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O sonho noturno pode ser uma luta violenta ou

manhosa contra as censuras. O devaneio faz-nos conhecer a
linguagem sem censura. No devaneio solitário, podemos
dizer tudo a nós mesmos. Temos ainda uma consciência
bastante clara para estarmos certos de que aquilo que
dizemos a nós mesmos só o dizemos deveras a nós mesmos.

O devaneio idealiza ao mesmo tempo o seu objeto e o
sonhador. E, quando o devaneio vive numa dualística do
masculino e do feminino, a idealização é a um tempo
concreta e sem limite. Para nos conhecermos duplamente
como ente real e como ente idealizante, cumpre-nos escutar
os nossos devaneios. Cremos que nossos devaneios podem
ser a melhor escola da "'psicologia das profundezas". Todas
as lições que aprendemos da psicologia das profundezas,
nós as aplicaremos para melhor compreender o
existencialismo do devaneio.

Em outras palavras, uma. psicologia completa há de
ligar ao humano aquilo que se separa do humano

Quanto mais se desce nas profundezas do ser falante,
mais simplesmente a alteridade de todo ser falante se
designa como a alteridade do masculino e do feminino.

De todas as escolas da psicanálise contemporânea, a
de CG. Jung é a que mais claramente demonstrou ser o
psiquismo humano, na sua primitividade, andrógino. Para
Jung, o inconsciente não é um consciente recalcado, não é
feito de lembranças esquecidas — é uma natureza primeira.
O inconsciente, por conseguinte, mantém em nós poderes de
androginidade. Quem fala de androginidade toca, com uma
dupla antena, as profundezas do seu próprio inconsciente.

O psicólogo Buytendijk. sempre mais profundo (o feminino). sempre menos profundo (o masculino). Limitamo- nos a um estudo do devaneio. Esta poética do fantástico reclamaria uma grande atenção por parte da intelectualidade do fantástico. O relógio do masculino tem o dinamismo do tranco. a mulher centrada na anima haveria de sonhar em animus . O relógio do feminino caminha em contínuo. em seu belo livro La femme (A mulher) 2. Com efeito. faz uma referência em que se afirma que o homem normal é 51 % masculino e a mulher 51 % feminina. TESE: o devaneio está sob o signo da anima. Quando o devaneio é realmente profundo. se o homem centrado no animus sonha o devaneio em anima. uma objeção. Nós o perceberíamos melhor se concordássemos em pôr em franca dialética o devaneio e os esforços de conhecimento. poderiam objetar-nos — obedecendo ao automatismo de que padecem tantas dialéticas filosóficas — que. A dialética do masculino e do feminino se desenvolve num ritmo da profundeza. ao sempre profundo. Vai do menos profundo. medidas. o ente que vem sonhar em nós é a nossa anima. Dois substantivos para uma única alma são necessários a fim de se expressar a realidade do psiquismo humano. numa duração que se escoa calmamente.

é ao animus que pertencem os projetos e as preocupações. Estávamos a ler e eis que nos pomos a sonhar. Poderíamos ser levados a crer que essa tranqüilidade lúcida é a simples consciência da ausência de preocupações. Mas o devaneio não perduraria se não tivesse a nutri-lo as imagens da doçura de viver. depois de haver lido tudo. pronto para a réplica. as ilusões da ventura. Portanto. tão grande é o poder de assimilação da anima. em que o animus deve ficar vigilante. Quem é marcado pela água guarda \ uma fidelidade à sua anima. ler sempre. o esforço cabe ao animus. Mas quando. com devaneios. as grandes imagens simples. pronto para a crítica. de fazer um livro. E . As imagens poéticas suscitam o nosso devaneio. Ler. anima pertence o devaneio que vive o presente das imagens felizes. Uma imagem recebida em anima nos põe em estado de devaneio contínuo Em suma. ou um livro de poeta.Trj~3ê~um modo geral. As imagens da água dão a todo sonhador a embriaguez da feminilidade. melíflua paixão da anima. duas maneiras de não estar presente em si mesmo. fundem-se nele. em que as imagens devem ser recebidas numa espécie de acolhimento transcendental dos dons. afirmam quase sempre sua virtude de anima sonhado. entregamo-nos à tarefa. colhidas ao nascer num devaneio sincero. Não sou o mesmo homem quando leio um livro de idéias. é preciso confessar que existem dois tipos de leitura: a leitura em animus e a leitura em anima.

E esses princípios estão bem próximos no mundo.nos a sonhar o animus se ilumina e reina num crescimento psíquico. O devaneio — e não o sonho noturno — é a livre expressão de qualquer anima. é realmente. esse de escrever um livro. tal é o trabalho da sua solidão. é a natureza em nós que basta a si mesma12. . A anima. sempre descendo. Não é encontrada na síncope do animus. Sem dúvida. a força de um canto A anima não é uma fraqueza.sempre um duro mister. é o feminino tranqüilo. em nós. tal como o estão em nós. O Rei e a Rainha dos alquimistas são o Animus e a Anima do Mundo. o ser da nossa água dormente Alquimia Deve-se então proceder a uma inversão para dar plena realidade à metáfora. figuras engrandecidas do animus e da anima do alquimista sonhador. Tem seus poderes próprios. princípio dos nossos devaneios profundos. Sonhar e cantar. É o princípio interior que rege o nosso repouso. é com os devaneios da anima que o poeta consegue dar a suas idéias de animus a estrutura de um canto. princípio do nosso repouso. Somos sempre tentados a limitar. ao passo que a anima se aprofunda e reina à medida que desce ao subterrâneo do ser. A anima. é Anima que sonha e canta. E descendo. que se descobre a ontologia dos valores de anima.

devemos reconstituir incessantemente o complexo de idéias e devaneios. é para um uso psicológico imediato. com efeito. convém ler duas vezes qualquer livro de alquimia. para ser rei na majestade de seu animus Numa psicologia da comunhão de dois seres que se amam. para não atribuir a substâncias concebidas como surdamente animadas o estatuto do mundo inanimado da ciência de hoje. de superioridade. A exaltação dos nomes de substâncias é o preâmbulo das experiências sobre as substâncias "exaltadas". o animus tem o seu vocabulário. correremos o risco de ser vítimas de uma objetividade transposta. Um duplo vocabulário deve ser estabelecido entre devaneio e experiência. de dominação que anima o animus do alquimista solitário. Portanto. E a psicologia do alquimista é a de devaneios que se empenham em constituir-se em experiências sobre o mundo exterior. Tudo pode nascer da união de dois vocabulários quando seguimos os devaneios do ser falante Se examinarmos atualmente os livros alquímicos. a mulher . E. não receberemos todas as ressonâncias do devaneio falado. a anima também. É preciso cuidar. Para isso. Não é para um uso social longínquo que o sonhador deseja o ouro. O ouro alquímico é a reificação de uma estranha necessidade de realeza. a dialética do animus e da anima aparece como o fenômeno da "projeção psicológica". O homem que ama uma mulher "projeta" sobre essa mulher todos os valores que venera em sua própria anima. Em todo caso. da mesma forma. como historiador das ciências e como psicólogo.

Uma das funções do devaneio é libertar-nos dos fardos da vida. A "conjunção" das substâncias é sempre. uma conjunção dos poderes do princípio masculino e do princípio feminino. Quando uma ou outra se vê decepcionada pela realidade. começam então os dramas da vida falhada. em alquimia. Com efeito. quando bem equilibradas. O ideal de homem projetado pelo animus da mulher e o ideal de mulher projetado pela anima do homem são forças de união que podem superar os obstáculos da realidade. Quando esses princípios são bem exaltados. numa vida idealizada. . mas na própria ação de uma paciência moral que procura as impurezas de uma consciência. Na alquimia não estamos diante de uma paciência intelectual. fazem as uniões fortes. Estas duas "projeções" cruzadas. imaginária. 0 alquimista é um educador da matéria. que dá um dinamismo real à vida. Mas esses dramas não têm muito interesse no presente estudo sobre a vida imaginada. acalentadora no coração. é esse instinto de devaneio que dá à psique a continuidade do seu repouso A função do irreal encontra o seu emprego sólido numa idealização bem coerente. Um verdadeiro instinto de devaneio é ativo na nossa anima. já estão prontos para as hierogamias."projeta" sobre o homem que ela ama todos os valores que seu próprio animus desejaria conquistar. quando recebem a sua total idealização. o devaneio sempre nos abre a possibilidade de abstrair-nos dos dramas conjugais.

desdobramos o nosso ser em suas duas potências de animus e de anima. por um duplo. conquistar uma alma é encontrar sua própria alma. E com que variedade! Existem devaneios nos quais eu sou menos que eu mesmo. Na verdade. o seu duplo. Somos então convidados a compreender o homem não somente a partir de sua inclusão no mundo como também seguindo seus impulsos de idealização que trabalha o mundo. Nos devaneios do amante. das situações sociais. o devaneio desdobra o ser mais suavemente. é a vida num duplo. esse outro é ainda ele mesmo. como se o devaneio não bastasse a si mesmo. faz do sonhador alguém diferente dele mesmo? E. mais naturalmente. O devaneio de comunhão já não é aqui uma filosofia da comunicação das consciências. o alquimista busca verificações materiais. de certa forma. Os pensamentos de animus querem verificações dos devaneios de anima. Dobrar e desdobrar permutam suas funções. O primeiro dos paradoxos ontológicos não será o de que o devaneio. Essa transferência passa por cima do detalhe das relações diárias. no entanto. O Uebertragung é. para ligar situações cósmicas. O sentido dessa verificação é inverso ao daquelas que pode desejar um espírito científico. Em todas as obras do alquimista. Ao dobrar o nosso ser idealizando o ente amado. transportando o sonhador para outro mundo. um espírito limitado à sua consciência de animus. . do ser que sonha com outro ser. uma transferência acima dos caracteres mais contrários. a anima do sonhador se aprofunda sonhando a anima do ser sonhado. vida que se anima numa dialética íntima de animus e de anima.

Um concerto a quatro vozes tem início no devaneio do sonhador solitário O homem é um ser a imaginar. Estou sozinho. estudando o homem real. sem ousar dizê-lo. a função do irreal se dá tanto diante HõTiõmèm como diante do cosmos. Pois. nos nossos devaneios lúcidos. em que projeções cruzadas ele não se anima! E é assim que conhecemos. O sonhador solitário se acha diante de situações quadripolares' E o ente idealizado põe-se a falar com o ente que idealiza. para um outro nós mesmos. Que é que conheceríamos do outro se não o imaginássemos? Que requinte de psicologia não experimentamos quando lemos um romancista que inventa o homem e todos os poetas que inventam prestigiosas ampliações do humano! E são todas essas ultrapassagens que vivemos. o homem é soberano. Então todo o esquema que propúnhamos acima para analisar as relações inter-humanas . uma espécie de transferência interior. afinal. A psicologia de observação. Nos seus devaneios. um Uebertragung que nos conduz para além de nós mesmos. portanto somos quatro. nos nossos devaneios taciturnos. o nosso duplo — duplo do nosso ser duplo —. Fala em função de sua própria dualidade. vai encontrar apenas um ser sem coroa. E o ente mais próximo de nós. Eis-nos no âmago de todos os nossos paradoxos: o "duplo" é o duplo de um ente duplo.

útil para examinar os nossos devaneios de sonhador solitário A alquimia é um materialismo matizado que só se pode compreender participando dele com uma sensibilidade feminina. . sem esquecer. Sempre será um fato que a mulher é o ser que idealizamos. E necessário compreender que o masculino e o feminino. as pequenas raivas masculinas com as quais o alquimista atormenta a matéria. se convertem em valores. O sonhador pode projetar sobre a imagem da amada sua própria anima. Ao voltar às imagens do masculino e do feminino — mesmo às palavras que os designam —. Mas não há aí um simples egoísmo da imaginação.se torna válido. Na anima há o princípio comum da idealização do humano. a continuidade do ser. Mas nossa posição de fenomenólogo simplifica o problema. quando os idealizamos. Do homem à mulher e da mulher ao homem há uma comunhão de anima. por conseguinte. O alquimista busca o segredo do mundo como um psicólogo busca o segredo de um coração. O sonhador . Sempre o psicólogo há de querer passar das imagens para a realidade psicológica. O devaneio quadripolar começa. voltamos às idealizações tais como são. de um ser que quisesse a tranqüilidade e. as potências e as virtudes da anima e do animus devem ser evocadas em sua idealização. contudo. o princípio do devaneio do ser. o ser que quer também a sua idealização.

mas sempre sonhando. é um ente dividido. Nada é esquecido nos processos de idealização. A lição dominante da meditação balzaquiana é a incorporação de um ideal de vida na própria vida. todo um duplo que se projeta. A anima projetada pelo animus deverá acompanhar-se de um animus digno do animus de seu parceiro. Pelo ideal. os valores de um ser que se amaria. O devaneio que idealiza as relações de animus e anima é então parte integrante da vida verdadeira.quer que sua anima projetada tenha também um animus pessoal que não seja o simples reflexo de seu próprio animus. Não é deixando-se levar pelos devaneios. um ente que se divide novamente mal se entrega por um instante a uma ilusão de unidade. das polaridades idealizantes. pois. considerado tanto em sua realidade profunda como em sua forte tensão de vir-aser. se chegasse ao extremo da divisão. que se desenvolvem os devaneios de idealização. Ele se divide e depois se reúne. Seu duplo magnificado o sustenta. o devaneio é uma força ativa no destino dos seres que querem unir sua vida por um amor em crescimento. se tornaria um simulacro de homem. Sobre o tema de animus e anima. um duplo de infinita bondade (anima) e grande inteligência (animus). Se impelimos o filósofo sonhador à polêmica. ele declara: os valores idealizantes não . complexidades psicológicas se harmonizam O ser humano. É. E é assim que um grande sonhador sonha o seu duplo.

Se não abrigássemos em nós um ser feminino. O devaneio idealizante corre num sentido único. A idealização não pertence ao reino da causalidade. um devaneio que coloca na alma de um sonhador valores humanos. a psicologia da compensação. proibimo-nos de transpor a barreira. E é medindo o peso de aplicação dessas duas hipóteses que poderemos estudar. em cada um de nós. juntas. E por que as duas hipóteses. de ir da psicologia da obra à psicologia do seu autor. Um leitor que siga mal a ascensão pode ter a impressão de que a obra foge numa evanescência. de nosso ser feminino. devem ser testadas: o homem é semelhante à obra. Nunca passarei de um psicólogo dos livros. uma comunhão sonhada de animus e de anima. Trazem a marca de uma feminilidade inegável. não seriam válidas? A psicologia não se embaraça por uma contradição a mais ou a menos. nessa psicologia dos livros. Mas quem sonha melhor aprende a nada recalcar. Pelo menos duas hipóteses. em todos os seus subterfúgios. cada vez mais elevados. como haveríamos de repousar? Quanto a nós. .nos a encontrar o repouso. homens ou mulheres. Lembremos então que nos propomos uma tarefa precisa no presente livro: estudar o devaneio idealizante. em todas as suas sutilezas. o homem é contrário à obra. Concentrando-se em torno da anima. os devaneios ajudam.têm causa. de níveis em níveis. os dois princípios do ser integral. Os devaneios de idealização excessiva são liberados de todo recalque. Os melhores dos nossos devaneios procedem.