desafio. Reprovado,
Armando reapresentou-se para um novo exame de livre docência
dois anos depois, quando foi aprovado. Aí ele apresentou, no novo
texto, um mapeamento do espaço relacional de um estudo empírico
que realizou no bairro da Consolação, em São Paulo. (SPOSITO,
2011, p. 114)

O ecletismo marcou sua trajetória pessoal e profissional. Pianista profissional,


poeta, militante comunista, pesquisador e professor universitário, atuou como
presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros no biênio 1990-92, sendo um
dos grandes responsáveis pela reestruturação da entidade e figura importante junto
com Milton Santos, Ruy Moreira e toda a ―nova geração‖ do movimento de
―Renovação da Geografia‖. Com estes últimos, marca a virada ético-política,
epistêmico-ontológica e teórico-prática no campo científico da Geografia, ao longo
das décadas de 1980-90.

Acerca do contexto e da importância de Armando Corrêa da Silva, em


entrevista à Revista Discente Expressões Geográficas, da UFSC, em maio de 2007,
Maria Adélia de Souza afirma:

Há também que mencionar meu saudoso amigo e colega Armando


Correa da Silva, que sempre esteve na frente de todos e pagando
caro pela sua ousadia epistemológica! (...) Milton [Santos] e Manoel
[Corrêa de Andrade] não, eram geógrafos soltos, professores da
universidade que procuravam fazer reflexões profundas. Penso que
depois haja uma ruptura que vá começar a desabrochar na reunião
de Fortaleza, em que se fundou a nova AGB, em 1978, e que ali o
Milton, e a liderança que ele teve naquela reunião, comecem a
reorganizar as figuras na época emergentes, os jovens emergentes,
onde se destacava o Ruy [Moreira], lá do Rio; na USP,
15
provavelmente, os discípulos do Armando Corrêa da Silva, que
considero ser um geógrafo que tenha de figurar também nessa
galeria, que foi um incompreendido ─ acho que nós temos um débito
muito grande com o Armando ─, o que talvez pudesse surgir de novo
na Geografia. (SOUZA, 2007, p. 2-3)

Este período marca a introdução no Brasil de uma reflexão crítica e filosófica


acerca do próprio campo da Geografia, impulsionando tendências epistemológicas
outras.

Armando foi responsável pela aproximação do pensamento Geográfico com o


pensamento de alguns filósofos que produziram grandes mudanças nas ciências
sociais como um todo, apoiado na ideia de crise do pensamento geográfico, o autor
encabeçou grandes críticas a falta de reflexão filosófica por parte dos geógrafos.

Para Spósito (2008), Armando Corrêa da Silva buscou em Luckács o conceito


de práxis e as bases de uma discussão ontológica para a Geografia. De Sartre,

Ele tomou a importância da compreensão do ser. Tendo como


partida o real enquanto totalidade do ser, ele admite o nada como
elemento do processo de fundamentação do ser que leva à
percepção da espacialidade. Partindo do pressuposto de que o nada
se conforma na relação entre o ser e a exterioridade imediata, a
formação da consciência ocorre quando ocorre a negação do que é
exterior ao ser. O exterior, por sua vez, pode ser percebido como
fundo e forma que, em consequência, estão presentes na
consciência do espaço – este como algo em constituição. (ibid., p.
159)

Conforme Souza (2014), a pedra angular do pensamento de Armando Corrêa


da Silva é uma ontologia do espaço geográfico que ―contém, ou envolve o homem
por inteiro‖:

Armando Corrêa da Silva circulou livremente pela ontologia, pela


epistemologia e pela gnosiologia (níveis da produção do
conhecimento), lembrando que a intuição é fundamental para a
realização do raciocínio que, por sua vez, produz a consciência, não
se esquecendo da condição natural do ser humano. Por esse
caminho ele chega à teoria do conhecimento e ao papel da
linguagem, que se põe na relação entre sujeito e objeto como prática
e como teoria. (SPOSITO, 2008, p. 159)

Armando Corrêa da Silva alcunhou seu próprio método como uma


―fenomenologia ontológica-estrutural‖ (SILVA, 2000) cuja vertente (a qual denominou
―ontologia analítica‖) envolve a articulação de ontologias plurais, integrando a teoria
16
estruturalista do conhecimento marxista-leninista e a fenomenologia (SILVA, 1994).
Para tanto, concebia a Geografia como ―a ideologia do cotidiano‖ – em suas próprias
palavras: ―nunca fiz uma ciência desprovida de uma mensagem de uma
comunicação de um significado para o cotidiano para as pessoas, aliás a minha
postura é uma ideologia do cotidiano‖2.

Em outro texto o autor é categórico:

A Geografia é uma subtotalidade. Ela pode ser identificada, no


âmbito do conhecimento, como uma ideologia do cotidiano, expresso
pela apreensão da espacialidade do valor relacional contido no real.
(SILVA, 2000, p. 7)

Posto que,

A ideologia do cotidiano se forma na vivência do espaço e do tempo


que é, antes de tudo, o ―ver‖. Mas, trata-se de um ver com os olhos
da teoria, vale dizer, a visão é interior, porque já carregada de
significados. A objetificação dos significados transforma o ver interior
no olhar que seleciona, classifica, identifica, etc. Perceber o espaço é
dar-se conta do opaco, do transparente, do translúcido, do contorno,
dos ângulos, da dimensão, da distância, do tamanho, do contínuo, do
limitado, do obstáculo, da ausência de obstáculos, etc.. No entanto,
pensar o espaço defronta-se com a espacialidade, da qual tudo o
que se disse é aparência. Mas, a espacialidade não é apenas dos
objetos. Há o espaço do corpo e seus prolongamentos. Há também o
espaço da mente. Como o tempo e o movimento, o espaço é
fundante do existir, e, portanto, do pensar. Sendo assim, ele é algo
físico, uma ―coisa‖, e é algo social, algo criado pelo trabalho. O
primeiro, precede a existência humana; o segundo, nasce da
valorização do natural como fonte de vida. Mas, essa constatação é
resultado, desde logo, do pensar o espaço. Pensá-lo como dado e
pensá-lo como artefato que a mente projeta. O espaço do cotidiano
é, em primeiro lugar, o espaço da gravitação, que dá origem ao
vertical, ao horizontal, ao plano, ao declive, ao aclive, à postura
ereta, ao equilíbrio, ao desequilíbrio. Esse espaço é trabalhado pela
cultura. Esta o percebe como agradável, desagradável, onírico,
pesado, leve, base, conteúdo, atributo, mágico, feio, bonito, vazio,
repleto, ocupado, desocupado, livre, aberto, etc. O espaço é o real e
o imaginário. (ibid., p. 18)

Frente a isto,

O que importa é seu existir aqui ou ali, tendo um significado teórico


em cada lugar, como área, região, ou território, com suas populações

2
Fala proferida em entrevista para o documentário ―Prof. Armando, seu piano e sua Geografia‖.
17
presentes. Como já se disse: ―o espaço é uma acumulação de
tempos‖. Essa acumulação é diversa é múltipla. Cabe captar sua
lógica, ou seja, seu sentido. Esse trabalho é um procedimento
mental. Cabe por isso, compreender, ou melhor, apreender a
consciência da forma e os usos que dela faz a população. Esta,
valoriza-a diferentemente. Essa valorização do espaço tem relação
com o espaço vivido enquanto memória da forma. É assim que a
geografia é também uma ciência da sociedade, enquanto
consciência do espaço. (ibid., p. 22)

Refletindo sobre tais questões referentes ao pensamento de Armando,


Sposito (2011, p. 160) é categórico:

A ideologia do cotidiano teria, necessariamente, o caráter de


subtotalidade expressa na apreensão da espacialidade. O
geográfico, para ele, teria seu significado dado pela particularidade e
pela forma porque teria que ser percebido. Enfim, o cotidiano seria o
modo como o relacional contido no real se explicitaria na mente, na
maneira como a pessoa pensa. (...) Em sua observação do cotidiano,
procurava a acentuação das diferenças pela ação de grupos bem
identificados, como as feministas, os pós-marxistas, os
homossexuais ou os negros, por exemplo. Ele vai além dos debates
marxistas de luta de classes; ele analisa a relação entre massa e
lugar, massa e cultura; e massa, autoritarismo e democracia 3.

Armando Corrêa da Silva acreditava que o mundo atual radicalizou suas


contradições tornando-se um desafio para a compreensão – ―O mundo de hoje é
muito complicado e a gente vive dentro das estruturas que a gente busca analisar.
Daí a dificuldade de entender o que está acontecendo‖ 4.

Contudo, o acesso ao seu legado intelectual não é tão fácil...

Primeiro, devido a maior parte de seu material produzido estar disperso em


artigos para revistas e capítulos de livros, aos quais o autor e remete em seus livros,
sem, contudo, uma retomada da reflexão daqueles debates de forma sistemática 5.

3
Acerca da diferença de linguagem entre as gerações, Armando, no documentário supracitado,
afirma: ―A linguagem atual dos jovens é outra coisa, em que os jovens falam ―eu sou mais eu‖, ―a
política é o fim‖, ―conforto sim‖, ―dinheiro só se necessário‖, uma série de frases assim que mostram
uma juventude no mundo inteiro raciocinando igual, pensando igual. (...) O rave, o punk, o funk, a
questão dos clubers, a questão drag queen, todas essas manifestações, inclusive no brasil, o mangue
beat, na Bahia, essas ―tribos‖, vamos falar assim, são para mim uma curiosidade, coisas que eu estou
aprendendo a conhecer‖.
4
No documentário ―Prof. Armando, seu piano e sua Geografia‖.
5
Importante problematizar a dificuldade de acesso aos textos políticos de Armando Corrêa da Silva.
Muito de sua militância envolveu a produção de textos e escritos em revistas de sindicatos (pouca
18
Segundo, dado a seus debates serem muito pouco lineares - o que significa
na prática que certos temas são retomados ou interrompidos ao longo de sua
produção, esboçando quase que um ―quebra-cabeças‖ – alguns temas, por exemplo,
são problematizados em alguns escritos, mas só são retomados a fundo anos
depois; e, outros, são abandonados e não revisitados, deixando muitas questões em
aberto.

Por fim, sua linguagem é bem pouco convidativa, posto que envolve toda uma
complexidade imersa em uma erudição e discussões teórico-metodológicas a partir
do linguajar de campos científicos tradicionalmente pouco próximos da Geografia –
como na filosofia, com a ontologia ou no caso da fenomenologia.

Refletindo sobre os escritos de Armando Corrêa da Silva, Sposito (2011),


afirma que estes possibilitam ―pensar além do pensamento geográfico‖,

Isto é, em uma ―freqüência‖ do raciocínio que permita articular


ciência e poesia, vontade pessoal e rigor científico, idéias de
diferentes autores e propostas para um futuro que já se configurara
em sua pessoa. (ibid., p. 110)

Apesar da riqueza de suas contribuições, concordamos com Spósito (2011, p.


119 apud SOUZA, 2014) quando diz: ―este personagem continua sendo uma
incógnita no pensamento geográfico por sua ousadia, sua simplicidade e sua
negação dos cânones da academia‖.

Maior do que Armando Corrêa da Silva, talvez só a sua loucura6.


Esquizofrênico, amplamente relembrado por seus surtos e momentos anormais7,
tomado ora como gênio-louco ora como louco-gênio, tem sua produção intelectual
crivada de forma geral por um duplo e aparentemente contraditório ideário: por um

circulação e quase sem registro) e falas em assembléias e reuniões do Partido Comunista Brasileito –
talvez um dos únicos de relativo acesso seja o texto ―Estrutura e mobilidade social do proletariado
urbano em São Paulo‖, na Revista Civilização Brasileira, em 1967. Dada a esta dificuldade,
constumamos exaltar o caráter militante de sua pessoa, sem, contudo, conseguir uma caracterização
mais concreta de sua ação política.
6
Imagem que é confirmada no documentário já citado com a fala expressa por um entrevistado: ―O
Armando, em minha opinião, é ótimo. Ele é um cara genial. Bem [com muita ênfase] louco...‖
7
―Considerando algumas explanações de estudantes da época da graduação (em especial na
década de 1990), há comentários de ex-alunos que confirmam exposições do eminente professor
Armando executando, vez ou outra, uma peça de música erudita no pátio do departamento de
Geografia em pleno horário de aula.‖ (SOUZA, 2014).
19
lado, cabe desconsiderar muito de seus pensamentos, visto representar um
intelectual ilógico, inconstante e irregular, gênio-louco – valendo a retomada a um ou
outro texto, de um ou outro momento mais marcante, mas específico e pontual de
seu legado; por outro, assistimos a hipervalorização de sua obra como que
buscando uma verdade escondida e reveladora, a frente de seu tempo, que o louco-
gênio pudesse expressar, sobrecodificando8 seus escritos (soma-se o deslumbre
sobre como uma leitura de ordem mais cronológica de suas obras permitiria
perceber seus momentum (s) e, por tanto, a possibilidade de separação e
mapeamento da evolução entre os momentos mais sãos e àqueles mais afetados
pela loucura).

Interessante: oscilando entre a banalização e à ―folclorização‖, o mergulho no


pensamento do intelectual e, consequentemente, a forma com que a historiografia
na Geografia o busca, muita das vezes, guarda à surdina um denominador comum,
nem sempre explícito, mas sempre presente: a loucura. Ora como aquilo que deve
ser negado, geneticamente chagado pela irrazão (implicando a priori no
questionamento da validade de seus pressupostos); ora como aquilo que instiga,
deslumbra, revela de sobremaneira.

Trata-se de um duplo sentido por onde reverberam os ecos da loucura.

Mas, como ouvi-la?

O que Armando Corrêa da Silva pensaria?

Como uma espécie de Ode9, buscaremos ao longo da dissertação


desacomodar o estigma marcado a ferro acerca da relação entre loucura e autoria
(muito comum aos gênios-loucos e loucos-gênios que influenciaram direta e/ou
indiretamente muito da visão de mundo de nossa sociedade atual). Longe de uma

8
No vocabulário conceitual de Deleuze e Guatarri, o conceito de código/sobrecodificação assumem
forma ampliada, podendo fazer referência desde sistemas semióticos à fluxos de energia. Contudo, a
sobrecodificação trata-se, para os autores, de uma codificação de segunda ordem. Ou seja, de forma
externa e estranha aos sistemas de codificação que concernem a certo conjunto de relações. Em,
Deleuze e Guattari (1976), os autores nos trazem como exemplo as sociedades agrárias primitivas
que ao mesmo tempo em que operam segundo seus proprios sistemas e mecanismos de codificação
territorializados, são sobrecodificadas por estruturas relativamente desterritorializadas que lhes impõe
uma ―hegemonia militar, religiosa, fiscal, etc.‖.
9
Próprio da cultura grega trata-se de um poema lírico, destinado ao canto, sempre de tom alegre e
enstusiástico. C.f. NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia; São Paulo: Companhia das
Letras, 1992.
20
tentativa de encontrar a racionalidade de Armando em meio a sua loucura (e vice
versa) , a tarefa é bem mais árdua: trata-se de reapresentar seus deslimites através
de suas próprias palavras, registradas em alguns pequenos contos, relatos e
poesias, presentes no livro Saudades do Futuro (1993) – reproduzidos fiel e
integralmente ao longo do texto10.

Lembro-me dos ensinamentos dos meus ancestrais acerca das formas de


manejo das ervas e plantas. Comum na agricultura tradicional, a técnica da enxertia
consiste na união dos tecidos de duas plantas, normalmente de diferentes espécies,
cujo desenvolvimento da planta tende a produzir inúmeras vantagens, mas uma me
chama mais atenção: a união da característica das diferentes espécies numa só
planta. Assim, os antigos combatiam pragas e adaptavam cultivos de outras regiões.
Contudo, nem sempre a técnica dá certo. Às vezes, simplesmente, não vinga.

É esta concepção de enxerto que buscaremos trazer para a estrutura do texto


por vir. Nosso modo de ler Armando: não necessariamente uma leitura linear e
concordante ou adaptada ao tema aqui dissertado, mas de alguma forma integrado
e parte de um todo.

Os enxertos devem ser explorados mais como experimentações, um degustar


da loucura, do que propriamente como uma extensão ou prenuncio dos capítulos.
Os enxertos são pausas. Entremeios. Intervalos que ampliam a linguagem e campo
de expressão, que buscam unir lógica e afeto. Armando e Lucas11.

As conexões entre os enxertos e o texto devem ir se fazendo ao longo da


leitura, de forma aparentemente caótica e desorganizada, mas, propositalmente
orientada. Não se enganem este texto também vocaliza minhas loucuras...

Para acessar ―Simplesmente Armando‖, é preciso inflexionar, curvar, dobrar e


redobrar a figura celebre. Recontar, pela voz do contador.

10
No documentário supracitado ―Prof. Armando, seu piano e sua Geografia‖, Armando afirma: ―Passei
um pouco da minha preocupação com o barzinho, com a mulher, com a música para o papel e acabei
sem ter pensado nisso escrevendo um livro que se chama saudades do futuro‖; e, mais além, explica
que ―Saudades do futuro não é uma metáfora. É uma maneira de eu exprimir o meu antes e o meu
depois. Por que sou da geração de 50 (meu antes) e vivi a década de 60 muito intensamente, a de 70
com muita dificuldade, a de 80 e agora já estamos numa geração de 90. E saudades do futuro
representou pra mim uma forma de exprimir a minha experiência de vida.‖
11
Eu, inventor, ou seu alter-ego? (((DEVANEIOS)))
21
Atenção às nuanças, pois são elas que nos fazem ouvir por todos os nossos
poros. Para ouvir a loucura é preciso se afetar em todos os níveis [como se de fato
fosse possível o contrário (sic) (((DEVANEIOS)))]. Tomemos posição. É preciso que
nos impliquemos! Que sejamos simplesmente Armando por alguns momentos, para
que Armando Corrêa da Silva deixe de ser uma fotografia... o refaçamos por
rabiscos... De próprio punho... É preciso transduzir 12 o gênio-louco e o louco-gênio,
em simplesmente Armando, cheio de complexidades.

O que Armando Corrêa da Silva pensaria?

Quem seríamos nós para ousar qualquer resposta. Lhe convidamos leitor,
para que, implicado em nosso trabalho, se aproprie e faça seu este hiato em forma
de pergunta, preenchendo-o ou não – como achar melhor. Aqui, a pergunta está
entreaberta. Deixa-la entreaberta permite desencarcerar o gênio louco e o louco
gênio, mantendo simplesmente Armando vivo, sendo parte e preocupação
recorrente para nós.

O coração de Armando Corrêa da Silva parou de bater no dia 26 de agosto de


2000. Não morreu de loucura, afinal, conforme brilhantemente me lembra o colega-
geógrafo-louco Renan Nascimento: loucura não mata.

[―Uma coisa curiosa a meu respeito é que dizem que eu tenho uma postura
séria que se reflete no rosto, mas isso decorre da necessidade de eu me concentrar
para falar, mas eu sei sorrir também...‖ – disse Armando em sua última fala no
documentário ―Prof. Armando, Seu piano e sua Geografia‖, dirigido por Olindo
Estevam, o Tchê, antes de sorrir...]

12
Do substantivo ―transdução‖, que se trata na Física, da transformação de uma energia em uma
energia de natureza diferente.
22
INTRODUÇÃO

As laterais são banais


Segurando as pontas
Como tais.

Acabamento
Que sustenta
A concepção igual do visual.

Falta a comunicação
Na forma do aparente:
Colorida de estímulos

Completando a ilusão
Na forma do real:
Laterais, acabamento.‖

As Laterais, Armando Corrêa da Silva

Afirma-ação: prepotente quem ousa dar voz a loucura. A questão primeira consiste
em como ouvi-la... Importante: às vezes é preciso marcar neologismos para o
aprofundamento do significado das palavras. Segundo o verbete do dicionário
Michaellis, originária do latim affirmare (consolidar, tornar firme, confirmar), a palavra
afirmação trata-se do ato de tornar forte, de sustentar certa Verdade. Verdade, que
só se sustenta conforme constante processo de estabelecer-se – é preciso não parar
de afirmar a afirmação, sob a pena de extingui-la... Ou melhor: uma afirmação que
não age, que não produz, não se sustenta! É preciso que a afirmação produza! Que
seja desterrada dos consensos de jazigos dos jargões intelectuais e ascenda à vida.
É preciso encarna-la com letras de poeta, e não cessar de repeti-la a cada instante.
Pronunciá-la como rugido... Afirma-ação: prepotente quem ousa dar voz a loucura! A
questão primeira consiste em como ouvi-la!

23
Ao longo do processo de distensão política e redemocratização atravessada
pelo Brasil nas décadas de 70 e 80, diversas experiências, ações, propostas e
projetos orientados em diferentes frentes (institucionais, acadêmicas e políticas)
criaram regimes de tensão com o modelo assistencial até então instituído, pautando
diferentes formas de cuidado13 aos usuários dos serviços de saúde mental na busca
da ampla democratização e humanização das práticas assistenciais. Em parte, este
conjunto de propostas foi absorvido no bojo dos processos de Reformas, tanto
Sanitária, quanto Psiquiátrica, que marcam o final da Ditadura Militar, refletindo nas
políticas de saúde – criação do Sistema Único de Saúde (entre outros) – e saúde
mental consequentes.

Neste contexto, o conceito de território emerge no campo da Saúde Mental


como promessa de operar transformações tanto no paradigma de cuidado quanto de
reorientar as práticas e estruturas institucionais (ATALLAH, 2013). Importante notar
que, de forma geral, nos últimos anos, o conceito tem sido revisitado como uma
promessa de valor para acadêmicos, movimentos sociais e o Estado.

O tema deste trabalho versa sobre a institucionalização da Reforma


Psiquiátrica Brasileira (RPB) e a incorporação do conceito de território como
integrador para as políticas públicas em geral e instrumento terapêutico privilegiado
para o cuidado em Saúde Mental.

Portanto, este trabalho de pesquisa tem por objetivo primacial analisar os


novos ordenamentos, práticas institucionais e ações previstas e orientadas pelo
Modelo Assistencial em Saúde Mental, a partir da Lei Federal nº 10.216/2001 e
legislações e normas subsequentes, a partir da problemática do território. Nesse
sentido, toma-se como base reflexões de cunho epistemológico para a apresentação
de possíveis desafios postos a uma abordagem territorial para as políticas de saúde
mental e suas implicações.

13
Neste trabalho, tomamos tal qual Moreira (2012), o cuidado como considera Ayres (2004), ―um
constructo filosófico, uma categoria com a qual se quer designar simultaneamente, uma compreensão
filosófica e uma atividade prática frente ao sentido que as ações de saúde adquirem nas diversas
situações entre dois ou mais sujeitos‖. Consideramos, também, as reflexões de Boff (1999) que,
inspirado na filosofia heiddegueriana, nos aponta o cuidado como uma dimensão ontológica da
existência humana. Desta forma, o cuidado trata-se de uma atitude inerente aos seres humanos, mas
que demanda uma reorientação no campo da ética para que produza os efeitos necessários para
uma sociabilidade mais adequada à sociedade. Cuidado como valor humano. Ética como dimensão
privilegiada de reflexão e intervenção. Título do livro: ―Saber Cuidar (...)‖.
24
São questões: se, segundo as orientações nacionais das políticas públicas de
saúde mental pós-―Lei da Reforma Psiquiátrica‖, a abordagem territorial deve ser
adotada como base ao ordenamento institucional e ao cuidado ao louco, então quais
as possibilidades e limitações desta proposta, em vistas à garantia de realização dos
pressupostos do projeto de Reforma? Até que ponto a aposta no território realmente
inova e aponta progressos? E, que território é este?

Nossa premissa é a de que, no caso da falta de uma reflexão mais profunda


acerca das problemáticas que concernem às noções de rede, território e
territorialidade, pode-se produzir uma série de constrangimentos e entraves, que se
colocam como desafios à realização dos pressupostos do projeto de Reforma. É
com o aprofundamento destas reflexões de cunho mais epistemológico a partir dos
debates à luz da Geografia, que esperamos poder contribuir para o melhor
entendimento das abordagens territoriais presentes na orientação de ações,
planejamento e intervenção terapêuticos.

Para tanto, esta pesquisa implica na elucidação de dois objetivos específicos:

• Analisar quais os elementos, contextos e trajetórias que permitem a


emergência gradual da problemática espacial no campo da Saúde Mental;

• Analisar quais os elementos, contextos e trajetórias que justificam a


abordagem territorial no discurso das políticas de saúde mental, a partir da
promulgação da Lei Federal nº 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica);

Assim, este trabalho se justifica pela capacidade de gerar análises críticas


acerca: dos elementos, contextos e trajetórias que permitem a emergência gradual
da problemática espacial no campo da Saúde Mental; e, dos elementos, contextos e
trajetórias que justificam a abordagem territorial no discurso das políticas de saúde
mental, a partir da promulgação da Lei Federal nº 10.216/2001 (Lei da Reforma
Psiquiátrica).

Por conseguinte, os desafios que procuramos aventar, apesar de restritos a


reflexões de teor mais epistemológico, extrapolam o limite da mera especulação
teórica e são postos como provocação aos profissionais, usuários e familiares que
cotidianamente dão corpo às Redes de Atenção Psicossocial – RAPS, a partir dos
equipamentos e serviços – locus do planejamento e execução das ações de

25
cuidado, em vistas à integralidade14 e da capacidade de produção de saúde aos e
com os usuários.

Em seu livro ―O Mito da Desterritorialização‖, Haesbaert (2004), nos apresenta


a polissemia e a polêmica que tem envolvido os debates sobre o conceito nas
Ciências Sociais:

Apesar de ser um conceito central para a Geografia, território e


territorialidade, por dizerem respeito à espacialidade humana, têm
uma certa tradição também em outras áreas, cada uma com enfoque
centrado em uma determinada perspectiva. Enquanto o geógrafo
tende a enfatizar a materialidade do território, em suas múltiplas
dimensões (que deve[ria] incluir a interação sociedade-natureza), a
Ciência Política enfatiza sua construção a partir de relações de poder
(na maioria das vezes, ligada à concepção de Estado); a Economia,
que prefere a noção de espaço à de território, percebe-o muitas
vezes como um fator locacional ou como uma das bases da
produção (enquanto "força produtiva"); a Antropologia destaca sua
dimensão simbólica, principalmente no estudo das sociedades ditas
tradicionais (mas também no tratamento do "neotribalismo"
contemporâneo); a Sociologia o enfoca a partir de sua intervenção
nas relações sociais, em sentido amplo, e a Psicologia, finalmente,
incorpora-o no debate sobre a construção da subjetividade ou da
identidade pessoal, ampliando-o até a escala do indivíduo.‖
(HAESBAERT, 2004, p. 35)

Por esta passagem, fica para nós claro que o termo ―território‖ possui
múltiplas acepções.

O autor sintetiza as principais dimensões do conceito em quatro vertentes


principais: política (do território como espaço delimitado onde se exerce uma relação
de poder); culturalista ou simbólica (como fruto da apropriação do espaço vivido por
um grupo social); economicista (enquanto dimensão espacial das relações
econômicas); e naturalista (da relação homem-natureza, tomado enquanto
comportamento ―natural‖ dos homens em relação ao meio físico – etologia).

Acontece que os vários significados atribuídos ao território que figuram nos


discursos e na imaginação acadêmica, política e institucional, não necessariamente
são semelhantes, concordantes e, muitas vezes, são contraditórios. Isto gera muitas
14
―Envolve a promoção, a proteção e a recuperação da saúde. Mas, além de ser integral, o
atendimento no SUS deve priorizar as atividades preventivas. (...) Esta diretriz do SUS, que busca
compatibilizar ações preventivas e curativas, individuais e coletivas, (...) representa uma inovação nos
modos de cuidar das pessoas e de buscar soluções adequadas para os problemas e necessidades
de saúde da população de um bairro ou de uma cidade‖ (PAIM, 2009, p. 50).
26
dificuldades...

Muitas das vezes, os vários sentidos atribuídos ao conceito, no campo da


Saúde Mental, implicam numa desconsideração com o rigor conceitual de outras
áreas do conhecimento, figurando um ―mix‖ de conceito-valores-estratégias e,
consequentemente, impactando diretamente em seu potencial político, analítico e
explicativo da realidade. Uma simplificação, banalização, ―superinflação‖ e até
fetichização dos conceitos, incorrendo em uma despotencialização da vitalidade e
complexidade de uma abordagem territorial.

Para muitos intelectuais, pesquisadores, profissionais, gestores e no senso


comum,

O vocábulo ‗território‘ é, ainda hoje, quase que sinônimo de espaço


geográfico (...) por tomarem o território em um sentido bastante
genérico. (...) O território geralmente é percebido, mesmo no âmbito
do senso comum, como um espaço político – ao mesmo tempo que
se insiste em falar do território, tantas vezes, de um jeito tal que a
dimensão política empalidece ou submerge em favor de referências
vagas, como se território e espaço geográfico fossem sinônimos
(SOUZA, 2013, p. 78).

Segundo Cruz (2011, p. 85),

Usada como conceito, como metáfora ou, simplesmente, como um


vício de linguagem, a palavra invadiu os mais diferentes domínios
discursivos correndo sérios riscos de uma pop-degradação e a
consequente banalização do seu potencial analítico e político.

Ao citar a ―pop-degradação‖, o autor faz referência a Morin (2008, apud.


CRUZ, p.85), para o qual:

Fala de três diferentes vias pelas quais ocorre a degradação: a


degradação tecnicista; a degradação doutrinária e a pop-degradação.
Na degradação tecnicista conserva-se da teoria aquilo que é
operacional, manipulador, aquilo que pode ser aplicado; a teoria
deixa de ser logos e torna-se techné. Na degradação doutrinária, a
teoria torna-se doutrina, ou seja, torna-se cada vez menos capaz de
abrir-se à contestação da experiência, à prova do mundo exterior, e
resta-lhe, então, abafar e fazer calar no mundo aquilo que a
contradiz. Por fim, a chamada pop-degradação, na qual se eliminam
todas as obscuridades, as dificuldades, reduz a teoria a uma ou duas
fórmulas de choque; assim, a teoria vulgariza-se e difunde-se à custa

27
dessa simplificação de consumo. Esse parece ser o caso do que vem
ocorrendo, nos últimos anos, com o conceito de território.

Poderíamos somar ainda a possibilidade de uma degradação


técnoburocratica, onde o conceito seria reduzido à sua definição normativa sendo
esvaziada a capacidade explicativa e analítica da realidade (embora mantido certo
sentido político), se tornando uma proposta de gestão, administração e organização
das estratégias e ações burocráticas de Estado. Portanto, para dar conta da grande
complexidade que envolve transitar por este temário, metodologicamente partimos
de uma abordagem genealógica de investigação da história para entender as várias
entradas e sentidos atribuídos ao conceito de território, que vieram a coadunar nas
políticas de saúde mental e reorientar a organização espacial e as práticas no
cotidiano dos serviços.

Importa informar que a abordagem genealógica diz respeito à busca das


particularidades que tornaram possível a emergência de um conhecimento,
percepções e/ou saber. Importa compreender as condições básicas e particulares
que tornaram possível a emergência ou transformação de determinada episteme.

De acordo com o texto ―Nietzsche, a Genealogia e a História‖, Foucault (1979)


opõe o método genealógico à história dos historiadores (pesquisa da origem). Assim,
uma abordagem genealógica não diz respeito à busca da natureza de um fenômeno,
sua origem causal, a essência exata das coisas, uma identidade primeira fixa no
tempo e espaço (início fundamental); mas a busca da proveniência (de onde provêm
as coisas, da superfície de inscrição dos acontecimentos), do surgimento e da
invenção dos sentimentos, conceitos, juízos. Trata-se de debruçar-se sobre as teias
e tramas das relações que tornaram possível o aparecimento do problema. Para o
autor, o que se encontra na origem das coisas não é algo coerente, organizado e
fundamental, mas a discórdia entre as coisas, a diferença, o devir, que se
desdobram em uma exterioridade acidental.

Na mesma direção, Resende (2005, p. 3-4) nos afirma:

A pesquisa genealógica permite o reencontro do múltiplo nos


acontecimentos que são [foram] tomados por um único aspecto como
se sua formação tivesse se dado de maneira ímpar, sem dispersões.
Na genealogia mantém-se a dispersão peculiar aos acontecimentos,
28
a reconstituição dos acidentes, das fissuras, dos enganos, das
falhas, das errâncias que fizeram nascer o que há de significativo em
nossa existência. Na genealogia não se faz um recuo no tempo para
o restabelecimento de uma continuidade evolutiva que se prolonga
até chegar ao presente, considerando-o como circunstância natural e
inevitável do passado. Busca-se saber que na gênese do que somos
e do que conhecemos não reside a verdade e o ser essencial e sim a
exterioridade acidental. (...) A tarefa da genealogia deve ser
exatamente a de fazer essa história, mostrando os deslocamentos,
as quebras, as fraquezas, as substituições, os recomeços, dando
visibilidade a outras possibilidades de interpretação que foram
subsumidas pela prevalência de visões dominantes e totalizantes.

A genealogia necessita mergulhar nos fatos históricos para reconhecer seus


acontecimentos, mas uma história tornada despida de seu caráter universalista (da
verdade única e pura), linear e de seu caráter oficial, da continuidade histórica ou
tradição, segundo a qual a verdade se objetiva e o conhecimento desvela uma
natureza preexistente das coisas – como um bloco monolítico de saber-poder que
acaba por definir a validade dos processos tanto de elaboração quando de
legitimação do conhecimento histórico. Uma história libertada das noções de
totalidade e continuidade, como que em aberta e inconstante, revista a partir daquilo
que a abala, surpreende. Fazer flagrar a entrada em cena dos jogos de forças, suas
correlações, interrupções e saltos.

Portanto,

Utilizar genealogicamente a história, de maneira que o sentido


histórico se livre da supra-história, significa fazer da história um uso
que a liberte para sempre do modelo, ao mesmo tempo, metafísico e
antropológico da memória. (...) O genealogista ao invés de venerar
os grandes vultos, as obras, as criações, perpetuando a sua
presença, erguendo uma história monumental, parodia essa história
e carnavaliza o tempo colocando o reaparecimento incessante das
máscaras em cena novamente. (...) Não se busca o reconhecimento
de continuidades onde se encontra o começo de nosso presente,
num processo contínuo de preservação; ao contrário, a genealogia
propicia a quebra de nossas identidades, mostrando as múltiplas
possibilidades, a heterogeneidade. (...) Em suma, o que a genealogia
faz é disponibilizar chaves de interpretação histórica das formas e
condições políticas em que são produzidos e difundidos os
conhecimentos. (RESENDE, 2005, p. 5-6)

Trata-se de questionar mais sobre conjunto de contingências e fatores que


tornam possível que o problema emerja como problema, do que propriamente uma

29
narrativa do momento exato de enunciação do problema. Também, de admitir as
diferentes capacidades instituintes das forças que entram em cena e seus
entrelaçamentos, buscando no ―cinza‖ aquilo que foi ofuscado por aqueles
conhecimentos que se impuseram como únicos e definitivos. Ou seja, importa mais a
trama e menos os atores, submetendo-os ao exame dos momentos de seus
surgimentos e as condições de possibilidade de suas ações.

A partir da clarificação do cenário onde se inscrevem as problemáticas da


rede, território e territorialidade e as políticas públicas de saúde mental, e dialogando
com pensadores que refletiram na Geografia a temática do território, propusemos um
esforço teórico-analítico de alinhavar o que consideramos alguns dos principais
desafios teórico-metodológicos, práticos e políticos relativos à adoção de uma
abordagem territorial como fundamento da organização, planejamento e execução
de práticas no campo da Saúde Mental.

Os desafios possíveis apresentados guardam em comum as dificuldades


associadas ao trato com a polissemia que envolve a abordagem territorial proposta
pelas políticas de saúde mental atuais (na maioria das vezes apresentando certo
hibridismo entre os sentidos). Mais pelo exercício de construção de um quadro
conceitual mais rigoroso e adequado, do que por sua capacidade assertiva, nossas
hipóteses tornam-se valiosas ao consubstanciar futuras reflexões envolvendo o
temário.

Do ponto de vista do método, a riqueza de trabalhar com hipóteses não está


objetivamente na comprovação do fato, mas de permitir jogar mais luz àquilo que
salta ao longo do processo especulativo. Hipóteses podem até partir de perguntas,
testar cenários, por em xeque teorias, a serem verificadas verídicas ou não; mas, a
questão mais importante consiste na capacidade de nos fazer re-articular conexões
possíveis, para que nos permitam abrir novos campos e horizontes potenciais de
reflexão.

Importante argumentar que, aquele que tomamos por louco, neste trabalho,
corresponde ao sujeito - ou grupo - que, em condições de sofrimento psíquico, se
insere (ou é inserido) na rede de serviços de saúde ofertados e/ou sustentados pelo
poder público.

30
Cabe ressaltar a sensibilidade de diferenciar que a anomalia em saúde
mental, considerada como uma irregularidade ou conduta de risco, só se configura
como patologia quando implica no sofrimento. Conforme Caponi (2009, p. 75), ―se a
anomalia se vincula a sofrimento individual, a ‗sentimento de impotência e de vida
contrariada‘, então, e só então, poderá ser considerada uma patologia‖.

Apesar do objetivo principal deste trabalho não ser uma reflexão sistemática
acerca do estatuto da loucura, algumas ressalvas e esclarecimentos devem ser
sanados a priori. De forma geral, de acordo com a compreensão basagliana, a
noção de loucura comporta duas dimensões distintas que precisam ser destacas: a
―doença do corpo‖ e o adoecimento produzido pelo regime institucional.

Do ponto de vista institucional, a loucura trata-se daquilo que, objeto das


instituições de saúde, deve ser reconhecida e sanada via intervenção e normalizada.
A loucura enquanto desequilíbrio em relação às normas (de convivência, de
autocuidado, culturais) pressupõe a incapacidade ou limitação do exercício das
capacidades racionais e relacionais que mediam as relações sociais, atravessadas
por direitos e deveres.

Destarte, o louco é tratado como aquele incapaz de escolha e/ou clareza – o


que justifica o sistema de sequestro social, em vistas a, readequado, retornar a
sociedade. Porém, o trato e domínio institucionais sobre a loucura incorporam
diretamente uma série de formas de objetivação do doente:

Na medicina, a relação entre médico e paciente se situa no mesmo


nível do corpo do doente, considerado como um objeto de
investigação em sua mais estrita materialidade objetiva. Porém, no
terreno da psiquiatria, as coisas não são tão simples, ou ao menos
não estão isentas de consequências. Se o encontro com o doente
mental se situa ao nível do corpo, só pode ser em relação a um
corpo que se supõe doente, realizando uma ação objetivadora de
caráter pré-reflexivo, do que se deduz a natureza da relação a
estabelecer; em tal caso se impõe ao doente o papel objetivo sobre o
qual se baseará a instituição que o mantém sob sua tutela. A
aproximação de tipo objetivante acaba por influir sobre a ideia que o
doente faz de si mesmo, o qual – através deste processo – só pode
comportar-se como corpo doente, exatamente da mesma maneira
em que vivem o psiquiatra e a instituição que cuidam dele.
(BASAGLIA, s/d, p. 10-11)

31
Ora, as ―consequências da loucura‖ diferem de acordo com as diferentes
formas de aproximação com ela. Para o autor, estas ―consequências‖ não podem ser
atribuídas à evolução da doença, ―mas devem ser atribuídas ao tipo de relação que
o psiquiatra e, portanto, a sociedade que este representa, estabelecem com o
doente‖ (Id. Ibidem, p. 13).

Segundo o autor, três são as principais relações estabelecidas com a doença:


1) as de tipo aristocrático, quando o paciente dispõe (e consegue sustentar) de um
―poder contratual‖ a opor ao poder técnico do médico, onde o papel social do doente
atua como uma ―garantia de controle frente ao ato terapêutico do qual é objeto‖; 2)
as de tipo previdenciário, quando se configura ―uma redução do poder técnico e a
um aumento do poder arbitrário frente a um ‗segurado‘ que nem sempre tem
consciência de sua força‖, onde o paciente toma consciência de sua posição social e
direitos frente à instituição, que deveria ter por finalidade salvaguardá-lo,
apresentando ―provas de uma maturidade e de uma consciência de classe muito
acentuadas‖; 3) as do tipo institucionais, quando o poder puro do médico aumenta,
diminuindo o poder do doente, onde ―este se converte – automaticamente – num
cidadão sem direitos, abandonado à arbitrariedade do médico e dos enfermeiros‖.

O adoecimento produzido pela trajetória do louco na lógica manicomial,


concernente à violência institucional, comporta a sua objetificação transformando-o
em coisa: destituição de direitos, destruição do doente, sujeição indiscutível ao
poder da instituição, des-historização:

―O doente mental é um excluído que, numa sociedade como a atual,


nunca poderá opor-se ao que o excluí, já que cada um de seus atos
se encontra constantemente circunscrito e definido pela doença. A
psiquiatria é, pois, a única maneira – em seu duplo papel médico e
social – de informar o doente sobre a natureza da doença e o que lhe
fez a sociedade ao excluí-lo. (...) Colocado à força num lugar onde as
modificações, as humilhações e arbitrariedade são regra, o homem –
seja qual for seu estado mental – se objetiviza pouco a pouco,
identificando-se com as leis do internamento. Sua máscara de apatia,
de indiferença e de insensibilidade só seria, em suma, um ato
desesperado de defesa contra um mundo que o exclui e depois o
aniquila: o último recurso pessoal de que dispõe o doente para opor-
se à experiência insuportável de viver conscientemente uma
existência de excluído. (...) [Por tanto,] se, originalmente, o doente

32
sofreu a perda de sua identidade, a instituição e os parâmetros
psiquiátricos lhe confeccionaram outra a partir do tipo de relação
objetivante que estabeleceram com ele e dos estereótipos culturais
com os quais o rodearam. Assim, pois, pode-se dizer que o doente
mental (...) se vê tendente a fazer desta instituição seu próprio corpo,
assimilando a imagem de si mesmo que esta lhe impõe... O doente,
que já sofre uma perda de liberdade que pode ser considerada como
característica da doença, se vê obrigado a aderir a este novo corpo,
negando qualquer ideia, qualquer ato, qualquer aspiração autônoma
que possa permitir-lhe sentir-se sempre vivo, sempre ele mesmo.
Converte-se num corpo vivido na instituição e por ela, até o ponto de
ser assimilado pela mesma instituição, como parte de suas próprias
estruturas físicas. (BASAGLIA, s/d, p. 31-32)

Ainda segundo Basaglia (s/d), a perda da capacidade de autodeterminação


―produz doença‖, a partir do momento em que

O doente é já, unicamente um corpo institucionalizado, que vive


como um objeto que, às vezes, tenta – quando ainda não está
completamente domado – reconquistar mediante acting-out,
aparentemente incompreensíveis, os caracteres de um corpo
pessoal, de um corpo vivido, recusando identificar-se com a
instituição. (...) O doente é obsceno, desordenado, comporta-se de
forma inconveniente. Estas são as manifestações de agressividade
no seio das quais o doente tenta ainda, de forma diferente, num
mundo diferente (talvez o da provocação), escapar da objetivação na
qual se sente preso e da qual, de qualquer modo, dá testemunho.
Porém, num hospital psiquiátrico há uma razão psicopatológica para
qualquer acontecimento e cada ato tem sua explicação científica. (...)
A modalidade passiva que a instituição lhe impõe não lhe permite
viver os acontecimentos de acordo com uma dialética interior.
Impede-o de viver, de oferecer-se, ser como os outros, de ter – afinal
a possibilidade de salvaguardar-se, defender-se e fechar-se. (...)
Pela imposição do corpo único, aproblemático e sem as contradições
da instituição, é-lhe negada – de forma concreta e explicita – a
possibilidade de reconstruir um corpo próprio que consiga dialetizar o
mundo. Trata-se, pois, de uma comunidade completamente
antiterapêutica por sua obstinação em ser apenas um enorme
receptáculo cheio de uma quantidade de corpos que não podem
viver-se, que estão ali, à espera de alguém que os pegue, para fazê-
los viver à sua maneira, na esquizofrenia, na psicose maníaco-
depressiva ou na histeria: definitivamente coisificados... (Ibid., p. 32-
33)

O problema da loucura, portanto, não se trata apenas da doença em si, mas


também da relação que se estabelece com o louco: relação de institucionalização
que implica tanto o doente e sua doença, como os médicos e a sociedade, que
definem a doença e o julgamento sobre esta – ―a objetivação não é uma condição
33
objetiva do doente, mas diz respeito à relação entre o doente e a sociedade que
delega ao médico a faculdade de cuidá-lo e de vigiá-lo‖ (BASAGLIA, s/d, p. 17).
Contudo, para BRASIL (2005, p. 49), a saúde das pessoas trata-se
fundamentalmente de

Um assunto que se refere, primordialmente, a elas próprias e que o


papel dos profissionais de saúde deve ser o de oferecer seus
conhecimentos técnicos para ajudar a construir a autonomia das
pessoas, num processo de defesa da vida.

Tomaremos neste trabalho a saúde a partir e para além de Canguilhem


(1978), para quem, enquanto expressão de um corpo produzido por um modo de
vida, o conceito de saúde extrapola a noção de resiliência (como gestão das
―margens de segurança‖ para a doença) e implica:

• No aumento do coeficiente de autonomia dos sujeitos, possibilitando um


melhor entendimento de seu próprio corpo, doenças e suas relações com o
meio social e ambiente, o que aumentaria a capacidade individual de instituir
e sustentar normas (formas de) que ampliam as possibilidades de existência.
Também diz respeito a reconstrução dos sentidos e significados de sua vida e
práticas, permitindo a transformação de seus modos de vida – o que envolve
a capacidade de reivindicar e usar-se de sua liberdade para rever e escolher
e instituir suas próprias normas – a normatividade vital, para o autor;

• Na segurança contra os riscos, como fator diretamente relacionado com a


resiliência e que envolve desde as condições mais objetivas (saneamento,
moradia e alimentação adequada) à educação sanitária, como também a
capacidade de, conforme o autor, ―sentir-se capaz de adoecer e de afastar a
doença‖.

• No fortalecimento nos modos de viver das pessoas, de acordo com suas


necessidades reais, o que implica em possibilitar ao sujeito as condições
necessárias para que desenvolva cada vez mais a capacidade de
recentramento do meio pelo organismo. Em outras palavras, a capacidade de
produção de novas normas frente as infidelidades do meio.

Saúde, aqui, será tratada, portanto e fundamentalmente, como processo de

34
potencialização dos modos de andar a vida (CANGÜILHEM, 1978).

Para o autor, ―o meio é sempre infiel‖ posto que nunca se repete de um dia
para o outro. As circunstâncias mudam, obrigando os sujeitos à criação de novas
normas – formas de (agir, se comportar, portar etc.) –, de modo a gerir essa
infidelidade fazendo uso de seus recursos, escolhas, valores, capacidades e
competências, para dar conta da complexidade do novo momento. Cria-se
cotidianamente e a todo momento um hiato que desestabiliza as normas
antecedentes, visto que não são mais suficientes para dar conta da nova realidade
imposta pelo meio.

Isso não quer dizer que o conjunto das normas antecedentes não sejam
fundamentais para a instituições de novas. Tal qual todo ambiente social, carregam
sempre um mundo de normas antecedentes, que orientam o que e como se vai fazer
ou se pode fazer certa ação. É a esta tentativa de recriação parcial das normas que
o autor qualifica como ―a realização do recentramento do meio ao organismo‖ – o ato
de recentrar o ―meio infiel‖ a partir de suas próprias normas, mas também atribuindo
a si mesmo outras normas para dar conta daquilo que falta. Desta forma, ao mesmo
tempo em que ―recentra o meio‖, é por ele produzido, qualificando uma relação de
sobredeterminação entre ser humano e meio. O que este campo de tensão
constante acaba por permitir ou frear implica diretamente na maneira pela qual
preferimos ou excluímos determinadas normas de conduta (comportamentos), que
são formas de Ser, de agir e de pensar, remobilizando todo o sistema de valoração
dos indivíduos acerca das ―coisas do mundo‖.

Em suma, a todo tempo somos confrontados por um conjunto de situações,


posto que as ―infidelidades do meio‖, vícios, sucessos e insucessos, constituem a
própria vida; que obrigam a escolhas que mobilizam todo um ―uso de si‖
(―normatividade vital‖) para lidar com aquelas, constituindo ―uma dramática‖
produtora de singularidades e os ―modos de andar a vida‖, na visão deste último
autor.

Então, nossos ―modos de andar a vida‖ acabam por traduzir nossas


satisfações ou insatisfações diante dos ―constrangimentos‖ do meio, sendo
constantemente forjados nos regimes de tensão que caracterizam as ―desordens
adaptativas‖ cotidianas – diretamente relacionadas a capacidade individual de se
35
fazer instituir e sustentar novas normas (capacidade de superação).

Concordamos que:

A existência de saúde, que é física e mental, está ligada a uma série


de condições irredutíveis umas às outras. (...)Pois é produzida dentro
de sociedades que, além da produção, possuem certas formas de
organização da vida cotidiana, da sociabilidade, da afetividade, da
sensualidade, da subjetividade, da cultura e do lazer, das relações
com o meio ambiente. É antes resultante do conjunto da experiência
social, individualizado em cada sentir e vivenciado num corpo que é
também, não esqueçamos, biológico. (VAITSMAN, 1992, p.170)

Ou seja, a saúde envolve um conjunto de fatores que, de acordo com as


condições objetivas (biológicas, econômicas, de moradia, de acesso aos
equipamentos e serviços de saúde etc.) e subjetivas (inserção política, status social,
capital cultural etc.) do sujeito, deverão ser melhor equalizados para o aumento do
coeficiente de autodeterminação (ou, autonomia), mas, principalmente, do de ―auto-
superação‖ – ou, vontade de potência, a busca da ampliação da capacidade de
transformar-se em coisas distintas.

É neste sentido que a produção de saúde é acionada aqui como um processo


de produção que:

Não é teleológica, nem está temporalmente sincronizada com a


cronologia do tempo progressivo - busca pelo bem-estar; é produção
de diferença a partir da diferença. O conceito de produção de saúde
não apresenta um marco identitário, na medida em que reside
justamente numa diferença que gera diferença. Neste caso, ao não
apresentar um marco identitário, a produção de saúde se situa na
esfera social/pública, pois é o espaço privilegiado do coletivo, da
diferença, ou seja, da própria alteridade. (...) A produção de saúde,
muito mais do que um domínio da ciência, é da ordem da afirmação
da vida. A produção de saúde é da ordem do cotidiano, de estilos e
formas de viver, que instituem novas formas de vida. (COSTA;
BERNARDES, 2012, p. 832-833)

Desta forma, produção de saúde incorpora a dimensão dos projetos de


felicidade e da resolutividade em relação ao sofrimento. Envolve a capacidade de
intervenção no sentido de impulsionar os projetos de felicidade, de forma a
intensificação da vida.
36
Em ―Assim Falava Zaratustra‖, Nietzsche (1983) equipara o conceito de
vontade de potência ao de vida, caracterizando a ―vontade de potência‖ como uma
vontade orgânica de afirmação do ato criador – é preciso a produção de uma vida
que queira mais vida, que expresse a vontade de intensificação da potência:

‘Vontade de verdade‘ é como se chama para vós, ó mais sábios dos


sábios, o que vos impele e vos torna fervoroso? (...) Essa é toda a
vossa vontade, ó mais sábios dos sábios, como uma vontade de
potência; (...)Quereis criar ainda o mundo diante do qual podereis
ajoelhar-vos: assim é vossa última esperança e embriaguez. (...)É
vossa vontade e são vossos valores que vós assentastes no rio do
vir-a-ser; uma antiga vontade de potência é o que denuncia a mim
aquilo que é acreditado pelo povo como bem e mal. (...)Não é o rio
vosso perigo e o fim de vosso bem e mal, ó sábio dos sábios: mas
aquela própria vontade, a vontade de potência – a inesgotável e
geradora vontade de vida. (...)Onde encontrei vida, ali encontrei
vontade de potência; e até mesmo na vontade daquele que serve
encontrei vontade de ser senhor. (...) E este segredo a própria vida
me contou: (...) ‗Não atingiu a verdade, por certo, quem atirou em sua
direção a palavra da ‗vontade de existência‘: essa vontade – não há!
Pois: o que não é, não pode querer; mas o que está na existência,
como poderia ainda querer vir à existência! Somente onde há vida,
há também vontade: mas não vontade de vida, e sim – assim vos
ensino – vontade de potência! Muito, para o vivente, é estimado mais
alto do que o próprio viver; mas na própria estimativa fala – a
vontade de potência! Assim me ensinou um dia a vida: e com isso, ó
sábio dos sábios, vos soluciono também o enigma de vosso coração.
Em verdade, eu vos digo: bem e mal que seja imperecível – não há!
Por si mesmo ele tem sempre de se superar de novo (ibid., p. 237-
239).

Como ato criador, a vida não objetiva se conservar, mas, antes, expandir-se,
apropriar-se, como maneira de impor novas formas, sentidos, funções e direções.

Segundo Dias (2011), para Nietzsche, indo na contramão dos teóricos que
afirmaram a vida a partir da conservação, como Charles Darwin e Herbert Spencer,
o processo de adaptação não define o sentido da vida, que é, antes, apenas uma
das direções que a luta pela ―vontade de potência‖ desencadeia – uma limitação ao
verdadeiro impulso fundamental da vida, que é a expansão e intensificação da
potência.

O autor supracitado não nega a importância das forças de conservação para


o que ele chama de ―economia da vida‖, mas é que a luta pela vida não seria uma

37
atividade propriamente dita. A atividade propriamente dita deriva da vontade de
intensificar a potência do ser, e não da ―vontade de conservação‖. As forças
espontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas formas, interpretações e
direções de ―uma vida que quer mais vida‖ se sobrepõem às forças de adaptação. A
existência orientada pela sobrevivência não seria a regra, mas a exceção.

Contudo, para Dias (2011) a luta pela potência é sempre acompanhada de


um sentimento de desprazer – que não se trata de um sentimento de fraqueza, mas
que funciona como um estímulo para a vontade. O encontro entre as forças que
buscam expansão com as forças que impelem a conservação acaba entravando a
tendência a mais potência, produzindo sofrimento. Porém, a partir do momento em
que os obstáculos são superados, o ―jogo das resistências e vitórias‖ acaba por
estimular a vontade de potência. Ou seja, o desprazer (a ausência de prazer dada
ao entrave ao desenvolvimento da vontade de potência) ―excita a vida e fortifica a
vontade de potência‖ (ibid., p. 38). A partir de então, a luta pela potência se dá com
um novo arranjo de forças, totalmente diferente do que o precedeu.

Este entendimento fundamenta a crítica que poderíamos chamar de anti-


evolucionista de Nietzsche, pois desta forma descredibiliza o progresso cumulativo e
aglutinante do processo de sucessão e aperfeiçoamento dos seres, ao afirmar a vida
como uma sucessão de processos de apropriação e concebê-la como
constantemente auto inventora. Os estados alcançados pelos corpos, por princípio,
estes, não se conservam. Isto posto, trata-se então, de tomar a vida como ―obra de
arte‖, superando a posição contemplativa e conservadora da existência e tornar-se
―artista de sua própria existência‖. Ao unir vida e arte, em ―O nascimento da
tragédia‖, Nietzsche (2007, p. 44) afirma que ―só como fenômeno estético podem a
existência e o mundo justificar-se eternamente‖. Esta mesma afirmação se repete de
forma invertida no prefácio escrito quatorze anos depois chamado ―Tentativa de
autocrítica‖: ―a existência do mundo só se justifica como fenômeno estético‖ (p.
2007, 16).

Tomar a vida como vontade de potência, como aquilo à ser produzido como
obra de arte, implica em construir nossas singularidades ao longo do processo de
descoberta e invenção de novas formas de vida, de forma presentificada, aqui e
agora, contra um ―eu‖ constituído:

38
Todo acontecimento, toda mudança é uma luta não pela vida
[sobrevivência], mas pela potência. A afirmação de que não há luta
pela vida, mas pela potência, pode, entretanto levar ao erro de ver a
potência como um fim, como algo que a vontade almeja. Sem
sombra de dúvida, podemos afirmar que a vontade não é orientada
em direções a um fim: ‗A própria vida não é nem um meio para
alguma coisa: ela é apenas uma forma de crescimento da potência‘.
(...) A potência, o desejo de expandir, o poder de criar, de crescer, de
vencer as resistências é que impulsiona o movimento da vida. É o
valor mesmo desse movimento. (DIAS, 2011, p. 37-38)

Seguindo nesta linha de pensamento, afirmamos aqui a vida como vontade


criadora, cujo significado consiste em intensificar-se, expandir-se, produzir-se de
forma ampliada, potencializando o desejo de mais vida – atividade criadora que
produz diferença:

Esculpir a sua existência como uma obra de arte. A vida deve ser
pensada, querida e desejada tal como um artista deseja e cria sua
obra, ao empregar toda a sua energia para produzir um único objeto
(DIAS, 2011, p. 13).

No caso da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB), a compreenderemos tal


qual PAIM (2008) analisou o Movimento de Reforma Sanitária (MRS): enquanto ideia
(dimensão ético-finalista), proposta (dimensão epistêmico-ontológica), projeto
(dimensão político-militante), processo (dimensão das disputas institucionais) e
modelo (dimensão normativa-burocrática), pois, mesmo que considerada a
irredutível inseparabilidade das dimensões de um mesmo fato, este aspecto nos
permite uma análise mais complexa e sensível às diferentes relações de
determinação intrínsecas às diferentes esferas (ético-científico, político e jurídico-
legislativo) sem perder de vista seus graus de influência mútua, a conjuntura e os
campos de tensão particulares que lhes concernem.

Assim, admitir a promulgação da Lei 10.216/2001 (―Lei da Reforma


Psiquiátrica‖) como marco histórico fundante do modelo de Reforma representa
situar o primeiro momento de consolidação, no âmbito do Estado, das principais
pautas e demandas do Movimento de Reforma Psiquiátrica (MRP), via Luta
Antimanicomial, mobilizados desde a década de 70 (AMARANTE, 1995). Esta
normativa representa a negação daquele modelo assistencial hegemônico ao prever
39
a proibição do processo de internação compulsória e/ou de longa duração, e a não
ampliação dos serviços hospitalares. Um primeiro esforço institucional que permitiu
todo um conjunto de transformações institucionais posteriores(normativas, leis,
orientações etc.) orientadas para substituição progressiva dos espaços asilares, do
paradigma psiquiátrico e seu modelo hospitalocêntrico-medicalizador, apoiado nos
dispositivos psiquiátricos, pela constituição de um sistema de recursos extra-
hospitalares articulados em redes de ―serviços de base comunitária e territorial‖
(posteriormente, Rede de Atenção Psicossocial – RAPS), de acordo com o
paradigma psicossocial. Ressalva-se que a relação específica entre as práticas de
cuidado e o território só apareceram explicitamente expressas nos documentos e
normativas posteriores a Lei da Reforma Psiquiátrica. É o caso da Portaria nº
336/02, que institui os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) como serviços
substitutivos ao hospital psiquiátrico, a serem criados de forma ―territorializada‖ e de
acordo com a ―lógica do território‖:

A ‗lógica do território‘ é uma ideia central, norteadora das ações a


serem engendradas pelos serviços, de forma intrinsecamente
associada ao tempo e ao lugar em que as ações são elaboradas e
realizadas. Neste contexto, os CAPS aparecem como estratégia de
organização da rede de cuidados, considerando-se que a realização
de parcerias entre serviços de saúde e serviços com a comunidade é
vital para operar os cuidados em saúde mental. (LIMA & YASUI,
2014, p. 594)

Retornamos à nossa preocupação central: apesar das apostas das políticas


de saúde mental na abordagem territorial, é fundamental amadurecer o
entendimento da dimensão real de suas possibilidades e limitações. Isto posto,
vamos ao nosso título: Dos ―territórios em loucura‖ aos ―territórios da loucura‖:
Desafios teórico-metodológicos, práticos e políticos para a abordagem territorial em
Saúde Mental.

Ambos, ―territórios em loucura‖ e ―territórios da loucura‖ aparecem aqui mais


como alegorias, figurações, do que propriamente como noções conceituais
estruturadas. A bem da verdade trata-se do exercício cognitivo de individualização e
separação de diferentes dimensões (empiricamente indissociáveis) de um conjunto
de relações que, embora algumas vezes se expressem enquanto fenômenos não

40
necessariamente idênticos, são semelhantes, posto que expressões de uma mesma
natureza: a relação espaço-saber-poder-loucura.

Chamamos de ―territórios em loucura‖ a dimensão do temário que traz mais


luz à questão da polissemia acerca do conceito de território no campo da Saúde e
Saúde Mental; suas imbricações e entrelaces; os entremeios e zonas de sombra,
limites e possibilidades e implicações dos diferentes significados atribuídos à
abordagem territorial, do ponto de vista teórico-prático. Em suma: à dimensão do
temário que responde mais (com maior foco) aos debates epistêmicos e teórico-
metodológicos.

Já os ―territórios da loucura‖, correspondem aos jogos e disputas discursivas,


políticas e práticas, e os mecanismos de poder e contra-poder acionados,
produzindo limites e normas, papeis e posições de poder, regimes de verdade e
legitimidade. Trata-se da dimensão do temário que responde mais (com maior foco)
às relações de tensão e disputa, luta e contra-luta, estratégias e táticas cotidianas de
subalternização e resistência e reinvenção.

Enfatizamos ainda a noção da ―loucura nos territórios‖, que corresponde a


uma metáfora mais explicita, e que obriga à sensibilidade de compreender a
complexidade das formas com que a loucura se manifesta nos espaços, quais os
fatores e desafios que daí se desdobra – menos como um analista que buscaria uma
verdade e um sentido profundo da expressão fenomênica da loucura, e mais como
um genealogista, que busca compreender nas minúcias das relações e (re)arranjos
e (re)ordenamentos as possibilidades e limitações à produção de saúde. Trata-se de
afirmar a dimensão da contingência e concretude das relações, o que obriga a
considerar as múltiplas escalas de determinação dos fenômenos. De denunciar as
limitações de circunscrever os fenômenos e acontecimentos e manifestações da
loucura em uma leitura uni-escalar, unidimensional e uni-direcional, lembrando ao
interlocutor da complexidade dos discursos dos ―territórios em loucura‖ e das
disputas dos ―territórios da loucura‖ frente à ―loucura nos territórios‖.

Em alguns momentos, cartazes foram ―abandonados‖ ao longo do texto.


Trata-se de um conjunto de intervenções espalhadas em muros e paredes do
Hospital Psiquiátrico de Jurujuba (HPJ), em Niterói/RJ, marcando de loucura o
espaço público.
41
São ―rastros‖ das diferentes influências que permearam nossa trajetória de
análise. Buscamos reproduzir aqui as expressões da loucura, a partir das marcas
que foram deixadas nas paredes. Fragmentos de imagens soltos dispersos para
lançarem-se ao leitor como pequenos disparos – quase como ―provocações‖. Aliás,
o objetivo é justamente provocar as sensibilidades e afetos, para desacomodar a
linearidade do texto. Aviso: o material não apresentará legendas. Não queremos
estragar a experiência do leitor. Buscamos provocar o leitor uma atitude próxima
daquilo que Walter Benjamin (1985) qualifica nas suas ―Teses sobre o conceito da
história‖ de ―cronista-narrador‖, que narra os acontecimentos sem distinguir ―os
grandes e os pequenos‖, entendendo que ―nada do que um dia aconteceu pode ser
considerado perdido para a história‖.

Para Benjamin (1987), se por um lado ―o passado só se deixa fixar, como


imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido‖, a
articulação com o passado não significa conhecê-lo ―como ele foi de fato‖. Mais do
que isso, ―significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no
momento de um perigo‖. Esperamos que, como cronista-narrador, o leitor se
aproprie dos rastros re-apresentados, tal qual o Colecionador Eduard Fuchs, para
(re)montá-los, na medida em que se inscreve nela, de forma constelar:

Caberia ao leitor ―contemplar‖ os textos e ver – à maneira do


observador de estrelas – quais os elementos que se destacam e
quais as ligações que poderiam ser estabelecidas entre esses
pontos. Se retomarmos as considerações de que as constelações
não são formações naturais, mas ‗imagens culturais‘, diferentes
segundo as épocas, que eram projetadas sobre a disposição das
estrelas em relativa proximidade, a leitura do texto constelar se
caracterizaria pela liberdade de estabelecer ligações entre partes
dispersas. (OTTE; VOLPE, 2000, p. 39)

Ainda é preciso esclarecer que três vozes dialogarão com o leitor ao longo do
texto: 1) a voz do narrador, com tom adequado a primeira pessoa do plural (―nós‖);
2) a voz que chamamos de ―eu profano‖ – aquela que dá vasão à minha loucura
pessoal, simplesmente na primeira pessoa do singular. Eu (sem aspas). Despida do
rigor e desconsiderando os rituais e formalidades acadêmicas, é ela quem desloca o
leitor do plano do texto e dialoga como que em um espaço em suspensão, onírico,
como a voz que fala nos sonhos e em nossa imaginação – a voz que devaneia; e, 3)
42
a voz daqueles que falarão pelas bocas de nossas personas, compondo a terceira
pessoa do plural (―eles‖).

É que, inspirados nas ―invencionices‖ da poesia de Manuel de Barros,


buscamos traduzir nossas reflexões em certo grau de ficção, literatura, poesia e
―disparate‖ – segundo o poeta, de tudo que escreve 90% são ―invencionices‖, só
10% é mentira…

O poeta Manuel de Barros, quando questionado sobre a diferença entre a


―mentira‖ e a ―invencionice‖, no documentário ―Só 10% é mentira – a desbiografia
oficial de Manuel de Barros‖ (2008), do diretor, roteirista e entrevistador Pedro
Cezar, responde da seguinte maneira:

Se eu dissesse para você que agora acabei de passar na padaria e


comprar um pão, seria mentira, pois eu estou aqui na sua frente, não
sai a lugar algum. Já a invencionice... é uma coisa bem mais
profunda...

As ―invencionices‖ (da visão poética de Barros) habitam de alguma forma


entre a verdade objetiva e a irrealidade da mentira. Não são bem hipóteses comuns,
posto que não se trata de uma verdade objetiva à ser comprovada, mas de uma
construção discursiva que produz efeitos concretos na realidade (afetos,
lembranças, sensações, sentimentos). Opera tal qual a ―verdade verdadeira‖,
embora não seja evidenciável. A mentira, em poesia, de fato, não produz. A mentira
é não-ação e, desta forma, desconsideráveis e inválida. A ―invencionice‖, por outro
lado, é verdadeira em si, embora não necessariamente possa ser objetivada em um
ato circunscrito na realidade objetiva – nem por isso ―fraca‖ em sua capacidade de
se concretizar, de ―acontecer‖. Em suma, nos valendo da linguagem poética,
podemos dizer que: as ―invencionices‖ podem até não existir de fato, mas existem de
ato.

É que a realidade, no que tange à loucura, não necessariamente implica


numa organização lógica e ordenada das relações. Assim, o ato de reflexão acerca
de possíveis desafios atinge uma dificuldade bastante elevada, se majorado a partir
da capacidade assertiva ou êxito de hipóteses a se confirmar. A questão é bem mais
profunda... Aliás, esta dissertação poderia se chamar ―Os desafios da Linguagem‖

43
(((DEVANEIOS))).

Buscando dar vazão e ambientar o leitor nos caminhos de nosso pensamento,


optamos por forjar personas, personagens arquetípicos baseados em alguns dos
estigmatizados gênios-loucos e loucos-gênios da história brasileira, que traduzem
de maneira nem tão ficcional aquilo que podem ser consideradas experiências
comuns acerca da relação espaço-saber-poder-loucura no contexto do atual modelo
assistencial em Saúde Mental no Brasil.

Para a psicologia analítica de Carl Jung, persona diz respeito a um dos três
instintos primordiais (sendo a anima e o animus, os demais) através do qual os
arquétipos se expressão. Enquanto aspecto consciente da personalidade a persona
trata-se da máscara social que o sujeito faz mostrar ao mundo, buscando ao mesmo
tempo constituir uma impressão definitiva aos outros e dissimular sua natureza
individual. Ao longo da vida estamos constantemente construindo e reconstruindo,
ativando e desativando, combinando personas como forma de nos expressarmos e
viabilizarmos nossa adaptação ao mundo que aí está e, por tanto, de nos
reconhecermos (uma profissão, um status social, uma fase do desenvolvimento –
criança, adulto, velho). As personas sempre se traduzem a partir da semelhança,
como modelos de ser, estar, agir, pensar, viver, adequados às ambiências que o
mundo demanda.

Por analogia, as personas não devem ser tratadas como uma completa
identificação com a realidade de desafios empiricamente vivenciados e
comprováveis, mas como um recurso de encarnação de trajetórias pretensamente
comuns, problemas comuns, questões comuns ao trato com o território em Saúde
Mental... Comuns por que semelhantes. Típicas. Arquetípicas. Assim buscamos dar
conta e corpo aos caminhos, afetos e intensidades que atravessaram nossa reflexão
ao longo do processo de pesquisa.

Nas nossas ―invencionices‖ falam Carrano, Gentileza, Bispo do Rosário, Lima


Barreto, Oiticica, são manifestados mortos-vivos (intensamente vivos), para
incorporar e condensar os cacos e fragmentos de discursos, dando forma àquilo que
pretendemos ser um transladar do leitor à experenciação da nossa experiência
reflexiva.

44
Destaco: propositalmente nenhuma das nossas personas será apresentada a
partir de suas Histórias oficiais. Aliás, sequer serão apresentadas. O que menos
importa é quem foram e/ou são esses personagens, mas sim a capacidade desses
nomes de produzir efeitos e desacomodar. Alguns serão ―desconhecidos ilustres‖ da
grande maioria; outros, ilustres desconhecidos. Entre um e outro, cada personagem
pro-voca, e-voca e com-voca (BOFF, 1999) o leitor a um processo empático.

No capítulo 1, ―DESCOBRINDO O ESPAÇO, ENCONTRANDO O


TERRITÓRIO: AS REVOLUÇÕES E REFORMAS NO CAMPO DA SAÚDE
MENTAL‖, abordamos o surgimento do paradigma psiquiátrico, a partir de Phillipe
Pinel (séc. XVIII); a ―revolução psiquiátrica‖ ocasionada com a criação da psicanálise
(final do séc. XIX); e as principais experiências de contestação do paradigma
psiquiátrico e à lógica manicomial (durante o período pós-guerras). Nele,
problematizaremos a gradual emergência do espaço enquanto dimensão privilegiada
para a transformação dos saberes e práticas manicomiais rumo a um modelo de
cuidado produtor de práticas libertadoras e afirmadoras da diferença. Emerge o
conceito de território como base para um novo paradigma de cuidado para a Saúde
Mental.

No capítulo 2, ―TERRITÓRIOS EM LOUCURA – A REFORMA


PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA‖, buscamos construir um panorama histórico do
processo de contestação do paradigma psiquiátrico e do modelo manicomial no
Brasil, até o processo de institucionalização da Reforma Psiquiátrica Brasileira e
instauração do modelo substitutivo e políticas de saúde mental subsequentes. Nele,
esboçaremos um breve panorama sobre os diferentes contextos em que o conceito
de território foi acionado (as várias entradas), e sentidos atribuídos.

No capítulo 3, ‖TERRITÓRIOS DA LOUCURA – ENCRUZILHADAS EM


REDE, TERRITÓRIOS EM EVIDÊNCIA‖, iniciamos problematizando e ampliando o
debate a partir do panorama construído no capítulo anterior, com foco maior no
conceito de território, buscando o esforço teórico inicial de reflexão acerca das
possíveis implicações da adoção de uma abordagem territorial às políticas de saúde
mental. Terminaremos apontando a dificuldade de conexão entre teoria, norma e
prática no cotidiano institucional.

No capítulo 4, ―LOUCURA NOS TERRITÓRIOS – OS DESAFIOS TEÓRICO-


45
METODOLÓGICOS, PRÁTICOS E POLÍTICOS PARA A ABORDAGEM
TERRITORIAL NA SAÚDE MENTAL‖, partimos de um debate sobre as diferentes
possibilidades de uso e apropriação dos conceitos, entendendo que o acionamento
destes cada vez mais tem respondido a uma dupla centralidade: analítica
(epistemológica e teórica), da academia e dos intelectuais; e empírica (histórica e
política), do poder instituinte nas estratégias e pautas das lutas dos movimentos
sociais e do poder instituído da normativização dos conceitos, por parte do Estado. A
partir daí, aventamos os desafios para debate.

Por fim, cabe destacar que este trabalho não objetiva uma análise do que
deve ou não ser realizado, de acordo com as políticas de saúde mental, nos
Municípios. Ou seja, não pretendemos avaliar o que seria mais adequado para o
cuidado aos sujeitos em condição de sofrimento psíquico. Tampouco promover uma
avaliação ou questionamento da qualidade ou legitimidade de uma abordagem
territorial para a Saúde Mental. Não espere qualquer consenso entre os diferentes
significados atribuídos ao conceito e ao sentido de uma abordagem territorial para a
Saúde Mental que apresentaremos. Muito menos o acomodamento ou solução dos
desafios frente às possibilidades e limitações da abordagem. Pelo contrário, nossa
proposta busca explorar criticamente a hipótese sustentada pela Lei da Reforma
Psiquiátrica (e políticas de saúde mental consequentes) da abordagem territorial
como supostamente integradora para as políticas públicas e instrumento terapêutico
privilegiado para produção de saúde. Não há boas respostas, sem, antes,
descobrirmos quais são as boas perguntas. A resolução dos problemas, dos
desafios e entraves, depende fundamentalmente da capacidade de ampliarmos
nossos horizontes de questionamento. Desta forma esperamos contribuir...

Por favor, leitor, se entregue à ―loucura‖! Mais do que revivê-la, permita-se


reavivá-la... Sinta-se vivo ―nela‖ e ―com ela‖. Lhe receberemos com toda alegria no
passado! Venha pensar como o pensador pensou. É um convite às ―armandianas
Saudades do Futuro‖... (((DEVANEIOS))).

46
ENXERTOS Nº 1: “PEQUENOS CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS –PEQUENA
HISTÓRIA DA INCRÍVEL LUTA DE LUCAS CONTRA SEUS FANTASMAS OU A
TERAPIA INTENSIVA DA LIBERAÇÃO PELO CAOS.”
(Saudades do Futuro, Armando Corrêa da Silva, 1993)

Para Sandra, Nany, Tinoco e Milton

Sempre tem um precedente

O terapeuta dissera-lhe que seu caso não era grave. Mas, como o portador de
diabetes, tinha que tomar aquelas pílulas, indefinidamente. Ele falava sério, mas
depois sorria, positivamente. Era uma das coisas que o irritava no médico no qual,
não obstante, depositava confiança. Já, daí um conflito, pois não se satisfazia com o
tratamento.

A confiança vinha de longe, desde o primeiro e insuspeito surto psicótico,


muitos anos antes. A desconfiança era resultado daquelas coisas que não se conta
nem mesmo ao médico em que se confia.

Muito viera da natureza da primeira crise: aquela enorme, imensa depressão


– que parecia definitiva – e da qual saiu facilmente, com a ajuda do médico, da
companheira e de amigos.

Depois, aquela rotina de terapia, temperada agradavelmente pelos tempos do


milagre econômico. Com altos e baixos, principalmente a questão do sono, sempre
irregular, tendendo sempre para o fim da noite.

A ruptura inicial

O apartamento fora montado ―com amor‖, como lhe disse a irmã, quando de
uma breve visita com o cunhado. De fato, tinha bom gosto, quer dizer, no seu
consenso distribuía o moderno e o clássico com equilíbrio. Pois talvez fosse isso,
muito equilíbrio para tanta inquietação mental. Não fosse também um intelectual de
incompetência relativa lúcida.

47
O apartamento, elogiado pelos amigos, com cada coisa no seu lugar, sem
nada de supérfluo, refletia não obstante uma contradição: o desejo de paz que não
tinha.

Objetivamente, uma boa: 50 anos, professor universitário, com estabilidade


no emprego, bem conservado, reiniciando a vida depois de dois casamentos
frustrados e com boas possibilidades de realização profissional.

Subjetivamente, uma péssima: só, com dificuldade de transar as relações


afetivas, cabeça de poeta e artista, incapaz de dar forma objetiva às próprias
emoções.

Foi quando resolveu que estava bem de saúde. No que interrompeu


abruptamente o tratamento médico.

A primeira liberdade

Foi como se despedisse do azar. O médico não queria interromper a terapia e


isso lhe deu forças para romper aquele equilíbrio terapeuta-paciente que se fizera
uma teia de relações mortas, já codificadas.

Assim, saiu da última consulta exultante com a ruptura, mas carregando


consigo o bom senso do psiquiatra que lhe advertira ainda uma última vez.

Talvez tenha sido isso que lhe fez calcular quantas pílulas de medicamentos
ainda possuía. Tinha uma bateria para três meses. O suficiente para tranquilizar-se a
curto prazo. Depois, era vencer a dependência dos remédios.

Sentia-se bem, como há muito tempo não ocorria.

O tempo distendeu-se fácil no trabalho universitário, a tese caminhando


rapidamente para o final, o pensamento solto, dentro da disciplina que sempre se
impunha. Na verdade, conseguia trabalhar em horário livre com programação.

Ouvia o com da madrugada, pois fora sempre muito ligado em música – fora
pianista profissional – e às vezes saída pela noite, por aí, para resolver o problema
da solidão no amor fácil da prostituta, às vezes compreensiva, às vezes formal.

48
Tudo andou tão rápido que, quando se acabaram os medicamentos, foi um
prolongamento apenas do que já vinha fazendo.

Não que tivesse sido fácil. Não. É que fazia parte de um projeto, que não
sabia ele próprio o que era.

Tinha que saber.

A euforia

Possuía uma teoria: ―quem não está pleno de subjetividade perde a


objetividade‖.

Era uma de suas frentes de luta.

Por isso, por volta de agosto de 1982, começou a ser possuído de uma
agradável sensação permanente de euforia.

Não era um sentimento gratuito, mas uma companhia pensada a cada


instante. Não deixar a peteca cair, como dizia o jornalista seu amigo. Não perder o
pique, é isso?

Em julho havia participado de um congresso em Porto Alegre. Fora uma


semana de vivência universitária, com jovens, que lhe fora muito gratificante.
Apresentara um trabalho que foi bem recebido.

Todas as coisas andavam bem. ―Tudo bem‖, como dizia, e estava realmente
se sentindo bem.

No mês de outubro deu-se o ―click‖.

O parto

Lucas não sabe por que cismou com a frase: ―não se deve jogar a água suja
do banho fora, junto com a criança‖.

Perguntei a ele por que fizera essa referência, mas não sabe explicar. Disse-
me que acha que havia começado a delirar, mas que estivera lúcido todo o tempo.

49
Com muita dificuldade, admitiu dúvidas a respeito de sua sexualidade. Daí a
questão da criança.

Afirma que em certo dia de outubro pegou uma bacia de plástico, que usava
para lavar suas cuecas e meias, e a levou para o banheiro.

Primeiro, tomou um banho demorado, de água quente. Não se lembra bem o


que aconteceu.

Disse que falara desse assunto com sua irmã e esta, entrando um pouco no
seu jogo subjetivo, disse-lhe que às vezes o resultado era insignificante.

De fato, lá estava um pequeno pedaço no meio da bacia, segundo afirmou.


Cobriu tudo com um papel e jogou talco por cima.

Diz que durante todo o tempo sua atenção era duplicada: sabia o que estava
fazendo, mas interpretava magicamente o significado.

Lembra-se que nessa ocasião saía todas as noites, de madrugada, para ter
relações sexuais. Diz que fez amizade com duas prostitutas de nomes Ângela e
Adriana.

A raiva

Parece que foi num dia de novembro que achei que podia pôr em prática o
projeto.

Não se pode brincar impunemente com uma pessoa!

Não sou um machão, mas também não sou bicha!

―Eu sei que vocês estão todos aí, por que fui eu que montei esse
apartamento‖.

Tem os quadros, a samambaia (―A mulher aranha disfarçada‖, lembra-se?), os


discos, os livros, a TV, o som, a calculadora, o rádio digital, os móveis, a cozinha
bem arrumada e tudo o mais.

―Por isso, eu sei que vocês estão todos aí! ‖

Vou começar pelo quarto de dormir.


50
O caos

Fechou o punho e bateu na folha de madeira do armário tríplex. Não era


difícil, a madeira rompeu-se. Bateu mais. Era um bom começo, todos aqueles
buracos na madeira.

Pulou no estrado da cama e esta veio abaixo.

Jogou o rádio digital no chão, com força.

Puxou as cortinas, desabando tudo.

Começava a ganhar lucidez.

À medida que destruía tudo fazia referências a pessoas em relação a cada


objeto.

Derrubou a parte de cima do armário.

Jogou as roupas para todos os lados.

Mas, tinha em mente alguma coisa, porque sua destruição era planejada e
seletiva.

Achou que o quarto já estava bom.

Partiu para o escritório.

Ah! Ali tinha muita coisa a resolver!

Jogou a máquina de escrever no chão. Puxou também as cortinas. Depois,


virou a mesa e a estante. Quebrou o quadro.

Cada objeto tinha o nome de uma mulher ou de um homem. Toda sua vida
era repassada nesse ato de procura. Mas, faltava muito. Foi para o banheiro, mas
achou que depois precisaria dele. Não destruiu muito.

Agora, a sala.

Jogou a TV, nova, no chão. Mas olhando-a bem, achou que era um desafio.
Pegou uma garrafa de vinho ainda fechada e estourou o vídeo. Depois, foi o som
que foi para o chão. Assim, também os móveis. Só poupou o piano.
51
Arrancou o telefone da parede.

Foi quando viu a samambaia. Jogou-a no chão. Também o móbile foi


destruído.

O que sobrou do vinho esparramou pela sala. Quebrou os quadros.

Foi para a cozinha.

Virou a geladeira e o fogão, assim como a mesa e tudo que estava na


prateleira.

No quartinho desabou a estante de livros.

Mas, não estava satisfeito.

Dizia, rindo, para si mesmo: ―Não está sendo uma boa briga! ‖

Quebrou os discos, um a um, em cacos.

Pacientemente, desenrolou todas as fitas que descobriu em meio ao caos que


realizara.

Tudo deve ter durado umas cinco horas.

Foi quando se deu conta de que estava nu.

Conseguiu abrir um caminho pelo corredor até pôr o tênis comanche para não
pisar nos vidros quebrados.

Saiu do apartamento pelado, sem o tênis e desceu as escadas, desde o 11º


andar até o térreo.

O zelador não pareceu assustado.

Disse-lhe que chamasse a polícia.

Mas, o zelador, falou: ―A polícia pra quê? O senhor não fez nada!‖

Foi quando resolveu voltar ao apartamento.

Ângela

Vestiu-se e durante algum tempo caminhou por sobre os destroços.


52
Nada tinha a fazer.

Na cidade convidou Ângela a ir ao apartamento.

Quando ela viu o estado em que estavam as coisas, só comentou:


―Engraçado! Ontem estava tudo arrumado, agora está tudo assim!‖

Lucas esquecera que Ângela estivera no apartamento no dia anterior à


formação do caos.

Amaram-se no que restava da cama.

Ele havia descoberto que o rádio digital ainda funcionava.

Ângela havia servido de confidente por sua paixão por Adriana.

Havia nisso, um pormenor.

Era que também outra Ângela fora quem lhe apresentara Cláudia, sua
segunda mulher e que lhe tornara a vida um inferno.

Só que agora namorava Adriana, mas ficava com Ângela. O contrário da outra
vez.

A Casa de Saúde

Sônia lhe dissera que ouvira os médicos comentarem achar um absurdo que
ele, Lucas, estivesse ali sem que responsáveis viessem visita-lo.

Mas ele nada achava errado, pois sua euforia persistia e nunca se sentira tão
bem.

Sônia era casada e estava em crise e em tratamento.

Tiveram um namoro meio transado.

Os dez dias que passou na terapia foram agradáveis e logo o médico, aquele
de quem tinha desconfiança e em quem, ao mesmo tempo, confiava, veio tirá-lo dali.

Reiniciava, assim a terapia, mas agora era o médico que já não tinha
confiança nele.

53
Para ele estava tudo bem?

Um ano depois

Lucas não sabe explicar por que comprou um terreno longe de São Paulo.

Disseram-lhe que fez uma viagem meio doida pela Dutra e, de passagem por
uma cidade pequena, comprou o terreno.

Dizem também que jogou seu relógio fora.

Mas, são coisas já passadas.

O novo médico de Lucas diz-lhe que teve um segundo surto psicótico e que
isso é uma coisa comum.

Lucas gosta de seu novo médico.

Até conseguiu definir sua própria terapia.

Esse Lucas promete!

São Paulo, 07 de dezembro de 1983.

54
CAPITULO 1 – DESCOBRINDO O ESPAÇO, ENCONTRANDO O TERRITÓRIO:
AS REVOLUÇÕES E REFORMAS NO CAMPO DA SAÚDE MENTAL.

―Perder seu território é desaparecer. ‖


Bonnemaison e Cambrèzy (1996, p. 14)

Para Foucault (1978), foi na Era Moderna que se conferiu aos loucos o lugar
que, durante a Idade Média, foi reservado aos leprosos. Finda – ou ao menos
reduzida – a ameaça representada por estes últimos, restaram vazios os espaços
físicos, sociais e ideológicos que ocupavam que vieram a ser direcionados aos
loucos, aos quais se impunha a necessidade de separação do corpo social. A rígida
racionalidade burguesa se afirmou então ao preço da segregação das sensibilidades
desviantes, e a loucura perde qualquer capacidade de revelação (GABBAY, 2008, p.
10).

Em Doença Mental e Psicologia (1968, p. 78), Foulcault escreve:

[Século XVII] Criam-se (e isto em toda a Europa) estabelecimentos


para a internação que não são simplesmente destinados a receber
os loucos, mas toda uma séria de indivíduos bastante diferentes uns
dos outros, pelo menos segundo nossos critérios de percepção:
encerram-se os inválidos pobres, velhos na miséria, os mendigos, os
desempregados opiniáticos, os portadores de doenças venéreas,
libertinos de toda espécie, pessoas a quem a família ou o poder real
querem evitar um castigo público, pais de família dissipadores,
eclesiásticos em infração, em resumo todos aqueles que, em relação
à ordem da razão, da moral e da sociedade, dão mostras de
‗alteração‘. É com este espírito que o governo abre, em Paris, o
Hospital Geral, com Bicêtre e La Salpêtrière; um pouco antes São
Vicente de Paula tinha feito do antigo leprosário de Saint-Lazare uma
prisão deste gênero, e logo depois Charenton, inicialmente Hospital,
alinhar-se-á nos modelos destas novas instituições. Na França, cada
grande cidade terá seu Hospital Geral.

Era no limiar do século XIX, com a hegemonia do modelo cartesiano do


sujeito e o surgimento da ideologia burguesa. Na Era das Luzes, e com o avanço da
sociedade da razão, despojada de sua condição trágica e profana, a loucura foi tida
como desrazão (ou bloqueio da razão). O louco era mantido em condição de
marginalidade e exclusão, mas agora embebido de um novo estatuto: daquele de

55
incapaz de enquadrar-se na ordem da burguesa que se afirmava; do trabalho
produtivo, da submissão à norma, da disciplina, da moral.

O discurso da razão acaba por efetuar e definir uma radical cisão do corpo
social, tomando a ―racionalidade‖ como critério de qualificação do que é ser indivíduo
– fato que, inclusive vem a justificar os modos de exclusão e práticas de violência
aos loucos.

Deste ponto de vista, a loucura pode ser entendida como a antítese da ―Era
das Luzes‖, agonística do sujeito cartesiano e antagônica à ideologia burguesa sob o
reinado do ―mundo iluminado‖: a racionalidade convertida em essencialidade.
Destarte, o discurso da normalidade operou nos ―seres de desrazão‖ a perda de sua
condição enquanto sujeito. O louco (―alienado‖), desviante em relação à norma, tais
quais os inválidos, os miseráveis, órfãos, ―em resumo todos aqueles que, em relação
à ordem da razão, da moral e da sociedade, dão mostras de ‗alteração‘‖
(FOUCAULT, 1968, p. 78), gradualmente torna-se um objeto de estudo e do
Conhecimento, em vistas ―a recuperação de suas faculdades racionais‖.

A loucura será problematizada cientificamente com Philippe Pinel (então


responsável pelo Hospital Geral de Bicêtre, em Paris) no contexto da Revolução
Francesa e dos ideais humanitários de liberdade, igualdade e fraternidade. Com
Pinel, a loucura adquire o status de doença (no sentido exclusivamente patológico)
que como outras, pode e deve ser sanada com o tratamento adequado, efetuando a
particularização do sujeito alienado para elucidar as necessidades de tratamento.
Surgem os asilos de alienados ou manicômios, espaços exclusivos de internação
(intervenção), tratamento e cura [recuperação das capacidades racionais]15, em
vistas a reinserção no meio social:

O internamento de um louco deve tender a dar nova direção às suas


idéias e aos seus afetos e a impedir qualquer desordem, qualquer
distúrbio do qual ele possa ser a causa, e para impedir o mal que ele
possa fazer a si mesmo e aos outros, ser for deixado em liberdade.
Assegurando-lhe novas impressões, livrando-se de seus hábitos e
mudando seu modo de vida, chega-se aquilo que se destina o
isolamento. (ESQUIROL, apud PESSOTTI, 1996, p. 135)

15
O lugar ideal para o ―exercício do tratamento moral, da reeducação pedagógica, da vigilância e da
disciplina‖ (AMARANTE, 2009, p. 2).
56
Nascia a Psiquiatria, cujo modelo do tratamento moral e dos espaços
asilaresseriam disseminados e debatidos, promovendo importantes avanços no
campo recém-formado. Institui-se a relação médico-paciente (os alienistas e os
alienados) e o paradigma psiquiátrico avança no que Robert Castel (1978) alcunhou
de ―A Era de Ouro do Alienismo‖ 16.

Um discurso médico sobre a loucura é construído, referenciado na História


Natural, na busca de tipologias no comportamento louco e sua remediação, tal qual
toda gama das demais doenças médicas – ―isto é, segundo suas causas
clinicamente acertadas (etiologia), seus efeitos típicos sobre as funções orgânicas e
sobre os comportamentos instáveis dos pacientes (sintomas), e sua evolução clínica
típica‖ (SANTOS, 2011, p. 8). Fundamentada numa ―clínica do olhar‖, conforme
Rochelle Gabbay (2008, p. 52): ―seu método é o do botânico no jardim das espécies:
reúne, observa, descreve, classifica e dá nome‖. Assim, se produz um discurso
sobre a loucura e não dá loucura, posto que propriamente não da voz ao louco.

Importante frisar que o conceito de alienação mental, que Pinel elabora em


seu ―Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental ou a mania‖ (1801 [2007]),
não necessariamente significava a ausência de razão, mas a contradição na razão:
era aquele que, na condição acima exposta, se tornaria incapaz de julgar e escolher,
―incapaz mesmo de ser livre e cidadão, pois a Liberdade e a cidadania implicavam
no direito à possibilidade à escolha‖ (AMARANTE, 2009, p. 2).

Antes, sob o domínio da Igreja e tomados como espaços de caridade e


salvação espiritual (as Santas Casa de Misericórdia), a população em condição de
miséria e doença não eram tratados por médicos, mas por freiras e demais figuras
religiosas (FOUCAULT, 1979). Os médicos, desde o século XVII atuavam de forma
particular ou em suas próprias casas, sendo serviço exclusivo das classes mais
abastadas.

16
―O projeto de um hospício de alienados não é de modo algum, uma coisa indiferente e que pode
confiar apenas aos arquitetos, o objetivo de um hospital ordinário é tornar mais fáceis e mais
econômicos os cuidados dedicados aos indigentes doentes. O hospital de alienados é um
instrumento de cura‖. (Esquirol, 1838, apud Pessotti, 1996, p. 168)[grifo adicionado]
57
Num segundo momento, com o desenvolvimento do modelo biomédico e os
estudos em anatomia e técnicas cirúrgicas, que ressignificavam o corpo como
máquina (e, consequentemente, a doença como uma falha na máquina a ser
corrigida), aqueles passaram a serem os centros por excelência de pesquisa e
ensino médico, rompendo com o discurso religioso e adquirindo autonomia e função
especificamente terapêutica no início do século XIX (GUIMARÃES; PICKERNHAYN;
LIMA, 2014).

No entanto, a Revolução Industrial Inglesa completaria o processo de


expropriaçãodas populações do campo para as cidades em condições de miséria e
pobreza extrema e sob a ordem de relações e normas sociais até então inexistentes
(ENGELS, 2010).

Analisando o surgimento da Medicina Social, Foucault (1979), demonstra


como o surgimento das cidades industriais acarretou uma série de condições de
insalubridade. Antes, as epidemias que se manifestavam no meio rural, agora no
meio urbano se espalhavam com maior velocidade e intensidade. À miséria das ruas
(falta de saneamento básico, coleta de lixo, a intensa emissão de fuligem das
chaminés etc.), somava-se a miséria dos trabalhadores (cadáveres, mendicância,
violência etc.) e, sob a influência das ideias iluministas, cobravam do Estado
nascente formas de intervenção.

O autor aponta três formas de como a Medicina moderna e científica se


desenvolve no bojo dos Estados-nação nascentes dando origem aos primeiros
sistemas de saúde, em fins do século XVII: a Medicina de Estado, na Alemanha; a
Medicina Urbana, na França; e a Medicina da Força de Trabalho, na Inglaterra.

Conforme sintetizam Guimarães, Pickernhayn e Lima (2014, p. 58-59),

Na Alemanha, a construção de um Estado-nação forte chamava a


atenção para a necessidade de indivíduos sadios e de políticas de
saúde por meio da polícia médica. O estado precisava ter o controle
completo sobre a condição de saúde da população, por isso, a
Medicina se constituiu como parte do aparato estatal e
administrativo, para acompanhar e intervir sobre os eventos
epidêmicos e endêmicos. Na França, essa nova abordagem surge
das preocupações burguesas com a higiene urbana, em cidades que
estavam sendo unificadas sob uma mesma ordem política, para
favorecer a produção e as relações comerciais. Também haviam
58
revoltas sociais que deveriam ser controladas, e a saúde pública
fazia parte deste projeto de reorganização e unificação da cidade
pelo controle político-científico do território e das populações. (...) Na
Inglaterra, as experiências da Alemanha e da França foram levadas
em consideração, mas a intensidade da Revolução Industrial e o
consequente êxodo rural, que aglomerou nas cidades uma grande
população operária, em condições de higiene precária, ambientes
poluídos e habitações insalubres, configurou um higienismo voltado
ao ambiente de trabalho, das fábricas e das moradias dos operários.
(...) O Estado passou a ser, cada vez mais, cobrado para que
realizasse políticas públicas de saúde para assistência, proteção e
controle da população.

A Medicina Social nasce, portanto, articulada ao discurso higienista que


buscava entender a doença dos indivíduos e das populações na sua relação com o
lugar e seus aspectos ambientais, identificando e propondo intervenções para os
―espaços da insalubridade‖ que deveriam ser evitados ou transformados –
―saneamento ambiental, com coleta de lixo, esgotamento, retirada dos matadouros e
cemitérios dos centros da cidade, levando-os para a periferia, como também o
alargamento das vias públicas e edifícios para maior arejamento‖ (GUIMARÃES,
PICKERNHAYN E LIMA, 2014, p. 58).

Segundo os autores supracitados, o higienismo emerge com foco na reforma


urbana e no saneamento ambiental para recuperação das condições de salubridade
e controle dos vetores das doenças. Conjuntamente, à criação de postos de saúde
(operando muito mais na lógica policial do que de assistência). A criação de
laboratórios de pesquisa garantiu a ―autoridade científica‖ para as decisões políticas.
Somada ao avanço do paradigma biomédico, com a microbiologia e a Teoria dos
Germes, que deslocava o foco das ações de saúde do ambiente para o ―corpo-
máquina‖, o controle ambiental se transforma no controle de doenças específicas
(Teoria da Unicausalidade – para cada doença, uma causa). Junto à nova
concepção de saúde, as intervenções instauravam um modelo assistencial
preconizado em normas, hábitos e comportamentos esperados, com o objetivo de
controlar os lugares e as pessoas – na maioria das vezes ―culpabilizando‖ os mais
pobres e acarretando diversas remoções e revoltas populares em nome da ―guerra
contra a doença‖.

O período considerado é marcado pela superlotação dos espaços asilares e,


com isto, o comprometimento do modelo de tratamento moral de Pinel, onde a

59
terapêutica se dava de forma individual. O resultado foi a redução dos índices de
melhoria e a degradação tendencial dos espaços, transformados em ―depósitos de
corpos‖. Gradualmente, inserido num contexto de nascimento e consolidação da
hegemonia da ideologia e sociedade burguesa e do nascimento do Estado-nação
moderno e capitalismo na Europa (que viriam a servir de referência para mundo) o
espaço asilar, enquanto dispositivo psiquiátrico viria a (re)reproduzir em seu interior
os mesmos mecanismos opressores que a sociedade impunha ao alienado no
ambiente externo.

60
Figura 4 – Muros: Sergio Affonso. Fotografia por Lucas Honorato (2017)

61
Concomitante à requalificação dos Hospitais, ao surgimento da Medicina e
consolidação do paradigma psiquiátrico fundamentado no espaço asilar, na
Alemanha, Friedrich Ratzel apresenta sua ―Antropogeografia‖, em 1882, sendo um
dos fundadores da Geografia Moderna e da Geopolítica. Ratzel desenvolve suas
ideias enquanto vivencia o período bismarkeano de unificação alemã, a guerra
franco-prussiana (1871) e as corridas imperialistas. Fortemente influenciado pelo
pensamento positivista e o organicismo darwiniano, busca compreender o
fundamento da formação dos Estados-nação e construir uma Lei Geral do
Desenvolvimento dos Estados e suas tipologias.

Para isso, parte da relação ―orgânica‖ entre o Estado, o solo (boden; base
material) e o povo – que através do desenvolvimento do sentido de espaço17
fundaria o Estado. Para o autor, o surgimento do Estado é visto como um processo
natural da organização do povo18, mas é o solo quem dá coerência material ao
Estado. Desta forma, Ratzel permite fundar no campo da Geografia as discussões
sobre o território, marcadamente compreendido como base material: o rio, o morro, a
campina – vide as noções de estoque de recursos e espaço vital19. Este cenário
permite o surgimento da noção de território essencialmente associado à soberania
nacional20. Território como ―aquilo que se possui‖ (o tal ―território ‗coisificado‘‖,
tornado ente, ―coisa‖)21.

17
Trata-se de uma dupla capacidade de conhecimento do espaço: capacidade de lucidez sobre os
limites e possibilidades, ―recursos‖ e ―entraves‖, que o espaço oferece, no sentido de acelerar ou frear
o desenvolvimento do Estado; certa lucidez acerca de sua ―condição geográfica‖, a nível de
potencialidades e limitações do meio.
18
No pensamento de Ratzel, Política é compreendida como a capacidade de mobilização dos
Estados, ou seja, as relações do Estado com o povo, no tocante a capacidade do povo de fazer-se
coeso para facilitar ou frear o Estado.
19
O espaço vital seria a porção do espaço necessária para a reprodução de uma dada comunidade,
que concentra seu estoque de recursos (condições tecnológicas, naturais e demográficas). Assim, a
expansão territorial seria natural dos Estados, visto que havendo o progresso, haveria a exaustão do
meio pelo uso intensificado e pressão demográfica. Contudo, apesar de natural, esta expansão não é
determinada, já que apesar dos processos e demandas que levam a expansão/mobilidade, há uma
tensão constante com as forças e processos que levam ao ―enraizamento‖ (iconografias,
simbolismos, representações e discursos sobre a nação, por exemplo).
20
Importante firmar que, segundo SOUZA (2013, p. 94), ―ele [Ratzel] não explorou e desenvolveu
propriamente um conceito de território plenamente individualizado. Por quê? (...) Dadas as restrições
de seu contexto histórico e de sua situação político-ideológica, a preocupação ratzeliana com a
dimensão de apropriação, de conquista e de dominação do espaço geográfico não chegou a leva-lo a
‗emancipar‘ a categoria de território.‖
21
Segundo SOUZA (2013, p. 90), ―confundir, menos ou mais conscientemente, território e substrato
espacial material equivale a ‗coisificar‘ o território, fazendo com que não se perceba que, na
62
Essa noção de território (de domínio exclusivo do Estado) seguirá
hegemônica ao longo do século XX, atravessando a Primeira Guerra Mundial (1914-
1918) e Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e vindo a servir de fundamento para
a Geopolítica nos anos 50, compreendendo todo o período da Guerra Fria (1945-
1991) até hoje22.

Parte do Estado como o único detentor do Poder, única fonte de poder


(unidirecional) em relação à representação, planejamento, gestão e controle do
espaço. O Estado como o ente centralizador e mediador das relações sociais e,
consecutivamente, figura exclusiva do planejamento e gestão da sociedade, da
saúde e da loucura.

No pensamento foucaultiano, o processo de formação dos Estados envolve o


progressivo processo de desenvolvimento do poder sobre a vida, associado ―a um
poder de normalização dos processos vitais‖.

Conforme Lima e Yasui (2014, p. 595),

Esse desenvolvimento deu-se em duas formas principais: a primeira


foi centrada no corpo e em seu adestramento, na ampliação de suas
aptidões, no investimento em sua docilidade e utilidade, e na
extorsão de suas forças, por meio do que Foucault chamou de
disciplinas, caracterizadas por uma anátomo-política do corpo. A
segunda forma de poder sobre a vida, que emergiu em meados do
século XVIII, centrou-se no corpo-espécie, como suporte dos
processos biológicos, caracterizado pela dinâmica do vivo. Dessa
forma de exercício do poder, que Foucault (1979; 2001; 2008a)
chamou de biopolítica da população, interessa conhecer, regular e
controlar os nascimentos, a mortalidade, o nível de saúde, a duração
da vida de determinadas populações e todas as condições que
podem fazer esses processos variarem.

qualidade de projeção espacial de relações de poder, os recortes territoriais, as fronteiras e os limites


podem todos mudar, sem que necessariamente o substrato material que serve de suporte e
referência material para as práticas espaciais mudem.‖.
22
―Para os geógrafos de formação, o aparelho de Estado tem sido, tradicionalmente, um locus de
referência discursiva (isto é, objeto de estudo) privilegiado, ainda que indiretamente (da Geopolítica
aos efeitos das políticas públicas e projetos estatais sobre a estrutura urbana); além do mais, o
Estado tem sido, para eles, o principal locus de construção discursiva (ou seja, o ambiente de
trabalho, o ambiente a partir do qual se elaboram as ideias e as pesquisas). (...) E isso tem uma forte
relação com a tradicional maneira de se conceituar o território e de empregar a palavra: ou se pensa
no ‗território‘ quase como se fosse um sinônimo de espaço geográfico, ou se trata o território como
espaço propriamente político, mais privilegiando-se o Estado-nação e suas subdivisões político-
administrativas.‖ (SOUZA, 2013, p. 99)
63
As técnicas disciplinares centradas no corpo, produzindo efeitos
individualizantes, implica ao corpo uma série de forças para torna-lo ao mesmo
tempo dócil e útil – ―a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo entre uma
aptidão aumentada e uma dominação acentuada.‖ (FOUCAULT, 2008b, p. 119).
Uma racionalidade técnica (por que útil) e econômica (por que eficiente) e
pretensamente laica.

A disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos corpos no espaço.


Em segundo lugar, o controle rígido das atividades figura a modulação dos
comportamentos. Em terceiro lugar, as ―sanções normalizadoras‖, apoiadas em
dispositivos de comando, operam a imposição da ordem e à previsão dos
comportamentos aceitáveis. Em quarto lugar, as ferramentas de avaliação acabam
por operar a invisibilização do poder (na ordem do mérito – ou, no caso, no domínio
da ―verdade‖ sobre a doença); a vigilância, que capta, classifica, qualifica, qualifica,
quantifica e regista; individualiza, tornando cada indivíduo um ―caso‖ - ―um caso que
ao mesmo tempo constitui um objeto para o conhecimento e uma tomada para o
poder‖, ―como efeito e objeto de poder, como efeito e objeto de saber‖ (FOUCAULT,
2008b, p. 159-160).

É pela disciplina que as relações de poder mais fortemente se radicalizam,


tornando mais clara a relação opressor-oprimido – a ―continuação da guerra por
outros meios‖. No espaço disciplinar, a individuação (o processo de tornar-se
particular) acaba por ser regida por rituais disciplinares e por avaliações que
qualificam e classificam os sujeitos fabricados.

A biopolítica orienta-se não para o corpo, mas para a vida, para as


populações:

Enquanto na sociedade de soberania, diz Foucault, o poder (do


soberano) se exerce sobre um território, e na sociedade disciplinar o
poder (das instituições) se dirige fundamentalmente aos espaços
disciplinares, individualizados-individualizantes, na sociedade
biopolítica ou de segurança trata-se, antes de tudo, na relação
poder-espaço, de exercer o controle dos fluxos, da circulação, não do
homem enquanto indivíduo ou corpo, mas do homem enquanto
espécie – visando assim o controle da ―população‖, em suas
múltiplas modalidades – o que inclui o próprio discurso do
eugenismo e do racismo. (HAESBAERT, 2008, p. 156)

64
No cotidiano, atravessando a cidade, vê-se operar uma série de mecanismos
e procedimentos de controle e vigilância, num exercício de poder que se concretiza

No policiamento da cidade da cidade e diz respeito ao controle dos


indivíduos por meio de uma forma de inclusão constituída pela
análise pormenorizada do território e de seus elementos, e pelo
exercício de um poder contínuo. ‗Não se trata de uma exclusão,
trata-se de uma quarentena. Não se trata de expulsar, trata-se ao
contrário de estabelecer, de fixar, de atribuir um lugar, de definir
presenças, e presenças controladas. Não rejeição, mas inclusão. [...]
trata-se de uma série de diferenças sutis, e constantemente
observadas, entre os indivíduos que estão doentes e os que não
estão (FOUCAULT, 2001, p. 57, apud. LIMA; YASUI, 2014, p. 596).

O lócus das tecnologias biopolíticas é a cidade como espaço de circulação,


de fluxos, a ser controlado, redirecionado e ordenado.

Para Haesbaert (2008, p. 158-159),

Numa espécie de comparação entre a ‗cidade disciplinar‘ e a


‗cidade de segurança‘ (ou ‗biopolítica‘), Foucault destaca que a
primeira – como em Richelieu e Kristiania – trabalha-se sobre um
espaço vazio, artificial, inteiramente construído, visando uma espécie
de ordem perfeita, enquanto na segunda trata-se de trabalhar sobre
‗dados materiais‘, sobre uma disposição espacial já dada, ‗com o
escoamento das águas, com as ilhas, como o ar, etc.‘, porém sem
esperar atingir um nível de perfeição: ‗trata-se simplesmente de
maximizar os elementos positivos, de poder circular da melhor
maneira possível, e de minimizar, ao contrário, o que é risco e
inconveniente, como o roubo, as doenças, sabendo perfeitamente
que nunca serão suprimidos‘. Este é um aspecto de enorme
relevância e que demonstra a atualidade do pensamento
foucaultiano: nas ―sociedades de segurança‖ – como é a nossa, em
que tanta ação política é promovida em nome de uma pretensa
segurança – busca-se minimizar, dirimir os efeitos, e não
propriamente atacar as causas.

Operando na lógica da biopolítica (que faz sobreporem-se vida e política), o


Estado moderno instituiu uma série de mecanismos de identificação, organização,
vigilância e controle de populações: ―a população será, então, objeto dos cálculos do
poder e das análises de risco, orientadas pelas flutuações das curvas de
normalidade nas quais todos serão posicionados‖ (FOUCAULT, 2008a; LIMA;
YASUI, 2014, p. 596).

65
As instituições, os mecanismos e instrumentos de administração, controle e
vigilância e o conjunto de saberes produtores/produzidos (e as devidas
representações consequentes) detêm papel fundamental na constituição de todo um
aparato manicomial que ultrapassa o ambiente hospitalar.

A Psiquiatria acaba por funcionar como instrumento privilegiado de


composição das práticas disciplinares que investe na ―docilização dos corpos‖,
tornando-os maleáveis e conformados; e de práticas de controle e vigilância
orientadas ―para a produção de corpos e modos de vida: do corpo dócil ao corpo útil,
cúmplice, aparentemente participativo, ajustado, consumidor.‖ (Idem).

Paralelamente, ao final do século XIX, será a Psicanálise quem começará a


―dar voz à loucura‖, atribuindo Verdade, Valor e Sentido às palavras do louco.

A Psicanálise acabou por promover um duplo movimento no campo científico:


uma profunda transformação epistemológica no campo de estudos sobre a loucura,
rompendo com a medicina e com a psiquiatria ao conceder um estatuto de verdade,
resgatando a humanidade do louco; e, concomitantemente, requalifica
ontologicamente o sujeito, que já não é mais o sujeito cartesiano (da res extensa e
da res cogitans), mas, agora, um sujeito dividido (do inconsciente, do ego e do
superego) ―fundado pela palavra e pela linguagem, articulado ao campo do Outro‖
(Idem).

A loucura se abre e enuncia as condições e estruturas da sociedade, quando


o debate se requalifica e força a uma inflexão sobre as formas de inscrição do sujeito
no mundo simbólico. Com isto, produz também uma mutação na concepção do
Direito: seria o louco um ―cidadão‖? Pode o sujeito da loucura ser um sujeito do
Direito e de direitos?

Neste âmago, é a politização da loucura e do louco o grande avanço,


enunciando ao campo científico a necessidade intrínseca de compreensão do jogo
das relações e estruturas sociais. E este conjunto de mudanças não poderia deixar
de ter certa influência direta no saber e na prática psiquiátricos.

A aceitação de um novo modelo de sujeito e a criação de um paradigma


terapêutico (psicanálise), pautado na escuta, promoveu intensos tencionamentos
perante a Psiquiatria no trato do sujeito em condições de sofrimento psíquico: um

66
novo estatuto ontológico, político e ético para o louco implicou em profundos
questionamentos das noções de cuidado e cura.

Mesmo assim, no tocante à dinâmica espacial nas instituições psiquiátricas, a


Psicanálise não produziu uma grande transformação no arranjo das estruturas,
equipamentos e dispositivos psiquiátricos. Continuaram a existir os espaços asilares
(desde os anos 30 do século XX oficialmente alcunhados ―hospitais psiquiátricos‖) e
os mecanismos tradicionais (cada vez mais modernos, dado aos avanços técnicos e
tecnológicos) de universalização, normativização e mortificação do louco
(GOFFMAN, 1974).

Porém, nos importa que, como legado, as transformações na compreensão


da própria loucura e a condição do louco, somadas a conjuntura pós-Guerras e a
emergência de novas correntes de pensamento (humanista, existencialista,
marxistas e etc.), permitiram a mobilização de todo um conjunto de movimentos de
diferentes concepções, pautando reformas no campo da psiquiátrico.

Após a Segunda Guerra Mundial, apesar daquele entendimento de território


que enxerga apenas no Estado o detentor do fato Político (e à quem a Política23
compete), no âmbito das lutas sociais, observou-se diversos movimentos e debates
em várias partes do mundo entorno dos direitos humanos, sociais, culturais,
desdobrados da publicidade das atrocidades dos campos de concentração, tendo
nas liberdades individuais e coletivas o eixo das lutas políticas.

Estes movimentos progrediram e avançaram ganhando cada vez mais espaço


pela luta e na garantia de direitos ao longo do século XX, tencionando a ideia da
unilateralidade do poder e da política.

No interior das disputas geopolíticas concernentes ao período da Guerra Fria,


o conceito de território gradualmente é ―desacomodado‖ e volta a ser rediscutido.
Segundo Souza (2013), vários autores colaboraram direta e/ou indiretamente para
essa virada teórico-conceitual.

Para Michel Foucault, o poder não é um objeto ou coisa, nem está localizado
em uma instituição, não sendo, portanto algo que se cede, mas uma relação, ―e que
essa relação, ainda que desigual, não tem um ‗centro‘ unitário de onde emana o
23
Política, com ―P‖ para referenciar a política ―formal‖, do Estado e suas instâncias.
67
poder (como o Estado em algumas posições marxistas mais ortodoxas)‖
(HAESBAERT, 2004, p. 83)24.

Conforme Santos (2011), o poder consistem em relações de força múltiplas,


móveis, desiguais e instáveis, impossível de unidade, visto que está, ao mesmo
tempo, em todos os pontos e em toda parte, na relação de um ponto com outro.
Multiplica-se e provém de todos os lugares. Plural, Múltiplo, multifocal, multiforme e
multifário. É invisível e visível, presente e oculto, ao mesmo tempo. Por assim ser, o
poder é imanente: nunca exterior às relações que o concernem e, desta forma,
abarca às resistências e fugas e resignificações que lhe são inerentes – o poder
gera sempre seu corolário, o contra-poder.

Apesar do poder se exercer na luta e estar sempre em disputa, não é


dualístico, posto que configure uma relação complexa, nunca binária (dominadores e
dominados):

Em todas as partes que há poder, o poder se exerce. Ninguém (...) é


seu titular; e, no entanto, ele se exerce sempre em uma certa
direção, com uns de um lado e outros de outro; não se sabe ao certo
que o tem; mas se sabe quem não o tem. (ibid., p. 31)

É importante frisar que o que interessa à Foucault não é fomentar a criação


de um campo temático acerca das teorias de poder, mas a construção de caminhos
teórico-metodológicos para análise dos procedimentos e mecanismos intrínsecos às
relações de poder e que as instituem e são instituídos (efeito e causa).

Santos (2011, p. 14) cita Fraile (1990):

O poder está em todo lugar por que nasce da própria desigualdade


das partes e de sua relação mútua‘. Tendo o poder qualidades que o
tornam o instrumento de controle social por excelência, para coloca-o
em prática faz-se necessário um saber, ‗uma técnica que firme
atuações, crie formas, distribua pessoas e organize o território‘.

24
―A pergunta é: ‗como as coisas acontecem no momento mesmo, no nível, na altura do
procedimento de sujeição, ou nesses processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os corpos,
dirigem os gestos, regem os comportamentos‘‖ (SANTOS, 2011, p. 29)
68
Para se exercer, o poder, por princípio, ―circula‖ sem ser exclusivo de
ninguém. Funciona em cadeia. Todos são ao mesmo tempo ativos e passivos
imersos nas relações de poder. Potencialmente detentores e destinatários do poder.

O poder constitui-se em ―uma ação sobre ações‖, orientado para produção de


efeitos, abarcando, portanto, tecnologias de poder que operam como produtoras de
subjetividade, organizadoras da vida, cujas principais já explicitamos anteriormente –
a saber: as tecnologias disciplinares e a biopolítica.

Portanto, para o autor, o poder pode até produzir efeitos repressivos, mas,
principalmente, produz efeitos de saber e institui verdades 25 – tanto pelo discurso
que é obrigado a construir quanto pelos movimentos daqueles vitimados pela
organização do poder que impele:

Estudar o modo pelo qual o poder se exerce, o ‗como do poder‘,


equivale a compreender os mecanismos do poder balizados entre os
limites impostos de um lado pelo direito, com suas regras formais
delimitadoras, e de outro pela verdade, cujos efeitos produzem,
conduzem e reconduzem novamente ao poder. (...) Portanto, o ‗como
do poder‘ se inscreve na seguinte problemática: ‗quais são as regras
de direito de que lançam mão as relações de poder para produzir
discursos de verdade‘. (FOUCAULT, 1999, p. 28; apud. SANTOS,
2011, p. 38)

É que as ordens discursivas, os ―discursos de verdade‖ já são em si


constituídas/constituintes de poder, por meio da linguagem, comportamento, valores,
e, desta forma, aprisionam os sujeitos:

Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ―política geral‖ de


verdade, isto é, os tipos de discurso que aceita e faz funcionar como
verdadeiros..., os meios pelo qual cada um deles é sancionado, as
técnicas e procedimentos valorizados na aquisição da verdade; o

25
―A produtividade do poder afasta a hipótese repressiva: a noção de produtividade, imanente ao
conceito de poder foucaultiano, torna a noção de repressão algo inadequado. Além do que, ideia de
repressão implica diretamente em uma percepção negativa do poder; (...) Acrescente-se a isso o fato
de que a ideia de repressão também se associa a uma abordagem jurídica do poder. Quando
encarado pelo ângulo da repressão, o poder é compreendido como uma espécie de lei e, mais do que
isso, como uma norma proibitiva, ou seja, que diz não. (...) ‗Temos que deixar de descrever sempre os
efeitos de poder em termos negativos‘, proclama definitivamente‖ (FOUCAULT, 2008b, p. 161; apud
SANTOS, 2011, p. 41)
69
status daqueles que estão encarregados de dizer o que conta como
verdadeiro. (FOUCAULT, 1979, p. 12)

Assim, para Foucault (1999, p. 28-29) apud Santos (2011, p. 26), a Verdade
sempre está ligada ao poder:

Numa sociedade como a nossa (...) múltiplas relações de poder


perpassam, caracterizam, constituem o corpo social; elas não podem
dissociar-se, nem estabelecer-se, nem funcionar sem uma produção,
uma acumulação, uma circulação, um funcionamento do discurso
verdadeiro. Não há exercício de poder sem uma certa economia dos
discursos de verdade que funcionam nesse poder, a partir e através
dele. Somos subjetivos pelo poder à produção da verdade e só
podemos exercer o poder mediante a produção da verdade. (...) o
poder não para de questionar, de nos questionar; não para de
inquirir, de registrar; ele institucionaliza a busca da verdade, ele a
profissionaliza, ele a recompensa. (...) E, de outro lado, somos
igualmente submetidos à verdade, no sentido de que a verdade é a
norma (...). Afinal de contas, somos julgados, condenados,
classificados, obrigados a tarefas, destinados a uma certa maneira
de viver ou a uma certa maneira de morrer, em função de discursos
verdadeiros, que trazem consigo efeitos específicos de poder.
Portanto: regras de direito, mecanismos de poder, efeitos de
verdade. (...) Somos forçados a produzir a verdade pelo poder que
exige essa verdade e que necessita dela para funcionar, temos de
dizer a verdade, somos coagidos, somos condenados a confessar a
verdade ou encontrá-la.

Deste ponto de vista, as ideologias presentes na circulação do poder


(educação, burguesia etc.) em nada têm a ver com sua natureza. Partem de
mecanismos externos ao poder em si [se é que poderíamos falar de ―poder em si‖].
Este é o papel dos aparelhos de saber, do saber-poder.

O que sustenta este tipo de poder são os ―instrumentos efetivos de formação


e acumulo de saber, são métodos de observação, técnicas de registo,
procedimentos de investigação e de pesquisa, são aparelhos de verificação‖
(FOUCAULT, 1999, p. 40). Ao exercer-se, o poder forma, organiza e coloca em
circulação um ―dispositivo de saber‖.

Desta forma, a produção da Verdade é genética às relações de poder:

70
O que se passa entre esses dois conceitos, o de poder e o de
verdade, só pode ser entendido sob uma perspectiva relacional:
‘somos submetidos pelo poder à produção da verdade e só podemos
exercer o poder mediante a produção da verdade‘ (FOUCAULT,
1999, p. 28). (...) O que se passa é que Foucault torna a verdade
dependente do poder – invertendo uma relação que, no âmbito da
filosofia do sujeito, supostamente se exerceria no sentido contrário. O
poder, portanto, institucionaliza a verdade. Ou, ao menos, ele
institucionaliza a busca da verdade ao institucionalizar seus
mecanismos de confissão e inquirição. A verdade se profissionaliza,
pois, afinal, no seio daquela relação triangular [poder, direito e
verdade], a verdade nada mais é que a norma. Nesse sentido
(verdade = norma), são os discursos verdadeiros que julgam,
condenam, classificam, obrigam, coagem... trazendo sempre consigo
efeitos específicos de poder. (SANTOS, 2011, p. 38)

Entendido desta forma, podemos concluir que o paradigma psiquiátrico


constitui-se em um saber-poder que, portanto, extrapola as relações
institucionalizadas e as práticas terapêuticas, se enraizando no domínio das
representações sociais, do imaginário social, das mentalidades e de suas conexões
com as práticas sociais (estigmas, preconceitos, fobias, rechaços etc.).

Retornando a Souza (2013, p. 79),

[Hannah Arendt] Refletindo sobre a natureza do poder, já lamentara


que o conceito fosse, tão frequentemente, confundido ou
indevidamente vinculado à violência, à força e ao vigor, e também à
dominação. Para ela (...) o poder não é uma ‗coisa‘, algo que possa
ser estocado; ele ‗não pode ser armazenado e mantido e reservado
para casos de emergência, como os instrumentos da violência: só
existe em sua efetivação‘ (ARENDT, 1983, p. 212).

Para a autora, é a ausência de poder que implica na violência:

À violência sempre é dado destruir o poder. (...) Resumindo:


politicamente falando, é insuficiente dizer não serem o poder e a
violência a mesma coisa. O poder e a violência se opõem: onde um
domina de forma absoluta, o outro está ausente. (ARENDT, 1985, p.
29-30 apud SOUZA, 2013, p. 80).

Desta forma, o poder corresponde à habilidade humana de agir em comum


acordo. O poder passa a existir quando os sujeitos atuam conjuntamente. Logo,
envolve um componente de consenso. Não se detém poder, se está investido de
poder:
71
Hannah Arendt, longe de ‗demonizar o poder‘ (...) ressaltou como sua
característica essencial, não a coerção e muito menos a repressão
violentas, mas sim um certo grau de entendimento mútuo, fonte da
verdadeira legitimidade do seu exercício. (SOUZA, 2013, p. 82)
A partir da problematização da temática do poder, outras dimensões do
território, desvinculadas da visão exclusivista do Estado puderam ser enunciadas.

Do ponto de vista de uma abordagem de cunho mais cultural(ista)/simbólica,


Haesbaert (2004, p. 71-72) faz referência aos trabalhos de Bonnemaison e
Cambrèzy (1996):

Para estes autores há um enfrentamento, hoje, entre a lógica


funcional estatal moderna e a lógica identitária pós-moderna,
contraditórias, reveladoras de dois sistemas de valores e de duas
éticas distintas frente ao território. Embora não seja uma simples
questão de mudança de escala, também há uma revalorização da
dimensão local. O território reforça sua dimensão enquanto
representação, valor simbólico. A abordagem utilitarista de território
não dá conta dos principais conflitos do mundo contemporâneo. (...)
‗O poder do laço territorial revela que o espaço está investido de
valores não apenas materiais, mas também éticos, espirituais,
simbólicos e afetivos. É assim que o território cultural precede o
território político e com ainda mais razão precede o espaço
econômico‘ (1996, p. 10). (...) Ele não pode ser percebido apenas
como posse ou como uma entidade exterior à sociedade que o
habita. É uma parcela da identidade, uma fonte de uma relação de
essência afetiva ou mesmo amorosa do espaço.

É neste sentido que Antas Jr (2005, p. 70) nos alerta que

A regulação social e territorial, quer nos parecer, é efetivamente


exercida pelas instâncias que detêm poder de fato e não apenas
um poder declarado. Advém daí a proposta de um entendimento de
que a regulação do território nacional atravessa hoje uma transição
para uma evidente divisão entre poderes: 1. o poder monolítico e
extensivo da hegemonia soberana; 2. o poder fragmentado,
especializado por setores econômicos (não necessariamente
produtivos), formado por redes técnicas e organizacionais − a
hegemonia corporativa; 3. a constituição de novas formas de poder.
[grifo adicionado]

A essa complexa interação, o autor designa de forma híbrida de regulação


social. E, desta forma, afirma que ―a crise de regulação que o Estado atravessa
72
neste período não se dá em função de uma obsolescência de sua forma e de seu
ente; reside, antes, na crença de que ele é o único a regular o território em que está
circunscrito‖ (p. 51).

A questão primordial torna-se: ―quem domina, governa ou influencia e como


domina, governa ou influencia esse espaço?‘‖ (SOUZA, 1995, p. 78).

Especificamente no campo da Psiquiatria, diversos movimentos colocaram em


―xeque‖ o paradigma psiquiátrico instituído desde Pinel, questionando não só o
modelo hospitalocêntrico, mas também os objetivos, a atuação, o objeto e o
fundamento epistemológico das intervenções.

Esses movimentos progressivamente vão operar transformações importantes


na dinâmica espacial dos tratamentos e das práticas de cuidado. Através de
propostas de requalificação e reordenamento do espaço asilar e de seus processos,
acabam que por possibilitar a emergência de novos e diferentes significados e
interpretações para as relações entre os espaços da loucura (lócus das práticas
manicomiais) e a loucura dos espaços (a relação entre sociedade-loucura). A
galope, as experiências de ―Reformas Psiquiátricas‖ vão como que
progressivamente ―descobrindo‖ o território.

Guiados pela proposta de organização de Paulo Amarante (1995), Joel


Birman e Jurandyr Freire Costa (1994), Izabel Passos (2009) e Marco Aurélio Jorge
(1997), elaboramos Quadros Sínteses agrupando os movimentos em três blocos:

73
Quadro 1 – Sintese dos três blocos

a) Os movimentos que priorizavam as críticas ao espaço asilar

Movimento Origem Experiência Principais Propostas Dinâmica Espacial

- Transformação da
instituição psiquiátrica, a
partir da requalificação dos
ambientes hospitalares
França Hospital Atuação noHospital, com a
(ateliês, espaços de lazer e
Psicoterapia (Déc. 40), Psiquiátrico de abertura deste à
etc.), buscando a superação
Institucional com Fraçois Saint-Alban comunidade e vizinhança
das relações verticais e da
Tosquelles (Lozère) (―socialização dos asilos‖)
autoridade do poder médico
(liberdade de circulação e
contratos revisáveis de
entrada e saída)

Movimento Origem Experiência Principais Propostas Dinâmica Espacial

―Industrial - Coletivização, Atuação no espaço


Inglaterra
Neurosis Unit‖ do democratização e hospitalar, com a
(Déc. 40-
Comunidades Hospital Belmont participação dos pacientes, descentralização da
50), com
Terapêuticas (posteriormente, funcionários e responsáveis, autoridade entre os
Maxwell
Hospital no sentido de resgatar a funcionários, responsáveis
Jones
Henderson) função terapêutica do hospital e pacientes

b) Movimentos que priorizavam a comunidade como lugar de atuação da psiquiatria

Movimento Origem Experiência Principais Propostas Dinâmica Espacial

Setorização – Tendo como


referência o hospital, setoriza o
espaço hospitalar e a cidade.
Cada setor da cidade
corresponderia à um recorte
- Contestava o dispositivo geográfico e social e teria uma
Hospital
psiquiátrico como equipe técnica responsável pelo
Psiquiátrico Ville-
instrumento de violência e atendimento psiquiátrico da
Évrard (Paris),
França exclusão e, com isto, população e o acompanhamento
Hospital
Psiquiatria de (Déc. 50), propunha levar a de seus pacientes. No hospital,
Psiquiátrico
Setor com Lucien psiquiatria à população, as alas correspondem aos
VilleJuif (Paris) e
Bonnafè evitando a segregação e o diferentes setores da cidade, de
Hospital
isolamento, onde o forma a promover o
Psiquiátrico de
hospital seria mais um relacionamento entre pacientes
Balvet (Lyon)
espaço de tratamento. de mesma cultura e meio social e
manutenção dos técnicos
eresponsáveis - em caso de
internação.

74
Movimento Origem Experiência Principais Propostas Dinâmica Espacial

- Substitui o objeto da
psiquiatria da doença
mental para a saúde
mental, assumindo a
possibilidade de - Criação de Centros de Saúde
intervenção sobre as Mental Comunitários de caráter
EUA (Déc. Plano Nacional causas e evolução das preventivo cujos objetivos eram:
Psiquiatria 60), com de Saúde Mental, doenças e, com isto, promover a Saúde Mental;
Preventiva Gerald governo Kennedy produzindo intervenções prevenir a doença mental;
Caplan (1963) para a promoção da diagnosticar e tratar
saúde mental à toda a precocemente; reabilitação e
comunidade, através de reintegração social.
uma atuação intersetorial
(articulação com outros
setores da sociedade) e
multiprofissional

c) Movimentos de negação estrutural do paradigma psiquiátrico

Movimento Origem Experiência Principais Propostas Dinâmica Espacial

- Desospitalização e
- Desospitalização e negação do objeto,
negação de todo e
teorias e métodos da Psiquiatria, já que
qualquer aparato
Inglaterra compreendiam que as concepções
psiquiátrico. Porém,
(Déc. 60), científicas da loucura eram violentas e
inspirados pelas
com David "Pavilhão 21" desumanas e estavam à serviço
Comunidades
Cooper, do Hospital exclusivamente da alienação política,
Antipsiquiatria Terapêuticas,
Ronald Shelly econômica e cultura da socieQdade
procuravam
Laing e (Londres) moderna. Propunham eliminar a própria
acompanhar e auxiliar
Aaron ideia de doença mental, compreendida
o louco no processo
Esterson como fato político e social desdobrada de
de reinserção e
relações familiares – lócus de reprodução
relacionamento
das contradições da sociedade.
familiar.

75
Movimento Origem Experiência Principais Propostas Dinâmica Espacial

- Criação de Centros
de Saúde Mental
articulados à outros
- "Desinstitucionalização", com base na dispositivos
substituição do aparato manicomial, institucionais
propunha não só a extinção do modelo (cooperativas de
hospitalocêntrico, mas o desmonte de todos trabalho - "economia
Hospital os mecanismos psiquiátricos de exclusão e solidária"; casas
Itália
Psiquiátrico controle, e criação de uma rede territorial protegidas ou
psiquiatria (Déc. 60),
de Gorízia e substitutiva de serviços, em busca da autônomas - "grupos-
Democrática com
Hospital reapropriação da "vida" pelo doente. apartamento"; e,
Italiana Franco
Psiquiátrico Envolve "colocar a doença entre associações de
Basaglia
de Trieste parênteses" na mobilização, como atores do usuários, familiares,
processo, dos sujeitos sociais e a técnicos e
transformação das relações de poder entre voluntários) de
os pacientes e as instituições, defendendo o inserção social;
direito à liberdade e autodeterminação. consolidando uma
rede territorial de
serviços de saúde
mental

Fonte: Lucas Honorato, 2017.

No tocante aos ―movimentos que priorizavam as críticas à estrutura asilar‖, a


Psicoterapia Institucional, com Tosquelles (déc. 40), e as Comunidades
Terapêuticas, com Jones (déc. 40-50), trazem em seus projetos as marcas da
conjuntura de um mundo pós-segunda guerra mundial. Ambos denunciaram a ―forma
degradante como eram tratados os ‗pacientes psiquiátricos‘, submetidos ao
abandono, maus tratos e desassistências, e que em muito esta condição se
assemelhava a dos prisioneiros dos campos de concentração [a pouco extintos?]‖
(MENTZ, 2011, p. 83).

Tanto Tosquelles quanto Jones, em seus percursos pessoais, tiveram


experiências que iriam marcar e guiar suas posições acerca de quais críticas
dirigidas ao modelo psiquiátrico. Apesar das denúncias e profunda crítica, as
experiências buscavam a requalificação e reordenamento do espaço asilar, mas
ainda continuariam bastante apoiados na ideia da necessidade de manutenção da
centralização do processo de tratamento no hospital.

76
François Tosquelles, psiquiatra catalão, militante marxista, escapa à
perseguição do regime de Franco e emigra para a França. Depois de não conseguir
ingressar no exército francês, no contexto da tomada de Paris por Hitler, emprega-se
num campo de concentração nazista implantado em território francês. Seu trabalho
consistia num duplo processo: como psiquiatra, cuidar dos casos de suicídio e do
acompanhamento dos prisioneiros; como militante, facilitar as fugas (PASSOS,
2009).

Após um ano e meio nesse serviço e demonstrando avanços significativos


em relação aos tratamentos, é convidado a trabalhar no Hospital Psiquiátrico de
Saint-Alban. Não menos importante, Tosquelles cresceu dentro do Hospital
Psiquiátrico de Reus, aonde ―até os dez anos de idade ia em visitas frequentes com
os pais e onde, mais tarde, se formaria psiquiatra‖ (PASSOS, 2012, p. 6). Talvez a
compreensão deste percurso ajude a compreender seu convencimento de que

(...)a fobia da loucura é uma condição natural do gênero humano. Os


grupos humanos são feitos para excluir de seu meio loucura e é por
isso que essa estória de ação terapêutica na comunidade é uma
utopia que precisa ser acompanhada com cuidado (GALLIO;
CONSTANTINO, s.d., p. 95 apud. PASSOS, 2012, p. 5-6).

Apoiado nesta concepção defendia a manutenção do espaço asilar, já que


acreditava na necessidade da proteção do louco do ―mundo exterior‖, com sua
requalificação enquanto ―espaço terapêutico‖, num ―movimento de socialização do
asilo‖ (PASSOS, 2012, p. 5).

Na década de 40, no Hospital Psiquiátrico de Saint-Alban, na França,


François Tosquelles e seu grupo, vão propor o modelo da Psicoterapia Institucional e
a conversão do espaço asilar em um ―espaço terapêutico‖ (não um lugar da doença,
mas da saúde, da vida), primando pela diluição do poder autoritário do saber médico
sobre o doente e buscando articular a comunidade com as atividades do hospital.

No caso de Maxwell Jones, psiquiatra sul-africano radicado no Reino Unido, a


noção de comunidade terapêutica se consolida entre o final da Segunda Guerra
Mundial e o período subsequente, quando começa o tratamento e reintegração
social de soldados ingleses no Hospital de Belmont, Londres. A concepção de
cuidado em Jones era marcada por um sentido coletivista de práticas, buscando a
77
horizontalização das relações de poder como base para a instauração de um espaço
―orgânico‖ onde o saber técnico não seria o único fundamentador do processo de
tratamento, mas também as próprias relações contingentes ao espaço asilar, regidas
pela própria ―comunidade nascente‖.

Em seu conjunto, as propostas acarretaram transformações interessantes e


importantes a partir da ―reorganização‖ e ―requalificação‖ da estrutura asilar,
trazendo mudanças tanto na esfera ético-finalista das práticas de cuidado quanto na
esfera epistêmico-ontológica do saber psiquiátrico.

Porém, com relação às transformações na esfera ético-finalista da prática


psiquiátrica, se o foco na reorganização da estrutura do espaço asilar avança no
sentido de possibilitar ao louco certa retomada à condição de sujeito de seu
processo de tratamento e abertura à comunidade, contraditoriamente, a manutenção
do processo de tratamento centrado no espaço asilar, acabou por não permitir a
permeabilidade desta população no cotidiano da cidade, ao contrário, o que
propunha era a permeabilidade da cidade no cotidiano institucional.

Desta forma, se por um lado podemos apontar relativos avanços em relação à


superação da mortificação dos sujeitos que a ―socialização‖ e ―coletivização‖
permitiriam, não podemos afirmar o mesmo no tocante à superação da carreira
moral e o estigma do doente e do avanço em formas de inserção social que
garantam a realização do direito à diferença (GOFFMAN, 1988).

Ainda, em relação à esfera epistêmico-ontológica do saber psiquiátrico, o foco


exclusivo na requalificação das relações de poder (das relações verticalizadas às
horizontalizadas) e hierarquias (o questionamento do saber técnico como único
fundamentador do processo) no espaço asilar, sem imprimir mudanças estruturais
na dinâmica espacial do processo, acaba que por obscurecer a importância do
fundamento territorial no forjar de novas existências para a superação do dispositivo
psiquiátrico.

Para Milton Santos (1996), do ponto de vista do espaço geográfico, diferentes


sistemas técnicos não só coexistem num local dado, mais ainda, formam uma
situação no lugar, ou seja, em um determinado lugar encontramos a operação
simultânea de vários sistemas técnicos surgidos, articulados, mantidos e

78
transformados cotidianamente. O espaço que é rugosidade, sendo marcado por
continuidades e descontinuidades. Através desta noção, Milton Santos nos leva a
admitir que o processo de produção do espaço é ao mesmo tempo construção e
destruição das formas e funções sociais do mesmo, re-montando uma dialética
forma-conteúdo. Sob esta ótica, precisamos assumir que de fato esses movimentos
que vieram a priorizar as críticas à estrutura asilar, reorganizando e requalificando
estes espaços, produziram um ―novo‖ espaço asilar. Contudo, a contradição está em
articular este conjunto de transformações (novas práticas e ações de cuidado e
relações sociais que se objetivam horizontalizantes) com os princípios básicos do
dispositivo psiquiátrico (a saber: a reclusão, a tutela médica e a condição
patológica). O que há de mais moderno, com o que há de mais antigo, numa
situação onde a dialética do próprio espaço, tende à: primeiro, apaziguar as
contradições estruturais do dispositivo psiquiátrico; e, num segundo momento,
reorientar estas contradições sob as novas condições.

Partindo, das denúncias, críticas e experiências esboçadas pelos movimentos


anteriores, e seguindo por caminhos e olhares dispares, os ―movimentos que
priorizavam a comunidade como lugar de atuação da psiquiatria‖ se encontravam
pela negação da organização espacial dos processos de cuidado focado no espaço
asilar. Propunham cada qual à sua maneira a descentralização deste, sem, contudo,
aprofundar grandes questionamentos ao paradigma psiquiátrico.

Gestada no âmago da própria Psicoterapia Institucional, a Psiquiatria de Setor


surgiria do movimento progressivo de distanciamento entre duas frentes desse
movimento: uma vertente idealizada e experimentada por François Tosquelles, e
envolve propostas teórico-práticas de transformação da instituição psiquiátrica, a
partir da requalificação dos estabelecimentos hospitalares; e a outra, de caráter
clínico-psicanalítico, que começa a se dissociar da Psicoterapia Institucional de
Tosquelles, a partir da publicação do texto de Daumezon e Koechilin, em 1952, nos
Anais portugueses de psiquiatria, vindo até a se opor e dar origem na década de 60
ao movimento da Psiquiatria de Setor (PASSOS, 2012).

A Psiquiatria de Setor, proposta por Lucien Bonnafé e seu grupo ao governo


francês (e que veio a se tornar a política oficial de saúde mental no país), vai balizar-
se na crítica do espaço asilar, entendido como instrumento de exclusão e violência.

79
Segundo esta linha, a psiquiatria não poderia desenvolver suas práticas de maneira
eficaz em uma estrutura como o espaço asilar. Propunham uma reorganização da
dinâmica espacial do processo de tratamento, via descentralização do processo,
reorientando as práticas psiquiátricas ao louco em sua comunidade. Manter o
paciente em seu meio social seria um dos fatores fundamentais para o sucesso do
tratamento, tendo o Hospital como complementar ao processo.

A noção de ―setorização‖ do atendimento é quem vai dar concretude a


proposta. Trata-se da divisão das cidades francesas em ―setores‖, áreas geográficas
e recortes sociais, com uma equipe técnica responsável pelo atendimento da
população e acompanhamento dos pacientes, inclusive durante a internação (caso
fosse necessária). Igualmente, o Hospital seria setorizado, de forma que as alas
correspondessem à uma área geográfica e a um recorte social, possibilitando ao
paciente manter em seu interior relações com outros de sua mesma cultura e meio
social, preservando hábitos e costumes regionais durante a internação.

A setorização servia como plataforma não só para o tratamento, mas também


tinha papel fundamental na prevenção e na reinserção social. Em si, a proposta já se
colocava como política pública planificadora, e assim foi. Contudo, ao não absorver o
princípio do questionamento do poder autoritário do saber médico, tão valioso à
Psicoterapia Institucional, acabou se tornando um movimento de ―modernização‖ dos
hospitais e de multiplicação de serviços externos, que marcadamente reproduziam a
mesma lógica autoritária do sistema institucional asilar, com diferenças apenas nos
tempo de rotação dos sujeitos (da internação crônica à recorrentes reinternações
mais curtas).

Sob outro viés, a Psiquiatria Preventiva de Gerald Caplan, nos EUA, vai
propor uma igual descentralização do tratamento, mas com base na criação de
Centros de Saúde Mental Comunitária. A proposta surge buscando identificar as
pessoas que seriam mais suscetíveis às doenças mentais via questionários e
entrevistas, buscando identificar possíveis antecedentes com vistas à intervenção.

Vindo a ser a base do Programa Kennedy, na década de 60, emerge em uma


conjuntura de crescimento exponencial dos custos e investimentos no setor da
saúde e da necessidade de redução das desigualdades sociais, que obrigaram os

80
Estados a considerar a saúde como um dos objetos do campo político
(GUIMARÃES, PICKERNHAYN; LIMA, 2014).

Novos atores entram em cena. De um lado, os debates no campo da saúde


pública procuraram redirecionar o olhar da Epidemiologia para os fatores sociais,
considerando a influência dos fatores ambientais e dos lugares na saúde,
impulsionando o desenvolvimento de um novo campo: a Epidemologia Social, cujo
engajamento político gradativamente fará emergir sob a ótica da investigação, os
determinantes sociais do processo saúde-doença – noção que baliza o aspecto da
prevenção e seguridade social. De outro, o avanço do pensamento liberal que,
criticando os altíssimos custos aos contribuintes da manutenção do aparato
manicomial e das internações de longo prazos, pressiona o Estado para a
racionalização dos gastos públicos.

Neste contexto, a ―nova psiquiatria‖ norte americana, veio a ser conhecida


como a Terceira Revolução Psiquiátrica (sendo a freudiana a segunda), ao deslocar
o objeto da psiquiatria da doença mental para a saúde mental. Trata-se de assumir a
possibilidade de intervir nas causas e na evolução das doenças, atuando
preventivamente e promovendo a saúde para toda a população. Destarte, o objetivo
dos centros de saúde eram promover a saúde mental, prevenir a doença mental,
diagnosticar e tratar precocemente para a reabilitação e reintegração social. Para tal,
introduziram equipes multiprofissionais e adotaram o princípio da intersetorialidade
(articulação e integração de outros setores da sociedade nas ações do programa,
tais como escolas, associações, instituições de assistência social, igrejas, polícia e
etc.) para permeabilidade e possibilidade de expansão do serviço para toda a
comunidade. Após conhecer o Programa, Basaglia (1982, p., 97-98 apud
AMARANTE, 1994, p. 73) escreve:

Aqui – sob uma mesma lei que as informa – atuam


contemporaneamente as instituições da violência, com seu
significado explicitamente exclusório, discriminante e destrutivo, e as
instituições da tolerância, que, por intermédio de um novo conceito
da psiquiatria social e comunitária e a interdisciplinaridade, procuram
resolver tecnicamente os conflitos sociais‘. Observa ainda que a
‗técnica comunitária, embora elaborada como resposta institucional à
realidade manicomial, vem assumida como uma nova técnica
psiquiátrica em sentido específico.

81
Enfim, conclui que estas novas instituições acabam ―que, por meio da
prevenção, produzir uma nova categoria de doentes (os emotional patients)‖
(AMARANTE, 1994, p. 74).

Segundo o autor supracitado:

A nova psiquiatria norte-americana funda a ‗capilaridade


multidisciplinar‘, que consegue criar uma tal rede de controle técnico-
social nos países de alto nível tecnológico, que é muito mais
penetrante e sutil que o da psiquiatria tradicional, onde a barreira
entre a norma e o desvio se torna sempre mais frágil e discriminante.
Esta nova psiquiatria tem um endereço social, onde o que pesa é a
competência do controle técnico sobre as questões sociais,
configurando-se assim na instituição tolerante, que é a outra face da
instituição da violência [espaço asilar]. (ibid.)

De forma diferenciada em relação a Psiquiatria de Setor, este movimento não


só opera a ampliação das fronteiras do paradigma psiquiátrico, enquanto
descentraliza os serviços de saúde, como difunde/dilui e o enraíza no cotidiano da
sociedade de forma ampla, ―patologizando‖ a todos aqueles que manifestarem
qualquer ―desvio‖ em relação ao ideal de saúde mental. Substitui-se a loucura pela
loucura potencial, de forma que o saber médico aprofunda o controle sobre a vida e
os corpos.

Conjuntamente, há a mobilização de todo um circuito produtivo de serviços,


exames, equipamentos e medicamentos (suplementos, especialidades e exames
médicos cada vez mais específicos, equipamentos modernos etc.). É preciso investir
no corpo... Discurso, em si universalizante e conveniente ao momento dos
Estados26, que sob o prisma da saúde mental propaga-se difundindo e ampliando de
forma exponencial os ganhos de capital: o direito à saúde como consumo.

Nota-se a expansão da medicalização da sociedade através da expansão


gradativa do campo de competências do saber médico. Medicalização como
construção de normas sociais, como referência para construção das formas de

26
A partir da década de 60, as experiências e projetos de modelos de seguridade social se
multiplicam, numa conjuntura onde a luta pela garantia dos direitos sociais pelos Estados
gradativamente é acirrada, implicando em tensões acerca do papel do Estado; a pressão e lobby do
capital, via complexo industrial da saúde; e a preocupação dos gestores e administradores com os
custos embutidos.
82
pensar, atuar e organizar a vida em sociedade. Ao mesmo tempo motor e
consequência do processo, dá-se o agravamento do medo e estigmatização da
loucura, visto que a situação de sofrimento psíquico se torna cada vez mais
encarada como uma negligência individual, um erro pessoal.

Quanto àqueles ―movimentos instauradores de rupturas na constituição do


paradigma psiquiátrico‖, muito influenciados pelas leituras da Escola de Frankfurt, a
Antipsiquiatria de David Cooper, Ronald Laing e Aaron Esterson, vieram a propor
uma ruptura e crítica radical ao paradigma psiquiátrico, na década de 60, na
Inglaterra. Pregaram a negação do paradigma psiquiátrico, desde sua origem. Para
eles, as concepções científicas da loucura eram violentas e desumanas e estavam a
serviço exclusivamente da alienação política, econômica e cultura da sociedade
moderna. Assim, negam a noção de doença mental, e, com isto a ideia de
―tratamento‖, já que a sociedade é quem estaria doente e, ao mesmo tempo, seria a
produtora da doença (compreendida como fato político e social desdobrado de
relações desequilibradas no âmbito familiar – lócus de reprodução das contradições
da sociedade). Desta forma, propõem a extinção do espaço asilar (desospitalização)
com, muito influenciados pelas Comunidades Terapêuticas, o acompanhamento e o
auxílio no retorno do louco à sua comunidade e seio familiar.

Apoiado nos debates da Escola de Frankfurt, do próprio movimento da


Antipsiquiatria, mas também de Husserl, Minkowiski, Foucault, Goffman, Sartre e
Gramsci, e com base na experiência em Hospital Psiquiátrico de Gorizia, Franco
Basaglia vai consolidar, nos anos 60, na Italia, a Psiquiatria Democrática e o projeto
de ―desinstitucionalização‖ (que viria a se concretizar na experiência no Hospital
Psiquiátrico de Trieste).

É preciso apontar duas divergências importantíssimas entre o projeto da


Psiquiatria Democrática Italiana e a Antipsiquiatria: primeiro, a Psiquiatria
Democrática não nega a existência da doença, como a Antipsiquiatria, pelo contrário
propõe ―colocar a doença entre parênteses‖, que

Diz respeito à individuação da pessoa doente, de não ocupar-se da


doença mental, e sim, ao contrário, de tudo aquilo que se construiu
em torno da doença no interior da instituição. É uma inversão da
questão psiquiátrica. (...) [Trata-se de] realizar uma operação prático-
83
teórica de afastar as incrustações, as superestruturas, produzidas
tanto no interior da instituição manicomial, em decorrência do estado
de institucionalização, quanto no mundo externo (...) em
consequência da rotulação social que é formalmente autorizada pelo
saber psiquiátrico. (AMARANTE, 1994, p. 68 e 70)

Só desta forma seria possível compreender o doente e agir em seu


benefício27.

Em segundo lugar, Basaglia aponta que a concepção Antipsiquiátrica, ao


focar a produção da loucura na família, acaba por negligenciar as relações de poder
dispersas na sociedade. Assim, uma reforma estrutural no sistema psiquiátrico
demandaria operar uma luta em duas esferas: na esfera científica e na esfera
política28. Só desta forma seria possível compreender o doente e agir em seu
benefício, na luta contra a institucionalização do ambiente externo (luta política para
a transformação no âmbito da sociedade da sua relação com a loucura) e contra a
―institucionalização‖ e ―cronificação‖ da doença nos aparatos manicomiais. Mas,
principalmente, na busca por ―encontrar um novo tipo de relação entre doente,
médico, equipe e sociedade, onde a instituição psiquiátrica, a psiquiatria e os
enfermos sejam questões reciprocamente compartilhadas‖ (p. 69).

A desinstitucionalização perpassa duas noções fundamentais –


institucionalização e poder institucionalizante:

Basaglia definiu institucionalização como o complexo de ‗danos‘


derivados de uma longa permanência coagida no hospital
psiquiátrico, quando a instituição se baseia em princípios de
autoritarismo e coerção. (...) Cabe a ele [institucionalizado] somente
seguir as regras, normas e horários determinados pelo médico-
psiquiatra, considerado incontestavelmente como ‗o‘ portador do
conhecimento e do saber sobre a doença. (...) Além de perder-se a si
mesmo, o institucionalizado, especialmente o ‗doente mental‘, tem
atribuído a si uma série de rótulos, atributos, definições. Violento,
sujo, ‗sem razão‘, são apenas alguns atributos que, ‗colados‘ ao
doente mental justificam a necessidade de tratamento. O poder
institucionalizante é entendido como o conjunto de forças,
mecanismos e aparatos que ocorrem quando o doente, oprimido
pelos limites impostos pela doença, é forçado, pela reclusão, a
objetivar-se nas regras próprias que o determinam, em um processo

27
Desadjetivação é subjetivação! (((DEVANEIOS))).
28
―Tais níveis [o da ciência e da política] estão referidos às duas faces da realidade da doença e do
estar doente, isto é, uma problemática psicopatológica (dialética e não ideológica) e uma
problemática de exclusão, de estigmatização social.‖ (AMARANTE, 1994, p. 71)
84
de redução e restrição de si que não é sempre reversível
(AMARANTE, 1996, p. 85). (HEIDRICH, 2007, p. 63)

Neste sentido,

Para os italianos, o mal obscuro da psiquiatria estaria em haver


separado um objeto científico (a doença) da ‗existência global
complexa e concreta dos pacientes do corpo social‘. Sobre tal
separação se construiu um conjunto de aparatos científicos,
administrativos, legislativos, referidos à doença (ROTELLI,
LEONARDIS e DE MAURI, 2001). O manicômio é apenas uma parte
desse aparato. Portanto, não basta atuar somente sobre ele. É
preciso desmontar todo o aparato que é a instituição a ser negada
(ROTELLI, 2001).(p. 62)

Nas palavras de Basaglia (s/d, p. 36-37):

No campo real da práxis, a relação chamada terapêutica emite


algumas forças que – bem consideradas – não têm nada em comum
com a ‗doença‘, mas que faze um papel digno de levar-se em conta.
Referimo-nos aqui, em particular, à relação de poder que se instaura
entre o médico e o doente, e na qual o diagnóstico é mero acidente,
uma ocasião para que se crie um jogo de poder-regressão que
resultará determinante nas formas de desenvolvimento da doença
em si mesmo. Trata-se tanto do ‗poder institucional‘ quase absoluto,
do qual o psiquiatra está investido no quadro do asilo de loucos,
quanto se trata de um poder chamado ‗terapêutico‘, ‗técnico‘, ‗divino‘
ou ‗fantasmagórico‘; o psiquiatra goza, com relação ao doente, de
uma situação privilegiada que inibe em si mesma a reciprocidade do
encontro, e, portanto, a possibilidade de uma relação real. Além
disso, o doente, enquanto doente mental, se acomodará tanto mais
facilmente a esse tipo de relação objetivada e ‗não problemática‘,
quanto mais deseje escapar dos problemas de uma realidade que
não sabe enfrentar. Sua objetivação e sua desresponsabilização se
acharão deste modo avalizadas, em suas relações com a psiquiatria,
por um tipo de aproximação que só servirá para alimentar e
cristalizar sua regressão... O psiquiatra dispõe de um poder que, até
agora, não lhe permitiu compreende muita coisa do doente mental e
de sua doença, mas serviu do mesmo poder, por outro lado, para
defender-se deles, utilizando – como arma principal – a classificação
das síndromes e as esquematizações psicopatológicas... Por isso, o
diagnóstico psiquiátrico revestiu-se inevitavelmente da significação
de um juízo de valor, e, portanto, de um rótulo. (...) Porém isto
significa que o doente foi isolado e posto entre parênteses pela
psiquiatria, com o fim de consagrá-lo à definição abstrata da doença,
à codificação das formas e à classificação dos sintomas, sem tomar
as eventuais possibilidades desmentidas por parte de uma realidade
que, deste modo, era negada.

85
No filme ―Bicho de Sete Cabeças‖ (2000), de Laís Bodanzky, uma adaptação
do livro autobiográfico de Austrogésilo Carrano, ―Canto dos Malditos‖, uma canção
original de Arnaldo Antunes ilustra bem a paisagem do adoecimento decorrente da
violência institucional e da potência do poder institucional:

O BURACO NO ESPELHO – ARNALDO ANTUNES


o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso


mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede


a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira


quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado


agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

Torna-se inevitável a substituição dos muros do Hospital por novos espaços e


formas de lidar com a loucura. Para Barros (1994, p. 106 apud JORGE, 1994, p. 29-
30):

A complexidade de situações ou da assistência sociopsiquiátrica


desenvolvida faz dos CSM [Centro de Saúde Mental] triestinos
estruturas que, segundo o momento e a necessidade de cada
pessoa, adquirem um caráter de serviço médico-ambulatorial,
enfermaria de breve permanência, centro de permanência diurna
(hospital-dia) ou noturna (hospital-noite), serviço sócio-assistencial
(alimentação, subsídios, administração e facilitação econômica),
ponto de partida para visitas ou intervenções domiciliares, reinserção
no trabalho e lugar para organização de atividades sociossanitárias,
culturais e esportivas do bairro. É ainda o lugar no qual se trabalha a

86
crise e onde são geralmente realizados os tratamentos sanitários
obrigatórios.

Assim, JORGE (1994, p. 30), interpretando BARROS (1994), afirma que

O processo de desinstitucionalização não reside nos dias atuais, na


remoção dos sintomas, mas na produção de possibilidades de vida,
dentro de um modelo cultural que não seja mais a custódia ou a
tutela, mas a construção de projetos que aumentem as
possibilidades e probabilidades de vida, entendendo assim a terapia
como rearlargamento dos espaços de liberdade últimos do sujeito
humano no sentido de sua emancipação, aumentando os estatutos
de liberdade a sua volta.

E ainda conclui:

Toda busca de transformação nos modelos psiquiátricos não devem


se limitar simplesmente a abolição das estruturas manicomiais, mas
a construção de novas formas de possibilidades e de inventividade,
onde os atores envolvidos tenham participação ativa em todos os
processos de mudanças. (ibid., p. 32)

Para Basaglia, (s/d, p. 34),

Ou nos decidimos a olhar o doente cara a cara sem tentar projetar


sobre ele o mal que não queremos para nós, e o consideramos como
um problema que, ao tomar parte de nossa realidade, não pode ser
evitado, ou nos dispomos – com o mesmo esforço que a sociedade –
a mitigar nossa angústia levantando uma nova barreira para
restabelecer a distância, apenas preenchida, entre eles e nós, e
construímos de repente um soberbo hospital.

Fundamental ressaltar que o projeto da desinstitucionalização ganha força


nos espaços de disputa política pelo engajamento de Franco Basaglia na militância
junto ao Partido Socialista Italiano. Marxista, compreendia os manicômios como o
destino daqueles incapazes de comporem o exército industrial de reserva e,
portanto, incapazes de produzir valor para a sociedade capitalista. Sem negar a
dimensão patológica do sofrimento psíquico, mas dando a devida importância ao
papel dos traumas e estigmas sociais e dos determinantes sociais da saúde na
conformação dos comportamentos, compreendia que se a classe trabalhadora, por

87
princípio, encontra-se em estado de violentação e exploração. Inevitavelmente a
demanda revolucionária dos trabalhadores perpassa os manicômios.

Para Basaglia, não haveria revolução que não liberta-se trabalhadores


enclausurados nos manicômios. Em contrapartida, não poderia haver uma
verdadeira transformação social ampla para a desconstrução da lógica manicomial
sem a superação do modo de produção capitalista, em sua gênese produtor da
anulação da diferença.

Já no ano de 1973, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) decide por


credenciar o Serviço Psiquiátrico de Trieste como a principal referência mundial para
reformulação dos serviços de assistência em saúde mental.

No ano de 1978, é aprovada na Itália a Lei 180 (Lei da Reforma Psiquiátrica


Italiana, popularmente conhecida como "Lei Basaglia"), que entre as diversas
propostas estabelecia o fechamento gradual dos espaços asilares29 e sua
substituição por serviços psiquiátricos extra-hospitalares30.

Será este modelo da Reforma Psiquiátrica Italiana o principal arcabouço


teórico-prático da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB).

29
Na redação original constam ―hospitais psiquiátricos‖, a saber: ―É absolutamente proibido construir
novos hospitais psiquiátricos, utilizar os já existentes como divisões psiquiátricas especializadas de
hospitais gerais, instituir nos hospitais gerais seções psiquiátricas e utilizar como tais seções
neurológicas ou neuropsiquiátricas‖ (Lei 180/1978, Art. 7, §7)
30
―As intervenções de prevenção, tratamento e reabilitação relativas às doenças mentais são
realizadas normalmente pelos serviços psiquiátricos extra-hospitalares‖ (Lei 180/1978, Art. 6, §1)
88
ENXERTOS Nª 2: “PEQUENOS CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS – O PARTIDO OU
A DESCOBERTA DA POLÍTICA”
(Saudades do Futuro, Armando Corrêa da Silva, 1993)

Para Martin, Thais e Maira

A viagem

Era um jovem radical. Talvez um democrata, sem saber. Isso foi lá pelos
tempos dos anos 50 e era bastante jovem para não ter medo de nada.

Amava a vida e a saúde perfeita ajudava. Embora tivesse a cuca fresca, tinha
algumas tendências para as artes e a literatura, mas não havia ainda definido sua
vida.

Nessa época o país vivia um estranho otimismo. Não que as desgraças


fossem menores do que hoje, mas o povo não queria saber de tristezas. Até a fossa
era algo leve e não muito consequente.

Estava recém-casado e trabalhava à noite como pianista de um bar. A mulher


havia montado um jardim da infância, e seus horários eram então divergentes. Mas,
viviam bem.

Nessa época era um romântico-realista, se isso é possível. Ao piano tocava


no estilo que depois se convencionou chamar de estilo Dick Farney.

Mas, gostava também de jazz autêntico e diferenciava-o da música comercial,


que ridicularizava. Isso talvez lhe viesse do pai que não gostava dos comerciantes:
―São todos uns ladrões!‖, dizia.

De noite, o bar, de dia, o jardim da infância, essa era a rotina que vivia,
surpreendendo-se sempre com o inusitado que achava nas coisas e nas pessoas.

Uma mente criativa, um pouco sentimental, uma grande capacidade de amar,


a sensação de poder fazer grandes coisas.

Enfim, da geração que havia lutado desde cedo contra a ditadura do Estado
Novo e o fascismo.

89
Foi por isso que quase se engaja na campanha que Carlos Lacerda movia
contra Getúlio Vargas. Sua mulher foi que o advertiu, dizendo-lhe que Lacerda não
era um homem a ser levado a sério.

Tão pronto quanto decidira, tranquilizou-se e desistiu do projeto de ir ao Rio


de Janeiro juntar-se a Carlos Lacerda, nos apelos que este fazia aos democratas.

Era isso, essa disponibilidade para a luta.

Esses sentimentos contraditórios foram que o levaram a tomar uma decisão,


em agosto de 1955, logo depois da morte de Getúlio.

O incidente foi banal. Uma briga com a mulher.

Chegara do serviço à noite, bem tarde. Deveriam ser seis horas da manhã.

A mulher que iria levantar-se às sete, acordou e disse-lhe asperamente


alguma coisa.

Irritou-se, porque não fizera barulho e foi para a sala ampla do apartamento
de Pinheiros.

Não pensou muito. Resolver ir embora.

Trocou a roupa, vestiu uma calça jeans e uma camisa esporte, deixou o
dinheiro que possuía no bolso da calça que tirara, separando apenas um pouco para
si.

Tomou um táxi na Teodoro Sampaio e alguns minutos depois estava na


Estação da Luz, de onde tomou um trem para Campinas.

Era um tempo em que uma pessoa podia fazer essas coisas sem chamar a
atenção.

No trajeto ia curtindo sua decepção com o casamento e lembra-se que jogou


a aliança fora, pela janela.

Em Campinas, almoçou.

Dali, tomou um outro trem para Barretos, onde dormiu.

No dia seguinte seguiu viagem numa jardineira para Uberaba.

90
Estava um pouco deslumbrado com o Brasil que ia descobrindo.

Em Uberaba comprou um bilhete para Goiânia, de primeira classe, mas, como


esta estivesse vazia, passou para a segunda classe onde havia gente.

O trem rodou o dia inteiro.

Em Leopoldo de Bulhões, perto de Goiânia, dormiu numa pensão e, no dia


seguinte, tomou uma carona de caminhão para a capital de Goiás, onde chegou,
num total de três dias de viagem.

Estava num outro Brasil, numa época em que a construção de Brasília ainda
não se iniciara e o centro-oeste era parcialmente ignorado pelo eixo Rio-São Paulo.

Não tinha ideia do que fazer.

Como o dinheiro estivesse acabando, resolveu ficar em Goiânia algum tempo,


trabalhando.

Goiânia

Goiânia, capital do Estado de Goiás, era uma cidade pequena, bem arejada,
com avenidas amplas e bem agradável. Podia-se andar à noite, nas duas avenidas
principais que se cruzavam ao centro – quase ausentes de trânsito – passeando, e
em pouco tempo percorria-se todo o trajeto.

É verdade que havia duas cidades: a dos ricos e a dos pobres. Mas, os
antagonismos não eram muito fortes, porque não era uma cidade industrial, mas
administrativa.

Dormiu numa pensão precária e no dia seguinte acordou cedo e foi para o
centro da cidade. Comprou um jornal local para procurar emprego, mas não havia
nenhum anúncio oferecendo colocação.

Despertou-lhe a atenção um anúncio de uma rádio local e o próprio endereço


do local.

91
Foi até o jornal, mas o jornalista que o recebeu disse-lhe que não havia
emprego na cidade. O que você sabe fazer? Perguntou. Sei tocar piano, disse.
Então, o jornalista deu-lhe o endereço de um músico.

Fez um teste, à noite, numa churrascaria e foi aprovado. Tocaria no conjunto


de Geraldo Amaral, trabalhando apenas aos domingos, nos bailes do Jockey Club
de Goiânia.

Um mês depois mudou-se para outra pensão, melhor, próxima do centro.

Durante um ano curtiu fossa. Bebia muito, mas não continuadamente. Aos
poucos o tempo foi consertando as coisas e começou a interessar-se pela vida local.

Começou a estudar música no Conservatório Musica de Goiânia.

Ao mesmo tempo começou a frequentar uma livraria no centro.

Era a retomada de suas preocupações.

O novo presidente da República, Juscelino Kubitschek, havia resolvido


construir uma nova capital no centro geográfico do país.

Goiânia resolveu unir suas forças políticas em apoio à iniciativa. Era o


começo do desenvolvimento.

A cidade despertava suas forças políticas.

Até então desconhecera por completo a política revolucionária. Seu primeiro


contato com o marxismo deu-se através da leitura de Arte e Vida Social de
Plekhânov.

Foi uma revelação! O que lia coincidia com sua vida! Era como se nunca
tivesse pensado de outra maneira!

Conheceu muitas pessoas que participavam da luta política e logo começou a


escrever para um jornal intelectual local. Escrevia sobre música e produziu também
algumas poesias.

Em 1957 sua família descobriu-lhe o endereço.

O cursinho e a Faculdade
92
Havia se identificado com a luta dos comunistas e vinha a São Paulo à
procura do partido.

Ao chegar teve uma grande surpresa: havia um grande número de partidos de


esquerda, legais e ilegais, e estava começando a surgir um movimento de esquerda
revolucionário!

No cursinho para a Faculdade conheceu Goro, que tentou leva-lo para o


Partido Comunista Brasileiro.

Não quis. Vinculou-se à Liga Socialista Independente, uma organização à


esquerda do PCB.

Como sua luta era sempre pela via intelectual não se sentia à vontade na
organização, que era muito pequena e limitada.

Tempos depois participou da fundação da POLOP, organização que


pretendeu unir forças revolucionárias à margem do PCB.

Enfim, as coisas não eram simples como em Goiás, porque a sociedade


paulistana já era nessa época bastante complexa.

Já na Faculdade, aproximou-se dos comunistas do PCB mas continuou na


POLOP.

Começou a ler muito (desde o cursinho) e tomou contato com a literatura


marxista-leninista e as leituras acadêmicas.

Em 1962 criticou a POLOP como um grupo pequeno-burguês e ingressou no


PCB.

Era o início da descoberta da política.

No PCB descobriu uma vida partidária intensa, num tempo em que esse
partido vinha de uma cisão interna por motivo da morte de Stalin. Parte dele tinha se
organizado como Partido Comunista do Brasil, o PC do B.

Descobriu, então, que a luta não era fácil.

93
Em 1963 foi Secretário da Base da Filosofia (Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da Universidade de São Paulo) e teve uma intensa atuação política na luta
pelas reformas de base.

O ambiente era intelectual e revolucionário.

Tinha contatos com a UEE, o DCE, o Sindicato dos Metalúrgicos de São


Paulo, com a Base da Prefeitura de São Paulo, do funcionalismo, e outras
organizações políticas.

Sua cabeça formou-se nesse ambiente de fins dos anos 50 e começo da


década de 60.

Em 64, com o golpe de Estado, desligou-se do PCB em sua forma legal e


transitou durante algum tempo na ilegalidade.

Os tempos foram difíceis.

Em 1966, por motivo de uma crise de saúde mental, teve que abandonar a
luta política.

Em 1969 ingressou na carreira acadêmica disposto a retomar seus estudos.

Em 1974 votou no MDB dando início a uma fase mais amadurecida de


trabalho e de luta.

A política

Não era mais um jovem radical.

Compreendera que a revolução não se faz sem que as pessoas


compreendam os objetivos e resolvam participar dela.

Antes de tudo, o revolucionário não deve ter pressa. Essa é uma luta de
milhões de pessoas e o partido, como vanguarda, é apenas uma orientação a ser
seguida, através do debate o mais aberto possível.

Mas, aprendera muito e, mais importante, não fora possuído em nenhum


momento de qualquer sentimento anticomunista.

Fora uma prova de fogo!


94
CAPITULO 2 – TERRITÓRIOS EM LOUCURA – A REFORMA PSIQUIÁTRICA
BRASILEIRA

Torna-se necessário que o homem seja verdadeiramente


considerado como outra coisa além de uma casa, de um trator ou de
uma estatística. Se o homem, o homem em sociedade, constitui o
centro da Geografia Humana, deve aparecer de maneira total, com
seus modos de vida e com seus modos de pensar, que afinal se
confundem [modos de ser]. A limitada tarefa dos geógrafos deve
consistir em explicar a parte dos fatores geográficos na formação e
na evolução dos modos de pensar, das influências que eles exercem
sobre os modos de vida e o peso que estes representam sobre
aqueles. Dar mais atenção a estas pesquisas significará enriquecer a
contribuição que a Geografia Humana pode ser capaz de trazer ao
conhecimento do social.
MONBEIG, Pirre (1957)

Concomitantemente às inflexões acerca do paradigma psiquiátrico, como


vimos no capítulo anterior, na América Latina, ao longo deste período que concerne
aos movimentos de distensão política e redemocratização das ditaduras ao longo
dos anos 70 e 80 e fim do mundo bipolarizado, a mobilização social e os
movimentos sociais ganharam um folego importante e vinham progredindo nas lutas
e avançando na conquista de direitos. Conforme nos aponta Rodrigo Valverde
(2004,p. 120):

A partir dos anos 80 [no Brasil], os territórios passaram a ser


aplicados para representar as atividades de movimentos sociais
urbanos. Com o inchamento das cidades brasileiras na década
anterior, aumentaram também os problemas relativos à
superpopulação, a falta de justiça social, a baixa qualidade de vida, a
violência e a desigualdade econômica. O crescimento caótico que
derivou dessa soma de fatores trouxe uma pluralidade de atores e
cenários para o espaço público. Nesse sentido, o discurso sobre o
território passa a envolver novas possibilidades ao se tornar um
elemento crucial das reivindicações nas cidades. (...) Para isso, foi
necessário realizar uma rediscussão da validade do estudo territorial.
As suas bases teóricas tiveram de ser renovadas para que esse
conceito pudesse realmente realizar um estudo mais rico das
cidades. (...) o território ganhou um sentido diferente, mais amplo,
para abordar uma infinidade de questões pertinentes ao controle
físico ou simbólico de determinada área. (...) [Assim,] os novos
estudos exigiram a compreensão de que os fenômenos da
95
organização sócio-espacial da política eram muito mais ricos do que
a mera associação ao território nacional. As novas interpretações do
território permitem uma visualização da cidade em disputa (...).

Era necessário e urgente a rediscussão e o retorno ao debate acerca do


conceito de território:

Dissociada dos limites da dicotomia nos circuitos do comunismo e do


capitalismo, a competição pelo território ganhou novas formas e
novos sentidos. Na esfera política, tal competição no território, pelo
território e através do território, abre caminho para uma nova
interpretação das representações sociais na cidade. (...) Aliás, a
partir de um olhar histórico, é justamente nos momentos de
crescimento excessivo da percepção da competição e de maior
fraqueza da capacidade política de negociação, que o discurso sobre
o território ganha maior dimensão. (Ibid., p. 123)

Quando falamos da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB), cabe destacar, não


nos atemos a atuação de um ou vários movimentos sociais específicos, mas a um
processo histórico complexo que envolve denúncias, invervenções, experiências,
propostas e projetos, continuidades e descontinuidades, de negação de um modelo
assistencial ―hospitalocêntrico-medicalizador‖, centrado em instituições de sequestro
(aqui, espaços silares) – onde as atitudes, práticas institucionais e as estruturas de
cuidado são (re)produzidas de acordo com o paradigma psiquiátrico, apoiado nos
pressupostos médico-curativo (diagnóstico-intervenção-cura) da biomedicina e
psicologia clínica, de controle e na anulação da diferença.

Em contrapartida, convergiu a ideia de outro paradigma de cuidado: o


paradigma da atenção psicossocial. Nesta nova visão, as atitudes, práticas
institucionais e as estruturas de cuidado devem ser configuradas a partir do
encontro, do diálogo, da escuta, do compartilhamento de responsabilidades e do
compromisso ético-político com o usuário.

Trata-se de deslocar o centro da prática institucional do médico para uma


equipe multiprofissional, encarregada da construção de vínculos e de um projeto
individual de terapêutica adequada a ―demanda do usuário‖. O processo terapêutico,
então, deve estar ancorado na restituição aos sujeitos em condição de sofrimento do
protagonismo em sua própria vida, no direito à diferença, em busca da produção de
saúde.

96
Nesta possibilidade de olhar,

A atitude de cuidado pressupõe uma postura ativa que permita


reconhecer o outro na sua liberdade, na sua dignidade e
singularidade. Enfatiza-se, portanto, que esta relação se estabelece
a partir de um contexto, é construída processualmente com
convivência (intensa ou não), deve estar articulada às questões
cotidianas e deve ser dinâmica. (BALLARIN, CARVALHO;
FERIGATO, 2009, p. 447)

Neste novo paradigma, o vínculo é compreendido como recurso e integrante


da terapêutica – ―É uma atitude de implicação, que no caso dos serviços de saúde,
evidencia-se através do fortalecimento dos laços entre o sujeito que busca o
atendimento, o serviço e o território.‖ (ibid.).

É em meio a este campo de tensão em relação ao paradigma psiquiátrico e à


todo o aparato manicomial que lhe é concernente, que a proposta e o projeto da
Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) ganha corpo – fortemente influenciada pela
experiência da Psiquiatria Democrática Italiana e a noção de desinstitucionalização.

Refletir sobre o processo da Reforma Psiquiátrica Brasileira significa nos


reportar primeiramente à década de 70 e a Ditadura Militar, onde germinam os
movimentos sociais na área de saúde, em resposta à repressão política e a
mercantilização e deterioração drástica dos hospitais e serviços de saúde e
assistência públicos, desde a criação do Instituto Nacional de Previdêncida Social
(INPS) em 1966.

A criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) vai promover


mudanças significativas no sistema de prestação dos serviços de previdência e
assistência social ao ampliar a cobertura a toda a classe trabalhadora (substituindo
os Institutos de Aposentadorias e Pensões – IAPs31), contudo, seu modelo
privatizante pautado principalmente na contratação de leitos em hospitais privados
vai ser alvo de críticas desde sua fundação (BRAVO, 1996).

31
Os IAPs surgem no contexto do centralismo do Governo Vargas, na década de 30, de tomada dos
sindicatos, sendo substitutivos das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs) anteriormente
organizadas pelas empresas. Com o surgimento dos IAPs, as contribuições viriam a se reportar a
autarquia em nível nacional, centralizadas no governo federal, e sendo organizadas conforme as
diferentes categorias profissionais, não mais por empresas.
97
Para Amarante (1996), no âmbito da Saúde Mental, este período nos remonta
às denúncias dos trabalhadores da Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)
das condições desumanas dos Hospitais Psiquiátricos do país, questionando
publicamente a política e o projeto de Saúde Mental até então empreitado pelo
Estado. A partir destas denúncias, articula-se o Movimento dos Trabalhadores em
Saúde Mental (MTSM), vindo a se consolidar como espaço privilegiado de denúncia,
luta e debate da transformação do modelo de assistência psiquiátrica, envolvendo
diversos atores do setor (entidades de classe, profissionais de saúde mental e
movimentos sociais comprometidos com esta causa). Conjuntamente, no âmbito
mais geral, nasce o Movimento de Reforma Sanitária, que segue neste período
avançando articulação de pautas e nas críticas e do modelo de saúde privatizante e
pauperizado implementado (SARACENO, 1999).

Na década de 80, com a redemocratização do país e, consequentemente, ao


aumento da participação de setores representativos da sociedade na formulação de
políticas públicas, iremos assistir a ebulição e avanço nas bandeiras dos vários
movimentos sociais na luta por direitos. Soma-se, a crise institucional e financeira da
Previdência Social neste mesmo período, que leva o Estado a adotar medidas
racionalizantes e disciplinantes em relação ao setor privado, e, ao mesmo tempo,
adotar medidas para a reorganização do setor público.

Reportamo-nos ao Movimento de Reforma Sanitária (MRS), que, agregando


todo o campo da saúde, numa conjuntura de mercantilização e crise da saúde, se
dirigirá à construção de uma nova política de saúde efetivamente democrática,
pautando o lema ―Saúde: direito de todos e um dever do Estado‖ – que,
posteriormente, será a base dos princípios do Sistema Único de Saúde, e
fundamento das suas duas principais diretrizes básicas: auniversalidade do acesso e
integralidade das ações (BRAVO, 1996; PAIM, 2008).

Para Almeida, Castro e Vieira (1998, p. XIV),

Várias foram as propostas de implantação de uma rede de serviços


voltada para a atenção primária à saúde, com hierarquização,
descentralização e universalização, iniciando-se já a partir do
Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Saneamento

98
(PIASS), em 1976. Em 1980, foi criado o Programa Nacional de
Serviços Básicos de Saúde (PREV -SAÚDE) – que, na realidade,
nunca saiu do papel –, logo seguido pelo plano do Conselho
Nacional de Administração da Saúde Previdenciária (CONASP), em
1982, a partir do qual foi implementada a política de Ações
Integradas de Saúde (AIS), em 1983. Estas constituíram uma
estratégia de extrema importância para o processo de
descentralização da saúde.

No outro front, das disputas políticas (dos debates epistêmicos e técnico-


assistenciais), a necessidade de um paradigma de saúde que reconhecesse os
processos de produção das doenças inerentes às formas de (re)produção da própria
sociedade32, impulsiona o deslocamento da interpretação do território no campo das
políticas de saúde, de suas referências tradicionais (fisiografia, extensão, fronteira e
soberania) para um novo patamar de debate.

De acordo com Czeresnia e Ribeiro (2000), Santos (2009), Monken e


Barcellos (2005) e Faria e Bertolozzi (2009), este movimento é reflexo da amplitude
das discussões e trabalhos do geógrafo Milton Santos, que extravasaram o campo
disciplinar da Geografia.

A influência do autor nas pesquisas em saúde pública pode ser observada

Por dois aspectos principais, relacionados com as novas questões


sociais e científicas que emergiram a partir da década de 1970. O
primeiro pode ser caracterizado pela fragilidade, que se revela numa
certa incapacidade da ciência epidemiológica no entendimento do
processo saúde-doença no contexto de profundas mudanças sociais
do período. (...) O segundo, (...) é a renovação do pensamento
geográfico nesse mesmo período. Essa renovação, que se faz como
tentativa de superar uma visão de espaço meramente físico, será
incorporada pela Epidemiologia. (...) [Onde,] através da categoria
espaço geográfico, a Epidemiologia pôde superar uma visão não
histórica do processo biológico e ao mesmo tempo entender os
fatores econômicos, sociais, políticos e culturais responsáveis pela
produção das doenças endêmicas e epidêmicas (FARIA E
BERTOLOZZI, 2009, p. 33).

Em resumo, seu pensamento impactou na emergência na ―Nova


Epistemologia‖ e na ―Saúde Coletiva‖ da preocupação de entender o processo
32
―Em seu sentido mais abrangente, a saúde é a resultante das condições de alimentação, habitação,
educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse de
terra e acesso a serviços de saúde. É assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização
social da produção, as quaispodem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida.‖
(CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 1987, p.382)
99
saúde-doença como um processo eminentemente social, espacial e temporalmente
determinado, obrigando à análise das condições de ocorrência das mesmas – as
―determinações sociais da doença‖. A operacionalização desta preocupação se daria
por via de uma análise partido do território usado.

Para Milton Santos (SANTOS; SILVEIRA, 2001; SANTOS, 1994) não é o


território em si e per si (compreendido como base, materialidade objetiva, necessária
da vida social e recorte administrativo formal da ação estatal, de enquadramento na
escala nacional) que importa à análise geográfica.

É o ―uso social‖ que qualifica o espaço geográfico, importando, então, o


territorio na dimensão de seu ―uso‖ – aquela que dá significado à configuração
territorial (sistemas naturais, sistemas de engenharia etc.) por via das ações
realizadas sobre esta.

Na busca de uma abordagem geográfica integradora, que abarcasse a


totalidade dos processos sociais em seu movimento (―totalizadora‖), o território
usado operaria como um instrumento analítico para clarificação da relação
sociedade-espaço, não sendo possível compreende-lo ignorando as relações
econômicas, sociais e políticas que influenciam e operam nos diferentes lugares.

Território usado como, explicitamente, sinônimo (SANTOS; SILVEIRA, 2001)


ou ―projeção‖ (MORAES, 2013) da relação sociedade-espaço:

O território usado constitui-se como um todo complexo onde se tece


uma trama de relações complementares e conflitantes. Daí o vigor do
conceito, convidando a pensar processualmente as relações
estabelecidas entre o lugar, a formação socioespacial e o mundo
(SANTOS, 2000, p. 105).

Ainda:

Foi por isso que propusemos considerar o espaço geográfico não


como sinônimo de território, mas como território usado; e este é tanto
o resultado do processo histórico quanto a base material e social das
novas ações humanas. Tal ponto de vista permite uma consideração
abrangente da totalidade das causas e dos efeitos do processo
socioterritorial (SANTOS, 2000, p. 104).

100
Assim, ―o território usado, visto como uma totalidade é um campo privilegiado
para a análise, na medida em que, de um lado, nos revela a estrutura global da
sociedade e, de outro lado, a própria complexidade do seu uso.‖ (ibid., p. 120).

Sob este viés, um olhar sobre o território deveria clarificar não só as ações
presentes operantes (em suas multiplas dimensões e escalas), mas também por
revelar as ações passadas, ―marcadas‖ nos objetos espaciais – a rugosidade dos
espaços (SANTOS, 1996), permitindo inclusive estabelecer as relações entre
territórios em diferentes escalas:

Assim, é possível transitar entre as escalas territoriais locais (acesso


aos serviços, qualidade de vida, moradia, etc.) e sua relação com os
mecanismos territoriais globais (políticas públicas, infraestrutura,
economia, etc.) e, a partir daí, estabelecer a relação com os
processos sociais como saúde, educação, renda, etc. Essa relação
dialética confere especificidade para cada nicho territorial, onde a
relação espaço e processo saúde-doença podem ser entendidos.
(FARIA; BERTOLOZZI, 2009, p. 37-38)

Cabe ressaltar que, tomando o espaço geográfico como um ―campo de


possibilidades‖, o autor chama atenção para a necessidade de distinguirmos entre
aquele território de todos (enquanto ―abrigo‖), daquele de interesse das empresas:

Para os atores hegemônicos o território usado é um recurso, garantia


da realização de seus interesses particulares. Desse modo, o
rebatimento de suas ações conduz a uma constante adaptação de
seu uso, com adição de uma materialidade funcional ao exercício das
atividades exógenas ao lugar, aprofundando a divisão social e
territorial do trabalho, mediante a seletividade dos investimentos
econômicos que gera um uso corporativo do território. Por outro lado,
as situações resultantes nos possibilitam, a cada momento, entender
que se faz mister considerar o comportamento de todos os homens,
instituições, capitais e firmas. Os distintos atores não possuem o
mesmo poder de comando levando a uma multiplicidade de ações,
fruto do convívio dos atores hegemônicos com os hegemonizados.
Dessa combinação temos o arranjo singular dos lugares. Os atores
hegemonizados têm o território como um abrigo, buscando
constantemente se adaptar ao meio geográfico local, ao mesmo
tempo que recriam estratégias que garantam sua sobrevivência nos
lugares. É neste jogo dialético que podemos recuperar a totalidade
(SANTOS, 2000, p. 120)

Importante destacar, tal qual Haesbaert (2007), que este entendimento


implica no reconhecimento de duas formas distintas de produção do território – do
101
território como recurso às empresas, território como norma; do território construído
pelo habitar comum, território normado (do Estado nação): ―os dominantes
privilegiando seu caráter funcional e mercantil, os dominados valorizando-o mais
enquanto garantia de sua sobrevivência cotidiana.‖.

Desta forma, o autor não trata o território exclusivamente como continuidade e


contiguidade espacial, de limites claramente identificáveis como na lógica dos
Estados-nação (―territórios-zona‖): ―o território, hoje, pode ser formado de lugares
contíguos e de lugares em rede‖ (SANTOS, 1994, p. 16)33.

Conforma analisa Haesbaert (2004, p. 60):

O amálgama territorial, que no passado era dado pela ‗energia


oriunda dos próprios processos naturais‘, ao longo do tempo vai
gradativamente cedendo espaço à informação, ‗hoje o verdadeiro
instrumento de união entre as diversas partes do território‘. O
território reúne informações locais e extremamente definidas,
vinculadas a um conteúdo técnico e a um conteúdo político, uma
dialética que ‗se afirma mediante um controle ‗local‘ da técnica da
produção e um controle remoto da parcela política da produção‘
(SANTOS, 1994, p. 17). O comando ‗local‘ do território depende de
sua densidade ténica e/ou funcional-informacional (p. 18), enquanto
o ‗controle distante‘, global, a ‗escala da política‘, ao contrário do que
acontecia ‗antes do enfraquecimento do Estado territorial‘ (p. 19), é
completamente dissociado, o que acirra os conflitos entre ‗um espaço
local, vivido por todos os vizinhos e um espaço global‘ racionalizador
e em rede. Santos distingue assim um ‗território de todos‘, também
denominado, retomando François Perroux, ‗espaço banal‘,
‗frequentemente contido nos limites do trabalho de todos‘, e um
espaço das redes, vinculado às ‗formas e normas a serviço de
alguns34.
Ao diferenciar a ordem global (das redes, cujo centro e a sede das ações não
necessariamente são concordantes), da ordem local (do espaço banal), o autor
aponta o processo de desterritorialização produzida pela primeira e da ―irredutível‖
reterritorialização operada pela segunda. Para Santos, a noção de
desterritorialização ―é, frequentemente, uma outra palavra para significar

33
Sobre a relação entre ―territórios-zona‖ e ―territórios-rede‖, C.f. HAESBAERT, Rogério. O mito da
desterritorialização: do ―fim dos território‖ à multiterritorialidade. Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro,
2004.
34
―Esta distinção, algo problemático, deve ser relativizadana medida em que ele afirma também que
‗são os mesmos lugares que formam redes e que formam o espaço banal. Sâo os mesmos lugares,
os mesmos pontos, mas contendo simultaneamente funcionalizações diferentes, quiçá divergentes ou
opostas (SANTOS, 1994, p. 16)‖ (HAESBAERT, 2004, p. 60)
102
estranhamento, que é, também, desculturização‖ (SANTOS, 1996, p. 272 apud
HAESBAERT, 2004, p. 29). Porém, alerta para que a des-re-territorialização nunca
seja entendida exclusivamente na sua dimensão político-cultural, posto que é
indissosiavel dos processos econômicos, ―especialmente a dinâmica capitalista do
‗meio técnico-científico-informacional35‘‖ (HAESBAERT, 2004, p. 61).

O território emerge então a partir da noção de espaço geográfico um híbrido –


―híbrido de sociedade e natureza, entre política, economia e cultura, e entre
materialidade e ‗idealidade‘, numa complexa interação espaço-tempo (...) na
indissociação entre movimento e (relativa) instabilidade‖ (p. 79). E, desta forma,
―pode ser concebido a partir da imbrigação de múltiplas relações de poder, do poder
mais material das relações econômico-políticas ao poder mais simbólico das
relações de ordem mais estritamente culturais‖ (Idem).

Assim, o conceito de território aparece como mediação (lócus da ordem global


e da ordem local; dos processos de des-re-territorialização; das multiplas relações
de poder) na relação sociedade-espaço, onde o substrato físico (objetos técnicos, o
território em si) é componente fundamental, participando de forma relacional ―tanto
como ‗ator‘ quanto como ‗agido‘ ou ‗objeto da ação‘‖ (ibid., p. 59).

Futuramente, como base da ―Nova Saúde Pública‖, as acepções miltonias de


espaço geográfico e território servirão de apoio à contestação do cenário da
prevenção em saúde, da Epistemologia Clínica; e o surgimento da noção de
promoção de saúde.

Segundo Guimarães, Pickernhayn e Lima (2014), o aspecto da prevenção,


objetiva evitar o surgimento da doença, baseia-se da concepção de risco e
probabilidade do adoecimento, sendo fortemente marcadas por prescrições de
controle da vida e normas de comportamento aos indivíduos. Consideram-se os
comportamentos individuais as principais causas da ausência de saúde, sendo a
falta de saúde associada à ―falha moral e relacionada a escolhas pessoais‖. As
medidas e intervenções, portanto, adquirem forte teor autoritário, dirigidas
35
O meio técnico-científico-informacional, representa a atual etapa de globalização na qual se
encontra o sistema capitalista de produção e transformação do espaço geográfico, sendo
caracterizado pela aplicação da ciência ao meio técnico, mas entendendo que neste novo momento o
meio técnico é extensivamente impregnado de informação, transmitindo e acumulando informação.
Desta forma a requalificação e transformação técnica dos espaços propaga as ideologias e interesses
dos atores hegemônicos da sociedade, incorporando as tendências mundiais.
103
exclusivamente à adequação do indivíduo, sem necessariamente considerar o
contexto social no qual este se insere. Quando não há aderencia às orientações
(seja pelo motivo que for), o serviço de saúde é isentado de responsabilidade, visto
que a culpa é do sujeito que ―optou‖ por não cuidar da própria saúde e colocar em
risco a coletividade.

Já a concepção da promoção, ―busca estabelecer o bem-estar (saúde) dos


indivíduos e comunidades‖, tomando como pressuposto que a saúde é uma
produção social e, portanto, deve:

Ser estabelecida como forma de superar as práticas de saúde


centradas na atenção médica individual e curativa, para buscar atuar
sobre os fatores que determinam a saúde. (...) A promoção de saúde
estaria relacionada às condições de vida e trabalho, educação,
cultura, físicas, de lazer e descanso, sendo a principal tarefa que a
Medicina deveria cumprir, vindo, depois, a prevenção da doença, a
recuperação dos enfermos e a reabilitação. (...) O objetivo das ações
de promoção da saúde é mudar os contextos de vida que afetam as
pessoas, não é possível pensar em promoção sem pensar em saúde
ambiental. (...) [Saúde ambiental que] se faz com a transformação do
ambiente para a construção de territórios saudáveis; ambiente, ao
mesmo tempo físico e social, espaço de relações, no qual se
manifesta a vida cotidiana dos indivíduos e das populações; é o lugar
de situações históricas, ambientais, sociais, que promove condições
particulares para a produção da saúde e das doenças. (MONKEN;
BARCELLOS, 2005; apud.GUIMARÃES, PICKERNHAYN; LIMA,
2014, p. 81-82)

Ainda, deve desenvolver competências pessoais e reforçar as ações


comunitárias, trabalhando com ações que

Favoreçam o empoderamento das comunidades e grupos sociais,


com atuação em rede e o emprego de metodologias
interdisciplinares, e participativas, que vizem à interação e a
mobilização social. (...) Na busca de capacitação dos indivíduos e da
comunidade para atuar na melhoria da qualidade de vida e saúde,
desenvolvendo competências pessoais e comunitárias para o
autocuidado (WHO, 2009, apud., p. 82-83).

De acordo com esta compreensão, a saúde representa as condições de vida


dos sujeitos e da coletividade na dimensão de seus territórios usados,
cotidianamente apropriados por ações em contextos espaciais particulares, tornando
necessário considerar não só as condições da vida material destas populações, mas
104
também ―as redes sociais, a produção social e a relação cultural e afetiva com o
lugar‖ (os modos de vida)36.

Abaixo reproduzimos o modelo de determinantes sociais da saúde proposto


por Dahlgren e Whitehead (1991):

Figura 4: Modelo de determinantes sociais da saúde adaptado de Dahlgren e


Whitehead (1991)

O modelo é apresentado de forma concentrica. No nível mais interno, situam-


se os fatores de caráter mais individual. Nos demais níveis mais externos, os fatores
ligados aos comportamentos pessoais e modos de vida; as redes sociais,
comunitárias e de solidariedade; os fatores que expressam às condições de vida; e,
no nível mais externo, os fatores estruturais relacionados às condições econômicas,
culturais, ambientis da sociedade, ―exercendo grande influência sobre todas as
camadas subjacentes‖.

Neste contexto, o Movimento da Reforma Sanitária (MRS) progride bastante


na luta, tendo como marco a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, cujo
relatório final serviria de base para o capítulo sobre Saúde na Constituição Federal

36
Para um maior aprofundamento acerca do tema da promoção da saúde e seus pressupostos,
conferir a publicação das cartas de Alma-Ata (WHO, 1978) e de Otawa (WHO, 1986).
105
de 1988 e que absorve a pauta da ―saúde enquanto direito do cidadão e um dever
do Estado‖. O pressuposto será absorvido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que
será instituído pela Constituição de 1988 e instrumentalizado, posteriormente, pela
Lei Federal 8.808/90, dando base à suas duas principais diretrizes: a universalidade
do acesso e integralidade das ações 37.

Outra transformação importantíssima diz respeito à municipalização, sendo o


serviço de saúde, a partir de então, de responsabilidade dos municípios. Caberia
agora aos gestores municipais organizar e gerir a demanda e as articulações da
rede de cuidados em saúde mental, adequados às diretrizes de regionalização e
distritalização.

Em 1987 é implementado o Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde


(SUDS), como uma consolidação das Ações Integradas de Saúde, adotando como
diretrizes

A universalização e a eqüidade no acesso aos serviços, a


integralidade dos cuidados, a regionalização dos serviços de saúde e
implementação de distritos sanitários, a descentralização das ações
de saúde, o desenvolvimento de instituições colegiadas gestoras e o
desenvolvimento de uma política de recursos humanos (ALMEIDA;
CASTRO; VIEIRA, 1998, p. XIV).

É a Lei Federal 8.808/90 (BRASIL, 1990) quem vai prever os Distritos


Sanitários (ou, Sistemas Locais de Saúde (SILOS)), enquanto competência dos
municípios38.

A criação dos Distritos Sanitários (DIS), contudo, não significa apenas a


regulamentação do processo de descentralização político-administrativa do SUS. Na
esfera técnica-assistencial, implica no redirecionamento das formas de
reorganização e dos conteúdos das ações e serviços de saúde, como a menor
unidade territorial e populacional que congrega um contexto sanitário comum, a ser
planejado e gerido – ou seja, dos determinantes sociais da doença e seus efeitos

37
C.f ESCOREL, Sarah. Reviravolta na saúde: origem e articulação do movimento sanitário. Ed.
Fiocruz, Rio de Janeiro, 1998.
38
― § 2º No nível municipal, o SUS, poderá organizar-se em distritos de forma a integrar e articular
recursos, técnicas e práticas voltadas para a cobertura total das ações de saúde.‖
106
nas condições de saúde e de vida da população concernentes àquele recorte
espacial.

Enquanto dimensão do processo de descentralização, os SILOS/DIS


permitem a aproximação e o aprofundamento da participação social, no sentido de
ampliar os vínculos com a população, visando o conhecimento melhor e continuado
de seus problemas de saúde e determinantes in loco, viabilizando a assistência
integral e continuada dos serviços de saúde.

Conforme Almeida, Castro e Vieira (1998, p. 21), os SILOS/DIS,

São expressões de um processo de regionalização no qual se busca


estabelecer a universalização da cobertura e do acesso da atenção
às populações, com melhoria de seus níveis e condições de saúde,
com o máximo de eficácia e eficiência técnico-operacional, política,
econômica e social.

Especificamente em relação às disputas no campo da saúde mental, a 8ª


Conferência Nacional de Saúde influenciará a organização, em 1987, da I
Conferencia Nacional de Saúde Mental, que solidificou o projeto da Reforma
Psiquiátrica, e o II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, em
Bauru/SP, que deu origem ao Movimento da Luta Antimanicomial, com o lema ―Por
uma sociedade sem manicômios‖.

De forma resumida, podemos situar a institucionalização da Reforma


Psiquiátrica Brasileira em três momentos:

1º Momento – de 1987 a 1991, com: I Conferência Nacional de Saúde Mental;


II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental; criação dos primeiros
CAPS e NAPS; Encaminhamento da Lei Paulo Delgado (plataforma da Reforma
Psiquiátrica); e a Declaração de Caracas (no contexto internacional, mas que vai dar
coesão e consistência institucional e política ao projeto);

2º Momento – de 1992 a 2000, com: II Conferência Nacional de Saúde


Mental; Legitimização e expansão dos modelos CAPS e NAPS;

3º Momento – de 2001 a 2003: Lei 10.216 (Lei da Reforma Psiquiátrica); III


Conferência Nacional de Saúde Mental; ―Programa De Volta Prá Casa‖.

107
Importante clarificar que as experiências de reorganização dos serviços de
saúde mental ocorreram antes mesmo de sua sustentação legal no âmbito juríco.

Já antes do Congresso, já em 1986, surgiu o primeiro CAPS - Professor Luiz


da Rocha Cerqueira, como instrumento de mediação em relação ao serviço
Hospitalar, e a aproximação com a comunidade.

É necessário também citar o episódio da Intervenção no Hospital Anchieta,


em 1989 (Santos/SP), que vai dar origem a cinco Núcleos de Assistência
Psicossocial (NAPS) 24h, centrado em uma nova delimitação clínico-política de
intervenção: o território.

Para Souza, Lima e Pinheiro (2007) e Carvalho (2013), a invenção destes


―modelos experimentais‖ representa o marco inicial do processo de criação de
serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico – portanto, as principais
referências que dão sustentação ao projeto da Reforma Psiquiátrica Brasileira.

No contexto internacional das Lutas, em 1990, temos a proclamação da


Declaração de Caracas pela Conferência Regional para Reestruturação da Atenção
Psiquiátrica na América Latina no contexto dos Sistemas Locais de Saúde (SILOS),
convocada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que forneceu a justificativa
ideológica e cujas recomendações abririam caminho para a discussão de
alternativas no cuidado à população em condições de sofrimento psíquico, que
respeitassem o preceito de salvaguardar a dignidade pessoal e os direitos humanos
e civis dos pacientes (DESVIAT, 1999).

Neste ínterim, as Conferências Nacionais de Saúde se tornaram o espaço


privilegiado de disputa institucional e onde o discurso antimanicomial se capilarizou e
tornou-se hegemônico. Por onde, inclusive, se elege como o projeto da Reforma a
―Lei Paulo Delgado‖, cuja tramitação tivera início em 1989, mas que só seria acatada
(com profundas modificações) em 2001, com a aprovação da Lei 10.216 (―Lei da
Reforma Psiquiátrica‖), a partir do substitutivo do projeto original.

Os diferentes debates e deliberações referentes à desinstitucionalização


presentes nas Conferências Nacionais de Saúde Mental foram sistematizados e
organizados por Heidrich (2007):

108
Quadro 2 – Quadro das Conferências Nacionais de Saúde Mental:debates e
deliberações

Questão I CNSM (1987) II CNSM (1992) III CNSM (2001)


analisada /
Conferência
Questão Usuários. Usuários. Pessoa portadora de
conceitual Clientes. Doente mental. sofrimento psíquico.
Doente Mental. Paciente. Portador de transtorno
Paciente. Necessidade de mental.
pensar a pessoa com
transtornos mentais
em sua existência-
sofrimento, e não
apenas a partir de
seu diagnóstico.
Questão Negação do modelo Proposição de uma As políticas de saúde
técnico- assistencial centrado no rede de atenção mental devem ter, como
assistencial manicômio. Necessidade substitutiva: pressupostos básicos, a
de reversão do modelo laboratório de vida, inclusão social e a
assistencial. mecanismos habilitação da sociedade
Crítica ao modelo concretos de para conviver com a
capitalista de produção. desospitalização; diferença.
Preocupação com o risco conceito de território, Fundamental o caráter
de os trabalhadores de importância da substitutivo ao hospital
saúde mental se tornarem família Luta psiquiátrico da rede de
instrumentos de opressão antimanicomial serviços extra-
do Estado. Construir uma ética hospitalares.
Propostas da autônoma e Propõe a extinção de
desinstitucionalizantes. singularização que todos os leitos em
Responsabilização do rompa com o hospitais psiquiátricos
Estado pela efetivação da conjunto de até 2004. Abolição do
política de saúde mental. mecanismos eletrochoque.
institucionais e Serviços substitutivos
técnicos em saúde. como meio, não como
fim.

109
Questão Tímida. Construir Importância da
cultural Propõe que os serviços diversificação das intersetorialidade.
comunitários sejam referências
considerados espaços de conceituais e
promoção de saúde operacionais, indo
mental. além das fronteiras
delimitadas pelas
profissões clássicas
em saúde mental.
Articulação de
recursos
comunitários para a
inserção do usuários
nos serviços de
saúde.
Valorização e
incentivo à atenção
informal à saúde
mental (grupos de
auto-ajuda, religiosos
etc.).

110
Questão Preocupação com a Substituir a Acessibilidade - ao
jurídico- cidadania do louco. terminologia na tratamento e a
política Periculosidade. legislação. informação sobre o
Recomendações aos A legislação deve mesmo.
constituintes - alterações levar em conta a Divulgação a respeito
na legislação sobre subjetividade. dos direitos e deveres
questões psiquiátricas. Extinguir todos os dos cidadãos no SUS e
dispositivos legais com relação à reforma
que atribuem psiquiátrica - cartilha,
periculosidade ao internet, imprensa,
doente mental. cartaz.
Criar comissões de Garantia do exercício da
divulgação dos cidadania plena aos
direitos dos doentes portadores de transtorno
mentais nos mental no lugar de
municípios. iniciativas tutelares.
Debate e revisão dos
artigos do código civil e
penal, no sentido de:
suprimir a expressão
"loucos de todo o
gênero", questionar a
interdição dos direitos
civis do portador de
transtorno mental, rever
os critérios de interdição.
Lutar pela retomada dos
princípios originais do
Projeto de Lei Paulo
Delgado, espacialmente
no que se refere à
extinção dos
manicômios.
Concepção Não define nem se refere a Não define, mas Refere-se à
de ela refere-se à desospitalização e
desinstitucion necessidade política de redução de
alização imperativa de leitos em hospitais
desinstitucionalizar psiquiátricos
todas as instâncias
com características
manicomiais.
Necessidade de
desinstitucionalizar
os trabalhadores de
saúde mental.

111
Concepção Não define nem se refere a Não define reforma Transformação de
de reforma ela psiquiátrica; apenas saberes, práticas,
psiquiátrica se refere à valores sociais e
necessidade de criar culturais.
Comissões de Marcada por tensões,
Reforma Psiquiátrica inscreve-se nas
nos Conselhos de possibilidades e limites
Saúde. das políticas públicas e
da implementação de
projetos comprometidos
com a afirmação de
direitos de cidadania,
com a luta contra as
desigualdades sociais e
os mecanismos de
exclusão social.
Fonte: quadro elaborado por HEIDRICH (2007) com base nos anais da I, II e III Conferência Nacional
de Saúde Mental.

É na II Conferência Nacional de Saúde Mental que, apesar de não


rigorisamente definida, aponta a dimensão da necessidade de desinstitucionalização
de todas as instâncias (incluindo os profissionais) que envolvem a saúde mental.

Do ponto de vista técnico-assistencial, é só na II Conferência Nacional de


Saúde Mental, em 1992, quem primeiro ―adota os conceitos de território e
responsabilidade ‗como forma de dar à distritalização em saúde mental, um caráter
de ruptura com o modelo hospitalocêntrico‘‖ (HEIDRICH, 2007, p. 163).

No que tange às práticas de cuidado campo das políticas de saúde mental,


particularmente, a abordagem territorial ainda é extrapolada às práticas terapêuticas,
das formas de cuidado – território como o meio e, ao mesmo tempo, como a
condição para o cuidado, como base de organização das práticas terapeuticas,
fundamentadas nas noções de desinstitucionalização e em vistas à assistência
integral.

Como já vimos a desinstitucionalização, concepçãoo fundante da experiência


de Franco Baságlia (Psiquiatria Democrática Italiana), tem como pressuposto para o
tratamento a recolocação do sujeito em condições de sofrimento psíquico na
condição de protagonista do processo terapêutico, permitindo a esse a
reapropriação de sua vida e abertura a outras possibilidades de ser, para além da
112
doença – o ―direito à vida‖. Este cenário acaba por exigir a relação com o território
pela necessidade de ―deslocamento das ações para o contexto social dos usuários,
de sua existência concreta, para mudar, em última instância, a relação do corpo
social com a loucura.‖ (ROTELLI, 2001, apud LEMEK; SILVA, 2013, p. 9).

Quando Baságlia afirmava que ―a cidade é o lugar da reabilitação‖, trazia a


tona uma mudança na dinâmica espacial do processo terapêutico, substituindo a
ideia de comunidade e enunciando o ―território‖, enquanto elemento fundamental na
construção do novo cenário estratégico em saúde mental. Segundo Giovanella e
Amarante (1994, p. 145):

A substituição da ideia de comunidade pela de território não visa


apenas estabelecer uma distinção com a comunidade da psiquiatria
comunitária. O território é uma força viva de relações concretas e
imaginárias que as pessoas estabelecem entre si, com os objetos,
com a cultura, com as relações que se dinamizam e se transformam.
O trabalho no território não é a mesma coisa que estabelecer um
plano psiquiátrico, ou de saúde mental, para a comunidade, mas
trabalhar com as forças concretas para a construção de objetivos
comuns, que não são os objetivos definidos pela psiquiatria.

Salientam que

O trabalho no território não é um trabalho de construção ou


promoção de ‗saúde mental‘, mas de reprodução da vida, de
subjetividades. Para Rotelli, o que habitualmente se chama de
comunidade ‗pode ser um grande deserto, pode ser um lugar de
anomia, mas no território, e não na comunidade, existem forças
vivas, e não forças mortas, (...) e é com essas pessoas que nós
trabalhamos e com quem devemos cada vez mais trabalhar, se não
queremos retornar ao gueto da psiquiatria. Então, o saber do
paciente, o saber do sujeito paciente, o saber dos familiares, o saber
do território [sic], esses saberes que existem no território devem ser
incorporados em nossa prática‘ (ROTELLI, 1994, apud.ibid., p. 145).

É a partir da abordagem territorial enquanto orientadora [e até ―agente‖!] do


processo terapêutico, que uma ―atenção territorializada‖ possibilitaria o cuidado aos
sujeitos em seu cotidiano, em sua sociabilidade no território.

Já a assistência integral, aponta um trato com o usuário de forma ampliada.


Descentra o olhar técnico de análise das demandas em saúde do ponto de vista
puramente fisiológico, o que imputa ao agente de saúde o cuidado no território, na
113
complexidade dos contextos da vida e cotidiano dos sujeitos, na ―complexidade
movente do território, seus contextos e interações‖ (LEMEK; SILVA, 2013, p. 10).

Não menos importante, a II Conferência Nacional de Saúde Mental viria a


indicar os modelos ―experimentais‖ dos CAPS e NAPS como exemplos de serviço de
saúde mental transformadores, dando reconhecimento e legitimidade às propostas,
que vieram a ser regulamentadas logo em seguida pela Portaria Ministerial nº
2224/92, como:

Unidades de saúde locais/regionalizadas que contam com uma


população adscrita definida pelo nível local e que oferecem
atendimento de cuidados intermediários entre o regime ambulatorial
e a internação hospitalar, em um ou dois turnos de quatro horas, por
equipe multiprofissional. (BRASIL, 2004b, p. 12)

Os CAPS/NAPS, posteriormente previstos pela Lei Federal nº 10.216/2001


(Lei da Reforma Psiquiátrica, BRASIL, 2001), serão adequados e requalificados com
a Portaria Ministerial nº 336/2002, incorporando explicitamente a dimensão territorial
do serviço, conforme estabelece no Art. 1, §2º - ―os CAPS deverão constituir-se em
serviço ambulatorial de atenção diária que funcione segundo a lógica do território‖.

Segundo interpretação do Portal da Saúde do SUS 39, os CAPS sendo


―serviços em saúde mental públicos e territorializados (território é a designação não
apenas de uma área geográfica, mas das pessoas, das instituições, das redes e dos
cenários nos quais se dão a vida comunitária)‖, que ―deverão estar capacitadas para
realizar prioritariamente o atendimento de pacientes com transtornos mentais
severos e persistentes em sua área territorial, em regime intensivo, semi-intensivo e
não-intensivo (...)‖ (Art. 1, §1º).

Não menos importante, a legislação define uma série de modalidades aos


CAPS. O Art. 8º inclui na Tabela de Classificação de Serviços (14), da Tabela de
Serviços do SAI/SUS, os serviços dos CAPS, de acordo com as seguintes
modalidades e descrição:

 CAPS I: ―Unidade com serviço próprio de atenção psicossocial, com


oficinas terapêuticas e outras modalidades de atendimento e capacidade
39
http://portalsaude.saude.gov.br/
114
operacional para dar cobertura assistencial a uma população entre 20.000
e 70.000 habitantes, funcionando em regime de dois turnos, desenvolvendo
atividades diárias em saúde mental.‖;
 CAPS II: ―Unidade com serviço próprio de atenção psicossocial, com
oficinas terapêuticas e outras modalidades de atendimento e capacidade
operacional para dar cobertura assistencial a uma população entre 70.000
e 200.000 habitantes, funcionando em regime de dois turnos,
desenvolvendo atividades diárias em saúde mental.‖;
 CAPS III: ―Unidade com serviço próprio de atenção psicossocial, com
oficinas terapêuticas e outras modalidades de atendimento e capacidade
operacional para dar cobertura assistencial a uma população acima de
200.000 habitantes, funcionando vinte e quatro horas, diariamente, com no
máximo 05 (cinco) leitos para observação e/ou repouso para atendimento
inclusive feriados e finais de semana, desenvolvendo atividades diárias em
saúde mental.‖;
 CAPSi: ―Unidade com serviço próprio de atenção psicossocial, com oficinas
terapêuticas e outras modalidades de atendimento e capacidade
operacional para dar cobertura assistencial a uma população acima de
200.000 habitantes, ou outro parâmetro populacional justificado pelo gestor
local, funcionando em regime de dois turnos, e desenvolvendo atividades
diárias em saúde mental para crianças e adolescentes com transtornos
mentais.‖;
 CAPSad: ―Unidade com serviço próprio de atenção psicossocial, com
capacidade operacional para dar cobertura assistencial a uma população
acima de 100.000 habitantes, ou outro parâmetro populacional justificado
pelo gestor local, funcionando em regime de dois turnos, com leitos para
desintoxicação e repouso (02 a 04 leitos), desenvolvendo atividades em
saúde mental para pacientes com transtornos decorrentes do uso e/ou
dependência de álcool e outras drogas.‖.

Por fim, os CAPS serão reafirmados na Portaria Ministerial nº 3.088/201140,


sendo considerados a grande referência do novo modelo assistencial, enquanto

40 ―Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de
115
serviço substitutivo responsável pelo atendimento integral às demandas dos sujeitos
em condição de sofrimento nos ―territórios em que se localizam‖; e como serviço
estratégico e primário de elaboração e organização das redes de atenção à saúde
mental (AMARANTE; TORRES, 2001), através de sua articulação de duas frentes:

a) Atuando na assistência direta, e na tessitura e mediação da rede de


serviços de saúde, articulando a equipe técnica, os usuários, a família e os
Agentes Comunitários de Saúde;

b) Na ―promoção da vida comunitária e da autonomia dos usuários,


articulando os recursos existentes em outras redes: sócio sanitárias,
jurídicas, cooperativas de trabalho, escolas, empresas etc.‖ (BRASIL,
2004b, p. 12)

Saúde (SUS)‖ (Portaria Ministerial nº 3.088/2011, BRASIL, 2015).


116
Figura 5: Rede de Atenção à Saúde Mental exposta em Brasil (2004b, p. 11)

Com base nesta dupla ação,

Farão o direcionamento local das políticas e programas de Saúde


Mental: desenvolvendo projetos terapêuticos e comunitários,
dispensando medicamentos, encaminhando e acompanhando
usuários que moram em residências terapêuticas, assessorando e
sendo retaguarda para o trabalho dos Agentes Comunitários de
Saúde e Equipes de Saúde da Família no cuidado domiciliar. (ibid., p.
12)

O período de 1992 a 2000 será marcado pela expansão da rede de atenção


psicossocial pautado nos CAPS/NAPS.
117
No período de 2001 a 2003, podemos observar não só a aprovação da ―Lei de
Reforma Psiquiátrica‖, mas, também, a realização da III Conferência Nacional de
Saúde Mental, com a consolidação do novo modelo e o promulgação do ―Programa
de Volta Prá Casa‖41, impulsionando o projeto de ―desistitucionalização‖. Este
período se caracteriza pela substituição progressiva e programada do modelo
manicomial, prevendo a construção e consolidação de uma rede territorial de
serviços.

No âmbito do planejamento, gestão e execução das políticas públicas, é


crucial compreender o processo de territorialização das políticas de saúde na
conjuntura mais ampla de luta pela redemocratização e retomada do planejamento
nacional, no Brasil, que trouxeram o foco no território como lócus estratégico para a
absorção das demandas sociais e intervenção, em vistas à transformação do espaço
social.

Conforme Rodrigues (2014), as inflexões na relação sociedade-Estado


atualmente têm apontado para a territorialização das políticas públicas. Interpretação
que se distingue da abordagem clássica das políticas públicas setoriais, aonde o
território vem emergindo como uma possibilidade e uma promessa para a
construção e reorganização do planejamento e das próprias políticas públicas:

A implementação das chamadas políticas de ordenamento territorial


deixa mais clara a necessidade de considerar duas características
básicas do território: em primeiro lugar, seu caráter político – no jogo
entre macropoderes políticos institucionalizados e os ‗micropoderes‘,
muitas vezes mais simbólicos, produzidos e vividos no cotidiano das
populações; em segundo lugar, seu caráter integrador – o Estado em
seu papel gestor-redistributivo e os indivíduos e grupos sociais em
sua vivência concreta como os ‗ambientes‘ capazes de reconhecer e
de tratar o espaço social em todas as suas múltiplas dimensões.
(HAESBAERT, 2004, p. 76)

41
Instituído pela Lei 10.708/2003 (BRASIL, 2015), ―disponibiliza bolsas de auxílio-reabilitação
psicossocial para a assistência, acompanhamento e integração social, fora da unidade hospitalar, de
pessoas acometidas de transtornos mentais, com história de longa internação psiquiátrica (com dois
anos ou mais de internação)‖.

118
Para os gestores, o ―território‖ enquanto dimensão espacial privilegiada para
ação estatal emerge como a unidade privilegiada de planejamento, gestão,
execução das políticas públicas de saúde.

A partir dos anos 2000, a abordagem territorial assumirá o protagonismo para


a organização, manutenção e funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e
demais políticas de saúde, suplantando distritos sanitários, e articulado às regioes
de saúde – território tomado como a esfera de onde devem partir e se organizar as
estratégias, práticas e ações que consolidam os programas e políticas.

Num âmbito mais geral, o movimento de regulamentação da abordagem


territorial no campo da saúde, segue a tendência das demais políticas públicas
(Plano Nacional de Turismo, Políticas de Desenvolvimento Regional etc.), em vistas
ao programa de governo de redução das desigualdades, apoiado na pauta do
crescimento econômico com desconcentração social e regional de renda, que vem
buscando reafirmar o papel da participação social (articulação de conselhos,
orçamento participativo, consultas populares etc.) nos processos de decisão
(STEINBERGUER, 2013).

O gradual ―avanço‖ da abordagem territorial para as políticas públicas pode


ser em exemplificado no processo de consolidação do próprio Sistema Único de
Saúde (SUS). Apesar da regionalização e territorialização aparecerem como
diretrizes organizacionais do sistema, não apresentavam definição específica, sendo
correligeionários da concepção da distritalização – instrumentalizada pelos distritos
sanitários. É apenas com a NOAS-SUS 01/2001, que o processo de regionalização
da assistência à saúde será devidamente regulamentado, em vistas a criação de
Plano Diretor de Regionalização (PDR) nos estados e Distrito Federal 42, e dando
protagonismo ao conceito de território:

O processo de regionalização deverá contemplar uma lógica de


planejamento integrado, compreendendo as noções de

42
―O PDR fundamenta-se na conformação de sistemas funcionais e resolutivos de assistência à
saúde, por meio da organização dos territórios estaduais em regiões/microrregiões e módulos
assistenciais; da conformação de redes hierarquizadas de serviços; do estabelecimento de
mecanismos e fluxos de referência e contra-referência intermunicipais, objetivando garantir a
integralidade da assistência e o acesso da população aos serviços e ações de saúde de acordo com
suas necessidades.― (NOAS-SUS 01/2001, Capitulo I, Inciso I, BRASIL, 2015).
119
territorialidade, na identificação de prioridades de intervenção e de
conformação de sistemas funcionais de saúde, não necessariamente
restritos à abrangência municipal, mas respeitando seus limites como
unidade indivisível, de forma a garantir o acesso dos cidadãos a
todas as ações e serviços necessários para a resolução de seus
problemas de saúde, otimizando os recursos disponíveis. (NOAS-
SUS 01/2001, BRASIL, 2015, Capitulo I, Inciso I)

A partir desta normativa, a previsão dos Planos Diretores de Regionalizados


(PDR) em âmbito Estadual, aprimora o modelo dos distritos sanitários, prevendo
regiões de saúde43, articuladas em módulos assistenciais44, tendo na unidade
territorial de qualificação na assistência à saúde a ―base territorial mínima de
planejamento regionalizado‖.

O território aparece como o ―menor nível determinado pelo contexto


epidemiológico e social‖:

Compreende uma área geográfica que comporta uma população com


características epidemiológicas e sociais e com suas necessidades e
os recursos de saúde para atendê-la. A área geográfica é definida
para cada realidade e pode ser constituída por: a) vários bairros de
um município; b) vários municípios de uma região. No processo de
definição do chamado território-distrito devem ser consideradas para
a sua composição as relações de fluxos existentes entre os
municípios ou bairros, as referências natural ou culturalmente já
estabelecidas entre eles em suas diversas atividades, principalmente
na área da saúde. A preexistência de uma eventual territorialização
definida pelo gestor estadual (Secretaria Estadual da Saúde) não

43
―Região de Saúde - base territorial de planejamento da atenção à saúde, não necessariamente
coincidente com a divisão administrativa do estado, a ser definida pela Secretaria Estadual de Saúde,
de acordo com as especificidades e estratégias de regionalização da saúde em cada estado,
considerando as características demográficas, socioeconômicas, geográficas, sanitárias,
epidemiológicas, oferta de serviços, relações entre municípios, entre outras. Dependendo do modelo
de regionalização adotado, um estado pode se dividir em macrorregiões, regiões e/ou microrregiões
de saúde. Por sua vez, a menor base territorial de planejamento regionalizado, seja uma região ou
uma microrregião de saúde, pode compreender um ou mais módulos assistenciais.‖ (Capitulo 1,
Inciso 5, Item ―a‖)
44
De acordo com a legislação citada, o módulo assistencial consiste num recorte territorial com
resolubilidade correspondente à um conjunto mínimo de procedimentos de média complexidade
(atividades ambulatoriais de apoio diagnóstico e terapêutico e de internação hospitalar) como primeiro
nível de referência intermunicipal, com acesso garantido a toda a população no âmbito
microrregional, ofertados em um ou mais módulos assistenciais, constituído por um ou mais
municípios, com área de abrangência mínima a ser estabelecida para cada Unidade da Federação,
em regulamentação específica, e com as seguintes características: a) conjunto de municípios, entre
os quais há um município-sede com capacidade de ofertar a totalidade dos serviços citados e com
suficiência, para sua população e para a população de outros municípios a ele adscritos; ou, b)
município com capacidade de ofertar com suficiência a totalidade dos serviços citados para sua
própria população, quando não necessitar desempenhar o papel de referência para outros
municípios.
120
deve ser considerada como balizamento definitivo, mas pode ser
utilizada como um ponto de partida e ajustada de acordo com as
necessidades. (ALMEIDA; CASTRO; VIEIRA, 1998, p. 21)

Já a territorialidade, se refere à área geográfica de referência aos serviços


básicos de saúde (centro de saúde, posto de saúde, unidade básica de atenção à
família, etc.) que terão a responsabilidade pelo cuidado da população adscrita
àquela área, considerando ―as condições econômicas, sociais e culturais da
população da área, além da disponibilidade, regularidade e custos do transporte
coletivo‖ (p. 23).45

Deve ficar claro que o panomoram da territorialização das políticas públicas,


ao mesmo tempo em que particular no contexto brasileiro, compõe amplo campo de
debates no mundo, seguindo o que podemos chamar de ―tendência‖ no tocante ao
que há de mais moderno em políticas públicas (STEINBERGUER, 2013).

Para além, de acordo com Guimarãoes, Pickernhayn e Lima (2014, p. 85-86):

A construção de territórios saudáveis faz-se com o estabelecimento


de políticas públicas urbanas voltadas à melhoria da qualidade de
vida. Cada território possui particularidades e diversidades,
econômica, cultura ou social. Não se pode fazer uma política única
para lugares que possuem características e necessidades diferentes.
É preciso conhecer, em cada lugar, a população, seus costumes,
hábitos, necessidades para que se possa contribuir para a
construção de ambientes saudáveis. (...) Não é possível fazer
promoção da saúde sem considerar os indivíduos e os grupos sociais
como sujeitos. É preciso construir territórios saudáveis com políticas
públicas intersetoriais, inclusão social e, sobretudo, com a
participação das redes sociais de solidariedade.

Ultrapassando os períodos citados anteriormente, podemos citar a Portaria


Ministerial nº 3.088/2011, que institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas
com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de

45
É fundamental a distinção entre a territorialidade e as areas de influência dos serviços. A área de
influência, trata-se de ―um conceito operacional que define os serviços de saúde do município ou
região considerados como de referência para as populações das áreas de abrangência dos serviços
básicos de saúde. Essas referências dizem respeito à necessidade de realização de procedimentos
para o diagnóstico e/ou terapia e/ou reabilitação, que a maioria dos serviços básicos das áreas de
abrangência não realizam. Esses procedimentos podem ser feitos nos hospitais (gerais ou
especializados), nos ambulatórios de especialidades, nos serviços de apoio diagnóstico ou
terapêutico de média complexidade ou nos chamados procedimentos de alto custo (SIPAC).‖
(ALMEIDA, CASTRO e VIEIRA, 1998, p. 24)
121
crack, álcool e outras drogas 46, como o marco regulatório atual mais significativo no
processo de territorialização das políticas de saúde mental.

Este ―ato administrativo normativo‖ em particular, adquire suma importância


por dois motivos: pela sua importância como ―símbolo de progresso‖ no processo da
Reforma Psiquiátrica, do avanço de um modelo de cuidado em Saúde Mental, ao
regulamentar o modelo das redes de base comunitária e territorial; e, ao mesmo
tempo, enquanto o marco regulatório, que redefine e prevê os equipamentos de
cuidado, e reorienta suas devidas competências e formas de articulação entre si e
com a atenção primária em Saúde.

Chegamos ao seguinte esquema:

Distensão Política e Redemocratização


(70-80)

Reforma Sanitária Reforma Psiquiátrica

Determinantes Sistema Único de


Sociais da Saúde – SUS Movimento de Reforma
Saúde (Const. 88) Psiquiátrica – Luta
Antimanicomial

Paradigma Psicossocial
Territorialização (―cuidado territorial‖)
Saúde Coletiva de Políticas Públicas
(território usado) (anos 2000)

Lei Federal nº 10.216/ 2001


(“Lei da Reforma Psiquiátrica”)

Figura 6: Síntese para além da dimensão da gestão/planejamento/execução.

46
A Rede prevê como componentes: atenção básica em saúde (Unidade Básica de Saúde, Núcleo de
Apoio a Saúde da Família e Consultório de Rua); Atenção Psicossocial Estratégica (Centro de
Atenção Psicossocial, nas suas diferentes modalidades); Atenção de Urgência e Emergência (SAMU
192, Sala de Estabilização, UPA 24 horas e Unidades Básicas de Saúde); Atenção Residencial de
Caráter Transitório (Unidade de Acolhimento e Serviço de Atenção em Regime Residencial); Atenção
Hospitalar (Enfermaria especializada em Hospital Geral e Serviço Hospitalar de Referência para
Atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de
crack, álcool e outras drogas); Estratégias de Desinstitucionalização (Serviços de Residenciais
Terapêuticos e Programa ―De Volta para Casa‖); Estratégias de Reabilitação Psicossocial (Iniciativas
de Geração de Trabalho e Renda, Empreendimentos Solidários e Cooperativas Sociais).
122
Neste sentido, e para além da dimensão de gestão e planejamento e
execução das políticas de saúde mental,

Se o lugar das práticas psiquiátricas sempre se revestiu de especial


importância, com a Reforma Psiquiátrica esse lugar deixa de ser
predominantemente o hospital para tornar-se o território de vida do
sujeito, um objeto dinâmico, vivo, de inter-relações. Assim, organizar
um serviço substitutivo que opere segundo a lógica do território é
olhar e ouvir a vida que pulsa nesse lugar. Para tanto, é preciso
trabalhar com um conceito relacional de território, que leve em conta
modos de construção do espaço, de produção de sentidos para o
lugar que se habita, ao qual se pertence por meio das práticas
cotidianas (YASUI, 2010). (LIMA & YASUI, 2014 p. 603)

Figura 7 – Muros: Passe Livre. Fotografia por Lucas Honorato (2017)

123
ENXERTOS Nº 3: “PEQUENOS CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS – A
BUROCRACIA”
(Saudades do Futuro, Armando Corrêa da Silva, 1993)

Para Remo e Rômulo

Caixa de Escritório

Estava em casa sem fazer nada e sem dinheiro. Resolveu procurar um


emprego.
Tomou o Estadão, que o pai sempre lia minuciosamente e com paixão crítica
e virou nas páginas de anúncios.
Havia uma grande variedade.
Foi com surpresa que descobriu o anúncio: precisa-se de um caixa para uma
imobiliária. Era que o anúncio era de um primo seu.
Resolveu ir ver.
Cedo, apresentou-se ao escritório.
O primo ficou surpreso ao vê-lo, e como precisava de alguém de confiança
para o cargo deu-lhe o emprego.
Isto foi em 16 de dezembro de 1954.
Ganharia um salário de Cr$ 3.500,00 da época.
O escritório era amplo, dividido em duas salas.
Numa delas, onde ficava, era a administração.
Havia o contador, seu irmão que o auxiliava, e um office-boy.
Só depois de algum tempo foi que descobriu que o lugar era almejado já há
tempos pelo irmão do contador.
Logo fez amizade com o boy, pois sempre gostara de gente jovem, sem muito
sentimento de ligação ao emprego.
Não gostava do contador, pois ele tinha um ar de superioridade funcional que
não o agradava.
Nessa época não sabia que esse conflito era parte do conflito mais amplo da
luta de classes sociais do capitalismo.
124
Tudo o que queria era executar bem o serviço e receber seu salário no fim do
mês.
O primo brincava com ele a propósito do fechamento do caixa ao fim do dia e
não era fácil lidar com ele, porque ele fazia retiradas frequentes, para jogar no
Jockey Club.
O emprego durou quatro meses.
Despediu-se em 30 de abril de 1955.

Funcionário da CEESP

Estava na Faculdade, já morando com sua segunda mulher, em casa de seus


pais.
Havia muitos atritos entre ela e a sogra.
Por isso resolveram mudar.
Mas, precisava de um emprego.
Prestou concurso para escriturário da CEESP em 1962.
Era um tempo em que participava muito da política e estava radicalizado.
Por isso, no primeiro dia de trabalho teve um incidente com uma caixa da
Agência e forma todos parar na diretoria.
O incidente foi contornado pelo Diretor e voltou a trabalhar.
Era uma agência grande com muitos funcionários e a época era de
radicalismos, com a classe média e a classe operária bastante inquietas em razão
da desvalorização da moeda.
Em 1962 é o ano de início da crise econômica que durou até 1967.
Mas nessa época não sabia disso.
Seu serviço era variado: atendeu ao balcão durante algum tempo. Gostava
disso, pois era um trabalho que podia agilizar.
Mas, a maior parte do tempo trabalhou nas máquinas de contabilidade da
Caixa.
Nesse tempo o dia passava com rapidez.
Saía do serviço às seis ou sete e trinta e corria para a Faculdade, levando
duas vidas paralelas.
Na Agência havia os burocratas e os não burocratas. Gostava do José Luís,
advogado pela USP, e que trabalhava bem humorado. Não gostava do sobrinho do
125
chefe, porque tinha mania de organizar o serviço. Na verdade, já era, então, um
candidato a tecnocrata.
Depois de alguns comissionamentos fora da caixa, deixou a CEESP em 1969,
ingressando da Faculdade de Economia e Administração da USP, como auxiliar de
ensino contratado.

Professor da USP

Na Universidade de São Paulo encontrou uma grande e complexa estrutura.


Nada tinha dos seus tempos de estudante.
Era muitas vezes maior que a imobiliária e a Agência da CEESP, onde havia
trabalhado.
A USP movia-se lentamente, apesar dos tempos da reforma universitária
levada a efeito em 1970.
Esse era um dos motivos de suas críticas à estrutura corporativa de ensino na
Universidade.
Acha que teve sorte pois trabalhou primeiro com um professor que valorizava
muito sua condição de catedrático, mas era um homem bastante pragmático e
dinâmico nas suas decisões.
Isto acontecia na Faculdade de Economia e Administração da USP, onde
lecionava.
Trabalhava com Geografia e, com a reforma universitária de 1970, transferiu-
se para o Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas na Universidade.
Ali encontrou uma situação de relativa agilização, com uma estrutura
colegiada e muito dinâmica. A burocracia tinha pouca chance de impor-se e tudo era
feito até antecipadamente.
Não obstante, o volume de papéis em circulação era alto, assim como o
número de reuniões.

Uma Avaliação

Acha que apesar do pai ter sido funcionário público, quase todo o tempo, até
os 50 anos, não deve a ele nenhuma tendência burocrática.
126
Ficou-lhe, isso sim, uma capacidade de organização funcional boa.
Por isso, deu-se bem com as estruturas burocráticas que encontrou pela
frente, não se deixando envolver.
Mas, não gosta de papéis inoperantes e de reuniões que não decidem nada.
Sua preocupação é com a liberdade de movimentos e com a mudança social.
Não vai fazer carreira funcional!

127
CAPÍTULO 3 – TERRITÓRIOS DA LOUCURA – ENCRUZILHADAS EM REDE,
TERRITÓRIOS EM EVIDÊNCIA.

Segundo BRASIL (2004a, p. 11), o território deve ser entendido nas políticas
de saúde mental como

[Mais do que] apenas uma área geográfica, embora sua geografia


também seja muito importante para caracterizá-lo. O território é
constituído fundamentalmente pelas pessoas que nele habitam, com
seus conflitos, seus interesses, seus amigos, seus vizinhos, sua
família, suas instituições, seus cenários (igreja, cultos, escola,
trabalho, boteco etc.). É essa noção de território que busca organizar
uma rede de atenção às pessoas que sofrem com transtornos
mentais e suas famílias, amigos e interessados. Para constituir essa
rede, todos os recursos afetivos (relações pessoais, familiares,
amigos etc.), sanitários (serviços de saúde), sociais (moradia,
trabalho, escola, esporte etc.), econômicos (dinheiro, previdência
etc.), culturais, religiosos e de lazer estão convocados para
potencializar as equipes de saúde nos esforços de cuidado e
reabilitação psicossocial. (...) [Sendo] os CAPS [Centros de
Assistência Psicossocial] (...) dispositivos que devem estar
articulados na rede de serviços de saúde e necessitam
permanentemente de outras redes sociais, de outros setores afins,
para fazer face à complexidade das demandas de inclusão daqueles
que estão excluídos da sociedade por transtornos mentais.

Esta conceituação ―final‖ busca articular os diferentes sentidos e dimensões


do conceito de território explorados pelas diferentes vertentes:

128
Quadro 3- Dimensões de práticas territoriais orientadoras das práticas Institucionais

Sistema Único de Saúde - SUS

DIMENSÕES ORIENTADORAS DE
Saúde Coletiva

PRÁTICAS INSTITUCIONAIS
Para os gestores, o
Para o campo da saúde, Paradigma Psicossocial
“território” é adotado
em geral, o “território”
como conceito Para o campo militante e
(território usado, de
supostamente integrador profissional, o
Milton Santos) impactou
para as políticas públicas. “territórrio” é adotado
na emergência da
preocupação de como orientador [e até
entender o processo agente!] do processo
saúde-doença como um terapêutico, via “cuidado
processo territorial”,
eminentemente social, possibilitando o cuidado
espacial e aos indivíduos em seu
temporalmente cotidiano – em sua
determinado, obrigando “sociabilidade no
à análise das condições território”.
de ocorrência das
mesmas – as
“determinações sociais
da doença”.

São os equipamentos da Rede, destarte, compreendidos como o locus do


planejamento e execução das ações de cuidado com vistas à integralidade47 e a
capacidade de produção de melhorias efetivas na saúde e no bem-estar de seus
usuários. Por conseguinte, o lugar onde a abordagem territorial, proposta pelas
políticas de saúde mental, deveria ser equacionada e orientada conforme o
paradigma da atenção psicossocial (ou apenas, psicossocial).

Buscando evidenciar as diferenças entre os dois principais paradigmas de


cuidado no campo da saúde mental já explorados (paradigma psiquiátrico e
psicossocial), elaboramos um pequeno quadro-síntese:

47 ―Envolve a promoção, a proteção e a recuperação da saúde. Mas, além de ser integral, o


atendimento no SUS deve priorizar as atividades preventivas. (...) Esta diretriz do SUS, que busca
compatibilizar ações preventivas e curativas, individuais e coletivas, (...) representa uma inovação nos
modos de cuidar das pessoas e de buscar soluções adequadas para os problemas e necessidades
de saúde da população de um bairro ou de uma cidade‖ (Ibid., p. 50)
129
Quadro 4- Síntese dos paradimas:

PROTAGONISMO
MODELO PERSPECTIVA ORGANIZAÇÃO
ORIGEM HISTÓRICA NOÇÕES ESTRUTURANTES OBJETIVO DO PROCESSO DE
ASSISTENCIAL ESTRUTURANTE ESPACIAL
CUIDADO
Controle e
Revolução Francesa anulação da
Hospitalocêntrico- Diagnóstico-intervenção-
PARADIGMA PSIQUIÁTRICO (Séc. XVIII), Philippe Psiquiátrico diferença Equipe médica Espaços asilares
medicalizador cura
Pinel ("subjetividade
serializada")

Compartilhamento de
Rede de
responsabilidades
Atenção de
Atenção Produção de
PARADIGMA PSICOSSOCIAL Heterogênese (Séc. XX) Desinstitucionalização Usuário base
Psicossocial Saúde
Remissão da liberdade e comunitária e
direito à diferença territorial
Re-construção de vínculos
Cuidado territorial

Fonte: Lucas Honorato, 2017.

De acordo com o paradigma psicossocial, a articulação de uma Rede de


Atenção Psicossocial na, pela, da e ―com‖ a cidade, deveria encaminhar os sujeitos
em condição de sofrimento a uma infinidade de possibilidades de trajetórias numa
rede rizomática, enquanto processo terapêutico. Para Carvalho (2013, p. 26):

A rede rizomática propõe conexões entre todos os lados que mudam


de acordo com os novos acontecimentos que se criam ao invés de
ficar preso a definições ou a modelos fechados. A construção de
múltiplas entradas na rede de saúde mental faz com que o
trabalhador e o usuário possam construir as suas conexões
sustentadas nas suas próprias ações, definidas pelo trabalho e pelas
subjetividades‖.

Portanto, na Rede, qualquer ponto pode ser conectado a qualquer outro e


deve sê-lo: e que cada trajetória na Rede não remete exclusivamente à relação
médico-paciente...

A relação institucional está sempre em conexão com diferentes regimes e


qualidades de relações, onde o processo terapêutico não só remonta à prática
terapêutica em si, naquele ou neste equipamento, mas, onde a própria trajetória

130
cotidiana dos usuários deverá conectar organizações, formas e relações de poder,
sensibilidades, regimes e enunciações de saber.

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), estruturada a operar como um


rizoma (DELEUZE, 1995), deve ser uma realidade heterogênea, cuja apropriação
aglomera atos muito diversos: cognitivos, linguísticos, políticos, estéticos, mímicos,
gestuais, perceptivos; de forma que não existe a ―Rede em si‖, como universalidade
a priori, mas funciona num concurso complexo de significados, apropriações e
discursos, não devendo, desta maneira, a trajetória dos sujeitos em condição de
sofrimento ser tomada de forma genealógica – buscando decompor estrutura
internas, para a justificação e significação do processo.

A Rede, como concebida, só existiria, então, na dimensão relacional, do


encontro entre pessoalidades que fazem emergir contingencias que, por sua vez,
impulsionam e repulsionam, ao mesmo tempo, os diferentes sujeitos em relação,
não podendo ser atribuída, nem submetida previamente ao que quer que seja de
significante.

O processo terapêutico na Rede deve incorporar multiplicidades, onde


inexiste uma unidade que orienta as relações entre sujeitos e objetos do cuidado.
Não há sujeitos nem objetos (médico e paciente se diluem no encontro), posto que o
cuidado, nesta abordagem, se constituiria em produção orientada à potencialização
dos sujeitos em condição de sofrimento e composta por determinações, grandezas e
diferentes dimensões que se compõem mutuamente e que mudam de qualidade a
cada movimento de um ou outro – a cada agenciamento.

Esta forma de conceber a Rede e sua funcionalidade imputa projetos


terapêuticos descentrados, fundados sobre outras dimensões, atravessamentos e
registros: projetos terapêuticos do usuário, com os saberes, nexos, léxicos,
significados, representações, do usuário; e não exclusivamente do técnico ou agente
de saúde.

Assim sendo, apenas aparentemente existiria uma unidade na Rede. Se


compreendida enquanto linhas, a Rede se configuraria mais como um plano de
consistência para às multiplicidades, viabilizadas pelos encontros.

131
Por isso, a trajetória na Rede pode ser rompida, quebrada e retomada em
qualquer uma de suas partes, posto que se por um lado é organizada, distribuída,
estratificada; por outro, em si comporta os desvios, linhas de fuga, aberturas,
reacomodando e se rearranjando de forma contingente. As linhas de fuga fazem
parte da ―Rede rizomática‖ e se remetem umas às outras.

Nela, teoricamente, temos infinitas possiveis cartografias que deverão ir se


esboçando no cotidiano dos sujeitos em condição de sofrimento, enquanto
protagonistas de seu próprio processo de cuidado, e ao longo das diferentes formas
de apropriação de suas próprias potencialidades, que, ponto a ponto, deverão abrir
caminho a inúmeras possibilidades de ser – ―a liberdade é terapeutica!‖ diz o jargão
muito comum hoje no meio institucional.

Do ponto de vista do planejamento das ações nos serviços e gestão,


administração e planejamento da Rede, a orientação normativa do cuidado e trato
no território envolve a delimitação da ―territorialidade dos serviços‖ através de três
procedimentos básicos referentes à: a) delimitação de áreas de atuação dos
serviços; b) reconhecimento do ambiente, população e dinâmica social existente; c)
e estabelecimento de relações com outros serviços adjacentes.

A partir destes procedimentos, teoricamente a articulação com o território


permitiria o desenvolvimento de planos terapeuticos baseados na série de
pressupostos que vimos anteriormente referentes ao paradigma psicossocial. Cabe
ressaltar, porém, que o território não se manifesta apenas a partir da delimitação do
reconhecimento das características do substrato material.

Conforme Haesbaert (2014, p. 57),

Desde sua origem, o território nasce com uma dupla conotação,


material e simbólica, pois etimologicamente aperece tão próximo de
terra-territorium quanto de terreo-territor (terror, aterrorizar), ou seja,
tem a ver com dominação (jurídico-política) da terra e com a
inspiração do terror, do medo – especialmente para aqueles que,
com essa dominação, ficam alijados da terra, ou no territorium são
impedidos de entrar. Ao mesmo tempo, por outro lado, podemos
dizer que, para aqueles que têm o privilégio de plenamente usufruí-
lo, o território pode inspirar a identificação (positiva) e a efetiva
apropriação (em termos lefebvrerianos).

132
Para Souza (1995, p. 97), o território é fundamentalmente

Um campo de forças, as relações de poder espacialmente delimitadas


e operando, destarte, sobre um substrato referencial (sem sombra de
dúvida, pode o exercício do poder depender muito diretamente da
organização espacial, das formas espaciais; mas ai falamos dos
trunfos espaciais da defesa do território, e não do território em si.

A questão primordial não deve ser a classificação de suas características


físicas e recursos (naturais e sociais), ou ainda as formas de ligação afetiva e de
identidade entre um grupo social e seu espaço (SOUZA, 2013), visto que

Ao mesmo tempo que o território corresponde a uma faceta do


espaço social (ou, em outras palavras, a uma das formas de
qualifica-lo), ele é, em si mesmo, intangível, assim como o poder o é,
por ser uma relação social (ou melhor uma das dimensões das
relações sociais). Se o poder é uma das dimensões das relações
sociais, o território é a expressão espacial disso: uma relação social
tornada espaço – mesmo que não de modo diretamente material,
como ocorre com o substrato, ainda que o território dependa, de
várias maneiras, deste último (ibid., p. 98)

Contudo, para Haesbaert (2014, p. 57-58),

Território, assim, em qualquer acepção, tem a ver com o poder, mas


não apenas com o tradicional poder político [dos Estados-nação]. Ele
diz respeito tanto ao poder no sentido mais explícito, de dominação,
quanto ao poder no sentido mais implícito ou simbólico, de
apropriação. Lefebvre distingue apropriação de dominação
(‗possessão‘, ‗propriedade‘), o primeiro sendo um processo muito
mais simbólico, carregado das marcas do vivido, do valor de uso, o
segundo mais objetivo, funcional e vinculado ao valor de troca. (...)
Como decorrência desse raciocínio, é interessante observar que,
enquanto ‗espaço-tempo vivido‘, o território é sempre múltiplo,
‗diverso e complexo‘, ao contrário do território ‗unifuncional‘ proposto
e reproduzido pela lógica capitalista hegemônica, especialmente
através da figura do Estado territorial moderno. Este, por princípio, é
defensor de uma lógica territorial padrão que, ao contrário de outras
formas de ordenação territorial (como a do espaço feudal, que o
antecedeu na Europa), não admite multiplicidade/sobreposição de
jurisdições e/ou de territorialidades.

Ainda com o autor supracitado, decorre a reflexão que

133
Se o espaço social aparece de maneira difusa por toda a sociedade
e pde, assim, ser trabalhado de forma mais ampla, (...) o território e
as dinâmicas de des-territorialização (sempre em mão dupla) devem
ser distinguidos através dos sujeitos que efetivamente exercem o
poder, que de fato controlam esse(s) espaço(s) e,
consequentemente, os processos sociais que o(s) compõe(m).
Assim, o ponto crucial a ser enfatizado é aquele que se refere às
relações sociais enquanto relações de poder – e como todas elas
são, de algum modo, numa perspectiva foucaultiana, relações de
poder, este deve ser qualificado, pois, dependendo da perspectiva
teórica, pode compreender desde o ‗antipoder‘ da violência48 até as
formas mais sutir de poder simbólico.

Sob este viés, é plauzível que o entendimento das relações que instauram
situações comuns ao ponto de permitirem a particularização dos espaços
(―territorialização dos serviços‖, regionalização da área adscrita aos processos
terapêuticos), deve partir primeiramente da análise dos jogos de poder em cena e
linhas de força que configuram e permitem a categorização estes espaços desta
maneira.

Isso não quer dizer, de jeito nenhum, que a cultura (o simbolismo, as


teias de significados, as identidades...) ou a economia (o trabalho, os
processos de produção e circulação de bens) não seja relevantes ou
não estejam ‗contemplados‘ ao se lidar com o conceito de território.
(...) Não se pretende negar, em absoluto, que esses aspectos
possam ser de vital importância para que se compreenda a gênese
de um território ou as razões do interesse por mantê-lo. O que
importa reter é que, por conta disso, não se justifica, pura e
simplesmente, confundir o território com o substrato espacial material
que serve de referência para qualquer (tentativa de) territorialização.
(SOUZA, 2013, p. 88-89)

Mais ainda, construindo o exemplo de uma ―cidade-fantasma‖49, ressalta que


―se todo território pressupõe um espaço social, nem todo espaço social é um
território‖ (SOUZA, 1995, p. 97).

48
Nota do autor: ―Enquanto autores como Castoriadis propõem uma noção muito ampla de poder,
envolvendo toda instituição da sociedade, distinguindo-o da ‗política‘ enquanto ‗questionamento
expl~icito da instituição estabelecida da sociedade‘ (1992:135), outros, como Hannah Arendt,
restringem o poder ao poder ‗legitimo‘, socialmente reconhecido, o que exclui a violência – é
justamente ‗a perda de poder‘, diz ela, que ‗traz a tentação de substituí-lo pela violência‘ (Arendt,
2004:131)‖ (HAESBAERT, 2014, p. 59)
49
―Pense-se no caso extremo de uma cidade-fantasma, testemunho de uma antiga civilização,
outrora fervilhante de vida e mesmo esplendorosa, e hoje reduzida a ruínas esquecidas e cobertas
pela selva; essa cidade hipotética, abandonada, não retrocedeu, lógico, à condição de objeto natural,
mas ao mesmo tempo ‗morreu‘ em termos de dinâmica social, não sendo mais diretamente território
de quem quer que seja. (...) Uma outra situação, oposta à da cidade-fantasma do exemplo hipotético
134
Tal assertiva não quer dizer que o substrato espacial não deva ser
considerado (o que seria na prática impossível), mas que a materialidade do espaço
opera mais como um ―trunfo‖ (RAFFESTIN, 1993) para as relações de poder, sendo
sempre condicionante e condicionado das relações:

Enquanto geógrafos, o que parece diferenciar nossa definição de


território em relação a outras disciplinas é que jamais caracterizamos
território apenas pela sua dimensão simbólica – ao contrário da
territorialidade, ele sempre envolve, obrigatoriamente, uma dimensão
material-concreta. (HAESBAERT, 2014, p. 66)

Tomando o território como a ―mediação espacial do poder‖, resultado da


interação diferenciada entre as multiplas dimensões deste poder – política,
econômica, simbólica-cultural (HAESBAERT, 2004), em texto anterior, Haesbaert e
Limonad (2007), já afirmavam que o conceito de território deveria partir dos
pressupostos de que: primeiro, o território é distinto de espaço geográfico; segundo,
é uma construção social a partir de relações de poder (concreto e simbólico) que
envolvem sociedade e espaço geográfico; terceiro, possui tanto uma dimensão mais
subjetiva (―apropriação‖) quanto uma dimensão mais objetiva (―dominação do
espaço‖), num sentido mais concreto – atribuído a instrumentos de ação político-
econômica.

Desta forma, segundo os autores, enquanto relação de dominação e


apropriação sociedade-espaços, o território compreende sempre, e
concomitantemente, a dimensão da dominação mais ―concreta e funcional‖ (político-
econômica) e à apropriação mais ―subjetiva e/ou cultural-simbólica‖ – ressaltando
que, embora indissociáveis, cada grupo pode se ―territorializar‖ de forma mais
funcional ou simbólica, dependo da estratégia e dinâmicas de poder em jogo.

Este ponto de vista nos auxilia visto que permite a associação com os
debates de Haesbaert (2004) acerca das lógicas de formação dos territórios: a lógica

(‗desterritorialização‘ por conta da extinção de um grupo social, com o ambiente construído


sobrevivendo a este), mas nem por isso menos ilustrativa da diferença objetiva entre substrato
espacial e território, é aquela da perpetuação de representações espaciais territorializantes mesmo
após a organização espacial original ter se modificado sensivelmente ou entrado em decadência...‖
(SOUZA, 1995, p. 97-98)
135
zonal e a lógica reticular – as duas dimensões fundamentais constituintes do
território.

Segundo o autor, as redes não se opõem aos territórios, tal qual numa
oposição entre ―fluidez e fixação‖. Ao contrário, na verdade, ao longo da história da
civilização humana os dois componentes estiveram presentes em todos os
processos de construção de territórios, ―intimamente associadas‖ de acordo com
diferentes níveis de intensidade.

Mais presente no contexto do prevalecimento de ordenamento e conformação


territorial da lógica dos Estados-nação, a lógica zonal define territórios de
característica mais contínuas (extensão) e contíguas, com limites bem delimitados
de áreas – mas sempre apoiado em fluxos, tal qual os espaços de influência do
comércio e politica.

Ademais, está presente no contexto do prevalecimento de ordenamento e


conformação territorial da lógica dos fluxos de capital e informação na era das
corporações, a lógica reticular define territórios pela conexão de espaços – mesmo
assim, imprescinde a conformação de áreas (mesmo que pequenas) que sirvam
como pólos, visto que as organizações em rede nunca preenchem o espaço social
em seu conjunto:

Assim, o modelo de territórios-zona estatais que marcam a grande


colcha de retalhos política, pretensamente uniterritorial (no sentido de
só admitir a forma estatal de controle político-espacial) do mundo
moderno, e que nunca esteve tão universalizado como nos nossos
dias, deve conviver não só, internamente, com as redes [territórios-
rede] que concedem maior solidez ou integração interna a esses
territórios, como também, externamente, com novos circuitos de
poder que desenham complexas territorialidades em rede
[novamente, territórios-rede], como no caso dos territórios-rede do
narcotráfico e do territorismo globalizados. (HAESBAERT, 2014, p.
71)

Os territórios, portanto, não se limitam ao seu caráter continuo, mas


incorporam também o conjunto de relações produzidas em redes técnicas (que
buscam fazer circular e comunicar) e de sociabilidades cotidianas (sejam da ordem
do distante, mediadas pelas redes técnicas, ou do próximo) , esboçando fronteiras

136
não tão precisas – composto por uma ―complexa imbricação entre redes e áreas ou
zonas‖.

Mais ainda,

Dentro da enorme diversidade de manifestações dos processos de


territorialização, poderíamos falar de duas grandes referências
‗extremas‘ (quase ‗tipos ideais‘) frente às quais podemos investigar o
território: uma, mais funcional, priorizada na maior parte das
aordagens, e outra, mais simbólica, que vem adquirindo maior
importância nos ultimos tempos, pelo próprio fortalecimento da
dimensão simbólica do poder. Enquanto espécie de tipos ideiais, elas
nunca se manifestam em estado puro, ou seja, todo território
‗funcional‘ tem sempre alguma carga simbólica, por menos
expressiva que pareça, e todo território ‗simbólico‘ tem sempre algum
caráter funcional, por menos explícito que seja. (HAESBAERT, 2014,
p. 61)

Frente à diversidade de formas a que a concepção de territorialidade é


proposta, o autor afirma

Alguns autores, numa visão mais estreita, reduzem a territorialidade


à dimensão simbólico-cultural do território, especialmente no que
tange aos processos de identificação territorial. Na maioria das
vezes, porém, eles não fazem essa distinção, e a territorialidade é
concebida abstratamente, numa perspectiva mais epistemológica,
como ‗aquilo que faz de qualquer território um território‘ (Souza,
1995:99), ou seja, as propriedades gerais reconhecidamente
necessárias à existência do território – que variam, é claro, de acordo
com o conceito de território que estivermos propondo. A
territorialidade, no nosso ponto de vista, não é apenas ‗algo abstrato‘,
num sentido que muitas vezes se reduz ao caráter de abstração
analítica, epistemológica. Ela é também uma dimensão imaterial, no
sentido de que, enquanto ‗imagem‘ ou símbolo de um território, existe
e pode inserir-se eficazmente como uma estratégia político-cultura,
mesmo que o território, pelo menos nos moldes a que se refere, não
esteja concretamente manifestado. (Ibid., p. 64)

Desta forma, opta por trabalhar com a concepção de territorialidade como

137
Concepção mais ampla de território, que o engloba (a todo território
corresponderia uma territorialidade, mas nem toda territorialidade
teria, necessariamente, um território – materialmente construído),
territorialidade tanto como uma propriedade de territórios
efetivamente construídos como ‗condição‘ (teórica ou simbólica) para
a sua efetivação. (HAESBAERT, 2014, p. 65)

Sempre, contudo, com o cuidado de identificar, a cada momento, se está a se


referir à territorialidade como ―condição genérica para a existência de um território,
tenha ele existência efetiva ou não‖, ou à dimensão simbólica (enquanto domínio da
imaterialidade, controle simbólico, a dimensão simbólica do território – a identidade
territorial) ou ainda, vivida – como espaço vivido, do não institucionalizado, frente ao
território como espaço formal-institucionalizado.

Pode-se, assim, falar em cinco grandes fins ou objetivos da territorialização


(Ibid., p. 68), podendo ser cumulativos ou atribuídos diferentes e diversos valores ao
longo do tempo:

1. Abrigo e segurança física (aconchego, numa linguagem mais


fenomenológica);
2. Fonte de recursos materiais e/ou meio de produção que pode fortalecer o
poder político-econômico de certos grupos e/ou classes sociais;
3. Identificação de grupos sociais (fortalecendo seu poder simbólico) através de
referentes espaciais (a começar pela própria construção de fronteiras);
4. Controle e/ou disciplinarização através da definição de espaços
individualizados (com o consequente fortalecimento da ideia de indivíduo, no
caso do mundo moderno);
5. Controle e/ou direcionamento da circulação, de fluxos, através de conexões e
redes (principalmente no fluxo de pessoas, mercadorias e informações).

Esses diferentes ―fins‖ conformam a multiplicidade territorial (múltiplos tipos de


território) a qual estamos inseridos cotidianamente em um mesmo espaço, que
podem ser identificadas de forma geral como (Ibid., p. 72):

a. Territorializações (para quem exerce seu controle) de caráter mais


desterritorializante (para quem lhes fica subordinado), (...) ‗desidentificadores‘
e destituidores de cidadania, como campos de refugiados e outros espaços
através dos quais se tenta conter a massa de precarizados, geneticamente

138
definidos por Agamben como ‗campos‘ (tendo no seu extremo os campos de
concentração);
b. Territorializações mais fechadas, quase ‗uniterritoriais‘ no sentido de imporem
a correspondência entre poder político e identidade cultural, ligadas ao
fenômeno do territorialismo, (...) não admitindo uma pluralidade territorial de
poderes e identidades;
c. Territorialização político-funcionais mais tradicionais, como a do Estado-
nação, que, (...) mesmo admitindo certa pluralidade cultural, (...) não admite a
pluralidade de poderes;
d. Territorializações mais flexíveis, que admitem a sobreposição territorial, seja
de forma sucessiva (como nos territórios temporários ou espaços
multifuncionais na área central das grandes cidades) ou simultânea (como na
sobreposição ‗encaixada‘ de territorialidades político-administrativas
relativamente autônomas);
e. Territorializações efetivamente múltiplas – uma multiterritorialidade em sentido
estrito, construída por grupos que se territorializam na conexão flexível de
territórios-rede multifuncionais, multigestionários e multi-identitários, como no
caso de alguns grupos pertencentes a diásporas de migrantes.

Para Sack (2011), enfocando uma dimensão mais objetiva e concreta


(embora nunca exclusivamente), a territorialidade trata-se fundamentalmente de
práticas sociais que acionam estratégias espaciais, com o objetivo de atingir,
influenciar ou afetar pessoas, ações, fenômenos e relacionamentos, ao estabelecer
diferentes níveis de acesso a pessoas, coisas e relações, e que influencia outras
interações espaciais e requer ações não-territoriais50 como auxílio (sanções,
violência etc.).

Mais do que o ―controle sobre uma área‖, a territorialidade é sempre


construída socialmente e envolve a visão daqueles controlados e daqueles que
executam o controle, posto que produzam efeitos físicos, sociais e psicológicos,
50
―Se as declarações de controle territorial não podem falhar, então a alternativa é uma estratégia
―espacial‖ não territorial. Se as crianças persistirem em entrar na cozinha e pegar os pratos, o pai
pode ter de removê-las fisicamente. Em termos geográficos, territorialidade é como uma forma de
interação espacial que influencia outras interações espaciais e requer ações não territoriais para
ajudar.‖ (SACK, 2011, p. 72)
139
sendo grande influenciadora dos comportamentos. Trata-se de uma ―uma estratégia
para criar e manter grande parte do contexto geográfico através do qual
experimentamos o mundo e o dotamos de significado‖ (SACK, 1986, p. 219 apud
HAESBAERT, 2004, p. 90).

Do ponto de vista da territorialidade, não é a delimitação do espaço que


define o território, mas a capacidade, num recorte espacial, de afetar o
comportamento coagindo ou controlando o acesso e usos. Nem todo espaço
delimitado deve ser compreendido como um território. Inversamente, não é a
delimitação que define ―de per si‖ um território, mas sua capacidade de operar de
forma à coagir e influenciar ações, fenômenos e relacionamentos.

Para Sack (2011), a territorialidade é a ―expressão geográfica básica do


poder‖: ao mesmo tempo classifica (a área, pela delimitação), comunica suas
fronteiras e coage/influencia, definindo níveis e formas de acesso e uso dos
espaços. Destarte, se sustenta sem a obrigatoriedade da presença física de quem
exerce controle, visto que o fundamento do controle está em informar, comunicar,
limitar, acessos – placas, muros etc.

De acordo com Haesbaert (2007, p. 25), embora a territorialidade não


obrigatoriamente defina territórios, sempre faz referência a algum território – ―como
no conhecido exemplo da "Terra Prometida" dos judeus, territorialidade que os
acompanhou e impulsionou através dos tempos, ainda que não houvesse,
concretamente, uma construção territorial correspondente‖.

As placas de trânsito, por exemplo, ao mesmo tempo em que indicam os


caminhos para acesso aos espaços asilares, indicam a proximidade destes –
espaços sempre distantes e que devem ser evitados. Ou os altos muros gradeados
e jardins cinza, expondo pessoas com roupas padronizadas. A logomarca do
Hospital nos jalecos informa... Ou o cotidiano na casa de um recém-egresso, cujos
familiares foram devidamente instruída acerca da necessidade de manter formas
rigorosas, adequadas à terapêutica, de controle dos horários de saída, de não uso
dos utensílios de cozinha, em vistas a periculosidade. Ou, ainda, talvez o que
poderíamos chamar de uma territorialidade às avessas, onde quem classifica e
comunica e coage é a voz passiva (sujeitada), quando certos sujeitos adotam uma
postura ativa de negação do outro, se desviando de sua trajetória cotidiana no
140
transporte público para não incorrer em fazer uso do serviço em algumas linhas que,
em certos horários, carregam usuários em regime semiaberto ou familiares51.

Assim, um lugar pode deixar de constituir-se em um território e, ao mesmo


tempo, um território pode criar um lugar onde sequer existe, ocorrendo e se
articulando em diferentes níveis e escalas.

Territorialidades que reproduzem um conjunto de normas, ordens e simbolos


que imprimem toda uma lógica em espaços até então alheios ao processo
terapeutico (espaços de moradia, lazer, trabalho, religiosos etc. dos usuários).
Lógicas não necessariamente determinadas pela Lei, mas atravessadas por um
conjunto de influências (formação profissional, orientação moral e ético-política
pessoal, trajetórias pessoais, preconceitos etc.) em um campo de forças e de poder
complexo (autoridade técnica, subordinação institucional, lógicas capitalistas,
organização burocrática do trabalho etc.).

O paradigma de cuidado operante, portanto, é sempre um híbrido negociado.


Um agenciamento complexo diretamente influenciado pelo campo de poder instituido
nas relações entre as partes. É que a ordem das relações, que complexamente
definem seus próprios limites, nunca é posta unilateralmente, de forma que as
fronteiras entre o um e o outro estão sempre em disputa. Ou seja, por mais que um
modus faciendi busque sobrepujar, os valores humanos (como o cuidado, a empatia,
a sensibilidade etc.) acabam por também impor uma redefinição dos limites em
relação à dominação e à exploração. Das relações, fundamentalmente emergem
reflexões menos ligadas às tecnologias de cuidado e mais próximas do campo da
ética: o que é ou não é permitido? Por quê? Quem controle e como controla a
produção das normas na relação? A quem e de que forma a constituição das
relações acabam por submeter?

51
Para SACK (2011) o grande fundamento da territorialidade está na intenção, ou seja, na posição
deliberada e estratégica de acionar recursos espaciais para influenciar outros – uma positividade. No
nosso caso, porém podem-se observar relações onde a classificação, delimitação e controle de área
se faz a partir de uma negatividade, ou seja, sem que necessariamente o louco objetive afirmar sua
territorialidade. Uma territorialidade instituída ao qual o mesmo não necessariamente se sente
componente, ator, ou sequer concorda. Outro problema consiste na padronização e leitura
homogeneizadora da abordagem, onde os grupos populacionais são analisados uniformemente,
posto que dominados pelo mesmo controle.
141
E é por isso, que podemos afirmar que, a moradia de uma família (a casa)
pode ser ―colonizada‖ e requalificada por toda uma territorialidade institucional de
conteúdo manicomial, configurando uma extensão do Hospital.

Contudo, é importante entender que um dado espaço não é ou torna-se


território – no sentido de sua natureza. Se os territórios se constituem como campos
de forças, sua duração depende das relações sociais das quais projeta. Territórios
que podem ser efêmeros, de longa duração e até cíclicos.

Ora, se os encontros são expressos como relações de poder, e o poder é


plural, multifário, multidimensional (nunca binário) e sempre incorpora a dimensão do
contra-poder, é razoável aceitar que, apesar da territorialidade instuticional se fazer
mais forte em dado momento, a casa não é, mas ‗está sendo‘ predominantemente
uma extensão do ambiente hospitalar – o que não significa negar as outras facetas
das relações sociais presentes, e até outras territorialidades e multiplos territórios
configurados.

Tal como as relações não são unívocas, os espaços também incorporam


multiplos territórios que carregam sobreposições e disputas e conflitos 52:

Enquanto continuum dentro de um processo de dominação e/ou


apropriação, o território e a territorialização devem ser trabalhados na
multiplicidade de suas manifestações, que é também e, sobretudo,
multiplicidade de poderes, neles incorporados através de multiplos
sujeitos envolvidos. (...) Portanto, todo território é, ao mesmo tempo e
obrigatoriamente, em diferentes amálgamas, funcional e simbólico,
pois as relações de poder têm no espaço um componente
indissociável tanto na realização de ‗funções‘ quanto de ‗significado‘.
(HAESBAERT, 2014, p. 59-60)

A situação se torna ainda mais complexa se retomarmos as noções de


Territorializações mais flexíveis (sobreposição territorial, seja mais sucessiva ou
simultânea) e Territorializações efetivamente múltiplas (multiterritorialidade em
sentido estrito) – o que implica na diferenciação dos múltiplos territórios (ou
multiplicidade territorial) e a multiterritorialidade.

52
Um exemplo clássico consiste na analogia acerca da quadra poliesportiva proposta por SOUZA
(1995)
142
Em Haesbaert (2014), os múltiplos territórios se manifestam quando diversos
atores se encontram em regime de disputa pela instituição de um modo particular de
exercer legitimamente o domínio. Aparece assim uma série de ―jurisdições‖ num
mesmo espaço, refletindo o jogo de poder em cena.

Neste cenário, uma multiplicidade de territorialidades coabita e pode conviver


num mesmo espaço, definindo uma multiplicidade territorial sempre em disputa, que
internamente se conflita e/ou se reafirma e/ou se solidariza. Manifestam-se ao
conjunto das relações sociais nas diferentes percepções de domínio do espaço
(jogos mais concretos, materiais-funcionais, e jogos mais simbólicos de poder):

É o próprio Zambrano53 quem afirma, mais adiante, que o espaço


pode ser concebido como ‗cenário de pugna entre territorialidades,
isto é, entre jurisdições, reais e imaginadas, que incidem sobre os
territórios estruturados e habitados‘. Sugere então que ‗os territórios
plurais [múltiplos territórios] são uma multiplicidade de espaços
diversos, culturais, sociais e políticos, com conteúdos jurisdicionais
em tensão, que produzem formas particulares de identidade
territorial‘ (p. 18), um pouco como se todo território formalmente
instituído implicasse no convívio de múltiplas territorialidades. (ibid.,
p. 74)

A partir daí, a ―multiplicidade territorial‖ pode ser vista através dos ―múltiplos
territórios‖, manifestos, no geral, pelo menos de duas formas: como ―conjunto
justaposto [sucessão] de diversos territórios compreendidos em seu interior‖ – como
no exemplo, citado em nota, da quadra poliesportiva; e, como ―conjunto superposto
[simultaneidade] de vários territórios (ou territorialidades) cuja abrangência pode ir
bem além de seus limites físicos‖ (ibid., p. 75)54.

Nota-se que ambos os casos podem fazer coro ao exemplo construído


anteriormente a respeito as disputas de territorialidade que podem se configurar no
ambiente da casa do usuário: por um lado, caso a territorialização tendesse mais
para uma transfiguração do ambiente (nunca total) numa expansão do território

53
C.f. ZAMBRANO, C. Territorios plurales, cambio sociopolítico y governabilidad cultural. Boletim
Goiano de Geografia, vol. 21, n. 1, 2001.
54 Vale ressaltar, que para o autor, os territórios-rede são sempre territórios múltiplos, ―na medida em
que podem conjugar territórios-zona (manifestados numa escala espacialmente mais restrita) através
de redes de conexão (numa escala mais ampla)‖ (HAESBAERT, 2014, p. 83).

143
institucional, a casa se configuraria também como ambiente do habitar – se trataria
mais de uma justaposição de territórios; por outro, caso a disputa pela
territorialização tendesse à construção de uma cena onde os jogos de poder fossem
relativamente mais equilibrados (embora nunca estável), a multiplicidade territorial se
explicitaria na condição de simultaneidade entre as territorialidades institucional e do
usuário em seu habitar – o que implica diretamente no poder contratual do usuário
em relação à intervenção terapêutica.

Por outro lado, a inserção das cidades na globalização tem permitido uma
ampliação das relações possíveis, radicalizando as relações e contradições entre ―a
ordem próxima e a ordem distante‖ (no vocabulário conceitual de Henri Lefebvre), ou
das ―verticalidades e horizontalidades‖ (no vocabulário conceitual de Milton Santos).
Esta realidade tende a produzir cotidianamente em lugares marcados pela
desigualdade sócio-espacial, a convivência paradoxal de uma realidade
―cosmopolita‖ e certa urbanidade de ordem mais proximal. E, mesmo que
consideremos que a maior parte dos usuários em Saúde Mental não estão inseridos
ou não conseguem se apropriar dos menores níveis das redes que envolve uma
multiterritorialidade no contexto da globalização, ainda assim, estão cotidianamente
imersas em um conjunto de relações e influências desse ethos ―pós-moderno‖ – seja
no contato diário com seus médicos (classe que carrega todo um capital econômico,
social e cultural privilegiado) ou no dia a dia nas viagens de ônibus etc.

Quanto à multiterritorialidade, Haesbaert (2014, p.76) problematiza a


necessidade de distingui-la em seu sentido amplo (como ―a condição genérica da
multiplicidade territorial‖, enquanto capacidade de territorialização a partir da
experenciação de múltiplos territórios – ou ―multipertencimento territorial‖) e em seu
sentido mais estrito (como ―experiência efetiva de múltiplos territórios e/ou
territorialidades‖, enquanto capacidade de territorialização que se efetiva na
multiplicidade de territórios e/ou territorialidades), mais radicalizada no
contemporâneo.

Em relação à primeira, a partir do momento em que experimentamos vários


territórios e/ou territorialidades ao mesmo tempo, produzimos uma territorialização
múltipla,

144
Não é exatamente uma novidade, pelo simples fato de que se o
processo de territorialização parte do nível individual ou de pequenos
grupos, toda relação social implica numa interação territorial, num
entrecruzamento de diferentes territórios. Em certo sentido, teríamos
vivido sempre uma ‗multiterritorialidade‘. (HAESBAERT, 2004, p.
344)

Trata-se então, mais de uma multiterritorialidade decorrente da junção de


diversos territórios experenciados em diferentes dimensões e escalas:

É raro que apenas um território seja suficiente para assumir


corretamente todas as dimensões de uma vida individual ou de um
grupo. O indivíduo, por exemplo, vive ao mesmo tempo ao seu
‗nível‘, ao nível de sua família, de um grupo, de uma nação. Existe,
portanto, multipertencimento territorial. (BAREL, 1986, p. 135 apud
HAESBAERT, 2014, p. 77).

Já a multiterritorialidade em seu sentido estrito, da ―condição pós-moderna‖,


tem íntima relação com a intensificação dos fluxos na sociedade globalizada e a
redução das barreiras espaciais, a ―compressão espaço-tempo‖ (HARVEY, 1992),
que envolvem todo um conjunto de práticas espaciais cotidianas cada vez mais
multiescalares e multidimensionais:

Se para Lacoste ‗as práticas sociais se tornaram mais ou menos


confusamente multiescalares‘ (p. 48-49), muitos, contudo,
encarregam-se de desfazer a confusão desse novelo e, retomando
seus fios, tecer sua própria rede, ou melhor, seu(s) próprio(s)
território(s)-rede(s) – que implicam, sem dúvida, assim, a vivência de
uma multiterritorialidade, pois o território-rede em geral resulta da
conjugação, em uma escala diferente, de territórios-zona
descontínuos. Além disso, mais do que superposição espacial, como
enfatiza o autor, trata-se hoje, principalmente com o novo aparato
tecnológico-informacional à nossa disposição, de uma
multiterritorialidade não apenas por deslocamento físico, como
também por ‗conectividade virtual‘, a capacidade de interagirmos a
distância, influenciando e, de alguma forma, interagindo com e
integrando outros territórios. (...)A multiterritorialidade contemporânea
inclui assim uma mudança não apenas quantitativa – pela maior
diversidade de territórios que se colocam a nosso dispor (ou pelo
menos das classes e grupos mais privilegiados) –, mas também
qualitativa, na medida em que temos hoje a possibilidade de
combinar de forma inédita a intervenção e, de certa forma, a
vivência, concomitante, de uma enorme gama de diferentes
territórios e/ou territorialidades. A chamada condição pós-moderna
influi assim uma multiterritorialidade. (HAESBAERT, 2014, p. 79)

145
A multiterritorialidade no sentido estrito se efetiva, portanto, em duas
possibilidades: como ―multiterritorialidade sucessiva‖, se mais definida de acordo
com a mobilidade física extremamente facilitada; e, como ―multiterritorialidade
simultânea‖, se mais definida de acordo com a sua ―mobilidade virtual‖.

Contudo, a multiterritorialidade implica em ―manter as conexões, físicas e/ou


informacionais, entre os múltiplos territórios que, combinados, conformam sua
multiterritorialidade‖ (HAESBAERT, 2014, p. 80), o que inclui uma identificação
territorial que ocorre ―muitas vezes no/com o próprio movimento‖.

Trata-se de

Vivenciar essas múltiplas modalidades, de forma simultânea (no caso


da mobilidade ‗virtual‘, por exemplo) ou sucessiva (no caso da
mobilidade física), num mesmo conjunto que, no caso dos indivíduos
ou de alguns grupos, pode favorecer, mais uma vez (agora não mais
na forma de territórios-zona contínuos), um tipo de ‗experiência
espacial integrada‘.(...) O mais importante a destacar na nossa
experiência multiterritorial contemporânea é o fato de que não se
trata simplesmente, como já ressaltamos, da imbricação ou da
justaposição de múltiplos territórios que, mesmo recombinados,
mantêm sua individualidade numa espécie de ‗todo‘, como produto
ou somatório de suas partes. A efetiva multiterritorialidade, hoje,
seria uma experiência profundamente inovadora a partir da
compressão espaço-temporal que permite ‗(...) pela comunicação
instantânea, contatar e mesmo agir [como no caso de grandes
empresários que praticamente ‗dirigem‘ suas fazendas ou firmas à
distância, via Internet e outras modalidades informacionais] sobre
territórios completamente distintos do nosso, sem a necessidade de
mobilidade física. Trata-se de uma multiterritorialidade envolvida nos
diferentes graus daquilo que poderíamos denominar como sendo a
conectividade e/ou vulnerabilidade informacional (ou virtual) dos
territórios (HAESBAERT, 2004, p. 345, apud, Ibid., p. 81-83)

Desta forma, a multiterritorialidade, tal qual o território e o poder, e enquanto


―um processo de reterritorialização espacialmente descontínuo e extremamente
complexo‖ (HAESBAERT, 2004, p. 214), também varia de acordo com a
predominância de uma dimensão mais concreta (como na tele-ação, ação à
distância) à de uma dimensão mais simbólica (como o hibridismo na identificação
territorial, ―multi-identitários‖):

O que importa é ter acesso, ou aos meios que possibilitem a


maior mobilidade física dentro da(s) rede(s), ou aos pontos de
146
conexão que permitam ‗jogar‘ com as múltiplas modalidades de
territorialidade existentes, criando a partir daí uma nova
(multi)territorialidade. (HAESBAERT, 2014, p. 81)

Ora, embora a flexibilidade territorial do mundo contemporâneo se posta


como hegemônica, não se trata de uma relação universalmente difundida na
sociedade (ou ―desigual e combinadamente‖ difundida na sociedade):

O mais importante neste debate diz respeito às implicações políticas


do conceito de multiterritorialidade, suas repercussões em termos de
intervenção na realidade concreta ou em termos de estratégias de
poder. Como já afirmamos, é necessário distinguir, por exemplo,
multiterritorialidade potencial (a possibilidade de ela ser construída
ou acionada) da multiterritorialidade efetiva, real-izada: (...) ‗Assim,
enquanto uma elite globalizada tem a opção de escolher entre os
territórios que melhor lhe aprouver, vivenciando efetivamente uma
multiterritorialidade, outros, na base da pirâmide social, não têm
sequer a opção do ‗primeiro‘ território, o território como abrigo,
fundamento mínimo de sua reprodução física cotidiana‘ (Haesbaert,
2004:360). Isso não significa, entretanto, que a multiterritorialidade
seja ‗boa ou má‘ em si mesma, e que os grupos subalternos também
não sejam, muitas vezes, obrigados a circular por múltiplos territórios
e construírem, assim, à sua maneira, sua ‗multiterritorialidade‘ –
insegura – marcada, também por traços de desterritorialização no
sentido de perda de controle e/ou referências territoriais.
(HAESBAERT, 2004, p. 85)

Mais do que ressalva, esta questão implica diretamente nas possibilidades de


experiências, na maioria das vezes, restritas de acesso aos mecanismos para
inserção nestas redes que qualificam a multiterritorialidade efetiva, atual 55. É preciso
lembrar que mais do que a capacidade econômica, o controle, gestão e acesso às
redes técnicas são mediados também por um conjunto de expertises, muitas vezes
alheias ao domínio e conhecimento das camadas da população subalternizadas.

Portanto, o que nos importa é compreender que a visão tradicionalmente


associada a práticas territoriais e seus efeitos e influências expressos a partir da

55
―Partindo do pressuposto de que todo poder social é um poder sobre o espaço, os sociólogos
Pinçon e Pinçon-Charlot (2000) afirmam que a burguesia contemporânea (reconhecida a polêmica do
conceito) se reproduz ao mesmo tempo pela proximidade residencial (em bairros e/ou condomínios
seguros e plenos de amenidades) – territórios-zona no seu sentido mais tradicional – e pela
multiterritorialidade, ou seja, pelo usufruto de múltiplos territórios, reveladores de uma dupla inserção
social, tanto no sentido de uma profunda memória familiar quanto de uma intensa vida mundana.
Essa multiterritorialidade também seria visível através do caráter de ‗classes internacional‘, tanto no
sentido da internacionalização da vida profissional ou de negócios quanto de lazer, via turismo
internacional.‖ (HAESBAERT, 2014, p. 81)
147
lógica predominantemente da proximidade e vizinhança, cada vez mais demanda o
entendimento das relações de interdependência com outros territórios e espaços
direta e instantaneamente conectados à longa distância – o que abre espaço
também para o ―potencial de possibilidades políticas inovadoras que eles exigem ou
implicam‖ (HAESBAERT, 2014, p. 85).

Em suma,

O território, como espaço focalizado a partir das relações de poder,


seja de dominação, seja de apropriação (nos termos de Lefebvre),
manifesta hoje um sentido multiescalar e multidimensional que só
pode ser devidamente apreendido dentro de uma concepção de
multiplicidade, tanto na perspectiva da convivência de múltiplos
(tipos) de território quanto da construção efetiva da
multiterritorialidade. (...) [Porém,] Devemos, contudo, complexificar
essa leitura, na medida em que nem só de ‗níveis‘ de
multiterritorialidade vive a sociedade contemporânea. Velhas
estratégias de reclusão e/ou contenção territorial (...) de alguma
forma também se reconfiguram e se multiplicam, ao lado de
movimentos reacionários de (relativo) fechamento territorial em torno
de relações biunívocas entre território e identidades culturais tidas
como essencializadas. (HAESBAERT, 2014, p. 86) [palavra
adicionada e grifada]

A partir daí, uma série de conflitos podem emergir neste bojo: a


territorialização proposta como demarcação das áreas adstritas aos serviços de
saúde e/ou aos projetos terapêuticos não necessariamente comporta os espaços
cotidianos dos sujeitos, que lhes servem como base para construção de seus
territórios. Um exemplo: a adscrição dos serviços pode incorporar meu bairro (o que
me permite recorrer àquele serviço), contudo, minhas redes de sociabilidade podem
obrigar a um projeto terapeutico articulado a minha família, residente de
Diamantina/MG, por exemplo.

Mais ainda, considerando a produção de vínculos sociais primários como


fundamento de uma terapeutica adequada ao paradigma psicossocial, a
transferência deresidência de um bairro a outro, do ponto de vista da territorialidade,
implicaria em estar situado em outra territorialidade e, desta forma, referenciado à
equipamentos outros. Outros equipamentos, outros médicos. Toda uma série de

148
relações afetivas que devem ser reconstruídas em um novo lugar, posto a mudança
de endereço.

Para além, conforme já dito anteriormente, os paradigmas de cuidado


também não se autodeterminam com o reordenamentodos serviços e equipamentos.
O rearranjo espacial promovido pelo modelo assistencial substitutivo per si não
determina necessariamente as práticas, apesar de influenciá-las. Como vimos
anteriormente, tomar o paradigma de cuidado operante sob o ponto de vista de um
híbrido negociado, implica em assumir que as formas de funcionamento dos serviços
e equipamentos nas Redes tem correlação direta com as relações micropolíticas
esboçadas no cotidiano institucional. Neste sentido, as zonas de tensão entre os
paradigmas de cuidado também estão incorporadas nas estruturas espaciais,
abrangendo todo o conjunto de práticas institucionais, cujos campos de atuação
estendem suas territorialidades para além dos equipamentos. Por isso, não
necessariamente correligionárias ou restritas ao domínio de um ou outro serviço –
podendo até extrapolar a espaços até então alheios ao domínio institucional, como a
casa, a rua, a vizinhança.

Esses exemplos de possíveis desafios colocados para a abordagem territorial


na Saúde Mental obrigam a um exercício importânte de método.

Como vimos ao longo dos capítulos anteriores, a polissemia do conceito de


território presente nas políticas de saúde mental, após a institucionalização da
Reforma, deve sempre ser problematizada e decupada para facilitar a interpretação
das orientações normativas – a partir de que conceituação de território orientar
minhas práticas? Do território adscrito para gestão, planejamento e execução dos
serviços? Da multiplicidade territorial do usuário? Do território enquanto
materialidade que concerne ao transcorrer do cotidiano comunitário do usuário, ou
seja, o território na dimensão de seu uso? Do território normado pelo Estado, no
tocante às competências político-administrativas e jurisdicionais relativas à autarquia
de saúde?

Vimos também, que de acordo com cada conceituação do território, diferentes


significados de territorialidade emergem: a territorialidade dos serviços (área de
adscrição); a (multi)territorialização, posto que processo, do usuário; a territorialidade

149
como aquilo que da coerência ao ―território usado‖; a territorialização como
instituição da norma – da ―territorialização político-funcional‖.

Portanto, se é fundamental explicitar qual conceito de território estamos


operando, para compreensão de que tipo de territorialidade ele está ligado, é
fundamental o entendimento, também, de que, a concepção de território e
territorialidade, no caso da Saúde Mental, é direta e irreversivelmente ligada a qual
concepção de redeestaremosoperando: da rede de serviços? Da estrutura potencial
da rede rizomática? Ou, das redes de sociabilidade a qual o sujeito em condição de
sofrimento desenrola suas práticas cotidianas?

É fundamental, antecipadamente afirmar que uma redese define tanto por seu
arranjo quanto por seus fluxos, de forma que não pode ser definida apenas pelos
seus equipamentos (que seriam mais seus nós), mas pela sua conexidade, pela sua
capacidade de conectar – ou seja, de fazer circular e comunicar. Assim, a existência
e distribuição dos equipamentos de saúde não constitui em si uma rede, que só
começa a operar como tal a partir do momento em que há circulação e comunicação
entre os mesmos. Mas, mesmo que os equipamentos sejam postos em
comunicação, o que qualifica uma rede sempre é primeiramente o conteúdo que
veicula. Estas afirmações incutem uma série de discussões, como, por exemplo, se
há de fato uma rede, a partir do momento que um equipamento que fora concebido
para funcionar em rede acaba por, em suas práticas institucionais, fechar-se em
suas próprias demandas internas, tomando para si e isoladamente as demandas dos
usuários e competências dos demais serviços e, desta forma, não comunicando e
inviabilizando a circulação.

Em suma, e invertendo a afirmação: a concepção de rede a qual será


operada implica na concepção de território acionada que, por sua vez, alude a certa
concepção e relações de territorialidade específicas.

Ressalvo: embora tenhamos buscado valorizar uma abordagem teórico-


metodológica de caráter mais analítico-especulativo (o que não quer dizer alheia à
realidade), o recurso representacional também pode ser um instrumento de valor
para facilitar o processo de entendimento e organização da argumentação teórica.

150
Assim, do ponto de vista da abstração gráfica, poderíamos representar essas
diferentes relações entre a rede e território e territorialidade, tomando como base a
delimitação de três diferentes regiões de saúde (―A‖, ―B‖ e ―C‖), com seus devidos e
diversos equipamentos – consideramos aqui, que diferentes regiões de saúde
respondem por diferentes quantidades e lógicas de distribuição dos equipamentos.

Do ponto de vista das ―redes de serviços‖, a representação tende a adquirir


um perfil de circulação de introversão:

Figura 8- Rede de Serviços

Nota-se que, cada unidade regional enquadra uma territorialidade adscrita,


que não admite sobreposições. A constituição da rede se daria sempre a partir da
circulação entre os equipamentos, porém deliberada pelos serviços. Desta forma, a
comunicação entre os serviços colocaria em circulação o usuário ―de um serviço a
outro‖, de acordo com o estabelecido entre os mesmos. Cada ―região de saúde‖
tende a conformar um ―todo‖, se limitando a relações com as demais apenas pela
relação de vizinhança e suas implicações – por exemplo, a cessão de um usuário de
uma jurisdição à outra por motivo de mudança de endereço.

151
Contudo, do ponto de vista da rede rizomática, possivelmente obteríamos
outra representação, mais adequada a um perfil de circulação de trocas potenciais:

Figura 9 – Rede rizomática

Aqui, a conexidade entre os serviços é potencial (linhas tracejadas) de acordo


com as escolhas do sujeito. Apesar da territorialidade adscrita dos serviços, a lógica
de apropriação do usuário não necessariamente se inscreve em seus limites,
podendo extrapola-la.

Na representação, optamos por apresentar o fechamendo de um serviço


numa região (―C‖), que pode levar o usuário a procurar o mesmo serviço em região
vizinha (―A‖), cuja jurisdição e territorialidade de serviços não abarcam o atendimento
àquele usuário.

Outros casos também poderiam ser representados, como quando um médico


ao longo de anos cria um vínculo com o usuário e é transferido ou remanejado para
outro serviço referente à outra territorialidade. Neste caso, por exemplo, como o
princípio da construção de vínculos é fundamental para a abordagem terapêutica, de
acordo com o paradigma psicossocial – o que se torna um problema.

152
O caso ainda poderia ser inverso, como no caso de mudança de residência
por parte do usuário – o que implica na adscrição em outra territorialidade
institucional – que, contudo, por motivos de continuidade de seu projeto terapêutico,
insiste em ser atendido em seus antigos equipamentos.

Por fim, do ponto de vista das ―redes de sociabilidade‖, a representação se


torna ainda mais complexa, envolvendo um perfil de circulação de extroversão

Figura 10- Rede de sociabilidade

Nota-se que o projeto terapêutico pretensamente construído de forma


integrada e em rede com os serviços de saúde que o usuário demanda, implica
necessariamente na articulação com suas redes de sociabilidade, de forma a buscar
articular e intervir no cotidiano do usuário em seus espaços de vida.

A representação aqui tenta abarcar esse movimento de saída dos


equipamentos para o território dos usuários.

Cabe ressaltar, mesmo que aqui não esteja representada a


(multi)territorialização do usuários, não podemos perder de vista esta dimensão – o
que deixa a relação ainda mais complexa.

153
Como se trata de um esforço de abstração, representamos aqui alguns
possíveis casos.

Em ―A‖, nota-se que as redes de sociabilidades dos usuários que são


buscadas pelos projetos terapêuticos elaborados pelos serviços estão referenciadas
à territorialidade dos mesmos. Porém, em ―C‖, a necessidade de articulação envolve
um extrapolamento da territorialidade adscrita.

Partindo do pressuposto de que, de acordo com o princípio da universalidade


e da regionalização, não pode haver partes do território nacional cujas políticas de
saúde não estejam presentes, inevitavelmente, a busca de um projeto articulado
com as redes de sociabilidade, neste caso, esbarra na territorialidade adscrita
vizinha.

Assim, chegamos em ―B‖, onde a questão acima é representada de forma


mais explícita. Neste contexto, consideramos que a redução dos termos esboçados
à noção de ―Rede de Atenção Psicossocial‖ não corresponde à complexidade das
relações que a abordagem territorial na Saúde Mental incute à questão da rede,
território e territorialidade.

Trata-se da necessidade de aludir à que dimensão (embora não sejam


indissociáveis) deve-se jogar mais luz, de acordo com o fenômeno a ser analisado.
Comporta uma questão de escala.

A partir das críticas à noção da escala exclusivamente vinculada a uma


proporção matemática de determinada realidade, uma série de debates tem sido
empreendidos (LACOSTE, 1988; CASTRO, 1995; MOORE, 2008; SANTOS, 2011;
dentre outros) no sentido do entendimento da constituição da escala como um
―artifício analítico que dá visibilidade ao real (...) [por] expressar a representação dos
diferentes modos de percepção e de concepção do real‖ (CASTRO, 1995).

Embora as reflexões nem sempre sejam concordantes, tomada enquanto


problema, de forma geral os debates focados em uma reflexão crítica acerca da
escala partem da premissa dessa como recurso que visibiliza ou obscurece
diferentes elementos do real, sendo, muitas das vezes, um instrumento privilegiado
de regulação das práticas sociais, em vistas ao êxito em relação a objetivos políticos
deliberados.

154
Nota-se, portanto, que a questão da adoção (ou construção) de uma escala
envolve fundamentalmente uma intencionalidade. Ou seja, que a problemática da
escala está situada primariamente na constituição da consciência do real e, por fim,
opera sobre esta mesma consciência do real, re-significando percepções,
sensibilidades e sentidos atribuídos aos fenômenos. Trata-se, em suma, de um
instrumento deliberado de apreensão e tomada consciência – um recorte a partir do
qual o real ganha sentido. Invertendo a afirmação: a produção de sentido sobre o
real envolve fundamentalmente uma questão de escala. Ao mesmo tempo em que
uma dada conotação política é assumida a partir de sua instrumentalizada. Ou seja,
a valorização de uma determinada escala da organização, planejamento,
intervenção e/ou reflexão confere maior visibilidade a determinados temas e
questões, o que produz uma série de efeitos de poder – daí o caráter
eminentemente político. Desta forma, a mudança de escala representa uma
mudança no próprio nível de conceituação (LACOSTE, 1988).

A questão se torna ainda mais complexa se admitirmos que, se por um lado a


transformação nas práticas institucionais deve ser orientada para a transformação
das práticas profissionais, por outro, o exercício profissional ―por ser uma prática
social – não se explica [apenas] pelas atividades exercidas, precisando ser
articulada com a estrutura social para seu desvendamento‖ (BRAVO, 1998, p. 36).

Se os profissionais de saúde ―podem ser considerados como articuladores na


mediação Estado-Sociedade Civil e sujeitos sociais e políticos na defesa do direito
universal à saúde‖ (Idem); ao mesmo tempo, segundo LUZ (1994, p. 88) para
compreendermos as políticas de saúde mental é preciso ter claro que elas
―mediatizam saberes e práticas institucionais distintos, com uma evolução histórica
específica, e que tanto esses saberes, quanto as práticas de intervenção
institucional que eles originam não são monolíticos e nem coerentes‖.

Daí resulta muitas das contradições entre discurso (normas, programas etc.) e
práticas:

Não é a comunidade terapêutica, enquanto organização estabelecida


e definida segundo novos esquemas, distintos dos da psiquiatria de
asilo, que garantirá o caráter terapêutico de nossa ação, mas sim o
tipo de relação que se instaurará no interior desta comunidade. Esta
se converterá em terapêutica na medida em que souber discernir os
155
fatores de violência e de exclusão presentes tanto no instituto como
na sociedade. (BASAGLIA, s/d, p. 40)

Geovanni Berlinguer (1976), militante do Partido Comunista Italiano e um dos


grandes influenciadores dos debates da Saúde Coletiva no Brasil, elaborou uma
reflexão acerca dos transtornos mentais marcada por quatro pontos cruciais:
primeiro, do desacordo e baixa credibilidade e certeza nos diagnósticos; segundo,
da dificuldade de assertividade dos diagnósticos frente à competência científica do
médico, das fronteiras incertas entre saúde e doença e da relação de poder
assumida entre médico e paciente; e, em terceiro lugar, do paradoxo que se
configura a partir do momento em que a profissão médica reduz-se a uma atividade
mercantil, onde se estabelece uma proporção direta entre renda e número de
doentes, convertendo a relação de cuidado em um jogo de mercado que envolve
serviços e instituições públicas, consultórios e clínicas particulares (por vezes ―sem
fins lucrativos‖) e serviços de diagnóstico.

Por fim, como quarto e último ponto, a relação entre sociedade e loucura, que
se expressa na forma como a população em geral lida com o doente – já que a
lógica de (re)produção da sociedade tem impulsionado cada vez mais caráteres
(individualismo e competitividade, efetividade e eficácia nas relações) dispares a
sujeitos em condições de fragilidade e, muitas vezes, absolutamente marcados pela
violência institucional.

Para o autor supracitado, há três razões para a psiquiatria ter extrapolado os


limites da especialidade médica para influenciar as relações sociais, valores e
costumes e a cultura geral no cotidiano da sociedade: a primeira delas seria o
aumento notável das condições definidas como psiquicamente anormais, em função
de fronteiras cada vez mais incertas e imprecisas entre o diagnóstico de saúde e o
de transtorno mental; a segunda seria o uso crescente de meios e de pessoal de
formação científica para o controle e a manipulação da mente humana através da
informação, da publicidade, da educação e da indústria cultural - aos especialistas é
confiada a tarefa de adequar os homens às exigências do poder, de segregar e
reprimir os que recusam as suas leis; e a terceira razão, a revolta de uma parte
destes especialistas diante da função carcerária que lhes foi atribuída, na época.

156
Ou seja, apesar das práticas institucionais aparentemente manifestarem-se
como produto de relações mais imediatas, elas se inserem no conjunto das relações
sociais mais amplas – o que obriga a considerar uma leitura de cunho mais
estrutural (macroescalar) das linhas de determinação que influenciam os sentidos
daquelas.

Assim, considerar os entremeios das orientações das normativas e práticas


profissionais, para o entendimento das determinações que impelem ao foco
privilegiado em um ou outro sentido de abordagem territorial na saùde mental,
envolve a tentativa de clarificar as diferentes variáveis que tendem a influenciar a
tomada de decisão dos trabalhadores em seu cotidiano.

Frente a este quadro, imprescindível firmar que entre a demanda dos usuários
à procura dos serviços de saúde e os trabalhadores, há uma série de mediações
―cada vez mais preenchida por procedimentos controlados pelo chamado ‗complexo
médico-industrial‘‖ (GUIMARÃES; PICKERNHAYN; LIMA, 2014) 56, onde a
assistência e a saúde confundem-se com a produção de consultas e exames e o
desenvolvimento de novas tecnologias e saberes impulsionadores do patamar de
ganho de capital das corporações e dos interesses privados – o que produz e ao
mesmo tempo se expande com o consumo de medicamentos, equipamentos e
serviços (medicalização da sociedade). Falamos aqui, da extensa cadeia produtiva e
rede de corporações atuantes no setor de oferta de assistência e atenção médica,
bem como os serviços de apoio e diagnóstico.

Abordar a prática médica reconhecendo-a como prática social inserida no


contexto da estrutura capitalista, obriga a reconhecer como se articulam as
inovações no campo da saúde (de forma ampla) e saúde mental (de forma mais
específica) com o processo de acumulação ampliada do capital. É também observá-

56
O conceito citado trata-se do exercício de visibilização da dimensão política do exercício
profissional, sendo utilizado para visibilisar as múltiplas e complexas inter-relações estabelecidas
entre diversos atores do setor saúde e destes com os demais setores da economia (assistência
médica, redes de formação profissional, indústria farmacêutica e indústria produtora de equipamentos
médicos e de instrumentos de diagnóstico). Segundo VIANNA (2002, p. 376), o ―Complexo Médico-
Industrial (CMI) é um produto histórico e particular da evolução do sistema de saúde. É um estágio
onde, devido à necessidade de reprodução dos capitais investidos, as práticas capitalistas privadas
tornaram-se hegemônicas e determinantes das funções, papeis e relações de cada ator no interior do
próprio sistema‖. Aqui, a inovação tecnológica (reafirmada e demandada pelo saber médico) é o
grande motor. C.f. DONNANGELO, Cecilia e PEREIRA, Luiz. Saúde e sociedade. 2ª
Edição, São Paulo: Duas Cidades, 1979.
157
la do ponto de vista da lógica da reprodução das condições de produção (restituição
e adequação da mão de obra), do mercado (enquanto todo um complexo industrial)
e do lucro (do ponto de vista da mercantilização da saúde – planos de saúde,
medicamentos, serviços de diagnósticos etc.)57.

O atendimento primário aos sujeitos em condição de sofrimento desencadeia


uma série de outros serviços, e até influenciam a produção de informações de
interesse epidemiológico. Porém, são as corporações multinacionais quem
monopolizam as inovações:

É importante reconhecer que muitas dessas tecnologias, introduzidas


na medicina, possuem um custo muito elevado em relação aos
benefícios produzidos e não provocam nenhuma alteração
significativa nos perfis de morbimortalidade dos países (LANDMANN,
1986). Por outro lado, a complexidade tecnológica crescente dos
equipamentos incorporados às práticas médicas faz com que não
haja condições de produzi-los no nível local, criando demandas de
consimo que pressionam o Estado a um esforço de expansão de
seus serviços e sistemas de controle, a partir de parâmetros técnicos
dados pela tecnologia importada ou pela atuação direta de grandes
grupos econômicos. (GUIMARÃES, PICKERNHAYN; LIMA, 2014, p.
89-90)

São os próprios médicos quem integram os conselhos governamentais e, ao


mesmo tempo, em muitas corporações, avaliam as novas tecnologias, expressando
opiniões em artigos e conferências.

Assim, a demanda pelas inovações (equipamentos e processos) é induzida


pelos mesmos que produzem essas novas tecnologias, ―tornando, prematuramente,
obsoletas [certas] as técnicas de produção e podendo afetar padrões de
comportamento e a própria estrutura social‖ (ibid.,p. 90)

Conforme os autores (GUIMARÃES, PICKERNHAYN; LIMA, 2014, p. 91):

A tudo isto, está ligada a ideia de que a incorporação dos frutos do


desenvolvimento tecnológico às práticas de saúde é o caminho para
a melhora da saúde da população, tornando mais frequente o
recurso aos medicamentos e exames laboratoriais e a incorporação
de equipamentos e instrumentos médico-hospitalares, como

57
O tema foi bastante discutido em textos tomados como clássicos, como em Illich (1975), Arouca
(1975), Donnangelo (1975) e Berlinguer (1978).
158
exigência da boa atenção médica. Ao se centrar a atenção na
assistência médica, recria-se a sua necessidade em planos de
complexidade tecnológica mais sofisticada. Esta tendência responde
aos avanços do conhecimento médico com suas repercussões
imediatas nos meios de diagnóstico e terapêutica e gera uma
expectativa de acesso a essa tecnologia na população.

É mais lucrativo para os médicos acionar tecnologias mais sofisticadas do que


estabelecer um contato mais prolongado com o usuário, ao mesmo tempo em que
mecaniza sua prática, dando a impressão ao usuário de uma assistência de alto
nível de excelência, na maioria das vezes desnecessária.

Mesmo considerando sua importância, Basaglia (s/d) traz uma abordagem


reflexiva acerca da questão da medicalização do processo terapêutico do ponto de
vista da supervalorização do tratamento farmacológico:

Uma visão de conjunto dos hospitais psiquiátricos basta para revelar-


nos que, em linhas gerais, a terapia farmacológica deu, em todas as
partes, resultados ao mesmo tempo surpreendentes e
desconcertantes. Os medicamentos exercem uma indubitável ação,
cujos resultados puderam ser vistos em nossos asilos através da
diminuição do número de doentes ‗associados‘ ao hospital. Porém –
a posteriori pode-se começar a comprovar as modalidades de sua
ação, tanto ao nível do doente como ao nível do médico. Os
remédios atuam simultaneamente sobre a ansiedade dos doentes e
sobre a ansiedade de quem cuida dele, pondo deste modo em claro
uma situação paradoxal: por meio dos medicamentos que administra,
o médico acalma sua própria ansiedade frente a um doente com o
qual não sabe estabelecer relações, nem achar uma linguagem
comum. Deste modo, compensando mediante uma nova forma de
violência sua incapacidade de controlar uma situação que ainda julga
incompreensível, continua aplicando, sob a fórmula aperfeiçoada, a
ideologia médica da objetivação. O efeito ‗calmante‘ dos
medicamentos fixa o doente em seu papel passivo de doente. (...)
Por outro lado, os medicamentos atuam sobre o doente atenuando
sua percepção da distância real que o separa do ‗outro‘, o que lhe
permite entrever uma possibilidade de relação que, de outro modo,
lhe seria negada. (ibid., p. 41)

E Basaglia (s/d, p. 42) termina afirmando que

Em definitivo, o que se transforma sob o efeito dos medicamentos


não é a doença, mas sim a aparente atitude (na medida em que se
trata sempre de uma forma de defesa, e portanto de violência) do
médico em relação a ela. Isto confirma, afinal, nossas conclusões
precedentes: a saber, que a doença não é a condição objetiva do

159
doente, e o que lhe confere o aspecto que tem reside na relação com
o médico, que a codifica, e a sociedade, que a nega.

Por sua vez, a lógica dos planos e seguros de saúde operam de forma
significativa a ideologia do usuário como consumidor de serviços. Usuário que,
muitas das vezes está alheio de qualquer entendimento acerca do sistema de
preços ou dos custos distributivos de cada serviço ou atendimento 58.

A ampliação quantitativa e qualitativa da assistência médica aparece como


fruto da pressão dos usuários – o que não quer dizer que o setor comporte formas
de valorização ou privilégios ao produtor privado.

Porém, a modernização tende a induzir novas demandas, alargando o


espectro desse mercado de serviços e dos campos de atuação da medicina.

Por causa dos fortes interesses econômicos,

A organização dos serviços de saúde caminha na direção de maior


proliferação das instituições especializadas (radiológicas,
cardiológicas etc.) ou de estabelecimentos de alta complexidade em
diagnóstico e terapêutica (laboratórios, medicina nuclear etc.). (...)
Cada vez mais, estabelece-se a necessidade de redução de escala
ou a implementação dos chamados serviços multi-hospitalares, para
que se mantenham rentáveis, dividindo, entre vários
estabelecimentos, os serviços comuns (...). Estas mudanças
sustentam uma demanda formada pela rede prestadora de serviços
médicos, industria farmaceutica e de equipamentos médicos,
constituindo-se em força social, que estabelece uma relação
sinonímica, amplia-se mais entre o ‗direito à saúde‘ e o ‗direito à
assistência médica‘. (ibid., p. 88-89)

A complexidade e amplitude da especificidade assumida pela prática médica


na sociedade de classes obrigam a reconhecer que, segundo Donnangelo e Pereira
(1979, p. 32-33)

Não é a diferenciação da prática médica em sociedades capitalistas,


e sim a sua extensão [que importa] (...). Ao referir-se prioritariamente
à extensão indica-se, antes de mais nada, a intenção de acentuar o
aspecto mais diretamente visualizável da organização atual dos
serviços médicos, bem como de tentar discorrer sobre a

58
―Mais do que uma valorização da informação resultante de equipamentos de diagnósticos
sofisticados, os honorários por procedimentos tecnológicos refletem uma alta valoração da tecnologia
em si‖ (GUIMARÃES, PICKERNHAYN e LIMA, 2014, p. 88)
160
peculiaridade das relações entre medicina e classes sociais pelo
ângulo do qual tende-se mais facilmente a negá-la. Por outro lado,
através desse aspecto, as formas atuais de organização da prática
médica aparecem não apenas como o produto da ação das classes
hegemônicas, mas revelam mais diretamente a participação, no
processo político, das demais classes sociais. (...) No que se designa
aqui por extensão da prática médica há que destacar pelo menos
dois sentidos que devem merecer atenção: em primeiro lugar, a
ampliação quantitativa dos serviços e a incorporação crescente das
populações ao cuidado médico e, como segundo aspecto, a
extensão do campo da normatividade da medicina por referência às
representações ou concepções de saúde e dos meios para se obtê-
la, bem como às condições gerais de vida. (...) [Por fim,] a extensão
da prática médica não correspondeu a um fenômeno simples e linear
de aumento de um consumo específico, e sim que ela se deu através
de uma complexa dinâmica econômica e política na qual se
expressaram os interesses e o poder de diferentes classes sociais.
[grifo adicionado]

A questão da modernização e inovações técnicas e tecnológicas na saude


mental é profundamente questionado por Basaglia (s/d), a partir do momento em
que, ao não enfrentar a questão da ―violência institucional‖, tende a produzir aquilo
que ele chama de ―violência técnica‖. Trata-se de compreender as inovações
técnicas e tecnológicas como um desdobramento da tentativa do poder institucional
de mitigar suas contradições internas. Desta forma, criam-se novos sistemas
(institucionais, científicos, técnicos e tecnológicos, político-organizacionais) que
acabam por projetar e estender o poder e violência institucionais em novas
estruturas, através de outras formas de violência, produzindo ―novos excluídos‖
(novas ―qualidades de‖).

O trabalho destes intermediários acaba por mistificar a violência institucional


através da técnica, sem chegar a modificar sua própria natureza, de forma que o
objeto da violência acaba por se adaptar sob novos termos à violência de que é
objeto, distanciando-se ainda mais da tomada de consciência acerca daquilo que o
exclui:

Os novos concessionários teriam por finalidade estender os limites


da exclusão, descobrindo tecnicamente novas formas de desvio,
consideradas até hoje como pertencentes à normal. O novo
psiquiatra social, o psicoterapeuta, o assistente social, o psicólogo de
empresas, o sociólogo industrial (para citar apenas alguns) são
unicamente os novos administradores da violência do poder, na
medida em que – suavizando asperezas, dissolvendo resistências,
161
resolvendo conflitos engendrados pelas instituições – limitam-se a
permitir, mediante sua ação técnica aparentemente reparadora e
não-violenta, a perpetuação da violência global. Sua tarefa que se
chama terapêutica orientadora – consiste em preparar os indivíduos
para que aceitem suas condições de objetos de violência, dando por
aceito que, além das diversas modalidades de adaptação que
possam escolher, ser objeto de violência é a unica realidade que lhes
é permitida. O resultado é, pois, identico. O perfeccionismo técnico-
especializado chega a fazer aceitar a inferioridade social do excluído,
do mesmo modo como o fazia, ainda que de forma menos insidiosa e
refinada, o conceito de diferença biológica, que sancionava, por
outros caminhos, a inferioridade moral e social do diferente: ambos
os sistemas tendiam a reduzir, efetivamente, o conflito entre excluído
e excludente, mediante a confirmação científica da inferioridade
original do primeiro com relação ao segundo. O ato terapêutico se
revela deste modo como uma reedição – corrigida e ampliada – da
precedente ação discriminatória de uma ciência que, para defender-
se, criou a ―norma‖ – além da qual se cai na sanção que a mesma
norma preveniu. (...) É preciso que nós mesmos – concessionários
do poder e da violência – tomemos consciência de que também
somos excluídos desde o instante em que somos objetivados no
papel de excluentes. (BASAGLIA, s/d, p. 8-9)

É preciso deixar claro que o autor não é contra a modernização e as


inovações técnicas e tecnológicas, desde que partam ―de certo nível crítico no
interior da práxis‖, rompendo a característica de ―ciêcia ideológica‖ que a Psiquiatria
tornara-se:

Pôr em discussão a psiquiatria tradicional (...) é correr o risco de


chegar a um beco sem saída análogo, se não se conservar um certo
nível crítico no interior mesmo da práxis... Isso significa que, partindo
do doente mental, do asilado como única realidade, corre-se o perigo
de abordar o problema de uma forma puramente emocional. Porém,
invertendo, do negativo ao positivo, a imagem do sistema coercitivo-
autoritário do antigo asilo de loucos, corremos o risco de curar nosso
sentimento de culpa em relação aos doentes com um impulso
humanitário que só servirá para confundir novamente os termos do
problema.... Daí a exigência de uma psiquiatria que queira submeter-
se constantemente à prova dos fatos, e que deste modo possa
achar, na realidade, os elementos de contestação necessários para
contestar-se a si mesma. (...) Ao haver-lhe escapado a realidade,
teve que limitar-se uma vez mais a fazer ‗literatura‘, a elaborar suas
teorias ideológicas enquanto o doente pagava as consequências
deste divórcio. (...)Porém, para lutar contra os efeitos de uma ciência
ideológica, é preciso combater igualmente o sistema que a sustenta.
(...)Se o doente é a única realidade a qual é preciso referir-se, é
necessário enfrentar as duas caras de que se compõe esta
realidade: o fato de ser um doente, com seus problemas
psicopatológicos (não ideológicos, mas dialéticos) e o de ser um
excluído, um estigmatizado social. Uma comunidade que pretende

162
ser terapêutica deve levar em conta esta dupla realidade – a doença
e a estigmatização – para poder reconstruir pouco a pouco a face do
doente, tal qual devia ser antes que a sociedade, com seus
numerosos atos de exclusão e a instituição que inventou, atuasse
sobre ele com toda a sua potência negativa. (BASAGLIA, s/d, p. 35-
36)

Como já discutido no capítulo 1, o pensamento basagliano afirma que não é


possível de fato cuidar de doente algum sem operar o processo de ―colocar a
doença entre parênteses‖ e não mais o doente – só assim seria possível o avanço e
criação de instrumentos que de fato podem produzir efeitos positivos aos loucos.

Contudo, um duplo e contraditório movimento pode ser notado a partir dos


desdobramentos da ―negação da psiquiatria‖ desde a década de 80: por um lado, o
avanço de forças, movidas por preceitos de humanização e remissão da liberdade e
autonomia, que tem produzido efeitos importantes na transformação do paradigma
psiquiátricos e instituído diversos modelos e experiências de Reforma; por outro, e
ao mesmo tempo, movidas pelos mesmos preceitos de humanização e remissão da
liberdade e autonomia (afirmados como consensuais), o avanço exponencial de
forças que buscam a ampliação e expansão das estratégias e táticas de
medicalização da sociedade59, como também aquelas que, paradoxalmente, têm
instituído estruturas e espaços e sistemas modernos de tutela e negação da
diferença.

O alerta colocado pelo autor, portanto, nunca foi tão atual...

Este é realmente o perigo: a psiquiatria entrou em uma crise real.


Além da ruptura que entranha esta crise, seria possível começar a
vislumbrar o doente mental desprovido de rótulos que até hoje o
enterraram ou classificaram num papel definitivo. Mas o reformismo

59
Segundo Schraiber e Mota (2005, p; 1470), o conceito de medicalização da sociedade
desenvolvido por Donnangelo, aparece em dois momentos: primeiro como forma de produzir e
consumir a assistência médica e subprodutos; em segundo momento, vista enquanto construção
sociocultural que funciona como referência para o pensamento e ações da sociedade, portanto, uma
forma de educação capaz de organizar a vida, material e simbólica, conformando a todos numa única
forma de conceber e lidar com a saúde – como consumo da medicina e seus sobprodutos: ―cada vez
mais a medicina expande seus domínios normativos na sociedade, como uma medicalização do
social no mundo, ao mesmo tempo em que apela para recursos de manipulação instrumental do seu
aspecto social, reduzindo a complexidade do mundo a comportamentos medicalizáveis pela
intervenção médica‖.

163
psiquiátrico está pronto para partir ao assalto, armado com uma nova
solução, que só poderia ser um novo rótulo que vem superpor-se às
velhas estruturas psicológicas. A linguagem é facilmente aprendida e
consumida, sem que as palavras estejam necessariamente de
acordo com os atos. Crise psiquiátrica ou crise institucional? Uma e
outra parecem estar tão estreitamente unidas que não se pode
distinguir qual das duas é consequência da outra. Uma e outra
apresentam um denominador comum: a forma de relação objetivada
que se estabelece com o doente. A ciência, ao considera-lo como um
objeto de estudo suscetível de ser suprimido de acordo com um
número infinito de classificações ou de modalidades; a instituição, ao
considera-lo (em nome da eficácia da organização ou do rótulo que
confirma a ciência) como um objeto da estrutura hospitalar com a
qual está obrigada a identificar-se... Não será necessário destruir o
que se fez para evitar ficar imóvel em algo que ainda guarda o germe
(o vírus psicopatológico) desta ciência, cujo resultado paradoxal foi
inventar um doente à imagem dos parâmetros utilizados para defini-
lo? (...) No momento atual, o perigo reside em querer resolver o
problema do doente mental por meio de aperfeiçoamentos técnicos...
Em tal caso, o psiquiatra só perpetuaria, com suas organizações
ultramodernas e perfeitamente equipadas, ou com teorias
perfeitamente lógicas, numa relação que eu qualificaria metálica,
relação de instrumento para instrumento, onde a reciprocidade
continuaria sendo negada sistematicamente (BASAGLIA, s/d, p. 38-
39).

Segundo Moreira (2012, p. 68) acerca de Ayres (2004),

Partindo de uma proposição hipotética a respeito dessa indagação,


afirma que a atual crise de legitimidade das formas de organização
do cuidado em saúde, a falta de confiança nos seus alcances
técnicos e éticos, talvez decorra do fato de que a terapêutica médica
estivesse perdendo seu interesse pela vida, estivesse perdendo o elo
entre seus procedimentos técnicos e os contextos e finalidades
práticos que os originam e justificam.

Porém, se o cuidado em Saúde amalgama necessariamente os processos de


trabalho à dimensão técnica-tecnológica, os efeitos das inovações no cotidiano dos
trabalhadores são inevitáveis. Colocado desta forma, é crucial a crítica mais
permenorizada dos sentidos das inovações – inova-se em que direção?

Para Merhy (1997; 2002; 2003), as tecnologias devem ser categorizadas


como: tecnologias duras (instrumentos e maquinário), tecnologias leve-duras
(conhecimento técnico) e tecnologias leves (das relações contingentes).

164
Segundo o autor, a história do desenvolvimento técnico em Saúde é marcada
pelo movimento hegemonico de desenvolvimento das tecnologias duras e leve-
duras, desconsiderando o papel das relações no trato com o cuidado.

Partindo de uma concepção marxista de trabalho, o autor aponta que as


tecnologias duras e leve-duras, no modo de produção capitalista, assentam-se na
lógica da instrumentalização e reprodução mecanizada e especializada do trabalho,
se constuindo desta forma em ―trabalho morto‖. Já o ―trabalho vivo‖, presente nas
tecnologias leves, por outro lado, consiste naquele com capacidade genuína de
transformação, posto que rompa a lógica da (re)produção do trabalho.

Por mais que os recursos das tecnologias duras (instrumentos diagnósticos e


maquinários) e das tecnologias leve-duras (o conhecimento técnico) tendam a
instituirem-se de forma a tornar o trabalho médico cada vez mais mecânico, a
dimensão do encontro médico-paciente há tensiona, apresentando-o a situações
absolutamente contingentes. Frente à contingência do encontro, o trabalho vivo só
pode se expressar em ato, ou seja, com e na relação médico-paciente.

Relação que, contudo, é marcadamente determinada pela subjetividade do


trabalhador – crenças, posicionamentos políticos, diferenças estéticas, preconceitos
etc. Assim, o trabalho vivo em ato obriga à autoreflexão acerca desta série de
questões e, mais ainda, ao entendimento de que estará em relação com outra
pessoa, logo, também constituida com marcos subjetivos particulares, o que pode
ocasionar uma série de conflitos.

Porém, conforme Moreira (2012, p. 128)

Ao falar de subjetividade não estou falando de uma natureza, de uma


essência, de uma realidade dada. Cada sujeito constrói sua
subjetividade durante todo o seu processo de vida, que é produto de
seus encontros, dos afetos que construiu nos encontros que a vida
lhe proporcionou. ―Por subjetividade entendemos não um estado de
coisa ou estrutura, mas um processo – um processo de subjetivação
ou um processo de produção de si. E este processo se realiza com
múltiplos elementos. Há vários vetores de subjetivação que
participam da produção das subjetividades: o ambiente familiar com
suas relações (pai/mãe, mãe/filho, pai/filho etc), bem como a
existência de outros determinantes nesse processo como a mídia, a
violência das cidades, a música, o cinema, a dança e as artes
plásticas, a experiência com as drogas, a participação nos
movimentos sociais e muitos outros vetores de subjetivação, que são
165
de cada um. Porque a subjetividade se define por uma atividade de
produção. Essa produção não pode ser definida como simplesmente
a produção realizada por um sujeito, mas é o próprio sujeito que
aparece como um produto, como o resultado de um processo de
produção que é sempre da ordem do coletivo‖ (PASSOS, 2000, p.8).

Ao longo da história da medicina, a abertura a subjetividade tem sido negada


pela afirmação da técnica e despessoalização do encontro. É como se o
desenvolvimento dos instrumentos técnicos e tecnológicos, ao mecanizar a atuação
profissional, resguardasse o mesmo dos constrangimentos cotianos que o encontro
com os sujeitos em condição de sofrimento pode imputar – o que desacomoda a
ética (tanto a ―sua‖, do ponto de vista da construção pessoal, quanto a ―formal‖, do
ponto de vista do compromisso social assinado).

Ao contrário, o desenvolvimento das tecnologias leves não tende a uma


atitude teleológica de capacitação (no sentindo da instrumentalização) do médico
acerca de como se portar, como criar um verdadeiro espaço interccional entre
médico-paciente, etc. Trata-se mais de fundamentação de pressupostos a serem
operados de forma a tornar possível a produção de bons encontros. Parte-se do
pressuposto que o encontro é, em si, desestabilizador e traumático (no melhor dos
termos), e, justamente por isso, a sua importância – o conceito de ―trabalho vivo em
ato‖ se aproxima, então, da abordagem spinozista de ―educação permanente‖.

Consideradas as ―relações contingentes‖ que se estabelecem no encontro


médico-paciente, é importante inferir que a produção de cuidado depende
fundamentalmente do encontro médico-paciente. Ou seja, que as formas de
acolhimento, criação de vínculo e segurança, por exemplo, não são apenas
questões complementares desejaveis, mas elementos centrais, parte integrante do
projeto terapêutico, e fatores determinantes na qualidade de cuidado dos resultados.

Trata-se, portanto, de uma tecnologia, a partir do momento em que a forma


de agir do profissional em relação aos sujeitos em condição de sofrimento envolve
não só a dimensão de um giro ético-político, mas implica na reorganização
ontológica (no sentido da natureza do fazer e seu significado) das práticas e saberes
médicos, que, consequentemente, obrigam a toda uma revisão epistemico-
metodológica acerca das categorias, conceitos e seus usos – é o caso do conceito

166
de cuidado, saúde (para além da dimensão da doença), de construção de
diagnósticos etc.

A medicina hoje, absolutamente rica em tecnologias duras e leve-duras,


instituiu-se através de um discurso que acaba por, se não negar, pelo menos frear
bruscamente o desenvolvimento das tecnologias leves – as tecnologias relacionais.
O que não significa desconsidera que

Quando alguém procura um serviço de saúde, é portador de uma


demanda e é, portanto, potencial ―objeto de conhecimento e
intervenção‖. Este é um dos papéis dos serviços e profissionais de
saúde. “Contudo, nada, nem ninguém, pode subtrair a esse mesmo
indivíduo, como aspirante ao bem-estar, a palavra última sobre suas
necessidades” (AYRES, 2004, apud. MOREIRA, 2012, p. 69)

A tese consiste em tomar o trabalho em ato em saúde como uma micropolítica


e, desta forma, com intensa capacidade de determinar os efeitos concretos na
produção de saúde.

Da mesma forma, já vimos que as redes de saúde mesmo que consideradas


suas diversas modalidades, não se sustentam apenas pela presenta física de seus
equipamentos, mas são acionadas pelos processos de trabalho organizados (na
prática) pelos trabalhadores em seu cotidiano.

Ora, pesando a dimensão contingente dos encontros trabalhador-usuário, é


importante afirmar que as formas de funcionamento das redes de serviço tem
correlação direta com as relações micropolíticas esboçadas no bojo das relações
interpessoais (muito embora, institucionais), afinal,

Cultura não é um lugar subjetivo, ela abrange uma objetividade com


a espessura que tem a vida, por onde passa o econômico, o político,
o religioso, o simbólico e o imaginário. Ela é o lócus onde se
articulam os conflitos e as concessões, as tradições e as mudanças,
e onde tudo ganha sentido, ou sentidos, uma vez que nunca há
apenas um significado. Afinal, a cotidianidade é o lugar da
micropolítica, é o real. (MINAYO, 1992 apud MOREIRA, 2012, p. 39)

O trabalhador, apesar das estruturas institucionais, garante certa ―autonomia‖


em seu processo de trabalho, abrindo brecha para uma importante capacidade
inventiva (embora nem sempre tão potente).

167
Contudo, a maioria dos profissionais de saúde tem seus territórios existenciais
que se colocam como uma barreira para uma atuação mais criativa e autônoma, na
maioria das vezes estruturados a partir de sua formação em modelos prescritivos
que objetifivam o sujeito em sofrimento – ―Cuidar é mais que prescrever, recitar,
diagnosticar, é não perder a dimensão do outro como igual, sujeito na relação que
estabelece consigo na vida, nos serviços de saúde‖ (MOREIRA, 2012, p. 72).

Embora a noção de territórios existenciais não esteja presente de forma


explícita nas políticas de saúde mental atuais, é uma noção importantíssima para
análises que busquem desbravar o emaranhado de linhas de determinação no
campo das relações micropolíticas atuantes no cotidiano institucional.

A abordagem tem sido apropriada principalmente nos debates acerca da


formação profissional e capacitação, o que significa dizer que em vários momentos
em nosso trabalho de campo esta significação esteve presente – normalmente
acionada pelos profissionais. Noção que parte da abordagem de teor mais
psicológico de território, apresentada por Deleuze e Guattari (1976), como também
na visão de Guatarri e Rolnik (2007, p. 323):

Os seres existentes se organizam segundo territórios que os


delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos.
O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um
sistema percebido no seio da qual um sujeito se sente ―em casa‖.
Território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre
si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos quais
vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de
comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços
sociais, culturais, estéticos, cognitivos.

Os territórios existenciais, desta forma vão se estruturando e se


desestruturando cotidianamente, a partir dos encontros a que estamos sujeitos.

De acordo com a leitura de Moreira (2012, p. 32-33), para Rolnik (2007), o


processo de des-re-territorialização dos territórios existenciais se dá através de três
―linhas abstratas‖ por onde o desejo perpassa:

a) A primeira linha, a ―linha dos afetos‖, ―invisível e inconsciente‖, que detém


capacidade desestabilizadora, a partir dos afetos, e envolve um ―traçado contínuo
e ilimitado‖ que surge a partir da atração e/ou repulsa dos corpos, na dinâmica de
168
afeto-afecção. Essa linha implica na capacidade dos afetos de ―fazer passar‖
através da nossa expressão atual (território que até então nos reconhecíamos) e,
no caso daqueles que nos escapam, a produção de linhas de fuga em nosso
território existencial);
b) A segunda linha, a ―linha dos territórios‖, oposta à dos afetos, ―visível, finita
e consciente‖. Rígida e sedimentária cria ―roteiros de circulação no mundo:
diretrizes de operacionalização para a consciência pilotar os afetos‖. Trata-
se de um estado mais ou menos estável, ―de um plano concluído por uma
linha enrijecida, que em seu traçado vai formando constelações funcionais
de máscaras, territórios bem discriminados, toda uma segmentação dura‖
– embora sempre escapem afetos aos territórios, o que pode acabar
implicando numa desterritorialização (nunca em sentido único);
c) A terceira linha, a ―linha da simulação‖, que faz um ―vaivém‖, definindo um
duplo traçado inconsciente entre as outras duas:

Um primeiro que vai do invisível e inconsciente produção de afetos,


para a visível e consciente composição de territórios. Este é o
percurso do movimento de territorialização. E também, outro
traçado inverso, que vem do visível, consciente, dos territórios, para
o invisível, inconsciente, dos afetos. É o percurso do movimento de
desterritorialização. É uma linha double-face; uma face na
intensidade (invisível, inconsciente e ilimitada), e outra na expressão
(visível, consciente, finita). É nela que se opera a negociação entre o
plano constituído pela primeira linha (dos afetos que nascem entre os
corpos em sua atração e repulsa) e o plano da terceira linha (dos
nossos territórios constituídos) (MOREIRA, 2012, p. 32-33) [grifo
adicionado].

Nesta abordagem, todos estão expostos e vivenciando constante e


intensamente cada uma das três linhas. E no exercício das mesmas que se
estruturam e des-reestruturam nossos territórios existências, com seus modos de
subjetivação (de atribuição de significados, de significação) – ou seja, que
conformam a nossa subjetividade.

Importante: esta abordagem de Rolnik (2007), obriga a reconhecer a


importância da abertura a novos afetos, e de permitir-se afetar e ser afetado pela
presença viva ―em ato‖ do outro, no processo de des-reestruturação da nossa
subjetividade – ou, no caso, de nossos territórios existenciais.

Assim, conforme Moreira (2012, p. 79)


169
Para Foucault, a ética é um modo de o indivíduo relacionar-se
consigo. Então, cabe perguntar, do ponto de vista prático, como se
constitui o indivíduo como sujeito moral de suas ações. Se
considerarmos a formação profissional em saúde, quase sempre,
calcada em um modelo que surge no século XVIII e funda o conceito
de corpo anátomo-clínico, que formula um conjunto teórico conceitual
que tem por base o método científico; podemos imaginar como será
sua prática de cuidador. Como esperar deste profissional, a
―aceitação‖ da diversidade, dos fundamentos como móveis e
modificáveis. Como pensar a ética como criação de, e a partir da
liberdade, pensar o indivíduo como obra de si mesmo, respeitando
suas singularidades? A liberdade é um processo complexo
engendrado pela reflexão, prática e atitude, é condição da estética da
existência. A crítica é o componente da estética da existência para
levar tão longe quanto possível o trabalho da liberdade (FOUCAULT,
2000, p. 348).

Moreira (2012) coloca ainda algumas questões pertinentes: afinal existe


diferença entre clínicar e cuidar? É possível ensinar a cuidar?

Para o autor, tal questão traz a relevância da análise empenhada por Foucault
(2006), sobre o ―cuidado de si‖ e o ―cuidado dos outros‖, que na Antiguidade, se
baseavam em uma série de pressupostos.
Um dos mais fundamentais era a escuta, que envolve ―certa arte‖ constituída
por alguns aspectos como o silêncio, a atitude física a ser assumida durante a
escuta, relação do sujeito de abertura do próprio corpo e da própria alma60, para
escutar corretamente, posto que

Enquanto os outros sentidos dão acesso aos prazeres da visão, do


gosto, do toque, a escuta da acesso ao logos, à razão, e é através
disso, que se pode adquirir a virtude. O ato de escuta é tão difícil
quanto aquele de falar, porque podemos escutar com proveito, mas
também de modo inútil. Assim como para falar é preciso uma téchne,
uma arte, também para escutar é preciso de empeirie (capacidade
adquirida), e de tribé, de aplicação, de prática contínua, de
experiência, de atenção (FOUCAULT, 2006, p. 408).

O desafio da escuta é urgente se analisarmos a revisão apresentada por


Moreira (2012, p. 80-81):
60
―Naturalmente, o silêncio, embora fundamental, não é suficiente para promover a escuta; é
necessário assumir uma atitude ativa; primeiro uma atitude física, com o corpo que permanece calmo
e com uma postura que permita a alma de acolher a palavra que lhe é endereçada‖ (FOUCAULT,
2006, p. 403).
170
CAPRARA, in PINHEIRO E MATTOS (2007) relata que, de forma
esquematizada e simplificada procura-se hoje em alguns programas
didáticos que utilizam o método da medicina centrada no paciente,
ajudar os estudantes de medicina a aprender algumas posturas
associadas à chamada escuta não-seletiva: o olhar, a atenção
reflexiva, o silêncio. Afirma que muitas das críticas feitas a respeito
da relação dos profissionais de saúde com os pacientes colocam
hoje a questão da escuta como aspecto fundamental da construção
do vínculo. ―Já no século XIX, William Osler, importante médico
canadense (1849-1919), descrito como o pai da medicina moderna
afirmava: ―If you listen care fully to the patients they Will tell you the
diagnosis‖ (Se você escutar com cuidado os pacientes, eles te dirão
o diagnóstico)‖ (CAPRARA 2007. p. 48). A autora aponta ainda um
estudo realizado por Beckaman e Frankel (1984), que revelam que
65% dos pacientes foram interrompidos pelo médico depois de 15
segundos de consulta. Marvel, et al., (1999) observou que o tempo
médio disponível para o paciente, inicialmente, expressar suas
queixas, foi de 23,1 segundos na maioria das vezes (76%). Cita
ainda Sucupira (2007) que em seu estudo conclui que quando o
paciente se estende no relato de um fato, para ele de grande
importância, é comum o médico interrompê-lo com outra pergunta.
Muitas consultas reduzem a exploração da experiência do paciente à
queixa inicial, pois o médico interpreta a doença exclusivamente do
ponto de vista biológico, patológico, diminuindo o interesse pela
experiência do paciente, pela subjetividade.

Frente aos dados apresentados, fica evidente a dificuldade da Medicina, de


forma geral, em desenvolver tecnologias relacionais não objetificantes:

O cuidado deve ser um acontecimento no qual há a presença de


valises tecnológicas múltiplas; trata-se de perceber, com outro olhar,
as relações entre sujeitos. (...) O ―usuário flexneriano‖ que há em nós
profissionais de saúde, e o fetiche que máquinas e equipamentos
exercem sobre nós, é outro dificultador da transformação destas
práticas hegemônicas. Se eu não transformo o usuário que há em
mim, desejante de todo o aparato médico assistencial, como vou
―desmedicalizar‖ a minha prática? (Fala de Merhy na Abrasco/2007).
É preciso ampliar estas práticas, convencer a nós, profissionais de
saúde e comunidade das possibilidades de ampliação do objeto da
saúde. (...)As escolas médicas continuam em sua maioria pautando a
formação profissional quase que exclusivamente nas ciências
naturais, e não em práticas de saúde construídas a partir da
integralidade, na produção do cuidado, na construção de novas
abordagens para a clínica, em sua complexidade ética, estética e
política. Refletir com os futuros profissionais em sua formação sobre
as diferenças do que seja clínica e cuidado, e a importância em se
desenvolver a escuta pode ser um primeiro passo. (MOREIRA, 2012,
p. 88-89) [grifo adicionado]

171
À luz dos debates aqui desenvolvidos, torna-se cada vez mais claro que o
reconhecimento do conjunto de forças que influenciam a forma com que a
abordagem territorial pautada pelas normativas de saude mental, concreta e
cotidianamente operam nos serviços de saude mental, implica em dificuldades
(inclusive ao intendimento) e considerações inevitavelmente multiescalares e
multidimensionais. Os desafios postos a abordagem territorial (longe de ser uma
questão local ou de localização) devem jogar luz aos jogos dos macro e
micropoderes – que se determinam e se contrariam e se reforçam e se negam, num
entrelaçado particular e contingente a cada nova demanda...

Afinal, não podemos perder de vista que, a compreensão geográfica do


planejamento, organização e funcionamento dos polìticas e serviços de saúde
extrapola o ato médico e/ou aos documentos normativos:

O estudo dos serviços de saúde é um campo rico para identificarmos


o jogo de grupos de interesse e como estes grupos põem em
circulação concepções de técnica e ciência com conteúdos bem
diferenciados (GUIMARÃES; PICKERNHAYN; LIMA, 2014, p. 93).

Cu(o)mprida a trajetória, chegamos na encruzilhada! E o termo não é banal...

Segundo o Dicionário de Simbolos, de Chevalier e Gheerbrant (1986), a


encruzilhada possui uma série de significados:

Encruzilhada. 1. A importância simbólica das encruzilhadas é


universal. Ela está ligada à situação do cruzamento de caminhos,
fazendo da encruzilhada um centro do mundo, o verdadeiro centro do
mundo para quem ali está situado. Lugares epifânicos (pontos de
aparecimentos e revelações) por excelência, as encruzilhadas são
frequentadas por seres geralmente temidos, a quem convêm
conciliação. (...) São lugares que provocam discernimento e reflexão,
e também locais de passagem de um mundo a outro, de uma vida
para outra, ou da vida para a morte. (...) 2. Mas a encruzilhada, local
de passagem por excelência, é também o local onde se preserva o
anonimato, pode-se livrar do lixo, das forças negativas, inúteis ou
perigosas para as forças da comunidade: (...) uma força impura que
apenas seres sagrados podem neutralizar ou transformar em força
positiva. (...) A proteção desses gênios são particularmente
invocados nos momentos importantes da vida coletiva,
principalmente no momento do plantio. (...) Para os Bambara, a
encruzilhada encarna o ponto central, o primeiro estado divino antes
da criação; é a transposição do cruzamento original que o criador

172
traçou, com sua própria essência, para o começo de todas as coisas,
para determinar o espaço e organizar a criação. (...) [é a] A primeira
divindade invocada em cerimônias de vodu (Legba ou Atiban Legba
para os Fon do Daomé, no Haiti, Esu Elegbara, ou apenas Esu, entre
os iorubás da Nigéria ou no Brasil) é o mensageiro intermediário
entre homens e outras as divindades. Ele é chamado "o
homem das encruzilhadas" no Brasil, porque ali onde se cruzam
as ruas está Exu; se diz que Exu foi quem revelou a arte da
adivinhação aos homens. (...) 3. O cruzamento é o encontro com o
destino. Ele está em uma encruzilhada onde Édipo encontra e mata
seu pai, Laio, e sua tragédia começa. No final de uma longa viagem
que tinha começado apenas para escapar de seu destino é quando
precisamente numa encruzilhada, que o destino lhe é imposto. Cada
ser é em si uma encruzilhada, onde se cruzam e combatem os vários
aspectos da sua persona. (...) 4. Na mitologia grega, Hécate, uma
divindade muito mal definida, de origem incerta, com capacidade de
ação ilimitada, identificada com Ártemis, Deméter, Apolo e outros
deuses e deusas, se chama Deusa das Encruzilhadas. Este nome
veio sem dúvida por lhe terem como deusa dos três mundos: o céu, a
terra e os infernos. Seu corpo é o triplo, triplo é seu resto e triplo é
seu papel como distribuidora de todos os presentes para os mortais,
fonte de toda glória, mais sábia entre todos na arte mágica dos
encantamentos. Favorece o nascimento, conserva os dias e dá-lhes
um fim. (...)Deusa da noite e das sombras, porque também reina no
inferno (...) os gregos lhe atribuiam uma ação particular sobre a
imaginação, criadora de espectros, fantasmas e alucinações. (...)
Benevolente e aterrorizante, a deusa dos três rostos condensa todo o
desconhecido que representa a encruzilhada, imagem do destino,
que uma escolha selará inexoravelmente. Na encruzinhada,
igualmente, é onde se levanta a estátua de Hermes, o ―guiador das
almas‖ [psicopompo] (...) simbolizando, segundo Jung, o papel
mediador de Deus entre os diferentes universos; lhe corresponde
guiar as almas através das rotas subterrâneas do mundo escuro dos
infernos; Jung também vê na encruzilhada um símbolo da Mãe: a
união dos opostos, um resumo de toda a União; Daí o caráter
ambivalente de aparência benéfica ou maléfica. (...) A encruzilhada
pode ter um aspecto benéfico, com efeito, é o lugar onde se encontra
a luz, onde os bons gênios também aparecem, as fadas benfazejas,
a Virgem ou os santos. (...) 5. Por último, em toda civilização
"encruzilhada" que dizer chegar ante ao desconhecido e como, frente
ao desconhecido, as reações humanas mais fundamentais é o medo,
o primeiro aspecto do símbolo é a inquietude [ou angústia]. Nos
sonhos, ela revela o desejo de uma reunião importante, solene, de
certa forma sagrada; ela também pode revelar o sentimento de que
um se encontra em um cruzamento de caminhos e que uma
orientação nova, decisiva, deve tomar-se. (...) De acordo com o
ensinamento simbólico de todas as tradições, deter-se em uma
encruzilhada é como uma pausa de reflexão, de recolhimento
sagrado, é falar do sacrifício que fora necessário para o
prosseguimento do caminho escolhido. A encruzilhada é também o
lugar onde se encontram os Outros, tanto exteriores [estrangeiros]
como interiores [nativos]. O lugar privilegiado das emboscadas: exige
atenção e vigilância. Se é nas encruzilhadas onde está a tripla
Hécate e Hérmes o "guiador de almas", é por que devemos escolher,
173
para nós e em nós, entre o céu, a terra e os infernos. Na verdadeira
aventura humana, a descoberta interior, um não encontra na
encruzilhada nada mais do que a sí mesmo: se estava esperando
uma resposta definitiva, não haverá mais do que novos caminhos,
novas evidências, novas andanças que se abrem. A encruzilhada
não é um fim, é uma subida, um convite para ir além. Alguém não
para ali se não é por querer atuar sobre os outros, seja para o bem
ou para o mal, ou se descobre incapaz de escolher por si mesmo: é
então lugar de meditação, de espera, de não ação. Porém, é também
o lugar da esperança: a rota seguida até ali não está fechada; uma
nova encruzilhada oferece uma nova oportunidade de escolher uma
boa via. No entanto, as escolhas são irreversíveis. Para demonstrar
toda a força desse símbolo há contos nos quais a encruzilhada
mesmo se apagada, com a passagem do herói: os problemas da
escolha foram resolvidos. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1986, p.
448-450)

Fazendo um esforço na tentativa de tradução dos saberes e cosmogonias


ancestrais, naquilo que tem se convencionado chamar epistemologia de terreiro, a
encruzilhada tem sentido reforçado. Para a cultura de terreiro, na encruzilhada mora
o Senhor das Dinâmicas, Exu (Mavambo, para o povo Bantu; Bara Lonan, para o
povo Iorubano). Mais do que simplesmente uma deidade responsável pela previsão
e/ou controle dos caminhos possíveis, esse Senhor é, em si, a potência da
possibilidade. Ou seja: do ponto de vista da cosmologia africana, a possibilidade
existe, por que Exu existe, ou permite. Quando devidamente agraciado, não aponta
o melhor caminho: transformar as possibilidades, rearrumando todos os caminhos
para nos garantir a melhor trajetória.

Mas o que isto significa? Significa conceber a encruzilhada, mais do que ser
―um lugar de parada‖, um momento de decisão entre as escolhas colocadas. Aceitar
também, que, apesar de apresentadas as possibilidades, ou seja, por mais
estruturado que pareça ser o ―caminho‖ que levou à elas; por mais estruturado que
pareçam as saídas delas. Não há receita possível. A qualquer sorte do destino, a
escolha, até então considerada como a ―melhor saída‖, pode, simplesmente não
proceder da mesma forma que a primeira vez. A dinâmica do mundo (Senhor Exu)
tende à rearrumar a problemática de forma que a escolha do mesmo caminho se
torna improvável de êxito.

Como agir? Lembrando dos ensinamentos dos nossos ancestrais – ―menino,


tu primeiro deu de comer à Exu?‖. Olhemos com carinho para o Senhor Exu, ou seja,
adequemos a tese à realidade que se objetiva.
174
O que a encruzilhada nos ensina? É que os melhores caminhos são
contingentes, e que, muito embora a problemática pareça se repetir, nunca é a
mesma.

Mas, afinal, na prática, o que estamos dizendo? Que, embora apresentado


aqui certo mapeamento das inúmeras dificuldades e possíveis desafios que a
abordagem territorial no campo da Saúde Mental implica; e que, do ponto de vista do
método, torna-se fundamental o entendimento de que a problemática do território é,
em si, uma problemática de escala; a decisão sobre que escala acionar (e,
consequentemente, qual concepção de territorialidade e de território irá se
manifestar aos nossos olhos) não pode obedecer à uma decisão mecânica e a
prioristicamente definida de forma alheia ao problema de fato à ser refletido (por
exemplo, como lidar com a abordagem territorial na construção de um projeto
terapêutico com características específicas, cujas demandas obrigam à um conflito
com a territorialidade do serviço de saúde) – mesmo que este se pareça
absolutamente identico a algum outro.

O risco é de se antecipar e operar, pela lógica da exclusão (ou considerar


pela via da institucionalidade ou pela vida dos multiplos territórios do usuário – ou
seja, ―ou um ou outro‖), uma redução da complexidade que a abordagem territorial
no campo da Saúde Mental carrega, podendo até, aparentemente, pensar estar
avançando num primeiro momento, mas, logo em seguida, esbarrando nas outras
escalas que envolvem a problemática e que foram desconsideradas anteriormente.

Assim colocado, os ―perigos da encruzilhada‖ podem até remontar seu outro


significado, como um golpe da capoeira, que consiste numa rasteira... 61

61
Inicialmente, a escolha do termo foi de certa forma intuitiva. Contudo, entre as pausas na escrita,
acabei por procurar algo para comer nas ruas do Centro de Niterói. Morador do bairro vizinho, a
Ponta da Areia, logo me direcionei à barraca que vende janta para os taxistas ao lado da Rodoviária
Municipal – a cada dia um prato diferente, nunca repetido. Lembro de pedir um feijão e, sentado
numa cadeira de plástico, me notar na encruzilhada. Uma encruzilhada movimentada, com um
intenso fluxo dos ônibus que chegam, dos táxis que saem, do ―boteco da esquina‖. Vendo o
movimento refleti que, embora tenha o costume de comer lá, todas as vezes que estive presentes
naquela encruzilhada, esta sempre foi absolutamente outra. Era como se aquela encruzilhada
guardasse a capacidade de ser sempre absoluta e radicalmente outra. Todos os dias, radicalmente
outra. Ai lembrei que nem sempre esboçava a mesma trajetória, mas sempre me deparava com
aquela encruzilhada e aquela barraca. Mesmo sem fome, muitas vezes ―errando‖ pelas ruas, quando
me dava conta, estava lá. Contraditoriamente, não adiantava refazer a trajetória para buscar o
mesmo ―sabor‖. Sempre era outro. Afinal, não eram as possibilidades que me levavam àquela
encruzilhada, mas aquela encruzilhada que me ofertava as possibilidades... (((DEVANEIOS)))
175
Figura 11 e 12 - Muros: Convocação para reunião dos usuários. Fotografia por Lucas
Honorato (2017)

176
ENXERTOS Nº 4: “GUARDANAPOS DE PAPEL – HOJE”
(Saudades do Futuro, Armando Corrêa da Silva, 1993)

Hoje eu quero um bar, um bom garçom, uma boa música e uma mulher confiável.

Hoje eu quero um bom cigarro, a roupa que eu gosto, o espelho que me diz: você
está bem.

Hoje quero estar só por que preciso pensar o que eu quero.

Ontem já foi; amanhã, não sei; hoje é agora e agora eu quero estar aqui.

Hoje não quero muito, apenas estar aqui.

***

Mas, o bar perdeu o encanto, o garçom não está muito amável.

Como de outras vezes, a música está péssima, a bebida é a de costume e a mulher


confiável está distante.

Eu não estou só porque meus fantasmas continuam a me perseguir.

E eles não me deixam pensar o que eu quero.

Na verdade, eu quero muito e não sei mesmo se estou aqui e agora.

***

Penso, então, que hoje é muito limitado.

Talvez ontem, talvez amanhã.

Bartolo, Vila Madalena 30/06/85

177
CAPÍTULO 4 – LOUCURA NOS TERRITÓRIOS – OS DESAFIOS TEÓRICO-
METODOLÓGICOS, PRÁTICOS E POLÍTICOS PARA A ABORDAGEM
TERRITORIAL NA SAÚDE MENTAL.

A curiosidade desinteressada do sábio que se esforça por ignorar as


motivações daqueles que ele estuda já passou de moda. Ele é
criticado - muitas vezes com razão - de ser incapaz de tranquilizar o
indivíduo, de dizer-lhe o que deve fazer. A juventude tem
necessidade de um conhecimento que não seja puramente
intelectual. Ela gostaria de encontrar no conhecimento um método
para compreender, e regras para agir, a um só tempo. Estas regras
não podem ser percebidas sem a referência ao sujeito
CLAVAL, Paul (1983, p. 253)

No sentido de aprofundarmos nosso debate, para Cruz (2011), o território


cada vez mais tem assumido uma ―dupla centralidade/visibilidade‖: analítica
(epistemológica e teórica) e empírica (histórica e política).

Do ponto de vista analítico, a abordagem territorial tem emergido como


ferramenta de grande valia não só as análises no campo da Geografia. No campo
das ciências humanas em geral, com o avanço da globalização econômica, a
intensificação dos fluxos e integração dos lugares tem implicado notas problemáticas
para o entendimento das relações sociais. A dimensão espacial dos fenômenos,
cada vez mais evidênciada, tem se tornado o foco das análises e a grande promessa
para o entendimento desta nova realidade posta 62. Realidade de intensificação da
multiplicidade, visto que

O espaço é a esfera da possibilidade da existência da multiplicidade;


é a esfera na qual distintas trajetórias coexistem; é a esfera da
possibilidade da existência de mais de uma voz. Sem espaço não há

62
―A grande obsessão do século XIX foi, sabe-se, a história: temas do desenvolvimento e da
estagnação, temas da crise e do ciclo, da acumulação do passado, do grande excesso de mortos, do
resfriamento ameaçador do mundo. Foi no segundo princípio da termodinâmica que o século XIX
encontrou a essência de seus recursos mitológicos. A época atual seria talvez, sobretudo a época do
espaço. Estamos na época da simultaneidade, estamos na época da justaposição, na época do
próximo e do distante, do lado a lado, do disperso. (...) Talvez seja possível afirmar que alguns dos
conflitos ideológicos que animam as polêmicas de hoje em dia se desenrolam entre os devotos
descendentes do tempo e os aferrados habitantes do espaço‖ (FOUCAULT, 2013).
178
multiplicidade; sem multiplicidade não há espaço. Se o espaço é
indiscutivelmente produto de inter-relações, então isto deve implicar
na existência da pluralidade: multiplicidade e espaço são co-
constitutivos. (MASSEY, 2004)

Ao mesmo tempo, conforme discutido por Haesbaert (2004), o espaço é ―re-


descoberto‖ pela via da negação, nos discurso da desterritorialização presentes nos
teóricos da globalização – ―o fim do espaço‖, ―a supressão do espaço pelo tempo‖, ―o
fim dos Estados-nacionais‖ etc.

Consecutivamente, é cada vez maior o número de pesquisas e análises


valorizando a dimensão espacial como ferramenta privilegiada para compreensão da
sociedade.

Referente às mudanças no campo do pensamento social, Cruz (2011, p. 87)


situa a necessidade de compreendê-las a partir do surgimento de ―novas teorias da
ação, da política e do poder nas ciências sociais e na filosofia‖:

Nesse sentido, podemos listar várias contribuições, desde aquelas


situadas no campo do materialismo histórico, como, por exemplo, a
teoria política de Gramsci e a teoria do Estado de Poulantzas até
aquelas que estão para além do materialismo histórico, como é o
caso da analítica do poder de Michel Foucault, da teoria da razão
prática de Pierre Bourdieu, da teoria dos agenciamentos e da
micropolítica de Felix Guattari e Deleuze. Podendo-se incluir nessa
lista relevantes contribuições oriundas dos estudos culturais, dos
estudos pós-coloniais, das teorias antirracistas, das teorias
feministas, das teorias queer, além do vigoroso pensamento
descolonial latinoamericano.

Debruçarmos sobre a centralidade do território, implica na observância de


uma conjuntura na qual ―uma nova forma de pensar a ação, o poder e a política
influenciados por uma nova realidade e um novo movimento no campo do
pensamento social‖ (Ibid., p. 88) emergem.

Para além, as novas concepções de território buscam mais do que tratar


simplesmente de rever as formas de entender, pensar e agir políticamente, tomando
o poder e a política do ponto de vista do enfrentamente com o Estado, na
instauração de outros regimes de organização societária, busca ampliar o campo de
problematizações acerca dos fenômenos que envolvem os processos de dominação
e resistência.
179
Do ponto de vista empírico, ainda conforme o Cruz (2011), o conceito de
território também ganha uma grande visibilidade, tornando-se conceito-chave para
as políticas de Estado, nas diferentes esferas de ação/intervenção. Trata-se, como já
abordamos, da territorialização das políticas públicas. No caso brasileiro, esse
movimento é emblemático. Vários ministérios 63 utilizam o conceito de território como
um elemento estruturante de suas formas de planejamento e intervenção. De outro
modo, mais ligada à sociedade civil, o autor joga luz aos movimentos sociais, para
os quais o conceito ―tem funcionado como um dispositivo de agenciamento político,
em especial, no contexto latino americano, em que essa categoria é uma espécie de
catalisador das energias emancipatórias‖ (CRUZ, 2011, p. 89). Desta forma, o
acionamento do conceito tem se mostrado estrategicamente presente nos
mecanismos de intervenção social e politica tanto dos atores hegemônicos quanto
dos hegemonizados.

Haesbaert (2014), refletindo acerca da construção de conceitos no âmbito da


geografia, nos aponta uma distinção importante no uso dos conceitos. Neste sentido
ele problematiza que é possível afirmar, numa leitura mais ampla e genérica, não
dualista, que se desdobram dois grandes paradigmas de abordagem das questões
territoriais: o hegemônico, que vê o espaço como recurso funcional, uma extensão
ou superfície a ser transposta e/ou gerida e substrato a ser explorado; e o contra-
hegemônico, contrário a essa visão mais absoluta, homogeneizante e universal do
espaço, tomando-o como espaço vivido,

Densificado pelas múltiplas relações sociais e culturais que fazem do


vínculo sociedade-―terra‖ (ou natureza, se quisermos), um laço muito
mais denso, em que os homens não são visto apenas como sujeitos
a sujeitar seu meio, mas como inter-agentes que compõem esse
próprio meio e cujo ―bem viver‖ (como afirmam os indígenas andinos)
depende dessa interação (HAESBAERT, Ibid., p.54).

A partir desta visão, inspirado em Moore (2008), Haesbaert (idem) nos


informa que o conceito de território pode ser acionado de três diferentes formas:

63
―Quanto às políticas estatais de base territorial, são vários os exemplos no baso brasileiro, com
destaque para a Política Nacional de Ordenamento Territorial (PNOT), do Ministério da Integração
Nacional, de 2004, o Programa dos Territórios da Cidadania, do Ministério do Desenvolvimento
Agrário, de 2008, e o de Educação Escolar Indígena, que define Territórios Etnoeducacionais, do
Ministério da Educação, de 2009.ª (HAESBAERT, 2014, p. 56)
180
enquanto categoria normativa (como instrumento jurídico-político de Estado, por
exemplo, nas ações de gestão, planejamento e execução de políticas públicas) 64;
enquanto categoria da prática (nos discursos, práticas e experiências dos
movimentos sociais, e acionados por esses como estratégia de luta, garantia e/ou
reafirmação de direitos)65; e, por fim, enquanto categoria analítica (mais próxima da
academia, no processo de reflexão e análise da realidade) – ―distinção que esta que
se dá, sobretudo, a partir dos distintos sujeitos que estão envolvidos na questão‖
(HAESBAERT, 2014, p. 54).

E ainda, alerta que

Verificamos assim que qualquer conceito, na multiplicidade de suas


definições, envolve, em primeiro lugar, a consideração de
problemáticas específicas, sejam elas de ordem
acadêncimica/intelectual (o conceito prioritariamente como
instrumento de análise), política hegemônica (nesse caso, no
planejamento estatal ou em logísticas empresariais), política
subalterna (no caso da contraposição de territorialidades ‗vividas‘ por
grupos subalternos) ou simples uso pelo senso comum. São distinto
saberes que aí se cruzam, e com os quais se associam os multiplos
grupos culturais e contextos geo-históricos em que os conceitos são
concebidos. (ibid., p. 56)

No nosso caso, poderíamos acrescentar mais uma dimensão: o território


como dimensão ontológico-existencial dos usuários:

Para muitos ‗hegemonizados‘ ou, como preferimos, subalternizados,


o território adquire muitas vezes tamanha força que combina com
igual intensidade funcionalidade e identidade. O território, nesse
caso, como defendem Bonnemaison e Cambrèzy (1996), ‗não diz
respeito apenas à função ou ao ter, mas ao ser‘. (ibid., p. 61)

64
―Como categoria da norma, ou seja, respondendo não tanto ao que o território é, mas ao que o
território deve ser, a partir de determinados interesses político-econômicos, temos tanto empresas
privadas, que defendem a valorização de produtos a partir de uma determinada ‗base territorial‘ (ou
‗regional‘), quanto o Estado, em suas inúmeras políticas de ordenamento territorial.‖ (HAESBAERT,
2014, p. 55)
65
―Enquanto categoria da prática, o território é de uso frequente, especialmente entre os movimentos
sociais de grupos subalternos, como o movimento dos agricultores sem-terra e sem-teto e dos povos
tradicionais (indígenas e quilombolas, sobretudo). Isso fica muito evidente em manifestações políticas
como a ‗Marcha Indígena pelo Território e a Dignidade‘, realizada na Bolívia, em 1990, ou a mais
recente ‗Marcha pela Soberania Popular, o Território e os Recursos Naturais‘, também na Bolívia, em
2002.‖ (HAESBAERT, 2014, p. 55)
181
Estigmatizados, para muitos usuários o próprio ato de sobreviver em si já
aparece como ato político e em conflito com os lugares que perpassa – produzidos a
partir e para a negação de sua existência, mesmo que em algumas vezes isto lhe
seja inconsciente. Existir é um ato de resistência. Desta forma, a dimensão
geográfica das ações dos sujeitos em seus espaços cotidianos irremediavelmente já
se trata de conquista e da luta (antimanicomial, no sentido lato, por excelência). Não
se trata de uma escolha e, às vezes nem de uma consciência estratégica.

Se, como vimos, segundo Souza (2013), o território é ―uma das facetas do
espaço social‖, sendo a projeção/expressão das relações de poder no espaço66 que
opera um ―campo de forças‖, e, portanto, ―um espaço definido e delimitado por e a
partir de relações de poder‖ (SOUZA, 1995, p. 97) – território como ―uma teia ou
rede de relações sociais que, a partir de sua complexidade interna, define ao mesmo
tempo um limite, uma alteridade...‖ (SOUZA, 1995, p. 86); a dimensão do território
como a base ontológico-existencial dos usuários é marcada pelo território como
afirmação da vida. Delimitado a partir da sua presença no mundo. Um pressuposto
básico da existência. O ato de estar que carrega toda a dimensão política das
disputas de poder para existir. Por isso, território que figura como potência de vida
por conta das disputas e lutas cotidianas que a própria existência daqueles sujeitos
no mundo obriga, e que são eminentemente espaciais:

O poder só se exerce com referência a um território e, muito


frequentemente, por meio de um território. Não há influência que seja
exercida ou poder explícito que se concretize sem que seus limites
espaciais, ainda que às vezes vagos, igualmente sejam menos ou
mais perceptíveis. Mesmo quando se exerce poder a grandes
distâncias, por meio das modernas tecnologias de comunicação e
informação, o alvo ou destinatário jamais é um grupo social
‗flutuando no ar‘, mas sempre um grupo social em conexão com um
espaço (a ser [des] territorializado, portanto). E, em muitos casos, o
uso intenso e ostensivo de práticas espaciais, como restrições de
acesso e locomoção, manuseio de signos inscritos na paisagem e
ressignificação de lugares (mediante alteração de toponímia etc.),
modificação de fronteiras, e assim sucessivamente, envolvem a

66
―O fato de se admitir que o território, na qualidade de uma projeção espacial de relações de poder,
não deve ser confundido com o substrato não quer dizer, de jeito nenhum, que seja possível
compreender e, mais ainda, investigar territórios concretos (sua origem e causas de suas
transformações ao longo do tempo) sem que o substrato espacial material do espaço social seja
devidamente considerado.‖ (SOUZA, 2013, p. 89)
182
instrumentalização e a alteração do território (e também do substrato
espacial material, da paisagem e das imagens de lugar, em vários
casos). (SOUZA, 2013, p. 87-88)

Por fim, no caso específico da Saúde Mental, onde a dimensão ―prática‖ e


―normativa‖ muitas vezes se mesclam no cotidiano dos usuários e profissionais,
ainda poderíamos acrescentar outra dimensão do uso do conceito: enquanto signo –
uma ideologia.

É preciso compreender que o processo de institucionalização da Reforma


acabou por canalizar diferentes pautas e interesses dispersos na realidade dos
serviços de saúde mental. A possibilidade de ―abertura para o território‖, apesar de
não apaziguar essas demandas, operou sua integração – até hoje conflituosa e
marcada por contradições.

O território, por tanto, acabou por se tornar também a ―figur-ação‖ do novo


modelo assistencial. Mais do que um ―conceito-referência‖, o uso nominal do
território por si só opera como uma ―imagem‖ que acaba por despertar um processo
autosignificante das práticas e ações institucionais cotidianas dos profissionais,
mecanicamente cobrindo as mesmas de sentido revolucionário e emancipador. Se
limitado à dimensão ideológica, o uso do conceito acaba por desviar-se tanto do
sentido estratégico da Luta Antimanicomial, por que a-crítico e prescindível de
engajamento, quanto de seu sentido terapeutico, por sobrepujar os conflitos e
contradições das implicações da abordagem territorial atuante, em vistas ao
alinhamento e consensualização em relação ao discurso político instituído. Dai seu
caráter ideológico.

Destarte, podemos delinear os principais desafios teórico-metodológicos,


práticos e políticos de uma abordagem territorial na saúde mental...

183
Figura 13 – Muros: Denilson. Fotografia por Lucas Honorato (2017).

184
I - A MORTE DA GENTILEZA DO PROFETA GENTILEZA – A „ENTIFICAÇÃO‟
DO CONCEITO E A DESPOTENCIALIZAÇÃO DA ABORDAGEM
Este primeiro desafio consiste na tendência de ―entificação‖ do conceito.
Trata-se da operação de transfiguração do conceito em um Ser. Dota-lo de
concretude existêncial econdição de ação per si.

Mais do que tomar o conceito como uma ―re-apresentação‖ do real – como a


própria base empírica da realidade (HAESBAERT, 2015), a ―entificação do conceito‖
transforma o conceito em sujeito e, por tanto, passível de ação.

Ora, não desconsideramos que, conforme apresentado por Haesbaert (2014)


e Cruz (2011), inspirados nos debates de Deleuze e Guatarri (1992), o conceito,
enquanto escolha metodológica opere um recorte da realidade, e, desta forma,
termine por ―produzir acontecimentos‖. De certo que concordamos que toda
abordagem teórica e conceitual produz, ao intervêm no mundo, recortando a
realidade e à recompondo – (sendo inclusive uma escolha ético-política).

Porém, cabe salientar que o conceito não tem existência propria. Trata-se de
um instrumento da cognição para desvelamento da realidade.

Qualificar um conceito com a capacidade de sujeito de ação e transformação,


não só configura um grave erro teórico-filosófico, como também, acaba por retirar da
abordagem territorial toda e qualquer capacidade reflexiva e analítica da realidade:
―o território cuida‖, ―o saber do território‖, ―o território precisa acolher‖. Ato de
―terceirização‖ a um pretenso ―sujeito abstrato‖ que, ao mesmo tempo em que
despersonaliza os agentes da ação, ética e políticamente desresponsabiliza os
sujeitos concretos da ação – o que é mais grave, quando observada, na maioria das
vezes, a intensa condição de fragilidade dos usuários.

Contudo, é importante notar que, independente dos sentidos de território


atribuídos, o que é comum a todos (com maior ênfase ou não) é a existência do
sujeito. Não há território sem sujeito (ou sem referência à), o que pressupõe a
existência do outro, que também pode ser objeto. Assim sendo, a dimensão do
controle e do interesse é inerente às relações territoriais, e, com isto, a identificação
do outro: quem é o outro? Qual o lugar do outro?

185
O ―encontro com o território‖, tão quisto ao projeto de desintitucionalização
incorre obrigatoriamente na compreensão das relações de poder e conflitividade dos
espaços. Se o conceito diz respeito à espacialidade humana e, por isso sendo de
interesse de diferentes campos de conhecimento, consequentemente polissêmico e
hetegenético, ao mesmo tempo, a espacialidade humana é forjada no âmago de
relações sociais concretas.

Desta forma, independente da semantização do termo, o que conta aqui é a


possível despotencialização da abordagem territorial pelo obscurecimento das
relações sociais concretas e desresponsabilização dos profissionais –
responsabilidade transferida para o ―território‖.

A quem interessaria a ―entificação‖ dos conceitos?

II - O INCOMPREENDIDO ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO – A DIFICULDADE


DA ALTERIDADE RADICAL E A DESARTICULAÇÃO DOS PODERES
INSTITUINTES
Para o filósofo Lévinas (1993), o encontro entre sujeitos abriga uma alteridade
que é sempre traumatizante, mas mobilizadora dos processos de subjetivação.

O mesmo diferencia o ato de aprender do ato de compreender. Segundo o


autor, o desejo de aprender envolve um posicionamento ético que implica em tornar-
se diferente do que se é; já o movimento da compreensão, visaria à absorção da
alteridade provocada pelo encontro às representações instituídas pelo eu.

Ou seja, o desejo de compreender sempre pressupõe uma orientação


consciente de apropriar-se de outro para conforma-lo às representações do eu.
Entretanto, o desejo de aprender envolve um movimento em direção ao
inapreensível – a uma ―enrascada‖, onde o eu não pode antecipar qualquer
apreensão.

Trata-se, segundo Blum (2014) do ―questionamento da consciência e não de


uma consciência do questionamento‖, posto que ―uma consciência do
questionamento já é uma absorção, uma compreensão do ser que, ao ser absorvido,
perde sua característica de alteridade‖.

186
Ora, outro desafio posto à ―ideologia do território‖ consiste no exercício disto
que Lévinas chama de uma ―ética da alteridade radical‖. Aqui, o outro não é passivel
de conceituação, visto que extrapola a lógica estritamente racional. Por tanto, a
abordagem exige a vida dos sentidos, dos afetos, da sensibilidade. Um movimento
de ―evasão de si em favor do outro‖, de ―permitir ser afetado, ser desalojado e de
acolher o outro em sua exigência por respeito e cuidado‖ (CARVALHO; FREIRE;
BOSI, 2009). É um choque, um trauma desestabilizador. Um permitir-se ser
confrontado. Assim, os regimes de verdade e tematização sobre o outro não são
compativeis. ―A dimensão ética para Lévinas se traduz, conforme já aludido, na
responsabilidade de ser por, pelo e para o outro. Estar, portanto, a serviço do outro é
a própria moralidade para Lévinas, a qual começa com o acolhimento‖. É o exercício
de aprender com o usuário. Adentrar em seu mundo de sentido, mais do que
importar néxos e léxicos e/ou sobrecodificar as demandas de acordo exclusivamente
com o entendimento ténico e ético-político do profissional – por mais ―progressista‖
ou ―humanista‖ que seja.

Importante salientar que embora busquemos sempre formas de expressão


absolutamente claras, sempre existirá obscuridades. Desta forma, a busca do
―absolutamente outro‖ só pode se dar de forma metafísica. Experiência que, embora
intangível em sua totalidade, de forma nenhuma pressupõe irrealidade. É que,
segundo Blum (2014, p. 130)

É o discurso que garante e mantém a relação com a alteridade em


sua radicalidade. Posto que a linguagem é abertura de sentidos,
fonte inesgotável de significação, ela sustenta uma relação que
resiste à totalização. Como a palavra consiste em explicar-se sobre a
palavra, o discurso é ensinamento que não tem fim.

Acontece que, conforme Franco & Merhy (2005) demonstram, toda demanda
de saúde é real e ao mesmo tempo imaginária – vide o debate sobre o ―complexo
médico-industrial‖.

Considerando que os saberes dos profissionais e dos usuários configuram


desiguais regimes de poder e, por tanto, com desiguais capacidades instituintes,
muitas das vezes, os próprios usuários absorvem a linguagem e o discurso dos
profissionais para expressar suas demandas autenticas. Porém, não
187
necessariamente a apropriação da palavra significa um mesmo conteúdo. Para
além, mais do que diferentes regimes de significação, o discurso ideológico da
abordagem territorial pode acabar por sobrepujar as demandas autenticas do
usuário – desarticulando os sujeitos.

Para Bonnemaison e Cambrèzy (1996, p. 10), apesar do território sempre


incorporar os aspéctos de dominação, função, apropriação e valor; sempre é,
primeiramente, uma significação. Portanto, ―o poder do laço territorial revela que o
espaço é investido de valores não somente materiais, mas também éticos,
espirituais, simbólicos e afetivos‖.

Assim, muitos dos complexos vínculos territoriais e afetivos artesanalmente


elaborados pelos usuários com seus espaços cotidianos (a casa, este ou aquele
dispositivo e até o hospital), a partir dos quais as demandas existenciais emergem,
embora muitas vezes não necessariamente claros e bem organizados ao
entendimento, ao ponto da expressão verbal, quando confrontados com a ―clareza‖
da ideologia de ―abertura para o território‖, se emudecem.

Vinculos ardua e dolorosamente constituídos, sublimados por um não


entender-se vivido como ignorância a ser superada. Superação que se figura no
termo ―território‖, importado do discurso técnico e que, agora, expressa a demanda
[qual demanda?].

Do outro lado, uma ―alteridade‖ que, na melhor das intenções, acaba


desconsiderando a desigual capacidade instituinte dos discursos e opera
ideologicamente uma incorporação e retrabalhamento das demandas dos usuários
em um sistema teórico-representacional já constituído, enfraquecendo a disposição
de aprender com o outro.

É o caso de uma fala proferida por uma trabalhadora do Hospital Psiquiátrico


de Jurujuba, Niterói/RJ, na IX Semana de Psicologia da UFF, ao afirmar que ―o
Hospital tem que ser bom, mas não bom demais, senão se torna um problema, pois
os usuários não querem ir embora. Eles têm que se abrir ao território‖ – Por quê?
Quem define? Afinal, de que territórios estão falando?

Longe de apontar aqui uma crítica ingênua, concordamos que o processo de


sequestro e cronificação é algo absolutamente perverso e que implica uma

188
reorganização dos vínculos de forma desumana e absolutamente pauperizada.
Desta forma, é coerente entender que o retorno do usuário ao espaço que até então
foi o lugar (no sentido mais genuino do termo, como e de alguma forma ―espaço do
pertencimento‖) da radical opressão seja produto da própria institucionalização – por
tanto um desafio a ser superado. Porém, da mesma forma que todo poder produz
contra-poder, todo processo de desterritorialização envolve um processo de re-
territorialização, mesmo que em base absolutamente pauperizadas (HAESBAERT,
2004).

O que quero evidenciar é a capacidade instituinte dos sujeitos, a valorização


das resistências históricas e inventividades; e a riqueza disto na construção de
projetos terapeuticos que potencializem os sujeitos. Uma abordagem que acabe por
secundarizar essa busca da ―alteridade radical‖, não constituindo uma zona
verdadeiramente de intersecção entre usuário-profissional, tende a obscurescer e
desconsiderar essas variáveis, compreendendo que a forma ideal só pode ser o
―território‖ – aqui, o Hospital, resumido ao seu substrato material, em si e
naturalmente portador de capacidade de (re)produção as lógicas manicomiais,
desconsiderando o conjunto de relações que reconfiguram os conteúdos daquele
espaço [forma que significa o conteúdo, e não o contrário].

Pode um Hospital Psiquiátrico tornar-se um dispositivo anti-manicomial? A


quem interessaria esta questão?

III - O TRISTE FIM DE LIMA BARRETO – O PROBLEMA DA


TECNOBUROCRATIZAÇÃO DO CONCEITO E OS DESAFIOS DA
TERRITORIALIDADE
Um dos desafios decorrentes da supervalorização da dimensão de uso do
território como signo, está em implicar na banalização do conceito, se aproximando
do que citamos na introdução como ―pop-degradação‖, e até ―modismo‖.

Ocorre que, ideologizado, os diferentes sentidos do conceito de território


foram ―absorvidos‖ nas leis que regulamentam as políticas de saúde mental, sem,
contudo, ser explicitamente definido e nem tendo sua polissemia distriminada.
Tornado ―consenso‖, as diferentes abordagens territoriais coabitam nas normativas
sem a devida conceituação.

189
Vejamos o caso da Portaria do Ministério da Saúde Nº 3.088, de 23 de
Dezembro de 2011, adequada às diretrizes da Lei Federal Nº 10.216/2001 (―Lei da
Reforma Psiquiátrica‖, que redireciona o modelo de assistencial em Saúde Mental),
que ―Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou
transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras
drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)‖.

O documento define uma série de serviços e equipamentos 67 que deverão


constituir a Rede (Art. 5), no que diz respeito à: atenção básica em saúde; atenção
psicossocial especializada; atenção de urgência e emergência; atenção residencial
de caráter transitório; atenção hospitalar; estratégias de desinstitucionalização;
estratégias de reabilitação psicossocial. Equipamentos e serviços que deverão
obedecer à 12 ―diretrizes para o funcionamento da rede‖ (Art. 2), visando 3 ―objetivos
gerais‖ (Art. 3), através de 9 ―objetivos específicos‖ (Art. 4).

No que diz respeito ao termo ―território‖, é citado num total de 10 vezes,


aparecendo no texto de 2 ―diretrizes para o funcionamento da rede‖ 68; em 1 dos
objetivos gerais69; e 7 vezes, ao caracterizar os componentes da Rede e suas ações
e competências70.

De forma geral, podemos ―mapear‖ três diferentes ―categorias principais de


sentido‖ atribuídos ao conceito: a) território como orientador das atividades
terapêuticas; b) território como unidade de gestão e planejamento em saúde; e, c)
território como aquilo que dá coerência à unidade político-administrativa do Estado.

67
São equipamentos e serviços previstos (Art. 5): Unidade Básica de Saúde; Núcleo de Apoio a
Saúde da Família; Consultório de Rua; Apoio aos Serviços do componente Atenção Residencial de
Caráter Transitório; Centros de Convivência e Cultura; Centros de Atenção Psicossocial nas suas
diferentes modalidades; SAMU 192; Sala de Estabilização; UPA 24 horas e portas hospitalares de
atenção à urgência /pronto socorro, Unidades Básicas de Saúde; Unidade de Acolhimento; Serviço de
Atenção em Regime Residencial; Enfermaria especializada em hospital geral; Serviço Hospitalar de
Referência (SHR) para Atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas; Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRT); Programa de Volta para Casa (PVC); Iniciativas de Geração de Trabalho e
Renda; Empreendimentos Solidários e Cooperativas Sociais.
68
Art. 2, incisos VII e IX
69
Art. 3, inciso III
70
Art. 6 § 3º; Art.7, § 1º; Art.10, § 4º; Art.12, § 2º; e, Art.14, incisos I, II e III.
190
A primeira é a mais frequente ao longo do texto, sem, porém apresentar
definições claras. É que o texto considera e incorpora todo o conjunto de outras
normativas e Leis precedentes, transpondo seus conceitos e abordagens.

Está presente em 2 diretrizes, sendo:

a) ―desenvolvimento de atividades no território, que favoreça a


inclusão social com vistas à promoção de autonomia e ao exercício
da cidadania‖ (Art. 2, inciso VII);
b) ―ênfase em serviços de base territorial e comunitária, com
participação e controle social dos usuários e de seus familiares‖
(Art. 2, inciso IX).

Também aparece em 1 dos 3 objetivos gerais – ―garantir a articulação e


integração dos pontos de atenção das redes de saúde no território, qualificando o
cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da atenção às
urgências‖ (Art. 3, inciso III).

Por fim, no que diz respeito aos componentes da Rede, aparece 2 vezes:

a) ―no que se refere ao inciso II deste artigo, em nível local ou regional,


compõe a rede hospitalar de retaguarda aos usuários de álcool e
outras drogas, observando o território, a lógica da redução de danos e
outras premissas e princípios do SUS‖ Art. 10, § 4º, acerca da ―atenção
hospitalar - serviço Hospitalar de Referência para Atenção‖);
b) ―as iniciativas de geração de trabalho e renda/empreendimentos
solidários/cooperativas sociais de que trata o § 1º deste artigo devem
articular sistematicamente as redes de saúde e de economia solidária
com os recursos disponíveis no território para garantir a melhoria das
condições concretas de vida, ampliação da autonomia, contratualidade
e inclusão social de usuários da rede e seus familiares‖ (Art. 12, § 2º,
no que tange às ―estratégias de desinstitucionalização‖).

Este conjunto de referências refletem dois ―caminhos do território‖ já


apontados, misturando o conceito de território usado de Milton Santos, legado do
movimento de Reforma Sanitária; e o conceito de território no sentido atribuído ao

191
pressuposto da desinstitucionalização de Franco Baságlia – não necessariamente
concordantes.

No que diz respeito ao segundo grande ―categorias de sentido‖, podemos citar


2 momentos em que o conceito é acionado, sendo:

a) ―quando necessário, a Equipe de Consultório na Rua, de que trata a alínea


"a" do inciso II deste artigo, poderá utilizar as instalações das Unidades
Básicas de Saúde do território‖ (Art. 6 § 3º, acerca da ―Equipe de atenção
básica para populações específicas - Consultório de Rua‖);

b) ―o Centro de Atenção Psicossocial de que trata o caput deste artigo é


constituído por equipe multiprofissional que atua sob a ótica interdisciplinar
e realiza atendimento às pessoas com transtornos mentais graves e
persistentes e às pessoas com necessidades decorrentes do uso de crack,
álcool e outras drogas, em sua área territorial, em regime de tratamento
intensivo, semi-intensivo, e não intensivo‖ (Art. 7, § 1º, no que tange a
―atenção psicossocial especializada – CAPS‖).

Aqui, apesar de em ambas as redações observarmos à filiação às normas de


regionalização e territorialização pautadas pelo SUS (NOAS 01/2001), podemos
notar dois sentidos distintos: por um lado, observamos a territorialidade dos
serviços, adequados as Regiões de Saúde; por outro, o território aparece como
continente, base material, como possuidor e sinônimo de dos equipamentos de
saúde.

Por fim, podemos citar três momentos em que o conceito é acionado de forma
idêntica, no que se refere ao Art. 14 (Competências para a operacionalização da
Rede de Atenção Psicossocial). Em ambos os casos, o conceito é acionado na
concepção histórica dos juristas da relação Estado: da distribuição de competências
entre união, federação, estado e município – território como espaço de político-
administrativo da soberania do Estado (STEINBERGUER, 2013).

Se compreendermos que a normativa regula a reorganização espacial dos


serviços, além de propor novas formas de regulação para as relações institucionais,
ambas tendo como base o ―território‖, a não clarificação deste tende a se impor

192
como um obstaculo para a realização das exigências da Lei. E, consequentemente,
ao avanço, no âmbito institucional ao projeto da Reforma.

Por um lado, a falta de uma definição formal de território pode produzir


constrangimentos e entraves à aplicação das políticas de saúde mental. Por outro, a
normativização de uma definição ―acabada‖ e bem definida do conceito implicaria em
uma série de entraves, visto que a complexidade do conceito reduziria-se à sua
norma, obrigando a uma abordagem territorial tecnoburocrática, o que incorre no
esvaziamento de sua capacidade de reveladora e analítica da realidade dos
usuários e, portanto, reduzindo a potência da intervenção, e não permitindo clarificar
as relações sociais, que são o princípio e o fim de todo processo de transformação –
visto obscurecer os conflitos decorrentes de seu agenciamento com a realidade e
demanda dos usuários.

A quem interessaria o não rigor conceitual?

A quem interessaria a burocratização do conceito?

IV - OS LIMITES DE HELIO OITICICA – O MITO DO CONCEITO


INTEGRADOR E O DELIRIO DA EXPERIÊNCIA TOTAL
Como já visto, as influências do Movimento de Reforma Sanitária ao longo do
processo de Reforma Psiquiátrica não se limitou a dimensão política

Do ponto de vista epistemológico e do método, também podemos considerar


como legado a abordagem do ―território usado‖ enquanto desvelador da relação
sociedade-espaço e como instrumento para investigação dos determinantes sociais
das doenças – cenário que se soma e mescla à do cuidado territorial, do projeto de
desinstitucionalização.

O encontro das concepções, com o objetivo de reafirma a necessidade de


construção uma abordagem territorial para a saúde mental, porém, acabou por
produzir uma ampliação monumental do conceito ao pressupor poder abarcar todas
as dimensões da realidade dos usuários e em suas complexidades.

Sendo que esta própria dificuldade já estava situada se tomarmos unicamente


o ―território usado‖:

193
A compreensão do espaço geográfico como sinônimo de espaço
banal obriga-nos a levar em conta todos os elementos e a perceber a
inter-relação entre os fenômenos. Uma perspectiva do território
usado conduz à idéia de espaço banal, O espaço de todos, todo o
espaço. Trata-se do espaço de todos os homens, não importa suas
diferenças; o espa- ço de todas as instituições, não importa a sua
força; o espaço de todas as empresas, não importa o seu poder.
Esse é o espaço de todas as dimensões do acontecer, de todas as
determinações da totalidade social. É uma visão que incorpora o
movimento do todo (...). (SANTOS, 2000, p. 104).

Para além, do ponto de vista da dimensão política da capacidade de


transformação que as intervenções sociais produzem, corrobora:

Qualquer proposta de análise e interpretação que pretenda inspirar


ou guiar uma intervenção endereçada ao conjunto da sociedade não
pode prescindir, então, de uma visão desse todo. Incapazes de gerar
mudanças que englobem a totalidade do território e da sociedade, as
intervenções parciais atendem a interesses particulares ou
apresentam resultados efêmeros e inoperantes (p. 105)

Em outro texto, afirma:

O território, pela sua organização e instrumentalização, deve ser


usado como forma de se alcançar um projeto social igualitário. A
sociedade civil é, também, território, e não se pode se definir fora
dele. Para ultrapassar a vaguidade do conceito e avançar da
cidadania abstrata à cidadania concreta, a questão territorial não
pode ser desprezada. Há desigualdades sociais que são, em
primeiro lugar, desigualdades territoriais, por que derivam do lugar
onde cada qual se encontra. Seu tratamento não pode ser alheio às
realidades territoriais. O cidadão é um indivíduo num lugar. A
República somente será realmente democrática quando considerar
todos os cidadãos como iguais, independente do lugar onde estejam.
(SANTOS, 2007, p. 151)

Ora, tomando emprestado um dos princípios do projeto de


desinstitucionalização – a restituição da cidadania via remissão da liberdade,
compreende-se que se limitada ao campo jurídico-discursivo (dos direitos de
cidadania – civis, sociais e políticos71), em si não produz avanços significativos em

71
Segundo Thomas Marshall, os direitos de cidadania, compreendem os direitos civis, sociais e
políticos: ―Os direitos civis incluem ‗os direitos necessários à liberdade individual — liberdade da
pessoa, liberdade de expressão, pensamento e fé, o direito de possuir propriedade e estabelecer
contratos válidos e o direito a justiça imparcial‘. Os direitos políticos incluem ‗o direito de participar no
exercício do poder político‘ e, finalmente, os direitos sociais envolvem ‗todo um conjunto de direitos,
194
relação ao projeto da Reforma Psiquiátrica, posto que: se por um lado trata-se da
garantia do ―direito à vida‖; por outro, cabe ainda nos questionarmos de que ―vida‖
estamos falando.

Importante: o movimento de recolocação do louco à condição de sujeito pela


via da abertura e articulação com o território permite sim uma considerável abertura
à cidadania, mas não garante sua ―realização‖.

É que a cidade, enquanto lócus (re)produção das desigualdades e injustiças,


acaba por conformar diferentes e desiguais (mas, combinadas) possibilidades de
acesso aos direitos e serviços essenciais à vida social e à vida individual – por via da
distribuição espacial de equipamentos e recursos 72. Ao ponto em que, ―para muitos,
a rede urbana existente e a rede de serviços correspondente são apenas reais para
os outros. Por isso são cidadãos diminuídos, incompletos‖ (SANTOS, 2007, p. 140).
É que a distribuição da população na cidade é, na maioria das vezes orientada
prioritariamente pela combinação do papel do Estado, através da instrumentalização
e concentração de recursos, fazendo um uso hierárquico e seletivo do território
(BARBOSA, 2010); e das leis do mercado (vantagens locacionais, ―puxada
populacional‖ a partir de novos empreendimentos, etc.).

Assim, ―a desigualdade social se revela como hierarquização da cidadania de


acordo com os territórios de morada‖ (BARBOSA, 2010, p. 7). Consecutivamente, se

O valor do indivíduo depende do lugar em que está, (...) a igualdade


dos cidadãos supõe, para todos, uma acessibilidade semelhante aos
bens e serviços, sem os quais a vida não será vivida com aquele
mínimo de dignidade que se impõe. (SANTOS, 2007, p. 144)

Avançar no sentido de possibilitar a ―realização‖ da cidania, para Oliveira


(1999), implica na contemplação de uma série de condições: (1) a participação e o
nível de consciência política, (2) o grau de igualdade ou eqüidade, (3) o grau de

desde o direito a um mínimo de bem-estar e segurança económica até ao direito a partilhar em pleno
na herança social e a viver a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões prevalecentes na
sociedade‘. (...) As instituições que lhes corresponderam foram os tribunais (direitos civis), o
parlamento e os órgãos de governo local (direitos políticos) e o sistema de educação pública, bem
como os serviços sociais (direitos sociais)‖ (MARSHALL, 1992, p. 8 apud OLIVEIRA, 1999, p. 133)
72
―Recursos‖ deve ser visto de forma ampla, abarcando a qualidade e a quantidade dos recursos
humanos, financeiros e estruturais.
195
liberdade, (4) o nível de garantia de um conjunto de direitos, (5) o grau de
acessibilidade a bens, serviços e equipamentos sociais.

Neste sentido, apesar da Rede implicar na abertura para a cidade, é


fundamental considerar o processo de valorização dos espaços, como nos informa
Moraes & Costa (1984):

Como afirmação mais elementar, pode-se dizer que a valorização


capitalista do espaço é, antes de tudo, uma relação capital-espaço.
(...) O espaço é uma condição geral da existência e produção da
sociedade. Sendo assim, sob a hegemonia das relações capitalistas,
o espaço (e tudo o que ele contém) aparece para a produção como
parte do valor, expresso sob forma de capital constante. Tomando
uma produção individual qualquer, pode-se observar que ela se
desenvolve ocupando uma certa parcela do espaço. (...) Entra aí
todo um trabalho morto incorporado ao solo ao longo da história: as
cidades, as estradas, e a infra-estrutura em geral. O espaço,
portanto, sob o capitalismo é capital como condição e como meio de
produção. (...) A valorização caspitalista do espaço realiza as
determinações gerais deste modo de produção, construíndo
territórios unicos, numa dialética entre a universalidade e a
singularidade. (ibid., p. 159-160)

Deste modo, segundo os autores é preciso discutir, em termos de


determinações gerais, as formas de consumo capitalista do espaço em sua dupla
forma:

Enquanto meio de produção, o espaço é consumido produtivamente;


enquanto condição de produção, improdutivamente. Seu consumo
―improdutivo‖, todavia, é condição de produção enquanto condição
de reprodução. (...) Por outro lado, o consumo ―improdutivo‖ do
espaço implica o uso (capitalista) das virtualidades do espaço não
diretamente afetas à produção imediata. É o caso do uso residencial,
sob um certo sentido das próprias cidades, dos espaços de lazer etc.
O espaço afeto diretamente à circulação (estrito senso), por sua vez,
manifesta-se no consumo capitalista, em sua dupla forma: ele é
simultaneamente um fator de realização dos preços e lucros
[condição e meio de produção] e um capital social global [na visão do
capital, condição inevitável para reprodução; na visão do trabalhador,
valor de uso]. (...) Basta lembrar do espaço de vivência necessario à
existência de qualquer indivíduo. (...) O consumo social do espaço
urbano, por exemplo, traz em seu bojo todas as contradições desse
modo de produção. (...) Portanto, o consumo ―improdutivo‖ do espaço
define-se, em grande parte, segundo os condicionamentos da luta
política de cada lugar. (ibid., p. 161-162)

196
O progresso técnico, portanto,

Nesse modo de produção, exponencializa e diversifica a gama de


recursos naturais utilizáveis, quer como matérias-primas, quer
comoforças motrizes. Ampliando-se os recursos, intensificam-se as
relações do capital com os espaços singulares e, contraditoriamente,
aumenta o distanciamento entre a produção (lato senso) e o local de
sua realização. Contraditoriamente ao passado, o desenvolvimento
tecnológico e a escala de produção relativizam a importância
―intrinseca‖ dos lugares, que passam a interessar segundo a lógica
de uma teia de relações políticas (a possibilidade ou não de acesso a
este ou aquele recurso). Nesse sentido, vê-se que não é mais o lugar
que dá o fundamento à produtividade do trabalho. Sua impotância,
sob o capitalismo, tenderá a estar centrada, cada vez mais, na sua
favorabilidade relativa frente aos fluxos de mercadorias. (MORAES
& COSTA, 1984, p., 162)

Por fim, especificamente quanto à produção do espaço, os autores


apresentam um conjunto de pressupostos fundamentais:

Quanto à produção do espaço, especificamente, a valorização


capitalista apresenta algumas características peculiares. Quando o
capital transforma o espaço em um invólucro desmensurado de
mercadorias e, este próprio, em sua substantivação, a tendência é a
de ―capitalização‖ crescente do território [substrato material] sob seu
domínio. Neste sentido, a quantidade de capital fixo fixado (tomando
uma expressão de Milton Santos) necessária à reprodução do
capital, tende a um crescimento exponencial. O volume dos
investimentos em meios de produção, com o progresso técnico tende
a ampliar-se. Isto porque a alocação, manutenção e reposição dos
equipamentos produtivos e das condições materiais de produção em
geral [infra-estrutura], sem os quais não há uma efetiva reprodução
ampliada do capital, resultam numa agregação e acumulação
crescente de trabalho morto (agora sob a forma de capital) ao solo.
(...) Como resultado geral, tem-se que o valor do espaço tende a um
aumento de sua magnitude até então desconhecido, pelo menos no
que tange ao espaço construído. Fecha-se a circularidade da
desnaturalização e, assim, redefine-se o valor dos lugares. (ibid., p.
163-164)

Harvey (2005), já avança e demonstra como o sistema capitalista busca


resolver suas contradições estruturais através da migração no espaço do capital e
trabalhadores. Aponta o processo de ―destruição criativas‖, ou seja, a re-mobilização
do capital fixo (infraestrutura, equipamentos etc.) e sua recriação em novas

197
qualidades como uma das estratégias fundamentais de ampliação do capital. Aqui,
mais do que condição ou meio de produção, a produção do espaço ganha a
importância ―em si‖, para a reprodução ampliada do capital. Ou seja, a ―cidade como
mercadoria‖. Este ângulo apresenta como contradição fundamental o conflito entre
as diferentes lógicas de produção do espaço que se tensionam na disputa entre os
―rumos‖ do arranjo espacial da cidade e seus usos: de forma mais evidente, a lógica
do capital (da ―ordem distante‖ cativa) e a lógica dos moradores (da ―ordem próxima‖
dos nativos).

Como vimos a cima, a distribuição dos recursos e infraestrutura nos espaços


envolve a articulação de lógicas e interesses não necessariamente convergentes – o
que resulta na (re)produção do espaço de forma desigual e combinada.

Interessa-nos entender que a concentração dos recursos e infraestrutura em


certas áreas atua no sentido da valorização daqueles espaços, impulsionando o
preço da terra, que devidamente são repassados ao preço final dos produtos. Ainda,
a elitização dos espaços acaba por selecionar quais os tipos de mercadorias
possíveis de serem encontrados naquele ou neste espaço, reorientando os preços.
Este conjunto de fatores faz com que, apesar de todos sermos ―cidadãos perante a
lei‖, certos espaços e usos da cidade só sejam acessíveis à parcelas restritas da
população.

Na prática, significa dizer que a distribuição dos serviços da Rede na cidade


também se insere neste contexto.

Para Dias (2008),

A intensificação da circulação interagindo com as novas formas de


organização da produção imprime simultaneamente ordem e
desordem numa perspectiva essencialmente geográfica. À escala
planetária ou mundial, as redes são portadoras de ordem – através
delas as grandes corporações se articulam, reduzindo o tempo de
circulação em todas as escalas nas quais elas operam; o ponto
crucial é a busca de um ritmo, mundial ou nacional, beneficiando-se
de escalas gerais de produtividade, de circulação e de trocas. Na
escala local, estas mesmas redes são muitas vezes portadoras de
desordem – numa velocidade sem precedentes engendram
processos de exclusão social, marginalizam centros urbanos que
tirava sua força dos laços de proximidade geográfica e alteram
mercados de trabalho. (DIAS, 2008, p. 154)
198
Desta forma,

Mais do que nunca o Estado deve enfrentar múltiplos conflitos


ampliados pelo processo de desigualdade sócio-espacial. A
tendência se afirma no sentido de uma divisão territorial do trabalho
acentuada e de uma diferenciação da localização. Ambas são
fundadas sobre a mobilidade crescente dos capitais, que leva à
reorganização do sistema urbano e favorece a concentração
espacialmente seletiva dos potenciais de crescimento. [Por exemplo,]
A transformação da metrópole num centro financeiro competitivo no
plano internacional, sede de numerosas organizações econômicas,
centro cultural e espaço de consumo para as classes dominantes da
sociedade capitalista moderna engendra uma polarização do
mercado de trabalho, um crescimento paralelo do número de
empregos qualificados ligados às atividades de direção, concepção e
gestão e do número de empregos mal remunerados e sua própria
heterogeneização graças aos processos de segregação. (ibid., p.
154)

Assim, a importância estratégica da localização geográfica é cada vez mais


ampliada para o acesso às redes, que concentram não só o suporte tecnológico,
como também o acesso as expertise necessárias para seu uso. Desta forma, as
vantagens locacionais oferecidas pelos lugares passam a ser cada vez mais
importantes, e estes objetivados pelos seus conteúdos (infraestrutura física, recursos
naturais e humanos, densidade informacional etc.):

Neste sentido, concordamos com a tese defendida por D. HARVEY


(1989:293-294): ‗Quanto menos importante as barreiras espaciais,
tanto maior a sensibilidade do capital às variações do lugar dentro do
espaço e tanto maior o incentivo para que os lugares se diferenciem
de maneiras atrativas para o capital‖ (DIAS, 2008, p. 157)

Logo, as ―inovações‖ (técnicas e tecnológicas) e a ―modernidade‖


(transformações culturais e novas formas de sociabilidade), tendem a se integrarem
e difundirem nos espaços de acordo com o seu conteúdo e importância das
atividades preexistentes.

Ao mesmo tempo, como vimos, se a ―cada estágio tecnológico abrem novas


possibilidades para o acesso à informação, bem como o seu controle‖ (DIAS, 2008,
p. 155), fica evidente a capacidade das redes técnicas de ao mesmo tempo em que
conectam (―conexidade‖), deterem o poder de exclusão, de acordo com as relações
199
que permitem seu acesso, gestão e controle (capital econômico, expertise técnica
etc.):

Nunca lidamos com a rede máxima, definida pela totalidade de


relações mais diretas, mas com a rede resultante de manifestações
das coações técnicas, econômicas, políticas e sociais. (DIAS, 2008,
p. 148)

Os ―vários circuitos possíveis‖ enunciados como princípio para a estruturação


da rede, esbarra na desigualdade combinada dos espaços. Desta forma, as
trajetórias tendem a serem reorientadas de acordo com forças muitas vezes
alienígenas e alheias aos projetos terapeuticos e ao interesse do próprio sujeito – a
experiência autônoma estruturalmente corrompida.

Apesar da garantia financeira mínima com o ―Programa de Volta Para Cara‖,


é de certo que um mesmo valor adquire diferentes capacidades de compra em
diferentes lugares – um desafio a ser enfrentado pelos Serviços de Residência
Terapeutica (SRT), por exemplo.

Para além do financeiro, os diferentes espaços compõem formas de


sociabilidade próprias, com exigências estéticas e modos de agir próprios (não falo
apenas de lugares pontuais, como shoppings, mas de bairros inteiros – como no
caso do bairro da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro).

Este conjunto de constrangimentos tende a determinar as trajetórias dos


sujeitos na Rede, através de constantes redesenhos, inflexões e adequações, de
fato não esboçadas pelos sujeitos e concernentes à seu projeto terapeutico –
arregimentando o lugar social pré-definido ao louco: a invisibilidade.

Para além, desconsiderada a incapacidade concreta de acompanhamento de


quem quer que seja na sua ―complexidade movente‖, dado a contingência,
imprevisibilidade e multidimensionalidade da vida, e considerando também a rigidez
caráter estrutural no qual as relações sociais estão imersa – o que nos faria na
escala estrutural, no mínimo questionar a importância e função dos projetos
terapeutico.

200
No momento histórico atual em que vivemos de intensificação dos fluxos
(tanto globais e locais), uma proposta de entendimento e intervenção integral em
relação aos sujeitos esbarra em pelo menos uma questão em particular:

[Posto que,] o território, de qualquer forma, define-se antes de tudo


com referência às relações sociais (ou culturais, em sentido amplo) e
ao contexto histórico em que está inserido. (...) É imprescindível,
portanto, que contextualizemos historicamente o ‗território‘ com o
qual estamos trabalhando. Se nossa leitura for uma leitura
integradora, o território respondendo pelo conjunto de nossas
experiências ou, em outras palavras, relações de domínio e
apropriação, no/com/através do espaço, os elementos-chave
responsáveis por essas relações diferente consideravelmente ao
longo do tempo. Assim, ao contrário de Chivallon, poderíamos dizer
que, se a ideia de território como ‗experiência total do espaço‘, que
conjuga num mesmo local os principais componentes da vida social,
não é mais possível, não é simplesmente por que não existe essa
integração. (...) Hoje, poderíamos afirmar, a ‗experiência integrada‘
do espaço (mas nunca ‗total‘, como na antiga conjugação íntima
entre espaço econômico, político e cultura num espaço contínuo e
relativamente bem delimitado) é possível somente se estivermos
articulados (em rede) através de múltiplas escalas, que muitas vezes
se estendem do local ao global. Não há território sem uma
estruturação em rede que conecta diferentes pontos ou áreas. (...)
Antes vivíamos sob o domínio da lógica dos ‗territórios-zona‘, que
mais dificilmente admitiam sobreposições, enquanto hoje temos o
domínio dos ‗territórios-rede‘, espacialmente descontínuos mas
intensamente conectados e articulados entre si. (HAESBAERT, 2004,
p. 79)

Devido a grande amplitude e a falta de rigor conceitual do termo, este tende


se confundir com os próprios ―espaços da vida‖ dos sujeitos em todas as suas
dimensões e esferas. Desta forma, o ―cuidar no território‖ adquirire complexidade
intangível e infinda. O território torna-se um termo vazio, um jargão, se aproximando
muito mais de um preceito ético-político do que propriamente uma abordagem
teórico-prática sistemática.

Um conjunto de dificuldades está colocada.

Primeiro, a dificultade de lidar com as questões objetivas que envolvem a


reprodução da vida na cidade, dada ao processo desigual de (re)produção do
espaço urbano que impacta diretamente na viabilidade dos projetos terapeuticos.

Segundo, na não clarificação da abordagem acaba por apontar, na prática, a


estratégias e ações pouco regulares e consistentes, visto que tende a
201
fundamentalmente se apoiar no empirismo e experiência do profissional ou equipe
específica de cada equipamento, que apreende de acordo com a conveniencia e
contingências particulares. Corrompe-se o princípio ―rizomático‖ da Rede na base:
os equipamentos tendem a fechar-se em seus próprios projetos, esgotados na busca
do acompanhamento sistemático dos usuários – isto sem falar dos casos
subfinanciamento, falta de recursos e precarização das condições de trabalho e do
trabalho...

A quem interessaria o ―delírio da experiência total‖?

202
ENXERTOS Nº 5: “GUARDANAPOS DE PAPEL – ELEIÇÕES”
(Saudades do Futuro, Armando Corrêa da Silva, 1993)

Problemas do atraso

Ele é do tempo da vassoura.

Naturalmente, uma relação com o lixo. Mas, se até os catadores de lixo


trabalham de modo especializado...

O atraso, no entanto, evidencia a permanência de problemas não resolvidos.


Inútil pensar em resíduos ou em assistência social. Porque, o atraso pode ser o
modo como o povo oferecer resistência àquilo que ainda não pode compreender.

Problemas do progresso

O progresso é atraente, principalmente pela margem de risco que comporta.

É o novo, a modernização, que altera hábitos e costumes.

O moderno não sabe bem o que quer, embora saiba com precisão o que não
quer.

O moderno aponta para o futuro, para o sonho, a fantasia, mesmo que com
apenas a função de restabelecer o equilíbrio.

Contradição

O atraso é moderno no nome sem tradição. O moderno é antigo no nome


carregado de passado.

Em quem você votou?

Vou Vivendo, Vila Madalena, 08/08/85

203
CONCLUSÃO

―O ponto é que a ideologia possui também uma referência geográfica.‖


SILVA, Armando Corrêa (1991)

Figura 14 – Muros: João Rodrigues II. Fotografia por Lucas Honorato (2017).

A ―descoberta do espaço‖ como categoria privilegiada para se refletir no


campo da Psiquiatria acerca do paradigma psiquiátrico deu-se de forma gradual e
marcada diversas experiências (Psiquiatria Comunitária, Psiquiatria de Setor,
Psiquiatria Democrática etc.). Algumas perduram, outras, em dado momento
retornam, sendo revalorizadas, outras foram de rápida aparição. Contudo, é
importante afirmar que foram experiências fundamentais para o (des)encontro com o
território.
204
Uma série de outras experiências na América Latina e no mundo não foram
aqui citadas, como a Psicoterapia do Oprimido, com Alfredo Moffatt, Argentina, em
1971, com a criação da Comunidade Popular ―Peña Carlos Gardel‖, aos fundos do
Hospital Nacional de Borda. Ou até as experiências nacionais, com a série de
transformações operadas pelas experiências de Nise da Silveira, no Centro
Psiquiátrico Nacional Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, na
década de 40 (note-se: 20 anos antes dos ―movimentos de reforma‖ na Europa); ou,
até nos primórdios das discussões no Brasil, nos debates intelectuais travados nos
Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins (primeiro periódico
psiquiátrico brasileiro), nos idos de 1906, por Juliano Moreira e Franco da Rocha
acerca da assistência familiar nos Hospitais e da função das ―colônias-agricolas‖ –
posteriomente hospitais-colônia. Este ―equívoco‖ se deu por três razões
elementares: primeiro, apesar da expressividade das experiências e dos profundos
marcos que acarretaram nos debates acerca da Saúde Mental subsequentes, o foco
na dimensão espacial do tratamento não se fez de forma tão explícita; segundo
(muito mais importante), diz respeito à fragilidade dos parcos estudos científicos
acercas destas experiências – fato que tem produzido um processo de
esquecimento onde pouco se conhece, pouco se estuda e, por tanto, pouco se
interessa; terceiro (mais alarmante), condicionante-condicionado pelo argumento
anterior, ocorre posto que a hegemonia dos trabalhos acerca do histórico de
discussões no campo da saúde mental aposta nesta trajetória que trabalhamos aqui.

Este contexto, é importante destacar, não se trata da vontade e escolha


individual do pesquisador. A ―história contada de lá pra cá‖, ou seja, a partir das
transformações no contexto europeu para seus desdobramentos no âmbito nacional,
envolve todo um processo de ―colonização do saber‖ operado pela hegemonia de
um discurso de sociedade eurocentrada que

Tem como eixo articulador central a ideia de modernidade, noção


que captura complexamente quatro dimensões básicas: 1) a visão
universal da história associada a ideia de progresso (a partir da qual
se constrói a classificação e hierarquização de todos os povos,
continentes e experiências históricas); 2) a naturalização tanto das
relações sociais como da natureza humana da sociedade liberal-
capitalista); 3) a naturalização ou ontologização das múltiplas
separações próprias dessa sociedade; 4) a necessária superioridade

205
dos conhecimentos que essa sociedade produz (‗ciência‘) em relação
a todos os outros conhecimentos. (LANDER, 2005, p. 13)

Este modelo de produção de conhecimento vem operando leituras da


sociedade fundada,

[Em primeiro lugar, na] suposição da existência de um metarrelato


universal que leva a todas as culturas e a todos os povos do primitivo
e tradicional até o moderno. (...) A sociedade liberal, como norma
universal, assinala o único futuro possível de todas as outras culturas
e povos. (...) Em segundo lugar, e precisamente pelo caráter
universal da experiência europeia, as formas de conhecimento
desenvolvidas para a compreensão dessa sociedade se converteram
nas únicas formas válidas, objetivas e universais de conhecimento.
(Ibid., p. 13)

Para Porto-Gonçalves (2005, p. 3-4),

É essa visão eurocêntrica que nos impedirá de ver que não há um


lugar ativo, a Europa, e lugares passivos, a América, por exemplo.
Desde o início da primeira modernidade, sob a hegemonia ibérica,
que a colonialidade lhe é constitutiva. (...) O eurocentrismo tem-nos
impedido de ver que, aqui, na América, esse continente sem-nome
próprio, ao contrário da Ásia e da África que se deram seus próprios
nomes (...) é que se desenvolveram as primeiras cidades
racionalmente planejadas, planejadas para dominar. (...) Foi aqui,
nesta América que, pela primeira vez, como nos ensina Hanna
Arendt, que a humanidade descobriu que a miséria humana não era
natural e podia ser revertida pela ação humana.

Nem tudo há por fazer.

O clássico livro de Machado (1978), evidenciando a influência do alienismo


nas reformas e transformações urbanas e manutenção da ordem social, no fim do
século XIX e apontando a característica organizadora da distribuição periférica dos
Hospitais e destacando o enquadramento da loucura no perfil do vadio e do
estrangeiro – não adaptáveis e/ou resistentes à ordem social a ser instituída (na
maioria das vezes o negro).

Os estudos de Costa (1981), acerca da Liga Brasileira de Higiene Mental, nas


décadas de 1920 e 1930 e o discurso eugenista e preventivista.

206
Os estudos focados em personagens e experiências absolutamente
relevantes para a formação do pensamento psiquiátrico brasileiro – o estudo de
Portocarrero (2002) descortinando as influências no pensamento de Juliano Moreira
é um bom exemplo.

Esses exemplos, apesar de iniciais, já apontam que há certa produção que


perdura e resiste. Contudo, é preciso frisar que uma profunda revisão sobre a
geografia histórica da saúde mental no Brasil, demandaria uma série de revisões de
outras temáticas geneticamente conectadas, como a formação do ideal de nação, o
discurso eugenista e as tecnologias de branqueamento do território, por exemplo –
obrigando a uma revisão de todo um processo de formação socioespacial do país.
Os espaços da loucura, como vimos, são os lugares privilegiados ao banimento de
tudo aquilo que foge a um projeto e ideal nacional forjado nos salões dos palacetes
e casarios das elites.

Desta forma, analisar a dimensão histórica da Reforma Psiquiátrica Brasileira


implica no entendimento das instituições psiquiátricas enquanto campos de tensão
históricos entre diferentes classes (sociais e profissionais) e setores da sociedade
(organizados ou não), tomando as práticas institucionais, políticas e de cuidado
subsequentes, como reflexo deste complexo e intenso campo de disputa – que
ainda carrega como legado as marcas das antigas problemáticas desde a época
colonial.

Do ponto de vista das micropolíticas que se transcorrem no cotidiano dos


serviços, elas colocam em ―xeque‖ a possibilidade de qualificação do paradigma de
cuidado a ser acionado, e, consecutivamente, da produção de saúde apartada as
relações concretas e cotidianas que concernem o encontro dos trabalhadores e
usuários.

Por esse motivo, uma análise crítica acerca da abordagem territorial no


campo da saúde mental implica reconhecer que:

a) Não existe paradigma a-histórico – Todo paradigma esta sempre


embebido de sua dimensão conjuntural (histórica) e contextual
(geográfica), posto que emirja a partir de um campo de problematizações
definido, a partir do qual são construídos seus conceitos e teorias;

207
b) Não existe modelo assistencial autoaplicável: apesar de partirem dos
paradigmas (psiquiátrico e de atenção psicossocial) de cuidado a base
ético-política e epistemico-metodológica que buscam dar sentido âs
práticas espaciais e ao papel do saber técnico nas práticas profissionais, o
arranjo institucional e a distribuição espacial dos serviços (embora
fundamentais) por si não garante que os mesmos serão operados. Ou
seja, a re-estruturação de um modelo assistencial por si não garante a
eficiência de seus objetivos, visto que, apesar da previsão formal, os
modelos assistenciais em saúde acontecem na prática no exercício
profissional, que comporta, na relação de encontro demandado-
demandante (em si micropolítica), uma série de determinações (domínio
exclusivo do saber e da autoridade médica,cobranças profissionais,
promessa de bonificação etc.) e mediações (interesses diversos,
preconceitos, valores religiosos, constrangimentos e experiências
pessoais etc.) que extrapolam o controle imediato dos sujeitos, e ao
ordenamento espacial instituído;

c) O paradigma de cuidado ideal é um idealismo: Na dimensão do


encontro demandante-demandado, em vistas ao diverso conjunto de
determinações e mediações apontadas acima, na prática profissional
raramente os paradigmas de cuidado operaram na realidade de forma
―pura‖/‖ideal‖. Tal qual a complexidade dos contextos em que os sujeitos
estão inseridos e a contingência dos encontros, os diferentes paradigmas
(no limite, seus princípios fundamentais) também estão em constante
tensão e em irremediável coesistência no cotidiano dos serviços – dado os
diferentes interesses, jogos e relações de poder que lhe atravessam e, ao
mesmo tempo, lhe extrapolam. Em alguns momentos absolutamente
aproximados, podendo até ter suas fronteiras diluídas – como nos casos
em que as atitudes, por mais progressistas que se pautem são
capturadas/apropriadas em processos que podem se desdobrar no avesso
da intenção;

d) Os paradigmas de cuidado são modulares: Os paradigmas de cuidado


não são ―produtos‖ a serem consumidos, mas sim um conjunto de
pressupostos filosóficos, ético-políticos e práticos para as relações entre
208
sujeitos, e que, portanto, só existem enquanto estão sendo operados.
Desta forma, dada à dinâmica das relações, não estão nunca acabados,
mas em constante transformação, sendo produzidos e reproduzidos,
modulados e remodulados, conforme agenciados às realidades em que
operam.

Principal, a preocupação deve consistir em evidenciar que as diferentes


dimensões que procuramos trabalhar, enquanto ideia (dimensão ético-finalista),
proposta (dimensão epistêmico-ontológica), projeto (dimensão político-militante),
processo (dimensão das disputas institucionais) e modelo (dimensão normativa-
burocrática) de Reforma, incorporam linhas de força, campos de tensão e disputas
de poder particulares – embora todas estejam implicadas e atravessadas umas às
outras de forma complexa, não sendo possível um delineamento preciso de seus
limites.

Assim, não seria possível falar ―da Reforma Psiquiátrica Brasileira‖, mas de
―REFORMAS‖. Ou seja, do ponto de vista teórico-metodológico, é preciso assumir as
linhas de continuidade e descontinuidade, concordância e divergência, aproximação
e distanciamento, entre as dimensões, visto que carregam determinações
diferenciadas. Portanto, a Reforma aparece como uma abstração e/ou conceito que
demanda qualificação.

De que dimensões da Reforma estamos falando?

Da ideia, mobilizada pelas queixas e denúncias dos familiares, alicerçada na


negação da violência e na luta pela garantia dos direitos dos usuários?

Da proposta de paradigma libertador (e libertário) para a saúde mental,


pautado na desinstitucionalização e na humanização da loucura, na remissão da
liberdade e no direito à vida, esboçada e reconstruída na articulação entre a
academia, movimentos sociais e usuários?

Do projeto, construído e reconstruído nas Conferências Nacionais de Saúde


Mental, em outros espaços formais e demais espaços políticos de militância
(partidos, coletivos, associações) e congregada na Luta Antimanicomial?

209
Do processo de disputa no campo político, com suas negociações, lobbys e
entraves institucionais, avanços e retrocessos, enfrentados e orientados de acordo
com interesses plurais?

Ou do modelo instituído pelo Estado, concernente às políticas públicas,


equipamentos, serviços e processos de capacitação?

Desta forma, promover análise acerca das políticas de saúde mental


produzidas impõe a necessidade de uma análise multidimensional e multiescalar dos
processos, mapeando agentes e atores, dissensos e convergências e coerências e
incoerências associadas aos diferentes conflitos e disputas de interesses
atravessam a produção tanto das políticas quanto das práticas institucionais
produzidas a partir delas. Sempre na observância de que

As políticas de saúde, como todas as políticas sociais, não


correspondem estritamente, aos interesses dominantes. Elas
expressam a relação de forças sociais no nível das sociedades
concretas. (...) O Estado, no excluir do poder as classes
trabalhadoras, não pode desconsiderar totalmente suas
necessidades, como condição de sua legitimação. (BRAVO, 1998, p.
36)

Apesar dos diferentes sentidos de território que anunciamos ao longo do


trabalho, é importante a preocupação de Haesbaert (2004, p. 42):

Devemos reconhecer que vivenciamos hoje um entrecruzamento de


proposições teóricas, e são muitos, por exemplo, os que contestam a
leitura materialista como aquela que responde pelos fundamentos
primeiros da organização social. Somos todos levados, mais uma
vez, a buscar superar a dicotomia material/ideal, o território
envolvendo, ao mesmo tempo, a dimensão espacial material das
relações sociais e o conjunto de representações sobre o espaço ou o
‗imaginário geográfico‘ que não apenas move como integra ou é
parte indissociável destas relações.

Importante reafirmar: nossa análise não objetiva uma resposta única acerca
do que é o território e como deve operar uma abordagem territorial. Existem
diferentes formas de abordar e conceituar o território a partir de diferentes trajetórias
e posições e posturas teóricas, políticas e éticas – não necessariamente

210
concordantes. Justamente por sermos obrigados a movimentar abordagens tão
múltiplas e polissêmicas que os riscos e desafios se põem.

Contudo, conforme Cruz (2011, p. 95), citando Gondar (2005, p. 11), é


importante destacar especialmente das dificuldades:

A falta de rigor e o ecletismo ético-político. Quando os conceitos e


valores se pulverizam e se indiferenciam, somos conduzidos a uma
espécie de vale-tudo, no qual todos os recortes e todas as
abordagens se equivalem.

Não se trata, portanto, de desvelar um significado mais correto e universal,


mas de ―buscar os ecos, as ressonâncias, as vibrações que sintonizam o conceito
com a vida‖ (CRUZ, 2011, p. 85). Para avançar neste objetivo,

Temos de tomar alguns cuidados, principalmente, ter claro que não


basta atermo-nos à polissemia dos conceitos, apresentando uma
visão panorâmica de suas diversas significações, como se isso
eximisse-nos de tomar uma posição ou de escolher uma perspectiva
nessa paisagem conceitual. Uma apresentação panorâmica e,
pretensamente, imparcial sobre as diversas concepções de território
pode parecer aberta à diferença, mas, de fato, encobre uma
pretensão totalizante em que as diferenças esvaem-se, pois o fato de
o conceito de território apresentar diferentes significações, isso não
implica que sejam idênticas ou equivalentes. Qualquer perspectiva
que tomemos será parcial e terá implicações éticas e políticas.
Assim, lidar com a multiplicidade não significa não fazer distinções do
ponto de vista ético e político, bem como também tornar um conceito
mais flexível, não significa que este não possa ter rigor teórico e
consequência metodológica. (ibid., p. 95)

É preciso questionar: embora a estruturação do modelo assistencial atual


emerja com a pretensão de realização dos pressupostos básicos do projeto de
Reforma Psiquiátrica Brasileira (a humanização e remissão da liberdade, a abertura
para a autonomia e engajamento do usuário, e a eficácia dos projetos terapêuticos),
a polissemia da abordagem territorial (consequentemente, da própria noção de rede
e territorialidade), acaba por tomar como sinônimos descentralizaçãoe
desospitalização e “cuidado territorial” – o que, por sua vez não garante os
pressupostos anunciados.

211
Cabe questionar: quais são os limites do profissional, dos projetos
terapeuticos e das práticas de cuidado?

Coimbra e Nascimento (2007) nos alertam sobre os riscos da


sombreimplicação.

Proposto no campo da Análise Institucional por René Lourau nos anos 1990
ao problematizar a institucionalização das práticas, o conceito diz respeito

À crença no sobretrabalho, no ativismo da prática, que pode ter como


um de seus efeitos a dificuldade de se processar análises de
implicações, visto que todo o campo permanece ocupado por um
certo e único objeto. (COIMBRA E NASCIMENTO, 2007, p. 27)

A análise de implicações trata-se de uma ferramenta que busca colocar em


análise ―o lugar que ocupamos nossas práticas de saber-poder enquanto produtoras
de verdade – consideradas absolutas, universair, e eternas – seus efeitos, o que
elas põem em funcionamento, com o que se agenciam (...)― (Idem).

Importante aceitar que sempre estamos implicados, visto que a implicação


não é uma decisão consciente, mas um ―nó de relações‖ sempre presentes nas
práticas institucionais:

A que estabelecemos, enquanto pesquisadores, com nosso objeto de


pesquisa, com a instituição de pesquisa ou outra instituição qualquer
presente em nossa equipe de trabalho; as referentes às demandas
sociais que nos chegam; as relativas aos nossos próprios
pertencimentos sociais, políticos, econômicos, profissionais, libidinais
e históricos e as implicações com nossas próprias produções
acadêmicas, entre outras. O paradigma da implicação permite
mostrar as diferentes forças presentes em nosso campo de atuação.
(...) A análise das implicações traz para o campo da análise
sentimentos, percepções, ações, acontecimentos até então
considerados negativos, estranhos, como desvios e erros que
impediriam uma pesquisa [ou intervenção clínica] de ser bem
sucedida. (COIMBRA E NASCIMENTO, 2007, p. 29)

Ao contrário, a crença no sobretrabalho dificulta análises deste tipo, produzido


ações mecânicas e naturalizadas.

212
Para as autoras, dois quadros tem contribuido para sua
produção/fortalecimento: o acúmulo de tarefas e a produção de urgências.

As demandas têm chegado aos serviços num contexto de crescente


institucionalização de suas estruturas, notando-se que as práticas e procedimentos
do profissional vão se cristalizando. Demandas extremamente ―volumosas e
avassaladoras‖ preenchem o tempo dos profissionais. ―presos a situações-limite têm
que atender um volume enorme de pessoas, o que exige diferentes conhecimentos,
movimentos e decisões‖ (COIMBRA e NASCIMENTO, 2007, p. 31). Ao mesmo
tempo, as relações de trabalho no mundo contemporâneo têm exigido dos
profissionais tornarem-se ―peritos que trabalhem em muitas frentes e em campos os
mais diferentes, respondendo às mais variasdas questões ao mesmo tempo‖. A
soma destes fatores imputa a necessidade constante de aprimoramento técnico e
atualização – profissional que estaria sempre em falta, num contexto que produz sua
própria carência e fragilização:

Um dos processos que se intensifica nas pessoas é o da carência,


da falta permanente, muitas vezes atribuída à ausência de
informações, de uma formação compente. Esta sempre estará
preocupada e priorizando as técnicas: o que se faz, como se faz e
nunca para que se faz. (ibid., p. 32)

Ao mesmo tempo, a produção de urgências decorre da rapidez e da


aceleração que invade nosso cotidiano, nos exigindo ações imediatas e
instantâneas:

Isso faz com que, de um modo geral, as relações e os encontros se


dêem de forma apressada, superficial, emergencial, levando a
situações de pouco acolhimento e solidariedade, nas quais o coletivo
vai sendo esvaziado. (...) Produz-se um novo tipo de sujeito, flexível,
apressado, colado às exigências do instante no qual o culto à
velocidade liga-se à performace, à rentabilidade, à competência. A
lógica econômica e tecnológica que se impõe é a do mercado (...).
Essa lógica de mercado obriga a uma temporalidade específica, a
uma urgência generalizada, a uma exigência de respostas imediatas.
(...) Impõem-se, então, aos sujeitos a necessidade de acelerar suas
tarefas, pois só assim sobreviverá ao ritmo imposto pelo rendimento
máximo.‖ (COIMBRA E NASCIMENTO, 2007, p. 33)

213
Tais proposições levariam a um ativismo, onde o ativista passa a perceber-se
como estando mais capacitado e avançado do que os outros, em uma posição
privilegiada:

O ativista, em muitos momentos, a partir de seu território iluminado,


estaria trabalhando no sentido de beneficiar outras pessoas,
assumindo responsabilidades por tudo. Dessa forma, passa a
carregar sobre seus próprios ombros todas as soluções, sentido-se
dominado pela culpa, pela obrigação e pelo sacrifício (...) quando não
conseguem resolver um grande número de casos no tempo que lhes
vem sendo exigido. Muitas vezes, a impossibilidade de atender às
famílias passa a ser percebida não apenas como responsabilidade
do Estado e da falta de políticas públicas eficazes (...), mas também,
como uma falta de engajamento e/ou incapacidade do profissional
para resolver com sucesso certos problemas. (...) [Tais práticas
acentuam] o ‗modo-de-ser-indivíduo‘, ao impor ao profissional uma
solução individual. Com isso, alimentam-se e fortalecem-se
subjetividades onipotentes, faltosas e culpabilizadas e naturaliza-se a
‗sindrome da carência-captura‘, que nos fala de uma ‗angústia
sempre pairando no ar‘, ‗do medo de fracassar‘, ‗de um estado de
fragidilidade permanente‘. Ao mesmo tempo, fortalecem-se a
onipotência e arrogância do ativista que, por se julgar iluminado,
culpa-se entendendo que tem obrigação de chegar à resolução do
problema. Presos nessa camisa de força os profissionais, em muitos
momentos, não dispõem de tempo para pensar e colocar em análise
suas práticas. Os espaços coletivos de discussão vão-se esvaziando,
cada vez mais se tornam difíceis de sustentar, de serem mantidos. A
falta de tempo, a urgência domina tudo e todos, produzindo uma
perda na capacidade de potencializar encontros. As circunstâncias
vividas podem trazer uma forte individualização das ações,
impedindo outras relações de trabalho, outros sentidos e práticas
mais coletivas. (COIMBRA E NASCIMENTO, 2007, p. 33 )

Apesar dos incontáveis avanços, após 15 anos de institucionalização da


Reforma Psiquiátrica Brasileira, agora mais do que nunca é preciso desacomodar
conceitos apaziguados para re-conhecer...

Re-conhecer, para re-estruturar instrumentos com vistas à práticas


verdadeiramente libertadoras.

É cada vez mais urgente a necessidade da co-construção de abordagens


inovadoras que deem conta da problemática, mas que, fundamentalmente, partam
efetivamente dos e para os usuários.

214
Abordagens com potencial de desvelamento e intervenção das e nas relações
de poder inscritas nos multiplicidade de territórios do usuário – lugar privilegiado da
dissidência e emancipação.

(Re)ver, para avançar... À Luta!

[O que Armando Corrêa da Silva pensaria?!]

215
“FINIS OPERAE – FIM DE PAPO”
(Saudades do Futuro, Armando Corrêa da Silva, 1993)

O trabalho chega ao fim.


Neste fim de horário de verão estou mais jovem uma hora.
Cansado de observar, classificar, analisar, enfim, fazer esse esforço de
produzir, produzir, produzir...
Como deve ser o descanso do poeta¿
Imagino-me dormindo como uma criança no colo da mãe, que nem se dá
conta disso, numa cena familiar de tempos muito antigos.
As pessoas estão conversando animadamente e isso embala meu sono. Sono
infantil, ainda despovoado de grilos e sacanagens vividas e dissecadas na tentativa
talvez vã de ser compreensivo; não julgar antes de entende as razões que levam as
pessoas a serem boas ou más.
Compreensão que me dá conta da idade que tenho e devo assumir.
Tentar descobrir as vantagens e desvantagens de ter 55 anos.
A maturidade que se persegue e, que quando chega, incomoda, com sua luz
fria e impessoal.
Assim, eu.
E os outros?
Já disse o filósofo que ―o inferno são os outros‖.
Discordo.
Consigo encontrar no outro sempre uma parte de mim mesmo.
Por isso, espero um tempo melhor, que talvez esteja próximo.
Isso significa o fim da procura.
Penso que cheguei ao meu tempo.
Então, vejo o passado com serenidade e não tenho medo do futuro.
Assim, o presente se torna mais rico e reencontro a vibração de meus
sentimentos na direção que posso construir, porque me sinto livre.
Algo que está tão próximo e que a gente não percebe!
Não há mais nada a dizer.
Fim de papo.

216
Figura 15 – O que Armando Corrêa da Silva pensaria? Fonte: Domínio Público.

217
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