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COLECAO O HOMEM E A HISTORIA M. I. FINLEY ASPECTOS DA ANTIGUIDADE Braudel, F. — © Espago e a Historia no Mediterrineo Braudel, F. — Os Homens e a Heranea no Mediterrineo Duby, G. — A Europa na Tdade Média Wolff, P. — Outono da Idade Média ou Primavera dos Tempos Modernos? Ferro M. — A Historia Vigiada Finley, M. I — Uso e Abuso da Hist6ria, Finley, M. I. — Economia ¢ Sociedade na Grécia Antiga Braudel, F. — Gramética das Civilizagées ‘Sao Bernardo e a Arte Cisterciense — A Histéria Nova Senhores ¢ Camponeses Dalarun, J. — Amor e Celibato na Igeeja Medieval Finley, M. I. — Grécia Primitiva: Idade do Bronze e Idade Arcaica Grimal, P. — 0 Amor em Roma Finley, M. I, — Aspectos da Antiguidade Préximos lancamentos Dawmard, A. — Os Burgueses ¢ a Burguesia na Franca TRADUCAO, MARCELO BRANDAO CIPOLLA Martins Fontes 18 ediedo brasileira: maio de 1991 Tradugdo: Marcelo Brandao Cipolla Revisio da tradusao: Luis Carlos Borges ‘Mauricio Balthazar Leal Producio gréfica: Geraldo Alves Composicao: Antonio José da Cruz Pereita Capa: Alexandre Martins Fontes Mustracio: Conselho de Guerra do Rei Dario (detalhe) Cratera de 325 a,C. Museu Nacional de Napoles Todos os direitos para a lingua portuguesa reservados & LIVRARIA MARTINS FONTES EDITORA LTDA. Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 — 01325 — So Paulo — SP — 3677 Para JH, Plumb 186 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE ou nfo, segundo as exigéncias que lhes sio feitase as condi- ges de seu emprego, e nio de acordo com um padrao ab- soluto, No Império Romano tardio a forga de trabalho era parte de um conjunto inter-relacionado de condigées sociais que, combinadas com as invasdes barbaras, acarretaram 0 fim do império ocidental. O exército nio podia ser aumen- tado, pois a terra nio suportaria a perda adicional de mao- de-obra; a situacio da terra estava deteriorada devido ao au- mento excessivo dos impostos; os impostos aumentavam em resposta as necessidades militares; ¢ a pressio germani- caeraa principal responsével por esse crescimento. Enfim, tum circulo vicioso de problemas plenamente desencadea- do. Seja qual for o elemento escolhido para a abordagem, 1 resposta final sera sempre a mesma, desde que todos os, fatores sejam mantidos em mente todo o tempo. “Admito que esta néo € uma maneira romantica ou dra- mitica de examinar um dos maiores cataclismos da histé- ria, Nao se poderia fazer um filme a partir dela. Mas ela proporciona o embasamento necessério para a histéria mi litar e constitucional e para a magnifica moralizagio de Gib- bon. O Império Romano era composto por pessoas e por instituigées, nio apenas por imperadores, degenerados ou. inflexivel que, 20 final, fracassou: foi incapaz. de suportar as perpétuas ten- sBes exercidas sobre um império de tal magnitude cercado por um mundo hostil. xa [AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS ‘Aulo Capreilio Timéteo nao figura em qualquer livro Nem haveria por qué. Contudo, um acidente arqueoldgico confereslhe certo interesse,¢,talvez, até mes- .{ Ble foi um escravo do primeiro sé- culo de nossa era que obteve liberdade e passou ase dedicar fo comércio de escravos, atividade em que prosperou mui- to, a ponto de poder arcar com uma lépide funeréria pendiosa, com cerca de dois metros de altura, em mérmore Finamente decorado. A lépide foi encontrada no sitio em aque se localizava a antiga cidade grega de Anfipolis, s mar- gens do rio Estrimfo, cerca de 90 km a leste de Salénica, em diregio 4 fronteira com a Turquia — € que nfo encon- tra similar em qualquer outra das mais ou menos cem lipides funerdrias gregas e romanas encontradas até hoje. {A lapide possui trés painéis esculpidos: no painel de cima, ‘uma cena que representa um banquete funeriio ¢ 0 do meio, uma cena de trabalho; ¢, no de baixo, uma tercei ra cena que retrata oito escravos em fila, correntados pelo pescoso, acompankados por duas mulheres ¢ duas criangas que nio esto acorrentadas, e guiados por um homem que 188, ASPECTOS DA ANTIGUIDADE visivelmente detém o controle de toda a situagao, talvez 0 proprio Timéteo. A inscrigo grega diz simplesmente: “Aulo Capreilio Timéteo, homem liberto de Aulo, mercador de escravos,”” Nio é a ocupagio de Timéteo que o torna uma figura rara, mas sim 0 orgulho que expressou publicamente por exercé-la. Neste aspecto, o mundo antigo nao era muito di- ferente do sul dos Estados Unidos. Apés a Guerra de Se- ‘cessio, um juiz sulista escreveu: “No sul, a profissio de mer- cador de escravos sempre foi vista como odiosa, até mes- mo pelos proprietarios de escravos. E curioso, mas assim 0.” Retornando no tempo mais de dois mil anos, um per- sonagem do Simpdsio de Xenofonte diz a Sécrates: “E a po- breza que leva alguns a roubarem, outros a arrombarem, € outros a se tornarem mercadores de escravos.” Mas, tan. to num caso como no outro, o juizo moral nio era tio sim- ples ou tio universalmente aceito quanto essas afirmagGes Parecem sugerir;e tampouco produzia qualquer conseqiién- cia pratica, visto que mesmo as pessoas mais respeitaveis de- pendiam desses homens “odiosos” para obter os escravos sem os quais toda existncia civilzada les pareciaimposst vel. ‘Mas o desprezo pelo mercador de escravos nio era in- comum, 0 que nos sugere que a escravidéo em si apresenta- va certos problemas de ordem moral mesmo quando era tida como absolutamente necessaria, Neste ponto, a escra- vidéo antiga e a moderna nfo podem ser equiparadas. Ha- via nos estados do sul certas circunstancias especiais, exer- cendo tensdes em sentidos opostos. Por um lado, a escravi- dio era “a instituigdo peculiar”, e poucos sulistas poderiam ignorar que a maior parte do mundo civilizado jé abolira € repudiava tal pratica; gregos e romanos, porém, nio ti- nham de lutar com a reprovacéo de uma consciéncia exter- na de tal tipo. Os sulistas proprietarios de escravos encon- AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 189 travam certo conforto moral na cor dos seus “bens”, na renga da inferioridade natural da raga negra — um meca- nismo de defesa relativamente initil para os antigos. O ne- gro do sul dos Estados Unidos nunca conseguia se livrar do estigma da escravidio, nem mesmo quando era liberta- do, ou, como muitas vezes ocorria, quando tinha alguma ascendéncia branca. Mas os descendentes de um Aulo Ca- preilio Timéteo podiam integrar-se normalmente & popu- lagio livre do Império Romano, sem que nada os distinguisse de milhares de outras pessoas. Nao h4 nenhuma pista que nos indique a nacionalida- de de Timéteo. Seus primeiros dois nomes, Aulo Caprei- lio, eram os de seu senhor, que ele adotou 20 obter a liber- dade, como era costume entre os romanos. Timéteo era 0 seu nome de escravo — um nome grego comum que nada nos diz, visto que o escravo poucas vezes usava 0 “seu” no- me, mas sim o nome que o senhor lhe dava. Os romanos dos tempos primitivos chamavam seus escravos de Marci- por, Lucipor, e assim por diante — isto &, “menino de Mar- co”, “‘menino de Liicio” —, mas logo a quantidade de es- cravos tornou-se demasiado grande, e fez-se necessirio 0 uso de nomes individuais que distinguissem, por exemplo, 08 diversos escravos de Marco. Adotada a pritica, as possi- bilidades passaram a ser ilimitadas. A escolha de nomes va- riava & merc da moda e do gosto pessoal, embora possa- mos distinguir uma regra tosca aplicada com certa regulari- dade. Com a expansio romana em diregio ao leste, o impé- rio dividiu-se em duas metades, uma de lingua latina e ou- tra de lingua grega, ea escolha dos nomes dos escravos ten- dia a respeitar essa divisio. Assim, é mais provavel que Ti- méteo seja natural do baixo Danuibio, das estepes russas do sul, ou talvez das terras altas da Anatélia oriental, do que da Germnia ou do norte da Africa. 190 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE ‘A questio da nacionalidade era importante para 0 com- pradorj Era crenga comum que determinadas nacionalidz- des produziam escravos melhores, a nivel de vocagio e tem- peramento, Os pregos variavam de acordo com tal fator, ea lei romana (ea grega, provavelmente) exigia que o ven- dedor especificasse rigorosamente a origem de sua merca- doria, Hi um exemplo que merece nossa atengio, No ano 151 A.D., um grego de Alexandria adquiriu uma menina no mer- cado de Sida, cidade localizada no litoral sul da Anatélia (cerca de 320 km a oeste de Tarso), um centro tradicional e notério de atividade escravista. O comprador levou a me- nina consigo de volta para o Egito, ¢ com ela a nota de ven- da— um documento bilingiie em grego e latim, escrito em papiro, encontrado em condig6es de legibilidade no final do século XIX. A menina é descrita da seguinte forma: “Sam- batis, mudado para Atenais, ou qualquer outro nome pelo qual possa ser chamada, de nacionalidade frigia, cerca de doze anos de idade ... em boa saiide, como manda a lei, livre de qualquer acusagio legal, nfo é andarilha ou fugitiva, néo apresenta a doenca sagrada [epilepsia}.” O vendedor garan- tiu tudo isto sob juramento aos deuses Hermes e Hefafsto, sob pena.de ser obrigado a devolver 0 dinheiro em dobro caso qualquer afirmasio nio fosse verdadeira. A frase “ou qualquer outro nome pelo qual possa ser chamada”” é uma ressalva contratual tfpica; a garota, na verdade, nascera li- vre e recebera um nome frigio, Sambatis, substituido pelo nome grego Atenais quando ela foi escravizada, Nio sabe- ‘mos como isso acontecen exatamente, mas era fato not nna Antiguidade que os frigios freqiientemente vendiam os préprios filhos como escravos, pritica que continuow mes- ‘mo depois da incorporac%o da Frigia 20 Império Romano. No sabemos também se 0 comprador e 0 vendedor eram AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 191 negociantes profissionais de escravos, mas a verdade é que ‘nfo valeria a pena percorrer a longa distancia entre o Egito e Sida apenas para comprar uma garotinha. ‘As notas de venda eram geralmente escritas em mate- rial perectvel, de modo que é apenas por acaso que algu- mas, escritas em papiro ou pedagos de cera, chegaram até nos. uma pena, visto que sio 0 tinico tipo de testemunho que nos permitiria elaborar um mapa estatistico da compo- sicio racial e nacional da grande populagZo escrava do mun- do antigo. Mas as linhas gerais de um tal mapa séo suficien- temente claras, e sabemos que oscilaram com o tempo. O ponto crucial é que no havia raas ou nacionalidades espe- Cificamente destinadas 4 escravidiol Praticamente toda qualquer pessoa poderia vir a ser escravizada, e a predomi- nncia deste ou daquele grupo em determinado periodo era determinada pela situagio politica e pelas guerras. Os gre- gos escravizavam outros gregos quando podiam, os roma- nos escravizavam os gregos, ¢ ambos escravizavam qualquer povo em que pudessem deitar mios, quer por meio da cap- tura quer por meio da compra, ‘A maioria dos escravos, porém, eram “incivilizados” do ponto de vista dos gregos e romanos. Em principio, 0 escravo é um forasteiro, um “barbaro”, fato que o distin- gue de todas as outras forcas de trabalho involuntario co- nhecidas pela histéria — os camponeses egipcios recrutados para construir as pirimides, os clientes da Roma dos pri- meiros tempos, os presos por dividas, os servos e os pedes. Oescravo é introduzido numa nova sociedade de forma vio- enta e traumética, arrancado nao apenas de sua terra natal como também de tudo aquilo que, em circunstancias nor- mais, pode propiciar apoio social e psicolégico ao ser hu- mano. Eleé separado da familia, dos companheiros, das suas instivaigdes religiosas, e nao recebe nenhum outro foco de rela¢io, a no ser a figura do senhor e, de maneira pouco 192 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE confidvel, a dos camaradas escravos. Além disso, no pode esperar apoio de outros grupos oprimidos da sociedade pa- raa qual foi conduzido. Perdeu o controle nfo apenas so- bre o seu trabalho, mas também sobre a sua pessoa (¢ per- sonalidade), Daf ser o livre acesso sexual aos escravos uma condigéo fundamental da escravidio, com excegio comple- xas no que diz respeito as regras regulamentando 0 acesso de mulheres livres a eseravos homens. Tnevitavelmente, os gregos ¢ romanos também tenta- ram justificar a escravido com base numa inferioridade na- tural dos escravos. A tentativa fracassou por diversas razdes. Em primeiro lugar, havia uma minoria muito grande a quem tal teoria nio se aplicava. Por exemplo, apos detrotarem 69 cartagineses de Anibal, os romanos voltaram-se para 0 leste e conquistaram 0 mundo grego, trazendo para a Itélia centenas de milhares de prisioneiros no decorrer dos dois stculos seguintes. Esta invasio grega involuntari ‘mo um de seus efeitos uma verdadeira revolucio cultural. “A. Grécia cativa cativou seu rude conquistador”, disse poeta rémano Horicios ¢ era evidentemente impossivel apl car a doutrina da inferioridade natural (que poderia até ser- vir no caso dos germanos) a um povo que lhes fornecia a maior parte dos professores, e que introduziu a filosofia, teatro ¢ 0 que havia de melhor em escultura e arquitetura no seio de uma sociedade que anteriormente nio demons- trara possuir virtudes voltadas para tais interesses. Em segundo lugar, a prética de libertar escravos como recompensa pelo servico fiel era bastante disseminada na Antiguidade, ocorrendo com maior freqiiéncia, talvez, no leito de morte, Nao havia leis que regulamentassem a pri tica, mas podemos ter uma idéia das proporgdes que atin- git através de um dos decretos do primeiro imperador ro- mano, Augusto, Ele tentou conter as libertagdes concedi- das no leito de morte, provavelmente para proteger os di- teve co- AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 193 reitos dos herdeiros; estabeleceu entio uma escala mével,, segundo a qual nenhum homem poderia libertar mais que cem eseravos em seu testamento, Apés séculos de continua alforria, quem poderia distinguir os “naturalmente superio- res” dos “naturalmente inferiores” entre os habitantes das cidades gregas e romanas (especialmente quando nio havia nenhuma diferensa na cor de pele)? A natureza humana sendo como é, nao ha diivida de que muitos proprietérios de escravos continuaram a se valer da pretensa nosio de superioridade. Contudo, a idéia foi aban- donada enquanto ideologia, e substituida por uma das mais notaveis contradigées da histéria, “A escravidio”, escreveu 6 jurista romano Florentino, “é uma instituigo da lei de todas as nases pela qual alguém submetido a outrem de maneira contraria 4 natureza.” A definigio tornou-se ofi- a includa na grande codificagio das leis promo- vida por Justiniano, imperador cristio, em prinefpios do século VI. Mas ninguém, ou ninguém importante, tirou dai a conclusio aparentemente ébvia de que aquilo que é con- trério a natureza esta errado e deve ser abolido. ‘A guerra era a chave de toda a operago, O mundo an- tigo vivia em continuo estado de guerra, e as regras aceitas determinavam que o vencedor tinha direitos absolutos so- brea propriedade ea pessoa do vencido, sem distingdes en- tre civis e militares, Nem sempre esse direito era levado as Sltimas conseqiiéncias; consideragées de ordem tStica ou sim- ples magnanimidade por vezes intervinham, e muitas ve- zes pedir resgate era mais lucrativo que vender os prisio- neiros como escravos. Mas a decisio cabia unicamente 20 vencedor, e um grafico da oferta de prisioneiros no merca- do de escravos ao longo do tempo apresentaria apenas al- guinas quedas ocasionais na curva, que jamais se estende- riam por um perfodo longo (digamos, cingiienta anos). Os 194 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE mimeros totais sio desconhecidos, mas ndo hé divida de que, no milénio compreendido entre 600 a.C. € 400 A.D. Os gregos e romanos sujeitaram milhdes de homens, mu- heres e criangas a tal tratamento. ‘Com isso niio queremos dizer que as guerras fossem em- preendidas simplesmente com vistas & captura de escravos, Embora algumas com certeza o fossem — como acontecet quando 0 pai de Alexandre, o Grande, o rei Felipe I! da Macedénia, organizou uma expedi¢4o a0s territérios citas do norte do Mar Negro para reabastecer 0 seu dilapidado tesouro em 339 a.C. Diz-se que ele capturou 20.000 mulhe- res e criangas, além de muitas outras riquezas. Posto que festa ocorréncia nio era tipica e que as guerras geralmente tinham outras causas, é ainda verdadeiro que a perspectiva do saque, do qual os escravos eram parte importante, nun- ‘a estava ausente dos planos de guerra — em parte para as- segurar a existéncia do exército (sempre um problema na ‘Antiguidade), mas principalmente para enriquecer o Esta- do e os comandantes e soldados individualmente. Quando partiu para a Gilia, César era um nobre empobrecido; mor- feu multimilionsrio, ¢ 0 papel dos prisioneiros gauleses nessa mudanga de condi¢éo nao foi pequeno. O proprio César relata que, depois de capcurada a cidade dos atuaticios (pro- Vavelmente Namur), 53.000 pessoas foram vendidas; apés a batalha de Alésia, em 52 a.C., ele dew um prisioneiro a cada um de seus legionérios. Mas César nao levou a pilha- Jimas conseqtiéncias; muitas vezes empregou titi tas conciliatérias com o intuito de dividir as tribos gaule- sas, a exemplo do que fez apds Alésia, quando devolve 20.000 prisioneiros aos éduos e arvernos. Um século antes, Estado romano vendera 150,000 epirotas de setenta cida- des do noroeste da Grécia porque estes haviam dado apoio go rei da Macedonia, Perseu, que estava em guerra com os romanos. AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 195 ‘A cifra de 150.000 pode ser um exagero, mas 0 fato é que metade desse ntimero de prisioneiros jé criaria proble- mas para um exército em marcha, que podia ser totalmen te imobilizado, o que de fato ocorreu algumas vezes. Em 218 a.C., o Rei Felipe V da Macedénia invadiu a cidade de no noroeste do Peloponeso. Viu-se tio sobrecarrega- do de presas de guerra, que inclafam mais de 5.000 prisio- neiros e um grande nimero de cabegas de gado, que seu exér- cito foi, nas palavras do historiador Polibi lizado para o servigo”. Teve de mudar seus planos e marchar atra- vvés de um terreno bastante acidentado até a cidade de He- reia, na Arcédia, onde conseguiu leiloar o produto de sua pilhagem. Nio se trata de um caso tipico. Se fosse, a historia mili- tar ¢ politica do mundo antigo teria sido completamente diferente. Normalmente, faziam-se preparativos antecipa- dos para 0 escoamento dos produtos do saque; uma das prin- cipais medidas era conseguir mercadores ¢ mascates que acompanhassem o exército, devidamente providos de dinhei- ro vivo e meios de transporte. O saque era reunido num ponto determinado e entio leiloado (os espartanos, com a sua franqueza caracteristica, davam aos oficiais responsiveis 6 titulo de “vendedores de pilhagem”). O que acontecia a partir de entio era do interesse apenas dos compradores, © o exército seguia seu caminho, enriquecido pelos rendi- mentos. £ possivel que a cena representada na lapide funeraria de Aulo Capreilio Timéteo represente uma tal situaglo, a ‘remogio de escravos comprados num leilio de exército. Este era certamente um negécio muito lucrativo (suficiente pa- ra tustear uma cara lipide funerdria), visto que o prego dos tescravos e demais produtos do saque era provavelmente mui- to baixo numa situagio de tal tipo. O Unico problema era que a guerra, apesar de freqiiente, ocorria, nao obstante, de 196 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE forma irregular e era incapaz. de garantir uma oferta cont nua de mercadorias; faziam-se necessirias outras fontes de abastecimento. Uma delas era a “pirataria”, rétulo infeliz gue evoca a imagem de um isolado Capitéo Kidd, quando a realidade era totalmente diferente em dimensdes e cari ter: tratavase de uma atividade continua e organizada, ile- gal mas (A semelhanga do tréfico de rum) muito bem rece- bida pelos seus beneficifrios finais, os consumidores. Mes- mo no perfodo cléssico, a pirataria era uma ocupacio tradi- ional em certas regides, especialmente na porgio ociden- tal da peninsula grega. Mas a pirataria dessa época ¢ insignificante se compara- da ao grande surto ocorrido durante a Repibliea Romana, comecando por volta de 150 a.C. Surgiu entio no Mediter- neo oriental uma complexa rede de pirataria, seqiiestro € comércio de escravos, que tinha Sida como quartel-general ea Ilha de Delos (cujo porto foi reformado e ampliado che- gando a permitir um movimento de até 10.000 escravos por dia) como principal empério. O grande impulso para o tr’ fico foi o surgimento, na Itdlia e na Sicilia, dos latifundia, grandes extensdes de terra de propriedade de senhores au- sentes e trabalhadas por grupos de escravos. O lucro de tal comércio deixou sua marca em Delos, visivel ainda hoje nas escavagdes das casas de abastados mercadores italianos. Esse comércio teve como conseqiigncias diretas as duas majores revoltas de escravos da Antiguidade, ambas ocor- ridas na Sicflia — a primeira teve infcio antes de 135 a.C., € a segunda, uma geragio depois, na mesma época em que a Gilia era invadida pelos cimbros e pelos teutées. Para fa- zer frente a invasio, Mério foi autorizado a arregimentar tropas auxiliares onde quer que fosse possivel. Quando ape- Jou a Nicomedes da Bitinia (a leste do Bésforo), um “rei cliente” sob suserania romana, este afirmow nio ter homens AULO CAPREILIO TIMGTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 197 a fornecer, jé que a maioria de seus siiditos fora escravizada pelos coletores de impostos romanos. © Senado, alarmado (com os germanos, no com a queixa), ordenou aos gover- nadores de provincia que libertassem todos os siditos “alia- dos” que encontrassem escravizados na sua jurisdigo. Na Sicilia, oitocentos homens foram devidamente libertados, ‘mas essa ago isolada mal arranhava a superficie do proble- ma ‘As necessidades dos proprietirios dos latifindia eram relativamente simples: o que importava era a quantidade, no a qualidade da forga de trabalho. Mas, apesar de toda a sua importincia, eles nio eram os tinicos consumidores. Em 54a.C., Cicero escreveu a seu amigo Atico c disse que a segunda expedigto de César 4 Bretanha estava causando preocupacio em Roma. Entre outras coisas, ja se sabia que a ilha no era rica em prata e que no havia “nenhuma es peranca de se obter outro produto nas pilhagens que nio prisioneiros, e duvido que possamos encontrar entre eles algum que seja versado em miisica e literatura”. O sarcas mo nio tem necessariamente de ser levado a sério, mas 0 fato & que ele aponta ainda outra dificuldade do comércio de escravos: a procura de habilidades especificas. Os escravos podiam ser treinados, é claro, especialmente se fossem adquiridos quando jovens, Todo treinamento vo- cacional na Antiguidade era levado a cabo pelo sistema de aprendizado, e 0s meninos e meninas escravizados eram en- sinados juntamente com os seus contemporaneos livres. Os gladiadores recebiam treinamento especial para a sua pro- fissio, o que seria de se esperar, jf que, em circunstancias normais, nenhuma crianga era educada para tal fim, Eram tum grupo excepcional, que exigia téenicas excepcionais de- senivolvidas em escolas especial mente estabelecidas com es- se propésito, A mais antiga localizava-se provavelmente em Capua, ¢, nio por coincidéncia, foi a partir desse centro que 198 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE © gladiador Espartaco organizou a terceira — e a mais far mosa — das grandes revoltas de escravos da Antiguidade (73-71 aC). Havia, porém, limites para o treinamento de escravos, claramente distintos das consideragdes econémicas. A matéria-prima certa era um pré-requisito necessériof no ca- so dos gladiadores, preferiam-se os celtas, germanos ¢ tré- cios aos gregos e sirios] No caso das minas de prata de Ate- nas, dava-se preferéncia aos que possufam experiéncia em mineragio (tracios e paflagénios), e as dimensdes do pro- blema ficam evidentes quando se leva em conta que a con- centragio de escravos nessa mina atingiu um pico de cerca de 30.000 homens no século IV a.C. O que aconteceria, en- tio, se numa determinada década a guerra e a pirataria en- trassem em declinio ou conseguissem principalmente mu- Iheres e criangas? Por volta do ano 477 a.C. os atenienses estabeleceram uma forga policial composta de 300 escravos citas, perten- centes ao Estado ¢ originalmente alojados em tendas na praga publica — a Agora —, e posteriormente na Acrépole. O sis- tema durou cem anos, a0 longo dos quais o efetivo pode ter chegado & cifra de mil escravos. Os citas eram conheci- dos como bons arqueiros, arte pouco praticada entre os gre- gos, e eram por vezes empregados como mercendrios gra- gas a essa habilidade, Mas os atenienses niio contrataram seus policiais citas; compraram-nos. Como foram ter uma idéia to curiosa? E como podiam contar com substituigdes re- gulares que mantivessem a tropa em atividade? ‘A resposta é que jé havia em 500 a.C. um comércio re- gular de “barbaros”, que eram comprados de seus préprios Iideres — prisioneiros em guerras internas, criangas, e ou- ‘tos — exatamente como a maior parte dos escravos negros ‘era obtida nos tempos modernos. Esse comércio nao tinha rela¢do alguma com a pirataria ou com as atividades milita- AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 199 res dos gregos ¢ romanos. Era um negécio privado, realiza- do por comerciantes que tinham seus préprios métodos e contatos nas varias regides situadas fora do mundo greco- romano propriamente dito. Voltando mais uma vez a Au- lo Capreilio Timéteo, era provavelmente dessa forma que ele operava. O local onde foi encontrada sua lépide funeré- ria era sem divida um ponto para onde convergia o tréfico das regides do baixo Danibio com destino 20 Mar Egeu. Tivesse ele vivido quinhentos anos antes, 0 governo atenien- se poderia encomendar-Ihe novos policiais sempre que pre- cisasse. Os escravos, enquanto mercadoria, criavam problemas singulares para os comerciantes. Nas grandes cidades, aos que tudo indica, havia lojas que vendiam escravos: em Ro- ‘ma, na época de Nero, elas se concentravam nas imediages do templo de Castor, no Forum. Mas eram a excegio. Nao era possivel ter sempre & mio, como uma mercadoria co- ‘mum, um estoque de gladiadores, pedagogos, mitsicos, ar- tesios especializados, mineiros, criangas novas, mulheres para bérdeis ou concubinato. O comércio de escravos sempre foi conduzido de forma especial, e o mundo antigo nio foi excegio. Por um lado, havia os grandes mercados de escra- vos onde, provavelmente em datas pré-fixadas, negociantes ¢ intermedisrios podiam encontrar grandes estoques a ven- da, Alguns centros localizavam-se nas cidades maiores, co- mo Biziincio, Efeso ou Quios, mas havia mercados meno- res que também eram importantes, como Titoréia, na Gré- cia central, onde se realizava a cada seis meses uma grande venda de esctavos por ocasio dos festivais em homenagem 4 deusa fsis. Por outro lado, mercadores itinerantes leva- vam seus escravos onde quer que existissem consumidores em potencial: pragas fortes, feiras interioranas, e muito mais. 200 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE ‘A venda em si dava-se normalmente por meio de lei- lio, As tnicas representages pictdricas ainda existentes es- to, mais uma vez, em lipides funersrias, duas lipides, para sermos exatos — uma de Cépua e outra de Arles —, osten- tando cenas substancialmente semelhantes. A lépide de Ar- les apresenta um escravo de pé sobre uma plataforma rota- tiva, enquanto um homem, possivelmente um comprador, levanta sua vestimenta revelando suas musculosas pernas ¢ ndegas, ¢ o leioeiro aguarda em pose caracteristica, com um brago estendido. Como observou o fildsofo estdico Sé- neca, “Quando se compra um cavalo, ordena-se que seu man- to seja retirado; da mesma maneira, levanta-se as vestimen- tas do escravo’ ‘Séneca era um dos homens mais ricos de seu tempo, nu- ma época (0 século 1 A.D.) de luxo e de enormes fortunas, e é claro que possufa sua quota de escravos. Numa de suas Epistolas Morais, cle enfatiza que 0 escravo & um homem que possui uma alma como qualquer homem livre; como voct e eu, diz ele. Assim, cle conclui que um senhor deve tratar com familiaridade os seus escravos, jantar e conver- sar com eles, inspirar-lhes respeito e nao terror — tudo, me- nos liberté-los. ‘Séneca era romano, mas sua postura era mais grega que romana. Para os gregos, como observou Nietzche de for- ‘ma epigramstica, tanto o trabalho quanto a escravido eram “uma desgraca necesséria, um motivo de vergonba, como se fossem a um sb tempo uma desgraga e uma necessida- Seria mais acertado afirmar que essa vergonha geral- mente era subconsciente; prova disso 6 0 siléncio quase ab- soluto dos autores antigos diante daquela que certamente era faceta mais torpe da instituigko: o tréfico de escravos em si. As eventuais excegdes geralmente apresentam algu- ‘ma caracteristica especial. Assim, Herédoto fala-nos de um negociante de Quios chamado Panionion, cuja especialida- AULO CAPREILIO TIMOTEO, MERCADOR DE ESCRAVOS 201 de era castrar e vender belos jovens & corte persa.e a outros consumidores orientais através dos mercados de IEfeso e Sar- des, Uma de suas vitimas tornou-se 0 eunuco favorito do Rei Xerxes; quando surgiu a oportunidade, ele se vingou de Panionion ¢ de seus quatro filhos. Herédoto aplaudiu a ago, pois, na sua opiniio, Panionion “ganhava a vida atra- vvés da mais impia' das profissdes” — nfo o trifico de esera- vos como tal, mas 0 trifico de eumucos. A distingio pode parecer irrelevante, mas o fato é que as distingées precisam ser feitas. Pelos padrdes modernos, ‘© mundo antigo era brutal em muitos aspectos. As exibi es de gladiadores certamente estavam entre os seus habi- tos mais repugnantes — como diriam os préprios gregos, antes de serem corrompidos pelos romanos —mias ha tes- temunhos abundantes de que os gladiadores se orgulhavam de seu sucesso e de que nfo poucos homens livres juntaram-se a eles voluntariamente,\Pode-se argumentar razoavelmente que esse fato apenas prova a profundidade da brutalizagio. Mas que dizer do paflagdnio de nome Atotas, trabalhador nas minas de prata de Atenas, que se dizia descendente de um dos herdis troianos e cuja lépide funeriria ostentava a inscrigGo: ‘Nunca fui igualado em perfcia”? A habilidade €.a capacidade artistica dos escravos podiam ser vistas em todo lugar, jé que eles no eram utilizados apenas no traba- Iho rude dos campos, mas também nas oficinas de ceriimi- cae tecelagem, nos templos e outros edificios puiblicos, on- de executavam os trabalhos mais delicados. A psicologia do escravo no mundo antigo apresentava certamente nuangas mais complexas que o mero ressentimento sombrio, ao me- nos sob circunstincias “normais”. i Mesmo o comércio de escravos tinha suas nuangas, sendo possivel ver nele um bardmetro do estado da prépria socie- dade, Nao é coincidéncia que o iltimo século da Republica Romana, um perfodo de profunda degradacio dos valores 202 ASPECTOS DA ANTIGUIDADE morais ¢ sociais, tenha assistido a0 maior surto do tréfico @ as maiores revoltas de escravos. Vieram entio os séculos relativamente calmos do Alto Império Romano, se pelo longo periodo de dissoluso da prépria sociedade an- tiga. Um acontecimento sintomético: quando os godos romperam as linhas romanas na Tracia em 376 A.D., a des- vantagem do exército romano devia-se ao fato de seus ofi- ciais estarem mais interessados na lucratividade do tréfico de escravos que na resistencia aos bérbaros. Nessa época, porém, a escravidio jf estava em declinio, nfo como resultado de um movimento abolicionista, mas em conseqiiéncia de mudangas sécio-econdmicas comple- xxas que substitufram o escravo-mercadoria e, em grande par- te, 0 camponis livre, por um outro tipo de trabalhador: 0 colonus, 0 adseriptus glebi,.o servo. Os valores morais, os interesses econdmicos e a ordem social nio foram afetados por essas sutis mudangas na condiglo social da populacéo submetida, Tampouco desapareceu completamente a escra- vido da Europa, Os problemas juridicos criados pela exis- téncia de escravos tomaram mais espago que qualquer ou- t10 tépico na codificagio do imperador Justiniano no sécu- Jo VI A.D. Fildsofos, moralistas, tedlogos e juristas conti- nuaram a disseminar uma variedade de f{6rmulas capazes de explicar, a eles ¢ & sociedade em geral, como um homem podia ser um homem e um objeto a um s6 tempo. O mun- do ocidental teve de esperar ainda mil e quinhentos anos depois de Séneca para dar o passo final, ou seja, propor que a escravidio era tio imoral que devia ser abolida —e mais trezentos anos para que tal aboligio se concretizasse, pela forsa e pela violencia. xv PRIMORDIOS DO CRISTIANISMO: ‘TRES VISOES DA HISTORIOGRAMA, 1. Alegoria ¢ Influéncias Homero ou Moisés: quem veio primeiro? Essa questo foi tema de vigorosos debates entre apologistas cristios ¢ pagios nos tiltimos séculos da Antiguidade, e muitas vezes assumiu uma forma bem menos sutil. Quem plagiou quem? ‘Nas palavras de um autor andnimo que escreveu por volta do ano 200, Suponho que nio ignore ... que Orfeu, Homero e Solon estive- rath no Egito, que tiraram vantagem do trabalho histbrico de Moi- sés, e que, por conseqiéncia, foram capazes de se posicionar con- tra os que kaviam anteriormente sustentado idéias flsas a respei- to dos deuses. Entre as varias “provas” que apresentou estavam 0 “em- préstimo” da abertura do Génesis num trecho da descrigao do escudo de Aquiles na Ilfada, a apresentagio do Jardim do Eden disfarcado como 0 jardim do Rei Alcinoo no Li- vro VII da Odisséia, e a referéncia de Homero ao cadaver de Heitor como “barro inanimado”, copiado de “Es pé e 20 p6 retornards”.