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Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Ciências Sociais
Instituto de Estudos Sociais e Políticos

Marcelo Henrique Nogueira Diana

O demônio familiar: pensamento social e psiquismo em Os sertões

Rio de Janeiro
2013

Marcelo Henrique Nogueira Diana

O demônio familiar: pensamento social e psiquismo em Os sertões

Tese apresentada, como requisito parcial
para a obtenção do título de Doutor, ao
Programa de Pós-Graduação em Ciência
Política, da Universidade do Estado do Rio
do Janeiro.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Jorge Werneck Vianna

Rio de Janeiro
2013

CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA IESP

D538 Diana, Marcelo Henrique Nogueira.
O demônio familiar: pensamento social e psiquismo em
Os Sertões / Marcelo Henrique Nogueira Diana. – 2013.
272 f.

Orientador: Luiz Jorge Werneck Vianna.
Tese (doutorado) – Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Instituto de Estudos Sociais e Políticos.

1. Brasil – República - História – Teses. 2. Psicologia -
Historia – Teses. 3. Conceitos - Historia – Teses. 4. Ciência
Politica – Teses. I. Vianna, Luiz Werneck. II. Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Estudos Sociais e
Políticos. III. Título.

CDU 378.245

Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta tese,
desde que citada a fonte.

_____________________________________________ _____________________
Assinatura Data

Marcelo Henrique Nogueira Diana

O demônio familiar: pensamento social e psiquismo em Os sertões

Tese apresentada, como requisito parcial
para a obtenção do título de Doutor, ao
Programa de Pós-Graduação em Ciência
Política, da Universidade do Estado do Rio
do Janeiro.

Aprovada em 07 de outubro de 2013.
Banca examinadora:

________________________________________
Prof. Dr. Luiz Jorge Werneck Vianna (orientador)
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

________________________________________
Profa. Dra. Helena Maria Bousquet Bomeny
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

________________________________________
Prof. Dr. José Eisenberg
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

________________________________________
Profa. Dra. Glaucia Kruse Villas Bôas
Universidade Federal do Rio de Janeiro

________________________________________
Prof. Dr. Luiz de França Costa Lima Filho
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro
2013

DEDICATÓRIA

Para o meu pai, que me deixava brincar na biblioteca.

para todos eles. Ao longo do período de IUPERJ. as atenções. quando se finaliza o trabalho. Por isso agradecer. o carinho e. devo muito do que aprendi ao longo dos quase 8 anos de convivência e estudo. AGRADECIMENTOS É um hábito já conhecido afirmar que um trabalho acadêmico não teria sido concluído sem o auxílio de pessoas e de instituições. ao professor Luiz Werneck Vianna que me orienta desde o meu mestrado no antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). sem os recursos. sobretudo. José Eisenberg. porém. os debates. as distrações. Ao Werneck. além do próprio Werneck Vianna. aprendi os primeiros passos nos estudos de história dos conceitos e de história intelectual. No antigo IUPERJ concluí meu mestrado e realizei parte do doutorado. mas hoje essenciais para o enfrentamento do trabalho acadêmico. Ao professor Werneck. bem como em conversas e conselhos beneficiados em diversas ocasiões me ajudaram a entender aspectos antes turvos. Renato Lessa e Ricardo Benzaquen de Araújo. mas sobretudo foi com ele que eu adquiri o entusiasmo para enfrentar temas da reflexão brasileira de maneira inquieta e pouco ortodoxa. os afagos. cujo seminário de projeto de tese já no doutorado foi instrutivo para desafiar a minha reflexão em . Aos professores César Guimarães. as reuniões. Com o professor Marcelo Jasmin. Sou grato também ao professor João Feres Junior. parece ser um pouco inexistente. até que mudamos para o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP). com o pensamento social intrigado não simplesmente por um capricho da erudição. enquanto é produzido. pouco visíveis para mim. mesmo correndo o risco de ter deixado outras pessoas e instituições sem menções. Celi Scalon. cuja ocorrência são de minha completa responsabilidade. tem uma razão que só ao final dessa etapa pude constatar e compreender. as parcerias. a confiança daqueles que são capazes de acreditar em um trabalho que. que me recebeu no IUPERJ quando eu ainda era um emigrado da história. abrigados hoje na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). mestres cujos cursos e seminários mostraram-me sempre as razões porque os admiro. os grupos. razão pela qual gostaria de agradecer algumas pessoas que foram importantes na elaboração desta tese. Gostaria de agradecer. agradeço profundamente a experiência da palavra de saber compartilhada. mas motivado por um desassossego e provocação política e social. não se devem os erros e as falhas deste trabalho. primeiramente. Maria Alice Rezende de Carvalho. Marcus Figueiredo. Marcelo Jasmin. tive a oportunidade de conviver com pessoas que enriqueceram a minha experiência pessoal e acadêmica no Rio de Janeiro. Pedro Paulo de Oliveira.

foi como nunca deixa de ser de visão fina e inteligente em todos os seus comentários que me fizeram ver mais sobre o meu próprio texto do que eu imaginara. dedico um agradecimento especial ao professor Colin. Arnaldo Lanzara. à querida Paula Salles. Junto ao nome desses professores. dedico um muito obrigado por tornar a minha jornada até aqui mais gostosa e interessante. André Dumans Guedes foi. hoje sediado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro PUC-Rio – José Eisenberg. ensaiando diálogos com a filosofia. da University of London. um agradecimento in memoriam à professora Santuza Cambraia Naves. Por todos esses motivos. O professor César. acima de tudo.torno do lugar do político na minha predileção pela história. pessoas com que tive a oportunidade de compartilhar ideias e impressões diversas sobre o mundo. muchacho. permitindo que eu participasse dos eventos da LSE de maneira muito à vontade e generosa. Thais Aguiar. Neste grupo de pesquisa aprendi que entre as esferas da ciência e da política. como não deixa de ser. o primeiro que me orientou com toda a sua solicitude para o segundo. Ao grupo de professores-pesquisadores do CEDES – Centro de Estudos Direito e Sociedade. estendo o meu agradecimento. com a estética e com a psicanálise. Tributo. Diogo Tourino de Sousa. e mais outros. César Kirally. Pedro Scotti. revolvendo minha intuição acadêmica e voltando-a para o debate público. Posso dizer seguramente que Beatriz Filgueiras foi o melhor e mais inesperado encontro no doutorado. que alimentou em mim a possibilidade de pensar o político por vias distintas. foi mais do que receptivo. também. Ao professor Renato Lessa. é necessário atentar para a esfera pública. Renata Bichir. companheiro de várias horas e esquinas. sou grato pela oportunidade concedida de poder ampliar a solidão de leituras quase sempre hards em abertura. professor que tornou a seara da ciência mais fértil em suas estimulantes aulas. a minha profunda admiração intelectual. Alice Guimarães . também. André Coelho. principalmente. Maro Martins. como também me apresentou para o seu grupo de estudantes da London School of Economics and Political Science. para outras arenas sociais. Aos colegas das turmas de mestrado e de doutorado. O professor Colin Lewis não apenas me recebeu no ISA. cujo alto astral e compromisso eram sempre estimulantes para mim. sobre tantas coisas. atenta para as condições de fala de setores subalternos e historicamente desprotegidos da sociedade. Raíza Siqueira. em sua argüição em seminário de tese. não posso deixar de agradecer. Aos professores Leslie Bethell e Colin Lewis. em especial. Devo a ele um muito obrigado e. também. Maria Alice e o próprio professor Werneck. devo agradecer pela generosidade e pela paciência com que trataram dos meus diversos trâmites acadêmicos durante o meu estágio de doutorado sanduíche no ISA – Institute for the Studies of the Americas.

mais gentil. devo também um agradecimento não simplesmente profissional. Paulo Henrique Granafei. Ao casal Daniel e Leïlah. Daniela Tranches. Thiago Lenine. por todas as conversas e pontos de vistas compartilhados sempre desafiantes. pessoas com quem conecto por canais exclusivos e excitantes. recebam o meu carinho e o meu mais sincero agradecimento. Giulia Ramondini. Filipe. Aos amigos de outras questões. Cristina Buarque de Hollanda. pessoas muito especiais que me trouxeram com a sua presença a alegria em momentos únicos. Teresa Vale e Rose foram amigas de ideias. alguns estão próximos. Carolina de Filippo. Carla Soares. Luciana Souza.Soares sempre teve uma palavra de apoio para me resgatar dos dilemas sensíveis e das encruzilhadas que eu mesmo criava e me prendia por mais tempo do que o necessário. também recebam o meu obrigado. Ana Priscila Freire e D. A Aline. Sean O’Connor. de outros laços. Rafael Abreu. Ivi Elias. Ana Paula de Carvalho. outros enfrento a distância. sobretudo. amigos de fé. todos colegas que conheci no IUPERJ e que tornaram a minha vida no Rio mais carioca. dedico o meu muito obrigado pelas conversas e pelo apoio em diversos momentos. estendo também o meu muito obrigado. A todos e todas agradeço pelo espírito amigo e pela companhia doce e feliz ao longo dos anos. Esther Niemeier. Diogo Lyra. ma chérie. companheiros de casa. com quem viajo. devo um agradecimento especial. há anos atrás. o meu sincero agradecimento pela experiência vivida. Elisabetta Garcia. naufrago e derivo. Carol Fenati. Pedro Modesto. Com Felipe Magaldi. Daniel da Costa. mais paulista. Luzia Costa. Juliano Borges. Rita. quando minha estadia no Rio parecia ter se tornado inviável. em torno de uma ilha fantástica. Aos dois amigos. Devo também um agradecimento bastante especial à professora Carla Anastasia. mais paranaense. Helga Gahyva. vivencio a experiência do pensar sem desviar o olhar. Aline Magalhães Pinto e Victor Coelho. João Martins Lacerda. Luiz Sales. e digo. Gustavo Franqueira. Igor Suzano Machado. gostaria de dizer mais que muito obrigado. Cássio Brancaleone. . Emma O’Leary. Leïlah Accioly Ronald de Carvalho e Fernanda Freire. A todos esses amigos queridos. Valeria Paiva. tendo ela com seu invejável fôlego sempre do meu lado. cuja companhia eu pude desfrutar em um dia a dia de pesquisa. Daniela Liberatto. mais catarinense. Leonardo Andrada. e que hoje passado tanto tempo. estudando assim como ela os homens do sertão. quando eu fazia a graduação em Belo Horizonte. mais mineira. reconheço ter sido pessoa essencial para a minha formação como pesquisador. Débora Pedrosa. mas em particular pessoal. pessoas com as quais convivi diariamente nesse último ano de escrita da tese. mineiras de bolos e de chás sempre deliciosos com sotaques hoje praticamente nostálgicos para mim. Bárbara Marcel. Artur Bulak.

Solange e Ângela. à Marta que agiliza as nossas demandas. Agradeço. através do seu programa de estágio sanduíche. por tantos motivos: Caroline e Cristiane. devo um agradecimento por tantos méritos. que me beneficiou com uma bolsa de doutorado e que também financiou a minha estadia em Londres. à CAPES. A todas essas mulheres. à Paulinha que nunca escondeu um sorriso e um abraço logo de cara. Florita que quando passa deixa o ambiente mais bonito. . mostrando a competência mesmo quando passávamos por momentos mais complicados. o meu muito obrigado. Beatriz. Simone. Aos funcionários e funcionárias do IESP que dão vida para a Casa de Botafogo. profissionais exímias e zelosas com o acervo do Instituto. por fim. Muito obrigado. sempre atentas na secretaria.

Desfolhar o dicionário até o fim Sem que um só nome seja verdade assim Isso não fazem os macacos de Darwin W. Outro Tempo. . Auden. H.

História da psicologia. Em Canudos. 2013. Palavras-chave: Pensamento social brasileiro. o sistema semântico da psique pode ser compreendido no livro de Euclides através de uma regra de semelhança – que se configura como regra de reflexão. RESUMO DIANA. a história dos discursos e os saberes da psicologia de fins do século XIX. analisamos o livro de Euclides de modo a compreender o horizonte semântico ao redor do qual o seu psiquismo aparece sistematizado. História intelectual. socialmente esquecidas pela civilização. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. assume para Euclides uma técnica de observação. isto é. 274 f. História da república. 2013. tradução – entre o organismo biológico e o organismo social. História dos conceitos. em reflexão com os ensaios de Hans Blumenberg e com a teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. Neste sentido. com o objetivo de examinar a semântica do conceito de psique. mas também uma hipótese política sobre as condições de sobrevivência da sociedade brasileira. Na linguagem de Os sertões. tornar conhecidas as populações historicamente ignoradas. quando a ordem social republicana foi atacada. N. Marcelo H. como argumentamos. A semântica da psique. Euclides depura o argumento de que os crimes da nacionalidade derivam os seus motivos da inconsciência generalizada dos habitantes do litoral sobre as populações rurais – caracterizando Canudos como um crime de consciência – de onde o autor reclama para si a tarefa de vingar. Para tanto. fundamental na construção do argumento do livro. Rio de Janeiro. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Instituto de Estudos Sociais e Políticos. Embora não caracterizado por sentido específico. O demônio familiar: pensamento social e psiquismo em Os sertões. nesse sentido. Os sertões. toma como campos de investigação a história do pensamento social brasileiro. isto é. o psíquico se realiza como metáfora que sustenta a tradução e a regra de semelhança entre fisiologia e sociologia. Esta tese se dedica a fazer uma análise da obra de Euclides da Cunha. . publicada em 1902.

History of Concepts. that is. 2013. with the support of Hans Blumenberg and Niklas Luhmann works. ABSTRACT DIANA. the psychic category is used as the metaphor that underlies the translation between physiology and sociology. The resident evil: social thought and psychism in Rebellion in the backlands (Os sertões). Intellectual History. N. During the war of Canudos (1896-1897). to make visible and known the populations historically ignored and socially forgotten by modern civilisation. aiming to examine the conceptual semantics of the psyche as an essential element in the elaboration of the argument in his book. The purpose of this thesis is to analyse the best-known work of Euclides da Cunha. that is. In Rebellion in the Backlands. the history of the discourses and the psychological knowledge at the end of the 19th Century. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Although not specifically characterised in just one sense or school affiliation. translation – between a biological and a social organisms. The psychic semantics. Euclides elaborates on his main argument stating that national crimes are actually derived from the generalised unconsciousness of the inhabitants in the coast over the rural populations – and. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Instituto de Estudos Sociais e Políticos. Key words: Brazilian Social Thought. Marcelo H. the psychic system semantics operate in Euclides da Cunha's book as a “rule of similarities” – which is also a function of reflection. we argue. doing so. when the Republican social order was attacked. 274 f. Rebellion in the Backlands (Os sertões). Rio de Janeiro. History of Psychology. in this sense. History of Brazilian Republic. provides Euclides da Cunha with a social observation technique as well as a political hypothesis on the historical and psychosocial conditions of Brazilian society in the beginning of 20th Century. the thesis analyses Euclides’ book exploring the historical and semantic horizons where this psychism appears systematised as a metaphor for the social. the war of Canudos becomes a sort of a national crime of conscience – in face of which the author claims for himself the task of revenge. 2013. . first published in 1902. Therefore. Then. it takes as a field of investigation the history of Brazilian social thought.

) OC – Obras completas de Euclides da Cunha. A imitação dos sentidos.) MS – Manuscrito de Os sertões (manuscrito do acervo da Biblioteca Nacional. Leopoldo.) PR – Poesias reunidas. 2009. 2001. Cadernos da Biblioteca Nacional. São Paulo: Ateliê Editorial. 2009) RELATÓRIO – Relatório apresentado pelo Revd. 117-321.) CEC – Correspondência de Euclides da Cunha (organização de Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti. São Paulo: Companhia das Letras. 2000. pp.) OS – Os sertões: Campanha de Canudos (edição crítica de Leopoldo Bernucci. SIGLAS UTILIZADAS PARA AS OBRAS DE REFERÊNCIA CC – Caderneta de Campo (introdução. 1997. São Paulo: Edusp. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar. 1995. Frei João Evangelista de Monte Marciano ao Arcebispado da Bahia sobre Antonio Conselheiro e seu sequito no arraial dos Canudos. volumes I e II indicados na sequência da sigla quando citado um ou outro (organizadas por Afrânio Coutinho.) DE – Diário de uma expedição (organização de Walnice Nogueira Galvão. incluindo-se também o manuscrito inédito 93 (organização Leopoldo Bernucci e Francisco Foot Hardman. São Paulo: Edusp. 1966. 1895) . reproduzido em BERNUCCI. notas e comentários de Olímpio de Souza Andrade. (Bahia: Typographia do ‘Correio de Notícias’. São Paulo: UNESP. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional.

.................................. 58 1. 225 5 DUAS LINHAS QUE LEVAM O MUNDO CONSIGO ...... 113 3 THE MIND’S EYES .... O DILEMA POLÍTICO EM OS SERTÕES ...................................... 174 4...1 “Plantas sociais” e “Lagoas mortas” ........................................................................... 236 5............................... 50 1.........5 Descrição e determinismo: os dois lados da observação .......................................................... 121 3........................... “terra da promissão”: Canudos ....................................... 97 2....................................... 262 REFERÊNCIAS ............................................................1... 193 4....4 A espantosa paciência da teoria ......... 56 1................. 236 5.......... 74 2..................................................................................................................................... 160 4 BESTIÁRIO ................................................................................ 66 2.3 “Crenças ambientes”................................................................1..............................3 Sociologia e análise de discurso .........................2 “Centauros broncos” ...........................1 “As loucuras e os crimes da nacionalidade” ......1 O narrador sincero e a psicografia ..........................................................................................................................................................................1 Geologia e psicologia no ensaio de metáforas ....................................................... 122 3....... 25 1.........1..................................................................................1 “A lei do cão” .....................................................................................................................2 Pensamento social brasileiro: pergunta de teoria ......................................................................1 A simpatia pelo dúbio ............................. 35 1.......... 74 2......................................................2 O pathos da psique .....................................................................2 “E Canudos era a Vendéia” ....3 Sociedade de pedras ................... 139 3.....................................2 “Daniel vai penetrar na furna dos leões” ..............3 História natural como história das instituições .......... SUMÁRIO INTRODUÇÃO ......... 150 3.......................... 243 CONCLUSÃO: Vendetta ................................ 15 1 UMA ENTRADA PARA OS SERTÕES ......................... 266 ..... 209 4....................

vertraut [doméstico. 249. apareceram para mim em torno dessa pesquisa acerca da “cultura do importado”. da expressão do “estranho nacional”. aos processos de estranhamento. a partir dos debates em torno da circulação de produtos importados. algumas coisas novas são assustadoras. Aos poucos. 15 INTRODUÇÃO Esta pesquisa de doutorado começou com o interesse em estudar a relação entre o pensamento social brasileiro e a aparência de um referente “estranho” no interior da sociedade brasileira. mais amplamente. pensar a relação do outro com a comunidade tal qual formulada originalmente por Simmel (2005). Alguns problemas. no entanto. acerca do que seria familiar no estrangeiro. familiar]. O inquietante aqui funciona como uma ideia a partir da qual pude reunir uma série de questões a respeito da alteridade no pensamento social brasileiro. grifo do autor) Ao longo do ensaio de Freud. Durante um bom período da pesquisa pensei estar no referente estrangeiro – isto é. no importado – a expressão sociológica para o estudo da alteridade. Fui selecionando as 1 A referência aqui remete ao texto freudiano de 1919. no internacional. a fim de torná-lo inquietante. ainda pouco precisa. no Brasil. parecia surgir uma noção. p. na busca por intérpretes que me permitissem rastrear os temas da alteridade e do estranhamento na reflexão brasileira. “O inquietante” (Das Unheimliche). Na tese. que na época do exame de qualificação de doutorado eu pensava ter encontrado no produto comercial importado. Algo tem de ser acrescentado ao novo e não familiar. heimisch. . que não se remetiam diretamente ao estrangeiro em si mas. para um estudo criterioso dos clássicos do pensamento social brasileiro. da referência ao Outro. porém.” (FREUD. neste registro. certamente não todas. a relação não é reversível. Atendo-me a Freud: “A palavra alemã unheimlich é evidentemente o oposto de heimlich. de alteridade e de alheamento vivenciados na sociedade brasileira. como um “estranho nacional”. Claro que não é assustador tudo o que é novo e não familiar. não me ative ao método da psicanálise para a interpretação dos problemas colocados em Os sertões. Passei a me voltar. na leitura dos clássicos das ciências sociais no Brasil. um possível problema sociológico do que seria pensar um “estranho nacional”. como a noção do inquietante freudiano 1. A partir da temática do “estranho nacional” fui percebendo que seria mais interessante observar os processos históricos – bem como os conceitos que descrevem esses processos – a partir de dinâmicas mais contingenciais. A perspectiva que me inclino sobre a teoria do inquietante freudiana toma forma a partir de uma disposição ambígua dos significados do termo. em certa medida. embora inspirado pela literatura freudiana. sendo natural concluir que algo é assustador justamente por não ser conhecido e familiar. isto é. Minha ideia inicial era a de que poderia estar no enfrentamento com o estrangeiro. interpretado como uma certa expressão sociológica do elemento estrangeiro em solo nacional. 2010. porém que me interessava colocar em perspectiva. autóctone. Pode-se apenas dizer que algo novo torna-se facilmente assustador e inquietante. foi preciso abrir mão dela para poder observar em perspectiva singular a construção do argumento de Euclides da Cunha.

tem de haver um grupo. O vínculo com a repressão também nos esclarece agora a definição de Schelling. diversas circunstâncias e emoções são examinadas à luz do inquietante – como o medo de ser vítima de mau- olhado. o nacional. o temor que se sente por demônios e lugares mal assombrados. Comecei um exame longo e tanto quanto possível abrangente estudo dos “intérpretes do Brasil” motivado por esta chave. eu apenas citei uma ou duas vezes de passagem. a qual o Eu insiste em enfrentar simbolicamente como uma realidade exterior a ele. em como era pensada? A partir de quais categorias ela era vinculada? Quais eram os seus efeitos no discurso e nos intérpretes dos intérpretes? De bibliografia os intérpretes nacionais se tornaram o meu objeto de estudo que assim me permitiriam abordar os processos de estranhamento de Outros nacionais. Alguns deles. mas apareceu. Arthur Ramos. pelo menos. pois esse unheimlich não é realmente algo novo ou alheio. o que posiciona o inquietante no cerne de uma teoria da ambiguidade: a sua duplicidade está em dar a ver que o reprimido retorna para o sujeito sob a aparência do que é diferente. p. para Freud. da alteridade. familiares. inconsciente. o unheimlich [. na ocasião. o conteúdo repugnante do Eu sob a forma de uma duplicação. 268-269. estranho. que apenas mediante o processo da repressão alheou-se dela. entre outros. assinalando a ambiguidade de sentidos: ao mesmo tempo oculto. Uma das primeiras impressões que mais me atraia era a de que durante o final do século XIX e. não importando sua espécie. mereceriam um estudo à parte que dado os limites que se impuseram sobre a tese. inclusive. Apenas para citar um dos mais conhecidos dentre esses: Oliveira Vianna. o sujeito comum. Tal espécie de coisas angustiante seria justamente o inquietante. em que se pode mostrar que o elemento angustiante é algo reprimido que retorna. dos mortos e da castração –.. A repressão coloca no mundo o constante retorno do mesmo. entre os casos angustiantes. por exemplo. O diferente. os tipos nacionais possuía um certo verniz psicológico. segundo a qual o inquietante é algo que deveria permanecer oculto. se tal for realmente a natureza secreta do inquietante. grifo do autor) Freud elabora o conceito. Primeiro. até a metade do século XX..]. Meu foco estava em observar essa relação com a alteridade. o povo. assumia a sua produção de psicologia social orientada para a identificação dos diversos tipos sociais brasileiros em sua correspondência com a formação de um cultura política nacional. Nestor Duarte.] conteriam a essência desta pequena investigação [acerca do inquietante]. o inquietante é também conhecido. Oliveira Vianna. o medo da morte.. e nisso não deve importar se originalmente era ele próprio angustiante ou carregado de outro afeto. a composição mais recorrente para se expressar o social. se a teoria psicanalítica está correta ao dizer que todo afeto de um impulso emocional. permanecendo longe dos olhos. São inúmeros os autores que recorreram a esse tipo de enquadramento. Sérgio Buarque de Holanda. Segundo. e a sua sugestão de contornar o meu tema junto ao campo da cultura e da sociologia dos intelectuais. Manoel Bomfim. na medida em que a repressão movida pelo sujeito se desloca sobre o outro trazendo-o para perto. fui atrás dos possíveis intérpretes do inquietante ou do “estranho” no Brasil. Joaquim Nabuco. se apresentam conhecidos. como Nina Rodrigues. familiar. Osório César. 2010. em sua aparência na literatura moderna. “duas observações [. 16 falas da alteridade dos clássicos nacionais que seriam mais interessantes e provocativas para se estudar o inquietante no repertório do pensamento social brasileiro.” (FREUD. ele todavia é subtraído do convívio fazendo-se estranho. compreendemos que o uso da linguagem faça heimlich converter-se no seu oposto.. Nesse sentido. mas algo há muito familiar à psique. é transformado em angústia pela repressão. Após uma conversa com o meu orientador. . Farias Brito. o novo.

Com todos esses nomes. distinta sobre o entendimento da noção de metáfora. um degenerado. Os sertões. Ronald de Carvalho e o próprio iconoclasta Oswald de Andrade. concluía ele em seu romance. a qual. A análise do discurso. as descrições da psicologia especial das sub-raças mestiças e das situações nervosas do conflito de Canudos (o autor referia-se a Conselheiro como um paranóico. Para situar um pouco este alemão relativamente desconhecido da academia brasileira. Para empreender esta análise do discurso fiz-me valer. Mário de Andrade. da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann e da teoria da metáfora de Hans Blumenberg. bem como a história dos conceitos e a sociologia dos intelectuais foram disciplinas importantes nesta incursão sobre o texto de Euclides. a leitura de Blumenberg me trouxe uma concepção nova. como o próprio Euclides afirmava. No impasse dos caminhos. agora. afirmava o seu interesse em pesquisar a “entidade psíquica permanente do brasileiro”. no prefácio da segunda edição de Macunaíma (prefácio. ainda que sob um certo aspecto. mas também da cultura literária. aplicando sobre este ensaio o sentido antropofágico de “totemizar o tabu”. o meu campo de pesquisa intelectual sobre a alteridade em sua apreensão psicológica era amplo e reduzidas as minhas condições de análise e conclusão. 17 Mas não somente no campo da reflexão sobre o Estado. gostaria de me deter um pouco. aliás. Manuel Bandeira. Ao lado de Mário quanto ao juízo psiquista poderia mencionar outros modernistas. o que melhor introduziu o tema da “tradução” entre o meio e o homem aliando-se a uma temática da psique. era ausente. não publicado em vida pelo autor). Na descrição do meio físico. o psicológico vinha se instalar como enunciado no pensamento nacional. vale a nota de que Blumenberg ficou encarregado de escrever o verbete “metáfora” para o dicionário de história . Em seu texto. sendo mesmo a sua presença entendida como um frêmito de nevrose no sertão) são profusas naquela sua obra clássica publicada em 1902. cuja síntese tão concisa de um texto de Freud atiça até hoje a nossa reflexão – ele se refere à antropofagia como uma ideia possível de ser subtraída do ensaio mais antropológico de Freud. dos intérpretes. no narrador sincero do historiador francês Hippolyte Taine – fazia com que o psíquico no seu texto deslizasse do campo da ciência para o campo das metáforas. o autor lança mão de uma série de arranjos expressivos acerca da psique. optei por um de origem: o livro de estreia de Euclides da Cunha. Referência que me chegou quando a pesquisa já estava adiantada. cujo efeito no discurso parece ser tão impactante quanto definidor sobre a psicologia envolvida naquele conflito. A sua vontade de indicar a significação precisa sobre aquele ambiente pouco conhecido dos sertões – inspirado. Euclides foi. um louco. como Graça Aranha. para explicar como eu encontrei uma via possível de análise do conceito de psique no exame do seu livro Os sertões. E nesse deslize. Totem e Tabu.

publicado em 1997. Com esse ponto em mente. Também em outros textos de Luiz Costa Lima fui compreendendo com mais clareza uma certa proposta de análise de discurso. uma investigação erudita e minuciosa que considera a metáfora sob o ponto de vista de uma filosofia do conhecimento (filosofia. políticos e filosóficos. como um sistema de referências que não se encerra no autor de um enunciado discursivo. através das metáforas psicológicas de Os sertões. os detalhamentos psíquicos. Pensar o conceito de psique. não significou em desistência intelectual por parte de Blumenberg sobre uma ciência da metáfora. isso me empurrava para um problema interessante no livro de Euclides: as fronteiras sempre instáveis entre ciência e literatura atribuídas ao autor. os organizadores do dicionário de história dos conceitos todavia recusaram o verbete escrito por Blumenberg. paradigmas e regras de reflexão para pensar o seu discurso. estudei e tentei compreender as possibilidades que existem (e as que careceriam de expressão) na análise do texto de Euclides. A leitura de Blumenberg é complexa e a presença desse autor foi sobretudo um auxílio para a pesquisa. neste caso. isto é. uma “regra de reflexão” operante como paradigma dos discursos. Nessa direção. Esta recusa. Os sertões. as descrições mentais de Euclides. justamente. autor de livro referência para os estudos euclidianos. diversa. Blumenberg apresenta uma obra extensa. Entender a metáfora como objeto possível de ciência permite compreender que a literatura utiliza esquemas. na medida em que o discurso é uma operação social através da qual a linguagem é produzida. Ora. Os produtores de linguagens são tanto os autores em análise (por exemplo aqui. Terra Ignota: a construção de Os sertões. entretanto. inspirada sobretudo pela obra de Kant). Como um projeto mais amplo. seria abrir um novo fio de leitura junto à obra clássica de Euclides da Cunha. permitiriam entender que a psique ocupa a sua atenção do começo ao fim do seu relato. mas resultou em caminhos de pesquisa a serem pensados em torno de uma metaforologia. do ponto de vista teórico. pareciam para mim indicar uma regra de reflexão onde a psicologia era o referente privilegiado. Em particular. a partir da noção de metáfora de Blumenberg. Para empreender esta análise foi fundamental o contato com a obra de Luiz Costa Lima. indicando traços de personalidades e até mesmo um exagero lingüístico ou um certo ornamento da linguagem. no qual se propunham estudar a semântica histórica de conceitos sociais. A psique poderia ser trazida para o universo da ciência nesta leitura minha. e ainda pouco conhecida no Brasil conquanto orientada para uma metaforologia. à la Luhmann. 18 dos conceitos organizado por Reinhardt Koselleck e Joachim Ritter. pela possibilidade de compreender a metáfora como um “esquema do pensamento”. ao invés de exercício de retórica ou invenção literária. abundantemente adjetivadas. isto é. Euclides da .

mais do que um encontro ou um percurso sobre o texto. Ou. p. na medida em que expressam “uma intuição por um conceito. Amparado por esse tipo de enfoque. Em particular corria. no livro de Euclides. seriam solicitadas para definir em profundidade os problemas sociais. Tateando este campo novo e promissor para os estudos das ciências sociais. ‘a doença por excelência das ‘casas-grandes e das senzalas’” (ARAÚJO. Os exemplos não são raros e parecem mesmo ter uma certa continuidade no pensamento social brasileiro. 19 Cunha. como em carta de 23 de abril de 1896. uma reflexão sobre a operação da linguagem. o emprego bastante difundido no Brasil de juízos fisicalistas sobre a sociedade. na contingência da sua observação. a metodologia da análise do discurso me apresentava como possibilidade. Poderíamos ainda inserir as inferências que Gilberto Freyre realiza acerca da sífilis. em suas condicionantes de existência e expressão. o eu-cientista. Nesse sentido. que também deve estar em análise por constituir. p. correspondeu no Brasil a desvantagem tremenda da sifilização’. p. a reflexão em torno da sociologia com a fisiologia permite criar as adjetivações e as características psíquicas e psicopatológicas que. 2013. 105). mas sim apenas um símbolo para a reflexão” (BLUMENBERG. bem como os seus intérpretes). mas também os autores mobilizados por Euclides. As comparações entre o organismo biológico e o organismo social são derivadas de uma regra de semelhança que no caso de Euclides tomamos como uma “regra de reflexão”. Minha primeira hipótese contava com um certo acervo de leituras e intérpretes que . 2009. Euclides dizia ao amigo João Luís: “Referindo-me ao mau estado das coisas da nossa terra se alguma mágoa me assalta é a mesma de fisiologista qualquer examinando a marcha da sífilis num organismo estragado” (CUNHA. possibilita “uma analogia de acordo com a qual o termo não contém o esquema apropriado para o conceito. foi se consolidando a minha opção diante do intricado e monumental livro de Euclides no sentido de enveredá-lo por uma análise de discurso. 94). segundo terminologia de Luhmann. entender as descrições sociais. do ponto de vista de Os sertões. definindo-a como um corpo biológico. não pode servir de exemplo. nesta tradução. uma referência do discurso. quanto o analista do sistema. intuição que. parecia ser uma perspectiva interessante para se pensar a metáfora psiquista presente extensamente no seu livro. isto é. enquanto tal. nas posições tomadas pelas suas referências no interior de um livro- sistema. “assinalando por exemplo que. mas torna possível ‘empregar a mera regra de reflexão’”. no contexto em Euclides escrevia. ‘à vantagem da miscigenação. 202). Isto. isto é. 1997. no caso o observador. como se evidencia na noção de “parasitismo social” em A América Latina: Males de Origem (1903) de Manoel Bomfim e no juízo do “organismo depauperado” em Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado.

e talvez ainda não completamente delimitada por Euclides. reflexo que deve ser capturado por uma narrativa da sinceridade. xique-xiques. pareceu ser mais prudente destacar o conceito de psique e coloca-lo em contingência. os limites entre o que poderia ser entendido como procedimento científico. apresentava-se para mim alguns limites e problemas do argumento de Euclides. como é o caso de Os sertões – entendido mesmo como “monumento literário”. mas já observada por críticos contemporâneos ao autor. a loucura de Conselheiro e a depressão da vegetação seca – os mandacarus. sem poder claramente distinguir os campos. se atender-se a que reúne a uma forma artística superior e original. Fui percebendo que além da literatura e da ciência que faziam margem no livro de Euclides. Este juízo embaralhava. de estilo empolado. p. mas bastante abrangente e firme. plantas que se tornavam forçosamente sociais na convivência trágica da seca. ainda assim. ante a essa confusão. que em 1903 se referia ao livro de Euclides como “único. umbuzeiros. para descrever as patologias de uma sociedade. publicado em 2001). 56). ideias implícitas de Euclides que me abriam como um horizonte possível de . pareciam ter sido pouco explorados os limites do argumento psiquista no livro de Euclides. como Araripe Júnior. Embora aqui e ali. quando publicou o seu livro em 1902. um gênio trágico como muito dificilmente se nos deparará em outro psicologista nacional” (ARARIPE JÚNIOR. mais do que esclarecia. no qual onde não raro se pressupunha a identidade como reflexo da psicologia. uma elevação histórico-filosófica impressionante e um talento épico-dramático. de psicologia. não obstante confusa e quase indefinida. isto é. Esta referência psiquista era mesmo confusa. parecia persistir a metafórica psiquista como linguagem importante para a montagem do cenário de guerra de Os sertões. também se posicionava fronteiriça uma concepção. na expressão da antropóloga Regina Abreu (1998) – todavia. a psicologia como recurso para falar de uma consciência. Exceção feita ao artigo de Dain Borges (2005) que se refere ao ensaio de Euclides da Cunha como um autêntico texto de “psicologia social”. 2003. artifício literário e assunto de opinião no livro- sistema de Euclides. a fim de proceder por uma análise da sua funcionalização no sistema do discurso de Os sertões. iluminando neste texto um aspecto que parecia se esconder na sua consagração: nas descrições empreendidas pelo autor em seu livro. 20 me oferecia um texto reconhecidamente balizado por sua crítica. no seu gênero. Com esta impressão. Ciência e Arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais. mobilizando como apoio o repertório teórico das ciências naturais de fins do século XIX (como é exemplar o interessante trabalho de José Carlos Barreto de Santana. De modo que. ambiente criativo e violento originado pelo cataclismo – ainda que essas referências já tivessem sido analisadas por outros intérpretes de Euclides.

de outra maneira agora. conexões com aquele tema primeiro da pesquisa. parecia aparecer para mim. Um estrangeiro. Na descrição entre as duas populações envolvidas no conflito – de um lado. do “estranho nacional”. À medida que eu ia acompanhando o texto de Euclides. o conflito era . mais do que possibilitava. na própria pátria. Essa percepção existe como um horizonte possível de abordagem daquele texto. tornou- se variante de “princípio dominante que o sugeriu” (palavras de Euclides. porém. descrever e explicar o princípio dominante do qual a guerra de Canudos é variante. de fato. unia todas aquelas revoltas? Como o autor justificava a existência desse princípio na sociedade brasileira? Seu livro. 21 análise a metáfora de psique. ambas teriam em comum o fato de serem “etnologicamente indefinidas”. a convivência dos dois indefinidos semelhantes. pensando o seu texto como uma espécie de psicografia. na medida em que devia a sua existência à ignorância praticada em sociedade. na “Nota preliminar” do livro). nacional: o homem sertanejo. Contudo. um completo estranho da sociedade. para Euclides. a princípio o seu tema de estudo geral. pois aquele estrangeiro estava inserido agora em um referente familiar. as suas hipóteses sociais e políticas. fui suspeitando no livro de Euclides que. com o qual eu havia me qualificado no doutorado acerca do estrangeiro. qual o princípio que. podemos atribuir ao conceito de psique. Desse modo. logo se tornando claro para o nosso autor que o conflito de Canudos. Uma hipótese sobre esse princípio diz respeito às diversas revoltas que se seguiram à queda da Monarquia e à proclamação da República no final do século XIX. os primeiros qualificados sob uma “deplorável situação mental” ignorados no interior do país e os segundos como “mercenários inconscientes” desterrados no litoral do Brasil – o autor trazia para o plano do detalhamento psíquico as semelhanças e dessemelhanças entre esses dois grupos estranhos que. apresentavam-se acima de tudo familiares. um determinante e um efeito da sua existência no discurso social. simultaneamente. Vale ainda situar que. não obstante as aparentes diferenças entre as populações do litoral e as que viviam no interior do Brasil. foi escrito para dar conta. Essa indefinição dificultava. anotando sob a ótica da psique as suas descrições. um retrógado. o seu sistema de argumentação. do ponto de vista da existência humana e nacional. ela era criada pelo princípio da violência que caracterizou o conflito de Canudos. como não se cansou de dizer Euclides. pois também na impossibilidade da aparência da mente como um objeto definido no mundo. Revoltas onde Canudos seria um dos exemplos. novamente. os “rudes patrícios” e de outro os “singularíssimos civilizados”. surpreendentemente. como irmãos mestiços. A alteridade do sertanejo para Euclides expressava um prejuízo. Os sertões. entendido no contexto de Euclides como um bárbaro.

o “arraial maldito” passaria a ser pensado a partir do fenômeno que o abarcou. reunia-se ali uma reflexão que parece. onde ele pôde recolher material e impressões sobre tipos sociais daquela região. Essa noção trazia para o livro de Euclides uma hipótese política e social acerca da violência e da alteridade no Brasil que era inovadora. considerado bárbaro pelos “singularíssimos civilizados”. em 3 de outubro daquele mesmo ano de 1897. definindo o Outro como um absoluto estranho. sobre a campanha militar. Euclides apreendeu o aspecto provavelmente mais fundamental que envolvia Canudos. da geografia e das condições de habitação do povoado. ignorado e sem história. em certo sentido. em 30 de agosto de 1897. ou para os clássicos do pensamento social brasileiro. portanto. Se o tema era Canudos. do que a covardia das forças da República que o arrasou. como uma alteridade sem relação social. Quero dizer. percebe- se que Euclides atribui o sentido da história como o caminho evolutivo da humanidade para a civilização. parece existir a noção de que o homem sertanejo. ele ainda trazia. Neste sentido. Criando um paralelo. o não reconhecimento do Outro na sua alteridade. permanecendo no arraial baiano por cerca de três semanas. “uma febre maldita” em seu corpo. Particularmente essa definição de violência – como um fenômeno da psique e da relação social – ressalta um ponto interessante no texto de Euclides. quando temos atualmente diante de nós uma série de demônios sociais sendo criados e identificados. Mas. O fenômeno da violência no conflito sertanejo foi de tal ordem vivenciado por Euclides que quando deixando Canudos. Pensando com Euclides. Esse sentido patológico. a violência como forma de solução social. como mesmo dizia. lendas e mitos da sua população. e talvez permaneça ainda para nós. Sob o tom febril. Euclides se voltou contra essa percepção no Brasil e escreveu o seu livro para vingar a memória daqueles sertanejos que morreram sem sequer entrarem para o interior da civilização. como um problema sem solução. o princípio que Euclides vislumbrava em sua expedição era a instabilidade das instituições nacionais. ser relevante até hoje: a violência contra o Outro pode ser ainda maior quando a inconsciência – isto é. pelo Estado. doente. pode ter sido mesmo emblemático para a seleção de uma chave a partir da qual o relato da campanha iria ser feito pelo autor. como sintoma da violência que o exterminou. junto aos setores subalternos e fragilizados . como uma patologia da civilização. em saber olhá-lo sob a sua distância – toma o discurso oficial e se partidariza. sobretudo. menos sensível do que propriamente político. não era menos retrógado do que a sociedade violenta das cidades que lhe fazia oposição. de violência generalizada que se praticava de ambos os lados do conflito. em certo sentido. 22 o motivo pelo qual Euclides partiu para o interior da Bahia.

podem ser entendidos a partir de um horizonte da violência contra a alteridade – ou da inconsciência da fraternidade dos Outros nacionais – na medida em que se observa que os crimes nacionais partem de uma situação de violência interna da própria sociedade. torná-lo vivo na sociedade. Conflito de mentalidades que no caso de Canudos foi resolvido à bala. os mendigos. no sentido mais profundo dessa expressão. também. as populações marginais dos centros urbanos. enfrentei com uma “referência” clássica. como o de Canudos. É possível que Euclides tenha se tornado um clássico porque. os movimentos populares. O reconhecimento das condições de existência e das vicissitudes históricas dos “rudes patrícios” do interior trazia como contra-referente a “civilização de empréstimo” dos “singularíssimos civilizados” do litoral. embora não partindo de problemas do contexto político imediato e presente. os partidos de esquerda. de modo que no problema social. de não-reconhecimento daquele bárbaro sertanejo. força policial que é comandada politicamente – amparadas pela referência da ordem. O ataque a Canudos correspondeu a um tipo de demonização imposta sobre o Outro. ou mesmo. do bem-estar e da preservação social. vingar esse demônio. isto é. a “deplorável situação mental” de um lado tinha como resposta a condição de “mercenários inconscientes” por outro lado. os dependentes químicos. além dos sertanejos. como temos visto recentemente sendo denominados por expressões que parecem nos remeter ao contexto no qual Euclides escreve. ainda hoje. existencial e inquietante para nós. A invenção do demônio. como também. tentando eliminar justamente o que não se pode eliminar. mesmo que narrando a suposta barbaridade que os definia. a tragédia da seca que antecedia a tragédia da civilização. neste complexo e delicado conjunto social. os camponeses. da segurança. parecia ser antes de tudo um fenômeno complexo que tinha suas raízes históricas e sociais. Sob este registro na tese. considerando essas raízes. já foram ou ainda são os comunistas. das revoltas populares entendidas como grupos de “vândalos” e atos de “vandalismo”. nas . parece que na realidade consagramos novamente o princípio do qual o livro de Euclides se ocupa: as forças policiais que repreendem e abatem – cabe lembrar. o “misticismo extravagante” dos sertões aparecia confrontado com o preconceito de “fantasias psíquico- geométricas” da ciência antropométrica da civilização. familiar. Podemos pensar que o problema ao qual Euclides nos traz. os indígenas. isto é. no caso do Brasil. as minorias sexuais. clássico é o histórico das agressões humanas no Brasil e no mundo. da criação de um “estranhamento nacional” sobre quem todavia nos seria. da besta-fera. Euclides tentou. com Os sertões. angustiante. os loucos. a hipótese social euclidiana de que os crimes nacionais. os miseráveis. por meio do seu ensaio. 23 da nossa sociedade – demônios que. não é apenas clássico. o conflito do Outro na sociedade. antes de tudo. irmão.

a referência psíquica distribuía opostos da batalha e indicava que a ignorância era resolvida militarmente. estreitou a minha relação não apenas com o pensamento social e político brasileiro – e com a teoria política produzida por esse pensamento –. mas também a partir de questionamentos que lhe seriam. Quando ingressei no IUPERJ para conduzir o meu mestrado em Ciência Política. Para encerrar esta curta introdução ao texto que se segue. . tive como tema o debate que vinculava uma hipótese moral – a noção de saudade – junto a uma reflexão teórica sobre a política no Brasil. a princípio. me deu oportunidade de conviver com um grupo de professores que tem com este tema uma seara fértil de reflexões. Neste curso. 24 descrições de Os sertões. mesmo estranhos ao universo institucional da política. A principal experiência que pude extrair desse contato foi a percepção de que um modo distinto de pensar as ciências sociais poderia ser aprendido e cogitado como campo de trabalho dali para frente. Este curso. eu era então um recém-graduado em História e fui recebido sob um clima estimulante e efervescente de ideias vinculadas ao pensamento social e à cultura brasileiras. gostaria de pontuar um fator fundamental para a minha entrada no campo do pensamento social e da sociologia dos intelectuais. experimentei o impacto de pensar o fenômeno do político não somente como sobre-determinado pela existência das instituições (partidos. Estado. feito com o professor Eisenberg. Me lembro que no meu primeiro curso no IUPERJ a este respeito. bem como outros que freqüentei ao longo da minha pós-graduação em Ciência Política. porém. governo etc). Trabalho que com esta tese escolhi me aventurar.

. da educação e das políticas públicas. a fim de poder extrair da sua leitura minuciosa as referências que. validada no seu emprego pelos estudos de psicologia social. 25 1. de Oliveira Vianna. Walnice Nogueira Galvão (1985). a fim de estabilizar dúvidas. organizada por Leopoldo Bernucci (2001). na análise do livro de Euclides. Terreno ainda por conhecer um lugar nos estudos do pensamento social brasileiro. veiculando e difundindo representações sociais em que o sujeito passa a ser visto. compreendido e tratado como um ente psicologizado e psicologizável. social e da cultura do Brasil. seria fundamental para o pensamento social brasileiro.] a partir de fins do século XIX. pelo menos em parte. UMA ENTRADA PARA OS SERTÕES Objeto do nosso estudo. da psicanálise à psicotécnica. 2 Nosso objetivo neste estudo não será o de dar conta de toda a fortuna crítica ou mesmo de restaurar os argumentos euclidianos tal como a intenção do autor os teria formulado lá. recebeu ao longo desses mais de cem anos a atenção de uma rica fortuna crítica sobre a obra. pelos debates sobre o caráter nacional do modernismo de 1920 e das recentes revisões em torno das dimensões cultural e discursiva da identidade nacional. Os sertões. publicada pela Companhia Editorial José Aguilar. os saberes psi adentraram paulatinamente a sociedade brasileira pelas vias da ciência. publicada pela Ática. porém. nas nossas análises. de modo a reverter. Categoria que seria. da religião. Quando se fez necessário. Nossa opção se deteve. Da psiquiatria à psicanálise. foi a mais recente. situando de que maneira o argumento psiquista foi sendo formulado neste livro de modo a criar uma categoria que. de Euclides da Cunha. publicada pela companhia Ateliê Editorial. p. Ainda foi de imensa valia a leitura do fac- símile de Os sertões reproduzido por Leopoldo Bernucci (1995. tal qual tema recobrado pelos estudos culturais a partir da década de 1980.. em momento posterior. com efeito. 118-321) a partir do manuscrito original conservado na Biblioteca Nacional. consultamos as outras duas edições críticas mais citadas pelos estudiosos do autor: a preparada por Afrânio Coutinho para a coleção das Obras Completas de Euclides da Cunha (1966). seriam mobilizadas pelo pensamento social brasileiro em torno de uma psicologia coletiva ou psicologia social no país. o seu autor e uma comunidade de intérpretes que estão no seu conjunto relacionados. Jane Russo e Ana Teresa Venâncio ocupa-se exatamente dessa hipótese. como também a edição crítica organizada pela reconhecida pesquisadora euclidiana. um novo olhar se constrói e lança as bases da constituição não 2 A edição de Os sertões que utilizamos. a história dos discursos psicológicos parece se cruzar ali. Como afirmam os autores na “Apresentação” do livro: [. em 1902. em mais de um ponto. a desatenção sobre este campo de investigação nos estudos da história intelectual brasileira. . posteriormente. mas sim o de fazer uma análise do discurso de Os sertões. da psicopedagogia à psiquiatria forense. com a história política. publicado em 1902. O livro organizado por Luiz Fernando Duarte.

Com ela. o Hospício Pedro II criado por decreto em 18 de julho de 1841. instituições. por conseguinte. no examinar as formações discursivas psi junto ao mundo dos atores e. neste momento. estamos atrás da ambigüidade semântica do conceito de psique e em como essa ambigüidade aparece na reflexão social euclidiana. data de ascensão do Imperador mirim ao trono. estão intimamente relacionados a importantes debates trazidos pela República junto aos campos médico e mental. orientando-se por valores laicos e republicanos sob a direção de Teixeira . pelo ato de 11 de janeiro de 1890. as opções de terapias e propedêuticas. a história dos conceitos como disciplina a auxiliar no entendimento das narrativas históricas do campo de formação discursiva e temporal das subjetividades e de institucionalização de um saber psi no Brasil. 26 apenas de novos campos de saber. buscamos o “campo de experiências” e o “horizonte de expectativas” que tematiza o psíquico no sistema de referências da ciência social euclidiana. ocorre a desvinculação do hospício da alçada da Santa Casa de Misericórdia. em particular. passam a fazer parte do cenário em que vivemos e levam para dentro da vida de cada um de nós a interrogação sobre si e a preocupação com os fundamentos íntimos do comportamento tanto próprio quanto alheio. 14. das instituições sociais. na Praia Vermelha no Rio de Janeiro. como também da demanda por novas ocupações e especialidades. 2005. Estas pouco a pouco se naturalizam. saberes e. podemos pensar a imersão de Euclides da Cunha em uma comunidade de intérpretes dedicada ao pensamento da psicologia no Brasil naquele final de século. Apoiados na história dos conceitos (Begriffsgeschichte) de Reinhardt Koselleck. A partir desse universo aberto. vinculado às orientações médicas da Santa Casa de Misericórdia. tornando-se cada vez mais dependentes da interiorização e das profissões e instituições que têm em comum o fato de serem qualificadas pelo prefixo “psi”. entretanto. foi inaugurado em dezembro de 1852. as categorias e os pressupostos da psicologia brasileira em sua história. atores. é que logo após a Proclamação da República. É em direção a algumas dessas problemáticas mais gerais. concentram-se os artigos da coletânea. detalhamos a mobilização do argumento psíquico na descrição do ambiente sertanejo empreendida por Euclides. grifo do autor) Selecionamos. (DUARTE ET AL. que a coletânea de artigos publicados no livro Psicologização no Brasil acolhe o amplo universo de formação do saber psicológico no Brasil. tais como o hospital psiquiátrico. e sitiado em paisagem não menos imponente que o seu prédio. isto é. O emblemático. Emblemático dessa relação entre psicologia e política. junto à perspectiva aberta pelos autores da coletânea. passando a se chamar não mais Pedro II mas Hospício Nacional de Alienados. Como analisam os autores da coletânea. isto é. nos limites e nas modalidades que esta conceituação em torno do psíquico parecia-lhe validar a descrição do conflito sertanejo no começo da República. Em particular. também. p. com acerto.

porém se relacionava a tema religioso e ao comportamento maníaco. situada nesse grande quadro. alguns dias após o seu regresso de Canudos. Euclides da Cunha tornou-se nosso observador privilegiado para este “ilusão ilustrada”. ainda. p. Valores políticos da civilização que. o qual Euclides apresentava interesse em ler. tenuamente definida de acordo com a maior ou menor relação de um saber com a observação empírica e numérica” (ALBERTI. ao longo do nosso texto. TEIXEIRA. O método indutivo e sua proximidade com as ciências da natureza – em . Chama a atenção também as suas cartas do mesmo período endereçadas ao amigo Porchat. Um primeiro elemento que chama a nossa atenção. nesse caso. p. Essa demanda coincide precisamente com o período inicial em que o nosso autor havia dado início à redação de Os sertões. um conhecido do médico psiquiatra Franco da Rocha “que tem um livro sobre mania religiosa” (CEC. o que suscita mais interesse em saber das razões de leitura de Euclides direcionadas para o universo psi. assumindo posição em relação à vitória da República no conflito de Canudos. diz respeito ao fato de que. como pelo realismo que as verdades psicológicas poderiam surpreender em sua análise descritiva do conflito e o seu ambiente. de modo a estreitar as aproximações entre Euclides da Cunha e os temas psíquicos. 2003. A psicologia. 110). embora engenheiro. p. Nesta carta. suprimem antigas relações religiosas em nome da suposta atenção laica ao povo e do progresso obtido pela ciência e pela educação. Com efeito. Euclides parece na realidade investir em uma reflexão atenciosa sobre os temas psíquicos. p. 27 Brandão (RUSSO. que a antropometria e a frenologia “abrem caminho para o médico. a relação entre Euclides e os médicos psiquiatras era intensa embora difusa. por ora. este período inicial da República traz para contexto “uma época na qual a cientificidade era cada vez mais importante. Vale a nota também de que. 10. Ou como assinalou André Botelho sobre este período. 39-63). sempre marcadas pelas notícias de febres e doenças. p. 1997. outras referências serão apresentadas. No exame desse contexto. quando solicita por meio do amigo Mesquita. 38-48). Euclides não apenas se desculpa ao amigo por “ter partido daí sem ter procurado ver- te”. parecia atrair a sua atenção tanto pelo seu arcabouço científico. como verificamos em carta de 19 de dezembro de 1897. como a enviada a 27 de outubro de 1897. Sou caipora! Não assisti às festas feitas aos teus valentes patrícios” (CEC. p. De qual livro se tratava aquele pedido nós não conseguimos saber. 2002. ainda tenho restos da maldita febre. pelo que se justifica: “[s]aí doente – e ainda estou. 111). Como nos informa Sônia Alberti (2003) na bem documentada monografia intelectual sobre o psiquismo no XIX. 68). 2005. o Hospital estava inserido em projeto de civilização orientado por uma elite cujos valores refletiam uma “ilusão ilustrada” (BOTELHO. à época. Alberti nos informa.

2003.] para fazer da medicina uma ciência empírica. caráter. ‘a doença por excelência das ‘casas-grandes e das senzalas’” (FREYRE apud ARAÚJO. esta “coincidência”. organizando a psiquiatria e a psicopatologia. como em carta de 23 de abril de 1896. entre as práticas de mensuração e a fisiologia. Como registra a autora. de medida do arco reflexo e do tempo fisiológico (mais tarde ‘tempo de reação’)”. correspondeu no Brasil a desvantagem tremenda da sifilização’.). Ou. p. mas sim apenas um símbolo para a reflexão” (BLUMENBERG. Poderíamos ainda inserir as inferências que Gilberto Freyre realiza acerca da sífilis. memória. bastante difundido. a fisiologia. motilidade. Adiante veremos como Euclides parece mobilizar.. alguns desses conceitos para descrever o ambiente sertanejo e a sua “psicologia de luta”. definindo-a como um corpo biológico. e parecem mesmo ter uma certa continuidade no pensamento social brasileiro. “assinalando por exemplo que. metrificável. p. Ainda. 28 particular. com as suas pesquisas de laboratório. 2013. a sua reflexão em torno da fisiologia permite criar as adjetivações e as características psíquicas e psicopatológicas que. ‘à vantagem da miscigenação. mas torna possível ‘empregar a mera regra de reflexão’”. é desse mesmo período o emprego no Brasil. possibilita “uma analogia de acordo com a qual o termo não contém o esquema apropriado para o conceito. p. como o cronógrafo. enquanto tal. expressões recorrentes solicitadas por Euclides. permitiria para o estudo da psicologia “aparelhos cada vez mais sofisticados. no livro de Euclides. p. sensibilidade. seriam . Euclides dizia ao amigo João Luís: “[r]eferindo-me ao mau estado das coisas da nossa terra se alguma mágoa me assalta é a mesma de fisiologista qualquer examinando a marcha da sífilis num organismo estragado” (CEC. comportamento etc (ibidem.. 2009. o cronoscópio.. cujo método e lógica compartilhadas com as ciências naturais asseguravam um “grande instrumento [. 94). 105).. intuição que. não pode servir de exemplo. 69). p. e se ligando aos seus conceitos iniciais: personalidade. de juízos fisicalistas sobre a sociedade. o sistema anátomo-fisiológico é paulatinamente transportado para outras áreas médicas. Nesse sentido. no caso de Euclides. o fonoautógrafo”. justamente. As comparações entre o organismo biológico e o organismo social parecem assinalar uma regra de semelhança que. prossegue na sua explicação Alberti. Os exemplos não são raros. enfim positiva” (ALBERTI. 202). [. tomamos como uma “regra de reflexão” na medida em que expressam “uma intuição por um conceito. nesta tradução. isto é. 68 et seq.] de início frenológico. como se evidencia na noção de “parasitismo social” em A América Latina: Males de Origem (1903) de Manoel Bomfim e no juízo do “organismo depauperado” em Retrato do Brasil (1928) de Paulo Prado.

assim como engenheiros e advogados. [. pretendemos acompanhar o modo como esse conceito funcionava. conforme nos apresenta a pesquisa de Edmundo Coelho (1999). isto é. Nos elementos discursivos não há enunciado: o que é um fato se não um argumento?”4 (ibidem. p. p. 4 Texto em francês: “[.. Orientamo-nos. 56). tradução nossa). em como os “recursos às analogias do organismo vivo jogam um papel considerável às vésperas da constituição das ciências humanas” (SCHLANGER. Dans l’élément du discours il n’existe pas d’énoncé: qu’est-ce qu’un fait qui n’est pas un argument?” . p.] le discours est recherche d’un sens”. Inseridos em um campo mais amplo. 29 solicitadas para definir os problemas sociais. um poderoso fator de governabilidade. o que. Por uma análise da sua construção argumentativa em torno da psique. o primário é uma abstração. Neste sentido. 1999. não foge à regra de outros autores e contextos. Estamos em um período ainda no qual. na sociedade. como metáfora em Os sertões. “o discurso é a busca de um sentido:. as atividades práticas das profissões e a autoridade social vinculada ao profissionalismo estão implicadas no processo de tornar as complexidades da moderna vida social e econômica cognoscíveis.. tradução nossa)3. nas sociedades contemporâneas. do ponto de vista por nós pensado.. os médicos. a psique apresenta uma determinada politização semântica no livro de Euclides. Não há como fazer restrições a Johnson quando afirma que 'os governos dependem da neutralidade da perícia para tornar governáveis realidades sociais' ou quando observa que “a tecnologia dos peritos. embora fossem bastante influentes e generalizadas. praticáveis e suscetíveis de governo” (COELHO. neste particular. Escolhemos empreender uma descrição minuciosa de como essas adjetivações minuciosamente descritivas no texto de Euclides demandam que nos situemos diante de um excesso indizível. no Estado. le primaire est une abstraction. igualmente. na filosofia da história e na linguagem.. ademais. sem se desligar dessa questão mesmo atualmente. 255. as credenciais profissionais e a ampla difusão dos saberes nem sempre eram claras e precisas. nos elementos do discurso o simples significa o que não é artificial. “dans l’élément du discours signifiant le simple n’est que l’artificiel. os médicos são constantemente chamados a intervir social e terapeuticamente sobre a sociedade. isto é.] a perícia é. Neste quadro histórico 3 Texto em francês: “Les recours aux analogies de l’organisme vivant a joué un rôle considérable à l’orée de la constitution des sciences humaines”. de fato. pelo estudo de Judith Schlanger a respeito dos sentidos figurados do organismo na cultura. 256. foram instigados a atuar como peritos da sociedade – como artífices de engenharias políticas para o Estado – pois. a construção do Estado republicano passou por um importante processo de engenharia política e social ao longo do qual as fronteiras entre a perícia científica. 1971. De acordo com a hipótese de Coelho. Em realidade.

no princípio da nossa análise. recentemente. mas reconhece a si mesmo. os quais mais e mais predominam sobre os instintos pessoais – o egoísmo. mas o psiquismo é reclamado como um campo de saber científico sobre a sociedade. pela sua própria estrutura. É a ação que permite ao homem a expressão de suas disposições afetivas e intelectuais. não se confunde habitualmente com um outro. no final do século XIX. Ele é. e. situamos a cientificidade reclamada por Euclides para a sua reflexão sobre Canudos. Essa abertura era reconhecida por Comte através da disputa dos fenômenos de conhecimento apropriados aos saberes sociais em relação às ciências naturais. Não qualquer tipo de saber. deste sentimento. consequentemente. p. a importante referência de que o os modos do comportamento humano constituem um sistema aberto 5 . A harmonia psíquica. Comte respondia a esta querela das competências com a opção supostamente primordial de concretude da sociedade e dos sentimentos derivados a partir dela. se ater para os elementos que. enfrentando a condição de disputa do argumento psiquista nos trabalhos de ciências ao longo do oitocentos (ALBERTI. apresenta um caráter homogêneo e peculiar a cada ser social. Particularmente em Os sertões. 180-181). p. embora dinâmica. Entretanto. pois. ao final da sua análise. 30 amplo foi importante. sem saber dizer “eu”. Euclides se propõe a entender o ambiente sertanejo a partir das considerações do meio que formou o seu tipo social. se 5 Assim nos diz aquela autora. resulta da evolução dos sentimentos – a sociabilidade -. ao mesmo tempo. a hipótese que Euclides lança para realizar essa investigação revela que a noção de “clima é como que a tradução fisiológica de uma condição geográfica”. ensaiado por Francisco Teixeira Portugal (2007). acerca da posição de Comte em relação à psicologia na ciência do positivismo social: “A unidade do fato psicológico encontra-se ao nível da ação objetiva e subjetiva do ser social. Os psicólogos quiseram inutilmente fazer desta ideia do [eu psicológico]. o comtismo e a teoria da evolução de Darwin ensejam. regulavam o discurso psiquista como um discurso de saber. no qual se articulam e mutuamente se influenciam os fatores correspondentes aos dois pólos de uma só realidade: a personalidade e o meio físico e social. um outro atributo exclusivo da humanidade: ela é evidentemente a sequência necessária de toda vida animal propriamente dita. sobre estas últimas. ainda que eles não possam sobre ela discorrer: sem dúvida. (COMTE. Assim. 2003). Como analisado por Lucia Coelho (1982) e. 1982. de modo que. Nessa perspectiva. ou antes. é exatamente o estudo destas estruturas de comunicação que oferece uma perspectiva fértil para o progresso do conhecimento psicológico” (COELHO. no século XIX. 1982. o comportamento humano deve ser concebido como um sistema aberto. um gato ou um outro vertebrado. “definindo-o deste modo concluímos que o nosso país. Na realidade. 100) Nesse caso. A. pertence também aos animais. Cours de philosphie postive apud COELHO. Durante seu desenvolvimento pessoal. sem perder de vista o horizonte de controvérsias aonde competiam os referentes psíquicos nos discursos sociais e políticos sobre o Brasil do final daquele século. o homem toma consciência de seus impulsos instintivos e de suas necessidades sociais. . o positivismo em sua origem se colocava a favor da sociologia e da evolução das espécies para o estudo das individualidades psicológicas. um ser livre e responsável.

revelando que o brasileiro se trata. o campo do psíquico. pela própria desvalia. Este uniforme impróprio vinculado ao clima levou Euclides a buscar outras linguagens para colocar em exame a sociedade no Brasil. um estado psíquico que lhes seriam resultantes. pela mão do autor. das suas premissas originais para mostrar – evidenciar – um humor. um mal. Afinal. 153). embora não conceda ao psiquismo uma existência de fato em Os sertões. bastante eloqüentes no delatarem a segurança das ideias e das proposições aventadas” (OS. ela é derivada da hipótese de complexidade e de indefinição – de um tipo racial abstrato – que marcam o tipo antropológico dos sertões. 157. p. Dessa forma. elas se deslocam. porém. até ao Mato Grosso. Euclides alega que os “únicos deslizes apontados pela crítica [ao seu livro] são. elaborando detalhadas descrições a partir das quais ele articula o seu argumento. derivando-se ora da biologia ora da mesologia. da mesologia e da orografia recebam a atenção e o crédito de Euclides. das leis da astronomia. a mesologia e a sociologia existe. Este exemplo deve ser notado. Ou seja. originando patologia sui generis”. grifo nosso). sem dúvida. seria talvez fonte de uma politização intensa na aparência do seu conceito no contexto das ciências em geral no qual o livro de Euclides se insere. 31 impropria a um regime uniforme” (OS. Neste registro. p. p. 166. Esta exercita-se. Em realidade. estudando a nossa fisiologia própria. por exemplo. ora da sociedade ora da natureza. 783). antes. pouco mais de um ano após a primeira edição de Os sertões. deprime e exaure” (OS. na emenda publicada em 27 de abril de 1903. . grifo nosso). nas “Notas à 2a edição” (OS. mas podemos perceber que em Euclides a regra de semelhança entre a fisiologia. O calor úmido das paragens amazonenses. 783-792). Como mostraremos ao longo da tese. por que o calor úmido deprime e exaure? Quais os efeitos discursivos quando se toma essas duas categorias psíquicas como resultantes de evidências naturais? Não iremos responder imediatamente a essas perguntas. Conquanto as linguagens da ciência biológica. p. de “tipo abstrato que se procura”. Euclides não se furta das caracterizações psíquicas e psicopatológicas sobre os ambientes e os tipos sociais que observa. tipo que mesmo no caso favorável “só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo” (OS. a ação exclusiva de um clima tropical. recusando versões preconcebidas por teorias científicas da sua época. Euclides da Cunha desapropria a uniformidade e a suposta inferioridade racial brasileira. p. o fisiológico apresenta para Euclides um sistema de referências através do qual o autor parece ter se decidido mobilizar para examinar o problema social implicado no evento de Canudos. ele tampouco nos parece ser evidente em si. pois embora explícito para o autor. “Daí os erros em que incidem os que generalizam. ao que Euclides evidencia o seu argumento desta patologia singular em “toda faixa marítima do norte e em grande parte dos Estados que lhe correspondem.

poder-se-ia notar no conflito de Canudos que “os sertanejos invertiam toda a psicologia da guerra: enrijavam-nos os reveses. “o brasileiro. estadearam tão lastimáveis selvatiquezas. involuntário. 32 Analisa. se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma” (OS. 156). p. obedeci ao rigor incoercível da verdade. de ataque.. e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos. como primeiro ponto a ser explicado contra a desvalia da crítica sobre o seu livro. o nosso autor afirma ainda ter encontrado no “tipo sertanejo uma subcategoria étnica já formada liberta pelas condições históricas das exigências de uma civilização de empréstimo que lhe perturbariam a constituição definitiva” (OS. porque este livro não é um livro de defesa. isto é. p. Euclides aborda a verdade involuntária e inegável de Canudos a partir do problema da raça. Ataque franco e. o que implicava em dizer sobre aquele conflito que “atacava-se a fundo a rocha viva da nossa raça. [avaliando] as condições históricas que têm atuado. a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país. Sólido feito rocha e moldado pelos reveses. Em sua perspectiva. mesmo em caso favorável [. tipo abstrato que se procura. fato que por sua vez não foi e não é uniforme. Teoricamente ele é pardo”. nos sertões. p. 155) De onde ele conclui: “Não temos unidade de raça. a combinação de que não . empedernia-os a derrota. diferentes nos diferentes tratos do território. 766). Na apresentação do seu argumento replica à crítica que apontou incoerência na sua reflexão – isto é. vê-se bem que a realidade daquela formação [teoricamente parda] é altamente duvidosa. Nesse investir aparentemente desafiador.. Não tive o intuito de defender os sertanejos. Ademais entalhava-se o cerne de uma nacionalidade”. infelizmente. com os singularíssimos civilizados que. Era uma consagração” (OS. ao que Euclides introduz sua ressalva: [. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto. assim. p. robustecia-os a fome. que aparece logo de saída na “Nota preliminar” da edição. talvez. Ainda nessa mesma “Nota à 2a edição”. nunca. Mas devo mantê-la: mantenho-a.] só pode surgir de um entrelaçamento consideravelmente complexo. Assim. Ninguém o negará. é. senão absurda.. a expressão “mercenários inconscientes”. Não a teremos.. as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportáveis pelas raças constituintes. diante dos semibárbaros. o rigor franco e incoercível com que procedeu na escrita do livro é justificado pela verdade involuntária do evento de Canudos. 783-784) Em sua hipótese histórica e narrativa. sem contudo admitir que haveria no Brasil uma unidade de raça. não obstante a não unidade da raça. 787).. (OS. (OS.] porém. é Euclides quem nos diz: Estranhou-se a expressão. p.. devo dizê-lo. Vinha de molde a dinamite.

das neurociências. de pensar a liberdade[. na nossa pesquisa. deve sempre se dar” (BLUMENBERG. o conceito de inconsciente é uma regra de conduta. ou mesmo os limites entre o saber fisiológico. como se sabe. e. por meio de ordenações contingentes). do debate em torno da psicologia – como ciência da hipótese moderna de racionalização dos fenômenos mentais e de transcendência ou imanência do sujeito da consciência6 – em sua relação com a política.] O inconsciente é um conceito de ajuda para determinadas operações técnicas.] [n]ão há uma consciência da liberdade. Para a razão prática. um operativo cujas referências são demandadas por um observador de acordo com o efeito da sua expressão. grifo do autor). não deixamos de nos admirar de como pode ser fecunda tal formulação conceitual. a serpente não é o símbolo do falo senão que mediação metafórica” (ibidem. das ciências da cognição) a atuar em explorações mais conceituais e teóricas no pressuposto 6 Para Hans Blumenberg. psicologia. um processo. assim. grifo do autor). De modo que. de que entre a primeira afirmativa e esta última assumia-se um “salto mortal de 616 – 70 = 546 páginas”. atualmente. da física. p.. [. . sem contar o outro lado. nenhum conceito de liberdade. Se houvesse experiência da liberdade. porém não compreensíveis. indefinível. da medicina. Se se considera como esse conceito surgiu e como historicamente se transformou. mais particularmente. De modo que. um estado de coisas. diversa e extensa e há algum tempo tem recebido a atenção de um diversificado conjunto de pesquisadores de origens múltiplas (antropologia. sem que o nosso autor tenha definido a sua observação do fenômeno psíquico. filosofia. 86-87.. igualmente. Sua expressão no texto preenche-se de conteúdos e sentidos de segunda ordem.] Tomado ao pé da letra. a expressão da psique é também referência condicionada no sistema do discurso de Euclides assim como o é o seu observador-autor (LUHMANN. o falo é símbolo da fertilidade. motivo pelo qual “é natural que se encontrem coisas disparatadas” (OS.. 81-84. experiência alguma da liberdade. p. da química. mas. 2010).. sutil e irônico. [. mas que todavia haveria uma “rocha viva da nossa raça” sendo atacada no sertão – devolvendo o contra-argumento. (Algo semelhante ao que ocorre com o conceito de ‘instituição’. história. Por este dentre outros motivos. sociologia. 2013. este “é o caso do conceito de inconsciente.] Não por acaso o inconsciente ‘trabalha’ com uma linguagem codificada: por símbolos (só decodificáveis empiricamente. por metáforas (imanentemente decodificáveis: com efeito. em conseqüência. a partir da investigação em torno do psiquismo.. p. da neurolinguística. Parece de fato estar-se diante de uma palavra que não oferece qualquer ajuda para compreender-se um objeto. assim como o conceito de liberdade é absoluto. esperamos poder também acolher no pensamento social brasileiro a agenda de pesquisas da história dos conceitos e. construção alguma de liberdade e. como condição de sua própria possibilidade de ser na consciência.) Concebe-se o inconsciente de modo semelhante a como Kant concebera a liberdade. pois o valor do determinismo é a condição de possibilidade dos objetos da experiência. [. no entanto. foi necessário tratar. passim. pedagogia. nem por isso. ou seja. Ela [a liberdade] é. pelas quais podemos ser criaturas éticas. a psique como um conceito em contingência em seu discurso. Poder-se-ia dizer: aquilo que ela é. no sentido estrito do termo. sem o qual essas seriam bastante prováveis. a condição de possibilidade daquelas coisas pelas quais sabemos que há a diferença entre o bem e o mal. 787). A historiografia da psicologia moderna é. “apesar do determinismo absoluto da natureza e da ciência da natureza. não haveria mais eo ipso qualquer possibilidade de experiência. a existência da liberdade torna-se um postulado. mesológico e sociológico em relação às ciências da mente.. 33 haveria “unidade da raça”.

Petrópolis: Vozes. 1986. Mitchell. Clio-psyché: histórias da psicologia no Brasil. MASSIMI.). Luiz Alfredo. Luiz Fernando. PENNA. FOUCAULT. de objetos e dos seus sujeitos. História da psicologia moderna.). As raízes da psicologia social moderna. da sua ciência como disciplina do saber sobre o corpo e a mente. FARR. GIACOIA JUNIOR. 2006. da substância 7 BROZEK. em geral. 1993. 1987. aqui. o seu discurso permite ser tomado como enunciado. 34 implícito da dificuldade mesma de se definir o que é próprio ao psíquico7. do arquivo desse seu saber em formas práticas de mensuração e da criação da sua empiria reforçam a ideia de que o psíquico se constitui como um campo disciplinar histórico de discurso de saber e de controle indomesticável. apresentados nos seus respectivos contextos de formação original. de teorias. GORMAN. Dissertação de Mestrado em Psicologia. Michel. ANTUNES. Pois. neste caso. Isto pode ser devido. quando delimita os saberes sobre o fenômeno psíquico pela sua aparência de rede de discursos de controle que cobre determinados lugares. mental models and techno scientific thinking. o ensinamento foucaultiano de investigar o saber. M. 1992. de pressupostos. pelo menos em parte. Duane. Oswald. Rio de Janeiro: UERJ. 2009 [1963]. NAPE. 2001. Buenos Aires: Paidos. Ana Maria. Historiografia da psicologia moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. RICHARDS. o discurso sobre a psique como um campo histórico-político de formação de técnicas de controle. a radicalidade da interpretação acima. J. 1981. Rio de Janeiro: Contraponto. 2004. São Paulo: Eduerj. GARCIA-ROZA. Gardner. Antonio Gomes. da contingência dos lugares nela amarrados. Rio de Janerio: Zahar. como referência para o discurso da alma. M. Chicago: University of Chicago Press. RUSSO. Mitsuko Aparecida Makino (org. Psicologia da invenção na matemática. 5a edição revista e ampliada. 1999. Darwin and the emergence of evolutionary theories of mind and behavior. formador. Rio de Janeiro: PUC-Rio. 1975. São Leopoldo: Editora Unisinos. os saberes da psicologia são. 1998. HADAMARD. Sidney. Diante da diversidade de estudos sobre o psíquico. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Cultrix. Jane. RODRIGUES. também podem ser sugeridas. História da psicologia no Brasil. London: Indiana University Press. descuida da historicidade dessa rede. 1964. ASH. SCHULTZ. 1998. O mundo psi no Brasil. Rio de Janeiro. Sérgio. DUARTE. àquela imprecisão conceitual resistente sobre o psíquico.). M. São Paulo: Perspectiva. de conceitos. New Haven. JABUR. São Paulo: Unimarco e Loyola. mas também da própria psicologia como um tipo de saber ocidental. naquela ambigüidade cujo efeito consiste em uma politização que deriva da dificuldade semântica de se delimitar fora da história e dos discursos o conceito de psique. Cambridge: Cambridge University Press. 2002. descurando o detalhe e o contingente do conceito de psique pela extrema expansão do seu pressuposto na história. Conselho Federal de Psicologia. Crime e loucura. Edusp. vol. Fabio. Simulating science: heuristics. II. isto é. Nesta medida. 1998. Heliane de Barros Conde Rodrigues (orgs. O aparecimento do manicômio judiciário na passagem do século. ATRAN. Cognitive foundations of natural history: towards an anthropology of science. JACÓ -VILELA. Nietzsche como psicólogo. em função disso. História das ideias psicológicas. MURPHY. SCHULTZ. CARRARA. 1890-1967. portanto. Gestalt psychology in German culture. de autores. New York: Cambridge Press. Jacques. Scott. Rio de Janeiro: EdUERJ. Rio de Janeiro: Zahar. 1992. Da Vida Nervosa (nas classes trabalhadoras urbanas). Esboço de uma história do saber psicológico. 1997. R. . Mas nuances. e de prisões. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Introduccion histórica a la psicologia contemporanea. (orgs. Robert John. Referência comum. de enunciados. abordados junto aos seus limites históricos e. de literatura. da elasticidade que também a define.

sobretudo. 81). senão que se qualifica por uma fraca determinação reproduzida pela reflexão teórica e. do singular e do plural. Ao longo desta “Introdução”. do espontâneo. p. Assim. essa nossa “Introdução” ao texto com a exposição da hipótese que levantamos sobre a efetividade do argumento psiquista em Os sertões. uma “representação da representação” (BLUMENBERG. do comportamento. do mundo sensível.1 O narrador sincero e a psicografia Sem adiar a tarefa. 35 primordial. por fim. da mediação. em Luhmann) como um campo reflexivo do pensamento. apresentaremos primeiramente uma análise da situação discursiva de onde emerge o sentido do psíquico euclidiano (“O narrador sincero e a psicografia”). da inteligência. nesta “Introdução” à tese. 2013. do profundo. do inconsciente. Em seguida. também. da reminiscência. da consciência. tal como um discurso sobre o discurso. . 1. a metáfora do psíquico pela contingência dos sistemas discursivos. vamos à citação do trecho inicial da “Nota Preliminar” que abre o texto de Os Sertões. do pós-humano. da totalidade. se debruçar (“A espantosa paciência da teoria”). ou como prefere Hans Blumenberg. do intuitivo. assim também procedem os discursos psíquicos variados em torno dessa oscilação do seu referente – demonstrando que o psíquico não se vincula facilmente a um objeto determinado no mundo. da mente. situando o psíquico como conceito-limite que se comunica por metáforas naquele autor (“Descrição e determinismo: os dois lados da observação”). do subjetivo e do seu contraste com o objetivo. do autêntico. “Sociologia e análise de discurso”). faremos uma pausa nessa análise para introduzir o campo geral reflexivo de onde partimos para examinar o livro de Euclides da Cunha no campo do pensamento social brasileiro (“Pensamento social brasileiro: pergunta de teoria?”. da abstração. nossa reflexão se fez acompanhada de Niklas Luhmann e dos ensaios de Hans Blumenberg acerca da teoria da não conceitualidade. bem como também do oculto. do verdadeiro. na medida em que a leitura desses autores nos possibilitaram abordar o campo discursivo das metáforas (ou do sistema de referências. do expressivo. situado no mundo empírico e de simples localização na mente. Consideramos diante do exposto. Vamos concluir. Apresentaremos a sugestão de um argumento de fundo teórico como um ponto possível de onde os estudos do pensamento social podem. do religioso. na nossa tese. do humano. regulada por alguma imprecisão da razão. como uma referência que solicita outra referência para se expressar.

66). para o leitor. tornando-lhe uma “variante de assunto geral”. tornando apenas variante de assunto geral o tema. dos reveses do escritor e da inatualidade da publicação. a história específica de Canudos serviria. pelo contrário. Qual seria. Logo de partida o autor declara. “a princípio dominante” converte-se em “variante”. “a princípio dominante. o autor tenta também cativar o interesse do leitor para o seu livro munido da alegação de que. é como um tema a partir do qual havia se originado o seu relato mas que revela. digno de atenção e mais importante como tema a ser estudado. poderíamos até concordar com a sinceridade do autor. na medida em que o desfecho de vitória da República que se sucedeu na Campanha de Canudos transformou a sua história em uma investigação praticamente superada e ultrapassada. a história de Canudos torna-se não irrelevante. Se não fosse pelo volume do material escrito. De fato. O autor nos revela que como variante. Em que pese a adversidade desse cenário. p. na denúncia das condições de escrita. a necessidade do seu livro. justificando. instável e precária da qual a sua escrita pretende levar à público. Atualidade que se arma sobre a sua suposta excepcionalidade. o tema ao qual Canudos corresponde como uma variante? Por que narrar uma história cujo desfecho já sabemos de . Nesta inversão. remorada a sua publicação em virtude de causas que temos por escusado apontar (OS. Euclides não demonstra nenhuma simpatia ou reserva que ative. embora textual. a experiência que atravessa o livro. Embora se trate de livro que tenha como motivo um tema concreto e particular – a Campanha de Canudos – Euclides confere à obra publicada um valor de mérito e estatuto superior que excede o conflito de Canudos. que o sugeriu” (OS. afinal. este sim. p. por isto. perdeu toda a atualidade. Ambientado pelo excesso de trabalho. O excepcional de Canudos. Poderíamos dizer: na instabilidade do observador e do escritor intelectual. a princípio dominante. para um tema da atualidade. deriva um outro resultado que seria. outra feição. agora sim. o livro de Euclides tem seu início se posicionando na precariedade de condições da sua escrita e do seu escritor. na desventura anunciada em primeiro plano. pelo ofício extenuante e por um atraso comprovado. mas exemplar. que a princípio se resumia à história da Campanha de Canudos. sob o esforço do conhecimento e da descrição. no contemporâneo. uma nova feição que excede aquela anterior que. “Demos-lhe [ao livro]. 65). Além dos motivos acima citados. Euclides tenta aproximar o leitor de uma realidade. o sugeriu”. como primeiro parágrafo a se comunicar com o leitor. 36 Escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante. este livro. neste caso. Mas. Euclides alerta estar o livro desatualizado.

37 antemão? As chances de compreendermos alguma resposta para estas perguntas vêm logo a seguir.. E fazemo-lo porque a sua instabilidade de complexo de fatores múltiplos e diversamente combinados. pois. Euclides assegura ao amigo o lume daquele livro: “Já vês que os pobres jagunços [. aproxima-se de um fim. palidamente embora. Neste contexto de escrita. relatando as negociações com a casa editorial. p.] advogado diante da História. como tema que em sua perspectiva singular teve princípio. observa Euclides. enviada no natal de 25 de dezembro de 1901. Euclides atribui importância ao seu tema justificando-o em uma filosofia da história. 129). o nosso autor enfrenta as adversidades e os infortúnios da escrita. qual .. afinal. Sua má sorte confidenciada no começo. A generalidade da qual Canudos seria uma variante histórica excepcional começa a ser iluminada neste momento. Intentamos esboçar. ultrapassa os limites daquele conflito e afirma-se pela caracterização “das sub-raças sertanejas no Brasil”. em carta ao amigo Escobar. p. na realidade. Euclides confirma para o amigo a sua intenção com a obra. Sem colocar o nosso foco sobre a vaidade. ante o olhar de futuros historiadores. O livro que trata da campanha militar no interior da Bahia. Laemmert. aparece determinado pela rota da extinção. Discurso apocalíptico que parece ainda se coadunar com o tom principal predominante no nosso autor até aqui. E este papel satisfaz inteiramente a minha vaidade” (CEC.. compete o risco iminente de desaparecimento das sub-raças sertanejas. os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas no Brasil. aliada às vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem. Em que pese as “cláusulas leoninas”. destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra (OS. isto é. as tornam talvez efêmeras. no momento de sua leitura. em um operativo de abstração. Afinal. 66). Esta presunção filosófica euclidiana logo se justifica na referência de uma descrição: “ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra”. dos meios escassos da escrita e do trabalho árduo do escritor. contudo.. meio e agora. e por uma vaidade intelectual que considera legítima. motivado pela importância do tema. bem como os constrangimentos materiais e morais da empresa para a produção e publicação do seu livro. transforma-se em virtude do intelectual e do observador Euclides – observador quem se dispôs em terreno ardiloso e em matéria tão controversa a trazer à tona uma variante histórica passada de um tema geral contemporâneo.]. para publicar “os meus Sertões”. que dessem a palavra ao seu [. pela extrema necessidade de fixar um movimento histórico para “os futuros historiadores”.

como presume Euclides. Sob este tom. encontra-se no desaparecimento das sub-raças sertanejas a definição do tema geral em cuja variante situa-se Canudos. sugeria basicamente a extinção das “sub-raças sertanejas”. pois está determinada pelo fogo cruzado de “filhos do mesmo solo”. atualizado e repassado ao longo dos acontecimentos que são narrados no livro. agora esta extinção ganha gravidade histórica e social. O drama de Canudos consiste que a agressão se dá no espaço interno da sociedade nacional. os “filhos do mesmo solo” (OS. na medida em que ambos esclarecem o cerne da obra. Euclides introduz o tom da tragédia em Os sertões já em sua “Nota preliminar”.). Porque o inimigo é brasileiro.). Como efeito do seu discurso. Euclides parece já predisposto a observá-los antes de Canudos. Canudos torna-se uma história de escopo geral das agressões no Brasil. – e por isso ele se dedica a escrever o volume de Os sertões. 66. luta que pode ser longa e que tampouco se enfraquece pelo fato de terem sido inimigos combatentes. valores morais que estariam em vias igualmente de desaparecimento. talvez também eles. como o de testemunhar e relegar ao futuro o passado da história e o tempo de extinção de um complexo humano no Brasil. Caberia aos futuros historiadores. Fica-se com a impressão de que todo o relato de Os sertões consiste em um trabalho intelectual de reflexão dessa inevitabilidade histórica derivada de uma causa geral. em carta de 9 de outubro de 1895: “Deves saber que a minha índole é contraposta ao meio tumultuoso em que . cit. grifo do autor). entre irmãos. “A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto” (OS. ao reportar ao amigo João Luís. serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes. loc. Seu livro quer nos informar de uma hipótese – que aparece sob a forma de descrição – dos caracteres morais que estão em vias de extinção no Brasil: “[o] jagunço destemeroso. p. Como temos visto. Se inicialmente a variante apontada por Euclides. 38 seja. ou extintas” (OS. hipotético e moral é o terreno que enfrentamos no texto euclidiano. “alenta- me a antiga convicção de que o futuro o lerá” – a possibilidade de compreender as razões da tragédia decifrando a sua hipótese moral. Sobre os indivíduos que se agridem. Mais adiante veremos o modo como esta inevitabilidade histórica se constrói. Detalhando as sub-raças essas qualidades seriam. porém. ingênuo e simplório. Embora o autor faça destaque de tipos antropológicos nessa lista. dispostos em brigadas opostas. isto é. loc. representada por Canudos. não deixa de nos chamar a atenção os adjetivos que acompanham a denominação desses tipos: destemeroso. o tabaréu ingênuo e o caipira simplório. Na narrativa de Euclides. Esse argumento trágico vai ser. ou o martírio e a causa geral que contextualizam a sua obra. por ora guardemos essa nota. o evento de Canudos parece ganhar densidade a partir desse detalhe fundamental. cit. a catástrofe e o sacrifício.

como é o caso da tragédia de Édipo 8. mas pela força de destruição que surge do interior da sociedade. não deveria causar estranheza o fato de Euclides expor. isto é. Combatentes domésticos. p. quando considera a hipótese do primeiro como genial em relação ao segundo? Por último. a hierarquia intelectual proferida por Euclides entre o autor de La lutte des races e Thomas Hobbes. peça na qual as forças destrutivas da ação estão presentes em seu próprio desenrolar. confirma-se o signo da tragédia. num lance genial. a genialidade de Gumplowicz justamente pela sua lei de “esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes”? Para fazer um reconhecimento do terreno em que as respostas para as perguntas acima serão pensadas. 39 estou. em uma mesma frase. Novamente. é preciso primeiro recorrer ao autor citado por Euclides. no entanto. inimigos internos. estamos lidando com a descrição de um movimento histórico cuja atualidade se dá não somente pelo excepcional em si de Canudos. “o que se é produzido não poderia nem teria lugar”. Algumas perguntas. Tradução nossa do texto em francês: “c’est qui s’est produit ne pouvait pas ne pas avoir lieu” (ibidem. 66). aonde a luta pela vida lembra. “A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável ‘força motriz da História’ que Gumplowicz. aparentemente sensível ao movimento de extinção das sub-raças do sertão. para nós. “filhos do mesmo solo”. Por quê? Ainda que o avanço da civilização sobre o interior seja tratado como um tema de inevitabilidade histórica. ou melhor dizendo. p. lobrigou. associando-o ao destino trágico desconhecido pelo inconsciente. na tentativa de refinar inclusive a comparação apontada entre ele com outro clássico da filosofia política. no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes” (OS. 87). p. ou confirmam a inevitabilidade histórica da extinção das sub-raças sertanejas. 293). ou explicam os motivos dessa inevitabilidade como derivando de aspectos que não são menos raciais do que históricos e sociais. p. Em ambos os casos. o resultado será o de uma história trágica. pelo fato de que o inimigo é o seu irmão. É evidente a hierarquia que Euclides 8 Jean Bollack (1995. de que maneira esta referência se liga à “força motriz da História” de Gumplowicz? Para onde aponta a diferenciação. isto é. Euclides enumera alguns indícios que. maior do que Hobbes. Ainda na “Nota preliminar”. quase sempre no seio familiar. 282-321) examina este tema a partir do círculo de intérpretes de Vienna e ressalta o entendimento psicológico que Freud aplica ao do mito de Édipo. surgem a partir dessa citação: poderíamos começar indagando o fato de Euclides não nos fornecer nenhum motivo que justifique o esperado avanço da civilização sobre os sertões. pela ferocidade e pelo bárbaro egoísmo – a agitação da idade das Cavernas” (CEC. . Thomas Hobbes. o sociólogo polonês Ludwing Gumplowicz.

mas também sobre temas da história natural. 1893. dès le début. a dominação em si mesma está articulada a todas as fases do processo histórico. que permite entender a construção do argumento euclidiano. vamos à fonte original da citação usada por Euclides da Cunha no livro de Gumplowicz. 217. entre aqueles que são superiores aos outros. Temos motivos para pensar que a comparação com Hobbes deriva desse registro de leitura sobre um cenário político destacado em relação à luta de raças. seria necessário indagar sobre o fato de Euclides ter citado justamente este trecho. l’éternelle tendance à l’exploitation et à la domination. porque os amalgamas sociais. rapproche les éléments sociaux hétérogènes. a luta sob todas as formas. c’est. após a longa dissertação em torno da filosofia alemã. traz os elementos sociais heterogêneos. é. 9 (GUMPLOWICZ. est donc le principe propulseur proprement dit. é então o principio propulsor propriamente dito. então retirado do capítulo que examina o papel desempenhado pelo governo político na luta entre as raças. em pormenor. o que. traz elementos étnicos heterogêneos. car les amalgamations sociales. registrado em Gumplowicz. la civilisation. La lutte des races pour la domination. especialmente sobre Hegel e Herder. rapproche les éléments ethniques hétérogènes. no eixo em torno do qual elas se movem. será neste capítulo que ele o fará de maneira mais decidida. como vimos. la nationalité et tous les phénomènes les plus élevés de l’histoire ne se révèlent que par suite d’organisations de pouvoir et par le moyen de ces organisations. come nous l’avons vu. dos povos primitivos e do darwinismo. l’axe autour duquel elles se meuvent. chez ceux qui son supérieurs aux autres. o autor polonês se indaga sobre o que constitui e mantém a ordem social. Essa questão é central para entendermos a leitura que Euclides 9 Tradução do francês: “Ce qui. la force motrice de l’histoire. que existe entre os mais fortes. dans la suite du développement de l’histoire. a civilização. Ordem e conservação” é o título que dá nome à seção em que se encontra a designação da “força motriz da História” citada por Euclides. o papel dos governos e das instituições políticas nas lutas entre as raças. à princípio. pelo poder. tradução nossa) Diante das particularidades históricas da obra de Gumplowicz. a força motriz da história. ce qui les met en rapport les uns avec les autres et de cette manière donne le mouvement au processus naturel social. ce qui. Devemos nos perguntar. mais la domination elle-même est le pivot sur lequel tournent toutes les phases du processus historique. se até o capítulo trinta e cinco Gumplowicz se exime de discutir. porém. mas. pour le pouvoir.” . o que os coloca em contato uns com os outros e dessa maneira dá movimento ao processo social natural. a eterna tendência à exploração e à dominação. Para isso. Trata-se aqui de uma conjectura. Pois. No capítulo trinta e cinco. la lutte sous toutes ses formes. a partir dessa referência euclidiana. grifo do autor. 40 supõe existir entre a genialidade de Gumplowicz e a teoria política de Hobbes. em que princípio a sugerida hierarquia poderia se fundamentar. Vamos à sua referência: O que. A luta das raças pela dominação. p. “Como se obtém a dominação. a nacionalidade e todos os fenômenos os mais elevados da história não se revelam senão segundo as organizações de poder e por meio dessas organizações. mais tarde no desenvolvimento da história. existant chez les plus forts.

abrigada sob a perspectiva de Euclides. a natureza cria os homens como que vinculados a princípios de direitos iguais. permite ao nosso autor brasileiro entender o reverso dessa igualdade. op. p. o livro de Gumplowicz empreende-se em uma filosofia da história. as coisas não seriam se não complicadas e divididas como um resultado de uma longa evolução. Gumplowicz. cf. Luiz Costa Lima (1997. 1999). Gumpliwicz corajosamente pretende sustentar. por outro lado. poderia advir do fato de que. não se apresentam ou se constituem fora de um processo histórico de luta. Seguindo esta análise. É na infinita variedade de coisas por nuanças . isto é. a partir da sua interpretação do sociólogo polonês. de acordo com o argumento de Gumplowicz. 81-99). cit. é a multiplicidade que é original. tal é a questão que se colocam os filósofos de todos os tempos. ou seja. em seu texto. 154). p. E bem! essa é uma tese quase inteiramente oposta que M. pelo contrário. que ela não elimina a disparidade e a dominação entre os 11 semelhantes alterados pelos seus respectivos recursos psíquico-sociais . nesse sentido. as paixões excessivas dos homens necessitam ser controladas. “o soberano hobbesiano não faz guerra a seus súditos. 11 Em resenha de Durkheim. lemos o seguinte comentário sobre o sociólogo polonês: “Há o mundo da unidade e o da multiplicidade. está fundamentado em uma teoria das paixões e da introspecção do indivíduo (cf. 24-35) e Azevedo (2002. o 10 Para uma visão parcial da obra desse autor em conexão com a sua filosofia racial como um discurso de filosofia da história. Como colocar em acordo esses dois termos contraditórios. 1979. 41 parece ter extraído sobre o sentido da história em Os sertões. como aliás para os demais jusnaturalistas. Na medida em que para Hobbes. dispostas sob moderação através do pacto soberano da vida em sociedade. “Grundriss der Soziologie”. Em uma visão geral. destacam-se posteriores às próprias definições dos poderes. rde forma que reconhece ainda um lugar de destaque para esta específica ciência política na sua reflexão. A raça consiste portanto em uma relação desigual de distribuição de poder na sociedade. Euclides elabora um argumento que se volta para o mundo irracional. com atenção ao tema do desenvolvimento da noção de raça como um específica individualidade social moderna 10.. em particular no Leviatã. A raça. os homens são seres excessivamente apaixonados. Um primeiro sinal de que Euclides tenha tomado Hobbes para a comparação com Gumplowicz. a propósito do livro de Gumplowicz. senão. 6). em contrapartida. publicada em 1885. De acordo com ele. p. o que implica em dizer que os impulsos e as sensações sobre eles atuam de forma positiva no sentido de nos levar ao conhecimento da natureza moral dos homens (HOBBES. Simples na origem. Para Hobbes. RIBEIRO. Mas por que Hobbes aparece na comparação afirmada por Euclides? Como sabemos. assim como a nacionalidade e outras formas de organizações de poder. o pensamento hobbesiano. porque as leis de natureza mandam que seja grato a quem lhe conferiu poder e equitativo com os inferiores” (RIBEIRO. Uma teoria cada vez mais popular hoje em dia é aquela na qual tudo fora naturalmente o múltiplo. p. mais próximo à teoria das paixões de Hobbes. Todavia.

a religião e os fenômenos econômicos". p. e a vida universal se resumiria em diferentes combinações desses elementos neles mesmos. Il l’a gardée. la morale. Cette infinie variété de choses aux nuances infiniment variées dont le monde nous offre le spectacle aurait préexisté de toute éternité. Eh bien ! c’est une thèse presque entièrement opposée que M. mas não a adquiriu. Tal é a língua. avait dès lors sa nature propre. As coisas se modificam na sua aparência. 1885. com sua natureza própria. como resultado do poligenismo. portanto. au monogénisme d’autrefois. Les choses ne se modifient qu’en apparence . ao fundo elas são sempre as mesmas. Sobre a sociologia de Gumplowicz: “Ces changements dans le volume et la structure des societés. não nos pode dar uma pálida ideia dessa diversidade primitiva. a partir do que "o autor [Gumplowicz] chamou de psíquico-sociológico (die socialpsychishen Erscheinungen). Tradução nossa do texto em francês: “Il y a dans le monde de l’unité et de la multicplicité. mais groupés de mille manières différentes” (DURKHEIM. […] Todas as sociedades descrevem o mesmo círculo. L’esprit humain est un kaléidoscope: ce sont toujours les mêmes idées et les mêmes sentiments. c’est la négation du progrès. portanto. passim). au fond elles sont toujours les mêmes. o monogenismo de antigamente deve ser substituído por um poligenismo radical". quando a etnologia contemporânea a admite existência. D’après une théorie de plus en plus populaire. En un mot. les choses ne se sériant divisées et compliquées qu’à la suite d’une longue évolution. dès le principe. portanto. tal como o autor [Gumplowicz] o entende. Il en est des hommes comme des choses. Em nenhum lugar nós encontramos qualquer vestígio dessa suposta origem comum. c’est la multiplicité qui est originelle. et la vie universelle se réduirait à des combinaisons différentes de ces éléments toujours les mêmes. que chegou ao hábito de observar a humanidade como uma só família descendente de um mesmo ancestral. suscitent des phénomènes nouveaux qui prennent naissance. Cada um deles tendo nascido em um ambiente diferente. dont l’ethnologie contemporaine admet l’existence. é verdade. dessemelhanças psico-sociais acirrem-se entre os semelhantes configurando-se entre eles uma relação de alheamento. Mas esta hipótese monogenista é desmentida pelos fatos. mais il y a. L’humanité n’est donc pas née sur un point unique et privilégié . la religion et les phénomènes économiques”. il est vrai dans les consciences individuelles. 42 universalismo natural da espécie humana permite que. Nous ne trouvons nulle part la moindre trace de cette prétendue communauté d’origine. on a pris l’habitude de regarder l’humanité comme une seule famille descendue d’une même ancêtre. un nombre infini de groupes humains distincts les uns des autres. il faut substituer un polygénisme radical”. não nasceu em um ponto único e privilegiado. Sous l’influence combinée de la tradition biblique et d’un darwinisme mal compris. . Os fenômenos sociais seriam estudos. mais sous l’influence de causes éminemment sociales […] Toutes les sociétés décrivent un même cercle. Os fenômenos sociais seriam observados. a moral. Comment accorder ces deus termes contradictories. suscita novos fenômenos que surgem nascer. en reagissant sur les individus. Chacun d’eux. mas agrupados de mil maneiras diferentes”. está a negação do progresso. le droit. tel que l’entend l’auteur. ao que Durkheim conclui: “En effet ce qui résulte du polygénisme. dominação e de eliminação. o direito. por aquilo que “l’auteur [Gumplowicz] les appelle pour cela sociologico-psychiques (die socialpsychishen Erscheinungen). sa physionomie. encontra na história uma fonte de complexidades. que se não é determinado pela biologia. desde o seu princípio. Elas modificam a sua posição no espaço. O espírito humano é um caleidoscópio: são sempre as mesmas ideias e os mesmos sentimentos. 627-634. Tels son la langue. mas são influências de causas eminentemente sociais. ao que Durkheim conclui: "De fato. Em uma palavra. em reação sobre os indivíduos. Mais cette hypothèse monogéniste est démentie par les faits. c’est de l’un que serait naturellement sorti le multiple. mas tem. telle est la question que sont posée les philosophes de tous les temps. infinitamente variadas que o mundo nos oferece o espetáculo que pré-existiria desde a eternidade. Gumpliwicz vent courageusement soutenir. loin de diminuer. Acontece com os homens como acontece com as coisas. ne peut nous donner qu’une faible idée de cette diversité primitive. A pluralidade de raças. mais ce sont toujours les mêmes éléments combinés suivant les mêmes lois”. L’intelligence et la moralité sont aujourd’hui ce qu’elles ont été de tout temps. A humanidade. longe de diminuir. mas são sempre os mesmos elementos combinados de acordo com eles mesmos". um número infinito de grupos humanos distintos uns dos outros. por reações diversas e indefinidas. Elles changent de position dans l’espace. A mesure que nous remontons le cours de l’hétérogénéité des races et des nationalités croît. A inteligência e a moralidade são hoje o que elas sempre foram. sua fisionomia. mais non acquise. La pluralité de races. Sob a influência combinada da tradição bílblica e dos darwinismo incompreendido. Simples à l’origine. Sobre a sociologia de Gumplowicz: "Essas mudanças no volume e na estrutura das sociedades. étant né dans un milieu différent. nas consciências individuais. À medida que nos voltamos ao curso da heterogeneidade das raças e das nacionalidades cresce. Suivant lui. Ele a manteve.

diferente do princípio hobbesiano. representando uma atitude prepotente e desigual. segundo Hobbes. nós os veremos. o direito. ao contrário. se produz no desenvolvimento social e por ele. Vamos à definição de Gumplowicz: A raça é uma unidade que. Certifica-o o fato de que. distinguindo-se de tudo mais de onde ele deriva. em realidade. não é inédito para Euclides a reflexão de que o governo. todos os indivíduos têm uma natureza jurídica comum. implícito no argumento do sociólogo polonês. em Gumplowicz o governo (como uma especialidade psíquico-social) representa aquele que cria a guerra. formalmente. etc. a religião. Euclides encontra na teoria de Gumplowicz o argumento da força da história como movimento de diferenciação das raças. A alegada genialidade de Gumplowicz repousa no argumento de que a evolução racial implica também na evolução de individualidades históricas. acreditamos estar de posse dos indícios que nos permitam entender o que faz Euclides supor a diferença entre Hobbes e Gumplowicz. a civilização. humilhava e assassinava os semelhantes que. Por isto. Para o nosso autor. Diante do exposto. princípio formal do direito natural moderno. isonomia. donde a guerra política. reprimia. se a natureza cria os homens mais ou menos iguais. Em vez de endossar este princípio de igualdade formal hobbesiano. possa se voltar contra os seus inferiores. o Estado deveria evitar. em que os homens são a princípio iguais e o soberano deve preservar a vida dos seus súditos semelhantes. o princípio político apresentado pelo segundo. Isto quer dizer que a máquina da história se movimenta no trilho da civilização contra o outro. ao República deveria proteger. Como pensamos supor Euclides. aniquilando-os pela guerra – guerra que. o costume. pois. Não é senão que mais tarde que . ao curso da história. quando o exército da República perseguia. categoria fundamental tanto em seu livro quanto em Os sertões. o fenômeno do Estado aparece como resultado de dessemelhança e de dominação entre os grupos de poder. são intelectuais: a língua. parece-lhe ser possível e até justificada. teria sido este o ocorrido em Canudos. vale agora detalhar o modo como Gumplowicz compreende raça. quando ainda julga. por que há o fenômeno da dominação de uns sobre os outros? Insatisfeito com as respostas da reflexão política jusnaturalista. psíquicas e sociais. Euclides acusa a genialidade de Gumplowicz. em oposição à igualdade natural. Feito este primeiro esclarecimento. 43 Na filosofia do jusnaturalismo. dos mais fortes sobre os mais fracos. esmagando os mais fracos na medida em que ocorre a especialização dos recursos intelectuais aparelhados pelos mais fortes. Seus fatores iniciais. em detrimento do primeiro. mesmo quando a sociedade encontra-se em estágio evoluído de civilização. fenômeno que pode ser observado na sociedade de forma social e temporal.

la coutume. p. Como dizíamos acima.” . Euclides constrói o intricado argumento de que a tragédia de Canudos deve-se a uma “instabilidade de complexo de fatores múltiplos e diversamente combinados” (OS. ele se dedica ao tema da raça através de uma reflexão fundamentada em uma filosofia da história. la religion. Ce n’est que plus tard qu’apparaît le facteur physique: l’unité du sang. 192. Euclides alia na sua explicação “as vicissitudes históricas e a deplorável situação mental em que jazem [as sub-raças sertanejas]” (OS. Euclides trata do tema da instabilidade mental das sub-raças sertanejas sob um enfoque distinto daquele sugerido pela filosofia política hobbesiana. Ses facteurs initiaux. nos primeiros capítulos de Os sertões. uma parte significativa de La lutte des races de Gumplowicz consiste em esclarecer o que caracterizaria a luta das raças como um sentido histórico de produção de individualidades no mundo social. grifo nosso). Mais especificamente. A partir de uma hipótese sociológica e psicológica. etc. de um complexo de fatores múltiplos? Sem condições ainda de responder a esta questão. como marcha histórica. no caso brasileiro. p. 44 apareceria o fator físico: a unidade do sangue. em Os sertões. tradução nossa) A definição de raça acima destoa das perspectivas apresentadas por Euclides. a religião. É com a mão junto a esse esclarecimento fundamental. os costumes. vamos deixar registrado os fatores múltiplos e diversamente combinados do complexo por meio dos quais as causas da dominação são. muito embora não se exclua do eixo do seu argumento. a destruição das raças mais fracas pelas mais fortes ganha o tom da inevitabilidade histórica de Canudos. Euclides concede certa dimensão para a instância psíquica em que as diferenças apontadas entre as raças. Em realidade. desequilibrado. 65. Adelino Brandão (1973) restaura esta noção de luta. como tema de uma consciência individual produzida em meio à indefinição entre os grupos étnicos. sont intellectuels: la langue. Sua percepção da “força motriz da história” advém justamente da guerra travada pelas individualidades na sociedade moderna. 12 (GUMPLOWICZ. Nesta distância. isto é. p. com a associação de luta à marcha histórica. Além do complexo. enunciadas. junto à credencial marxista pressuposta em Euclides. 65). nous le verrons. o direito. 12 Tradução do francês: “La race est une unité qui. todos elementos que ele parece retirar da filosofia alemã do século XIX. la civilisation. a língua. que Euclides logo se distancia do pensamento da ciência natural de sua época. A noção de luta como marcha histórica é apontada em Os sertões desde o seu princípio. 1893. Como “força motriz da história”. a cultura. Sua perspectiva filosófica sugere a evolução. au cours de l’histoire. Acreditamos não ser este totalmente o caso. O que precisamente qualifica este componente instável. le droit. s’est produite dans le développement social et par lui.

Gumplowicz é reclamado pela sua particular compreensão da filosofia da história da multiplicidade individual observada através das lutas das raças. conforme assinalado por Luiz Costa Lima (1997). encontra na mestiçagem um caso perturbador. Nesse sentido. Esta desleitura. aparece no argumento euclidiano o reconhecimento de uma “deplorável situação mental” específica que acomete os sertanejos. ou seja. que é a própria luta pela vida das raças. luta comovedora e eterna caracterizada pelo belo axioma de Gumplowicz como a força motriz da História. perturba o argumento de Gumplowicz é que a suposta diferenciação das raças. (OS. O grande professor de Graz não a considerou sob este aspecto. se o ponto de genialidade de Gumplowicz consiste em revelar social e psiquicamente a diferença das raças – donde os . p. expõe a sociedade de mestiços para um problema de ordem lógica: como diferenciar aquilo que não está definido? Como entender a luta da dominação estabelecida entre semelhantes indefinidos? Entre individualidades mal constituídas? Acreditamos que. Junto às “vicissitudes históricas” que podem ser tão diversas quanto extensas. agora sim. O psiquismo é operado como um complexo social em que os conflitos que se desenvolvem são arbitrados em torno dos embates dessa gênese individual na civilização. por outro lado ele se esforça em dar solução recorrendo-se ao argumento psíquico. Tudo nos leva a crer que. as suas respectivas individualidades sociais e psíquicas. entretanto. como que denota um íntimo e intenso esforço de eliminação dos atributos que lhe impedem a vida num meio mais adiantado e complexo. porém. é que se todo elemento étnico forte ‘tende subordinar ao seu destino o elemento mais fraco ante o qual se acha’. porquanto o nosso autor formule este enigma. uma vez que Euclides parece derivar justamente da hipótese social presente em Gumplowicz uma das explicações para o mal-sucedido de Canudos. desigual e revolta do mestiço. da consciência ou da inconsciência dessa semelhança indefinida na nação. Euclides tenha todavia efetuado uma “desleitura” de Gumplowicz. 45 especialmente da filosofia alemã inventariada por Gumplowicz. Euclides assim pondera: A índole incoerente. Em outro momento em que aparece a referência à Gumplowicz. poderiam assinalar a existência de uma individualidade social. A verdade. Esta condição mental pode nos apontar para uma localização histórica especial das sub-raças do sertão. Reflete – em círculo diminuto – esse combate surdo e formidável. em Euclides. de modo a adaptar a “força motriz da História” não à sua fonte direta da civilização – a consciência social –. mas ao desaparecimento das sub-raças do sertão. demarcam ou simplesmente descrevem as diferenças sociais entre as raças. 202) O que para nós. Ou seja. mais propriamente. Aqueles recursos psíquicos constituem elementos que. não é por todo transtornada.

Sobre esta evolução regressiva. embora forte fisicamente. O argumento psíquico se dirige. A seleção natural. cifrado pelo seu esperado argumento biológico. A aclimatação traduz uma evolução regressiva (OS. não obstante atrofiados fisicamente. Mas devemos deixar já assinalado que Euclides encontra na raça um problema de fundo social e político que é. Este argumento será tratado por nós mais adiante. não inclui parâmetros morais. “visando uma adaptação” que embora bem sucedida. Euclides denomina a tragédia das sub-raças sertanejas. de fato. Euclides retém dessa relação o inevitável da civilização em uma sociedade de inconscientes indefinidos. A mesologia e as transformações do corpo são importantes referentes que descrevem um perfil psicológico e social do homem sertanejo agravado por uma evolução regressiva. seres definidos e conscientes – chega-se à conclusão de um destino trágico que se abate sobre os sertanejos: “Retardatários hoje.. A busca da definição deveria ser a regra do padrão evolutivo das raças. p. “[o] jagunço destemeroso. em tal meio. (OS. firmando inexoravelmente a vitória das expansões instintivas e visando o ideal de uma adaptação que tem. o tabaréu ingênuo e o caipira simplório”. também. por via oposta. para as raças em vias de extinção. amanhã se extinguirão de todo” (OS. numa progressão inversa prejudicialíssima entre o desenvolvimento intelectual e físico. etnologicamente indefinidos. porque. do cérebro. na descrição dos combatentes: [. nos sertanejos ressalta-se a função dos instintos. individualidade racial (sub-raça) que não chegou ao fim e pode mesmo provavelmente nunca chegar. porém. sem tradições nacionais uniformes. grifo nosso) . a máxima energia orgânica. o que. segundo Euclides.. p.] filhos do mesmo solo.. como um problema do tempo. e armados pela indústria alemã – tivemos na ação [do exército] um papel singular de mercenários inconscientes. vivendo parasitariamente à beira do Atlântico dos princípios civilizadores elaborados na Europa.. “faltou-lhes [. não ocorreu no Brasil. 66). opera-se à custa de compromissos graves com as funções centrais. p. isto é. sem uma reconhecida definição. No prosseguimento do seu argumento. ele vive em uma deplorável situação mental. mas que também parece indicar uma certa condição sobre o psíquico. pode-se dizer que. isto é. 66. na qual os instintos prejudica o desenvolvimento de atividades intectuais.] uma situação de parada ou equilíbrio. Na medida em que. 167). no que reclama a necessidade da evolução social vir à frente da evolução racial. que lhes não permite mais a velocidade adquirida pela marcha dos povos neste século” – parada e equilíbrio que os transformariam em civilizados. Isto quer dizer. como conseqüências únicas. a mínima fortaleza moral. 46 conflitos e a justificativa da dominação entre elas –.

determinada pelo meio em Euclides. A luta transmuda-se. 202). no seu esforço . direito. Dessa forma. ao inexorável horizonte do progresso social e psíquico da civilização. com isso. uma história familiar a unificá-los como irmãos. Entre um e outro. sem detalhamento ou precisão sobre a influência de um sobre o outro mas que. que entre os primeiros persiste o estado de uma “deplorável situação mental”.. não se evidencie apenas no seu engano na definição de raça usada como categoria específica para explicar a evolução regressiva dos sertões (OS. p. afinados ainda por uma semelhança racial – “porque etnologicamente indefinidos” (mestiçagem). Não se extingue. A luta não se extingue posto que pela própria origem indefinida do tipo brasileiro seriam todos os combatentes irmãos. Isto porque. embora originadas de um sangue comum. O nosso autor começa a sugerir. torna-se possível encontrar nos fenômenos intelectuais (língua. a par dessa referência psíquica. Euclides visa nas dessemelhanças psíquicas de Gumplowicz a realidade de um tipo antropológico indefinido. tornando- se mais grave” (OS. A raça. há uma diferença de estado psíquico assinalando duas realidades distintas. 47 Há uma indicação implícita sugerida neste fragmento que coloca as sub-raças do sertão em contraste com os habitantes do litoral. ao passo que para os últimos reserva o qualitativo de “mercenários inconscientes”. mestiços seriam tanto os sertanejos quanto os litorâneos – a sua hipótese passa a admitir. Supomos que talvez a desleitura de Euclides sobre o argumento de Gumplowicz. 166-167). retarda-se apenas. afinal eram todos aqui filhos de uma mistura de sangue. A mestiçagem poderia ter impedido o conflito entre semelhantes mas não o impede. Isto é. como recorre Euclides. de onde deveríamos recorrer. Uma vez que Euclides assume que há entre o sertão e o litoral uma certa hereditariedade consangüínea.. isto é. o sertão e o litoral. p. pelos fatores de sangue (biológicos). indefinidos e reproduzidos entre si.] por tal forma iludida. também. o escândalo de Canudos parecia ser inexplicável tomando-se o ponto de vista das raças. cruzados. costume. “[a] expansão irresistível do seu círculo sinegético [. civilização) um complemento para as explicações antes inalcançadas pela biologia. O argumento de Euclides admite esse composto de termos – bios e psique – em uma construção mais ou menos desordenada entre ambos para a definição da realidade social. que haveria uma disparidade das raças no Brasil como resultado das suas específicas psiques. por outro lado. em relação de contraste às suas condições mentais. mas com nome e uma história de semelhanças: este tipo é o mestiço do Brasil. mestiços semelhantes. cultura. desdobra um outro aspecto na sua expressão que alinha os dois grupos. categoria que é eminentemente social para Gumplowicz. religião. mas no seu apego pelo termo temporal e psíquico que o sociólogo polonês atribui ao conflito das individualidades no mundo moderno.

un halo lexicologique restreint”. Tomamos o excesso dessas descrições como elemento particular do seu discurso.] mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido. por conseguinte e à sua vez. como o de psique.. (SCHALANGER. as personagens. Entretanto. de associações preferenciais com certos termos ou certas desenvolturas. et de près un potentiel d’usages. busca compreender não apenas a separação dos “filhos do mesmo solo”. as lutas e as situações da campanha são. p. 1971. no suposto de que poderia estar no conhecimento e na proximidade entre os iguais a garantia de sobrevivência da sociedade brasileira. . busca romper com a primazia do biológico sobre o histórico e o social. vários feixes de remissões: à distância. como argumento montado a partir de um conceito derivado de raça. e de perto. de maneira difícil de analisar. 12. mais très nette à percevoir.. o ignoto. o que parece estar indefinido pelo esquecimento dos irmãos. logo um potencial de alusões. cuja direção seria secundada pela ciência. um potencial de usos. A passagem do tempo teria feito o seu agravo. são elementos que importam para Euclides. vocábulo denso. o social inconsciente. se não notássemos que o psiquismo. Euclides lança mão da história para entender o que se torna dessemelhante com o tempo. pelo menos como anunciado na “Nota Preliminar”. acompanhando o seu argumento. des associations préférentielles avec certains termes ou certaines tournures. havia se instalado uma distância temporal. passamos a incluir na nossa observação sobre o argumento de Os sertões um novo elemento a inferir sentido à 13 Tradução do francês: “Un vocable riche possède ainsi à la fois plusieurs faisceaux de renvoi : au loin un pluralité de niveaux ou de domaines qui lui servent de champ de référence. como igualmente assinala o que provoca estranhamento entre eles. pelos empréstimos da civilização. distanciando filhos que hoje se exterminam. p. deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo” (OS. bref de manière difficile à analyser. a partir de um conceito rico. O desconhecido. 66). de um halo lexical restrito. tradução nossa)13 Ficaríamos a meio caminho na análise do argumento original de Euclides. tais como “mercenários inconscientes [. a ponto de os dispor em guerra contra irmãos. Os ambientes. a república e os seus soldados. por este efeito combinado de biologia e sociologia. bastante conhecidas pelo seu suposto excesso descritivo. uma pluralidade de níveis e de domínios que lhe servem de campo de referência. Um vocábulo rico possui. bref un potentiel d’allusions . 48 de caracterização. sendo as caracterizações psíquicas e emocionais de Os sertões um efeito do discurso. pela história sincera e pelo positivo da civilização. A partir daí. também. A história traia a origem desse ancestral comum. O nosso autor observa que entre a mentalidade deplorável do sertanejo e a inconsciência dos soldados da república. mas claramente percebida. os tais mercenários.

66). Canudos ganha expressão e significação de “variante de assunto mais geral” pelo argumento psíquico que Euclides lança mão. entretanto. opondo-os brutalmente como inimigos da civilização. poderíamos ser levados a pensar que Euclides preenche a semelhança racial da igualdade brasileira na indefinição mestiça. a desleitura de Euclides sobre La lutte des races recebe novo sentido no reconhecimento de irmãos inconscientes. o impede de reconhecer a “deplorável condição mental” daqueles que vivem no sertão. E foi. iguais porém ignorantes entre si. são “etnologicamente indefinidos” (OS. mas a sua condição mental o afasta de reconhecer esta sua tendência e. Denunciemo-lo. Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. A partir disso. além disso. observamos o deslocamento do argumento racial em Os sertões dirigir-se para o fundo psíquico e temporal dos grupos distantes entre si. Semelhança que seria. isto é. que se atacam porque encontram-se psíquica e temporalmente distantes uns dos outros. por inimizades que. 49 dessemelhança psíquica. Diferenças que são variadas. garantida pela mesma antropologia distante e indefinida que se abriga tanto no litoral quanto no sertão. pelos seus distanciamentos. como o extermínio e a extinção. um crime. Desse modo. E tanto quanto permitir a firmeza do nosso . até que a raça garanta a sua definição. e os conflitos que podem decorrer da sua não-formação – evolução regressiva dos retrógados e dos degenerados – ou dos problemas. que poderiam advir de um recesso ou folga neste processo. Não foi isto o que ocorreu nos sertões da Bahia. mas que não é este o caso. p. Este seria o caso de Antônio Conselheiro. não se justificam do ponto de vista restrito da biologia. que viria com a civilização – por isso o inevitável da civilização entre nós –. per se. o tempo. Esta unidade antropológica indefinida – mestiçagem – evoluiu regressivamente. Diferentemente dos povos já formados. a sua definição racial em um futuro remoto. para o nosso autor evolucionista. O indefinido mestiço ainda aguarda. algo que poderia lembrar um argumento de democracia racial. aqui. na significação integral da palavra. cujas causas remetem ao desnível psíquico e à distância temporal – evoluções – assinaladas entre os dois grupos que. de onde poderia ser possível admitir uma certa semelhança inconsciente a igualar as sub-raças do sertão com os mestiços da civilização. a indefinição racial do mestiço o aproximaria de um ambiente universal democrático. Trata-se. na verdade. dos diversos tempos que uma consciência necessita para se formar. como veremos no Capítulo 4 (“Bestiário”). cedeu espaço para diferenças inimigas que assolam os dois grupos consangüíneos. Como um problema de consciência política. complicando os argumentos estritamente biológicos a partir dessa ênfase na semelhança dos indefinidos. mas que na mestiçagem se tornam semelhantes.

alegando com Taine uma suposta vocação narrativa que o observador precisaria manter. da suposta clareza despida de vícios no olhar de quem reconhece o que vê. ainda que feita alterando-se uma data.3 Pensamento social brasileiro: pergunta de teoria? Antes de prosseguirmos com a análise de Os sertões. com sucesso.il s’irrite contre les demi-verités que sont les demi-faussetés.. mais dénaturent les sentiments et les mœurs. uma genealogia. valendo-se dos efeitos sensíveis. qui gardent le dessin des événements et en changement la colleur. Se. observamos ao longo das últimas décadas um renascimento dos estudos sobre os assim chamados intérpretes do Brasil. Tal como uma psicografia. diante de um dilema. copia os fatos em uma narrativa fiel. os instrumentos pelos quais a sinceridade histórica poderia ser materializada. afinal. ni une généalogie. Alma e cor seriam. 50 espírito. Esta sinceridade suposta na tarefa de narrar uma história profunda. parmi les anciens.. para poder delinear o visto. e a cor. grifo do autor) Euclides ativa o seu discurso. sobretudo. façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história como ela o merece: . pela sinceridade do historiador. atualmente. 1. qui copient les faits et défigurent l’âme: il veut sentir en barbare. a semelhança que está oculta com o outro. como tentaremos argumentar na tese. como antigo”. por fim. mas que evoca os fatos da alma. a narrativa sincera apontada por Euclides se infiltraria nos meandros da alma e da sensação. p. que comunicam não somente os procedimentos de feitura dos livros e do contexto intelectual dos . indica uma regra de verossimilhança que é hipótese e objeto de Os sertões. uma preocupação eminentemente política. mas cujo um dos efeitos recobra. as sensações da cultura e. o historiador sincero. (OS. parmi les barbares. 67. en ancien. a fim de produzir o seu relato histórico de Canudos. entre os antigos. impulsionado em especial pela facilidade de acesso aos documentos e registros de escrita das obras. inscrever no mundo físico o acontecimento captado pela consciência. utilizando-se para isso apenas da ação da consciência. isto é. a fim de salvaguardar a semelhança mitigada do evento. valeria a apresentação de alguns pontos da argumentação que consideramos e incorporamos na tese ao longo da nossa pesquisa. A pesquisa em torno dos clássicos do pensamento social brasileiro encontra-se. poderíamos mesmo dizer que a alma é solicitada para propiciar o encontro com o outro sem se sair de si. isto é. modelo de Taine. para Euclides. “quer se sentir como bárbaro entre os bárbaros e. Nessa técnica pictórica de argumentar. et. contre les auteurs qui n’altèrent ni une date.

são mais benéficos do que revogáveis sobre o campo de pesquisa do pensamento social brasileiro. Todos esses fatores ainda assim. no estudo da sociedade brasileira. em cada corrente ou linhagem. 24). mais subjetivo e por isso talvez mais complicado de se enfrentar. como sabido. propomo-nos o desafio de tomá-lo para análise por uma visada teórica. pela sua extrema capacidade de consagração e de reprodução. na medida em que embutida na noção está a pretensão ao universalismo” (ibidem. devido ao peso de clássico no pensamento social e na cultura brasileiras. tornou-se praticamente aprisionado pela sua própria fama. como tentativa de deslocamento dos argumentos já estabelecidos e das vias de mão única interpretativas que. 1998). como em formulação de Luiz Werneck Vianna. Sem condições e sobretudo intenção de alterar a publicidade e todos os contrastes que advêm dela. Na realidade. padece da sua própria consagração (ABREU. mais do que estimula. com razão. atravessam todos os clássicos. À ampliação do acesso às condições sociais de escrita dos intérpretes do Brasil. como ampliam também o nosso entendimento sobre os temas experimentados em cada obra. e estaremos diante. ao que sucede com os estudos da cultura e sociedade brasileiras a partir dos seus intérpretes. de uma quase inacessibilidade das obras. como afirma Regina Abreu. porém. neste caso. haveria ainda um outro lado dessa abertura que encerra. p. a noção de ‘clássico’ não admitiria particularizações. acrescenta-se a publicação diversa e inumerável de estudos críticos sobre a vida e a obra dos principais autores. propomos um desvio de percurso sobre esse cenário. há que se dizer. de saída discreta da rica cena conturbada dos clássicos do pensamento social. Indo além desse argumento. uma vez que “levada às últimas conseqüências. Ambigüidade que. cuja . ainda que a ambigüidade seja real. Em contrapartida. uma vez que demonstram o interesse desperto sobre temas e leituras da realidade brasileira. é sobretudo de caminho teórico. Aceitando o desafio segundo o qual. ensaiamos um recurso lateral. tão importante quanto estudar os seus fatos do presente é também analisar as suas interpretações do passado. um clássico que. em cada autor. de Os sertões. compartilhamos com a autora. Sobre eles. Falamos aqui. desvio que. afinal. precisamente. esta tese em nada pretende comentar. de Euclides da Cunha. escolhemos trabalhar nesta tese com um autor e uma obra que. então. 24). p. 1998. a pesquisa em torno do assunto. ela tampouco tende a ser superada por meio do descrédito dos autores nacionais. referente aos vícios de leitura e aos clichês inescapáveis nestes casos de ampla publicidade dos textos. é preciso reconhecer que entre os diversos livros publicados. Soma-se a esses dois fatores um terceiro. 51 autores. inevitavelmente. a “associação de ‘clássico’ com a noção de ‘clássico brasileiro’ revela certa ambigüidade” para o livro de Euclides (ABREU. Pelo contrário. Nesse caso.

O que poderia significar traduzir este clássico para tão diversas línguas com tão diferentes realidades sociais? Responder a essa pergunta não é fácil. pela primeira vez. ainda que sob forças desiguais. em particular. como também conquistaram público internacional. saído a lume em 1966. Além de mais de 30 edições para o português. como um problema singular da nacionalidade brasileira correlato ao tema da civilização. a de Leopoldo Bernucci. Este é o caso. Antônio Conselheiro. caso não fosse o pormenor da sua matéria: o livro aborda um fenômeno histórico particular de conflito entre a força armada da República de 1889 e o aglomerado sertanejo liderado pelo beato religioso. Dada a proporção assinalada de edições e traduções. O enigma de Os sertões. no centro do seu argumento. por parte da elite letrada brasileira. Inflamado contra o desconhecimento. a de Walnice Nogueira Galvão editada em meados da década de 1980 e. p. Todo um movimento histórico transportado em uma mala. alguns deles não apenas se tornaram clássicos nacionais. para o dinamarquês (1948). Os sertões foi traduzido. três edições críticas importantes: a que consta no segundo volume da Obra Completa de Euclides da Cunha. de maneira dramática comum ao contexto do final do século XIX brasileiro. talvez. praticamente impossível. Euclides chama a nossa atenção em seu livro para a população preterida pelas cidades então “deslumbrad[a]s pelo litoral opulento e pelas miragens de uma civilização. para o holandês (1954) e para o chinês (1959). para o inglês (1920). novamente para o inglês (1944) seguido de uma resenha de Lévi-Strauss. faria algum sentido o suposto universalismo de Os sertões. organizada por Afrânio Coutinho. porém um primeiro indício é encontrado no próprio texto de Euclides da Cunha. para o sueco (1945). Não obstante ambos os elementos não 14 Cf. para o italiano (1953). que recebemos emalada dentro dos transatlânticos. para o francês (1947). por ocasião do centenário do livro. O “clássico nacional” apresenta-se. que em suas ilusões ocasiona uma história de esquecimentos e de soterramento da “base física real da nossa nacionalidade”. . 52 temática central ou evidente seja a reflexão sobre o Brasil. de Euclides da Cunha. para todas as informações citadas a respeito da divulgação de Os sertões de Euclides da Cunha o cuidadoso livro de Regina Abreu (1998). 274). ele recebeu. no mínimo. Euclides reúne. todo aí. mais recentemente.14 No Brasil. a base física real da nacionalidade em luta contra as “miragens de uma civilização”. em 2001/2002. seguido de traduções para o espanhol (1938). [enquanto] esquecemo-nos do interior amplíssimo onde se desata a base física real da nossa nacionalidade” (apud ABREU. 1998. da cultura e sociedade sertanejas que existiam no interior do Brasil.

O que poderia na realidade fazer- nos entender por quê. é preciso ter em mente que.” . tradução e original aproximam o livro de Euclides do campo de reflexão de uma tradição filosófica ocidental mais ampla (LIMA. na medida em que “nenhuma sociedade é capaz de alcançar-se a si mesma mediante suas próprias operações. mesmo empiricamente. Caberia então.. 687.. Este problema é tratado não apenas por Euclides da Cunha. podem se comunicar? São questões que vamos abordar ao longa da tese. enfrenta-se sempre o problema da observação e da comunicação como eminentemente um problema teórico. A sociedade não possui endereço postal. Como ele descreve os lados opostos desse conflito? Como estes pólos. Na sugestão das leituras de Niklas Luhmann a respeito dos sistemas de referências sociais. La sociedade no tiene dirección postal. mesmo opostos. 53 respondam satisfatoriamente ao porquê do seu livro receber tamanha atenção no exterior. para a imposição do dilema apresentado. a sociedade não existe como remetente de 15 Tradução do espanhol: “[. tem o seu impulso em uma operação teórica humana de mediação intelectual. pelo menos no exterior. um problema de imediato se coloca para o Brasil no mundo. que é bastante notável em Euclides. concretamente. Ao redor desse tema.] ninguna sociedad es capaz de alcanzarse a si misma mediante sus próprias operaciones. contingentes no limite do pensamento referencial. como conhecimento. de acordo com essa perspectiva. tentam encontrar uma solução. p. partilhamos aqui da concepção de que a descrição de uma realidade social e política configura a princípio uma atividade teórica. Tampouco é uma organização com a qual seja possível comunicar-se” (LUHMANN. definir o que parece entender Euclides nessa oposição. Como veremos adiante. a descrição da sociedade feita pela teoria sociológica está determinada pelo conhecimento de um sistema de referências do social. são descrições sem objeto de chegada essencialmente determinado.15 Nesse argumento. ao exortar as “miragens da civilização” pelo contraposto “real” de uma nacionalidade esquecida. descrição e invenção. ao menos teórica. tendo em vista que. no difícil acesso do analista à sociedade. As teorias sociais e as suas empirias. de que entre as ilusões da civilização e o real da nacionalidade. transita além de Euclides uma série de outros autores que. 1989). o acirrado e extenso debate entre ilusão e real. Tampouco es una organización con la cual sea posible comunicarse. 2006. entre miragens e o real. a partir desse dilema. mas por outros autores seus contemporâneos. que. Poderíamos definir o problema pelo pressuposto. tradução nossa). o livro de Euclides consiga despertar a força discursiva de um mito moderno. por vias distintas. o caminho histórico a se escolher deveria ser a salvaguarda do último. Por ora.

” . pero la inalcanzabilidad comunicativa de la sociedad (es decir. Analisando a teoria da escolha racional a partir do seu conceito primaz de racionalidade instrumental. mas sobre ela.16 Bruno Sciberras de Carvalho demonstra a validez dessa hipótese ao analisar a visão de mundo expressa na teoria política e social da escolha racional. Y en su lugar existen construcciones imaginarias de la unidad del sistema que posibilitan la comunicación en la sociedad – aunque no con ella sino sobre ella. p. 54 respostas ou recebedora delas. As ciências sociais. Carvalho endossa. a sociedade. E neste lugar [de fracasso] existem construções imaginárias da unidade do sistema que possibilitam a comunicação na sociedade – ainda que não com ela. estes referenciais são. tomados como evidências nas teorias sociais. como uma “posição consciente face ao mundo” que. a fundamentação lógica da teoria e seu discurso economicista seriam destituídos de sentido se não explicitássemos o conjunto de idéias e crenças que formam sua narrativa. grifo do autor. A tais construções denominaremos ‘autodescrições’ do sistema da sociedade (LUHMANN. o fracasso das suas operações que reproduzem o sistema) a qual comparece empiricamente como certeza. caracterizada por um modo peculiar de relação entre saber e 16 Texto do espanhol: “En verdad éste no es argumento que para la teoría de la sociedad evidencie cosa alguna. então. tradução nossa). p. a partir da noção de referenciais descritivos existentes e usualmente naturalizados. Nesse sentido. este argumento não evidencia para a teoria da sociedade coisa alguma. a perspectiva que Luhmann elabora aqui em torno da comunicação dos sistemas sociais. 687. parcialmente. 2006. e. conseqüência da contingência de comunicação (de criar mediações) com o seu mais importante referente. 15). Ainda que munido de referencial de análise distinto. Na verdade. justifique alguma sua resistência em aceitar a abstração que caracteriza toda a sua forma de descrição e observação social como uma condição sistêmica do seu discurso. talvez por isso. é possível observar a “interdependência entre o pensamento da escolha racional e a sua inserção em um contexto histórico-social específico” (CARVALHO. senão a intangibilidade comunicativa da sociedade (isto é. vinculada a ideias de valor que tomam da realidade empírica somente os elementos que são expressivos e importantes para a sua concepção teórica. A teoria é compreendida. Tal compreensão torna-se complexa na medida em que a escolha racional procura se legitimar por intermédio de um discurso científico baseado em uma abstração matemática que tende a mascarar suas propriedades normativas mais substantivas. a partir de um foco científico e de um modo de proposição de problemas. el fracaso de aquellas operaciones que reproducen al sistema) consta empíricamente como certeza. Entretanto. lidam com dificuldades expressivas para o seu exercício. a rational choice e a subjetividade utilitária de maximização de ganhos e minimização de custos ou de perdas. No estudo de caso de Bruno Sciberras de Carvalho. A tales construcciones denominaremos ‘autodescripciones’ del sistema de la sociedad. a escolha racional representa uma ‘significação’ singular e parcial. 2006. dota a realidade de um “sentido” proveniente da dimensão cultural abrangente da qual participa. sobretudo. nesse sentido.

implica questionar as descrições e regras de reflexões que o pensamento social pressupõe como da sociedade. reflexivos. a raça. . Evita-se. Falamos de sociedade para a sociedade. Nesse tipo de enfoque que levantamos. 15) A percepção de que. atentar para as referências dos sistemas descritivos (teorias) sociais ajuda-nos a compreender que as perguntas que os cientistas sociais propõem para a sociedade são carentes de respostas na medida em que as falas indicam como resultado a ausência de um simples destinatário. a sociologia. senão pensamos válida para outras teorias. o Brasil. Em contrapartida. não raramente se exime de questionar a sua própria atividade teórica a qual ele mimetiza como procedimento descritivo. seu conteúdo discursivo revela um princípio narrativo tanto do que crê ser verdadeiro quanto do que postula como prescrição social e política. intelectuais da sua própria descrição. a psicologia. a história. isto é. o presente. este movimento é mais contingente do que imediato. p. invertendo esta suposição. a teoria da racionalidade do sujeito apresenta falhas de comunicação nas ciências sociais com a sociedade da qual se fala – como demonstrada na “naturalização” e na “omissão” assinaladas pelo estudo de Bruno de Carvalho – não deve concorrer apenas para uma teoria social. o político. por causa de sua retórica naturalista. nesse caso. a biologia. inclusive. ao descrever a realidade da qual ele pretende montar análise. 55 poder. mas que configuram as condições sociais de mediação. Ainda que. configurando a realidade do real. como referentes da sociedade que são acima de tudo mediações. a teoria sugira não possuir nada pra “contar”. por outro. por suposto que lidamos aqui com a forma como o pensamento faz sistema em função da expectativa de um referente externo. na realidade. em suma. (CARVALHO. a vida social e histórica narrada em sua matéria. a ciência. questionar o observador com a atividade teórica. 2006. Em sentido parecido. Se por um lado a naturalização é a falha necessária (isto é. nesse ponto. são referencias teóricos. os questionamentos da teoria em salvaguarda da realidade descrita. a história também opera por recortes de saber que providenciam um sentido para o passado caótico e perdido. ainda mais grave. o pensamento. contudo. Sob essa orientação. na tese que apresentamos examinamos Os sertões como um livro-sistema de referências a partir do qual a realidade social. o que termina por nos expor ao imperativo precário determinando o que é tomado como evidente e natural. a geologia. Com isso sublinhamos que o pensamento social. uma teoria da sociedade consistiria em compreender as operações de referências (descrições) por meio das quais se logra falar sobre o referencial sistêmico sociedade. no sentido de uma criação literária. a operação) para que a comunicação com a sociedade se estabeleça. O problema apresenta-se.

o misticismo e a razão. a realidade nacional e a espontaneidade do povo parecem se tornar realidades para o observador social quando colocadas à luz das referências do seu próprio pensamento sobre o social. tendo em vista que em torno desse livro se agrega um inumerável de apostas que fazem com que foi ali descrito se apresente ora como real. Orientados por esta reflexão. se fragiliza. . neste sentido. despertando-nos para observar a historicidade que deriva da temporalidade dos textos.3 Sociologia e análise de discurso Partimos aqui da percepção de que a comunicação ou discurso sobre a sociedade constitui um importante campo de pesquisas das ciências sociais. insere a referência social em Os sertões valendo-se de conceitos e de metáforas para atacar a própria ambigüidade da sua posição reflexiva. Os sertões. mas como limites históricos. mas que reclama a própria análise. como operação da reflexão. nas condições teóricas da sua descrição. cujo efeito no discurso consiste em um pensar que enfrenta o desafio de descrever a si mesmo. o analista. Este problema é particularmente expressivo no exame de Os sertões. como referências de um pensamento sistêmico autorreferencial. bem como deixa ver as condições sociais de produção do seu sentido. para Os sertões. da reflexão como observação inserida em um sistema de referências. Nessa reflexão. isto é. tem a seu favor a possibilidade de nos apresentar um caminho de análise sobre o sistema-textual em que os sentidos não se sucedem como intenção. o limite faz tornar presente a historicidade dos discursos. 56 1. garantia ou segurança. na medida em que regula as possibilidades da observação e da sua operação de fala ou discurso que designamos por descrições. A contingência que freqüenta o campo atribulado das interpretações do Brasil que. Uma análise do discurso é um exame de referências que não se esgota no texto em operação. Neste caso. esta referência do social anuncia-se pela metáfora absoluta da psique. como uma descrição que se autodescreve. A história e a memória. com as referências que derivam dela. como analisamos com Luhmann. um conflito social no interior do Brasil. elas mesmas. Limitada quanto à resposta sobre as suas perguntas. por isso. as ciências sociais atuam. A perspectiva de que o universo social é claro e se constitui como um objeto externo para ser abordado. ora como reflexivo ou mesmo inventivo. De modo que o psíquico. a partir das referências que se articulam em seu discurso. pois ela nos permite enfrentar a contingência dos discursos dos clássicos do pensamento social. a análise social alimenta-se de si-referente. Solicitamos a teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann. Nesse sentido. analisamos o nosso clássico.

em termos filosóficos: da idealidade do conceito de razão pura. uma . mas sem a pretensão de respondê-las se não por partes e apenas por detalhes. detona ali o ponto fraco da sua reflexão. mediações. a dúvida que opera no eixo daquelas diversas perguntas é o que. por não admitirem respostas essenciais e unívocas. não-substituídas. temos delimitado o tema do observador no pensamento social brasileiro a partir dos problemas implícitos suscitados em suas descrições da realidade. nesta antropologia-genética dos sentidos persistem metáforas pré-figuradas. Pensando em Euclides. por metáfora absoluta. momentaneamente. definiria a nossa existência social. Os sentidos se complementam ainda no interior da caverna. porém mais ainda da debilidade da determinação do contexto e. Blumenberg oferece-nos as perguntas como efeitos de uma carência primordial. Este homem deu início ao processo de substituição dos sentidos por outros sentidos. a partir das quais o nosso horizonte retorna para se antecipar com alguma segurança. a teoria das metáforas de Blumenberg foi igualmente um referente importante para a formulação dessas perguntas – perguntas que. portanto. Em realidade. dificilmente poderiam ser encaradas como tais. Qual seria essa gênese? Na antropologia de Blumenberg. Assim. De que maneira o pensamento (social brasileiro) sistematiza o real descrito e observado? Quais os procedimentos de narrativa e descrição dos referenciais? Quais os procedimentos de teoria e abstração existentes? E de análise? Além da teoria dos sistemas de Luhmann. Esse aspecto da sua reflexão – inserida em uma antropologia filosófica – evidencia a posição de carência e distância do homem da sua cultural gênese antropológica. que concebe o seu objeto de pesquisa como destacado e separado do sujeito que o reflete. Nos termos de Blumenberg: A força de oposição de uma metáfora à sua dissolução no meio expressivo homogêneo e integrado sem resistência ao contexto depende da audácia da metáfora (como Harald Weinrich o formulou). 57 entretanto. Ao mesmo tempo. segundo Blumenberg. Estas metáforas excessivamente carentes e claras nós a designamos. podemos nos perguntar: como definir o objeto da ciência política? Da sociologia? Do pensamento social brasileiro? Com essas perguntas em mente. uma vez que o homem se tornou um ser ereto e saiu da caverna – visou o horizonte – perdeu de vista o que poderia tocar e vislumbrou presenças que são distâncias. na tentativa de escapar. em cujo sistema de predicados entra a metáfora. mas também a partir dele. como propunha Blumenberg. numa operação de prevenção e de caça. um distanciamento e uma verdade mais dominantes e estáveis que a certeza das respostas. da condição de carência original. a gênese – uma metáfora filosófica – dos sentidos humanos está na caverna. reflexões e pensamentos carentes pela abstração. No entanto. no homem que enxerga apenas o que a sua presença pode manipular e tatear. aos olhos de Blumenberg.

como conceitos “que abandonam os lugares vazios passíveis de serem ocupados’ perante todas as formações precedentes” (BLUMENBERG. permitindo simplesmente que a sua carência se ocupe de si mesma. nenhum sujeito mais está disponível. pois que essa. (BLUMENBERG. os conceitos da razão pura podem ser descritos. História. mundo. O que é isto que no pensamento se ocupa de si mesmo? 1. na camada expressiva. para nós. ou seja. voltamo-nos para Euclides com a paciência de iluminar alguns argumentos que. Elas refletem na linguagem o elemento insuportável dos conceitos. pois é um índice para a incongruência entre linguagem e conceito. 113-114) A metáfora absoluta corresponde aos elementos de clareza original. Isto quer dizer que “[s]e as coisas assim se passam. Esta reflexão pode agora dar um passo adiante ao nos perguntarmos se um sujeito de tipo altamente abstrato como Ser. permaneciam em segundo plano à 17 Indicamos este debate na coletânea de textos publicados nos anos imediatos ao lançamento de Os sertões.4 A espantosa paciência da teoria Um pensamento social pode ser contemporâneo ou histórico mas não nos parece que ele consiga deixar de ser também um pensamento teórico. embora nunca as possa materializar. etc. verdade etc. apresentando-se como predicado de um sujeito indeterminado. de posições às quais o homem corresponde. igualmente. p. não há um referente externo para o absoluto. é necessário. A essas metáforas chamamos metáforas absolutas. p. coletânea intitulada Juízos Críticos (2003). Como um “possível no impossível”. 58 frase que começa com o sujeito ‘o Ser’ não só provoca que. Sob esta perspectiva. Isso vale para a história de conceitos como cosmo. . Nosso interesse pelo clássico de Os sertões deve-se à aparente saturação de leituras que. A incongruência já permite ressaltar a função da metáfora. de um dos clássicos que consideramos fecundo em seu argumento de teorias. a partir da sua posição nos contextos teóricos. a metáfora absoluta catalisa para si a atenção do sujeito. assim como para o pensamento. Mundo. em contextos distintos. 2013. “batido”. se impôs ao longo dos anos sobre o seu autor17. o que implica em dizer. como determinantes extremamente fracos”. 109. com certeza. Como um livro exausto. se uma indeterminação desse tipo não leva a conseqüências tão extremas que. pode ‘desenvolver-se’ na função de sujeito. este debate pode ser consultado em síntese histórica muito bem delineada na pesquisa já citada de Regina Abreu (1998). senão que algumas delas manifestem uma insuperável resistência ao contexto. se esperem metáforas. particularmente. então as ‘ideias’. Deste pressuposto. universo. em juízo rápido. Esta reflexão é por isso indispensável. grifo nosso). 2013. partimos para a análise do pensamento social brasileiro.

O ponto ressaltado neste procedimento de descrição é que todo ele tem uma das suas origens não no social em si. 59 sombra da sua crítica. Como apresentamos na tese. mas nem por isso menores ou secundários para a construção da sua argumentação. acima de tudo. pesquisar as teorias do pensamento social brasileiro como condições de observação. dos quais se ocupa a sua observação. de segunda ordem. reconhecido como clássico da inteligência brasileira já no seu contexto de publicação. uma vez que todo o conjunto de intérpretes promove um . Seria interessante. por conseguinte. Os sertões. das condições em que se encontram os seus operativos e referenciais. como nos diz Luhmann. Esta tese. Esta escolha justifica-se. sobre os limites do pensamento social brasileiro. operações. para outros. simultaneamente. do seu parti pris teórico. posições. mais a segunda. Seria possível um pensamento se comunicar com uma instituição nacional? Como se dá essa comunicação. assim. particularmente. as suas abstrações. a verdade empírica de uma sociedade da qual ele se afirma observar. a descrição social tende a tomar imediatamente. essa linguagem teórica? Quais são as operações para que a comunicação do pensamento se realize como pensamento social de uma nação? Como situar essas operações sem descuidar dos seus específicos contextos? Quais são as referências requisitadas no observador que fazem o sistema da empiria do pensamento social brasileiro? Antes de tentar responder a estas questões. Este social. de modo que o empírico descrito se torna produzido pela linguagem como um real observado. o descrevem. pretende perguntar-se sobre esses limites no pensamento social. aspectos até então poucos assinalados pela bibliografia crítica. mais a primeira. logo tomado como verdadeiro. pelo mérito e unanimidade que Os sertões organiza. se não fosse também o tipo de linguagem que Euclides suscita em seu livro: ao mesmo tempo sociológica e literária. mas na descrição das operações teóricas por meio de referenciais que analisam o pensamento e. como um dos seus clássicos pressupostos. Apenas este dado já justificaria a abordagem deste livro para a análise da historicidade do pensamento social brasileiro. Tentamos apresentar outros aspectos do seu discurso. o livro de estreia de Euclides parece em realidade sintonizar um problema original já apontado por nós em relação à teoria social: a operação dos referentes como pressuposto do imediato na descrição social. em geral. para alguns. configura um campo de visão a partir da sua operação de descrição. vamos a alguns esclarecimentos que nos ajudarão a seguir delineando o caminho por nós percorrido. Na pesquisa sobre o conjunto teórico de Euclides da Cunha optamos para foco da análise o seu livro clássico publicado em 1902. em seu sentido geral. A descrição do cientista social deriva.

para esta tarefa. José de Alencar. extremamente materiais. Visconde do Uruguai. foi Regina Abreu (1998) em O enigma dos sertões. 281). Esta leitura sobre o clássico de Euclides. Abreu ressalta. Para Freyre. além de orgânica. p. a sua aura de clássico. compreender o princípio social atribuído ao livro de Euclides seria. a função de “culto da posteridade” atribuída à obra de Euclides. associando-a inclusive à sua inquirição psicológica que seria. “[t]ão novas que talvez não haja exagero em falar-se de um tipo euclidiano de ensaio”. desde 1902. 29). Este feixe nos levaria a pensar a proposta teórico-descritiva de Euclides da Cunha e em como ela é reincidente ou não de um tipo de razão teórica no pensamento social brasileiro. Antes de Regina Abreu. afirma o autor de Casa-grande & senzala. ainda que um ensaio clássico nunca envelheça. José Justiniano da Rocha. não é nossa. enfrentar a classificação e organização do seu título como emblema do pensamento social brasileiro. Tavares Bastos e Silvio Romero. enquanto a arte é sintética. Vale registrar que o culto do escritor como mártir nacional não é menos vinculado pelo próprio escritor – Euclides da Cunha – quanto pelos intérpretes e pela história do pensamento social que o incorporou. um culto organizado e de longa duração" (ABREU. na nossa pesquisa investigamos uma das teorias do pensamento social brasileiro e. Nesse sentido. gerações e perspectivas sem perder. com bastante desenvoltura. como pensamos com a autora. Assim. 1998. Pois. como a entende Freyre. Ainda que reconhecendo o mérito de ensaios e autores expressivos anteriores a Os sertões de Euclides da Cunha – autores como José Bonifácio. admitindo a presença do analista na obra de análise: maneira que Nietzsche parece ter aprendido dos espanhóis – sobretudo de Gracián – ao comunicar aos seus estudos filológicos alguma coisa de psicológico que terminou . p. Quem mais recentemente a fez. sob a reorientação que [Euclides] deu a esse gênero de expressão ganhou novas perspectivas na língua portuguesa” (FREYRE. por que a fama de Euclides da Cunha. mais especificamente de Os sertões. que são essencialmente teóricas. Joaquim Nabuco. de fato. sobre a singularidade deste estilo euclidiano: Diz-se da ciência que é a analítica teórica e impessoal. começamos pela análise do seu clássico fundador. Na obra de Euclides da Cunha predominaram as virtudes artísticas sobre as científicas. no livro de Euclides as perspectivas eram. reflexivas e. resultado de um “ensaísmo literário que. 60 amplo espectro de descrições sobre o social. e aponta no autor o início “do culto do escritor como mártir nacional. no seu estudo. 1966. contudo. neste argumento. não por paradoxo. Machado de Assis. sobre o Brasil. atravessou décadas. prática e pessoal. E sua própria maneira de ser cientista foi uma maneira hispânica ou ibérica. de fato. localizamos em torno do livro de Euclides um feixe teórico para a pesquisa. Gilberto Freyre já atentava para a fama de Euclides. Abreu se pergunta.

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sendo alguma coisa de poético. Não erraria, quem dissesse do autor d’Os sertões que
foi, à sombra dessa tradição, mas excedendo-a, uma antecipação do moderno
humanista científico: tipo de ensaísta que na língua inglesa vem se afirmando de
Havelock Ellis a Julian Huxley, de Lawrence da Arábia a Bertrand Russel, de
William James a Herbert Read. Esse humanismo científico ele o aplicou
principalmente a temas brasileiros: à análise de homens ou de populações regionais
e nacionais à qual acrescentou não só a revelação de intimidades características
desses homens e dessas populações como a glorificação de valores por eles, a seu
ver, encarnados. Nessa glorificação se expandiu seu pendor para o que fosse prático,
orgânico e até pessoal nos mesmos temas, de preferência ao que neles se prestasse
apenas a análises impessoais e a generalidades abstratas. (FREYRE, 1966, p. 29)

Em contexto anterior às palavras de Freyre, Araripe Junior escrevia sobre Os sertões,
em 1903, que “criticar esse trabalho, dizia comigo, não é mais possível. A emoção por ele
produzida neutralizou a função da crítica” (ARARIPE JUNIOR, [1903] 2003, p. 56). Tratava-
se também, na visão do crítico, de livro “único, no seu gênero, se atender-se a que reúne a
uma forma artística superior e original, uma elevação histórico-filosófica impressionante e um
talento épico-dramático, um gênio trágico como muito dificilmente se nos deparará em outro
psicologista nacional” (ARARIPE JUNIOR, loc. cit.). Nesses juízos críticos, afirma-se uma
linhagem da tradição de pensamento que se vale do ensaísmo como forma de comunicação,
da pesquisa e da própria subjetividade analítica do observador para existir como referência ou
operação do pensamento e da descrição sobre o que é visto. O pensamento social brasileiro
parece mesmo sublinhar que o Brasil é o que é mais aquilo que se fala dele, para usarmos
expressão conhecida de Luiz Werneck Vianna. Mais importante no caso de Euclides da
Cunha, porém, é o fato de que é possível encontrar neste escritor dilemas e respostas que são
mais do que falas. São mais do que falas não porque em Os sertões resolvia-se, nas suas
descrições, o problema do conhecimento do Brasil, mas exatamente porque não se resolvia
nenhum dos problemas ali tratados e, por isso, encontramos no fracasso dessa proposição
euclidiana uma chave para a sua descrição tomada historicamente como clássica.
O livro de Euclides coloca-se, nesta chave, como uma tentativa de resposta existencial
ao pensamento social nacional. Isto é, o dilema a partir do qual o seu texto se constrói baseia-
se na incapacidade do pensamento em integrar-se completamente a territórios figurados,
paraísos perdidos, cuja existência empírica parece não apenas sucumbir, mas também ser
insuficiente para garantir a sua sobrevivência. Diante desse dilema, ao invés de recuar, o
mártir intelectual – incansável nevropata, como Euclides se referia a si mesmo – avança sobre
o universo social e psicológico do sertão, dos desertos, do ignoto, na tarefa de compreender os
desvios, os limites e as contradições da vida social nacional sem com isso lograr abandoná-los
ou superá-los. O fundamento e a hipótese do pensamento social brasileiro parecem se
constituir pela insuficiência constitutiva de superar a sua própria reflexão, de onde o

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interessante aforismo, trazido recentemente na publicação que reúne exemplares deste
pensamento (BOTELHO; SCHWARCZ, 2009), cifrado sob a fala de Antônio Carlos Jobim,
“O Brasil não é para principiantes”.
Sobre esta insuficiência constitutiva do pensamento em Os sertões, seria interessante
destacar a compulsão demonstrada por Euclides da Cunha em corrigir os possíveis erros do
seu texto, bem como em melhorar a sua linguagem e o seu tom nas edições revistas pelo autor
em vida. Leopoldo Bernucci é quem melhor fez, na sua edição crítica, a pesquisa de
comparação e foi atrás do manuscrito de Os sertões para visualizar as diversas provas de
edição, das anotações e dos rascunhos de Euclides, trilhando então o caminho aberto pela
primeira grande especialista universitária da obra de Euclides, Walnice Nogueira Galvão
(2009). Bernucci e Galvão destacam as diversas revisões que Euclides realizou no texto
publicado em 1902 e nas duas seguintes edições publicadas em vida pelo autor. Na pesquisa
com os originais euclidianos, o perfil que Bernucci nos oferece é o de um peculiar maníaco,
de um escritor insistente, inconstante porém perfeccionista, que revisava pormenores da sua
escrita na busca de alguma suficiência que estaria todavia sempre condenada ao fracasso.
Galvão também parece atentar para este fato, ao dizer que significativas alterações de
particípio passado para gerúndio foram feitas por Euclides, ao longo das edições, de forma a
garantir um aspecto estrutural que diz respeito à duração, pois, como nos explica Galvão,
“[n]o particípio passado, a ação ou estado está terminada, enquanto no gerúndio ela se
apresenta em continuidade” (GALVÃO, 2009, p. 279). Isto indicaria nas emendas do livro,
segundo a autora,

[...] uma presentificação do epos [...] tudo está acontecendo no momento da leitura,
e não no passado. Assim, esta emenda contribui, e em larga medida, para o efeito de
ler-se o processo enquanto ele está ocorrendo, o que também é uma estratégia de
envolvimento do leitor. Quando agregamos tais modificações às imagens dinâmicas,
ou de movimento, tão características do autor, e à metamorfose de elementos
inanimados em sujeitos a que se atribuem sentimentos e iniciativas, chamada
prosopopeia, percebemos quanto esta emenda concorre fortemente para esse efeito
global. E como sua atenção ao estilo se revela prioritária com relação a qualquer
outra. (ibidem, p. 279-280)

De fato, as diversas revisões, algumas ínfimas ou de questões de ritmo, como o
acréscimo de uma vírgula para destacar um termo em uma oração, ressaltam em Euclides a
impressão de um escritor atento ao seu texto e que, sem descanso, parece sofrer e se martirizar
com o resultado final de cada edição. Nossa interpretação, porém, é que os efeitos alcançados
pelo seu texto não são apenas de estilo ou gramaticais, mas sociais e políticos – ou, em certa
medida, historiográficos, isto é, Euclides parecia fazer revista dos seus próprios referentes de

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escrita da história. Vamos abordar com mais cautela esse tema ao longo da tese, mas do que
se disse até aqui, seria interessante reter de Euclides a posição do escritor de trabalho árduo,
consagrado, mártir intelectual que não se redimia ao pecado do erro e, tampouco, pretendia
fugir ao destino da perfeição e do sacrifício pessoal para garantir sinceridade ao objeto
descrito. Como um escritor clássico da modernidade, um mártir reflexivo, o autor busca para
si a aura de singularidade genial dos artistas, porém, não sem o prejuízo de se descuidar, nesta
consagração, dos problemas teóricos levantados pelo seu texto.
Luiz Costa Lima foi o primeiro, em 1983, a nos chamar a atenção para esta hipótese.
Fazendo crítica ao que havia opinado Gilberto Freyre sobre Euclides, Costa Lima nos
argumenta que, sobre o gênio artístico de Euclides, “Com a entrada do cientificismo, e o
paradigma europeu da ciência clássica, estabeleceu-se a distinção entre a observação ‘neutra’,
impessoal, apenas analítica, tomada como observação científica”, a conviver em contraste
com um outro paradigma, o da arte ou da criação literária, de “observação comovida,
pessoalizada, concretizante, considerada observação poética” (LIMA, 1989, p. 220). Desse
modo, como examina Costa Lima, pelo menos uma parte da consagração literária, no caso de
Euclides, deriva do pressuposto romântico do sujeito passional da observação, descuidando-
se do operativo racional. Desse modo, “a capacidade de bem observar é reservada para a
apreciação científica, exigindo-se do artista que, sobre ela, acrescente a mobilização da
emocionalidade do leitor” (LIMA, 1989, p. 219); isto é, “a primeira cultivando faculdades
cerebrais, a segunda, as cordas do coração” (LIMA, loc. cit.). Aproximando-nos desta
hipótese de Costa Lima, sobre Euclides pensamos que, com efeito, sua aura de clássico indica,
talvez, em ter sido o primeiro entre nós cuja noção de intelectual por dedicação conjugou-se
com a percepção de um tipo moderno de escritor sentimental, empático, engajado, como
mártir da ciência social.
De outro parte, as descrições da mente, isto é, as atividades psíquicas sejam elas de
boa ou má direção, de fato, atraem a atenção de Euclides de modo que nela, na psique, ele
procure e reserve algumas explicações sobre o inexplicável de Canudos. Frente à carência de
sentido no que seria essencial no Brasil, Euclides ataca na psique as forças que lhe parecem
ser ocultas ou atávicas; por uma “série de artimanhas, tais como, por exemplo, a suposição de
que há algo familiar no inóspito, de que há explicações no inexplicável, nomes no
inominável” (BLUMENBERG, 2003, p. 13), a metáfora psíquica auxilia Euclides a
referendar o discurso que esbarra em seu próprio limite de referências. A partir disso, a
proposta assumida por nós, no enfrentamento ao texto euclidiano, procura fazer exame desse
limite em seu pensamento. Compreendemos, para isso, as metáforas da psique como

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referenciais possíveis para as operações de abstração e reflexão da realidade social nacional
produzidas em Os sertões. Tentaremos situar as referências presentes no texto euclidiano em
sua ambigüidade e tensão com o seu próprio procedimento descritivo. Contudo, a concordar
com Ricardo Benzaquen de Araújo a respeito do caráter ambíguo também presente em Casa-
grande & senzala (1933) de Gilberto Freyre, mas que aqui valeria, mantidas as diferenças,
como orientação para a nossa reflexão sobre Euclides: “será que este diagnóstico de
indefinição e falta de rigor encerra definitivamente o debate sobre o papel desempenhado pela
noção de raça” (ARAÚJO, 2005, p. 31), de Freyre, pergunta Benzaquen, em Casa-grande &
senzala? Se resposta distinta encontra Benzaquen para o livro de Freyre, sua questão parece
servir de orientação para o tratamento do indefinido e do indistinto bastante recorrente no
pensamento social brasileiro, especialmente referendado em torno da raça, por Euclides.
Para o nosso caso, com Os sertões, os elementos de indefinição racial trazidos pelo
autor tendem a assinalar uma cumplicidade marcada pelo tom da tragédia, como na referência
à “nevrose coletiva” identificada com Canudos, um “arraial maldito” (CEC, p. 108). Um
ambiente devastado pela seca, mas também massacrado pela civilização. Canudos, nesse
sentido, dramatiza a experiência de se viver na sociedade brasileira. “Imagina que imenso
esforço para ficar a cavaleiro de tudo isso...”, provoca Euclides, em carta de 23 de abril de
1896, endereçada ao amigo João Luís, sobre “os filhos fortes e robustos” que reagem “a este
clima deprimente”, como entendia o Brasil nos seus anos iniciais da República. Contudo, na
descrição empreendida por Euclides sobre Canudos, as perturbações e sofrimentos da psique
são igualmente associadas ao cataclismo de onde se origina o sertão, como analisaremos no
Capítulo 3 (“The mind’s eyes”). Este cenário de constantes atravessamentos mentais,
perturbações psíquicas, sofrimento e neurastenia se expandem e caracterizam, ao longo de Os
sertões, o mundo social do observado.
Apenas para fins de contextualização, também Manoel Bonfim havia dirigido para o
Brasil indagações a respeito da psicologia dos povos. Antes de Bonfim, Nina Rodrigues e
outros autores se detiveram sobre aspectos psicológicos, em suas manifestações sociais, como
mostra a pesquisa de Sônia Alberti (2003). Mais especialmente e ainda não investigada, seria
de valiosa contribuição um exame da obra de Farias Brito e de Oliveira Vianna, junto ao
desenvolvimento da psicologia brasileira em seu sistema de referências do real/social. Isto
quer dizer, também, mais particularmente em Oliveira Vianna, mas em diversos outros
autores do pensamento social brasileiro, que foi possível encontrar continuidades e
encerramentos sobre o tema da psique como dimensão descritiva do real, formulado no
começo do século XX, que parecem ter sido, em certa medida, desdobramentos de Euclides

65

da Cunha. Tornou-se nosso interesse, neste caso, primeiro indagar sobre como este conceito
de psique é referendado no discurso euclidiano, de modo inclusive a entender o campo do
pensamento social brasileiro, isto é, os “seus [de Euclides] sucessores imediatos nos estudos
de homens e populações brasileiras” (FREYRE, 1966, p. 29).
Mas não sejamos apressados e voltemos um pouco o passo. Euclides da Cunha não
raramente descreve a realidade social codificada em descrição psíquica – como uma
psicografia – de modo que identificando os caracteres definidores da terra, do homem e da
luta – as três partes que estruturam Os sertões – ele os repassa cada um por uma contingência
psíquica, como em cada uma das partes do seu livro assume uma determinada
correspondência descritiva psíquica particular que são interligadas entre si. O meio ambiente,
primeiramente, torna-se emblema de uma realidade trágica, convulsionada e originada por um
cataclismo inexplicável, uma convulsão interior. A descrição do meio sertanejo obedece a
essa “regra de reflexão” (como a define Blumenberg), donde supomos não se tratar as
alterações de gerúndio para particípio de uma correção meramente de estilo, mas de um acerto
teórico do autor. Isto é, a própria natureza descrita com pormenores evidencia a posição de
um ser em combate consigo mesmo, assumindo na realidade presente uma personalidade
trágica na sua própria descrição, como foi apontado anteriormente por Walnice Galvão
(2009).
Como quando, em um determinado momento, Euclides descreve a “psicologia da luta”
como o que define a vida no sertão. É a partir dessa psicologia que o seu texto, na sua
primeira parte, parece fazer escopo para promover a descrição daquele ambiente18. Nas duas
partes seguintes, “O homem” e “A luta”, esses aspectos de luta interior ressaltam novamente

18
Em uma reflexão com o ensaio de Hans Blumenberg, solicitamos a seguinte consideração: “Uma expressão
como ‘chove’ poderia ser vista como a forma originária de determinação mínima, como se pode verificar na
fácil metaforização ‘chovem protestos’. Quem é que propriamente chove? Já foi dito que este impessoal [isto
é, ‘es’ em alemão, indeterminação do sujeito] descreve a generalidade da situação em que se fixa o fenômeno
especial da chuva, do relâmpago e do trovão. Disso derivaria em conseqüência que para todos os verbos com
construções impessoais o sujeito seria idêntico. Mas aí nos deparamos com uma dificuldade verbal. Pode-se,
com efeito, dizer ‘chove, relampeja, troveja’, mas não podemos nos delongar em uma construção demorada
como ‘chove, relampeja e troveja’. A competência para a chuva parece menos deslocada que a de troveja e
de relampeja e também pode ser atribuída verbalmente, a um sujeito, em conjunto. É sobretudo decisivo que
a indeterminação em que se encontra o sujeito indeterminado [‘es’, em alemão; em português o sujeito
indeterminado não se representa] provoque a sensação de não haver nenhum destinatário que provoque um
efeito. Nesses efeitos verbais, parece que nos encontramos frente à necessidade de ver quem conduziu à
nomeação mítica dos nomes: se a chuva fosse uma realidade decisiva para a vida, não se deveria atribuí-la
àquele críptico impessoal [‘es’], senão que se deveria convertê-la em uma instância da capacidade de
denominação, que tivesse um nome e uma história, que tivesse se originado daquelas circunstâncias em que
se localizam os pontos fracos dessa figura e, com isso, sua força de influência. A indeterminação assim levou
diretamente ao mito, onde não pode ser aceita” (BLUMENBERG, 2013, p. 115-116, grifo do autor). Ao
longo da tese, vamos tentar argumentar em torno da metáfora da psique, bem como a sua contingência como
hipótese, fraca determinação como operativo, não obstante expressiva para transformar o ambiente sertanejo
em realidade absurda, trágica e, em alguns casos, mítica.

a chave para a interpretação do real efetuava-se também pela observação de um perfil psicológico. a doença. o crime e. tais como a fé. o cataclismo.5 Descrição e determinismo: os dois lados da observação A consagração do livro de estreia de Euclides. Aporia enigmática que se depreende da sua frase. um psiquismo que toca tanto no mental como no social. sob a ótica do autor. Por que aquela referência ao autor de The Physiology and Pathology of the Mind. a inconsciência. a histeria. Aspectos diversos que. sobre os limites nos quais a realidade se torna referencial. como um todo. a partir do sertão. a nevrose. isto é. 66 aqui e acolá. O ponto de partida é o de que entendemos o psiquismo euclidiano. 1. Em especial. no Brasil. o misticismo. caberia então indagar sobre o que Euclides entendia como sendo a psicologia da luta nos sertões. mas uma hipótese sobre o Brasil: a inconsciência que seria o principal crime nacional. não seria exagero considerar a realidade psiquista descrita neste ambiente como agregando-se às explicações necessárias para que se entenda a realidade social. a antropomorfia. de modo a alinhavar não um problema de estilo somente. 781). tomando-se então esta variante em suas mais diversas e gerais manifestações. Enigma que nos absorveu a atenção para pensar o porquê da citação do psiquiatra inglês em tamanha concisão. a neurastenia. talvez mais importante. se estamos nos perguntando a respeito do determinismo da realidade. em todo caso. p. Neste momento já aprofundado. É de se supor que dada a importância que o ambiente sertanejo apresenta no discurso euclidiano. e mais amplamente. a última que encerra o livro. a degeneração. Henry Maudsley. em certa medida abrangente e que aceita variações. Ou seja. a loucura. apenas logram se confundir sob a conduta de uma abstração teórica. ao final do livro? Qual a relação entre loucura e crime em Os sertões? Por que associar o médico psiquiatra ao universo brasileiro para a reflexão política? Foram algumas perguntas que suscitamos e tentaremos fazer exame ao longo desta tese. o psiquiatra e médico legista inglês. impõe para nós alguns problemas que nesta seção tentaremos examinar. como produção de uma hipótese. a mestiçagem e a sociedade nacional no Brasil. sob a alcunha de . “[é] que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades” (OS. por vezes inclusive chegando ao biológico e ao fisiológico. supomos. embora inconfundível. a raça. a opinar sobre as diferentes facetas do ambiente sertanejo e da vida da nação.

Ela sinaliza uma parcialidade ou entendimento consagrado sobre este autor. no texto de Euclides. grifo nosso). nesse contexto. dariam o tom geral sob o qual a marcha da evolução social brasileira precisaria passar. A hipótese que reduz Os sertões a um determinismo da natureza. grifo do autor). As nuances aqui podem ser valiosas. de trapaça” (BLUMENBERG. um tema cujo sistema de referências nos remete para o discurso do sentido histórico da sociedade. a psique controladora na expressão de “mercenários inconscientes”. aparecem quase naturalizados. de sua parte. A condenação pareceria algo determinada. dos conceitos e expressões essencialmente formais. As descrições de Euclides demandam do leitor a adivinhação bastante sutil. Tentamos o quanto nos foi possível resistir ao fator da consagração. que “[e]stamos condenados à civilização” (OS. exagera. que. Neste âmbito. 2013. 157). Nesse caso. Qual a necessidade do excesso em Euclides? Nesse sentido. p. O determinante de uma sentença enuncia. de convicção presunçosa. em torno dos conceitos e termos arrolados no texto. pode se assemelhar a uma “fanfarronada metafórica – questão que se põe: qual necessidade aí se oculta?”. Isto é. não vemos as coisas exatamente por esse prisma sobre o nosso autor. a “metáfora pode tornar visível a medida de fanfarronada que nela se esconde. quando este nos ensina que “a metáfora ligada a uma ideia [. O excesso metafórico que deriva. em definição dada por Euclides – em tudo atípica em relação aos “singularíssimos civilizados” do litoral (OS.. loc. 111). Os sertões recebeu os méritos de clássico não sem. de fato. no argumento euclidiano. como por exemplo. pouco citados em suas fontes ao longo do texto. “diante dos semibárbaros” que habitam os sertões. exagera evidentemente e mostra com clareza a insuficiência da materialização operada (Versinnlichung)” (BLUMENBERG. Psique e raça formam.]”. aí. Entretanto. tentamos esmiuçar os sentidos possíveis em suas metáforas. Mas antes seria preciso entender a pecha de determinista atribuída a Euclides. 157. p.. segundo tom geral da crítica. De onde se conclui. os dois principais termos formais – conceitos – que impõem para o leitor daquela obra um exercício vago de adivinhação e entendimento. de igual parte a má fama de reducionista. Estes civilizados. em descrever os sujeitos a partir de uma metáfora patológica ou psíquica. caberia repensar a alcunha de . mas constante. cit. contém um alto grau de presunção. ainda pensando junto com Blumenberg. atribui-se ao fato do autor encontrar no interior do Brasil uma população mestiça – sub-raça sertaneja. posto que “[a] nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social” (OS. na rota extrema desse argumento. à medida que. 67 determinista. p. não preenchidos de sentidos.. 784). “justamente porque se detém na determinação de uma afirmação que se parece teórica. p. em reflexão com Blumenberg.

A carência de elementos predeterminados é tamanha que a inquietação do leitor em face da equivalência é ainda maior que no caso da comparação de Kant do Estado despótico com a máquina estatal (que. esta afirmação indica. em ambas as situações. Meia-explicação não porque incompleta. (ibidem. de modo que. a metáfora ocupa. 2013. determina suplementar e retroativamente o sujeito. Como hipótese para deixar o argumento mais claro. ‘a pedra de mó’. p. como explica Blumenberg. em um texto legal. a metáfora “[a]ntes de tudo é. Dito de outro ponto de vista lingüístico. p. apenas uma meia-explicação. por outro. como recurso para operar uma hipótese social e política sobre o crime de Canudos. seria bastante para satisfazer a expectativa implicada. seria preciso compreender sob qual valor se fundamenta o determinismo euclidiano. A expectativa apenas pode ser rompida porque a determinação do contexto é bastante fraca. 109-110) . (BLUMENBERG. em um dado contexto. por outro lado. como uma “anomalia semântica”. Por certo. ou mesmo se ele se constitui de apenas um só valor. como no caso do nosso objeto de estudo. porque a força de determinação do sujeito é tão fraca que antes parece admitir qualquer determinação. 2013. caso correta. em um texto determinado. que se põe em lugar daquilo que. possa rodar de tal maneira que o grão venha a ser bastante moído). as relações de determinação são invertidas: o predicado. por exemplo. se não seria preferível. em contrapartida a esse perturbação provocada pela metafórica em um determinado texto. mas porque a metáfora psíquica comporta-se. “uma metáfora é ‘uma palavra em um contexto pelo qual é determinado que ela dá a entender algo diverso do que significa’” (BLUMENBERG. Pensamos aqui no que propõe Blumenberg a respeito da metáfora da história em Hebbel: Leio nos diários de Hebbel: ‘A história é uma pedra de mó’. Ao que Blumenberg propõe. que se destaca ou pelo menos deveria se destacar por sua determinação forte. por um lado. 108-109) Em Os sertões essa proposição pode iluminar aspectos pouco atentados. da homogeneidade que possibilita a leitura mecânica. p. 2013. A metáfora bloqueia a fluência da recepção do texto” (BLUMENBERG. uma posição de determinação fraca. Que se pode dizer quando se começa a frase por ‘a história’? Esse estado de coisas só se torna completamente claro pelo desdobramento da metáfora pela analogia que a amplia. descrita como uma pedra de mó. 108). uma perturbação das conexões. a descrição psicológica de Euclides. em vez de “é determinado”. deve ser firmemente conservada para que. uma vez que seja possível a atribuição determinista ao texto de Euclides. p. 108). a partir do lingüista Harald Weinrich. Mas. supomos. escrever “privada de determinação”. Na frase ‘A história é uma pedra de mó’. 68 determinista atribuída a Euclides. A metáfora é impossível. a determinação é bem menos restrita do que no caso em que alguém se refere à sua experiência com a burocracia. isto é. ‘a história’. no contexto.

pela sua clareza biológica? O meio diz respeito exclusivamente às forças físicas da natureza? As descrições psíquicas retratam diretamente o pensamento ou a mentalidade dos povos? Poderíamos responder. Empregá-lo. que comporta todavia a imprecisão e a contingência do observador. no caso específico do nosso estudo. de psique a um horizonte de sentidos que remete a um problema também histórico e sociológico. em realidade. No entanto. não obstante cercado de metodologias cientificistas. referente absoluto para o pensamento de Euclides. para um outro elemento substituto. ao mesmo tempo. Ao contrário de assumir um tipo de determinismo. de um tipo indefinido. O que é isso que pergunta e responde. Para sistematizar esta imprecisão. da psique ou da raça. 1993). refletimos. Sobretudo o conceito de raça. em Os sertões. A descrição do mundo como operação da linguagem. uma possibilidade de comunicação e descrição. A imprecisão que aparece em Euclides da Cunha não é um valor em si. o que encontramos em Euclides consiste em um uso complicado – desdobrado – da linguagem. na própria pergunta? Sem saber o que é isso. Nesta possibilidade. o sentido preenchido da raça teria utilidade na medida em que derivaria dessa atmosfera de imprecisão. todas essas perguntas possuem como respostas possíveis elementos do seu próprio enunciado. entretanto. Euclides tomou uma posição que. e precisa ser balizada pelo sistema de referências que o autor inclui em seu discurso para operá-la. na sua íntima associação com o discurso das ciências no fin de siècle do autor. expõe o conceito de raça e. o seu texto se desvia e apresenta-se privado de determinação. Comportando-se como um conceito-limite. as contradições de Euclides sobre a mestiçagem e o tipo antropológico brasileiro podem demonstrar uma resistência em vincular ao conceito de mestiço um único sentido. “A terra”. os conceitos chave da obra euclidiana permitem fazer a suposição de que. em um texto implica em tomar posição nesta tradição. oscilante e vaga. a princípio. não antecipava nenhuma referência do seu conteúdo e era mesmo. A raça pode ser ali definida. que não detém com a empiria uma relação de imediaticidade. assim como está colocada remete-nos apenas para uma face do problema de onde partimos. que se tornou mormente expressivo na tradição ocidental e. que sim. estes três conceitos aparecem sempre de maneira fraca sobre o que seriam os seus respectivos conteúdos. em particular. na reflexão nacional (SCHWARCZ. observamos que na divisão do livro de Euclides em três partes. 69 Seja o determinismo do meio. conservadas as devidas diferenças temáticas existentes entre cada uma delas. menos que um simples determinista. em certa medida. Supomos isso tendo em vista que as polêmicas em torno do texto de Euclides giram ao redor de um conteúdo vago sobre um conceito forte. A psiquiatria e a antropologia criminal. “O homem” e “A luta”. bosqueja o . Ainda que a hipótese possa ser confusa ela pode ser válida. como o de raça inferior.

(ibidem. seja na divagação e exploração de respostas sobre algumas características aventadas para descrever o embate entre a civilização e o sertão.. enfrentando-o sob um aspecto polissêmico de definição do fenômeno político. no argumento do crítico. Isso quer dizer que embora sem capítulo ou seção exclusiva. 1997. são mais do que apenas ilustração. p. seja ainda para retirar da raça um atributo biológico e desdobrá-la em perfis históricos e caracterizações sociais. O que vale dizer. mesmo depois de explicado. em Euclides. grifo do autor. mas como “perfeita tradução” de causas externas oriundas do meio. as roupas são elaborações dependentes das condições do meio. não existe como realidade autônoma. Isso equivale a dizer que. a constituição do psíquico nada revela da interioridade dos sujeitos. regra infalível?” (LIMA. a constituição psíquica não goza de nenhuma autonomia: é a ‘perfeita tradução’. aliás. nomeado como miragem ou ilusão. em descrição sobre . como ainda veremos. senão que a diferença por lugares entre os discursos científico e literário não é. Somente uma análise minuciosa da ambigüidade semântica do conceito de psique em Os sertões poderia situar o momento de explosão desse campo metafórico. Negando ao argumento de Euclides o imediato das deduções. Outras vezes.e. a psique recebeu de Euclides atenção constante. p. dentro do registro literário. esse desconhecido é atacado por uma explicação (de pretensão) científica. i. senão tende a confirmar elementos pressupostos no mundo exterior. o objeto escapa e. feita em determinado momento no texto euclidiano. porém. responsável pela explicação que justifica a borda. o ornato literário. Nos termos de Euclides. negrito nosso) Luiz Costa Lima afirma que a psique. em Euclides. sendo assegurado pelo instrumento mais seguro e inflexível: o determinismo total. 143-144. a máquina do texto se confunde com freqüência com sua ‘camada’ científica. Nesse sentido. os gestos.. Da maneira freqüente. A postura. próprias ao literário. teima em reaparecer na letra do texto. seja no auxílio à elaboração de problemas e hipóteses sociais. i. ornamentos. haveremos de concluir que a posição de borda e a função de ornamento. As minúcias literárias. Por exemplo: a descrição minuciosa do pensamento religioso sertanejo. a despeito da sua suposta derivação literária. não poderia nos levar à conclusão de que “os dois registros” – ciência e literatura – “têm uma zona de imbricação? E o que isso significaria. para Euclides. quando a matéria que as move inclui alguma coisa que ainda precisa ser conhecida. Costa Lima é quem primeiro enfrenta o tema da psicologia em Os sertões.e. bastante firme. 70 traço comum que alinha as matérias dispersas em um complexo que as comunica: os contrastes da consciência. descritivo e obliquamente científico nesse texto. o absoluto efeito de causa externa. culturais e psicológicas. o papel da explicação permanece confiado à ciência. só são motivadas. Como o inverso não se verifica – o discurso ‘sério’ abrir o flanco para uma expansão literária que o pusesse fora de eixo -. cientificamente captável. apresentam entretanto para nós um outro tema cuja relação com a psique parece se tecer. 143).

O que equivale a dizer que ela não se comporta como conceito definido. Deve-se sempre dizer que falar sobre algo que não se percebe e não está dado constitui uma operação mental definida. justamente pela metafórica desse referencial. a psicologia. . não é obra pura da invenção literária. 2013. uma referência que se comporta simultaneamente como conceito e metáfora. Na tentativa de clarear os pontos por nós aqui trazidos. 2013. tal como o indefinido da raça. 130) No referencial ornamental da psique. Ela deriva da própria fatura científica de uma hipótese de ciência da mente. ela assume outros veios de explicação sobre o descrito que nos sinalizam para uma categoria à parte no texto. não obstante a psique se apresente capturada pelo discurso científico. Atuando como metáfora. mas sem que isto implique em absoluta invenção. dito de outro modo. ornamentos. Esta explicação. mas antes como metáfora descritiva. solicitamos a Hans Blumenberg novamente algumas palavras sobre esta história dos conceitos. em uma linguagem metaforizada privilegiada para as descrições euclidianas. sendo o seu resultado. dizemos da psique que o seu suposto apresenta excessos como limites ao pensamento referencial. p. contudo. o determinismo total de Euclides parece ser de um tipo forte. (BLUMENBERG. obtendo rendimento através da “máquina do texto”. portanto. aquilo que perceptualmente não é presente. pois está relacionado ao ausente – mas não só para fazê-lo presente senão que ainda para deixá-lo ser ausente. como um conceito relacionado a uma “regra de reflexão”. senão fosse semanticamente bastante fraco. solicitando a reflexão de Costa Lima. isto é. Isto é. parece nos ambientar para um aspecto ético. Isto é. embora não se resuma simplesmente a uma invenção literária. pensamos que na indeterminação do conceito de psique. “o conceito alcança seu pleno cumprimento [onde] a necessidade da metáfora é a menor possível ou que é aí que menos se adverte a necessidade de um sucedâneo do imagético (Verbildlichung)” (BLUMENBERG. de “preenchimentos” que reserva a este conceito do psíquico uma historicidade política. Assim. p. O conceito também nos permite estabelecer lacunas no contexto da experiência. A psique se torna. a psique em Os sertões organiza as referências ausentes ou ocultas ao argumento. grifo do autor). a psique parte de um contexto científico para finalizar argumentações que a linguagem da ciência não permitiria no seu espaço do possível. como bem observa Costa Lima. Euclides aplica (e desdobra) o recurso psíquico como metáfora de um complexo do real que de fato (no sentido atribuído por Judith Schlanger) constrói argumento e o explica ao seu leitor ao longo da leitura. descritivo. Como conceito. 71 o psíquico enquanto conceito-limite em Euclides. e. 130. tornando-as evidentes por meio de metáforas. Essa operação. torna-se conceito. O conceito nos permite introduzir aquilo que é de conhecer e representar o que não há.

72

Se tomarmos a psique, como exposto em Os sertões, como um conceito-limite que
auxilia no entendimento do fenômeno que Euclides pretende elucidar em sua obra, isto é, do
embate entre as forças da civilização litorânea e a “deplorável situação mental” (OS, p. 66)
dos sertanejos do interior, configurando um conflito em que estes últimos “serão em breve
tipos relegados às tradições evanescentes, ou extintas” (OS, p. 66), precisaremos analisar em
que medida este conceito pode ser operacionalizado na caracterização do problema
apresentado.19
Como temos argumentado, Euclides estava quase convencido de que embora houvesse
uma relativa condição de igualdade natural entre os homens que, então, colocava a espécie
semelhante em situação de disputa, por esta suposição, o entendimento do problema da
dominação de uma raça sobre a outra permanecia ainda uma incógnita. Ele vai trabalhar em
diversos níveis essa incógnita. Ao recuperar o argumento de Gumplowicz, hierarquicamente
superior ao de Hobbes, Euclides pareceria por sua vez admitir uma disposição ao racismo e ao
preconceito étnico o qual, em alguns contextos, o autor tem sido de fato rememorado. O
próprio Euclides permite esse tipo de entendimento, quando diz, sobre Canudos, como uma
“imunda ante-sala do Paraíso (OS, p. 308)”; ou ainda, definindo as agitações sertanejas em
torno da figura de Conselheiro,

às rebeldias nascentes e relaxamentos inevitáveis de uma sociedade em que se
chocavam os vícios de um povo velho, agravados pela ‘bebedeira tropical’ e os
instintos inferiores de duas raças bárbaras. Desta alquimia horrorosa, tendo como
reagentes o deslumbramento solar, a canícula mordente e a terra fecunda, só podia
surgir naquela retorta Bahia desmedida aquele precipitado. (CEC, p. 155)

Não acreditamos que Euclides seja singular quanto a esses juízos. Diante do cenário
nosso atual em que o argumento racial pode ser também relativizado em função de sistemas
sociais menos específicos mas nem por isso menos concretos, podemos lançar outro enfoque
para compreender de que maneira Euclides chegava às suas conclusões sobre a diferença
demarcada entre as raças, bem como por que a mestiçagem era assumida como variante
indefinida a se definir em um “futuro remoto”. Nossa hipótese sobre este ponto se desenvolve
em duas frentes: a hipótese da diferença de raças em Euclides, quando admitida, revela-se

19
Estamos aqui pensando na sugestão de Luiz Costa Lima: “O que equivale a dizer, esta pesquisa deve-se fundar
em conceitos ou quase-conceitos, i.e., em enunciados generalizadores e operacionalizáveis, que darão lugar a
hipóteses a serem testadas, ainda que os defensores de sua diferença quanto às ciências da natureza neguem
que as ciências sociais possuam leis próprias.” (LIMA, 2000, p. 39)

73

fundamental na expressão de elementos antropológicos; a antropologia, tal como praticada
pelo autor neste contexto, caracteriza-se como uma ciência de variadas correntes e inscrições,
das quais algumas, para nós hoje, seriam mesmo indefensáveis, como a craniometria e a
frenologia, mas também de aspectos da cultura e da psicologia dos povos (ALBERTI, 2003;
CARRARA, 1998).
Nesta imprecisão que orienta a reflexão científica sobre a raça, logo preenchida por
operativos metafóricos, Euclides lançou mão de um referente vago – psique – caro não apenas
às pesquisas em antropologia e em etnologia, como de igual modo aos discursos do saber
humano, às ciências do espírito e ao que em parte se entende hoje como ciências sociais,
história, psicologia social e, em certo grau, filosofia. Podemos em alguma medida considerar
que, embora o autor de Os sertões mereça ser reconhecido pela sua dedicada atenção às
culturas marginais no repuxá-las para o foco de atenção dos grandes centros da civilização –
estejam estes centros localizados na Europa, na América ou no litoral do Brasil – esse
movimento se beneficia, em certa medida, da imprecisão que constitui o seu objeto, quando
permite, na recepção do seu texto, que preconceitos possam ser arrolados como conceitos
reais ou descrições sociais.

74

2. O DILEMA POLÍTICO EM OS SERTÕES

Acreditamos ter justificado, ao menos para um primeiro passo, o lugar ocupado por
Euclides da Cunha no pensamento social brasileiro, por isso, vamos partir agora para uma
análise pormenorizada do discurso propriamente de Os sertões. Antes de entrarmos nesta
análise, será apresentado um cenário que se concretizará como pano de fundo para o
entendimento do percurso que iremos fazer. Na primeira seção deste capítulo (“A simpatia
pelo dúbio”) discutiremos as noções de conceito e de metáfora a partir de Blumenberg,
considerando alguns temas abertos para este propósito sobre o livro de Euclides da Cunha. Na
segunda seção (“Canudos era a Vendéia”) o objetivo consiste em debater o recurso à história
no livro, por meio da comparação realizada pelo nosso autor entre a revolta da Vendeia no
contexto histórico da Revolução Francesa e o conflito de Canudos, na Bahia. A fim de
elucidarmos a variante de tema geral que insere Canudos em uma história, vamos analisar o
contexto social e político de onde Euclides procura afirmar essa comparação. Nesse contexto
não será surpreendente que, ao invés de movimento isolado, a revolta de Canudos encontre
similaridades com outros movimentos de insatisfação contra o novo regime republicano, em
sua referência euclidiana à Revolução dos Maragatos (1893-1895) no sul do país. Ao fim,
esperamos apresentar a hipótese através da qual se constrói o lugar do dilema político junto ao
cenário histórico no livro Os sertões. Este dilema euclidiano nós o encontramos no seu
suposto argumento metafísico da raça, colocado aqui como um tema de filosofia da história,
por onde se desdobra que o apelo para a evolução das instituições sociais passa a ser
fundamental para garantir o futuro do homem nacional.

2.1 A simpatia pelo dúbio

“O contraste é empolgante”
Euclides da Cunha, Os sertões.

Se estivermos corretos na hipótese que lançamos para exame nesta tese, acerca da
imprecisão conceitual e da argumentação de fraca determinação sobre a noção de psique na

75

construção dos argumentos em Os sertões, será possível assumir a partir de agora a aparência
desse referente psíquico que expõe reiteradamente o texto euclidiano sob o movimento de
uma ambigüidade. Se, com efeito, estivermos corretos nessa hipótese, poderemos avançar
diretamente sobre as dualidades e oposições que inauguram contrastes que realçam as
ambigüidades fundamentais, diríamos talvez, quase propositais no argumento de Euclides.
Uma dessas ambigüidades que não menos se revestiu de polêmica, a hesitação tornada
controvérsia em reconhecer Os sertões como obra de ciência ou de literatura, tem
aprofundado, ainda hoje, mais do que levantado suspeita sobre as afinidades dúbias em torno
desse livro. Sem querer trazer novidade para este assunto polêmico, em particular, nosso
interesse é o de deixar ressaltar um cenário onde argumentos contrários que rivalizam entre si
tentam consolidar uma legitimidade para o discurso. Feito cordas bambas, em instabilidade,
que balançam e se alinham sob a expectativa de inscrever com segurança um espaço
discursivo autônomo para Os sertões.
Cabe registrar que não apenas ciência e literatura, mas uma série de outras
ambigüidades e contrastes retorna sobre o livro de Euclides – civilização e barbárie, litoral e
interior, fé republicana e religiosidade mestiça, retrógados e degenerados, sertão e porto,
lagoa e mar – como se a confirmar a vocação contraditória dos problemas ali tratados,
característica euclidiana já assinalada, entre outras mais, por Nísia Trindade Lima (1999;
2009). Segundo a autora, consistindo

Texto clássico e identificado em muitas obras como marco inicial da constituição de
um argumento sociológico sobre o Brasil, Os sertões pode ser lido como uma
viagem, cuja origem estaria no Rio de Janeiro da Belle époque. O dualismo
litoral/interior poderia encontrar uma nova representação geográfica na oposição rua
do Ouvidor, com suas livrarias, cafés e muito do que Euclides da Cunha considerou
expressão de uma civilização de copistas, e o sertão de Canudos, ambiente
caracterizado pela supremacia da natureza sobre o homem, pela quase
impenetrabilidade da caatinga e pela autenticidade da nação. (LIMA, 1999, p. 67-
68)

Os enunciados de contrastes em Os sertões são, de fato, diversos e parecem preparar o
argumento euclidiano no seu interesse pelo que é fugidio e, em especial, pelo autêntico que
supostamente se oculta no sertão. Nessa chave é que Euclides inicia o seu livro, com a
descrição do “fácies geográfico [que] resume a morfogenia do grande maciço continental”
(OS, p. 72, grifo nosso). O autor, na pretensão de apreender o caractere ou aspecto (fáceis)
que resume a morfogenia do solo do Brasil, embora se posicione para apontar um esforço de
síntese, portanto de conhecimento objetivo, expressa no seu resumo o efeito de abreviar e
encurtar relações que, sem este operativo sintético, estariam perdidas e desligadas na

76

construção geral do seu discurso. Desse modo, já sabendo de antemão da importância da
morfogenia do solo para o desenvolvimento do argumento no livro de Euclides, nós podemos
entender que essa descrição abreviada, lançada logo nas “Preliminares” que abre o texto – tal
como uma hipótese que controla o seu discurso –, revela uma prévia que voltará a se exibir a
seguir e sucessivamente ao longo do seu texto. Assumindo essa hipótese é que Euclides
insiste no paralelo entre o fácies geográfico e o conflito de Canudos, paralelo que encontra a
sua transversal em Antônio Conselheiro.

Da mesma forma que o geólogo interpretando a inclinação e a orientação dos
estratos truncados de antigas formações esboça o perfil de uma montanha extinta, o
historiador só pode avaliar a altitude daquele homem [Antônio Conselheiro], que
por si nada valeu, considerando a psicologia da sociedade que o criou. (OS, p. 251-
252, grifo nosso).

Em referência ao procedimento de conhecimento adotado por um geólogo, Euclides
planeja resumir o fácies geográfico de um ambiente do “maciço continental”, o Brasil, para
extrair da rocha a imagem de um perfil humano. Para tanto, opera pelo registro das
caracterizações, lançando mão da descrição geológica como técnica narrativa de observação
da semelhança entre a terra e a descrição psicológica de Conselheiro. Nesta sua singular
observação, o autor assemelha o homem a uma realidade profunda e oculta “considerando
[para isso] a psicologia da sociedade que o criou”. Ao fazer isso, Euclides se propõe a
demonstrar a suposta similaridade entre geologia e história, de onde se desdobraria um perfil
psicológico, “por um corte meridiano qualquer, acompanhando à bacia do S. Francisco”, de
modo que surja aos nossos olhos, neste corte de “análise mais íntima” (OS, p. 72), uma
imagem remota mas completa da estratificação étnica brasileira.

Vê-se, do fato [do fácies geográfico, em análise mais íntima], que três formações
geognósticas díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se
entrelaçam, em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo de
umas, ou a combinação de todas, os traços variáveis da fisionomia da terra. (OS, p.
72)

Se compararmos esta descrição com uma outra descrição que Euclides empreende
sobre o homem do sertão ou mesmo do tipo antropológico brasileiro, teremos uma situação de
analogia descritiva instalada pelo indiciário. Isto é, “Convindo em que o meio não forma as
raças, no nosso caso especial variou demais nos diversos pontos do território as dosagens de
três elementos essenciais” (OS, p. 174), tendo em vista que três formações rochosas díspares
comportam três elementos essenciais “em estratificações discordantes”. Ainda que Euclides

muito mais pela plasticidade do magma do que pela solidez das rochas. que se deslocam em migrações seculares aparelhadas embora pelos recursos de uma cultura superior. e se adaptam. Euclides extrai o seu conceito de raça da sua formação como lógica científica. Neste momento. p. Além disso (é hoje fato inegável) as condições exteriores atuam gravemente sobre as próprias sociedades constituídas. de um tipo diferente. jogando com variantes indefinidas e que se fazem enquanto recíprocas. do processo histórico de composição das raças em outra variante. 175). pela própria diversidade das condições de adaptação” (OS. grifo nosso). p. isto é. protegidas pelo ambiente de uma civilização. contraditoriamente. aumentando] o valor relativo da influência do meio” (OS. Nesta perspectiva. gerando índices sociais e resumos psicológicos. p. Ressalta. e também processo histórico de hereditariedade. isto é. a formação dos aspectos originários da raça. todavia. o indefinido. A mestiçagem é apresentada como uma categoria que restaura e reabilita o remoto. em que encontra o seu sentido na indefinição e por resultado – no Brasil – no mestiço. Isto é. plasmático. que “a justaposição dos caracteres coincide com a íntima transfusão de tendências” (OS. destacando a intimidade que parece secretar. Delongando o determinante da raça para o remoto. “no nosso caso especial” a mistura de “três elementos essenciais” poderia explicar não a raça. que é como o plasma sanguíneo desses grandes organismos coletivos. em fórmula de todo desconhecida. isto é. é . Se isto se verifica nas raças de todo definidas abordando outros climas. Desse modo. alteando [isto é. 175). mas a mestiçagem. 174. na insistência de se buscar a gênese de formação. Esta determinação. Euclides insere o processo histórico como campo produtor dos índices de dosagens diversas causadoras do indefinido racial. 77 pareça distanciar-se do argumento da determinação do meio para a formação das raças. o paralelismo entre biologia e raça confirma-se. “o advento de sub-raças diferentes. nas capacidades das raças que se cruzam. Aparelhos e recursos se deslocam. como primeiro aspecto da sua análise. p. contudo. “a longa fase de transformação correspondente erige-se como período de fraqueza. na construção euclidiana de determinação do meio sobre o homem. Euclides explicita o seu desagravo sobre o argumento de uma pura determinação do meio. segundo Euclides. 174-175. sendo por isso a civilização “como que o plasma sanguíneo desses grandes organismos coletivos”. Além disso. migram. Euclides se declara autor determinista. A dosagem – tida como o testemunho histórico desse processo – dos elementos rochosos díspares “prepara”. a raça que Euclides tem em mente se caracteriza. grifo nosso) A civilização é tomada enquanto ambiente protetor. são incorporados nela. que não diremos da nossa situação muito diversa? (OS. uma raça indefinida resultante de um processo. Nesse ponto.

ressalta a significação mesológica do local. Como afirma Stephen Gould. Ou ainda. “Darwin era um mestre da metáfora” (GOULD. em que pese o fato contrário verificado entre nós. assume o seu lugar em uma filosofia da história. Se. aproximação que é feita através da denegação do convênio entre meio e raça e abertura para elementos outros que se mutuam. no Brasil. quando esta é percebida como um processo. estes. Nenhum pioneiro da ciência suportou ainda as agruras daquele rincão sertanejo. p. Indefinição que. 2000. nas teorias contemporâneas à sua observação. pela sua própria referência como resultado histórico – o mestiço –. grifo nosso). “a primeira de suas metáforas para a nova teoria da evolução” (GOULD. como uma evidência da observação que associa o método ao visto e dissocia ambos de uma instância discursiva ou da reflexão (FOUCAULT. Ciente dessa intromissão do mestiço no argumento da determinação racial. com uma inércia cômoda de mendigos fartos. por um lado. ao que conclui o nosso autor. (OS. Perpassado por indefinições e influências recíprocas. mutuam naqueles lugares as influências características de modo a não se poder afirmar qual o preponderante. como citamos. Este argumento histórico processual e recíproco sobre a natureza não é novo.e todas persistem nas influências recíprocas. 171-226). na análise darwiniana sobre o comportamento das montanhas. as condições genéticas reagem fortemente sobre os últimos. p. Euclides opina a respeito dos limites do seu livro: “o que se segue são vagas conjecturas” (OS. encontramos a seguinte metáfora – segundo Stephen Gould. dessa forma. 101-102. o meio importa para a raça. Deste perene conflito feito num círculo vicioso indefinido. 1993. 309). por sua vez. como vimos. encaminha-se o seu argumento pelo inquérito de uma aproximação pretendida entre constituição biológica e formação racial. De acordo com este historiador. onde essa relação parece na realidade se inverter. grifo nosso) Ninguém logrou. p. em prazo suficiente para o definir. Escasseiam-nos as observações mais comuns. Neste sentido. 102. definir o indefinido da raça sertaneja. 78 remota e se entende. contribuíram para o agravamento daquelas. Ou seja. mercê da proverbial indiferença com que nos volvemos às coisas da terra. Não há abrangê-la em todas as modalidades. e podemos encontrá-lo anteriormente em Charles Darwin. Dos breves apontamentos indicados resulta que os caracteres geológicos e topográficos. . 310): . p. a partir de um “perene conflito feito num círculo vicioso indefinido” que é de onde se “ressalta a significação mesológica do local [o sertão]”. p. O argumento pontua. antes de Euclides. a par dos demais agentes físicos. na medida em que o plasma civilizatório não nos protege como deveria. neste sentido: o “mestiço é um intruso” na luta das raças. “que o meio não forma as raças”. 1993.

direito e poesia. Este argumento poderia se replicar também sobre a particular variante religiosa que determinaria o tipo sertanejo. de ser humana. abrindo novas lacunas ao desalojar as mais fracas. uma cumplicidade. para fins de classificação. um forte. Uma vez que Euclides qualifica estes últimos como degenerados. da nossa comum origem européia” (NABUCO. começa o predomínio destas sobre aquele. p. 207). arte. como a dos europeus com quem temos o mesmo fundo comum de língua. do meio e da raça. religião. Ambos são tipos mestiços. processual. Estamos assim condenados à mais terrível das instabilidades. o suposto da determinação sobre eles manifesta-se de modo moral. Assim como em Darwin. justamente. Isto é. isto é. que caracteriza o mestiço. como se crismou em Paris a vida elegante dos milionários da sul-América. no entanto. p. o recíproco. gerando entre eles como que uma competição generalizada. A nossa imaginação não pode deixar de ser europeia. isto é. e à Europa. portanto. antes de tudo. do nosso espírito. segue pelas civilizações todas da humanidade. de Euclides. no que ela se verifica. a mesma imaginação histórica. e é isto o que explica o fato de tantos sul-americanos preferirem viver na Europa. o que os diferenciariam configura-se. aqueles primeiros recebem o qualitativo de retrógados. 49) . por suas camadas estratificadas. 79 Pode-se dizer que existe uma força que se assemelha à ação de 100 mil cunhas. Na descrição de ambos. Para 20 Em argüição semelhante. em especial. mas não apagadas. sem referências seguras sobre o que é determinante. Desde que temos a menor cultura. podemos elucidar a hipótese sobre o determinismo do meio sobre a formação étnica brasileira. em algo além do que o simples fator da raça. A loucura sertaneja que advém desse movimento de refluxo. o argumento euclidiano parece. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”20 (OS. 135). não se caracteriza da mesma forma que a loucura degenerada dos “singularíssimos civilizados” das cidades. as crenças do mundo sertanejo retiravam a sua determinação de um influxo do passado. Joaquim Nabuco também se pronuncia a respeito das diferenças históricas e dos tempos inconscientes dos povos. p. p. Darwin introduzia a ideia de uma reciprocidade complexa dos fenômenos naturais. (DARWIN apud GOULD. cuja reação evidenciou-se na própria nevrose de Canudos. 311) Com essa metáfora em mente. do Brasil. e. como a estabilidade da raça aparece lançada para um futuro remoto. 2004. flutuante. a explicação é mais delicada e mais profunda: é a atração de afinidades esquecidas. continuamente. brasileiros – o mesmo pode-se dizer dos outros povos americanos – pertencemos à América pelo sedimento novo. da instabilidade entre o sentimento do interior e a cultura da civilização. e a sua respectiva variante incongruente. isto é. desde que haja um raio de cultura. “Nós. tentando forçar todos os tipos de estrutura adaptada a preencher as lacunas da economia da natureza.. tendo ainda como resultante o indefinido. “O sertanejo é. porém com conclusões suavemente distintas às de Euclides da Cunha. em que pese os fatores de assimetria e hierarquia presentes na vida natural. que estão em todos nós. Sob esta luz.. ela não pára na Primeira Missa no Brasil. ou melhor. os mesmos séculos de civilização acumulada. Não são os prazeres do rastaqüerismo. para continuar daí recompondo as tradições dos selvagens que guarneciam as nossas praias no momento da descoberta. constituir-se em índices do sertão descrito que se compraz em “um jogo permanente de antíteses” (OS. 1993. embora acompanhando o movimento de uma seleção.

dos traços do ser. isto é. Para Euclides. Mas movendo-se em quê? Para responder a essa pergunta. 100). de forma clara. Isto quer dizer que a conservação social não deveria prescindir dos institutos da ordem republicana. alteridade) entre o mestiço do litoral e o seu respectivo do sertão. Como logo esclarece aquele historiador. como veremos no último capítulo da tese (“Duas linhas que levam o mundo consigo”). Entretanto. 80 classificá-los. que tanto o tempo como a psique não se determinam por nenhum outro aspecto a não ser pelo outro referente mestiço que. Newton abandonou o âmbito da experiência. causando estranhamento e dificuldades graves no reconhecimento das suas respectivas cumplicidades raciais. todos aqueles espaços relativos talvez fossem sistemas de coordenadas em movimento. O inerte neste caso admite a lei do progresso de maneira relativa. que a evolução da raça deveria ser afiançada à conservação do social. Não só o corpo que servia de referência era acessível aos nossos sentidos. em suma. estaria na verdade melhor garantida quando os “rudes patrícios” pudessem fazer parte de um todo orgânico. Seguimos. portanto. p. ao menos provisoriamente. traz a marca do indefinido. mas da mesma forma a psique já elaborada como metáfora da consciência. Euclides argumenta. o tempo constitui o operativo de distância. serem incorporados à nossa “existência política”. nesse caso. ou como Euclides já havia expressado. Mas não era assim para Newton. os sistemas de coordenadas não passam de uma ficção útil. para empregar termo atualmente antropológico. Não apenas o tempo. a leitura de Max Jammer sobre a primeira lei do movimento dos corpos de Newton. como o ‘espaço relativo’ dependia dele. Dada a concepção newtoniana realista dos objetos matemáticos. Na medida em que a “alma do matuto é inerte ante as influências que a agitam” (OS. da definição jogada para um futuro remoto. equilíbrio ou movimento uniforme – estabilidades – seriam definidores do projeto político adequado ao Brasil. Como garantir entretanto esta incorporação? Euclides não parece sequer responder a essa pergunta diretamente. Mas essa acessibilidade à percepção sensorial produzia uma noção que só tinha validade provisória e à qual faltava generalidade. o conceito de parada. a conservação social. ao qual os lugares e os movimentos dos outros corpos pudessem ser referidos. Na física moderna. “a marcha retilínea do dever. mas aventa hipóteses sobre a possibilidade de materializar o futuro da raça recorrendo-se a uma filosofia da história. Com palavras que se tornaram famosas – ‘Nas investigações filosóficas. que é o mesmo que pensar a existência da sociedade nacional. isto é. devemos nos abstrair de . consistiria no outro elemento que distanciaria os dois tipos mestiços. p. neste assunto. Inércia pode ser pensada aqui no seu referente conceitual como aparece na física newtoniana. de dessemelhança ou estranhamento (ou ainda. 244). Era bem possível que não houvesse nenhum corpo em repouso. não devemos nos esquecer com esse referente comum da raça. é fácil compreender por que esses espaços relativos formavam ‘medidas sensíveis’. através do tumulto da nossa sociedade” (CEC. No caso do tempo.

enquanto um “tipo que se procura”. Esse absoluto. (JAMMER. voltemos ao texto de Euclides a fim de compreendermos o que a indefinição do sertanejo reservava para a evolução social do país. sem querermos acachapar o argumento. raça é um referente não empírico – ou seja. O movimento retilíneo uniforme exigia um sistema de referência diferente do de qualquer espaço relativo arbitrário. Raça aparece como um conceito a ser mobilizado para entender uma hipótese histórica. Mas. não diretamente uma realidade empírica. [. ela permitirá compreender que o argumento da raça. Se assim justificada. a verdade suprema. Explicando melhor este argumento. Pelo contrário. como pretendia ainda. Pois. agora sob o esquema de Euclides: estável em um futuro remoto. na ciência natural como era entendida no século XIX. embora presente em Euclides. Por isso ele foi acertadamente chamado ‘espaço verdadeiro’. não caracteriza empiricamente uma determinante do meio físico sobre a formação biológica do sertanejo. o referente natural era . 136-137) Esta longa citação introduzida no texto se justifica pela possibilidade de refletir acerca do que ela oferece ao argumento que estamos desenvolvendo na tese. O grau último de exatidão. é mobilizado de um modo não empírico. filosofia e natureza não constituíam partes desligadas de uma reflexão antropológica racial.] Para Newton. 81 nossos sentidos’ – introduziu o espaço absoluto e imutável. a menos que seja compelido a modificar esse estado por forças imprimidas sobre ele’. Feito este recuo para reflexão. a estabilidade e a inércia dos elementos sociais. só poderia ser alcançado em referência a esse espaço absoluto. 2010. pelo menos sobre o ponto que vamos examinar a respeito do crime nacional.. comporta-se como um referente absoluto. Euclides desdobra a referência da raça para uma outra instância que não está simplesmente no espaço da biologia. Situada nesta posição como resultante de um processo histórico.. supomos que a raça de certa maneira parece ser mitigada a partir das orientações políticas preconcebidas por Euclides. como um referente abstrato. no entanto. Era um pré-requisito necessário para a validade da primeira lei do movimento: ‘Todo corpo preserva o estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta. Um limite a partir do qual outras referências poderiam ser consultadas a fim de situar os corpos em movimento ou. p. Devemos recordar que. devemos partir agora ao seu exame. Ou seja. nas seções que se seguem vamos analisar como o referente da raça é subsumido em relação aos efeitos políticos possivelmente ativados na sua solicitação. do qual o espaço relativo era apenas uma medida. Retomando o debate com Gumplowicz. Isto quer dizer que o determinismo racial em Euclides se baseia em uma causalidade teórica que tinha como efeito uma contemporização de ordem política. como uma “necessidade lógica e ontológica”. como a incorporação dos irmãos mestiços indefinidos e ignorados pela civilização. a raça importa para o argumento de Os sertões. o espaço absoluto era uma necessidade lógica e ontológica.

isto é. 1982. em contrapartida. “separava por completo o plano animal do humano”. uma vez que nela necessariamente se realiza a materialidade da vida e se apresenta a não coincidência entre os tempos históricos. em sua “instituição perde[-se] ao mesmo tempo sua aptidão e seu objetivo. base esta aproveitada de leituras sensacionistas da filosofia moral escocesa. Nessa correlação entre biologia e história natural. Desse modo. enquanto ciência natural. o meio ambiente e a função”. marcante no iluminismo escocês mas mais marcante ainda no pensamento psicológico do século XIX europeu. a biologia corresponde ao conjunto de estudos especulativos e abstratos realizados nos seres vivos. apresentava “regras de reflexão” para o pensamento social. 65-72 passim). em sua leitura dos filósofos morais. nas suas palavras acerca e em defesa da objetivação do sujeito. Esta premissa pode ser verificada nos escritos de Charles Darwin. a ciência biológica era solicitada pela sociologia. Comte “insiste no caráter concreto. A história natural. instaurando como evidência dessa afirmação a referência “especulativa e abstrata do organismo” que seria próprio da ciência biológica (COELHO. “do próprio sujeito” (ibidem. Comte “distingue a biologia – ciência abstrata – da história natural – ciência concreta”. De modo que. psicológica. seria o referente concreto da biologia. Este autor mostra. de John Locke mas também de David Hume. ibidem). segundo interpreta Francisco Teixeira Portugal. o mais complexo dos fenômenos”. entre o evento passado e o homem do presente. isto é. “estabeleceu uma trilha de pequenas diferenças entre os seres vivos”. os quais são examinados conforme a organização que lhes é própria”. Nesse sentido. Nesta interpretação. A biologia. Para isso. isto é. “o órgão. “o mais difícil de se conhecer através de uma análise abstrata” e “tampouco pela investigação das aparências pela descrição dos aspectos superficiais”. da vida natural. para Darwin. por uma base biológica. Comte aponta em sua crítica para a “ineficiência de uma tentativa de objetivação do comportamento humano a partir da abstração de um aspecto essencial deste fenômeno”. O concreto é. a história natural torna-se mais concreta e empírica do que a biologia. 95). 82 constantemente mobilizado. como o pressuposto da seleção natural não operava estritamente. porém. p. global. Darwin. como um referente que se aplicava ao mundo da empiria. composto e mesmo subjetivo do comportamento humano. nos textos de Darwin. para o positivismo. mas também. o que quer dizer. p. mas para Darwin esta oposição “deveria ser contornada”. A oposição entre instinto e hábito. como resultado desse argumento. sob o efeito de instaurar limites ao pensamento propriamente mais especulativo. recusando a Natural Theology . classificando-o. ou seja. “Segundo Comte. como a própria análise que ela desenvolve: pois a abstração tende a cessar no momento em que o objeto e o sujeito coincidem” (ibidem. Em realidade.

os supostos atributos que poderiam ser identificados na bios do mestiço são deslocados e passam a ser percebidos em uma linha temporal dilatada. derivada das reciprocidades entre o meio físico. revisões que Darwin argüiu em seu livro. Darwin remetia a sua existência a uma hereditariedade que. Segundo a lei de Paley: “o que é conveniente é certo. Sob esta inversão. Nesse quadro ampliado. a conveniência dos traços herdados era a regra. O remoto. os seus traços característicos” (OS. a história e o tipo antropológico. bastante reclamado por Euclides. opera nesse caso como um referente de controle sobre o trânsito entre aqueles dois níveis do discurso: o absoluto (futuro remoto da raça) e o simultâneo (complexo presente de causas). Darwin apresentava proposta diferente sobre as leis de seleção e de hereditariedade. atribuindo-lhe uma significação histórica e psicológica: assim. o processo histórico cuja resultante faculta ser esperada – “futuro remoto” –. . pois esta se transforma em processo. Mas ele deve ser conveniente no todo. Na verdade. O corpo em fusão. e por conseguinte a história. Se. neste sentido. em especial. Ele apresenta o argumento da raça. a partir de uma filosofia da história cuja referência. melhor. em todos os efeitos colaterais e remotos. variante biológico. 2007). o caso de uma relação particular variante. Euclides não destoa do seu tempo e fará a sua hipótese metafísica também com relação à história. a sua hereditariedade. Euclides insere no seu curto-circuito textual um argumento em evidente contradição com o enunciado elaborado de que “o meio não forma as raças”. A difícil definição do remoto da mestiçagem torna-se. ele aceita. não demarcavam o futuro. A descendência do homem (DARWIN apud PORTUGAL. Diante do apresentado. 175. isto é. não prescindia de uma historicidade própria. todavia. p. Darwin se opunha à Paley. e aquele “como que estampa. devido à própria infinidade de fatores que mutuam na evolução das formas de vida. por longo tempo. geralmente desenhada pelo sistema descritivo da psique. pois. “estou inclinado a afirmar que as ações que forem necessárias por diversas gerações (como amizade aos companheiros em animais sociais) são as que são boas e consequentemente provocam prazer e não como regra de Paley que no futuro serão boas”. expressa no presente os seus traços característicos do tipo antropológico pelas suas ausências. Darwin deslocava o sentido de conveniência. no corpo em fusão. como estabelecido por Payley. assim como nos que são imediatos e diretos”. nesse caso. de 1871. 83 (1802) de Paley. eleva-se a influência do meio que dilata a definição da raça. Isto equivale a dizer que o referente biológico esperado para a visualização dos caracteres da raça está na alçada de um outro referente metafísico – o psíquico. grifo nosso). Caracterizando a raça indefinida como resultante e variante de um processo. para o Brasil. ou seja. é o sociólogo já citado Gumplowicz. então.

Euclides repousa o seu pressuposto racial em um limite metafísico. Na carta. tempo e competência para nos enredarmos em fantasias psíquico-geométricas. o desenvolvimento desse ceticismo sobre o método da biometria vai nos revelar uma posição importante ocupada pela reflexão psicológica de Euclides. p. Isto sem método. um contra-senso neste argumento que gostaríamos de examinar. Euclides assumia que “um dos maiores problemas desses tempos. o profundo. em desacordo com o determinismo de uma norma superior da ciência. portanto. é 21 Um resumo dessa corrente neste contexto pode ser consultado em Blanckaert (2001). o objeto de reflexão do pensamento racial. Euclides se mostra cético em relação aos ganhos dessa corrente antropométrica quanto ao esclarecimento da indefinição antropológica do tipo brasileiro. Partindo do suposto de que a raça participa. um limite sobre o excessivo emprego de elementos físicos e naturais predominantes na caracterização do homem pela biologia. que ela apresenta dois efeitos discursivos distintos – localizados no reconhecimento de caracteres físicos presentes e na descrição de um tipo antropológico em formação. . para ser encarado com firmeza exigiria muito estudo e muita atenção” (CEC. ligando-se a sérias questões da mecânica e da física. Isto parece se coadunar com a opinião do autor. Prossigamos considerando diretamente a figura original dos nossos patrícios retardatários. talvez não os compreendêssemos melhor. 112). medindo o ângulo facial. do mesmo passo. quando menos. p. despretensiosamente. evitando os garbosos neologismos etnológicos” (OS. na sequência do argumento do autor: Faltara-nos. Nas importantes linhas que dispensa ao tema da raça em seção que recebe o título “Uma raça forte” (OS. Pois então. que hoje se exageram num quase materialismo filosófico. parece-nos persistir. 84 assim. p. O “futuro remoto” que estabilizaria a indefinição das sub-raças mestiças em uma raça definida impõe. grifo do autor) Decidindo-se concluir. (OS. 204- 205. O ilusório na antropometria. ao amigo Domingos Jaguaribe. ou traçando a norma verticalis dos jagunços. Entretanto.. 202-205). o verdadeiro. embora não possa ser verificado empiricamente. dubiamente. Se nos embaraçássemos nas imaginosas linhas dessa espécie de topografia psíquica. Nas suas palavras: “Deixemos [.. por primazia. É desse modo que Euclides se mostra reticente em relação à antropologia biométrica do seu tempo 21 . e a favor da referência do real – tanto verdadeira quanto ilusória – apreendida pela visão sincera do observador. de que tanto se tem abusado. para o tipo antropológico brasileiro. p. Em realidade. derivando-se dele uma série de metáforas sobre o oculto. 204). expressa em carta de 23 de dezembro de 1897.] este divagar pouco atraente. em dois níveis de discurso – o que equivale a dizer.

como criadoras de “garbosos neologismos”. o argumento euclidiano faz uma pausa e retrocede. com aqueles desconhecidos singulares. grifo nosso) Nosso autor se distancia do método científico da craniometria e da frenologia que são consideradas. todavia. Por método. Não há um tipo antropológico brasileiro. de modo diverso as nossas camadas étnicas. 85 acusado pelo nosso autor como vindo da especulação determinista da ciência materialista- filosófica. como indicam a história. intactas. adicionam-se. por uma observação do mundo sertanejo “sem método”. pretensamente sem derivar. atento. acompanhando a celeridade de uma marcha militar. essa espécie de força catalítica misteriosa que difundem os vários aspectos da natureza. No sentido de apreender o que era empiricamente entregue a ele sob a forma de uma história – ou seja. ele tem agentes mais enérgicos que para as reações químicas da matéria. sincero. demos de frente. 205. Nosso autor parece se aproximar aqui de uma aporia cética. Seu interesse pelo ilusório e pela impressão. vimo-lo. a intensidade destes últimos está longe da uniformidade proclamada. as modalidades do clima e esse ação de presença inegável. todavia. que encontra nas explicações científicas de causalidade empírica uma indeterminação que não pode ser amparada por qualquer teoria. por ele. p. Ao calor e à luz. p. isto é. e conclui: [e]ntre nós. mas não se distancia. Euclides parece entendê-lo como parte exclusiva da ciência natural determinista da qual ele pretende se distanciar. das sensações do mundo histórico (concreto) sobre ele. de onde sobressaia a tarefa da sinceridade neste recontar o que foi visto. não pela abstração da teoria. poderiam ser desfeitos quando o observador procedesse com a realidade dos sertões como um observador sensível ao seu ambiente. Uma particular nuance em Euclides que no entanto opera distinções. que se exercitam em ambas. coloca-o insistentemente a dispor da realidade a partir dos limites do observador. mas por uma sensação. Sejamos simples copistas. entretanto. originando uma mestiçagem dissímil. Armada essa relação que se deixa marcar pela noção de processo. da psicografia sobre o visto. para essas reações biológicas complexas. todas as impressões. de repente. (OS. (OS. que ali estão – abandonados – há três séculos. 175) . obviamente. podemos dizer que. então. A noção de que a observação pelo olhar. constituiria um método mais adequado para apreender a correspondência daqueles homens com a sua respectiva história exige de Euclides uma atenção para um sentido específico do impreciso. Sem nos arriscarmos demais a paralelo ousado [entre o meio e a formação das raças]. Equívocos que. numa volta do sertão. verdadeiras ou ilusórias. Distribuíram. que tivemos quando. a disposição da terra. Reproduzamos.

/p.] conceito comporta-se quanto ao objeto como a possibilidade quanto à realidade. o que geralmente implica em aceitar a habilidade descritiva do autor em que pese as limitações segredadas no conjunto mesmo do seu próprio argumento. Sem pretender dualizar o imaginário com o observável. Nesse sentido é que a dubiedade tem sido tomada pela crítica especializada euclidiana como um tipo de ontologia discursiva de Os sertões. Limitações que. paradoxalmente. Ao mesmo tempo. Nisso parece consistir. não há definições demonstrativas. no sentido estrito. pelo menos.. Signo algum de alguma coisa pode ser uma resposta satisfatória à pergunta que coisa é aquilo que introduzo com o seu conceito. a insuficiência do fato observado de ciência . Vamos problematizar esta afirmação com a proposta de iluminar um particular aspecto também contido nela. 100. oferece no seu texto: Exemplo admirável – no plano das idealizações – do rechaço do imaginário e do apego quase servil ao racionalismo do seu pensamento. (BLUMENBERG. Este é o tipo de encaminhamento que Leopoldo Bernucci. a mente cientificista de Euclides também é responsável pela sua postura paradoxal diante das fontes de conhecimento a seu serviço. 86 A ausência de um tipo antropológico configura. s. p. a hipótese que suporta a ideia de que a raça tem a sua estabilidade em futuro remoto. se apoiariam na transposição de categorias e raciocínio científicos para a habilidade criativa e do manejo da linguagem ornamental. no entanto replicada para o argumento de Bernucci.. (BERNUCCI.. 1998. que opõe conceito e imaginação quando supõe reservar ao primeiro o estatuto de verdade e à segunda a disponibilidade para a imprecisão ou para a invenção. atualmente um dos mais importantes intérpretes da obra euclidiana. grifo nosso) . partindo ele de fontes ou dos recursos da imaginação. que adivinhar e argumentar. principalmente por saber pouco sobre a geologia e a botânica do sertão baiano e porque apenas tinha passado uns dias em Canudos” (ibidem.)./p. parece-nos todavia que no “plano das idealizações” um discurso se mostra em suas qualidades e defeitos. de um lado. muitas vezes e com alguma ousadia. devemos considerar a noção de fonte a partir da crítica racional do conhecimento inserida em um sistema de referências. ibidem). o parti pris do argumento de Bernucci. de onde poderíamos opor. No desenho desse argumento. 1998. Conseqüentemente. o conceito e de outro a imaginação. grifo do autor) Lidamos com essa problemática. s. 2013. o exemplo contudo também mostra que. pensando no entanto que o [. quando assinala que a “discrepância entre as realizações artísticas e a precisão científica se faz sentir em muitos trechos de Os sertões” (BERNUCCI. segundo essa defesa. Ou que na perseguição da verdade “Euclides teve.

2013. precaução. estamos mostrando que o argumento euclidiano se vale da imprecisão como evidencia da concretude do mundo histórico e da sinceridade (legitimidade do discurso que pretende coincidir com a referência do observador) em oposição à abstração das teorias. o “animal em fuga então se deparava. 48). a dizer: na medida em que o limite respalda uma adaptação. o observador carente de experiência em um criador de ficções. Embora esta seja uma discussão que Bernucci não parece ter pretendido se aprofundar. à sua identidade e à sua identificabilidade. Descuida-se. No argumento de Blumenberg. Euclides da Cunha nessa hipótese. o de sua relação com a elasticidade do campo de ação. o ponto que ressaltamos em Leopoldo Bernucci demandaria de nós o suposto de delimitar a noção de experiência pela metonímia da verdade e reservar para a literatura as marcas da intuição e da invenção. Contudo. o que poderia ser em certa medida uma perda da experiência total dos sentidos da caverna. Assim. 87 em associação com a habilidade para a escrita e para a invenção narrativa tornaria. em que um modo de ser concreto percebido ou representado ainda pode ser admitido. p. 47). de suspeitar da própria posição do seu olhar. observado do ponto de vista antropológico-genético. A nota entre as duas visões sobre o que qualifica a ficção e o factual destoa justamente no cerne do que é um conceito para os dois autores. “precisa de clareza bastante para estabelecer diferenças quanto a todo o concreto que deva ser submetida a sua classificação” (BLUMENBERG. não deve ser tão estreita quanto aquela que o nome deve ter em relação ao indivíduo. retomando pressupostos animados pela sua antropologia filosófica. p. 2013. o homem. contudo. o conceito em sua versão pós-kantiana – que no argumento de Bernucci se oporia ao vivido – embora se afirme no vazio. para Blumenberg o conceito Deve possuir bastante precisão para poder alcançar as distinções entre as coisas que não são absolutamente congruentes. para nós. ao fundo do argumento de Bernucci. é prefigurado. 2013. que o faz perder “as especializações caracterizadas pela luta corpo a corpo” (BLUMENBERG. (BLUMENBERG. por conseqüência. Sua exclusividade.. preparado. Bernucci e Blumenberg. A literalidade de Os sertões é assumida aí pelo negativo de uma experiência com o factual e pela invenção literária diante dessa carência. na medida em que ele introduz na sua abordagem sobre o escopo científico e o conceitual a nota importante da imprecisão. “No comportamento preventivo” que deriva dessa perda de especialização. fazendo valer a sugestão de Hans Blumenberg..] Nessa medida. no compromisso de ação à distância (actio per distans). sobre o conceito como referência do discurso. Isto equivaleria. p. apesar de sua . o ideal de precisão do conceito. fornecido pela experiência sob a forma de adaptações e precauções. Aceitando em parte esse raciocínio. também. 47) Blumenberg apresenta um contraponto. [. caracteriza-se pela conduta de “fuga dominante”.

ao passo que a confecção da armadilha mostra as relações invertidas. mas também necessita ser flexível de modo a aceitar o objeto perseguido mesmo em sua ausência. 88 carência de aparelhagem fisiológica para a luta corpo a corpo com o seu perseguidor. visitada por Euclides. mas se implicou no cerne do argumento?. Ela deve ser funcional para que a distância entre o caçador e a sua presa não acarrete em perda do objeto. de fato. Neste sentido. Ainda que catalisadora de descrições dramáticas no texto euclidiano. na verdade ainda não se formou um sistema orgânico de combate. 2013. porque não se visita. neste “animal que se defende em fugir. mas sim um animal que usa e amplia as capacidades aprendidas na caça às presas” (BLUMENBERG. como proceder com a demanda de um respectivo fundamento científico quando a psique 1) não foi observada. a psique apresenta um escopo conceitual que. Extraímos essa hipótese a partir do próprio livro Os sertões. tampouco as tem Euclides da Cunha. como neste caso deveria se comportar o observador-escritor? Esta pergunta tem o seu lugar. De fato. fala-se por adivinhação. ela aparece como termo fundamental para as suas caracterizações e descrições sociais. com a necessidade de resistir” (BLUMENBERG. não se orienta apenas pela invenção da ficção. sobre o que se sabe pouco. Delineado este argumento. p. aceita-se as condições de observação tomadas pela imprecisão? Não temos respostas para as duas perguntas acima. 48). refere-se à armadilha como “o primeiro triunfo do conceito”. 45). Embora a psique nunca tenha sido. a presa está presente. como já afirmou Walnice Galvão (2009). por fim. p. supomos. 2) na própria dificuldade de observá-la. 49). ibidem). dificilmente poderíamos dizer que o conceito de psique recebeu algum significado específico na construção do argumento de Os . gostaríamos de tornar suspeita a hipótese de que. no escopo da psique como categoria limite na construção de Os sertões. estando ele ausente. pelo menos não objetiva ou diretamente como o fora o meio físico dos sertões. 2013. graças à distância espacial e temporal. Ela é a expectativa materializada” (ibidem. ainda para ficarmos no raciocínio de Blumenberg. Nossa hipótese é a de que há uma tentativa de inteligência. 48). O autor alemão. desdobrada para o cerne da hipótese do seu livro que é vingar a história dos esquecidos da civilização. a partir da literatura diversa citada por Euclides em seu texto. p. porque mal observado. Como este animal “lida com objetos que não percebe” (ibidem. Por isso a “armadilha atua para o caçador no momento em que. portanto de uso da razão. do aspecto ambíguo que alimenta o discurso de Os sertões. sua conduta é dada pela prevenção e caça. Assim. p. deslocando essa nota por um outro contra-argumento: sobre o que mal se fala. uma vez que ela representa a “margem de tolerância entre a exatidão e a inexatidão do objeto de referência” (ibidem.

com efeito. porque é o livro de um nevropata. sabendo da politização semântica da psique em Os sertões. 40). porém carregado não de um mas de vários significados específicos. do que biológico e racial. não é preciso ter dúvidas sobre a sua admiração a ele. Na carta enviada ao amigo Reinaldo Porchat de 20 de agosto de 1892. Como comportar estes dois registros em um horizonte significativo de enunciados comuns do livro? Se a última pergunta parece-nos impossível de responder por enquanto. Na realidade. Ela seria autêntica e proporcional ao cuidado e hesitação que Euclides demonstrava no envio do romance de Huysmans ao amigo Porchat.] é ainda um nouveau entre os grandes estilistas. A própria ideia de que deveria existir um teoria da patologia orgânica para os “crimes da nacionalidade”. p. admoesta ao amigo: “Não te mandei ainda o Là-Bas. o fato de que o tema psicológico adentrara na caderneta de leituras de Euclides não apenas pela via de autores da ciência. para este aspecto de imprecisão. até que “se passe a assustadora onda de amarguras que te assoberba” (CEC. Euclides tece elogio ao autor de romances então desconhecido do público brasileiro. sabendo do infortúnio de doenças por que passara a sua esposa. na referência a Maudsley. a contínua citação de antropólogos. afinal. com o Maupassant o mais avantajado êmulo de Zola” (CEC. que é. o Là-Bas é o livro mais original e brilhante dos últimos tempos. No destaque do qualitativo mental e .. p. p. 43. Pressentindo um possível arrebatamento do romance sobre o amigo. p. justificando o receio pelo impacto que o tema do livro poderia causar em seu correspondente naquele momento. sim. deixa a perder de vistas a própria Débâcle. Na realidade. Tamanha precaução confirma. 37). repetidamente abordado por Euclides. oposto a isso. vamos à consideração das duas primeiras. Euclides considerava Joris-Karl Huysmans “o melhor discípulo de Zola” (CEC. de Huysmans. avaliarás por ti mesmo” (CEC. p.. médicos legistas e psiquiatras ao longo do texto confirma que o argumento psíquico era. Esmeralda. enfim. d. recomendando a sua leitura ao caro amigo do “Là-Bas de Huysmans. de “admirável temperamento [. Por isso. 40). remete à exposição de que o problema da sobrevivência da sociedade brasileira estava relacionado mais ao campo social e político. 89 sertões. E. grifo nosso). Euclides justificava o retardo na remessa. em carta de 25 de outubro de 1892 ao mesmo Porchat. pois. livro que destila nevrose e febre – e as preocupações atuais que tens não poder-se-ão harmonizar com as emoções que ele desperta” (CEC. ainda. mas também por autores de ficção. quando o seu argumento se generaliza ampliando-se para mais de uma intenção de sentido? Contribui. a boa conta que Euclides expressara ao discípulo de Zola. 40). Novamente. o que fazer quando os significados sobre o psíquico não são precisos e. descontínuos nas elaborações do autor? Como compreender o escopo singular do psiquismo.

Isto é. uma metáfora que se manifesta no mundo cujo efeito não se determina por ele. p. etc. Euclides parece atribuir demasiado fascínio ao estado físico e psicológico como uma dependência sobre o enfrentamento da vida. nas leis da gravidade sobre o psíquico: gravidade aqui. na presunção e indelicadeza de tal julgamento. operativo antropológico-historiográfico a atentar para a dimensão textual das formas (expressões) que nos envolve e envolve os nossos corpos em uma dimensão física. como alegava o autor sobre a perda da juventude. também dirigida ao caro amigo Porchat. podemos confirmá-la na respectiva visão de mundo apresentada como uma disposição ou ambiência (Stimmung) 22 – no sentido de imediaticidade. dores. também. Ou que.. clima.. “ainda se expresse a insignificância de sua substância. como ambiência. p. ou porque nada tenho vivido e não sei verdadeiramente o que é a vida? A verdade é que me sinto mais velho do que moço. etc. um pouco de nervosismo e uma dose sofrível de moléstias imaginárias” (CEC. “um pouco de pneumonia. Claud[e] Bernard e etc.. Gay-Lussac. como metáfora.. “seria mesma impensável a declamação de um texto lírico ou o lançamento de uma obra em prosa com um pronunciado componente rítmico alcançar e afetar os leitores que não entendem a linguagem em questão.. Basta recuar e considerar que em outra carta de 13 de agosto de 1892.. Contudo. máxime agora. 2011. tenho muito em poucos anos. e mania antiga.. 5). esta [. Euclides se autodenominará nevropata – “nevropata como sou” (CEC. 35) –.] mania. Laplace. disposição ou atmosfera em sua vertente material como produção de presença. autodenominação que talvez reflita ainda o fascínio causado pela leitura de Huysmans ou porque. isto é. o que temos de fato para análise é o realce particular desta tonalidade psíquica e patológica constante em seu texto. será porque. como força invisível da ambiência. Por ora. (CEC. 47-48). grifo nosso) Além das sucessivas notícias de febres. 35. naquele seu contexto de vida persistia-lhe uma [. produção de presença pela linguagem – psiquista que parece incluir Euclides. sendo o leitor vulnerável ou não ao seu conteúdo. duramente experimentado. falando-me através de uma majestosa e silenciosa eloqüência: Newton. no entanto. 124). 90 patológico a definir a experiência de cada leitor sobre a obra de ficção.. p. retenhamos que na explicação sobre a imprecisão do escopo conceitual do psíquico em Os sertões.. 22 Gumbrecht considera a categoria Stimmung. p. Iremos abordar esta temática nos capítulos seguintes. em que dou lições e são os sócios constantes das minhas horas ocupadas uma súcia de velhos pensadores. . p. Tradução nossa do inglês: “would be unthinkable for the recitation of a lyrical text or the delivery of a prose work with pronounced rhythmical component to reach and affect ever readers who do not understad the language in question” (GUMBRECHT. a prevalência do vazio e.] de fantasiar-me velho e fingir-me coberto de cãs a apresentar-me como um octogenário.. constantemente a tumultuar em torno do meu espírito. um observador. 1997. nevropata como sou. a firmeza de sua função” (BLUMENBERG. era de se esperar que no argumento psiquista de Euclides da Cunha ressurgisse um hipocondríaco.

no domínio da especulação deliberada e do excesso descritivo. pois não nos parece ser evidente a relação que há entre a descrição do cenário psicótico e a realização do descrito em factual. o recurso psiquista não foi incomum em Euclides. então. A experiência alegada neste caso é possível. ou seja. medicina e psiquiatria do período. ao fim. encontrava-se Nina Rodrigues 23 . é tão ampla na construção de sua visão de mundo. Exemplo disso é a distância irônica que o autor dedica. ainda que sem o saber notadamente. Pois. aos estudos sobre etnologia citados por nós 23 Cf. que a variação sentida sobre o conceito de psique faz com que o seu significado deslize da orientação mais sisuda da antropologia biológica para recair. parece ser tampouco conclusiva a sua adesão completa ou deliberada à antropologia biológica quanto a sua tópica. não nos parece clara a coincidência imediata entre o psiquismo e o determinismo biológico em Os sertões. A relação consiste que ambos teriam sido alegadamente traídos e. padecidos pelo sofrimento psíquico advindo da crise dos seus relacionamentos conjugais (GALVÃO. seríamos levados a identificar Euclides da Cunha como um seguidor direto daquela linha de pensamento a qual. contemporâneo a ele. histórica e sociológica. Não perseguimos esta posição. Quanto a esse ponto. 199-205). . relacionando com esta combinação os seus supostos transtornos mentais e criando. isolar o conceito de psique como ele aparece na construção de Os sertões. A sua ambiência do psíquico. por fim. a imprecisão todavia o acompanhava no manejo do conceito de psique nas dimensões filológica. por outro lado. 91 Ainda nesse quadro. mais de um biógrafo ressaltou uma suposta relação entre o obsessivo nevrológico do autor com o fim trágico da vida de Euclides. Embora Euclides não se afaste e pareça mesmo manter interesse sobre os avanços e resultados das pesquisas do médico baiano acerca das razões sobre os transtornos mentais entre os negros e os mestiços. aprumando-o. a julgar que Euclides se valia dos termos da ciência na montagem do argumento da sua hipótese principal – a extinção das sub-raças sertanejas pela raça superior civilizada –. 134-143). a ponto de interpelá-lo a se autodenominar um nevropata. 2009. p. logo após a abertura de “um parêntese irritante” (OS. Se pudéssemos. como produção de uma presença. ao mar de leituras das descobertas científicas em torno da mente humana e das pesquisas então disciplinarmente conduzidas pela antropologia. p. mas ela encontra o seu possível no infinito. sobre este contexto os estudos de Sérgio Carrara (1998) e Mariza Corrêa (2001). uma analogia emparelhada entre o destino do autor de Os sertões e a figura de Antônio Conselheiro. e muito provavelmente o psiquismo daquele fin de siècle terá sido suficiente para persuadi-lo.

p. ou seja. posterior ao aparecimento de Os sertões. A fim de não deixarmos de lado a hesitação assumida no seu argumento. ele abandona aquele “divagar pouco atraente” de “um quase materialismo filosófico”. isto é. 2008) ao observar que Euclides adota a literatura em função dos limites da ciência e mesmo nos domínios desta. já “que nessa concorrência admirável dos povos. evolução que estaria estendida para um tipo racial situado em um futuro remoto. 201). incorporado em outras individualidades. Sem querer com isso acusar Euclides de incapacidade intelectual – acusação que de fato lhe seria de dúvida injusta –. Intruso porque um hereditário do seu próprio resultado adiado. Euclides define este seu argumento a partir da hipótese de uma seleção evolutiva dos caracteres. pelo menos no começo do século XX antes da divulgação terapêutica da psicanálise e da sua respectiva noção de inconsciente. o mestiço é um intruso” (OS. de uma . concordamos com Luiz Costa Lima (1997. o mestiço é a sinceridade de uma indefinição racial. 101). o aspecto de variação que faz deslizar na superfície do descrito o conceito de psique não se forma propriamente da reflexão em torno do seu significado – como a fazer uma investigação sobre a sua concepção na tradição científica e filosófica ocidental – mas na sua contingência. A partir desse quadro desenhado. Assim. podemos aqui completar o raciocínio do crítico ao introduzir aparência conceitual da psique na zona cinzenta de uma argumentação que não se faz nem no preto nem no branco. Ainda quando alegue que “[n]ão há um tipo antropológico brasileiro” (OS. aceitando o visto como ponto forte de referência para o exame. na sua singular historicidade que transtorna o conceito em afins da dubiedade. cabe mesmo ressaltar a formação extraordinária de uma ambiência conceitual tão importante quanto esta. o que verificamos é que ele produz. Ambiência que por isso nos impõe o desafio de entender como o argumento da psique foi. se comportava fortemente como uma daquelas “[e]xpressões que não podem ser definidas nem por signos nem por regras de substituição [e que] têm por sua natureza uma grande variação em sua determinação em contextos individuais e sociais” (BLUMENBERG. 2013. 175). Como um copista. o que na verdade precisamente não poderia ser confirmado nesta sua reprodução. No entanto. na qual a seleção capitaliza atributos que a hereditariedade conserva. p. sobre os fundamentos da “ciência da mente”. Em Euclides. p. no provável clássico fundador do pensamento social brasileiro. ainda sob a aparência de uma unidade. no realce das suas descrições. o nosso autor parece pensar o psicológico em chave diferente da ciência físico-química de anatomia do corpo. a partir de argumentos da ciência. Psique como conceito. porém. supõe-se reproduzir as impressões do seu olhar sobre o mundo desconhecido dos sertanejos. evolvendo todos em luta sem tréguas. 92 anteriormente. Sem lei definida.

218-219. 102). 1978. E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não em vez entendo a entidade psíquica permanente. 2013. A existência de uma continuidade neste debate. a partir da sua significação psíquica. retomada por literatura posterior – caberia aqui situar desde os estudos de Oliveira Vianna em torno da cultura política e da psicologia social dos grupos étnicos brasileiros. e em só se especificar por eles” (BLUMENBERG. a conseqüência da ausência de uma vida psíquica – ausência de uma “entidade psíquica permanente. O que seria essa ausência psíquica para Mário de Andrade? Como o modernista chegou a esta avaliação a partir das suas pesquisas? O que terá afinal lido ou observado que o tenha levado a essa conclusão? Não sendo nosso objetivo o responder a esse inquérito de perguntas sobre Mário de Andrade. até o lançamento do livro de Dante Moreira Leite. nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura. considerada por outros textos não menos importantes em contextos diferentes do pensamento social no Brasil. Observamos que o psíquico. nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura. tanto no bem como no mal” (ibidem). tanto no bem como no mal. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa me parece certa: o brasileiro não tem caráter. a ausência de caráter de Macunaíma é. declara o autor as suas intenções: O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. encontra “sua disposição em utilizar um material ligado ao imaginativo e à escala de valores. (ANDRADE. se manifestando por tudo. com o “Prefácio inédito escrito imediatamente depois de terminada a primeira versão”. neste pensamento. logo ao término da redação de Macunaíma. cf. aliás não publicado no ano de 1927 mas escrito. 93 evidência. Macunaíma. até a expressão de Mário de Andrade que compreendia (e parece que tem sido tão mal compreendido neste sentido) a ausência de caráter do seu herói. se manifestando por tudo. originalmente tese defendida em psicologia na USP. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional. Podemos dizer que o psíquico. . PAIVA (2000). em parte. neste caso. como dito. p. grifo nosso) Neste sentido detalhado a partir da psique. cabe-nos apenas apontar para aquela historicidade do conceito psíquico pelo pensamento social e pelos clássicos da cultura brasileira. ou melhor. p. Apenas para ficarmos com Mário de Andrade e Macunaíma. “O Caráter Nacional Brasileiro” 24 – demarca a importância da abrangência da disposição (Stimmung) para as especulações sobre o psíquico e o psicológico nas formulações do pensamento social brasileiro. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é (uma) novidade pra mim porque tirada da minha experiência pessoal. 24 Para uma análise detida ainda que geral sobre a obra de Dante Moreira Leite. o caráter.

enlouquece. Afinal. No entanto. Com esses termos descritivos. 94 sem se definir. da realidade trágica e da figura maníaca de Antônio Conselheiro correspondem ao diagnóstico. 99) De modo semelhante ao assinalado acima parece proceder a recepção conceitual do psíquico no pensamento social brasileiro. segundo ele. demonstra a imprecisão que denota diferentes historicidades e têm permitido derivar. da leitura dos seus textos. p. ou em sentido mais amplo. movimento insurgente que. o que Reinhart Koselleck alegou para as frágeis definições da constelação histórica de conceitos empregados por Hardenberg acerca do cidadão da Revolução Francesa (KOSELLECK. texto fundador que é Os sertões. um lugar de destaque para a elaboração do argumento psíquico no pensamento social. com a sua própria ambigüidade como referência argumentativa em Os sertões. (ibidem. tem o seu “campo de expectativas” vinculado. a história dos conceitos tem como premissa refletir essa co- incidência” (ibidem. Euclides realiza também o exame da Revolta da Armada. “na falta de um princípio orientador e sério. sem perder o passo. as metáforas da terra insana. uma oração assim formulada e recheada de expressões de caráter político e social causa não pouca dificuldade de compreensão. p. toda uma gama de interpretações que na falta de estudos sobre o sei “horizonte de experiências”. do que se está falando quando se diz sobre a realidade psíquica? A observação de que haveria uma psicologia dos povos. informa tudo e nada ao mesmo tempo. como fato histórico suposto de sua realidade social. Alegamos isto pois estamos seguros de que. feito uma carta curinga. 2006. também. Do ponto de vista puramente lingüístico. no pensamento social brasileiro até fins da década de 1920. mas atuando como um referente conceitual. cabe em Euclides da Cunha. p. de uma “nevrose coletiva” nos limites do sertão. que não tenhamos neste momento avançado com a nossa reflexão sobre os textos de outros autores. imediata e diretamente a realidade a partir do conceito. secundado pelo autor. “[a]inda que não se possa depreender. 114). Ainda. Poderíamos dizer sobre a psique no pensamento social da primeira metade do século XX. desde a sua existência até a sua completa negação e ausência. ainda que o sentido político decorra justamente da ambigüidade semântica. como disse Nísia Trindade Lima (1999). que a psique joga. vibrando numa . não demonstraria uma politização que “decorre justamente da ambigüidade semântica” desse conceito? Assim. ao longo de Os sertões. é como um conceito vacilante que. no entanto. uma psicologia do brasileiro. seguindo a orientação de Koselleck acerca da tarefa da história dos conceitos. 98-104).

até agora. (CEC. para a 22 de agosto de 1903. p. p.feito em minutos de folga” mas “sem a inteireza emocional que a Arte exige” (CEC. preso pelos empreiteiros e absorvido em orçamentos quase sem tempo para curar [sic] dos meus próprios interesses” (CEC. Tal oscilação era em tal grau sentida que em um mesmo período. Como quando instigado a escrever um novo livro intitulado “História da Revolta” respondia: Só poderei iniciá-lo quando me aparecer o primeiro dia de folga nesta vida trabalhosa. p. p. p. Se o artista é sobretudo um indivíduo empolgado por uma impressão dominante. grifo nosso). 169). grifo nosso) . 178. estou nas mais impróprias condições para isto. confirmar que “se os homens mantiverem o prometido é inevitável a vitória” (CEC. ele desenvolve uma afinidade heurística em apreender o óbvio pelo seu contrário e com dificuldade. 50. esta mesma tortuosidade nos coloca diante de uma condicionante social de produção da sua linguagem. p. em carta ao amigo Francisco Escobar. 157). na constante hesitação de Euclides às oportunidades de seguir uma carreira dedicada às letras e aos estudos ou. não obstante o seu desejo de “[alinhavar]. Além disso. 158). 159. também. que só racionalmente poderia ser salvo se o mundo real fosse o melhor dos mundos possíveis” (BLUMENBERG. “apesar da derrota inevitável” (CEC. 120). dubiedade de uma vida que se apresenta materialmente. Dubiedade da derrota e da vitória que assume a direção de tudo o que é possível porque sempre inevitável. novas páginas de um livro que será tardio. 2013. como sempre consternava o autor. a propósito da sua candidatura à cadeira vacante de Castro Alves para a Academia Brasileira de Letras. enfim. O seco e o inteiro que se digladiam. grifo nosso). Temos. 168. Na sua situação precária. p. Esse tipo de operativo ambíguo vira e volta ressurge na escrita do nosso autor. esbarrando nos limites de um “engenheiro errante. grifo nosso). terei de lutar muito para considerar aquele assunto. com a intenção de manter firme a sua candidatura àquela cadeira. “Daí que só o possível ainda é infinito. Ademais. o que nos possibilita pensar acerca da tortuosidade do seu texto como um aspecto significativo. p. recolhido elementos para considerar o fato de Euclides ter se entregado a tal oscilação de opiniões refletindo acerca da sua “rudeza profissional” (CEC. como é a sua descrição de Os sertões. levado pelo dever profissional a misteres tão diversos. Vale registrar o ato falho desta carta: cuidar e curar. através da secura dos orçamentos. Lúcio de Mendonça. ao Dr. . Euclides transmudou de opinião em carta expressa de 20 de junho de 1903. 95 epilepsia sinistra. o real a contingência do factual. Quando. estortegando-se através de bombardeios contínuos” (CEC.

a instabilidade da vida do autor parece acrescentar nova ênfase para a observação indeterminada da realidade. com a finalidade de segregação ou seleção de grupos – pelo contrário. Tratando-se. “menos estritamente médica do que social. A afirmativa é segura. se o permitir tempo de vida nacional autônoma [i]nvertemos. na medida em que se conclui. metáfora da vida. Em direção a esse ponto. por Euclides. Desleitura. p. 96 Nesse lugar de reivindicação de uma folga. em Euclides. e não o foi. Costa Lima nos informa que Euclides parece ter realizado uma desleitura daquele psiquiatra na finalidade de explicitar a natureza das condições psíquicas e patológicas dos eventos de Canudos. no entanto. A conservação das instituições deve garantir o progresso. nas abreviações que é o modo de construção do argumento do livro. Por conseguinte. ou só podia ser médica a partir da consideração da força ou da fragilidade das instituições sociais” (LIMA. 156-157). a desleitura de Euclides. ressaltada no argumento de Euclides e sublinhada pela crítico. a fortaleza conceitual armada em torno da psique como visão de mundo. p. a partir dela. ele reclama o conhecimento e a incorporação dos tipos mestiços a fim de salvaguardar a soberania nacional –. parece de fato ecoar em todo o desenvolvimento de Os sertões. 105). “porque [para Maudsley] o crime não se explica univocamente pela insanidade”. categoricamente: Estamos condenados à civilização. sob este aspecto. segundo Costa Lima. no embaraço de se atacar a civilização e ao mesmo tempo refletir o quão forçoso é o caminho para ela. Essa inversão. em cotejo com o que pressupunha Henry Maudsley. sua posterior . o impasse discursivo passa a configurar um impasse que é também um dilema político. nos índices. de condições emocionais e materiais impróprias ao trabalho intelectual. possa ser revertida finalmente a seu equilíbrio normal. Como se a entender que diante da matéria narrada – a chacina de sertanejos no final do século XIX – resulta a hesitação do analista diante dos fatos. a questão do conflito deveria ser considerada por Euclides. Fortaleza que se faz conquista na abstração característica. a fim de que a inversão assinalada anteriormente. a ordem natural dos fatos. De onde depreendemos que o sentido inevitável dos eventos a montar um argumento condenatório na história recebe. (OS. ou desaparecemos. 157) Não é a raça o que nos condena evolutivamente. entre raça e sociedade. de uma esperada auto-determinação racial. Ou progredimos. mas a história do social. afinamos aqui com Luiz Costa Lima. 1997. da predestinação da “formação de uma raça histórica em futuro remoto. se a oscilação entre a ciência e a literatura movimenta o discurso de Os sertões. p. A nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social” (OS. Ainda que possivelmente o argumento da raça não seja orientado.

não se confundem enquanto entidade por. Em realidade. o que nos leva à impressão de um paradoxo discursivo. Referências tais como história. o social. Civilização e raça. SCHWARCZ. mas sua menção aqui confirma a hipótese inicial que temos levantado. consciência e civilização. 2. 1993). “estamos condenados à civilização”. costumes. Assinalamos também a simultaneidade com que este argumento aparece no prospecto de futuro remoto reivindicado para a estabilidade da raça. Tentamos trazer para primeiro plano. o respaldo à civilização vem. cujo efeito não deveria ser. Este argumento impôs para Euclides um impasse que está longe de se resumir a uma solução de empenho literário da linguagem. em seu sentido paradoxal. temos um paradoxo que desloca e repõe no campo psíquico o conteúdo que é atribuído. constantemente. entre “às vicissitudes históricas e deplorável situação mental” dos sertanejos em relação ao “princípio dominante” de “mercenários inconscientes” dos “proteiformes civilizados”. ao universo psíquico no texto euclidiano. para o . o argumento euclidiano da inevitabilidade histórica junto ao diagnóstico de que. embora coexistam como partes integrantes de um repertório comum da ciência moderna. Em realidade. 97 conseqüência pode ser definida. na “Nota Preliminar”. funcionarem em estágios distintos no argumento de Os sertões. elas apresentam temporalidades dessemelhantes no diagnóstico da antropologia indefinida na definição da raça mestiça. justamente. Este argumento será melhor analisado ao longo da tese. do ponto de vista social. o progresso. por Euclides. o falso e o sincero. da expectativa de uma estabilidade da raça circunscrita em um futuro remoto. de fato influentes nas instituições intelectuais do século XIX (cf. Conservação ajuizada sempre pelo imperativo de “formação da raça histórica”. a recordar aquela oposição articulada.2 “E Canudos era a Vendéia” Na seção anterior demos início à análise do escopo do argumento psiquista em Os sertões. nessa análise. através da necessidade de conservação das instituições. quer sob o apreço pela lógica dos opostos. a doença. tipos antropológicos futuros. quer pelo total determinismo da raça. para a civilização. funcionam como hipóteses sociais que são tomadas nas suas respectivas expressões como dimensões do psicológico na civilização. da existência de um fenômeno mal-localizado ou impreciso mas que é referido. deixando inclusive em aberto a relação que parece se estabelecer entre psique e história. como variante de um processo. isto é.

98 observador euclidiano. acabaria por obrigar. recuperada pelo pensamento político nacional – basta lembrar do que pressupunha Oliveira Vianna ao afirmar que à psicologia do mestiço deveria se contrapor uma opinião pública nacional que nunca seria espontânea. porque se prende à formação social e política do povo – é que asseguram à democracia ingleza surpreendente vitalidade. em breve. 208) Relativizando preconceitos da época. não somente o prejuízo da raça. por um lado. militante e infatigável. amanhã. para a sociedade nacional. outro de natureza moral. aqueles “desconhecidos singulares. pela simples força moral da sua opinião. intactas. mesmo sem o direito do voto. 1927. de repente. O regime da opinião pré-existe à prerrogativa eleitoral – e a sua razão de ser está nestes dois atributos intransferíveis do cidadão inglês: a sua índole ativa e combativa (a agressive vitality. senão institucionalmente organizada25 – e podemos recobrar por que a psique em Euclides cumpre a função de fundamentar. no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios transviados e cada vez mais acredito que a mais bela vitória. com aqueles desconhecidos singulares. os detentores do Poder e a classe propriamente política a considerá-lo. Por isso. essa poderosa solidariedade de classes.] O ‘regime da opinião’ na Inglaterra não resulta. porque se prende ao temperamento da raça. verdadeiras ou ilusórias. menos histórico e político. Euclides posicionava-se do lado combatente do interior do Brasil. na sua forma democrática.. de igual maneira. porém. p. numa volta do sertão. na sua forma política. o autor reclama: Reproduzamos. esta causa geral: somos um povo em que a ‘opinião pública’. todas as impressões. não existe. pois. acompanhando a celeridade de uma marcha militar demos de frente. uma determinação das instituições como determinismo do meio. o sentimento instintivo do interesse coletivo. a ouvi-lo e a atendê-lo. Euclides parece estar ciente dessa inevitabilidade histórica que era também uma aporia política: Sejamos justos – há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estóica e incoercível. talvez. (OS.. de Whitman). p. os representantes do Poder. todo o fracasso do idealismo contido na Constituição de 24 de Fevereiro tem. desde que este fosse orientado pelo caminho da incorporação dos sertanejos à civilização. por outro. 205). Estes dois atributos – um de natureza biológica. esse espírito popular. que tivemos quando. 205) 25 “Realmente. o espírito de solidariedade. aquilo que van Dyke chama – the spirit of common order and social cooperation. definitivamente. p. isto quer dizer. que ali estão – abandonados – há três séculos” (OS. Ora. em síntese. Há que se pontuar esta associação efetuada em Euclides. que faz a admiração e também o desespero de todos os povos não saxônicos do mundo.” (VIANNA. a conquista real consistirá no incorporá-los. na sua forma prática. Praticando. p. [. O argumento político incluído nesta reflexão ressalta o vínculo entre o conflito de Canudos e a falência das instituições republicanas a apresentar (vingar) historicamente. exclusivamente do fato dos cidadãos ingleses terem a prerrogativa de escolher. mas o compulsório da civilização. 44-46 passim) . pelo direito do voto.” (DE. à nossa existência política. entre nós nada disso acontece – e a simples concessão do sufrágio a todos os cidadãos não bastaria para criar aqui estas condições que constituem o ambiente da democracia inglesa. a necessidade imperativa do acerto das instituições republicanas.

1995. da apreciação histórica. isto é. 2003). receberia. como nos informa mais de um crítico (BERNUCCI. recentemente publicado sob a iniciativa de Francisco Foot Hardman e de Leopoldo Bernucci (2009) – o imaginário revolucionário francês aparece como signo excepcional para a sua reflexão histórica. Esta admiração está sobretudo dirigida para o contexto mais grave da revolução. . na leitura euclidiana. onde o terror era mesmo subscrito pela narrativa da história. Ambos. 205. A história das lutas pela democracia (BERNUCCI. nesse sentido. p. era preciso investir em direção oposta a este persistente esquecimento. tem relação mais metafórica do que histórica entre o ocorrido em Canudos e a Revolta camponesa da Vendeia. p. 25-38. 1995. Em direção ao que foi exposto acima. também. ele a direcionou pelo seu desperto interesse pela Revolução Francesa. recordar que algumas páginas anteriores de onde a transcrição acima foi copiada. da sociedade da qual os sertanejos esquecidos pertenciam. 38-25. A Nossa Vendéia: o imaginário social da Revolução Francesa na construção da narrativa de Os sertões. a percepção da descoberta e. 2009. Euclides se propunha a essa tarefa. aprecem como sub-itens que pretendem informar a “Gênese do Jagunço” (OS. bem como da ancestralidade do jagunço com os bandeirantes. p. Período que pode ser talvez apreendido pelo paradoxo das instituições e dos seus representantes que sucumbem a despeito de tudo. do Terror de 1793. 188). portanto.26 Desde os seus versos de juventude – como consta em seu caderno de poesias intitulado Ondas. Uma série de trabalhos recentes tem destacado este aspecto na específica historiografia do autor. p. o imperativo da incorporação do outro ao complexo nacional parece ganhar um particular acento. o meio e a história. p. GALVÃO. p. a sua tradução canudense no tema da indefinição da 26 Para o interesse de Euclides à história da revolução francesa. como já pressupunha Euclides. tomada como exemplar da Revolução Francesa. 186). p. justamente porque aqueles “desconhecidos singulares” do sertão não tiveram um historiador. menos inegável é o fato de que. a fim de suprir a sua falta grave no corpo da história nacional. “Os Jagunços: Colaterais Prováveis do Paulista” (OS. bem como a tese de Raimundo Moreira (2007). BERNUCCI. 183-205). 26). gostaríamos de investir na comparação histórica que. como foi o caso. fazendo um caminho comum à história social relativo às bandeiras. Euclides dá conta da “Função Histórica do Rio S. nele se representa o paradoxo determinado pelo incerto como acontecimento. Devemos. cf. VENTURA. em auxílio a este ponto. a observação do encontro não deixa de lado. 1995. Nesta genealogia é que consta o conhecido capítulo de comparação histórica entre a Revolta da Vendeia e a Guerra de Canudos. 99 Sob o seu olhar. Afinal. escrito quando tinha 14 anos. Se. acertadamente. Francisco” (OS.

50-51) A isto acrescenta-se. de tipo etnologicamente indefinido ainda. “A Nossa Vendeia” articula-se em torno da comparação histórica dos eventos franceses e brasileiros. sob um ponto de vista geral. na observação de Euclides. patenteiam o mesmo heroísmo mórbido difundido numa agitação desordenada e impulsiva de hipnotizados” (ibidem. visto que sugere e pretende endossar argumentos que justificam.. Esse argumento exposto receberá. Identificados à própria aspereza do solo em que nasceram. na medida em que o [. como se estivessem todos hipnotizados. de uma oposição política à República manipulada “que domina as suas almas ingênuas e simples”. lança coordenadas para a história social e natural da civilização. não o extermínio. a primeira saída em 14 de março de 1897 e a segunda a 17 de julho de 1897. completam-se [. a aproximação histórica expressa no título deste artigo. um matiz mais grave.. com a força que a palavra permite. Euclides supõe ocorrer em Canudos uma politização da fé. impingida sobre a oposição camponesa ao regime instaurado pela revolução. embora metafórico. Entretanto. é descrito tal qual o efeito de uma hipnose coletiva. mantidos numa agitação inconsciente. esses nossos patrícios do sertão. no discurso de Euclides. A imagem é forte e tem sido tomada pela sua metafórica literária – sem muito atentar-se para o efeito político emitido em seu enunciado. Este fanatismo era resultado. uma violação do sentimento que deveria ser sagrado. O recurso à história. refletem naturalmente toda a inconstância e toda a rudeza do meio que se agitam. O fanatismo. na comparação histórica com a Revolta da Vendeia. ao que se constituiria no seu entendimento. um outro elemento de destaque é apontado na comparação.. aplicando-lhe um sentido vulgar – “manipulação das almas” –. assume um efeito eminentemente racional sobre o político. O solo e o homem são puxados para homologia de idênticos. ao que se afina o paralelo entrevisto entre Canudos e Vendeia. Canudos e Vendeia. (DE. ibidem).] homem e o solo justificam assim de algum modo. Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em duas partes.]. Como na Vendéia o fanatismo religioso que domina as suas almas ingênuas e simples é habilmente aproveitado pelos propagandistas do império. o fato de existir nas duas rebeliões. p.. mas o aproveitamento do jagunço como ente da República. na opinião de Euclides. “a mesma coragem bárbara e singular e o mesmo terreno impraticável [que] aliam-se. Exploremos essa hipótese. Comparação que. particularmente. educados numa rude escola de dificuldades e perigos. 100 raça e da incorporação do sertanejo à nação. variante imediata do terror. qual seja. o fanatismo religioso. .

101 Caracterizando-se a revolta da Vendeia por um movimento contra-revolucionário insurgente no interior litorâneo da França. ativamente. Destino histórico que foi mesmo exemplar para a resolução no caso . abreviado. sobre o modo como se daria esta vitória? De que forma seria a incorporação dos “rudes patrícios transviados” à “nossa existência política”? Se a comparação com o caso francês era. tem a serventia de não nos deter na particularidade histórica descritiva de cada evento. 1995. A comparação retirava do apoio às instituições seu ponto base. levado às últimas conseqüências. ainda que sob o peso do extermínio e da morte ou. como a sinalizar. Em reflexão semelhante. em sua sentença era o resultado esperado. 52). quando manifestada a insurgência fanática. pressupunha Euclides em sua contumaz confiança ao imperativo de se incorporar os “rudes patrícios transviados” à “nossa existência política”. a sua importância teve como efeito impor à marcha revolucionária francesa um desvio. o fanatismo. afinal. Esta comparação histórica assim exposta por nós. de maneira tão pouco graduada. o importante aprendizado de incorporação dos vencidos da guerra tal como uma inevitabilidade. bem como trouxe à tona o caráter fanático que deu o tom da revolução em ambos os lados do conflito. do nosso conflito. mesmo que passando pela mesma patologia. porém. com o objetivo de nos lançarmos em direção a um problema que. entre os mais radicais jacobinos e os moderados girondinos (ibidem. para a “civilização de empréstimo” do Brasil. mesmo. “levad[a] às últimas conseqüências” (DE. p. para Euclides. ao que assevera: “[e]ste paralelo será. O desvio da Vendéia colocou à mostra o insulamento de Paris diante das demais províncias e do interior francês (TOCQUEVILLE. 59-61). 131-139). p. padres e pequenos proprietários. em ponto alvo a ser atingido no conflito perpetrado em Canudos. parece ser fundamental na comparação defendida no texto de Euclides. há que se perguntar sobre esta obstinação. a loucura e a morte. que contou. 52. Este desvio terá sido. Contudo. a par disso. essencial para o desdobramento dos repertórios políticos dali decorrentes na França. A República sairá triunfante desta última prova” (DE. como ele disse. p. Pois não foi pelo massacre que a civilização venceu o contingente bárbaro? Euclides ascende à regra de que era preciso obstinar na vitória da República sobre Canudos. justamente. 25-38). A civilização. p. com a participação de camponeses miseráveis. p. 1989. a nosso ver. na evidência do peso da civilização. A tarefa da revolução democrática seria. a de incorporar essas províncias marginalizadas ao sistema republicano recém instituído na França. isto é. grifo nosso). podemos nos antecipar e pensar que a civilização nascente da Revolução na França configurava. tal qual havia se registrado no símile francês (BERNUCCI.

a autonomia nacional. Outros hábitos. Segue o nosso autor. p. Euclides reclama a inclusão patriótica dos sertanejos em sua exaltação. Além disto. Sentiam-se fora do Brasil. copiei apenas.] a nossa raça (?) [sic] está liquidada. de modo a incluir até os seus inconscientes e fanáticos adversários junto ao seu corpo político. e no extremo delas ao longe. Como se estivessem “Fora da Pátria”. a “perfeita tradução moral” entre o homem e o solo. para leste e para o norte. Este risco tinha como gravidade. Frase de impacto que sucede da alegação de que “nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social” (OS. 157). na associação de Canudos com a Vendeia.. “cujo singular momento histórico.. Na mesma medida em que nossa definição racial era alçada a um “futuro remoto”. copiei. mais fundo. como uma sentença irrevogável: “[o]u progredimos ou desaparecemos” (OS. a missão que ali os conduzia frisava. A monarquia só nos poderia se fosse heróica. se desenrolava um drama formidável. pelo conhecimento da história. Invadi-os o sentimento exato de seguirem para uma guerra externa. 102 insurgente francês. p. homiziado nos sem-fins das chapadas. O inimigo lá estava. do afastamento e da inconsciência da pátria. p. esta ficção geográfica. em certa medida. o de tornar-se um crime da consciência.. a unidade federativa e o pacto republicano. 157. isto é.. pelo caminho da incorporação que deveria ser antecipada. Viam-se em terra estranha.. Uma . impunha-se como garantia da evolução social a salvaguarda daqueles institutos da evolução social (civilização). Temos já elementos para identificar o sujeito em risco de extinção no conflito sertanejo. como assinalamos. 677- 678). p. Seria também este o ensinamento histórico que se depreenderia da comparação. e não tive um Virgílio a amparar-me ante o furor dos condenados!” (CEC. grifo nosso). Discordância absoluta e radical entre as cidades da costa e as malocas de telha do interior. revelando-lhe história ou estaríamos mais próximos da dissolução total da nação: [. um dos seus aspectos. nesta síntese das “bandas do sertão misterioso e agro” (OS. Ou se avançava incorporando-se o estranho. terra ignota] percebem esta transição violenta. (OS. Outra língua mesma. 678). que este sujeito em extinção não se restringiria exatamente e somente ao sertanejo. Deu o que podia dar: a escravidão. incorruptivelmente. O extermínio de Canudos poderia colocar em risco. Outros quadros. A separação completa dilatava a distancia geográfica. articulada em gíria original e pinturesca [sic]. uma república hilariante e por fim o que aí está – a bandalheira sistematizada. alguns atos de heroísmo amalucado. portanto. p. criava a sensação nostálgica de longo afastamento da pátria. mas também a um outro ente – débil e instável no Brasil: os institutos da civilização.. o antagonismo. que desequilibra tanto o ritmo de nosso desenvolvimento evolutivo e perturba a unidade nacional. 186). Os novos expedicionários ao atingirem-no [o sertão. ademais uma “raça forte”. Outra gente.

Precariedade que também. ao tornar incerto na civilização aquilo que idealmente era ansiado como certo. Devido à sua unidade centralizadora. neste momento.. 133) Ainda que republicano convicto. a lei e a autoridade foram desrespeitadas e a ordem parecia na realidade estar constantemente à perigo. isto é. no conflito com o povoado de Canudos.. Amanhã sim! – uma Aurora Lhe há de vir cobrir os ombros nus!. ameaçada permanentemente pelo fracasso social. descansar há de da ideia 27 O símbolo de interrogação pontuado por Euclides na sequência do vocábulo “raça” parece demonstrar a ambigüidade que o autor parecia enfrentar no dilema da sua expressão ou mesmo sobre o sentido polêmico da sua conveniência para a reflexão da sociedade nacional. 103 monarquia guerreira e atrevida.. rubro fazendo O novo alvorecer!.. Seria preciso compreender a metáfora de Euclides também por este aspecto de princípio político e não somente literário em sua similaridade ao Quatrevingt-treize de Victor Hugo.. Em contrapartida. saber fazer uma avaliação do papel fundamental do Império durante o período do governo monárquico. mas opondo-se à temida dissolução das leis. teríamos a face delineada em seu poema de 15 de novembro de 1883. Euclides se permitia. tendo em vista que a estabilização dos elementos discordantes do “mestiço dissímil” estava deportada para um “futuro remoto”. Será cada um seu rastro – uma epopéia – E à sombra. A ideia de evolução.. ardente. 80-83). Mas onde o encontrar? E onde estão os suecos? Quer isto dizer que a restauração não o resolve o problema. a moderação das instituições. Evolução que se pressuponha atingir banindo-se aparentemente o instável e o precário do mundo social. nesta formulação. como a arquear um espelho que na realidade reflete a face do mundo. sonora – E Amanhã. p. . O recurso ao exemplo histórico francês confirma a inevitabilidade da civilização. lívida. mas somente pela reflexão da história. de “A Canalha” (PR. é significada não como raça. Imagina um Carlos XII arremessando-nos sobre o Prata subjugando a Argentina. Resignemo-nos. seria resolvida através da garantia das instituições sociais da política.27 (CEC. Ela medita um golpe sanguinário! Guarda em seu seio o sonho do Calvário Que lhe avassala. a ordem monárquica era garantida com o protagonismo político do Imperador. aí. p. Nesse sentido. a Vendeia serviria de exemplo pelo paradoxo que ela instaurara no interior do processo revolucionário francês. todo o ser E que Amanhã talvez ‘i não cabendo. Na experiência histórica. predisposta à ruína. Irrompa divinal. Ah! ela marcha.

45). na opinião juvenil de Euclides. 104 Plantada aos pés da Cruz!. 212. Nesta combinação ensandecida. 93. cujo viés de análise resistimos e referendamo-nos aos bons estudos já existentes. é através dessa lente extraordinária que vejo esse amálgama formidável de luzes e trevas – de lágrimas e sangue –. para relacioná-lo aos artigos do Estado de São Paulo da Vendeia.. no fragmento citado. traduz uma lei no seu movimento firme. Euclides admite a sua linhagem: Tenho diante de mim uma página de V. como a progressiva “efetivação da igualdade de condições” que invade . intitulado “A Pátria e a Dinastia”. retilíneo e invencível para o futuro” (OC I. de 22 de dezembro de 1888. assumindo a patologia psíquica um sentido político na sua manifestação. mas na retomada fanática e religiosa de 1793 em outras regiões. grifo nosso) Não sendo objeto do nosso argumento o interesse em explorar a entrada literária de Euclides da Cunha. p. O mundo político moderno teria tido aí o seu início. 83) Em nota crítica a esse poema de 1883 de Euclides (PR. isto é.. essa loucura pavorosa de um povo sobre a qual. Esta filiação à revolução teve de fato impacto sobre ele. do partido intelectual entre os revolucionários girondinos. porém. para Euclides. a linhagem política esboçada pelo seu autor. a democracia como regime do povo. videntes e racionais. o evento maior da Revolução não está na queda da bastilha em 1789. Argumento que nos remete novamente para a mensagem de Tocqueville sobre a Providência dos tempos modernos. deve ser todavia oportuno fixar. os organizadores da coleção relacionam a sua fatura ao ensaio de 1887 (!). “Como todas as leis naturais – esta é indestrutível” (OC I. No ensaio 93. aquela entidade consiste na força revolucionária insurgente da Revolução Francesa. O aspecto louco aparece associado a estes que “tinham a razão além do seu tempo”. que cresce e se avoluma a todo instante – cuja vida é feita das experiências das gerações desaparecidas. Hugo. p. nas batalhas da fé com a civilização. 295. (PR. antítese extraordinária – rebrilha a consciência eterna da História. um sentido religioso e um intelectual aparecem simultâneos. 547). associados à marcha histórica da Revolução. n. Girondinos loucos porque tinham o futuro como ideal do presente. Por um acaso de erro de datas que pouco compromete a empresa dos organizadores. 547). p. Euclides já nos comunicara essa mensagem em artigo publicado no jornal a Província de São Paulo. estes acertam quando recuperam o quase desconhecido ensaio de Euclides. Nos entraves para o avanço de uma “entidade abstrata.. esses doudos divinos – doudos porque tinham a razão além do seu tempo – no futuro –! (PR.. Filho deste sonho – é com o entusiasmo o mais ardente e elevado – que procuro – lançando o pensamento através da História – a legião fogosa e audaz dos Girondinos. um impacto também letrado. p. como o próprio se autodenomina um filho da revolução. p. 93.

estes sim. simultaneamente. ou melhor uma sentença. para o nosso autor. são os pilares do esteio em que se escora a evolução social brasileira.. 105 o mundo moderno da sociedade e da política. . O degenerado seria aquele que. Analisando este momento discursivo. Pelo que parece ser possível ensejar que a comparação da Vendeia com Canudos aponta para o evento observado da resistência do credo religioso no mundo político moderno. ao lado do futuro. O cenário da civilização. 93. 156) jogam em Euclides. desarma-se o enigma do epíteto binário e incrivelmente sintético – experiência nada atípica no texto euclidiano – de que o sertanejo “[é] um retrógado. Ainda. em que o povo se ergueu pelos ideais de Cristo” (OC I. Esta relação. p. habitando as cidades do litoral. enérgica e precipitadamente” (OC I. caminham pari passu com a inevitabilidade da civilização. p. 547). ergue- se na Europa. O caráter do degenerado reflete. e teria se corrompido com o tempo da vida nas cidades. “logicamente” (OS. p.. na medida em que implica estádio evolutivo avançado porém à custa de corrupção. em contato com a civilização. esmaga-a pela civilização” (OS.. noutra a Humanidade abrindo os braços no livro. ergue-se n’Ásia. uma experiência de decadência. A medida racional de presciência e a “predestin[ação] à formação de uma raça histórica em futuro remoto” (OS. afinados com Euclides. a autêntica instituição da história. que seria o tempo. Demorá-lo de um segundo ou de um século. ibidem). 203). entre cristandade e revolução. do papel do fanatismo na história. tal como uma lei. e “aparece[m]”. abastardar-se-ia no conjunto das suas qualidades. ao lado do passado. por diferença. ou seja.” (ibidem.. endossando o que argumentamos anteriormente. entre elas o tumultuar dos povos. Como esses autores opinam aqui. naquele mesmo ensaio. p. essencial no argumento de Euclides. no caso brasileiro. em Os sertões. de uma lei indestrutível. revolução e civilização. ibidem). opina o autor: “[h]á duas épocas primordiais da História: uma é aquela em que Cristo morreu pelas ideias do povo – a outra. e o cenário da raça de futuro remoto. por uma acumulação proporcional de energia que afinal o realizará – brutal. seriam ambas pensadas a partir das instituições – sobretudo uma. 204). Nesse sentido. p. depreendemos que a condenação religiosa e a história política. não um degenerado” (ibidem. não é disparatada e logo ganha uma outra representação que a cristaliza em Euclides: “numa cruz abrindo os braços à Humanidade. é suprimir o trabalho que devia ser realizado. “É que neste caso a raça forte não destrói a fraca pelas armas. Assim. 547). mas também Silvio Romero e Alberto Torres apresentam acerca dos “patrícios litorâneos” do Brasil. “[m]odificar esse movimento é infringi-la. Esta diferença reflete igualmente a reflexão que não apenas Euclides. Para Euclides. os citadinos. o correr desse andamento dúbio da revolução na modernidade política.

Euclides parece demarcar um sentido específico para o seu entendimento sobre o conceito de “homem primitivo”. ao invés de se dissipar. uma vez que no contato com a civilização corrompem-se profunda e irremediavelmente. os mestiços emergentes. com todas as nuanças da cor. 436) O futuro remoto da raça seria estabilizado pelo sertanejo. 204. recebe na inversão de Euclides sobre a hipótese de Gumplowicz. um outro sentido já que não “volve do caso vulgar. 203). essa sim. Na instituição do tempo de futuro remoto. variáveis. a fortaleza de estabilidade política da civilização que. p. diferenciando-se. 202-203) . (OS. do extermínio franco da raça inferior pela guerra. (OS. no “semibárbaro”. p. à sua absorção vagarosa. em última análise. p. Eliminação. (OC I. o que seria um mal. E. Porque desta guisa nasceram e se embalaram nos primeiros dias todas as nações estáveis.] durante o curso deste processo redutor. porque ele não participou “da eliminação de atributos que lhe impedem a vida num meio mais adiantado e complexo” (OS. [mas] à sua eliminação lenta. comprimindo-se e atrofiando-os antes do pleno desenvolvimento – nos sertões a integridade orgânica do mestiço desponta inteiriça e robusta. por mais demorada que esteja destinada a ser. como forma definitiva do caráter. justamente. nada mais são. acomodando-se a novos e mais altos destinos. beneficia-se da solidez física do sertanejo. deveria ser fonte de preocupação do observador do presente. caracterizando-o não como o último ou o primeiro ente de uma sociedade decadente. onde a raça iria se estabilizar. sem feições definidas. porque é sólida base física do desenvolvimento moral ulterior. Ao invés da inversão extravagante que se observa nas cidades do litoral. agora. que é a própria luta pela vida das raças” (ibidem. pelo correr das idades. a garantia de um tipo fisicamente constituído” (OS. ibidem). capaz de evolver. e as mais das vezes inviáveis. [. onde funções altamente complexas se impõem a órgãos mal constituídos. “combate surdo e formidável. “A sua evolução psíquica [do sertanejo]. do que os mutilados inevitáveis do conflito que perdura. ibidem). p. à sua diluição no cruzamento” (ibidem. mas como o princípio temporal de uma civilização aguardada junto com os sertões.. grifo nosso) Pode-se entrever que o “desenvolvimento moral ulterior”. tem. 202). imperceptível. da forma e do caráter. com uma missão definida no destino geral da humanidade. Ainda que leitor por desleituras da teoria antropológica biológica europeia. sendo assim. 106 constituem-se degenerados. pode ser um bem na fase transitória que estamos ultimando. Em ambos os lados predominam tragédia e debilidade. Já os “rudes patrícios” do interior.. Nesse sentido. p. sem vigor. encontrar-se- ia no sertanejo. imune de estranhas mesclas.

como opina Euclides. tempo do qual Euclides objetiva. 203. s. na direção desses dois artigos. Apenas para não perdermos o foco do porquê dessa análise. Recordado por quê? Recordado como uma passagem para a civilização. evitou que descambassem para as aberrações e vícios dos meios adiantados. o que ele afirma em 1902 com Os sertões no resgate dessa comparação. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estádio social superior. porque./p. é mister ressaltar que o argumento de Euclides sobre a raça sertaneja não conduz. teria ao seu benefício a solidez física propiciada. Mas seguramente demarca que este último. Esta figura da guerra em Os sertões é não menos descrita no livro do que o meio físico. 1998.. “imortalizá-lo na história como um feito extraordinário para que possa ser recordado para sempre” (ibidem. o otimismo com a raça parece levar ou justificar um cenário de preservação institucional. alicerçada na ciência e na técnica. ainda. s. sua força aparece com toda força na figura da guerra” (VILLAS BÔAS. paradoxalmente.] os nossos rudes patrícios dos sertões do norte forraram-se a esta última. o homem sertanejo. no forjar dessas citações do texto de Euclides. diretamente. [. grifo nosso) . tentar entender o registro discursivo de formação do mestiço. ou seja. e. Fazendo isso poderemos inclusive entender os motivos que levaram Euclides a. Lembrado. logo não se corrompendo como os “singularíssimos civilizados do litoral”. muito especialmente. em que a civilização e a ordem deveriam ser antecipadas. dela não tendo participado. em Euclides. para usarmos um termo da teoria antropológica atual. o selvagem é apto à civilização exatamente por seu insulamento no interior. como Villas Bôas desenvolve em seu artigo. O abandono em que jazeram teve função benéfica. mas sobretudo (e aqui voltamos à terminologia euclidiana) de afastamento psíquico e de proteção contra o tempo corruptor da civilização. A concordar com o argumento de Glaucia Villas Bôas quando assinala que na “saga euclidiana o papel da civilização moderna. simultaneamente. cultural. além disso.. Tampouco se posiciona para a deturpação do caráter sertanejo. o homem e as intercaladas e sucessivas metáforas de doenças e fanatismos que magnetizam o conflito. Novamente. Precisamos entender como. 107 Devemos agora. um reflexo do qual. (OS. contrapor. comparar a Vendeia com Canudos. Distantes mas não antípodas da civilização. inicialmente. nesse caso. como uma instituição da “história dos vencidos”. e.). para a derrocada da civilização no Brasil. é cosmológico. no conflito de Canudos. a marcação do tempo deve ser retomada. pelo seu histórico isolamento geográfico – isolamento que. nos artigos para o Estado de São Paulo em 1897./p.). p. o presente deveria visualizar sempre como evidência histórica do seu progresso – testemunho da sua lei indestrutível. antropológico.

. contudo. como conclui no último artigo sobre a Vendeia. De modo que parece ser mesmo justificável o lamento de Euclides da Cunha sobre a eliminação das sub-raças sertanejas. preservando uma existência ainda que fantasmática no tempo histórico da civilização. pelas armas). se contarmos com a hipótese de que Canudos constituía uma ameaça à civilização. 104). para Euclides. p. Este lamento ao desaparecimento de uma tradição admite o seu sentido na história ao justificar a incorporação desses sertanejos mortos como entes da sociedade. Ou ainda.. em que pese o caminho escolhido. mas pela adaptação futura dos “rudes patrícios” (pela incorporação). Era com eles que a obra da civilização iria encontrar a sua vitória. quando forem desbaratadas as hostes fanáticas do Conselheiro e descer a primitiva quietude sobre os sertões baianos. rediviva dentre um espantoso acervo de perigos? Eu creio sinceramente que sim” (CEC.] amanhã. ou extintas” (OS. a extinção do povoado. 66. ninguém conseguirá perceber. trazia como efeito um prejuízo para a sobrevivência da civilização. deixando. encarando Canudos como um desafio da própria instituição da República. em realidade. mas exatamente o contrário. Em carta de 14 de março de 1897. derivando pelas escarpas íngremes das serras. no sertão é que se encontravam os “heróis intangíveis que se escoando céleres através das charnecas prendiam as forças republicanas em inextricável rede de ciladas” (DE. não porque ali estaria uma raça degenerada. os trilhos. p. Euclides se dirigia ao amigo João Luís: “Procurando ser otimista (difícil coisas nestes tempos maus!) vejo nesta situação dolorosa um meio eficaz para ser provada a fé republicana”. coleando pelo fundo dos vales. o seu assunto é político – é para a união do sertão ao projeto político federativo nacional. (DE. ajuizada não pelo exército da República (isto é. isto é. Em realidade. através das matas impenetráveis. p. serão em breve tipos relegados às tradições evanescentes. publicado no jornal Estado de São Paulo: [. o conflito. grifo do autor). 51). as veredas estreitas por onde passam. talvez. nesta hora. se o tom dos dois artigos publicados em 1897 parece ser de crítica ao método estratégico-militar sobre Canudos. 61) Neste último fragmento transcrito. ao que supunha “[n]ão achas que ela [a República] resistirá brilhantemente – emergindo amanhã. onde “o jagunço destemeroso. era uma sentença. a identidade desses soldados em suspenso: seriam os canudenses ou os militares os verdadeiros soldados da República? Esta . admiráveis de bravura e abnegação – os soldados da República. o tabaréu ingênuo e o caipira simplório. no entanto. Civilizar. 108 Igualmente intrigante deve ser a notação que Euclides faz acerca da comparação entre Canudos e Vendeia. De modo que. observamos como Euclides entorta o sentido de bravura para os soldados da República. p.

a fronteira entre a civilização e a barbárie. quando alegamos que Canudos provocava um desvio junto ao projeto político republicano. tem. e do seu passado. onde se insinua com a ambigüidade que lhe caracteriza a insígnia da vitória sobre o sertão por meio da força do Estado. este desvio seria menos de rota do que pela necessidade de conhecimento do outro. como citamos acima. ‘de vida curta. a garantia de um tipo fisicamente constituído” (OS. Luiz Werneck Vianna é quem também nos diz: A dialética brasileira como ‘tranquila teoria’ encontra a sua expressão paradigmática na questão racial: o brasileiro. 1997. sim. da legalidade que salvaguardaria a ordem nacional. em seu cruzamento com a história social e política do Brasil: salva-se a autonomia nacional. através da descrição minuciosa. p. Em realidade. O percurso político nacional deveria ser feito através do reconhecimento histórico do seu afastamento do litoral em direção ao interior. de modo algum. é encarada de maneira tênue e ambígua na medida em que ela repõe o vínculo entre civilização e autonomia nacional diretamente no seu centro. Morse parece estar correto ao compor o desenho da geografia desses debates no âmbito da história das idéias. já em processo de constituição no terreno dos fatos – a miscigenação – e que se confia à ação benfazeja do tempo. por mais demorada que esteja destinada a ser. reconhecidos pelos historiadores. com a assimilação da bravura dos sertões. que viria corrigir a morbidez da população. 16) Acertando o nosso argumento com o que expõe Werneck Vianna. simultaneamente. um tema autônomo ou descomprometido com o projeto de autonomia nacional. “solidez física” para o “desenvolvimento moral ulterior” e. ‘porque ainda não temos uma feição característica e original’ [citação de Silvio Romero]. achacada e pesarosa’ [idem]: ‘dentro de dois ou três séculos a fusão étnica estará talvez completa e o brasileiro mestiço bem caracterizado’ [idem]. (WERNECK VIANNA. de adjetivações à bravura e ao heroísmo dos combatentes sertanejos. todavia. o brasileiro também seria ‘um destino a ser criado no futuro’ [idem]. Como um banquete antropofágico. os soldados da república retornam da guerra alimentados dos caracteres do outro lado inimigo abatido. sua “evolução psíquica. o estranho. Sertões e seus habitantes precisavam ser ademais. neste mesmo texto. o inflexível da relação entre civilização e raça nunca foi. não conformaria uma raça sociológica. assim como teria provocado mesmo na Vendeia da França. carência irremediável que estaria a comprometer o seu caminho rumo à civilização. p. Como sugere Richard Morse para uma reflexão mais ampla (1988). Em outras palavras. . com fins de instituí-lo na civilização. 109 dúvida se deve a uma seqüência anterior já citada. no caso do Brasil. 203). O que quer dizer: a união do sertão à civilização efetua-se sob o imperativo político da incorporação. uma vez que o sertanejo apresenta. condenando-se à civilização. agora. Como tipo humano.

dos aspectos que religam a consciência de um povo à sua existência. o exemplo político que vinha do Rio Grande do Sul era uma esperança em sentido contrário. Euclides se pronunciava a respeito da crise política nacional. logo em seguida. Deve-se notar que. ela apontava em direção oposta à conduta geral de “inconsciência política” (CEC. (CEC. 110 incorporados ao tempo moderno e. o nosso autor confirma esta sua posição em favor da “consciência política” dos patriotas sulistas. isto é. como alega. Em carta de 25 de outubro de 1892. p.. Posicionava-se com uma sensível anuência. Uma vez que. ao tema da revolta motivada por princípios. já que logo em seguida. o que era dantes considerado um crime e uma coisa horrorosa para os verdadeiros patriotas. quando menos é um exemplo. 46). assim. sobre a Revolta Federalista na Província do Rio Grande do Sul. Em outra carta a Porchat de 21 de abril de 1893. o recurso ao “ensinamento histórico” da Vendeia permite igualmente recuperar. no argumento de Euclides. p. quando menos ela nos está dizendo que se nesta terra não há quem saiba viver à luz dos princípios. tão perigoso que o desmembramento por exemplo. na mesma carta ao amigo Porchat. por fim. o próprio desmembramento que era um mal.] estaremos à mercê de todas as ousadias da inconsciência política” (ibidem. existe uma minoria que sabe morrer por eles” (ibidem. Euclides parece ser favorável àquela revolta no Sul. aí. pois. “É por isto que eu bato palmas à revolução do Sul.. Entretanto. em realidade. poderíamos dizer. a intromissão da União e de outras federações no território baiano poderia. “acerca do final desfecho da dégringolade e acerca dos homens que inconscientemente a estimulam” (CEC. da ação de fé. em Euclides de uma maneira particular. em função da corrupção política. p. é a melhor coisa que pode decorrer da situação atual. Euclides abrevia-se e pondera: . Na medida em que Canudos configurou um risco para os coronéis da Bahia para. ser visto como conflito político para o governo baiano. 42) Em realidade. ibidem). “durante largo tempo [. A garantia da autonomia nacional e do pacto federativo – temas importantíssimos no debate político das duas primeiras décadas republicanas – colidiam. ibidem). grifo do autor). admitidos como futuros “heróis nacionais” de um projeto de civilização. nesse específico. para ele. A verdade é que o estado atual do nosso país se define de um modo tão perigoso. Euclides parece. provocada por um dilema. 46. o elogio é apenas relativo. colocar em incerteza a frágil estabilidade das instituições federativas nacionais. o risco pelo qual passava a “autonomia duvidosa” da República e das federações diante de Canudos. declaradamente se abrir ao tema das revoltas provinciais.

p. dispondo os fanáticos bárbaros em direção ao desenvolvimento psíquico exigido para a civilização. Contudo. já que [.. por isso. tal qual a retidão para os princípios enunciada anteriormente em relação ao Sul. a sua opiniao de que a “força federal deveria seguir bastante forte para se subtrair às contingências de ‘retiradas prejudiciais e indecorosas’” (OS. 366). p. um problema de ignorância sobre a história.. “quando quem quer seja medianamente altivo. socialmente. quando informa a possibilidade de seguir com o pai para a Europa. entretanto. na ação confusa e desordenada dos chefes militares e de governo que não atentavam. p.. desobedecia. Voltando ao texto de Os sertões. “entendendo ter a repressão legal vingado [desagravado] o círculo das diligências policiais”. entretanto. Este ensinamento indica que “se preestabelecera a vitória inevitável sobre a rebeldia sertaneja insignificante” (ibidem. A solidez física funcionaria. sogro de Euclides]. . Não seriam perigosos para as instituições os “fanáticos religiosos”. não nos esquivemos e sigamos direto para o ensinamento político implícito na comparação já aludida entre Vendeia e Canudos. perdida pela “revolução dos cochichos: os revolucionários vivem a discursar pelas esquinas inclinados para o ouvido dos comparsas – mas toda a sua ação não vai além disto” (CEC. 111 O que posso te dizer é isto – a nossa situação é deplorável e perigosa. Assim.. estes possuíam a “solidez física”. na realidade. Euclides nos informa que “[o] governo baiano afirmou serem mais que suficientes as medidas tomadas para debelar e extinguir o grupo de fanáticos e não haver necessidade de reforçar a força federal para tal diligência [. 366). para Euclides.. para o ensinamento histórico” apreendido por Euclides na Vendeia (OS.. corrupção de valores republicanos que. p. 63).. talvez eu me esqueça um pouco do triste rebaixamento em que caiu esta nossa pátria – entregue inteiramente às insânias dos caudilhos eleitorais e ao maquiavelismo grosseiro de uma política que é toda ela uma conspiração contra o futuro de uma nacionalidade. (CEC.. p. “porém.]” (OS. p.] graças à minha índole exagerada de fetichista. Pois é está a intenção do ensinamento histórico de Euclides: trazer-nos a sinceridade da história. ibidem). tendo em vista que a vitória sobre eles era inevitável e. O chefe militar do distrito [General Sólon. doido pelos modernos prodígios da civilização. pode afirmar a camaradagem deprimente de quem almeja o morticínio sem os perigos do combate” (CEC. 46). O perigo consistia. (CEC. 52-53). 46). O erro de análise política é. vamos atravessar longos e sombrios dias de anarquia sem nome até que o espírito nacional duramente provado faça com que a nossa Pátria volte para a comunhão dos povos como o filho pródigo – educado pelas desgraças. ao que entende Euclides. p. ele confidencia ao amigo em carta de 25 de novembro de 1893. 366). poderia ser corrigida pela história sincera. ao que acrescentou.

365). Não deve ser fortuito o capítulo que trata da “A Nossa Vendeia”. 2º) para manter a forma republicana federativa. intangível. [De tal modo que] para a resguardar melhor foi removido da Bahia o chefe da força militar. 6º . 1891) E de fato. são distúrbios que. “perdera-se esterilmente o . e repelindo a intervenção que lhe implicava incompetência para manter a ordem nos seus próprios domínios. (OS. alegadas por Euclides. 367). p. a ênfase política da incapacidade demonstrada pelos governos da Bahia e Federal em administrarem o pacto federativo. que traçara a sua atitude retilineamente pela lei. para admitir um cenário de “revide enérgico” dos sertanejos que souberam aproveitar da deficiência da República. tornaram-se evidentes por esse acontecimento. preparando um erro de análise que poderia ter comprometido a soberania nacional. no diz-que-me-diz da lei. porém. a soberania do Estado [da Bahia]. enquanto esta. A confusão das leis assim como a incomunicabilidade das autoridades. 47). como a confirmar aquela impressão da “revolução dos cochichos”. pairou sempre. p..O Governo federal não poderá intervir em negócios peculiares aos Estados. em contexto onde “as paixões políticas são capazes de todos os desastres” (CEC. p. 4º) para assegurar a execução das leis e sentenças federais. de pronto. sobre o que seriam os limites de ação da União. ao final desse módulo de comparação. Essa dimensão hiperbólica recebeu. Autonomia duvidosa. conflagrada por uma “soberania apisoada” (OS. ao final foi essa orientação “o que sucedeu. p. p. a intervenção que procurava encobrir. já em Os sertões.. do extremo norte e do extremo sul. pois. em respeito ao pacto federativo no âmbito dos seus Estados membros. à requisição dos respectivos Governos. a autonomia nacional. A nação inteira interveio” (OS. Deslembrara-se que em documento público se confessara desarmado para suplantar a revolta e que apelando para os recursos da União justificava. salvo: 1º) para repelir invasão estrangeira. ser intitulado como “Autonomia Duvidosa” (OS. 367): [. 367) Ainda que a hipótese de Euclides se encaminhe. precisamente. Art. miraculosamente erguida pelos exegetas constitucionais. ou de um Estado em outro. O artigo da Constituição Federal de 1891 referido por Euclides incide.. (OS. antes de serem criados por Canudos. do Rio Grande ao Amazonas. 366-367) A incomunicabilidade entre as autoridades é marcante nesse momento. (BRASIL. naturalmente. 112 O governo estadual. 6º da Constituição [Federal] de 24 de fevereiro [de 1891]. p.. 3º) para restabelecer a ordem e a tranqüilidade nos Estados. agindo dentro do elástico art. cerrou a controvérsia levantando o espantalho de uma ameaça à soberania do Estado. como observa Euclides.] sobres as bandeiras vindas de todos os pontos.

de ruínas” o “drama da nossa história”. quando Euclides situa as dubiedades do mundo civilizado. a admissão de um erro de análise política da parte da civilização. 366) incluía também. a nosso ver. os escombros carbonizados das fazendas e dois pousos avultavam. quando se justifica a respeito do risco de desmembramento nacional provocado pelas revoltas no Sul. a comparação inusitada do conflito sertanejo com a Vendeia francesa cumpre – conforme o objetivo maior do livro de Euclides – a função de assinalar para os historiadores que. pensando ainda se tratar de conspiração monárquica os levantes dos anos de 1890 no Sul: 28 Tema que aparece também em evidência no escritor e psiquiatra martinicano Frantz Fanon na década de 1950. de ruínas. 367. Para compreender o argumento. expõe os limites da ótica política republicana. cifrado em metáfora.3 História natural como historia das instituições Na discurso que informa o trecho de Os sertões com o qual encerramos a seção anterior tentamos subtrair da singular pecha de literária a comparação que. vamos à citação de uma carta de 15 de dezembro de 1893. endereçada ao amigo Porchat. haveria “o ensinamento histórico”: “a vitória inevitável sobre a rebeldia sertaneja insignificante” (OS. . mas não menos importante para as respectivas posições políticas dos autores. Na citação. Por outro lado. p. não obstante o vigor do romance de Victor Hugo infundido-lhe ânimo. o desfecho em drama do conflito que se seguiria à investida militar: Num raio de três léguas em roda de Canudos. tão importante para a escrita. O ponta-pé da comparação sugerida sobre a Vendeia. Não parece ser outro o motivo de Euclides. insulando o arraial num grande círculo isolador. Euclides deriva do renitente “círculo desolador. é de efeito global e contém em seu argumento um expressivo conteúdo de uma reflexão política. tendo em vista a cegueira. nos debates sobre o tema dos condenados e da sua integração na sociedade28. dos envolvidos na repressão do conflito sobre a imprescindibilidade de se incorporar os vencidos à nossa “existência política”. em nossa perspectiva. o autor já nos antecipa. “inconsciência”. grifo nosso) 2. do ponto de vista dos vencedores. Hugo e Euclides. Estava pronto o cenário para um emocionante drama da nossa história. portanto encaminhara-se em direção ao desagravo da estabilidade institucional da nação. 113 tempo”. (OS. p. entre os mais possíveis sentidos implícitos naquele paralelo. fizera-se o deserto. Para todos os rumos e por todas as estradas e em todos os lugares.

aliás. revela-se como civilização e desenvolvimento moral. Tenho-o hoje. os Newtons. forte. os Byrons e os Parnells? Não vês a maneira pela qual as gentes pseudocivilizadas tratam os selvagens em todo mundo? A França. exercendo miseravelmente o banditismo mais torpe roubando pátrias. já identificada por diversos críticos como a indicar o “consórcio entre ciência e arte” mais de uma vez prescrito por Euclides. a dessa perene inimiga do gênero humano – a Inglaterra – que realiza o fato assombroso de criar dentro de uma alma tão estreita os maiores homens do mundo. a nossa análise agora tomará um desvio para caminhar por um sentido diferente sobre o discurso euclidiano. tão ciumenta da própria liberdade e tão cavalheira para defendê-la. segundo expressão Euclides –. E ultimamente a Espanha. todos os meus atos. sinto-os em função dela. Schneider... 114 O que haverá pelas bandas do futuro? Esta interrogação. será bastante útil recorrer ao contexto histórico em que Euclides da Cunha interpreta a revolta de Canudos. será preciso inserir outras referências neste complexo. dos velhos devassos imperiais. investindo covardemente contra os Cabilas? Todas essas interrogações. O século XIX porém não testemunhará o desastre do aniquilamento de uma nacionalidade. É o inimigo pior e covarde. a fim de explorarmos a construção do seu horizonte conceitual no texto de Os sertões. simpatia. se na primeira seção deste capítulo. acodem-me de chofre e com tumulto ao meu espírito. Bange e tantos outros [. As usinas do Krupp. grifo do autor) Para podermos examinar a extensão desse quadro. De modo que. traduzido por uma palavra que eu entendia não devia existir na linguagem humana – o nativismo. acentuando uma reflexão para essa categoria. sobre todas. perene no meu espírito. estando ambos aparentemente de acordo entre si enquanto complexo. p. de luvas de pelica e sorridente. que nos mata e ao mesmo tempo avilta-nos. em outros como loucura e nevrose social. Nunca senti tão violento como hoje o que dantes era para mim um sentimento mau. (CEC. Tenho-as sempre. emudecidos a 15 de novembro e rugidores hoje? O que traduz a feição dúbia das potências estrangeiras e. exageradamente. a Inglaterra. já se me tornou em perigosa obsessão. O estrangeiro. Esta sensível mudança de caminho – do dúbio para o limítrofe – não precisa indicar mais do que de fato é: a análise de um texto exige que nos posicionemos de diferentes maneiras sobre a sua leitura. saqueando os lares tranqüilos dos bárbaros na África e na Ásia. iniciamos a nossa análise de Os sertões a partir da simpatia para o dúbio no texto euclidiano. . E eu pressinto que ele tem hoje o olhar cobiçoso sobre a nossa terá. a Alemanha. meu amigo. como assinalado no destaque dúbio para o bárbaro. amparada pela República. Ainda que todo o nosso esforço até agora tenha sido o de examinar Os sertões a partir da metáfora da psique – que em alguns momentos. de sorte que vivo num constante oscilar – do desânimo maior às maiores esperanças. Limites constatados por noções históricas. 57. A condenação assinalada em Os sertões deve nos remeter para um campo de disputas mais amplo que sinalizam para os limites da ordem política republicana. O que nos reserva o futuro? A nossa grande Pátria cindida pelas paixões decompor-se- á em minúsculos estados? Resistirá.] do progresso não impedirão a majestosa evolução do espírito democrático confiado à política americana. o estrangeiro que se diz civilizado – considero-o inimigo. à sinistra conspiração. vivíssimas e insolúveis.

a metafórica de Os sertões apresenta o efeito reflexivo de inscrever uma explicação sobre a descrição do visto. podemos registrar a identificação que ocorre entre o homem e o solo dos revoltosos como uma simbiose de ambos Homem e solo que. logo. senão que cumpre o propósito de uma reflexão discursiva sobre o pensamento. consideramos o sistema discursivo como um campo de conduta e de reflexão. 2013. temos insistido na hipótese de encontrar na metáfora psíquica o horizonte conceitual – isto é. onde se relaciona a revolta da Vendeia (1793) com o conflito de Canudos (1896-1897). O meio físico natural era. Essa analogia seguiria. 115 Como temos argumentado. da hipótese como reflexão. Nesta comparação Euclides dá pronunciada ênfase sobre o “homem” e o “solo” em ambos os movimentos. O que propomos. para os “próprios reveses sofridos. quase sentiu-se impotente para combater os adversários impalpáveis da Vendéia” (DE. assinalando uma espécie de cumplicidade trágica de todos no sertão. destacando “a mesma coragem bárbara e singular e o mesmo terreno impraticável [que] aliam-se. 51). . fizemos a análise da comparação histórica inscrita por Euclides no contexto da República. aqui. inserimos a sua aparência no texto euclidiano a partir da sua potência como um tipo de hipótese reflexiva. de compreensão de um argumento – que acorda e lança reflexão em direção à construção de Os sertões. No argumento trabalhado até agora. p. o sertão do Brasil daria a lição de bravura e heroísmo para os “mercenários inconscientes” da “civilização de empréstimo” em troca da sua própria extinção. como conceito que “é uma regra de representar as representações de um certo modo. neste sentido. completam-se” (DE. para tomarmos a expressão de Blumenberg. isto é. considerado personagem no conflito do sertanejo contra o exército militar republicano. Na comparação assim composta. 81). ou como invenção consagrada no espaço literário. simultaneamente. consiste em um regime de entendimento sobre a metáfora como um sistema que possui “regras de reflexão” em Euclides. identidade ou ilustração de um referencial externo. Como uma autêntica coletividade. portanto uma “representação da representação” (BLUMENBERG. p. dessa forma. além disso. em conjunto. de forma a inspirar no texto o sentido da verossimilhança – no suposto da sinceridade real e não-abstrata do visto – sobre o cenário narrado. p. porque natural. 51). Sob esta perspectiva. Na seção anterior. enfrentam em oposição a marcha poderosa da revolução democrática que providencia a civilização. ou. A Revolução Francesa que se emparelhava para lutar com a Europa. da metáfora como hipótese. Desfazendo a expectativa da metáfora como mera representação de um real exterior a ela. que não se determina simplesmente pela analogia. referendado por expressões indizíveis – como uma metacinética.

designa como uma “perfeita tradução moral” a existência do homem do sertão com o seu meio. 214). Respectivamente: os “semibárbaros” cujo vínculo com o sertão era de uma “perfeita tradução moral”. supomos. Essa “perfeita tradução moral”. por diferença. p. no relato de Euclides. o cenário que entrevemos. é o de que existia naquela relação vital. Temos. até esse ponto. imbricados nessa interação naturalmente. Antes de explorarmos o desconhecimento dos litorâneos sobre a “estratificação étnica” que existia no interior do país. a tradução moral sertaneja era. observada com os olhos da sinceridade. é possível separar três cenários e três atores implicados nessa coletividade verificada no interior do Brasil: os homens naturais do solo. e a reagir. em certa medida. o interesse em denotar um conhecimento natural do sertanejo sobre as instituições do sertão. Aquele excesso tropológico do comparativo. a encontrá-los. Prova dessa cumplicidade entre o homem e o sertão. Euclides. instituindo não sem insistência uma coesa e perfeita integração entre o homem sertanejo e as instituições do seu meio. o sertão que abarca. De modo que. o sertanejo do Norte teve uma árdua aprendizagem de reveses. como um efeito de descrição e explicação no discurso. como já ressaltamos em mais de uma ocasião. poderia indicar um sentido político potente na comparação ensaiada. os “singularíssimos civilizados” que de resto desconhecem a sua própria sociedade e. e deveria ser preservada na medida em que seria fonte de um “ensinamento histórico” a ser tomado quanto do seu extermínio. na medida em que um era a perfeita tradução do outro. inédita no litoral alucinado com as “miragens da civilização”. cedo. espontânea e natural. Afez-se. Integração que seria. a ideia de que haveria entre os canudenses e o sertão uma adaptação histórica de longa data. na medida em que . ficamos com indícios de que. Com isso. Como uma transposição do cenário natural para o universo das orientações políticas. como apresentado em Os sertões. a todos e os organiza em uma história nacional. Euclides parece opor o conhecimento natural dos sertanejos sobre o sertão contra os artifícios ilusórios e inconscientes dos litorâneos da civilização. refletindo-se e alterando-se um e outro. se estivermos corretos nessa hipótese. tal como uma perspectiva nativa de olhar e narrar a história. a sociedade artificial ao solo e as instituições sociais. argumentado que a comparação entre a Vendeia e Canudos excede o tropos do artifício literário – explícito na remissão ao texto de Victor Hugo – como ressaltado pela crítica de Bernucci. de chofre. resultado de um longo processo de adaptação. assume o sentido de tradução emocional e social. 116 Deste modo. valeria à pena fazer uma exposição da situação do homem sertanejo com o solo. de pronto” (OS. por fim. na visão de Euclides. emergindo desse laço. o texto euclidiano faculta que a tradução sertaneja opere como vínculo afetivo e inseparável. “Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra.

sob o reverberar dos estios abrasantes. da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos. Dessa forma. a caracterização e a descrição do meio físico natural ganhariam a metáfora de prenúncio e se tornariam variantes inteligíveis porquanto trágicas. da rede preguiçosa e cômoda para o lombilho duro. “viver é adaptar-se”. não retira uma ordem singular à sociedade sertaneja e. isto é. (OS. passando da máxima quietude à máxima agitação. Não parece ser outro o fim quando Euclides se dedica com exaustão a descrever o ambiente sertanejo. psique cujo efeito é o de uma . sem transição sensível. os eventos que viriam a se desenvolver no conflito de Canudos parecem mesmo poder ser vistos por antecipação no conflito do sertanejo em debalde com a “natureza incompreensível” do sertão. esta determinação não parece se expressar em feixe de direção única.. isto é. No argumento euclidiano. atrelada a um sentido histórico que dimensiona o mundo natural por contraste e semelhanças com o mundo civilizado. partindo da sua “terra”. do seu “homem” para chegar enfim à sua “luta”. É o batalhador perenemente combalido e exausto. 214- 215). perenemente audacioso e forte. 117 as manifestações psíquicas que eram possíveis de se encontrar nos homens do sertão também poderiam ser localizadas ou deduzidas a partir da vegetação e do solo do meio físico natural que os cercava. preparando-se sempre para um recontro [i. É natural que o seja. Viver é adaptar-se. A natureza sertaneja seria em realidade uma fonte de conhecimento histórico sobre os eventos que se sucederam em Canudos – tal como uma ciência política –. o texto euclidiano prossegue: [O sertanejo] atravessa a vida entre ciladas. impetuoso. na sequência do argumento da “perfeita tradução moral”. Reflete. neste ambiente trágico da seca. nestas aparências que se contrabatem. p. e não perde um minuto de tréguas. Uma filosofia da história que ordena esses episódios em seu conjunto. em busca das malhadas. O meio biológico e o tipo físico importam para o dilema político de Os sertões na medida em que traduzem uma condição moral. conflito] que não vence e em que se não deixa vencer. contudo. nessa medida. Ela talhou-o à sua imagem: bárbaro. É inconstante como ela. abrupto. a própria natureza que o rodeio – passiva ante o jogo dos elementos e passando. mas também assume a função de vincular o homem ao meio. que o arrebata como um raio pelos arrastadores estreitos. Esta incompreensão da natureza. coordenada do tempo para aquele espaço desconhecido da “terra ignota”. a aparência da psique no texto regula conceitualmente o possível fator de causa biológica sobre essa história.e. reconhece um sentido de adaptação que seria imperativo ao homem do sertão – para o sertanejo. Assim. isto é. como um indício natural e histórico que justapunha catástrofe social ao cataclismo natural. uma situação da cultura. Ainda quando reconhecemos em Os sertões o determinismo do meio sobre o homem sertanejo.. surpresas repentinas de uma natureza incompreensível. de uma estação à outra.

entre o homem e o sertão é a de um reflexo psicológico – o visto na natureza retorna para o não-visto do psíquico em função do seu reflexo no ambiente. podemos talvez dizer. no sertão. desse modo. o tabaréu ingênuo e o caipira simplório” (OS. A “perfeita tradução moral” não pretende dizer a respeito de apenas um aspecto. de acordo com a nossa leitura de Os sertões. p. a um ecossistema social que a despeito da sua perfectibilidade adaptativa. Ao mesmo tempo. ibidem). mas a um complexo de “vicissitudes históricas”. Concordamos com os argumentos de Santanna e Bernucci. Traços que incluíam tipos e adjetivos – “o jagunço destemeroso. estava condenado a extinguir-se ante “as exigências crescentes da civilização e [à] concorrência material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra” (OS. o psicológico atua como uma variável curinga. 2013. do que ainda não está em proximidade corporal. Ou para ficarmos com a reflexão sobre o conceito como derivado da actio per distans no ensaio de Blumenberg. contudo – e ainda apostando no argumento dos dois autores –. “tornam talvez efêmeras” (ibidem. que ilumina além do que já seria visto. 66. negrito nosso). O que quer dizer: o olhar não se fixa no horizonte espacial e temporal para aguardar e agir sobre o que vem. A velha antropologia teleológica dos gregos e dos romanos concordava em que o andar ereto e a mobilidade da cabeça do homem se mostravam como o último propósito da natureza de convertê-lo em contemplador do céu. Euclides resume as descrições do meio físico natural a uma variante que só faz sentido quando jogada à luz dessa história natural do sertão. Sirvo-me de uma velha fórmula humanista para esclarecer que o andar ereto e o olhar a partir dessa posição. 65). Essa metafórica em Euclides. como a criar uma reflexividade entre a natureza e o sertanejo. com o olhar erguido a noventa graus em relação à terra. como de condutas e reações. Entre os traços mais expressivos. se eleva ainda noventa graus e se dirige ao céu estrelado (BLUMENBERG. não representam o valor final do processo. que a tradução moral do homem com a terra era provavelmente o mais expressivo a se perder. isto é. de onde parece se voltar o sentido do nativismo pelo sertanejo de . 118 coordenada teórica metafórica. com isso. ibidem). não deveria restar repousada somente ao nível literário ou geológico mais do que no histórico e político. A identidade que se firma. p. “os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil” (ibidem. fonte de afetos e sentimentos. tanto histórica quanto política. 51). senão que. p. grifo do autor. o alargamento do horizonte e. “A luta”. quando analisam que entre as partes primeira “A terra” e segunda “O homem” de Os sertões desdobra-se uma relação metafórica que seria anunciadora dos eventos que viriam logo a seguir na terceira parte. Dois elementos estranhos àquele ambiente trágico porém de “perfeita tradução” dos sertões com os seus seres ameaçam. Acreditamos que o segredo que permite tal empresa encontra-se na sua argumentação metafórica sobre o psíquico.

No próximo capítulo (“The mind’s eyes”) analisaremos minuciosamente essa história natural a partir das suas instituições – a religião. animado pelas convicções políticas democráticas e fanáticas da revolução francesa. pretendíamos introduzir a observação de que esta reflexão nos coloca em situação de pensar que a natureza. Curiosamente. como uma fé sobre o trágico. um evolucionista social como Euclides avaliaria na sua contrapartida que a introdução de novos elementos naqueles sertões abalaria. A psique seria a responsável por fazer (tornar visto) este vínculo. De fato. Em suma: se a adaptação era um tema da história natural. Por ser uma característica rara ou mesmo inexistente entre os “singularíssimos civilizados” do litoral. apresenta também o seu caráter de evolução singular quanto ao seu ambiente no argumento de Os sertões. o paralelo com Rousseau e sua respectiva visão sobre o “homem primitivo” ressalta aqui. narrar uma história natural concreta porque reflexiva. A natureza é . a seca. as plantas. Digamos: a singularidade da natureza poderia ser objeto de estudo histórico. para Euclides. assim como a civilização poderia ser notada a partir do “plasma sanguíneo desses grandes organismos coletivos”. Ela é. de maneira irreversível. como temos argumentado. o trágico porém coeso equilíbrio que vinculava o homem sertanejo à sua sociedade natural. Neste ponto. assim como a civilização. Para o autor. no sentido conceitual e hipotético-reflexivo que cobrimos esse termo. o cataclismo. como alegamos. a fé. registrar uma adaptação geral em sua sucessão. a adaptação natural. O psiquismo se desenrola. portanto. Euclides apresenta em Os sertões um capítulo de história natural recorrendo-se ao referente do visto e à sinceridade da descrição para confirmar a sua observação in situ. metafórica. era o princípio político vital em risco no conflito deflagrado nos sertões da Bahia. que fazem parte de uma história que se deve contar porque dotada de princípios. agente social e político dotado de uma “vontade e sentimento”. 119 Euclides. uma identidade com as instituições do meio. a afirmação de que atacando o sertão atacava-se a “rocha viva da nossa nacionalidade” não diz respeito literalmente a um argumento geológico. Afinal. sobretudo nas páginas sobre a terra e sobre o homem dos sertões. essa necessidade de realçar um vínculo fundamental – tradução moral – que todavia estava sendo posto em perigo junto com a inevitabilidade da civilização sobre o interior selvagem é recorrente e não necessariamente auto-evidente. A tradução moral que aparece implícita nessa afirmação apóia-se na imprecisão com que Euclides devassa o conceito de psique ampliando-o para a descrição de caracteres sociais na fauna e na flora da sertania. onde o idêntico se fundamenta no que empiricamente lhe é diferença. porque nestes cenários era possível.

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apresentada dotada de personalidade, agente moral atuante na história. Ainda mais no sertão,
particularmente, como em determinado momento Euclides informa, a natureza era partidária
do seu tipo, “amparando-o, acolhendo-o”. Como um agente na história, o meio natural não
determina mais a história do que o seu homem – ao que derivamos estar na descrição de
adaptações no estreitamento entre ambos o possível determinismo euclidiano. Um
determinismo contingente das suas próprias descrições.
Também na correlação entre estados psíquicos e distúrbios sociais, Euclides conseguia
aproximar a precariedade do sertão da violência da civilização. De modo que a natureza,
enquanto específico complexo psíquico, cria o seu clima, os seus seres habitantes e a sua
“sociedade” ao mesmo tempo em que, por este mesmo sentido, expressa uma personalidade
íntima a eles. Intervir nessa cumplicidade sertaneja, instituição de uma história natural, seria
alterar a sua face, a “perfeita tradução moral” da vida com o seu meio. Seria ademais abalar a
firmeza institucional que havia se estabelecido entre os homens sertanejos e o meio físico
natural. Este último já como metáfora de um conteúdo mais extenso que seria, por isso
mesmo, descrito recorrendo-se ao escopo conceitual da psique. Na construção da metafórica
psíquica, Euclides aproximaria seres diversos em função de uma característica social.
Euclides parece pretender, através do seu psiquismo em Os sertões, conferir uma determinada
consciência social também para os elementos naturais do sertão. No próximo capítulo vamos
analisar os pormenores do psiquismo do meio físico natural operado, em Euclides, no
emprego de disposições sociais. Por ora, coube-nos ressaltar que existiria nessa afirmação de
princípios políticos, éticos, do homem com o solo natural sertanejo uma adaptação histórica
que, como opina Euclides, inexistia na civilização desterrada do litoral.

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3. THE MIND’S EYES

O debate acerca da inscrição literária de Os sertões incide sobre um aspecto
relacionado ao campo discursivo. Encerramos a nossa análise no capítulo anterior ressaltando,
justamente, este aspecto do sistema discursivo euclidiano. Ao operar com episódios de
abreviações por analogias e homologias, excessos descritivos e metáforas lançadas sobre a
vida sertaneja, Os sertões realiza deslocamentos reflexivos mais ou menos definidos por
conceitos de uma disciplina científica a outra, da subjetividade dos valores, em uma superfície
bastante dúbia de campos discursivos distintos e operantes. Nossa hipótese incide, neste
sentido, em averiguar de que maneira a história natural, as descrições dos “fáceis geográficos”
e a determinação de resto imprópria dos fatores étnicos colaboram, do ponto de vista
argumentativo, na construção de uma história política e social do mundo sertanejo. Ao fim,
parece ser este um dos intentos expressos por Euclides, anunciado logo em “Nota Preliminar”:
“esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais
expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil” (OS, p. 65). Em que pese o substantivo racial
que apareça aí, ele retira o seu sentido como esboço de um processo histórico em aberto,
lançando este processo, para o seu efeito histórico enquanto discurso, no referente da raça
como o indefinido alçado na possibilidade de realização completa em algum momento ulterior
de “futuro remoto”.
Deste modo, dedica o nosso autor a narrar os conflitos dos sertões naqueles anos finais
dos oitocentos como “variante de assunto geral” (ibidem, ibidem), reconhecendo que
“[a]quela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da
palavra, um crime. Denunciemo-lo” (OS, p. 67). A denúncia que é reclamada para o seu texto
toma forma justamente pela narrativa histórica, o que demonstra estar na atenção do registro
temporal a distinção do que se trata o evento mais geral de onde se examina a sua
correspondente variante, Canudos. Como analisado nos capítulos anteriores, Euclides tolera
nesse argumento a hipótese de uma filosofia da história sobre o Brasil e sobre o mundo
sertanejo. Com esse plano em mente, são abertas no interior de Os sertões camadas de
significações de distintas relevâncias, todas dilatadas em relação a um processo do qual não
se sabe quando acabará, mas que se faz presente por uma hipótese que aventa o como este
processo deveria acabar. Algumas daquelas camadas parecem estar tão indiscerníveis entre si
e cujos limites são extremamente profundos, que exigem do autor uma posição aporética ao
narrá-las. Assim ele se confidencia: “tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito,

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façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história
como ela o merece” (OS, p. 67, grifo nosso).
Temos assinalado a presença do composto sinceridade, intimidade (camadas de um
texto que são distanciadas para serem então perfiladas pelo narrador) e história que se juntam
na empresa de Euclides. O autor nos entrega, de fato, um texto rico de camadas valorativas
que se pretendem integradas e acomodadas entre si. Nas seções seguintes deste capítulo
analisaremos como é efetuado este procedimento a partir do símile, a “perfeita tradução
moral” do homem com o seu meio ao longo de Os sertões, entendendo que por tradução
tomaremos, como referência para o texto de Euclides, os sentidos esperados de efeito,
adaptação e incorporação de um determinado elemento ao seu outro limítrofe. Limites que no
discurso euclidiano assinalam um processo que não se tem certeza quando acabará, ou seja,
cuja referência encontra-se no remoto. Para a finalidade dessa análise vamos nos deter o
máximo possível à nossa referência principal, o texto de Euclides, na tentativa de examinar, a
partir das suas descrições junto ao psíquico – uma tradução do adjetivo e do efeito social –, o
discurso que capta a natureza e o homem sertanejo em sua ambiência singular.

3.1 Geologia e psicologia no ensaio de metáforas

Se o conhecimento do alquimista é imaginado como um tipo de habilidade para
manipular elementos da natureza para, a partir da reação entre eles, obter como que
artificialmente o ouro; e se de posse do alquimista está a pedra filosofal, fluído material do
conhecimento para a manipulação e transformação dos elementos físico-químicos, pode-se
metonimicamente dizer que os saberes da geologia e da psicologia, enquanto ciências da terra
e da mente, possibilitam artifícios epistemológicos na combinação de determinados elementos
conceituais na alquimia de Euclides da Cunha. Os elementos de mistura e de reação do
alquimista social são, nesse caso, os conceitos e as metáforas manipulados pelo autor. Com
isso, quando a alcunha de literário é imputada a Euclides, o seu correlato físico-químico
também poderia ser admitido. Pois, concebemos que na montagem do seu discurso de
transformação do visto em saber, geologia e psicologia são manipuladas e se fundem, em tal
ordem, que da mistura entre as duas ressurge, tal como uma ciência do social (neste caso, do
Brasil e dos sertanejos), que se apresenta também como uma metáfora, isto é, examina-se “a
rocha viva da nossa nacionalidade”.

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Neste sentido, para descrever essa “rocha viva”, Euclides lança mão de um conjunto
de categorias advindas de outras áreas de saber na expectativa de dar luz ao ambiente que até
aquele momento persistia oculto na história nacional. Para tal tarefa, do campo da mesologia
reconhecido como ciências do meio, o autor vai se servir fundamentalmente das novas
descobertas feitas pela geologia, principalmente, do estudo das camadas subterrâneas do solo,
das variações do clima, da topografia, da hidrografia e, em menor grau, de um conjunto de
variáveis antropológicas, tendo em vista ser o homem um ser da natureza (SANTANNA,
2001, p. 134). Segundo argumenta também Leopoldo Bernuci, no prefácio da edição crítica
de Os sertões, na verdade “a presença da linguagem geológica se faz de modo tão ostensivo
que, ao ser utilizada pela primeira vez, não deixará de despontar novamente, para ressurgir
uma vez mais, alternando-se sempre com as outras” (BERNUCI, 2001, p. 30). Corretamente,
o crítico aponta para a importância que a geologia e a metereologia, além da astronomia, da
botânica e da físico-química receberam na montagem discursiva de Os sertões (ibidem,
ibidem). Ao que acrescentamos aqui que na interseção da geologia encontra-se uma descrição
psicológica que posiciona a história natural como história das instituições – como foi
desenvolvido por nós em capítulo anterior e que vamos esmiuçar neste capítulo.
Para chegarmos a este objetivo, gostaríamos de nos ater primeiro ao procedimento
específico de descrição euclidiano, a partir do que temos chamado aqui de hipótese psiquista.
Pois, nessa direção é que aponta a hipótese formulada por Euclides de similaridade entre o
procedimento analítico do geólogo com a leitura de perfil social do historiador. A semelhança
metodológica entre o geólogo e o historiador acolhe um índice como presença de caracteres
que sugere uma similaridade no modo de captar o real partilhada por ambos os discursos.
Euclides não se furta em instar a linguagem geológica para montar descrições amplas e
pormenorizadas do ambiente natural estudado, porém, com o fim de acentuar especificamente
o foco de visão para o oculto, por aquilo que está por detrás ou embaixo da superfície, pelas
camadas que são “refluxos do passado”, onde se acomoda “a rocha viva da nossa
nacionalidade”. Empreende, sobre o profundo como categoria geológica (cf. GOULD, 1991),
uma visada que transpassa o referente material para apreender o perfil de uma terra ignota.
Esta similaridade geológica e histórica que é afinada pelo olhar sobre o oculto e junto
ao profundo evidencia-se, em particular, nas páginas dedicadas à explicação da origem dos
desertos. Tal como incógnitas mágicas, isto é, sobrenaturais, os desertos apresentam um
ponto de dúvida para as ciências naturais sobre o qual pouco lograriam explicar. Em
realidade, identificado com o ambiente do sertão, o deserto demanda para o seu conhecimento
e, portanto, para se tornar uma referência no sistema da ciência, um argumento ou “hipótese

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brilhante” de creatio ex nihilo. Sua gênese não se explica senão por uma metáfora, o
cataclismo. Esta metáfora que explica o surgimento do deserto e, por sucedâneo, dos sertões,
Euclides a insere no texto como “Um sonho de geólogo”.

É uma sugestão empolgante. Vai-se de boa sombra com um naturalista algo
romântico [o naturalista aqui em pauta é Emmanuel Liais], imaginando-se que por
ali turbilhonaram, largo tempo, na idade terciária, as vagas e as correntes. Porque, a
despeito da escassez de dados permitindo uma dessas profecias retrospectivas, no
dizer elegante de Huxley, capaz de esboçar a situação daquela zona em idades
remotas, todos os caracteres que sumariamos reforçam a concepção aventurosa.
Alentam-na ainda: o estranho desnudamento da terra; os alinhamentos notáveis em
que jazem os materiais fraturados, orlando, em verdadeiras curvas de nível, os
flancos das serranias; as escarpas dos tabuleiros terminando em taludes a prumo, que
recordam falésias; e, até certo ponto, os restos de fauna pliocena, que fazem dos
caldeirões enormes ossuários de mastodontes, cheios de vértebras desconjuntadas e
partidas, como se ali a vida fosse, de chofre, salteada e extinta pelas energias
revoltas de um cataclismo. (OS, p. 91-92, grifo do autor, negrito nosso)

Marcado pela aventura e pelo onírico, a descrição de Euclides oferece para o ambiente
natural um aspecto acidental, ao mesmo tempo mítico e histórico – aventureiro. Esta
concepção aventureira seria tema, aliás, retomado por outros autores do pensamento social
brasileiro, como aparece no livro clássico de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil.
Em Euclides, todavia, na sua baixa definição quando aparece sobre a gênese dos sertões, a
aventura finaliza traduções que, a rigor, seriam difíceis ou mesmo impraticáveis sem o seu
respectivo referencial metafórico de fraca determinação sobre o real (Cf. BLUMENBERG,
2013). Neste sentido, tanto o oculto, como o remoto, podem ser entendidos como metáforas
da psique, esta referência já quase dilatada para abrigar o sentido clássico de alma. Nessa
variação dos sentidos que as diversas disciplinas, já citadas por Bernucci, das quais Euclides
lança mão, auxiliam o nosso autor na tarefa de enfrentar a indefinição que, à primeira vista,
parece decorrer do seu próprio objeto de análise, que desapropria qualquer uniformidade e
cuja definição encontra-se em futuro remoto.
Enfrentamos aqui a indefinição da raça que, no caso de Os sertões, tenta ser desfeita
no refúgio da tradução. Tal como um recurso da ciência física newtoniana, através da
mecânica natural que explica uma lei geral dos corpos e do movimento mas que não se
determina por esta lei, o indefinido absoluto nos faz supor possível obter explicações sobre o
homem sertanejo a partir do seu meio físico natural, sem com isso parecer entregar
completamente este homem à lei da sua natureza, valendo-se assim da sua fraca determinação
conceitual para observar e descrever o seu mundo natural. O instável lógico que advém da
determinação fraca presente na descrição do meio, a fim de se obter um índice ou perfil, seria

águas revoltas. Pelo contrário. como também dá ênfase cultural para explicar a formação dos desertos. Neste capítulo. são tão ilógicos que [Humboldt] o maior dos naturalistas lobrigou a gênese daquele na ação tumultuária de um cataclismo. sempre premente que está em descrevê-la e analisá-la. pois “pela sua própria simplicidade” o fenômeno descrito “dispensa inúteis pormenores técnicos” (OS. Neste sentido. partindo mais dos contrastes tomados como evidência “da extrema aridez à exuberância extrema” (OS. num irresistível remoinhar de correntes... A natureza desértica sertaneja surge a partir da imagem de um cataclismo. de acordo com Euclides. não ocupa a atenção do texto euclidiano. p. Nesse caso. do tumulto do cataclismo. ainda na descrição da “hipótese sobre a gênese” do sertão. Isto não quer dizer que não haja beleza extraordinária no deserto. a presença da seca dos sertões é anunciada no emprego de um argumento que. a natureza “combate-os. p. similaridade e tradução – produtos de uma abstração. . 135-136) Euclides retém do cataclismo a imagem de dobras que se abrem revelando “lacunas inexplicáveis”. perfilando-se então nas descrições de uma situação da natureza que se forma através de um complexo de “vicissitudes históricas” na reação da sua existência. reconhecida aos olhos somente pela sua catástrofe ou violência. não apenas introduz um elemento de referência natural para descrever aquele ambiente na terra. p. iremos nos dedicar a algumas dessas produções abstratas. 146). às vezes sob as linhas astronômicas definidoras da exuberância máxima da vida. p. sobre o norte da África e desnudando-a furiosamente. o nosso autor. percebe-se em Euclides a sutil intenção de também montar a sua própria “hipótese brilhante” para explicar a natureza. Expressos no tipo clássico do Saara [. repulsa-os” (OS. gênese tumultuária que se compraz “em um jogo de antíteses” (OS. 137). por meio da imagem vivaz de uma invasão. lacunas inexplicáveis. Antes de partir para a análise dessas três figuras. uma vez que a “natureza não cria normalmente os desertos”. A incógnita. garante a hipótese do oculto sobre o meio – a criar uma metafórica – que não se perderia nem mesmo diante da presunção do discurso da ciência. tão ilógicas que a “hipótese brilhante” do famoso naturalista alemão assinalaria um “significado superior” ao absurdo original dessas formações geológicas. no entanto. nesses ambientes “[d]esdobram-se. precipitando-se. p. uma irrupção do Atlântico. 135). 125 estabilizado pelas noções de retrato. seguindo o geólogo Humboldt. (OS. nesse caso. Pelo contrário.” Os desertos.]. O cataclismo. 135). O significado superior atribuído à explicação sobre a formação dos desertos no mundo confere uma origem ignota. o homem e Canudos. por meio de três figuras chaves significativas do texto euclidiano: a natureza.

“[u]m horizonte assim ampliado não comporta apenas aquilo que o sistema perceptivo encontra ou encontrará penetrantemente. o agravamento. Qualquer que seja a intensidade das causas complexas e mais remotas que anteriormente esboçamos. Euclides nos oferece todavia descrições imprecisas e conceituais. mas. 66). do mesmo passo. 128). que “se deixa. Ambas são descritas segundo um cenário de transformação e perdas. O mesmo sentido catastrófico é pretendido com ambas descrições. Realmente. como sugerido no fragmento a seguir. No nosso modo de entender essa questão. a influência daquelas é manifesta desde que se considere que a capacidade absorvente e emissiva dos terrenos expostos. os argumentos que vacilam de uma para as outras partes que dividem o livro sem neste percurso demandar ou alterar a sua reflexão sobre o já escrito. em vários momentos do seu texto. a degradação. e a rudeza dos relevos topográficos. porém. se deixa. trata-se de um expediente reflexivo para a produção de um ambiente conceitual. a tragédia da seca se assemelha à própria sentença à civilização ressaltada em capítulo próprio. a mesma noção de invasão. de luta pela sobrevivência da natureza. 145. como espaço produtor de metáforas que serão catalisadas pela guerra. (OS. entre os agentes determinantes da seca se intercalam. quando remetida para outro momento do texto de Euclides referente à chegada do exército republicano sobre o sertão. E lutando tenazmente com o flagelar do . 2013. invadir pelo regime francamente desértico” (OS. seria novamente utilizado para descrever a marcha militar da civilização sobre o povoado de Canudos. Dispensando explicações no transporte de traduções. a inclinação dos estratos que os retalham. senão que contém todas as possibilidades do que poderia encontrar” (ibidem. invadir pelo regime francamente desértico. devendo-se entender por este inusitado paradoxo que o seu “conceito faz que a disponibilidade do objeto se ponha potencialmente ao alcance da mão” (BLUMENBERG. p. de invasão e de acomodação. Pela teoria dos símiles ele aproxima os diferentes. por outro lado. p. a pouco e pouco. 145). saindo das insolações demoradas para as inundações subitâneas. que as primeiras requeimam e as segundas erradicam. agravam. Acredita-se que a região incipiente ainda está preparando-se para a Vida: o líquen ainda ataca a pedra. Desse modo. 126 mais tarde. p. De sorte que. a absorção. a terra “mal protegida por uma vegetação decídua” revela uma superfície funcional. a crestadura dos estios e a degradação intensiva das torrentes. fecundando a terra. que se traduz na noção presente em Euclides de psicologia da luta. Essa amplidão remete para a sensação sugerida por nós de que Euclides reproduz. a terra. mal protegida por uma vegetação decídua. p. a rudeza. grifo nosso) Essa descrição. a estrutura e a conformação do solo. primitiva. a pouco e pouco. parece recobrar sentido similar não obstante a mudança de cenário. de modo apreciável.

Para a descrição da natureza sertaneja são solicitadas as imagens do chão. assim. a exscicação [sic] do ambiente adusto: cada partícula de areia suspensa do solo gretado e duro. 17). 94) Esta disposição para a luta seria um ganho heurístico do seu relato de Canudos. em descampados grandes. 107-108) Espichando o argumento apresentado. Esta imagem associa-se à aparência abrupta e natural do termo bíblico do fim do mundo. da natureza de um indivíduo. sin. sentia-se. também pela metafórica do cataclismo. em nada estranha à visão de mundo terrorista de Euclides. Daí a impressão dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho de sertão – quase deserto – quer se aperte entre as dobras de serranias nuas ou se estire. caindo a súbitas. degradando o solo. do solo. intuspeção. (OS. intus. 137). “o seu papel na economia da terra” (OS. contudo. p.f. onde se ergue tudo o mais. Leopoldo Bernucci define “intuscepção” como “crescimento de dentro para fora” (Cf. assim como também é apresentada a força desconhecida do revolver interior. Isto é.. uma vez que trataremos dele mais adiante. OS. indiferente aos elementos que lhe tumultuam à face” (OS. etim. a surda combustão da terra.+ -specção. em remoinhos turbilhonantes. p. (1865): exame ou observação da consciência. maior. n. a natureza desempenha. vale lembrar. p. o argumento euclidiano qualifica 29 Em nota crítica. que as torrentes arrebatem todos os princípios exsolvidos [desagregados] – acumulando-os pouco a pouco na conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza – sem impedir. 135). [. p. 127 clima.] quando aquelas lufadas. mas sem adiantá-lo demasiado. busca que na realidade visa expor (colocar para fora) esta interioridade. Esta consciência econômica implica para a história humana “em significação como fator de diferenciação étnica” (ibidem. Cataclismo. as insolações inclementes e as águas selvagens. oculto. a qual Euclides solicita para explicar os eventos de “tragédia”. “religiosidade” e “nevrose coletiva” em Canudos. em instantes depois aproxima e reflete o meio e seu homem como espelhos. à maneira de minúsculos ciclones. em parte. da camada terrestre de espessura e histórias diversas. são dos efeitos discursivos da psicologia que derivam o sentido predominante na metáfora geológica do cataclismo. Euclides nos oferece uma prévia da luta de Canudos. . 137. uma flora de resistência rara por ali entretece a trama das raízes./var. introspecção. novamente metáfora violenta e vivaz de um cataclismo que dá origem ao sertão. feito um foco calorífico. obstando. nos estios longos. irradiava em todos os sentidos. Já no dicionário Houaiss a definição é a seguinte: “Intuspecção s. é também uma específica metáfora religiosa de sentido apocalíptico. Ou seja. feito pelo próprio. (OS. p. Transposta para o discurso psíquico. Nessa mesma linha de sentido... O sentido interior é acentuado nesta espectralidade que embora em um primeiro momento pareça distanciar-se do presente. se transmuda por intuscepção29. monotonamente. ibidem). a “[t]erra. se compunham com as colunas ascendentes..” Para nós a expressão revela a busca incessante de Euclides pelo que está no interior. como um organismo.

percorremos o caminho que ergue a montagem do delicado argumento onde gostaríamos de firmar lugar para compreender a metáfora da psique. É uma diátese. e é uma . Neste caminho. que por si nada valeu. Este uso do vocábulo apocalíptico e geológico para descrever um momento do período histórico é. 642. de fato. 2013). surgem as forças do interior geológico do sertão em convulsão. ele se perde na turba dos nevróticos vulgares. replicando esta representação também no discurso de descrição do conflito sertanejo. vem do meio físico natural em mutação indefinida a metáfora do oculto. “integrador de caracteres diferenciais”. Para deliberar sobre essa psicologia do sertanejo. a expressão de um ainda mais grave cataclismo. Das camadas superficiais desdobra-se. assim como princípio do mundo. n. Desta imagem especulada. considerando a psicologia da sociedade que o criou. “regra de reflexão” (cf. Esta similaridade e seus desdobramentos. 26). Pode ser incluído numa modalidade qualquer de psicose progressiva. O retorno dos combatentes do episódio sangrento de Canudos. pondo à luz os seus elementos profundos naqueles titãs resignados e estóicos” (OS. Mas posto em função do meio. p. mas sobretudo. assombra. descrição que instala a relevância da metáfora psiquista para o argumento de Os sertões. p. “em lacunas inexplicáveis”. grifo nosso). com o seu respectivo misticismo e a religiosidade ensandecida dos sertões. Isolado. feito índice do “misticismo extravagante” dos sertanejos. bem como o seu impulso na caracterização da psicologia de luta e da fixação de Conselheiro. corretamente assinalado por Bernucci na sua edição crítica do livro de Euclides como metafórico (OS. as camadas superficiais de uma nacionalidade cindiam-se. 642. desdobra-se ainda na religiosidade trágica. qual seja. Euclides recorre à presença do negro. nos sertões. a hipótese que define o líder religioso ao final é a unidade singular da sua psique. com os soldados ainda em choque com a bravura demonstrada pelos jagunços no confronto contra a artilharia pesada do exército republicano. é sintetizado em mesma imagem emblemática: “Abaladas pelo cataclismo da guerra. como já sabemos. o historiador só pode avaliar a altitude daquele homem. Vamos ao texto diretamente: Da mesma forma que o geólogo interpretando a inclinação e a orientação dos estratos truncados de antigas formações esboça o perfil de uma montanha extinta. do índio. Conselheiro é entendido através do perfil comparativo e similar ao seu ambiente. BLUMENBERG. que permitirá ao psíquico se especular pelo cataclismo. são descritos do ponto de vista de um geólogo mas também de um historiador. 128 Canudos em posse da geologia e da psicologia a partir de uma representação violenta da natureza. a gnose de Conselheiro. como opina Euclides. Nesta análise sua comparativa. Nesse intrincado que manipula a história e a geologia. o cataclismo.

mas de cuja lei não se determina pela própria vontade ou arbítrio. constantes e revelam um argumento que as recolhe e as descreve. em direção à definição de um limite. desse modo. no azul . 129 síntese. Euclides não negará ao meio físico natural um universo de transmutações ricas indicadas pelas imagens produzidas de cor e de movimento. “à solicitude dos médicos”. períodos sucessivos de uma moléstia grave. mas são. Porque ele para o historiador não foi um desequilibrado. na psique descrita integram-se atributos sociais. indo para a história como poderia ter ido para o hospício. mantas. que designamos estar contido na metáfora da psique. no caso sertanejo. Apareceu como integração de caracteres diferenciais – vagos. (OS. bater de encontro a uma civilização. a psique e a consciência. para a descrição do conflito de Canudos. resumo abreviado dos aspectos predominantes de mal social gravíssimo. p. mal percebidos quando dispersos na multidão. dependuraram os restos de fardas. os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. como já ressaltamos. na medida em que nada do que é descrito é possível de ser acessado ou liberado para freqüentação – em especial. com certeza. apareceu repentinamente desabrochando numa florescência extravagantemente colorida no vermelho forte das divisas. conjuntamente. mas enérgicos e definidos. Queimaram os corpos. Decapitaram-nos. A partir dessas imagens.. as cabeças. quepes de listras rubras. faces volvidas para o caminho. a psique do líder resume as variantes mais absurdas de um indivíduo e o posiciona na descrição do ambiente típico da sua sociedade. cinturões. O entrelaçamento de imagens inescapáveis altamente elaboradas da terra. do meio e da mente são. Não nos esqueçamos de que todos esses procedimentos visam dar ao relato euclidiano a realidade do visível. de Conselheiro. Por cima. talvez. e recolhidas as armas e munições de guerra. regularmente espaçadas. quando resumidos numa individualidade.. ele procede na impactante descrição do fracasso da expedição de Moreira César: Concluídas as pesquisas nos arredores. negligenciariam a “integração” que. ao que prossegue com a tradução deste evento sobre o meio físico natural: A caatinga mirrada e nua. cantis e mochilas. isto é. Por isso. como também de história. calças e dólmãs multicores. o exterior por si mesmo disperso pressiona sobre o interior psíquico individual do índice. Mais do que simples perfil. Por isto o infeliz destinado à solicitude dos médicos. Alinharam depois. “os caracteres diferenciais”. fronteando-se. no entanto. Como uma incógnita que se reproduz e se manifesta resumida. As fases singulares da sua existência não são. veio. na realidade. capotes. selins. nos arbustos marginais mais altos. que quando vistos somente de maneira clínica. indecisos. 252) A psique apresenta-se como limite possível extraído de um “perfil de corte” patológico e sumário. na duas bordas da estrada. impelido por uma potência superior.

30 As imagens. entender a psicologia a partir desse pressuposto – de que o meio e a mente são traduções idênticas de si. em realidade. É desse modo que Euclides apresenta 30 Esta verdade passa pela noção de que “à medida em que a observação vincula-se cada vez mais ao corpo no início do século XIX. 253. 2012. . todas as tendências impulsivas das raças inferiores. Por isso Euclides não se esquiva em alegar. mais fortemente.. tanto a cor como o movimento são efeitos de uma pós- imagem inseparável da observação (CRARY.). e elas refluíram. a sua aparição na sociedade sertaneja e. p. Os processos variáveis.” (OS. 2012. imagem e reflexo de uma origem comum – permite visitar um terreno que. pondo fim ao ideal cartesiano de um observador completamente focado em um objeto” (CRARY. 110). 2013. apresentando-o sob a forma de relato sincero do historiador. se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. A partir da sua aparição como referente no texto. a princípio numa quase passividade pela própria receptividade mórbida do espírito torturado de reveses. p. a sua tradução como símile do cataclismo. tem a sua aparência no mundo marcada pelo seu limite. Se o meio físico da natureza é o que a panorama de perfil do índice nos mostra. Essa percepção atiça na metafórica da psique a sensibilidade de um contexto tal como teria sido visto. na migração de linguagens. a visibilidade da psique é efetuada por meio de imagens que coletam do meio físico natural sentimentos e impressões psíquicas repassadas como atributos sociais.. “[é] difícil traçar no fenômeno a linha divisória entre as tendências pessoais e as tendências coletivas: a vida resumida do homem é um capítulo instantâneo da vida de sua sociedade. 492) Elementos desse quadro. Ao que prossegue: Todas crenças ingênuas. livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja. associam-se para formar o real que exige ser visualizado na sua descrição para se tornar explicado. partindo da sua consciência delirante. o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. temporalidade e visão tornam-se indissociáveis. não nos é imediato e. 130 desmaiado dos dólmãs e nos brilhos vivos das chapas dos talins e estribos oscilantes. 75).. p. (OS. grifo nosso). por conseguinte. 253) O delírio comparece como metáfora histórica através da qual se recupera a origem de Conselheiro. tornaram-se sinônimos do ato de ver. depois. p. O temperamento mais impressionável apenas fê-lo absorver as crenças ambientes. sobre o próprio meio de onde haviam partido. pois. do fetichismo bárbaro às aberrações católicas. 67). Esta é a hipótese de uma verdade óptica de um narrador que. a exemplo de Taine. “O que é alguma coisa depende do seu padrão de expectativa” (BLUMENBERG.. (OS. para não se desnaturar os sentimentos e os costumes da história (OS. que a “imagem é corretíssima”. A sociedade aparece no flash instantâneo de um homem. Ele foi. p. até mesmo. conseqüentemente. p. que a própria subjetividade vivenciou no tempo. p. 71-99 et seq. alteraria os desenhos e a cor de um evento na medida em que parecesse necessário ser fiel a eles. simultaneamente.

tinha parceiros porventura mais perigosos”. ibidem) Nesse ponto. imagens fulgurantes. O mal era maior. nesse caso. no sentido em que nos informa Judith Schlanger. “[v]alerá a pena defini-los?” (OS. A força portentosa da hereditariedade. n. admirável no refratar. a noção de cultura histórica. e os manieta. e os inutiliza. o espírito mais robusto permanece inerte a exemplo de uma lente de flint glass 32. 19). mas especialmente. (OS. Rompia nas capitanias do litoral. do meio. “As linhas anteriores têm um objetivo único: fixar. isto é: “O êxito da metáfora se compreende a partir do êxito da argumentação. flint glass consiste em “vidro grosso brilhante que contém oxido de chumbo. às vezes. 501). e os domina. sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno a coesa das leis. ao que indaga. a partir da tradução de idênticos limítrofes. a curiosidade dos sociólogos extravagantes ou as pesquisas da psiquiatria. eles surgem e invadem escandalosamente a história. refere-se a um êxito das metáforas (succés des métaphores). Vale lembrar. como em toda a parte e em todos os tempos. . oferece ao argumento referentes imagéticos para descrever a psique. e a pouco e pouco os destrói. (ibidem. não há analisá-los. Não se confinara num recanto da Bahia. Et c’est au moment de leur plus grand succès que nous étudierons ces métaphores. apresenta um índice relativamente alto de refração e é usado para a construção de lentes e prismas” (OS. onde o pensamento acerca do organismo se generaliza em lógica. 501) Ao que conclui o argumento. O homem do sertão. na medida em que relaciona os índices extraídos do perfil de um tipo social. arrasta para os meios mais adiantados – enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura – trogloditas completos. se a focalizam na sombra. aqui. por bem dizer. p. de onde os arranca. isto é. do período que vai do fim do século XVIII ao começo do XX. A rua do Ouvidor valia por um desvio da caatinga” (OS. mas imprestável. Considerando-os. Se o curso normal da civilização em geral os contém. 34). o claro-escuro indispensável aos fatos de maior vulto. dans cette période de la fin du XVIIIe e du début du XXe où la pensée de l’organisme se généralise en logique. símiles que se emparelham na mesma selvatigueza. Feita a pergunta. Por 31 O sintoma. de formação de um povo a partir da passagem do tempo. da sociedade. ampliadas.” Tradução nossa do texto em francês: “Le succès de la métaphore se comprendra à partir du succès de l’argumentation. p. tendo em vista que a “guerra de Canudos era. orgânico e racional são sinônimos. 501). apronta-se o suspense: qual é a imagem sintomática31 que não valeria a pena definir? Trata-se de uma imagem social de mecânica psíquica. de relance. amparado sob a física da visão: Mas [os parceiros mais perigosos que os sertanejos] não têm outra função. encourado e bruto. nem outro valor. 131 sua exemplaridade diante de Canudos. Alastrara-se. p. p. 1971. et devient le modèle et le archétype de la rationalité: en ce point. sintomática apenas. organique et rationnel sont synonymes” (SCHLANGER. p. e se tornam o modelo e o arquétipo da racionalidade: nesse ponto. A história sincera em Euclides é completa. recalcando-os na penumbra de uma existência inútil. E é no momento do seu maior êxito que nós estudaremos as metáforas. São o reverso fatal dos acontecimentos. do sucedâneo de gerações e da cristalização de experiências. 32 Segundo nota crítica de Leopoldo Bernucci. 501. vidro que é obtido da fusão em alta temperatura de cristais de rocha.

recuada no tempo. que habita a região marcada pelos empreendimentos dos primeiros povoadores. Ainda assim. s/p. a cultura caipira. A psique elaborada para a persona – ou “fácies geográfico” – desse meio físico natural é então assimilada na história. assim como a religião mestiça e o culto dos mortos se associam à história e sociabilidade sertaneja. 132 outro lado. Além da percepção de uma cultura histórica singular endossada pelos críticos do texto de Euclides. natureza e sociedade. É na sugestão desse argumento que solicitamos Glaucia Villas Bôas (1998). cujo objetivo principal em seu pequeno porém perspicaz artigo consiste em evidenciar em Os sertões as ambigüidades e contradições específicas do processo civilizador nacional e moderno – universalista não obstante aniquilador de singularidades. a sensação de que a natureza possa ser apresentada discursivamente dotada de uma autêntica personalidade consciente é reincidente ao longo do livro de Euclides. neste discurso parece que somos levados a reconhecer sentimentos e a atribuir ao meio físico natural um caráter especial tal como se este fosse dotado de uma personalidade psíquica singular. Como resultante. fundamental para se compreender o atavismo de Conselheiro. uma festa popular. um valor. porém as vincula sociologicamente àquela coletividade. Não procura nos traços remanescentes da cultura indígena. os sambas. os cateretês que vibram no choradinho ou baião. uma modinha. uma concepção de tempo rebelde à rotina e à padronização das tarefas do trabalho. A cada mudança social profunda na sociedade industrial capitalista. Nessa transposição – “perfeita tradução moral” – é possível atentar para o traçado de uma circularidade imaginada na metáfora da psique no argumento central de Os sertões: adaptação e incorporação são efeitos . A umbuzada. grifo nosso) O passado português seria. guarda sobrevivência do passado português. (VILLAS BOAS. e um fato que não se deve passar desapercebido. grupos e indivíduos criaram e renovaram critérios de classificação das sobrevivências. A autora sublinha a importância de determinados elementos de sobrevivência histórica. duas referências importantes aparecem como opostos em Os sertões. na realidade. identificados no passado sertanejo e expostos à extinção decorrente da luta emblemática de uma cultura arcaica contra a civilização. negra e portuguesa as origens daquelas tradições. Contudo. e têm sido utilizadas pela fortuna crítica para indicar as relações de determinação entre o meio físico natural e o homem social brasileiros. [De modo que as] tradições da cultura sertaneja se prestam à observação primorosa de Euclides da Cunha. Todavia. ou seja. uma discussão também se apresenta neste debate. 1998. podem ser considerados sobrevivências. incorporada como ambiência dos sertões. um objeto. as danças. o índice permite que a descrição do ambiente de guerra diga respeito também ao território da civilização. Um hábito. e passaria a coexistir e a compor conjuntamente com outros fatores de ordem social e antropológica a “psicologia especial” do homem sertanejo. a cavalhada.

ele também. Ecologia diz respeito aqui. entorpecida sempre pelos agentes adversos. pela geologia também Euclides aproxima as personalidades que são descritas. isto é. incoercível. 133 articulados à noção de processo histórico e aos limites do visto e do definido. esta aproximação sustenta-se pelo argumento que designamos aqui por psiquismo. mas também a natureza “vincula sociologicamente aquela coletividade”. a uma convivência natural socialmente refletida no mundo. não apenas as tradições. bem como para a sua descrição. não aponta meramente para o embate entre dois conceitos. numa naturalidade como psicologia de luta. p. Mas todas as vezes que o fáceis geográfico não as combate de todo. para Euclides. que permite descrever a ação do homem sobre o meio para se entender a determinação da natureza e. mas tenaz. é possível observar que não somente o homem sertanejo é dotado. a oposição cultura versus natureza que Os sertões arma não é apenas ou simplesmente entre dois opostos. p. 137. a Terra. 631). grifo nosso) . com o êxito de metáforas. de uma psique singular especulado em meio à universalidade pressuposta da humanidade consciente. de onde advém que entre os dois. Este “jogo de antíteses”. mas aponte para um paradigma de pressuposto coletivo e universal da sociologia como organismo biológico. como um organismo. a personalidade da natureza poderia ser traduzida por uma psique ecológica (expressão nossa) – desde que este termo não se restrinja meramente à sustentabilidade do humano e do social junto ao meio físico natural. cujos efeitos fogem ao próprio raio dos ciclos históricos. “A ferocidade do jagunço era balanceada pela selvatiqueza da terra” (OS. Portanto. como também esta mesma singularidade psíquica poderia ser observada no comportamento da natureza. com efeito. contrário a este dualismo. “agente geológico notável” (OS. indiferente aos elementos que lhe tumultuam a face. neste contexto. num envolver seguro. metáfora de uma totalidade. do meio físico e da natureza para se entender a “psicologia especial” do homem. A psique do meio físico natural explica a psique do homem sertanejo. p. Argumentamos que parece resistir. de igual modulação. a natureza reage. Novamente. meio físico e homem. Em luta surda. mas emocionante. vincula e persiste o elo de comunicação emocional que os informa. Tendo em vista que o homem é. Caracteres que se mutuam. produz uma espessa descrição histórica sobre o mundo natural e sobre o seu homem. para quem consegue lobrigá-la ao través de séculos sem conto. (OS. Com o conceito de meio físico natural desdobrado em argumento psíquico de caractere social. se transmuda por intuscepcão. Ou seja. É que a morfologia da Terra viola as leias gerais dos climas. um argumento de voltagem psíquica de cunho universalista. 138).

uma vez que a natureza também o faz. com os homens do sertão. intrigando as referências dos doutores na arte de matar que [. de fato. apresentado nos últimas seções do livro de Euclides. o papel de um terrível fazedor de desertos” (OS.. papel de defesa contra os ataques dos “mercenários inconscientes” sobre Canudos. Porque estas. quando se compara a rua do Ouvidor à caatinga. mesmo. Se o cataclismo é o evento violento do meio físico natural que produz o deserto. da consciência humana e da sapiência da natureza. [mas que] têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso. Portanto. impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias – se tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. fantasmática e dotada de interioridade subjetiva com a história principal que pretende ser narrada por Euclides. para o matuto que ali nasceu e cresceu. 141). ante o forasteiro. nomeadamente. malgrado a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões. p. E ririam os sábios feldmarachais – guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heróico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às catingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. se “a nossa história traduz notavelmente essas modalidades mesológicas”. Vamos a uma longa mas necessária citação. ele pode ser assimilado também na história do homem no fazer da civilização. assim nos diz Euclides no sugestivo título “A Guerra das Caatingas”. Afinal. Suspeitamos ter algo de inusitado na cena em que a natureza desempenha. mas abrem-se em trilhas multívias. se “o mal é antigo” (OS. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra. Uma similaridade entre violência e existência decorre desta imagem que nos indicaria. capaz dos mais opostos valores. como destaca o autor. prova-o o fato que o homem é capaz de produzir as suas próprias catástrofes em meio à história da sua existência. Armam-se para o combate. impenetráveis. a atividade da natureza no conflito sertanejo atua ao lado. Entram também de certo modo na luta. aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas. em cumplicidade. Devemos para melhor analisar a antiguidade do mal relacionar aquela metáfora da natureza como spectu. também os sertanejos assim se comportariam. o homem “não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós. p.] invadem escandalosamente [est]a ciência. indiferentemente. E o . 138).. 134 Assim como a morfologia da Terra não conhece as leis e torna-se combativa. de ofensiva ou defensiva. perturbando-lhes o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra pondo em equação as batalhas. Traçam-se. Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. na qual Euclides reclama essa relação íntima do meio físico natural sertanejo com o jagunço para a sua defesa e sobrevivência. agridem. Este aspecto é. em todo o decorrer da História. assumiu. a violência (cataclismo e catástrofe) como uma metáfora que seria estendida ainda à civilização. Com a “natureza excepcional que o defendia”. dificultando- lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os exércitos. Podem favorecer. A mente que faz os desertos é única. na integração e proteção do sertanejo.

a relação de cumplicidade entre o meio e o homem oferece apoio à hipótese de que há. Euclides logo o resolve ao demonstrar o seu interesse em derivar. 356-357. Este aspecto. não obstante o seu regime defina-se como “decorrer num intermitir deplorável”. sobre a loucura criminosa do sertão. Ele se mostra ambiente consciente dos seus. As caatingas não o escondem apenas. tal a tradução dos seus termos. Ainda nesse escopo. uma psique especial do seu tipo social. ela também se inscreve no círculo das intervenções humanas. que lembra um círculo vicioso de catástrofes”. o sertão é o que é. p. indiferentemente. 146). cuja “medida única a adotar-se deve consistir no corretivo destas disposições naturais”.. amiúde reclamados por Euclides no âmbito da civilização. aos dois beligerantes”. oriundos da fatalidade de leis astronômicas ou geográficas inacessíveis à intervenção humana. adaptação e conservação. intangível. em particular. por este mesmo sentido. do seu “regime [que] decorre num intermitir deplorável. “[p]ondo de lado os fatores determinantes do flagelo. só que agora transplantados para o interior do Brasil. a figura de Conselheiro. nesse sentido. também. uma natureza consciente com o seu homem – diferentemente dos “mercenários inconscientes” da civilização – porque ativa e partidária na proteção da sua vida. como a natureza é organismo. em sua ambiência. .. Euclides descreve. devido à sua disponibilidade de tomar partido na psicologia de luta. grifo nosso) Embora. No mesmo paralelo. que “se tornam de algum modo neutras” pois “podem favorecer. 135 jagunço faz-se guerrilheiro-tungue. pois precisam ser solidárias com o meio. são. (OS. aquelas [as disposições naturais]. donde justifica-se que as ações do sertanejo diante do inevitável da seca são exíguas e. todavia. dilatadas. A natureza sertaneja é singular porque dotada de princípios universais e. abstração semelhante a uma coletividade. amparam-no. Temos aí os princípios de integração. inclusive defendendo o seu tipo humano correspondente. o sertão demonstra no seu universo trágico os princípios universais de um importante ensinamento histórico a ser assimilado pelos “singularíssimos da civilização”. as únicas passíveis de modificações apreciáveis” (OS. no interior do Brasil. Na medida em que algumas naturezas são “neutras” às necessidades do homem. p. possa ser também o homem criador de desertos e fazedor de cataclismos. Se levarmos a sério a advertência de Euclides sobre o ensinamento histórico do seu livro. o sentido que se acentua aqui é o de uma inversão em relação às outras naturezas. do delírio do homem sertanejo. como Euclides argumenta. Diante da tragédia da seca. Nesse momento da análise já não poderíamos definir de tal maneira se o tipo social sertanejo deveria ser assunto ou matéria das ciências naturais ou das ciências humanas. descrever a tragédia da seca e a maldade criadora do cataclismo seria um modo de jogar luz. Na verdade.

p. Lida-se assim com uma suposição (hipótese) metafórica. o que. de deserto. alastrando-se pelo solo. os restolhos pardo-escuros das gramíneas murchas refletiam já a ação latente do incêndio surdo das secas. le domaine momentanément fécondant et surévalué joue un rôle épistémologique et logique assurément remarquable”. sans qu’aucun détienne à cet égard de privilège autre que momentané. a descrição ornamental do meio físico natural poderia ser entendida a partir de uma perspectiva ampla. sobretudo de termos sociais clivados na linguagem das ciências naturais. despindo-se dia a dia das folhas e das flores. como dissemos anteriormente. um campo circunstancialmente fértil e supervalorizado joga um papel epistemológico e lógico sem dúvida notável. Euclides atribui ao meio físico natural uma psicologia aturdida diante das secas. de “entrada do estio”. não necessariamente de conclusão analítica. Sugadas dos sóis as árvores dobravam-se murchas. ele se vale de imagens vindas de outras ciências para definir e inscrever nos ambientes e nos fatos climáticos do meio a sua aparência. p. (SCHLANGER. O sertão principiava a mostrar um fácies melancólico. mais uma vez. 30) . remete-nos para interpretar o resultado do seu combate como parte de uma complexidade descritiva. Diante disso. Euclides vale-se da ciência como produtora de metáforas para descrever o social da natureza a partir do pressuposto de princípios. não é o mesmo que dizer que o seu argumento em Os sertões seja original ou conclusivamente ficcional ou literário. Ela dá expressão ao argumento. (OS. na medida em que esta hipótese não se define inteiramente pela ciência e tampouco se deixa determinar pela teoria que a informa. Ceci posé. a percepção sobre a importância vital do meio físico natural para a constituição antropológica do homem dos sertões. Tomando-se Os sertões por essa ótica. 630) 33 “Os diferentes tipos de saber se desdobram mutuamente em volta do papel de referência. pelo excesso descritivo. Ainda que o psiquismo predomine na descrição da natureza. que incluísse a mesologia na difícil linguagem dos afetos e dos sentimentos humanos. Como referência a esse argumento.” Tradução nossa do texto francês: “Les différents types de savoir s’y servent mutuellement à tour de rôle de référence. sem que algum [desses saberes] detenha na sua consideração um privilégio outro que momentâneo. 136 A psique como conceito de uma consciência de semelhantes resiste. mas que o seu discurso é sim abreviado e reduzido amiúde por metáforas que funcionam como hipóteses sociais. Neste discurso metaforicamente sociológico resume-se. aí. vingando circular e fecundo33. a ambigüidade semântica em Os sertões. a um sentido essencial e imutável. 1971. do ponto de vista da narrativa. científico ou matemático. a partir da imagem de uma consciência sofrida (trágica) nos sertões. Assim. e. Na descrição dessa tormenta.

a ansiedade para a produção de um espaço comum. será afirmado pelo indefinido dos fenômenos recuperados pelo autor. Seguindo as sugestões de Blumenberg. Esta especulação explicita. de um vínculo ou sociabilidade. em que Euclides parece. adotamos a metáfora em Os sertões pelo seu aspecto reflexivo. para o leitor é oferecido um contexto de situações psíquicas e patológicas – melancolia. uma “psicologia da luta”. através de emoções que ativam uma personalidade subjetiva especular também sobre os homens. na transcrição de Os sertões que fizemos acima. como a raça. voluntariosa que a individualiza diante de outras naturezas. para a metáfora da consciência. descola-se do chão material de “qualquer terra” e revela-se sentimental. argumento que vamos voltar ao longo da tese. Ali no sertão a consciência tem uma “psicologia especial”. em contrapartida a essa redução da linguagem. Nossa intenção é mostrar. os ornamentos estilísticos podem nos levar a pensar o texto como aberto para além de um registro de escola literária – o naturalismo –. Eles descrevem um sentimento que se especula entre a psique do homem e a personalidade assumida pela natureza. Isto quer dizer. no caso de Os sertões. na realidade. despida das folhas e das flores. como apontou Glaucia Villas Bôas. na medida em que esses ornamentos permitem uma reflexividade acerca do ambiente que se lê. A consciência do meio físico natural aflora nesta linguagem das paixões. descrever uma biografia sentimental mais do que um ecossistema terrestre qualquer. como que para evidenciar a presença de uma tormenta psicológica. Na sua descrição. as metáforas de um estado psíquico na história euclidiana informam um modo de conceituar sobre a consciência. talvez. que por leis gerais seria determinado. singular. 137 Novamente. mas teórico-reflexivo. e que se evidenciam no texto pela metafórica da psique. Como sublinhamos anteriormente. que. que admite “regras de reflexão” sobre as relações entre a natureza e o homem em um percurso nada conclusivo ou determinante. o ornamento desdobra-se para a metáfora de uma estado psíquico a fim de oferecer ao leitor referências teóricas para o pensamento e para a reflexão. O autor apresenta também a natureza enfraquecida e solitária. abandono – para descrever a natureza mouca em seu fácies triste. as metáforas e os ornamentos da linguagem que compõem o discurso de Os sertões não se restringem em indicar meramente um caráter ficcional ou poético do seu autor. “[q]uanto mais refinada for a capacidade de expectativa. O ornamento – “A pergunta é: podemos nos livrar do supérfluo? Uma resposta é: apenas quando o necessário ainda não seja bastante para satisfazer as necessidades” (BLUMENBERG. Mas não somente isso. depressão. p. 60) – dizíamos. 2013. A natureza. que as metáforas e os excessos lingüísticos do texto são significativos da reflexão social central que o autor se propõe a elaborar. Como uma expectativa intelectual materializada na armadilha. tanto .

O psiquismo. Para o que temos denominado como metáfora do psíquico ou do psiquismo. O ponto a que esperamos explicitar com esta discussão encontra-se na tentativa de deslocar a posição de negação entre a natureza e a cultura. 138 maiores serão as possibilidades de enfrentar o que está iminente” (BLUMENBERG. Poderíamos dizer. o seu argumento parece admitir. sim. que o que é determinante em Euclides não está mais no juízo das causas do que no registro das descrições. ressaltamos o excessivo descritivo de Euclides como “armadilha” para capturar o sentido do psíquico. Contrário a isso. de acordo com a posição de Romero. Para Romero. Sobre este ponto. revele e o amplie – tal qual no processo de uma imagem fotográfica. de uma indecisa “fenomenologia” psíquica que se manifesta no mundo social da natureza. engana-se na pretensão de ressaltar o critério de verdade objetiva mais real tal como se estivesse mais próximo do verossímil. o psiquismo. A proposta de compreensão que apresentamos é sensivelmente distinta e se amplia diante dessa oposição. da “boa visão” de quem vê além. p. do sujeito. Apoiados nessa ideia. como já ressaltou Bernucci (2001. desconhecida ainda que presente na vida social. isto é. a psique como metáfora de uma realidade incógnita. compartilhado e coletivo. repetidamente sintonizada pela bibliografia especializada. 32). para o universo natural. O seu psiquismo tenta apreender esta iminência da relação social entre o meio físico natural e o seu homem como o suposto de uma origem natural comum. subsumir sua reflexão a esse par é colaborar para acessar apenas uma chave de entendimento do seu discurso. pois se volta. Embora Euclides possa ter. argumento que para ele se presume na descrição da subjetividade universal através da linguagem. . este argumento não aparece orientado simplesmente pela captura dos valores do universo individual. aqui. Há um outro recurso – ora metafórico. de igual monta. p. revelaria neste seu privilegio sobre o que se enxerga na realidade a sua arrogância de enxergar além do que se vê. pensado na específica relação entre cultura e natureza como fundamental para a elaboração do seu relato. 2013. o psiquismo se equivoca ao se presumir ser de um tipo de saber no qual o que é visto e aparece visível na realidade social é mais bem visto do que em uma outra visão. Silvio Romero. na opinião de Romero. ora conceitual – de psique ou psiquista em Os sertões que inaugura na sua expressão uma terceira margem no leito dos opostos. Embora não se possa afirmar que Euclides compartilhe das mesmas opiniões de Romero sobre os enganos do “ver psicológico”. e que solicita uma lente de visão sobre o mundo social que o capte. 59). seria o momento de recuperar pontualmente um argumento colocado em destaque por outro autor seu contemporâneo. sim.

pela imposição trágica da seca. em que medida essa determinação do meio físico natural poderia ser expressiva para a reflexão social e política que o autor se preocupou e que portanto possa ainda despertar a sua pertinência para o pensamento social? Se a pragmática das perguntas ainda nos incita. a sociedade.1 “Plantas sociais” e “Lagoas mortas” “Já nessa época. no mundo social e político. A par disso. em um terceiro momento. como se vê. para as quais. sobretudo. talvez seja um bom caminho recuperar o sentido inscrito em uma metáfora relativa ao meio natural em Os sertões. segundo. impõe-nos então a necessidade de estudar Os sertões pelo seu caráter excessivo. desdobraremos três campos onde a psique atuou como argumento reflexivo em Os sertões: primeiro. na descrição psíquica da natureza do sertão marcada. a personalidade transfigurada do sertanejo expressa na sua psique fantasiosa e mítica. isto é. 139 A associação de expressões de sentidos aparentemente incompatíveis. a história. voltaremos para o fenômeno psíquico de Canudos para apurar o que Euclides identificou como uma mania.1. transcrevemos o momento textual em que n’Os sertões aparece essa expressão: . Como dissemos no primeiro capítulo desta tese. Por isso. e. nos seus sistemas de referências literais para a análise da metáfora. a partir de agora. Para responder às perguntas que encerram a seção anterior. Os sertões. Euclides da Cunha. tinham função proverbial as plantas. se a natureza atua como uma determinante para o desenvolvimento do tipo psicológico sertanejo. então. argumentamos estar no estudo da metafórica da psique algumas reflexões sobre o livro de Euclides. o homem. Referimo-nos à expressão plantas sociais mobilizada por Euclides da Cunha. 3. hoje. tomando a forma como é descrita a natureza. no meio físico natural. como já se afirmou sobre a sua obra. como entender o estatuto que a natureza ocupa na reflexão de Euclides da Cunha sob uma perspectiva que interesse às teorias das ciências humanas? Pois. apelam os nossos sertanejos”. psicose e nevrose coletiva. no tipo humano. toda descrição é também uma forma de teoria. Abaixo. criando-se com isso relações instantâneas na pressuposta realidade psíquica.

porque nele desponta de maneira extremamente significativa o argumento principal que evidencia o psiquismo do meio físico natural. Nota-se que o argumento do autor. ora alterando-se com elas. as espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa. por outro. nativas em toda parte” são tipos vegetais clássicos do ambiente dos sertões. dotando-as de animosidade tal como se o organismo natural atuante reagisse instintivamente à interseção com o meio envolvente. ao revés das anteriores. mais resistentes que os demais. notáveis aprestos de condensação. como as “árvores todas”. pintalgado de branco e flores em espigas. unem-se. onde ficamos novamente na incógnita dos afetos. a sua epiderme ao resfriar-se. persistem inalteráveis ou mais vívidos talvez. típicos. nas folhas de células alongadas em vilosidades. Euclides não a oferece por completo. p. das plantas “desarmadas”. não se funda sobre o elemento biológico . Por um lado. Não podendo revidar isoladas. Euclides intensifica a sua narrativa com a descrição do meio físico natural. as árvores todas. Ainda que característicos e. anônimas ainda na ciência – ignoradas dos sábios. Sobrevivem à queda de plantas aparentemente mais fortes ou resistentes. grifo do autor) Optamos por citar este momento do discurso euclidiano sem cortes. em contrapartida. Afeiçoaram-se aos regimes bárbaros.. provoca. contendo-se simplesmente em sugerir que aquelas espécies “afeiçoaram-se aos regimes bárbaros”. constituindo. uma vez que. incorporando elementos ativos de adaptação dos seres vivos. observam-se dispositivos porventura mais interessantes. nativas em toda a parte [dos sertões do Norte]. São deste número todas as cesalpinas e as catingueiras. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos parece estimular melhor a circulação da seiva entre os seus cladódios túmidos. quase como sinal de conclusão. As favelas. e os canudos-de-pito. absorção e defesa. para justificar a presença daqueles tipos de plantas na ecologia dos sertões. disciplinam-se. sessenta por cento das caatingas. parece pulsar a vida que garante a sobrevivência em ambiente inóspito das plantas. entram na categoria das fontes vegetais. toca uma chapa incandescente de ardência inaturável. Nas descrições das imposições da tragédia da seca sobre a botânica do sertão. no entanto. Ora quando. os alegrins-dos-tabuleiros. 120-121. o autor nos informa que o “ambiente em fogo dos desertos parece estimular melhor a circulação da seiva entre os seus cladódios túmidos”. o autor destaca os tipos vegetais característicos desse ambiente como tipos sociais do seu meio. nos trechos em que aparecem. conhecidas demais pelos tabaréus – talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas. 140 As nopáleas e cactos. congregam-se. de Saint-Hilaire. como se as primeiras tivessem a sua formação a partir de uma relação violenta e reativa contra o ambiente. arregimentam-se. fulminadas. quando decaem a seu lado. a mão que a toca. breves precipitações de orvalho. A explicação para tamanha resistência. destinados a emprestar o nome ao mais lendário dos vilarejos. heliotrópios arbustivos de caule oco. (OS. tem. a despeito da secura deste.. Tipos clássicos da flora desértica. “as nopáleas e os cactos. no caso. à noite. transmudando-se em plantas sociais. Neste duelo draconiano de interação vital. muito abaixo da temperatura do ar. encontramos ali a sugestão de um conflito entre as plantas e a seca. intimamente abraçadas. portanto. Dessa afeição. ora adaptando-se às secas. Assim. repelem os climas benignos em que estiolam e definham.

com a correspondência exatíssima das datas (1845-1877). Opondo-se. a sua argumentação se dirige para explicar o comportamento das mesmas em suas reações com o ambiente. embora Euclides tivesse à disposição estudos científicos sobre a constituição celular dessas plantas. seguindo o seu argumento. p. aparecendo com um rigorismo de incógnitas que se desvendam. diga-se de imediato. permanece insolúvel. De fato. Pois. como em outros momentos. ibidem) dos sertões. 1723-1727. Euclides recua do argumento . repele qualquer observação factual de um referencial e pauta-se na tradução entre linguagens para a fatura do descrito. do século XVIII. Entretanto. Euclides opina sobre os ciclos da seca que “abrem-se e encerram-se com um ritmo tão notável. atreguaram a progressão dos estragos. então. 1736-1737. 1824-1825. houve no nosso [século XIX] outro absolutamente igual e. “Assim. as secas de 1710-1711. para explicar a existência de “vicissitudes climáticas” que impuseram para o sertão o “terror máximo” que transtorna “os rudes patrícios que por ali se agitam”. o tipo de metáfora associativa que aparece. A lei natural. Esse tipo de descrição expande. para citarmos apenas as maiores. ao invés de reduzir. as causas possíveis dos eventos do conflito. ibidem) Ao que ele continua: Esta coincidência. que recordam o desdobramento de uma lei natural. mas nos caracteres de adaptação e de incorporação. o problema. (OS. ainda ignorada” (OS. 1844-1845. Na verdade. expressa uma “fatalidade inexorável” (ibidem. 1877-1870. e sucedendo-se de maneira a permitirem previsões seguras sobre a sua irrupção. pois. 1835-1837. acentua-se ainda na identidade das quadras remansadas e longas que. no século passado. p. 141 que as constitui segundo a sua botânica. o que é sobremaneira notável. destacam-se novos dados fixos e positivos. 1744-1745. 110-111) Entre avanços e recuos. o maior interregno de 32 anos (1745-1777). como se surgisse do decalque de uma quadra sobre a outra. não é puramente incidental. 1777-1778. que se pode traduzir na fórmula aritmética mais simples. apesar desta simplicidade extrema nos resultados imediatos. A explicação aqui. à fixação do clima como uma questão que possa ser resolvida através da descrição de uma progressão aritmética. por meio de expressivas imagens psíquicas do movimento de um conflito interno. o argumento euclidiano pondera sobre os riscos de se levar às últimas a observação unilateral e matemática da seca. que parece ser previsível segundo o ritmo da história. do atual. de características sociais e psíquicas atribuídas aos vegetais na sua relação com o meio. se justapõem às de 1808-1809. mas reiterada pelo autor em diversos momentos do seu texto. sinalizando o seu costumeiro escape de uma suma vontade de rigor. em ambas. espelhando-se quase invariável. sendo. intercortado de intervalo pouco díspares entre 9 e 12 anos. 110). Principalmente sobre a tragédia sertaneja.” (ibidem. uma cadência raro perturbada na marcha do flagelo. Observa-se. neste sentido de evolução. Continuando num exame mais íntimo do quadro.

Capanema [. 112). é sobre o fato de Euclides ser um 34 Para a contextualização desse personagem da sociedade científica do Império. criando-se. porém são fenômenos de causas múltiplas e remotas. (OS. argumento “inabalável. neste estear-se em dados geométricos e físicos acolchetando-se num efeito único. manifestas na formação de um complexo. O que nos perguntamos. p. p. FIGUEIRÔA (2005). 111) Segundo Euclides. a [gênese das secas em] sua origem remota. sujeitas às perturbações locais. no Norte. (OS.] teve o pensamento de rastrear nos fatos extra-terrestres. promanadas das disposições geográficas” (OS. intermitentemente. Atesta. as manchas da fotosfera solar. E encontrou na regularidade com que repontam e se extinguem. Assim. tão característicos pelos períodos invioláveis em que se sucedem. cômpares. ao fastígio das secas no planeta torturado – de modo a patentear. com as daquele. os períodos de umas e outras. e a reações mais amplas. p. Capanema deriva essa conclusão a partir dos estudos do comportamento solar de Herschel. 112). sem leis ainda definidas. desde que ambos não se confinassem em uma explicação de causa única sobre a realidade trágica das secas. 112). anteparo à irradiação do grande astro. cf. em uso do qual concluía que a “dosagem de calor emitido para a Terra. 142 determinista para o cenário de uma complexidade indefinida. Falhou neste ponto. Quase como que acentuando o caráter singular do sertão na ecologia da terra. . Ainda que absurdo. a utilidade de nos alertar sobre um erro a se evitar: os excessos que singularizam a vida social não derivam de uma causa única. 112) O excesso de causa-efeito acusado em Capanema assume. segundo nos informa a resenha do autor de Os sertões. notório engenheiro e naturalista brasileiro da comunidade científica e naturalista do Império34. do que o exclusivismo de atentar-se para uma causa única” (OS. nesse caso. enfim. um símile completo. Restava equiparar o mínimo das manchas. que o malogro da explicação de Capanema “denuncia menos a desvalia de uma aproximação imposta rigorosamente por circunstâncias tão notáveis. Segundo nos informa Euclides.. usando como exemplo o interessante estudo do Barão de Capanema.” (OS. no entanto. p. derivadas da natureza da terra. em que pese à sua forma atraentíssima. limítrofes. a teoria planeada: raramente coincidem as datas do paroxismo estival.. apresentava correlação com as secas”. p. Euclides argumenta que o surgimento do ecossistema das secas “está em função de agentes desordenados e fugitivos. na contra- avaliação assinalada de Euclides. os erros de Capanema pareciam ser melhor aceitos por Euclides do que a lógica abstrata das secas.

Toma. uma individualidade psicológica como resumo concreto do meio. entretanto. a natureza reage” (OS. 143 bacharel em matemática e suspeitar da lógica como um tipo de discurso apreciável. Por um lado. p. 136). defesa. a preferência pela análise histórica da natureza que pretende assinalar o perfil. pendendo mais para o aceite da complexa descrição dos vegetais e dos fácies geográficos dos sertões. ao ensaio de Flora Sussekind sobre o narrador de ficção e dos naturalistas viajantes. poderíamos situar esse momento do texto de Euclides como um típico discurso de um naturalista. 136). drama e felicidade. O psiquismo. como luta. também. mas também insuficiente. como alega o nosso autor. apreender a realidade dos sertões “onde uma única montanha sintetiza. do sopé às cumeadas. Hegel não poderia. ou de comportamentos. que não poderiam ser demonstradas pela análise lógica. como humor. Ressurge aqui a imagem reproduzida e já . Ao que justifica: “É que a morfologia da Terra viola as leis gerais dos climas. a partir da sua leitura de Sussekind. podemos complementar que a recusa da matemática lógica e rigorosa. Neste caso. Por sua vez. p. nesse sentido. Por que ele evita a matemática para os sertões? De acordo com José Carlos Santana. Euclides. para afirmar este seu ponto de vista. como as plantas sociais. todos os climas do mundo” (OS. Para o nosso argumento. Santana situa esse momento do texto de Euclides. em sua aposta subjetivista e ao mesmo tempo naturalista na descrição da complexidade trágica da seca. Vincula Os sertões aos relatos da cartografia e da ciência de viagem caros. permite ao observador individualizar aquele ambiente por meio do destaque de tipos sociais. Santana recorre. p. em certo sentido. 2001. cenários e tipos peculiares” (SANTANA. um índice. uma descrição da sua vegetalidade. o psiquismo deslocado para o meio físico natural auxilia na replicação dos quadros descritivos como eixo desse argumento. como configurando a necessidade de se “fundar uma geografia e uma paisagem singulares e descrever acidentes. adaptação e delírio. o que incluiria. meramente lógicas ou de visadas curtas. A singularidade reclamada para os sertões valida a afirmativa de que toda explicação sobre a sua existência precisa ser orientada por uma complexidade distinta das conclusões apressadas de causa única. Mas todas as vezes que o fácies geográfico não as combate de todo. 109). tristeza. com o uso insistente de metáforas geo-psicológicas. à narrativa dos naturalistas do oitocentos brasileiro. distanciada e fria da matemática do simples cientista. o cientista Euclides torna-se historicista. os vegetais possuem vida. é ativado aqui justamente para qualificar os estados sociais do meio físico a partir de subjetivações singulares ou sentimentais que se ocultam à primeira vista. psiquista. ou melhor. Afinal.

isto é. As favelas. os atributos relacionados a uma psicologia da luta dos seres sociais do sertão. 122). 144 trabalhada por nós do cataclismo como acréscimo e síntese de elementos originais sobre o natural.]. mas não para os sertanejos que parecem ter com elas uma relação de ubiqüidade. estreitamente solidárias as suas raízes. pela capilaridade do inextrincável tecido radículas enredadas em malhas numerosas. e forma. recuperando a imagem da gênese da Terra para situar o aparecimento dos desertos. no subsolo. espectrais. desdobra-se a partir desse ponto. bem como as plantas sociais. a partir da reação de vida dos seus habitantes humanos e vegetais sobre as condições adversas impingidas sobre eles pela seca. O mal antigo os define todos como personagens históricos. é possível perceber que os limites para se obter a ciência dos sertões podem ser notados em movimentos interiores. na postura sempre reafirmada pelo autor. Entre o que não tem explicação e o que de fato existe. metafórica do sertão. de que o sertanejo é a “perfeita tradução moral” do meio e o meio é a tragédia da seca. em suas imagens. bichos e homens são derivados de uma formação complexa. que “são tão ilógicos que o maior dos naturalistas [Humboldt] lobrigou a gênese daquele na ação tumultuária de um cataclismo”.. aprecia o elemento humano. em relação à insuficiência das previsões nem sempre objetivas e razoáveis da ciência da civilização. Euclides não inventa. por fim. 133-147). alega o autor. na medida em que. E. retêm as terras que se desagregam. O vetor de determinação do meio físico natural não é de via única. p. permanecem incógnitas para a ciência.. sejam eles plantas. num longo esforço o solo arável que nascem. e. A seca origina-se de um cataclismo que. igualmente. apresentam uma história que deve ser narrada em comum. A narrativa da primeira parte do livro. ao modo das “plantas sociais brasileiras [. dos mandacarus e dos xiquexiques. por isso. p. mas repete em diferença. o homem sertanejo. por sua vez. retêm as águas. plantas. “O meio”. Nesta observação. Ressalta que o saber ignorante do sertanejo em muito acerta no que configura engano para o saber da ciência (OS. Este é o caso. porém. ao cabo. são evidências de uma comunidade psíquica evoluída pelos seres viventes do sertão dentro daquele ambiente trágico de tradução entre terra. homens ou animais. a reflexão vivente sobre o meio no sertão. vencendo. um geossistema propriamente particular em Canudos. a sucção insaciável dos estratos e das . por exemplo. nesse momento do texto. em apertada trama. Isto implica entender que a tragédia singulariza os seres do sertão como um universo singular. homem e vegetação da seca. se associam” (OS. Euclides. compraz-se em um “jogo de antíteses” – o narrador nos catapulta para um cenário de contínuo tumulto em um universo amplo e indefinido. em uma descrição das condições mesológicas que expõe. descritos como quase instituições para os sertanejos.

Este traço é incontestavelmente delicado e apenas precariamente poderia ser construído pelo artifício da lei. 128). desinvoluindo. não meramente uma planta mas um ente sagrado reconhecido – diríamos um totem. Ao umbuzeiro se associa o sertanejo por meio de uma interação social religiosa. “o mal é [sempre] antigo” – tal como um índice para a evolução especial do sertão. no fato. o sagrado. pouco a pouco. 128) Deparamo-nos. E vivem. modificando-se à feição do meio. Este traço superior. de talhe mais vigoroso e alto – e veio descaindo. Especialmente importante é esta remissão ao vínculo sagrado. Para descrever essa planta típica. das formas de vida no sertão evoluídas como comunidade. numa intercadência de estios flamívolos e invernos torrenciais. das reservas guardadas em grande cópia nas raízes. Isto se verifica. O umbuzeiro é enunciado como elo vital da cultura sertaneja. a árvore “reparte-as com o homem. 122. grifo nosso). um traço superior à passividade da evolução vegetativa. p. p. até se preparar para a resistência e reagindo. pois seria resultado de uma história comum antiguíssima – na tragédia. “árvore sagrada do sertão”. na medida em que toda essa reação guerreira do umbuzeiro contra o meio. na sua primeira vez em que aparece de maneira explícita em Os sertões. Foi. indiciado por um signo vegetal da natureza. Valores que são propriamente culturais e sociais. Se não existisse o umbuzeiro aquele trato de sertão. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. estaria despovoado” (OS. talvez. (OS. 145 areais. que sinalizam para a metáfora do organismo. com a adaptação da natureza – assegurando o símile do homem com o meio – com a realidade de um segundo parâmetro social. a principal perda registrada pelo conflito de Canudos. como é o caso da religião. Vivem é o termo – porque há. desafiando as secas duradouras. por fim. sustentando-se nas quadras miseráveis mercê da energia vital que economiza nas estações benéficas. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. como a identificar uma forma de consciência refletida naquele ambiente. para imiscuir-se em valores estranhos em geral à vegetação. no juízo de Euclides. p. constitui afinal. como alega o autor. Euclides pretende apurar desses valores o conceito de psique na montagem do seu livro. o autor recorre a uma analogia entre a sua resistência e a mentalidade religiosa dos homens do sertão. imperativo cultural que teria se inscrito naquela espécie vegetativa do meio físico natural. tão estéril que nele escasseiam os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que o convizinham até ao Ceará. Mais especial será o caso do umbuzeiro. A descrição euclidiana pretende romper com a apropriação restrita dos conceitos biológicos sobre a natureza. . (OS. nesse momento da descrição.

decorrência de que. 141). ao que é visto naturalmente pelo sertanejo porque parte evolutiva constituindo a sua história. como resultado dessa . “[j]á nessa época. na relação de anterioridade que ele detém junto com a natureza. Tendo em lume esse “ritmo singular”. O sagrado da vida e o trágico da seca encontram-se. Por isso. p. No seu primeiro momento. Elementos extremamente subjetivos são associados ao enfrentamento e à sobrevivência do sertanejo diante da sua tragédia. tendo em vista que a sua vida evolutiva é invariante a ele. ao que Euclides ressalta. abandonando a terra e a pouco e pouco invadida pelo limbo candente que irradia do Ceará”. Euclides apresenta uma hipótese que não apenas desarma a arrogância cientificista da sua época. com ela. em que ensinamentos práticos se misturam a extravagantes crendices. tem procurado estudar o mal. sobre a tragédia “o sertanejo adivinha-a e prefixa-a graças ao ritmo singular com que se desencadeia o flagelo” (OS. p. Conhecimento do mal que. tinham função proverbial as plantas. ibidem) . apelam os nossos sertanejos” (OS. a linguagem da religião produz imagens expressivas e importantes para a explicação formulada por Euclides sobre o que motivou a tragédia de Canudos. a metáfora psicológica que impulsiona a descrição do sertanejo prepondera sobre a descrição dos sertões. O sertanejo entende o mal na sua natureza. isto é. a antiguidade do mal se adere à própria gênese da socialidade no sertão. em sua correspondência diminuta na comparação com o conhecimento do sertanejo: “com os escassos recursos das próprias observações e das dos seus maiores. restrito e normativo porém inconsciente sobre todas as coisas. suportar e suplantar” (OS. 146 Como já sabemos. presciência sobre a tragédia do meio. ao fim. as caracterizações psiquistas desenrolam-se associadas à descrição da tragédia da seca. espécie vegetal vital para a sobrevivência social do sertão. Neste sentido. como indício da manifestação do mal e. diferente dos somenos cientistas. Por isso. é fundamental deixar em destaque que a primeira vez na qual a justificativa religiosa aparece em seu texto. das reações vitais para a garantia da sua sobrevivência. hoje. para o conhecer. Maldade vinculada aos ciclos da seca e à tragédia do meio. deriva de uma “variante trágica” (ibidem. portanto. Pois. também. da seca e configura. a tal ponto que o sertanejo expressa. 229. “não foge logo. 230). se o sertanejo “[a]parelha-se com singular serenidade para a luta” ele. um conhecimento da vida social. a tragédia se anuncia e. grifo nosso). p. O sertanejo apresenta-se em certo sentido sábio no governo do sertão no seu meio porque natural do seu pensar – tal como um rei filósofo de Platão. reunidos na figura do umbuzeiro. ela vem associada ao umbuzeiro. Neste sentido. primordialmente. como se vê. Igualmente. o homem na natureza é capaz de ver o mal. de suposto conhecimento abstrato e universal. para as quais. não nos esqueçamos.

como opina Euclides. da morte que se aproxima sob a forma de clima. que é resistente porque religioso. na sua descrição. Aguarda. nesse caso. paciente. Não sendo agora o momento de entrar no tema da religiosidade em Os sertões. Olhado mais de perto. Vamos ao texto: Buckle. tal como um índice à bios do vegetal com a psique do homem. plantas sociais que se afeiçoaram ao ambiente bárbaro. que se modifica à medida que a tragédia das secas avança. deixemos para adiante esta análise do vínculo da fé. p. que o sertanejo permanece na terra e “[p]rocura em seguida desvendar o futuro”. de grande valor social para Euclides. se lhe endurece aos ombros. 233). Euclides assimila para a instituição do sertão. as secas agem sobre o seu homem. plantado no interior dos sertões. afinal – assim como a civilização – “[a] seca é inevitável” (OS. A paciência. às calamidades naturais que o rodeiam. com avidez de esponja. o próprio sertanejo parece ser um umbuzeiro. enquanto a armadura de couro. “[n]em sempre desanima. Por enquanto. o signo que se destaca é o da comunhão trágica entre a seca (clima social e natural) e a fisionomia e a psicologia do sertanejo. cuja instituição se afirma como sentença. na descrição do meio físico do sertão. igual a este. Recuperemos agora aquela descrição euclidiana das nopaláeas e cactos. quando “a atmosfera absorve-lhe. 147 tragédia. rígida. Mesmo com toda intuição. p. antes os piores vaticínios. Identifica-se. Por isso. Flexibilidade e paciência são princípios assimilados pelo sertanejo – traços superiores – na sua relação com as instituições do seu meio. o homem. esturrada. descobre-se a psicologia desse ser do sertão na existência do sagrado em simultâneo com o trágico da natureza. Nenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano. feito uma couraça de bronze” (OS. o umbuzeiro como a árvore sagrada daquele ambiente. totem da especial e universal sociedade sertaneja. 232). por isso. 231. Assim. em página notável. o suor na fronte. às secas. o equinócio da primavera”. assinala a anomalia de se não afeiçoar nunca. p. futuramente. O umbuzeiro compreende o ser sertanejo por sobreviver. é atributo de uma vida precária adquirida naturalmente e. Gostaríamos de examinar com as plantas sobreviventes porque sociais. e no Peru as crianças ao nascerem têm o berço embalado . Assim. diante do horror das secas. Este homem natural compreende o seu meio através de um conhecimento superior sobre o seu mundo. adivinhação e prestidigitação do futuro. na descrição da fé do homem sertanejo. como Euclides opera através de um raciocínio do mesmo módulo de similaridade. por fim. Temos suspeitas de que estes valores morais serão. pois para o sertanejo o “seu primeiro amparo é a fé religiosa” (OS. grifo do autor). sem mais flexibilidade primitiva. reclamados por Euclides. inclusive a lhe deformarem a vestimenta e a fisionomia.

jamais deixa levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes. têm. atenta longamente nos quadrantes. Volve o olhar para as alturas.] Procura logo em seguida desvendar o futuro. as ipueiras35 da caatinga.]. então. como símbolos de esperança nos sertões. n. “ipueiras” significa “águas passadas.. contudo.. erguidos como represas entre encostas. Por ora vale observar que o tom religioso percorre aqui e ali o argumento da seca – origem da tragédia sertaneja – nas descrições da natureza do sertão sob o apelo de um estado emocional e patológico. quando o espírito sertanejo se planta absoluto em sua virtude. É um complemento à sua vida tormentosa. Cf.. Algumas denotam um esforço dos filhos do sertão. em processos que lembram um “círculo vicioso de catástrofes” ou “círculo vicioso indefinido” de onde “ressalta a significação mesológica do local”.. As lagoas mortas no sertão são preservadas e parecem remontar a épocas obscuras e já perdidas. envoltas em mandacarus despidos e tristes. Se as secas carregam com tamanha força o argumento de imagens fortes – elas definem a tragédia de todos os seres vivos – torna-se possível encontrar em seu referente a bela imagem de uma lagoa morta: fácies geológico de um espaço contemplativo. (OS. Lembram monumentos de uma sociedade obscura. E persistem indestrutíveis. um aspecto lúgubre: localizadas em depressões. Encontram-se. encadeados em série.. orlando-as. Os sintomas do flagelo despontam-lhe. da sezão [febre cíclica] assombrada da Terra. Delinearam- nos os que se afoitaram primeiro com as vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. por mais escoteiro que siga. mais adiante iremos nos aprofundar no aspecto místico e religioso descrito por Euclides nos sertões. [são] verdadeiros oásis. e perquire os traços mais fugitivos das paisagens. mesmo assim. como espectros de árvores [. A seca não o apavora. 148 pelas vibrações da terra. 152. estóico. paraísos ou melhor purgatórios.. Patrimônio comum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz. alimenta a todo o transe esperanças de uma resistência impossível. “parênteses breves abertos na aridez geral”. OS.. entre colinas nuas. p. aprofundadas 35 De acordo com o que nos informa Leopoldo Bernucci. rio seco”. 85) Nessa metáfora a natureza (oásis) é também monumento erguido pela intervenção do homem fazedor artificial da natureza (lagoas mortas e desertos). emoldurando-a em cenários tremendos. o martírio do homem é o martírio da terra. dessa concepção artificial que garante a presença do poder e se legitima junto à coletividade.. vêm. não raro.]. . [. justamente. (OS. O autor descreve essas lagoas como “paragens menos estéreis”. Afinal. de remoto passado. 230-231) Como afirmamos. Enfrenta-a. Mas o nosso sertanejo faz exceção à regra. sucedendo-se inflexíveis.. segundo bela etimologia indígena [.. p. na etimologia tupi. p. Curiosamente.] estas lagoas mortas. 85. em geral. lagoeiros ou poços formados nos lugares baixos e nos leitos de rios pelas águas das chuvas onde se conservam meses a fio. Apesar das dolorosas tradições que conhece através de um sem-número de terríveis episódios. [. É o prelúdio da sua desgraça. que já não correm. a definição de Hobbes para o Leviatã deriva. como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica. toscos muramentos de pedra seca. porque o sertanejo. Aquela intervenção resiste.

1998). alterada quando se aproxima do momento de descrever o homem do sertão. Ao fim. o seu especial antropomorfismo. no argumento euclidiano. claridade junto ao profundo. o vegetal parece derrear-se aos embates desses elementos antagônicos e abroquelar-se daquele modo. (OS. ela não parece ser. neste caso. p. lançam vivências sobre o não vivido. Esta observação. As metáforas particularmente. é possível materializar aí os excessos lingüísticos ou ornamentais de Os sertões. fustigado dos sóis. por outro lado. 119) Neste ponto em que chegamos. são remotas onde a vida social um dia as ergueu e as esqueceu lá. de fato. Em certo grau. torturado pelos ventos. na medida em que Espancado pelas canículas. invisível no solo sobre que alevanta apenas os mais altos renovos de fronde majestosa. em todo caso. 149 em camadas de solo e meio. Nessa perspectiva é preciso atentar para o discurso tortuoso de Euclides sob uma mirada mais ampla no que se refere ao uso intensivo de imagens. uma socialidade na sua descrição junto ao homem do sertão. abre-se para análise o segundo aspecto que devemos apresentar sobre a construção de Os sertões. O autor. retirada da análise que fazemos de Os sertões. denota uma complicada porém persistente relação de adaptação e integração entre as formações do trágico e do que é inevitável naquela sociedade como a seca: parte-se da socialidade natural para a psique humana. o vegetal parece consistir em uma replicação do humano em sua experiência histórica. deslocando para ressignificar a humanidade pela vegetalidade. roído dos enxurros. . em franca guerra contra o seu meio físico natural. Isto quer dizer que a tragédia que é descrita como conflito psíquico e existencial nos sertões engloba coletivamente a todos os seres vivos. Se. quando eles expressam o tipo de reflexão complicada pretendida na descrição da tragédia dos sertões. a natureza apresenta uma história. a fim de obter a composição de uma filosofia da história natural sobre este ambiente. embora este atue em contato e sobre o seu meio. isto é. deslocando situações sociais para o ambiente natural a fim de explicar a experiência do vegetal e do seu homem a partir de um ponto de vista universal e singular (VILLAS BÔAS. Pelo contrário. na transversalidade do caractere sagrado fundado em um mal antigo vinculado à seca. como um recurso para lançar luz onde os conceitos e as definições solicitam imagens como hipóteses sobre os limites da sobrevivência e da vida. a ornamentação da linguagem é algo evidente na descrição do meio natural. história sobre o antigo. A metáfora psiquista aparece neste momento. desaltera as associações entre um estado psicológico humano e a vida de um vegetal ou lagoa.

apresenta uma referência que não é mais racial ou étnica do que patológica – no sentido de que deve nos informar um fenômeno histórico em que se associam o contingente e o catastrófico do mundo social. Na seção anterior. será uma via oportuna atermo-nos na tradução das descrições do homem sertanejo em relação a elementos descritivos e situações lendárias que Euclides expõe – no sentido etimológico dessa palavra. em sentido amplo. A noção de “psicologia da luta” restaura este sentido animal do homem. na verdade. Nesta seção. a sua “deplorável situação 36 A referência implícita nesta hipótese está. digamo-lo brevemente. na medida em que refletem também a gênese da vida humana e natural.2 “Centauros broncos” O antropomorfismo da natureza recebe atenção do autor a partir de uma formação psíquica dos sítios naturais. pois devemos ter em mente que o pressuposto da singularidade em Euclides tem em sua face oculta o universal também pretendido na civilização – a refletir-se na constituição antropológica do seu homem. O delírio. mas as metáforas caminham ainda sobre o argumento de uma identidade psíquica entre o meio e o homem. com destaque para o elo religioso portanto social36 entre o umbuzeiro e o sertanejo. O antropomorfismo aparece. “Plantas sociais. . em Durkheim e na sociologia da religião (antropologia da magia) do pensamento social francês do começo do século XX. 150 3. alterando naturezas que pareçam invariantes ou preestabelecidas. de “colocar para fora” – da natureza para a humanidade. da biografia da vegetação. Inevitabilidade que torna todos os viventes do meio entidades reflexivas da sua história.1. a psicose – itens que serão trabalhados a seguir – evidenciam no sertão a constituição psíquica especial do sertanejo. na expressão da formação psíquica do sertanejo. nossa intenção é a de apresentar o reverso dessa relação. A explicação pelo cânone naturalista pode ser indicada aqui. deformando-a para a animalidade. da metafórica entre a origem da seca e o sentido trágico da sua inevitabilidade para o ambiente sertanejo. a natureza apresentaria contrapartidas na definição da psique do homem dos sertões. das condições atmosféricas que formam o clima. apresentamos o argumento psiquista voltado para a descrição da natureza. Nesse sentido. a loucura. a natureza. lagoas mortas”. como aparece em Marcel Mauss. Essa formação. Uma dessas contrapartidas é que ela. no discurso de Os sertões. incorpora-se na constituição psíquica do sertanejo. na verdade. ou. Uma vez dotada de personalidade. Ela aponta para o antropomorfismo do meio sertanejo – embora não apenas dele. a nevrose.

assaltando o viandante retardatário. os sacis diabólicos. todas as tentações do maldito ou do diabo – esse trágico emissário dos rancores celestes em comissão na terra. devemos continuar com a citação: As lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso. como opina Euclides. e as romarias piedosas. advém. Por que presume. e as missões. as benzeduras cabalísticas para curar os animais. e as penitências. Suas “crenças singulares traduzem essa aproximação violenta de tendências distintas. justifica. “uma grande herança de abusões extravagantes”. destacando-a do paradigma lógico e racional. montado em caititu arisco as chapadas desertas. as rezas dirigidas a S. É desnecessário descrevê-las” (OS. todos os mal-assombramentos. 151 mental”. para amarrar e vender sezões. p. por fim. atravessando célere. no sertão ficou intacta” (OS. todas as profecias esdrúxulas de messias insanos. Com este argumento. nas noites misteriosas de luares claros. todas as visualidades. como veremos a seguir. é lançada a hipótese do insulamento histórico que transtorna a humanidade sertaneja. Campeiro. p. o aparecimento de uma série de lendas históricas ao redor do ambiente sertanejo. do próprio isolamento dos seus tipos. ibidem). identificados no argumento de Euclides. como iremos analisar. nas noites aziagas das sextas-feiras. Esta não-dissolução e incorporação do meio (resultado da história) ao homem que. Uma vez que o homem sertanejo está “na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido. afastados do tempo histórico da civilização do litoral. 240) e chegamos ao agravo de uma sociedade perdida no tempo. ao qual se acendem velas pelos campos. é o que garante na descrição que se atém Euclides a complexidade psíquica do homem do sertão. o nosso autor. incutindo-os outros traços manifestantes. eivado de misticismo extravagante.. Este misto de psiquismo com história. no entanto. 238). isolamento geográfico e herança cultural são demandados a operar na formação complexa do meio que singulariza o patológico do seu ser habitante. sua psique constitui um “índice da vida de três povos” (OS. para encontrá-la em sua extraordinária conservação como animalidade e personagens míticos. de maus usos das crenças históricas. A cultura que se formou no sertão. para que favoreça a descoberta de objetos perdidos. transformação psíquica. Este afastamento insere o recurso da distância como operativo de caracterização social. de parceria com os lobisomens e mulas-sem-cabeça noctívagos. 239). canonizado in partibus. que seria desnecessário descrever estas tendências distintas? Pressupunha serem elas de fato tão evidentes? Para entender melhor este ponto levantado. todas as aparições fantásticas. de barrete vermelho à cabeça. p. também se transforma. de profundidade especial. criativa e abusada – “A sua religião é como ele – mestiça” (ibidem. não dissolve nenhum conflito senão que o incorpora no isolamento do tempo por meio da tragédia. todas as . No envolvimento entre três raças surge uma singular psique que. Soma-se a isso o fato de que “uma grande herança de abusões extravagantes.. extinta na orla marítima pelo influxo modificador de outras crenças e de outras raças. Por fim. em que se rebate o fetichismo do índio e do africano”.

ibidem). em seu argumento valendo-se de uma metáfora da história. hoje. como “um documento de atavismo raro” (OS. (OS. considerando as desordens sertanejas. na época do descobrimento e da colonização” (OS. Este argumento assim desse jeito formulado pouco se sustenta hoje. buscar as origens do nacional consistia em tarefa máxima do intelectual. 253). p. 152 manifestações complexas de religiosidade indefinida. p. porém. 238. por conseguinte do Brasil. devotados ao martírio. tendo em vista que é aí. inverdades ou ilusões que habitam os sertões. 241. 239. grifo do autor) Ao que prossegue. errantes pelas faldas das serras. (OS. A superioridade portuguesa aliada à descoberta da América. as figuras dos profetas peninsulares de outrora – o rei de Penamacor. Neste compósito. De feito. realçaria esta tarefa. . nas manifestações sentimentais do sertanejo. arrebatando na mesma idealização. Mais à frente veremos que Euclides descreve Antônio Conselheiro com a nota ética da paranóia. grifo nosso). empolgantes. Ao que Euclides complementa: “[e]ste último é um caso notável de atavismo. o animismo do africano e. Para onde então apontam todas essas tendências tomadas por Euclides? Presumimos que elas apontam para a “mestiçagem das crenças”. importa-nos por enquanto deixar a relação acesa entre a religiosidade sertaneja e o atavismo histórico dos portugueses colonizadores em relação aos seus excessos. e é preciso guardar esta coincidência. valeria fazer a nota de que no momento em que Euclides escreve Os sertões. p. as multidões crendeiras. na história” (ibidem. Euclides concede aqui à noção de superioridade da raça portuguesa o tributo do tempo. isto é. Essa superioridade situa o português na história. Este o que é mais parece ser o que singulariza a religião mestiça do sertanejo. O autor catalisa na figura do colonizador português um excedente. que compreendia estar na empresa dos descobrimentos portugueses a origem das nações americanas. aquilo “o que é mais” sobre a formação dos “caracteres físicos e fisiológicos das raças” (OS. p. o que é mais. na mesma insânia. grifo nosso). 239. Na realidade. o rei da Ericeira. Por ora. mas que são também figuras conhecidas do imaginário nacional popular. no mesmo sonho doentio. não obstante a sua referência no sistema do livro ressoe como evidência que assinala a presença de traços de uma raça superior. p. mais do que determina a sua característica sobre o meio. são explicáveis. o autor nos surpreende com a descrição da presença de seres lendários inúteis. que estão “o antropismo do selvagem. grifo do autor) O antropomorfismo e o evidente aparecem juntos porque são entendidos enquanto sentidos limítrofes. e os messias insanos que as provocam. irresistivelmente nos assaltam. vizinhos. para o indefinido da raça. o próprio aspecto emocional da raça superior.

p. Mas é exata. Em especial. que ele “mais do que qualquer outro está em função imediata da terra” (OS. “precisamente no fastígio de completo desequilíbrio moral. um sentido histórico comum que relaciona o sebastianismo e a loucura do líder. Euclides prossegue na descrição da religiosidade sertaneja fazendo uso da metáfora da festa da morte e do atavismo da terra (OS. ele vincula metáforas míticas que permitem surgir da descrição da natureza a “figura anticlinal” daquele líder. a partir de uma história mítica portuguesa. historicamente indiscerníveis e indissociáveis. O motivo para essa pausa. Neste momento. 242-249). Euclides restaura aqui a . vinculada à anterioridade histórica do elemento atávico daquela cultura. o misticismo português. Conselheiro e o português. o autor recua para a história da colonização portuguesa com o afã de explicar o estranho movimento de contestação que emergira no interior do Brasil em fins do século XIX. através da genealogia dos sentimentos religiosos do sertanejo. pois. 153 Esta justaposição histórica calca-se sobre três séculos. João III. Segundo o autor. de modo singularmente impressionador. hoje. Imóvel o tempo sobre a rústica sociedade sertaneja. para completar o símile. é possível dizer. Sem perder de vista o isolamento da natureza e da história no sertão. (OS. 239). Ora. quando todos os terrores da Idade Média tinham cristalizado no catolicismo peninsular” (OS. Extinto em Portugal. para voltar a falar do homem ordinário do sertão a fim de caracterizá-lo. Nesta altura. provém de uma suposta intenção autoral em inserir minuciosamente no quadro descritivo do homem simples do sertão a presença contraditória de uma figura psicótica. p. doudos. sem dobras. completa. o Miguelinho ou o Bandarra. o líder e o mito aparecem sob o mesmo argumento – a colonização e os seus efeitos no sertão – como a estabelecer uma assimilação entre um e outro. p. Nem lhe falta. 241. ele refreia a sua análise com o argumento do elemento natural lendário. delirante. a estranheza se vincula ao passado. o sebastianismo. grifo do autor) Euclides enseja a explicação para o delírio do misticismo extravagante característico do ambiente dos sertões e particularizado em Canudos e em Conselheiro. de tal modo. Mas não antecipemos. Euclides parece querer articular em paralelo à tragédia e à psicose de ambas as figuras. em que Euclides avança sobre a descrição da religião do sertanejo. Definindo o ambiente da descoberta da América a partir do contexto de cristais. nos sertões do Norte. o misticismo político do sebastianismo. ele persiste todo. O traço de superioridade aparece evidenciado pela sua narrativa histórica. para introduzir “o frêmito de nevrose” que “passou pelo sertão”. ele suspende a narrativa que chegaria sem rodeios ao evento de Canudos. ela respira ainda na mesma atmosfera moral dos iluminados que encalçavam. despeada do movimento geral da evolução humana. ao momento em que o Brasil foi colonizado com D. 241). Com um “não antecipemos”. p. Uma vez lançado este ponto. que se tornariam familiares.

em sua religiosidade – uma interioridade exterior. Sebastião. Tendo em vista que na inquisição da psique deste líder descobre-se a persistência do mito do encoberto. Tais como centauros broncos. contudo. perenemente audacioso e forte. A inconstância maníaca do sertanejo. dessa forma. capazes de disseminar pelo solo americano as crenças remotas de outras épocas e lugares. a religiosidade e a persistência do sebastianismo nos sertões acentua e justifica. como uma resultante de uma patologia que é anterior à Conselheiro. os valores atribuídos à psique do sertanejo: “batalhador perenemente combalido e exausto. o importante a destacar nele é que o sebastianismo parece. nesse sentido. a paranóia do retorno do encoberto. quando passarmos a tratar da constituição de Canudos. segundo o autor. apontado pelo nosso autor como resultado da interação religião e natureza. 214). Esclarece . Na próxima seção abordaremos em pormenor este tema. p. Por mais descabido neste argumento retirado de Os sertões. As bandeiras teriam sido as responsáveis por divulgar para regiões recônditas do Brasil os mitos ultrapassados de uma herança já perdida: o sebastianismo de Portugal. gostaríamos de deixar marcada nesta seção a importância do elemento lendário fantasioso. colonização e isolamento geográfico como notado na deformidade dos seres no sertão. Este conjunto de fatos e narrativas sugere a estranheza. broto e flor do “misticismo extravagante e bárbaro”. presente na fábula do rei do D. passando da máxima quietude à máxima agitação” (OS. preparando-se sempre para um reencontro que não vence e em que não se deixa vencer. a presença do líder e das lendas míticas derivam do acinte pelo qual são descritos. Na verdade. Conselheiro. Euclides coloca em relação de sentido a deformidade do corpo sertanejo com a psicose que teria dado amparo para o surgimento da personalidade do líder maníaco beato. segundo o nosso autor nos informa. Temos a sensação de que esse fenômeno se realiza sob a hipótese da contigüidade do psíquico. seria o efeito do seu meio. segundo o argumento do livro. O mal é antigo. no sentido de uma deformação. A biografia de Antônio Conselheiro. os sertanejos são descritos. “compendia e resume a existência da sociedade sertaneja. que aquelas realidades míticas portuguesas assumiram em um novo espaço. onde o demônio também nos é familiar. em Os sertões. 154 referência histórica das bandeiras feitas em direção ao interior. Como seres míticos de uma natureza adulterada na sua própria psique antropomorfa. constitui uma “nevrose social” e abre passagem para a chegada do “ridículo” e do “medonho” de Conselheiro naquele ambiente sertanejo isolado. já que ela é histórica e toma a face de um evento. no argumento de Euclides. encontrar no ambiente desolado do sertão o fenômeno ou a atmosfera de crença necessário para fazer aquele mito circular e crescer entre os homens. mítico.

de 1899. e como a caridade pública não os podia satisfazer a todos. da rejeição e do individualismo manifestos sobre os canudenses no enfratamento do vida no seu contexto social. da lenda e do mítico a lhe determinar. O rei dos jagunços. Virava-o revirava-o de papo para o ar. Benício nos narra o duelo mental entre a onça e o jacaré. p. ora o psíquico se afinando com a referência que remete à tragédia das secas – a fé para enfrentar o inevitável – ora ressurgindo no isolamento da colonização portuguesa que fertiliza crenças milenares. 254-255). ao banditismo remoto. Tratando daquela psicologia especial do sertão. um louco. O centauro bronco e o gnóstico bronco guardam. nem resistia: estava como que enfeitiçado. A degenerescência das três raças a partir do isolamento histórico em meio adulterado conduz. chorando. p. se persiste o argumento da raça no discurso de Os sertões. um maníaco. também um relato sobre o conflito de Canudos. Ainda não será o momento de analisarmos a descrição de Euclides sobre Conselheiro. adulterado entretanto pela gnose de um líder louco (Conselheiro) que quis ser mais sábio do que os outros. e encontramos no livro de Manoel Benício. acabaram – roubando” (OS. nesse argumento.. pois vem acompanhado de outros argumentos. a sua disposição discursiva de um conceito como psique tenciona no seu texto diversos sentidos. como gato antes de comer o rato. mas podemos nos perguntar: qual o resumo de Euclides para Conselheiro? Um doente. levantava-lhe os quartos e o jacaré besta.] estava a onça olhando com atenção para dentro dagua doude sahiam os olhos de um enorme jacaré que avançava para ella! Antes porém delle chegar em terra. fascinado. arrastando pelo rabo. rezando. numa mandria deprimente. que se lhe torna então uma resultante. e mais. achando até graça. um “gnóstico bronco” (OS. esmolando. 257). Helena Bomeny (2001). Essa última “psicologia especial” da vingança não é exclusiva de Euclides. inclusive o da fé. Naquele ambiente natural de reis filósofos. . um soldado do sertão: [.. ele não surge solidário ou em primazia sobre todos os demais argumentos presentes no livro. 155 o conceito etiológico da doença que a vitimou” (OS. a ausência de cuidado público produziu. o patológico de Conselheiro deriva de ter querido ser um ser do sertão consciente mais ciente que os demais seres. bem como do abandono. um elo natural. o caráter rude e ogro do ser do sertão. Como se Euclides estivesse na intenção de nos explicar sociologicamente o delírio. como retorno psicótico. em comum. como ressaltou sobre o tema. a partir da visão de Raymundinho. a um tipo de mentalidade psicótica. a bicha tornou a entrar no rio e trouxe. 249). Dava bofetadas nas queixadas do monstro que tinha os olhos encandeiados sobre os della. Neste momento. espremia- lhe o bucho. o bicho que nem bolia. ora ainda o psíquico aparece enquanto vingança histórica sobre a sociedade moderna. a loucura típica de Conselheiro. O caso me espantou. Tal como quando “os desvairados foram pelos sertões em fora. p. A lombo-preto arrastou o crocodilo até detraz de uma arvore e começou a brincar com elle.

além da singular noção de justiça sertaneja. p. probo e honesto. Aquilo já me estava a fazer o sangue ferver. das lendas e do profeta. apontado-lhe no pé do ouvido. com esse paralelismo. por Manoel Benício. não são exatamente termos idênticos e nem se determinam completamente e. refletidos. também a psique da raça. A psique como metáfora absoluta. salientamos. e. sem oppor nenhuma resistência. pouco liberal. é que o referente étnico da raça sertaneja em Euclides da Cunha – ou seja. simples. No caso do duelo entre a onça e o jacaré. registra também o limítrofe de onde se oferece uma identidade. O dúbio.. aparecem como variantes de complexo de “vicissitudes históricas” que insere nesta circularidade das imagens – metacinética – a ocorrência de uma metáfora absoluta que nos perturba. como analisamos em capítulo anterior. jamais se redime à uma única psique. . afeiçoado ou agradecido. a respeito do sertanejo como uma ser em consciência do seu meio. na medida em que nunca demonstrada embora reiterada por Euclides para o sertão. que recobra em Euclides o suposto heroísmo dos jagunços diante da covardia dos “inconscientes mercenários” da civilização. psicologia da luta. desconfiado. 114). [que] pode ‘desenvolver-se’ na função do sujeito” (BLUMENBERG. (BENÍCIO.. passim) Nosso ponto. altivo. lasquei-lhe fogo com gosto. respeitador. prenhe de aventura e surpresa. em determinado momento. Sertão e psique. mas tem o seu ambiente descrito na lavra de uma semântica emocional e patológica. inteligente. [. p. Depois a onça começou a devoral-o pelo rabo e o desgraçado do bicho a deixar. como o que me mettia raiva era a covardia do jacaré. leal. que não são para graça. econômico à parcimônia. 156 naquelas cócegas de onça. só o fazem quando ironicamente aparecem assemelhados. Percebemos nas caracterizações euclidianas o psiquismo determinando aquele complexo. ao atirar no bicho que não luta pela própria vida. Tinha a arma carregada.] Não lhe escapa nada do que acontece na zona em que age. Era mesmo um caso de outro mundo! Dahi a pedaço parece que a onça zangou-se e metteo as garras no bucho do bicho que só fez estremecer de dor e mais nada. mais do que esclarece. 274-275) Chama a nossa atenção no trecho acima a regra de reflexão empregada nessa cena. 89-90. p. (CC. 2013. e nada mais. inculto. Sociologia das plantas. remete a uma percepção similar de Euclides. o qual. neste sentido. o discurso de determinismo e distinção entre as raças – está referendado a um indefinido primordial cuja explicação se afirma na sua própria competência de expressão conceitual. na realidade. anotada em sua Caderneta de Campo para Canudos: O sertanejo é em geral – bom. indistintos. “apresentando-se como predicado de um sujeito indeterminado. mentalidade dos homens na mitologia. perde sentido como conceito unívoco. sobre o problema do como proceder com o ignoto. da religião e do bárbaro. no argumento de Euclides. 1997.

Leopoldo Bernuci (1995. uma metáfora sobre o exterior. arrojando-o na carreira – estribando curto. porque por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo. além desmontando. com o trato dos seus respectivos cavalos (OS. desde que inserido nos sertões. do romance de José de Alencar. Cf. p. grifo do autor) Nesse contexto discursivo. confundindo-se com ele. . pernas encolhidas.. a toda brida. publicado em 1875. p... as construções e todo o vestígio material que identifica uma etnia naquele ambiente do sertão. a longa aguilhada de ponta de ferro encastoado em couro. logo depois. sob um ramalho.. sobre o que pensava Euclides do homem sertanejo. deve-se saber investigar os seus porquês. outras vez desgracioso e inerte. são mais do que remissões ou intertextualidades. em “O impasse de Euclides”. (OS. Colado ao dorso deste. mergulhando nas macegas altas. Ao que continua: Colado ao dorso deste. no largo dos tabuleiros. restituída ao rebanho a rês dominada. rompendo. Euclides não as reduz ao homem. segundo Leopoldo Bernuci. sem a deixar no inextrincável dos cipoais. as vestimentas. “evolução regressiva” dos homens. suspendendo-o nas esporas. 157 Nesse sentido. evidencia o transtorno da consciência evoluída porém sem progresso. precipitando-se. como um acrobata. noutras mãos. grifo do autor)37. tanto quanto possível. Esta distinção entre os dois cavaleiros parece ecoar aquela outra diferença anteriormente citada por nós.e galopando sempre. num pulo. em toda plenitude. de um discurso. 23). p. Euclides descreve os centauros broncos como seres da natureza. nesse momento. confundindo-se com ele graças à pressão dos jarretes firmes.” (OS. portanto. como temos tentado evidenciar. através de todos os obstáculos. traduzir o inconceitual e o não-substituído. os quais determinam as descrições do social. As descrições. realiza a criação bizarra de um centauro bronco”. saltando valos e ipueiras. graças à pressão dos jarretes firmes. de inconsciência para os princípios 37 Parte desse trecho.... . Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil. em especial. . agarrando às crinas do animal. 211 et seq). as imagens ornamentais para descrever os hábitos.. O Sertanejo. joelhos fincados para a frente. 210. sustendo-o nas rédeas improvisadas de caroá. sérios obstáculos à travessia. p. “por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo. torso colado no arcão. célere. ela não poderia nos dizer mais do que ela já nos diz: isto é. ei-lo. mas ao obscuro da realidade que por fim perturba a natureza do homem. a fim de elaborar. Sem sabermos diretamente o motivo. com a aparência triste de um inválido esmorecido. realiza a criação bizarra de um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras. que lhe roça quase pela sela.escanchado no rastro do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo. adulterando-os culturalmente um pouco para formas animais. que por si só constituiria. vingando cômoros alçados. partindo das descrições das suas vestimentas e. o selim. 209. de “garrote desgarrado. de novo caído sobre o lombilho retovado. Ainda que esta remissão seja autêntica. O antropomorfismo que não é nem puramente humano nem simplesmente animal. sopesando à destra sem a perder nunca. oscilando à feição da andadura lenta. pois buscam resolver problemas conceituais de uma teoria. para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando. de repente. Euclides diferencia dois tipos antropomorfos: o vaqueiro gaúcho “de feição mais cavalheirosa e atraente” e o centauro bronco sertanejo “de caráter selvagem”. A sua compleição robusta. pelos espinheirais mordentes. em A imitação dos sentidos. Mas terminada a refrega. foi retirada.

onde Euclides destaca. sob o reverberar dos estios abrasantes... As lendas e os mitos sertanejos. sem transição sensível. denota um reflexo natural a atingir o homem social. 213). p. Ainda assim. ainda. ser o sertanejo um inconstante. a ação do maravilhoso caracteriza-se sempre pelo definir no homem uma posição de fraqueza absoluta” (CC. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias” (OS. o homem do sertão “atravessa a vida entre ciladas. a própria natureza que o rodeia – passiva ante o jogo dos elementos passando. 158 políticos entre a Revolta dos Maragatos e o conflito de Canudos. ibidem). p. se comunicam com o meio e com a psique do homem através do abrupto. se choca com um elemento extraordinário. como se fosse de bronze flexível. p. isto é. Tudo isso. de outra parte. Isto é. surpresas repentinas de uma natureza incompreensível. A antropomorfia dos cavalos com sertanejos e vaqueiros.] reflete. quer-se explicar este “permanente contraste entre extremas manifestações de força e agilidade e longos intervalos de apatia” (OS. Como se estivesse sempre à iminência da tragédia com o meio. no entanto. da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos. Como anota Euclides em sua caderneta. o sertanejo é apresentado como um “campeador medieval desgarrado em nosso tempo” cuja armadura “de um vermelho pardo. para o caso do sertanejo. nesse ambiente de combate existencial e constante do homem com o seu inevitável – a seca – Euclides aproxima. “[n]as lendas e contos sertanejos que não se resumem em narrativas singelas da vida pastoril. da semelhança estabelecida entre os animais e os seus donos. p. sujeito situado nos limites de uma lei natural porque original. a natureza trágica ao homem neurótico. não tem cintilações. da similaridade. “perfeita tradução dos agentes físicos da sua terra”. 291). 214. A psique do sertanejo [. como manifesta na metáfora do cataclismo. todo “[e]ste equipamento do homem e do cavalo talha-se à feição do meio” (ibidem. a imposição da psique igualmente originada da vida dos sertões sobre as sub-raças mestiças. (OS. persuadindo-nos. p. nestas aparências que se contrabatem. como já assinalamos anteriormente. O argumento presente aí da confecção. 215) . desliza para um segundo plano com o argumento da preponderância do meio sobre o homem e. sempre marcados pelo trágico da seca. de uma estação à outra. própria. da violência e da deformação. grifo nosso). na verdade. o qual “teve uma árdua aprendizagem de reveses” (OS. 214). Nessa comparação. 291). Percebe que há entre os dois – tragédia e neurose – uma comunicação maior de comportamento e sinaliza aí um limítrofe da identidade psíquica. p. o autor. e não perde um minuto de tréguas” (CC. É fosca e poenta. não rebrilha ferida pelo Sol. transfigurando-se sempre como um ser indefinido.

Antônio Conselheiro reunia no misticismo doentio todos os erros e superstições que formam o coeficiente de redução da nossa nacionalidade. queremos dizer. É natural. Entendemos a noção de antropomorfia a partir desse princípio de ação. a afim de prevenir e. regula todos os fatos naturais. (OS. amortecia-lhe a nevrose inexplicável placidez. não obstante em comunicação com o seu meio através da história remota de um contato ancestral que remonta à colonização portuguesa. A ideia de atividade aqui pensada para análise é buscada em Hannah Arendt (2007). do delírio de viver juntos mesmo em ambiente ignoto. como vamos examinar na seção a seguir. às vezes. que atua sobre o seu mundo. mas porque o dominavam as aberrações daquele. Em outro momento. A figura é Antônio Conselheiro. discrimina todos os destinos humanos” (CC. em certo ponto. E a sua psique maníaca. “Daí não há deuses. De feito. em que pese as suas deformidades e todos os limites precários da vida sertaneja. Nessa vida de reveses do ambiente sertanejo. mais específico. Obedecia à finalidade irresistível de velhos impulsos ancestrais. O mito reveste a história como uma lei que garante a integração daquela sociedade. e jugulado por ela espelhava em todos os atos a placabilidade de um evangelista incomparável. não há heróis que regulem e debelem os elementos porque o superintendente geral da vida nas alturas absorve todas as funções. 291). p. refletir-se-á em Canudos. uma nova figura a explica. na análise dessa metáfora em Euclides. p. caro a Euclides. Favorecia-o o meio e ele realizava. Arrastava o povo sertanejo não porque o dominasse. O animal é o que permite ao homem sertanejo o princípio. persistir mesmo na adversidade. 284) O natural só o é porque para Euclides ele é inteiro e seco. 159 Todo esse conjunto de seres que se transformam em animais e animais que se transmudam com os seus donos ressalta a linguagem do mito. o absurdo de ser útil. Euclides se refere às presenças míticas no sertão. Espécie de grande homem pelo avesso. . A vida activa como fundação da política é contemplada por Arendt como necessária para que a precariedade do mundo social não derive em destruição e eliminação completa da vida. uma crença isolada em meio físico natural afastado da civilização. e conclui: Estas e outras lendas são ainda correntes no sertão. como vimos. tal como um “agir de concerto”.

241). “[n]ão espanta que [patenteie]. senão uma descrição parcial da “psicologia . determinando a psicologia do homem sertanejo. p. esta determinação é mesmo inevitável e. 242). Euclides associa o surgimento do “misticismo bárbaro” (OS. aliás. o sertanejo é. a “perfeita tradução moral” da natureza. a partir desse sistema semântico ampliado sobre o psiquismo. Euclides da Cunha nos oferece. na respectiva referência ao perfil de uma consciência especial. 160 3. 294). também presente em Haeckel (RICHARDS. as reações do meio.3 “Crenças ambientes”. especialmente.1. No seu argumento. 2009). 315) de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia à força de “estigmas atávicos” que “tiveram entre nós. p. O meio aparece. a partir de uma filosofia da história sob o registro da tragédia.. um filho assentado do chão. favoráveis. na religiosidade indefinida. Como também examinado anteriormente. A relação trágica anteriormente entendida entre o homem e a natureza amplia-se – ou “tresdobra-se”. a metafórica da psique na caracterização da tragédia das secas. Como vimos em seção anterior. “terra da promissão”: Canudos Até aqui o nosso objetivo tem sido o de oferecer contexto discursivo onde as metáforas da psique aparecem como uma das formas de consciência histórica e natural em Os sertões. Assim também era o povoado de Canudos. todavia. na sua indefinição e integração. o relato histórico produzido por Euclides da Cunha traz para a aparência do discurso o aspecto de determinação que o meio físico natural detém sobre a psicologia dos habitantes do sertão. na medida em que inevitável. Diferente. p. como Euclides se referia – com o reforço da psique trágica. Neste sentido. antinomias surpreendentes” (OS. que mimetizava o sertão e “[c]onfundia-se com o próprio chão” (OS. ao contrário. como assinala o nosso autor. de outros povos que tentam se desvencilhar da determinação do meio físico natural. Estamos aqui organizando o quadro anteriormente matizado em torno das metáforas da psique em Os sertões: a metafórica da psique na descrição da complexidade da meio. no vínculo que esse psiquismo se desdobra da fé do chão. e a metafórica da psique na caracterização de um homem em isolamento e como tradução do seu meio. p. o homem do sertão seria..] mais do que qualquer outro está em função imediata da terra”. não uma crítica da fé universal. essa determinação é entrevista por Euclides na singularidade dos homens sertanejos e repetida na singularidade dos seres da natureza (antropomorfos). O nosso trabalho tem sido o de rastrear os elementos que Euclides endossa neste conceito. determinando psicologia especial” (OS. já que o “homem dos sertões [.

alimentando esperanças singulares” (ibidem. 290) “Canudos era o cosmos” (OS. 161 especial” montada a partir da “degenerescência intelectual”. como o cataclismo. Entretanto. mas também perversa e alucinada. da fé no chão do sertanejo: Ilhados no deserto. Conselheiro aparece como um inconseqüente naquele ambiente. de tudo [quanto] aparece inacessível à ação humana. como evidência histórica e resultado da psicose coletiva do isolamento dos sertões. é violenta. Sendo. p. o surgimento de Canudos é “repugnante. irá se repetir na análise dos outros líderes da República – Euclides se distancia da determinação dos efeitos do meio sobre a psique para indicar um “desvio ideativo” que seria. que se transmudam completa e reciprocamente. quase. advém da sua possibilidade de escape do misticismo bárbaro. p. retorna para a metáfora da psique. surge das profundezas. ainda que imprecisa. 132- 134 passim). mas também pela sua dimensão psíquica que se assevera em sua própria sentença. Importante ressaltar que o autor assinala. da inevitabilidade da seca que violenta o sertanejo e a natureza. Particularmente nesse ataque ao líder – o que veremos. Conselheiro uma “imagem corretíssima” das “camadas profundas da nossa estratificação étnica” (OS. Essa psique vai se definindo. muitos. p. Euclides situa e destoa o líder religioso do ambiente que o cristalizou. do “misticismo feroz e extravagante” de Antônio Conselheiro. aterrador. uma metonímia para a formatação de uma ideologia autoritária no sertão. o autor organiza referências de um universo psíquico de onde será erguido e se possa compreender a loucura acontecida daqueles homens do sertão. sem consciência social e histórica. “desvio ideativo”. (CC. Monta-se o quadro histórico em que o desvio ideativo de Conselheiro será observado como índice da religiosidade mestiça. Na observação de Euclides. como depreendemos de Euclides. a pressão do incognoscível. reação natural embora violenta sobre o seu meio. chance que no entanto fora inutilizada pelo beato. na sua construção dessa hipótese. desarmados ante a terra que mal dominam numa indústria rudimentar as suas superstições traduzem logicamente além de todo o legado de erros que receberam. lá tinham ido. identificado como atávico a partir do efeito de uma crença capaz de liderar porém que é ilógica. O pressuposto euclidiano é o de que a loucura não deveria excluir o social sobre aquela socialidade natural já . a partir da tragédia da natureza. horrendo. não apenas por seu isolamento geográfico. Crença que. identificando na psicose de Conselheiro a reflexão do meio como imagem de uma “psicologia especial”. o aspecto de degenerescência da psique de Conselheiro. Dessa forma. ainda. ibidem). A posição ambígua de Conselheiro. 299). Mesmo assim. refletindo-lhes ante e[sic] e inteligência inculta ao em vez da ordem natural o capricho de um de Deus.

grifo do autor) Assim. paranoica. 300. perverte o social. em certo momento. informa que Canudos não é puramente o chão. expressões euclidianas para caracterizar Canudos. Este desprendimento levado às últimas conseqüências. p. Canudos aparece como imagem da psicologia de luta. Euclides. Novamente. que desatenta .. Viam-se bem. entendendo-se o paranoico no sentido de uma relação psíquica do homem com o meio. o fim do mundo. em que consiste a fé de Canudos? Quais são as suas esperanças? O profeta [Conselheiro] ensinara-lhes a temer o pecado mortal do bem-estar mais breve. tema patológico pela grandeza com que aqueles homens. em tentar melhor definir as descrições das “crenças ambientes” e da “terra de promissão”. para ser destruído. a “bravura instintiva do sertanejo” (OS. Em Canudos. (OS. Demandavam o deserto” (OS. mas o apocalipse. em certa medida. o meio é o que parece explicar a psique. longamente apuradas na existência patriarcal dos sertões. o homem sertanejo possuía reais motivos para ser fiel ao outro mundo). que os seguidores de Conselheiro não “procuravam mais os povoados como dantes. 287). 258). eram venturosos na medida das provações sofridas. Canudos se funda nessa religiosidade. sem heróis. chegava a despi-los das belas qualidade morais. por enquanto. justificado pelas suas origens (afinal. adulterada do seu sentido primordial natural. A tentativa de enobrecer a existência na terra implicava de certo modo a indiferença pela felicidade sobrenatural iminente. reclamando não mais a tragédia natural quer realimenta o clico da seca. Para Antonio Conselheiro – e neste ponto ele ainda copia velhos modelos históricos – a virtude era como que o reflexo superior da vaidade. ainda se valendo do argumento da religião mestiça. podemos nos perguntar em que medida a migração de Canudos não assinala um traço de similaridade invertida com relação à “civilização de empréstimo” do litoral? Esta reflexão não será respondida de uma só vez mas ao longo do nosso texto. o olvido do além maravilhoso anelado. O psiquismo de Canudos logo se torna.. p. p. a perícia combativa dos sertanejos. porém transtornada. mas a fé que move os homens para o seu lugar no sertão. a peregrinação inconsciente – na busca de herói que lhes era negado – teria atingido um tal nível de arrebatamento. por este motivo suicida. ainda. O seu senso moral deprimido só compreendia a posse deste pelo contraste das agruras suportadas. Entretanto. De todas as páginas de catecismos que soletrar ficara-lhe preceito único: Bem-aventurados os que sofrem. Subverte porque se torna evidência regressiva. 162 assinalada por nós em páginas anteriores. Uma quase impiedade. Neste sentido. vendo-se em andrajos. quiseram construir com isso um Império. ao aceitarem a sua limitação no mundo. transtorna. Voluntários da miséria e da dor. Vamos nos deter. Mas a loucura. Euclides condena o artifício introduzido. Por isso. neste caso de Canudos. um novo mundo. é apontada por Euclides como criminosa na medida em que subverte a própria precariedade do mundo de onde ela emerge. Esta bravura.

253) dos sertões. Nesse encadeamento descritivo. mas profundamente adulterada (inconsciente) e uma história trágica concretizada. Ali. Isto é. Esta inércia será mais tarde recobrada por nós para explicar a inconsciência do sertanejo e a metáfora de efeito político cifrada na descrição de Canudos. é entendida inserida no meio e o meio. Euclides tece explicação sobre o misticismo extravagante dos sertanejos. porém. apresenta uma personalidade psíquica a indicar uma existência complexa e violenta do mundo do sertão precário. resulta. transtornado. as tendências pessoais como que se acolchetam às vicissitudes externas e deste entrelaçamento resulta. para Euclides. degenerado. o autor quer explicar por que a “alma de um matuto é inerte ante as influências que a agitam” já que “de acordo com estas [influências] pode ir da extrema brutalidade ao máximo devotamento”. no seu referente. neste sentido. que Da consciência da fraqueza para os debelar. a bem dizer exclusiva. no entanto. Essa vibração étnica. “[e]m seu desvio ideativo vibrou sempre. 163 aqueles homens a indicar que o que eles estavam demandando era a submissão e morte em função da loucura de um rei maníaco. a partir de “uma religiosidade indefinida” de “antinomias surpreendentes”. A descrição da formação psíquica de Conselheiro é. Ou seja. p. Como seres inconscientes de si porque abatia sobre eles uma violência da mestiçagem. assimila a loucura do beato. a indiferença fatalista pelo futuro e a exaltação religiosa. A raça. copiando o contraste que observamos entre exaltação impulsiva e a apatia enervadora da atividade. operando ainda como algo evasivo. não um centauro mas um “gnóstico bronco”. indemonstrável. Em paragens mais benéficas a necessidade de uma tutela sobrenatural não seria tão imperiosa. de exílio fixo na terra. a nota étnica” (OS. a similaridade e a repetição das figuras doentias se amontoam. mas não nos desviemos. de conflito enganoso sobre o sagrado. já . mais forte. 241) A atividade é uma metáfora importante para esse momento discursivo. (OS. como era descrito Conselheiro. este apelar constante para o maravilhoso. tem a sua identidade refletida na singularidade trágica do meio físico natural o que. contundente e definidora sobre a psicologia especial dos sertões. mas louco. O importante por ora é demarcar a metáfora que descreve a feição do homem ao meio. por conseguinte. como vimos. Euclides a resgata da psicologia do sertanejo que. Ao imperativo trágico da natureza corresponde aqui uma psique não mais natural. pois é por expressões contrastantes de ócio e de enfrentamento que o autor buscará argumentos para compreender o apego religioso do sertanejo canudense ao líder beato. p. o crime deles seria exatamente estender cumplicidade com Conselheiro. não mais sábio como os humildes. esta condição inferior de pupilo estúpido da divindade. Aquela inconsciência. Para a descrição de Canudos e do seu líder em Os sertões. tem sua derivação a partir do absurdo de um cataclismo.

isto é. que para o nosso autor é um estágio da vida mental onde se encontraria a fé da civilização. para melhor examinar este argumento. por bem dizer. Essa feição é apresentada pela comparação com a civilização. determinada pelo seu líder paranóico. para entender a psique dos sertanejos adulterada não pelo meio. a tragédia. mas ao mesmo tempo. Insulado deste modo no país que não o conhece. O sertanejo. que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária. povoado que embora demandado pelo chão. devido ao seu desafeto a condições mais elevadas de vida. em que se rebate o fetichismo do índio e do africano” (OS. têm uma existência mítica. “[e]stá na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido. profetizando o seu fim pelo fim de tudo. ainda capacidade orgânica para se afeiçoar a situação mais alta. . Canudos. que. Canudos desvirtuava a consciência natural que lhe dera origem e profusão. mas por um líder psicótico. p. O argumento mítico. os sertanejos canudenses demonstravam assim uma feição bastante desprezada por Euclides. p. em realidade desligava o homem da sua realidade natural anterior e imediata. os sertanejos necessitavam de outro recurso para fazê-los evoluir socialmente que não a paranóia de Conselheiro. Recuperemos aqui. (OS. Esta psicologia sertaneja é aparelhada junto ao fetichismo das religiões primitivas. no pólo oposto desse estágio. Uma análise destas revelaria a fusão de estádios emocionais distintos” (OS. resultado da complexidade da colonização portuguesa. em luta aberta com o meio. O círculo estreito da atividade remorou-lhe o aperfeiçoamento psíquico. 238). quando o autor expressa o fim de Canudos como um “desvio ideativo” de Antônio Conselheiro. o sertanejo não tem. quando Euclides o coloca como a sentença de morte de Canudos. crédulo. Despreparado para os efeitos psíquicos de um homem à altura de Conselheiro. evidenciada por negativa àquilo que não comove o homem do sertão. p. eivado de misticismo extravagante. que se valia da sua “degenerescência intelectual”. inicialmente sugerindo uma deformação do natural. 237-238) Como “almas ingênuas”. 164 trabalhada com as plantas sociais. sob o registro da influência do meio e dos seus mitos. deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas. 238). audacioso e forte. ou seja. passa a ser também uma deformidade do social. como Euclides sugere. símile parcial de Conselheiro. aparece como terra de promissão do sertão. A mentalidade atrasada do sertanejo seria. como vimos. Na medida em que retirava o precário do mundo. da sua pervertida consciência justamente para efetuar a dominação dos irmãos. nômade ou mal fixo à terra. Assim conclui Euclides que o sertanejo “[é] o homem primitivo. a metáfora da psique como “psicologia especial”.

para então voltar-se para o universo da luta e dos conflitos entre os humanos.. isto é. um resumo dos caracteres físicos e fisiológicos das raças de que surge. pois admite uma similaridade entre elementos externos e ambientais com outros internos subjetivos na definição de uma mentalidade que. o argumento conceitual psiquista se vale de elementos já repassados. da formação de uma “psicologia especial” nos sertões. Dessa forma. se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. destacando que mesmo no indefinido do sertão haveria esta “força motriz da História”. ambientada com as metáforas do meio natural e das lagoas mortas. O psiquismo parece encontrar. vale-se de argumentos que constroem impressionantes metáforas do ambiente. Nesta seqüência discursiva. como a impingir uma variante política sobre aquela psique. a figura de Conselheiro surge exatamente “das camadas profundas da nossa estratificação étnica”.. Pois. 165 O distinto aqui se refere ao atavismo (aristocrático) de Conselheiro que junto à ingenuidade dos sertanejos deforma e aprisiona a consciência que anteriormente era criativa e espontânea na relação com o meio. sobre o próprio meio de onde haviam partido. O temperamento mais impressionável apenas fê-lo absorver as crenças ambientes. para entrar na fé e na sua crítica ao misticismo de Canudos. a partir desse ponto. do fetichismo bárbaro às aberrações católicas. sumaria-lhes identicamente as qualidades morais” (OS. como identidade psíquica. p. sem o seu líder. livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja. “a religião mestiça [. mais fortemente. sem perder totalmente de vista que toda essa “transição mesológica” em nada descura o suposto de que a ecologia. Ele foi. a princípio numa quase passividade pela própria receptividade mórbida do espírito torturado de reveses. Todas as crenças ingênuas. na seção do livro dedicada ao conflito armado em Canudos (“A Luta”). O psiquismo de Euclides. psiquismo e mestiçagem como variantes fundamentais para se compreender o fenômeno de Canudos. o elemento ativa e passivo ad agitação de que surgiu. a vida psíquica do homem sertanejo seria antes de tudo contemplativa. todas as tendências impulsivas das raças inferiores. pelas plantas e pela psique do sertanejo lendário. a partir do último capítulo da segunda parte (“O homem”) e sobretudo da terceira parte do seu livro (“A luta”). o psiquismo se desloca sutilmente da natureza para o sintomático. 252-253) A religião delirante confirma a ideia de que. .]. é também definidora da psicologia sertaneja. do misticismo para a patologia do líder religioso sertanejo. simultaneamente. embora mestiça. p. Contudo. (OS. o seu paroxismo conceitual. e elas refluíram depois. para então serem catalisados em Antônio Conselheiro e na oposição à República. a princípio. Euclides parece se inclinar a entender religião. partindo da sua consciência delirante. 238).

Desse modo. pois. líder somático de uma “nevrose coletiva” que se espalhou naquela sociedade esquecida dos sertões. a sua “anticlinal extraordinária” observada por Euclides ganha por fim o seu nome. em que as leias eram o arbítrio do chefe e a justiça as suas decisões irrevogáveis. encerrá-lo no líder religioso. ele “[n]ão era um incompreendido”. p. Nesse sentido. Ainda sobre esse ponto. porém. Na falta da irmandade do sangue. 166 deveria ter inicialmente recusado a “consciência delirante”. mas que mesmo em sua não- recusa. A consciência natural é substituída pela inconsciência política e subjetivamente delirante. a população tinha. Conflito que se é da República contra Canudos. Os sertões e o seu respectivo meio físico natural vão assumindo a forma humanizada do líder religioso de Canudos. mas pela degenerescência do misticismo bárbaro e do poder à submissão ao seu líder. Junto ao meio que originou aquele líder. mas determinado por um evento histórico. Conselheiro . a consangüinidade moral dera-lhe a forma exata de um clã. p. apesar do “próprio excesso de subjetivismo” que se relaciona à biografia do líder missionário de Canudos. mas desta vez não pela configuração do caractere combativo. Euclides se detém sobre o líder. “A luta”. o autor associa à figura messiânica de Antônio Conselheiro a espiritualidade altiva de uma conduta de fé coletiva e o impacta. 291) Na descrição de Conselheiro como “um documento raro de atavismo”. a “multidão aclamava-o representante natural das suas aspirações mais altas” (OS. com a imagem de um “gnóstico bronco”. ainda que o circundasse o cenário de “nevrose coletiva”. Jugulada pelo seu prestígio. da maldade criativa porque natural do cataclismo. grifo nosso). engravescidas. não mais simplesmente natural. Pelo contrário. alega Euclides. retenhamos que o meio é atualizado na psicologia do homem sertanejo. todas as condições do estádio social inferior. por fim. sopesando agora a figura de Conselheiro na repetição da tragédia e da simbiose entre o homem aventureiro e o meio físico natural. Canudos estereotipava o facies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros. (OS. Se a multidão respondia ao meio. de onde depreende-se algum sentido sobre o porquê de pensar derivar da empresa portuguesa da colonização o traço que excedeu e demarcou a gnose de Conselheiro. Não seria absurdo entender que Euclides dedica a Conselheiro o cerne do argumento de seu livro. Já que. 253. a psique do sertanejo havia sido estimulada pelo delírio. como um exemplo bárbaro das associações extravagantes na história. pelo menos a partir da sua metade. Euclides reforça o seu argumento psiquista para. é igualmente da consciência natural debatendo-se contra a sua extinção. Conselheiro se elevava desse meio.

traduz-se fundamentalmente como uma regressão ao estádio mental dos tipos ancestrais da espécie. recuando no tempo. (OS. (OS. Conselheiro foi uma “anticlinal extraordinária” da raça. 253) No fácies do meio. Nina . segundo Nina Rodrigues informa. e alterando-lhes as relações com o mundo exterior. O que o primeiro caracterizaria como caso franco de delírio sistematizado. fixando uma fase remota da evolução. nódulos de artificialidade sobre a naturalidade singular da psicologia sertaneja. a assinalar. o caso de Conselheiro não era para a medicina. o mito do sebastianismo que. a partir daqui. embora explicados histórica e sociologicamente. não obstante a sua reconhecida nota trágica. p. na palavra e no gesto. O problema maior era justamente que a presença desses artifícios. Para Euclides. 254) Esses atributos advinham da presença. a tranqüilidade. A constituição mórbida [de Conselheiro] levando-o a interpretar caprichosamente as condições objetivas. a revivescência de atributos psíquicos remotíssimos. 167 Não deslizou para a demência. marcando logicamente certo nível da mentalidade humana. o segundo indicaria como fenômeno de incompatibilidade com as exigências superiores da civilização – um anacronismo palmar. certa ordem no próprio desvario. República e Portugal configuram. No gravitar contínuo para o mínimo de uma curva. mas para o historiador ou para o antropólogo. de sorte que ao atravessar. uma razão artificial sobre aquele ambiente natural anteriormente por nós examinados a partir do que é descrito em Euclides. uma involução trágica da história. o sertão alvorotado. ameaçando-a de extinção. 254) A ancestralidade repousa em seu argumento o atavismo. l1argos anos. como vimos. Conselheiro. aqui também. p. para o completo obscurecimento da razão. Conselheiro deturpou. o meio reagindo por sua vez amparou-o. Evitada a intrusão dispensável de um médico. a altitude e a resignação soberana de um apóstolo antigo. Neste sentido. por meio da sua mente paranóica. na fase persecutória ou de grandezas. em especial. demoviam por outro lado uma outra história natural profunda e singular. tinha na atitude. o instintivo sertanejo. um antropologista encontrá-lo-ia normal. na personalidade do seu líder beato. nas praticas ascéticas. foi herdado de “abusões extravagantes” perdidos e reformulados agora no interior do país. Conselheiro é. a degenerescência de Conselheiro. corrigindo-o. todavia resistente. coerência indestrutível em todos os atos e disciplina rara em todas as paixões. do sebastianismo nos sertões. (OS. donde surge o resumo e a extravagância de Canudos. o índice de um degenerado inopinadamente sobressaído entre os retrógados primitivos. fazendo-o estabelecer encadeamento nunca destruído nas mais exageradas concepções. p.

mais uma vez. Assim. da atividade que assumiam anterior à chegada da seca. altera o seu juízo a respeito de Conselheiro após examinar o seu crânio e notar que não havia ali nenhum sinal de deformidade. entretanto. uma vez que ambos expressam uma identidade psíquica. Não entremos agora neste argumento. na luta entre iguais. um caso específico de psicose. p. destacado e marca “o prelúdio da sua desgraça” (OS. Euclides oferece um argumento para a sobrevivência de caracteres coloniais. Tragédia que. Então se transfigura. encara de fito a fatalidade incoercível. s/d. aquela referência da atividade apresentada anteriormente para reorientarmos neste momento o nosso argumento. O começar da seca para os seres do sertões é. O importante ainda aqui é observar as referências psiquistas na descrição realizada em Os sertões. Não há revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém descreve – a insurreição da terra contra o homem. nessa luta invertida da terra contra o homem. transmudam-se. Não é mais o indolente incorrigível ou o impulsivo violento. No caso do sertanejo. 151) A psicologia deixa de ser atributo de um indivíduo para ser tomada como hipótese de um contexto social e histórico. na psique do sertanejo. o jagunço e os sertanejos. Luta de outros índices que. também. atuam sobre o que lhes abate. para todo o sempre perdidas. não é menos teórica e metafórica do que empírica. como vimos na primeira seção deste capítulo. luta de semelhantes. p. agora. “[r]enasce-lhe com ela a energia. uma “psicologia especial”. de fato. tornam-se figuras lendárias. e reage. (OS. O seu primeiro amparo é a fé religiosa. (RODRIGUES. p. diante dessa fatalidade. O heroísmo tem nos sertões. Transcende a sua situação rudimentar. vivendo às disparadas pelos arrastadores. com a placabilidade superior dos fortes. os seres psíquicos do sertão. no entanto. Pela atividade. centauros. é o que determinaria a psicologia de luta do sertanejo. Pois se “[a] seca é inevitável” (OS. 231). a fé do chão. olhos postos na altura. p. O que motiva o trágico. remotos. tragédias espantosas. segue tendo as suas causas ocultas. 168 Rodrigues. 233) Ao que resulta. A princípio este reza. Resignado e tenaz. Recuperemos. cavalheiros. aqui entendida como metáfora da filosofia da história sertaneja. Ainda não se considera . fazendo-se a partir dessa luta seres conscientes. vêm a se reproduzirem em Conselheiro. Alguma coisa mais do que a simples loucura de um homem era necessária para este resultado e essa alguma coisa é a psicologia da época e do meio em que a loucura de Antonio Conselheiro achou combustível para atear o incêndio de uma verdadeira epidemia versânica. 232). O motivo dessa sobrevivência novamente parece derivar de um só lugar: a tragédia da seca. dedicado para o próximo capítulo. A fé sertaneja nasce dessa luta “da terra contra o homem”. se distanciam do que eram e se transformam.

Por quê? Euclides restaura sua explicação a partir de um dado oculto. A circularidade desse episódio da vida sertaneja demonstra. dois dias passados. Este. A redenção contudo não caracteriza o fim da história. os mangarás das bromélias selvagens. e outras vezes. Escapando da terrível luta contra a seca. murmurando às mesmas horas as preces costumeiras. para as serras distantes. após enormes fadigas. quando o “sol fulmina a terra [e] progride o [seu] espasmo assombrador” e a existência se achata. Ei-lo de volta. uma determinada ubiqüidade entre o sertanejo e a seca. introduz o atavismo pelo insulamento onde o “bom senso e a insânia” não são pares. e lá se vai ele no êxodo penosíssimo para a costa. Quando então “[p]or fim tudo se esgota e a situação não muda. No caso do enfrentamento. Apresentando a sempre possível derrota. em cata do tesouro fugitivo. deixando já ressaltar aqui o nome de Antônio Conselheiro. Atinge-o às vezes. também a partir do argumento do misticismo nos sertões. para quaisquer lugares onde o não mate o elemento primordial da vida” (OS. Restam-lhe. o sertanejo bate em retirada com outros bandos. Contudo. reprofundando a mina. p. p. que se agrupam sobre fundagens das ipueiras. Novamente. para desalterar e sustentar os filhos. [. dobra-se afinal” (OS. pois. o vê desaparecer um. feito um desenterrado. no entanto. o que é mais coerente. Vence-o saudade do sertão. 233-234) O precário. o chão da seca o devora. Quando o meio não lhe liquida. na metáfora fornecida por Euclides. Euclides introduz a história do desterro. outras. sem duvidar da Providência que o esmaga. Salva-se” (ibidem. neste caso.. pescoços dobrados. “É o sertão que se esvazia. Volve. esbarra em um lajem que lhe anula todo o esforço despendido. evaporando-se sugado pelo solo. 237).e sem que se lhe amorteça a crença.] assoberbado de reveses. ao longe. buscando nos estratos inferiores a água que fugiu da superfície. . ou. por fim. a levarmos a metáfora mais à fundo. ibidem). a imagem do cataclismo parece retornar aqui. ainda não é um ensinamento. apresta-se ao sacrifício. exausto.. em grupos erradios e lentos. acaroados com o chão. os bandos “vão caminho em fora. Na verdade. depois de desvendar tênue lençol líquido subterrâneo. Acompanha-o tenazmente. o ser deriva na realidade dessa violência do precário. Arremete de alvião e enxada com a terra. Ilude-os com essas iguais bárbaras” (OS. p. 237). como um ritual antropofágico. Nesse quadro de exílio. o que se faz com a vida no sertão? O matuto considera a prole apavorada. “acaba-se o flagelo. p. à beira da própria cova que abriu. “paranóico . novamente. a fé do chão. Remigra” (OS. 236). contempla entristecido os bois sucumbidos. dos vencidos em retirada. o trágico e o natural parecem definir a subjetividade de uma consciência do ser do sertão. em mugidos prantivos ‘farejando água’. p. Não há probabilidades sequer de chuvas” e a seca persiste justamente. por fim. o homem sertanejo regressa para o sertão a despeito de todo o seu sofrimento físico e psíquico sentido. os talos tenros. 169 vencido. debruando de ossadas as veredas. (OS. 237). dramatiza: “[a]tinge-os. Ao que.

a antropomorfia do meio e expressa o “sentimento ambiente” (ibidem. criando uma psicologia doente. p. O argumento da degenerescência. para a descrição do conflito de Canudos. O que sinalizaria o seu emprego para a psique de Conselheiro. como opina Euclides. “grande homem pelo avesso” (ibidem. que supostamente o faz querer erguer Canudos. De sorte que o espírito predisposto para a rebeldia franca contra a ordem natural. numa harmonia salvadora. A loucura se alastra no ambiente que. psicótica. afinal ali “o mal era antigo” (OS.. caracterizando-lhe o temperamento vesânico [. num desfecho infeliz sobre aquela anterior naturalidade. cedeu à única reação de que era passível. como veremos em capítulo seguinte.. A partir desse misticismo sertanejo. ibidem) do misticismo bárbaro dos sertões. este fortaleceu-o” (OS. Cristalizou num ambiente propício de erros e superstições comuns. 170 indiferente” (OS. como os facínoras de um interior malsinado pela sua própria opulência. na sublevação de Conselheiro. nas bordas do conflito. p. Encaminha. a paranoia contra a República distingue Conselheiro e é esta paranoia. um cataclismo semelhante àquele que convulsiona a natureza e a faz se associar com o semelhante. a psique especulada se volta contra o próprio sertanejo. história de todos conhecida. que [. 331). aquela concepção aventureira da natureza em direção ao seu fim trágico. Ainda. 256. limitou-a sem a comprimir. Ao contrário.] sem precisarem despertar pela cultura as energias de um solo em que não se fixam e atravessam na faina desnorteada de faiscadores. Nesse sentido. Conselheiro especula a psique formada pela ecologia das plantas.] não o isolou – incompreendido. retrógado. (OS. em certa medida. Recupera tipos esquecidos. ibidem). “é. corresponde a ela. na psique sertaneja. na medida em que. p.. mas ele se alastra para o social do sertão. em um sinal contrário a todo o psiquismo restrito de “visão curta” do qual polemizava Silvio Romero. desequilibrado. 256-257) A mente paranoica de Conselheiro ativa. Não deve passar desapercebido o fato de Euclides inserir esse argumento no momento em que seu discurso adentra nos detalhes e profundezas da descrição de Canudos.. a “regressão ideativa que patenteou-o. conservaram na ociosidade . 255). como vimos antes. “representante natural do meio em que nasceu”. 256). segundo Euclides. rebelde – no meio em que agiu. um caso de notável degenerescência intelectual” (OS. Cataclismo que se supõe bastante real: a República. p. que cultivara a psicose mística do indivíduo. grifo nosso). A degenerescência. Como o designara em seção específica de Os sertões. p. em Conselheiro O fator sociológico. certo. um homem do sertão? A resposta a essa questão é apenas mais trágica. era atributo da civilização. poderia ser exclusivo a Conselheiro.

332. a transição psíquica do sertanejo também se revoluciona. No próximo capítulo partiremos para análise da metáfora de Canudos como crime da consciência. intactas. de igual tom.. “Canudos era uma tapera dentro de um furna. cingido de montanhas. Em realidade. nosso narrador recorre novamente ao meio físico natural. para desdobrar elementos psíquicos a partir da antecipação da morte que sintetiza a crença sertaneja. descrita por Euclides em genealogias dos tipos sociais. 292).” (OS. valeria agora encerrar este capítulo introduzindo o argumento de Euclides sobre aquele povoado. a pouco e pouco. saqueador da terra. a promessa do novo mundo comprometeu para todo o sempre aquele ambiente e o seu homem. p. [Conselheiro] escolhera precisamente o trecho que recorda uma vala comum enorme. numa noite. “lugar sagrado. pela só justaposição mecânica de levas sucessivas. [. O mandão político substituiu o capangueiro decaído. pela sua soberba de realidade. sobre o ambiente psicótico. p. O jagunço. como fotografia.. 297-298.. 292) . p. sem órgãos e sem funções especializadas. onde não penetraria a ação do governo maldito” (OS. É natural que absorvesse. aquela população que crescia ao redor de Conselheiro. contudo. à maneira de um polipeiro humano. E como. Euclides altera o seu tom sobre a narrativa. todas as tendências do homem extraordinário do qual a aparência protéica – de santo exilado na terra. 308). por não ser natural. A transição é antes de tudo um belo caso de reação mesológica. assim como era a natureza a evidência da tragédia da seca dos sertões e da sina do seu homem. 292). p. crescendo sem evolver. (OS. por uma multidão de loucos” afinal “[a]quilo se fazia a esmo. já em sua cartografia o retrato da sua tragédia. p. de fetiche de carne e osso e de bonzo claudicante – estava adrede talhada para reviver os estigmas degenerativos de três raças. p. p. 290). exatamente. (OS. 171 turbulenta a índole aventureira dos avós. febrilmente. grifo nosso). indica um referente social estranho descurado do referente natural que colocou em ameaça a República. saqueador de cidades. Canudos era. E para descrever essa patologia que. sob o impacto de uma transição mesológica que ressoa. se foram exaurindo os cascalhos e afundando os veeiros.] Naquela região belíssima. comprometido com a fé do chão. grifo do autor) Uma genealogia dos tipos sociais é montada aí. acrescentando agora o patológico a deturpar o natural psicológico. em que as linhas de cumeadas se rebatem no plano alto dos tabuleiros.. sobre metáforas mais peculiares de uma doença.. antigos fazedores de desertos. sucedeu ao garimpeiro. [. adoudadamente” (OS.. Como se o povoado de Canudos tivesse sido “construído. mas também “imunda ante-sala do paraíso” (OS. Na medida em que ocorre a transição mesológica de Canudos. “decrepitude da raça” (OS. contudo.] massa inconsciente e bruta. o banditismo franco impôs-se-lhe como derivativo a vida desmandada. Na substituição de laços naturais por involução.

menos distante do que o sertão. nem é preciso trabalhar. na verdade. 308) Esta presença marcante da geografia no argumento do livro de Euclides sugere a relação estendida – reflexão – que o homem sertanejo detinha com o meio físico natural. alimentando esperanças singulares” (OS. que era correspondida paradoxalmente com bravura e construção. Apresentamos. Os aliciadores da seita se ocupam de que todo aquele que se quiser salvar precisa vir para Canudos. nas próximas seções nos ocuparemos destes aspectos assinalados no seu texto e o modo como o discurso social opera sobre eles. De modo que. A natureza. não se comporta de maneira natural. o argumento que revela como o meio.. 172 Conselheiro é resgatado como emblema patológico para explicar a chegada da sociologia sobre o mundo natural da socialidade sertaneja. informe e brutal. como se tentasse objetivar. ao que é correspondido através de uma promessa de salvação: o fim do mundo próximo. A metáfora que permite essa nova semântica é justamente a do psiquismo. comporta-se como uma instituição que agrega o homem sertanejo como parte natural do seu meio. A salvação não se mostra. Conforme relatório do Frei João Evangelista do Monte Marciano. sem regras. seguida pelo desencanto que é a morte da magia (PIERUCCI. porque nos outros lugares tudo está contaminado e perdido pela República. a fé no novo que virá. feito a testada de um hipogeu desenterrado. Ela se apresentava. neste Templo Novo [. Ali. de estilo indecifrável. isto é. é a terra da promissão. 308). Segundo descrição de Euclides. mascarada de frisos grosseiros e volutas impossíveis cabriolando num delírio curvas incorretas. Todavia. neste caso. aquela fachada estupenda. Em Conselheiro se conflagra o mais grave da tragédia da seca. (OS. rasgadas de ogivas horrorosas. a civilização. muitos.. Na . 307) Canudos parece despertar a reflexão de Euclides para o aspecto mais aparente da sua situação com a República: a frustração. esburacada de troneiras. em Canudos. sem proporções. para o sertanejo. projetado pelo próprio Conselheiro. 2003). Para conjecturar este sentido político e social foi preciso apresentar o contraste que haveria entre os seres do sertão e os litorâneos. em Euclides. em função justamente da sua consciência naturalmente trágica voltada para a terra. pensamos é que deriva justamente da história natural de Euclides a filosofia que possibilita visualizar o sertanejo em seu mundo singular. p. a própria desordem do espírito delirante. onde corre um rio de leite e são de cuscuz de milho as barrancas.] levantava. p. sem módulos. pela promessa de finitude. através da similaridade psíquica entre os litorâneos e os sertanejos. p. (OS. a pedra e cal. vívida para o levante. mas institucional. porém. feito o Templo Novo de Canudos. antes disso. Para “lá tinham ido. como metáfora de uma história desejada para regular o seu outro.

de acomodação e de conservação. . podemos passar agora para um exame dos elementos políticos existentes e que enlaçam o ensinamento histórico do conflito de Canudos. Uma vez que descrevemos em pormenor as principais figuras do psiquismo euclidiano. o que seria mais surpreendente no caso de Euclides. 173 medida em que mobiliza as produções da linguagem para efeito de inteligência e de intervenção ou. o discurso social se referencia a uma referência de sociedade.

Além disso. o que denota para este homem uma história natural que o diferencia. sobre os fenômenos da natureza. sobre a figura de Conselheiro e do seu respectivo povoado no interior da Bahia. sobre as lendas e os mitos. como é recorrente em Euclides. foi possível notar. tema do livro de Euclides por nós delineado nos capítulos anteriores. em conexão com o seu pressuposto de conhecimento da história. p. em seu princípio assumiria no sertão o tom de uma autêntica cumplicidade. logo a dizer. a descrição feita no seu relato não procura demarcar limites entre as suas hipóteses e a sua posição de observador: na medida em que reclama a história dos tipos sertanejos evanescentes e das suas agitações. como a convivência de todos esses fatores permitiu que no sertão surgisse a figura do beato Conselheiro. apreendida por Euclides por meio de metáforas psiquistas lançadas sobre a geologia. em relação à história de “empréstimos” dos “singularíssimos da civilização”. todavia. Sinalizamos. como explicamos também. relação ademais que. Os sertões. de uma similaridade entre o meio físico natural e o homem. Vimos que o psiquismo euclidiano relaciona-se a esta hipótese. do Maranhão à Bahia. Neste gesto de . Essa naturalidade humana é. Tendo em vista a posição ocupada por Conselheiro e do seu séquito na construção do argumento euclidiano – na medida em que “as agitações sertanejas. neste sentido. p. nossa tarefa neste capítulo será a de aprofundar aquele último enfoque analisado em seção anterior. por fim. Feitas essas recordações. bem como sobre o sítio geográfico sertanejo e o seu respectivo perfil na psique de Conselheiro. não tiveram ainda um historiador” (OS. 174 4. Nosso objetivo neste capítulo será o de explicitar em melhores termos o sentido histórico do conflito. 243). que. na apresentação desse argumento. que o homem do sertão também se altera ao ritmo da natureza. na esperada tradução apoiada no suporte de uma perspectiva auxiliada por uma filosofia da história. denega-as sob o argumento de que “não as esboçaremos sequer” (OS. inclusive fazendo os desertos (como ator da sua tragédia). BESTIÁRIO No capítulo anterior a nossa análise caminhou concentrada sobre o texto de Euclides da Cunha. sublevada “numa anticlinal extraordinária” do complexo de “crenças ambientes”. Trata-se. 243) – vamos nos deter sobre como o nosso autor equacionou o problema da religiosidade e da raça. na esperança de tentar reter da sua leitura minuciosa as descrições e metáforas através das quais a observação da psique é solicitada a fim de obter a “tradução moral” do sertão em seu homem e na sua respectiva aparência precária e trágica da vida singular observada ali no seu ambiente.

passim) Também parece concordar com o crítico a antropóloga Regina Abreu. Situado em uma tradição intelectual que tinha em vista historiar regiões apagadas e suas culturas esquecidas. Em que pese a pertinência de ambas as alegações historiográficas sobre Euclides. Neste sentido. Euclides opera pelo aleatório como exemplo do que é comum. inicialmente de princípio dominante. desde a segunda metade do século passado. inteiramente voltada para o jogo de alternância entre iluminações utópicas e depressões antiutópicas dessa poética das ruínas. nossa intenção ficará válida se ao menos soubermos iluminar os caminhos pelos quais a escrita da história euclidiana se legitima. Sua narrativa histórica vale-se desse efeito discursivo. o autor de Os sertões afirma se posicionar como observador de um mundo em vias de extinção. e. do interior do Estado nacional. 2010).. Estamos aqui tentando trazer referências para entender essas variantes. em . 175 não-entrega. de fato. ao seu ver. de alguns de nossos melhores prosadores. O interessante dessa perspectiva não é nosso. Ainda que não se garanta chegarmos a termo com o objetivo proposto. como um narrador de ruínas. Introduzimos uma dúvida. dessa perspectiva sobre Os sertões. Hardman é quem nos diz: Euclides [. (HARDMAN. 1992. sobre se os motivos historiográficos euclidianos se configuravam. como método de leitura. p. p. esteve. colecionador do outro (1998. Toda uma tradição historiográfica e memorialístico-ficcional. como ele próprio já nos advertira. 1996. de fato. dentro do sertão. bem como o que poderia ser o tema geral no argumento do livro em análise e em como ele opera. que se vale desses esquecimentos para se tornar mais sincera. assim. pode ser buscado no seminal estudo de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1965) acerca do messianismo no Brasil. o narrador inclui uma série de operativos na sua narrativa de modo a vincular a singularidade dos bárbaros sertanejos ao que seria inevitável na história da civilização. caberia ainda averiguar à sua luz os operativos teóricos que o nosso autor empreendeu nesta sua complicada missão de narrar o ambiente sertanejo que. ou mais amplamente. 65). Como já ressaltado em outras ocasiões por Francisco Foot Hardman (1992. embora a história do sertão euclidiana pareça ser uma história de esquecidos. através de “uma prosa monumental que nascesse do caos mais remoto onde os Estados nacionais emergentes disputam marcos fronteiriços ilusórios e a ruína costuma despontar antes mesmo de qualquer sinal de progresso”. 2008). estava em pressuposta sentença de extinção. portanto. logo teriam se tornado variantes de tema geral (OS. de matriz romântica. 296-297. pois.] não viajava sozinho.. como situa Hardman. os eventos que são narrados. quando afirma encontrar em Euclides um historiador dos bárbaros. recolhemos elementos para conjecturar que.

daquela desenhada por Glaucia Villas Bôas a respeito da obra de Maria Isaura Pereira de Queiroz. “o movimento religioso” de Canudos “longe de poder ser interpretado como ‘regressão’ e ‘fanatismo’. sabiam das condições estreitas de suas escolhas” (VILLAS BÔAS. de defesa. de acordo com a autora. no limite. tinham capacidade de discernimento e. No entanto. sem depreciar seu elemento mais ilógico ou arcaico. Queiroz posiciona. Teríamos justificado. Ao apostar nesta hipótese. CARVALHO. como uma típica sociedade estratificada. pelo paradoxo inverso. Villas Bôas coloca em pauta um argumento que vamos trabalhar a seguir. qual seja: “Uma das escolhas mais significativas de Maria Isaura foi investigar o processo de mudança social no Brasil através do estudo das coletividades pobres e dominadas. Segundo a autora. 2004). iluminando suas mentes. as ações dos fanáticos religiosos apresentavam como intenção intervir diretamente sobre o mundo social de modo a garantir a salvação diante do precário do sertão. que o caracterizaria. . a autora inverte a crença comum de que aqueles grupos são incapazes de ação em benefício próprio uma vez que se acredita que estejam naturalmente presos ao imobilismo. cujo efeito obtido seria o de confirmá-los em valores religiosos conquanto de ação no mundo social. Maria Isaura questionou o sistema político brasileiro do ponto de vista dos poderosos mandões locais. de disciplina e de hierarquia. 2011). os grupos e indivíduos dominados. Enfrentando uma discussão com a sociologia das condutas religiosas de Max Weber (BOTELHO. Na acertada demonstração de que Queiroz partia em direção contrária à tese de Victor Nunes Leal (1948). 2010. para um tipo de racionalidade que se implica em reverter os laços fracos de organização social do mundo rural brasileiro. p. como esperamos deixar claro a seguir. Sua obra está pautada pela hipótese ousada e controvertida de que os grupos subalternos são capazes de organizar e liderar movimentos em favor da melhoria de suas condições de vida. sociologicamente. à espera de um movimento que os retire das duras condições em que vivem. a autora relaciona como problema para entendimento. em que pese a sua extremada orientação por valores religiosos atípicos ou quando menos supostamente renunciados – desencantados – do mundo político ocidental moderno. Diga-se que os estudos de Maria Isaura sobre a mudança social não ficaram circunscritos aos grupos destituídos de bens materiais e poder de mando. a organização transitória da população rural justamente com base no modelo oferecido pela ‘civilização’ que sempre existiu paralelamente 38 Nossa perspectiva se aproxima. sujeitos ao poder de mando. antes. mesmo nas pesquisas que compõem o livro O Mandonismo Local na vida política brasileira e outros ensaios o leitor percebe que. o crescimento do arraial do Belo Monte como centro de organização espontânea e racional. sob o argumento da sociologia das condutas religiosas. assim. As condutas religiosas do povoado de Canudos devem repuxar a nossa atenção. para a autora. Por suposto de que por mais absurdas. expressa. apoiada nos argumentos desenvolvidos originalmente por Maria Isaura Pereira de Queiroz. a hipótese weberiana de uma “ação racional com relação a fins” (WEBER: 1984. e não obstante estivessem orientadas por valores extra-mundanos. Nesta hipótese parece também concordar Maria Sylvia de Carvalho Franco. no que diz respeito às práticas religiosas fanáticas observadas naquele evento. a excepcionalidade dos eventos de Canudos. 38).38 Nele se desenvolveram relações de controle. 176 capítulo dedicado à Canudos.

1983. a autora cria espaço para o argumento já esboçado por Queiroz. Nessa linha torna-se também inteligível a intenção de preservar o Paraíso Terrestre e de defendê- lo das ameaças exteriores. conseguiria reverter a estrutura de dominação a seu relativo domínio. Contudo. trata-se também aqui de uma relação cuja fragilidade expõe a “necessidade das relações mantidas entre grupos dominantes e submetidos” (ibidem. o pobre “agregado poderia chegar à compreensão da fragilidade dos laços que o prendiam ao fazendeiro” (ibidem. como nos movimentos messiânicos. p. Ao que no conjunto. a organização transitória da população rural justamente com base no modelo oferecido pela ‘civilização’ que sempre existiu paralelamente a ela. para inferir sobre Canudos: Se a linha de interpretação sugerida nesta nota se sustenta. Franco abre uma hipótese mais nuançada sobre este contexto geral. em última instância. como bem aponta a autora. “Essa existência dispensável levou-o [o homem pobre]. longe de poder ser interpretado como ‘regressão’ e ‘fanatismo’. As condições de sua sujeição advieram justamente por ser quase nada na sociedade e exatamente esse vazio não poderia fornecer-lhe uma referência a partir da qual se organizasse para romper as travas que o prendiam e para constituir um mundo seu. 1983. 73). grifo do autor). a conceber sua própria situação como imutável e fechada” (FRANCO. (FRANCO. novamente. esse movimento religioso. ibidem. Hipótese com a qual Maria Sylvia de Carvalho Franco estabelece diálogo em nota explicativa com o trabalho de Queiroz. justamente. p. Apenas episodicamente. p. 105. ibidem). p. Na medida em que “o sujeito pertencente aos grupos dominantes transgredia impune suas próprias obrigações e nessa [mesma] medida expunha o caráter contingente dos laços que o uniam aos seus dependentes”. de que na precariedade da existência os homens pobres tornavam a sua sociabilidade algo imprescindível. As virtudes ordenadas pelo Messias e praticadas pelos . a existência dispensável vivida pelo homem pobre do século XIX. contudo. forçando-o então à concepção de que “as suas necessidades mais elementares dependeram sempre das dádivas de seus superiores” (ibidem. está. grifo nosso). abriu-se para ele a possibilidade de desenvolver o mundo do ponto de vista das mudanças que nele pretenderia realizar. não poderia chegar a ser formulado de maneira conseqüente com o propósito de livrar-se dessa sujeição. antes. 104. ibidem). 1983. n. deduz a autora. esvaziado em suas relações e mesmo em sua existência. 177 a ela” (FRANCO. por fim. 1983. 103). demonstrando os limites da racionalidade: Isto. pela sua consciente (o termo é nosso) dispensabilidade da vida. expressa. Mostrando como da estrutura social e econômica “o destino do homem pobre definiu-se num mundo regido por dois princípios divergentes de ordenação das relações sociais – associações morais e ligações de interesses – que se articulam e tiveram efeitos deletérios recíprocos” (FRANCO. Fechando esse caminho. 104-105) Seria pelo messiânico que o homem pobre.

“[o] povo assistiu àquilo bestializado. atônito. como concluiria José Murilo de Carvalho. 11) Ao fim o povo. 1987. inclusive burlando e tripudiando de quem as obedecesse. Carvalho nos conduz em uma interpretação sensível sobre os valores políticos populares daquele período da República. proferida por ocasião da queda da Monarquia e da Proclamação da República em 15 de novembro de 1889. terá de desenvolver uma base qualquer de legitimidade. Sobre o conhecido epíteto de Aristides. identificando o Estado e as leis pelo viés do seu aspecto puramente formal e não prático. expunha à vista de todos. 160). Ao retomar a famosa exclamação de Aristides Lobo. ao seu modo específico. p. de que no momento da marcha militar do novo regime. subrepticiamente persistiam em reproduzir o maniqueísmo teórico que separa “lados da mesma moeda. opondo-se aos preconceitos teóricos das elites letradas. No seu argumento. o autor nos remete para o universo singular e tumultuado dos bestializados e dos bilontras – este último. tipo consagrado em peça de 1886 escrita por Artur Azevedo. 1987. Todo sistema de dominação. surpreso. 1889. p. posteriores à Aristides. [. 105) Em rota distinta embora paralela à percorrida pelas autoras. 178 fiéis assumem um caráter coletivo. s/p). 1983. em especial. 10). p. que lhe era adversa. é mais fecundo ver as relações entre o cidadão e o Estado como uma via de mão dupla. a República não era para valer.] exceto em casos muito excepcionais e passageiros de sistemas baseados totalmente na repressão. partes do mesmo todo” (CARVALHO. ao que logo em seguida conclui: “O povo sabia que o formal não era sério. Nessa perspectiva. 1987. para sobreviver.. o velhaco. 158). correspondendo à necessidade de exaltação de todos e encobrindo a necessidade de redenção material. um discernimento singular sobre os eventos que aconteciam nas ruas em 15 de novembro. o autor expõe como um contrafactual a esse aforismo a racionalidade singular dos populares sobre os eventos reclamados. p. p. Compreende-se assim a agressividade de Canudos. o gozador. é o tribofeiro” (ibidem. (FRANCO. embora não necessariamente equilibrada. José Murilo de Carvalho nos oferece um instigante ensaio sobre a singularidade da racionalidade popular. ainda que seja a apatia dos cidadãos. sem conhecer o que significava” (LOBO. Retomando o famoso anedotário da época. a guerra contra a sociedade mais ampla. . de considerar os movimentos sociais em seu universo de valores particular. Carvalho critica as leituras que. cujo tema é a “venda por um bilontra de falsos títulos de nobreza” – e é o próprio Carvalho quem nos explica a expressão: “bilontra é o espertalhão. aqueles comumente taxados de alienados ou irracionais pelos comentadores da história.. Para ele. o bestializado era quem levasse a política à sério” (CARVALHO. (CARVALHO. Não havia caminhos de participação.

qual seja. em dois ensaios distintos sobre a obra euclidiana. respectivamente da parte dessas classes uma conduta de consciência política. p. Se os argumentos não se alteram substancialmente. Antônio Cândido indica talvez pequena mas sutil diferença entre os dois. embora a partir da década de 1950 uma série de pesquisas acadêmicas apresente como proposta identificar a história ignorada por Euclides da Cunha em seu relato. seriam os populares os bestializados por não entenderem o que se sucedia na troca de regime ou. justamente. embora informada pelas teorias deterministas do . contrapunha-se a ele uma nascente sociologia de sentidos específicos apreendidos por uma metodologia compreensiva sobre o universo popular ou sertanejo retratado. Antônio Cândido viria a público reclamar. como fazia o povo do Rio por ocasião das grandes transformações realizadas a sua revelia. a política era tribofe. na qual os motivos das ações sociais podem ser ocultos ou mesmo irracionais. Os cientistas sociais praticam. Num sentido talvez ainda mais profundo que o dos anarquistas. mais diretamente conectado com o objeto do nosso estudo. A inversão é sugerida. (CARVALHO. no melhor sentido da expressão. publicados um (inédito) em 1947. Era bilontra. Ainda que sensível à ensaística de Euclides. 179 Nota-se que Carvalho assume aqui uma inteligente devolução do argumento de bestializados proferido por Aristides de volta ao seu lugar de origem. pois que em Euclides a história teria sido enviesada por um viés determinista e simulado da realidade. ou ainda no deboche e no desdém das classes populares sobrevinha. É de Luiz Carlos Jackson (2001) essa observação sobre Cândido. não correspondiam justamente com a sua peculiar apatia e irracionalidade à indiferença do Estado e à tirania da política que lhes recaiam dia-a-dia desde longa data? Na revolta ou na participação motivada por valores religiosos ou de fé. Em realidade. Desse modo. 1987. da relativa negligência empírica de Os sertões. Segundo aquele autor. estava longe de ser bestializado. 160) Podemos destacar entre os três pesquisadores brasileiros trabalhados aqui a perspectiva comum de enfatizar o universo social analisado – em geral universo dos subalternos ou dos ignorados socialmente – aplicando para este universo um percurso que poderia assinalar a existência de uma racionalidade própria e singular inserida no contexto amplo que justifica suas ações. na opinião de Carvalho. mas os efeitos que derivam do fenômeno oculto podem e devem ser reconhecidos como correspondendo a fins práticos. confirmando que há em Os sertões uma reflexão sociológica. contrariamente. uma sociologia compreensiva. Quem apenas assistia. “O sociólogo em Euclides da Cunha” e o outro em 1952 “Euclides da Cunha sociólogo”.

na síntese das grandes visões de conjunto. inventando-o onde haveria desconhecimento imediato. De ‘O sociólogo em Euclides da Cunha’ para o ‘Euclides da Cunha sociólogo’ amadurece a concepção de sociologia menos formal e científica e mais intuitiva e literária. Desse quadro montado. portanto. nossa hipótese é a de que. As simplificações que operou. muito mais que um sociólogo. como os caipiras de Os parceiros do Rio Bonito”. A investigação pouco sistemática é compensada pela intuição e qualidade literária do escritor. sobre Euclides: Mas com isso tudo. o qual estaria implicado em informar o outro sem considerar as suas específicas visões de mundo. ao que transcreve um trecho do ensaio de Cândido. p. foi uma espécie de iluminado. os cientistas sociais pretendem (ou pelo menos esboçam a pretensão de) destacar e criar autonomia relativa aos grupos subalternos. através da ardilosa porém imaginativa escrita literária. porque. É importante também a preocupação política de Euclides com o destino das populações rurais brasileiras. Enquanto o primeiro chama a atenção para o ‘sociólogo’ escondido nas entrelinhas do livro. que se situa entre literatura e ciência. Este é claramente o argumento de Antônio Cândido. 2001. e talvez por causa disso tudo. parecem persistir nessa oposição entre uma sociologia “literária” euclidiana e uma sociologia compreensiva mais acadêmica alguns resquícios da leitura euclidiana sobre Canudos. (CÂNDIDO. como vimos. esmiuçando para este fim as suas lógicas singulares interiores. Cf. contrariamente à invenção literária. a sociologia. Se esta inferência é correta. nos termos de Antonio Candido. 135)39 Feitas essas considerações. . antes de se distanciarem. ou. de 1947. JACKSON. como disciplina das ciências sociais. Em seu método de devolução ao universo dos subalternos uma lógica própria que os dignifique humana e culturalmente. com os grupos rústicos. ao lado de Gilberto Freyre. que englobam tanto os ‘fanáticos’ de Antônio Conselheiro. indica uma questão de fundo que norteia a produção sociológica de Antônio Cândido acerca do estatuto epistemológico da disciplina. ainda assim. destacando 39 Prossegue o autor: “A diferença sutil de um texto para outro repousa no impacto deste parâmetro – a capacidade de captar profundamente a realidade social – para definir uma abordagem sociológica. os títulos indicam conclusões ligeiramente distintas. A. Euclides é. como ressaltado logo acima. o segundo afirma Euclides como sociólogo. o representante mais típico da ‘forma bem brasileira de investigação e descoberta do Brasil’. 2001. mais. 180 século XIX. como alegam os pesquisadores. oriundo. lhe permitiram captar a realidade mais profunda do homem brasileiro do sertão. a sua interpretação tem um toque de gênio. Suspeitamos sobre esse aspecto apoiados na ideia de que naquela crítica ao argumento euclidiano. apud JACKSON. apresentar-se-ia afinada com os valores de mundo e com as suas correspondentes singularidades empíricas a serem levadas em conta quando se tem como tarefa o tomar para análise um determinado grupo social em seu contexto singular e material. se diferenciariam Euclides dos demais sociólogos. de tradição literária comprometida com a descrição e análise da realidade brasileira.

como sempre a motivando para o seu fim (GUMBRECHT. Agradeço à Hans-Jakob Zimmer pela ajuda na localização e com a tradução deste trecho do alemão para o português. bem como a pulsão psicológica de Freud. enfatizado pelo próprio autor em seu ensaio. Surpreendentemente. 181 inclusive desses grupos o ignoto irredutível à própria ciência. Em que pese serem as linguagens distintas – enquanto Euclides se orienta por um esquema positivista. não apenas entre os sociólogos compreensivos como também indiretamente naqueles como Euclides deterministas. A sociedade como um todo se torna racional. o conceito de estímulos psicológicos em Weber (Antribe). Ainda sobre o radical desse termo. Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus. da peculiaridade das próprias representações da fé religiosa” (WEBER. O que nos leva. do desconhecido ou do mal-conhecido. traduzido por estímulo em vez de impulso na edição brasileira de A ética protestante e o “espírito” do capitalismo mais recente de Antônio Flávio Pierucci. parecem ser fundamentais para a hermenêutica do oculto e do profundo na modernidade. Pois será precisamente pelo psiquismo. p. primeiro tópico “ Die religiösen Grundlagen der innerweltlichen Askese” da segunda parte “Die Berufsethik des asketischen Protestantismus”. fazendo ainda do remoto seu ponto de referência para o conhecimento. porém. 250). welche der Lebensführung die Richtung wiesen und das Individuum in ihr festhielten”. em larga medida. onde ainda “esses estímulos brotavam. . Trieb. presente também nos escritos de Freud. 2010. conforme anota Paulo Cesar de Souza. a encontrar uma lógica no fundo da ação. este fundo parece ser também um dos objetivos do empreendimento euclidiano: encontrar lógica no irracional do conflito. Seguimos aqui ainda no encalço de um autor clássico como Weber em “rastrear aqueles estímulos psicológicos criados pela fé religiosa e pela prática de um viver religioso que davam a direção da conduta de vida e mantinham o indivíduo ligado nela”. grifo do autor). Cf. e não deve nos surpreender o fato 40 No alemão: “auf die Ermittelung derjenigen durch den religiösen Glauben und die Praxis des religiösen Lebens geschaffenen psychologischen Antriebe. WEBER. particularmente entendido aqui como identificação de uma consciência (ou inconsciência) singular. de fato. p.40 Como veremos ao longo da discussão apresentada neste capítulo. os sociólogos acadêmicos estariam assumindo uma posição que denominamos de compreensiva – ambas as correntes partem do suposto de que prefigura sobre aqueles eventos abordados uma lógica singular a ser descoberta pelo cientista. isto é. O termo de Weber para estímulo é Antribe. Max. 89. “pode-se dizer que é o mais central dos termos psicanalíticos” (SOUZA. 2004. que os autores de tão distintas escolas parecem concordar quando destacam os movimentos messiânicos e populares orientados por valores relativos e autônomos. 2010).

252). Segundo nos informa Paulo César de Souza. portanto. pressão. nos ensaios sobre metapsicologia de 1915. enfim. Não deve nos estranhar. ‘impulso’ e ‘ímpeto’ (e. 182 de Freud ter a ele se referido como “uma palavra que muitas línguas modernas nos invejam [aos alemães]” (SOUZA. o termo Trieb aparece novamente sob a sua ambigüidade social e biológica. autômatos. em meio a essa polissemia. tomado pela rica experiência polissêmica da sua expressão na cultura semântica psicológica e sociológica no pensamento alemão de fin de siécle. p. Sem ser o nosso objetivo fazer uma discussão aprofundada da filologia do radical. propensão. os motivos da ação humana no mundo. 2010. inclinação. p. a psicanálise como também Euclides acreditava ser o homem pertencente naturalmente. uma sugestão sensata seria talvez a de utilizar uma das três palavras. Freud. 262). são termos imprecisos no cenário da ciência social alemã daquele período e por esta imprecisão garantem a sua historicidade. ímpeto. “O inconsciente”. no tocante à distribuição das atividades psíquicas entre os sistemas Ics [inconsciente] e Cs [consciente]. O destaque do termo é. movimento. nesse ensaio Freud adverte que. na medida em que poderia ser solicitada em sua ênfase na cultura ou como parte constitutiva da biologia animal – da qual. ‘O conteúdo e as relações desse sistema durante o desenvolvimento individual. ou mesmo se relacione com o mundo das máquinas. emprega Trieb “tanto para seres humanos como [para] animais”. parece ser mesmo de gesto muito improvável o consenso em torno da tradução de Trieb para outras línguas: inaugurando um dilema de tradução. na qual o Ics ‘funciona apenas como estágio preliminar da organização mais elevada’ [a citação é de Freud] (isto é. por isso. insurge. podendo ser traduzido por “impulso. rebento’” (SOUZA. Como examina ainda o nosso guia-intérprete brasileiro sobre este vocábulo alemão. estímulos. p. vontade” mas também. Ainda: em Freud. Por ele se aproximam perspectivas distintas e mesmo quase discordantes sobre. segundo o contexto. impulso. o sentido biológico que o termo poderia também indicar naquele contexto. do Cs). na quinta parte do ensaio. 2010. curiosamente. rebenta. De modo que. 252). esta polissemia não elimina. “o fato é que Trieb cobre os sentidos – ou partes dos sentidos – de ‘instinto’. incluindo o original entre colchetes)” (SOUZA. como algo que se realiza por ignição. ele a descreve tal como seria na pessoa adulta. pelo menos para o caso de Freud. que o termo expresse também uma metáfora sobre o reino vegetal – como a sugerir algo que nasce. motivos. Na leitura de Souza. “(em botânica) por ‘broto. 2010. e a significação [Bedeutung] que . assinalando uma ambigüidade da sua expressão. nunca deve-se esquecer. nos Três ensaios para uma teoria da sexualidade de 1905. cabe aqui uma nota que registre haver no sentido de Trieb um conceito-limite central no pensamento social alemão de fin de siécle. propulsão.

pelo menos para o século XX. “[cuj]as cores mais magníficas são obtidas de matérias vis e mesmo desprezadas” (NIETZSCHE. tal distinção. Como nos diz ainda Paulo César de Souza. nem à sua importância [Bedeutung] na configuração psíquica dos animais.. p. p. não podem ser deduzidos de nossa descrição’ [a citação aqui mais uma vez é de Freud].] numa leitura simplificada da ‘letra freudiana’ e do próprio ‘texto-base do homo natura’” (SOUZA. ao aproximar o psíquico do instintivo animal.. ao que o autor fundamenta sobre tal convicção a seguinte passagem de O mal-estar na civilização: No começo do processo de civilização estaria. grifo do autor). senão era limite de um contexto em que as teorias da biologia estabeleciam constante diálogo com as disciplinas sociais – criando certas confusões sobre os definições de uma e de outra. 2010. Assim. F. como avalia Paulo Cesar de Souza. portanto. para ficarmos ainda no horizonte semântico germânico fin de siécle. como ficou demonstrada nesta já adiantada discussão. que seria Freud. recordemos das impressões de Nietzsche sobre a “inconsciente vaidade humana”. que parte do repertório da ciência psicológica que começa a se formar em fins do século XIX e no começo do XX obtenha a sua fundamentação a partir desta ambigüidade. “se vivesse hoje. afinada pela ideia de que haveria.] baseia-se [. Na realidade.. por oposição ao instintivo-animal. p. em como uma definição central ao seu sistema de pensamento oferecia as noções de ambíguo e impreciso como conceitos-limites basilares para a sua fundamentação sobre os méritos da psicanálise. portanto. até à preponderância dos estímulos . 257). 183 tenha nos animais. objeto da biologia [. Temos aqui. isto é. a ambigüidade em torno do psíquico. p. em certo sentido. a adoção da postura ereta pelo ser humano. entra em jogo a própria pertinência dessa delimitação)” (SOUZA. cindido entre o biológico e o cultural.. 260-261) Nesse ponto. Freud leria obras de etologia e psicologia evolucionária. Ou. 253. “que define o humano-simbólico. Apresentamos aqui as fronteiras bastante tênues entre a biologia e a psicologia de modo a poder situar um dos principais autores dessa disciplina. ressalvando o autor que o mapeamento feito em ‘O inconsciente’ não diz respeito a características do sistema durante o crescimento do indivíduo. bem assim. Demasiado Humano apud SOUZA. uma referência ao Ics como sistema comum a bichos e homens. objeto da psicanálise. 263 passsim). não estaria presente apenas em Freud ou Weber. Humano. O encadeamento parte daí. a psicologia freudiana. como observa Souza. 2010. coloca “em jogo a delimitação problemática do que é cultural e do que é biológico (mais até. devendo ser objetos de uma investigação própria. 2010. Não deve nos espantar. (SOUZA. através da depreciação dos estímulos olfativos e do isolamento da menstruação. em vez de teorizações lingüísticas e filosóficas”. uma “química dos sentimentos” no encontro de impulsos altos e baixos.

que sistemicamente o funcionaliza. 168) Palavras de Freud. há nuances e no indistinto nós não nos comunicamos. não parece ser somenos que esta mesma imprecisão apareça em outros autores e contextos de escrita diferentes mas relativos à psique naquele mesmo período. Esta é apenas uma especulação teórica. . como intenção nos arremessar para o indistinto da linguagem dos diferentes. palavras de Blumenberg. a legitimidade do espírito capitalista ou. chegando à continuidade da excitação sexual. n. a literatura e a filologia não tem. qual seja. ou seja. o nosso ponto a partir dele é: se o “pai da psicanálise” propicia tamanha ambigüidade em seus escritos sobre a psicologia humana. entretanto. no sentido de que persistiria em seu discurso um juízo de condenação pré-concebido sobre os episódios relativos a Canudos – acusado então de uma sociologia não-compreensiva – veremos ao longo deste capítulo que o determinismo euclidiano contemporiza-se em relação a uma análise de condições históricas e políticas que circunscrevem os eventos sociais por ele considerados. o jagunço. as condições sociais cujos efeitos são preenchidos pela sua expressão de sentido. mas de importância suficiente para justificar uma averiguação exata do modo de vida dos animais próximos ao homem. anteriormente explicitada. conectam-se com essa imprecisão. op. a hermenêutica. 254-255. Mesmo porque. onde a referência faz supor uma sua expressão. dessa face congelada. as condições mentais e sociais que motivaram a formação histórica e a suposta característica racional do homem moderno. Ainda que a Euclides tenha sido imputado o caráter determinista do meio a definir o homem e a psique. à fundação da família. no seu operativo. Como salientamos na “Introdução” dessa tese. 2010. 184 visuais. atributos especiais expressivos para a respectiva observação como extração de um perfil psicológico. remete diretamente para a variante de Canudos e do seu homem. p. ou seja. pode ser melhor aproveitada se atentarmos para o tema principal da sua sociologia. a sociologia. S. em sentido mais amplo. usualmente tomadas como excessos ou ornamentos em sua linguagem. As adjetivações euclidianas.cit. A par desse cenário de ambigüidades mais gerais. os discursos se situam para análise enquanto sistemas de referências. apud SOUZA. Esta observação comparativa entre a psicanálise. em torno da história da psicologia moderna. Para irmos direto ao ponto: a referência a Weber. Um sistema de referências se vale do referente na medida em que a sua função expressa. (FREUD. exposta em Os sertões. Isto pressupõe dizer que um referente deve ser instalado sempre no sistema em que este referente circunstancialmente obtém correspondência. e com isso o limiar da cultura humana. à visibilidade que obtém os órgãos genitais. Eventos cuja generalidade. na medida em que produzem o efeito de singularizar estados psicológicos a fim de se obter.

185 Parece ser também para este grande tema que se encaminham. como temos visto. as entradas do legítimo nesse mundo precário podem ser variadas. que essa autonomia só se concretiza porque entre fazendeiros e seus dependentes subsistiu o padrão de relações baseado no reconhecimento do outro como semelhante. p. que. permitiria que a condição de dependência entre senhores e subalternos se compactuasse e. por um estado de autonomia. Não nos deve ser absolutamente irrelevante que Euclides apoie-se justamente sob o argumento de uma ordem social que deva ser estabelecida sobre um mundo social volumoso. o que se ressalta é a necessidade de encontrar nos movimentos sociais uma racionalidade específica que os indiquem legitimidade e pertinência social sobre o mundo fragilizado que esses subalternos habitam. isto é. Ao que continua: A oposição de dominados contra ‘senhores’. “Isto porque. o argumento da raça em Euclides aparece sob a forma de uma teoria. quando . neste caso. referente bastante particular das sociedades modernas – mesmo daquelas sociedades ignotas rurais no interior do Brasil –. Naquelas interpretações. (ibidem.] Quero frisar. na sua expressão específica na sociedade brasileira. como ordem social difícil de estabelecer entre os semelhantes nacionais. “expõe. desse modo sintetizada por Franco.. em seu reverso. Com efeito. lograsse ser reproduzida. 1983. p. Pensando junto ao nosso tema de estudo. não nos parece todavia ser menos teórica do que empírica. mas sobretudo apático e precário – mas com motivos –. destacados em todos os três autores brasileiros no começo desse capítulo. [. “do caráter precário e transitório das relações de dependência [qu]e permite a consciência. nos diz a autora. No dizer aqui de Maria Sylvia de Carvalho Franco. chega a manifestar-se porque as mesmas condições responsáveis por um estado real de sujeição também o são. inseridas no debate da nossa análise. a princípio. passim). aventureiro. as perspectivas brasileiras solicitadas mais acima. 100. ainda que diversa e obliquamente. contudo. um aspecto que podemos salientar na sociologia brasileira diz respeito aos referentes massivo. realmente importava explicar. pelo dominado. por isso. que. 101) Esta indiferenciação por um excesso de semelhança. se aquela contradição”. raça no sentido de viabilizar a discussão pelo autor do que. entretanto. tumultuário. onde a massa apresentaria uma “consciência de indiferenciação social” (palavras da autora). como pessoa. consistia nos domínios da civilização.. a ‘consciência niveladora abre a possibilidade de uma libertação real e define a forma de sua expressão” (CARVALHO. quanto da sua respectiva transgressão por parte dos setores dominantes. a fragilidade dos compromissos pessoais. referente absoluto. de transgressões virtuais aos costumes”. em conseqüência da perda de suas esperanças. para o sujeito dominado.

Especulações que. Na realidade. de 1892. estes últimos se diferenciariam daqueles primeiros por um outro sinal. em 1871. apud LIMA. Ainda citando aqui o livro de Nye. Neste sentido. o mestiço era “a espera do futuro [que] se tornava a quase única motivação” (ibidem. cit. não tendo este último “por contemporâneo senão mestiços abandonados no interior do país ou mestiços imitadores da Europa. em seu aspecto geral. R. apud LIMA. Gustave Le Bon and the Crisis of Mass Democracy in the Third Republic. 186 pensamos que as suas referências científicas para a formulação do problema de Canudos derivam. 72). p. p. De acordo com Nye. p. Este movimento na França. ao que Costa Lima faz referência ao estudo Psychologie des foules. ibidem). Lima é quem nos oferece a referência: . portanto. “[a] era em que entramos será verdadeiramente a era das massas” (LE BON.). de que no Brasil teríamos. mestiços da civilização. Como bem aponta o autor acerca de Euclides. Como bem observa aquele intérprete de Euclides. como aponta Robert Nye aqui citado por Costa Lima (op. próprias à descrição de Euclides. evidentemente. Citando Le Bon. do corpo intelectual formatado pela psicologia das massas de fins do século XIX. publicado em 1895. cit. mestiços jogados em uma “deplorável situação mental” e. op. frase de sociólogo italiano Scipio Sighele colocada em sua obra La follá criminale. Pode-se dizer que com a noção de que “[a]s forças dos homens reunidos se suprimem e não se somam”. as especulações que se dedicam a estudar o comportamento das massas. p. por um lado. teve seu princípio no contexto da Comuna de Paris. 67). “o crescimento das massas ter-se-ia tornando inevitável pela desagregação das crenças religiosas e pelo estabelecimento de condições de existência e pensamento suscitadas pelo avanço da ciência e da indústria” (ibidem. ‘encorajou sua evolução contínua em favor de uma posição direitista. 1997. isto é. estava obrigado a pensar em termos futuros” (ibidem. Dessa referência derivam as noções. “havendo provocado o desespero dos defensores do liberalismo em encontrar um juste milieu contra a herança jacobina. dentro do espectro político” (NYE. 67). em sua maioria. 63). a psicologia das massas parece atrair especulações diversas sobre este novo período da história do Ocidente. de outro. nosso ponto aqui diz respeito ao que em especial parece ser sintomático para o aparecimento de um campo de estudos sobre a “era das massas”. de Gustave Le Bon. 1997. Luiz Costa Lima (1997) é quem nos oferece este exame dos operativos da teoria da psicologia das massas na construção do argumento euclidiano em Os sertões. caracterizam um desvio do ideário liberal de um século anterior. pós-revolução francesa. Diante desse conjunto nada fácil de sintetizar. do surgimento especulativo das teorias sobre o comportamento das massas. “mercenários inconscientes” que em quase nada se diferenciariam do estado mental dos primeiros.

pode ser um bem na fase transitória que estamos ultimando” (OC I. se houvesse um categórico determinismo biológico a contar sobre o mestiço do interior. como forma definitiva do caráter. superstições e formas inferiores de religiosidade”. ou seja. os autores que mais se associam à interpretação que Euclides adotará – em escala descendente de visibilidade: Sighele. Pensamos a respeito do nosso argumento que o fator a determinar a favor ou contra a adaptação do sertanejo à civilização diz respeito a um operativo do presente contemporâneo a Euclides. o sertanejo poderia ser assimilado pela civilização. opção conservadora. como pensada por Darwin. p. 187 “Esses pensadores conservadores encontraram uma aliança. o que diferenciaria as massas mutuamente ignorantes do interior e do litoral reside. Isto é. típico movimento de “empréstimos” e “idealizações”. “que nos arrebata sobre as barreiras da razão teórica. da específica percepção de Euclides – providencial e universalista –acerca da Revolução Francesa: . p. o de tornar conhecidas – conscientes – as populações que mutuamente se excluem da mesma sociedade nacional. neste caso. De modo que. introduziu uma distância psíquica entre ambos os mestiços. de igual monta. desde que esta não o comprometesse. 63) Mais adiante. Costa Lima é agora quem nos informa: Dentro do estrito ponto de vista político. sendo assim. 63). ele o seria sobretudo no sentido positivo: apto para a civilização. assinala o crítico na reflexão euclidiana sobre o tema: “o retardamento biológico causado pela mestiçagem torna a massa sertaneja vítima de crendices. qual seja. embora bem diferenciada. já na referência ao autor de Os sertões. 1997. 1997. afastando-os a tal ponto que a aproximação final entre elas haveria de ser pelo conflito. Ou. porque consolidado com robustez devido ao seu insulamento geográfico e histórico no interior. dita a regra da evolução também aqui. o extinguisse. Na hipótese que apresentamos sobre Os sertões. antes de tudo. mais natural do que geralmente se admite. na distância histórica que. seria através do extermínio de Canudos que os próximos se entenderiam. isto é. 436). ficamos sabendo que Costa Lima encontra no pressuposto determinismo biológico euclidiano o matiz conservador. Em realidade. Le Bon e [Gabriel] Tarde – se especificam por uma comum. Não devemos nos esquecer. A conveniência. nos cânones determinista e materialista da síntese positivista” (LIMA. como o próprio Euclides depreende do romantismo. (LIMA. fazendo que falsifiquemos a realidade”. o que seria um mal. conclui entretanto de forma contemporizadora: “[e]. a brilhar junto ao pensamento psicológico e sociológico da sua época. Nesse sentido. p. exame que concordamos com Lima exceto pelo determinismo qualitativo do retardamento biológico. junto àquelas teorias do comportamento das massas.

1997. 1997. em todos os tempos. o diagnóstico que se faz é o de que “as forças não se multiplicam. Como uma imitação histórica. Na esteira desse argumento. isto é. 59). a psicologia das massas – sugerida avant la lettre por Tocqueville – aparece como indicativo de um pensamento que olha para o social pela lente de um “agregado amorfo”. a Providência Divina atuaria junto ao mundo moderno. apoiados no nosso intérprete de Tocqueville. 188 [. lemos que: No agregado. 547) Estamos informados do argumento tocquevilleano também aí. p. Basta lançar um olhar em volta de nós para ver que o mundo social é um tecido de semelhanças.cit. causando-lhes “indiferença cívica” (ibidem. abandona de bom grado a grande sociedade a si mesma. (SIEGHELE. Perdido na multidão. É uma tendência incontestável e incontestada que a tendência que tem o homem de imitar é uma das tendências mais fortes de sua natureza. ela exprime claramente o resultado das ações de todos os povos. esta extrema individualização resulta na constituição da massa de iguais. 65) . o que reforça sua irresistibilidade ao nível das consciências e dos comportamentos” (ibidem. (JASMIN. semelhanças que são produzidas pela imitação sob todas as formas. p. estaria na marcha histórica de aproximação cada vez mais estreita a um estado generalizado de igualdade de condições sociais o sentido da história do mundo social moderno. cria “um círculo vicioso. 1997. a imitação é a alma das massas. a noção ainda em pauta aqui. Quanto mais o indivíduo se alastra. op. Nesta medida.. Marcelo Gantus Jasmin. mais é percebido como natural à vida social. p. após ter criado dessa forma uma pequena sociedade para seu uso. 55). o meio de cuja contaminação depende a ameaça que representam” (LIMA. fazendo-os voltar-se exclusivamente para seus interesses privados”. Como todos os fenômenos históricos de influência geral sobre os destinos das nacionalidades. (OC I. em tal sentido que. é a de que neste contexto de completo desconhecimento e indiferenciação dos indivíduos. p. já que “nela [na massa] inexiste uma relação de homogeneidade entre seus componentes” (LIMA. p.] não se pode fixar como início da Revolução Francesa a convocação dos “Estados Gerais” em 89. p. apud LIMA. produzindo apatia sobre o comum.. o indivíduo tende a ‘isolar-se da massa de seus semelhantes e a retirar-se à parte com sua família e seus amigos: de tal sorte que. Para Tocqueville. concebida por Tocqueville como uma espécie de superfície plana e homogênea que se oferece ao olhar dos homens democráticos desprovida de pontos salientes e estáveis aos quais possam se apegar de modo seguro e permanente. 1997. 65). 56) Este abandono e afastamento progressivo “dos homens em relação aos negócios comuns. 65). p. percebida por Tocqueville e interpretada por Jasmin.

também. um limite de onde se desviariam dois programas distintos de sociologia. em parte weberiana mas. E assim se comporta exatamente porque o que é realmente observável enquanto processo. Programas que podemos. 189 Em Euclides. Pessoas para quem parece axiomático que se próprio ser (ou ego. Elias se contrapõe. estas semelhanças na sociedade nacional se efetivam porque. para delimitar o debate. não nos adiantemos demasiado sobre este argumento que. necessita de espaço próprio para ser melhor elaborado. Para compreender o que estamos discutindo. é reduzido no pensamento a um estado. dessa forma. não haveria um tipo antropológico brasileiro. desde o início de sua vida. Entre essas duas correntes. presente em Talcott Parsons (tradutor de Weber para o inglês) e em Freud. por assim dizer. com o tema da imitação teríamos. esta entendida. como Elias a entendia. um desenvolvimento do macrocosmo social no qual o desenvolvimento do microcosmo individual também pode ser observado. do suposto de uma extrema subjetivação do sujeito no mundo. especialmente as noções de indivíduo e de liberdade – já presentes naquela sociologia de Sighele –. isolado de todas as demais pessoas e coisas ‘externas’. não deve ser entendido estritamente como formação de um sentido histórico compartilhado por valores predeterminados. como também se diferencia da percepção. Mas. V[e]mos aqui um exemplo da força com que a incapacidade de conceber processos a longo prazo (isto é. precisamente. a um ato de percepção que ocorre aqui e agora. está ligada a um certo tipo de imagem do homem e da sua percepção de si mesmo. tanto ao programa de uma sociologia positivista. ‘dentro’ delas. por outro lado. a referência primeira nesse caso ainda é o instigante estudo de Norbert Elias acerca do processo civilizatório. Processo. paradoxalmente. existem em interdependência dos outros. como acusa o autor. O pensamento oscila impotente entre o Cila do positivismo e o Caribde do apriorismo. como nos diz Elias. ou o que mais possa ser chamado) existe. Abordaremos essa consideração na última seção deste capítulo. Têm dificuldade em conceber as . mudanças estruturadas nas configurações formadas por grande numero de seres humanos interdependentes) ou de compreender os seres humanos que formam essas configurações. como alega o autor. mas como interdependência dos valores de mundo em contextos de surgimento da sociologia. no argumento do psiquismo e do pensamento social que levantamos aqui. relacionando-o inclusive à recepção do pensamento social euclidiano (“Sociedade de pedras”). Agora. cuja fiança encontra no Estado ou na nação a forma de realização dos valores de mundo modernos. que implicitamente acata o resultado esperado por tal processo de subjetivação junto à noção fundamental de uma individualidade enclausurada. para fins de um exame objetivo. embora exista o pressuposto do “mundo social” que “é um tecido social de semelhanças”. nesse autor. têm dificuldade em atribuir importância a esses fatos que indicam que os indivíduos. pelo menos para o nosso texto. redimensionar como de uma sociologia positiva e de uma sociologia compreensiva. devido à sua posição central na argumentação de Os sertões. como uma disciplina da civilização.

grifo do autor. e a imagem do indivíduo a ela correspondente. O indivíduo se satisfaz com a metáfora espacial de ‘interno’ e ‘externo’. sobre o que ele entendia ser o seu programa original de uma sociologia histórica. 190 pessoas como relativa. Essais sur l’individualisme. determina a imagem do homem em geral. Seus derivativos incluem não só o tradicional homo philosophicus. não aparece na publicação original do ensaio de Elias assim. [. mas não absolutamente. porém. em cujas pesquisas contestava a “originalidade” dos valores do Ocidente moderno. contudo. Ao que supomos: o mundo social descrito em pós-modernidade permitiria a Elias confirmar as hipóteses que avant la lettre já estavam expostas no seu ensaio de 1939.. De fato. 1994.. aparentemente não requerem exame ulterior. sociedade. última análise. mas nem por isso menos convincentes. é a cápsula e o que é o conteúdo? A experiência do ‘interno’ e do ‘externo’ parecem ser tão auto-evidentes que essas questões raramente são colocadas. mas não faz nenhuma tentativa séria de localizar o ‘interior’ no espaço. Dumont vinha perseguindo as homologias que naturalizaram a noção de indivíduo como uma referência ao mundo ocidental moderno desde fins de 1960. ainda que não testada para suas teorias. como exposto em Foucault. no homem. [Por isso a] concepção de do indivíduo como ‘homo clausus’. mas também o homo oeconomicus. Seguramente. Será o corpo o vaso que contem fechado em si o ser verdadeiro? Será a pele a fronteira entre o ‘interno’ e o ‘externo’? O que. um pequeno mundo em si mesmo que em. autônomas e interdependentes. p. em sua primeira edição de 1939. neste mesmo contexto da década de 1960. quase nunca é examinada e nunca é devidamente explicada.] A natureza dessa parede em si. a imagem do homem da epistemologia clássica. psicologia. de crítica aos valores da modernidade feita por diferentes autores a partir de 1960. na corrente dessas críticas. Como filósofos fizeram antes deles. (ELIAS. As imagens do indivíduo traçadas pro Descartes. 237-239. sentido histórico.. Derrida. mas a configurações sociais. etc. Esta coincidência sugerida aqui. e veremos nessa mesma crítica ressaltar a relevância do argumento original de Elias. Para Elias. Parsons e muitos outros sociólogos sao da mesma origem. Deleuze. 31 anos depois do lançamento da sua hipótese naquele ensaio pioneiro da sociologia. no questionamento das noções valorativas de indivíduo. Todo outro ser humano é igualmente visto como ‘homo clausus’. formando configurações mutáveis entre si. dessa forma tão bem explícita e formulada. O apêndice onde elas estão publicadas data de 1968. o homo psychologicus. o homo historicus. como base. muitos sociólogos aceitam hoje esta autopercepção. sobretudo. Elias parece ter acumulado não apenas reflexões mais sucintas. Max Weber. tal imagem preconcebida do homo clausus domina o palco não só na sociedade em geral mas também nas ciências humanas. publica-se em 1983 o ensaio de Louis Dumont. Basta recordar que. Ainda. mas também em Lyotard. passim. surgem as principais críticas ao ideário moderno. e não menos o homo sociologicus em sua versão moderna. Embora esta omissão em investigar cada um suas próprias pressuposições dificilmente seja apropriada ao procedimento científico. o psiquismo não diz respeito a individualidades. negrito nosso) Esta complexa e longa reflexão. existe inteiramente independente do grande mundo externo. apenas evidencia uma atmosfera a ambientar os temas abordados por . progresso.

Do campo literário. em especial. cujo enredo está centrado na figura do Imperador. aquela observação sofisticada de Elias – psiquismo como configurações sociais – parecia ser todavia praticamente impossível. o estudo de Elias se volta contrário a esta hipótese e a desmente por parte da sociologia e da sua economia emocional – recebe uma especulação muito específica e particular a respeito da sua reprodução no fin de siécle. uma forma de vislumbrarmos essa visada brasileira de imperativos sociológicos e psíquicos está em diversos lugares. bem como tinha a sua correspondência instalada no campo da ciência social. A especulação humana tomava posto na literatura. Ainda. mas mais especialmente na literatura. situada no campo de surgimento das sociologias inglesa. mas nos diz algo mais a respeito do contexto em que Euclides atua como escritor. como compreender o imperativo categórico de “indefinição” da raça. Roberto de Souza Causo é quem nos diz melhor sobre essa literatura que denominamos especulativa no Brasil. cuja temática orbitava em torno dos temas monstruosos ou de alucinação sobre o futuro. se não fosse justamente pelo inevitável da sociedade democrática. não nos poderia ser completamente indiferente o fato de que no contexto de configuração de campos sociais como objeto de estudo de um discurso em particular – as ciências sociais no Brasil. podemos repensar a relação examinada por este autor a respeito da profunda ligação entre imaginação sociológica e literatura no contexto de formação dos cânones científicos das sociedades nacionais. o Imperador teria sido transportado para o ano 2000. tal como exposto por Euclides? Ou como negar a civilização como uma realidade universal a qual estaríamos condenados? Quer dizer: se não fosse pela percepção convicta de um sentido claro da história. Causo remete-nos aos escritos de Monteiro Lobato e de Erico Veríssimo. Afinal. A concordar com a tese de Wolf Lepenies. neste autor. embora não se tornem objetos direto de teoria – o que de fato. trazido agora para o contexto de escrita de Euclides. Na história. Na realidade. se não fosse mesmo correto afirmar que ela seria bastante inviável de ser pensada pelo nosso autor. da sociologia. de . em franco aparecimento. 191 Elias. quando então testemunha a falência do Império. a sociologia –. O autor cita o Páginas da História do Brasil. francesa e alemã. aos valores sociais do mundo e à sobrevivência do homem civilizado em um mundo caracterizado pelo absurdo e pela precariedade. Em função disso. D. tenha tomado espaço público de letras a circulação de uma série de livros e de pequenas historietas relacionadas ao sentido histórico da humanidade. Para o ponto que nos importa. Pedro II. como em outros autores seus contemporâneos. como Euclides poderia desejar narrar com sinceridade a sua história? O psíquico e o social. escritas no ano 2000 de Joaquim Felício dos Santos. publicado entre 1868 e 1872 no jornal O Jequitinhonha. Deitando sobre a prateleira de ficção científica os livros e folhetins publicados no final do século XIX.

a reflexão sobre o mundo social ou. do médico de loucos em Itaguaí.. no contexto mais amplo de modernidade. Bruzundangas.] ilha do Nevoeiro.. já que [nela] além da técnica. segundo o autor. p. sob o intrigante título A Rainha do Ignoto. Não tivemos acesso a sua leitura. é que ela afirma trazer para exame não um mundo imaginário ambientado em um futuro possível. 1992. 192 acordo com o autor. quando menos. De modo que. Um aspecto que parece particularizar a sociologia de Euclides diante desse inventário especulativo.. Podemos dizer que. “O Alienista” (1882). 210). neste conjunto. a partir da crítica que faz Bráulio Tavares. Também desse mesmo período é o conto sobre a alucinação psiquista. como ressalta o crítico. republicana e espírita’” (apud CAUSO. de Machado de Assis. “[e]sse tipo de emprego satírico era bastante comum no século XVIII e início do século XIX” (CAUSO.. postumamente publicado em 1923. a especulação científica e política que encontrava o seu espaço reflexivo na literatura. 294). Francisco Foot Hardman (1992) novamente é quem nos recorda como as intenções de exploração dos “desertos” brasileiros provocam. trazia como referência ao seu discurso personagens e questões intimamente conectadas ao imaginário da vida política nacional e da ordem social. entre as camadas letradas que viviam . que é descrita como abolicionista. da ciência e da educação. sim. 2003. Discurso especulativo que também cruzava a heterotopia política da moderna sociedade de massa (“agregado amorfo”. expondo às vistas o seu outro referente rural em sua existência para o nosso conhecimento: o sertanejo camponês. p. No entanto. 2003. 210). mas. recriam espaços possíveis para a reflexão de outras formações no interior do espaço nacional. trata-se do livro de Emília Freitas. a especulação dessa literatura de “futurismo tecnológico” e de “utopia urbana” não raramente “resvalou [. Porque faz uma heterotopia social observada.] na direção de um nacionalismo conservador. embora mais tarde incorporado pela literatura de Monteiro Lobato – em Urupês de 1918 – bem como do interessante romance antropomorfo de Lima Barreto. uma utopia feminista situada no interior do Ceará. reconhece- se peso central ao papel ‘regenerador’ da Igreja e do Estado” (HARDMAN. estava em vias de desaparecer. esse livro tem em seu enredo uma “fantasia que apresenta a ‘[. no Brasil. de outro modo. p. Euclides pode recusar o tom predominantemente urbano que sintonizava o ambiente histórico e literário brasileiro. a ilha é protegida do mundo exterior pelos poderes hipnóticos de sua Rainha. nesse mesmo filão. porém com efeitos de revolta política. Outra história desse mesmo gênero. a sociologia fin de siécle euclidiana quer garantir a sua cientificidade no confronto dos motivos de profundo desconhecimento. um mundo real que. publicado em 1899. informada pelo autor. mas segundo nos informa aquele intérprete. “indiferenciação”) com a análise sobre os seus efeitos implícitos na sociedade contemporânea sob a forma de ficção.

nos deter neste último. Vamos agora. 1994. 193 nos centros urbanos do oitocentos. Elias apresenta o argumento de que pesquisar os substitutos mentais para fenômenos que acontecem no mundo social de modo algum deve vir desvinculado da totalidade humana da qual estes fenômenos derivam. “formam uma espécie de circuito no ser humano. bem como dos argumentos psíquicos implicados em Os sertões. ainda hoje é descoberto e sobrevive pelo que lhe é avesso. todavia.. p. Em realidade. Um mundo que. como confirma a recente tese defendida em antropologia social de André Dumans Guedes (2011). valeria à pena resgatar a referência por nós estabelecida entre o psiquismo compreensivo da sociologia weberiana e a sociologia histórica de Norbert Elias. isto é. Desligando da realidade mental qualquer dimensão autônoma e inteiriça sobre a vida social dos homens. por isso. um sistema parcial dentro do sistema total do organismo” (ELIAS.. então. 190). particularmente quando são argumentos relacionados ao tema da raça – que inscrevem o nosso autor como um pensador racialista na medida em que ele reclama pelo absoluto da raça sob a função de criar referentes sociais ao seu sistema de discurso –. à perspectiva histórica na qual Elias dimensiona os motivos psicológicos da economia emocional da civilização descentra a temática do indivíduo homo clausus. ibidem). no entanto.1 “A lei do cão” Junto ao longo exame que fizemos até aqui acerca do quadro ambíguo dos vocábulos na psicologia. De fato. Os fenômenos emocionais. daquela história sem historiador que estava em vias de desaparecer nas margens da sociedade nacional. 4. pois é dele que deriva a crítica que precisamos organizar aqui. se não conseguirem expressar a unidade e a totalidade da vida instintiva e a ligação de cada . o tema do campo até hoje não deixa de nos despertar reflexão a respeito da sua história e das implicações derivadas do seu desconhecimento ou negligência para a sociedade nacional. como nos informa Elias. Neste sentido. neste autor. nada mais impraticável e ilusório. o autor orienta a sua conclusão para a seguinte reflexão: [. a “maneira como hoje falamos em impulsos ou manifestações emocionais leva às vezes a supor que temos dentro de nós um feixe inteiro de motivações diferentes entre si” (ibidem.] as categorias pelas quais essas observações [das motivações emocionais] são classificadas permanecerão impotentes diante de seus objetos vivos. O indivíduo como subjetividade em si é.

não é hoje exatamente uniforme entre as diferentes nações do Ocidente. Esta compensação. isto é. cuja perspectiva remete-nos conseqüentemente para a antropologia filosófica da modernidade. distanciar os estímulos – para Euclides. da superenervação. p. por suposto de que a religiosidade para Euclides ainda aparece como substituto de um “sentimento oceânico”. em sua forma expressiva em Canudos. especialmente das condutas éticas que embora referentes ao transcendente devem ser vistas como imanentes a este mundo. É que neste caso Euclides não poderia ir muito longe do argumento esboçado por Weber. sob o argumento de Euclides. seu tom e intensidade.. Colocados lado a lado. se Freud tinha com a religião uma crítica de princípios da . teremos novamente aquele problema da autonomia individual em conflito com as instituições sociais reposto. problematizado como pulsão (Trieb) no esquema da psicanálise de Freud. de uma sociologia da religião como forma de conhecimento do mundo social. como exemplifica Maria Sylvia de Carvalho Franco. Consequentemente. a agressividade [. 1994. precariedade agravada ainda mais pela “inconsciência” dos soldados patrícios. Para Euclides. e de que mudanças nessa função indicam mudanças na estrutura da personalidade como um todo. a religião era um fator de formação histórica. que se comportam tal qual mercenários no ataque e na dizimação dos seus irmãos. No exame que fazemos da religiosidade. Se para Freud aquele “sentimento oceânico” está vinculado à ilusão motivada pela religião. por um crime de inconsciência. cuja determinante estava dentro daquele complexo de “vicissitudes históricas” das sub-raças sertanejas do interior do Brasil. 190) Se atentarmos que Elias escreve aqui em contraposição à antropologia filosófica de Freud. mas. de fato. Nada mais estranho ao nosso autor do que. todavia. a inconsciência) que apresenta uma totalidade especial que deve ser informada pelo conhecimento. na notação de Euclides. talvez até o oposto.. em Euclides ele tinha como seu suporte a experiência concreta eminentemente histórica e política de um mundo com valores especiais que estava em conflito e em vias de desaparecer. não parece ter sido tão possível de se completar para o sertanejo – e parece com efeito ameaçada pela variante de Canudos – devido justamente ao mundo precário que circunscreve o sertão. nesse ponto diferente de Freud. O padrão de agressividade. ou seja. aos fracos laços sociais. já lidamos com o seu universo de expressão junto ao o campo das liberdades políticas como o suposto de uma compensação às adversidades naturais.] não é uma espécie separada de pulsão. No máximo. precisamente. só poderemos falar em ‘pulsão agressiva’ se permanecermos conscientes de que ele se refere a uma função pulsional particular dentro da totalidade de um organismo. ela supõe um desafio político que não se resume ao desencantamento da razão. a psique aparece sob a forma de uma consciência (ou a sua imperfeição e ausência. 194 tendência pulsional particular dessa totalidade. (ELIAS.

o fruto natural da consciência é com efeito a inércia: cruzam-se os braços com conhecimento de causa.. a questão da ilusão. para Nietzsche. para este autor. são ativos justamente porque são obtusos e medíocres. no sentido de uma pulsão de vida. p. 2001. A ilusão. 89). F. “uma mistura de dandy inglês superafetado com o que ainda resta do primitivo macaco darwiniano que. pois. isto é. da crítica de Nietzsche é. segundo nos informa Giacoia Junior. (NIETZSCHE. em Nietzsche. o ser consciente. O fruto legítimo. porque é puramente artifício.. que reage ao princípio de morte. no entanto. mas na história. no plano interior do qual ela se desenvolvia. para Nietzsche “o escrupuloso refinamento da consciência moral resulta numa intensificação patológica do sentimento de culpa.] então [. . não é completamente dessemelhante nem em Freud. 195 pulsão. porque em sua alma não vibram mais as forças vitais autênticas” (GIACOIA JUNIOR. Ainda de acordo com esse intérprete de Nietzsche. acontece em conformidade com as leis fundamentais e inexoráveis [. p. cuja “enfermidade o torna impotente para o que quer que seja” (ibidem. temos o argumento fisiológico aqui sendo ativado por uma chave que não se encaixa na biologia. Genealogia da Moral apud GIACOIA JUNIOR. entretanto. “o homem moderno é fraco. “o descomunal desenvolvimento da consciência e da faculdade de conhecimento implicou a teratológica atrofia de todos os outros órgãos vitais” (ibidem. com a formação do homem moral. Este tipo de viés. mas também agir de modo diverso” (ibidem. 91) Nada mais oposto e ao mesmo tempo em paralelo do que as palavras da psique de Euclides sobre esse tema.. exigiria uma reflexão histórica e política. todos os homens ativos. Nietzsche enfatiza esse aspecto da religião identificando-a. 91).] é completamente impossível não somente mudar o que quer que seja. p. porém. não morde mais” (ibidem.. 90). p. 88-89. contemporaneamente. nem tampouco em Nietzsche. Este homem culto. que hipnotiza o psiquismo e esteriliza o agir” (ibidem. 2001. Ou seja. Novamente. Seria aliás na sua crítica que o autêntico sábio se aproximaria da verdadeira consciência. 89). o tema da religiosidade abarcava. principalmente. p. Para Nietzsche. Desse modo. grifo do autor). p. a fraqueza do homem moderno derivaria precisamente do homem culto do século XIX. Euclides enunciava no tratamento da religiosidade sertaneja um tema que. Para Freud. pois “se tudo aquilo que ocorre. Os temas da autonomia e da liberdade aparecem. o cientista legislador racional. atua sobre a consciência de modo a criar um sentido alternativo diferente e conectado para o mundo em seu estado (precário) de coisas. Digo e repito com insistência: todos os homens simples e sinceros. ibidem). o homem culto do século XIX é apresentado como um doente.

Em realidade. 255) A partir daqui começamos a tomar posse de elementos para pensar a construção da figura de Conselheiro. um extremo conhecedor do seu meio. Euclides descreve Conselheiro como um “[p]aranóico indiferente. transfigurado por ilapso estupendo. A degenerescência de Conselheiro advém do fato do líder beato ter transtornado a psique sertaneja em função da sua individual paranóia e psicologia. este fortaleceu-o” (OS. da sua liderança diante de uma psicologia da luta. 255). retrógado. como a entender que somente pela psicologia nada se determina pura e simplesmente. diferente do homem culto e consciente da civilização de degenerados. mas degenerada. o que nos licencia a pensar que Euclides visualiza junto a Conselheiro algum respingo de cultura civilizada. p 255-256). p. que “não o isolou – incompreensível. é. e tendo uma função exclusiva: apontar aos pecadores o caminho da salvação. Ao contrário. (OS. Euclides nos oferece aqui a interessante posição de Conselheiro diante do homem sertanejo: Era o profeta. “Grande homem pelo avesso” (OS. certo. porém enviesada por uma “regressão ideativa” que lhe acarretou um fator degenerado próprio. para o homem do sertão abandonado. então. p. colocado sob a perspectiva de Nietzsche. inteiro” (OS. não necessariamente passava pela ciência moderna – e pelo seu respectivo homem culto – uma vez que o sertanejo era. a regra de semelhança da perfeição na identificação que pressupõe Euclides. o verdadeiro sábio. p. este dizer. o emissário das alturas. como é o caso. aquela clareza. caracterizando-lhe o temperamento vesânico. como opina Euclides. 255). símile e assimilada . encontrou nele a mesologia própria para que ela pudesse ascender. Euclides ainda nos diz a respeito do meio sertanejo. desequilibrado. ao que justifica: é porque “[a] regressão ideativa que patenteou. talvez. O meio não isolou uma degenerescência que. dotando-a de consciência não mais retrógada. seu ser é a sua “perfeita tradução moral”. quando por uma “anticlinal extraordinária”. dos civilizados. O estranho naquele ambiente viria. em sua psicologia especial. um caso notável de degenerescência intelectual” (OS. 196 indissociáveis da clareza da consciência. 256). passível do sofrimento e da morte. assim. mesmo não lhe possa ser ajustado. mas adstrito a todas as contingências humanas. Conselheiro reuniu na sua psique toda aquela psicologia especial. rebelde – no meio em que agiu. Conselheiro representa o limite e mesmo a subversão do homem simples e espontâneo. Mas. todavia. A própria religiosidade lhe era adequada e adulterada conforme lhe tenha sido necessário manter o princípio vital do ambiente. p.

]. grifo nosso). caminhante. nessa zona mental onde se confundem facínoras e heróis. [. arrebatado por aquela ideia fixa. sob a forma de um grande homem às avessas.. mas de algum modo lúcida em todos os atos” (OS. no argumento euclidiano. entre o consciente natural e o consciente civilizado. O “não foi além” ali acima transcrito remete-nos para uma intenção implícita. 256. (OS. Cristalizou num ambiente propício de erros e superstições comuns” (OS. A paranoia do líder beato em ambiente propício a erros e superstições – de consciência perfeita mas adulterada pela natureza.] impressionando pela firmeza nunca abalada e seguindo para um objetivo fixo com finalidade irresistível [.. p 256-257. pelo menos neste ponto do argumento euclidiano. símile dessa psicologia especial. . o espírito predisposto para a rebeldia franca contra a ordem natural[.. embora fortalecido pelo seu meio. e se acotovelam gênios e degenerados. p. uma inflexão política sobre como poderia ter sido diferente a história de Canudos. Euclides identifica Conselheiro como um adúltero da fé primordial e trágica do sertanejo. como vimos. 257). No entanto. expressa pela linha ideal que Maudsley lamenta não se poder traçar entre o bom senso e a insânia”. 197 da tragédia da seca no sertão. Era o servo jungido à tarefa dura. caso fosse diferente o meio e a sua psique. p. 256) Argumento inspirado a partir do livro de Maudsley. grifo nosso). Não foi além. “[s]atisfez-se sempre com este papel de delegado dos céus. no entanto.. Conselheiro poderia ter sido mais para o sertão. Conselheiro. “numa harmonia salvadora [. Conselheiro.. Conselheiro. e lá se foi. feito um flint glass ou dura rocha transparante – materializou naquela sociedade natural a sua psicologia especial expressa. não conseguiu transpor as suas barreiras e limitações. Em realidade.] cedeu à única reação de que era passível. nas fronteiras oscilantes da loucura. em vários pontos daquele ambiente dos sertões. Conselheiro torna as “crenças ambientes” como suas expressivas – desde o animismo. sobre o acontecimento de Conselheiro no sertão. Embora manifestasse uma “frágil consciência [que] oscilava em torno dessa posição média. até o antropismo e o breviário jesuítico. mas devido à sua “biografia [que] compendia e resume a existência da sociedade sertaneja” (OS. [p]arou aí indefinidamente [entre o bom senso e a insânia]. na medida em que encarna em sua pessoa uma psicologia de luta refletida. A degenerescência de Conselheiro advinha do fato deste beato ter tornado clara a revolta sertaneja contra este mundo existente. reformadores brilhantes e aleijões tacanhos.. Este limite.]. De maneira que parece existir. o líder beato passou para o lado do “gnóstico bronco”. Possibilidade em que seriam também diferentes os seus cristais de rocha. O fato de ter estacionado nas “crenças ambientes” revela que o líder beato. de sertanejo consciente. p.

mas que “[a]li. desde os contextos sociopolíticos mais amplos. diz respeito ao fato de que nesses grupos sociais o cativeiro está referido à escravidão histórica havida no Brasil. trata-se de uma relação analógica entre as situações concretas vividas hoje e o cativeiro (escravidão) histórico. grifo do autor) Ao que. em que pese o temperamento do beato que. a sua nevrose explodiria na revolta. escorado sob dois aspectos conflitantes. o seu misticismo comprimido esmagaria a razão” (ibidem. vibrando a primeira [a nevrose que explode em revolta] uníssona com o sentimento ambiente..] a expressão cativeiro aparece para designar ausência de liberdade ou. em torno da expressão besta-fera difundido entre os grupos camponeses de “miscigenação havida na frente de expansão [. insere a ressalva: “[t]odavia. grifo do autor). p. em alguma medida. formadas por pequenos agricultores de origem (mediata ou imediata) nordestina” (VELHO. estava disseminado em outras práticas de sentido . um binômio indissociável. A partir desse esquema inicial. observa Euclides. sobretudo através das expressões derivadas cativo e liberto.. (VELHO. 14. 1995. 14. 198 Conselheiro o adulterou de modo a fazer regredir aqueles sertões a um estágio degenerado. p. mas não uma normalidade da consciência racional. 257). 14). p. de libertação. a própria condenação de um louco. p. Uma das descobertas fundamentais. como em terra cativa e terra liberta. difundindo o segundo [o misticismo compressor da razão] pelas almas todas que em torno se congregavam. se normalizaram” (OS. p. no argumento de Euclides. quanto a isso. suas ideias nos posicionam sobre o sentido inicial mais estável daquela expressão.. Uma normalidade se obtém do sertão. Seguiremos aqui de perto para melhor analisar esse argumento os ensaios de antropologia das crenças religiosas de Otávio Velho (1995). o cativo e o liberto: [. “[n]ão [o] transpôs” (OS. todavia. até circunstâncias do quotidiano. à primeira vista.] da sociedade brasileira na Amazônia Oriental. em especial. Enunciado de onde entendemos a observação do nosso autor sobre Conselheiro. segundo o qual teria estado de posse da razão em algum momento. portanto. “[r]ecalcado pela disciplina vigorosa de uma sociedade culta. os dois termos formando. mas do desvio ideativo em “ambiente propício de erros e superstições comuns” (OS. Nessa medida. 1995. entretanto. 256). estacionado entre a inconsciência dos civilizados e a consciência trágica do ser natural. p. servindo para caracterizar situações as mais diversas. para os informantes [camponeses] é também mais do que isso. por ação da Besta- Fera” (VELHO. A liberdade que Conselheiro parecia incutir entre aqueles sertanejos era assim. 256). mais precisamente. Ambas as expressões são extremamente plásticas. ibidem). já que existe a crença na volta do cativeiro. Assim. 1995. Na análise que o antropólogo empreende. o reconhecido esforço de Velho se volta para tentar compreender de que maneira o sentido da besta-feira.. esclarecido do embate que enfrentava. junto às noções de cativeiro e de libertação.

“na figura dos vampiros e dos carros pretos”. Otávio Velho. aqui. Meses depois o episodio ainda era comentado. naquele contexto da Transamazônica. p. “à extraordinária ‘coincidência’ de ser o cativeiro bíblico para ele [Ricoeur] uma noção absolutamente fundamental para se pensar a condição humana” (ibidem. como categoria imanente ao fenômeno histórico observado. caminho curvo e tortuoso e sobretudo cativeiro. alvo não- atingido. “ele age por intermédio dos bombons que são oferecidos às crianças. em 1971. Assim. Ou. o mal constitui uma coincidência “de sentido contida em ‘símbolos’ pré-racionais como os que contém a Bíblia. certamente ligados à comitiva presidencial. é fornecida por um episodio ocorrido num povoado camponês quando da inauguração do trecho da Transamazônica que vai até marabá. como condição pré- racional anterior ao seu significante bíblico. Assim. Não deixa de ser curioso o contraste entre a visão nacional da inauguração a Transamazônica como um marco histórico e um efeito local que esse mesmo ato provocou” (VELHO. 199 que não remetiam. revolta. cuja técnica consistia em oferecer bombons às crianças para a seguir agarrá-las e chupar o seu sangue. inclusive. o mal para Ricoeur. o antropólogo refina a sua observação de que não deixa de chamar a atenção o fato do mal. apud VELHO. 15 et seq. p. tornando-se assim o cativeiro do Egito. 1995. ter vindo de fora. para Ricoeur. grifo do autor). 41 Assim. antes de toda elaboração de uma língua abstrata”. segundo o qual o mal implícito na expressão besta-fera deve-se. sentidos que tampouco reduziam-se ao passado histórico imediato da escravidão. p. 17). p. a partir da interpretação do mal bíblico de Paul Ricouer. em nosso material de pesquisa. a citação direta do texto de Ricoeur – extraída de O conflito das interpretações. p. na análise que realiza em seu “estudo de campo”. depois o da Babilônia. para o seu significado bíblico original (VELHO. em nota de rodapé o material observado pelo antropólogo de onde derivam as suas observações a este respeito: “Uma demonstração da atitude de desconfiança e de como uma ação política engendrada num determinado meio sofre necessariamente uma refração ao penetrar em outro meio. assim como. como absoluta exterioridade: o mal que se abate sobre nós na figura do inimigo” (VELHO. pelo menos não diretamente. No dia da inauguração da rodovia forma vistos atravessando a nova estrada na direção de Marabá grande número de ‘carros pretos’. cit. por outro lado. 1995. deixando-nos Otávio Velho. 17. constituindo-se inteiramente como parte e princípio dele. 1995. no caso. Estabeleceu-se um pânico generalizado com os homens se armando e as mães buscando os seus filhos. para Ricoeur. segundo nos resenha Velho daquele autor. grifo do autor).). 18. . observa que “esse mal do cativeiro e da Besta-Fera comparece. op. 1995. O mal aparece enfim. implicaria em “errância. 18-19). utilizando a expressão num 41 Reproduzimos. o autor discorre na demonstração desta hipótese. a qual pode eventualmente ser bastante inesperada. entretanto. o segredo da condição humana sob o reino do mal” (RICOUER. Imediatamente surgiu a notícia no povoado de que estavam chegando vampiros à região. Dessa forma. Coincidiu a época da inauguração da rodovia com a exibição em Marabá de um filme sobre vampiros que causou grande impressão entre alguns moradores do povoado que o assistiram.

19. bem pouca significação política permitindo emprestar-se às tendências messiânicas expostas. Nessa medida. os desgraciosos versos encontrados. Nada se eximiu à curiosidade insaciável” (OS. como ressalta o antropólogo. Valiam tudo porque nada valiam. põe-se de manifesto quanto eram elas afinal inócuas. 318-319). p. em lancinante relato. quaisquer escritos e. grifo do autor). p. a “hermenêutica” do mal na descrição feita por Euclides do conflito de Canudos. 13). no interior do seu sistema de discurso. nesse ponto acompanhado de uma reconhecida tradição de observação etnográfica. como também desliza para um segundo sentido de cumplicidade dos camponeses. à luz das observações feitas por Otávio Velho. gostaríamos de examinar. O rebelado arremetia com a ordem constituída porque se lhe afigurava iminente o reino de delícias prometido” (OS. lendo-as. O mal aí não apenas aparece como exterioridade na cosmovisão nativa daquele evento observado. vamos nos deter sobre a expressão “lei do cão” presente na caracterização de Euclides sobre o povoado de Canudos. 200 sentido mais rico. p. p. grifo do autor). o clássico distanciamento entre observador e observado” (ibidem.] diante de expressões tem mesmo marcado. “Ou seja. Esta fala nativa é apreendida nos versos de cordel. “quando nos últimos dias do arraial [destruído pela guerra] foi permitido o ingresso nos casebres estraçoados” (OS. mas de alguma maneira os seus cúmplices – a sedução (ou o cativeiro) agindo como elemento mediador entre o externo e interno” (ibidem. a fala do outro que ele então observa. em que a ortografia bárbara corria parelhas com os mais ingênuos absurdos e a escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado. refletindo o turvamento intelectual de um infeliz. p. num nível mais óbvio. e. “A vitória duramente alcançada dera-lhes [aos soldados da comitiva] direito à devassa dos lares em ruínas. Registravam as predicas de Antônio Conselheiro. Citado em trechos anteriormente. 318). o que mais acirrava a cobiça dos vitoriosos eram as cartas. “o estranhamento [. Para esta análise cruzada.. é interessante ressaltar que este é um dos únicos momentos em que a visão de Euclides sobre os eventos observados cessa e o nosso autor permite que adentre. Porque o que nelas vibra em todas as linhas é a mesma religiosidade difusa e incongruente. eles não são apenas vítimas do mal. Particularmente. eles resumiam a psicologia da luta. É Euclides quem nos informa. Na medida em que. . vamos à transcrição completa desse importante episódio na historia do conflito: Ora. observar o observador poderia nos disponibilizar uma rica camada de observações (sistema de referências) para análise do suposto real observado- descrito em Os sertões. onde foram despojos opimos imagens mutiladas e rosários de coco. principalmente. 318).. no mais pobre dos saques que regista [sic] a história. que [o mal] não nos é estranho: cativando” (VELHO. Pobres papéis. 1995.

Dispensa todos os comentários”. Em conseqüência. o que pensavam os sertanejos. com os “lares em ruínas”. Seria então possível. Vinha exatamente dessa devassa feita nos lares ignotos a vontade de ciência em função de cartas e papeis que pudessem informar a vida dos “singulares desconhecidos” do sertão: “a escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado. apresentam no entanto quase nenhum risco à civilização: “a lei do cão. (OS. porque somenos para as ideias claras da civilização. com os papeis da consciência nas mãos. p.. no entanto. p. 319. nesse caso. nesse gaguejar do povo. resigna-se a ver “bem pouca significação política permitindo emprestar-se às tendências messiânicas expostas” (OS. Copiemos ao acaso alguns: “Sahiu D. 319) Uma pausa para que possamos examinar o material por nós acima transcrito. descerra dos achados e pensamentos canudenses uma cumplicidade entre os homens e o seu fim: Prenunciava-o [o fim do mundo nas prédicas de Conselheiro] a República – pecado mortal de um povo – heresia suprema indicadora do triunfo efêmero do Anticristo. eles resumiam a psicologia da luta”.] gaguejar do povo” (OS. Consequentemente. Essa Bíblia. Euclides. Os rudes poetas rimando-lhe os desvarios em quadras incolores. obter a visão direta sobre a consciência dos sertanejos. “nada se eximiu à curiosidade” dos “inconscientes mercenários”. Pedro segundo Para o reyno de Lisboa Acabosse a monarquia O Brazil ficou atôa”. sem a espontaneidade forte dos improvisos sertanejos. p.. cada vez mais vinculado à sua regra de observador copista. A sua psicologia especial era mesma. 318-319. durante quase todo o seu conflito em Canudos. Resumia-lhe o programa. isto é. as prédicas de Conselheiro eram símiles fotográficos do “turvamento intelectual de um infeliz. Porque o que vibra em todas as [suas] linhas é a mesma religiosidade difusa e incongruente” (OS. ainda mais. cúmplices do seu próprio mal e da sua tragédia. . logo após a autorização para invadir o povoado já quase exterminado. rude e eloqüente.. deixaram bem vivos documentos nos versos disparatados. temos a observação de Euclides sobre o fato de que permanecia ignorado para as tropas republicanas. “deletreando” os “versos disparatados” dessa que é “a segunda Bíblia do gênero humano”. 201 ao que Euclides. que há. tinha também o seu espírito desviante e. A princípio. conforme anotado anteriormente. passim). o “rude e eloqüente [. a sua função de “simples copista” (psicografia). que deletreamos pensando. Tudo se torna dispensável.. Nosso observador afirma aqui. a segunda Bíblia do gênero humano. praticamente desconhecida na civilização. As linhas incongruentes do sertão. Este era o apotegma mais elevado da seita. a partir desses indícios na sua devassa. p. 318). como Renan.

seguida por Maria Sylvia de Carvalho Franco – mas. anotando tal como (pressupõe) um copista o que “deixaram [em] bem vivos documentos” a matéria do que pensavam os sertanejos de Canudos. tal como “livro vingador”. em revisão à história de Euclides. mas também para os “mercenários inconscientes” que pouco conheciam a vida daquele povoado. o grande estudioso de Canudos. Ali estavam. 101). A reduzida significação política precisa ser entendida aqui em seu horizonte semântico mais amplo. José Calasans. mas que “precisa ser revisto. de “deplorável situação mental”. nenhuma orientação política consistente com o peso relativo no qual se transformara a campanha. da sua natural tragédia. p. como de outros. cuja destruição estavam promovendo. define o seu objetivo de examinar o “importante evento. os homens a viver como sempre viviam. os sertanejos não seriam um perigo para a civilização. mas sobre as suas hipóteses. considerando-se a perspectiva histórica. Nada. sobretudo. Exatamente. que encontrou no livro imortal de Euclides da Cunha um depoimento de extraordinária significância”. Como sem esconder os equívocos da mentalidade do outro e a sua decepção diante do achado. Euclides não exime o seu juízo diante do material encontrado em Canudos. pelo nosso autor. No entanto. 202 passim). enfim. Neste sentido. Colocado sob essa perspectiva. Euclides não encontrou nenhuma consciência importante naqueles papeis. Se inicialmente a cumplicidade do mal parecia ser imanente à sociedade sertaneja. porém. cúmplices de sua própria natureza trágica. não sobre a sua veracidade histórica. responsável pelas melhores informações sobre aspectos desconhecidos da vida local do povoado na época de Conselheiro – sobretudo a partir da década de 1950. vamos nos deter um pouco melhor. Sem ser o nosso propósito discutir a verdade do discurso euclidiano. o principal estudioso de Euclides entre os três. Euclides encontra naqueles papeis uma “religiosidade difusa e incongruente” de “bem pouca significação política”. De fato. que o autor de Os sertões e outros escritores contemporâneos não estavam em condições de sentir” (CALANSANS. tendo em vista que o nosso autor já admite em “Nota preliminar” a alteração provocada pelo historiador para transmitir a sinceridade do evento. desde que essa não se tornasse cúmplice da sua loucura. tanto da parte de uns. 2002. naquela guerra travada no sertão. Calasans. a denunciar o crime da inconsciência nacional. na sua opinião. observando o seu sertanejo. ressalta uma observação crítica estabelecida. dirigida não apenas para os sertanejos canudenses. afinal esta teria a sua origem no próprio fenômeno catastrófico e violento do . contra essa visão do messiânico euclidiano volta-se Maria Isaura Pereira de Queiroz. no qual Os sertões parece querer intervir. os pormenores. dentro de novas técnicas de pesquisa.

neste caso. ao “imediato da terra”. Com esta observação. medievo. na medida em que “[e]stá na fase evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro” (ibidem. deriva o nosso observador que naquele povoado se “[p]regava contra a República. a ignorância de outro. pode-se observar que o nosso autor encaminha e estende esta cumplicidade do mal. p. apresenta para Euclides o retrato de uma desfigurada e indefinida consciência: Sahiu D. em correspondência aos estágios pelos quais se deve passar a sociedade. em um segundo momento. mas esta oposição “não traduzia o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como a monárquico-constitucional. 319) Como Euclides nos informa. “A República era a impiedade” (ibidem. a uma forma pouco especializada e praticamente primitiva de dominação – dominação evidenciada por um líder místico. Tivemos. De modo que se visualiza. 2011). p. e a curiosidade mórbida na devassa dos papeis dos rudes patrícios a confirmar a total cumplicidade no extermínio. 203 cataclismo. Nesse sentido. que é “espontaneamente adversário” das abstrações políticas. Não a conhecemos. o desvario de um lado. os sertanejos estariam vinculados ao natural. sob a forma de um crime de consciência. nesse sentido. Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. como Euclides nota. então. 316). uma sociedade velha. ressurrecta e em armas em nossa frente. em contrapartida. para a civilização. inopinadamente. . galvanizada por um doido. Não podíamos conhecê-la. porém. como seres de uma sociedade natural. para Euclides. cabendo. evidenciando talvez seu particular pensamento histórico. em tudo isso algo bem típico ao que se configurava em torno da historiografia europeia do século XIX – uma filosofia da história da consciência – que situa na sociedade medieval o antípoda da civilização das luzes. por esta via. carismático (BACH. ibidem). dirige-se não diretamente para os sertanejos. O juízo de Euclides. Os aventureiros do século XVII. também. Pedro segundo Para o reyno de Lisboa Acabosse a monarquia O Brazil ficou atôa. de evolucionismo das formas de poder. é certo”. entre os sertanejos o próprio Conselheiro não era visto como chefe mais do que mensageiro do grande chefe – uma teologia a indicar ainda mais a incapacidade de abstração política (consciência sobre a dominação) dos seus seguidores. Em realidade. os versos mal rabiscados encontrados entre os papeis de Canudos. de inconsciência nacional. em que pese o seu relativo fator político anti-republicano. (OS. Ambas lhe são abstrações inacessíveis” (OS. uma sociedade morta. Desse modo. ibidem).

dentro esses múltiplos agentes de síntese social.]. Nenhuma pressão poderosa – vinda do alto: do poder. p.. em confirmar o fato já pressuposto na sua hipótese de que a ordem social rural é desorganizada. 1922. ibidem).. p.]. Opinadamente. a mutualizarem os seus esforços na obra de defesa comum.. de forma a obrigá-los a um movimento geral de concentração e solidariedade [. 179-181. a [. 1922. faz o diagnóstico de que. Vamos ver no entanto. nota ao pé da página). cujas “expressões da solidariedade vicinal [. vinda de baixo – da classe inferior. também o espírito religioso forma poderosas associações de fanáticos” (ibidem. se reveste da santidade dos deveres sagrados” (VIANNA. mais adiante. nem um só sequer. que por serem “apenas impulsos”. 204 nela topariam relações antigas. da mesma sorte que os iluminados da Idade Média se sentiriam à vontade. portanto. Euclides parecia em realidade endossar a hipótese da restauração do 3o Império a surgir nos eventos de Canudos. cuja função integralizadora é tão decisiva na formação das sociedades européias. atua sobre os nossos clãs rurais. 179). no Brasil. Costume fraco. (OS.] carência de instituição de solidariedade social resulta do fato de que. p.] [a] assistência aos enfermos [. grifo do autor) Uma consciência não esclarecida. apresenta laços fracos e mesmo inconsistentes diante das rotineiras perturbações. desde o primeiro século até hoje. vinda de fora: do inimigo interno e externo – obriga os nossos mansos e honestos matutos. 316. de que é tão rica e prodiga a nossa raça” (ibidem. na análise desse suposto social teológico. porém. “turvamente intelectual”. patentes sobretudo quando um largo movimento civilizador lhes impele vigorosamente as camadas superiores. em certa medida. ibidem). Os sertões. Porque essas psicoses epidêmicas despontam em todos os tempos e em todos os lugares como anacronismos palmares. Ressalta. (VIANNA..]. ao que cita o livro de Euclides. sem programa político partidário.. neste século. segundo esta sua ótica. De posse dessas observações. durante toda a nossa evolução histórica. era o que aparecia nos papeis exumados de Canudos. desconhecidas nos grandes centros urbanos. como contraprova de que “[n]os sertões do norte. onde o “utilitário comum” raramente seria . como opina Vianna. contrastes inevitáveis na evolução desigual dos povos. que esta não era a opinião corrente na República e. passim) O apoio argumentativo que Oliveira Vianna solicita de Euclides visa. 179.. estas formas de solidariedade afetiva “não são verdadeiramente formas de cooperação social. p. onde é “costume de solidariedade entre vizinhos [. por fim... Como uma terra de aventureiros. duas décadas após a publicação de Os sertões. de ação em conjunto para obtenção de uma utilidade comum” (ibidem. entre os demonopatas de Verzegnis ou entre os Stundistas da Rússia. nos vêm apenas dos impulsos da afetividade e delicadeza moral.. costume que nas populações rurais.. Oliveira Vianna viria a retomar o argumento euclidiano – de inconsciência política das populações do centro-sul.

o que resultava em uma insolidariedade constitutiva e desagregadora da ordem social – característica do “senhoriato rural”. formavam o pequenino corpo dos governantes propriamente ditos. por tradição. viria confirmar a velha definição. sentimento e poder privados tão arraigados. Como estamos vendo neste debate sobre o pensamento social. o sertanejo carrega a consciência do trágico que constitui a vida no sertão. por interesse e por esse instinto conservador de todo poder. todos a constituir ainda gente sua. como as constituições. tornando-se um nativo daquela natureza. nesta mesma medida. representantes dela e por ela agindo nas esferas do governo. grifo do autor) . os letrados. Fora dela. uma verdadeira disparidade entre o pensamento que concebe e modela e a ação que o realiza. Vianna justifica a criação de um artifício. de pronto. (OS. por vezes ignorada e despercebida. em seu ensaio publicado em 1939. Valeria recuperar o fragmento a partir do qual desdobramos essa alegação: Ora. a fim de reverter e planear a “função integralizadora [que] é tão decisiva na formação das sociedades européias”. na medida em que a sua vida precária ele sabe-a rebater “de chofre”. A ordem privada e a organização nacional. os primeiros profissionais da política e que encarregados de ensaiar as fórmulas e as leis políticas. a história mais profunda. É esta penosa diferenciação política de uma sociedade de elos. de nosso processo político. transformada apenas pela cultura e pela educação literária da Europa. a se apoiar comprometido nessa ordem privada. 205 obtido de forma espontânea e natural. por sentimento. e a reagir. e dentro dela este teria de conseguir e formar uma futura sociedade política. os padres e alguns nomes da militança. Essa reunião de famílias. Afez-se. só os doutores. o sertanejo euclidiano não se qualifica exatamente pela sua insuficiência de laços. cedo. à falta de vínculos sociais mais gerais e amplos. mas de famílias que a si reservariam a propriedade senhorial e o monopólio do mando. guardando. ao longo da nossa análise de Os sertões. cujo domínio privado excede e. nada mais explicável do que este permanente contraste entre extremas manifestações de força e agilidade e longos intervalos de apatia. o Estado autoritário. entretanto. de Diderot de que o ‘Estado é uma reunião de famílias’. de chofre. torna-se base para a composição da nova sociedade política nacional – Duarte é quem faz a referência direta ao elemento medieval. 214. p. o sertanejo do Norte teve uma árdua aprendizagem de reveses. com tanto ranço medieval. assim. Profundamente distanciados pela cultura e pelas ideias daquela classe política dominante. (DUARTE. mas com ela. a encontrá-los. 96. p. a sua desintegração. Perfeita tradução moral dos agentes físicos da sua terra. essa ordem privada continuaria a ser a única organização de base e de estrutura superior do império [sic]. grifo nosso) Também uma leitura particular sobre o argumento de Euclides parece fazer Nestor Duarte. entre nós. 1939. O Estado. Seguindo ainda a trilha aberta por Oliveira Vianna que tomava o insulamento geográfico do interior como fato que contrariava a unidade nacional. supostamente presente nesta “sociedade política”: Como não se modificara a sociedade colonial. eles eram. seria a classe política do Império. a sua dispersão.

a República” (OS. por longa data. p. Por isso.. Na construção do seu argumento. o fanatismo de Canudos não é mais condenável pela sua tragédia do que a inconsciência civilizada artificial dos empréstimos de princípios – que por não serem princípios cúmplices com o meio são princípios desleais. que teria abreviado “ao conceito estreito de uma preocupação partidária” a história profunda que se desenvolvia espontânea e quase naturalmente nas regiões mais distantes do litoral. juntamente com a observação depreciativa de Euclides sobre o “fanatismo” dos canudenses. batemo-los a cargas de baionetas” (OS. p. esta sentença atribuída ao lado da civilização . a correspondência também assinalada por ele de uma ignorância igualmente histórica dos “singularíssimos civilizados” em relação àquela sociedade natural – “rudes patrícios mais estrangeiros na nossa terra do que os imigrantes da Europa [. Autor conduz a sua crítica aos partidários extremos da civilização das luzes. separam-no-los [sic] três séculos” (OS. foi “quando pela nossa imprevidência inegável deixamos que entre eles se formasse uma núcleo de maníacos. p. com arrojo digno de melhores causas. no âmago do país. Esta hipótese fica mais clara quando conjugamos. Esta é a tarefa central do livro de Euclides. por ora. como nos diz o autor. 317). 317). 206 No próximo capítulo abordaremos os efeitos políticos da premissa mal-resolvida de Euclides sobre os eventos do sertão. tudo que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações [. um terço da nossa gente. em que palejam [tornar pálidos os] reflexos da vida civilizada. mas vale o registro.. 317. e. de responder com “um espanto monstruoso comprometedor ante aquelas aberrações monstruosas. que não obstante a inevitabilidade da incorporação “à nossa existência política” daqueles “rudes patrícios” do interior ignoto. p. desta parte. p. de que a posição do nosso autor revela. [. que os abandonou de toda a evolução histórica da evolução social. parecia os determinar.] deixando na penumbra secular em que jazem.. como herança inesperada.] fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade (OS. A negligência do civilizado sobre os bárbaros. Iludidos por uma civilização de empréstimo. em relação à sua própria existência política. Ou ainda. respingando. tivemos de improviso.. acusados.. Ela não deveria prescindir do valor moral de indefinição antropológica do brasileiro. pois.] [p]orque não no-los separa um mar. 317). Este “traço superior do acontecimento” reorienta-nos ao “ensinamento histórico” cujo tema geral faz de Canudos uma variante: “Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo. em faina cega de copistas. 317-318). deve ser vingada. esta incorporação tampouco deveria vir a despeito da particularidade histórica e geográfica que. grifo nosso).. pelo menos como a entendemos. não vimos o traço superior do acontecimento” (OS. Euclides declara-se acima e consciente dos acontecimentos da história recente do país.

. os Bandeirantes do século XVII. Como registrado anteriormente. Este argumento será melhor considerado por nós no capítulo seguinte (“Duas linhas que levam o mundo consigo”). o fim do mundo estava próximo e ele era. na chacina de Canudos. para Euclides. de fato. e . cometido por esses mesmos grupos agora exterminados sobre os nativos autóctones. em 1902. coincidia com uma profecia para os sertanejos. em contrapartida. 131). p. 131) – dos lados opostos que se destruíam. p. que se auxiliavam no combate à invasão do patrício estrangeiro do litoral a querer lhe exterminar.. seria a de “fazer a revolução descer até ao povo já que não ascendera dela” (MS. no dizer de Euclides – durante os séculos iniciais da empresa colonial portuguesa. na qual os seres sociais ali habitantes pareciam se integrar. contudo vale notar que o seu registro aqui relaciona a ideia de que o mestiço do litoral reeditou. No manuscrito original guardado por Euclides. afinal. em outro momento remoto da história. Mais claro. podemos ler: Separam-nos duzentos anos. p. Porque o que é estranho e não lógico é que retrogradando ao estádio em que foram os nossos patrícios do sertão. mas esta profecia constituía. A cumplicidade trágica natural havia criado uma ordem social no sertão. o autor retoma este viés pela metáfora da Vendeia. grifo do autor). mas devia assumir uma feição mais elevada e útil. no entanto. uma resistência para a República. (MS. A luta era inaceitável.. segundo o nosso autor. lhe era de todo estranha. e uma ordem invertida àquela do sertão – destituída de cumplicidade entre os seres sociais – foi-lhes imputada. a consciência do povoado de Canudos quando incidia sobre a nova ordem que. Euclides parece confidenciar uma hipótese cujo efeito poderia ser ainda mais perturbador do que a sua premissa publicada: o crime cometido contra os sertanejos havia sido. revelava menos um perigo do que uma missão política a ser cumprida pela civilização. e mais densa! Nessa parte transcrita do manuscrito suprimida do texto que veio a público. O antagonismo é flagrante. O conflito. neste sentido. 207 sobre o crime de inconsciência cometido naquela região do interior da Bahia reedita. a mesma violência praticada contra os habitantes nativos – “população autóctone”. De vítimas. para afirmar a inconsciência mútua – “consciência imperfeita” (MS. o passado. Não foi o que sucedeu. no texto de 1902 de Os sertões.. o sertão passaria também a desempenhar o papel de cúmplice e malfeitor da sua própria chacina. sem o adendo de que a esperada e principal missão republicana. através da figura dos seus antepassados históricos. de Os sertões.. a República.. por nós já trabalhada em outro capítulo. 318. de tal maneira. 131) A cena do crime nesta percepção de Euclides torna-se mais clara. aplicássemos para subordiná-los o mesmo processo: dos Bandeirantes do século XVII. com verdade. “numa entrada inglória” que “[reabre] nas paragens infelizes as trilhas apagadas das bandeiras” (OS. p.

Sem participar do pressuposto euclidiano. Sebastião. A ignorância. na sua intenção de obter o perfil psicológico daquela população. cf. propor-se-ia a educar e a incorporar. Tarefa que. era extensa e mútua. Sebastião Coitado daquele pobre Que estiver na lei do cão!” (OS. gostaríamos de nos deter com relação aos versos ao seu efeito no discurso mais geral do livro em análise.42 Nesse perfil. CALASANS (1984).. como o próprio Euclides julgava. em sua paranoia. Nossa análise aqui.] “D. 208 assim a civilização “inconsciente” agredia aqueles que. tentando-se a posição de Euclides. p. Sebastião já chegou E traz muito regimento Acabando com o civil E fazendo o casamento!” “O Anti-Christo nasceu Para o Brazil governar Mas ahi está o Conselheiro Para delle nos livrar!” _____________ “Visita nos vem fazer Nosso rei D. Vamos aos versos: “Garantidos pela lei Aqueles malvados estão Nós temos a lei de Deus Eles tem a lei do cão!” “Bem desgraçados são eles Pra fazerem a eleição Abatendo a lei de Deus Suspendendo a lei do cão!” “Casamento vão fazendo Só para o povo iludir Vai casar o povo todo No casamento civil!” [. são imagens de uma consciência adulterada por um indivíduo que. . contamos com um conjunto expressivo de estudos que se dedicaram à tarefa de recolher e devolver ao contexto histórico esses versos. Para a consulta dos estudos desses versos. proliferou a crença da chegada do fim do mundo entre aquela população já acostumada com a tragédia em sua psicologia da luta. a referência histórica e natural de múltiplos fatores sobre 42 Atualmente. o que se vê. D. grifo do autor) Como já analisamos em outro momento. da pureza da observador. 319-320. não persegue exatamente trazer este contexto histórico mais do que a construção do argumento de Os sertões nos comunicando dessas manifestações da cultura popular para assegurar a sua prova e veracidade dos fatos. Nesta parte da análise transcrevemos da letra de Euclides a observação retirada dos versos de Cordel de Canudos. ao fim e ao cabo. para Euclides. Euclides atribuía à difusão do mito do retorno do encoberto. no entanto. nesse caso.. seria de um “simples copista”.

a ordem social estaria em melhor garantia se a consciência mediada dos indivíduos pudesse ser estendida para as raças. assim como também delimita o seu acontecimento na nevrose típica de Conselheiro.2 “Daniel vai penetrar na furna dos leões” Mais significativa que a reflexão de Nestor Duarte que transcrevemos na seção anterior. Obrigavam-nos outra luta. Esse complexo de aspectos foi amplamente determinante para o sucesso daquela crença. p. mas que precisava retirar as suas lições da ciência positiva. como prescrevia Euclides em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo. segundo se depreende de um exame contextual das observações transcritas acima. como observa Euclides. o insulamento geográfico do interior.. Entretanto enviamos- lhes o legislador Comblain. como sugere. Feito carrascos de nós mesmos.. fragilíssimos aqueles pobres rebelados. aquele “frêmito de nevrose que passou pelo sertão” muito pouco ameaçava o ideário da civilização: “Eram. parece-nos ser o trecho que transcrevemos abaixo. simultaneamente. onde encontramos o seguinte argumento: . posse individual somente dos objetos de uso”. de maneira mais nuançada. Ainda assim. e esse argumento único. p. numa “revolução [todavia malograda] par en haut feita através de um equilíbrio constante [ilegível] da lucidez e energia do governo com os interesses da sociedade” (MS. Havia. incisivo. como as bandeiras. Requeriam outra reação. na sua sentença. de “empréstimo”. Até agora. mais particularmente do socialismo científico: “Socialização dos meios de produção e circulação. p. a tragédia do cataclismo da seca e a psicologia da luta do sertão. realmente. somos sobreviventes da sua marcha e. grifo nosso). 209 os aspectos psicológicos da história do sertão. o ajuizado prescrito por Euclides segundo o qual estaríamos condenados à civilização: condenados porque. Qual seria? Na próxima seção (“Daniel vai penetrar na furna dos leões”) vamos recolher indícios do que poderia vir a ser esta outra luta apontada em Os sertões. a opção de outra luta que não a da bala. para os povos. supremo e moralizador – a bala” (OS. 320. em 1o de maio de 1904 (OC I. 195). o conjunto das observações acima nos auxilia a entender. 4. Euclides reconhece o erro político – o crime de inconsciência e a violência do seu ato – da República. Uma civilização que não deveria ser exatamente burguesa. cúmplices dos seus efeitos. naquele ambiente. 131). retirado daquele mesmo ensaio de 1939.

essa forma de organização social além de ser indisposta ao fenômeno político. eminentemente racionalizadas. Na nossa argumentação. Um povo político é. de um determinismo biológico sobre o social – de onde então dever-se-ia ser reclamado um movimento oposto. um produto histórico. de suposto determinismo racial. o que parecem acertar. é um argumento que apenas por um viés restrito parece derivar de Os sertões de Euclides. os intérpretes de Euclides. É ele uma das grandes origens remotas. 1939. não obstante a categoria racial seja para Euclides um referente “lógico e ontológico” a partir do qual derivam. atribuída a Euclides. pelo menos na nossa leitura. embora seja condição para o exercício de importantes direitos políticos nas organizações estatais modernas. Terá vivido certos acontecimentos e precisará. (DUARTE. em seu argumento. este referente racial tem uma realidade muito mais teórica do que verificável. não é a porta por onde um povo adquiriu ontem e possa adquirir hoje o sentimento e o espírito políticos. p. atingir a certa idade social e estado de organização que o predisponham à forma política ou que já a exijam como condição de sua coexistência e sobrevivência. condensado no seu aforismo “A nossa evolução biológica reclama a nossa evolução social”. se comporta como um conceito-limite. Como estamos apresentando. de criação forçada do social em virtude. além disso. outros diagnósticos sobre o social. A raça. o argumento euclidiano. justamente. de onde o autor deriva “Estamos condenados à civilização. A afirmativa é segura”. em virtude da fraca solidariedade dos tipos sociais brasileiros. apenas parcialmente sobre o ponto sustentado em Euclides. 93) Na corrente do que argumentamos um pouco antes. Ora. dentro de uma organização econômica hostil aos próprios requisitos e fundamentos do exercício do poder político. mas sobretudo da forma de organização social que a sua produção viveu ontem e continua a viver hoje. mais conceitual do que empírica na sua observação. Por talvez uma desleitura própria daquela década – e também da década posterior. a investida intelectual. pôde caminhar prescindindo do poder do Estado. a partir da década de 1920. Ou progredimos ou desaparecemos. A bem dizer. como comprova o ensaio de Nestor Duarte de 1939 –. antes de tudo. porém. mesmo. a partir da década de 1920. Não há antecedente histórico mais proeminente do que este na base da vida da nação brasileira. na nossa leitura apontamos que o institucional em Euclides da Cunha . O Brasil é um Estado com um passado contra. sobre o que é o definido a determinar o futuro da raça. Em que pese concordarmos com a leitura. em torno de uma ordem social que deveria ser criada e salvaguardada a despeito e. isto é. merece interpretação melhor matizada que não a de uma condenação imediata da história. 210 A alfabetização. entenderam o chamado de criação e salvaguarda do social – de fato presente em Euclides – como sinonímia da necessidade das instituições sociais. para o autor. próximas e contemporâneas ainda de nossa vida como organização política. das vicissitudes históricas mas biológicas da raça – aquele determinismo euclidiano não parece. ser tão imediato em relação ao que consiste esta criação forçada e. A inexistência ou não de um povo político no Brasil terá que ser deduzida desses vários fatores. neste sentido.

então. embora deixado para segundo plano na reflexão política de Nestor Duarte. 211 apresenta um horizonte semântico mais amplo do que. como Silvio Romero. Como já sabemos. de caráter eminentemente público. objetivamente. mas confia na escrita que se volta. em especial. a adaptação de todos os seres. resulta em princípio catastrófico contrário à salvaguarda das instituições sociais. tal como um suicídio político. está orientada para . que em Euclides se apresenta como pressuposto instalado em uma consciência e. a criação do Estado. Feita essa explicação. entre tantos. Euclides da Cunha. vindita. também. as lendas. a partir daí.. que deveria vir para que o complexo nacional das sub-raças sertanejas não desaparecesse. cuja variante deriva a campanha de Canudos. não nos deve chamar menor atenção o fato do autor retratar o ambiente sertanejo dotado de leis próprias e singulares – leis naturais da astronomia. para o pressuposto de apreender desse fracasso um ensinamento histórico. os rituais e as tradições – que teriam. Era tarefa da civilização manter vivos os seus bárbaros. para a civilização moderna. Em vista do apresentado. nosso objetivo nesta seção será o de averiguar em que medida a campanha de Canudos parece revelar. Embora deva se concordar aqui. como recurso para definir a sua “existência política”. de onde. nesse sentido. Alberto Torres e Oliveira Vianna. poderia trazer para primeiro plano aquela referência reclamada de Euclides – moralmente reivindicada por ele – de um amplo conhecimento das sociedades. conforme Werneck Vianna nos ensina. às margens da história. violência identificada pela ignorância e inconsciência. reclamando a salvaguarda das instituições. gostaríamos de lançar mão da hipótese de que.] de intelectuais. que a “obra ensaística [. o completo desconhecimento do outro. leis sociais do ambiente. das populações que permanecem distantes dos grandes centros urbanos no Brasil. histórica e socialmente. o sertanejo. Os sertões. Incorporar o sertanejo seria reconhecer a margem da civilização que ali se desenvolveu como uma sociedade natural. para Euclides. criado um tipo estranho ao ser civilizado do litoral.. em específico. O tema da educação. Euclides ensaia uma breve porém perdida chance de salvaguardar aquele estranho que a civilização ignorou. reclama a salvaguarda das instituições. ambos são tipos biologicamente idênticos evidencia que todos aqui seriam mestiços indefinidos. pela indefinição. na vingança que reclama em seu livro. tipo que biologicamente era indefinido como o era o litorâneo. eternidade histórica da seca. o livro de Euclides escreve sobre o fracasso dessa incorporação. na medida em que. No livro que escreve. atividade própria da psique. mas. em sentido mais amplo. em que pese o seu já sabido desfecho para o desastre. Para dizermos de uma vez e de modo geral. a possibilidade de incorporação do outro semelhante ao universo político nacional..

uma lei política que fracassava diante da necessidade de incorporação do outro do sertão. p. Na nossa tese. ibidem). Bonfim resgata o espaço pedagógico como um campo particular onde a psicologia poderia atuar junto à formação de valores modernos na sociedade. p. nesse caso. o conhecimento da existência de conflitos. parece-nos que. 212 a obra de conclusão do Estado Nacional” (WERNECK VIANNA. se “a linguagem da ciência não passa de uma retórica que legitima a sua intervenção sobre uma sociedade atrasada que deveriam civilizar” (ibidem. por dezessete anos (1896-1905. 1911-1919). Retomando aquele aspecto retórico da ciência assinalado por Luiz Werneck Vianna. Nesse sentido. posteriormente. proporcional. devemos manter no horizonte que a retórica científica propiciava. em especial. a história tem de ser investigada. Isaías Alves. Sob essa luz. podemos ainda assim pinçar matizes que separam o modo como cada um desses intelectuais entendiam se realizar essa conclusão. 2010. ou melhor desproporcionalmente. na precariedade da “lei do cão”. ibidem). de que. Estes testes seriam. 281). as de Binet. Euclides demonstra isto ao assinalar que. a confirmar em Manoel Bonfim. Ocupando. apud PORTUGAL. Este parece ser o propósito da psicologia de Bonfim: “Tanto como a linguagem. M. de tal forma que a partir de 1920 ele iria defender o evolucionismo simbólico. Viajou para a França no começo do século. ibidem). aproveitados por um pensador já do Estado Novo. tampouco o legal possa se resumir somente a um campo das leis do Estado. Embora de acordo com a observação de que o “país legal velaria o real. pelo menos em Euclides. 1997. pelo menos a princípio. 277). estabelecia entre psicologia e educação. crescia. escapando dos referenciais da raça para pensar a autonomia da consciência. por aqueles que desejem conhecer os processos da atividade psíquica” (BONFIM. introdutor dos testes de inteligência nas escolas com a finalidade de . gostaríamos de investir numa hipótese. cuja natureza a observação de tipo sociológico poderia esclarecer” (ibidem. com o interesse de travar conhecimento com as teorias psicológicas que estavam sendo desenvolvidas ali. esquecimentos e estranhamentos históricos ignorados no interior da próprio esforço pretendido pela civilização. o cargo de diretor-geral do Pedagogium – museu da educação criado por Ruy Barbosa – Manoel Bonfim se dedica política e profissionalmente para as descobertas científicas em torno da psicologia em sua relação com o pedagógico. o discurso psiquista no Brasil apresentou como uma das suas primeiras intenções “formar e informar a sociedade” (ibidem. p. estamos no exame de um deles: Euclides da Cunha. sistematicamente analisada. antes de tudo. 2010. 181). grande pesquisador dos testes psicológicos educacionais (PORTUGAL. chama particularmente a nossa atenção a aliança que Manuel Bonfim. como duas sociedades simultâneas. ainda na primeira década dos 1900.

Nestor Duarte não apenas vai na contramão das ideias pedagógicas de Manuel Bonfim. de uma realidade exterior social mais ampla. nosso informante a respeito dessa breve biografia intelectual de Bonfim. o Pedagogium. das florestas (cf. de fato. como pressupõe derivar do complexo indefinido do tipo antropológico brasileiro. em coordenar e controlar as atividades pedagógicas no país. integrar-se como um todo através da consciência. notificado em Os sertões. Museu cuja missão consistia. desvirtua a anterior e sutil reflexão de Bonfim a este respeito. Se o Estado era. A consciência aí assumia sinonímia de psique. para o ponto que apresentamos. sobre a natureza psíquica e a evolução simbólica do homem. por fim. p. ibidem). que eram: “a laicidade. Na nossa tese. este. HARDMAN. isto tampouco implicava para este autor que a civilização não teria nele o seu preço. a sua ascensão. Neste sentido. nos casos particulares dos seus desvios. são partes do indefinido racial. a gratuidade do ensino primário. em certa medida. 282). caberia agora demarcar que aquela proposta pedagógica sobre o social. se aproximava dos “princípios do projeto republicano para reformar a instrução pública” (ibidem. porém. o psiquismo euclidiano. o psiquismo e o pensamento social de Euclides da Cunha atravessam um caminho comum que se inclina. Princípios que expressam valores “orientadores da perspectiva republicana de modernização e civilização do país” (ibidem. Com isso. cabendo. sobre as propostas políticas de diagnóstico e tratamento das “doenças” no Brasil. p. 1996. de onde deve-se partir e. então. tem a sua hipótese bastante conectada com o reconhecimento. 213 dividir e uniformizar as crianças no ensino de acordo com a sua idade mental (ROCHA. 1995. de indefinição entre o biológico e o social. de “consciência imperfeita”. a perseverar no conhecimento da história e da realidade nacional – isto é. “em razão da sua crença na educação como solução dos problemas sociais” (PORTUGAL. Como nos informa Francisco Teixeira Portugal. em certa medida. sobretudo. 2011. 280). se de fato permite uma ambigüidade conceitual. por parte do indivíduo ou da pessoa social. para o aceite político do outro. também. mas também da natureza do interior. ibidem). encontra no museu pedagógico nacional. 2010. dos desertos. p. demovida por Nestor Duarte. deixaremos para o último capítulo este debate. MAIA. Contra esse sentido. a denotação de uma “psicologia especial”. a liberdade de ensino e a ciência como fundamento da organização curricular e do ensino propriamente dito” (ibidem. 13) – teoria que. que a evolução social poderia desbastar os outros semelhantes que. . por outro lado. BERNUCCI. uma realidade material a partir da qual a intervenção do Estado se faria necessária. reclamado por Euclides. não apenas dos valores dos mestiços da civilização de empréstimo. relativizada por Werneck Vianna. 2006).

solicitava o envio de três religiosos missionários da Igreja com a ardilosa tarefa de estabelecer contato e dialogar com os canudenses. “O homem” – vaticina a guerra que viria logo em seguida ao seu fracasso.. na tentativa de desviá-los da liderança de Conselheiro. no ano de 1895.] interferir visando dissolver o ajuntamento pela palavra de um missionário habilidoso” (ibidem. antecede estruturalmente a terceira parte de Os sertões. supremo e moralizador – a bala?” (OS. em consulta ao Arcebispado na época presidido por D. refere-se a um campo atingido pelo governo republicano. “A luta”. trata-se em realidade de persuasão intentada a dissolver o povoado erguido em torno da figura de Antônio Conselheiro. Uma missão abortada. citamos esses detalhes mais estruturais da obra com a . ao autor. ibidem). Contudo. Ainda assim. de fato. da oportunidade reclamada pelo seu artífice. analisamos como a caracterização do perfil de Conselheiro permitia. com razão. inserida nas duas últimas seções do livro que encerram a parte que se ocupa da antropologia do sertanejo. como se depreende. incisivo. Também esta era a observação de Euclides. para nos explicar porque a bala foi o argumento da civilização. isto é. do lado da civilização. O indício que Euclides nos deixa sobre este caminho tomado pela República. Isto é. tomada por uma outra instituição remotamente republicana. p. na época. Jerônimo Tomé. Euclides reconhece que a incorporação do mestiço do sertão seria fundamental para garantir a evolução social da nação. Como nos informa José Calasans (1977). p. s/p). justificar o “frêmito de nevrose que passou pelo sertão”. optou-se pelo “argumento único. recaindo em um “conceito estreito” de “preocupação partidária” (OS. de extermínio do seu outro semelhante. Euclides. Ao longo da seção anterior (“A lei do cão”). porém. a de que “o terço em vez do fuzil era a solução preconizada” (ibidem. Este diálogo. quando reconhecida como principal. é um limite de onde tudo deriva.. quando era iminente a guerra de Canudos. conta-nos da tentativa de “empresa mais nobre e mais prática”. e não apenas de Os sertões. o presidente da província da Bahia. “desde os primeiros tempos do caso Conselheiro muitas pessoas acreditaram que competia à Igreja Católica [. 320). porém. Rodrigues Lima. 321-327). em realidade. 317) avesso aos princípios da Republica. do modo como essa incorporação em realidade vinha sendo realizada. A missiva – descrita por Euclides com o irônico nome “Uma missão abortada” (OS. não permitia compreender o outro lado dessa história: por quê. a Igreja. mas defendido pelos seguidores de Conselheiro: a fé católica. Assim. se pervertendo em seu próprio princípio orientador. p. 214 Esta parece ser a principal tarefa euclidiana ao longo de toda a sua obra escrita. discorda. esta tarefa de incorporar o sertanejo tampouco parecia atrair compreensão para si. tomada pela República.

o frei João Evangelista falhou na sua tentativa de dissuadir. Euclides nos informa dos erros de orientação política nos quais a República caiu. 1977. a Igreja. condições sociais e econômicas. em matéria de geografia. 1895. no entanto. para o final da descrição do homem do sertão. no interesse de cada um e para o bem geral” (RELATÓRIO. o nosso autor reclama a personagem do apóstolo-profeta do Antigo Testamento deportada em cativeiro babilônico para servir ao reino estrangeiro de Nabucodonossor. armamento e. 215 intenção de ressaltar que não nos seria irrelevante o fato de Euclides ter deixado. s/p). CALASANS (1977). pois. RELATÓRIO. como informa José Calasans. Repercute para nós aqui o aforismo de Tocqueville. “o frade italiano não possuía as qualidades essenciais para levar a bom termo ação religiosa tão importante” (CALASANS. 1895). Com este efeito retórico. encarregado de presidir a missão “de paz” em Canudos. “A inteligência é praticamente inútil para quem só tenha a ela”. dele para o leitor. chama particularmente a atenção como Euclides procede. De fato.. Cf. estimulando os antagonismos já existentes entre Canudos.” (OS. do grave erro político que aquela missão incorreu. Para nós.43 Da chegada do missionário capuchinho. no processo de seleção e transcrição das partes do relatório que mais lhe interessavam. talvez aquela extensa e dilacerante terceira parte do seu livro nunca viesse a se tornar real. Desceu devagar a encosta. quanto do séquito de Conselheiro isolado em Canudos. Euclides relata: “[c]onsiderou por instantes o arraial imenso. numa “santa missão. justamente. o princípio de roteiro que levaria ao cerne do conflito entre o sertanejo e o civilizado. p. a Igreja. Esta reflexão parece proceder se atentarmos para o teor do relatório preparado pelo capuchinho dando contas às autoridades dos esforços “em parte frustrados” da sua missão (cf. caso a comitiva tivesse sido bem sucedida. 321). se por um lado. Não foi o que sucedeu. nesse caso. Na consideração da metáfora bíblica para narrar o insucesso da missão de paz. da extrema 43 Este relatório já foi objeto de extensa bibliografia que o próprio José Calasans nos é exemplar. habitação. de modo a criar junto do relato uma percepção orientada. o governo republicano e as oligarquias rurais. e apoiado no relatório de Frei João Evangelista de Monte Marciano. Daniel vai penetrar na furna dos leões. comum tanto do lado do auxiliar da ordem pública. e aconselhar o povo a dispersar-se e a voltar aos lares e ao trabalho. . meramente ilusória. ele insere a possibilidade de diplomacia a partir de identidades criadas pela linguagem religiosa. missionário apostólico capuchinho italiano. pois. Nossa hipótese é a de que Euclides parece sustentar que quanto à Canudos. incluindo Conselheiro.. s/p). A suposta identidade de linguagens expressa-se. muito menos publicada. o que é mais importante. embaixo. a missão abortada trata-se de relativo fracasso. teve também como benefício oferecer às autoridades um conhecimento pormenorizado da organização do povoado.

Descrevendo a sua chegada. já elles a uma voz chamavam: ‘Nós queremos acompanhar o nosso Conselheiro’” (RELATÓRIO. (RELATÓRIO. Esta devoção. e sinistro denunciavam consciencias perturbadas e intenções hostis. já deparávamos os prenúncios da insubordinação e anarchia de que íamos ser testemunhas. 1895. nos chama a atenção a forma como Euclides seleciona o relatório do frei Evangelista. o autor nos informa pouco sobre os contrapelos pelos quais aquele passou para encontrar o povoado. quando “ainda tão distantes. gorro azul à cabeça. O interior é immundo. a capella e a casa de residência de Antonio Conselheiro. garrucha. que de todo esqueceram e violam habitualmente”. O ar inquieto e o olhar ao mesmo tempo indagador. de extensão regular.Vimos depois a praça. etc. Usam elles camisa. Em primeiro lugar. construídas de barro e cobertas de palha. dramático. “comoviam-no [os missivistas] no espetáculo dos infelizes que acabava de encontrar armados . facão. a fim de explicitarmos com mais elementos a sua observação sobre aquele povoado. um cenário que. e os moradores. e que se fazem sentir por muitas leguas em derredor do referido povoado” (ibidem). ele nos informa: Passado o rio. criando. quando este sentiu-se à vontade para dialogar diretamente com Conselheiro. de modo a criar uma cena de extremado suspense cujo desfecho só poderá ser. offendendo a religião e perturbando a ordem publica” (ibidem). calça e blusa azulão. Este último aspecto impressionou o capuchinho a tal ponto que. poderia ser sentida já mesmo à distância do povoado. e não arruadas. Valeria a pena resgatar uma descrição completa do relatório do frei João Evangelista. quasi nus. sahiam fora a olhar-nos. conforme nos informa o frei João Evangelista em seu relatório. 216 devoção que os fanáticos demonstravam por Antônio Conselheiro. Mesmo quando “appellando para os sentimentos da fé catholica que esse individuo [Conselheiro] diz professar. dando aos Canudos a semelhança de uma praça d’armas ou melhor d’um acampamento de beduínos. com o objetivo de persuadi-lo para a dispersão dos seus seguidores. grifo do autor). logo se encontram essas casinholas toscas. Na chegada do frei. e ainda não acabava eu de falar. Os esforços da comitiva concluem-se inúteis e em certa medida catastróficos. como o foi. e nas extremidades. ladeada de cerca de doze casas de telha. em frente uma à outra. que curtiam. sua missão lidava “com as praticas as mais extravagantes e condemnaveis. 1895) Esta descrição pode nos auxiliar a entender a posição de Euclides em relação aos eventos subseqüentes de Canudos. na sua transcrição-seleção. attestatavm no aspecto esquálido e quasi cadavérico as privações de toda a espécie. que. em relação aos três missivistas. de porta. chamal-o e a seus infelizes asseclas aos deveres de catholicos e de cidadãos. alpercatas nos pés. “a capella e o côro enchiam-se de gente. À porta da capella e em vários pontos da praça apilhavam-se perto de mil homens armados de bacamarte. sem janella..

p.. o indício de todo o conflito que sucederia posteriormente no povoado. os diálogos entre as duas partes do conflito estavam inviabilizados. ao fundo da igreja velha: 8 redes de caroá sob que arcavam carregadores ofegantes passando. o “mal sopitado assomo partindo a finura diplomática nas arestas rígidas do dogma.] parece aprazer-se da visita” (OS. certo. sobre os religiosos em missão. rápidos. Sob a perspectiva de Euclides. e em nome do Sr.] levados sem sinal algum religioso para o cemitério. personificadono frei Evangelista. de pressionar em sua primeira oportunidade o líder popular Conselheiro a abandonar os seus seguidores em Canudos. logo destoando-se da arrogância e soberba das missas do frei João Evangelista. Euclides acrescenta a informação de que. falando diretamente a Conselheiro sobre a necessidade de dissolução de Canudos. p. 321). 323). solicitando “de ordem. 323). contraproducente” (ibidem. Se inicialmente existia uma linguagem comum. e o quadro emocionante daquela Tebaida turbulenta” (OS. Arcebispo. seja pela intransigência de outros. não teria. como se na cidade sinistra o morto fosse um desertor do martírio. ia abrir uma santa missão e aconselhar o povo a dispersar-se e a voltar aos lares e ao trabalho no interesse de cada um e para o bem geral” (OS. que não teria sido tomado nem por Gregório entre os bárbaros que historicamente hostilizava.] como previam [. decorreu-se logo “precipitação. como a quebrar esta diplomacia. não se equaliza. como o testemunho atordoado do frei na passagem de oito defuntos [. 217 até aos dentes.. o beneplácito de S. ibidem). Gregório – o Grande – a quem não se escandalizaram os ritos bárbaros dos saxônios”. todavia.. em tudo “[a]ntolham-se-lhe novas impressões desagradáveis”. indigno da atenção mais breve. Este viés de Euclides sobre a visita do frei já acentua a intenção de fazer os discurso entre o frei e os canudenses idênticos porque religiosos. ansiosos por alijá-las. p. Cerrados em dogmas. sendo o gesto de repreensão deferido contra o líder de Canudos “um desafio imprudente” (OS. seja pelo aspecto de fanatismo de uns. Em primeira oportunidade este frei. teria sido desperta apenas pelo aspecto convulsivo e mortífero da Canudos. colocando-os todavia já em direção ao desentendimento... o despreparo do frei para a missão da qual fora encarregado chama a atenção de Euclides para a imagem reflexo de Conselheiro. agora. 323). forçava Euclides a ver ali.. p. Nesse ponto. cuja “recepção quase cordial [. que permitiria uma proximidade entre os fanáticos e os missionários. 322) Em realidade. no prenúncio. A “intransigência”. p. uma quase indiferença dos representantes da ordem. a intransigência do frei. “Era a desordem . Este princípio de aprazia. (OS. em “interpelação decisiva”. sobre inútil.

mesmo quando do “ajuntamento temeroso” como a oprimir os visitantes missionários. “sob a placidez admirável. a mansuetude – por que não dizer cristã?” (OS. Com tudo isso. consentido o seu “de acordo” quanto à presença do capuchinho e dos seus outros dois acompanhantes religiosos no território de Canudos. torna a metáfora bíblica mais dispensável porque mais evidente no discurso de Euclides). à qual era de praxe a resposta: ‘Para sempre seja louvado tão bom Senhor!’” (OS. mais atraia fiéis. o beato sertanejo respondia “[e]u não desarmo a minha gente. quando instado pelo missionário a abandonar aqueles seguidores e a posicionar-se de acordo com “o prestigio da Lei. há de saber que a policia atacou-me e quis matar-me no lugar chamado Masseté. hoje não. p. Na observação do frei João Evangelista. ainda que ameaçado. 218 iminente” (OS. o frei capuchinho que. 234). Assim. autorizando a chegada da santa missão cuja missiva tinha. 322). na intransigência de se perceber que em Canudos se encontrava um outro princípio social. Mesmo quando solicitado a abaixar as armas do seu séquito durante a estadia daqueles visitantes religiosos. No tempo da Monarquia. Revma. com as suas “misérrimas habitações”. um certo ar de indiferença e resignação diante de todo aquele imbróglio com o frei que. Conselheiro se comportava diante dos arroubos do frei Evangelista como um embaixador que abriga um exilado. desde que sob as regras ali por ele já estabelecidas. Euclides parece atribuir ao comportamento de Conselheiro. em realidade. segundo Euclides. ainda assim. para onde os cristãos eremitas se dirigiram após a expulsão de Jerusalém. onde houve mortes de um e outro lado. Conselheiro explicava ao missionário que É para minha guarda que tenho comigo estes homens armados. “tinha a coragem de um crente mas não o tato finíssimo de um apóstolo”. insensível ao cenário que se lhe defrontava. Todavia. as percepções do capuchinho sobre os “fanatisados discípulos” de Conselheiro. porque não reconheço a República. quanto mais se evidenciava. p. p. Conselheiro parece se comportar como um líder de uma sociedade política. 1895). de quem “parte animadora saudação de paz” dos moradores de Canudos aos padres visitantes: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!. as garantias do culto catholico e os nossos foros de povo civilisado” (RELATÓRIO. deixei-me prender. 324). 324) Do ponto de vista euclidiano. mas também não estorvo a santa missão” (ibidem). porque V. uma “Tebaida turbulenta” (aqui. tem-se como resposta um gesto de diálogo de Conselheiro. a intenção de derrocá-lo através da renúncia. Desse modo. a referência à cidade desértica do Império egípcio. não poderiam levá-lo a experimentar outra experiência se não o princípio do engano. . porque reconhecia o governo. (OS. p.

faltando apenas ter sob as dobras do hábito a escopeta do cura de Santa Cruz”. p. ao que parece. “V. obedece às autoridades e às leis de governo. Como a desdobrar. desconhecimento e intransigência. se permitia sulcar de apartes a oratória sagrada” (OS. (OS. 325) o insidioso comportamento do frei.. se é católico. Ao que nos contemporiza Euclides: “Estes [protestos]. 219 não hesitou em fazer novas missivas contra a ordem de Canudos. alternando estas falas ignorantes porque desatentas ao outro. p. Ainda que reclamando o razoável da população de Canudos. líder pelo contágio das massas daquela psicologia de Sighele e Le Bon. com a metáfora. frei João Evangelista correspondia a um engano. é quem tem uma falsa doutrina e não o nosso Conselheiro!” (OS. ou no caso da concepção cristã. parafraseando a Prima Petri: ‘. precisamente os momentos de desrespeito. um dia. 2011). contudo. p. passim). à certa altura. em pleno reino de Nero. “[é] mau pensar esse. 324).” (OS. e todo o povo. ainda.Senhor. não tinham gravidade alguma. o frei estrangeiro: É assim em toda parte: a França. ainda. em contrapartida contrastante. nesse remoer de nulíssimas considerações políticas. deve considerar que a Igreja condena as revoltas e. aceitando todas as formas de governo. como reclamava a população canudense sobre ele. o típico líder carismático weberiano (BACH. Ao que justificava. 324) E será o próprio Euclides quem conclui: “Fr. 325). Euclides destaca alguns elementos em sua observação do relatório do frei João Evangelista. mas há mais de 20 anos é República. assistência onde prega sobre o trágico talvez mais central para o povoado de Canudos: a fome.. a uma resposta errada. por fim. foi monarquia por muitos séculos. nos seus ataques à Conselheiro. o frei missionário realiza. Entretanto. 324). violando velho privilégio. 325). 325) a vontade implícita do seu líder. Constrói-se assim em torno de Conselheiro. Apenas um ou outro exaltado. insciente da significação real da desordem sertaneja. ter sido suficiente o simples gesto de desaprovação de Conselheiro sobre alguma assistência proferida pelos missionários. Observa Euclides que . o qual observava “atenta e impassível como um fiscal severo” (OS. que é uma das principais nações da Europa. diz por si mesmo as causas do insucesso” (OS. o sacrifício do jejum. “[c]ontraveio. ou ainda. Revma. na sua observação. O frei. ensina que os poderes constituídos regem os povos em nome de Deus’” (OS. Paulo. Monte-Marciano. p. para que “os maiores da grei confirma[ssem] com incisivos protestos” (OS. sem exceção dos monarquistas de lá. p. é uma doutrina errada a vossa!”. 324. da diplomacia de Conselheiro. p. Euclides acentua. p. tal como “S. na descrição euclidiana. p. “inteira a estrutura anômala de propagandista.

(OS. Por que Euclides ignoraria tal expressão. sublinha-se na imagem de seita político-religiosa a figura do missionário diplomata.] . [.. porque nos outros logares tudo está contaminado e perdido pela Republica. mas que conseguimos até agora apenas subentender o seu efeito. Isto é.. “falando em corda na casa do enforcado. 325-326) Ignorando a cumplicidade trágica natural dos sertões. p. mas recusava o seu suposto efeito político? Antes de analisarmos essa questão. Pregando contra um crime comum praticado naquela região. parece-nos um exercício interessante contrastar as palavras absorvidas. talvez pura e simplesmente para se ocultar da lei. p. é comer a fartar!”. conforme informação de José Calasans (1977). A abordagem do frei. porque ‘podia-se jejuar muitas vezes comendo carne ao jantar e tomando pela manhã uma cháverna de café’ tolheu-lhe o sermão irreverente e irônica contradita: “– Ora! isto não é jejum. rogando os princípios da sua civilização sobre aquela outra sociedade. Uma dessas palavras que se repetem é a seita. em todo estranha por ali.] praticando o pregador sobre o jejum. talvez para expiação da culpa. p. o frei não apenas burlava um código suposto brutal porém comum do sertão. 326). 220 [. do relatório de frei João Evangelista e as palavras deixadas de fora no seu plano final de observação. p. o tema do homicídio. em sua última assistência. 326).. quanto queria fazer prevalecer a sua autoridade. “sem se furtar aos perigos da arrojada tese” (OS. espraiou-se em alusões imprudentes que temos escusado registrar” (OS. [já no quarto dia da sua visita] pioraram as coisas” (OS.. Por que escusar? Por que a renúncia em escrever? Embora não seja nosso objetivo desvendar o que pensava Euclides ao reclamar as suas intenções sobre o descrito. Após abordar inopinadamente Conselheiro. “reincidindo o capuchinho no descabido tema político. Inclusive. como define Euclides. 326). no que nos diz Euclides em seu livro. por Euclides. vamos às transcrições onde a seita aparece naquele relatório do frei João Evangelista de 1895: Os alliciadores da seita se occupam em persuadir o povo de que todo aquele que quiser se salvar precisa vir para os Canudos. talvez por ambos. que o frei recorre para descrever o povoado de Canudos. sem entretanto exigir demoradas angustias. na tentativa de persuadir o líder a abandonar aqueles que o seguiam. em frei João Evangelista. pela sobriedade. habitavam possivelmente em Canudos homicidas que tinham ido para esta localidade se refugiar. pedindo-lhe novamente o desarmamento e a renúncia do povoado de Canudos. O missionário publicava a sua palavra civilizada em irrestrito desacordo com os princípios que haviam se cristalizados em Canudos. o frei abordou. como meio de mortificar a matéria e refrear as paixões. ou quando muito. aceitava o aspecto de seita. antecipada em Euclides e presente no relatório do frei.

Um dos supostos de Euclides.. na apparencia despresivel. de modo a poder se adaptar aos recursos psíquicos que até aquela hora não haviam ainda chegado inteiramente a eles. imprecações e juras de vinganças.. por outro lado. incorporado. tomaram a entrada da casa em que eu me hospedara e onde já me achava. vomitando insultos. Ella faz logo retroceder ou tolera que entrem. no seu programa sobre Os sertões. (RELATÓRIO.. embora um retrógado. A minha missão terminara: a seita havia levado o maior golpe eu podia descarregar-lhe. [.. de modo a isolá-lo dos contatos com os “recursos psíquicos” transportados para as sociedades pela marcha da evolução social. [. estabelecida e intrincheirada nos Canudos... mas correndo grandes riscos. teria produzido também uma variante sobre este Outro em seu ambiente. principalmente.] A milícia fanática só dá entrada no povoado a quem bem lhe apraz. na descrição que realiza do homem sertanejo em seu ambiente natural – adaptado. não é só um foco de superstição e fanatismo e um pequeno schisma na egreja bahiana. a incluir aqueles que psiquicamente estavam alheios à civilização..... 221 Redobrou então a fúria daquelles desvairados. reagindo. ignorada pelas camadas letradas da civilização litorânea. até aquele momento. e ella de certo não logram fazer novos proselytos. o sertanejo apresentaria a “solidez física”. repelliste a visita da salvação: mas ahi vêm tempos em que forças irresisitiveis te sitiarão. é. De forma que. aos amigos do governo ou republicanos conhecidos ou suspeitos. além da vantagem de apprehender e denunciar a impostura e perversidade da seita fanática no próprio centro de suas operações. e a arrazando as tuas trincheiras. um suposto histórico institucional que contrasta e rivaliza com a inconsciência dos patrícios litorâneos.] Desconheceste os emissarios da verdade e da paz. Levantamos a hipótese de que haveria.. e.. Euclides reclama a evolução social a preceder a evolução biológica. era o de que.. para Euclides. teve ainda um benéfico effeito. esses podem viver alli.. odioso e aviltante.] denunciando o caracter abominavel e a influencia maléfica da seita. Neste sentido. 1895) No diverso desses contextos vamos tentar uma equação para o nosso problema. formada a partir da adaptação e assimilação de caracteres do ambiente pelo sertanejo – “perfeita tradução moral” –. [. tal como “rocha viva da nossa nacionalidade”. porém apresentavam fisicamente suporte para participar do seu organismo. e têm liberdade para se occupar de seus interesses.. braço poderoso te derrubará. [. Esta ignorância. Ele pretende que os esquecidos da civilização de . mas um tanto perigoso e funesto de ousada resistencia e hostilidade ao governo constituido no paiz. quanto aos indifferentes e que não se decidem a entrar na seita.. como vimos. um núcleo. dissolverá a seita impostora e maligna que te reduzio a seo jugo. criador –.. que foi o de arrancar-lhe inúmeras prezas.] A missão de que fui encarregado..] A seita politico-religiosa. a psicologia especial deste homem havia sido. [. em Euclides. mas trazendo-os em vista e prompta a expulsal-os.] [. desarmando os teos esbirros...

incapaz de reconhecer o outro semelhante existente no povoado sertanejo. Embora. em duas direções: sobre a República. inclusive. tornando-se algo partidária. ou seja. Temos indícios para pensar que a recusa de Euclides para Conselheiro tem como base. Investe. Antônio Conselheiro. não devemos ignorar o fato de que. Em carta ao amigo. posto que havia se estacionado na evolução retrógada da história. de 6 de novembro de 1895. deixando tão somente o “ensinamento histórico” como produto a servir de orientação para este dilema. Desse modo. Dr. por outro lado. é necessário levar em conta que se trata aqui de ensaiar uma conjectura para entender as condições sociais de leitura de Euclides argumentadas em Os sertões. o meu digno amigo das coisas da nossa terra? O que diz acerca dessa aura de esperança que agita as cabeças brancas dos velhos fieis. mas não como fundação política. Euclides não se esquivava de assinalar os crimes cometidos na campanha do exército republicano em Canudos. nossa impressão é a de que tampouco ele consegue estender essa mesma compreensão para o maníaco do sertão. em chacotas e ironias contra a miopia dos líderes republicanos que não percebiam o acontecimento de Canudos a insurgir ao seu redor. identifica a seita como partido. embora republicano. Euclides não condena necessariamente a fé e a religiosidade sertaneja. porém. Os dois lados opostos dessa crítica. Contudo. Por fim. mesmo nesse caso. Evidentemente. mas parece ser decorrente da politicagem que a pervertera fulminantemente. republicano e anti-clerical. entretanto. Temos assim um primeiro matiz a equilibrar as equações levantadas por nós logo acima. caducos cavalheiros . parecem se afinar em um limite comum: o problema da República não estaria exatamente nos seus ideais ou princípios. nada mais patente do que esperar de Euclides uma atitude de oposição ao movimento religioso e fanático de Canudos. em ter se estreitado e abreviado o seu conceito de política. Pois. o que ele condena. O modo como a integração seria feita particularmente. o que teria permitido o ressurgimento ali de um “influxo do passado”. mas também. Esse quadro resumido dispõe-nos para o seguinte: embora Euclides denote uma atitude compreensiva em relação ao homem sertanejo. um pressuposto do político que inviabilizava reconhecer naquele beato um valor positivo de fato. fundamentalmente. 222 tomem o seu lugar na história. não poupa o sertão da sua “deplorável situação mental”. identifica o erro da República na opção pelas baionetas. segundo a nossa opinião. Neste sentido. Brandão. é a “anticlinal extraordinária” que representa Conselheiro naquele ambiente. explicita-se a insatisfação de Euclides: O que me diz. Euclides é pouco claro e não especifica. há nuances. a crítica de Euclides sobre Canudos se apresenta. como um republicano. ao menos.

o Conselheiro. A população sertaneja completou a empresa do missionário. irresistivelmente. Monte Santo.. que o “missionário moderno [como o frei João Evangelista] é um agente prejudicialíssimo no agravar todos os desequilíbrios do estado emocional dos tabaréus”. que planeou logo a ereção de uma capela. monumento erguido pela natureza e pela fé. para o ocidente ou para o sul. p. 88) Também o sertanejo heróico. quanto às lideranças do governo representadas na figura do frei. porém. de aprendizagem de revezes. p.. apareciam letras singulares – um A.. dessa ignorância cúmplice. em relação aos aventureiros. 245). [... antes de Conselheiro – teria existido uma grandeza qualquer no território fundado por aquele batismo de sangue no alto da rocha. Euclides observa que. talvez tenhamos que lhe fornecer mais um. Ia ser a primeira do mais tosco e do mais imponente templo da fé religiosa. p.] E fez o templo prodigioso. o el-dorado apetecido. no fim do século XVIII]. Na realidade. do marco fundacional da religiosidade . 245. grifo do autor) Ao que continua. [.] atraía-os por si mesma. além dos aventureiros das minas de ouro e prata que se interiorizam naquela região. “Monte é um lugar lendário” (OS. em relação à Conselheiro.. É que em um de seus flancos. um L e um S – ladeadas por uma cruz.. dos civilizados e dos sertanejos – como decorria. No fim do século passado [ou seja. O erro grave de Canudos era não apenas da ignorância mútua – “inconsciência” e “consciência imperfeita”. na Pedra Bonita: a fundação de Monte Santo. Confesso-vos que a coisa será interessante e – porque não levar ao extremo a confissão – asseguro-vos que intensa curiosidade dá-me alguma vontade de que o absurdo se realize. (OS. respectivamente. 223 andantes da Restauração? A História tem também seus absurdos. 245-246) Nessa descrição dos primórdios de Canudos chama particular atenção o evento de dispersão e grandeza em torno do sítio lendário. Euclides reconhece que antes – isto é. capaz de vencer com mais dignidade e com mais brilho. (CEC. (OS. de modo a fazerem crer que estava ali e não avante. escritas em caligrafia ciclópica com grandes pedras arrumadas. Tenho saudades daquela minoria altiva anterior ao 15 de novembro. o “transviado encontrara meio propício ao contágio da sua insânia”.. De fato. a particularidade que teria criado os seus líderes. Para mim Restauração teria o valor de fazer ressurgir a legião sagrada mais enérgica e mais orientada. descobriu-a um missionário – Apolônio de Todi [que] impressionou-se tanto com o aspecto da montanha ‘achando-a semelhante ao calvário de Jerusalém’. p. há tanto republicano hoje. criando as primeiras estadias sobre o terreno. “se pervertera” do seu sentido heróico através da missão popular das “primeiras lendas” do “gnóstico bronco”. mais alto que as mais altas catedrais da terra. denotando aqui uma referência dupla tanto a Conselheiro.

mas brama em todos os tons contra o pecado. manipula diante de si simplesmente o apego vulgar ao . fungando as pitadas habituais e engendrando catástrofes. 224 sertaneja naquele batismo de sangue em rocha quebrada com o sangue de crianças (infanticídio). perverte-o”. distinto em tudo daquele missionário primeiro. abrindo alternativamente a caixa de rapé e a boceta de Pandora. esboça grosseiros quadros de torturas. p. tipo que “segue vulgarmente processo inverso do daqueles [primeiros missionários]: não aconselha e consola. apaga e perverte o que incutiram de bom naqueles espíritos ingênuos os ensinamentos dos primeiros evangelizadores. à ação do missionário moderno. Apolônio de Todi. em palavrear interminável. p. o missionário moderno uma farsa. 248). Surge das dobras do hábito a credulidade incondicional dos que o escutam” (OS. A política como valor moral de fundação. É ridículo. logo em seguida. alucina-o. em sua “deplorável situação mental”. Euclides detona o princípio da religiosidade sertaneja corrompida. recua ao lendário e cria nele um referente político. criando realmente um excesso ornamental. É brutal. qualitativo. não se confundiria com a politicagem dos cínicos. são personagens típicos representantes do missionário moderno. das seitas partidárias. dos quais não tem o talento e não tem a arte surpreendente da transfiguração das almas. Conselheiro. deprime-o. esbraveja. Ressalta Euclides... p. sobretudo. O plano das adjetivações sobre o missionário moderno se prolonga. dos demagogos. 248). nesse sentido. 247-248) Neste sentido. precisamente: Sem a altitude dos que o antecederam. Tem o privilegio estranho das bufonarias melodramáticas. Sem a majestade – aspecto lendário – do fundador. (OS. Não traça ante aos matutos simples a feição honesta e superior da vida – não a conhece. e é medonho. As parvoíces saem-lhe da boca trágicas. (OS. mas cujo efeito no discurso quer produzir uma ciência política em que possa assinalar na consciência – uma derivação psiquista – o estado de esclarecimento oposto ao da perversão. através do seu ataque ao líder religioso moderno. p. a sua ação é negativa: destrói. Euclides entende ser. diferentemente dos gestos majestosos. que é quem “alucina o sertanejo crédulo. bem como frei João Evangelista. extravagando largo tempo. de sacrifício fundador. aterra e amaldiçoa. portanto. não ora. 248) Nesta observação. dos que se pronunciam numa “algaravia de frases rebarbativas a que completam gestos de malucos e esgares de truão” (OS. diferenciando-a. É porque aqui as diferenças são de fundações. o aspecto coletivo que essa religiosidade primordial apresentava. Neste argumento. Este líder aliás. é traiçoeiro. para diferenciar a fé de Canudos em torno de Conselheiro da religiosidade sertaneja em seu princípio definidor mais geral. e espalha sobre o auditório fulminado avalanches de penitências.

Embora nada nos leve a crer – na verdade embora seja mesmo impraticável – que Euclides pudesse ter tido acesso à literatura freudiana. degenerescência confirmada pelo peso equalizante do mais remoto e lendário pelo que é mais fugaz e fútil no mundo. 4. O princípio da religião. me preocupado algum tempo com tal coisa. nossa intenção com . Euclides. Os contrastes dessa metáfora serão aprofundados em seção separada no próximo capítulo. afastei-me inteiramente de tal assunto – compreendi afinal que nesta terra a política é a ocupação cômoda dos desocupados e só tenho um arrependimento sincero e profundo na vida: o ter- me. o “sentimento oceânico” nesse caso é estabelecido pela tragédia da seca. Porchat: Continuo seguindo as asperezas de um estudo ingrato. de maneira mais geral. criando-se partidos mas não universalidades. em certa medida. um degenerado.3 Sociedade de pedras Na seção que abre este capítulo “Bestiário” discutimos a aparência ambígua e pouco precisa do conceito de Trieb em Freud e. Euclides nos faz supor que o oculto e o segredo do mundo são desencantados pelo profanar do demagogo moderno. Restaurando a metáfora de Freud. compreende-se que o meio sociológico que permite a “anticlinal extraordinária” de Conselheiro não se limita somente ao sertão. ao seu contumaz correspondente amigo. no pensamento social alemão contemporâneo a este autor. por ora. tendendo para um concurso sem esperanças. a consciência e a linguagem poderiam se relacionar com o “frêmito de nevrose que passou pelo sertão”. quanto a este juízo sobre a política do seu tempo. Em suma: o político inexiste no cenário onde a politicagem se espraia e contamina a todos. Perde-se a consciência natural pelo mundo dos artifícios. mas parece ser extensivo ao complexo da civilização – sendo então. bem como entender como a política.. 225 mais material. encontra-se em retrocesso e.. Quanto à política. mítico. porém. como já assinalado por nós anteriormente (“The mind’s eyes”). (CEC. não falemos mais nisto. 49) Assim. pretendíamos com esta informação nuançar o processo de incorporação do outro semelhante em Os sertões. lendário. em suas cartas expressa em mais de um ocasião o seu descontentamento com a política. p. Conselheiro. embora fracamente. dos objetos. Nesse sentido. tal como se evidencia na carta de 23 de maio de 1893. porém enquanto sentimento ressecado pela própria presença corruptora de Antônio Conselheiro. à “caixa de rapé” que segura com a mesma mão que abre a “boceta de Pandora”.

seja pelo viés pleno ou pela sua desviante patológica. p. embora sem os definir. resgatamos os primeiros passos do discurso da psicanálise precisamente para dimensionar este ponto de ambigüidades. ora ressaltando algum aspecto natural. No que roga ao amigo: “Deves convir que isto não é um sonho – a história está cheia de prestidigitações e eu não creio que a sua larga porta esteja já fechada à entrada dos . podemos conjecturar que se tratam aqui dos serviços da ciência e da técnica presentes no empreendimento da colonização do Novo Mundo. Euclides se pronuncia em carta de 22 de novembro de 1893 ao amigo Porchat a respeito da Revolta da Armada no Rio: Coloquei-me naturalmente. “as condições exteriores atuam gravemente sobre as próprias sociedades constituídas. Assim. grifo nosso). por parte da esquadra estrangeira – o fantasma do 3o Império”. O tema da consciência. que se deslocam em migrações seculares aparelhadas pelos recursos de uma cultura superior” (OS. espontaneamente ao lado da entidade abstrata – governo – porque repilo a perspectiva desmoralizadora dos pronunciamentos e porque entendo a salvação própria sendo um direito para os indivíduos é um dever para os governos. (CEC. para a imprecisão das fronteiras entre o biológico e o cultural no autor: usemos o caso de que nas sociedades civilizadas. Recursos. físico ou espontâneo do homem-animal (antropomorfo). por exemplo. os quais Euclides parece não fazer maiores considerações contrárias a não ser o fato de que este mesmo empreendimento agrava-se com a civilização de “empréstimo”. Por recursos ou aparelhos de uma cultura superior. para situarmos esta ambiguidade junto ao livro de Euclides. portanto. não obstante se declarasse “perfeitamente consciente” da posição que adotara diante daquela revolta. através da simpatia suspeita pela revolta. para o nosso autor. psíquicos e sociais do homem civilizado. Não apenas a sociologia. entrevisto nas cartas de Euclides. A comparação aqui se conecta à intenção de gerar contrastes. isto é. devemos ir direto ao seu argumento paradigmático. 174-175. Nesse quadro. parece de fato ser sempre retomado. 226 essa comparação residiu em um suposto mais teórico do que empírico: estamos aqui trabalhando com a hipótese de que o conceito de psique em Euclides produz uma linguagem cujos efeitos podem ser ambíguos. Agora. sobre os limites do biológico e do cultural do psiquismo na história do seu conceito e sobre o universo semântico psíquico em um contexto mais geral. 50) Curiosamente Euclides. resultando na inconsciência dos outros semelhantes. mas também a biologia encontrava seus limites pouco definidos quanto ao universo psíquico. usa uma hipótese de reflexão para sustentar a sua posição de um imaginário alucinado: “pressinto através da feição dúbia de alguns caracteres. a “inconsciência”. ora definindo o social e o político. p.

inserindo a ironia de uma crítica à elite letrada que. e prossegue o seu argumento. Agora para continuarmos nossa análise. sobretudo. 152). a gênese das raças mestiças do Brasil é um problema que por muito tempo ainda desafiará o esforço dos melhores espíritos. p. 50-51. ao seu entender.” E concluía: “Em suma. Ao que então pondera. 151). p. Em realidade. 151). meu querido amigo. grifo nosso).” (OS.] quer resultem do “homem da Lagoa Santa” cruzado com o pré-colombiano dos sambaquis ou se derivem. a rara lucidez de Trajano de Moura. Temos aí a reflexão de uma ciência nacional com limites profundos. aí. O que produz a consciência nem sempre se identifica com o que ela se apoia e se justifica. “a América como um centro de criação desligado do grande viveiro da Ásia central. Nessa parte.. Está apenas delineado” (OS. ele logo define a sua tarefa que. é sumamente necessária: “Adstritas às influências que mutuam. Entretanto. empregar a consciência indicava sempre optar pelo lado certo de uma escolha sobre um desafio político – mesmo se a sua justificativa pudesse ser errada sobre aqueles motivos conspiratórios. isto é. da segunda parte do seu livro. afinal. O autor em seguida pondera [. de alguma raça invasora do Norte. como o próprio autor define. três elementos étnicos. Ensinamento que parece ser. destacam- se o nome de Morton. passim.] rematado pela profunda elaboração paleontológica de Wilhelm Lund.. grifo do autor). e muitos outros cujos trabalhos reforçam os de Nott e Gliddon no definir (OS. a inteiriça organização científica de Meyer. 227 prestimosos políticos. 151. que alegava esta consciência. p. a intuição genial de Frederick Hartt. em graus variáveis. de se supõem oriundos os tupis tão numerosos na época do descobrimento – os nossos silvícolas. mas positiva. intitulada “O homem”. Erige-se autônomo entre as raças o homo americanus. esses limites não formam o caso de serem ainda mais cerrados sobre o nosso conhecimento de nós mesmos porque uma série de naturalistas e viajantes nos delegaram o seu conhecimento sobre o Brasil: [.. justamente pela opção do lado escolhido. a posição que adotei é perfeitamente consciente” (CEC.. do governo. deve ser frisado que Euclides aprofunda a sua reflexão sobre a história da consciência (ou inconsciência) sertaneja na sequência. A face primordial da questão ficou assim aclarada. consciente. altamente modificados por ulteriores cruzamentos e pelo meio. o nosso autor se pensava a tal ponto esclarecido sobre a sua posição. p. com seus frisantes . errando ou acertando. de um aspecto vingador sobre o presente e a história. a despeito do que “está apenas delineado”. p. Para Euclides. aqui entendida como temperança. “no domínio das investigações antropológicas brasileiras se encontram nomes altamente encarecedores do nosso movimento intelectual” (OS.

podem ser considerados tipos evanescentes de velhas raças autóctones da nossa terra. Se aquelas investigações acerca dos indígenas “enfeixaram-se. p. a primeira e única vez que Euclides cita o polêmico antropólogo baiano em Os sertões. mais que em quaisquer outras. Quais são estes dois outros elementos? “O negro banto. Euclides recupera os estudos de Nina Rodrigues a quem credita ter “subordin[ado] a uma análise cuidadosa a sua [do negro] religiosidade original e interessante” (OS. em algumas conclusões seguras” (OS. segundo opina Euclides. 152-153. porém lacônico e ademais remissivo para os estudos de outros autores. se os estudos da ciência já feita lograram definir a psicologia especial de um dos três elementos que compõem o complexo da raça brasileira. e o “fator aristocrático de nossa gens. “[o]s dois outros elementos formadores. “[n]ão precisamos revivê-las. do artigo escrito por Rodrigues sobre o tema do atavismo e a sua correspondência nas perturbações da personalidade. em que pese a confiança e os esforços da ciência anterior. Euclides renuncia a sua pesquisa. o português. do seu tipo antropológico brasileiro através da hipótese do inconsciente e do desconhecido. Sobre faltar-nos competência. não originaram idênticas tentativas” de conhecimento antropológico. através dos estudos daqueles primeiros naturalistas. Ora. filho das paragens adustas e bárbaras. em especial. no que ainda não é conhecido. grifo do autor). que nos liga à vibrátil estrutura intelectual do celta” (OS. Pois. ou cafre. (OS. grifo do autor). ter sido até este ponto “o nosso eterno desprotegido”. subtraia-se o indígena por ser tipo antropológico já definido. acima de tudo. 153. alienígenas. publicado originalmente como “Atavisme psychique et paranóia”. A despeito. Quanto a este tipo. A respeito do elemento negro banto. Euclides passa a entender que a sua iniciativa deveria vir sobre os outros dois elementos que receberam bem pouca atenção até aquele momento. homo americanus. p. Assim. ibidem). sobre essas investigações. p. se faz pelo exercício intensivo da ferocidade e da força” (OS. em relação ao qual “as investigações convergiram para a definição da sua psicologia especial” (ibidem. nos . 151) demonstram o valor positivo de conhecimentos repassados pela ciência. ibidem). inclusive. Do definido no indefinido da mestiçagem. 151) Euclides conclui. Esta é. estar esclarecida por observação prévia a “origem do elemento indígena”. onde a seleção natural. nos desviaríamos muito de um objetivo prefixado” (ibidem. apoiando-se para a sua definição consciente nos estudos já existentes levados a cabo por outros investigadores. De tal modo que. ainda que seguro. no que é inconsciente. “homo afer. de fato. p. Euclides pretende fazer a construção da sua hipótese investigativa sobre a gênese do homem americano. ainda. 228 caracteres antropológicos. p. 153). passim. neste ponto. com as suas várias modalidades”. O objetivo está proposto.

. pois sabemos. Lacassagne é a evidência para a nossa análise hoje de que o terreno entre o biológico e o social nas ciências sociais nem sempre foi tão demarcado e. 229 Archives d’Anthropologie Criminelle. que Euclides concluiu a redação do seu livro em fins de 1899 e princípios de 1900 (CEC. A publicação em 1876 da sua obra mais comentada por Euclides. não fazia mistério de suas ideias socialistas e inflamava-se como um jovem por todas as grandes causas” (DARMON. p. Assim. p. p. por uma questão cronológica. quando entendido. exploradores. alienistas. Inferimos isso. Ainda sobre aquela obra. sem garantir a hipótese. 116-117). 1991. de Criminologie et de Psychologie Normale et Pathologique. Lombroso se propõe a realizar uma imensa “coleta de informações nas obras de médicos. “A loucura epidêmica de Canudos”. para construir o argumento de Os sertões. Opondo-se às teorias de Cesare Lombroso sobre a psicologia criminal. como nos informa Darmon. nós tendemos a lhes atribuir. p. Suas investigações têm como propósito fazer “o inventário sistemático das taras e malformações da organização física dos criminosos” (ibidem. naturalistas. 44). A parte de biologia estava à cargo de Alexandre Lacassagne. a primeira parte intitulada “Embriologia do crime” está dedicada toda a situar o ato criminoso em sua dimensão universal. “dizia-se [à época]. particularmente atuante no campo que também participava Nina Rodrigues denominado criminologia e medicina legal. Exemplo disso é a cisão entre as perspectivas criminais de Lombroso e Lacassagne. e até mesmo de mirmecólogos e ornitólogos” (DARMON. L’uomo delinquente. nada nos parece supor que Euclides tivesse utilizado extensivamente outros estudos desse “investigador tenaz” (OS. etnólogos. Antes de prosseguirmos com o exame euclidiano sobre os tipos antropológicos valeria a pena resgatar alguns elementos que podem nos interessar nos Archives d’Anthropologie Criminelle. Assim. 39). autor de estudos sobre antropologia criminal. em 1902. autores da Antiguidade pagã e cristã. repórteres. A publicação dos Archives estava sob uma direção hoje para nós um pouco ambígua. 153). talvez valendo-se apenas do artigo de Nina Rodrigues de 1897. tem o mérito relativo de reunir “observações heteróclitas recolhidas em todas as encruzilhadas do conhecimento” (ibidem. Cesare Lombroso (1836-1909) foi oficial-médico mas. de uma imensa bondade. um tanto quanto arbitrariamente. não apresentava em suas definições de limite os sentidos que hoje. ibidem). 44). Praticava a caridade. 1991. p. antropólogos. por carta. porque dividida entre a biologia e a sociologia.

matá-lo e apoderar-se de suas reservas alimentares. Entre os animais existiria também verdadeiras associações de malfeitores. 44-45) Contudo. uma vez definida a universalidade do crime nos mundos animal e humano – como se a bios pudesse unificar os diferentes –.. como o mundo animal ou no mais distante dos mundos. excita-os. e nós. uma vez que afastado do estágio primário da natureza. 1991. [chamamos de] um criminoso nato” (DARMON. p. na segunda parte de L’uomo delinquente. Cita-se mesmo o caso de uma gata ninfomaníaca que se tornou criminosa quando estava no cio. como a reproduzir os eventos sociais em mundos outros. como a Rossolis e a Drosera. reputados por seu pacifismo. Três castores entram em acordo para armar uma armadilha para um quarto. por vingança. quando eles ficam saciados. as justificativas do crime no mundo moderno recaiam também sobre a sua formação histórica humana recebida nos primeiros anos de vida. o infanticídio.] que a criança representaria um homem privado de senso moral. Um cachorro que era maltratado por um dogue [sic] acumula uma porção de coisas boas no porão da sua casa. Cavalos. Neste sentido. exatamente porque o crime era uma lei universal é que surgia a hipótese do seu fenômeno poder ser observado e descrito no reino animal e no mundo dos homens. O autor. dos desconhecidos humanos. 1991. 45). designados então de “primitivos”. o que os alienistas chamam um louco moral. Lombroso consagra. entretanto. 45). Para o homem civilizado. o assassinato religioso. podem ser levados ao crime por paixão ou por alienação. a proposta de identificar os padrões da criminalidade hereditária. Nas palavras de Lombroso. a . Canibalismo. “Encontramos igual propensão ao crime entre os povos ‘selvagens’ ou ‘primitivos’”. A ausência da moral. Isto é. [que] devoram os insetos que elas atraem com seu odor. “o aborto. A confiar na pesquisa de Darmon.. o canibalismo ritualístico ou por glutonaria fazem parte da vida cotidiana como o homicídio por ‘cólera’ ou ‘vingança’” (ibidem. Entre esses povos. convida todos os cachorros da vizinhança para o banquete e. p. onde aliás também continuariam as mesmas práticas. Essa distância assim articulada conseguia ser justificada comparando-se o tipo de sociedade em que os povos industriais modernos encontravam-se em relação a outros povos. “consagra-se à anatomia patológica e à antropometria do crime” (DARMON. o crime “existe nos reinos vegetal e animal” (idem). esse ato corresponderia a um fenômeno natural cuja extensão no tempo e no espaço se inscreve na grande história do mundo” (idem). Em realidade. p. o assassinato de velhos e mulheres doentes. Lombroso tece considerações sobre “plantas carnívoras. contra seu inimigo. tal qual um nervo ou órgão que se decompôs e regrediu a um estágio inferior disfuncional. para Lombroso. 230 Longe de ser a expressão de uma desordem acidental. (DARMON. na busca por evidência de dados materiais da biologia humana que correspondessem a determinadas patologias psicossociais. movido por este propósito. esta determinação ou disposição do homem civilizado era “[d]e tal forma [. Assim. neste caso. p. infanticídio e parricídio existem entre as formigas. elefantes e vacas. era uma patologia grave da civilização. 1991. 45).

p. mas carrega dela o pressuposto de que. intactas. apenas teoricamente. “talvez não [. evidentemente descabidas e historicamente tendenciosas.) Euclides é novamente instado aqui e permanece em seu discurso ambíguo diante dessa percepção. Se Euclides renuncia às fantasias . mas por que e como sentimos não será melhor respondido por referentes empíricos do que teóricos. Contudo. 205). sem querer se embaraçar “nas imaginosas linhas dessa espécie de topografia psíquica.. como um antídoto para aquele excesso de especulação psiquista-biológica. verdadeiras e ilusórias” dos “desconhecidos singulares” do sertão (OS. ou traçando a norma verticalis dos jagunços” (OS. pensamos o seguinte: que todos sentimos algo. sim é um fato. Euclides pretendia. identificando esta corrente como de “fantasias psíquico-geométricas. não o é completamente para Conselheiro. a breve reflexão) de que a ideia de uma causalidade imanente entre dois referenciais disponíveis no mundo – uma dobra no cérebro seria motivo para um ato criminal – pode nos levar a formular preconceitos que são. de que tanto se tem abusado”. com a diferença de que no caso de Lombroso a empiria teria sido tomada como auto-evidente e submetida completamente à função teórica. como uma aleatoriedade unívoca do mundo material. todas as impressões. distanciando-se circunstancialmente da biologia e da anatomia fisiológica. 205). 204). “Reproduz[ir]. medindo ângulo facial. se é válida para os jagunços. p. ao que nos parece. preservar o aleatório como fenômeno próprio do mundo histórico e social. obtiveram suas justificativas e se disseminaram como um tipo de conhecimento naquele período. essa hipótese euclidiana. vamos deixar registrado o suposto (ou melhor. na justificativa do observador que simplesmente copia e descreve o que vê com os próprios olhos. preenchidos por materiais aleatórios e indeterminados pressupostos no mundo. na observação e descrição de Euclides. o nosso autor se distancia da errônea teoria.] compreendêssemos [os jagunços] melhor. Diríamos aqui que o problema deriva tanto da empiria quanto da teoria. p. (Contrários a esse tipo de determinismo. Ser simples copistas seria. que hoje se exageram num quase materialismo filosófico. paradoxalmente. Sem espaço para podermos desenvolver este assunto à fundo. buscar a sinceridade como auto-evidência do fato visto. 231 assustadora teoria anatômica e biológica de Lombroso acerca do criminoso nato força-nos à difícil tarefa de repensar os contextos em que tais ideias. Ele submete a escola de craniometria da qual Lombroso é mestre à sua letra crítica.. neste caso. A sinceridade do olhar do historiador deveria funcionar. Por outro lado. Sejamos simples copistas” (OS. a quem Euclides dedica uma sequência de biografia hereditária em seu livro. Sua intenção na biografia de Conselheiro é a de rastrear na infância do líder beato as patologias que ocasionaram a sua loucura.

que estabeleça com o misterioso e com o oculto uma condição de realidade. de retrato intacto – esta denegação da antropometria pode vir. ele não dispensa a noção de infância como metáfora da anterioridade. tornando-o mesmo quase um referente. Tarde apresenta um particular interesse pelos fenômenos sociais em suas respostas “celulares”. a especulação ou excitação mental como produtora da linguagem sobre o desconhecido. bem como das suas afinidades com outros autores que. entretanto. outra corrente da qual também se opina estar presente no contexto intelectual que reúne Euclides. porém sob o encargo da sociologia. 191. A especulação solicitada aqui pelo nosso autor é pelo “remoto” que determina a realidade. que eu adivinho e sinto o que não sei. mas que também pode ser o belo. Esses indícios são encontrados em sua perversão. Curiosamente aí Euclides parece admitir em sua ciência positivamente colocada um irredutível ao qual é preciso não se distanciar cientificamente.” (CEC. Parece que foi a . Sem podermos estender ampla discussão sobre Tarde.. Desse modo. p. Euclides não apenas recusava a identidade de um completo ateu. Tendo em vista o que já dizemos. que há alguma coisa que eu não sei. pelo indiciário. Também diretor dos Archives d’Anthropologie Criminalle junto com Lacassagne. como é o caso de Nina Rodrigues. da crítica de Euclides sobre este “materialismo filosófico” da física dos crânios.” (CEC. Singularíssimo ateu. o ideal. no sentido de identificar os verdadeiros indícios históricos e psicológicos sobre o tipo antropológico do homem do sertão. 2001) justifica-se na medida em que ela nos provoca algumas indagações sobre o livro de Euclides. é a sociologia “infinitesimal” de Gabriel Tarde. do hereditário a fim de compreender a sociedade e a personalidade dos indivíduos desviantes. grifo do autor). sobre o que confidencia ao amigo ser de fato tomado como de alguma fé. uma segunda reflexão sobre a crítica à antropometria em Euclides poderia se encaminhar orientada por um plano político. conceito-limite.. Referente irredutível que pode ser deus. a ressaltar uma outra lógica científica. “porque é na nossa superenervação. e é na nossa perpétua ânsia do belo. ser o seu copista. Nina Rodrigues e Cesare Lombroso. como também “na minha miserabilíssima e falha ciência sei. Esta longa incursão feita sobre o universo intelectual da antropometria (BLANCKAERT. grifo do autor). p... positivamente. conheciam a obra de Lombroso. 232 da topografia psíquica. 191. Como em carta confidenciada ao amigo Porchat e por nós já transcrita em outra ocasião. para a produção do conhecimento. vamos abreviar a exposição sobre o autor orientados pelo seu interesse ao que é reduzido. Se Euclides parece a princípio abrir mão da ciência antropométrica a fim de se voltar para a simples descrição do real – ainda quando tomado em suas “impressões – verdadeiras e ilusórias”. de maneira direta. e é no nosso idealismo sem fadigas.

tal é a bela fórmula que resume a teoria das funções do cérebro que nos deixou o filósofo contemporâneo.. precisamente. Euclides toma o sertanejo a partir uma dinâmica psíquica. La notion de localisation cérébrale. Vale recordar aqui que o argumento de Euclides orienta-se..” Tradução nossa do francês: “La biologie est dans cette lecture un facteur mésologique indispensable. não apenas o sociológico não se definia como o definimos em geral hoje. héritée de la phrénologie. Para Lacassagne. ex-praticante de uma antropometria à la Lombroso (RENEVILLE. Pour Lacassagne. A noção de localização cerebral. c’est le sentiment qui peut seul maintenir et consacrer l’unité des diverses fonctions propres à l’appareil cerebral. converteu-se em estudioso da criminologia a partir de configurações infinitessimais dos motivos criminais. da psique como órgão físico (neste caso. pela diferença entre o vaqueiro. Du positivisme. o 44 Tradução do francês: “Agir par affection et penser pour agir. Nas palavras de Reneville acerca do contexto intectual de Lacassagne./p. Como se pode ver. que hoje tendem a ser dissociados dessa disciplina – a despeito. Nesse sentido. para Lacassagne em realidade o discurso da biologia consistia em apresenta os fatores determinantes para o comportamento criminoso. o sentimento é só o que pode manter e consagrar a unidade das diversas funções próprias ao aparelho cerebral. le milieu social est ‘bouillon de culture’. a sociedade é basicamente uma agregação de indivíduos cujos sistemas nervosos não evoluíram de uma mesam forma. contagiosa e infinitesimal no sentido que a sociologia de Tarde entende essas categorias. O organicismo incita a nunca isolar os individuais do seu meio social. L’organicisme l’incite à ne jamais isoler les individus de leur milieu social.” Segundo explica-nos Marc Reneville./p. 2005. “A biologia é nesta leitura um fator mesológico indispensável. Elle remet en perspective les fameux aphorismes: le criminel est ‘microbe’. telle est la belle formule qui resume la theorie des fonctions du cerveau que nous a laissée le philosophe contemporain. 1902 apud RENEVILLE. Para Lacassagne. la société est en somme une agrégation d’individus dont les systèmes nerveux n’ont pas évolué de la même manière” (RENEVILLE. como o sentimento e a moral. ‘… lado a lado o biológico e social’ são ‘dois aspectos fundamentais da criminalidade’ e constituem por este motivo ‘os dois dados essenciais da antropologia criminal’. Do positivismo. Ela coloca em perspectiva os famosos aforismas: o criminal é ‘micróbio’. permite distinguir três regiões principais no cérebro: a área occipital é a fonte de instintos animais. da frenologia e do higinenismo. quando Oliveira Viana se propõe a investigar os tipos sociais rurais brasileiros. s. as áreas parietais governam a atividade enquanto a parte frontal é a sede das faculdades superiores. toma esta realidade psíquica a partir de um pressuposto estático. tradução nossa)44 Em outra ponta. 2005. que é menos estática mas sobretudo transformista. Lacassagne retient deux principes fondamentaux: l’organicisme et les localisations cérébrales.. própria do seu tempo. o meio social é ‘caldo de cultura’. no entanto. do tipo antropológico sertanejo. (LACASSAGNE. como o biológico incluía matérias. ‘. s. permet de distinguer trois régions principales dans le cerveau: l’aire occipitale est le siège des instincts animaux. no entanto.). Lacassagne retém dois princípios fundamentais: o organicismo e as localizações cerebrais. 233 partir desse aspecto que Lacassagne. Pour Lacassagne. de toda discussão na psicologia sobre os fármacos e dos estudos de neurolinguística. herdada da frenologia. estes limites entre o biológico e o sociológico são de fato amplos. apenas sugerido em Euclides. Já que também Tarde compartilharia a percepção. abrigados porém sobre o guarda-chuva – um horizonte semântico – do conceito de fenômeno psicológico. cerebral) responsável pelo contágio: Agir por afeição e pensar para agir.côté biologique et côté social’ sont ‘les deux aspects fondamentaux de la criminalité’ et constituent à ce titre ‘les deux données essentielles de l’anthropologie criminelle’. 2005). les zones pariétales régissent l’activité tandis que la partie frontale est siège des facultés supérieures. Ou dito por outra via. Comme on le voit. de la phrénologie et de l’hygiénisme. .

mas sem abrir mão do pressuposto psicológico da indefinição diante do que é determinante para um tipo de conduta social. 2000)..] fundar a distinção do necessário e do acidental [. sem atentar para a “química sentimental” que por fim parecia orientar as investigações do nosso autor. cristal de rocha em si.. como Euclides decide-se consciente. por entender que Não é preciso admitir [.. cuja regularidade se interrompe quando elas se encontram e se chocam ou se ramificam. de 1895. escolheu a bel-prazer..cit. 234 jagunço e o bandeirante. [S]endo descartada essa hipótese [do livre arbítrio].. embora as causas da transformação possam ser duvidosas. Sabemos que. a consciência não é são: a consciência é transparente. é suficiente crer na heterogeneidade. assim como o nosso. Há uma sutil percepção no nosso autor que tende a desvincular imediatamente o pensado do que era correto. não se furta de dissociar o determinismo histórico do determinismo estático: “[. de um livre capricho humano ou divino que. vista como uma cristalização do meio. p. Gabriel.. em contrapartida. Ou. formada a partir de um processo. a tendência predominante por ela desenvolvida diante desse conflito encaminhou-se para uma delimitação cada vez mais acentuada sobre os fenômenos sociais de representação coletiva. em toda ordem de fatos sociais e mesmo naturais” (TARDE.. Esta tendência encontrou na escola sociológica de Durkheim a sua principal repercussão (VARGAS. ibidem) Novamente. a característica que Antônio Cândido atribui à . colocados em perspectiva no domínio da consciência – como princípio político. simbolicamente.] é possível ser determinista e transformista como ninguém e afirmar a multiplicidade dos desenvolvimentos [históricos] possíveis. na autonomia inicial dos elementos do mundo [. 2000. op. poder-se-ia [. a tendência sociológica igualmente se desenvolveu. dos passados contingentes.. chama a nossa atenção aqui o debate no qual este autor. No Brasil. apud VARGAS. entre todas essas vias ideiais. Podemos dizer aqui.] a intervenção de um livre arbítrio. que o pensamento autoritário tende a enxergar nas cristalizações euclidianas uma suposta transparência lúcida. Tarde se aproxima daquela perspectiva da psicologia das massas que faz crítica ao ideário liberal jacobino. Como Tarde a certa altura nos informa em La Logique Sociale. agente e reagente no mundo. 194). Nesse sentido. em 1902. quando não inauguram em seguida o curso de uma nova série.] sobre a independência relativa das series causais regulares. Este parece ser.]. afinal. no caso da sociologia francesa.. o problema aqui é colocado sob o paradoxo da autonomia individual em relação conflituosa com as vicissitudes históricas.. imediatamente após a publicação do livro de Euclides. transformando um psiquismo ainda fluido em Euclides em corações de pedra. (ibidem. na medida em que esse princípio politico da consciência é interventor.

nessa medida. O seu realismo político petrifica o psiquismo ainda movente das rochas de Os sertões. de outra forma. como contraponto às suas tendências individualistas. o impreciso e a indefinição tomadas como referentes mais próximos à literatura que do saber buscado pela ciência. uma ação que pudesse salvaguardar o encontro de pares que. na medida em que a distância psíquica. esta ciência da indefinição foi. deixariam sob ameaça a ordem social e política nacional. em 1920. . com o pensamento autoritário. quando formulado no pensamento autoritário. perdia. É que enfim. uma realidade da qual se poderia intervir de forma direta e. aleatórios e historicamente soltos. por fim. ocupada pelo pensamento racialista. 235 ensaística brasileira – na sua perspectiva. o referente ignoto. onde a psicologia dos clânica e indefinida do tipo social mestiço demandava. forçada. anteriormente enunciada por Euclides. Como já colocamos em outro momento. progressivamente se isolariam e. o pensamento de Oliveira Vianna se desenvolveu em torno desse eixo. configura uma ameaça à própria vida da sociedade. a referência oculta para a primazia de uma voltagem objetiva. Dando razão ao crítico. para este autor.

como evidência para a sua observação social. a chegada das usinas de açúcar nos campos de plantações obrigou os empresários do campo – em sua maioria. colocando-os em relação histórica ao específico processo de modernização econômica desenvolvido nas regiões rurais. Maria do Socorro Rangel tem ressaltado em suas recentes publicações a atuação dos movimentos sociais do campo ao longo da história brasileira. Em realidade. DUAS LINHAS QUE LEVAM O MUNDO CONSIGO No que diz respeito aos estudos sobre o mundo rural brasileiro. em especial. 236 5. esta referência trazida aqui em nada nos parece ser particular e tem. em nossa história. 5. na atuação das Ligas Camponeses. tendo em vista que. Para o argumento que desenvolvemos no nosso estudo. ressalta aqui como essencial para se compreender a teoria política e o psiquismo que deriva a partir da sua referência em Os sertões. Nas sessões seguintes. A ideia de desterro. O foco de análise da autora reside. Euclides parece obter das metáforas de brutalidade e do extermínio da campanha de Canudos um efeito do estranhamento e do exílio a serem lançados sobre a vida dos habitantes do sertão e das cidades. apoiados em capital investidor estrangeiro – a promover uma violenta expulsão dos antigos habitantes do solo. uma quase invariância que lhe configuraria uma verdade. depois de experimentar o leitor uma intensa carga de leitura. na história do Brasil. o último capítulo parece ser . bem como indicar como a patologia psíquica em Euclides poderia atuar tanto como hipótese. Nesta seção. estes dois processos estão relacionados pois. em especial.1 “As loucuras e os crimes da nacionalidade” Chama a nossa atenção o modo abrupto no qual Euclides encerra o seu livro. Em realidade. iremos analisar esses aspectos. simultâneo ao processo de modernização canavieira no nordeste do país. amparado pelo ofício da lei sob a forma de escrituras lavradas em cartório. movimento de luta pela terra que se realiza. removendo camponeses de terras que habitavam historicamente há longa data. vamos analisar como esta variante pode ser pensada em Os sertões. para isso. como afirma a autora. O movimento de mercantilização das terras. forçou os moradores tradicionalmente estabelecidos no campo a um verdadeiro êxodo rural.

uma flor. longe dos povoados. Euclides aproxima o psiquiatra de uma análise dos criminosos inconscientes da civilização. Vamos a ela: Quem vê a família sertaneja. ou procurando alentos à vida tormentosa. transcrevemos o sétimo capítulo da última parte de Os sertões: Duas linhas É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades. jubilosos entre as lágrimas. fortes. 243) . mas também a genialidade. A terra é o exílio insuportável. vibram nos ares. prestes. estaca.. era de trabalho incerto. o qual Euclides parecia querer atingir.. entre duas velas de carnaúba. Para Maudsley. tinha como efeito encerrar em um mesmo campo referencial todos os comportamentos tomados como incomuns. para a nossa análise. como o crime e a loucura. O falecimento de uma criança é um dia de festa. ante o humilde monumento – uma cruz sobre pedras arrumadas – e. entretanto. p. Para isso. enquanto. p. orando pelas almas dos mortos queridos. rezando pela salvação de quem ele nunca viu talvez. para que não fiquem de todo em abandono. Nos lugares remotos. Supomos. p. como nos explica Sérgio Carrara (1998. o cavalo. operado por uma descrição ampla de sintomas que seriam interpelados em suas patologias. 781) Quais seriam os crimes nacionais? Por que Euclides insere o argumento de uma patologia mental organizada. à meia luz das candeias de azeite. ao cair da noite. (OS. para nós. passa vagaroso. a uma banda. coroado de flores. para a felicidade eterna – que é a preocupação dominadora daquelas almas ingênuas e primitivas. um ramo. talvez de um inimigo. no ultimo sorriso paralisado. lançada de forma irônica para o leitor nacional. a felicidade suprema da volta para os céus. Euclides insere novamente o tema central do seu livro: a sobrevivência do ambiente sertanejo. uma recordação fugaz mas renovada sempre. Ressoam as violas na cabana dos pobres pais. reflexão fundamental por onde parte a teoria política de Euclides. o anjinho exposto espelha. encanta-se. o morto um bem-aventurado sempre. Descrever o seu movimento. referve o samba turbulento. inumam-nos à beira das estradas. para que nos ângulos da cruz deponham estes. a cabeça descoberta. 237 mesmo uma armadilha. Vamos analisá-lo aqui à luz da metáfora do desterro. de um lado Conselheiro e a sua insânia e de outro os “mercenários inconscientes” que não compreendiam que o inimigo era o seu irmão. para o psiquiatra inglês. O culto dos mortos é impressionador. (OS. que entre crime e inconsciência. estabelecida no psiquiatra inglês Henry Maudsley. E o vaqueiro que segue arrebatadamente. 96). revisemos uma cena impactante sobre o lugar do exílio na metafórica euclidiana. as coplas dos desafios. a espiritualidade e as perversões (CARRARA. a degeneração era entendida como uma forma de alienação mental. 1998). A patologia. Assim. sempre. ante o oratório tosco ou registo [imagens de santo ou de objetos de devoção] paupérrimo. como argumento final do seu livro? Em realidade.

a que subira. era um antigo rancho abandonado. majestosos. como nos informa Euclides. como púlpito gigantesco. na serra Talhada. grifo nosso). 243. p. Sebastião. inexorável. anunciava. Um mamaluco ou cafuz. os últimos rebentos das formações graníticas da costa se alteiam. 244. teatro de cenas que recordam as sinistras solenidades religiosas dos achantis. esse registro feito quase em apelo para o visível através do sensível na descrição do ambiente sertanejo. ali congregou toda a população dos sítios convizinhos e. a humanidade ingrata. é prescrito por uma regra euclidiana: “No entanto. p. castigando. p. No resumo desses traços. em formas caprichosas. No termo de Pajeú. em que pese a sua carga emocional. logo em seguida à apresentação desse índice. o próximo advento do reino encantado do rei d. Euclides identifica os vínculos que teriam propiciado o surgimento de Canudos. com a sua “urbs monstruosa” (OS. p. não raramente. grifo do autor) . convicto. 244. um iluminado. grifo do autor) A descrição do espaço físico do povoado remete-nos para a concepção aventureira da sua formação geológica. em 1837. 238 De uma sensibilidade extrema. do que viria a se constituir o fundamento do povoado de Canudos. 298). entre muralhas e pique. Esses “traços repulsivos” seriam variantes. que a derrancam ou maculam” (OS. o sítio de Canudos. prenhe de fatos lendários. por exemplo. ou simplesmente um excessivo ornamental do seu texto. como. o grande rei irromperia envolto de sua guarda fulgurante. Por isso. como ficamos sabendo logo a seguir. (OS. engrimpando-se à pedra. mas desempenha a função de um índice a partir do qual os eventos humanos – históricos – poderiam ser posteriormente retomados e posicionados para se desenrolarem em uma nova observação. Vamos agora à transcrição completa do seu cenário. mas pela ação miraculosa do sangue das crianças. mas cumulando de riquezas os que houvessem contribuído para o desencanto. não a pancadas de marreta. (OS. p. esparzido sobre ela em holocausto. como já deixamos também anotado em outra seção. Localizada no interior da Bahia. 291) e a sua “população multiforme” (OS. esta descrição feita pelo nosso autor de maneira extremamente abreviada não se reduz a indicar uma determinação do meio sobre todos os fatores em jogo. Essa concepção aventureira é composta de entranhas e sinuosidades que abrigam. dominando. como temos suposto. toda a região em torno e convergindo em largo anfiteatro acessível apenas por estreita garganta. ergue-se um bloco solidário – a Pedra Bonita. aberrações brutais. Quebrada a pedra. citado por nós em capítulo anterior. nosso autor-observador nos informa: Este lugar foi. como também já ressaltou em outro trabalho Francisco Foot Hardman (1996). Contudo. o oculto da grandeza e o mistério do acontecimento em sua descrição. a região que mais tarde iria abrigar os seguidores de Antônio Conselheiro. há traços repulsivos no quadro desta religiosidade de aspectos tão interessantes. em Pernambuco. o ritual da “Pedra Bonita”. No âmbito daquele.

” (OS. (OS. origem remota de Canudos. Na sua sequência. especialmente daqueles derivados da religiosidade mestiça – do desencanto ou infecção da natureza que teve a sua resposta sob a forma de seita ou de partido em Conselheiro – Euclides persistirá com o argumento sobre a sua hipótese para a loucura da Canudos. como Euclides a definia. O sangue espadanava sobre a rocha jorrando. 244). pode ser caracterizada como uma diátese. futuro Canudos. indicando algum revolver nas ideias e. acumulando-se em torno. Com efeito. atrai a atenção do observador sobre a singularidade aquele ambiente: O transviado encontrara meio propício ao contágio da insânia. mas não apenas da sertania. era impossível a permanência no lugar infeccionado. não obstante mestiça. Euclides examina esta mesma religiosidade recorrendo-se a uma hipótese de observação psicológica: “Passou pelo sertão um frêmito de nevrose. “difusa e incongruente” de Pedra Bonita.. Assim. corporal. um intenso agitar de conjecturas para explicar o inconceptível [sic] do acontecimento e induzir uma razão de ser qualquer para aquele esmagamento de uma força numerosa. mas pela República. observa-se já o patológico indiciado naquela região. a partir desse momento de apresentação dos índices singulares do sertão. como veremos. p. Foi a princípio o espanto. nessa medida. 256). Antônio Conselheiro – “[r]epresentante natural do meio em que nasceu” (OS. depois de desfeita aquela lúgubre farsa. bem aparelhada e tendo . que se traduziu em atos contrapostos à própria gravidade dos fatos. “indefinida” e de “antinomias surpreendentes”. Canudos. 239 Com o lastro do desencanto logo ficamos informados pelo observador dos “traços repulsivos” que irrompiam naquela religiosidade sensível. remete a uma análise política). na descrição que Euclides realiza do sítio geográfico de Monte Santo. em seção de Os sertões intitulada “Desastres”: A quarta expedição organizou-se através de grande comoção nacional.. O aspecto orgânico. p. procurando-lhes a primazia do sacrifício. Em torno da ara monstruosa comprimiam-se as mães erguendo os filhos pequeninos e lutavam. permitiria que no interior do Brasil sobrelevasse uma “figura horrenda”. Sentido de uma vida que parece contaminar o mundo. “um grande homem ao avesso” – faz a referência a um sentido vitalista sobre aqueles eventos. e afirmam os jornais do tempo. depois um desvairamento geral da opinião. é Euclides quem nos explica a disposição de Canudos para a patologia (que. lugar infeccionado. em cópia tal que. mas da patologia facciosa da civilização.. para ele.. p. Em realidade. mas também genial – de Conselheiro. deveria ser compreender que este papel fora-lhe atribuído não pela sua natureza. Atribuir a Conselheiro o papel criminal. na psicologia da sua época. 244) Esta religiosidade de “almas ingênuas”.

Não existia. 735 e 136) Tendo em vista que a “História não iria até ali” (OS. ressurgiu. 727). (OS. ou mesmo representava uma sublevação contra a República.] A animalidade primitiva. Era um vácuo. Na desorientação completa dos espíritos alteou-se logo. Canudos torna-se uma crime da consciência nacional com diversos cúmplices. Canudos. 497-498) Canudos expressa a patologia na medida em que caracteriza o índice do qual é possível refletir acerca dos fanáticos. p. de remanente. “[a]pesar de três séculos de atraso os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades” (OS. certo. lentamente expungida pela civilização. Na medida em que Canudos é percebida como recuada.. Encontraram-na: os distúrbios sertanejos significavam pródromos de vastíssima conspiração contra as instituições recentes. um hiato na história nacional. Coonestara-o com a indiferença culposa. se agitavam esterilmente na propaganda da restauração monárquica. condensada depois em inabalável certeza. em roda. Era um parêntese. Uma vez que “lá não chegaria. armada até os dentes. E como nas capitais. há muito. não seria suficiente para sugerir que. tácita e explicitamente sancionadas . em cima da mísera sociedade sertaneja. p. uma loucura patológica porque sintomática da civilização. Nem mesmo o juízo remoto do futuro. O atentado era público”. revolucionários contemplativos e mansos. do mesmo passo fortalecida pelo anonimato da culpa e pela cumplicidade tácita dos únicos que podiam reprimi-la. a ideia de que não agiram isolados os tabaréus turbulentos. Conhecia-o. no entanto. Eram a vanguarda de ignotas falanges prontas a irromperem. ao invés do machado de diorito e do arpão de osso. a sua campanha brutal assinavala a República criminosa. [Canudos – uma diátese] Era preciso uma explicação qualquer para sucesso de tanta monta. Encontrou nas mãos. (OS. lá “tínhamos valentes que ansiavam por essas covardias repugnantes. em virtude do fanatismo e do misticismo bárbaro dos sertanejos. Por outro lado. Nada tinha a temer. a multidão criminosa e paga para matar. Mas a faca relembrava-lhe melhor o antigo punhal de sílex lascado. Desse modo a consciência da impunidade. Este conjunto de indícios. era um hiato.. convergentes sobre o novo regime. p. o conflito de Canudos inevitavelmente resultaria em morte e extinção. primeiro esparsa em vagos comentários. (OS. fez-se de tal circunstância ponto de partida para a mais contraproducente das reações. federal e estaduais. p. isto é. 734). uma cercadura de montanhas. 240 chefe de tal quilate. a espada e a carabina. o principal representante do governo e silenciara. 735) Diante do cenário que a República armara. Transposto aquele cordão de serras. bem como caracterizar de outra ponta a “revolução dos cochichos” da capital da República. Vibrou-a. ninguém mais pecava. e arrojou. meia dúzia de platônicos. inteiriça. a correção dos poderes constituídos. Desforrava-se afinal. em Monte Santo. em toda a parte. amalgou-se a todos os rancores acumulados. Canudos tinha muito apropriadamente. louca porque ainda cúmplice da consciência de impunidade e dos “mercenários inconscientes”. [. p.

narrados na localidade da Pedra Bonita. Por outro lado. de outro os cúmplices fanáticos da loucura de Conselheiro. nesse sentido. Temos então montado o cenário do crime: de um lado. Se Conselheiro e nevrose permitem ser indiciados no arquivo de identificação de Canudos. únicos que podem nos compreender” (CEC. p. Canudos era o cenário em que ocorria um crime de consciência com a cumplicidade de diversas ordens morais e de sujeitos. ou da biologia. no argumento euclidiano. Os abusos da campanha agravam-se justificados não pelo caráter da raça. mas pelo estranhamento estabelecido entre eles. apoiados na hipótese de uma ciência dominante mas inconsistente praticada pelo seu autor. os “mercenários inconscientes”. entre os dois lados. porque “nesta aterradora quadra de desastres [por que passa o país] é necessário que procuremos os irmãos de crenças. que o nosso autor ainda guarda o melhor do seu argumento sobre o porquê. Nesta mesma carta. como a craniometria. atrás da sua cumplicidade: “Creio que como eu estás ainda sob a pressão do deplorável revés de Canudos aonde a nossa República tão heróica e tão forte curvou a cerviz ante uma horda . Mesmo porque. para a reflexão de uma hipótese mais geral. para explicar o extermínio da sociedade sertaneja. isto é. se na nossa análise suspeitamos da fraca determinação do meio e da raça sobre as descrições presentes em Os sertões. fatos igualmente impressionadores contrabatem tais aberrações. grifo nosso) Parece ficar mais claro. 727). em paralelismo montado por Euclides com Maudsley e os crimes da alienação mental revelados nas desordens sociais. representantes da República. de 14 de março de 1897. há pormenores. não será o nosso intento substituir aquelas duas determinantes fracas por uma outra representada pela mania religiosa. 244. A regra dessa reflexão ele a confidencia. propriamente. a comunicá-los pela bala os soldados. isto é. ainda que se encontrem os traços repulsivos do ritual sanguinolento “que [recorda] as sinistras solenidades religiosas dos achantis”. cúmplices cônscios da impunidade. Nesse sentido. Euclides parece reter suspeitas dos elementos mensuráveis da raça. 103). De acordo com estas pode ir da extrema brutalidade ao máximo devotamento. A alma de um matuto é inerte antes as influências que a agitam. 241 pelos chefes militares” (OS. quando esta formava também “trogloditas civilizados”. p. Esta citação nós a encontramos em carta escrita em São Paulo. (OS. na intimidade das suas cartas. da sua tragédia – mas aparecia igualmente nas agressões da civilização. p. já que busca entender de maneira mais abrangente que a psicologia da época que formou o líder beato não era exclusiva do ambiente dos sertões – isto é. endereçada a João Luís. Euclides se desabafa ao amigo. as motivações que levaram a “alma ingênua” do sertanejo a se expandir e se insubordinar contra a República para um suposto depois da narrativa.

em carta de 23 de abril de 1896. Declarando-se homem da ciência. se por um lado. entretanto. cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. colocando-se como um homem de “fé republicana” distinto dos demais que praticam “politicagem”. em outra ocasião. Na carta. sobre a política. grifo do autor. Euclides desmonta a saudação otimista em relação à qualquer voto de felicidade. se fundamenta no contra-argumento da sinceridade. 113). a todo o instante. mas a sua resignação. desejando felicidade”. p. usam cartola e lêem Stuart Mill e Spencer – com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. (CEC. Nesta mesma chave. estado atumultuado e indefinível dentro do qual a normalidade. um ceticismo em relação às instituições. pelo menos como ele a propõe. 93. Aí vai um exemplo característico das torturas porque passa quem quer que ainda seja sincero ou antes ingênuo. 103). Em compensação. não através da história mas do ponto de vista de um sujeito. 87) É possível que tenha se estabelecido. confidencia ao amigo João Luís: Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas. nesta adorável terra. encontro-a no meu lar ampla. o autor se endereça ao mesmo João Luís com votos de “[s]aúde. confirma ao amigo: Quem vive nesta tranqüila e boa Campanha [cidade no interior de São Paulo] não pode ajuizar acerca do estado da nossa terra. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora. Na sua opinião. O conflito de Canudos e a politicagem dos concursos são colocados como exemplos de uma alienação observada em uma psicologia (entendida aqui como um espírito) da época. E assim vivo aqui nesta boa terra.” (CEC. 242 desordenada de fanáticos maltrapilhos. vastíssima – limitada pelos quatro ângulos da minha estante. de Euclides. p. Nessas comparações. definindo-se a si próprio como “um disciplinado mas não um submisso” (CEC. os ingênuos são em tudo derrotados. isto é. vivendo numa sociedade de pedras”. negrito nosso) Nessa carta Euclides dispõe em semelhança a sua particular experiência de uma rotina de estudos que o apraz com a politicagem dos concursos para a ocupação de postos nas escolas superiores do país. (CEC.. em Euclides. Em 9 de outubro de 1895. do não precisar despir-se da “rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho”. Um ano antes. a sinceridade é reclamada. Você tem bastante espírito para compreender as coisas atuais e dar-me razão. p. confidencia . incessantemente. consiste mesmo neste vacilar. narrando o seu desespero de estar “absorvido pelo estudo da Mineralogia. tal como uma metáfora que gera alguma representação sobre o sectarismo e o espírito faccioso que teria determinado o conflito de Canudos. para os que não se deixaram corromper ainda. ou pelo menos aos seus ocupantes. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e – fato singular –! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgracadamente tenho. também de São Paulo.. p. iluminada. a sociedade moderna – essa que nós também conhecemos.

definia uma teoria política do autor. dizia sobre a publicação do seu Os sertões: [. assustava-o mais “a bandalheira sistematizada” (CEC. De um ponto de vista da reflexão sobre o político.. E está nisto explicada mesmo a anomalia de ter permanecido engenheiro obscuro até hoje. 133) Fica clara aqui a hipótese na qual a sinceridade é reclamada como metáfora de uma reflexão política a reverter ou. distinta da que tem sido praticada até aqui.] alenta-me a antiga convicção de que o futuro o lerá. Nem outra coisa quero. Nesse sentido. orientado pela decisão de buscar um partido diante dos acontecimentos os quais narra. a compreender o “estado atumultuado e indefinível” que obriga a todos os ingênuos da país a vacilar no tumulto que a normalidade compraz. supunha Euclides. devemos recuperar o dilema político sugerido pelo livro de Euclides da Cunha. num regime cuja propaganda me levou até a revolta e ao sacrifício franco”. de um protagonismo em revelar para o futuro do país os males do seu presente. Quanto a isso. p. Não obstante. onde a ciência deveria se propor ao conhecimento e à incorporação do outro. em outra condição de leitura. embora o livro se divida em três partes distintas ainda que assemelhadas e comunicantes. de forma a examiná-lo como uma hipótese que. Vamos ensaiar esta análise partindo de uma reposição do livro de Euclides. 243 aos amigos que. 5. nossa visão sobre a sua estrutura desmonta esta divisão tripartite. porém. Euclides encontra no seu livro a expectativa de uma grande tarefa. embora os pretenda registrar feito um simples copista. 120). o conjunto teórico do livro se compõe não de três. mas .2 O pathos da psique Nesta última seção.. expressam também a sua intenção de se fazer incorporar socialmente entre os “irmãos de crença”. covarde e sanguinária. não obstante segredada. p. Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida – o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha. Mais particularmente.. Ou seja. (CEC. o observador vingativo indica o seu interesse no desfecho de um cenário político sobre os artifícios da “civilização de empréstimo”. pode-se supor que os fatos que Euclides observa. junto a esta expectativa. “terei o aplauso de uns vinte ou trinta amigos” (CEC: 134). quando menos.. “[a]ssusta-me qualquer conceito dúbio ou vacilante.

“O homem”.45 Isto quer dizer: embora a observação possa ser. teria como condicionantes do olhar o conhecimento prévio da bibliografia de antigos viajantes. que poderia dividir o livro de Euclides não em três mas em duas partes. Esse critério assim sugerido apresenta alguns “poréns” que necessitam.e. muito ao contrário. “A luta”. nosso autor resgata a sua condição de observador que se legitima pelo olhar de quem viu como legitimidade auto-evidente (auto-descritiva) para conferir aos eventos narrados a sua verdadeira sucessão. como um primeiro ponto de apoio para esta nossa análise. Euclides tenha se apoiado para produzir as suas descrições em materiais bibliográficos não necessariamente colhidos da sua observação in locu na campanha de 1897. Nem pura construção. quando nos diz que “o conceito de campo não se confunde com a ‘totalidade dos fenômenos construtíveis’ porque ele próprio não é pura construção. pelas perguntas que este observador pressupõe fazer sobre cada um dos referentes específicos tomados por ele. algo que não se confunde nem com o pensamento nem com uma discriminação material – um campo não é um território geográfico. Este universo.]” (LIMA. Assim. 42). como vistos naquele campo. em geral e em todo livro. em que se opera ‘a constituição do sujeito’. como observador. não à medida que ele internaliza certa forma ou privilegia certo conteúdo. a terceira parte do livro de Euclides não se diferencia estrita e unicamente pela condição do nosso observador em campo. 241). Em primeiro plano. remarcação anteriormente já sugerida por Glaucia Villas Bôas (2006. neste sentido. cientistas e naturalistas que se dedicaram a abordar temas variados relacionados ao ambiente do sertão. solicitado logo após o mundo empírico do qual o seu olhar se debruçaria em Canudos. emerge em suas descrições fundidas. 244 de duas partes que se opõem e se separam. (b) supõe o lugar em que o sujeito se experimenta. quanto para o que supõe ser. “O meio”. portanto. nem pura materialidade. ‘campo’ não é sinônimo de nação). O olhar que aprecia 45 Refletimos aqui à luz de Luiz Costa Lima. um problema sobre o critério da observação do que é observado. p. olha tanto para o que vê. . mas duas partes do livro de Euclides. como sabemos. e na segunda parte. 2010) e. valendo-se da observação como olhar. Devemos propor. isto é.. suspeitamos. i. Euclides. de outra forma. antes de assumi-los. na terceira parte. notando que na primeira parte. este critério do observador não parece reter a sua legitimidade imediatamente no seu contato com o mundo exterior. como referência para a produção de presença (GUMBRECHT... um critério a diferenciar não três. 1997. Como o entendemos. ser analisados. com o mundo dos fatos. p. No seu relato da empiria. ao mesmo tempo panorâmicas e perfiladas. o campo se localiza por seus efeitos: uma relativa coesão simbólica que agrupa coletividades (porque não se identifica necessariamente com uma comunidade. ‘campo’ supõe uma certa imanência. Euclides. como um modo de produção de uma hipótese da sinceridade – discurso de si a prevalecer sobre o observado –. a partir da ausência de conteúdos ou formas transcendentais [. mas. senão das suas operações de experiência do sujeito do olhar. sim. mas.

150). ibidem). mas que era. ainda quando Euclides admitia – “permita-me a expressão. está inteiramente do meu lado” (CEC. sob qualquer de seus aspectos. de que o ser. isto é. p. p. sobre aquela sua hipótese de sinceridade do historiador. 146). nesta terra onde não há . Em realidade. Sem expectativas de lucros.. 245 o resumo de outros autores parece não se apartar. “O que sobretudo me satisfaz é o lucro de ordem moral obtido: a opinião nacional inteira que. 147). Euclides parece atribuir demasiada concretude para o intelecto. p.] estou convencido que a verdadeira impressão artística exige. abrindo mão de todos os lucros materiais que disto me possam advir.. na ordem moral e na ordem física” (CEC. 143) – o “consórcio da ciência e da arte [que]. transformando-a mesmo em objeto do seu livro. fundamentalmente. uma ação prática sobre o estado político em que “vamos nos subordinando à falta de lógica. procurva também se cercar. nesse caso. a configurar o mundo material que lhe é destacado pela experiência do sujeito do olhar. de uma precaução que dizia respeito a um valor que é científico. então. político: “[. ao mesmo tempo. a comedida intervenção de uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente” (ibidem. para ele. que Euclides aceita a oferta de Pethion Villar quem gostaria de traduzir Os sertões para o francês. As três partes do livro contêm algo em comum que diz respeito às condições de observação. os aristocratas da linguagem” (CEC. aos permanentes absurdos e aos desconchavos deste planeta que certamente está errado. que não pretenda divisar entre o que vê e o que é. Sob a sua perspectiva. e estou pronto a firmar qualquer compromisso escrito. palmarmente [sic] está errado. não nos parece se destacar completamente das anotações bibliográficas feitas fora do campo. Na sua caderneta aparece também a presença do olho de quem busca ver. do suposto imediato atribuído à empiria. inversamente. ocupando a imaginação de um antigo [amigo]. afinal. Esta tecnografia produzida pela ciência social extraída do evento de Canudos sugeria. Se desconfiamos de tal altruísmo – já que Euclides insistia em obter postos mais dignos para a sua inteligência. nesse sentido” (CEC. como um cientista. é hoje tendência mais elevada do pensamento humano” (ibidem. Entre o olhar e o pensar. p. a noção científica do caso que a desperta – e que. no caso. Sua caderneta de campo. que não deriva somente de uma empiria. preenchida da observação na campanha e de onde se organiza sobretudo a terceira parte de Os sertões. pelos seus melhores filhos. Euclides se orientava por algum valor moral – mesmo que fosse pela boa ciência – impelindo-o a ceder “todos os direitos. Isto quer dizer: Euclides procura com o olhar atingir uma segurança teórica de si. onde dizia preferir “ser ministro nos breves minutos de um sonho. como destacamos. mas mais precisamente de um novo olhar. ibidem). mas. É com esta pretensão consciente. “[n]esta vida perturbada de commis-voyageur da engenharia”. para a consciência. o copista. de fato.

mas fixar pelo olhar a civilização de onde nasceu. (OS. Se o curso normal da civilização em geral os contém. regras da comunidade científica. Neste episodio de empastelamento dos jornais monárquicos ocorrido na capital da República. despertam no texto de Euclides a impressão de que o autor visualiza diante de si duas existências que se combatem: o bárbaro e a . 141) –. as partes do livro se distinguem entre si e a nossa hipótese é: esta diferença pode advir das condições do observador. Seu ataque à teoria repercutiu na sua reflexão sobre a nação. p. às vezes. moralizar) pelo olhar: “[É] preciso que deixemos la bête espojar-se um pouco. no ensaio À margem da história. eles surgem e invadem escandalosamente a história. sempre movido pelo esforço de descrevê-lo e entendê-lo como um reflexo dessa teoria que se confunde com o que é visto pelo olhar. p. de onde os arranca. como narrado no contexto de reação violenta à guerra. um quadro para exame no qual o mundo material aparece informado pelas suposições que o observador opera sobre ele.. quando escreve em 1900. como um livro que busca não exatamente educar. neste sentido. como em toda a parte e em todos os tempos. atacar (isto é. a fim de afiançar o seu olhar como valor de realidade sobre a história narrada. arrasta para os meios mais adiantados – enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura – trogloditas completos. símiles que se emparelham na mesma selvatigueza” (OS. pela reflexão teórica que organiza cada uma das divisas do livro. em aforismo hoje clássico. semelhanças que se irmanam entre os bárbaros sertanejos e os trogloditas civilizados. 501). e os manieta. p. Nesse sentido. Dessa forma. aqui. As cópias e as negações em descrever os tipos antropológicos brasileiros. e a pouco e pouco os destrói. com isso. p. no entanto o reclama em relação à sinceridade. de cínicos... claro-escuro indispensável aos fatos de maior vulto. 501) E não nos furtemos da intenção formulada por Euclides com a sua metacinética nessa comparação: “fixar de relance.. de que “somos o único caso histórico de uma nacionalidade feita por uma teoria política”. por outro lado. Os sertões pode ser lido. então o Rio de Janeiro. Também nesse ataque ele desmerece a teoria e a abstração. 138). e os inutiliza. de trogloditas civilizados. no ataque involuntário à civilização. Nada de exagerado idealismo: nada de escravização completa à Teoria e ao Princípio – umas coisas rebarbativas que estragam a vida e a dificultam” (CEC. nesse caso. sob o ponto de vista formal. a curiosidade dos sociólogos extravagantes ou as pesquisas da psiquiatria. e os domina. como estratégia de discurso em ambiente de hipócritas. sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno da coesa das leis. Euclides busca armas nos sertões e as posiciona no sentido da vingança. recalcando-os na penumbra de uma existência inútil. A força portentosa da hereditariedade. 246 mais altas e baixas posições. São o reverso fatal dos acontecimentos. Temos. Sua estratégia é vingar. Minado tudo” (CEC.

enfim. mas para se opor a ele como um conflito sobre a natureza teórica observada mas que estava inconsciente. 152). as condições de observação revelam que. entretanto. Nossa perspectiva aqui sobre essa divisão está compreendida. liricamente. na sequência a esse primeiro bloco duplo de descrições da natureza – “A terra” e “O homem – deveria vir. Entretanto. de teorizar sobre o outro social. embora atraindo a pedrada patriótica dos que por aí. “É o pensar dos que não desejam ser amigos ursos da Pátria. De posse dessa hipótese o nosso ponto aqui é o de que. a terceira parte. é corajosa. completa. Podemos perceber no conjunto teórico das primeira e segunda partes a teoria de um mundo natural completo em que pense a sua precariedade e o fato de ser ignoto pelo mundo civilizado. residem nesta divisão. este imperativo não poderia se reduzir a uma ideologia do pensamento. Este argumento não é exclusivo de Os sertões. a bem o dizer. porque a partir da sua imaginação de valor civilizado são confrontados modelos teóricos de vida natural. Para tornar esse mundo conhecido. como bem nota Werneck Vianna (1997). valendo-se dos estudos acima citados. antes de se valerem de uma exterioridade empírica para informar a sua oposição. Conflito entre um mundo natural e mundo civilizado. divisão também assinalada na pesquisa de Maria do Socorro Rangel. Para trabalhar essa hipótese devemos examinar o embate entre essas duas teorias – a consciência natural e a consciência política – presentes no livro de Euclides. caminhando sempre pela tração do oblíquo e pelo inconcluso – do armado –. Conforme trabalhado por João Marcelo Maia (2006). em Euclides. p. em detectar como o mundo legal e o mundo real. “A luta”. vingativa. dividindo-o na sociologia de dois sujeitos distintos: o sertanejo e o civilizado. lhe diferem. por uma duplicidade teórica presente no argumento de Os sertões como partes estranhas . sendo mesmo opostas. instala-se precisamente sobre uma teoria política que diferencia as três partes do seu livro. posto que Euclides o utiliza na intenção de autenticar uma sinceridade. a divisão do livro. cuja divisão. 247 inconsciência da barbárie. as referências que são lançadas para a sua funcionalização consistem em referências também conhecidas no mundo civilizado que. porque ignora qualquer dialética mais direta e simples. identificada no livro. entre os bárbaros. a oposição consciência e inconsciência arma a teoria de Os sertões. a terra desempenha um efeito de imperativo categórico (palavras nossas) junto à imaginação social de Euclides da Cunha naquelas duas primeiras partes. para a sua descrição. justamente. De maneira que. esta última parte não para definir uma síntese qualquer de um dos problemas levantados a partir da observação do mundo natural anteriormente descrito. a requestam. numa adorável inconsciência de perigos que a rodeiam” (CEC. poderiam indicar duas visões opostas combalidas entre um mundo real e um mundo legal. Essa teoria.

] não acredites seja apenas expressão sentimental – é um produto consciente. em que a sinceridade de pensar substitui outros requisitos que não possuo” (CEC. a despeito da sua psicologia de luta.. Vexando pelo pessimismo o espaço em que se vive. ridículo o título de filho desta terra depois da vasta serie de escândalos de toda sorte com que ela tem desmoralizado a História! Não digas isto ao Dr. que não conte nada aos grandes doutores. 105. mas pela oposição política contra o esnobismo. supomos. p. relativizando a consciência não pelas teorias das ciências antropométricas mas pelo ambiente no qual ele observava a “comédia republicana” (CEC. p. diferente do mal da civilização ao qual somente caberia se sentir condenado. confundindo-se mesmo com o chão. Esta visão se opõe ao ambiente sertanejo. porém. e explica o pedido rogado ao amigo: Aquele lamento [. A . onde o homem é incorporado à terra.. exprime realmente a mágoa mais profunda que tenho. passim. Acho. 102). a consciência da perda. 139). podemos talvez matizar o procedimento científico impreciso – que alguns autores denominaram como inventiva literária – que todavia. cuja consciência do seu funcionamento. Euclides sentia-se “verdadeiramente feliz notando que o meu livro. realmente. 248 e indissolúveis entre si. pelo suposto de que haveria uma consciência completa a ser encontrada em algum lugar. “aonde lamento ter nascido”. obteve vingança. ou seja. já que os mocos envelhecem cedo. (CEC. p. psiquicamente – têm como função apresentar um argumento científico para uma sociedade de doutores que. Euclides parece observar no fracasso da consciência do seu tempo a nevropatia dessa “engrenagem complicada das candidaturas”. em carta de 1 de abril de 1897. a psicologia civilizada da sua época.. Que tenham ao menos esperanças os velhos-moços. indica o “desapontamento que recalcarei como muitos outros” (CEC. a qual o autor parece compreender que para os sertanejos o mal lhe parece cúmplice mas também tem o seu acontecimento vindo do exterior. p. em especial. aquela divisão teórica – na realidade. Na civilização. a expressão de duas teorias distintas – organiza a hipótese de Euclides ao longo do seu livro. Ao lermos dessa maneira o ensaio clássico. isto é. A partir da crítica de valores. conformes dizes bem. 143). A inventiva aí corre não somente para o literário. atravessando a selva oscura [sic] das nossas grandes misérias. Euclides via- se “condenado à poeira das aldeias grandes desta terra sem cidades” (CEC. solicita aos amigos como João Luís. Brandão – não desejo que ele saiba que me invadiu este depauperante pessimismo. 121). Uma ironia parece derivar dessa frase. por oposição ao arrivismo da sociedade civilizada. p.. parece dispor-se na descrição de índices psíquicos e sentimentais que descrevem as duas teorias. grifo no original) A apatia e a noção de uma sociedade doente – pelo menos. se de outra arma não se valia.

se eleva ainda noventa graus e se dirige ao céu estrelado” (BLUMENBERG. grifo do autor). encontramos na fortuna crítica de Os sertões a uniformidade em se divisar “a justeza dependente do privilégio do fato. O crítico assinala. 216. Nesse sentido. Esta tarefa de inventário. bastando sermos capazes de bem observá-los”. no aporte de uma teoria da terra. Ciência que é entendida a partir do compromisso de conhecimento que resulta em Os sertões. Luiz Costa Lima (1997) é quem realizou em minúcias e exaustivamente o inventário das teorias científicas utilizadas por Euclides para a construção do seu argumento. com todo o afinco a estudar para um próximo concurso (ao qual ainda não renunciei). assinalando como a escrita de Os sertões está orientada pelo “domínio da ciência”. passim. que não passaria de uma idealização contrária à veracidade dos fatos”. pois encontramos naquele crítico o exame esclarecedor das leituras e desleituras realizadas por Euclides na construção do argumento de Os sertões. gostaríamos de complementar a crítica oferecida por Costa Lima sobre as hipóteses de Euclides e pensar de que maneira aquela divisão subsumia. onde “vemos projetar a ideia romântica brasileira de que. para constituirmos uma genuína literatura nacional. com o olhar erguido ainda a noventa graus em relação à terra. no fim quase de um mês. Costa Lima desfaz o mito literário de Euclides. Euclides pretendia elaborar e oferecer uma crítica aos mercenários desterrados da civilização. refletimos com Blumenberg que o “olhar não se fixa no horizonte espacial e temporal para aguardar e agir sobre o que vem. pois. da observação. p. Euclides declara que os fatos falam por si. 249 tentativa de ver o mal era o que dava sabedoria ao sertanejo. duas teorias sobre a vida social. Naquela sequência em que vexa a Campanha de Canudos à sua campanha profissional. em carta a João Luís de 23 de abril de 1896. confidencia Euclides ao amigo: Comecei. no seu argumento. Assim. era preciso desenvolver o uso do olhar” (LIMA. tomada por Costa Lima. 51. senão que. porém – começou a dar-se o seguinte: o cidadão A. da experiência e da indução” implicando no “desprezo pela teoria. nós não a refizemos no corpo deste trabalho. “[i]mplicitamente. 1989. Situa em seu juízo sobre Euclides e na sua recepção crítica o ambiente intelectual brasileiro. Acertadamente. grifo nosso). Todavia. a concordar com Luiz Costa Lima. completa tradução moral do seu meio. fatos . 2013. sem sínteses. à etiqueta positivista que lhe é atribuída e que recusa por um motivo que não nos parece menos político do que científico. baseado em anteriores exemplos. Amparados com o que argumenta Costa Lima. Em certa medida não é desconexa a contestação de Euclides ao se pronunciar contrário. p. que nesta divisão “depara-se o mais duradouro dos nossos equívocos sobre o que significa a construção científica”. cheio de íntima convicção.

p. Procedendo assim. ibidem). Imagina que imenso esforço para ficar a cavaleiro de tudo isso. como autômatos. em Os sertões. (CEC. João Luís – convença-se de que a nossa geração é a mais infeliz desta terra. citando-se mesmo o fato recente da anulação de um concurso pelo fato de ter má colocação cidadão favorecido pelo apoio oficial. em que pese manter o seu conhecimento e a importância do seu emprego para obter favores e posições sociais entre os principais. não raramente. de onde então conclui-se que. neste meio. mesmo entre os positivistas republicanos. o mundo político das décadas de 1890 e 1900. a todos os caprichos. haveriam facções e seitas – conforme denuncia Euclides – que. 2009. confidencialmente. oposto a um mundo trágico porém natural do interior do Brasil. por que ele imprimia a sinceridade e a vingança como tarefas do seu discurso. em momentos diversos. Paradoxal. 64-70. é uma fraqueza deplorável. que embora o positivismo. O autor inclusive. Vale lembrar. a respeito dos cargos públicos. lembrava-me artigos meus. um dos primeiros geólogos do Brasil. positivista!) e à birra especial de algumas influências pelos que a professam. . fazia alusão à minha seita positivista (eu. Paulo não valia nada.. 2003. seria preciso aqui ampliar o quadro de leitura para abrigar um problema de fonte política originado nas desleituras de Euclides. quanto a isso. poderemos ter mais elementos à mão para conjecturar por que Euclides encarava o seu próprio livro como um livro-vingador. discípulo e braço direito de Gorceix etc. ele tinha desenvolvido uma filosofia da história e proposto uma utopia política” (CARVALHO. 93-94) Neste momento. como um mundo em corrupção. . Nossa hipótese é de que as desleituras da ciência e o tom pessoal de Euclides. passíveis. etc. mas. tenha sido umas das principais referências científicas do período. se posicionou contrário a essas práticas de seita. O cidadão C. nesta filosofia da história a ciência “estava a serviço da ação política. Como afirma José Murilo de Carvalho. por outro lado. GALVÃO. ou comtismo. Logo após o cidadão B. possam estar relacionados com o seu interesse de olhar a República. de 92.. Comte havia dado um conteúdo histórico ao Iluminismo. Um outro. 250 passados com outros.. afirmava-se que isto de concurso em S. 126-133. ela fornecia à ação as bases em que se apoiar”. embora. sendo invariavelmente nomeado persona grata do governo.46 46 Cf.a nossa mocidade dá-nos esplêndida energia moral. p. é a verdade o que vai aí escrito.. embora amparados pela leitura minuciosa que Costa Lima oferece para a interpretação do argumento de Euclides. Os fortes são os maleáveis de os tempos. SEVCENKO. é bastante recorrente a crítica de Euclides da Cunha sobre a corruptela na qual se baseava a maioria dos concursos públicos no país. comunicava-se a existência de terrível adversário. p. no Estado [de São Paulo]. esta energia. em que combati energicamente a maneira pela qual foi organizada a Escola etc. quando “o comtismo ia além do cientificismo. Desse modo. isto é. os vitoriosos são os que se deixam vencer a todo o instante. criavam uma “contradição entre a ideia de uma sociedade regulada pelas leis científicas e o encorajamento da ação política” (ibidem. 1998. 196).

Tu não calculas como me senti bem. 192) Entender o Brasil e falar do Brasil com quem sabe falar e ver o Brasil. no Capítulo 2 (“O dilema político de Os sertões”). Euclides se arremessava em nervosismo: Já leste no jornal de 26 o meu discurso no Instituto [IHGB]. por nós citada na “Introdução” desta tese: Você dirá que estou num dos meus momentos de pessimismo agudo.. sobre os crimes e os vícios que daquela sua ausência derivavam. Como também é exemplo. Assim em cartas para amigos o autor de Os sertões se esforçava em se mostrar cada vez mais consciente da sua fala. Referindo-me ao mau estado das coisas da nossa terra se alguma mágoa me assalta é a mesma de fisiologista qualquer examinando a marcha da sífilis num organismo estragado. não. finda a sessão. Euclides parecia se mostrar observador atento a esse conjunto de comportamentos. Discurso. que não distribui empregos. de 18 de janeiro de 1896: “as coisas desta vida que cada vez se me afigura mais ilógica. como já trabalhamos na seção “Simpatia para o dúbio”. essa era uma hipótese de consciência para Euclides. 92). p. talvez esta decomposição defina o ponto crítico da passagem de uma homogeneidade indefinida e incoerente a uma heterogeneidade coerente na frase mais artística do que profunda de Spencer” (CEC. como relata em carta de 27 de novembro de 1903 ao amigo Escobar. exatamente pelo reconhecimento dos pares. talvez isto seja um progresso. à medida que adentrava o universo político e social da República. grifo do autor). um desabafo. a noção de uma patologia grave presente no corpo social somente aumentava com a observação sobre as condições da consciência e. Em outro momento. 94) Nesta avaliação de detritos. (CEC. à minha mão nervosa. p. sem contrariedades e com a neutralidade a mais perfeita de observador. Adquirir individualidades na semelhança não é o mesmo que a semelhança indefinida.. p. meu amigo! Não te rias: tive os olhos empanados de lágrimas quando. num agradecimento mudo.. como para afinar o seu sentido com aquela noção de “química dos sentimentos” presente em Nietzsche e bastante difundida no “espírito” fin de siécle. ali. A este respeito. tão desprendida das infinitas esquírolas e da poeirada de coisinhas interesseiras que deslumbram tanta gente. 251 Nestas situações. aquelas mãozinhas trêmulas e mirradas se agarraram. p. o Brasil Velho e Bom. Euclides dizia-se . (CEC. das suas vacilações quando recebeu o convite para propor a sua candidatura para a Academia Brasileira de Letras. e como avaliei bem o vigor desta minha belíssima alma sonhadora. Euclides se abrevia e confidencia ao amigo. não estou. no meio daquela gente. 94. na insuficiência dessas condições. como lemos em carta endereçada ao amigo João Luís.. não sem vacilação: “Daí. à proporção que melhor a compreendo” (CEC. como deduzimos da leitura das suas cartas e. Leste a lista dos que lá estavam: era o – Brasil. em outra carta ao mesmo amigo. escrevo-te calmo. Que felicidade. Em realidade. sobretudo.

Sou incorrigível. Já estou quase engenheiro – graças às peregrinações pelo sertão e a um trabalho intensivo de três meses. é impossível a eficácia de qualquer esforço consciente e os que não se adaptam à desordem ambiente. e sim a estreiteza de vistas com que o aplicam à crítica dos fatos sociais. p. Uma verdade. não consiste em considerar as sociedades – digamos os grupos sociais – como organismos vivos. seguindo difícil e esterilmente a linha reta que em má hora traçaram. dominada por estrangeiros. peculiares a eles. Euclides se desencantava com a República de princípios universais corrompida em facções de interesses. Paguei para isto um duro imposto: uma intermitente que creio haver conseguido debelar porque há dois dias que não se manifesta. Em suma. porém. e. as referências fisiológicas existem e funcionam como para indicar a noção de um processo. pois dependem das leis biológicas. a fim de orientar novamente a vida. no Rio de Janeiro –. luz e outros artifícios advindos com a modernização econômica e social do país – em realidade. expressa a sua opinião em carta de 8 de dezembro de 1895 ao mesmo amigo confidente. por conseguinte. 96) Vivendo sob a mão de empreiteiros. que dominavam as construções de estradas e pontes. não é o conceito que é condenável.] convencido que no atual momento histórico (e não sei por quanto tempo se prolongará ele) nos centros agitados. Nesse sentido.. entretanto desta tarefa de Sísifo: os trinta anos aí vêm. sujeitos. Light. que os fatos biológicos. ou como metáfora social em outros –. O meu velho foi dar uma volta ao Rio da Prata. como Richard Graham (1973) destaca. ameaçadores. já com o alerta de que Está em tudo desacreditado. este processo de modernização não raramente contou com o protagonismo de investidores estrangeiros. de um efeito patológico a atuar no organismo – diretamente de Euclides em alguns casos.. p. Manoel Bomfim escrevia em América Latina: males de origem (publicado em 1905) sobre o paralelismo entre os organismos biológico e o social. como seria o caso da companhia de energia elétrica. as sociedades aos organismo biológicos. (CEC. perto. em verdade. sem dúvida. mas em considerá-los como simples organismos biológicos. Já em 1903. João Luís: Eu continuo na vida transitória de empregado público dilettanti – porque afinal de contas devo-te dizer que a acho detestável e cheia de velhos vícios repugnantes. Assim. aquedutos e sistemas de distribuição de gás. trinta anos de agitação nervosa que já são quase velhice. 90-91. permanecem incompreendidos. em sociologia. espero a volta dele. cujo vício. a todas as leias que regem a vida e a evolução dos seres. é hoje universalmente aceita – . (CEC. Muito se tem abusado deste processo de crítica. vale a pena ressaltar que Euclides não é o único autor a se expressar dessa maneira sobre o país. em tudo e para tudo. meu caro João Luís: Não sei quando acabarei de iniciar e destruir carreiras. Já estou cansado. mais complexos. grifo do autor) Nas duas confidências. É preciso parar. ainda das leis sociais. esse veio de assimilar. como a indicar uma infecção que parecia ser na observação do nosso observado um sintoma generalizado. 252 [.

isto é. sujeito como os outros a leis categóricas. 19). Esta sistemática. Arthur Neiva. p. Clementino Fraga. mas sim porque foi “quando os primeiros esforços de sistematização começaram a ser feitos e os resultados deixavam o país manchado pela nódoa do analfabetismo” (BOMENY. elementar em ciência social: “As sociedades obedecem a leis de uma biologia diversa da individual nos aspectos. ainda é Helena Bomeny quem nos informa sobre este contexto. Lourenço Filho. A linguagem biológica serve aqui como operativo para descrever o mundo social. fatos estritamente dependentes e relacionados. estava disposto a criar um sistema de conhecimento dos males do Brasil. de “uma luta nacional de preparação do indivíduo para a sociedade de mercado. Já na década de 1920. Ou seja. Belisário Pena. a partir das metáforas do organismo da biologia. “[n]ão que os problemas educacionais tenham surgido no início da República”. mas sim o procedimento a partir do qual uma sistemática poderia ser elaborada a fim de resolver o problema ativado com essa analogia. (BOMFIM. p. tão fatais como as da astronomia ou da química. Francisco Campos” (BOMENY. até que ponto tais vícios derivam da herança e da educação recebida” (ibidem. encontrando no inquérito da história e no método da sociologia o campo em que. os testes de inteligência que classificavam os índices cerebrais da mente sob a forma de consciência individual e aprendizado –. ao que supomos. 253 que as sociedades existem como verdadeiros organismos. Bomfim. 17) Neste ensaio escrito durante sua estadia em Paris. 41). no contato com as teorias psicológicas de Binet – precisamente. Nenhum homem verdadeiramente pensante desconhece. mas essência idêntica”. Ezequiel Dias” reconhecidos por Bomeny como “os cientistas da saúde”. a vontade de conhecer o Brasil era tomada como bússola para os estudos sociais e da cultura realizados no país. isto é. esta noção. surtiu os seus efeitos. p. A hipótese de que o organismo social possuía leis idênticas ao organismo biológico não era a meta. Bomfim desafiava a história e as sociedades de acordo com os vícios que elas recebiam. cujas ações. . quando “Mário de Andrade e a caravana modernista poderiam embarcar na mesma direção em que embarcaram Oswald Cruz. 2008. isto é – o estudo de um conjunto de fatos dependentes de leis fatais. 24). 1993. que se emparelhavam junto aos “cientistas da pedagogia”. Deste consenso unânime vem – exatamente o considerar-se a sociologia como ciência. analisemos esse passado. “Anísio Teixeira. e pelos quais nos é dado perceber a sociedade como uma realidade à parte. hoje. a fim de observá-lo e fazer sobre ele intervenção. Como nos informa Helena Bomeny sobre os problemas educacionais das primeiras décadas da República. “procedamos como procederia um sociólogo avisado. 2007. a psicologia poderia agrupar e esclarecer os problemas sociais. órgãos e elementos são perfeitamente acessíveis ao nosso exame. Carlos Chagas. Fernando Azevedo. e vejamos até que ponto por ele se explicam os vícios atuais. Tratava-se. que colocava chances de representar metaforicamente um problema do social. segundo a autora. p. Assim. assim como Euclides.

porém voltadas para o nosso autor. 254 complexa e diferenciada do Brasil da Primeira República. é que Euclides mal consiga expressar exatamente em que posição se poderia intervir: aceitar a “agitação da nossa terra [.. (BOMENY.. infectado. aquela parte que residia incógnita no interior –. são.. A metáfora do ‘imenso hospital’ se juntou” neste contexto “ao diagnóstico banalizado no Brasil a respeito da educação: ‘a grande chaga nacional’” (BOMENY. em termos de organismo social. Podemos notar que Euclides parecia pesar sobre essas desleituras a sua pegada de uma iniciativa política.] procurando um recanto qualquer dos nossos sertões”. fruto da irresponsabilidade pública. como estamos concluindo. condenado a um ambiente insalubre. afinal. em sua origem. em seu corolário contrário. devido à politicagem dos concursos. [. Contudo. para a elite letrada desse período. 1993. a noção de mérito e de talento nem sempre vinha definida ou elaborada. e a debilidade física de uma país. de fato. Estas opções antagônicas. que deveria expressar o conhecimento obtido junto àquelas populações ignotas ao progresso da civilização. mas de reclamar os valores da ciência moderna no intuito de reverter aquele quadro infeccionado do organismo social.] minimizar os efeitos das duas manchas que se confundiam: a doença do analfabetismo com o despreparo da população para a nova sociedade emergente. distanciado em muito dos padrões mínimos de saúde. genuína e postulada pela sinceridade. 24) Nesse sentido. A concepção de saúde pública aí tem. mortificado e condenado a desaparecer. transplantados para identificar e. coisas perigosas. . Talvez porque. o contexto em que os males do Brasil são sistematizados sob operativos referentes à fisiologia do organismo individual. como parecia vir a percepção de manchas da educação. segundo ele. as desleituras que Euclides produzia sobre as teorias sociais de autores estrangeiros da sua época tentava reverter a observação que colocava o organismo social. nesse caso. se a sua disposição em conhecer o outro semelhante era. a condenação à civilização expressa-se menos como um aforismo para resignar-se ante a “deplorável situação mental” em que se encontrava grande parte da população brasileira – pelo menos. que levam ao martírio” ou “seguiria então para o meio dos meus bons amigos e descansado. sugerem um ambiente de sentimentos em Euclides. 24). do analfabetismo. 1993. De modo que. p. num clima sem ciladas. visto “como convenci-me afinal que a dignidade e toda a sensibilidade mesmo dos que vivem constantemente ocupados da própria honra. p.. politicamente. na nossa sociedade. O deplorável da mentalidade indicava a necessidade de uma ação. nem por isso deixava de expressar o seu descontentamento diante da dificuldade em se inserir profissionalmente no domínio das letras. [onde] poderia talvez encetar a felicidade de uma existência perfeitamente tranqüila e dedicada ao estudo”.

os seus mártires intelectuais. Não deve ser o desconhecido. ou. aparecia ainda sob uma camada indefinida de caracteres. como em geral. da resposta implicada pelo conceito é uma situação de indeterminação” (ibidem. que não funciona sem que antes se pergunte ou se possa perguntar o que é requerido” (LIMA. Neste sentido.. 1989. há sempre uma hesitação. apresenta pelo menos parte daquela precariedade intelectual que Euclides havia escusado de anunciar na “Nota Preliminar” de Os sertões. senão pelo ceticismo do seu olhar sobre o que supunha ver e viver nela? Nossa hipótese é a de que Euclides definia. inconsciente de si. Blumenberg é quem junto com Costa Lima nos auxilia a pensar sobre este aspecto. a noção de doença parece ser fundamental no plano da sua argumentação. deste modo. Brandão de 28 de abril de 1896 (CEC. Isto é. mesmo no positivismo. p. 255 “[d]ispondo [de] uma farda deslumbrante de botões dourados e nada mais. Por isso. como o próprio autor se refere em carta ao Dr. na medida em que o “automatismo regula evidentemente o que sucede. acerca da civilização. mas igualmente os “incompreendidos” da civilização. dispõe-se que “[a]ntes da ação [. inquérito tradicional da ciência moderna. p. Em Euclides. “[a] situação de pergunta e. basta que seja o indeterminado ou o ainda indeterminado. 71). é na companhia de Blumenberg que pensamos a teoria política presente no livro de Euclides. 2013. 71) que regule o conhecimento. “[a] percepção é de certo modo um automatismo. a psicologia dos homens do sertão colocando-a em contraponto à inteligência da ciência da civilização. p. sinto-me cada vez melhor dentro da minha blusa obscura de operário” (CEC. Para esta comparação. Esta maneira de se expressar “em flagrante”. para usarmos uma operação cara ao sistema teórico de Niklas Luhmann: a pergunta é contingente ao sistema de referências e às condições sociais do observador. na medida em que o sujeito ali era indeterminado.] se a situação carece de clareza. grifo do autor). o que se há de fazer. que se possa supor ou aguardar” (BLUMENBERG. 2013. Precariedade que não jungia apenas os habitantes do sertão. uma parcela não utilizada de tempo. ou um corpo que se mantém vivo acéfalo. mostrando em contrapartida que a patologia é entre os dois lados disseminada. o sem clareza. o alemão nos diz que a “pergunta”. um discurso que era a sua própria facção. o não patente” (BLUMENBERG. o que aí sempre se encontra. como um hematoma sintomático. 71. . 95-97). para ele. “se funda no fato de que não é evidente haver visto aquilo que é e o que significa. Como definir a gnose de Euclides. os sertões tinham mesmo uma determinação fraca na sua descrição. a partir do paradigma fisiológico. ainda na reflexão da Teoria da não conceitualidade. ibidem). na medida em que permite ao autor sistematizar aquilo que. p.. isto é. no conhecimento. 101). Isto é. como se há de reagir”. p. Por outro lado. Luiz Costa Lima leva-nos a notar também que a respeito da metáfora do organismo.

a sinceridade do seu relato. Blumenberg. que não aceita o limite mas sim a burla. contudo. Ainda para aproveitarmos a nossa companhia teórica. a “mesma relação” acima delineada entre Copérnico como “o homem da hipótese” (razão teórica) e Newton “como aquele que introduz a comprovação da realidade” (razão prática) pode ser reclamada para se pensar o conceito de liberdade e os seus determinismos. Newton descobria que os corpos agem reciprocamente em relação às suas massas (e em relação inversa à sua distância). para ele. Assim. Numa extensão desse raciocínio. com o que nos disse Blumenberg. e. Identifica. que pusesse o astro de maior massa no centro do sistema. mobilizadas para a produção de um perfil psicológico que. Para Blumenberg. Por seu lado. se não ignorado. sugere para a palavra “preencher”. mostrou-se. agora sim. ou seja. indiferente. Euclides ignora as suas próprias perguntas científicas. a uma parcela de tempo despendida e inutilizada. concluímos que acertadamente Costa Lima tece a sua interpretação de que no desprezo pela teoria. 71). esse estado de coisas era. só na teoria da gravitação derivada do sistema copernicano confirmava plenamente a correção da hipótese copernicana. o conceito desta ação recíproca foi analisado. uma vez delineado. portanto. operante nas caracterizações euclidianas. Euclides não apenas observava como convivia. interpretamos o excesso descritivo e os ornamentos literários euclidianos como caracterizações quase lógicas. Da civilização do litoral fazia-se contrastes. e “também no âmbito do próprio conceito. experiência alguma de forças que agissem entre os corpos. o olhar euclidiano tampouco se comporta como um olhar desatento ao indeterminado. sempre partindo de Kant. a solidez não pode estar no início” (BLUMENBERG. pretendia atingir a “clareza histórica”. Vem então Newton e reconhece como pressuposto do sistema copernicano o que significa haver posto o corpo de maior massa como centro do sistema. Isto traz como suposto que a psique comporta-se aqui como um conceito. (BLUMENBERG. a dizer. de acordo com Kant. apenas se tornando mais grave à medida em que as analogias. em um espaço vazio. não pelas teorias abstratas às quais Euclides parece renegar. era acessório. 2013. Em realidade. o de liberdade: para ele. as metáforas e as oposições com a outra sociedade que. sob o pressuposto de Copérnico. pela qual o Sol tornou-se o centro do sistema. em função de uma outra ideia romântica de sinceridade do olhar. na posição de “simples copista”. comparando as teorias de Copérnico e Newton. a seguinte definição: Copérnico elaborou uma nova hipótese sobre o sistema planetário. “o conceito não é evidente por si mesmo” (ibidem. 89). a sua derivação. astronomicamente. 88) Blumenberg nos informa a respeito de um valor fundamental para o exame que estamos fazendo aqui. p. 256 vacilante. 2013. p. p. Do ponto de vista do sistema copernicano. na . Essas caracterizações seriam atingidas pelo suposto do olhar sincero. não ser possível. para ele. qual seja. ao que incluímos aí o conceito de psique.

que seja “impossível oferecer uma intuição ao conceito de ‘mundo’. se Newton “temeu introduzir em seu sistema. neste sentido. 102). como metáfora absoluta. p. Para reconduzirmos a teoria apresentada acima com os problemas que colocamos em exame na nossa tese. Para Kant. 2013. a sua apreensão pela intuição. precisamente. tornando-se então impossível apresentar um mundo como exemplo para a intuição pensada no seu conceito” (ibidem. 2013. Para Blumenberg. para a sua leitura de Kant. Kant chama esses conceitos da razão de ideias” (ibidem. como uma ideia. 101). como “quintessência insuperável. querer nos comunicar sobre o quê. precisamos dispor em tela a categoria do olhar presente em Euclides da Cunha. (BLUMENBERG. o nosso autor parece. As leis centrais de Newton teriam mostrado “as forças invisíveis que mantêm o mundo unido”. p. isto é. com “[e]xpressões que não podem ser definidas nem por signos nem por regras de substituição [que] têm por sua natureza uma grande variação em sua determinação em contextos individuais e sociais” (BLUMENBERG. ou seja. uma hipótese que ele acreditava não dever de modo algum aceitar. sem qualquer experiência crucial ou conclusiva” (BLUMENBERG. ibidem). na leitura que faz deste filósofo Hans Blumenberg. assume uma função teórica ao pedir algo impossível. à primeira vista. 101). ibidem). das suas distinções das razões prática e pura onde se fundamentam a sua teoria do conhecimento. 2013. mundo “não pode ser dado no plural. estamos lidando nesta análise do psiquismo de Os sertões com o aporte de uma metáfora absoluta. de um modo paradoxal mas verdadeiro. 257 comparação acima instalada. os movimentos observados não nos objetos celestes senão que no seu espectador” [as citações são de Kant]. “a razão endereça suas demandas ao entendimento como órgão dos conceitos para a experiência e a partir da experiência. p. porquanto envolve a totalidade das regras implicadas” (ibidem. p. p. que podem se materializar exemplarmente. apesar do uso verbal hiperbólico”. Blumenberg é quem nos diz que “[t]rata-se aqui de conceitos cuja realidade apenas pode ser fundada no processo mesmo da razão. 102). “[h]á aqui algo em comum com as ideias. Isto implica ainda. 89). com o conceito de força da gravidade. 88-89) Assim. que o conceito de liberdade se comporta sob a mesma função no plano do mundo que o conceito de gravitação. de fato. Sob este imperativo do olhar como um observador de um mundo em vias de desaparecer. Como já citado na “Introdução” do nosso texto. o mundo. Kant inverteu essa relação” (ibidem. p. “pois para as ideias não pode ser fornecida nenhuma intuição apropriada” (ibidem. “que haveriam permanecido para sempre ocultas” se Copérnico não tivesse ousado “buscar. p. na diferença. 101). se eles podem pretendê-lo” (ibidem. .

como metáfora encontrada para refletir este impasse. da espontaneidade criativa da sua violência original representada. Nesse encaminhamento. ou pelo mesmo motivo compartilhado com a civilização que. para garantir a estabilidade das raças. neste caso. Afinal. estaria regulado pelo ritmo regular das leis naturais. a consciência natural das sociedades rurais se coloca em vias de extinção ao mesmo tempo. alvo de desleituras e inversões pelo nosso autor. mas no mundo da observação (produção de uma teoria) do olhar. exiladas de suas terras. com as suas referências. Um mundo que. Esses referentes. sobre diversos ângulos. inquieto. incorporar aquelas populações ignotas. O efeito desse olhar que se posiciona. Por outro lado. ele pretende nos apresentar o mundo sertanejo. A metáfora do indefinido em Euclides revela-se de um paradoxo essencial: como admitir uma consciência em uma sociedade de empréstimo. que não o puramente das ciências naturais. se tornava a forma privilegiada de se compreender e. pelo menos a princípio. por isso. No sistema de opiniões de Euclides. em sua leitura de Kant – que exemplificam neste mundo algo que objetivamente ele não poderia sê-lo. exemplarmente – vale dizer. sua requisição em Os sertões faz com que a sua referência se desloque para outro sistema de conhecimento. o espaço vazio do mundo com ideias – como definido por Blumenberg. isto é. Embora para a ciência o cataclismo possa ser explicado como um ajustamento de camadas tectônicas. Portanto. esta consciência rochosa parecia ser insuficiente. Nessa correspondência de sentido. a terra era de fato algo que conscientizava. solicitamos a referência cética aqui presente na ideia de processo. este efeito se efetua não no suposto da empiria a lhe determinar. “sem qualquer experiência crucial ou conclusiva” – pelo cataclismo sertanejo. pelo olhar de uma panorama. Uma planta conheceria as regras sociológicas do viver? O clima pode se comportar como a tradução moral de alguma coletividade? Ainda que essas perguntas possam surtir como resposta um efeito no mundo. deve chamar a nossa atenção o caráter eminentemente social que Euclides opera quando solicita os referentes das ciências naturais para descrever o mundo dos sertões. em suas descrições pormenorizados. mas também pela sua ancestralidade e profundidade. preenchem. determinante para a hipótese euclidiana de um “futuro remoto” ao qual deveria evoluir a estabilidade da raça. do remoto. no plano contingente do sistema de conhecimento pretendido. para que o mestiço dissímil não se . nesta medida. produz como conhecimento a metáfora de mundo que o autor espera conduzir em sua teoria. para onde se dirige o olhar de Euclides? A fim de esboçarmos alguns indícios finais para o exame dessa questão. quando também a inconsciência parece contaminar inclusive as sociedades naturais? A ideia de desterro não poderia ser mais adequada. 258 ainda é possível ver e no entanto está em vias de desaparecer no mundo sertanejo.

em direção a um “futuro remoto”. Afinal. o mesmo não se pode dizer das instituições. decalcada dos estudos sobre criminalidade e patologia mental que se tornaram conhecidos pela lavra de Nina Rodrigues mas. Ou. mas que traria uma preocupação de ordem política e social. se o mestiço se caracteriza pela difusão de traços como retrata a sua “psicologia especial”. pelo reconhecimento da sua gênese histórica – tampouco parecia entender como garantida a continuidade processual no terreno das instituições. em quais situações do seu discurso o nó cego da raça – pensada sempre pelo irresolúvel do remoto – estava amarrado. Embora a raça propriamente não apareça sob nenhum impeditivo que nos permita comprovar ou demonstrar um pensamento de inferioridade racial em Euclides. pareciam importar para o julgamento do presente. a definir-se. embora não se estabeleça em relação à raça pelo caminho da negação – mas antes. Sua reflexão. tampouco decorreria dele naturalmente a estabilidade necessária para a manutenção da vida social na civilização. de fato. p. Se podemos localizar um veio cético em Euclides aí presente sobre a República. recorrendo-se ao caráter indefinido que caracteriza o mestiço – “Não há um tipo antropológico brasileiro” (OS. Como Euclides propõe uma solução para este dilema? Novamente. um vacilar diante dos princípios que as fundam e dos homens que delas se ocupam. isto é. estava lançada. de outra a fragilidade da vida. 259 extinguisse. sobretudo. será possível perceber também em que momentos este veio se manifesta no seu discurso. Isto pode querer dizer. em ambas a inconsciência de uma vida comum. os empréstimos. ainda assim. que o ceticismo de Euclides assume como referência para o seu discurso uma absoluta descrença nas instituições. Euclides apreende dessa ausência uma indefinição cujo resultado não seria exatamente negativo. cuja resolução recaia então para o apelo remoto da raça. 175) –. Pelo contrário. sendo delas portanto a patologia que perturbava o corpo. poderia ser aguardada como um processo. De uma parte do país. para a sua determinação como um tipo racial definido estável. Se o termo racial parece se determinar nessa delicada equação de Euclides. talvez. dito de outra maneira: as instituições é que deveriam evoluir. o efeito que se desdobra no contemporâneo da sua conta é menos biológico do que político. Leitor da teoria criminal de . influentes pelos métodos de Cesare Lombroso. a suposta evolução do mestiço para o seio da civilização. não simplesmente a raça localizada no nó cego do “futuro remoto”. Nesta filosofia da história estaríamos condenados à civilização porque através dela é que garantiríamos a sobrevivência e talvez a definição do indefinido tipo antropológico brasileiro. Solução que. O discurso euclidiano apresenta uma composição inédita. segundo opina o nosso autor. A instabilidade da raça decorreria desse fato de indefinição. isto é. desde que se pudesse garantir também a continuidade das instituições sociais. Seriam as instituições que.

a temporalidade diversa do negativo das diferenças. Ele nos informa sobre Euclides. Temos elementos para suspeitar e. mas não a inconsciência do tempo em que se vive. 501). Operação que embora semelhante. Colocados sob uma perspectiva indefinida. mas insere o mestiço na posição atribuída. nos leva à conjecturar essa hipótese. de certa maneira. não somente da guerra. 260 Lombroso. ao negro. na medida em que nossa análise permitiu. Também não é clássico porque pretendeu denunciar a “civilização de empréstimo”. entre os grupos desviantes. “enluvados e encobertos por tênue verniz de cultura” (OS. que precisaria ser entendida a partir da sinceridade. A referência à Rodrigues. poder alegar que a noção de tempo em Euclides da Cunha repõe a referência racial da teoria criminal de Lombroso e Nina Rodrigues em outra chave. aqueles que apresentavam predisposição mental e fisiológica para o desvio criminal. O seu pensamento racial aceita. de que o psíquico e o temporal estão conectados pelo indefinido da raça. Os sertões se torna clássico porque o seu discurso dá a ver um argumento histórico em que o seu observador oferece como relato o seu testemunho. O discurso desse conflito é ao mesmo tempo histórico e presente. No contexto que Euclides escreveu outros relatos também vieram a lume sobre Canudos. mas também . como na metáfora do olhar sem amarras defendido pelo autor. A reposição do mestiço é operada por Euclides junto à ideia de um complexo indefinido. Euclides retoma parcialmente esta premissa. do simples copista que se vinga involuntário. qual seja. compreender por que Os sertões tornou-se um livro clássico. Uma teoria que se faz pelo contraste invisível de outra. Para entender este tema Euclides colocou uma teoria a serviço do seu olhar. Ele encontrou na raça negra elementos de formação psíquica que poderiam ser capazes e suficientes para explicar os desvios sociais. tem efeitos distintos. também. antropólogo e médico legista influente nos círculos intelectuais contemporâneos a Os sertões. cuja estabilidade dos fatores psíquicos e raciais deveria ser buscada em um “futuro remoto”. O crime de Canudos parece se tornar menos particular do que social – remete a um tema geral do qual é todavia variante. bem como determinar a índole dos tipos sociais negros. por Nina Rodrigues. Nina Rodrigues buscava pela antropologia criminal identificar. nomeando o mestiço como o indefinido da raça. Junto a esta reflexão parece se tornar possível. mas das suas contradições como discurso social. a raça e o psíquico revelam a necessidade da reflexão social e histórica como hipótese e argumento de uma tarefa para Os sertões. Tampouco por atestar a inferioridade da raça. sendo mesmo considerado um livro fundador do pensamento social brasileiro. habitada por “trogloditas completos”. Clássico não porque simplesmente narra a história do conflito que envolveu uma turba ensandecida no interior do Brasil defendendo-se contra as armas do novo governo da República. p.

as solicitações de auxílio e de compadrio para se alcançar um determinado sucesso na carreira e econômico. qual seja. Basta mencionar. os conflitos do autor com os interesses das empreiteiras. de garantir o seu lugar “ante o olhar dos futuros historiadores” (OS. . p. a sua auto-profecia. 65). as dificuldades financeiras de Euclides da Cunha não obstante o seu sucesso como autor. Não é. em certa medida. menor o mérito do livro se não o fato de ter cumprido. bem como a posição do sujeito intelectual no campo de observação social e os conflitos que envolvem os valores da alteridade são referências históricas e atuais ao mundo de Euclides e ao nosso. por exemplo. com efeito. 261 representa uma série de relações sociais e sujeitos históricos atuantes no Brasil.

Desse modo. O importante dessa consideração. porém. Gaia Ciência. . nesse caso. a partir da qual o autor tecia as suas observações acerca do mundo social. aos mestiços que denegavam o país. Nesse sentido. O psiquismo atuava. [sou] um convencido das leis de hereditariedade: nada existe que combate à sede de dinheiro despertada na alma do italiano” (CEC.” Nietzsche. no seu livro Os sertões. denota o discurso racial euclidiano que associa uma lei inexorável na história a uma referência antropológica no mundo. impregnada de racialismo. Esta observação. Afirmação que é colocada em paralelo à crítica aos “trogloditas completos” da civilização. mas se comportar como simples copista da realidade. Brandão: “como sabeis. pelo profundo ou mesmo inconsciente. neste caso o italiano. conforme ele mesmo assumira em carta de 6 de dezembro de 1896 ao amigo Dr. de fato. é que ela não expressa completamente o seu ponto. como operativo reflexivo – metáfora – a partir do qual as descrições do mundo recebiam uma autenticidade. esquecido. 101). embora não possamos dizer com precisão qual a definição de psique em Euclides da Cunha. embora nunca explicitamente elaborado. Podemos mesmo supor que Euclides pretenda expressar um certo argumento racial sobre as suas observações. a sinceridade para Euclides arma-se de uma hipótese que busca atacar a realidade pelo que lhe está oculto. Na conclusão do nosso argumento. ou como pretendia Euclides. foi ainda assim possível verificar em quais universos semânticos Euclides solicitava esse conceito a fim de observar e argumentar em torno da sua observação sobre a sociedade brasileira. p. em que o papel do observador não era o de buscar abstrações. Um dos referentes mais polêmicos em torno dessa realidade oculta encontra-se a percepção de Euclides acerca do sertanejo identificado como “a rocha viva da nossa nacionalidade”. descrevendo as suas verdades e ilusões. 262 CONCLUSÃO Vendetta “A falta de personalidade sempre se vinga. o psiquismo percorre todo o enredo do livro de Euclides configurando ao final da leitura uma hipótese social e política.

parecia ser porque. Paulo” (CEC. o seu pessimismo diante da República caracterizava-se pela corrupção de valores. o reconhecimento dos “rudes patrícios” incorporando-os à história da nação. do seu foro íntimo. em realidade. em seu discurso. conforme pesquisa de Sevcenko (2003) sobre o arrivismo social. Os serviços do italiano a Euclides eram com isso precários. p. um tipo abstrato ou indefinido. de imperativo lógico e ontológico sobre o social. 263 Se Euclides afirmava-se convencido das leis de hereditariedade. fracos. “já que o pedido legal. poderia na verdade não lhe indicar nada. da sua assertiva. p. também. Valores democráticos universais. A raça parece funcionar. cuja “minha parte doente parece haver encalhado na secretária do comandante do Distrito [e] até hoje nada de solução”. deveriam ao contrário nortear as instituições sociais. que segundo ele. fecundavam uma visão paradoxal do nosso autor em que as críticas contra a sociedade. 72). quando menos. seriam apenas os italianos quem estavam em busca de dinheiro ao longo da primeira República? Euclides. embora crítico dessa solução. ele solicitava justificativa para o fato de que o seu auxiliar. péssima feição cuja causa essencial está neste fato: não há lugar algum no mundo tão próprio para o sucesso das nulidades atrevidas quanto S. não obstante crítico da monotonia da raça brasileira. embora nem sempre se expressasse claro sobre quais seriam essas contradições. 69. tudo por causa da busca incessante de dinheiro do trabalhador. deixando o posto de trabalho vago. Para Euclides. requisitava o argumento científico da lei de hereditariedade para afirmar uma referência que. A crítica de valores. deveriam ser entendidas como críticas a favor da . Artur. (Caberia aqui o ditado popular sobre este procedimento: “De boas intenções. como um referente abstrato. o que valia era a intenção que carregava a descrição. não se furtava de produzir considerações a respeito da sociedade brasileira. um italiano. em São Paulo. a sua observação tinha como efeito referenciar o mundo da política: “passar uma revista pelo mundo político desta terra é observar os tipos mais completos dos mais perfeitos parvennus” (CEC. requisitava por meio de carta. Neste caso. Por exemplo: para pedir solução diante de um processo administrativo. intermitentes. ou. grifo do autor). ao Coronel Pires Ferreira uma solução. O nosso autor expressava-se crítico do mundo de favores para se obter a garantia de vida. caso solta. cuja “má feição dos negócios públicos daí. Afinal. prática que lhe era recorrente. ao favor o nosso autor também recorria. Cabe ainda aqui recordar que Euclides não se furtava de pensar por contradições. o inferno está cheio”?) Assim. como. grifo do autor). a denúncia. como ele mesmo a designou. p. dignamente feito por meio de um ofício – não vale coisa alguma” (CEC. havia fugido novamente. para ser estabelecida por Euclides. por exemplo. 69.

264

sociedade, contra o egoísmo bárbaro. Pessimismo que não é tanto da raça, quanto “da situação
[atual que] é justamente dos espertos, daí o grande pessimismo que me atinge” (CEC, p. 68).
Como ele, também Silvio Romero, “em vez de lamentar a ‘barbárie do indígena e a
inépcia do negro’, partia para soluções originais: estava na mestiçagem a saída ante a situação
deteriorada do país e era sobre o mestiço [...] que recaíam as esperanças do autor”
(SCHWARCZ, 1993, p. 151). Como temos assinalado, esse relativo otimismo com a raça, da
mestiçagem, apresentava como efeito, na sua operação, a salvaguarda das instituições sociais
da República, que estavam constantemente sendo atacadas por movimentos revoltosos.
Instituições atacadas pelos influxos do passado, como foi o caso de Canudos e de outras
revoltas locais no Sul, mas também atacadas pela civilização que introduzia, no país, valores
sociais modernos, mas também extorquia a garantia da sobrevivência individual à custo do
salário e da profissão. O nosso autor não escapava a este contexto. “Há mais de um mês que
me agito e trabalho – de graça – num país em que se inventam os empregos para a vadiagem
remunerada” (CEC, p. 240). As repetidas queixas de Euclides a este respeito, da “convivência
estúpida com as dezenas de empreiteiros que [me] rodeiam” (CEC, p. 134), não poderiam ser
mais claras. Elas querem se opor à observação de que “nesta terra, para tudo se faz mister o
pedido e o empenho, duas coisas que me repugnam” (CEC, p. 149).
Dito isso, pode-se entender que a mestiçagem era tomada como um valor neutro ou,
em certa medida, positivo (como índice do real), somente na medida em que se pudesse
desvincular das suas amarras biológicas e ser sincero, ou seja, atacar e moralizar – isto é,
atribuir novos valores – às instituições sociais e políticas da República. A ideia de vingança
deriva dessa temporalidade da memória, que reclama a consciência no presente a partir da
sinceridade obtida da história. A sinceridade, nesse caso, diz respeito menos a uma categoria
exclusiva da ciência, mas, solicitando as palavras de Blumenberg, como uma metáfora para o
olhar do mundo, a fim de poder configurá-lo, instituí-lo em uma duração, em uma
experiência. Reflexão que entendemos a partir de uma observação antropológica de Eduardo
Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha.

A guerra de vingança tupinambá é uma técnica da memória, mas uma técnica
singular: processo de circulação perpétua da memória entre os grupos inimigos, ela
se define, em vários sentidos, como memória dos inimigos. E portanto não se
inscreve entre as figuras da reminiscência e da aletheia, não é retorno a uma origem,
esforço de restauração de um Ser contra os assaltos corrosivos de um devir exterior.
Não é de ordem de uma recuperação e de uma ‘reprodução’ social, mas da ordem da
criação e da produção: é instituinte, não instituída ou reconstituinte. É abertura para
o alheio, o alhures e o além: para a morte como positividade necessária. É, enfim,
um modo de fabricação do futuro. (CASTRO; CUNHA, 1985, p. 205)

265

Euclides da Cunha expõe sob o seu campo de visão um país que “é organicamente
inviável”, cuja conclusão aterrorizadora é que “chamamos política a uma grande conspiração
contra o caráter nacional” (CEC, p. 129). Mas resignava-se: “nem sei por onde vou
escorregando nesse extravagar terrivelmente metafísico. É bom parar” (CEC, p. 129).
Euclides, de fato, parou. Porém, como apresentamos no nosso texto, sua obra recebeu
continuidade histórica de expressivo juízo de valor na reflexão social brasileira das décadas
seguintes, justamente, pelo caráter cético e ao mesmo tempo intempestivo que algumas das
suas observações parecem nos levar. Seu pessimismo com a República, ao fim, era
reequilibrado com a sua dedicação para compreender as singularidades de um universo de
contrastes sociais. O conflito de Canudos expressava também o conflito de mentalidades que
modelava, no Brasil, o projeto de civilização. Vingar, em todo caso, seria a um só tempo o
reconhecimento de uma sentença de morte e a celebração do evento em seu gesto de memória.

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REFERÊNCIAS

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