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A INFERNAL ESTRELA-D’ALVA

03-02-2008

+ Marcelo Gleiser

A infernal estrela-d'alva

Estudar o horrendo efeito estufa em Vênus poderá ser útil

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Nada mais poético do que a visão da estrela-d'alva, brilhando ao


pôr-do-sol feito um diamante nos céus. Quantos poemas e canções
já não foram inspirados por esse emblema de beleza e pureza? É
irônico que a nossa deusa da beleza, a Vênus celeste, seja, na
realidade, um planeta verdadeiramente infernal.

O segundo planeta a partir do Sol - também o mais próximo da


Terra- tem uma atmosfera composta principalmente de gás
carbônico (96,5%) e nitrogênio, com praticamente nada de oxigênio.
Nuvens de ácido sulfúrico flutuam a grandes altitudes. O planeta já
foi comparado a uma panela de pressão: a temperatura na
superfície é, em média, de 500 C; a atmosfera é tão densa que é
impossível visualizar sua superfície de longe, como fazemos com a
Lua ou Mercúrio. O único jeito é ir até lá, o que não é fácil.

Um dos mistérios com relação a Vênus é a ausência de água.


Claro, com temperaturas de 500 C qualquer água na superfície teria
evaporado.

Mas deveria ser encontrada ainda na atmosfera, em forma de


vapor. Talvez, no passado, Vênus tenha sido um planeta diferente.
Afinal, possui várias características muito semelhantes à Terra: o
tamanho e a massa, por exemplo, indicando que sua composição
rochosa não é muito diferente.

Carl Sagan, há muitos anos, propôs que Vênus foi vítima de um


efeito estufa acelerado. Não que os incas venusianos (quem via
"National Kid" quando era criança nos anos 60 e 70, coisa saudosa
da minha geração, sabe do que estou falando) tenham poluído o
planeta. O acúmulo de gás carbônico é que teria criado um cobertor
permanente sobre o planeta, que a radiação solar e as erupções
vulcânicas (Vênus talvez ainda tenha vulcões ativos) torraram ainda
mais quente a atmosfera.

Os russos foram os pioneiros da exploração de Vênus. Em meados


dos anos 70, duas sondas, Venera 9 e Venera 10, conseguiram
enviar fotos durante uma hora, antes de seus circuitos virarem sopa
metálica. Não encontraram os incas, mas encontraram rochas com
pouco sinal de erosão.

Vênus é um planeta estranho: enquanto Mercúrio, Terra e Marte


giram em torno de seus eixos no mesmo sentido do seu movimento
em torno do Sol, Vênus gira ao contrário. Na verdade, quase não
gira: seu "dia" é de 177 dias terrestres, mais da metade de seu ano,
de 244 dias. A razão para essa anomalia não é conhecida; mas a
conjectura é que Vênus tenha sofrido uma gigantesca colisão na
infância, que alterou completamente sua rotação. Algo semelhante
ao que ocorreu com a Terra e deu nascimento à Lua.

Recentemente, outra missão, desta vez da ESA (Agência Espacial


Européia), aventurou-se sob as espessas nuvens de ácido de
Vênus. Seu objetivo era resolver o mistério da água venusiana: se o
planeta é tão parecido com a Terra, onde foi parar sua água?
A sonda encontrou evidência de que o planeta teve mais água no
passado, o suficiente para cobrir sua superfície inteira com uma
profundidade de 4,5 metros. (A Terra, como comparação, seria
coberta por 2,8 km de água). Se essa água evaporou rapidamente,
ela pode ter contribuído para o horrendo efeito estufa que domina
Vênus.

Estudar o que ocorreu lá nos ajuda a evitar que algo semelhante


ocorra aqui. O aquecimento de um planeta depende de vários
fatores: a temperatura na superfície e suas variações, a composição
de sua atmosfera, a emissão de gases e vapores de seu interior.
No mínimo, Vênus demonstra que o inferno existe, não no centro da
Terra, mas nos céus.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth


College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0302200804.htm