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O ensino de ofícios

artesanais e manufatureiros
no Brasil escravocrata

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Luiz Antônio Cunha

O ensino de ofícios
artesanais e manufatureiros
no Brasil escravocrata

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C978e
2.ed.
Cunha, Luiz Antônio, 1943-
O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata / Luiz Antônio
Cunha. – 2.ed. – São Paulo: Editora UNESP; Brasília, DF: FLACSO, 2005.
Inclui bibliografia
ISBN 85-7139-631-0
1. Ensino profissional – Brasil – História. 2. Artesanato – Brasil – História. 3. Artes in-
dustriais – Brasil – História. 4. Brasil – História – Período colonial, 1500-1822. 5. Brasil
– História – Império, 1822-1889. I. Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.
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Para meu irmão Paulo This content downloaded from 179.jstor.216.179. 02 Jun 2017 15:59:14 UTC All use subject to http://about.130 on Fri.org/terms .

org/terms .179.216. 02 Jun 2017 15:59:14 UTC All use subject to http://about.jstor.130 on Fri.This content downloaded from 179.

jstor.179. Sumário Introdução 1 1 O aviltamento do trabalho manual 7 O (des)valor do trabalho manual na cultura ocidental 7 Escravidão e trabalho manual na cultura brasileira 16 2 A aprendizagem de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil Colônia 27 Ofícios nos engenhos 29 Ofícios nos colégios 32 Ofícios na mineração 35 Ofícios nas ribeiras 37 Bandeiras de ofício 39 Fim da organização corporativa 52 3 A escola de ofícios manufatureiros no Brasil reino unido 59 Da Colônia ao reino unido 59 Legado colonial à educação 66 Aparelho escolar e escola de ofícios 69 4 Mudanças na força de trabalho 81 Escravismo e abolicionismo 82 Trabalho: coação e resistência 88 Branqueamento da força de trabalho 96 Escravos e homens livres nas manufaturas 100 This content downloaded from 179.216. 02 Jun 2017 15:59:16 UTC All use subject to http://about.org/terms .130 on Fri.

02 Jun 2017 15:59:16 UTC All use subject to http://about.org/terms .130 on Fri.216. ideologia e educação profissional 145 As matrizes ideológicas 146 Os intelectuais do Império e o ensino de ofícios 149 Idéias fora do lugar? 178 Referências bibliográficas 185 This content downloaded from 179.jstor.179.5 Instituições de ensino de ofícios manufatureiros no Brasil Império 109 Estabelecimentos militares 109 Entidades filantrópicas 113 Academia de Belas-Artes e curso de telegrafia 118 Liceus de artes e ofícios 121 Escola Industrial 136 6 Escravidão.

130 on Fri. Esse “espaço vazio” se explica. É por isso que a história da educação ou da pedagogia pouco ou nada tra- tam do aprendizado voltado para o artesanato. sujando-se as mãos na produção de objetos materiais com finali- dade utilitária. Para as classes dirigentes e seus intelectuais. nem mesmo pode ser considerada educação – ao menos uma educação autêntica –. pelo fato de que os historiadores da educação brasileira se preocupam. com o en- 1 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:19 UTC All use subject to http://about. nem os professores são formados nessas instituições. cabe ao Brasil o julgamento feito por ele para a Itália: o ponto de vista das classes dirigentes e – acrescento eu – de seus intelectuais é o de que a ver- dadeira educação é unicamente a que se assimila por meio do estudo nos li- vros e escutando a voz do mestre. o ensino secundário e até a educação física. nas carteiras das escolas ou da universidade.179. Assim é que quando comparada com outros temas. a da educa- ção profissional não é das menores. entendo que. Introdução Entre as lacunas existentes na história da educação no Brasil.org/terms . Mesmo sem compartilhar “a nostalgia do mes- tre-artesão” de Antonio Santoni Rugiu (1998). a educação profissional aparece na bibliografia como definida mais pela omissão do que pelo conhecimento pro- duzido a seu respeito. a que se desenvolve nas inós- pitas oficinas. a ideologia da escola única e unificadora (Baudelot & Establet. Parece que os historiadores dão preferên- cia – se não exclusividade – à educação escolar pela qual eles mesmos passa- ram. pelo menos num aspecto. 1972). reforçando.jstor.216. um domínio no qual os livros não têm a primazia de meios de ensino que se obser- vam e se experimentam nas escolas secundárias e nas universidades. principalmente. pelo menos em parte. implicitamente. como o ensino superior. a manufatura e a indústria.

216. Se existe alguma norma reguladora da aprendizagem artesanal. com seus próprios instrumentos e até mesmo morando em sua casa. como carpinteiros. cumpre destacar que a sanção jurídico-política operou como um impor- tante elemento de reforço das representações sociais que depreciavam o traba- lho manual. assim como a escravatura persistiu de fato. em virtude da carência de educação geral. tal- vez complementar: o da ótica do ensino de ofícios. afu- gentava os trabalhadores livres dessas atividades. em termos educacionais. se não de fato. Nessas condi- ções. o ofício. seja da esco- larização obrigatória mas incompleta. O em- prego de escravos. aos poucos. ferreiros. esforçando-se para eli- minar as ambigüidades de classificação social. tecelões etc. ou seja. em sua própria oficina. de modo que elas iam inexoravelmente para as mãos dos africanos e seus descen- dentes. A educação artesanal desenvolve-se mediante processos não sistemáticos.jstor. parece que esse panorama tende a se transformar no Brasil. que lhe são atribuídas de acordo com a lógica da produção. deixando o tra- balho manual em segundo plano. notadamente os de iniciativa de organizações não estritamente educativas. desde a Colônia até o fim do Império. Ou seja: homens livres se afastavam do trabalho manual para não deixar dúvidas quanto a sua própria condição. Considerada coisa própria de escravo. Felizmente. a manufatura e a indústria. Quando a preocupação é com a “educação popular”. ministrado para o artesanato. onde pre- valece o viés do “chão da fábrica”. O primeiro esclarecimento é sobre o período estudado: o da vigência do escravismo na sociedade brasileira. o trabalho manual acaba sendo percebido. de modo cada vez mais escolarizado. A respeito dessa última afirmação. O segundo esclarecimento é sobre a distinção entre os termos artesanato. pedreiros. a atividade artesanal e a ma- nufatureira acabavam abandonadas pelos trabalhadores brancos e livres. Este livro não dissimula um viés distinto. manufatura e indústria. Luiz Antônio Cunha sino que se destina às elites políticas e ao trabalho intelectual. seja da mera alfabetização. Embora saibamos que houve trabalho livre desde o início da colonização.179. 02 Jun 2017 15:59:19 UTC All use subject to http://about. ainda que não de direito. empenhados todos em se diferenciar do escravo. Desde o início da colonização do Brasil. Nos últimos anos nota-se uma ampla e genuína preocupação nos meios acadê- micos pela articulação entre os “mundos” do trabalho e da educação. a partir do trabalho de um jovem aprendiz com um mestre de ofício. depois de 1888.130 on Fri. Ajudando-o em pequenas tarefas. ao menos projetado. as relações escravistas de produ- ção afastaram a força de trabalho livre do artesanato e da manufatura.org/terms . o aprendiz vai dominando. ela tem a ver com o con- 2 This content downloaded from 179. são focalizados programas e atividades extra-escolares. três escla- recimentos se impõem.

ela possui essas características. Um bom exemplo são as escolas de aprendizes artífices.179. Com efeito. Os pressupostos da educação industrial são os mesmos da produção fabril. Enquanto na educação artesanal a finalidade. Mesmo quando ocorre dentro de uma fábrica. ao mi- nistrarem um ensino orientado tanto para atividades artesanais. destinados a produzir uma formação padronizada. ocupa uma posição intermediária entre as duas outras. e industriais. correlativamente à decadência da produção manufatureira. a partir dos elementos disponíveis no país. ao contrário do que ocorreu nos países europeus. isto é. A serralheria é outro ofício cujo ensino poderia servir tanto a umas quanto a outras formas de organiza- ção da produção. por sua vez. Nos processos estudados por Karl Marx. particularmente a separação entre a concep- ção. Assim. em geral voltada para um grande nú- mero de jovens. é que o aprendiz possa vir a ser um mestre de ofício. como trabalhador assalariado. a educação industrial se desenvolve em ambientes especializados. De um modo geral.130 on Fri. Enquanto isso. a gerência e a execução. quando esta última dava os primeiros passos no Brasil.org/terms . Para isso. em O capital. as manufaturas e as fábricas brasileiras tiveram de importar esse saber. tratava-se de produzir uma nova força de trabalho. A propriedade dos locais e dos instrumentos de trabalho não é dos trabalhadores. nem as in- dústrias das manufaturas. A educação manufatureira.jstor. a intensa divisão do trabalho. tempo de aprendizagem e outros. como a sapa- taria. de resultados previsíveis e controláveis. quanto ao vivo. Como bem mostrou Soares (1980). os conhecimentos práticos dos artesãos foram expropriados pelos capitalistas. sem um caráter distintivo em termos pedagógicos. A educação industrial desenvolve-se mediante processos sistemáticos e es- tritamente regulamentados. na educação industrial a finalidade é um posto bem delimitado numa divi- são complexa de trabalho. 3 This content downloaded from 179. ao menos tendencial. mediante a aprendizagem sistemática. É o caso de processos educacionais orientados tanto para o trabalho artesanal quanto para a produção industrial. ao domínio simbólico dessas práticas (ibidem). ainda que incipiente. pelo menos nos primeiros anos. como a tornearia mecânica. dos homens livres resultantes da de- terioração do regime escravocrata. no Brasil as manufaturas não se originaram do artesanato.216. na forma de força de trabalho qualifica- da. tanto embutido nos equipa- mentos e nas técnicas. a produção fabril já se havia generaliza- do na Europa. que os incorpora- ram à divisão do trabalho manufatureiro e fabril. que abra sua própria ofici- na. isto é. matérias-primas e força de traba- lho. os mestres de ofício ficam obrigados a obedecer a critérios como núme- ro máximo de aprendizes. como escolas e centros de formação profissional. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata trole que as corporações de ofício exercem sobre o mercado de trabalho. assim como não são de sua propriedade os produtos. transferi- ram-se de lá pra cá equipamentos. 02 Jun 2017 15:59:19 UTC All use subject to http://about. técnicas.

que me autorizou a focalizar o ensino de ofícios artesanais. Buscando a origem do ensino técnico industrial no Brasil encontrei uma de suas vertentes nas escolas industriais da arquitetura educacional de Gustavo Capanema (1942). nos centros de formação profissional do Senai (instituição criada em 1942) e nas escolas técnicas da rede federal (criadas também em 1942). em vez do ensino agrícola que. Essa restrição setorial deriva de uma orientação metodológica na pesquisa histórico-sociológica. no trabalho de dissertação de mestra- do. Em suma: é o que Schaff (1978) chama de retrodição. calcadas estas nas escolas de aprendizes artífices de Nilo Peçanha (1909).2. considero que a educação artesanal. um papel paradigmático para todas as outras. A despeito dessa restrição voluntária. especialmente pelos seus efeitos profundos sobre todo o sistema educacional na reforma decorrente da Lei de Diretrizes e Bases do Ensino de 1º e 2º graus (Lei n. bem como tenha sido ela que atraiu a atenção majoritária das elites in- telectuais do Império. A outra vertente era o ensino superior. Os modelos de educação profissional para todos os setores da produção passaram a ser buscados nas escolas de aprendizes artífices (criadas em 1909). particularmente da educação profis- sional. a manufatureira e a industrial têm uma grande relevância para as demais porque elas foram assumindo.208/97). Ela foi a referência básica e interlocutora constante. Luiz Antônio Cunha O terceiro esclarecimento é sobre a focalização do artesanato. Essa projeção pode ser apontada. em detrimento da agricultura.5.jstor. ele pas- sou a mostrar um dinamismo e uma autonomia insuspeitados pelos contempo- râneos dos conselheiros João Alfredo Corrêa de Oliveira ou Rui Barbosa. ao longo do tempo.216. no tempo do Império. Se. no primei- 4 This content downloaded from 179.692/71) e na criação do sistema paralelo de educação profissional (LDB-96 e Decreto n. da manufa- tura e da indústria.179. Foi meu conheci- mento da educação brasileira no presente. Meu segundo contato com essa problemática foi na redação de uma mono- grafia sobre o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). 02 Jun 2017 15:59:19 UTC All use subject to http://about. sobre a história do ensino industrial no Brasil. tinha a precedência quantitativa e qualitativa sobre aqueles. não foram os “patronatos agrícolas” que deram o tom da educação profissional brasileira. manufaturei- ros e industriais. do comércio e dos serviços.org/terms . Foi na tentativa de co- nhecer aquele ramo de ensino que deparei com a obra monumental de Celso Suckow da Fonseca (1961). de início. o ensino de ofícios manufaturei- ros era pensado dentro dos quadros de referência do ensino agrícola. Embora a maioria das iniciativas de educação profissional no período do escravismo fossem destinadas à agricultura – a atividade econômica predomi- nante –.130 on Fri. Meu primeiro contato com a problemática do ensino de ofícios industriais e manufatureiros deu-se em 1971-1972.

out. num projeto que unia o Bureau International d’Éducation (Unesco) e o Institut d’Études du Développement (Universidade de Genebra).jstor. n. abr. ano 3. • As raízes das escolas de ofícios manufatureiros no Brasil – 1808-1820. compõem este trabalho. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata ro semestre de 1975. encomendada para servir de subsídio ao estudo dos “Sis- temas de Formação Técnica e Profissional Extra-Escolar na América Latina”. publicada como Política educa- cional no Brasil: a profissionalização no ensino médio (1973). Em 1998. o Projeto Replanfor. foram responsáveis pela minha iniciação na temática do ensino industrial-manufatureiro. do Ministério do Trabalho.org/terms . 1979. manufatureiros e industriais no Brasil. nessa pesquisa. Joaquim Faria Góes Filho e Roberto Hermeto Corrêa da Costa. um projeto de pes- quisa que visava reconstruir a gênese e o desenvolvimento do ensino de ofícios artesanais. ano 3. propiciou recursos para a reformulação dos três artigos mencionados e que deram origem. com quem trabalhei no Centro de Estudos e Treinamento em Recursos Humanos. jul.130 on Fri. a um capítulo deste livro. os estudantes Beatriz Silva Telles. da Fundação Getúlio Vargas. publiquei textos com os resultados parciais da pes- quisa. tendo a Faculdade Latino-Ame- ricana de Ciências Sociais. Muitas pessoas e instituições ajudaram-me.-dez. depois de revistos e ampliados. Forum Educacional (Rio de Janeiro). da Secretaria de Formação e Desenvolvi- mento Profissional. infelizmente extinto. José Oliveira Arapiraca e Alice Reis Rosa. Assim. n. • O ensino de ofícios manufatureiros em arsenais. Sede Brasil. depois da dissertação de mestrado.4. e artigos diver- sos sobre temas correlatos. 02 Jun 2017 15:59:19 UTC All use subject to http://about. 1978. agora incorporados neste livro. buscando contribuir para o preenchimento da lacuna mencionada acima. Clea Albrecht. ano 2. asilos e liceus. apresentei ao Instituto de Estudos Avançados em Educação. como executora. n. inéditos.2. Solange Luçan de Oliveira. Cláudia Araújo dos Santos.179. que. todos em periódico da Fundação Getúlio Vargas: • Aspectos sociais da aprendizagem de ofícios manufatureiros no Brasil Colô- nia. Forum Educacional (Rio de Janeiro). cada um. onde era professor. Fizeram parte da pesquisa. Forum Edu- cacional (Rio de Janeiro).-jun. 5 This content downloaded from 179. como estagiários. e para a elaboração de outros três.-set. reunidos. direta ou indiretamente. os três últimos do curso de mestrado em educação do IESAE/FGV. Mônica Teresa do Rego Mon- teiro. 1979.3.216. Marluce Moura de Medeiros. Foram os seguintes os textos já publicados em versão preliminar. Em princípios de 1976. da Fun- dação Getúlio Vargas.

02 Jun 2017 15:59:19 UTC All use subject to http://about. Contribuíram com a doação de material relevante Léa Pinheiro Paixão. Dermeval Saviani.130 on Fri. LAC 6 This content downloaded from 179. Luiz Carlos Soares e Gicélia Lima Azzedine. o Arquivo Nacional. os retomados e os inéditos. José Oliveira Arapiraca.jstor. Luiz Antônio Cunha Na montagem da versão final beneficiei-me da inestimável ajuda da profes- sora Elisete Tavares. nota- damente.179. os quais apenas a mim devem ser debitados. Sou grato a todas essas pessoas e instituições. A Biblioteca Nacional. contribuíram com seus valiosos acervos e a boa vontade de seus funcionários.216. mas não as responsabilizo pe- los erros que eu tenha cometido. que me assistiu tanto no levantamento de novas fontes quanto na elaboração dos textos.org/terms . o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil e.

please contact support@jstor. (2000) Stable URL: http://www.jstor. and build upon a wide range of content in a trusted digital archive.jstor.130 on Fri. preserve and extend access to Ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata This content downloaded from 179. use.216. We use information technology and tools to increase productivity and facilitate new forms of scholarship.SciELO – Editora UNESP Chapter Title: O aviltamento do trabalho manual Book Title: Ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Book Author(s): Luiz Antônio Cunha Published by: SciELO – Editora UNESP. available at http://about.org/terms SciELO – Editora UNESP is collaborating with JSTOR to digitize.jstor. Your use of the JSTOR archive indicates your acceptance of the Terms & Conditions of Use. researchers. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about.org/terms .179.4 JSTOR is a not-for-profit service that helps scholars.org/stable/10. and students discover. For more information about JSTOR.7476/9788539303007.org.

elemento qualifi- cado de uma sociedade livre. 7 This content downloaded from 179. e explicar os mistérios do universo em relação aos fenô- menos familiares a todos. Em conseqüência. 1 O aviltamento do trabalho manual Na formação da cultura brasileira.jstor. O pro- gresso técnico deu origem a uma classe baseada no artesanato. O princípio da identidade entre os processos téc- nicos e os processos naturais é a chave da mentalidade dessa época. que elaboraram à sua maneira a herança clássica. exerceu uma influência marcante a he- rança da Antigüidade clássica no tocante ao trabalho manual representado como atividade indigna para um homem livre. o pro- gresso técnico convivia harmoniosamente com a especulação abstrata. desenvolveu-se uma concepção do mundo que resultou do controle da natureza pelo técnico. O (des)valor do trabalho manual na cultura ocidental A cultura ocidental não conferiu ao trabalho manual sempre o mesmo valor. nos séculos VI a V a. No inventário do pensamento grego clássico realizado por Benjamin Far- rington (1961). A característica marcante desse período foi a de não distinguir essencial- mente o céu e a terra. C.179.216. que logo assumiu o poder nas cidades gregas. também. na manufatura e no comércio. pela ação pe- dagógica dos padres jesuítas. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about.130 on Fri. no chamado período pré-socrático da História da Filosofia ou de Idade Heróica da Ciência. provenientes de uma região da Europa onde a rejei- ção do trabalho manual era especialmente forte. lemos que.. Essa herança aqui chegou com os colonizadores ibéricos.org/terms . como.

179. tanto habilidade técnica quanto especulação abstrata. o esquadro. a régua e o mé- todo de fundir o bronze. C. 8 This content downloaded from 179. Luiz Antônio Cunha No início do século VI. na medida em que engendra. a formação dos conhecimentos relativos à sua correspondência com as necessidades e os empregos para os quais são produzidos.jstor. modernizou Atenas e suas leis. Sólon. nem a prática de um ofício inferiorizava o artífice. Rodolfo Mondolfo (1967) fez sua própria revisão do pensamento clássico grego e chegou à conclusão de que se travou aí um conflito entre dois conceitos opostos de trabalho. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. então. por si mesmo. p. A palavra sophia significava. etapa essa que é condição e preparação da mais alta.org/terms . ao que correspondeu o enrijecimento do regi- me de castas. (Farrington.130 on Fri. Tales aplicou seus conhecimentos de matemática e geometria no aperfeiçoamento da navegação. Nessa época. o trabalho constitui uma etapa necessária do desenvolvi- mento intelectual humano. cujos títulos de glória foram ter aperfeiçoado a âncora e inventado o fole e a roda do oleiro. que inventou a liga para soldar. a da pura teoria. Va- mos nos deter um pouco nesse conflito. o trabalho manual não era considerado uma desgraça. e Anaximandro fez o primeiro mapa-múndi. a quem se atribui larga série de invenções técnicas como o nível. que se destacou no comércio de exportação. que foi o legado grego clássico à cultura ocidental. 1961. Essa reorien- tação do pensamento grego foi determinada por elementos econômicos e polí- ticos – a intensificação do emprego de escravos e a conseqüente depreciação social de todos os trabalhadores.68) Em Mileto. representante dessa nova classe dirigente. um positivo – que o valorizava como elemento do conhecimento – e outro negativo. de terem contribuído para o desprezo do trabalho manual (o tal conceito negativo). atividade cognosciti- va.216. que o filho não tinha a obrigação de sustentar o pai na velhice. todas as honras deveriam ser concedidas aos homens que contribuíssem para o domínio da natureza. ou Teodoro de Samos. Mesmo tendo acentuado a valorização do trabalho como elemento do co- nhecimento pelos gregos antigos (o que não teria sido suficientemente reco- nhecido por outros autores). nem Platão e Xe- nofonte. O trabalho é. Eram louvados homens como o cita Ancársis. para o filósofo grego. o torno. Mondolfo não exime Aristóteles. se este não lhe hou- vesse ensinado um ofício. ou homens como Glauco de Quios. O desfecho desse conflito foi favorável ao conceito negativo de trabalho. significativamente. Para Aristóteles. que teria prevalecido a partir do século IV a. Nessa época. que o relegava a uma atividade inferior. pois acreditava-se que a melhor especulação baseava-se na técnica. Uma delas determinava. Na senda aberta por Farrington.

o cultivo da terra.130 on Fri. o filósofo grego afirmava que a cidade- modelo não deveria jamais conceder a cidadania aos artesãos. que tinha se manifestado desde os pré-socráticos e se mantido até Aristóteles (Mon- dolfo. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. parágrafo 2º) Em Roma.. considerada por eles indispensável ao bem-estar da sociedade e à segurança pública. Tibério Graco... Complemen- tarmente. Depois das grandes conquistas do século II a. porque o descanso lhes é necessário para fazer nascer a virtude em sua alma. Em 133 a. porque este gênero de vida tem qualquer coisa de vil. e é contrário à virtude. a matemática alexandrina repudiou a insistente sugestão de Arqui- medes para a adoção de um método mecânico para o descobrimento e a de- monstração de novos teoremas. e para executar os deveres ci- vis.d. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Com efeito. o escravagismo acabou por fundar a separação entre a contem- plação e a ação. Não tiveram sucesso em seu intento. concentrada nos latifundia passou a ser coisa para os escravos captu- rados dos povos conquistados. tribuno da plebe.. a física se afastou da experimentação. s. Galileu e outros. livro IV. para que sejam ver- dadeiramente cidadãos. Em A política. e seu irmão Caio apresenta- ram projeto de legislação agrária que permitiria ao Estado retomar as antigas terras públicas para redistribuí-las em pequenos lotes a homens livres.jstor. o conceito de labor continha um valor positivo. É preciso mesmo.8. cap. a 9 This content downloaded from 179. repudiou a invenção e o emprego de instrumentos e de máquinas.216. tendo de espe- rar pelo Renascimento. que eles não se façam lavradores. do negotium. Em con- seqüência. p.org/terms . o que poderia ter aberto à geometria o ca- minho de novos desenvolvimentos. C. 1967. Aristóteles contribui com sua obra monumental. a medicina se divorciou da cirurgia (operação com as mãos). a ciência permaneceu paralisada durante séculos. C.. cuja expansão se deu com base num exército constituído de ho- mens livres que cultivavam a terra diretamente. com Leonardo da Vinci. de modo a se reconstituir a classe dos pequenos agricultores. (Aristóteles. na qual certas passagens foram postas na sombra em proveito de outras. uma espécie de canga que se punha nos bois para propiciar a tração de carga. ele defendia que o ócio é uma condição de existência da virtude cívica: Em um Estado perfeitamente governado .179. permanecendo a exploração latifundiária com força de trabalho escravo a base da economia romana. para reto- mar o antigo projeto de união e cooperação entre teoria e prática. O conceito de labor foi substituí- do pelo de trabalho. Em sentido figurado. Na celebração dessa separação. os cidadãos não devem exercer as artes mecânicas e nem as profissões mercantis.28). Ou seja. A contemplação dependia do otium e a políti- ca. expressão derivada de tripalium.

pressionados pelo proble- ma do abastecimento de Roma e dos grandes centros urbanos do Império. Com o fim das fontes de suprimento de escravos. um patrimônio comum formado pe- las quotas pagas pelos associados e pelos bens móveis e imóveis. uma associação de ajuda mútua e de formação de identidade sociopolí- tica. cou- reiros e curtidores. C. os escravos podiam fazer parte das corporações. o que é pior. freqüentemente reforçada em eventos sociais. 10 This content downloaded from 179. p. permite supor a existên- cia do verbro tripaliari.org/terms .jstor. Como concluíu Eurípedes Simões de Paula: Com a crise econômica. os imperadores foram obrigados a mudar de conduta. cobreadores e paneleiros. 1 Cunha & Cunha (1970. fomen- taram e incentivaram a criação de inúmeros colégios artesanais.9). A criação dessas entidades dependia de autorização do governo de Roma para seu funcionamento que. travailler em francês. da prata e outros ofícios (Manacorda. os artesãos eram escravos ou estrangeiros livres. que migravam para Roma. Luiz Antônio Cunha expressão designava um instrumento de tortura feito de três paus. em contrapartida. Os imperadores quase chegaram a tornar obrigatórias as corporações e. 1966. como os do ferro. o que. já que não se podia contar mais com a incorporação de escravos e libertos conhecedores de cada arte. assim. Por exemplo.130 on Fri. Cada corporação possuía um local para sua sede. formado a partir do substantivo tripalium. A decadência do Império romano trouxe mudanças significativas para as corporações de ofício. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. no relato de Plutarco foi determinado por Numa Pompílio.50) sugerem que a existência dos verbos “trabalhar” em português. um cemitério próprio com capela e altar. Foram eles mesmos que. constituindo as primeiras corporações (collegia artifi- cum): flautistas.1 Na capital do Império.). de confecção semelhante à da canga de bois. nem mesmo poderia tomar parte no jul- gamento quando uma das partes litigantes pertencesse à sua agremiação. um patrono religioso. 2 Segundo rei lendário de Roma (c. ourives. 1989. forçaram a hereditariedade das respectivas funções. um membro de uma das corporações não poderia ser acu- sador nem defensor de um “confrade”. p. p.105). sapateiros. desde que autorizados pelos respectivos senhores (Paula. mas não possuíam terras porque não eram cidadãos. designativo de um instrumento de tortura. tintureiros. como aquele equipamento. No IV século a situa- ção agravou-se ainda mais. trabajar em espanhol e travagliare em italiano.2 ao dividir os trabalhadores livres de acordo com os ofícios principais.179. A estes foram acrescentados mais tarde outros fabri. Constituíam.216. A solução encontrada foi o constrangimento da liberdade que as corporações go- zaram desde suas origens. como funerais e banquetes.715-672 a. estabelecia-lhes direitos e de- veres. lenhadores e marceneiros. Os artesãos livres organizaram-se em associações. desconhecido do latim escrito. social e política do III século. o go- verno de Roma viu-se diante do problema de como assegurar a reprodução da força de trabalho artesanal (e também do exército). Nessa época.

com o conseqüente esvaziamento das cidades. as relações entre os pró- prios trabalhadores (mestres. 1966. 11 This content downloaded from 179. aprendizes ou assalariados). mais moral do que propria- mente produtiva. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata De nada adiantaram essas medidas.179. As ativida- des propriamente produtivas. C. O Império. a Regula Benedicti3 trouxe uma concepção completamente nova de trabalho. os que exerciam o mesmo ofício organizavam-se juridicamente. eram confiadas a trabalhadores não pertencentes à comunidade religiosa. ela- borando estatutos. To- davia. nos mosteiros beneditinos. Regulavam. por vezes. esfacelou-se. fizeram que o artesanato remanescen- te ficasse confinado às cortes senhoriais. Esses estatutos continham normas detalhadas que regulavam as relações da corporação com o poder público e com o mercado (aquisição de matérias- primas e venda dos produtos). no bojo do pro- cesso de desenvolvimento urbano. Tratava-se. (Paula. na acepção contemporânea do termo.jstor. pois a fina- lidade do trabalho era. essa era uma exortação mais retórica do que efetiva.65) O colapso do Império romano e o advento da sociedade feudal. p. Foi no século XI que as corporações de ofício apareceram. Em vez de ser visto como condição para a virtude. Ao que parece. Estes trabalhavam nas mesmas condições em que trabalhariam para os rema- nescentes patrões romanos ou para os novos patrões bárbaros (ibidem). Nesse sentido. Para não deixar dúvidas. no entan- to. os seguidores de São Bento eram instados a exerce- rem um trabalho manual por algumas horas a cada dia.121) a considerá-lo como uma espécie de hobby. o ócio passou a ser definido como o pai dos vícios. À medida que sua atividade se expandia e se con- solidava. segundo a máxima ora et labora. também.org/terms .130 on Fri.216. foram sancionados pelos poderes públicos. As cidades surgiram da busca de um espaço de liberdade pela burguesia nascente e pelos servos que escapavam da dominação feudal. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. um espaço onde o artesanato. além da oração. assim como os trabalhos manuais. ferido de morte. agora no âmbito de uma concepção do mundo bastante di- ferente da Antigüidade clássica – o catolicismo. em geral. com base nos antigos costumes (inclusive os dos collegia romanos) que. a exemplo da Antigüidade. p. uma das passagens da Regula dizia que os religio- sos “são verdadeiros monges quando vivem do trabalho das próprias mãos”. redigidas por vol- ta do ano 540 d. Para com- batê-los. o que levou Mario Manacorda (1989. Os mosteiros propiciaram. particu- 3 Trata-se das regras que deveriam ser obedecidas pelos monges beneditinos. de que dependia a existência material do mostei- ro. foram valorizados. carregando a marca de suas origens. entre eles os ar- tesãos das cortes senhoriais. as corporações de ofício conseguiram sobreviver.

Luiz Antônio Cunha

larmente, do número e da idade dos aprendizes, da duração da aprendizagem,
do pagamento pelo aprendizado, e da “obra prima”, uma espécie de prova fi-
nal prática, pela qual o aprendiz era recebido entre os mestres e podia exercer
seu ofício autonomamente.

Mas, nestas velhas estruturas esconde-se um problema novo: nesta aprendiza-
gem do ofício, da qual se visualizou apenas o procedimento didático, há sem dúvi-
da, ao lado do aspecto meramente executivo, também um aspecto científico, isto é,
o conhecimento das matérias-primas, dos critérios de sua lavra, dos instrumentos:
até um ínfimo cinzelador deve conhecer algo sobre petrografia, etc. Mas, esses co-
nhecimentos foram confiados à transmissão envolvida no “segredo da arte”4 e não
estavam organicamente sistematizados nem articulados com conhecimentos mais
gerais. De todas as artes manuais, somente a medicina e a arquitetura vieram a se
transformar em ciências e deram origem à redação de numerosos tratados e à dis-
cussão sobre as relações entre ciência e produção. Galeno e Vitrúvio são os seus
modelos. (Manacorda, 1989, p.167)

As artes consideradas vis não sistematizaram e nem divulgaram sua ciência.
Além disso, a cultura de seus protagonistas não passava de “cacos da ideologia
das classes dominantes” (ibidem), somados a alguns rudimentos de instrução
formal na leitura, na escrita e no cálculo.
A antiga distinção de atividades nobres e ignóbeis foi refeita no âmbito das
corporações entre os que cultivavam as artes liberais e as artes mecânicas. As
artes liberais eram as atividades dignas dos homens livres, que, no sentido
apontado por Antonio Santoni Rugiu (1998), quer dizer livres da necessidade
de ter de trabalhar para viver.
Não bastasse a discriminação sociocultural entre as artes liberais e as artes
mecânicas, o Renascimento produziu a diferença entre o artista e o artífice. O
primeiro era garantido pelo trabalho individual e pela genialidade pessoal,
além da capacidade de trabalhar em qualquer lugar, independentemente de
uma associação profissional. Já o segundo – o artífice –, continuava em seu tra-
balho anônimo, restrito ao âmbito da corporação de ofícios, que constituía, ao
mesmo tempo, uma atenuação de seu enfraquecimento diante das novas con-
dições de produção que se anunciavam (Rugiu, 1998, p.89).
A diferença entre os praticantes das artes liberais (mais as novas belas-ar-
tes) e os das artes mecânicas se acentuou notavelmente como resultado da di-

4 Rugiu (1998, p.32) chama a atenção para o fato de que na corporação de ofício estavam estrei-
tamente entrelaçados os requisitos de uma atividade organizada rigidamente (mister) e de um
fazer secreto (mistério). O mister aludia, portanto, a uma atividade que tinha o segredo dos
seus procedimentos e dos seus ritos, como primeiro caráter distintivo, geridos e guardados pe-
los iniciados.

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

fusão da imprensa no século XVI. Uma nova hierarquia interna nas duas artes
foi gerada, entre os que sabiam ler e os que não o sabiam, hierarquização essa
mais forte entre os artífices do que entre os artistas. Daí, as corporações vis se
tornaram ainda mais vis.

Assim, no momento em que o homem livre agora não é mais só o contemplati-
vo ou o ocioso, mas também quem desenvolve um trabalho, desde que prestigiado
e possivelmente intelectual, a evolução do etmo “livre” pode-se sempre mais fazer
remontar a liber, equivalente a livro, porque o homem importante, agora não pode
não ter nada a ver com o livro impresso, qualquer que seja esse. (Rugiu, 1998,
p.111)

Enfraquecidas pela rejeição simbólica, as corporações de ofícios mecâni-
cos foram se diluindo pelas exigências das manufaturas, agora ávidas de força
de trabalho livre do seu controle, barata e fácil de se contratar e de se dispen-
sar. Ao fim do século XVIII, os governos dos países da Europa começaram a
extingui-las. O primeiro foi o da Áustria, em 1761. A França fez o mesmo em
1776, como um imperativo da política econômica fisiocrata. Depois de recons-
tituídas por um curto período, as corporações foram definitivamente extintas
na França em 1791, em pleno processo de consolidação do poder da burguesia
revolucionária. A Prússia foi o último dos Estados europeus a extinguir as cor-
porações de ofício, o que fez em 1869.
Na Península Ibérica, onde o artesanato não floresceu como no restante da
Europa, vemos o valor social conferido ao trabalho manual ser especialmente
depreciado.
A rejeição do trabalho manual parece ter sido comum tanto à cultura portu-
guesa quanto à espanhola. Desta última, diz uma das Cartas persas, de Montes-
quieu, de 1721, na passagem em que o filósofo francês satiriza o orgulho da
pele branca que os homens livres, mas “invencíveis inimigos do trabalho”, ti-
nham de sua própria ociosidade:

Um homem dessa importância, uma criatura assim perfeita, não trabalharia
nem por todos os tesouros do mundo, e jamais se arriscaria, por uma vil e mecânica
indústria,5 a comprometer a honra e dignidade de sua pele. Pois deve-se saber que,
quando alguém tem algum mérito na Espanha – como, por exemplo, quando pode
acrescentar às qualidades de que já falei a de ser dono de uma espada longa, ou a
de ter aprendido com o pai a arranhar um violão desafinado – pára de trabalhar:
sua honra exige o repouso de seus membros. Quem fica sentado dez horas por dia
alcança assim metade a mais de consideração do que alguém que passa apenas cin-

5 Atenção para o significado do termo indústria que, no século XVIII, correspondia a aptidão,
arte, engenho, inteligência, diligência.

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Luiz Antônio Cunha

co horas sentado, porque é nas cadeiras que se adquire nobreza. (Montesquieu,
1991, p.135-6)

Essa crítica de Montesquieu é consistente com a rejeição da hierarquização
sociocultural das artes liberais e das artes mecânicas, pelos enciclopedistas
franceses (1751-1765), com Diderot e D’Alembert à frente.
Diderot, em especial, fez um levantamento empírico das práticas artesanais
e observou o trabalho de numerosos artífices, cujos nomes foram listados na
Enciclopédia das Ciências, das Artes e dos Ofícios, como colaboradores.
Mais do que se apropriar de um saber-fazer em estado prático, Diderot preo-
cupou-se em demonstrar uma nova perspectiva, a da articulação da teoria com
a prática, conforme escreveu no verbete Arte:

Aquele que sabe somente a geometria intelectual é normalmente um homem
sem destreza, e um artesão que tem somente a geometria experimental é um operá-
rio muito limitado ... Sobre certos problemas, tenho certeza que é impossível con-
seguir algo satisfatório das duas geometrias em separado ... Façamos, afinal, aos ar-
tesãos, a justiça que lhes é devida. As artes liberais se auto-elogiaram bastante;
usem agora toda a voz que têm para celebrar as artes mecânicas. (apud Manacorda,
1989, p.241)

Mas é preciso levar em conta que essa atitude não era compartilhada por
todos os enciclopedistas, nem mesmo por Jean-Jacques Rousseau, um dos mais
célebres.
Rousseau (1712-1778) viveu quando a Revolução Industrial já se desenvol-
via na Inglaterra, com todas as conseqüências que acarretaria para o advento
de um mundo novo. Diante desse fato, e apesar de não aceitar o mundo feudal,
o filósofo preferia retardar as mudanças ameaçadoras que se anunciavam e
adotar uma conduta preventiva.
Em sua mais importante obra pedagógica, Emílio ou da educação (1762), o
filósofo imaginou seu discípulo, que dá nome ao livro, como um jovem de
“berço”, rico e francês. Coerente com sua concepção sobre a divisão social do
trabalho, apresentada no verbete “Economia Política” da Enciclopédia, Rousseau
atribuía um elevado valor moral a essa atividade humana:

Quem come no ócio o que não ganhou por si mesmo rouba-o; e um homem
que vive de rendas pagas pelo Estado para não fazer nada, não difere muito a meus
olhos de um bandido que vive a expensas dos viajantes. Fora da sociedade, o ho-
mem isolado, nada devendo a ninguém, tem o direito de viver como lhe agrade;
mas na sociedade, onde vive necessariamente a expensas de outros, deve-lhes em
trabalho o custo de sua manutenção; isto sem exceção. Trabalhar é portanto um de-
ver indispensável ao homem social. Rico ou pobre, poderoso ou fraco, todo cida-
dão ocioso é um patife. (Rousseau, 1992, p.214)

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

O filósofo não deixou de evidenciar seu desprezo pelos ofícios manufa-
tureiros, por causa do automatismo que neles via ou pela força física que
exigiam:

não gostaria dessas profissões estúpidas em que os operários, sem engenho e qua-
se autômatos, só exercitam suas mãos no mesmo trabalho; os tecelões, os fazedores
de meias, os canteiros: que adianta empregar nesses ofícios homens de bom senso?
É uma máquina que conduz outra. (Rousseau, 1992, p.222)

A ocupação produtiva (“que pode outorgar a subsistência ao homem”)
que mais se aproxima do estado natural é o trabalho artesanal. Para Rousseau,
o artesão só depende de seu trabalho. Ele é tão livre quanto o lavrador é es-
cravo, pois este está preso ao campo, cuja colheita está à mercê de outrem.
O inimigo, o príncipe, um vizinho poderoso, um processo, podem to-
mar-lhe a terra. Por sua dependência, o lavrador pode ser humilhado de mil
maneiras, o que não acontece com o artesão, pois diante de uma situação
adversa, ele toma sua bagagem em seu braço e vai-se embora.6 Entretanto, a
agricultura é o primeiro ofício do homem: o mais honesto, o mais útil, e por
conseguinte o mais nobre que se possa exercer. Emílio deveria aprender so-
bre a agricultura mas não a praticaria. Deveria aprender e praticar um ofício
artesanal, disso Rousseau fazia questão fechada. Mas o filósofo dizia a seu
discípulo:

Trata-se menos de aprender um ofício, para saber um ofício, do que para ven-
cer os preconceitos que o desprezam. Nunca sereis forçado a trabalhar para viver.
Tanto pior. Mas pouco importa; não trabalheis por necessidade, trabalhai pelo pra-
zer. Abaixai-vos à condição de artesão para que fiqueis acima da vossa. Para domi-
nar a sorte e as coisas, começai tornando-vos independente. Para reinar pela opi-
nião começai reinando sobre ela. (Rousseau, 1992, p.215)

O ofício que ele gostaria que seu discípulo aprendesse é o de marceneiro:
é limpo e útil, pode ser exercido em casa, mantém o corpo em atividade, exige
do artesão engenho, habilidade, elegância e gosto. Ademais, se Emílio viesse a
se dedicar às “ciências especulativas”, ele poderia empregar o que aprendeu
para fazer instrumentos matemáticos e astronômicos. Nada mais próximo da
acepção contemporânea do hobby!

6 Esta referência parece alusiva a seu pai, relojoeiro que acabou tendo de deixar Genebra por
questões políticas. É claro que esse deslocamento só foi possível quando as corporações de
ofício estavam em plena decadência.

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os ofícios mecâni- cos passavam a ser desprezados. tecelões etc. Quando libertos. ferreiros. empenhados todos em se diferenciar do escravo. a ser “coisa de escravos” ou da “repartição de negros” e. Por isso. no Brasil Colônia. quando a exploração do escravo é que o era. na passa- gem do século XVIII para o XIX: Por outro princípio são prejudiciais os negros no Estado do Brasil. como se houvesse algo de essencialmente aviltante no trabalho manual. por certo.216. esforçando-se para eliminar as ambigüidades de classificação social. e é que como todas as obras servis e artes mecânicas são manuseadas por eles. o que era da maior importância diante de senhores/em- pregadores. o desenvolvimento de outros países. motivo al- gum para valorizar o trabalho naquelas relações. Além da herança da cultura ocidental. que viam todos os trabalhadores como coisa sua. O trabalho manual passava. poucos são os mulatos e raros os brancos que nelas se querem empregar. Homens livres se afastavam do trabalho manual para não deixar dúvidas quanto a sua própria condição. O em- prego de escravos como carpinteiros. as que exigiam esforço físico ou a utilização das mãos. Mas o trabalho continuava sendo definido como um castigo. Luiz Antônio Cunha Escravidão e trabalho manual na cultura brasileira Desde o início da colonização do Brasil. sempre que podiam. afugen- tava os trabalhadores livres dessas atividades. professor de aula régia de língua grega na Bahia. então. os ex-escravos aceitavam sobreviver nas suas antigas condi- ções materiais. Mas. era uma solução freqüentemente procurada. matizada pela cultura ibérica. entre outras razões. essa característica “contaminava” todas as ativida- des que lhes eram destinadas.jstor. inclusi- ve e principalmente daqueles que estavam socialmente mais próximos dos es- cravos: mestiços e brancos pobres. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about.130 on Fri. não poderia haver. os mestres faziam escravos aprenderem ofícios para pô-los a trabalhar em suas tendas. de fato ou de direito. Com efeito. um alvo altamente desejável. pedreiros.179.org/terms . A quebra das relações escra- vistas pela fuga do domínio do senhor. Para o objeto da exploração escravista. as relações escravistas de produ- ção afastaram a força de trabalho livre do artesanato e da manufatura. aí está a base do preconceito contra o trabalho manual. trabalhando o menos possível. que em Portugal nunca passaram de criados de servir. de mo- 16 This content downloaded from 179. as corporações de ofícios (irmandades ou “bandeiras”) não tive- ram. O resultado foi um generalizado preconceito contra o trabalho manual. Mostrar-se livre era distanciar-se o mais possível do lugar social do escravo. numa sociedade em que o trabalho manual era destinado aos escravos (índios e africanos). e o ócio. inaugurando uma vida “livre”. por uma inversão ideológica. dispensando-se de pagar salários a obreiros (livres). Como escreveu em uma de suas cartas Luiz dos Santos Vilhena. sem excetuar aqueles mesmos indigentes.

motivo porque começa a perseguir logo o amo para que o acomode em algum emprego público que não seja da repartição dos negros e tão publicamente os empregam alguns amos. obter o grau de mestre e abrir oficina própria. também. Carta Terceira) No entanto. nas corporações brasileiras. embora sem apoio legal. no entanto. no século XV. Mouros e judeus. Com o tempo. era grande o número de “cristãos-novos” praticantes de ofícios mecânicos. as corporações baixavam normas rigorosas impedindo ou. “pardo e de baixa condição”. pelo menos. pedindo para ser examinado. fosse uma herança dos conflitos metropolitanos.jstor. dizia: Todo irmão em que se notar raça de mulato. o andar morrendo de fome. que os sustenta.139-40. será expulso da Irmandade sem remissão alguma.org/terms .130 on Fri. (Vilhena. Uma informação da Irman- dade de São José. desincentivando o emprego de escravos como oficiais e. de que para alguém ser examinado no ofício de marceneiro e abrir loja precisava ser membro da Irmandade de São José. e cavadores de enxada. embora fosse improvável que seu número no artesanato do Brasil Colônia merecesse referências especiais. tendo por melhor sorte o ser vadio. de ca- racterísticas étnicas “inferiores”. procurava-se “branquear” o ofício. o rigor foi diminuindo. é elucidativa quanto a essa questão. da Irmandade de São José (de pedreiros e carpinteiros) do Rio de Janeiro. havia ofícios cujo exercício não convinha aos artesãos que fos- sem confiados a escravos.7 Com esse propósito. sendo a “falta” de características étni- cas compensada por esmolas especiais à entidade. quando do surgimento da organização corporativa. os criados se antecipam. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. que não podia ser 7 Em Portugal. e isto por não fazerem o que os negros fazem em outras casas. A mesa da corporação informava um requerimento feito por um oficial marceneiro. se porém os amos se demoram em dar este despacho. p. Seu compromisso dizia. 17 This content downloaded from 179.179. É possível que as referências aos judeus.216. Observa-se que o que aqui vem servindo al- gum ministro é só bom criado enquanto não reflete que ele em casa de seu amo se emprega naquele serviço que nas outras só são da repartição dos negros e povos mulatos. o compromisso de 1752. 1921. além de proibir sua entrada. em decorrência. dificultando-o a negros e mulatos. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata ços de táboa. os estima. dotados. datada de 1820. o vir parar em soldado e às vezes em ladrão. A informa- ção reafirmava a exigência. que se vêm perseguidos e mal servidos que os põem no meio da rua. eram arrolados nas mesmas normas. do que servir um amo honrado que lhes paga bem. O mesmo se estenderá de suas mulheres tendo qualquer das sobreditas faltas. Quando isso acontecia. mouro ou judeu. aqui mais simbólicas do que efetivas. ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro.

org/terms . de que os juízes de ofícios negavam-se a examinar candidatos nessa condição. p. Anúncios de jornal publicados em Salvador mostram que a prática de alu- gar escravos artesãos era prática corrente. no século XVIII. mouro ou judeu”. em 8. estipulava uma esmola especial para que o oficial mulato fosse aceito como irmão e. em especial depois que as corpora- ções de ofício foram extintas pela primeira constituição imperial.179. Em 1756. e tem excelentes qualidades” (Vianna Filho. todo oficial que tivesse algum desses traços não podia ser examinado.1836: “Vende-se. por si ou por seus senhores. situa- ção especialmente difícil para um artífice livre e mestiço. participar dos ofícios Divinos da Irmandade. os mulatos ficavam obrigados à taxa de 19$200. Mais difícil ainda para um negro li- vre. Vejamos o que dizia um anúncio publicado no Diário da Bahia. a Câmara tomou posição diferente da prevalecente no Rio de Janeiro.74-5). diante das reclamações de proprietários de escravos artífices. Caso os juízes de ofícios se negassem a proceder aos exames. a quem tal situação causava a maior estranheza.130 on Fri. oficial sapateiro. a que seu ofício estiver anexo. busquem alistar-se na Irmandade que lhes é própria. o qual paga pontualmente sua semana. Mas a irmandade. à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. mas a sua quali- dade repugna. assim. 8 Refere-se. e também.26) Gilberto Freire noticia outra situação em Pernambuco. medidas judiciais contra eles seriam tomadas pela Câmara (1940. embora nem mesmo assim houvesse igualdade de direitos: Se tais indivíduos desejam examinar-se para abrir loja. nem mesmo os traços étnicos ajudariam na pretendida distinção sociocultural. tendo de exercer o ofício como assalariado de um mestre/irmão. p. é digna de repulsa sua ousadia.jstor. pelo relato de alguns estrangeiros que passaram pelo Bra- sil no século XIX. p.8 (Palmeira. Determinou ela que os artífices escravos podiam requerer. um vistoso molecote de Nação. os exa- mes que permitissem exercer autonomamente seus ofícios. era preciso que um homem livre se distinguisse do escravo. 1969. o conseguem por aquele meio. em meio a negros es- cravos que podiam exercer o mesmo ofício.72). Luiz Antônio Cunha irmão quem tivesse traço da “raça de mulato.7.216. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. “con- duzida pelo espírito de beneficência”. 1988. Vejamos alguns exemplos da rejeição compensatória do trabalho manual. já que no seu caso. mas se infestados de vaidade aspi- ram a servir os cargos da Irmandade para se figurarem ombreando com os de supe- rior qualidade. não por vindita. provavelmente. Portanto. Por isso. pudesse ser examinado e abrir loja: enquanto os irmãos sem “qualidade repugnante” pagavam 2$000 de taxa de exame. 18 This content downloaded from 179.

s.d. I.org/terms . Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.216. Luiz Antônio Cunha FIGURA 1 – Negros serradores de tábuas. São Paulo: Martins. J. (Fonte: Debret.130 on Fri. B.jstor. t. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about.179.) 20 This content downloaded from 179..

s. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata FIGURA 2 – Sapataria.179. B. (Fonte: Debret.) 21 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about.d. J. t.216.130 on Fri. São Paulo: Martins. I.org/terms ..jstor.

A importân- cia dos interesses dos proprietários de escravos pode ser ilustrada por um acontecimento no qual se vê o emprego dos “escravos de ganho” impedindo a adoção de inovações técnicas. apesar de disponível. Cada trabalhador se considerava iniciado nalgum mistério. talvez.jstor. que apenas ele e os de sua confraria podiam compreender. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata O depoimento de um viajante estrangeiro. 1966. na alfândega do Rio de Janeiro e era dotado de tal potência que permi- tia aos dois homens que o operavam fazerem o serviço de vinte que só dispu- sessem de sua força física. Era tão difícil rivalizar com eles em inteligência como na qualidade de seus trabalhos. para pintar a pobreza de um homem livre. consideravam-se todos eles fidalgos demais para trabalhar em público. dá conta da rejei- ção do trabalho manual: A primeira coisa que seduz um operário em Tejuco.72-3). De uma feita. agora inglês. de um dos objetos de uso caseiro mais comum. que. certa época. Houve carpinteiros que exprimiram seu es- panto ao verem um inglês tomar de uma serra e manejá-la com a mesma destreza e rapidez maior que a deles próprios. Atentando para os possíveis preconceitos e as previsíveis dificuldades de comunicação. diz-se que ele não dispõe de ninguém para ir buscar-lhe um balde de água ou um feixe de lenha. se tornava necessário fazer um modelo grosseiro daquilo que se lhes encomendava e ir de oficina em oficina até descobir algum que estivesse dis- posto a executá-lo. Sentindo que a utilização do guindaste faria minguar aquela renda. pelas ruas. 19 This content downloaded from 179. p. membro da missão artística fran- cesa. e tal é o sentido de vergonha dado a certos trabalhos que. Tão ignorantes e estúpidos eles eram. disseram-me que o que eu queria não podia ser executado pelo engenho humano.org/terms . os funcio- nários conseguiram evitar seu emprego (Conrad. p. 1975.216. se vistos carregando a menor coisa. Um guindaste inglês tinha sido instalado. p. quando ele consegue eco- nomizar algum dinheiro.179. pois todos os funcionários da alfândega eram proprietários de es- cravos que alugavam à instituição (os mais modestos tinham cinco escravos). é arranjar um escravo.230). embora se tratasse. 1974. Essa disposição penetrava toda a vida urbana. p. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about. e que ficariam degradados. O guindaste não chegou a ser utilizado. que visitou Diamantina durante sua estada (1816-1822). 1975.33) Outro viajante. os mecânicos brancos juntaram mais uma loucura. que esteve no Rio de Janeiro no período 1808-1822. onde havia senhores que mantinham “no ganho” até trezentos escravos (Costa. ainda que fossem as ferramentas do seu ofício. (Luccock.13). A isso. (Saint-Hilaire. expressa sua surpresa diante do fato de que a rejeição do trabalho manual em geral acabou por depreciar o próprio trabalho artesanal. freqüentemente.130 on Fri. vejamos o que ele escreveu: Todas as artes eram praticadas da maneira mais formalística e aborrecida possí- vel.

Luiz Antônio Cunha

Pelo que vimos, a defesa de certos ofícios contra o denegrimento 9 era o
complemento dialético do desprezo pelo trabalho exercido pelos escravos (pe-
los negros). Um e outro expressavam, ideologicamente, não apenas a discrimi-
nação do trabalho manual das demais atividades sociais, como em geral se diz,
mas, sim, a daqueles que o executavam (Berger, 1976, p.236).
Situação análoga à do artesanato ocorreu na área da saúde, embora esse
termo seja anacrônico quando empregado para designar uma atividade profis-
sional no período colonial.
Até a transferência da sede do reino português para o Brasil (1808), não ha-
via ensino de medicina e de cirurgia na Colônia: todos os físicos10 eram forma-
dos na Europa – em Coimbra e em Montpellier (França).
Nessa época, o cuidado com a saúde era, no Brasil, atribuição de curandei-
ros. A pequena quantidade de médicos e cirurgiões se somava à sua subordina-
ção social aos senhores da terra. Em 1794, no Rio de Janeiro, então sede do
vice-reinado, havia apenas nove físicos e 29 cirurgiões-barbeiros. Estes se sub-
metiam a provas de habilitação nas práticas de sangria, sarjação, aplicação de
ventosas e extração de dentes, e eram os maiores concorrentes dos físicos. Na
área da prestação de serviços, essa concorrência era especialmente danosa
para os físicos, pois aqueles freqüentemente não tinham escolaridade alguma,
eram de origem social baixa, havia até mesmo escravos e pretos forros entre
eles. Competindo com os médicos (formados em faculdades), diminuíam o
prestígio destes, conspiravam contra sua pretensão de remuneração “compatí-
vel” com sua formação e dificultavam o reconhecimento social do saber obtido
na Europa, justamente numa época em que os conhecimentos científicos pas-
savam a ser amplamente empregados pela medicina (a exemplo dos microscó-
pios e das vacinas). Não bastasse essa concorrência direta dos cirurgiões-bar-
beiros, a arte da cura era também praticada por outros profissionais, como os
boticários, os “anatômicos”, os “entendidos”, os “curiosos”, sem falar nos já
mencionados curandeiros. A partir da criação de cadeiras para o ensino de me-
dicina e de cirurgia no Rio de Janeiro e na Bahia (origem das faculdades), os
profissionais de nível superior desenvolveram uma longa e difícil luta pelo

9 Práticas defensivas como essa continuaram Império adentro. Uma lei provincial do Rio Grande
do Sul chegava a impedir matrícula no Colégio de Artes Mecânicas aos jovens negros, mesmo
que fossem livres.
10 Desde o século XIII, havia se institucionalizado a separação entre os médicos e os cirurgiões,
separação existente de fato já na Grécia Antiga. Os primeiros prescreviam receitas, sem tocar
no corpo do paciente. Os segundos eram nivelados a outros ofícios ignóbeis, como os açou-
gueiros, pois tocavam nos doentes, faziam incisões em seus corpos e sujavam-se com a impu-
reza de seu sangue (Rugiu, 1998, p.150).

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

controle do “mercado” da arte da cura, o que conseguiram pela atuação do
Estado na regulamentação da profissão e pela proibição do charlatanismo, de-
finido como crime pelo Código Penal (Santos Filho, 1977, v.1, p.63-4 e 309).
Essa disputa mostra que uma atividade que exige o uso habilidoso das
mãos – a cirurgia – pode ter baixo ou alto prestígio, conforme seja desenvolvi-
da por uma ou por outra categoria social. No Brasil, ela passou a ter prestígio
tão mais alto quanto mais exclusiva foi a categoria social que a praticava. É in-
teressante notar que, atualmente, a consciência social não considera a cirurgia
“trabalho manual”, mesmo que seu praticante tenha nas mãos seu principal ins-
trumento.
Tanto no caso dos carpinteiros (no Rio de Janeiro do século XVIII) como
no dos físicos, a defesa do branqueamento contra o denegrimento da atividade
era, então, o complemento dialético do aviltamento do trabalho exercido pelos
escravos (pelos negros). Uma e outra expressavam, ideologicamente, não a
mera discriminação do trabalho manual das demais atividades sociais, mas,
também e principalmente, a daqueles que o executavam.
É por isso que considero mais correto dizer que foi a rejeição do trabalho
vil (isto é: reles, ordinário, miserável, insignificante, desprezível, infame) que
levou ao preconceito contra o trabalho manual. Se um dado trabalho manual
não fosse socialmente definido como vil, ele não seria objeto de rejeição, como
acontece atualmente com o trabalho do cirurgião.
Assim, não é de estranhar que certas ocupações não atraíssem muitas pes-
soas para desempenhá-las. O resultado foi o trabalho e a aprendizagem com-
pulsórios: ensinar ofícios a crianças e jovens que não tivessem escolha. Antes
de tudo aos escravos, às crianças largadas nas Casas da Roda, aos “meninos de
rua”, aos delinqüentes e a outros desafortunados.
A “roda” era uma invenção medieval trazida para o Brasil Colônia, onde
desempenhou importante papel na destinação de crianças enjeitadas, um sub-
produto do regime escravista. Consistia numa janela de hospital, convento ou
casa de caridade, na qual se fixava um cilindro com aberturas nos lados (roda)
que girava sobre um eixo vertical, de modo que uma pessoa, passando pela
rua, podia depositar aí uma criança, sem ser vista do lado de dentro. Giran-
do-se a “roda”, a criança era retirada do lado de dentro do edifício. Era uma for-
ma socialmente institucionalizada de se abandonar uma criança aos cuidados
de uma entidade caritativa, mais tolerada do que largá-la nas escadarias das
igrejas. Os largados nas “rodas” eram, basicamente, os filhos dos escravos que
desejavam vê-los libertos (o alvará de 31 de janeiro de 1775 declarava livres as
crianças negras aí colocadas). Quando não era a motivação libertária da mãe, era
o senso utilitário do proprietário da escrava que queria tê-la como ama-de-leite,

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Luiz Antônio Cunha

sem competição. Com efeito, o número de crianças largadas nas “rodas” caiu
um pouco imediatamente após a Lei do Ventre Livre (1871), mas, após a aboli-
ção da escravatura, esse número caiu vertiginosamente (Civiletti, 1991, p.34-5).
No Brasil, foram criadas treze “rodas”; as de São Paulo e de Salvador duraram
até a década de 1950. “Sendo o Brasil o último país a abolir a chaga da escravi-
dão, foi ele igualmente o último a acabar com o triste sistema da roda dos enjei-
tados” (Marcílio, 1997, p.51).
Os documentos analisados por Margareth Gonçalves mostram que os par-
ticulares solicitavam expostos à Casa da Roda do Rio de Janeiro, indicando as
características preferidas quanto a sexo, idade e cor. Sob o pretexto de educa-
rem as crianças, submetiam-nas a trabalhos domésticos e, não raro, à escravi-
dão, apesar da proibição expressa na legislação. Essa autora argumenta que o
próprio fato de haver penas previstas para os que submetessem os expostos
negros ao cativeiro é um indicador seguro de que tal prática existia (1991,
p.172-3).
A propósito, quando Celso Suckow da Fonseca analisou o ensino de ofícios
manufatureiros em meados do século XIX, dizia da novidade que representou
a criação, no Rio de Janeiro, de escolas profissionais para cegos (1854) e sur-
dos-mudos (1856): “O ensino necessário à indústria tinha sido, inicialmente,
destinado aos silvícolas, depois fora aplicado aos escravos, em seguida aos ór-
fãos e aos mendigos. Passaria, em breve a atender, também, a outros desgraça-
dos” (1961, v.1, p.137).
Mas quem podia escolher tinha dois caminhos à sua disposição. O primei-
ro caminho era dedicar-se a atividades que independiam de um aprendizado
sistemático, como o comércio, por exemplo. O segundo era buscar uma educa-
ção secundária (e superior, com maior razão ainda) que, ministrada num colé-
gio jesuíta, por exemplo, enfatizasse as letras, conteúdo perfeitamente comple-
mentar ao aviltamento do trabalho manual.
Ao contrário dos beneditinos, que conferiam um destacado valor ao traba-
lho manual, ainda que não necessariamente ao trabalho produtivo, a Compa-
nhia de Jesus, justamente a ordem religiosa mais influente na educação do Bra-
sil Colônia, valorizava especialmente a atividade intelectual.
Nas escolas jesuítas, o ensino era eminentemente literário, de base clássica.
Mesmo no grau superior, no curso de filosofia, nada havia a investigar, pois os
conhecimentos já estariam prontos nas obras dos autores clássicos, gregos e ro-
manos. Só havia o que comentar (Azevedo, 1971, p.527-8).
No “currículo oculto” das escolas secundárias e dos colégios dos jesuítas
estavam claras a divisão e a hierarquização do conhecimento intelectual e do
trabalho manual, expressas na própria organização religiosa. No topo da hie-

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

rarquia estavam os padres, com sólida formação intelectual baseada nos auto-
res clássicos, que cultivavam a fluência em várias línguas; na base, estavam os
irmãos leigos, que desempenhavam as mais diversas atividades práticas neces-
sárias ao funcionamento das escolas e dos colégios, auxiliados pelos escravos,
alguns deles artesãos.

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130 on Fri. 02 Jun 2017 15:59:22 UTC All use subject to http://about.216.This content downloaded from 179.jstor.179.org/terms .

179. pedreiros e outros. não proprietários de sua própria força de trabalho) os trabalhadores diretamente ligados à produção. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. a intensificação da atividade extrativa nas Minas Gerais. trabalhadores livres nas tarefas de direção do processo produtivo e naquelas exigentes de qualificação técnica especial. gera- ram núcleos urbanos que abrigavam a burocracia do Estado metropolitano e as atividades de comércio e serviços.130 on Fri. com seus quadros próprios de artesãos para as atividades internas de construção. a agroindústria do açúcar organizada como planta- tion utilizando trabalho escravo e. na Bahia e em Pernambuco. constituiu.org/terms . os de “enxada e 27 This content downloaded from 179. na Colônia – e mesmo Império adentro –. eram escravos (isto é. Não havia. uma correspondência perfeita entre as posições ocupadas pelos trabalhadores em relação à proprie- dade ou não de sua força de trabalho e de seu lugar no processo técnico de tra- balho. manutenção e prestação de serviços variados. no comércio de ma- deiras extraídas pelos índios e trocadas com os portugueses pelos mais varia- dos objetos e utensílios. pelo capita- lismo comercial em expansão. em pequena escala. carpinteiros.jstor. A ampliação da agroindústria açucareira. principalmente. e.216. ferreiros. Foi a partir do fim da primeira metade do século XVI que se iniciou uma nova forma de exploração. Também sediados nos núcleos urbanos mais importantes estavam os colégios religiosos. Em geral. 2 A aprendizagem de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil Colônia A primeira forma de exploração da terra e da gente do Brasil. em particular os dos jesuítas. já no século XVIII. Essa população urbana gerou um mercado consumidor para os produtos de diversos artesãos como sapateiros.

escrivães. ta- beliães. explicarei as diferentes conotações que tinha esse termo ao tempo da Colônia. procuradores. da Casa Real) e os oficiais mecânicos residiam no duplo aspecto econômico e político de suas ati- vidades. pedreiros. eram em geral produtores. Chamavam-se simplesmente oficiais os funcionários da burocracia do Esta- do.179. por exemplo. trabalhadores diretamente ligados à atividade produtiva (carpinteiros. contadores e. Os oficiais mecânicos. finalmente. os barbeiros. Enquanto os oficiais mecânicos eram produtores. artífices e artesãos. aqueles constituíam uma classe dominada econômica e políticamente. construída apenas para efeitos introdutórios. denominados mesteirais. juízes (os das alfândegas dos hospitais. como os arquitetos. os ve- readores das câmaras municipais. isto é. quando mostrarei as ligações estreitas entre as corporações de ofícios mecânicos e a administração pública. As diferenças entre os oficiais (da governança da Justiça. neste caso organizado segun- do padrões corporativos. analisarei as causas do fim da organiza- ção corporativa da produção e a forma correspondente de aprendizagem dos ofícios manufatureiros. Antes de entrar na exposição das formas de trabalho dos ofícios. como os feitores e mestres do açúcar. segundo as Ordenações Filipinas. estes trabalhando mediante salário ou participação no produto. cujas atividades assemelhavam-se tecnicamente às dos ofi- ciais mecânicos. dos órfãos e os outros. tesoureiros. embora fos- sem. assim denominados prestadores de certos serviços. proprietários de sua força de traba- lho). assim como eram assalariados (isto é. nos arsenais de marinha e no artesanato urbano. desembargadores. será modificada mais adiante. recebedores. como o chamado preconceito contra o trabalho manual.jstor. até mesmo. Eram oficiais da governança. de 1640. sujeitos aos mesmos padrões de aprendizagem e fiscalização dos homens livres.216. também. do mesmo modo. Mas na agroindústria açurareira havia postos de trabalho ocupados tanto por escravos quanto por homens livres. os oficiais não o eram: enquanto estes estavam a serviço do Estado. os escultores (às vezes cha- 1 Essa categorização esquemática. na mineração.130 on Fri. havia faiscadores escravos e livres. os trabalhadores indiretamente ligados à produção. Na mineração do ouro. Luiz Antônio Cunha foice”. 28 This content downloaded from 179. algumas delas ainda persistentes. da Justiça ou da Casa Real. artistas.1 Alguns artistas. almoxarifes. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. sem matéria específica). também. diferiam deles pelas características sociais do seu trabalho do- tado de alto valor simbólico. ferreiros e outros). Essa ambigüidade era ainda maior no artesanato urbano em que chegava a haver o caso dramáti- co de escravos registrados como oficiais nas câmaras municipais. gerentes e técnicos. como. Procuro reconstruir aqui os processos de aprendizagem do trabalho manu- fatureiro na agroindústria açucareira. nos colégios dos jesuítas.org/terms .

As corporações de ofício. suposta- mente por revelar à cobiça estrangeira as riquezas da Colônia. das tarefas integrantes do processo técnico de traba- lho. A aprendizagem sistemática de ofícios não tomou. a forma es- colar. Os engenhos reais eram dotados de oficinas “completas e perfeitas”. da pecuária e da mineração. necessariamente. também. com categoria ho- mônima à empregada para os oficiais mecânicos. Aproveitei-me das informações relativas à agroindústria do açúcar por ser mais importante. na Colônia. em 1741. dispensando-os dos exames e do enquadramento corporativo. 3 Para a redação deste item baseei-me no livro de Antonil. em 1710. mesmo quando me- nores de idade. neste caso. Os ajudantes não eram necessariamente aprendizes.jstor. por ajudantes/aprendizes. os registros dos contratos de aprendizagem. O livro de Antonil foi liberado pela censura portuguesa. se- gundo padrões dominantemente assistemáticos.2 A aprendizagem dos ofícios manufatureiros era realizada. sendo proibido logo depois. Não eram chamados de mecânicos nem estavam sujeitos à agremiação corporativa. como era o caso da maioria destes. tem-se a resolução de um conflito entre marceneiros e escultores no Rio de Janeiro. a Real Mesa Censória. aprendizes.179. o maior da região do Recônca- vo. O ouvidor deu ganho de causa a esses últimos. a dura- ção da aprendizagem. a remuneração dos aprendizes e outras questões. confundindo-se. estipulando que todos os meno- res ajudantes devessem ser. O ver- dadeiro nome do autor era Giovanni Antonio Andreoni. de onde retirou muitas das informações utilizadas. podendo ter “loja aberta” sem li- cença especial para exercer sua arte. O fato de um ou outro aprender o ofício não era intencional nem necessário. programavam a aprendizagem sis- temática de todos os ofícios “embandeirados”. muitos escravos e cana- viais próprios. utilizando força hidráulica para suas moendas. por serem oficiais liberais.130 on Fri.216. reitor do Colé- gio da Bahia a que pertencia o Engenho de Sergipe do Conde. embora o autor tratasse. consistindo no desempenho. ao contrário. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata mados de entalhadores) e os pintores. Eram os oficiais liberais. os mecanismos de avaliação.org/terms . Foi só no período de transição para a formação do Estado nacional. padre jesuíta italiano. unidade de plantação de cana e fabricação do açúcar. que veio a ser criada a primeira escola para o ensino de ofícios manufatureiros. do tabaco. du- rante a estada da família real no Brasil. sendo mais empregada a de artistas. Os engenhos in- 2 Como exemplo. 29 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Determinavam o número máximo de aprendizes por mestre. a menos que fossem escravos. Cultura e opulência do Brasil. embora essa denominação não fosse comum. na Colônia. Ofícios nos engenhos O centro da agroindústria açucareira era o engenho.3 Havia dois tipos de engenhos.

arren- davam terra do senhor de engenho. assim para aprende- rem a doutrina cristã como para buscarem modo de passar a vida e para se lhes en- comendar um barco. Os lavradores eram homens livres. no aprendizado de ofícios mecânicos: Uns chegarão ao Brasil muito rudes e muito fechados e assim continuarão por toda a vida. As mulheres usam de foice e de enxada. con- gos. Luiz Antônio Cunha feriores eram menos providos e aparelhados.51). p. em poucos anos saem ladinos e espertos. Enquanto isso. os índios eram aprisionados e empregados como escravos em atividades econômicas acessórias ou. nem ter engenho corrente” (1950. a capela. também. porém. retirando-se deles o caldo que fluía por cavaletes de madeira para a casa das 30 This content downloaded from 179. conservar e aumentar fazenda. a casa de purgar. porque sem eles no Brasil não é possível fazer. a casa de moenda. o núcleo do engenho era composto de vários edi- fícios: a senzala. Dos ladinos se faz escolha para caldeireiros. barqueiros e marinheiros. (Antonil. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. a caixaria. talvez por alguns serem descendentes deles. calafates. escravizados. então.jstor. De sua importância. os maiores tendo de 150 a 200 “peças”. de Cabo Verde e de Moçambique. numa ambigüidade tanto étnica quanto social. Nas atividades econômicas predominan- tes. só os escravos usam de machado.216. taxeiros. a casa dos cobres. a carpinta- ria. quando escasseavam aqueles (Novais.52).52) Dizia Antonil que “melhores ainda são para qualquer ofício os mulatos” (ibidem. utilizando força animal para acio- nar as moendas. como os homens. Além da casa do senhor. e a cana que plantavam ficava “obrigada à moenda” deste mesmo. minas. os africanos eram preferidos. nos matos. principalmente os criados em Luanda. embora os índios da terra fossem. os feixes de cana eram espremidos.130 on Fri. embora fosse muito mais difícil mantê-los disciplinados do que aos “crioulos” (os negros nascidos no Brasil). a serraria. 1974). para levarem recados e fazerem qualquer diligência das que costumam ordinariamente ocorrer. Os trabalhadores eram negros aprisionados na África. O autor deixa entrever que isso se deve ao mau uso que faziam dos “favores dos senhores”. o alambi- que e outros. de Angola. por isso. Antonil des- tacava a robustez dos ardas e minas e a facilidade dos congoleses e dos ango- lanos.org/terms . Os escravos constituíam a quase totalidade da força de trabalho empregada nos engenhos. Os escravos negros que vinham para o Brasil eram os ardas. p. dividindo-se o açúcar produzido de modo a cobrir o aluguel da terra e os serviços de sua fabricação.179. p. dis- se Antonil: “Os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho. Outros. porque estas ocupações pedem maior advertência. pois seu lucrativo comércio integrava a acu- mulação de capital na Metrópole. carapinas. 1950. de São Tomé. as residências dos assalariados. Na casa de moenda. possuidores de capital em quantidade insuficiente para instalarem seu próprio engenho e.

Essas condições podem ser percebidas na descrição da “casa dos cobres”. a dedicação obtida. que têm nas fazendas e na moenda e fora os mulatos e mulatas. em razão do material de que eram feitos os tachos onde o caldo da cana era fervido. tanto de escravos quanto de homens livres era desenvolvida no 31 This content downloaded from 179. e para o espiritual. a qualidade da mercadoria produzida. ca- rapinas. às ve- zes. Tem mais cada senhor destes necessariamente um mestre de açúcar.179. carreiros. por ser o se- nhor demasiadamente fácil a querer o que lhe dizem. comumente. O melado aí resultante era transportado para a casa de purgar onde se dava a etapa final de produção do açúcar. a aprendizagem dos ofícios. ou por fugitivos. Servem ao senhor de engenho em vários ofícios. Era o caso do soto-banqueiro (ou contraban- queiro) ajudante do soto-mestre (ou contramestre ou banqueiro).18) Esses oficiais. um sacerdote seu capelão. porque comumente se vêm nelas uns mulatos e uns negros crioulos exercitar o ofício de tacheiros e caldeireiros amarra- dos com grandes correntes de ferro a um cepo. se serviu com satisfação no seu ofí- cio.130 on Fri. Embora fosse alta a qualificação e grande a identificação necessária com os objetivos do senhor. e cada qual destes oficiais tem soldada. e outro na cidade. (p. de quem dependia. um purgador.org/terms . escrava e assalariada. feitores nos partidos e roças. “algum mulato ou crioulo escravo da casa”. e é difícil imaginar o modo pelo qual se conseguia.216. ou muito vingativo e cruel. um banqueiro. vaqueiros. calafates. para que desta sorte o ferro e o trabalho os amansem. ou ocupados em outras partes. um caixeiro no engenho. auxiliando e substituindo à noite o mestre e o contramestre do açúcar. pastores e pescadores. podiam. homens livres que recebiam salário (soldo). O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata fornalhas.116-7) Nessa “casa de penitentes” ou em locais menos insalubres. também chamada casa dos cobres. para que a esperança deste limitado prêmio o alente novamente para o tra- balho” (p.46). Nesse complexo produtivo empregava-se numerosa e diferenciada força de trabalho. ser substituídos por escravos. com alguns “mimos”. oleiros. um feitor-mor do engenho. e ainda inocentes.jstor. canoeiros. banqueiros. além dos escravos de enxada e foice. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Mas entre eles há às vezes alguns menos culpados. (p. para o escravo. o soto-banqueiro era. negros e negras de casa. a quem se dava “no fim da safra algum mimo. a aprendizagem do ofício. se fazia nas condições mais duras. ou por insignes em algum gênero de maldade. Tinha ele de ser um trabalhador de altíssima qualificação e responsabilidade na direção do processo. e um contra-banquei- ro. Apesar disso. onde o caldo da cana era posto a ferver em grandes tachos aquecidos por caldeiras a lenha: É também esta casa lugar de penitentes.

também. e principalmente. O sucesso obtido no ensino dos índios fez que eles se tornassem muito disputados pelos senhores de engenho. e os irmãos coadjutores. em apoio daqueles. razão por que tratarei deles em separado. os mestres e contramestres foram trazidos de outras colônias portuguesas onde essa produção já se desenvolvia.4 Ao contrário da aprendizagem corren- te na Metrópole e mesmo em certos centros urbanos da Colônia. aos quais iam sendo atribuídas tare- fas acessórias da produção. mestiços ou índios. empregados no desem- penho dos mais diversos ofícios.179. Nos colégios e nas residências da Europa. roupeiros. 5 As informações que serviram de base para a redação deste item foram extraídos da obra de Se- rafim Leite. dedicados direta- mente ao trabalho religioso. em termos tanto técnicos (força. 1953. 32 This content downloaded from 179. como da Ilha da Madei- ra. para ensinarem seus misteres a escra- vos e a homens livres. Luiz Antônio Cunha próprio ambiente de trabalho.org/terms . davam preferência às crianças e aos adolescentes. No Brasil. onde eles próprios aprenderam. também capital). p.5 Na organização da Companhia de Jesus havia os padres. matéria-pri- ma. 4 Pelo menos no início da agroindústria açucareira. os primeiros núcleos de artesanato urbano. sem padrões ou regulamentações. a ponto de os jesuítas conseguirem um decreto do rei. atenção) quanto sociais (lealdade ao senhor e ao seu capital. a raridade de artesãos fez que os padres trouxessem irmãos oficiais para praticarem aqui suas especiali- dades como. o bem-sucedido donatário da Ca- pitania de Pernambuco. empregou técnicos judeus nos seus engenhos. Ofícios nos colégios Os colégios e residências dos jesuítas foram. os jesuítas contratavam trabalha- dores externos para o desempenho dos ofícios mecânicos. tendo apenas um ir- mão coadjutor para dirigi-los. talvez. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Artes e ofícios dos jesuítas no Brasil (1953).25). os aprendizes não eram necessariamente crianças ou adolescentes.jstor. mas os indivíduos que eventualmente demonstrassem disposições para a aprendizagem. proibindo “tirar” das aldeias indígenas oficiais mecâni- cos por pessoa de qualquer “qualidade” (Leite. Manuel Diegues Junior (1954) disse que Duarte Coelho. mercadorias e à conservação de si próprio. comerciantes e burocratas. em 1727.216. fossem negros. na forma das instalações. sapateiros. habilidade. ferreiros.130 on Fri. Os irmãos procuravam reproduzir nas oficinas as práticas de aprendizagem de ofícios vigentes na Europa. sem atribui- ção de tarefas próprias para aprendizes. dispenseiros. entretanto. porteiros).). nas tarefas religiosas (sacris- tãos) e nos ofícios mecânicos (alfaiates. nas tarefas domésticas (cozinheiros. Por isso. instrumentos de trabalho. pedreiros. enfer- meiros etc.

Leite menciona o fato de que. Os pintores de tetos. natural de Toulon.48). As olarias existiam em praticamente todos os colégios. em 1667. enxadas. lavravam-se credências. embora fossem raros os irmãos que praticas- sem esse ofício. cunhas. machados. tocheiros. seis ferreiros. e da obra de talha dos altares e dos artefatos comuns de uti- lidade imediata ou até industrial (aparece um irmão tanoeiro). as oficinas dos jesuítas chegaram a produzir embarcações de grande porte.130 on Fri. es- cravos negros... também. A ferraria era uma oficina sempre presente nos colégios. Que produziam estas carpintarias do Brasil sobretudo as das cidades maiores? Além dos grandes madeiramentos das igrejas e colégios. p. índios e negros. arcas e arcazes com bronzes e embutidos de madeiras coloridas. conforme o risco e a supervisão do irmão Honorato Martins. para navegação de cabotagem e longo curso. 6 Leite levanta a hipótese curiosa de que “talvez a meia desnudez a que obrigava se não consi- derasse compatível com a modéstia religiosa” (1953. mestre oleiro na Bahia que formou todo um grupo de oficiais. bufetes. foi fa- bricada lá. havia dois irmãos que lavravam mobiliário artístico e marcenaria fina. contado- res.48). a Padre Eterno.org/terms . sacras. havia três pedreiros.45) Em diferentes pontos do litoral fabricavam-se embarcações para transporte local. chaves e outras ferragens. um deles mestre e os outros dois ofi- ciais. além do que certo tipo de pintura tinha de ser feita forçosamente no local. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata A carpintaria parece ter sido a principal atividade dos irmãos-oficiais. fabricando tijolos. chegado ao Brasil em 1742 (p. com a exceção de Amaro Lopes. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about.jstor. com três escravos da Guiné. naquele mesmo ano. mesas com gavetas tauxiadas e secratárias. Segundo Leite não foram muitos os irmãos que exerceram esse ofício.179. assim como nos engenhos e fazendas dos jesuítas. retábulos. No Colégio do Pará havia.216. forro. (p. aparadores. cadeiras de sola lavrada. e cavername e aparelha- gem da indústria naval.6 Fabricavam anzóis. papeleiras . pregos. telhas e louça variada. facas. nem todos escravos. com os quais aprenderam o ofício um negro (não se sabe se es- cravo) e dois índios. em 1718. Consta que uma das naves que levaram os jesuítas para o exílio. Na Bahia. conso- los (de igreja e de salão). em 1760. por ser dispendiosa a importação daqueles objetos. quadros. foices. casco de tartaruga e marfins. foi comprada uma “tenda (oficina) de ferreiro” completa para o Engenho de Sergi- pe do Conde. 33 This content downloaded from 179. Os pedreiros eram tão necessários quanto os carpinteiros para as obras de construção. altares e bandeiras eram oficiais muito valo- rizados não só por serem raros os existentes na Colônia como. ladrilhos. No Colégio do Pará. um deles.

Em 1706. corantes e remédios. aí foi instalado o hospital militar do Rio de Janeiro onde funcionaram. ferramentas. Como nos grandes colégios da Europa. Já em 1557. na Bahia. encaminhando-se as crianças para as oficinas conforme as inclinações manifestas. cerâmica. p. a maioria possuidora de algum ofício. a pirataria e as dificul- dades de navegação levaram à produção deles no Brasil. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Uma carta do Padre Manoel da Nóbrega. 34 This content downloaded from 179.org/terms . em São Paulo. O ensino dos diversos ofícios era generalizado. os medicamentos eram impor- tados da Metrópole. armas de fogo. descobertas e catalogadas pelos irmãos boticários. Posteriormente. depois com os produzidos aqui. embarcações. já preparados. Não é descabida a suposição de que esse mecanismo de escravização dos índios. uma espécie de laboratório central.7 Foi intensa a atividade dos jesuítas no ensino de ofícios nas reduções gua- ranis. dando conta de sua missão no Mara- nhão e no Pará. 1976). substituísse.216. as cadeiras de medicina e cirurgia. sinos. Luiz Antônio Cunha Apesar de terem sido poucos os irmãos habilitados na fiação e na tecela- gem.jstor. a produção de tecidos era tanta que se exportava para o Rio de Janeiro e para a Bahia. desenvolvendo-se a te- celagem. (Leite. instrumentos musicais. a botica do Colégio do Rio de Janeiro era. no dizer de Leite. 7 Tal era o porte dessa botica e da enfermaria do colégio que. relógios. Trajetória análoga tiveram as insta- lações do colégio da Bahia. levaram à produção de novos medicamentos.130 on Fri. A produção foi organizada de forma autárquica. senão para os usos de casa com grande abundância. algumas delas situadas no atual Estado do Rio Grande do Sul (Lugon. abastecendo as boticas da cidade que vendiam ao público. dizia dos meios de subsistência: para vestido. havia um índio com “tear posto” na aldeia de São Paulo. As incursões militares dos bandeirantes paulistas contra essas reduções vi- savam ao aprisionamento dos índios para vendê-los em diversas regiões do Brasil. a construção de edifícios. as virtudes medicinais das plantas nativas. no século XVI. ao menos em parte. os do Brasil tinham suas boticas onde se fabricavam medicamentos. a partir de 1808. Mas. 1953. A princípio. As estimativas mais modestas dizem ter sido de 300 mil o número de guaranis vendidos como escravos em São Paulo. pólvora. somando a habilidade dos índios para o ofício com a abundância do algodão lá cultivado. foram esses os ofícios que mais se difundiram entre os índios das aldeias. após a expulsão dos jesuítas. raízes do ensino médico no Brasil. no Rio de Janeiro e nas Minas Gerais.179.72-3) Na Aldeia do Embu. primeiro usando componentes importados. que é de algodão tinto (como se usa na Índia e nesta terra) temos 24 fiandeiros com seus teares que podem dar pano não só para vestido.

Isso atraiu para lá oficiais de diversas regiões do país. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. a Câmara Municipal de São Paulo assinalava a alta dos preços cobrados pelos alfaiates e sapateiros que lá permaneceram. p.8 Nesse ano. no entanto. os juízes desses ofícios tivessem o papel de verificadores da aprendizagem. sapateiros e alfaiates. fugiram da cidade e do controle estatal sobre sua força de trabalho. inexistindo grêmios ou corporações de artesãos.179.341-3).130 on Fri. os quais. pelo que se deduz de um documento de 1703 (Fonseca. p.jstor. Chegou-se a cogitar do ensino sistemático da mineração. Entre- 8 Segundo Boxer (1969).73). a Câmara Municipal normalizou duas formas de organização do trabalho artesanal. atraiu para ela sucessivas levas de aventureiros baianos e paulistas que vieram povoar as Minas Gerais. 1969. fazendo que subissem os preços dos produtos e dos serviços artesanais nos locais de origem. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata o longo e incerto processo de aprendizagem de escravos crioulos e de homens livres nos centros urbanos do Brasil. Em 1713. 35 This content downloaded from 179.1. e também em 1706. cartas régias proibiam a concessão de licenças a oficiais mecânicos para se dirigirem às minas. sem que. como acontecia comumente (Boxer. A segunda forma era a licença perma- nente para exercer determinado ofício. Em 1703. surgido justamente no início da decadência da agroindústria açucareira. veio a ter importantes repercussões na prática de ofícios manufatureiros. Segundo Salomão de Vasconcelos (1940). em busca de maior remune- ração para seu trabalho. a Câmara chegou a proibir a saída de certos oficiais para as Minas. 1961.org/terms . de seis meses a um ano. mediante fiança. por exemplo. A primeira era a licença para que certas pessoas pudessem exercer um ofício durante período limitado. Esse novo ciclo econômico. Ofícios na mineração A descoberta de ouro na região do Rio das Velhas. entretan- to. v. como um ofício. até 1725 o trabalho dos artífices em Vila Rica estava livre de qualquer regulamentação.216. A partir desse ano. entre 1693 e 1695. um para cada ofício. Mas o fluxo de oficiais não foi suficiente para impedir que os preços cobra- dos na região das minas fossem considerados demasiado altos. concedida aos aprovados em exames de habilitação perante juízes eleitos a cada ano. a Câ- mara Municipal de Vila Rica decretou um regulamento sobre taxas e padrões de trabalho e de preços para ferreiros. O povoamento da região das Minas diferia do que prevalecia em outras regiões pela maior densidade e poder aquisitivo da população das vilas.

Nesses estabelecimentos emprega- vam-se oficiais ensaiadores. ensaiadores e moedeiros trabalhavam longos períodos sem remuneração. Os que quisessem continuar a praticar a arte deveriam emigrar para Portugal. acusados de falsificar moedas e de marcar lingotes de ouro como se já tivessem pago o quinto. operada por uma quadrilha de falsários que empregavam oficiais formados pe- las fundições governamentais (Boxer.130 on Fri. ciosa do recolhimento dos quintos. proibindo que outros se dirigissem para lá.org/terms . oficiais moedei- ros. e outros. mantidas pela Coroa. auferindo todos rendimentos altamente compensadores. se as lavras não propiciaram a organização do trabalho – de modo que surgissem ofícios embandeirados próprios da mineração e. os numerosos ourives existentes. Mas. Em 1730. não fosse a repressão operada pela Coroa. também. então. em 1725. o ouro era fundido na Bahia e no Rio de Janeiro. escrevendo alguns anos depois.1) transcreve documento em que se assinala tempo de espera de até dezes- seis anos. até que. foi aberta a casa de fundição de Vila Rica e. p. Procurando aumentar seu controle. todo o tempo. Os aprendizes desses ofícios levavam de quatro a seis anos para serem considerados habilita- dos quando. Eles eram suspeitos de trabalhar o ouro que não tinha pago a taxa obrigatória fazendo com ele ornamentos ou disfarçando-o em utensílios (talheres. A ourivesaria foi um ofício que teria se desenvolvido aceleradamente no Brasil. uma ordem régia mandou expulsar todos os ourives de Minas Gerais. Eram. por exemplo). as casas de fundição vieram a fazê-lo. a sistematização da sua aprendizagem –. 36 This content downloaded from 179. pensões. Em 1719. Por volta de 1730. fundidores e. recebiam um prêmio em dinheiro.179. Era difícil fiscalizar. já em 1698. Antonil.216. mesmo em outras capitanias. mas. Os demais teriam seus instrumentos de trabalhos confiscados e poderiam escolher entre o alista- 9 Fonseca (1961. os ourives foram submetidos a crescentes restrições. Mesmo declarados ofi- ciais. em 1734. 1969. em 1766. repetiu-se medida desse tipo e. a Coroa ordenou. de modo que fosse descontado o “quinto” devido ao Estado. em algumas delas. foi descoberta uma casa de fundição clandestina na região das Minas. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. como o de isenção de recrutamento militar.9 Os moedeiros tinham privilégi- os especiais. Todo o ouro extraído das Minas Gerais era obrigado a passar pelas casas de fundição e de moeda.jstor. prisão e foro especiais. esperando pela nomeação. Inicialmente. sedas. em conseqüência. lesando-se o fisco. v. não mencionou nada a respeito. o ofício de ourives foi proibido em toda a Colônia. a dispersão das lavras deve ter impedido tal intento. uso de armas. as de Sabará e de São João del Rey. que apenas dois ou três ourives poderiam ter permissão para exercer seu ofício no Rio de Janeiro. Todos esses benefícios nem sempre su- peravam a tentação do contrabando do ouro.220). Luiz Antônio Cunha tanto. os fundidores.

português de nascimento embora talvez tivesse concluído seu aprendizado no Brasil.org/terms . Apesar da pequena rentabilidade média da exploração do ouro. provavelmente por já ter passado a desempenhar ofícios “liberais” como o de arquiteto e escultor. por via de conseqüência). 1977). aliado à política econômica pombalina. e da Igreja. ourives) e que tiveram vigência nos principais centros urbanos da Co- lônia. nem outras restrições. seu próprio filho. levou ao crescimento das neces- sidades de comércio interno e de seu controle por parte do Estado. Pedreiros. para o em- presário individual (Cano.179. A aprendizagem dos ofícios de escultor e pintor. Esses fatores convergiram na exigên- cia da ampliação da marinha e. os recursos provenientes da cobrança dos di- reitos sobre a extração desse metal. número mínimo de aprendizes por mestre. muito mais presas a outras relações. os mais característicos do artesanato na economia mineira.jstor. Manoel Francisco Lisboa. atingido por volta de 1750. não obedeciam aos regulamentos que se ten- tou impor aos ofícios mecânicos de Vila Rica (pedreiros. centralizados no Estado (e na Igreja. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata mento militar e outra atividade econômica permitida. a construção de navios na Bahia.216. Pouco antes dessa data. em conseqüência. sendo alguns deles apro- veitados nas casas de fundição e da moeda existentes (p. novas conjunturas econômicas e políti- cas vieram a expandir a construção naval da Colônia. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. alfaiates. propiciaram notável incremento na prática de certos ofí- cios. 1940). estando as relações entre mestres e aprendizes muito mais livres. Manuel Francisco Lisboa obteve licença da Câmara para exercer o ofício de carpinteiro em Vila Rica.328). Ofícios nas ribeiras Como disse anteriormente. O apogeu da produção aurífera nas Minas Gerais. os registros já não o mencionavam dentre os carpinteiros contribuintes. ou então. ferreiros. da indústria de construção e reparo de embarcações. em 1759.130 on Fri. empreendida pelos jesuítas. Foi o caso do princi- pal aprendiz do Aleijadinho. Não havia contratos escritos. carpinteiros. Entalhadores e pintores receberam especial incentivo para a prática de sua arte. destacando-se. o Aleijadinho. carpinteiros. entalhadores e pintores encontravam emprego nas encomendas para a construção de obras públicas como chafari- zes. pontes e prédios diversos. para a construção e decoração de templos. Após algum tempo. este último o que veio a imortalizá-lo (Martins. além dos imperativos da defesa contra a pirataria. 37 This content downloaded from 179. era já bem antiga quando da sua expulsão do Império portu- guês. ferreiros. como o maior de todos. Em 1724.

somado ao efeito da Revolução Industrial na Europa.11 um grande número de oficiais das mais diversas especiali- dades: carpinteiros. da carreira de construção naval. também.1.14 bandeireiros. este no mesmo ano em que o Brasil. além dos mestres da ribeira. 14 Cortadores de pedra em bruto. corriqueiros ou graves (Fonseca. funileiros.12 ferreiros. p. 15 Talhadores de pedra. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Apesar de muitos dos ofícios neles empregados estarem organizados corporativamente. tinha sua capital para aí transferida.179. A força de trabalho empregada nesses arsenais compreendia.).81-2). a partir de 1796. parece que as condi- ções de trabalho e de salário não eram das mais vantajosas. 10 A agroindústria açucareira pernambucana encontrava-se em decadência desde a expulsão dos holandeses. tecelãos. em Portugal. como era uso. na Escola de Cons- trução. Ela introduziu naquelas regiões o escravo africano. Mas.10 foram criados os arsenais de marinha do Pará. Luiz Antônio Cunha A política econômica de Pombal para o Brasil teve seu eixo na criação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão com amplos poderes monopolistas. para a mobilização dos marinheiros e grumetes. can- teiros15 e outros. contrames- tres e. em escala européia. levando-os a transferir para as Antilhas as fontes preferenciais de suprimento da rede de comercialização do produto. no século anterior. além da Bahia. Ao contrário do que acontecia nas cidades. p. freqüentemente. Os oficiais que trabalhavam nos arsenais eram das mais diversas prove- niências. poleeiros. 1977. Os mestres de ribeira. técnicas agrí- colas novas e melhores sementes. pedreiros. Para dar apoio aos dois grandes centros econômicos da época. o que.343 ss. em classes especiais. barris. aumentando a demanda de produtos primários coloniais. 11 Ribeira era a denominação.jstor. passaram a ser formados. 1961. 13 Fabricantes de pipas. composto por ho- mens que fossem capazes de trabalhar e de aprender um ofício. na época. pintores. enviado pelo chefe de polícia. fundidores de cobre. e do Rio de Ja- neiro. Desenho e Traçamento das Formas. em 1761. os ofícios eram praticados e ensinados nos arsenais sem quaisquer regulamentações e exames. engenheiros construtores. O recrutamento era feito. Patrulhas armadas prendiam bran- cos. dornas. cubas. manu militari. a qual preparava. tanoei- ros. Esse contigen- te era reforçado por outro. entre eles alguns portu- gueses. em todo o mundo. calafates. que traziam seus escravos para os auxiliarem. tinas etc. em 1763. A maioria era constituída de brancos livres. feito vice-reinado.org/terms . mandadores. v.13 cavoqueiros. escolhidos dentre os detidos por crimes e infrações. negros e mulatos “vadios” e os encaminhavam aos arsenais. 38 This content downloaded from 179.130 on Fri.216. resultou numa grande prosperidade econômica (Simonsen. em geral práticos. apesar da carência de artífices para os arsenais. 12 Fabricantes de peças destinadas à passagem ou ao retorno de cabos de embarcações.

Instalaram-se olarias para a fabricação de telhas e tijolos. 16 Um comerciante inglês em viagem pelo interior do Brasil. esteiras. Já no século XVIII. também. p. permane- ciam. a Justiça. Gerou-se. com suas oficinas completas (Luccock.216. chapéus. 39 This content downloaded from 179. 1963. aos comercian- tes e seus empregados.263).org/terms . cuias.jstor. cerâmicas para a fabricação de ladrilhos. dependentes delas: eram ambulantes. as atividades artesanais fo- ram se desenvolvendo em diferentes pontos da Colônia. tam- bém. geralmente ferreiros que fabricavam as ferraduras com que se calçavam as mulas.130 on Fri.179. assim. ainda em 1817.220-5). a Igreja). estas fabricando ferraduras para animais de carga e ins- trumento de trabalho para a mineração (Prado Jr.218-9). sempre derivada da intensidade da lavoura e da mineração. curtumes para o aproveitamento do couro do gado bovino e oficinas para a fabricação dos mais diferentes produtos como sabão. no cultivo do tabaco e na mineração. da burocracia do Estado (a ad- ministração. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. e. como o de carpinteiro. o Exército. Era dependente da demanda. Embora houvesse oficiais situados fora dessas unidades produtivas. fossem eles escravos ou homens livres. canoas e outros. para a produção de cal a partir das ostras dos sambaquis. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata o Estado se permitia autonomia no ensino e na fixação das condições de tra- balho dos artífices. o principal meio de transporte dos sertões (Ibidem. e descoberto o ouro. um território li- vre do controle monopolístico exercido pelas corporações sobre a produção artesanal-manufatureira. p. p. 1975. moringas e lou- ças (integrando e especializando o riquíssimo artesanato indígena). o sertão explorado e ocupado. assinala.16 A intensificação da atividade econômica e a necessidade de defesa da Co- lônia fez aumentar a importância. caieiras. até nos ofícios mais institucionalizados. cordas. Na agroindústria açucareira. dos estabelecimentos de comércio de exportação/importação e dos nodos do comércio interno. abriram-se manufaturas têxteis e metalúrgicas. era acessório à ativida- de principal de produção de mercadorias para a exportação. coxonilhos (pele- gos). a existência desses ferreiros ambulantes. uma nova demanda de artesãos de todos os tipos para a construção dos equi- pamentos permanentes necessários àquelas funções. para a prestação de serviços aos funcionários do Estado. nas cidades. assim. o traba- lho dos artífices. coagidos ou não.. à sua reparação. Bandeiras de ofício À medida que as cidades e vilas foram sendo fundadas ao longo do litoral. Os arsenais eram.

deferências especiais. vou descrever primeiro a organiza- ção portuguesa para. A importância do juiz 40 This content downloaded from 179. letrados. Contida a invasão. Foi assim que. também. em 1383. alguns teriam delegação dos demais para. Desse pac- to tácito de estreito entendimento.130 on Fri. logo acima do banco dos bispos. o trabalho artesanal no Brasil Colônia pautou-se pelo modelo corporativo da Metrópole. em seguida. também. sabia aonde se dirigir para encontrar os mestres de que precisava. Recebia. clérigos e mercadores ricos). dos vereadores e do procurador da cidade: eram os “homens bons dos mesteres”. a viver intimamente. os processos da profissão. precaver-se contra a revolta dos burgueses. Em meados do século XVI. forçados a pres- tar-lhe apoio. de Évora e de outras cidades. uma vizinhança que mais co- mum tornava a mentalidade. participarem no senado da Câmara das reuniões dos juízes.org/terms . procurou aquele não só recompensar os mesteirais como. os mesteirais tinham se libertado da condição servil mas não dispunham de poder algum no governo das cidades.jstor. paradigma para os do Porto. velha usança que só mais tarde os municípios tornaram obrigação legal. Tudo faz crer que desde cedo as afinidades das profissões levaram os oficiais a firmar entre si um sólido pacto de assistência mútua e de defesa comum.17 Os 17 O juiz do povo tinha o poder de obstruir qualquer legislação da Câmara considerada lesiva aos interesses dos oficiais. havia um só delegado. assim como representar diretamente ao rei a respeito das violações das normas que regiam as corporações. as maneiras. e a regra do arruamento. Desses 24.XXXIII) Foi no contexto da defesa de Portugal contra a invasão do rei de Castela que os mesteirais de Lisboa passaram a ter participação no governo da cidade. aí estavam todos. o consumidor. (Caetano. Luiz Antônio Cunha Quando organizado. o qual era monopólio dos “homens bons”: os membros da nobreza e da burguesia (os proprietários das casas e das terras urbanas. participassem do governo da cidade de Lisboa. denominado “juiz do povo”. No século XVII.216. ou a maioria dos pratican- tes do mester. dois de cada mester (ou ofício). 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Na mesma rua vigiavam-se uns aos outros os oficiais do mesmo ofício. Os mesteirais apoia- ram a resistência do Mestre de Avis e forçaram os “homens bons” a fazê-lo tam- bém.179. por os interesses dos mesteirais coincidirem com a vantagem da fácil fiscalização pública. nas reuniões da Corte. nasceriam as primeiras autoridades corporativas. p. por tur- no. Por isso. o “regedor e defensor do reino” ordenou que 24 oficiais. eleito pelos 24. A história das corporações de ofício em Portugal está diretamente ligada às lutas dos artesãos contra a nobreza e a burguesia pelo poder político. não fosse alguém prati- car ato de concorrência desleal ou infringir as regras tradicionais. casa com casa. como a de fi- car perto do rei. vindo muitas vezes dos arredores e subúrbios à cidade. tratar das formas de adaptação à Colônia. 1943. ainda não reconhecidas oficialmente pela Cidade.

a compilação e a reforma dos regimentos dos ofícios. Fixavam-se. por dois juízes ordinários. 19 Fabricante de tamancos. soqueiro19 e curtidor). isto é. drapineiro. mais raramente. de forma indireta. nomeado pela Coroa) e integrada por três vereadores e um procurador (quando havia juiz de fora. eles se juntavam àquele efetivo. 41 This content downloaded from 179. em termos europeus. Carl ao texto de Bernstein. instância intermediária entre os ofícios e a Câmara. nomeados). chamados “peças de examinação” e. evitando-se a concorrência e protegendo-se os consumidores contra fraudes. pelo final do século XV a econo- mia corporativa declinava. A aprendizagem não era objeto de regulamentação formal. onde. uma formação tardia. ver. a institucionalização levou à criação da Casa dos Vinte e Quatro. Com o aumento da riqueza e da população citadina afluíram para Lisboa artífices das cidades pequenas e do estrangeiro. O regimento típico regulava a reunião da assembléia anual dos mesteres do ofício onde os eleitores dos dois juízes e do escrivão eram designados. ver Harry Bernstein. Esses oficiais eram eleitos.jstor. em geral os proprietários de terras e de escravos. Foi somente a partir dos descobrimentos que a situação se transformou.179. examinado e aprovado. em seu lugar. em 1572. com carta de examinação passada pelos juízes. Surgiu. ele assumiu a liderança da luta contra os invasores. Quando havia representantes dos ofícios mecânicos. também. sob suas ordens. a primeira regulamentação escrita de uma corpora- ção portuguesa data de 1489. os oficiais que. Podiam prestar exames os obreiros. trabalhavam na oficina de um mestre. “O juiz do povo de Lisboa e a independência do Brasil: 1750-1822”. tendo terminado sua apren- dizagem. também. mes- mo na capital do país. eles eram. pelos ho- mens bons. Para maiores detalhes sobre esse ponto. também. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata 24 representantes foram assumindo maiores poderes diante da Câmara Munici- pal e dos próprios oficiais. alternadamente.130 on Fri.org/terms . Tratava do ofício de borzeguineiro e anexos (sa- pateiro. mediante sa- lário. Caetano explica esse fato pela simplicidade da economia portuguesa. “obras-primas”. Os juízes examinavam os oficiais que deveriam elaborar trabalhos padronizados. O oficial. Com a transferência da família real para o Brasil. confirmada e registrada pela Câmara.216. 18 Segundo as Ordenações Filipinas. o que exigiu a substituição da autoridade informal dos mesteres por regulamentos formais e instituições capazes de fazer que eles os cumprissem. assim. por um juiz de fora. Os mesmos juízes que examinavam os oficiais deviam vistoriar as ten- povo de Lisboa atingiu seu ponto mais alto quando Portugal foi ocupado pelas tropas france- sas. na mesma obra. estando ape- nas sujeita aos padrões consuetudinários. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. a qualidade e a fixação dos preços. o Senado da Câmara era presidido. podia se estabelecer por conta própria – como mestre de “tenda aber- ta” – e participar da eleição dos juízes. em Keith & Edwards (1970).18 Ao contrário do restante da Europa. sobre as matérias-primas. em 1808. o comentário de George E. eleitos com os demais membros (ou. normas relativas ao exercício do ofício.

tornavam-se embandeirados aqueles que não o eram. ofício desig- nava o conjunto de praticantes de uma mesma profissão (todos os carpinteiros de casa. Apesar de a corporação ter a proteção de um santo. denominado bandeira.XXXVIII). tinham suas confrarias. necessariamente. com a irmandade ou a confraria. Com isso. não ne- cessariamente artesãos. 20 Dois exemplos brasileiros são elucidativos. p. distintas das bandeiras. sociais e políticos. finalmente. o termo ofí- cio era sinônimo de corporação. mas mudava em razão das trans- formações políticas e econômicas: ofícios se fundiam. e sua bandeira. em geral confundidas. nascida dos interesses econômico-profissionais. Luiz Antônio Cunha das dos mestres. A Irmandade de São José. por exemplo).jstor. passavam de anexo a ca- beça. enquanto aquela tinha obje- tivos econômicos. Até mesmo ofícios não embandei- rados. aplicando penas aos transgressores. como foi o caso da corporação universitária. ver Scarano (1976). em- bora com esse nome. também.216. O termo ofício era empregado em três sentidos. 1943. não raro. reunia os negros. O ofício/corporação era. muitos “cristãos-novos”. Os ofícios (profissões) embandeirados eram os que estavam su- jeitos à organização corporativa. em geral escravos. Havia ofícios anexos que formavam ir- mandades próprias. anexos. nascida dentro da Igreja e regida pelo direito canônico. 42 This content downloaded from 179. Era uma entidade de finalidade religiosa e assistencial. e.179. ao contrário.20 A organização dos ofícios em Portugal teria tomado forma acentuadamente religio- sa por haver. era uma corporação de ofício (pedreiros. não organizados em corporação. o ofício era o conjunto das práticas definidoras de uma profissão (o ofício de car- pintaria de casa. a quem convinha os- tentar com freqüência os símbolos do culto adotado (Caetano. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. A composição das bandeiras não era fixa. É importante estabelecer as principais distinções entre as categorias corpo- ração. outros. separavam-se e formavam bandeira própria. variando estas de multa em dinheiro a prisão. e da Europa medieval. quis esse autor enfatizar as diferenças existentes entre a organização corporativa em Portugal. a Irman- dade de Nossa Senhora do Rosário. por exemplo). no Rio de Janeiro. abrangendo mais de um ofício-profissão (os carpinteiros de casa estavam na mesma corporação dos pedreiros. Em sentido ainda mais amplo. Em sentido um pouco mais amplo. Para uma análise aprofundada destas últimas. entre os mesteirais.130 on Fri. dos ladrilheiros e dos violeiros). carpinteiros e outros). ela não se confundia. Os ofícios-profissões constituintes de uma bandeira (ofício-corporação) estavam. pelo fato de seus membros participarem de cerimônias religiosas levando a bandeira do santo protetor. bandeira e confraria. Estas eram grupos com finalidades exclusivamente religiosas. gozando de privilégios na corporação. No sentido mais estrito.org/terms . dos cantei- ros. isto é. hierarquizados: uns eram ca- beça.

jstor. Bandeira de Nossa Senhora da Conceição Cabeça: correeiros.23 canteiros. fundidores de cobre. p. coronheiros. Bandeira de Nossa Senhora da Encarnação Em igualdade de posição: carpinteiros de móveis.LVII e LVIII) 21 Fabricantes de facas. Bandeira de São Miguel Em igualdade de posição: livreiros.130 on Fri. sirgueiros de agulha.216. 10. Anexos: surradores e odreiros. 43 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Vejamos as listas das bandeiras. Bandeira de Nossa Senhora das Candeias Cabeça: alfaiates. cutileiros. Anexos: carpinteiros de carruagens. 4. douradores. (apud Caetano. Bandeira de Nossa Senhora das Mercês Em igualdade de posição: pasteleiros. ferreiros.24 9. Bandeira de São José Cabeça: pedreiros e carpinteiros de casas. penteeiros. 23 Fabricantes de chapéus de seda. Bandeira de São Jorge Cabeça: barbeiros de barbear e de guarnecer espadas.25 bainheiros. 24 Fabricantes de obras de folha-de-flandres. Anexos: seleiros e freeiros. 1943. Anexos: ferradores. 6. torneiros. violeiros. 25 Fabricantes de roupas de fazenda ordinária. fabricantes de fita e galões. sirgueiros de chapéus. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Em dezembro de 1771.21 espingardeiros. Bandeira de São Crispim Cabeça: sapateiros e curtidores. esteireiros. Anexos: canteiros. serralheiros. 7. tesouras e outros instrumentos cortantes. bate-folhas. ladrilhadores.22 luveiros. latoeiros de folha branca e de folha ama- rela. 5.org/terms . picheleiros. Anexos: algibebes. Bandeira de Nossa Senhora da Oliveira Cabeça: confeiteiros. entalhadores. latoeiros de fundição. Bandeira de São Gonçalo Em igualdade de posição: tosadores. 8. um alvará régio decretou nova composição da Casa dos Vinte e Quatro de Lisboa. tecelãos. integrada por representantes de dez corporações e dos ofícios não embandeirados. 3. dos ofícios cabeça e anexos: 1. 22 Fabricantes de roupas de seda. 2.179.

previa a aprendizagem por quatro anos ou mais.26 ou- rives de ouro e lapidários. Aprendizes e mestres faziam um acordo pelo qual estes ensinavam àqueles o ofício em troca da prestação de serviços. a saber: 5. cordoeiros de linho. Passo a tratar. Em geral. embora alguns as mencionassem.org/terms . da qualidade do seu trabalho. Nesta condição. a saber: tanoeiros. que o matriculava como oficial.39). em 1778 – a maioria.jstor. esparteiros. A duração da aprendizagem não estava estipulada nos regulamentos. os de confeitaria deviam saber ler e escrever. o acordo obedecia a rígidas normas consuetudinárias. isto é. remunerados ou não.216. estão entre as funções mais importantes do processo de aprendizagem. p. em muitos ofícios apenas um.130 on Fri. 1948. com o tempo. e os livres deviam ter constatada sua sangüinidade. 44 This content downloaded from 179. por exemplo. para elas devendo retornar (Langhans. A regulamentação do número de novos artesãos. era proveniente de outras cidades.851 oficiais e 2. evoluíssem para os contratos escritos. não podiam ser descendentes de mouros nem de judeus. Os aprendizes eram registrados na Câ- mara Municipal e nenhum mestre podia ter mais de dois aprendizes de cada vez. em- bora existissem padrões informais a respeito. esteiras e outros objetos de esparto. podia trabalhar como assalariado (“obreiro” ou “jornaleiro”) na tenda do mestre. pois para lá se dirigiam jovens de outras cidades para se instruírem nos ofícios com os mestres da capital. compreendia 14. embora. organizada dessa forma. As corpora- 26 Fabricantes de objetos de cera. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Não estavam previstas. processo reprodutivo e regulador básico da economia corporativa. ourives da prata e lavrantes. O regulamento dos agulheiros. sombreeiros. Cerca de 64% dos aprendizes em Lisboa. O regulamento dos ourives de ouro. variando de um ofício para outro.27 A produção artesanal em Lisboa. dizia que eles deviam ter de 12 a 16 anos. As corporações de Lisboa funcionavam como uma espécie de central de apren- dizagem. cordoeiros de esparto e piaçaba.179.204 mestres. na maioria dos regulamentos. os de chocolateria não po- diam ser negros nem mulatos. 6. Luiz Antônio Cunha Os ofícios não embandeirados eram sete. Os aprendizes de ourivesaria não podiam ter “maus costu- mes”. cerieiros. da aprendizagem dos ofícios.219 aprendizes. a não ser que fossem escravos do mestre. passava-lhe certificado. con- dições positivas ou restritivas dos candidatos à aprendizagem.274 trabalhadores. o qual era apresentado ao juiz (ou juízes) do ofício. por exemplo. Os aprendizes eram jovens com idade nem sempre definida nos regula- mentos. 27 Fabricantes de cestas. oleiros. agora. e da oferta do número de traba- lhadores assalariados disponíveis para os mestres. portanto –. Quando o mestre considerava um aprendiz apto a exer- cer o ofício.

foi modelo para o Brasil Colônia. O pedreiro de pedraria (havia também o de alvenaria) devia fazer uma escada. cutileiro. 1950. sus- peito de transgredir as posturas municipais (Taunay. podia requerer exa- me.130 on Fri. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata ções exigiam que o oficial permanecesse um certo tempo (variável de dois a cinco anos) trabalhando como obreiro. latoeiro. um portal quadrado e uma coluna dórica.9-10). pagará dois mil reis. e o tal obreiro ou aprendiz tornará para casa de seu amo. após o que podia requerer novo exame. fizesse açúcar queimado. Se fosse aprovado.216. pilheleiro. Este. Os regulamentos previam sanções para os mestres que tentassem atrair para si a força de trabalho dos demais.org/terms . Se o oficial não fosse aprovado. no século XVIII. a bandeira de São Jorge compreendia os ofícios de serralheiro. nem lhe falará nem mandará falar por outrem. e respondesse a várias perguntas sobre a maneira de se fazer doces. para examinar os candidatos a mestre e fiscalizar a cobrança de preços.177) A organização do artesanato urbano lisboeta. Após esse prazo. 1920. segundo a forma corporativa. realizado perante o juiz (ou juízes) do ofício e do escrivão. para se constatar se o fazia com se- gurança. um re- querimento à câmara pedia a nomeação de um juiz do ofício de sapateiro. era obrigado a conti- nuar trabalhando nessa condição por um período mínimo de seis meses. ferreiro. p. dava-lhe os direitos e os deveres de mestre no seu ofício. a metade para as obras da cidade e a outra para quem o acusar. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. O de broslador (bordador) era bem cla- ro a respeito: Nenhum oficial do dito ofício será tão ousado que tome nem recolha em sua casa aprendiz nem obreiro que estiver com outro oficial. Documentos do século XVI já mostram a existência de padrões corporati- vos na produção artesanal na Vila de São Paulo de Piratininga. No Rio de Janeiro. O oficial barqueiro era observado conduzindo uma barca ou batel. os oficiais da Câmara tomaram depoimentos dos aprendizes de um ferreiro. registrada na Câmara Municipal.28 fu- 28 Fabricante de depósitos de água. qualquer que o contrário fizer.jstor. Em 1588.179. tomar jornaleiros e aprendizes. enquanto durar o tempo que o tal obreiro ou aprendiz for obrigado a estar com seu amo. as freqüentes proibições de exercício de certos ofícios de modo a garantir privilégio para a produção metropolitana e a prática generalizada da escravidão produzissem modificações importantes. embora a relativa estreiteza do mercado para bens manufaturados e serviços. podendo abrir tenda. pagando as taxas estipuladas e cobrindo os gastos dos materiais necessários. rece- bia sua “carta de examinação” que. Ao oficial confeiteiro pe- dia-se que cobrisse peras e abóboras. Em 1583. (Gonçalves. espingardeiro. sob pena de. p. consistia na elaboração de obras previamente estipuladas. 45 This content downloaded from 179.

Era comum ho- mens livres – comerciantes. ambos cabeças da bandeira em Portugal (tendo os demais como subordinados) não faziam parte da corpora- ção. 1980. No Brasil. podendo guardar para si o dinheiro que ultrapassas- se uma quantia previamente estipulada.org/terms . magistrados.76). dourador e seleiro (Fazenda. 1942. Esses escravos de serviço. como escravos domésticos e escravos de serviço.). Os ofícios de barbeiro de barbear e de guarnecer espadas. pelo menos no número de aprendizes que se per- mitia a cada mestre ter ao mesmo tempo. em razão da dispersão dos centros urbanos e do crescimento da demanda de certos bens. caloureiro. Luiz Antônio Cunha nileiro.. a tanto por mês. militares. Os “escravos de ganho” recebiam concessões especiais. no Brasil era quatro. Muitos trabalhos não qualificados.d. em Portugal. comprada com o produto de seu próprio trabalho. É provável que essa diferença se devesse à preocupação dos artesãos metropolitanos em limitar o número de pessoas tra- balhando no ofício e. p. para o que deveriam portar autoriza- ção por escrito (Gorender. também. por exemplo. se ele fosse produtivo e disciplinado. Em Portugal. a preocupação talvez fosse opos- ta. podiam ser alugados para prestarem os mais diversos serviços. A maior possibilidade que tinha esta categoria de es- cravos de obter sua alforria. as- sim como ofícios mecânicos.jstor. clérigos etc. para onde se dirigia o grosso do fluxo de escravos africanos. evitando a concorrência e a queda de preços. eram desempenhados por escravos de serviço (Koster. fora das vistas e da casa do senhor. s.179. limitar a oferta de produtos. Por meio de um contrato escrito. em conseqüência. p. adian- tar-lhe a quantia necessária à compra de sua alforria.d. 46 This content downloaded from 179. chamados “moços de ganho”. p. 1923. s. Estes eram empregados. os homens como carregadores e as mu- lheres como doceiras. comprarem es- cravos para viverem da renda do seu trabalho. pre- ferentemente na agricultura.479-516). Seus filhos. p.216. tam- bém. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Enquanto o número máximo era dois. p.215-6). Os padrões de aprendizagem do artesanato manufatureiro no Brasil diferiam dos vigentes na Metrópole. o artesão constituía o ex-escravo seu oficial durante o tempo necessá- rio à amortização da dívida (Debret. eram utilizados. nas cidades.. o que aconteceu com mais intensidade no Brasil. aliás indispensáveis para a obtenção da renda: locomoção relativamente mais livre e até mesmo moradia fora da propriedade do senhor. a produção artesanal manufatureira absorveu relações de tra- balho escravistas.130 on Fri. Um artífice que alugasse um escravo. era habilmente explorada por senhores e escravos. Outra modalidade de exploração da força de trabalho escrava consistia na prestação de serviços para clientes que o próprio escravo conseguia.149 ss.194). Esses ofícios eram desempenhados exclusivamente por escravos (Debret. podia. os crioulos.

Sapateiro. apresenta dados bastante interessantes sobre a regulamentação dos ofícios mecânicos. quatro em 1661. os ofícios exis- tentes em Salvador não correspondiam exatamente à organização corporativa metropolitana. anexos (ou adjuntos): torneiros. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. Os documentos por ela consultados mostram que.91-2) dá um depoimento a respeito da existência e da importância do juiz do povo no Rio de Janeiro. entalhadores. principalmente pela inexistência na Bahia dos ofícios corres- pondentes à produção controlada monopolisticamente pela Metrópole. A propósito. tendo a polícia aca- tado sua ponderação. em defesa do acusado. Mas ele deveria examinar apenas os ou- tros escravos. Um deles. pagos com o pano por eles mesmos feito. como em Portugal. Suspeitando ter sido roubado por um “mulato carpinteiro”. 29 Luccock (1975. quando foram interpelados pelo juiz do povo. Embora haja quem aponte a inexistência da Casa dos Vinte e Quatro (ou dos Doze) em qualquer cidade brasileira. marceneiros. É o caso dos ofícios ligados à fabricação de tecidos. 2. da casa de Francisco Jorge.org/terms . anexos: curtidores. diz que.216. em 1661-1662. Lopes Gonçalves localizou. em 1808. eram dez as bandeiras de ofícios a saber: 1. não foi encontrado nenhum homem branco para juiz do ofício de tecelão. foi em Salvador.29 A regulamentação das práticas de ofícios no Brasil variava de uma cidade para outra. 30 Taunay (1926-1927. no ano de 1641. p. refazendo a Câmara de São Paulo os regimen- tos e elegendo os juízes dos diversos ofícios. um ourives. botoeiros. se- ria o juiz do povo.IV.187 ss. o comerciante inglês acompanhou uma batida policial à casa do artesão. Carpinteiros.30 Naquele ano. p. e de homens livres.jstor. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Houve no Brasil. com algodão alheio. foi assinalada a presença de procuradores dos oficiais mecânicos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro – dois em 1624. Foram doze os mestres eleitos por seus pares: um caldeireiro. em 1699. p. um ferreiro e dois de ofícios não especificados. especialmente do lisboeta. a instituição da Casa dos Vinte e Qua- tro. 47 This content downloaded from 179. 1923. outros dois. anexos: palmilhadores. A mais anti- ga notícia de tal instituição. apesar do paradigma lusitano. dois alfaiates. 1950. índios ou negros. um barbei- ro. Maria Helena Flexor (1974).). um sapateiro. tendo as câmaras municipais flexibilidade para a elaboração dos nomes. embora sem esse nome e número (Gonçalves. Foi então eleito um índio.130 on Fri. num estudo realizado nos arquivos públicos de Salvador. na Colônia. um tanoeiro. um pedreiro. os procuradores. eleito pelos demais. documentos reveladores da existência de juízes do povo em Belém do Pará e em São Luís do Maranhão. e passar-lhes carta de examinação.179. também. Alfaiates.324) assinala a existência de escravos trabalhando como fiandeiros e tecelãos em São Paulo. t. p. por ser o melhor tecelão que havia na terra”. surradores. nova- mente dois em 1730 (Fazenda.13). 3. um “moço da terra. um marceneiro. em 1628.

como o que deveria ter ligado os tanoeiros aos sirgueiros e aos cerieiros. até mesmo. embora o de corrieiro pertencesse a outra bandeira. como os de dourador. 9. Vendeiros e vendeiras de porta. Além desses. 6. Já em outras bandeiras. espadeiros.130 on Fri. no fim do perío- do colonial. 32 Ofício similar ao do padeiro.179. permitiam concluir que a atividade manufatureira não era desprezível no Rio de Janeiro. sombrieiro. Os ofícios de sapateiro. pelo que se pode inferir da pos- sibilidade de um questionário substituir a obra-teste no exame do oficial postu- lante a mestre. Flexor mencio- na a prática do “jeitinho” para driblar o exame de habilitação: o uso de nome de mestres já falecidos e o trabalho de oficiais com tenda aberta sob o nome de outro. Os dados disponíveis. anzoleiro. polieiro (poleei- ro).32 padeiros. por ra- zão desconhecida. Marchantes. embora não fossem tão severos. alvíneos. caldeireiros. Ferreiros. 48 This content downloaded from 179. confeiteiros. mais do que a matéria trabalhada. 8. o couro. da licença de a Câmara conceder os mesmos direitos da carta de exame. seleiro.31 5. o disfarce do artesão autônomo sob a condi- ção de jornaleiro de um mestre habilitado. As 631 lojas tinham a seguinte distribuição: 31 Fabricantes de alimentos feitos com vísceras de animais. Luiz Antônio Cunha 4. Os padrões de aprendizagem vigentes em Salvador não diferiam muito dos portugueses. Pedreiros. armeiros. da inexistência de prazo para a execução da obra-teste. serralheiros.216. Outros ofícios parecem ter como elemento unificador os instrumentos de trabalho.jstor. outros ofícios existiam mas não eram embandeirados. não há critério unificador aparente. 10. anexos: canteiros. Heitor Ferreira Lima listou o número de lojas dos diversos ofícios existentes nessa cidade no final do século XVIII. ou por serem praticados exclusivamente por escra- vos. Seria interessante desvendar as razões que levaram os ofícios a se agrupa- rem dessa forma. embora nada abundantes. como os de sangrador e de parteira. serralheiros e anexos. e. Isso explica a presença de corrieiros e barbeiros jun- to aos ferreiros. Ourives de ouro e de prata. curtidor e surrador estão ligados pela matéria trabalha- da. esparteiro. Paderias. 7. corrieiros. cerieiros. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. anexos: sirgueiros. latoeiros. anexos: barbeiros. Não consigo depreender um critério classificatório uniforme.org/terms . Tanoeiros. licenciado.

49 This content downloaded from 179. douradores e seleiros. O primeiro documento é o compromisso da Irmandade de São Jorge dos Ferreiros. funileiros. ofícios-cabeça da irmandade.250 oficiais mecânicos.jstor. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. cepadeiros. de modo que pudessem. reunir todos os ferreiros e serralheiros. para uma população de cerca de 60 mil habitantes. Passo agora a comentar alguns documentos valiosos que revelam detalhes da organização corporativa dos ofícios. no Rio de Janeiro. Os irmãos dessa irmandade seriam os mes- 33 O Regimento em pauta foi publicado em 1897.261) Luccock (1975) dá conta de que a cidade do Rio de Janeiro tinha. espingardeiros. caloureiros. latoeiros. pilheleiros.org/terms . O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata sapateiros – 131 alfaiates – 85 marceneiros – 64 barbeiros – 37 seleiros – 34 pintores – 32 serralheiros – 25 tanoeiros – 22 cabeleireiros – 20 cravadores – 20 funileiros e latoeiros – 20 lapidadores – 19 sergueiros – 17 tintureiros – 15 entalhadores – 12 ferreiros – 11 cerieiros – 10 relojoeiros – 10 ferradores – 9 caldeireiros – 7 segeiros – 5 penteeiros – 4 violeiros – 4 torneiros – 4 formeiros e salteiros – 3 bate-folhas – 3 (1961.179. em 1808. pedindo que o confirmasse. Maria I.130 on Fri. com a garantia da Coroa. p. os ferreiros reunidos na capela daquele santo redigiram o regi- mento da irmandade e o enviaram à rainha de Portugal. aos ofícios anexos se- guintes: cutileiros.33 Em 1790. um contingente de 1.216.

com o compromisso de 1752. como obrigação adicional.41-56). ela desempe- nhava funções públicas por delegação da Câmara. azulejador. Para que os juízes da mesa da irmandade pudessem redigir os laudos do próprio punho. homens ou mulheres. Isso acon- teceu. um tesoureiro. Luiz Antônio Cunha tres desses ofícios.org/terms . Se o compromisso da Irmandade de São Jorge foi elaborado pelos ferreiros e serralheiros. A irmandade compareceria incorporada à procissão de Corpus Christi. no Rio de Janeiro. O regimento denunciava a prá- tica. carpintei- ro de móveis. pelo menos.179. torneiro e violeiro. Apesar de reunidos em uma só irmandade. após o que o oficial ficava obrigado a se submeter aos exames do seu ofício. entalhador. Eles teriam. O regimento previa as contribuições que todos os oficiais deveriam pagar para custear suas despesas na procissão. os de ladrilheiro. tais como vistorias e avalia- ções nas obras que fossem executadas judicialmente. eleitos pelos mestres de cada qual. freqüentemente renovados segui- das vezes. denunciando à Câmara os que estivessem entrando no campo monopolizado pelo seu próprio. cada ofício manteria seu juiz e seu escrivão. Confirmado o regimento pela rainha. marceneiro. Para essa finalidade. qualificação essa obtida fora do mecanismo de aprendizagem regulado pela corporação. além de outras pessoas. tam- bém. do volume de recursos que era capaz de reunir.216. compulsoriamente (sob pena de terem suas oficinas fecha- das). como. A irmandade reivindicava. o poder de. o da Irman- dade de São José. 50 This content downloaded from 179. eleitos pelo voto dos seus pares e confirmados pela Câmara. então mestres. de oficiais pedirem licença para “abrir loja” diretamente à Câmara. p. 1923. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. a Câmara só poderia conceder licen- ça desse tipo uma vez. tam- bém. um pro- curador. com a colaboração presumida dos ofícios “anexos”. A Irmandade de São José era a mais próspera do Rio de Janeiro. A mesa da irmandade seria composta de um juiz. Além disso. Todos deveriam pagar taxas à irmandade. os ofícios continuariam a ter in- dependência no tocante ao exame dos oficiais candidatos a mestre. em anexo.jstor.130 on Fri. Os ofícios de pedreiro e de carpinteiro de casa eram cabeça. um escrivão. a título provisório por seis meses. só podiam ser eleitos para esses cargos os irmãos que soubessem ler. o qual foi pautado pelo vi- gente em Lisboa (Rohan. conduzindo a imagem do padroeiro. controlar a concessão de licenças para os oficiais. tendo. obrigados a “esmolas” especiais. foi decretado por ordem régia. por seis meses. vigente até então. entre as que reuniam artesãos. não isentando “os pretos forros que tiverem lojas aber- tas” nem “os escravos que trabalham por jornal nos ditos ofícios fora dos domí- nios de seus senhores”. abrirem oficina. pelo sistema de exames. escrever e contar. em razão não só do número de associados. mas apenas os mestres teriam direito a voto. por razões devocionais. restrito ao ofício propriamente dito. de fiscalizar o trabalho dos mestres dos outros ofícios.

02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. não antes de seis meses do pri- meiro. eram convocados os juízes do ano anterior. resultando em freqüentes demandas judiciais. encaminhar a denúncia à Câmara para que ela. Eram os juízes dos ofícios que examinavam os candidatos. procuraram impedir os entalhadores. como princi- pais atribuições. deveriam mandar que fossem desmanchadas e refeitas. também. Primeiro. assim como eleger e ser eleito para os car- gos corporativos. impedi-los de fazer as obras 51 This content downloaded from 179. con- tratar jornaleiros e tomar aprendizes. a não ser que algum mestre os empregasse como oficiais jornaleiros. devia continuar trabalhando como jornaleiro até que pudesse fazer novo exame. no caso das multas serem muito grandes.jstor.130 on Fri. impedindo os artesãos de trabalharem em obras convencionadas como próprias de outros. Se não estivessem. numa banca integrada. por essa via. como mestre ou seus assalariados e aprendizes. o mestre passava uma certidão declarando terminado o aprendizado. de ti- rarem licença para exercer sua arte e. Esse controle não era pacífico. Os juízes deviam fazer vistorias freqüentes às obras em execução para veri- ficar se elas estavam sendo feitas de acordo com os padrões do ofício. exercer ofício sem prévio exame. o controle do trabalho e da formação de novos oficiais e mes- tres. então. tam- bém. multasse o infrator dividindo-se a quantia arrecadada entre o poder público e a irmanda- de. Os mestres eram obrigados a registrar os aprendizes na mesa da irmandade. nem seus cunhados. ofício não embandeirado. de exercerem as atividades artesanais cujo mo- nopólio exercia. então. Os marceneiros. mas a irman- dade controlava pontos importantes. O tempo de aprendizado era de quatro anos. proibindo os trabalhadores não ligados a ela. no Rio de Janeiro. controlando as relações interofícios. o aprendiz não podia empregar-se na oficina de outro mestre. A quantia arrecadada pela irmandade. marceneiros e entalhadores discutiram. como se pode depreender dos exemplos seguintes. as fronteiras de seus ofícios. Os estrangeiros não podiam. Se o oficial fosse aprovado. Após esses quatro anos. no mínimo. podendo. congregados na Irmandade de São José. O então oficial poderia pedir à mesa da irmandade para ser examinado. pelo juiz da mesa da irmandade e por dois peritos eleitos para esse fim.org/terms . como mestre. As corporações desempenhavam um duplo papel de controle monopolis- ta. correndo as despesas por conta dos mestres faltosos. Nesses casos. e cada mestre não podia ter mais de dois menores trabalhando com ele e aprendendo o ofício. Sem que esse período tivesse terminado. era chamada de “dinhei- ro do santo”. receberia uma “carta de examinação” que de- veria ser registrada na Câmara. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Os juízes de ofício eleitos pelos mestres de cada qual tinham. De 1759 a 1761. além disso. gerir obras. Segundo.179. O controle do trabalho consistia em multar aqueles que tivessem executa- do obras próprias do ofício sem prévio exame e. Os juízes não podiam examinar parentes até o quarto grau. A aprendizagem de cada ofício ficava a critério dos mestres. Se não fosse aprovado.216.

137). também. o juiz e o escrivão do ofício de sapateiro fizeram uma repre- sentação à Câmara do Rio de Janeiro.179. É interessante notar que. Produtos europeus. já seculares ao tempo da Independência. numa polivalência que acarretava repercussões negativas para o aprimoramento das artes mecânicas. A organização corporativa da produção teve seu desenvolvimento prejudi- cado. pois as corporações de ofício já não tinham reconhecido o direito de monopólio de bens e serviços no Brasil. papel desempenhado por Lisboa na Me- trópole.130 on Fri. desde 1808. portanto. e mais de um.jstor. era freqüente a existência de oficiais desempenhando mais de um ofício. exigindo obediência ao regulamento do ofício. determinada por vários fatores: a estreiteza do mer- cado interno. principalmente manufaturados in- gleses. no caso de lojas grandes. chegavam aos portos do Brasil a preços tais que desincentivavam a pro- dução interna. de obras fei- tas em casas particulares por escravos. não passível. Exigiam. 1942). no caso de lojas pequenas. as limitações da economia colonial.org/terms . Luiz Antônio Cunha reivindicadas pelos primeiros como monopólio seu. de 1764. Não bastasse isso. na rua. p. 1973.216. O desenvolvimento de uma grande e diferenciada organização corporativa dos ofícios mecânicos nas cidades brasileiras foi prejudicado pelo pequeno mercado para muitos artigos artesanais. Com isso. impedin- do os mestres de ter mais de dois aprendizes. Além do mais. o qual proibia “preto ou pardo” de ter loja aberta ou vender sa- patos pelas ruas. também. Fim da organização corporativa As corporações de ofício. A disputa terminou com ganho de causa dos entalhadores. já não havia base jurídica para tal so- licitação. de controle corporativo (Santos. Esse disposi- tivo da carta outorgada veio reconhecer e sancionar a decadência da organiza- ção corporativa de ofício. os desincentivos resultantes do trabalho escravo e as restrições da ideologia econômica liberal. pela concorrência externa reforçada pela política econômica restritiva da Metrópole. as grandes distâncias entre os centros urbanos no Brasil impediram que a produção corporativa contasse com uma central de aprendizagem para cidades menores. Em 1813. Vou tratar. Em 1771-1772. o juiz e o mesário do mesmo ofí- cio representaram ao rei sobre a inconveniência da venda. mulheres e pessoas não habilitadas pe- los padrões usuais de aprendizagem (Lobo. em seguida. tendo sido reconhecido o caráter liberal do seu ofício. determinações régias impediam a atividade 52 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. desses quatro fatores. fazendo que na maioria dos centros ur- banos não houvesse condições para a especialização dos artesãos. a limitação da oferta de artesãos. foram extintas pela Constituição de 1824 do nascente Império do Brasil.

130 on Fri. luxo e outras comodidades. Todavia. Foi o que aconteceu com a instalação de numerosas manufaturas têxteis cujos produtos chegaram a ser exportados. como fa- zem. Cano (1977) discute a tese de Castro. procurando demonstrar a ine- xistência de impulso endógeno para essa “resposta industrialista”. uma arte reprimida no Brasil.179. altamente urbanizada e de renda elevada. Esses fatores. pois “a verdadeira e sólida riqueza” consiste “nos frutos e produções da terra. 35 Castro (1971) assinala. 1961. Ora. um extenso comércio e navegação. por conse- guinte. Quando a extração do ouro entrou em declínio.35 As razões apresentadas para a proibição diziam da falta de braços para a la- voura. v. fi- carão os mesmos habitantes totalmente independentes da metrópole. e não de artistas e fabricantes”. p. Os seus habitantes têm por meio da cultura.jstor. carpinteiros. É.216. a substituição de importações seria a resposta natural à queda da capacidade de importar (Castro. mas ainda muitos artigos importantíssimos para fazerem.org/terms . 1971.92) 34 Elas resultavam menos das serras. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata manufatureira na Colônia a não ser quando elas deviam ser feitas ao próprio local. de absoluta necessidade acabar com todas as fábricas e manufaturas no Brasil. se a estas incontestáveis vantagens reunirem as da indústria e das artes para o vestuário. e para outros minis- térios semelhantes”. gerando uma distorção econô- mica. não só tudo quanto lhes é necessário para o sustento da vida. como as ligadas à construção civil (pedreiros. (apud Fonseca. p. propiciavam à manufatura têx- til lá instalada condições de relativa proteção diante dos tecidos ingleses. também.35). do regime pluviométrico do que da proibição de abertura de mais e melhores caminhos. apesar de todo o ouro aqui extraído e fundido. atividade que mobilizava poucos artesãos no Brasil. aliados às dificuldades de trans- porte34 entre o Rio de Janeiro e as Minas Gerais. as instruções secretas que acompanha- vam o alvará apontavam outras razões: O Brasil é o país mais fértil do mundo em frutos e produções da terra. salvo a “fabricação das fazendas grossas de algodão. cada vez mais baratos na segunda metade do século XVIII. pela Metrópole temerosa do aumento da sonegação fiscal e do contrabando do ouro. das matas. 53 This content downloaded from 179. que servem para o uso e vestuário dos negros. como fator desincentivador da manufatura têxtil. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. apesar da grande produ- ção local de algodão e do mercado gerado pela economia mineira. Esses impedimentos foram particularmente graves para a ourivesaria. ferreiros). a falta de tra- dição artesanal no ramo. Essa “resposta industrialista” à decadência do extrativismo foi interrompida pelo alvará de 1785 que proibiu toda a produção manufatureira têxtil no Brasil. para enfardar e empacotar fazendas. atraídos pelas atividades manufatureiras.1. as quais somente se conseguem por meio de colonos e cultivadores. Esses obstáculos foram particularmente mortíferos para a manufatura têxtil.

130 on Fri. Na França do século XVIII. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. a manufatura portuguesa também sentia os efeitos frenadores das cor- porações.179. gramática 54 This content downloaded from 179. defensora dos interesses da manufatura organizada em moldes capitalistas. a Coroa e a Junta do Comércio tentavam formar arte- sãos fora do controle corporativo. Enquanto. desenvolveu-se um conflito aberto entre a Real Junta do Comércio. 1970. por não permitirem a livre contratação entre empregadores e trabalha- dores. organizar seu próprio sistema de educação geral escolar (Bernstein apud Keith & Edwards. fosse pela proibição da Metrópole temerosa de perda da Colônia. os salários dos oficiais. pregava a sua extinção. fosse pela competição estrangeira que oferecia tecidos muito mais baratos. Os internos que se mostrassem aptos para a continuação dos estudos poderiam obter instrução complementar em escrituração comercial. a produção têxtil foi frustrada. tal como foi formulada por Adam Smith e os enci- clopedistas. a corporação dos tecelãos. o que. de um lado. especialmente o juiz do povo. preponderantemente imbuídos da dou- trina econômica liberal. Dessa maneira.237 e 250). as corporações de ofício constituíam empeci- lhos à plena vigência das relações de trabalho próprias da sociedade capita- lista. Por isso. As normas reguladoras da aprendizagem impediam a multiplicação da oferta de trabalho. foi feita pela revolução de 1789. O golpe final que selou definitivamente a sorte das corporações teve um componente político-ideológico da maior importância: a orientação dos diri- gentes do nascente Império do Brasil. de 1703. guar- diães da manufatura artesanal. Ministrava instrução ge- ral.jstor. sem sucesso. de outro. as corporações procuravam.216. o preço dos produtos. desde o tratado de Methuen. nunca chegou a existir no Brasil. Já em 1780. Entre 1750 e 1825.org/terms . a formação de uma reserva de mão-de-obra capaz de frear a tendência altista dos salários. escrita. 1963). cálculo. As corporações fixavam também os padrões de produção. literatura e obrigações da vida cristã e civil. e a Casa dos Vinte e Quatro. cujo caminho Portugal procurava vedar ao Brasil pelo reforço da dependência econômica. na França. e de formação educativa de órfãos” (Serrão. a doutrina econômica liberal. organizada segundo os padrões corporativos. institui- ção destinada a fazer do “trabalho socialmente útil um instrumento de recupe- ração moral de mendigos e vadios. Apesar da subordinação à economia inglesa. consistindo em leitura. A instituição abrigava menores dos dois sexos. das mais fortes nas cidades européias. Por essa razão. Luiz Antônio Cunha Esse receio da autonomia da Colônia alimentou-se da recente (1776) in- dependência política das treze colônias inglesas da América do Norte. p. a Coroa fundou e manteve a Real Casa Pia de Lisboa.

criada por Diego Inácio de Pina Manique. desenho. aritmética militar e civil. onde veio a instalar sua corte. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. línguas (alemão. chegou a ser chamada de “universidade ple- béia” e de “academia dos proletários”. um dos mais eficazes auxiliares do Marquês de Pombal. brins e enxovais para a marinha. e medicamentos para as boticas de regi- mentos e arsenais. física experi- mental. sem excetuar alguma. Pelo alvará de 1º de abril de 1808. 55 This content downloaded from 179. Influencia- do por conselheiros que defendiam os princípios do liberalismo econômico. como entenderem que mais lhes convém. o príncipe regente empreendeu uma política econômica que desfechou um gol- pe mortífero na organização corporativa do trabalho manufatureiro.216. o príncipe João conseguiu fazer. por exemplo) e permitiram a qualquer pessoa vender qual- quer mercadoria pelas ruas. Com esse alvará. anatomia especulativa e partos. o paradigma das instituições de ensino profissional que começaram a surgir no Brasil logo após a transferência da Corte portugue- sa para o Rio de Janeiro. Além de ensinar os mais diferentes ofícios manufatureiros. as tropas de Junot tomaram o Castelo de São Jorge.jstor. A Casa Pia foi. O próximo passo do proces- 36 Neste ano. princípios de farmacologia. ele revogou o de 5 de janeiro de 1785 (o que proibia as manufa- turas têxteis no Brasil) e acrescentava: daqui em diante seja lícito a qualquer dos meus vassalos.. fora das restrições corporativas. Essa liberdade de comércio foi ampliada pelo alvará de 28 de setembro de 1811. fazendo os seus trabalhos em pequeno. talvez.179. inglês).. o qual só restringiu o comércio dos gêneros denominados estancados. de- salojando os seiscentos internos/aprendizes que lá estavam. as corporações de ofício começaram a perder o privilégio de garantir para seus associados o monopólio do exercício de qualquer que fosse a arte. Em 1810. em 1808. pelo menos nos aspectos mais diretamente ligados à questão da liberdade de trabalho. controlados monopolisticamente pela Coroa. dois alvarás (um de 30 de janeiro e outro de 27 de março) revogaram as proibições da venda de certas mercadorias por ambulantes (como calçados.36 Naquele conflito pelo controle da formação da força de trabalho desempe- nhou papel destacado a doutrina econômica liberal. fardamento e calçado para o exército. estabelecer todo o gênero de manufaturas. como o sal. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata latina. em 1808. qualquer que seja o país em que habitam. ou em grande. onde funcionava a Casa Pia. desde que tivesse pago os impostos devidos. Recém-desembarcado no Brasil. francês. A Casa Pia. na Colônia – logo reino unido a Portugal e Algarves – o que as corporações impediram na Metrópole.org/terms .130 on Fri. suas oficinas eram importante centro de abastecimento para o Estado: lonas.

que fica- vam “abolidas as corporações de ofícios.213-4). 1874. mas sim em práticos di- reitos sociais. Estou pela regra do estadista prático Edmundo Burke – “os princípios abstratos da liberdade são como os raios de luz. passando a ser garantida a todos os brasileiros a “liberdade de indústria”.org/terms . a destreza manual e a reverência para com os superiores. em vários casos. quan- do se compensam com a utilidade geral. Luiz Antônio Cunha so de extinção da organização corporativa veio em 1824. ao mesmo tempo em que adequavam seu liberalismo econômico à manutenção das relações escra- vistas de produção.216. que. t. Anais do Parlamento Brasileiro (1874. (Anais do Parlamento Brasileiro. escrivães e mestres”.1. que deu nova forma às câmaras municipais. o Visconde de Cairu. 56 This content downloaded from 179. no projeto de Constituição de 1823. ainda. Assim. juízes. desviando-se da sua direção retilínea”. O mesmo digo da liberdade da indústria. juízes. Para um panorama geral dos trabalhos da Consti- tuinte e da ideologia dos liberais nela representados. foi contra a abolição das corporações. 37 Cf. entrando em um modo denso. se refrangem. modelo libe- ral para os constituintes. tam- bém constituinte.VI. juízes do povo. forjadas no interior daquele conflito. De nada adiantou a erudita argumentação. Rio de Janeiro: Tipografia do Imperial Instituto Artístico.jstor. p.130 on Fri. separaram-se dentro do mesmo quadro ideológico onde ele se configurava.VI. em que fazem necessárias as restrições da liberdade natural pelo inte- resse do bem público. pois o plenário da Assembléia Constituinte aprovou o Artigo 17 com a seguinte redação: “Ficam abolidas as corporações de ofícios. já independente de Portugal. v. com sanção dos poderes públicos.37 Apesar de ardoroso defensor da doutrina liberal. não prevendo a participação de representantes dos ofícios mecânicos. p. declaravam.1). com a Constituição do Império do Brasil. que. A extinção das corporações de ofício foi confirmada pela constituição ou- torgada pelo imperador. escrivães e mestres”.54 – sessão de 7 de no- vembro de 1823) Em apoio a essa posição. na antiga Metrópole. e reforçada pela lei de 1º de outubro de 1828. consultar Rodrigues (1975. ele evocou a situação da Inglaterra. ele defendeu em plenário a manutenção da or- ganização corporativa. por serem elas institui- ções onde se ensinava o hábito do trabalho.179. devem ter justas restrições. cap. no entanto. mantinha várias corporações de ofí- cio apoiadas pelo governo. as discussões da sessão da Assembléia Constituinte de 7 de novembro de 1823. procuradores ou. que. atenuando seu ex- tremado liberalismo: Não creio em vagos direitos individuais no estado civil. como juízes de ofícios. Os delegados da Assembléia Constituinte. em 1824. As classes dirigentes brasileiras. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. com a justificativa de que elas facilitavam o apren- dizado dos meninos pobres. t.

a Casa de Inspeção poderia convocar os juízes do ofício e um candidato a mestre. não poderiam ser vendidos sem a marca de ourives habilitados. os ourives já não confiavam tanto nas virtualidades do mero monopólio de trabalhar o ouro e a prata. criticada pelos defensores do li- beralismo econômico. até mesmo os relógios. fizeram que das corporações só permanecessem as irmandades. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Mas é provável que as limitações constitucionais não tivessem muito o que fazer. Pelo menos é isso que se pode depreender de um projeto de regimento dos ourives de ouro e prata e dos relojoeiros. assim. a ser criada sob o controle direto do governo. com o objeti- vo de evitar a venda. em instância superior à da cor- poração.org/terms . mas diminuía sensivelmente o alcance de seu poder. de jóias e relógios contra- bandeados do exterior. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about. 38 As restrições legais à prática da ourivesaria só foram eliminadas em 1815. No tocante à aprendizagem. de ouro ou prata. os artesãos já esperavam mais proteção do Estado do que das suas próprias organizações profissionais.179. funcionaria como veri- ficadora da qualidade do trabalho dos artífices. culminando com a Independência. todas as obras nacionais e estrangeiras. a organização corporativa dos ofícios mecânicos encon- trou seu fim no próprio termo do período colonial.38 elaborado por um ourives estabelecido na Corte e submetido à Câmara do Rio de Janeiro. em grau de recurso. reprovado.216. A Casa de Inspeção. Desincentivada. as quais manteriam suas antigas atribuições de examinar os candi- datos a mestre. mas pediam a proteção (e o controle) do príncipe. As transformações econômicas. políticas e ideológicas ocorridas no Brasil. à época da independência. mediante o pagamento de direitos proporcionais ao seu valor.130 on Fri. em todas as regiões do Brasil. 57 This content downloaded from 179. pelas condições da exploração econômica princi- pal e pelas condições sociais dela decorrentes. para proceder a novo exa- me. Se o projeto tivesse sido aprovado.jstor. nada res- tando de seu antigo papel de agência controladora da prática e da aprendiza- gem dos ofícios manufatureiros. garantido pela sua corpora- ção. evocando a convergên- cia dos interesses de ambos: a elevação das rendas do Estado e dos artesãos. em 1808. em maio de 1822. 39 O registro da portaria foi publicado em 1969. Isso porque. enquanto associações de caráter religioso e assistencial. no contexto da polí- tica econômica joanina.39 A julgar pelo projeto. desde a transferência para o Rio de Janeiro da sede do reino português. em 1822. O projeto não propunha a eliminação das bandeiras dos ofícios.

216. 02 Jun 2017 15:59:25 UTC All use subject to http://about.jstor.org/terms .This content downloaded from 179.130 on Fri.179.

deu ao Brasil status de nação soberana.130 on Fri.179. Os inimigos da França foram polarizados pela Inglaterra (também um país burguês). sob a liderança de Napoleão Bonaparte. a forma pela qual ela se deu.org/terms . nos primeiros anos do século XIX. que persistiu durante um século e meio. A transferência da sede do reino português para o Rio de Janeiro. 3 A escola de ofícios manufatureiros no Brasil reino unido As transformações políticas e econômicas sofridas pelo reino português – Metrópole e colônias –. determinada pela posição de Portugal na correlação de forças dos conflitos eu- ropeus. também.jstor. pressionavam o expansionismo da França. iniciou-se o pro- cesso de formação do Estado nacional gerando. foram de tal monta que criaram condições para a independência política do Brasil. basicamente com a mesma estrutura. em seu bojo. rival da- 59 This content downloaded from 179. o aparelho edu- cacional escolar. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. Com isso. nas duas primeiras décadas do século XIX. extinguindo-se as trocas econômicas que caracterizavam as relações Metrópole–Colônia. Essas transfor- mações determinaram não só a independência como. exportando o arcabouço jurídico-político da revolu- ção burguesa vitoriosa. pressionavam os países onde a aristocracia ainda se assentava sobre bases sociais e econômicas feudais. foi profun- damente marcada pela transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro. de outro. Da Colônia ao reino unido A situação do Brasil. em 1808.216. diferentemente das colônias espanholas. De um lado.

fosse em escala para o Uruguai e a Argentina. pois lhe daria liberdade de comércio no Brasil. escoltados pela esqua- dra inglesa. antiga proposta de uma das correntes da elite dirigente lusitana. levando a família real. civis e militares.org/terms . ao mesmo tempo em que mantinha o regime monárquico. vigente por três séculos. Portugal cedia a Ilha da Madeira para a instalação de base militar da Inglaterra. Em meio a essa situação crítica. no que di- zia respeito à liberdade de produzir e de comerciar. consolida- da pelo tratado de Methuen de 1703. Essa transfe- rência convinha à Inglaterra.jstor. sem a intermediação do monopólio metropolitano. dirigente de um sistema de alianças de países europeus. em 1822. além de permitir aos navios mercantes daquele país o direito de utilizarem os portos brasileiros. Na- poleão. Tão logo a frota chegou à Bahia. culminando com a independência do Brasil de Portugal. mas o próprio núcleo do aparelho do Estado português que se transferiu para o Brasil. substituído de imediato pela depen- dência da Inglaterra.130 on Fri. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. Um dia antes das tropas de Junot entrarem em Lisboa. deixou o Tejo. garantia a proteção naval inglesa para a transferência da Corte para o Brasil. Essas medidas estavam orientadas pela doutrina econômica liberal. Portugal. tendo à frente o príncipe João. em janeiro de 1808. não seria exage- ro dizer que não foi só a sede. Um acordo secreto. com destino ao Brasil. Em troca. permitindo aos comerciantes metropolitanos maximizarem seus lucros por duas vias: pelo rebaixamento dos preços das mercadorias im- portadas da Colônia e pela elevação dos preços dos produtos para lá exportados. Com ele. esperava desorganizar a economia in- glesa. Luiz Antônio Cunha quela na disputa pela hegemonia européia e colonial. desenvolvia-se o processo de autonomia política. o que impli- cava que a sede do aparelho do Estado português se transferisse para o Brasil. voltada para a exportação de manufaturados. 60 This content downloaded from 179. antiga aliada política da Inglaterra por força de secular dependência econômica. a ação diplomática inglesa reforçou a fac- ção da Corte favorável à manutenção da aliança com a Inglaterra. Incapaz de derrotar a Inglaterra em razão da potência de sua marinha. começaram a ser to- madas medidas de política econômica que acabaram por quebrar o sistema co- lonial de trocas.179. 1 O pacto econômico colonial consistia num sistema de trocas baseado na detenção do mono- pólio do comércio da Metrópole com a Colônia. impôs à Ingla- terra um bloqueio econômico. encontrava-se entre dois fogos: as forças militares de Napoleão e a pressão da frota inglesa na foz do Tejo. além da metade do dinheiro em circulação no reino. uma frota de 36 navios portugueses.216. regente no impedimento de Maria I.1 Paralelamente. assina- do em 1807. mais 15 mil nobres e funcionários. capaz tanto de defender quanto de bombardear Lisboa. fosse para o comércio no Brasil. Com isso.

jstor. só seriam julgados. e impunha ao governo português o compromisso de acabar paulatinamente com o tráfico de escravos africanos. os tratados garantiam a livre presença de navios de guer- ra ingleses nos portos brasileiros (Pantaleão. e os súditos ingleses passavam a gozar do direito de extraterritorialidade. O mesmo quadro ideológico que favoreceu a ligação econômica com a Inglaterra conduziu a medidas propiciadoras do fomento da produção interna. taxavam as mercadorias inglesas em 15% de direitos alfandegários ad valorem. à época. por um juiz conservador por eles mesmos escolhidos.179. 61 This content downloaded from 179. aos proprietários de terras e escravos que visualizavam a possibilidade de receberem pagamento mais alto pelos produtos exportados. praticamente à Inglaterra. de fevereiro de 1809 a fevereiro de 1810. reduzidas. a única nação amiga de Portugal em condi- ções de empreender com este reino trocas comerciais em volume significativo. concediam aos sú- ditos ingleses o direito ao comércio varejista nos portos e cidades de Portugal e colônias.216. mesmo se a Corte retornasse a Lisboa. Interessava. concediam à Inglaterra o direito de nomear cônsules para as colônias portuguesas. se vendidos dire- tamente aos importadores ingleses.130 on Fri. um imperativo diante do “bloqueio continental”. A Inglaterra procurou assegurar a permanência da posição privilegiada de 1808-1809 quando era. proibindo Portugal de restabelecer o antigo regime de monopólio comercial. as embarcações estrangeiras das nações amigas. os ingleses obtiveram outro compromisso formal para o fim do tráfico de escravos. da Metrópole e das colônias. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. na prática. ao mesmo tempo em que os súditos de ambos os países tinham reconhecido o di- reito recíproco de nação mais favorecida quanto ao comércio e à navegação.2 Como uma espécie de garantia adicional ao cumprimento dos seus dispositivos. Mais do que a fidelidade a princípios abstratos. 1970). essa medida interessava aos mercadores ingleses. proibiam a Inquisição no Brasil. que Portugal e Inglaterra assinassem. 24%. 2 Em 1817. A partir dessa data. enquanto as mercado- rias portuguesas deveriam pagar 16% e as de outros países. reduziam o volume das taxas postais e direitos de ancoragem para os navios in- gleses nos portos portugueses. os quais viam no comércio direto a possibilidade de vender mais. ainda.org/terms . da proteção à Coroa lusitana. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata A primeira medida foi a abertura dos portos brasileiros. tratados de aliança. reservavam à Inglaterra o direito de excluir súditos e navios portugueses do comércio com as colônias inglesas. Nesse sentido. comércio e navega- ção. os negociadores diplomáticos ingleses conseguiram em troca. no Brasil. pelo alvará de 28 de janeiro de 1808. tam- bém. estipulando condições altamente vantajosas para este último país: eles previam a continuidade dos direitos de comércio livre entre o Brasil e a Ingla- terra. isto é. poderiam desembarcar mercadorias nos portos brasileiros sem passar pelos intermediários de Portu- gal.

contribuíram para acelerar o processo de acumulação na França. proveniente da Loteria Nacional do Estado. e ia mais longe ao estabelecer a liberdade de produção. se deram conforme os princípios do mercantilismo. excluindo-se apenas os gêneros estancados. Luiz Antônio Cunha Os empresários capitalistas representados na Junta de Comércio acompanha- ram a burocracia do Estado na sua transferência3 enquanto permanecia em Lis- boa a organização corporativa e seus dirigentes.4 O alvará de 1º de abril de 1808 revogou o de 1785. de repente.jstor. minis- tro de Luís XIV. pela reserva do mercado. Assim. Essa política se inspirou nas manufaturas reais promovidas por Jean-Baptiste Colbert. do colbertismo (Luz. Fábricas e Navegação. 6 Esse último incentivo consta do alvará de 6 de outubro de 1810.130 on Fri. mais o protecionismo alfandegário. pela isenção de direitos alfandegários dos produtos exportados. 62 This content downloaded from 179. no Brasil. novos golpes foram desfechados contra as corporações de ofício.org/terms . especialmente do fardamento da tropa. que proibia a instalação de manufaturas no Brasil. nesse Esta- do. pelo incentivo financeiro aos inventores de máquinas e processos manufatureiros. Refletindo sobre a ruína de uma fábrica de tecidos de algodão e lã situada perto de Barbacena. então reforçadas pelos protetores ingleses e por destacados elementos das classes dominantes do Brasil Colônia. para as fábricas instaladas no Brasil. que viria a ser Visconde de Cairu no Império brasileiro. os artesãos ficaram mais longe do rei. 1971). desembara- çando as pressões da junta. 4 Foi esse o caso de José da Silva Lisboa. 3 Poucos meses após o desembarque no Brasil. a Real Junta do Comércio. especialmente as têxteis e meta- lúrgicas. as primeiras tentativas de promoção estatal da indústria. quando os privilégios concedidos pelo Estado a certas empre- sas. no Brasil. a política econômica do príncipe regente. Agricultura. 5 Esses incentivos constam do alvará de 28 de abril de 1809. a Casa dos Vinte e Quatro e o juiz do povo. para manufaturas. Apesar de os “princípios liberais” terem sido proclamados em alvarás régios. Dessa maneira. tives- se vindo. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. o alvará do príncipe regente criava. dissolvendo os controles monopolistas da organização corporativa. Luccock concluiu que eles chegaram tarde. no campo econômico. voltava-se para o incentivo da produção empreendida por particulares pela isenção ou redu- ção de direitos alfandegários das matérias-primas e outros insumos importa- dos. pela “mo- deração” do recrutamento militar nas regiões em que a agricultura e as artes necessitavam de braços. desde que tivessem sido pagos os impostos devidos. pelo menos no tocante à indústria têxtil. permitindo-se a qualquer pessoa vender qualquer mercadoria. Nos anos seguintes.179.6 Esses incentivos não surtiram os efeitos desejados. pela doação de capital financeiro. a presidir a produção no Brasil. mais especificamente.216. Mas não se deve pensar que a doutrina liberal.5 pela isenção de direitos alfandegários sobre as matérias-primas e produtos têxteis destinados ao consumo interno.

179. sendo aqui oferecidos a preço muito inferior ao dos gêneros cujo lugar pretendiam usurpar. que ti- ravam proveito da demanda local de produtos de ferro. se construíam armas e utensílios vários para o exército. A fabricação de pólvora. ao consumo de particula- res que comprariam o produto nos arsenais militares régios. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Quando a Corte. tentou-se ressuscitar a manufatura. 7 Essas observações foram feitas por Luccock em 1818. as matérias-primas de que viria a pre- cisar eram agora vendidas na capital com aumento de trezentos por cento. a política econômica do governo joanino voltou-se para a criação de manufaturas estatais e de empreendimen- tos que se poderia chamar. com a importante vantagem para o produtor do paga- mento à vista em vez de crédito por dez a doze meses. no século XVIII. nem tampouco muito se queixassem de que os materiais andavam de má qualidade. também. mais de acordo com as suas maneiras e hábi- tos gerais. A produção de ferro iniciou-se no Brasil já no século XVI. criada em maio de 1808. 1975. dedicadas principalmente à metalurgia do ferro.216. eventualmente. auxiliados pela inteligência e operosidade dos nossos [ingleses] aventureiros comerciais.org/terms . A primeira manufatura estatal foi a fábrica de pólvora. O dono [da fábrica de tecidos] fizera-se pobre. vital para as operações bélicas (mesmo que fossem “para inglês ver”). usando termos atuais. 63 This content downloaded from 179. a agricultura oferecia meio mais seguro e rápido de refazer fortuna.130 on Fri. no âmbito da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra. a exploração de ouro nas Minas Gerais propiciou o surgimento de várias pequenas usinas metalúrgicas. era tarde demais. As empresas de economia mista. Mais tarde. p.jstor. porém: a industriosi- dade do povo adotara rumo diverso. Não é de admirar portanto que eu encontrasse a indústria agonizante. de empresas de economia mista. após fixar-se no país encontrou vagar para dar atenção a tais assuntos. onde se consertavam e. Os tecidos ingleses. podendo-se consegui-las de novas fontes e a preço menor. por ou- tro lado.356)7 Além dos incentivos à iniciativa privada. aproveitando o minério lá existente e a técnica trazida por escravos africanos. Instalaram-se vários trens – isto é. no Rio de Janeiro. na região de So- rocaba (São Paulo). da abundância de mi- nério na região e da técnica trazida pelos escravos africanos. subterfúgio de todos os artesãos. destinavam-se ao fornecimento de insumos para as oficinas militares e para consumo civil de caráter geral. sobre o que dantes por elas pagava. oficinas de porte inferior aos arsenais. começavam a assediar o país. deveria atender. Com essa indústria pensava-se construir um Estado poderoso e uma produção manufatureira capaz de diversificar o co- mércio exterior. quan- do a freguesia exige mercadorias de qualidade superior. (Luccock. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about.

Luiz Antônio Cunha

As iniciativas estatais para a fabricação de ferro começaram em 1808. O in-
tendente da Administração dos Diamantes, Manuel Ferreira da Câmara Bitten-
court e Sá, utilizou recursos arrecadados da mineração diamantífera para insta-
lar uma grande usina siderúrgica perto do Morro do Pilar, no Arraial do Tejuco.
O objetivo era abastecer o mercado interno e exportar o ferro excedente para
outros países. A usina montada pelo Intendente Câmara produziu ferro de 1815
a 1821, quando o empreendimento foi abandonado (Simonsen, 1977, p.446).
Com base no estudo do inspetor de Minas e Matas da Capitania de São Pau-
lo, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, de 1803, o ministro do Reino, Conde
de Linhares, promotor da metalurgia do ferro em Portugal, contratou um enge-
nheiro de minas para cooperar com os produtores locais desse metal. O esco-
lhido, tenente-coronel alemão Frederico Luiz Guilherme de Varnhagen, veio
com a missão de estudar uma maneira de desenvolver a produção de Araçoia-
ba, em São Paulo, a qual utilizava a técnica africana. Ao chegar, em 1810, Var-
nhagen propôs a criação de uma sociedade de economia mista, cujo capital se-
ria subscrito em parte pelo Estado, em parte por particulares. A companhia foi
criada imediatamente para operar em Ipanema (também em São Paulo), sendo
a produção confiada a um engenheiro sueco, que trouxe toda uma equipe de
conterrâneos seus, assim como o equipamento completo para a usina. O insu-
cesso da equipe sueca fez com que Varnhagen fosse encarregado de alterar o
projeto original da usina de Ipanema e dirigisse diretamente o empreendimen-
to a partir de 1814, passando a produzir quatro anos depois. A usina só veio a
ser fechada após a Guerra do Paraguai, durante a qual o Exército e a Marinha
muito se valeram da sua produção.
Enquanto a usina paulista procurava absorver a tecnologia sueca, outro
empreendimento, em Minas Gerais, absorvia tecnologia alemã.8 O barão Wi-
lhelm Ludwig von Eschwege, engenheiro militar alemão a serviço do Exército
lusitano, diretor da siderurgia de Figueiró dos Vinhos, em Portugal, veio para o
Brasil em 1811 para ocupar cargos militares e civis na burocracia do Estado.
Tomando conhecimento dos recursos naturais da região das Minas, propôs a
criação de uma empresa de economia mista para a fabricação de ferro em Mi-
nas Gerais, iniciativa que foi logo aceita pela Coroa. A “fábrica patriótica”,
como veio a ser conhecida, foi instalada em Congonhas do Campo, começan-
do a produzir em fins de 1812.9
A tentativa de se construir uma indústria siderúrgica no Brasil no início do
século XIX fracassou. Vários fatores contribuíram para isso: os portugueses não

8 O Conde de Linhares tinha como objetivo comparar os resultados de ambas as tecnologias
para futuras iniciativas no setor (Araújo Filho, 1971).
9 Eschwege construiu, também, uma forja, para sua exploração particular, em Antonio Parreira,
além de prestar assistência técnica a empreendimentos similares na Capitania de Minas Gerais.

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

dominavam as técnicas de produção de ferro e aço; não havia mercado no inte-
rior do Brasil que compensasse a instalação de grandes unidades produtoras;10
a exportação do excedente ficava impossibilitada pelo transporte oneroso, de-
pendente das tropas de mulas; finalmente, mas não secundariamente, o ferro
inglês chegava aos grandes centros consumidores do litoral brasileiro a preços
tais que tornava não competitiva a produção paulista e mineira. Por isso, sub-
sistiram apenas instalações de pequeno porte, com sua produção defendida do
competidor inglês pela barreira das serras (Luz, 1971, p.38-9).
As medidas econômicas tomadas pelo príncipe regente, depois rei João VI
durante sua estada no Brasil, se estenderam para atividades não propriamente
manufatureiras, mas que acabaram (ou acabariam, se bem-sucedidas) por in-
duzir seu desenvolvimento.11 Foi criado o Banco do Brasil, importante agência
financeira, tendo começado a operar logo em 1809, com sede no Rio de Janeiro
e sucursais na Bahia e em São Paulo. Era um banco de depósitos, descontos e
emissões, indispensável para o fornecimento de crédito mercantil para os ne-
gócios de exportação. Em 1819, foi criado um Laboratório de Química, no Rio
de Janeiro, destinado a apoiar a agricultura, a indústria e a farmácia na análise
de produtos e matérias-primas.
A transferência para o Rio de Janeiro da sede do reino português trouxe
para esta cidade profundas mudanças. Para ela vieram não só os nobres, os mi-
litares e os funcionários portugueses e as legações diplomáticas estrangeiras,
como, também, comerciantes e proprietários de terras no Brasil, que procura-
vam se aproximar do centro do poder. Com isso, a população do Rio de Janei-
ro passou de 60 mil habitantes, em 1808, para 130 mil, dez anos depois.
A cidade ganhou uma biblioteca de 60 mil volumes, trazida de Portugal,
logo aberta ao público, núcleo da atual Biblioteca Nacional; uma nova casa de
espetáculos, o Teatro São João; um museu mineralógico, gérmem do atual Mu-
seu Nacional; um jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro impresso no
Brasil, nos tipos da recém-criada Imprensa Régia (Lima, 1908 e Campos, 1941).
O Brasil foi sede da Monarquia lusa de 1808 até 1820, quando a Revolução
Constitucionalista do Porto exigiu a volta do rei João VI a Portugal. Durante
esse período, passou de Colônia a reino unido, o que significava que o rei de
Portugal seria, também, rei do Brasil, não por ser uma colônia, mas por ser ou-
tro Estado. Na volta a Portugal, o rei não foi acompanhado pelo aparelho buro-

10 A mineração do ouro poderia ser uma atividade indutora da produção de ferro, pelo consumo
de máquinas e ferramentas, mas sua decadência já tinha se iniciado na segunda metade do sé-
culo anterior.
11 Deixo de tratar aqui das iniciativas tendentes ao incentivo da agricultura. Ao leitor interessado
recomendo o exame da carta régia de 25 de junho de 1812 (e instruções anexas) a qual deter-
minou a criação de um curso de agricultura na Bahia.

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Luiz Antônio Cunha

crático que para cá trouxe. Este permaneceu no Brasil, com o príncipe Pedro,
quem, diante do movimento pela emancipação política, por conselho paterno,
acabou tomando para si a Coroa, proclamando a Independência do Brasil, “an-
tes que algum aventureiro o fizesse”. Por isso, não seria descabido dizer que a
constituição do Estado nacional brasileiro originou-se catorze anos antes do
grito do Ipiranga.

Legado colonial à educação

O peso específico do Estado na formação social brasileira foi tamanho,
desde o início, que o campo educacional originou-se de iniciativas estatais, só
vingando iniciativas particulares na segunda metade do século XIX. Não estou
me esquecendo dos empreendimentos educacionais das ordens religiosas no
Brasil Colônia, tão numerosas. É que elas foram, também, ambiguamente, inicia-
tivas estatais, já que a Igreja Católica era uma parte da burocracia do Estado.
Ao contrário dos dias atuais, a Igreja Católica não era, no reino português,
uma sociedade civil com finalidades exclusiva ou predominantemente religio-
sas, mas, sim, um setor da administração, com amplas atribuições, algumas
bem distantes do campo propriamente religioso. As razões para isso estão pre-
sas ao processo de formação do Estado português.
Como recompensa pela luta da aristocracia lusitana contra os mouros, no
século XIII, sob a bandeira do cristianismo, o papa transferiu ao Estado nascen-
te importantes poderes, entre os quais a cobrança de dízimo, a formação e o
suprimento de sacerdotes, a nomeação dos bispos, a censura dos documentos
eclesiásticos, o julgamento dos sacerdotes em matéria canônica. Em contrapar-
tida, o Estado se encarregava da proteção e da manutenção da Igreja, em ter-
mos materiais. Era o regime do padroado.
Embora a Igreja Católica, com suas ordens e congregações, fosse assim de-
pendente do Estado, não é menos verdade que este dela dependia, em termos
ideológicos. A ação educativa religiosa, desenvolvida tanto no púlpito quanto
nas escolas, cimentava a ordem social estruturada na crença da organicidade
dos estamentos e no direito divino do poder monárquico.
No século XVI, o apoio que a Monarquia lusitana deu à ortodoxia católica
em sua luta contra a reforma protestante reforçou o regime do padroado, assim
como propiciou o rápido crescimento, em Portugal e em seus domínios, da
Companhia de Jesus, ordem religiosa nascida justamente do movimento con-
tra-reformista.
Embora a atividade dos jesuítas no Brasil mais divulgada seja a catequese
dos indígenas, não foi menos importante sua empresa escolar, meio privilegia-
do, aliás, de sua atuação em todo o mundo. Em meados do século XVIII, os je-

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

suítas mantinham no Brasil 25 residências, 36 missões e 17 colégios e seminários
maiores, além de um número não determinado de seminários menores e “esco-
las de ler e escrever” (Azevedo, 1971, p.47). A Companhia de Jesus tinha, para
suas escolas, uma pedagogia, modelos institucionais e currículos próprios,
tudo isso condensado na Ratio Studiorum. Os colégios desses padres foram
ganhando prestígio, com o passar do tempo, junto à nobreza de Portugal, a
ponto de, ainda no século XVI, a Companhia de Jesus receber a direção do Co-
légio das Artes da Universidade de Coimbra, no qual vieram a ser realizados os
exames de ingresso à universidade.
Dispondo, então, de vários estabelecimentos de ensino secundário no rei-
no e podendo controlar a admissão ao ensino superior, os jesuítas detinham o
controle direto e indireto da educação escolar em todo o reino português.
O deslocamento da Companhia de Jesus da posição hegemônica de que
desfrutava no campo do ensino, assim como sua expulsão de Portugal e domí-
nios, em 1759, deveu-se a um feixe complexo de causas econômicas, políticas
e ideológicas. Para as finalidades deste texto, basta assinalar que a expulsão da
Companhia de Jesus desorganizou a educação escolar existente, levando o
Estado à montagem de um novo aparelho escolar para preencher o vazio.
Embora houvesse ordens religiosas em Portugal, portadoras de concepções
pedagógicas diferentes das jesuíticas e dotadas da confiança do setor hegemô-
nico no Estado, nenhuma delas se candidatou para preencher o lugar deixado
vago. Dentre as razões dessa abstenção, vale destacar a decorrente do fato de
que as concepções filosóficas e pedagógicas dos educadores progressistas por-
tugueses estavam presididas pelas doutrinas políticas da burguesia nascente,
particularmente na França. Essa classe, nesse país, via na secularização do ensi-
no um importante instrumento de combate aos remanescentes feudais que ti-
nham na Igreja Católica fortes bases materiais e religiosas.
A primeira medida do conjunto que veio a definir um aparelho estatal e se-
cular de ensino, no reino português, decorreu do controle, pela administração
civil, dos aldeamentos indígenas do Pará e do Maranhão, até então dirigidos
pelos jesuítas. Nesse sentido, o alvará de 17 de agosto de 1758 determinou que
se criassem, em cada povoação, duas “cadeiras de primeiras letras”, uma para
meninos, outra para meninas, em substituição às escolas jesuítas.
Expulsa a Companhia de Portugal e de seus domínios, no ano seguinte, fo-
ram sendo tomadas medidas de constituição de um novo aparelho escolar. As
principais medidas foram as seguintes: (i) Criação da Diretoria-Geral de Estu-
dos, diretamente subordinada ao rei, encarregada de gerir todos os assuntos li-
gados ao ensino, com ramificação em todo o reino, por meio de diretores locais
e comissários; (ii) controle da educação escolar mediante a proibição do ensi-
no, mesmo a título de aulas particulares, por pessoas que não tivessem sido
aprovadas em exames de habilitação e idoneidade comprovada pela Diretoria-

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02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. de teologia. abandonavam as aulas em proveito de outras atividades. de geometria. de desenho e figura. de hebraico. montado e dirigido pelos jesuítas no território brasileiro. mesmo após a afluência dos recursos gerados pelo “subsídio literário”. mas. mantidas pelo Estado com os recursos pro- venientes do “subsídio literário”. Não que fossem criadas no Brasil agências e mecanismos institucio- nais de controle duplicando os da Metrópole. de francês. política) entre os ór- gãos do Estado e as instituições de ensino existentes. como a criação de uma aula de comércio e do Colégio dos Nobres. mas a destruição pura e simples de todo o sistema colonial do ensino jesuítico. 68 This content downloaded from 179. Foram criadas.org/terms . (iv) criação das “aulas régias”. as medidas de construção do aparelho estatal de ensino foram também para aí transferidas. onde a reforma pombalina do ensino foi bem-sucedida. quando a sede do reino português se transferiu para o Brasil. imposto cobrado sobre o consumo de carne e a produção de aguardente. principalmente. (Azevedo. mas uma organização escolar que se extinguiu sem que essa destruição fosse acompanhada de medidas imediatas bastante eficazes para lhe atenuar os efei- tos ou reduzir a sua extensão. 1971. funcionando em cidades distintas. quase todas inde- pendentes umas das outras. a reação contra ela. fe- charam-se de um momento para outro todos os seus colégios. Mas. a desarticulação da educação escolar do Brasil foi tamanha que levou um crítico severo do ensino jesuítico a dizer que Em 1759. aulas de grego. desmoronando-se completamente. Não foi um sistema ou tipo pedagógico que se transformou ou se substituiu por outro. no Brasil. Ao contrário da Metrópole. ao menos no campo do ensino. atividade até então a cargo do Santo Ofí- cio. de filosofia. de aritmética. de retórica e poética. p. desestimulados pelos baixos salários pa- gos pelo Estado.47) Se. orientada pelo enciclopedismo. as poucas aulas régias que chegaram a funcionar careciam de alunos e de professores. o que sofreu o Brasil não foi uma refor- ma de ensino. Luiz Antônio Cunha Geral de Estudos ou por seus delegados. de que não ficaram senão os edifícios. organizados segundo uma pedagogia consistente.216.jstor. não conseguiu erguer um edifício cultural alternativo. Quando o decreto do Marquês de Pombal dispensou os padres da Companhia.179. Outras medidas também foram tomadas pelo go- verno pombalino. com a explusão dos jesuítas. assim como a reforma da Universidade de Coimbra. Mesmo assim. e se desconjuntou. Os alunos eram atraídos pela melhor qualidade do ensino dos colégios religiosos e os professores. expulsando-os da colônia e confiscando-lhes os bens. O que aconteceu foi a diminui- ção da distância (não só geográfica. nos colégios dos padres jesuítas.130 on Fri. em 1808. o apare- lhamento da educação. (iii) controle do conteúdo dos livros. compreendendo tanto o ensino de ler e es- crever quanto o das humanidades. havia um plano sistematizado e seria- do de estudos. submetendo-os à Real Mesa Censória.

Carta de Lei de 4 de dezembro de 1810. à mecânica. com as estruturas básicas que têm persistido passado mais de século e meio. como vieram a ser denominadas muito mais tarde. que se criaram escolas para a formação de profissionais “civis” naquelas especialidades. construção de estradas. na produção de mercadorias e na prestação de serviços. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. com o fim imediato de formar médicos e cirurgiões para os navios e a tropa. a Academia Militar (oficiais para o Exército e as milícias.130 on Fri. no contexto da guerra contra a França e seus aliados. Formavam especialistas para atividades bélicas a Academia de Marinha. envolvendo forças de terra e mar. pontes. Outras cidades abrigaram. após a Revolução. As primeiras instituições de ensino que formavam o aparelho escolar desti- navam-se a ministrar ensino superior e foram localizadas no Rio de Janeiro. também. começando com a Escola Politécnica. na época aliada da França. vemos que ao mesmo tempo em que se formava o Estado brasileiro criava-se. na artilharia e na engenharia.org/terms . A Guiana foi devolvida à França. nesse contexto.179.jstor.13 A cadei- 12 Foram empreendidas duas operações bélicas. As duas regiões foram ocupa- das por certo tempo. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Aparelho escolar e escola de ofícios Pelo que foi anteriormente mostrado. De acordo com Rugiu (1998). e o Uru- guai conquistou a independência em 1828. portos. secundariamente. 13 Cf. mas desco- nheço se houve alguma aplicação desse tipo. em Vila Rica. como funções. e engenheiros de fortifi- cações) e as cadeiras de anatomia e cirurgia. mas. por força do Tratado de Viena. em 1817. foram criados a Academia de Marinha e as cadeiras de anatomia e de cirurgia (em 1808). também. e outra à Banda Orien- tal do Uruguai. engenheiros para trabalhos de topografia. Na França. colônia da Espanha. Não se deve esquecer que estas últimas começaram a funcionar em hospitais militares. o curso de agricultura (em 1814). foram criados as cadeiras de cirurgia e de econo- mia política (em 1808). foi só ao fim do século XVIII. a preparação de pessoal especia- lizado na guerra. a cadeira de desenho e história. à engenharia das edificações. em 1809. minera- ção. a Academia Real Militar (em 1810). o curso de agricultura (em 1812). Uma expedição foi enviada à Guiana Francesa. ao desenho técnico e a outras atividades práticas era ministrado nas academias militares. principalmente. Essas instituições tinham. A Academia Militar não tinha objetivo de formar apenas especialistas nas artes bélicas. e na Bahia. também. à agrimensura. instituições de ensino superior. o curso de desenho técnico (em 1818). ocupando Caiena.12 A formação da cadeira de matemática superior poderia vir a ter aplicações militares. a Academia de Artes (em 1820).216. o ensino dos co- nhecimentos necessários à arquitetura. a destinação “civil” dos estudos nas academias militares foi comum na Europa. Na Bahia. como a cadeira de matemática superior. um novo aparelho escolar. criada em Recife ou Olinda. o curso de química (em 1817). adução de águas e outras obras de engenharia “civil”. Desde o século XVI. 69 This content downloaded from 179. No Rio de Janeiro.

prestadores de serviços para as classes domi- nantes locais. aliás até os dias atuais. O ensino das primeiras letras beneficiou-se de umas sessenta cadeiras no período joanino. portos. atuando como “pro- fissionais liberais”. criado em 1837. es- ses cursos formavam. de química e de desenho técnico tinham claros objetivos econômicos. da mesma forma como o curso de arquitetura da Academia de Artes. quando a engenharia civil passou a ser um ramo das engenharias “civis”. já diferenciado.jstor. no Rio de Janeiro. O aparelho escolar criado no período estudado. também. O ensino secundário era ministrado. sem a intermediação do aparelho de Estado. Mais do que a ambição desse dispositivo. especializada na construção de edifícios. Esse cruzamento de instituições de ensino com a destinação social dos seus formados parece estranha a quem conhece a feição posterior do apare- lho escolar.org/terms . tendência persistente. o ensino secundário foi sendo desenvolvido.179. no Rio de Janeiro. que dizia garantir a instrução primária gratuita a todos os cidadãos. sempre. Luiz Antônio Cunha ra de economia política e os cursos de agricultura. não sofrendo o dinamismo que se esperava da Constituição outorgada de 1824. Essa po- sição era reforçada pela natureza exclusivamente propedêutica dos níveis inferiores. este último constituindo o gérmen do Colégio Pedro II. como os pintores. que então formava os oficiais do Exército e os engenheiros militares. Fun- cionavam em diversas cidades as “aulas régias” de humanidades. em alguns poucos estabe- lecimentos. de retórica. os desenhistas. Com o tempo. os escultores e os gravadores for- mados pela Academia de Artes. Entre esses prestadores de serviços estavam aqueles que se especiali- zavam na produção de bens simbólicos próprios do consumo das classes do- minantes. de história. na época. Foi só em 1874 que foi criado. em virtude do ensino superior. de matemática e de outras áreas do saber. Mas. especializando-se as instituições. como os seminários de São José e São Joaquim. um estabelecimento de ensino desti- nado à formação de engenheiros “civis”. por ampliação e diferenciação. É o caso dos médicos e cirurgiões. dividindo estas com professores particulares o grosso dos estudantes. barragens e obras desse tipo. tinha na formação de quadros de alta qualificação para a produção e a burocracia do Estado sua finalidade principal. quando comparado com a 14 Não se deve confundir essa distinção com a que se veio fazer há poucas décadas.130 on Fri. estradas. 70 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about.216. oriunda da Escola Militar. além de formarem especialistas necessários à guerra e à produção. mas.14 a Escola Politécnica. pelo menos o voltado para o ensino superior. de arquitetos e de professores de filosofia.

iam sendo atraídos pelas pe- quenas forjas espalhadas pela Capitania de Minas Gerais. para a busca de uma fonte alterna- tiva de suprimento de trabalhadores estrangeiros. também. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. pretendeu-se que a falta de professores fosse com- pensada pela adoção pelo método Lancaster. de modo que os trabalhadores deveriam ser formados por estrangeiros. Como vimos. o que o le- vou a abandonar a disposição inicial de só empregar trabalhadores livres. de caráter monitorial.jstor. no lugar dos africanos (escravos). então. Mas. A força de trabalho só se fixou na usina de Congonhas quando foram comprados escravos. Os trabalhado- res europeus contratados pelo engenheiro sueco para a usina de Ipanema não conheciam o ofício da fundição: havia entre eles até mesmo um alfaiate e um sapateiro. o regime escravocrata tornou essa proclamação destituída de base prática. O go- verno do príncipe regente voltou-se. formar 66 aprendizes.130 on Fri. aos poucos. atente- mos para os problemas surgidos com a mobilização da força de trabalho e a promoção do ensino de ofícios. fábricas e arsenais. esse problema. Portugal não tinha tradição metalúrgica.216. por outro lado. Os empreendimentos metalúrgicos do período joanino tinham na forma- ção da força de trabalho um grande obstáculo para o seu desenvolvimento.15 Paralelamente. A solução encontrada pelo intendente Câmara foi contratar um mestre fun- didor alemão que conseguiu. tão logo os aprendizes dominavam a técnica de fundição. com o objetivo específico de promover a formação da força de trabalho diretamente ligada à produção: os artífices para as oficinas. em geral alemães ou suecos.org/terms . Embora o conjunto da produção tirasse proveito dessa aprendizagem. o Estado procurava desenvolver um tipo de ensino apartado do secundário/superior. já em 1810. A técnica utilizada pelos escravos africanos. o ministério presidi- do pelo Conde de Linhares planejou trazer para o Brasil 2 milhões de chineses.179. o tratado econômico-político com a Inglaterra incluía uma cláusula. Antes de entrar diretamente nesse ensino artesanal e manufatureiro. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata disponibilidade de recursos. voltada para o ensino público. 71 This content downloaded from 179. Varnhagen começou enfrentando problema distinto. pela qual Portugal se obrigava a acabar com o tráfico de escravos. um obstácu- lo que só veio a aumentar durante o período imperial. pela lei de 1827. imposta por este país. O emprego de escravos na manufatura encontrou. uma solução repetidamente aventada Império adentro. só permitia a produção em escala ar- tesanal. o empreendimento de gran- de porte saía prejudicado. agora europeus e asiáticos (livres). Nesse sentido. à medida que as leis de 15 A propósito dos recursos para o ensino. pois arcava com o ônus da formação e não usufruía dos seus benefícios. Eschwege enfrentou.

critério também utilizado para a sua hierar- quização militar: os mestres de oficina teriam a graduação de sargentos e os contramestres. uma Companhia de Artífices.387).216.452). pela disciplina castrense. dois sargentos.d. os quais foram distribuídos pelas compa- nhias do Regimento de Artilharia da Corte. 72 This content downloaded from 179. propôs uma solução que não lhe era estranha como engenheiro militar: a cria- ção de uma Companhia de Soldados Artífices de modo a evitar. Luiz Antônio Cunha abolição parcial da escravidão foram sendo promulgadas. marceneiros. potencialmente mobilizável. os artífices receberiam “jornal proporcionado à sua habilidade”. com a esperança de ter uma fonte próxima supridora de força de trabalho livre.17 Sua esperança era dispensar a onerosa e in- certa importação de trabalhadores estrangeiros pelo “disciplinamento” dos na- turais da terra.419). embora não fosse na produ- ção “civil”. principalmente ferreiros e serra- lheiros. p. em 1812 (s. de soldados pontoneiros.130 on Fri. de diversas especialidades. “a inconstância dos naturais em matéria de serviço. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. um furriel e quatro cabos. Pelo que pude deduzir do texto do decreto de 3 de setembro daquele ano. deveria ser comandada por um capitão... Segundo Eschwege. ferreiros. procurava atrair os trabalhadores di- zendo que o governo pagaria a passagem do artífice e sua família. O efetivo seria de sessenta artífices. Há todo um capítulo (“Influência da supres- são do tráfico escravo sobre a mineração”) no qual o engenheiro alemão justifica a necessida- de da escravidão para a economia do Brasil. a companhia estava formada se não exclusivamente. Uma solução desse tipo já tinha surgido antes. Além de soldo. além de quatro meses de salário (Simonsen. Nesse sentido. motivo pelo qual nunca aprendem coisa alguma”. 16 Nessa obra podem ser encontrados comentários de Eschwege sobre as dificuldades dos de- mais empreendimentos com a força de trabalho. de quatrocentos a quinhentos chineses chegaram a vir para o Brasil. publi- cado em Lisboa em 11 de junho de 1811. mas a exigir formação técnica e social.179. Enquanto novos trabalhadores não vinham. um edital da Real Junta da Fazenda. secundado por três tenentes. como não vieram em grande quantidade. p. Varnhagen fez uma tentativa desse tipo em Ipanema. principalmente carpinteiros. fardamento e quartel. um decreto do príncipe regente mandava reorganizar no Arsenal Real do Exército. mandou transferir para junto da usina uma aldeia indígena. la- toeiros e cordoeiros. anexa a esse regimento. transcrito por Eschwege (s.org/terms . p. forjadores. de cabos de esquadra. Em 1810. a não ser já ao fim do Império. 1977. Não sendo isso suficiente.d. 17 Relatório de Varnhagen de 18 de maio de 1817. apareceram tentativas visando adaptar ao trabalho manufatureiro a força de trabalho não escrava existente no país. também. pelo menos princi- palmente. no Rio de Janeiro.jstor.16 Promoveu-se. Primeiro. A Companhia de Artífices reforma- da. mas na militar. a vinda para o Rio de Janeiro de artífices portugueses.

A notícia dessa decisão foi mandada publicar na Gazeta do Rio de Janeiro. Uma carta régia de 1818 mandava instalar na Bahia uma cadeira de desenho e figura destinada ao 18 Decisão n. e.96-9).179. Seu en- tusiasmo pela siderurgia e pela indústria manufatureira parece não ter sido compartilhado pelo Conde da Barca. mas. Naquele ano. uma decisão do encarre- gado de assuntos militares da corte18 abria essa aula a artífices e aprendizes de fora do arsenal.216. portanto. duas escunas. um bergantim de guerra. Voltarei a essa questão mais adiante.1. 1961. duas lanchas e várias embarcações menores. entre os quais dois mestres. foi levado pelo Conde de Linhares.441). uma fraga- ta. Conde de Pal- ma. um simples aviso mandava suspender os planos de fabricação de armas em Minas Gerais. pelos estaleiros do Estado. em 1812.54 – Guerra – de 11 de setembro de 1820. mais voltada. ao que parece. Este último. v. oito brigues e três sumacas (Simonsen.19 Na Bahia. de estaleiros particulares foram lançados três ga- leras. o capitão-general reuniu oito artífices que já trabalhavam em Vila Rica. Os planos e a direção futura da fábrica de armas e da escola de aprendizes foram confia- dos a Eschwege. de que se demandavam 2 mil a cada seis meses. de modo a divulgá-la aos interessados potenciais. a construção naval era atividade econômica de grande importân- cia. Em princípios de 1812. O capitão-general. atendendo “ao quanto é necessária esta Arte a todos os traba- lhos mecânicos”. integrando. o príncipe regente enviou ao Conde de Pal- ma carta régia (de 21 de janeiro de 1812) mandando aproveitar os artífices exis- tentes na capitania. pro- vavelmente. duas barcas. serralheiros e coronhei- ros.org/terms . a estudar a melhor maneira de instalar uma fábrica de espingardas. “para formarem uma escola e viveiro de aprendizes e oficiais que exclusiva- mente se ocupassem de preparar bons fechos para armas de tropa”. No entanto. 1977. 19 É possível que essa reviravolta resultasse da morte do Conde de Linhares. Solução similar à da Companhia de Artífices.jstor. surgiu com a tentativa de se instalar uma fábrica de espingardas na Capitania de Minas Gerais (Fonseca. O arsenal do Rio de Janeiro estaria fabricando essas armas. líder do “partido fran- cês” da Corte teve na criação da Escola de (Belas) Artes sua principal realização no campo educacional. embora de duração efêmera. p. p. sem maiores explicações. e os enviou para estagiarem no Arsenal do Rio de Janeiro. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata No Arsenal do Exército do Rio de Janeiro funcionava. uma “aula de desenho” para os aprendizes que praticavam nas oficinas. seu sucessor como ministro do reino. 73 This content downloaded from 179. Em abril de 1811. Só em 1811. para a formação de artistas do que da força de trabalho manufatureira. foram lançados ao mar. o mesmo que dirigia a fábrica de ferro de Congonhas do Campo. seis meses após a carta régia. em 1810. possivelmente os que foram ao Rio de Janeiro estagiar.130 on Fri. em 1820. havia interesse em localizar sua produção junto às fábricas de ferro que se instalavam em Minas Gerais. a aprendizagem manufatureira destinada a essa atividade. com eles. um iate. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. a Companhia de Artífices.

21 Essa doação foi precedida de ato transferindo a fiscalização da Casa Pia do arcebispado para o governo da capitania.org/terms . 21 Carta régia de 28 de julho de 1819. o ensino de ofícios manufatureiros aos órfãos co- meçou bem cedo. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. em 1798. como se vê na declaração prestada em 1803 por altos digna- tários eclesiásticos da Bahia atestando a boa-fé do fundador da obra: Atestamos que o Irmão Joaquim Francisco do Livramento se ocupa com mui- to zelo em recolher. especialmente para a ar- quitetura naval e escultura. O estabelecimento passou a abri- gar quarenta órfãos. Naquela como nesta. tantos pobres. A partir de 1825. sem as ambigüidades ineren- tes ao regime do padroado. tendo à vista as públicas necessidades e quase inevitáveis desordens que há nela pela falta de um seminário para educação de meninos órfãos. p. por causa de não haver uma casa para inválidos. 1899. os meninos órfãos e desamparados. Em 1819. 1899).130 on Fri. adotando a denominação de Casa Pia de São José. instituições de caráter filantrópico foram criadas com a mesma finalidade. em 1804. 22 Aviso de 31 de julho de 1818.216. na Ba- hia. sendo. por maiores recursos a Livramento. Antes mesmo que as instituições militares desenvolvessem atividades de ensino de ofícios manufatureiros.. 74 This content downloaded from 179. Luiz Antônio Cunha aperfeiçoamento de projetistas “para as artes em geral. assinado por um cônego e 46 outras pessoas notáveis. assim.22 A ampliação dos recursos da Casa Pia correspondeu. o que é público e notório. É possível que o paradigma da Casa Pia da Bahia fosse a Real Casa Pia de Lisboa. em 1759. pobres.23. Joaquim Francisco do Livramento começou a promover. vazio desde a sua expulsão de Portugal e colônias. como nos casos já mencionados. o estabelecimento passou a denominar-se Casa Pia e Colégio de Órfãos de São Joaquim. Seus esforços receberam o apoio do clero e do governo da capitania. transferido para a Capela de São José do Ribamar e suas seis casas anexas. onde com assistência de um sacer- 20 Requerimento à Rainha Maria I.jstor. órfãs ou pobres (Torres. uma campanha para obter recursos destinados ao recolhimento e à educa- ção de crianças. que por falta de conhecimentos de desenho não têm podido chegar à perfeição” (Carta Régia de 8 de agosto de 1818). para uma casa que com esmolas comprou nos subúrbios des- ta cidade. e justamente condoídos de vermos morrer à neces- sidade pelas portas das igrejas e dos conventos. foi doado ao estabelecimento o prédio do antigo noviciado dos jesuítas. Em 1798. en- tão fora de uso.20 Um colégio foi precariamente instalado para esse fim.. à sua estatização. Torres.179. desampara- dos. e ainda pelos corpos de guarda. as quais tinham sido erigidas por iniciativa particular para ser- vir de recolhimento para “quinze donzelas”.

Em 1739. aos infelizes.24 Nesse ponto.jstor.216. dentro e fora das instalações castrenses. a aparição do Seminário dos Órfãos da Bahia. transformado no Colégio Pedro II. p. novamente restabelecido em 1821 e. eles eram enviados às oficinas de artesãos estabelecidos em diferentes localidades. Essa vizinhança foi um dos argumentos utilizados pelo governador da capitania para pedir ao rei a doação do prédio do antigo noviciado. daí por diante. preparava a força de trabalho em estabelecimento militar. todos os asilos de órfãos. situado em prédio contíguo. Dentre eles seriam recrutados candidatos ao clero. A própria filosofia daquele ramo de ensino foi grandemente influencia- da pelo acontecimento e passou.). donde tem resultado não pequena utilida- de ao público. destacadas por Fonseca. mesmo visando a essa produção. ou de crianças abandonadas.179. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata dote de inteligência e bons costumes os faz introduzir na doutrina e exercer todos os atos de religião e ao mesmo tempo aprender com um mestre. soma-se a da disciplina mi- litar. p. Mas daqui por diante. 1899. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. em 1837.23 A transferência da Casa Pia para o prédio do antigo noviciado dos jesuítas deve ter facilitado a aprendizagem dos órfãos. Ainda não encontramos em nossa História ne- nhum outro com esta finalidade. o bispo do Rio de Janeiro criou o Colégio dos Órfãos de São Pedro destinado a acolher meninos aos quais seriam ministrados ensinamentos religio- sos. presente numa série de estabele- cimentos onde se ensinavam ofícios manufatureiros aos desvalidos. p. música. e conserve as primeiras letras até que instruídos nestes primeiros deveres sejam confiados a outros artistas para aprenderem aqueles ofícios para os quais neles se descubra talento e inclinação. Fonseca (1961) atribuiu especial importância à Casa Pia da Bahia no desen- volvimento do ensino de ofícios manufatureiros no Brasil.97 ss. a encarar o ensino profissional como devendo ser ministrado aos abandonados. em português e latim. v.org/terms . representa um marco de incontestável importância. Diz ele: Era o início de uma longa série de estabelecimentos destinados a recolher ór- fãos e a dar-lhes ensino profissional. aquela. assim como os recursos para a sua reforma. 23 Carta transcrita por Torres. Na evolução do ensino de ofícios. a Casa Pia baiana diferia da lisboeta. leitura e escrita. passariam a dar ins- truções de base manual aos seus abrigados. 75 This content downloaded from 179.104) A essas características.25 Enquanto esta desenvolvia a aprendizagem de ofícios na e para a produção “civil”. cujos destinatários já não incluíam os órfãos e desamparados (Haidar. Se.1. (1961. Ele foi extinto em 1818. pelo espaço de mais de um século. 24 Pelo menos foi isso que deduzi do texto da Carta Régia de 28 de julho de 1819. antes. O nome do seminário foi posteriormente mudado para São Joaquim.130 on Fri.25. aos desamparados. passaram a se diri- gir ao trem da capitania. 25 É preciso acrescentar que o Seminário de Órfãos/Casa Pia da Bahia não foi o primeiro estabe- lecimento do gênero no Brasil. 1972. que para isso paga.

pelo menos na velocidade esperada. a idéia inicial era que o Colégio das Fábricas se dissolvesse tão logo surgissem os estabelecimentos manufatureiros esperados. As oficinas eram as seguintes: • oficina de tecidos largos de sedas e algodão. Luiz Antônio Cunha Logo após a abertura dos portos. p. com 9 aprendizes • oficina de tornearia. também de primeiras letras (Andrade. com 4 aprendizes • oficina de veludos. o Colégio das Fábricas compreendia dez unidades. empregando-se os artífices e os aprendizes nas empresas particulares. com 12 aprendizes • oficina de gravação em metal e madeira. de música e. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. com duas au- las e oito oficinas. na “Casa do Antigo Guindaste” do porto do Rio de Janeiro. o Colégio das Fábricas.179. muito provavelmente da Casa Pia de Lisboa.28 Dizia este último docu- mento que a direção do estabelecimento ficaria a cargo de um deputado da junta. oito mestres de ofício e 57 aprendizes. Por outro lado. com 5 aprendizes • oficina de estamparia de chitas e cartas de jogar.27 Das duas aulas. e do decreto de 1811.216. o príncipe regente mandou instalar. com 2 aprendizes. enquanto o produto do trabalho dos referidos artistas não equili- 26 Decreto de 23 de março de 1809.org/terms .84-6) Todavia. o Colégio das Fábricas não prosperou. uma era de dese- nho e arquitetura civil. 27 Em 1811. “sendo suprida a despesa ne- cessária para a conservação deste patriótico estabelecimento pelo cofre da mesma junta. Agricultura. 1980). que reuniam dois profes- sores. parece que a existência de um estabelecimento de aprendiza- gem manufatureira desligada da produção dificultava o cumprimento de sua função formativa.26 Enquanto isso não ocorresse.jstor. eles seriam pagos pelo Tesouro Real. Em 1809. e outra. Ao que parece.130 on Fri. escolhido como esta achasse conveniente. Fábricas e Navegação. o número de aprendizes subiu para 85. talvez. situadas em diferentes endereços. que transferiu sua administração à Real Jun- ta do Comércio. 28 Decreto de 31 de outubro de 1811. (Ibidem. de criação do esta- belecimento. com 6 aprendizes • oficina de serralheria e ferraria. 76 This content downloaded from 179. ao levantamento da proibição de manufa- turas e de outras medidas de fomento econômico. O decreto que autorizava o paga- mento do diretor do colégio e da reforma das instalações dizia que os artífices e os aprendizes seriam pagos com o produto das obras por eles fabricadas e ven- didas. A concorrência inglesa e os interesses “internacionais” do comércio português não induziram ao surgi- mento de estabelecimentos industriais. Deduzo isso do texto do decreto de 1809. Ele era constituído de artífices e aprendizes vindos de Portugal. com 14 aprendizes • oficina de galões e fitas. com 5 aprendizes • oficina de carpintaria e marcenaria.

vendidas ou cedidas em caráter temporário a particulares (Lobo. Em 1812. a juízo do respectivo mestre.216. tendo preferência os que soubessem ler e escrever e apresentassem boa conduta e costumes mo- derados. o Colégio das Fábricas foi defi- nitivamente desativado. depois de permanecer sem funcionar desde sua subor- dinação à Junta do Comércio. desde que servissem ao ensino de aprendizes. os mestres foram dispensados. a título de incentivo. “ven- cendo a folha por inteiro”. montada em 1815.10.org/terms . ao mesmo tempo tornando-a conforme os interesses dos empresários. 77 This content downloaded from 179. entregando 20% aos respectivos mestres. que funcionou por sete anos. Independentemente de finalidades e práticas militares. ficavam desobrigados do pagamento dessa quantia.179. É possível que o controle da aprendizagem pelos deputados da Junta do Comércio.1. Em 1811. Um estabelecimento de ensino que poderia ter exercido influência signifi- cativa sobre a aprendizagem de ofícios manufatureiros. posteriormente. os ex-aprendi- zes. passando. Quando a aprendizagem tivesse terminado. o ensino de ofícios manufatureiros foi desenvolvido. intimamente ligados à produção. fizesse que a aprendizagem se livrasse da burocratização. medida difí- cil. de 6 de fevereiro de 1811. com os tipos tra- zidos de Lisboa. os aprendizes rece- beriam pagamento por dia de trabalho. se não impossível na burocracia do Estado em que se inseria antes o Colégio das Fábricas.30 Os aprendizes não poderiam ter mais de 24 anos. 30 Decisão n. era a Academia de Artes. Os que fossem admitidos não poderiam abandonar o estabelecimento antes de decorridos cinco anos. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata brar e exercer os avanços que devem precedê-lo”. Depois disso.115-6). 1978. uma decisão do ministro do reino. Alguns deputados desse órgão queriam doar as máquinas e os equipamentos a particulares. Nos primeiros meses.29 Mas não foi isso o que aconteceu. então oficiais. para cada aprendiz que tivesse com- pletado dois anos de aprendizagem. v. p. sob pena de serem “presos para soldados” nos regimentos de linha. Conde de Linha- res.130 on Fri. os escravos que trabalhavam na fábrica foram empregados em diversos serviços do Estado e as máquinas res- tantes. Embora fosse frustrado o intento de seu idealizador de ligar o ensino das belas-artes com o de ofícios mecâni- 29 A recomendação do decreto de que o pagamento dos oficiais fosse “equivalente ao seu présti- mo individual” sugere a diferenciação de salário como incentivo à produtividade. revertendo aquela des- tinação preferencial. As máquinas têxteis foram transferidas para a Real Fábrica de Fia- ção e Tecidos de Algodão.jstor. regulamentou as práticas da aprendizagem dos ofícios necessários à im- prensa. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. também. na Imprensa Régia. Os mestres receberiam pagamento extra pelo ensino e um prêmio em dinheiro. criada pelo príncipe regente logo após o desembarque no Rio de Janeiro. a ser remu- nerados por obra executada.

empregar aquele termo para designar também estes últimos. gravura. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. “o Brasil poderia entrar bem mais frutuosamente na partilha das perdas que experimenta a indústria francesa. em 1815.32 evidenciada pela evocação da Academia de Belas-Artes e do Conservatório de Artes e Ofícios de Paris. propunha ele a criação de uma dupla escola de artes: um setor para o ensino das belas-artes (pintura. no projeto. Talleyrand. principalmente para “aumen- tar e aperfeiçoar aqui mais prontamente a indústria para torná-la nacional”. Ambos os setores estavam articu- lados. a Bélgica holandesa e os Estados Unidos”. vali-me do “Manuscrito inédito de Lebreton sobre o estabeleci- mento de uma dupla escola de artes no Rio de Janeiro. conta- tou o cavaleiro Joachim Lebreton. num brigue especialmente fretado para o seu transporte. e fortalecer o “partido francês”. Chegando ao Rio de Janeiro. vou chamar de artistas aos cultivadores das belas-artes e de artífices aos oficiais mecânicos. escultura. a morte do Conde de Linhares. teriam se desenvolvido na França não só a pintura. depois. como. embora fosse usual. Lebreton escreveu uma carta ao Conde da Barca. 78 This content downloaded from 179. primeiro com a ascensão do Conde da Barca ao Ministério da Guerra e. em 1812. Aproximavam-nos a importância do aprendizado do desenho. No Brasil. Lebreton reuniu dez artistas e partiu para o Brasil em 16 de março de 1816. e com as quais se beneficiam o norte da Alemanha. a 12 de junho de 1816. Para isso.130 on Fri. O embaixador de Portugal na França. Como já foi dito antes. também. publicado por Barata (1959). novamente nação amiga após a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte e a restauração da monarquia. o Marquês de Marialva. em 1816”. contribuiu para enfraquecer o “partido inglês” da Corte portuguesa no Rio de janeiro. tal desenvolvimento deveria ser procurado. ao Ministério do Reino. Se a indústria 31 Para a redação desse tópico. tanto para os artistas quanto para os artífices.179.org/terms . presidente perpétuo da seção de belas-artes do Instituto de França que. na época. dizia Lebre- ton. arquitetura) e outro para as artes mecânicas (não especificadas). conseguiu estreitar os laços políticos entre o reino português e a França. propondo a criação de uma escola de belas-artes com os artistas que trouxe consigo e o concurso de pelo menos um artista por- tuguês. por suas simpatias bonapartistas. Os partidários da in- fluência francesa tiveram sua hegemonia reforçada após o Congresso de Viena. Assim fazendo.jstor. quando o ministro francês. pelo desenho. recebeu a in- cumbência de convocar uma missão artística para vir ao Brasil. Luiz Antônio Cunha cos. por elementos de aproximação e de repulsão.31 Nessa carta. 32 Para facilitar a exposição. não estava em si- tuação muito cômoda. a escultura.216. Como resultado de sua atuação. a gravura e a arquitetura. creio que vale a pena explorar as idéias que presidiram o primeiro projeto dessa instituição. a manufatura.

embora o ensino de desenho interessasse tanto às belas-artes quanto às artes mecânicas. os de- feitos da Academia de Belas-Artes de Paris que. Cumpridas essas disciplinas. compondo os elementos de aproximação e de repulsão. Artes e Ofícios.org/terms . com a co- locação de seus produtos assegurada pelos comerciantes brasileiros. não só aos empregos públicos da administração do Estado. que esse “fermento grosseiro” contaminasse as belas-artes. dois carpinteiros de carros e dois curadores de peles e curtidores. Primeiro. assim. 02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about. uma carta régia mandava criar uma “Escola Real das Ciências. contando. 79 This content downloaded from 179. apenas dois meses depois de apresentado por Lebreton. no desenvolvi- mento da indústria naquele país. e o grande aperfei- çoamento experimentado pela indústria francesa em todos os ofícios relaciona- dos com o luxo”. seria feita pelo ensino de algumas disciplinas. Lebreton lançou mão de dois argumentos em defesa do ensino de desenho aos artífices. todavia. Segundo. um ferreiro. evitando-se. Estes deveriam ser encaminhados para o apren- dizado de ofícios mecânicos.216. tan- to aos artistas quanto aos artífices: desenho de figura e de ornatos. dos mais diferentes ofícios. Mas. A articulação dos setores da escola projetada. aberta por volta de 1763. mas também ao progresso 33 Lebreton propôs ao Conde da Barca que mandasse vir da Europa cerca de cem operários.33 montados por operários franceses. Aliás esse processo já estava sendo utilizado com alguns operários que Lebreton trouxe consigo: um serralheiro. ao diagnóstico de Humboldt a respeito do papel desempenhado pela Academia de los Nobles Artes. Na justificativa do empreendimento. com a dupla finalidade de seu idealizador. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata no Brasil fosse esperar que os artífices desenvolvessem espontaneamente a arte do desenho. que deveriam trabalhar autonomamente. a influência da escola gratuita de desenho. em que se promova e difunda a instrução e conhecimentos indispensáveis aos homens destinados. no Rio de Janeiro. dado que.jstor. fundando e aperfeiçoando a indús- tria nacional”. do México. Nesse sentido. por ser gratuita. Artes e Ofícios”. os estudantes/artífices seriam encaminhados a “ateliês práticos”. onde seguiriam o processo de aprendizagem pelos padrões tradicionais e “em pou- cos anos tais alunos se tornariam mestres. a “que se devem a feliz revolução do gosto. recebia os fi- lhos dos pobres. geometria prática. durante cinco anos. não se poderia confundir o ensino de umas e outras. aritmética. Lebreton alertava para que não se repetissem. O projeto dessa escola de artes parece ter encontrado receptividade na Corte.130 on Fri. João VI valorizava muito a formação da força de trabalho manufatureiro.179. Diz o texto da carta régia: Atendendo ao bem comum que provém aos meus fiéis vassalos de se estabele- cer no Brasil uma Escola Real das Ciências. sem talento. a oportunidade estaria perdida.

02 Jun 2017 15:59:29 UTC All use subject to http://about.34 A academia só veio a ensinar as belas-artes. perfeição e utilidade depende dos conhecimentos teóricos daquelas artes. de que resulta a subsistência. comércio..216. 80 This content downloaded from 179.130 on Fri. Mais adiante voltarei a focalizar a Academia e sua tentativa de oferecer en- sino de ciências e de artes aos artífices. designação esta incorporada mais tarde. indústria. cujo valor e preciosidade podem vir a formar no Brasil o mais rico e opulento dos reinos conhecidos. pos- tergando-se o ensino de ciências e de desenho para os ofícios mecânicos. cuja extensão não tendo ainda o devido e correspondente número de braços indispensáveis ao tama- nho e aproveitamento do terreno. 34 Decreto de 23 de novembro de 1820. mineralogia. o arquiteto Henrique Vitório Grandjean (de Montigny). duradouramente. entre eles alguns que se tornaram célebres: o pintor de paisagens Nicolau Antonio Taunay e o escultor Augusto Taunay.jstor.179. maiormente neste continente. precisa dos grandes socorros da estatística para aproveitar os produtos. físicas e exatas . Mas foi só em 1820 que as aulas tiveram início na Academia de Artes. e difusivas luzes das ciências naturais. Luiz Antônio Cunha da agricultura. cuja prática..org/terms . co- modidade e civilização dos povos. fazendo-se portanto necessário aos ha- bitantes o estudo das belas artes como aplicação e referência aos ofícios mecânicos. o pintor de temas históricos Augusto Debret. embora não confundindo as “inteligên- cias modestas” com a “aristocracia do talento”. (Carta Régia de 12 de agosto de 1816) O rei mandava empregar os franceses. ao nome da instituição. seu irmão.

A produção do operariado consistiu.130 on Fri. incipiente di- visão do trabalho. os largados nas “casas da roda”. os projetos industria- listas estavam sempre na dependência de raros capitais. Predominavam as manufaturas. desconhecida técnica. quanto pessoas sem qualquer qualificação específica. os delinqüentes presos e outros miseráveis. Poucas eram as fábricas. restrito mercado e. Num país escravagista. a partir de duas fontes de su- primento. 81 This content downloaded from 179. exige uma cautela especial. havia tanto os artesãos. incluindo escravos e homens livres.jstor. numa combinação de domi- nação com processos socializadores. portanto. no sentido estrito. Nada mais distante da apropriação do saber do artesão e seu confinamento na estreiteza da divisão manufatureira (depois fabril) do trabalho. como teria acontecido na Europa. finalmente. mas não secundariamente. Ele foi gerado muito vagarosamente.216. de um inexistente operariado. que poderiam exercer seu ofício também por conta própria.org/terms . com raro emprego de energia proveniente de máquinas a vapor. 4 Mudanças na força de trabalho Falar de operariado no Brasil do tempo do Império. nos primórdios da Revolução Industrial. A se- gunda fonte foi a própria imigração de mestres e operários europeus. a quem se recorria por causa da insuficiência da primeira fonte. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. que não se desenvolviam espontanea- mente no âmbito familiar nem na própria produção. quando vigorava a es- cravidão. como o Brasil do século XIX.179. Entre os trabalhadores. A primeira fonte foram as crianças e os jovens que não eram capazes de opor resistência à aprendizagem compulsória de ofícios vis: os órfãos.

p. A Inglaterra reservou-se o direito de inspecionar em alto-mar os navios que considerasse suspeitos de tráfico negreiro. a expressão indicava a proe- minência do novo produto agrícola. ao contrário do que aconteceu com a agricultura. que. estes não estavam dispo- níveis em grande número. que. Quatro anos após a Independência. Luiz Antônio Cunha Neste capítulo. de fato. a Inglaterra forçou o governo brasileiro a assinar um acordo que de- terminava a ilegalidade do tráfico de escravos para o Brasil. a partir de 1830. qualquer que fosse sua procedência. Por outro lado. Veremos como foram con- traditórios os vetores que levaram à defesa de um ensino profissional no Brasil. mas sem aqueles inconvenientes. O acordo deveria ter eficácia a partir de 1830. em razão das restrições institucionais. 1998. além de declarar livres todos os cativos desembarcados no país a partir dessa data.jstor. para o que uma lei brasileira previu severas penas aos traficantes de escravos. de que tinha sido fiadora política e fi- nanceira. era a de que o fim do tráfico de escravos levaria ao colapso não só a produção como toda a sociedade brasileira. Essa crença foi posta à prova pela pressão inglesa para o fim do tráfico negreiro como preparação para a extinção da escravatura. a solu- ção preferida na produção industrial-manufatureira foi a formação de operá- rios no próprio país. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. salvo opiniões isoladas. Em decorrência. Mesmo com a ressalva de que a economia brasileira era mais do que o café.179. Depois de uma redução momentânea na importação de escravos.216.org/terms . já que a expansão da cafeicultura demandava mais e mais força de tra- 82 This content downloaded from 179. temia-se que eles fossem portadores de elementos ideológicos temidos pelas classes dominantes. Escravismo e abolicionismo A importância da escravidão no Brasil imperial era tamanha que uma frase comum na época expressava isso: “o Brasil é o café e o café é o negro” (Fausto. a crença generalizada. No entanto. A preferência para a constituição da força de trabalho manufatureira era nitidamente pelos imigrantes europeus. se manifestaram na primeira década do século XX. como não fora antes apenas o açúcar.192).130 on Fri. de modo a se dispor de trabalhadores assalariados dota- dos da qualificação que os europeus apresentavam. assumiu o primeiro lugar na pauta de exportação. sem que o governo brasileiro tomasse providências para im- pedi-lo. veremos como se deu a produção do operariado e a virtual participação do ensino profissional nesse processo. o tráfico voltou a crescer. correlativamente ao fim da escravidão. logo após a Independência. A cafeicultura pôde se desenvolver muito bem com o trabalho assalariado.

02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. expirou o prazo do acordo de 1826 e o governo brasileiro não se dispunha prorrogá-lo.jstor.216. Numa decisão unilateral. daí por diante ficou cada vez mais difícil pretender a legitimidade da escravidão diante das forças sociais e políticas que a combatiam internamente. que as terras devo- lutas deveriam ser vendidas pelo governo (e não doadas como até então) a preços suficientemente elevados para evitar que imigrantes e posseiros pudes- sem adquiri-las. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata balho. assim. como navios sujeitos a apreensão e julgamento dos responsá- veis por tribunais ingleses. Se a pressão externa foi um elemento de grande importância na extinção do tráfico. primeiro no Vale do Paraíba. o parlamento inglês apro- vou uma lei – Bill Aberdeen (nome do lorde que a propôs) – que autorizava a qualquer navio da Armada britânica a tratar os navios negreiros como navios piratas. enquanto a alta qualidade e a abundância de terras explicava a prosperidade da outra. Para evi- tar que eles deixassem de trabalhar como assalariados. chegou a São Paulo e. A expansão da cafeicultura. extinguindo-se a partir de 1852. os partidários daquele tipo de exploração da força de traba- lho passaram para a defensiva. em 1850. convertido em lei em 1850. Desde então. ao mesmo tempo em que criava tribunais especiais para o julgamento dos envolvidos. entre outras coisas. ou seja. que havia inicialmente ganho o Vale do Rio Paraíba. o que fez que Santos logo substituísse o Rio de Janeiro como o principal porto de embarque do café exportado.179. partindo do Rio de Janeiro. A causa mais importante disso estava no esgotamento das terras da primeira. reconhecendo o tráfico negreiro como atividade pirata. Em conseqüência. Abriu-se caminho. Ao contrário da lei de 1831. e para menos de 10% no segundo ano. As naves britânicas não se limitaram à inspeção em alto-mar.130 on Fri. Nas duas décadas finais do período imperial. foram instaladas ferrovias.org/terms . o abastecimento de mão-de-obra das fazendas de café teve de se fazer no próprio mercado interno. depois ligando o litoral ao Oeste Paulista. estabelecendo. Em 1846. o governo brasileiro enviou ao Parlamento um projeto. Essa diferença chegou a tal ponto que Boris Fausto entendeu terem se formado duas classes sociais distintas. o Parlamento aprovou a Lei de Terras. como a do Nordeste e a de Minas Gerais. com diferentes posições quanto à questão da es- 83 This content downloaded from 179. a economia cafeeira do Vale do Rio Paraíba declinava enquanto prosperava a do Oeste Paulista. fazendo que a importação de escravos caísse para menos da metade no primeiro ano de sua vigência. A despeito das reações contra o país que se julgava “guardião moral do mundo”. mediante a transferência de escravos das regiões em decadência econômica. mas chegaram a perseguir navios nas águas territoriais brasileiras e até mesmo a ameaçar de bloqueio certos portos. daí. incorporou ter- ras cada vez mais distantes do chamado Oeste Paulista. à promoção da imigração de europeus. Para apoiar o transpor- te da produção. a de 1850 foi eficaz.

Os fazendeiros do Oeste Paulista. afastaram-se da monarquia à medida que foram sendo aprova- das medidas tendentes à abolição da escravatura. Mesmo que fossem prejudi- cados importantes interesses econômicos. constituíram uma verdadeira burguesia do café e dirigi- ram as transformações da economia visando à generalização das relações capi- talistas de produção. por causa da escravidão. em 1847. Na realidade. por sua vez. Retomemos o processo de abolição da escravidão no Brasil. os senho- res de engenho e os plantadores de algodão do Nordeste não viam com bons olhos a transferência da força de trabalho sob seu controle para o Centro-Sul. Ademais.org/terms . que iam desde às cres- centes exigências de trabalho nas parcerias. 1 Sintomaticamente. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. A Guerra do Paraguai mostrou à elite dirigente imperial a fraqueza do país em termos estratégicos.130 on Fri. A transformação dos escravos em trabalhadores assalariados era dificultada tanto pelo preconceito dos fazendeiros. Os fazendei- ros paulistas não se voltaram para o imigrante porque acreditavam na virtude ou na maior rentabilidade do trabalho livre. utilizarem mais amplamente o trabalho de gente livre das áreas pobres do Nordeste. sendo a imigração de colonos brancos a única solução válida para a substitui- ção do braço escravo e a construção de um país civilizado. pois não se podia contar com a lealdade de uma gran- de parcela da população.179. um mal menor diante da questão estratégica e da possiblidade de revolta dos escravos. mas porque a alternativa do escravo desapa- recia e era preciso dar uma resposta para o problema. dependentes da força de tra- balho escravo. en- tão.1 Não bastasse isso. até a censura de corrrespondência e à proibição de se locomoverem de uma fazenda para outra. (Fausto. os europeus trazidos pelo senador Vergueiro.216.203) É ainda de Boris Fausto a argumentação aqui incorporada a respeito das ra- zões que levaram os fazendeiros paulistas a promoverem a imigração de euro- peus. revoltaram-se em 1856 em razão das condições de vida a que eram obrigados a suportar. p. Ambos praticaram a agricultura extensiva e utilizaram amplamente a mão-de-obra escrava. quanto pela rejeição dos pró- prios libertos em permanecerem nas mesmas condições do escravo. 1998.jstor. os dois grupos partiram de pressupostos comuns e se diversifica- ram em função de realidades diferentes do meio físico e social. a extinção do regime escravo pas- sou a ser vista como um imperativo. Luiz Antônio Cunha cravatura. 84 This content downloaded from 179. a ideologia racista das classes dominantes brasileiras le- vava-as a acreditar que os mestiços (mulatos e caboclos) eram seres inferiores. em vez de transformarem escravos em trabalhadores assalariados ou. que não conseguiam imaginar o traba- lho regular e produtivo sem a pressão do chicote. Os fazendeiros do Vale do Rio Paraíba.

liderada por um membro renegado da classe dos fazendeiros do café. a partir do que os senhores podiam libertá-los mediante uma indenização do Estado ou utilizar os serviços do menor até os 21 anos de idade.216. que viam nesse procedimento um sério risco de subversão da ordem. transformou-a num refúgio seguro. Antônio Bento. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about.179. para onde afluíram tantos fugitivos que chegou a ser formada uma ci- dade-favela para abrigá-los. funcionários públicos. p. Os ativistas convenciam os negros das fazendas a fugirem em massa. Membros da elite dirigente. formaram-se sociedades abolicionistas. 1998. como em fazendas. o que conduziria o país à guerra entre as raças. estu- dantes e profissionais liberais se juntaram na reivindicação do fim da escravi- dão. que concedia liberdade aos escravos com mais de 60 85 This content downloaded from 179. onde estava a maior concentração de escravos. em 1884. já não defendiam a es- cravidão. A segunda op- ção foi a mais utilizada. mediante medidas legais que beneficiassem parcelas dos cativos. principalmente do Nordeste. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Daí o consenso que foi se formando tendo em vista a abolição gradual da escravidão. Na década de 1880 o movimento abolicionista ganhou força.218) Em 1871 foi aprovada pelo Parlamento a Lei do Ventre Livre.org/terms . firmavam posição os setores mais atrasados das classes dominantes. Pensada como barreira ao movimento abolicionista. a fim de despertar a ini- ciativa dos senhores na libertação. impedindo até mesmo a polícia de pren- der os escravos que haviam escapado das senzalas. em casas de particulares ou no porto de Santos. das quais a mais notável foi clandestina – os “caifazes” (denominação cheia de significações religiosas) –. a mobilização popular contra o regime escravocrata. Na cidade paulista de Santos. em 1885. (Fausto. Em reação a tal consenso. das letras e das artes. com o apare- cimento de associações e jornais. Eles ficariam em poder dos senhores de suas mães até a idade de oito anos.130 on Fri. Abrir caminho à liberdade por força da lei gerava nos escravos a idéia de um direito. a abolição chegou pela conjugação de altos impostos sobre a propriedade de escravo com a ação de entidades abolicionistas que reuniam fundos para comprar a alforria dos cati- vos. foi aprovada a Lei dos Sexagenários. assim como uma eficaz atividade de propaganda. Na Província de São Paulo. Eles achavam que Libertar escravos por um ato de generosidade do senhor levava os beneficia- dos ao reconhecimento e à obediência. Algumas províncias. que desenvolveram intensa propaganda. Nessas províncias.jstor. transporta- vam-nos e abrigavam-nos em lugares seguros. que declarava libertos os filhos de mulher escrava nascidos após a data de promulgação da lei. a ponto de o Ceará ter declarado seu fim. uma de cada vez. seguido pelo Amazonas e pelo Rio Grande do Sul.

mas. uma lenta mas persistente erosão da opi- nião pró-escravatura. O destino dos ex-escravos variou de uma região para outra. a não divulgada resistência dos próprios escravos.216. a escravatura. Enfrentando exigên- cias de mais mudança social.336) Em 1888 cerca de 700 mil escravos foram libertados. No Vale do Rio 86 This content downloaded from 179. os abolicionistas haviam apressado seu fim por meio de uma brilhante e inspirada liderança. por iniciativa do presidente do Conselho de Esta- do. o de- clínio gradual da população cativa depois de 1850. Mas. Foi nesse contexto que. mas fo- ram detidos inteiramente. onde os liber- tos se instalaram em terras devolutas como posseiros. mas a população negra e mestiça era imensa. Auxiliados por este constante declínio da instituição. herdeira não só das marcas étnicas da escravidão. de um modo geral. em razão da fuga em massa de escravos. depois. o comércio interprovincial de escravos que concentrara escravos e defensores da escravatura nas províncias do café. havia mais do que o dobro desse número (Tabela 4. varreu o movimento democrático no golpe de Estado militar que provocou o desaparecimento do Império de D. A lei extinguiu sumariamente a escravidão no Brasil. também. que ajudou a inspirar a política nacional de len- ta emancipação através do “ventre livre”. com a exceção do Maranhão. então. em maio de 1888. cinco anos antes. No Nordes- te.1). em razão da viagem do imperador.jstor. que se encontrava na regência do trono. eles se transformaram em força de trabalho depen- dente dos proprietários de terra. a abolição da escravatura nos Estados Unidos. em especial nas cidades e nas províncias mais pobres.179. das condições materiais de vida de seus pais. na verdade. sancionada pela Princesa Isabel. que reduziu a eficiência do sistema escravocrata e culminou no movimento de fugas em massa de 1887 e 1888. na sua busca de novas reformas. Pedro II e estabeleceu uma república conser- vadora. ao invés de reduzir. a elite tradicional conservou seu poder e autoridade e. principalmente devido a um ex- cesso de mortes sobre nascimentos.org/terms . fi- nalmente.130 on Fri. p. Luiz Antônio Cunha anos e estabelecia normas para a libertação gradual de todos os demais. contigente reduzido quando se leva em conta que. por uma podero- sa e indignada reação dos antigos senhores e de seus aliados. Para Conrad. a ponto de provocar a desorganização da produção cafeeira. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. sem indenização aos proprietários. Os beneficiados pela Lei Áurea compreendiam apenas 5% da população do país (eram 31% em 1850). median- te indenização a ser paga pelo governo aos proprietários. (1975. promovida por ativistas. o Parlamento aprovou a Lei Áurea. João Alfredo Corrêa de Oliveira. o movimento abolicionista cresceu. que acabou com o tráfico africano e eliminou a principal fonte de trabalhadores das fazendas. e. foi destruída por forças que a tinham minado durante a maior parte do século XIX: o repúdio internacional à escravatura.

org/terms . 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. insuficiente para reorientar as suas ações e a formação de expectativas de comportamento condizente com as exigências da nova ordem social. p.5 milhão 15% 1887 14 milhões 0.1 – População total e escrava no Brasil.179. O estado determinante do estado cativo se manifesta em sua plenitude precisa- mente quando é necessário libertá-lo e se verifica que ele não está preparado para a emancipação. Na cidade de São Paulo. que os brancos descobrem que o horizonte cultural res- trito da senzala é incompatível com o da cidade. os ex-escravos viraram parceiros nas fazendas de café em decadên- cia. deformada. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Paraíba. pois. os libertos ficaram com os serviços irregulares e mal pagos.7 milhão 5% Fonte: Prado Junior. 1998. incapacitando-o ou tornando-o parcialmente inabilitado para a plena posse da sua pessoa. pela tradição de emprego de negros escravos e li- vres nas oficinas artesanais e nas manufaturas.130 on Fri. à conces- são da cidadania ao negro. 1963b. eram negros 30% dos trabalhadores fabris cariocas. o trabalhador negro teve aí maiores oportunidades.2 Tabela 4. os seus componentes dinâmicos. Os efeitos deletérios dessa situação só foram efetivamente percebidos quando a escravatura entrou em crise.90. p. É quando enfrentam os problemas relativos à liberdade. Ele chamou a atenção para o fato de que o cativo tinha um espaço social totalmente determinado e delimitado. 1872 e 1887 Anos População total População escrava Proporção 1850 8 milhões 2. enquanto os imigrantes ocupa- vam 84% dos empregos na indústria paulistana em 1893 (Fausto. A consciência que o negro pôde adquirir de sua situação em mudança é uma cons- ciência precária. 1850. p. sendo-lhe vedada a recriação de expec- tativas e a inversão de ações sociais imprevisíveis. No Rio de Janeiro. A estrutura de sua personalidade. 87 This content downloaded from 179. como os empregos melhores estavam ocupa- dos pelos imigrantes. 1962.jstor.277-8) 2 Em 1891.5 milhões 31% 1872 10 milhões 1.216. a abolição impondo-se como uma necessidade inadiável. (Ianni. quando se liberta o negro que se descobre até onde o alcançou a es- cravatura. É.221). A pesquisa de Octávio Ianni sobre a escravidão no Brasil meridional permi- tiu lançar luz sobre o processo de emancipação dos escravos para além dessa região. a capacidade de auto-avaliação e projeção de comportamento estão determinados e fechados pela experiência de escravo.

assim como as escassas oportunidades disponíveis nas demais áreas. Fruto em parte do preconceito. já no século XVI. Com efeito. essa desigualdade acabou por reforçar o pre- conceito contra o negro. na primeira vez. compelida à vagabundagem. Essa legislação sobrevi- veu até a segunda década do século XVIII. O capital exigia sofregamente trabalhadores assalariados para a continuação do processo de acumulação. que não se ofereciam livremente. um dos elementos da “chamada acumulação primitiva”. 88 This content downloaded from 179. Se. perigoso.216. a condição da continuação do processo de acumulação de capital.179. condições de trabalho sob a forma de capital. Na França também houve medidas repressivas similares. Ainda no terceiro terço do século XVIII. Karl Marx mostrou em O capital que não basta existirem. sem meios de manutenção e sem exercer uma profissão. Luiz Antônio Cunha Não bastasse isso. então. e os juízes tinham a autori- zação de mandar açoitá-los e encarcerá-los por seis meses. 1998.130 on Fri. e dois anos na reincidência. eram enforcados. do modo como se deu na Eu- ropa. Foi necessário.221) Trabalho: coação e resistência No estudo sobre o processo de acumulação. ele foi conside- rado um ser inferior. vadio e propenso ao crime. os homens que mendigassem ou pe- rambulassem pelas ruas seriam declarados vadios. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. no ombro esquerdo. foi en- quadrada na disciplina exigida pelo sistema de trabalho assalariado mediante o emprego de força policial legitimada pela legislação. em detrimento dos ex-escravos. os assalariados constituíam ainda uma parcela diminuta da população. Marx reuniu informações que evidenciam que a população ru- ral. de início. expropriada e expulsa de suas terras. reforça- ram as precárias condições de vida da população negra. forçar os seres humanos a se empregarem naquelas condições. seres humanos que nada tenham para vender além de sua força de trabalho para que a produção capitalista se desenvolva. não se emendassem. a preferência pelo imigrante como trabalhador assalaria- do. Mas. de outro. devia ser mandado para as galés. dispostos às condições de trabalho que lhes eram oferecidas. de 16 a 60 anos de idade. Sobretudo nas regiões de forte imigração. e. (Fausto. Assim. p. Os incorrigíveis eram marcados a ferro em brasa com a letra “R”. Eles não se en- quadravam na disciplina exigida pelas novas condições da produção com a ra- pidez que ela impunha. na Inglaterra. Nesse período. mesmo assim. de um lado.jstor. e condenados a trabalhos forçados. todo homem váli- do. O trabalho compulsório constituiu.org/terms . nos setores mais dinâmicos da economia. mas útil quando subser- viente.

No Brasil a rea- ção dos homens livres à disciplina do trabalho tinha duas referências repulso- ras – o capital e a escravidão vigente. preferindo. desenvolve-se uma classe trabalhadora que por educação. promulgado em 1830.jstor. depois de advertido pelo juiz 89 This content downloaded from 179. Ainda se empregará a violência direta.216. o próprio Patriarca da Independência. 1975. e é assegurada e perpetuada por essas condições. mas doravante apenas em caráter excepcional. prin- cipalmente se se tratasse de “homens de cor”. Em seguida. Como veremos em capítulo posterior. Para a marcha ordinária das coisas basta deixar o trabalhador entregue às “leis naturais da produção”. enquanto a Inglaterra e a França já tinham enquadrado seus trabalhadores nas condições capitalistas de produção. p. isto é. tradição e costume aceita as exigências daquele modo de pro- dução como leis naturais evidentes . O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Ao progredir a produção capitalista. o Código Criminal do Império do Brasil. à sua dependência do capital. Neste item. de populações expulsas de suas terras pela dissolução da vassalagem feudal.2.295: “Não tomar qualquer pessoa uma ocupação honesta e útil de que possa subsistir. o projeto da Constituição de 1823 continha um artigo que determinava ser o trabalho compulsório o meio de corrigir vadios. transcrevo documentos relativos às providências que se toma- vam no âmbito do Estado brasileiro a fim de compelir a população livre ao tra- balho. livro 1. na forma como se deram no Brasil do século XIX. e para os criminosos condenados” (Artigo n.. dissolutos e criminosos: “Erigir-se-ão casas de trabalho para os que não acham empregos e casas de correção e trabalho. Desse modo. deixar essa providência para legislação de menor hierar- quia.255). da emergência dos conflitos de classe típicos do capitalismo. nem da expropriação intermitente e vio- lenta. É claro que não se tratava. José Bonifácio. vou apresentar alguns elementos sobre a reação dos traba- lhadores assalariados a respeito de sua própria condição. Assim definia a vadiagem o Artigo n. e as ações repressoras estatais eram dirigidas às suas organizações de ação sindical e política.. Já no processo mesmo de independência política podemos encontrar a de- fesa do trabalho compulsório.179. Tudo isso para que não faltassem “braços” para a agricultura e a indústria. aqui. Em outras palavras. Nesse sentido.org/terms . 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. ainda que brevemente. (Marx. A Constituição outorgada de 1824 não continha dispositivo algum desse tipo. Os vadios incorreriam em penas de prisão com trabalho por 8 a 24 dias. vou tratar. v.130 on Fri. gerando um proletariado urbano propenso à “vadiagem”. penitência e melhoramento para os vadios e dis- solutos de um e outro sexo. à mar- gem das leis econômicas. a qual decorre das próprias condi- ções da produção. defendia que o governo deveria pôr em execução leis penais que coibissem a vadiagem e a mendicância. talvez. estabeleceu penas severas para vadios e mendigos. o Brasil passava por situação análoga às descritas por Marx para o passado desses paí- ses.854) No século XIX.

conforme determinava o Artigo n. Condição de vida e pena pela transgressão. Penas de prisão simples.296. um extrato do Diário do Parlamento Brasileiro. Ferreira Vianna (ministro da justiça): Fonte de todos os vícios. ou havendo pes- soa que se ofereça a sustentá-los.130 on Fri. Não é de hoje. em 1850. Parágrafo 3º) Quando fingirem chagas ou outras enfermidades. que reconheço a necessidade urgente de reprimir. Excia. e sentida desde muito por meus ilustres antecessores. a ineficácia demonstra- da pela experiência na repressão que a lei impõe aos que incorrerem na penalida- des dos artigos 295 e 296 do Código Penal. medidas foram tomadas a fim de “obrigarem os desocupados ao trabalho”. V. Ferreira Vianna. como a Câmara. O Sr. o problema que se apresen- tava para as classes dominantes do Brasil da segunda metade do século XIX era como fazer trabalhar quem já não era mais escravo.216. Vejamos. em sua 27ª sessão. no mês seguinte ao da promulgação da Lei Áurea.jstor. Presidente. que reclamaram providências no sentido de asse- gurar melhor a instituição dos termos de bem viver. esse era o significado do trabalho. sem discrepância. o Código Criminal não surtiu o efeito espera- do. Tanto assim que. nas seguintes situações: Parágrafo 1º) Nos lugares em que existem estabelecimentos públicos para os mendigos. João Penido: Mãe de todos os vícios. em vez de tormento deve ser elemento educativo. Sr. Mais do que para José Bonifácio nos anos 20. Ora. acompanhadas ou não de trabalho (dependendo das forças de cada um) seriam aplicadas a todos que mendigassem. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. Parágrafo 4º) Quando mesmo inválidos mendigarem em reunião de quatro ou mais.179. o mi- nistro da Justiça. então. principalmente nos centros populosos. Luiz Antônio Cunha de paz. concordará que punir o ocio- 90 This content downloaded from 179. a começar com a efetiva proibição do tráfico negreiro.org/terms . não sendo pai e filhos. Ferreira Vianna (ministro da justiça): Sr. O Sr. o direito ao não-trabalho somente era permitido a quem fosse rico. Os moder- nos pensadores são acordes em reconhecer que a pena. Em vez de enxergar as pe- nas. Pelo menos nesses aspectos. Ou seja. os pobres incorreriam em pena que era o pró- prio trabalho. acho mais efetivo tirar delas o proveito que o legislador esperava. e não se incluindo também no número dos quatro as mulheres que acompanharem seus maridos e os moços que guiarem cegos. Parágrafo 2º) Quando os que mendigarem estiverem em termos de trabalhar. a ociosidade. compareceu à Câmara dos Deputados para apresentar projeto de lei pelo qual se propunha a dar eficácia ao que aquele documento legal pretendia. A transcrição do debate fornece uma imagem ex- pressiva das idéias em voga nas classes dirigentes do fim do Império. como acer- tadamente lembra o nobre deputado de Minas Gerais. em 20 de junho de 1888: Sr. não tendo renda suficiente”. Presidente. À medida que as leis de restrição à escravidão eram promulgadas. ainda que nos lugares não haja os ditos esta- belecimentos. que a nossa legislação imitou da inglesa.

e corrompem-se. com a pena de prisão simples. já por não haver casas apropriadas para a execução.jstor. é promover o que se tem em vista reprimir. o mendigo e toda esta espécie de ociosos não são propria- mente criminosos. sem vexame e estigma. são lançados. por assim dizer. ora contaminado pelos outros. Melhor proveito para a segurança pública deve esta augusta Câmara esperar de um ilustre colega. deve ser educador: de preferência. Nele prevalecem as idéias mais conformes com as instituições. o que por indústria vaga nas ruas e mendiga. que os nobres deputados reconhecem deve afligi-los tanto como a mim. e ali languescem. incluindo a da separação dos presos pelo sexo. em que devam os condenados infratores dos termos de bem viver cumprir a pena. da ociosidade. Assim neces- sariamente entrarão no caminho do delito. o vadio. A verdade. na peniten- ciária. a nossa experiência e dos povos de que temos lição nos ensina a zelar principalmente da moralidade. é que uma massa muito considerável da população válida e jovem se aglome- ra nas cidades principais e nas povoações do interior. O legislador. que o projeto que tenho a honra de oferecer à Câmara. das galés e até as vítimas do cadafalso. que dela se ser- vem em ocasiões excepcionais.179. mas apenas o suspeito da possibilidade do crime. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. são futuros habitantes das ca- sas penitenciárias. e se contenta. A nossa constituição. iguais em todo o mundo. como os men- digos da antiga Roma. na penalidade. Presidente. e afinal incorram em penas e castigos mais duros. na flor da vida. muito previdente e sábia. convertem-se em prisão simples. ali contrai o hábito da vadiação. com a adoção 91 This content downloaded from 179. não criminoso. sujeitando-as a trabalho obrigatório.org/terms . porque no país não existem casas de trabalho. há necessidade indeclinável de tornar exeqüível a pena nos estabelecimentos de trabalho. não produziu os efeitos esperados. idade e esta- do. com as espórtulas dos mandões de aldeia. Portanto. perverte-se. que seria para dese- jar por falta de recursos. As cida- des populosas sofrem de perturbações contínuas pela aglomeração de pessoas. à ação da autoridade policial.130 on Fri. pois em verdade. que não escapam da penalidade. assim. no que há tam- bém grande escândalo pela confusão das idades e condições. em grande parte. de o tornar útil sem deixar em sua consciência o vestígio de um estigma passado. contaminando os companheiros. Nesta deficiência. prevenir a reprimir. que não é tão vigilan- te como deveria e exigimos. adversos e estranhos ao trabalho. pervertem-se. entre nós. do que aguar- dando que os instintos maus se desenvolvam. se é mais endurecido no vício. apesar de sua validez. do- minadas pelo instinto. já porque entre as autoridades policiais não há correspondência e comunicação. urgidos pela necessidade. E al- guns. em comunhão com os maiores celerados e condenados impenitentes. de tratá-lo como merece. enfim. Sr. antes de tudo.216. ou também com pequenos furtos e outros delitos que escapam. Se o preso já não ti- nha disposições para o trabalho. procurei apenas acabar com o caráter de opressão e vexame para aperfeiçoar o homem e não de abatê-lo. Estes termos são quebrados e os infratores raramente punidos. dominadas pelos instintos da ociosi- dade. determinou as condições que devem ter as prisões para a execução das penas. O termo de bem viver. assegurará melhor a sorte das criaturas. Não conheço ociosidade mais condenável do que a prisão simples. ou. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata so. prefere ser o de agricultura. Ministro do Império. nem o legislador como tal os pode julgar: são ameaças de crimes e delitos. como observei.

não podem ser abandonados e entregues unicamente à caridade. A pena. des- de que a pena. quando não tem mais forças para o trabalho. de 1888. por conseguinte nunca será fixa. com instrumentos de um proprietário! Em tais circunstâncias seria cruel restituir a liberdade ao nú [sic] de todos os bens desta vida.179. eram as seguintes: 1.216. 92 This content downloaded from 179. mas eficazes. ficarão corrompidos e perigosos.33. pela miséria de suas mães. quase exclusivamente aplicado à repressão e a muito falí- vel prevenção. porque. Quebrei a rigi- dez dos três graus e também a infalibilidade da execução.jstor. se a sociedade não tratar de seu destino. inevitável. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. é simples- mente disciplinar. Estes precisam da proteção desta Câmara. por que levar a pena até o último extremo? Esta dedução e este aumento serão feitos com todos os resguardos e se- gurança. com meu espírito. é a parte menos cuidada. mandasse o menor mendigar ou concorrer de qualquer modo para que ele o fizesse. do que do ministo da justiça. que é antes de amor que de temor. trabalho obrigatório nos estabelecimentos cor- recionais ou disciplinares por um ano no máximo e três meses no mínimo. pela impureza de sua origem. ou pelo instinto próprio da ociosidade e licen- ça nos prazeres. principalmente quando não se lhes pode imputar a imprevidên- cia. se for bastante o médio. vadios. de modo a não se tornar ato arbitrário. variáveis conforme a idade e o grau da culpa. e devem ser principalmente repri- midos. em ilhas marítimas ou em outras partes que o governo achasse conveniente. Ao lado de todos esses réus. que se conforma com o espírito moderno. para a educação dos jovens. A educação. pelo abandono de pais degenerados. Estes últi- mos deveriam ser localizados em regiões de fronteira. As penas aplicáveis aos transgressores.org/terms . não está ao nível da instrução. A polícia não pode prescindir de tomar sobre eles medidas sem severida- de. por que não re- duzi-la a esses termos e dar soltura ao réu. aplicada no mínimo. estabelecimentos destinados à “correção dos infratores do termo de bem viver”. e quem. mendigos e de outros que deles tiram proveito. Esses estabelecimentos seriam divididos em dois grupos: um para os réus de primeira condenação e outro para os reincidentes. porque foram condenados ao serviço de uma vida inteira. 2. embora tivesse sido condenado no má- ximo? Assim também. Luiz Antônio Cunha de regras as mais consentâneas à natureza humana. fatal. entre nós. Aqueles que não se educarem nos estabelecimentos apropriados e fo- rem lançados na vida. para este serviço concebi o projeto e adotei um princípio na apli- cação da penalidade. Eram considerados infratores do termo de bem viver: quem tirasse sua sub- sistência da especulação desonesta ou proibida por lei. denominado “repressão à ociosidade”. ou pelo menos. há infortúnios que só se podem atribuir à fatalidade da vida. corre [sic] ao Estado o dever de zelá-los. neste caso. mandava criar. que é antes uma ameaça à sociedade do que propriamente uma ofensa. O Projeto de Lei n. com fim de lu- cro. se trata-se de um crime.130 on Fri. Há velhos invá- lidos aqui como em todo o Império. já produziu seu salutar efeito. Por honra do Brasil não devemos consentir que vaguem pelas estradas e morram na miséria esses inválidos da escravidão.

Não se tratava. juiz de órfãos. A cominação (isto é. certa- mente. mas previa-se a constituição de um fundo de onde se retiraria uma quantia a ser entregue a cada correcionado ou a sua família.216.jstor. ou mediante requisição do pai ou mãe. a recusa de trabalho honesto que se lhe oferecesse ou a que se houvesse obrigado por contrato. não foi desprezível a atua- ção de “agitadores” estrangeiros. 3. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. a principal ocupação das pessoas aí in- ternadas seria em trabalhos agrícolas. No entanto. tutor.179. por três anos no máximo e um ano no mínimo. Costa (1966) relata situações em que a simples presença de trabalhadores portugueses na construção de estradas de ferro constituía motivo de preocupação para as autoridades locais pelas “desordens” que provocavam ou poderiam provocar. deveriam ser postos à disposição da autoridade policial do distrito de origem para recebe- rem penas adequadas. Nos estabelecimentos correcionais. os tra- balhadores organizavam-se para defender seus interesses.130 on Fri. 93 This content downloaded from 179. como na Idade Média européia. já no século XIX. Enquanto as elites políticas das classes dirigentes procuravam meios e mo- dos para pôr a trabalhar todos os que tinham condições físicas para isso. O produto do trabalho consti- tuiria receita de cada estabelecimento.295 e n. os ociosos tratados pelo Código Criminal e pelo projeto de lei do ministro da Justiça. curador-geral. mas admitia-se a possibilidade de empre- gá-las também em oficinas ou outras atividades. Foi também incluída no projeto uma lista de circunstâncias agravantes aos incursos nos Artigos n. dos mesmos protagonistas. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata na reicindência.org/terms . e pelo requerimento de “qualquer pessoa do povo”. que se chocavam com a persistência do escra- vismo no Brasil.296 do Código Criminal. curador. a imposição) da pena poderia ser promovida ex-offi- cio. a montagem de organizações que acabaram por desembocar nos sindicatos das primeiras décadas do século se- guinte. Os “vadios e mendigos”. não tinham organização alguma. justamente quando a capacidade de trabalho estaria no auge. sendo es- trangeiro o reicindente. Dizia ele que se dois ou mais vadios ou mendigos deixassem o distrito de sua residência ou nascimento e fossem encontrados vagando ou mendigando em outro distrito. Ferreira Vian- na. pro- motor público. Embora algumas iniciativas fossem espontâneas. o governo poderia fazê-lo sair do território do Império. das quais selecionei três: o abandono de emprego ou ocupação. e seu protagonismo caracterizava-se pela reação passiva. e a idade de 21 a 40 anos. quando de sua saída. os trabalhadores já submetidos aos padrões da dis- ciplina industrial iniciaram. Há no projeto um artigo que parece pretender fixar essa força de trabalho potencial à terra.

desde o seu início ostensivamente contrária à es- cravidão. como no extrato de uma matéria reprodu- zida por Linhares: “Já é tempo de se acabarem as opressões de toda a casta.27). em 1872. no Brasil. p. cujo primeiro nú- mero foi lançado no Rio de Janeiro em 1858. Foi nessa categoria profissional que se imprimiu o primeiro periódico pro- duzido e dirigido diretamente a ela. foram de caráter benefi- cente. no Brasil.org/terms . Para esvaziar o movimento. p. estas de caráter religioso. Em 1880 a província tinha se transformado em exportadora de escravos para as províncias do Sudeste. desenvolveram suas associações e lançaram publicações próprias. Depois de se negarem a tal papel. órgão da associa- ção beneficente dos empregados da “Companhia de Trilhos Urbanos do Recife a Olinda e Capibaribe”. a primei- ra entidade operária do país.130 on Fri. da Sociedade Auxiliadora das Artes e Benefi- cente do Rio de Janeiro. já é tempo de se guerrear por todos os meios legais toda exploração do homem pelo mesmo homem” (1963. Em janeiro des- se ano. A primeira foi abortada pela ameaça de repressão policial. Foi nesse contexto. Foi o caso.216. os abolicionistas cearenses convenceram os jangadeiros a não transpor- tarem os escravos do porto ao navio que os levaria a Santos. pelo grau de solidarie- dade gerada pela divisão do trabalho e pela própria disciplina fabril. uma década depois do “Manifesto Comunista”. onde a cafeicultura se expandia. Mais tarde. os ferroviários. o Jornal dos Tipógrafos. Luiz Antônio Cunha As primeiras entidades de trabalhadores. uma espécie de versão laica de uma das dimensões das bandeiras de ofí- cio. organizou-se logo uma comissão para libertá-lo mediante alforria (Linhares.32). 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. como A Locomotiva. O principal argu- 94 This content downloaded from 179. de 1835. Tanto assim que quando foi constatada a presença de um escravo en- tre os seus cento e poucos primeiros associados. A greve dos tipógrafos tinha uma plataforma unificada de aumento salarial dos operários das gráficas de vários jornais da cidade. da Sociedade Montepio dos Artífices da Bahia. dos acendedores de lampiões a gás e dos tipógrafos. Em 1858 foram feitas as duas primeiras tentativas de greve no país. no Recife. 1963. no qual a inspiração socialis- ta e anarquista européia se fez sentir. Pelo nível de escolaridade requerida para a função. os operários da Imprensa Nacional foram postos à disposição dos empresários. eles se viram compelidos a acionarem as máquinas dos jornais. ambas no Rio de Janeiro.179. os tipó- grafos foram os pioneiros da organização operária no Brasil. foi no Ceará. de Marx e Engels. Em 1853 foi criada a Imperial Associação Tipográfica Fluminense. entre outros. A primeira paralisação do trabalho por motivos político-ideológicos de que se tem notícia. que foi lançado o Jornal dos Tipógrafos.jstor. de 1832. e os grevistas acabaram retornando ao trabalho sem conseguirem obter o reajuste salarial pretendido. por ra- zões similares às dos tipógrafos.

O operário. e.org/terms . publi- cado em Recife.jstor. porque é tal o depreciamento das artes. a matéria não fa- zia referência ao escravismo. à Nação e à Imprensa Fluminense. Provâmo-lo. vou me valer dos publicados por Edgard Carone (1979). no Ceará. Trata-se do “Mani- festo do Corpo Coletino União Operária” divulgado no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1885.179. em con- seqüência. Esses eventos fizeram que Conrad (1975. Daí o desânimo. Eis a conseqüência: O artista de vocação pronunciada para as letras. em especial da Impren- 95 This content downloaded from 179. ameaçando a es- cravatura em todo o país. Desde então. p. à sociedade egoísta de hoje”. suponho que o manifesto tenha sido elaborado por operários das oficinas do governo. quanto mais fazer face às contínuas necessidades de um estudo regular. até mesmo no que concerne à educação profissional. 1979. nenhum escravo foi exportado do Ceará. Apesar de serem poucos os textos disponíveis. que ele não pode tirar do trabalho a subs- tância. talvez pela difi- culdade de conservação.500 pessoas presentes no cais. o operário se elevaria. p. principalmente os livros.218) afirmasse que o abolicio- nismo transformou-se. ao menos por via marítima. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about.203) Mesmo que o objetivo não fosse a “vocação das letras”. que poria obstáculos ainda mais difíceis à “eleva- ção do operariado”. e dirigido a Sua Majestade o Imperador (dito protetor da classe operária). as- sim como nas empresas cujos produtos eram importantes para a educação. entre nós dificilmente poderá elevar-se em tão nobre tirocínio. Embora não haja referências explícitas. Novo incidente desse tipo aconteceu em Fortaleza. com o dobro de pessoas no porto a apoiar a recusa dos jangadeiros de transportarem escra- vos ao navio. Sob o título “A elevação do operariado pela educação”. A decisão dos jangadeiros de não embarcar os escravos foi apoiada por cerca de 1. apesar dos vestígios do feuda- lismo que persistiram na sociedade brasileira. Manifestações operárias quanto à educação escolar da classe.130 on Fri. pela superioridade intelectual. Falta-lhes o recurso para encetar a sua carreira. este bem alentado. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata mento era de que colaborar no transporte de escravos era atividade indigna para sua profissão. Carone transcreve outro documento. Reclamava contra os altos preços que o governo cobrava nas instituições de ensino superior. a facilitação do acesso à instrução propiciaria o desaparecimento do “proletarismo”. as capacidades artísticas que hão morrido na miséria. (apud Carone. podem ser encontradas em algumas publicações. de modo a impor-se “um dia. trouxe uma veemente matéria com protestos contra a falta de estímulo para que os artífices se instruíssem. em maio de 1879. num movimento de massas. Curiosamente. além da recusa da polí- cia de intervir.216.

elas podem ser consideradas se- mentes que iriam brotar com vigor nas duas primeiras décadas do século XX. o governo imperial promoveu a instalação de colônias agrícolas para imigrantes alemães. o manifesto propunha a criação de uma “estatística profissional” para o controle de todo esse esquema inédito. quando do surgimento dos sindicatos e das iniciativas educacionais de cará- ter classista. tanto para os trabalhadores do setor público quanto para os do setor privado. tais como isenções de taxas de importação de máquinas e de imposto predial. Os ci- dadãos formados em “ciência ou artes”. Essa defesa da ampliação do emprego para os operários nacionais se reve- lava. o manifesto propunha a cobrança de taxas adicionais para a importação de produtos manufaturados que tivessem similar nacional. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. No que diz respeito mais diretamente ao tema deste livro. fortemente subsidia- 96 This content downloaded from 179.jstor. com marcante facilidade para os operários dos estabelecimentos estatais. Branqueamento da força de trabalho Logo após a Independência. em especial da construção naval e dos arsenais. Em com- plemento a essa preferência na fabricação no país e no uso de combustível e matérias-primas aqui existentes. que dirigissem ou lecionassem “aprendi- zagens artísticas” ou belas-artes também estariam sujeitos a esse imposto. já em 1824. que seriam definidos posteriormente. os estrangeiros deveriam pagar o dobro da quantia prevista para os nacionais. na reivindicação da cobrança de um “imposto profissional”. As prioridades de compras para as Forças Armadas deveriam ser de produtos brasileiros.179. As empresas que recebessem incentivos do Estado. também. Antecipando várias das medidas tomadas durante a Era Vargas (1930-1945). o manifesto pre- via incentivos às empresas que oferecessem oportunidades de aprendizagem profissional.130 on Fri. orientadas pelas idéias anarquistas. estariam obrigadas a dar aprendizagem a menores “sob condições determinadas con- vencionalmente”. Elas tinham uma fortíssima conotação protecionista da produ- ção nacional. pelo caráter das reivindicações. Seria uma espécie de registro profissional. com dados pessoais. Luiz Antônio Cunha sa Nacional e dos estaleiros navais situados no Rio de Janeiro.216.org/terms . A despeito do caráter atomizado dessas manifestações operárias ainda durante a vigência da escravidão no Brasil. devendo tal orientação estender-se à tecelagem (fardamento) e ao carvão (propulsão naval e ferroviária). fos- sem navios ou armamentos de outro tipo. trazidas para cá pela imigra- ção estrangeira. Já os estabelecimentos manufatureiros que mantivessem mais de trinta menores (órfãos ou ingênuos) em aprendizagem profissional re- ceberiam “prêmios artísticos”.

que devia ser pago em dobro se o escravo fosse empregado em outras atividades. entrou no país um grande contingente de trabalhado- res livres. Não se deve supor. Ela criou um imposto anual por escravo empregado na agricultura. não havia regis- tro civil que legalizasse os nascimentos. Mas foi a unificação da Itália e a reordenação de sua economia que vieram a criar uma oferta de trabalhadores dispostos à emigração. 1966. p. O governo bra- sileiro passou a subsidiar o transporte e a subsistência dos imigrantes durante o primeiro ano. As terras bem localizadas e férteis estavam to- das exploradas ou. a partir de 1870. mas eram de má- qualidade ou situavam-se distantes dos centros consumidores e das vias de co- municação. Por outro lado. Mas as iniciativas do governo da Província de São Paulo não esperaram pela maior liberdade de atua- ção que o regime federativo viria lhe proporcionar. a disponibilidade de recur- sos era um limite importante à multiplicação das colônias. O go- verno dispunha de grandes extensões de terra devolutas.179. principalmente das estradas. Além disso.jstor. se fosse comprar terras. Com isso. ao mesmo tempo em que desincentivava a escravidão.126-8). O Senador Vergueiro promoveu a vinda de trabalhadores suíços e alemães para sua fazenda em Limeira (São Paulo) a partir de 1847. 1986. a do emprego de força de trabalho livre na cafeicultura. dois terços deles oriundos da Itália (Furtado.77). A imigração de europeus para a cafeicultura paulista teve maior impacto imediatamente após a proclamação da República. foram importados trabalhadores para os serviços de construção da estrada de Santos a São Paulo.216. Nos últimos 25 anos do século XIX entraram cerca de 800 mil imigran- tes só na Província/Estado de São Paulo. todavia. dada a expansão da cafeicultura. que a imigração tivesse sido promovida com a finalidade exclusiva de atender à demanda de força de trabalho para as lavou- ras de café. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata das mas inviáveis do ponto de vista econômico. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. cada vez mais longas. inaugurando uma nova fase. o presidente da província 97 This content downloaded from 179. se não.130 on Fri. sob o controle direto de algum latifundiário. A receita proveniente desse imposto era destinada a custear os serviços de imi- gração de europeus. favorecia a imi- gração. Isso porque o monopólio da terra por parte dos latifundiários funcionava como empecilho ao desenvolvi- mento da pequena propriedade. A solução encontrada pelo governo foi a subvenção da imigração promovida por empresas privadas. A escassez de escravos nessas lavouras fez que ficasse bastante difí- cil encontrar-se trabalhadores para a construção e a manutenção de obras pú- blicas. Em 1884 foi aprovada uma lei que. Dois anos depois. p. Em 1836. justamente pelo incentivo que o governo de cada estado podia dar a essa questão. a imigra- ção alemã tinha um obstáculo na dificuldade de se atrair colonos de religião protestante para um país onde a religião oficial era a católica.org/terms . os casamentos e os óbitos dos não-ca- tólicos: seus filhos eram considerados ilegítimos (Costa.

ferreiros e carpinteiros. Enfim. 1971).179. No entanto. Tratava-se de impedir a todo custo que a força de trabalho escrava fosse desviada para tarefas não agrícolas. marceneiro.org/terms . alfaiate. desde que exercessem um ofício de que se necessitasse. na legislatura de 1840. Em 1835. nas estações de troca de cavalos e nas estalagens (Matos. por tempo determinado. 1966. da Bahia e de Minas Gerais. Em 1846. todas as artes mecânicas deveriam empregar apenas homens livres (Costa. não havia mão-de-obra disponível. os escravos na 3 Com objetivos mais estratégicos do que econômicos. não foi bem-sucedida uma lei que outorgava privilégios a empresários que se propusessem a ligar o Rio de Janeiro às capitais do Rio Grande do Sul. A não ser em algumas conjunturas desfavoráveis para a agricultura. sapateiro. assim como desem- penharem ofícios de pedreiro. Essa situação se repetiu.121). calçadores de estradas. foi aberta uma linha de crédito para companhias particulares que se dispusessem a fazê-lo. empregaram-se posteriormente na manutenção da estrada. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. além de cantei- ros. ligando Petrópolis a Juiz de Fora. p. Parte dos trabalhadores europeus (alemães e portugueses) engajados no que foi o maior empreendimento rodo- viário de todo o século XIX. p. desta vez de modo eficaz. dizia-se que a in- trodução de “colonos operários” era uma das medidas mais urgentes e neces- sárias para a viabilização das obras públicas. Luiz Antônio Cunha mandou engajar na Europa cem trabalhadores e dois mestres. a proibição do emprego de escravos na construção e na operação daquelas vias de transporte. O próprio senador Vergueiro defendia a proibição de os escravos trabalharem como marinheiros. ambas as iniciativas legais tiveram em co- mum. carpinteiro. Mas.130 on Fri. a Assembléia Provincial de São Paulo promulgou uma lei que obrigava os trabalhadores livres que habitassem áreas onde se construíssem obras públicas a se empregarem nelas. 98 This content downloaded from 179. 1966. significativamente.216. Na Província do Rio de Janeiro. de 1856 a 1861.67).jstor. pedreiros. para outras obras (Costa. com 144 km de extensão. quando os fazendeiros preferiam alugar seus escravos para as obras públicas. Para trazê-los da Europa. o que levava o governo a promover a imigração. na construção na estra- da de rodagem União e Indústria. Os capitalistas ingleses que a financiaram proibi- ram o emprego de escravos na construção.3 nem uma lei paulista que outorgava privilégios a duas empresas para a construção de estradas de ferro. ao menos momentaneamente. ao mesmo tempo em que a vinda para o Brasil de trabalhadores es- trangeiros servia para manter. Essa destinação exclusiva dos escravos para atividades agrícolas apareceu claramente na construção das ferrovias.

em 1879 foi modificada a legislação concernente à locação de serviços. não vinha para o Brasil na quantidade necessária por razões institu- cionais (registro civil. Complementarmente. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. o gover- no imperial projetou a vinda de trabalhadores chineses. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata agricultura.130 on Fri. já em outro contexto político. Mas iniciativas como essa não se multiplicaram. fizeram que ela fosse abandonada. depois que a promulgação da Lei do Ventre Livre decretou o fim do suprimento de escravos pela via da reprodução. Ademais. só retomada ao iní- cio deste século com os japoneses. Partindo da inevitabilidade da abolição da escravatura. Nesse sentido. para trabalhadores na- cionais e cinco anos para os estrangeiros. Além de serem baratos.org/terms . Num livro publicado em 1879. o cresci- mento do movimento abolicionista no Brasil. os “chins” teriam outras vantagens. o cônsul não escondia sua preferência pela força de trabalho européia. na época empregados em grande número na construção de ferrovias nos Estados Unidos.). religião oficial etc. uma maneira de oferecer aos agricultores e aos industriais uma força de trabalho barata. eles participaram ativamente do movimento abolicionista. então. A im- portação de chineses seria. e. no máximo. A vinda dos “chins” seria uma solução provisória para o problema da constituição de uma força de trabalho livre e de origem européia. a qual.jstor. acelerar a abolição da escravatura. Salvador de Mendonça. Além da promoção da vinda para o Brasil de imigrantes europeus. onde a escravidão foi abolida precocemente. correlativamente à desvalorização do trabalho livre. Eles não criavam amor pela terra que os acolhia. uma vantagem para um país que pretendia “branquear” sua força de trabalho. tarefa que ele estudou naquele país. também. proibindo-se a cobrança 99 This content downloaded from 179. os abolicionistas protestavam contra o que seria a escravidão disfarçada para os chineses. já que o desejado era sua substituição pelos europeus. em conseqüência.216. que viria a baixar o preço do escra- vo e. para o que tornava-se necessário atenuar práticas escravagistas dos fazendeiros ao empregarem trabalhadores assalariados. O Visconde de Mauá chegou a promover a vinda de 174 chineses para suas fazendas. por causa da existência do trabalho escravo. o que era uma ca- racterística bem-vinda. A solução era mesmo a facilitação da entrada de imigrantes europeus. No Brasil como na Inglaterra. defendeu a promoção da imigração chinesa. eles não teriam propensão à mestiçagem. a dívida inicial do imigrante ficou reduzida à metade do preço da passagem de navio. na visão de Mendonça. no entanto. Emília Viotti da Costa dá conta da atividade deles no transporte clandestino nas ferro- vias de escravos fugidos das fazendas do interior para o porto de Santos.179. o cônsul-geral brasileiro nos Estados Unidos. dispensável tão logo os europeus afluíssem para o Brasil. mais a demora na imigração in- centivada dos orientais. que estabeleceu entraves a tais arbitrariedades: os contratos fo- ram expressamente limitados a seis anos.

1978. vedou-se a cláusula abusiva da “dívida solidária” entre turmas de colonos. na transferência da locação da força de trabalho a outro lo- catário. Uma fábrica de tecidos dispunha de 2 mestres livres e 16 escravos. tornou-se necessária a concordância do locador. Em cinco fábricas de sa- bão. Numa relação de cinqüenta empresas industriais que recebiam incentivos fiscais. p. p. Estes eram os apreendidos de contrabandistas. sen- do a menor parte deles alugada.119-20).. 4 mestres. dos quais 640 estrangeiros e 650 nacionais. Uma fábrica de chapéus não empregava escra- vos. A manufatura típica das décadas de 1820 e 1830. chapéus.130 on Fri. p. após a abo- lição legal do tráfico. limitando-se a responsabilidade do colono às dívi- das de sua família. havia 75 escravos e 17 trabalhadores livres.org/terms . Geralmente.179.290 em- pregados. manteve-se a pena de prisão no caso de abando- no do serviço antes do pagamento da dívida. pentes. O gover- no leiloava seu trabalho futuro e os arrematantes punham os ex-escravos “no ganho”. Os africanos eram declarados livres juridicamente. outra. com 4 oficiais brancos e 14 oficiais negros. dos quais 5 eram ne- gros. cera etc. mas. Os escravos eram 194.1. Num levantamento dessa atividade econômica no período 1810 a 1823 foi encontrada uma fábrica de produtos de metal que tinha 14 oficiais livres e 11 escravos. A fábrica de asfalto funcionava com 2 contramestres e 30 escravos. isto é. 100 This content downloaded from 179. a de oleados.119). Por outro lado. mediante julgamento sumário (Gorender. deveriam trabalhar.). 1978. A fábrica de tecidos do go- verno na Lagoa Rodrigo de Freitas dispunha de 2 mestres de fiar e tecer e 16 es- cravos. 1971. 20 operários livres e 10 escravos. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. havia um total de 1. Desse total.140). v. Luiz Antônio Cunha de juros sobre esse débito. havia 194 trabalhadores livres. 1980. no Brasil (fábricas de ve- las.568). do próprio trabalhador. sabão.216. Escravos e homens livres nas manufaturas O minucioso inventário da economia do Rio de Janeiro realizado por Eulá- lia Lobo permite constatar a importância da presença dos escravos na atividade manufatureira. empregava de 20 a 40 trabalha- dores. em 1857. a maioria da propriedade da própria empresa. v. feita pelo Ministério da Fazenda. Nessas fábricas. as manufaturas alugavam escravos ou empregavam africanos livres arrematados. 451 eram es- cravos (Lobo.1.jstor. os carpintei- ros que faziam as caixas de madeira eram geralmente trabalhadores livres. Em nove fábricas de chapéus. p. na sua maioria escravos (Lobo et al. para custearem as despesas com sua repatriação. galões. Os estaleiros do Barão de Mauá empregavam 122 trabalhadores livres e 73 escravos (Lobo.

O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

A pesquisa realizada por Eulália Lobo e colaboradores sobre o padrão de
vida dos trabalhadores no Rio de Janeiro mostrou que, a partir de 1863, passou a
ser vantajoso para uma fábrica de velas estudada o emprego de trabalhadores es-
trangeiros. Em geral, a fábrica custeava a passagem desses trabalhadores, que
deveriam prestar serviços durante dez meses, em média, para reembolsá-la.
Além de alimentação, tratamento médico e remédios, a fábrica fornecia a cada
trabalhador, anualmente, três calças e duas camisas de algodão, uma esteira,
uma manta de algodão, uma colcha de chita, um chapéu de palha, prato, talhe-
res e velas de sebo. Mesmo arcando com esses gastos, as despesas com os “co-
lonos de fábrica” eram inferiores às realizadas com o aluguel de escravos (Lobo
et al., 1971, p.254).
Em uma pesquisa sobre a presença de cativos nas manufaturas na Região
Sudeste, Luiz Carlos Soares mostrou como eles estavam numa posição de am-
bigüidade, entre o assalariamento e a escravidão.
Os escravos alugados ou contratados para os trabalhos nas manufaturas ti-
nham com os proprietários destes estabelecimentos uma relação semelhante à
mantida pelos trabalhadores livres, ou seja, uma relação monetária de compra e
venda da força de trabalho, na qual aqueles proprietários garantiam o direito ao
uso da capacidade produtiva dos trabalhadores, apropriando-se dos frutos e do ex-
cedente do trabalho destes. Na realidade, os escravos alugados ou contratados pe-
los proprietários dos estabelecimentos manufatureiros eram trabalhadores formal-
mente assalariados em suas relações com estes, percebendo um salário que lhes
garantia a sobrevivência e também a formação de um pecúlio que algumas vezes
lhes possibilitava a compra de sua alforria. Entretanto, o reverso da medalha se ma-
nifestava, pois, como escravos eles mantinham uma relação coisificada, de proprie-
dade, com seus senhores, sendo obrigados a lhes entregar uma renda diária ou se-
manal previamente fixada. (Soares, 1980, p.319)

De todo modo, a produção manufatureira era marginal, numa economia
em que os capitais estavam empregados prefencialmente na agricultura de ex-
portação.
Aliás, mesmo durante as frustradas iniciativas do período joanino, o ideário
econômico da alta administração do Estado não era favorável ao desenvolvi-
mento das manufaturas no Brasil. José da Silva Lisboa, futuro senador e Viscon-
de de Cairu do Império,4 defendia a posição de que o Brasil deveria comprar

4 José da Silva Lisboa estudou direito e matemática em Coimbra, após o que advogou e lecio-
nou filosofia e grego na Bahia. Em 1804 publicou o livro Princípios de economia política, no
qual divulgou o pensamento de Adam Smith. Foi José da Silva Lisboa quem propôs ao prín-
cipe João, em 1808, a abertura dos portos brasileiros às nações amigas. Ocupou o cargo de
desembargador da magistratura na Bahia, e foi nomeado membro da diretoria da Real Junta
do Comércio, Agricultura e Navegação quando de sua instalação no Rio de Janeiro, em 1808.
Nesse mesmo ano, foi nomeado para a cátedra de Economia Política, criada na Bahia quando
da transferência da sede do reino português para o Brasil.

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Luiz Antônio Cunha

manufaturados estrangeiros, sobretudo ingleses, pois os preços eram inferiores
aos aqui produzidos, assim como a qualidade daqueles era superior. Este era o
pensamento dos comerciantes e dos fazendeiros que, com a transferência da
sede do reino português para o Brasil, tiveram seus interesses cada vez mais
unidos aos da Inglaterra, por meio dos lucros do comércio livre. O que convi-
nha ao Brasil seriam as atividades agrícolas, a mineração, o comércio e a nave-
gação, assim como “as artes da geral acomodação do povo” (Andrade, 1980,
p.58-9).
José da Silva Lisboa não poupou de críticas os que pretendiam substituir a
importação de produtos manufaturados pela produção local, mesmo que
para isso tivesse de evocar uma divisão internacional do trabalho determina-
da por Deus. É o que se lê em suas Observações sobre a fraqueza da indústria
e estabelecimento de fábricas no Brasil, publicadas pela Imprensa Régia em
1810:

É absurdo introduzir e multiplicar no Brasil, e prematuramente, as fábricas de
imitação da Europa, para se afetar independência do comércio e indústria dos Esta-
dos estrangeiros. Isto é contrário à evidente economia do Regedor do Universo,
que fez os homens essencialmente sociais, constituindo por isso a todos os povos
unidos e dependentes uns dos outros pelo comércio, variando climas, produtos, lo-
calidades e circunstâncias; a fim de sustentar-se o trabalho e a geral indústria em to-
das as regiões, e nas direções mais produtivas e proporcionadas às vantagens priva-
tivas de cada Estado, e conseqüentemente bem se manter, e adiantar a harmonia,
civilização e perfectabilidade do gênero humano. O que Deus uniu, não devem os
homens separar. (apud Andrade, 1980, p.60)

Essas idéias encontravam sintonia nos tribunais da Junta do Comércio, ex-
pressando o livre cambismo como orientação geral de política econômica, na
qual as manufaturas estavam subordinadas aos interesses maiores da agricultu-
ra escravista. Assim, além da concorrência dos produtos estrangeiros, que che-
gavam mais baratos ao Brasil, contribuíram para limitar o desenvolvimento das
manufaturas os altos lucros propiciados pela agricultura de exportação, que
atraía para si os capitais disponíveis.
No entanto, mesmo sem pretender, deliberadamente, o favorecimento da
produção manufatureira, certas políticas governamentais acabaram por incenti-
vá-la.
Depois de expirados ou denunciados os tratados econômicos com a Ingla-
terra, lesivos aos interesses das manufaturas no Brasil, desde o período da Re-
gência, o governo passou a aumentar muito as tarifas sobre os produtos importa-
dos, com finalidade imediata de aumentar a arrecadação fiscal, principalmente
se tivessem similar nacional.

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O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata

As principais medidas foram as seguintes: elevação, em 1844, das tarifas
alfandegárias para os produtos importados; extensão, em 1847, da isenção do
pagamento de direitos alfandegários sobre as matérias-primas importadas a
todos os estabelecimentos manufatureiros de grande porte; e concessão de
subvenções estatais a alguns estabelecimentos durante as décadas de 1840 e
1850. Essas medidas foram dosadas de acordo com os parâmetros estabeleci-
dos pelos grandes plantadores do Sudeste, muito mais interessados na preser-
vação do escravismo do que no industrialismo propriamente dito (Soares,
1980, p.366-7).
Paralelamente a essas medidas e convergente com elas no favorecimento
da fabricação no Brasil de produtos antes importados, o fim do tráfico de escra-
vos liberou capitais que deram origem a bancos, manufaturas, empresas de na-
vegação a vapor e outros negócios.
O resultado combinado desses fatores foi, então, a criação de numerosas
manufaturas. De 1880 a 1884 foram fundados 150 estabelecimentos fabris. De
1885 a 1889, foram abertos 248. No último ano do período imperial, havia no
país 636 manufaturas, que empregavam 54 mil trabalhadores. Cerca de 60% do
capital investido nessas fábricas estava no setor têxtil, e 15% no setor de ali-
mentos (Simonsen, 1973, p.16).
Espraiando os efeitos modernizantes, o fim do tráfico de escravos levou a
mudanças na própria agricultura.
A carência de mão-de-obra fez que a solução encontrada por muitos cafei-
cultores fosse a mecanização da lavoura, para o que foram importadas máqui-
nas, além das construídas aqui mesmo. Foram difundidas as máquinas agríco-
las provenientes dos EUA, que serviram de modelo ou de inspiração para a
produção de equipamentos que favoreciam a economia de mão-de-obra.
Costa (1966, p.185 ss.) selecionou uma lista de privilégios concedidos du-
rante o ano de 1885 pelo governo da Província de São Paulo, incentivando a fa-
bricação de equipamentos agrícolas: máquinas para escolher café e melhora-
mentos introduzidos nas máquinas de descascar e brunir café (Mac Hardy);
máquinas de beneficiar café marca Progresso (Anhreus e Irmãos); máquinas de
carpir marca Paulista (José de Sales Leme); máquinas destinadas a limpar e co-
lher café e outros grãos (Samuel Bevn); máquinas destinadas a descascar café e
outros grãos (José Barroso Pereira e Antônio Fernandes Lima); máquina de be-
neficiar café (Antônio Júlio Dupraz); máquinas para ventilar e descascar e ven-
tilador-apartador duplo de café (José Rodrigues Moreira); máquinas de descas-
car e despolpar café (Guilherme van Vleck Lidgerwood); separador de café
(Johanne Brenner); ventilador de café em coco e pilado marca Progresso da La-
voura (Domingos Alves Pinto); secador marca Industrial Americano (Carlos
Bastos).

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Luiz Antônio Cunha

Se a mecanização da lavoura permitiu que se ampliasse a área plantada de
café, com aumento menos que proporcional da força de trabalho, mantendo
fixo o número de escravos, ela concorreu, simultaneamente, para a mudança
das relações de produção, tendo em vista a generalização do trabalho livre.
Isso, porque o emprego de máquinas, bem como sua fabricação, exigia do tra-
balhador características de qualificação e disciplina não encontráveis no escra-
vo, principalmente na década de 1880. O alto preço do escravo, a ascensão do
movimento abolicionista e a intensificação das fugas desincentivavam o treina-
mento de escravos no manejo das técnicas metalúrgicas, para a construção de
máquinas e outros implementos, assim como na sua operação e manutenção.
O incentivo estatal à atividade fabril incluiu a transferência de capital pro-
veniente de loterias ou mesmo a transferência de recursos dos cofres públi-
cos. De 1841 a 1849, sete fábricas foram beneficiadas por esse mecanismo,
nos setores de vidros, fiação e tecelagem, papel, fundição de ferro. Os contra-
tos de incentivo previam a proibição do trabalho escravo ou de africanos li-
vres, além da obrigação de a empresa manter um certo número de meninos
como aprendizes.
O Relatório do ministro do Império, apresentado à Assembléia Geral, em
1850, transcreve o contrato de concessão dos recursos obtidos em uma loteria
por empresário do setor têxtil no Rio de Janeiro. Uma passagem dizia o se-
guinte:

O concessionário é obrigado: 1º) A aplicar as quantias que receber ao melhora-
mento da fábrica. 2º) A não admitir trabalhar nela escravos ou africanos libertos. 3º)
Conservar nela gratuitamente e pelo tempo que o governo arbitrar, 10 meninos bra-
sileiros, aos quais alimentará e dará instrução religiosa, elementar e industrial.

Os dados coletados por Eulália Lobo (1978) mostram que, na década de
1840, os estabelecimentos protegidos pelo governo imperial já podiam ser en-
quadrados como indústrias, no sentido estrito: produziam em maior escala
quando comparado com os congêneres, operavam sob o regime da divisão do
trabalho, usavam máquinas e operários livres assalariados, embora nem todos
fossem brasileiros. Uma das fábricas de tecidos de algodão, por exemplo, em-
pregava 116 operários, dos quais apenas 16 eram nacionais.
Num estudo sobre as origens e a evolução da indústria têxtil no Brasil,
Stanley Stein (1979) apresenta informações muito interessantes sobre a força
de trabalho nelas empregada.
Chama a atenção, antes de tudo, o relato de que os empresários se preocu-
pavam com os problemas do capital, mas pouco com o recrutamento e a sele-
ção dos trabalhadores. De um modo geral, os empresários acreditavam que os
trabalhadores eram dóceis, ignorantes e carentes de orientação, desvalorização
que convergia com o patrimonialismo prevalecente no campo. No século XIX,

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Em decorrência. o papel do trabalhador especializado inglês foi praticamente eliminado.179. adquirido a qualificação suficiente para manejar os fusos e os tea- res que seus parceiros ingleses haviam posto em funcionamento. 105 This content downloaded from 179. não eram muito melhores as oportunidades que se ofereciam aos mestres estrangeiros em fiação e tecela- gem. depois dessa data. na Província do Rio de Janeiro. 1979. (Stein. e a criação de escolas de ofício iria possibilitar a for- mação de operários. os trabalhadores estrangeiros eram disputados entre os empresários brasileiros. os operários brasileiros já haviam. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata os empresários tratavam os trabalhadores de suas fábricas da mesma forma como os fazendeiros do café ou os senhores de engenho tratavam seus escra- vos ou os poucos assalariados. mas. mencionavam o êxito de uma fábrica no emprego de trabalhadores estrangeiros. Antes de 1870. transporte gratuito por trem. pelo menos. complementando o emprego de rapazes e moças do campo que re- cebiam salários mais baixos. Os proprietários das fábricas precisavam de técnicos competen- tes e estavam dispostos a contratar homens e mulheres no exterior para manejar as suas máquinas e treinar operários brasileiros de ambos os sexos. primeiro. por causa das taxas de câmbio desfavoráveis a quem recebia o pagamento em libra esterlina. os empresários brasileiros foram buscar a nata da sua mão-de-obra para colocar as suas fábricas em funcionamento e treinar os seus tra- balhadores.130 on Fri. 2 ingleses. passaram a ocupar as funções mais qualificadas que antes eram exer- cidas pelos ingleses. eles eram absorvidos pela massa dos trabalhadores têxteis brasileiros ou retornavam à Europa. e depois no continente europeu. era.jstor. 5 italianos (3 homens e 2 mulheres). onde a revolução industrial criara um contingente numeroso de artesãos. Na Ingla- terra. seu recrutamento foi facilita- do pela Depressão ocorrida na Inglaterra. que punham as fábricas em funcionamento. mecânicos e “manufaturas inteiramente nacionais”. Nem o escravo nem o trabalhador assalariado brasileiro tinham grandes habili- dades mecânicas. empregando 17 brasileiros (15 homens e 2 mulheres). inclusive. Por outro lado. Espanhóis e italianos. não valia a pena para um trabalhador inglês empregar-se no Brasil.64) A fábrica “Santo Aleixo”. provindos de regiões da Europa onde os padrões de vida eram mais baixos. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. por essa época.org/terms . um estabelecimento cosmopolita. situada em Magé. Na década de 1890. Acreditava-se na época que essa mão-de-obra especializada. Alguns observadores. que obrigou muitas fábricas a fe- char e um grande contingente de seus operários a emigrarem. 2 ameri- canos e 83 alemães (43 homens e 40 mulheres). Depois de um certo tempo no Brasil. fornecendo. mecânicos e técnicos especializados em fia- ção e tecelagem do algodão.216. em 1851. Além disso. p. O governo imperial facilitou a entrada desses imigrantes. Eles chegavam ao Brasil como trabalhadores agrícolas.

os proprietários das fábricas asseguravam o desenvolvimento de um segmento industrial da economia brasileira. Para Stanley Stein. arrastados ao desespero mais violento. associado à plantação escravista. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. assoladas anualmente pela fe- bre amarela – a saúde. Os empresários da indústria têxtil algodoeira recrutavam a sua mão-de-obra não especializada nos orfanatos. recolhido por Stein. a segurança e a moralidade pública corriam sério risco. Além dessa disputada força de trabalho européia. convertendo-se. fatigante e supervisionado.jstor. a escassez era decorrente da mobilida- de dos trabalhadores. longe da “aglomeração de seres famintos. (Stein. e receptivos à voz de homens malevolentes e ambiciosos que perturbam a ordem pública”. À medida que aumentava o contingen- te de trabalhadores livres. sob a 106 This content downloaded from 179. habi- tações pobres. os fantasmas das insurreições revolucionárias dos trabalhadores urbanos que incendiaram a Europa em 1848 rondavam a imaginação dos cidadãos brasileiros instruídos. Nas cidades do litoral – cidades de ruas estreitas. quando os empresários passaram a fornecer aos trabalhadores moradia. intensificava-se entre eles a repugnância por qual- quer regime de trabalho ininterrupto.179. Era difícil impor a coerção das fazendas aos trabalha- dores livres ambientados em uma sociedade escravagista ou aos que deixaram de ser escravos após a abolição. Alguns deles julgavam mais conveniente que as fábricas e oficinas ficas- sem localizadas fora da cidade. nos juizados de menores. as fábricas empregavam brasileiros como trabalhadores não qualificados. O relato de um observador.66) No início da implantação da indústria têxtil de algodão. Em 1853.org/terms . dizia da fábrica de tecidos “Santo Aleixo”. que ingressavam nas fábricas e as abandonavam de acor- do com o valor dos salários e as condições de vida por elas oferecidas. enterra- dos na pior miséria. comida e rou- pas de trabalho.68) O patriarcalismo assumiu nova forma a partir da década de 1850. precárias condições de saneamento. ao mesmo tempo. Luiz Antônio Cunha mas eram selecionados e recrutados pelos industriais logo no momento do desembarque. Ao se utilizarem dessas fontes de mão-de-obra.216. e disso tinham plena consciência os empresários e os observadores da época. ambos os papéis estavam entrelaçados.130 on Fri. p. o que acabou por se estender a outros aspectos de suas vidas. em benfeitores e filantropos. a sombra do patriarcalismo da grande propriedade rural e a escas- sez de mão-de-obra nas fábricas colocaram os industriais têxteis dessa época diante de um problema complicado. os empresários queixavam-se da falta de trabalhadores. em 1881: “As famílias dos trabalhadores viviam juntas. As condições locais de vida eram suficientemente ruins para fomentar tamanha inquietação entre o proletariado. A pobreza. 1979. (Stein. nas Casas de Caridade e entre os desempregados das cidades do litoral. 1979. p.

O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata mais moralizadora e sagaz supervisão. Uns mantinham capela e padre. O regime assalariado foi implantado aos poucos. apesar da falta de instrução que permitisse a leitura de instruções escritas. a ponto de uma delegação de industriais declarar ao Congresso Nacional.5 era. a disciplina era dura. Em 1853.73). nos anos 50. recebendo do digno proprietário e de sua honrada família exemplos salutares de trabalho e dignidade”. 136 teares e 4.160 fusos. A fábrica de tecidos “Todos os Santos”. a ponto de compensarem a falta de qualifica- ção técnica. um profes- sor de dança e costureiras. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. No entanto. com cerca de 200 operários. Os ingleses não mostravam facilidade em se adaptarem às condições novas que se impunham. Em 1853. de modo a garantirem o emprego futuro.jstor. p.org/terms . Mesmo com dificuldade de acesso a todos os conhecimentos exi- gidos pela fiação e a tecelagem mecanizadas. Por outro lado. por outro lado. Reconheciam sua capacidade de incorporar as técnicas próprias da indústria têxtil. os diretores anunciaram que.179.130 on Fri. da inexistência de manuais traduzidos para o português. mesmo com o emprego de tralhadores não escravos. em 1891. A vida religiosa dos empregados era também motivo de preocupação dos empresários. Os relatos examinados por Stein revelam que os empresários reclamavam da falta do senso de ordem dos operários brasileiros e do seu pouco entusias- mo para o trabalho. depois de instalarem as fábricas ou depois de nelas trabalharem por algum tempo. desde a fundação da fábrica. 107 This content downloaded from 179. situada na Bahia. também. nunca havia sido des- coberto um caso de “imoralidade”. era na Província da Bahia onde estava situada a maior parte das manufa- turas têxteis do país. As moças aprendiam também costura e bordado. os trabalhadores qualificados ingleses não ensinavam tudo aos trabalhadores brasileiros. outros corais para acompanha- rem as cerimônias religiosas. Mas. reclamavam. música e dança. que “a prosperidade só chegou a nossas oficinas e fábricas depois que os mestres europeus foram substituídos por brasileiros” (apud Stein. Quando os ingleses deixavam o país. Entre os funcionários da empresa havia um médico. 1979. a produção se res- sentia da falta de adequada qualificação dos trabalhadores remanescentes. Os casamentos entre os tra- balhadores eram celebrados no dia 1º de novembro de cada ano. guar- dando para si o monopólio de certos conhecimentos. A “Todos os Santos” era uma das mais importantes. a fábrica “Todos os Santos” pagava salá- 5 Até a década de 1880.216. produzindo por volta de 1 milhão de metros de tecidos de algodão por ano e 70 mil metros de fios. a adaptação dos nacionais foi muito rápida. As “horas vagas” de todos trabalhadores eram preenchidas com estudo. tanto uma escola para os pobres quanto uma unidade de produção. Essa desvantagem deles era aumentada quando comparada à adaptabilidade dos brasileiros. dia da funda- ção da fábrica.

org/terms . Enquanto isso. 1.130 on Fri. informava que as fábricas que se estabeleciam tinham aliciado todos os trabalhadores do sexo masculino de outra. Em 1877. mesmo com a produção reduzida. Nos anos 1870. os 92 estabelecimentos industriais da Província do Rio de Janeiro que responderam a um questionário da Comissão de Inquérito Industrial em- pregavam 4.567 operários estavam empregados no setor têxtil. em greve. Os trabalhadores não qualificados re- cebiam comida e uniforme. não se encontrando nenhum escravo entre eles. Em 1882. então o principal ramo das atividades industriais. alguns anos antes da abolição da escravatura.216. os estrangeiros sempre pre- dominaram sobre os brasileiros. nesse setor pro- dutivo. pois não sabia se poderia contratá-los novamente. Somente em 1863 a empresa passou a pagar salários a todos os trabalhadores. desde os anos 1840. eles já não existiam. era obrigado a conservar todos os seus cem empregados. 108 This content downloaded from 179.jstor. O proprietário alegava que a carência de trabalhado- res especializados tornava difícil despedir operários no momento de declínio das vendas. No final do ano. Luiz Antônio Cunha rios somente aos mestres e contramestes. confor- me a qualidade do serviço e o comportamento de cada um. Entre os trabalhadores livres das manufaturas. até que chegassem os operários que o empresário mandara contra- tar na Europa. podiam ganhar um bônus.432 operários. Desse contingente. de dezembro de 1880.179. o recrutamento de trabalhadores livres e habilitados para o trabalho manufatureiro ainda era muito difícil. sustentando-os por al- guns meses até que chegasse o material importado para começar o trabalho. quando a pro- dução aumentasse. sendo os portugueses maioria absoluta. 02 Jun 2017 15:59:32 UTC All use subject to http://about. outro estabelecimento teve de permanecer fechado durante dois meses. O próprio Auxiliador da Indústria Nacional. Se na década de 1840 os trabalhadores escravos constituíam parcela signifi- cativa da força de trabalho manufatureira. um estabelecimento de calçados.

também. se não na instituição. Estabelecimentos militares O ensino de ofícios manufatureiros se desenvolveu na medida da amplia- ção e diferenciação do aparato administrativo. Resultavam. de iniciati- vas de sociedades constituídas de particulares. Apesar dessa persistência. A transferência do núcleo do aparelho de Estado metropolitano para a Colônia.jstor. Neste capítulo.179. ora. o Estado marcava sua forte presença.216. embo- 109 This content downloaded from 179.130 on Fri. tanto do Exército quanto da Marinha. a herança colonial fez-se presente na persistência da aprendizagem em arsenais militares. ora do próprio Estado. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. en- tão reino unido. de assembléias provinciais legislativas. Em todas as iniciativas. de presidentes de pro- víncia. Surgiam da providência do ministro do Império. judiciário. da nobreza e da burguesia latifundiária e mercantil. militar e eclesiástica). em geral membros da burocracia do Estado (civil. 5 Instituições de ensino de ofícios manufatureiros no Brasil Império No processo de constituição do Estado Nacional. do entrecruzamento de ambas. ainda.org/terms . destacando a fonte das iniciativas de criação e manutenção de instituições de ensino de ofícios manufatureiros. ao mesmo tem- po em que foram assentadas as bases de novas instituições formadoras de artífices. ora de associações civis. fiscal e militar. pelo menos na transferência dos indispensáveis recursos financeiros. direção e manutenção das escolas de ofícios. As instituições focalizadas surgiram a partir de diferentes iniciativas. inviabilizou as incipientes corporações de ofício. vou comentar as persistências e mudanças. houve mudanças consideráveis.

e às duas regressarão para as Aulas ou Oficinas. Pelo regulamento baixado por decreto de 21 de fevereiro de 1832. como se constata em um artigo de decreto de 1842 que deu nova or- ganização à Companhia de Aprendizes Menores do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro: Os Aprendizes Menores deverão estar acordados ao romper do dia. As penas previstas para as infrações disciplinares eram bastante graves: “diminuição da comida”.130 on Fri.216. Mato Grosso e Rio Grande do Sul. recebiam certificado de mestre numa especialidade e eram contratados como operários efetivos. depois de lavados e vestidos entrarão em forma de revista. jantarão à meia hora depois do meio dia.130 ss. Em 1834. o Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro tinha duzentos jovens pra- ticando os mais diversos ofícios. força militar de base local. além de um ofício. o que aconteceu no período que vai de 1831 até o início da Guerra do Paraguai. tendo terminado a aprendizagem do ofício. p. prisão ou “posturas físicas”. ao lado das militares. paralelamente. Luiz Antônio Cunha ra o Estado promovesse. e cumprirão anualmente com o preceito da desobriga quadragesimal.). com o serviço obrigatório para os eleitores. em contrapartida. a formação da força de trabalho manu- fatureira destinada a um circuito aberto. 110 This content downloaded from 179. a Regência criou a Guarda Nacio- nal. o do Exército foi mantido e até diminuído. Naquele ano. ouvirão Missa todos os domingos e Dias santos. à guisa de repetidores. desenho e as “primeiras letras” pelo método de ensino mú- tuo. para o disciplinamento dos apren- dizes. de- pois da ceia se recolherão aos dormitórios. 2 O também chamado método Lancaster consistia no emprego dos alunos mais adiantados como professores dos demais. “segun- do sua idade e robustez”. 1965. eles eram admitidos com idade de 8 a 12 anos e aprendiam.jstor. e desta marcharão por esquadras para as Aulas ou Oficinas. passando a perceber soldo. auxiliado por um guarda e dois serventes para cada grupo de cinqüenta alunos. havia os do Pará. As atividades dos aprendizes eram contro- ladas de perto por um pedagogo (de preferência chefe de família ou sacerdote maior de 40 anos). depois do jantar e da ceia. Darão graças a Deus ao levantar da cama. Bahia. Nas oficinas de todos eles havia menores aprendendo ofícios artesanais e manufatureiros.2 Aos 21 anos de idade. previa-se a expulsão do estabelecimento. Em 1836. Pernambuco. terão meia hora de descanso para almoçarem.org/terms . sob o comando di- reto da oligarquia rural (Sodré. além do Arsenal do Rio de Janeiro. O crescimento dos efetivos militares após a Independência1 levou à amplia- ção dos arsenais de guerra existentes e à sua multiplicação. A rotina diária era rigidamente controlada e é fácil constatar o uso de práticas religiosas. para além do uso de seu próprio aparelho. isto é. O tempo que ficar livre 1 Embora os efetivos militares crescessem para enfrentar os sucessivos levantes separatistas. No limite. onde serão entretidos uma hora na ins- trução da doutrina e rezas cristãs. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about.179.

A aprendizagem era feita. órfãos. sem dúvida. hoje certamente não teria o mesmo arsenal tantos operários hábeis. exercícios ginásticos.216. nem ser perdido para os amantes da prosperidade do Brasil e da nossa mocidade indigente: tanto mais. e o Exército particularmente. dá bem a medida dessa mesclagem ao se referir às medidas tomadas pelo ministro da Guerra. A partir ainda de 1842. v. Havia muito que os objetivos propriamente técnico-econômicos da forma- ção de artífices para os arsenais de guerra tinham se mesclado a objetivos ideo- lógicos que viam na aprendizagem de ofícios uma obra de caridade. que por aquela ocasião se vieram a constituir peri- tos e úteis artistas. Em ocasiões oportunas serão exercitados na natação. a não ser executada aquela obra de caridade. (apud Fonseca.1. destinada a amparar os desvalidos. erigindo e criando primeiro aquele colégio de misericór- dia pública.384-5) O estudo de Matilde Araki Crudo (1998) sobre a aprendizagem de ofícios no Arsenal de Guerra de Mato Grosso. quando no ano de 1824 instituiu tão proveitoso e útil seminário indus- trial e manufatureiro. Os saldos eram depositados numa conta da Caixa Econômica para ser movimentada após a baixa. este ato bom do experiente e ilustrado ministro da Guer- ra. necessariamente. mandando aumen- tar os cômodos necessários para a recepção dos órfãos desvalidos. que pretendem gozar das vantagens que a filantropia nacional proporciona naquela repartição aos meninos brasileiros pobres. pelo menos. modificaram-se as relações entre a aprendizagem e a posterior prestação de serviços. as relações de trabalho vigentes eram muito complexas. Diz o texto: no Correio Oficial se lê uma portaria do Exmo. será empregado em recreações inocen- tes. que o atual ministro foi o que para si ergueu um eterno padrão de glórias. o trabalho compulsório de soldados cumprindo 111 This content downloaded from 179. de 29 de julho de 1839. Os aprendizes deveriam ser. indigentes. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata aos menores de suas obrigações ordinárias.jstor. em geral.org/terms .179.130 on Fri. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. quando os cuidados de sustentar a independência não lhe em- baraçavam de prover o bem estar futuro dos filhos dos brasileiros menos abastados. expostos da Santa Casa de Misericórdia ou filhos de pais reconheci- damente pobres. recebiam salários. Durante esse período. Sr. Conde de Lages. Conde de Lages. Conde de Lages. por empreitada. Um texto do Jornal do Comércio. a não ser então posta em prática a idéia do Exmo. dos quais eram descontadas as despesas com instrução e manutenção havidas durante a aprendizagem. Coe- xistiam em suas oficinas o trabalho assalariado por contrato. não pode deixar de ser elogiado. p. por indicação e por concurso. 1961. após o que os novos artífices assentavam praça e eram obriga- dos a oito anos de serviço. o trabalho de escravos de propriedade do Esta- do e alugados de particulares. para ampliar o número de aprendizes no Arsenal do Rio de Janeiro. em Cuiabá. a quem a nação tanto deve. mostrou que pelos menos nessa instituição. até os 18 anos de idade. e passeios fora do Arsenal nos dias que não forem de tra- balho.

de tanoeiro e de torneiro. ou desvalidos remetidos pelas autoridades competentes e “com os filhos das pessoas. os primeiros a explicitarem a utilização no Brasil. de menores ór- fãos. se constituída de maiores de idade. à aprendizagem de ofícios na Marinha. homens condenados pelos mais diversos crimes. como rema- dores.216.4 Mas não foram apenas estabelecimentos de produção de artífices para seu próprio uso que o Estado fundou. a partir da segunda década do século XIX. do escrivão. do cape- lão e de quatro guardas. para operários ou aprendizes que tivessem pelo menos três anos de prática nas oficinas de máquinas. calafate e ferreiro). foi instalada uma Escola de Maquinistas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. O nú- mero de menores aprendizes era de duzentos. Embarcações militares romanas. A autora assinalou a existência de operários qualificados contratados no Rio de Janeiro para dirigir as oficinas e ensinar aos aprendizes os ofícios de sua especialidade.3 Aos 16 anos. recebendo. terminada a aprendizagem do ofício. Embora fossem utilizados menores como aprendizes nos estaleiros. utilizavam.jstor. com as condições de serem brasilei- ros natos e de constituição robusta. 4 Essa prática é muito antiga. No caso da Companhia do Rio de Janeiro. da mesma forma como se utili- zavam dessa fonte. foi só em 1857 que o funcionamento das Companhias de Aprendizes Menores dos Arsenais da Marinha foi regulamentado.5. Outros foram fundados voltados para fora. de funileiro. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. Artigo n. além do comandante. Em 1860. agora. Estes eram admitidos à aprendizagem com idade entre 7 e 12 anos. de prisioneiros civis e militares. Daí a extensão do significado da pala- vra galé para qualquer prisão. quando os serviços passaram a ser realizados por empreitada. que por sua po- breza. de 16 de setembro de 1857. 112 This content downloaded from 179. desde os tempos da Colônia. era ne- cessário que o efetivo fosse preenchido com órfãos. então. Os estabelecimentos militares foram. as galés. assim.org/terms . A atividade das oficinas e a aprendizagem de ofícios só vieram a ser retomadas no período republicano.130 on Fri. seu efetivo compreendia um professor de primeiras le- tras e quatro mestres de ofícios (carpinteiro. 3 Aviso n. pobres ou desvalidos. Passemos. como matéria-prima humana para a formação siste- mática da força de trabalho para seus arsenais. O ensino de ofícios na Marinha teve uma interrupção em 1878. carapina. para o preenchimento dos quadros da tropa e das tripulações. Mas não bastavam essas condições. além de terem concluído o curso de aritmética e geometria que lá existia. como medida de economia. do Ministério da Marinha. Luiz Antônio Cunha serviço militar. “jornais e gratificações”.315. não tiverem meios de os alimentar e educar”. os menores eram obri- gados a servir durante dez anos. especialmente os de latoeiro.179.

130 on Fri.2.179. sua clientela era constituída. calafate. pedreiro. tanoeiro. canteiro. com auxílio gover- namental.org/terms . 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. Segue abaixo a relação das províncias que criaram casas de educandos artí- fices durante o Império. ferreiro. v. 6 Mais adiante vou tratar desses liceus. exclusiva ou complementarmen- te às das oficinas estatais. militar ou paramilitar.216. não possuía oficinas e os seus alunos aprendiam os ofícios de carpinteiro de machado. 1960. autori- zados por leis das assembléias provinciais legislativas. aqui. o que as fazia serem vistas mais como “obras de caridade” do que “obras de instrução pública”. as informações recolhidas por Fonseca. cada qual funcionando numa capital de província. em formação militar. a disciplina era bastante rigorosa. “casa dos educandos” etc. serralheiro. predominantemente. o Arsenal de Guerra. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata para as necessidades das manufaturas “civis”. todas foram criadas por presidentes de províncias. as casas de educandos artífices foram criadas e mantidas integral- mente pelo Estado. funileiro e sapateiro deslo- cando-se. com as datas de início do funcionamento. o cais e o hospital. Pará 1840 Maranhão 1842 São Paulo 1844 Piauí 1849 Alagoas 1854 Ceará 1856 Sergipe 1856 Amazonas 1858 Rio Grande do Norte 1859 Paraíba 1865 A Casa dos Educandos Artífices do Pará. para os próprios locais de trabalho: o Arsenal de Marinha. marceneiro. deve ter funcio- nado como paradigma das demais. 5 Utilizo. por exemplo. 113 This content downloaded from 179. de órfãos e expostos.6 geralmente criados e mantidos por sociedades particulares. a primeira da série.jstor.5 Essas casas tinham as seguintes características semelhantes: ao contrário dos liceus de artes e ofícios. Entidades filantrópicas Nos 25 anos que vão de 1840 a 1865 foram criadas dez casas de educandos artífices. Esses estabelecimentos tinham nomes que variavam um pouco como. “instituto de educandos artífices”. a instrução propriamen- te profissional era dada em arsenais militares e/ou oficinas particulares. De início.

governamentais e particulares. A escola oferecia ensi- no profissional para os alfaiates (confeccionando fardamento para o Exército e a Polícia). defendendo a sua fundação. pretende o Governo conseguir dois vantajosos fins: o primeiro será desviar da car- reira dos vícios dezenas de moços. Vale a pena transcrever aqui a fala do Presidente da Pro- víncia. Em 1889. os alunos tinham.org/terms .179. noções gerais de álgebra. nem quem pro- 114 This content downloaded from 179. segundo os ofícios que aprendiam: alfaiates – 47 sapateiro – 30 músicos – 25 pedreiros – 13 marceneiros – 7 serradores – 4 carapinas – 4 funileiros – 4 espingardeiro – 1 tanoeiro – 1 caldeireiro – 1 maquinista – 1 Em 1853. determinou um longo período de decadência. cria- va-se a do Maranhão. aulas de pri- meiras letras.130 on Fri. Depois desse ano. na Assembléia Legislativa. quando che- gou a ter trezentos alunos aprendendo os mais diversos ofícios. e de que já em outra Província fui carinhoso protetor. Em 1853. escultura. o aprendizado dos ofícios era feito na própria escola ou em esta- belecimentos “de fora”. Luiz Antônio Cunha A instituição completou logo sua lotação de 50 alunos. Dois anos após o da criação da Casa de Educandos Artífices do Pará. Esta província. aritmética. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. geome- tria e mecânica aplicada às artes. senhores. quanto é certo que as ar- tes mecânicas entre nós conservam-se em vergonhoso abandono. Com o estabele- cimento que tenho na idéia. provocada pela crise do algodão. 70 de 10 a 15. para os músicos (que se exercitavam na banda da própria escola) e para o espingardei- ro (consertando o armamento do Exército e da Polícia). João Antônio de Miranda. Além dos ofícios específicos. a má situação financeira do governo da província. Era a seguinte a distribuição dos 138 alunos. pode sem grave dispêndio receber um importante melhoramento. que. desenho. sendo 30 de 5 a 10 anos de idade.jstor.216. naquele ano. não tendo de que vivam. A instituição atingiu o auge do seu desenvolvimento em 1873. e tanto mais está no caso de o necessitar. tinha apenas cinqüenta alunos. e 38 de 15 a 20 anos. o número de alunos subia a 138. para os sapateiros (que recebiam um terço de seu produto).

Artigos n.331-A de 1º de fevereiro de 1854. de 1854. ou escolhidos dentre os recrutados pelos respectivos Juízes de Órfãos. o segundo consistirá em animar as artes.63. se- rão mensalmente levados ao mesmo Tesouro. O Regulamento da Instrução Pública do Município Neutro (Rio de Janeiro). hoje repele grande parte dos que se oferecem. que antes se via na precisão de recrutar. receberá os moços pobres. sendo recolhidos a uma caixa. crescem ao desamparo. selecionar os portadores de talentos especiais. receberão instrução de primeiras letras. a fim de serem competentemente instruídos naqueles ofícios para que tiverem propensão. e de tanta confiança goza. O Tesouro concorrerá com a quantia necessá- ria. 115 This content downloaded from 179. v. e com as idéias práticas com que de lá vier.2. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. dirigido por um dire- tor hábil. que o Governo. procedendo aprovação do governo.216. vivam em mendicidade. (apud Fonseca. e oferecer à capital e à Província trabalhadores e artífices. Enquanto não forem estabele- cidas essas casas. dos que mos- 7 Decreto n. 1961. e os salários que forem recebendo os alunos. e mantidos debaixo de ordem militar.7 Os asilos deveriam fornecer ensino elementar e. Se me désseis alguma quantia para tenta- tiva. além da falta de roupa decente para freqüentar as escolas. Um semelhante estabelecimento tem no Pará consideravelmente prosperado: ali se contam hoje 123 alunos artífices. sendo retidos no estabelecimento até que sejam considerados oficiais. depois disso. Um edifício. ao amparo de órfãos e à formação da força de trabalho. o governo os fará recolher a uma das casas de asilos que devam ser criadas para esse fim com um regulamento especial.130 on Fri. de que tanto necessita. para continuarem os estudos. Ali serão conservados. como receita que sirva para amorti- zar parte da despesa que com eles se fizer. ou mesmo aos professores dos distritos. os meninos poderão ser entregues aos párocos ou coadjutores. manda-lo-ei ao Pará. obras públicas e particula- res. escolherei algum homem hábil para diretor. o pagamento mensal da soma precisa para o suprimento dos mesmos meninos. p.jstor. ou se me for possível distrair alguma soma da cifra dos eventuais. A casa assim regida receberá o nome de Casa de Educandos ou Artífices. foi o Asilo de Meni- nos Desvalidos. com os quais o inspetor geral contratará. Ela será ao mesmo tempo uma casa de caridade.39-40) O mais importante dos estabelecimentos estatais destinados.1.179. e tornam-se inúteis e pesados à socie- dade. determinava que o governo criasse asilos para os menores pobres: Se em qualquer dos distritos vagarem menores de doze anos em tal estado de pobreza que. porei em execução o meu projeto que em bem curto espaço merece- rá a simpatia do público e a vossa liberal dedicação. que o forem oferecidos.org/terms . no Rio de Janeiro. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata mova sua educação.62 e n. e se dirigirão ao arsenal. e princípios reli- giosos na primeira parte do dia. a um só tem- po.

Quando o aprendiz tivesse sua educação terminada. anexados aos requerimentos de matrícula. do Rio de Janeiro.216. marcenaria.179. carpintaria.144). 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. a instituição passou a ser solicitada por escalões burocráticos inferiores do aparelho do Estado e pelas classes mé- dias empobrecidas. Os menores eram admitidos nesse asilo com idade entre os 6 e os 12 anos e não eram aceitos os que tivessem defeitos físicos que impedissem o estudo ou a aprendizagem de ofícios. em 1875. Luiz Antônio Cunha trassem tão-somente aptidão para a aprendizagem de ofícios nas Forças Arma- das ou nas oficinas públicas ou privadas. se durante três anos um asilado não tivesse aprendido o que dele se esperava. que se destinguirem. dar-se-á o destino que parecer mais apropriado à sua inteligência e aptidão. O ensino dos ofícios era ministrado por mestres contratados para dirigirem cada uma das oficinas existentes. serão enviados para as companhias dos arse- nais ou de imperiais marinheiros. A outra metade 8 Ibidem. me- diante um contrato. depois de receberem a instrução de 1º grau. e sempre debaixo de fiscalização do Juiz de Órfãos. serralheria. O produto do seu traba- lho era vendido e metade do valor auferido era recolhido à Caixa Econômica. pelo ministro do Império. neste último caso com os respectivos proprietários.130 on Fri. A primeira era a instrução primária. aliás. O ensino compreendia três partes. Do mesmo modo. só foi criada depois de vinte anos. fazia há muito. funilaria.org/terms . ferraria. seria despedido. mostrando capacidade para estudos posteriores. escultura e desenho. entalhe. trabalhando nas oficinas. courearia e sapataria. encadernação. tornearia. alfaiataria. Luís Carlos Barreto Lopes analisou documentos de outorga de liberdade de crianças escravas. O autor con- cluiu que. As exigências do mundo urbano e industrial instavam a po- pulação a procurar os meios para que seus filhos ou protegidos fossem educa- dos para um futuro melhor (1994. música vocal e instru- mental. A segunda era constituída das seguintes disciplinas: álgebra elementar. como. geometria plana e mecânica aplicada às artes. porém. numa conta cujo montante lhe era entregue no fim do período.8 A primeira instituição com essa finalidade. o Arsenal da Guerra. o Asilo dos Meninos Desvalidos. ou para as oficinas públicas ou particulares. João Alfredo Corrêa de Oliveira. A terceira parte era constituída dos ofícios ensinados no estabeleci- mento: tipografia. além de abrigar os desvalidos. p. ficava obrigado a per- manecer no asilo por mais três anos. 116 This content downloaded from 179. assim como reco- mendações de militares ex-combatentes da Guerra do Paraguai.jstor. Os meninos que estiverem nas circunstâncias dos artigos precedentes. Àqueles. sendo inaugurada.

p. Passaria. Mas não era apenas a miséria material a determinante da clientela preferen- cial dos estabelecimentos de ensino de ofícios. em breve.jstor. chegou ao Brasil. dias santos e de solenidade. produto da exploração da força de trabalho escrava (africana e indígena) ou li- vre (libertos. Os cegos aprendiam tipografia (em Braille). O instituto minis- trava. Sua influência no governo deu-lhe condições que resultaram na criação. depois fora aplicado aos escravos. a Institution Impériale des Jeunes Aveugles. inicialmente destinado aos silvícolas. eram du- plamente desgraçados. Em 1856. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata era apropriada pelo asilo como pagamento do ensino ministrado. no Rio de Janeiro. Embora a comparação seja sugestiva.org/terms . Vamos a elas.216. em seguida aos mendigos. conseguiu os recursos necessários para a criação. que da- vam principal atenção à formação moral dos desvalidos. tanto física quanto socialmente. fabricação de vassou- ras. no Rio de Janeiro. além de educação geral pelo método Braille. ensinar a moral e a doutrina cristã. instrução profissional. embora o estabelecimento não fosse uma instituição propriamente correcional. afinação de pianos. do Imperial Instituto dos Meninos Cegos. espanadores e escovas. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. antes ou depois da missa. a cegueira ou a surdo-mudez. em Paris. subordinando a esse objetivo primeiro até o próprio aprendizado dos ofícios. Suas funções consistiam em dizer missa na capela do asilo aos domingos. Apesar de o asilo diferir das instituições fundadas pelos religiosos. a outros desgraçados” (1961. A disciplina era bastante severa. em 1854. também.130 on Fri. empalhação de móveis. espe- cializado na educação de surdos-mudos. Como disse Fonseca. v. e prestar aos asilados os demais ofícios do seu ministério. na França. encadernação. uma quantia igual a uma vez e meia o produto máximo estipula- do para um ano. a atender. o qual foi convencido da importância de se criar no país uma instituição semelhante à francesa. Esse período de trabalho poderia ser suspenso caso o asilado se dispusesse a pagar.137). No caso dos cegos e surdos-mu- dos. em 1855. do qual foi o primeiro diretor. é preciso distinguir que se trata de “desgraçados” de qualidades distintas: a “desgraça” física. Ernesto Huet. que aprendiam ofícios nas escolas criadas no Segundo Reinado. com pla- nos de fundar aqui uma escola semelhante. como compensação. do Imperial Instituto dos Sur- 117 This content downloaded from 179. e a “desgraça” social. O regulamento previa que um padre católico desempe- nhasse o papel de capelão. mestiços e europeus imigrados). A criação de uma escola para deficientes visuais deveu-se à iniciativa de um brasileiro cego que freqüentou. tornou-se preceptor da filha cega do médico da Corte. José Xavier Sigaud. Voltando ao Brasil.1. os cegos e os surdos-mudos. a religião assumia papel destacado no ensino. A passagem se refe- re aos desgraçados físicos. “o ensino necessário à indústria tinha sido. professor e diretor do Instituto de Bourges.179.

Em 1882 foi criada. encadernação. As escolas de ofícios manufatureiros assinaladas até aqui estão todas na li- nha que se estende desde a criação da Casa Pia da Bahia. com a reforma dos seus estatutos. Academia de Belas-Artes e curso de telegrafia Embora criada em 1820. história do Brasil. de 14 de maio de 1855. inglês. também.143.137-8). a Escola Mista da Imperial Quinta da Boa Vista. onde o aspecto as- sistencialista era diminuto. Mas houve instituições de ensino de ofícios. mineralogia. se não inexistente.1603. que a Academia de Belas-Artes passou a ter cursos efetivamente estruturados (Moacir. aprendiam ofícios como sapataria. foi somente a partir de 1855. torno de metais e madeira. história geral. zoologia. 118 This content downloaded from 179. noções de física. 1887. p. português.75-6). p. O curso de artes compreendia as seguintes matérias: ginástica. francês. além da educação geral. Sem serem órfãos. sua escola profissional. nas oficinas de carpintaria. v. Luiz Antônio Cunha dos-Mudos. p. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. desenho de orna- tos. 1936-1938. p. É o caso da Academia de Belas- Artes e do curso de telegrafia pública. desenho de arquitetura e regras de construção. no- ções de química.461-2). também. para eles. também criadas e mantidas pelo Estado. Estes. 1855: Decreto n. Souza Filho. Os aprendi- zes artífices se exercitavam. cegos ou surdos.130 on Fri. os filhos dos escravos liber- tos da Coroa receberam. flores e animais. O curso de ciências e letras tinha um currículo que o identificava com os do ensino secundário: instrução religiosa. Havia cinco seções de estudos. pautação e douração (ibidem.III. funilaria. botânica. gratuitos e de freqüência obrigatória (ibidem. desenho geométrico. matemáti- cas elementares. desvalidos. ferraria e serralheria. subdivididas em cadeiras da seguinte maneira:9 SEÇÕES CADEIRAS arquitetura desenho geométrico desenho de ornatos arquitetura civil escultura escultura de ornatos gravura de medalhas e pedras preciosas estatuária 9 Relatório da Repartição dos Negócios do Império.org/terms . articulando uma insti- tuição de caridade com uma instituição de ensino. que oferecia dois cur- sos.179.216.jstor. música. geografia.

Terminados os estudos acadêmicos em matemáticas e desenho geométri- co. Sendo aprovado. Por isso. teriam efeitos alta- mente salutares. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata pintura desenho figurado paisagem.10 Essas alterações. A admissão às aulas da Academia de Belas-Artes dependia de o candidato saber ler. e os artífices. A classificação dos alunos nessas duas categorias implicava um especial controle pedagógico e disciplinar dos artífices. “auxiliar os progressos da indústria nacional”. 1859. Os alunos da academia eram divididos em dois grupos: os artistas. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. o aluno recebia o diploma de mestre na sua especialidade. o que era verificado por uma comissão de dois examinadores. o aluno poderia se matricular em “desenho de ornatos”. todos os alunos deveriam se submeter a exame prático de sua arte ou ofício. Esta seria composta de “mestres práticos de ofícios de reconhecida perícia”.130 on Fri. Dizia ele: 10 Relatório do Ministro do Império. a cobrança de pagamento de taxa de matrícula e o funcionamento dos cursos apenas no período diurno eram fato- res que dificultavam a freqüência aos cursos de muitos artífices.jstor. além de servir direta ou indiretamente ao desenvolvimento das artes. e os das cadeiras relativas à sua especialidade. os es- tatutos foram novamente alterados. nomeada pelo corpo de professores da academia. flores e animais pintura histórica ciências acessórias matemáticas aplicadas anatomia e fisiologia das paixões história das artes. tornando livre e gratuita a matrícula e insta- lando-se um curso noturno.org/terms . desenho de ornatos. juntando ao seu requerimento certi- dão de batismo. 119 This content downloaded from 179. que se dedicavam às belas-artes. escrever e “contar as quatro espécies de números inteiros”. “anato- mia e fisiologia das paixões” ou “matemáticas aplicadas”. perante uma junta de mestres.216. A exigência de exames de admissão. Sua admissão dependeria da apresentação de um mestre formado pela academia. Os provenientes de fora do Rio de Janeiro deveriam ser apresentados pela Câmara Municipal ou autori- dade equivalente do lugar de onde vieram. estética e arqueologia música (não especificadas) As cadeiras de desenho geométrico. “escultura de ornatos”.179. que professavam as “artes mecânicas”. Sendo aprovado no exame prático. Haveria tantas juntas quan- tos fossem as artes e ofícios ensinados. no julgamento do diretor da academia. escultura de or- natos e matemáticas aplicadas visavam.

isto é. pelo afã com que vão afluindo alunos à Academia para este curso especial. Assim educados os industriais. Luiz Antônio Cunha O ensino industrial. trará. e os nossos lavrantes farão recordar na ourivesaria os tempos da colônia. da “aristocracia do talento”. diferenças importantes. A épo- ca gloriosa dessa Academia se aproxima. 120 This content downloaded from 179.9). da matrícula de artífices ao lado de artistas. de direito e nas escolas militares.jstor. dos artífices. Parece que a facilida- de relativa de ingresso aos estudos de belas-artes residia no fato de eles não ga- rantirem privilégios ocupacionais aos seus possuidores.11 Numa primeira aproximação. Para ingresso na academia.org/terms . Felix Ferreira expressou essa diferença com grande clareza: “a Academia de Belas-Artes é a escola da aristo- cracia do talento. en- tretanto. 11 Relatório do Diretor da Academia de Belas-Artes. é fácil verificar que a seleção cultural para o ingresso na Acade- mia de Belas-Artes era bem diferente do adotado nas faculdades de medicina. e suas obras pro- duzirão à luz tropical aquelas harmonias que caracterizam os monumentos da Gré- cia. nas outras escolas. nem de exercício de atividades profissionais controladas por grupos corporativos. dentro de alguns anos. porque vejo que se começa a sentir a necessida- de do conhecimento do desenho para apreciação das formas. um novo cunho aos artefatos da indústria nacional. esses engrimanços sem idéias nessas fachadas que não reveste pensamento algum. desaparecerão de nossas casas. na Academia de Belas-Artes? O intento de Lebreton teria vingado depois de quatro décadas? As tantas e reiteradas reclamações dos diretores a respeito das dificuldades do ensino para os artífices sugerem que a academia fora se especializando mesmo na formação dos artistas. então. na burocracia do Esta- do. o carpinteiro aprenderá a fazer com gosto as suas obras. exames preparatórios que mostrassem a posse de um capital cultural/escolar de longa e difícil obtenção. pois que do operário condenado surgirá o artista de talento. será reconhecida a eterna verdade que proclama que a arte é só dos artistas. Que dizer. Nos dois se ensinavam desenho. A academia foi criada para ser uma escola su- perior. de que tratarei mais adiante. escultura. gravura. pode parecer que o ensino da Academia de Belas-Artes fosse idêntico ao do Liceu de Artes e Ofícios. Entretanto. apenas as “primei- ras letras”. Há. p. não se repetirão mais tantas monstruosidades que diariamente vemos reprodu- zir-se (com raras exceções) nas obras de talha que adornam nossos templos. 1860. que se acha confiado a hábeis professores. e nas que entram na confecção dos móveis que se fabricam nesta cidade. anexo ao Relatório do Ministro do Império. o Liceu de Artes e Ofícios é a útil oficina das inteligências mo- destas” (1881.130 on Fri.179. deixando a cargo de ou- tras instituições a formação das “inteligências modestas”. como era o caso típico da medicina. estatuária.216. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. enquanto o liceu era a “escola do povo”. o canteiro saberá achar na pedra a doçura da cera.

org/terms . A importância da formação de telegrafistas não se prendia. princípios gerais de física e química aplicados às leis e teoria da eletricidade. Parece que a frustração das tentativas de construção de fá- bricas de ferro e aço. relativas às comunicações. iniciadas em 1852. princípios ge- rais de álgebra e geometria. reduzido “ultimamente” (antes de 1887) para um. As matérias práticas compreendiam escrita telegráfica. depois Central do Brasil. mas também às empresas particulares. As matérias teóricas eram as seguintes: aritmética. do Rio de Janeiro (1860). p. começaram a ser organizadas sociedades civis destinadas a amparar ór- fãos e/ou ministrar ensino de artes e ofícios.179. O trecho transcrito sugere que o autor devia estar pensando. arranjos das baterias. Para fazer face à multiplicação das comunicações telegráficas. retardou de muito a formação escolar de uma força de trabalho pelo menos tecnicamente orientada para a moderna produção fabril. foi criado. tem esta escola o grande mérito de preparar um pessoal habi- litado para o serviço do estado. senão para o artesanato mesmo. também. manipulação de aparelhos. 1887).jstor. É o que diz a passagem seguinte: Além de ser mais uma válvula por onde se pode expandir a vida intelectual dos nossos concidadãos. além das es- tradas de ferro. Uma dessas exceções foi a Escola de Maquinistas do Arsenal de Marinha. princípios gerais do magnetismo e do eletromagne- tismo em suas relações com a telegrafia. elementos de mecânica apli- cados à construção de aparelhos. Em 1885. F. 121 This content downloaded from 179.89)12 Liceus de artes e ofícios A partir de meados do século XIX. apenas às ne- cessidades do Estado. (idem. Quando foi criado. escrituração. O curso compreendia matérias teóri- cas e práticas. das estradas de ferro e das empresas particulares. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. Pedro II. de grande porte.216. desenho. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Poucas foram as instituições promotoras do ensino de ofícios que não se prendiam à formação de artífices orientados para a manufatura. com o aumento da produção manufatu- reira. o curso de telegrafia tinha dois anos de dura- ção. matricula- ram-se 48 alunos e apenas vinte completaram o curso. junto à Repartição Geral dos Telégrafos (Souza Filho. em 1881. outra foi a formação de telegrafistas. em outras empresas particulares que usavam telegrafia. processo de verifi- cação do estado das linhas. Os recursos dessas sociedades 12 É preciso chamar a atenção para o fato de que as estradas de ferro eram particulares. maneira de assentar aparelhos. prática da oficina.130 on Fri. um curso de telegrafia pública. principalmente às companhias de estradas de ferro. com a ex- ceção da E.

As mais importantes sociedades desse tipo foram as que criaram e mantive- ram liceus de artes e ofícios.jstor. Mas. eles tinham grande dificuldade em se organizar para reproduzir. 13 Além desses.130 on Fri. também. no Rio de Janeiro. em Florianópolis (1883) e em Manaus (1884). pela escola. O principal objetivo dessa sociedade de direito civil era o de “fundar e conservar o Liceu de Artes e Ofícios. sua formação técnica e ideológica. ainda no período imperial. das quotas pagas pelos sócios ou de doações de benfeitores. Salvador 1872 Associação Liceu de Artes e Ofícios Recife 1880 Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais São Paulo 1882 Sociedade Propagadora da Instrução Popular Maceió 1884 Associação Protetora de Instrução Popular Ouro Preto 1886 Sociedade Artística Ouropretana Vou apresentar. 122 This content downloaded from 179.179. primeiramente. em 1858. fazendeiros e comerciantes. na cidade mi- neira do Serro (1879). 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. no- bres. sociedades que tinham nos próprios artífices seus sócios. ex-aluno e professor da cadeira de arquitetura da Academia de Belas-Artes. pelo que depreendi das fontes examinadas.216. nacionais e estrangeiros. O primeiro desses liceus surgiu no Rio de Janeiro. de São Paulo e da Bahia. data e sociedade mantenedora apresento abaixo. em que se proporcionasse a todos os indivíduos. as quais assumiam importante papel na ma- nutenção das escolas de ofícios. ao que parece. uma visão geral dos liceus de artes e ofícios do Rio de Janeiro. o estudo de belas-artes e sua aplicação necessária aos ofícios e in- dústrias.org/terms . Sócios e benfeitores eram membros da burocracia do Estado. essas socie- dades só subsistiram quando conseguiram organizar um quadro de sócios be- neméritos que as dirigiam e mantinham com seus próprios recursos ou com subsídios governamentais que atraíam. por iniciativa do coronel Francisco Joaquim Bethencourt. em seguida. seguido de outros cuja localização. explicando-se os princípios científicos em que ela se baseia”. a Sociedade Propagadora de Belas-Artes. Houve. Luiz Antônio Cunha provinham.13 CIDADE DATA DE CRIAÇÃO SOCIEDADE MANTENEDORA Rio de Janeiro 1858 Sociedade Propagadora de Belas-Artes. O entrecruzamento dos quadros de sócios com os quadros da burocracia estatal permitia a essas sociedades se beneficia- rem de dotações governamentais. foram criados liceus de artes e ofícios. Em 1857 foi organizada. Por essa razão.

e. isso não impediu que outros benfeitores. Assim. Entretanto. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Os recursos materiais necessários ao funcionamento do liceu resultavam de doações dos sócios. ministro da Fazenda. a ponto de levar um ministro de Estado a afirmar que “na dedicação patriótica desses beneméritos. 1989. em 1880.197-8). doador de três prédios de sua proprie- dade no centro da cidade) (Barros. doassem recursos ao liceu. vários barões (inclusive o Barão de Mauá que instalou e manteve a ilu- minação a gás no primeiro prédio do liceu). 1956.jstor. provavelmente pertencentes à sua própria bu- rocracia. comendado- res e doutores. os artigos do conselheiro Leonardo Araújo no Jornal do Comércio. As aulas só reabriram quando o liceu passou a contar de novo com subsídios orçamentários. todos eles lecionando gratui- tamente. Doação importante. Mesmo assim. em dinheiro e em mercadorias. coronéis e almirantes. de 1864 a 1867. em 1879. condes e viscondes. por Gas- par da Silveira. numerosos conselheiros (inclusive João Alfredo Corrêa de Oliveira.org/terms . Ainda se- gundo Paes de Barros. conseguidos pelos sócios diretamente (quando eram.216. os recursos eram insuficientes: quando instalou um curso de desenho para “as moças e damas”. entusiasta do ensino industrial. e Leonardo Araújo. 123 This content downloaded from 179. de subsídios do Estado.41-71). a Gazeta de Notícias e o Jornal do Comércio estavam sempre abertos à divulgação do liceu. foi necessá- rio fazer uma campanha na imprensa para pedir auxílios financeiros a toda a população (Almeida.14 14 Relatório do Ministro da Instrução. Nesse sentido. Entre eles estão o imperador e a Princesa Isabel. por meio de discursos na as- sembléia. presidente eleito da Sociedade. a cessão do prédio da antiga Tipografia Nacional para o funcionamento do liceu. mas a sua pró- pria força de trabalho. campanhas na imprensa e solicitações pessoais. p. conseguidos também pelos sócios. Álvaro Paes de Barros alinhou os “grandes mecenas” que criaram condi- ções para o funcionamento do liceu. Estes eram membros das classes dominantes. altos funcionários) ou indiretamente.179.130 on Fri. parece que o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro era um pro- jeto educativo não completamente assumido pelo Estado. Era o caso dos professores. 1892. Os mecenas contribuíram também para manter o liceu por meio de campanhas na imprensa. p. Correios e Telégrafos. Mas é provável que parcela substancial dos recursos do liceu resultasse de subsídios do governo. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. muitos deles altos funcionários governamentais ou parlamentares. porque lhe foram negadas as verbas prometidas. Bar- ros menciona os discursos no Parlamento de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. A importância dos subsídios governamentais pode ser percebida no fecha- mento das aulas do liceu. principalmente. pois todos servem gratuita- mente. não recursos financeiros. também. repousa a vida e o futuro deste útil estabelecimento”.

tem por missão especial. Havia dois tipos de alunos: os efetivos. As matérias que constituíam o ensino do liceu estavam divididas em dois grupos. no ano seguinte ao da fundação da Sociedade Propagadora de Belas-Artes. mas para todo e qualquer indivíduo. foram inauguradas as novas instalações. que não tiver contra si alguma circunstância que torne inconveniente a sua admissão. Seu regimento dizia o principal objetivo: O Liceu de Artes e Ofícios instituído pela Sociedade Propagadora das Belas- Artes.130 on Fri. livre ou liberto. o conhecimento do belo.org/terms . o de ciências aplicadas e o de artes. a instrução indispensável ao exercício racional da parte artística e técnica das artes. inclusive as três ordens clássicas desenho de ornatos. além de disseminar pelo povo.216. ofícios e in- dústrias. que seguiam um curso completo. Para facilitar o acesso. Os cursos do liceu eram.jstor. como educação.179. propagar e desenvolver. “à exceção das que forem incompatíveis com o uso da luz artificial”. que seguiam apenas parte do ensino regular. Depois foram transferidas para a sacristia da Igreja de São Joaquim. não só para os sócios e seus fi- lhos. ou o constitua impossível ao estabelecimento”. onde funcionaram durante dezoito anos. As matérias de ciências aplicadas eram as seguintes: aritmética álgebra (até equações do 2º grau) geometria plana e no espaço descritiva e estereotomia física aplicada química aplicada mecânica aplicada As matérias de artes eram: desenho de figura (corpo humano) desenho geométrico. abertos. Dizia o regimento: “O ensino será gratuito. Durante o primeiro ano de funcionamento. pelas classes operárias. e os amadores. Em 1878. as aulas foram dadas na Igreja Paroquial do Santíssimo Sacramento. além de gratuitas. as au- las deveriam ser dadas à noite. em princípio. Luiz Antônio Cunha O liceu começou a funcionar em 1858. apenas vedados aos escra- vos. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. de flores e de animais desenho de máquinas desenho de arquitetura civil e regras de construção desenho de arquitetura naval e regras de construção 124 This content downloaded from 179.

água-forte e música (Fonseca. com as ensinadas na Academia de Belas-Artes não deixou de ser objeto de disputas. correspondente ao curso primário. pintura. Foi só em 1889 que o Visconde de Ouro Preto. sem tempo determinado. pautação. ape- nas de um gabinete de física. talvez se possa dizer que o liceu era só de artes. tantos cursos profissionais quantas fossem as matérias do grupo das artes. relativa a 1937. não tenho elementos para responder essa questão. pintura. o liceu dispunha. Segundo Barros (1956). realizado nas oficinas de encadernação. A referência que encontrei. flores. O ensino das artes. houve quem considerasse o liceu um arremedo da academia.179. impressão (para os homens). a insuficiência de recursos retardou bastante a abertura de oficinas. não era nem de artes nem de ofícios (1961.2. Já o liceu do Amazonas. pelo menos. conselheiro do Império e ministro do último gabinete.jstor.16 Parafraseando Fonseca.13). Entretanto. Até o fim do Império. em cinco séries: o técnico-profissio- nal. p. v. com seus alunos artífices. O advento do regime republicano foi benéfico para o li- ceu. desenho. deveria ser complementado em oficinas es- peciais. O liceu teria. 1878-1888. não de ofícios. o artístico. um laboratório de química mineral e outro de química orgânica. ao fabrico dos seus arte- fatos”. parece que a delimitação entre a atividade do liceu e a da academia não era totalmente clara. costura. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. p.216. alto-relevo em couro e artes aplicadas (para as mulheres). O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata escultura de ornatos e arte cerâmica estatuária gravura e talho-doce. Mas não seria descabido pensar que esta. além das salas de aula. em duas séries. Os novos dirigentes do Estado criaram mecanismos jurídicos e fiscais que 15 Não foi possível descobrir quando o ensino profissional masculino chegou a ter currículo fixo e seriado. importante quando se tem em mente a história do liceu paulista. apesar do nome. muito recente. bordados. compreendendo as matérias modela- gem. em termos de nomencla- tura. Teria essa real ou suposta superposição de atividades contri- buído para frear o desenvolvimento do ensino de ofícios manufatureiros no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro? Infelizmente. É possível que os alunos se matriculassem em uma das matérias do grupo das artes e em uma ou mais das ciências aplicadas. composição. xilografia etc. v. então. fosse um arremedo do liceu.2.org/terms .15 A coincidência de muitas das matérias de artes. água-forte. De qualquer modo. chapéus.130 on Fri.269-73). conseguiu reunir os recursos necessários à criação das primeiras oficinas. 125 This content downloaded from 179. pois não dispunha de oficinas. diz que o liceu tinha três cursos: o fundamental. no liceu. 16 Relatórios do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. 1961. nas quais os alunos aplicarão a teoria ou preceitos que tiverem aprendido nas aulas. “dirigidas por mestres competentes.

foi inaugurado o curso destinado às mulheres. Foi possível construir algumas tabelas estatísticas com as informações constantes dos relatórios do liceu. ginástica. estatística comercial. francês. Em 1881. 2º ano: desenho de sólidos geométricos. Luiz Antônio Cunha ampliaram as isenções e facilitaram as doações à sociedade mantenedora.434. em particular no setor das artes gráficas. já organizado se- gundo um currículo fixo. a 2. ampliar o número de alunos e oferecer cursos mais li- gados à produção fabril. de 1858 a 1888. ginástica. inglês. foi inaugurado o curso comercial. francês. música rudimen- tar. desenho linear. distribuído em quatro séries anuais: 1º ano: desenho elementar. trabalhos de agulha. italiano. também organi- zado segundo um currículo fixo. alemão. da seguinte ma- neira: 1º ano: português. história. quando as aulas do liceu não funcionaram por falta de re- cursos. 4º ano: alemão. em 1872. ginástica. A proporção de alunos nascidos em país estrangeiro variou bastante. ano da fundação. 2º ano: francês. sendo possível perceber-se uma tendência declinante a partir deste ano.1 mostra que o número de alunos se elevou de 351. trinta anos depois. mesmo tendo suas instalações destruídas por um incêndio. o liceu pôde se recuperar. como se viu. 4º ano: desenho de ornatos (cópia de gesso).179. estilo comercial. português. contabilidade. 1882. aritmética. trabalhos de costura. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. aritmética. A Tabela 5. a partir de 1868. 3º ano: desenho de ornatos.130 on Fri. direito comercial. a 29%. escrituração mercantil e elementos primordiais das ciências econômicas.jstor. distribuído em quatro séries. em 1885. A mesma tabela apresenta essa estatística segundo a nacionalidade dos alunos. Assim. as matrículas sofreram um decréscimo brusco. Foi somente depois de quatro anos que elas recuperaram a ordem de grandeza que tinham atingido. física e química (noções). 126 This content downloaded from 179. história pátria. geografia e noções de geometria com aplicação à este- reotipia. ginástica. português. botâ- nica e zoologia. cópia de estampa.216. geografia e cosmografia. 3º ano: inglês. em 1875. solfejo e canto. cujas oficinas foram inauguradas em 1911. música. em 1893. economia política. música e solfejo. Esse vigoroso crescimento sofreu solução de continuidade nos anos de 1864 a 1866. geo- metria. Além disso.org/terms . No ano seguinte. em 1858. noções de literatura. caligrafia. higiene doméstica. no intervalo de 10%. por razões não apontadas pela bibliografia consultada. caligrafia. francês.

no ano de 1888. de máquinas..268 1859 .4 mostra o número de alunos matriculados em cada uma das ca- deiras do Liceu de Artes e Ofícios. o curso li- vre apresentava 45.743 267 2. elementar). A Tabela 5. geométrico..498 1866 – – – 1882 2... 41. .. as que recebiam...126 372 2..233 1887 1.. Em 1885. de 1878 a 1888..115 1888 2.434 1873 858 271 1. 1858-1888 Nacionalidade Nacionalidade Ano Ano Brasileiro Estrangeiro Total Brasileiro Estrangeiro Total 1858 . a de música e a de português.129 Fonte: Relatórios do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1858 a 1888...jstor.6% nessa situação. Em todos os anos do perío- do..1 – Distribuição das matrículas do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.216.630 414 3. segundo nacionalidades dos alunos.179.3%. de 1878 a 1885. 151 1883 2.5% das matrículas.. . em todos os anos. permite ver que os alunos do curso livre eram mais velhos do que os demais. 392 1875 700 179 879 1860 ..044 1867 .083 351 2.888 213 2.834 310 2..262 1864 – – – 1880 1.9%. de ornatos. A Tabela 5.057 211 1.. 127 This content downloaded from 179. variando a proporção destes do mínimo de 18. 204 1878 814 235 1. não havendo uma tendência nítida na variação das taxas. de arquitetura naval.. 257 1877 642 210 852 1862 .6%. na mesma tabela. .. A distribuição por idade. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Tabela 5.6% de maiores de 20 anos... . em 1879.099 396 2. .770 423 2. está na Tabela 5. individualmente.144 1872 789 326 1. como nos demais.org/terms . 310 1876 619 193 812 1861 . A distribuição dos alunos por curso.2 apresenta a distribuição do contingente discente segundo fai- xa etária. maior número de matrí- culas.341 1865 – – – 1881 2. cerca de 25% dos alu- nos eram maiores de 20 anos.193 1869 627 196 823 1885 1.130 on Fri. . vê-se que eram as cadeiras de desenho (de figura. O curso profissional tinha. no período.010 1871 913 320 1. a maioria absoluta do corpo discente: 69%.074 267 1. ao máximo de 28... .. Se a propor- ção média era de 23.3.049 1863 ..495 1868 422 120 542 1884 1.. ... 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about.. a cadeira de português compreendia. para todos os cursos. 1879 990 272 1.101 1870 722 270 992 1886 1. essas cadeiras abrangiam 61. É possível ver que. nesse ano.. 351 1874 1. de arquitetura civil.

3 – Distribuição do número de alunos do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.572 572 2.216. e em- pregados públicos.676 Comercial 29 12 41 Feminino 385 106 491 Livre 123 103 226 Total 1. pois não se referia apenas.810 624 2. totalizando essas ocupações 97. como atualmente.9%. 22. já eram “artistas” que. como se chamaria atualmente: eram estudantes.832 678 2. aos artífices.jstor.663 524 2. Pouco mais da metade. 2. 17 Essa é uma categoria ambígua. no ano de 1888.183 861 3.533 477 2. com a exceção de pouquíssimos “industriais”17 (apenas dois).3%.651 550 2.434 Fonte: Relatório do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1888.8% dos alunos.5 apresenta a distribuição do número de alunos segundo a profis- são que tinham ao ingressar no liceu. buscavam aperfeiçoar-se.7%.2 – Distribuição do número de alunos do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro segundo faixa etária – todos os cursos – 1878-1888 Idade Ano Até 20 Anos +20 Anos Total 1878 764 285 1.810 624 2. 12. eram estudantes ou desempenhavam alguma ocupação terciária. aos proprietários de empresas manufatureiras.130 on Fri. O restante.187 1885 1.6%. A Tabela 5. Luiz Antônio Cunha Tabela 5. 128 This content downloaded from 179.201 1886 1. Tabela 5.144 1888 1.3%. segundo cursos e faixa etária – 1888 Idade Curso Até 20 anos +20 anos Total Profissional 1. 54.273 403 1.org/terms . também. criados. mas.498 1882 2. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. certamente.510 1884 1.044 1883 1.179.341 1881 1. empregados de comércio.262 1880 995 346 1.434 Fonte: Relatórios do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.862 636 2. de 1878 a 1888. 5.049 1879 924 238 1.010 1887 1.

195 112 79 Desenho de ornatos 36 815 59 57 138 116 89 92 Desenho geométrico 72 156 196 179 257 194 157 154 Desenho de máquinas 35 30 34 30 39 35 29 20 Desenho de arquitetura civil 25 32 39 27 27 27 24 22 Desenho de arquitetura naval 10 6 – – 9 2 17 7 Desenho elementar – – – 1. Passemos. Dr. 1934. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Tabela 5. ao mesmo tempo. mais tarde. ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.179. conforme o padrão seguido pela sociedade carioca. à burocracia do Estado e ao Parla- mento. 129 This content downloaded from 179. Obs. por cadeira. Os membros de sua primeira dire- toria eram pertencentes.: O total de matrículas não coincide com o de alunos.jstor. p. conselheiro Pires da Matta. senador Souza Queiroz. finalmente.7-8).143 1.936 2.216. Em 1873.126 1.997 Fonte: Relatórios do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1878 a 1885.497 1.6.126 1. conselheiro Martin Francisco.143 1.638 2. A Tabela 5.130 on Fri.583 3.244 1.016 2. realizando importantes modificações no ensino secundário e superior).org/terms .839 Aritmética 198 293 91 111 131 111 80 75 Álgebra 198 6 3 8 3 9 7 8 Geometria 198 55 66 24 20 12 14 17 Geografia – 11 12 15 – – 3 1 Anatomia humana e aplicada – – – – – – 10 – Total 1.701 1. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. ministro do Império.195 985 110 Escultura de ornatos – 8 – 57 138 19 27 15 Escultura de figura – – – – – – 27 15 Estatuária 2 8 3 3 23 19 – – Música 293 361 353 267 341 282 165 109 Caligrafia 21 99 32 22 41 44 25 12 Francês 96 62 42 28 16 24 22 24 Inglês 96 35 14 15 8 16 6 6 Português 449 669 534 1.4 – Distribuição das matrículas dos alunos do curso profissional do Li- ceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. foi fundada na capital paulista a Sociedade Propagadora da Instrução Popular. Eram eles: conse- lheiro Carlos Leôncio da Silva Carvalho (senador e. desembargador Bernar- do Caixão.887 3. Vê-se que os professores das cadeiras de desenho formavam o contingente mais numeroso (60). pois havia alunos matriculados em mais de uma cadeira.327 3. capitão Joaquim Ro- berto de Azevedo Marques (Severo.423 3. Rodrigo Silva. seguido pelos de escultura (12) e de português (9). com 131 sócios inscritos. 1878-1885 Cadeira 1878 1879 1880 1881 1882 1883 1884 1885 Desenho de figura 698 815 849 1.511 1. mostra as cadeiras dos 112 professores de 1885. agora.

o que ministrava as aulas. 1934. enviados ao presidente da província. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. 130 This content downloaded from 179.130 on Fri. 19 “Instalação das Aulas da Propaganda”. não era o mesmo povo que instalava a so- ciedade. O objetivo da sociedade era. a difusão do ensino primário numa época em que ele era ainda bastante restrito. p. O fato de não ter sido cria- do pelo Estado18 era motivo de orgulho: “A Propagadora é a obra do povo. p.jstor. trans- crito por Severo.216. Luiz Antônio Cunha Tabela 5.158. 20 Para uma análise aprofundada da ideologia com que os fundadores da Sociedade e do Liceu justificavam suas iniciativas. 10 de fevereiro de 1874.org/terms .179.20 18 Os estatutos da sociedade. Confundidos todos.676 Fonte: Relatório do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1888. foram apenas aprovados por não conterem nada que contrariava as leis em vigor. pelo povo e para o povo”. Correio Paulistano.3. primeiramente. via-se a “iniciativa popular” como força propulsora da igualdade.19 Decerto.5 – Distribuição do número de alunos do curso profissional do Li- ceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro segundo suas profissões iniciais – 1888 Profissão Nº Artistas 910 Estudantes 379 Empregados de comércio 212 Criados 89 Empregados públicos 48 Militares 9 Farmacêuticos 8 Dentistas 6 Empregados do foro 5 Industriais 2 Acadêmicos 2 Empregados de consulado 1 Oficiais de fazenda 1 Sacristães 1 Marítimo 1 Enfermeiros 1 Professor 1 Total 1. da civilização e do progresso. o que as recebia e o que delas se beneficia- va direta ou indiretamente. remeto o leitor a Moraes (1990).

ao comércio.130 on Fri. 131 This content downloaded from 179. sistema métrico e gramática portuguesa.jstor. caligrafia. não só mantido como ampliado. Em 1882. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. para cerca de cem alunos. As disciplinas. lecionadas inicialmente.org/terms . O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Tabela 5. penas. O ensino primário seria.6 – Distribuição do número de professores do curso profissional do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro.216. a sociedade instalou uma nova escola noturna. com o objetivo de “ministrar ao povo os conhecimen- tos necessários às artes e ofícios. aritmética. gratuitas e a sociedade distribuía aos alunos livros. A primeira atividade concreta da sociedade foi a instalação das aulas do curso primário que começaram a funcionar já em 1874. papel e tinta. a partir dessa data. segundo cadeiras – 1885 Cadeira Nº de professores Desenho de figura 12 Desenho de ornatos 12 Desenho de máquinas 6 Desenho de arquitetura civil 6 Desenho de arquitetura naval 6 Aritmética 3 Álgebra 3 Português 9 Francês 3 Inglês 3 Música 2 Geografia 3 Caligrafia 3 Desenho elementar 12 Desenho linear e geométrico 6 Escultura 12 Geometria plana 3 Geometria no espaço 3 Geometria descritiva 2 Mineralogia 3 Total 112 Fonte: Relatório do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro de 1885.179. Elas eram noturnas. à lavoura e às indústrias”. eram as se- guintes: primeiras letras. o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

geografia. estas eram dadas no Instituto dos Edu- candos Artífices. As matérias das ciências aplicadas eram as seguintes: aritmética álgebra geometria descritiva zoologia física e suas aplicações geologia e suas aplicações química botânica mecânica estereotomia agrimensura As matérias do grupo de artes compreendiam: desenho linear desenho de figura desenho geométrico desenho de ornatos desenho de flores desenho de paisagem desenho de máquinas desenho de arquitetura caligrafia gravura escultura de ornatos e de artes pintura estatuária música modelação fotografia No início do seu funcionamento. francês. história universal. higiene. cosmografia. p.179. história da pátria. Luiz Antônio Cunha Prometia-se a criação de novos cursos de comércio e agricultura. mantido e dirigido pelo governo provincial. estética. direito natural e constitucional. tinha seu currículo di- vidido em matérias de ciências aplicadas e de artes (Fonseca. bem como.317).2. psicologia. 132 This content downloaded from 179.216. como o do Rio de Janeiro. O curso do liceu paulista. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about.130 on Fri. história da arte e da indús- tria. 1961. o liceu não dispunha de oficinas para au- las práticas. inglês. anatomia. economia política. de aulas adicionais de português.jstor. Até o início do século XX. no próprio liceu. v.org/terms .

pelo que se depreende dos elogios de Ricardo Severo. A sociedade mantenedora do liceu baiano. os dados estão discriminados por ano (ibidem. donativos de sócios beneficiários e. Não foi possível precisar o grau de participação dos artífices na criação da sociedade Liceu de Artes e Ofícios.130 on Fri. passou a ser subsidiada pelo governo da província.110). porquanto alguns lecionaram de graça. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Nos primeiros anos. contava com a participação de artí- fices. Nos últimos anos do Império. Em 1896. o subsídio governamental. O Liceu de Artes e Ofícios da Bahia foi criado catorze anos depois do liceu do Rio de Janeiro. p. 1921.608 alunos passaram pelas aulas da sociedade. dos professores. a partir de 1884. Missão de or- dem moral e meramente humanitária. Essas doações parece não terem sido irrelevantes.org/terms . de 1873 a 1893.jstor. a sociedade recebia donativos re- gulares da Loja Maçônica América.10-8). (Severo.31-2) Além das contribuições de seus sócios. republicanos. Muitos de seus sócios. anualmente. As precárias estatísticas que consegui reunir dão conta de que 9. que porventura constituiu o motivo e a razão de tão ab- negada perseverança em cargo de tão minguado provento. como a do pernambucano. sob o prestígio oficial do desembargador João Antônio de Araújo Freitas Henriques (Boccanera Junior. p. 1934. são o mais eloqüente testemunho da quantidade e qualidade da colaboração individual prestada ao Liceu por nacionais e estrangeiros.216. Uma fonte diz que ela foi criada “por inicia- tiva dos operários. fazendo que as doações e os subsídios crescessem. e para outros não era a remuneração de cem mil réis em média por quarenta horas mensais de ensino noturno. devotados à sua missão da instrução popular como convictos missionários dum verdadeiro apostolado. outra fonte afirma 133 This content downloaded from 179. elas saltaram para 50 contos e não pararam de crescer. mas por um caminho diferente. como as demais.179. embora não dispensasse. p. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. No período que vai de 1885 a 1888. ocuparam cargos de desta- que no Estado. a sociedade se mantinha com os recursos de seus sócios e as doações. em trabalho. Foi o se- guinte o número de alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo nesse pe- ríodo: 1885 – 511 alunos 1886 – 594 alunos 1887 – 680 alunos 1888 – 738 alunos A proclamação da república foi bastante propícia ao desenvolvimento do liceu paulista. honrosas pela sua perseverança e maior utilidade. as subvenções do governo provincial montavam a 12 contos de réis. ao fa- lar dos professores do liceu: Estas folhas de serviço.

179. e inaugurado a 20 de outubro. a 9 de março de 1872. geometria aplicada à arte. em período diurno e/ou noturno as seguintes aulas (Viana. também con- selheiro e presidente da província. já funcionava na sede própria. douração. antigo solar dos condes da Ponte (Paço do Saldanha). feito presidente do Liceu de Artes e Ofí- cios por novo decreto. foram abertos os cursos. 1892?. Os alunos que não fossem filhos de sócios receberiam instrução gratuita. a par da instrução literária para seus membros e filhos des- tes. Nesse ano. álgebra. Os estatutos da socieda- de teriam sido encomendados por Freitas Henriques a Frederico Marinho de Araujo. p. considerado o advogado dos escravos e criador das sociedades liberta- doras surgidas na Bahia a partir de 1870. As aulas funcionavam nos perío- dos diurno e noturno. em assembléia na Sociedade Montepio dos Artistas. A partir daí. inglês. este ti- rou dela o nome de Freitas Henriques. Em troca desses benefícios e da instrução.jstor. já outra fonte coloca toda a iniciativa de criação do liceu em Freitas Henriques (Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. em cujo quadro se alistaram 159 sócios efetivos no primeiro ano de existência. embora o liceu acabasse sendo criado por decreto do presidente da província. Os 146 primeiros alunos.249). 1963. encadernação. quando estivessem doentes ou inválidos. francês. mais de duzentos oficiais compuseram uma lista com os quinze mais votados. visaria à formação profissional dos filhos de escravos beneficiados pela Lei do Ventre Livre (1871).18). Em 3 de maio de 1873. Este segundo objetivo consistia em prestar amparo financeiro aos sócios.704 sócios. a instituição contava com 1. marcenaria. Em 3 de novembro desse ano. 2º) observar a prática da fraternal beneficência”. passou a denominar-se Imperial Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. desenho. contra- partida do liceu ao subsídio governamental. matricularam-se nas aulas de primeiras letras. Enviada a lista ao presidente da província.130 on Fri. la- tim. a instituição cresceu bastante em quantidade e qualidade. Foram eles que aprovaram os estatutos. Funciona- vam.607 efetivos. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about.216. eles pagavam uma jóia e mensalidades. tinha dois grandes objetivos: “1º) promover a instrução téc- nica e profissional. quase todos filhos de sócios. em sede provisória. Joaquim Pires de Machado Portella. “de acordo com um grupo de artistas nacionais e estrangeiros. residentes na Bahia e fora dela” (Viana. A sociedade. sendo a de desenho a mais importante. pintura decorativa. O desembargador. sendo 1. Luiz Antônio Cunha que ela foi fundada pelo desembargador. p. além de auxílio às famílias para enterro dos associados. Em 1891. por decreto de Pedro II. a fundação da sociedade Liceu de Artes e Ofícios contou com a participação de artífices. geografia. 1892?): 134 This content downloaded from 179. história e gramática filosófica. Ain- da na década de 1870. De uma maneira ou de outra. 16 beneméritos e 81 honorários.org/terms . onde havia cinco oficinas: es- cultura.

que viria a se repetir vezes sem conta. outra para meninas) aritmética. outra para meninas e outra. chegando as ditas oficinas. noturna.216. o ensino pro- priamente profissional deixava muito a desejar.179. para adultos) desenho de figuras e ornato (uma para meninos. constante e bem encaminhado. a rejeição da força de trabalho manu- fatureira em assumir a reprodução ampliada de sua própria condição social? 21 Fala com que o Exmo Sr. abriu a 2ª Sessão da 27ª Legislatura da Assembléia Provincial no dia 3 de abril de 1889. do número de disciplinas e da instalação de oficinas. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. Desembargador Aurélio Ferreira Espinheira. Pelo menos é o que se deduz de relatório governamental. segundo decla- ra o Diretório.130 on Fri. Foi esse o caso do desinteresse dos mestres.88. constitua ainda a parte mais imperfeita e insuficiente do ensino no Liceu. que é um dos fins princi- pais da instrução. tem sido pou- co produtiva a despesa com ele feita. Dado em quatro oficinas que o estabelecimento possui. por terem os respectivos mestres perdido o interesse pela arte e pelo desenvolvimento de seus discípulos. 1889. parece que. aco- modados a um emprego que não dependia da produção orientada para o lucro de um empreendedor privado? Esse desinteresse dos mestres teria algo a ver com o desinteresse dos artífices em se filiarem à associação? Seriam um e outro formas diferentes do mesmo fenômeno.org/terms . 135 This content downloaded from 179. capri- choso.jstor. depois de destacar os grandes serviços que o Liceu de Artes e Ofícios estava prestando “à população”: É entretanto para lamentar que o ensino oficinal. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata primeiras letras (uma para meninos. Dizia na Assembléia o primeiro vice-presidente da província. álgebra. 1º Vice-Presidente da Província. a não poder competir com as oficinas ex- ternas. ainda. pela falta de trabalho escolhido. aponta para a dificuldade de se manterem oficinas para o ensino de ofícios fora do ambiente e das rela- ções vigentes na produção. Tipografia da “Gazeta da Bahia”.21 Essa queixa. p. geometria e trigonometria desenho industrial geografia e história universal piano e canto (para meninas) orquestra e canto (para meninos) música vocal e instrumental inglês teórico e prático francês teórico e prático português Apesar da multiplicação do quadro de sócios efetivos – fonte dos candida- tos potenciais ao ensino do liceu –. Salvador. pelo menos até o fim do período imperial.

prin- cipalmente) e de aumento da produtividade. na defesa de medidas protecionistas à produção manufatureira.260).1. já por Pedro I. O Auxiliador da Indústria Nacional (de 1833 a 1892). tendo como presidente João Inácio da Cunha. p.130 on Fri. ex- posição permanente destinada aos “artistas e fabricantes” (Fonseca.216.jstor. a agricultura e a pecuária. máquina ou memória de conhecida utilidade a benefício da in- dústria oferecido gratuitamente à sociedade”. na importação de máquinas e modelos para exposição. senador e ministro. Assim dizia o § 4º do capítulo 5º de seus primeiros estatutos: 136 This content downloaded from 179. quando já ti- nham surgido manufaturas que aproveitaram os benefícios protecionistas da tarifa Alves Branco.179. Em 1827. A atuação da sociedade consistiu na tradução de revistas técnicas estrangei- ras. confundindo-se com a produção manufatureira.org/terms . na publicação de uma revista mensal. a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacio- nal. A utilização de má- quinas era vista como um fator de dispensa de força de trabalho (escrava. Luiz Antônio Cunha Escola Industrial A iniciativa de fundação da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional deve-se ao fidalgo Inácio Alvares Pinto de Almeida que. a en- tidade veio a se transformar em órgão técnico de consulta do governo imperial quando um particular solicitava privilégios para a instalação de alguma manu- fatura. além das que fizessem certa con- tribuição regular. O nome da entidade foi calcado no da Societé d’Encouragement pour l’Industrie Nationale. foi instalada. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. 1961. também. em 1820. fonte de uma das suas pri- meiras e principais iniciativas: o Conservatório das Máquinas e Modelos. 1978). O objetivo da entidade – auxiliar a indústria – era definido num sentido bastante lato incluindo. Ademais. levou um pedido a João VI. Depois de 1850. Seriam sócios efetivos “todas aquelas pessoas que se fizerem dignas pelo testemunho ou apresentação de algum invento novo. em 1801. com duzentos subs- critores. magistrado. A licença foi expedida em 1825. de 1840. v. e Inácio Alvares Pinto de Almeida como se- cretário perpétuo (Carone. na defesa da imigração de trabalhadores livres para substituir a força de trabalho escrava. o Visconde de Alcântara. então. modelo. A necessidade de se promover a formação sistemática da força de traba- lho manufatureira estava colocada para a Sociedade Auxiliadora da Indústria Na- cional desde sua fundação. fundada em Paris. o termo indústria foi sendo definido em termos cada vez mais estritos. na promoção de exposições de produtos manufaturados no Brasil. para fundarem uma sociedade civil de incentivo à manufatura.

como gratificação. onde quase são desconhecidas. foi um objetivo sempre perseguido. dizia ter a es- cola noturna de instrução primária para adultos.org/terms . atendendo aos poucos conhecimentos dos nossos atuais Artistas. a ignorância é a companheira da anarquia e da demagogia. esta sociedade. embora a sociedade não deixasse de apoiar iniciativas com o mesmo fim.179. Isso. de 1843: O aperfeiçoamento da razão humana conduz ao refreamento das paixões. uma fun- ção moralizadora. chegando a instalar uma delas. se reclamam a posse de seus sagrados direitos. onde admitindo Mestres hábeis que o dirijam. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. onde se ensinas- se o uso de máquinas. No mesmo sentido. mas também o crédito. além do jornal que venderem. em 1871. que se ofereçam Modelos ou em grande ou em pequeno. e mesmo por preços cômodos. apesar dos seus reconhecidos ta- lentos naturais. procurará estabelecer um pequeno trem [oficina] seu próprio. se façam não só as Máquinas que se enco- mendarem. mas algumas outras de sobressalente para se venderem a quem as pro- curar. artigo publicado nesta revista. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Não sendo só bastante para se propagar o uso das Máquinas neste País. para que por esse preço se venda a Máquina por seis por cento mais sobre o seu custo total. calculando exatamente o custo das matérias-primas e a mão-de-obra. Tal oficina para o ensino de ofícios manufatureiros nunca chegou a ser ins- talada. “porque os homens dirigidos pela inteligência resistem mais vantajosamente ao arrastamento dos vícios e das paixões e. pelos Mestres do mesmo trem. Respondendo àqueles que pensavam ser perigoso “o ensino e a instrução nas classes inferiores da sociedade”. quando por ou- tra parte se tem observado que os hábitos de reflexão. A instrução dos artífices não era vista como objetivo apenas econômico. também. de curta existência em razão das dificuldades financeiras. político-ideológico. mas. dois entrarão para o Cofre da Sociedade e os quatro se repartirão. 137 This content downloaded from 179. curvam-se também obedientes ao cumprimen- to dos deveres que a sociedade lhes impõe”. dizia um artigo d’O Auxiliador da Indústria Nacional. A criação de escolas de agricultura.216. em 1854. e por conseqüência o uso das mes- mas Máquinas a benefícios da Indústria Nacional. o Farol Agrícola e Industrial. que se inaugurava. ajudam e favorecem o espírito de ordem e bom procedimento nos que a ela se dedicam. e es- tas são mais temíveis em espíritos incultos do que naqueles em que a educação pe- netrou.jstor. os quais seis por cento.130 on Fri. no que interessa não só quem as manda fazer. em fazendas experimentais. que são inseparáveis dos gostos da leitura. como fez com a criação do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. se ao mesmo tempo não houver Oficiais Mecânicos hábeis que as copiem e as fa- ção com toda a perfeição.

4%) podem ser classificados na categoria dos oficiais mecânicos. foram publicados anúncios na imprensa convocando os candidatos. foi ultrapassada. Depois de dois anos de sua criação. que havia assumido a direção de obras da alfândega do Rio de Janeiro.7. Chegou-se a aventar. Conseguindo do ministro do Império o empréstimo das salas de uma es- cola primária pública.jstor. Eles tinham as mais dife- rentes profissões.216. foi só em 1866 que a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional aprovou projeto de um dos sócios para a instalação de uma escola noturna gratuita de instrução primária de adultos que viesse a formar condidatos para uma vindoura escola de ofícios manufatureiros. para obrigar os operários que não soubessem ler a freqüentar a escola noturna da entidade. destacando-se os carpinteiros e os pedreiros. não obtendo sucesso algum. As razões encontradas para isso foram a vergonha dos adultos de irem à escola e o fato de eles não se beneficiarem.3%) era de alunos de 14 a 20 anos e pratica- mente um terço (34. com mais de 40 anos.130 on Fri. o diretor da escola noturna de adultos saiu a recrutar candidatos pelas fábricas e oficinas. 22 É interessante notar que o mobiliário foi construído na Casa de Correção. em um prédio cedido e reformado pelo ministro do Império João Alfredo Corrêa de Oliveira. e os restantes (3%). denotando a antiga e persistente ligação entre o ensino e a prática de ofícios artesanais e manufatureiros com o tra- balho compulsório e/ou corretivo da conduta desviante. a decretação de um regulamento do trabalho dos aprendizes. a 20 de maio de 1871. como solução. 138 This content downloaded from 179. mas. Praticamente a metade (52. uma parcela menor (10.org/terms . principalmente de portugueses (28. a Escola Noturna de Adultos foi inaugurada com a presença do imperador e altas autoridades do Estado. Outras medidas foram propostas como a proibição do trabalho in- dustrial para o escravo. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. de 31 a 40 anos.4%) de 21 a 30 anos. matriculando-se 390 logo no primeiro ano. André Rebouças. da isenção do recrutamento para servirem na Guarda Nacional. Os volumes consultados de O Auxiliador da Indústria Nacional não ex- plicitam as razões das mudanças. e os serviços do professor que residia no mesmo pré- dio.7%). mas.179. não era desprezí- vel a proporção de estrangeiros. como os alunos das escolas superiores e de escolas secundárias públicas. Como não aparecesse ninguém. cujo nome aparece em outras iniciativas ligadas ao ensino de ofícios manufatureiros. praticamente dois terços do total (66. Luiz Antônio Cunha Embora propósito antigo. conforme os dados da Ta- bela 5. a escola permanecia vazia.7% do to- tal). somando estes 27. a intervenção de um dos sócios. obrigando as empresas a enviá-los às escolas. Embora a maioria dos alunos fosse constituída de brasileiros (66.22 A lotação máxima prevista.4% do efetivo discente. de 120 alu- nos.3%).

ou quatro anos.216.179. 1872.403.130 on Fri. com as modifica- ções que seguiram aos primeiros estatutos. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Tabela 5. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. deveria ser desenvolvido em oito classes (graus). O programa de estudos da Escola Noturna de Adultos.org/terms . da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional – 1871 Profissão Nº Profissão Nº Carpinteiro 80 Militares 3 Pedreiros 27 Capelistas 3 Alfaiates 22 Tanoeiros 3 Caixeiros 19 Moças 3 Marceneiros 19 Trabalhadores de alfândega 3 Serventes 18 Empregados no foro 2 Ferreiros 15 Litógrafos 2 Maquinistas 13 Vigias 2 Estudantes 12 Carroceiros 2 Pintores 11 Relojoeiro 1 Sapateiros 9 Tipógrafo 1 Serralheiros 9 Bordador 1 Caldeireiros 8 Fabricante de instrumentos matemáticos 1 Empregados públicos 8 Fundidor de tipos 1 Latoeiros 7 Contínuo 1 Comerciantes 7 Confeiteiro 1 Encadernadores 6 Operário de construção naval 1 Torneiros 6 Canteiro 1 Cozinheiros 6 Serrador 1 Copeiros 6 Carapina 1 Ourives 5 Barbeiro 1 Tamanqueiros 5 Trabalhador das obras hidráulicas 1 Charuteiros 4 Bauleiro 1 Fundidores 4 Jardineiro 1 Calceteiros 4 Vaqueiro 1 Douradores 3 Entregador de jornais 1 Cigarreiros 3 Criado 1 Fonte: O Auxiliador da Indústria Nacional.jstor.7 – Profissões iniciais dos alunos da Escola Noturna de Adultos. com o seguinte conteúdo: 139 This content downloaded from 179. p.

46. tendeu a desapa- recer com o passar do tempo. geometria. 4º ano – 7ª e 8ª classes: língua nacional.4% do corpo discente. foram criadas aulas suplementares para supri-los. Apenas 24. destino projetado para os concluintes daquela. exercícios corográficos e desenho.6%). instrução moral e religiosa. menos oficiais mecânicos e mais alunos ocupados no comércio e nos serviços. sistema métrico decimal.130 on Fri. na sua maioria. desenho.179. moral religiosa e individual. aritmética. seguidos de portugueses (13. enquanto predominavam os caixeiros. instrução moral e religiosa. proporcionalmente. com 176 alunos matriculados em algumas matérias. instrução cívica e religiosa.8%. a diretoria da entidade aproveitou a oportunidade para abrir a Escola Industrial. 6ª classe: recitação e principais épocas literárias em Portugal e no Brasil. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about.216. às expensas do Estado. 140 This content downloaded from 179. pelo ministro do Império João Alfredo Corrêa de Oliveira.org/terms . instrução moral e religiosa. 2º ano – 3ª classe: gramática nacional.7%.jstor. 3º ano – 5ª classe: recitação e regras de composição. aritmética. Os candidatos eram submetidos a um exame de admissão. assemelhando-se os alunos de ambas as escolas. Com o oferecimento de mais um prédio para a expansão da Escola Notur- na de Adultos. enquanto a Escola Noturna não fornecesse os alunos dotados da formação esperada. desenho topográfico. 14. Os primeiros alunos da Escola Industrial eram. Como se revelou a insuficiência dos conhecimen- tos de muitos candidatos. de 21 a 30 anos. 4ª classe: gramática nacional.4% dos alunos poderiam ser considerados oficiais mecânicos. exercício de redação verbal e escrita. entretanto.8%). A Escola Industrial começou a funcionar a 8 de agosto de 1873. religião e moral. Luiz Antônio Cunha 1º ano – 1ª e 2ª classes: leitura. A distribuição de suas idades pode ser vista na Tabela 5. exercícios de composição e desenho. de 31 a 40 anos. Comparando os dados dos alunos da primeira turma da Escola Noturna de Adultos com os da primeira turma da Escola Industrial.6%) e de outras nacionalidades (4. brasileiros (81. exercícios corológicos e desenho. aritmética.6%. escrituração industrial e agrícola. alu- nos de idade mais elevada.8. é possível constatar que esta última tinha. caligrafia. Uma proporção de 36. e 1. aplicações da aritmética. os quais abrangiam 63.6% tinha de 14 a 20 anos. mais brasileiros e menos portugueses. funcionários públicos e es- tudantes. Esta última característica. mais de 40.

geologia e tecnologia mineral. geometria. 2º ano: mecânica. alemão. p. inglês. de dois anos de duração. contabilidade.130 on Fri. destinava-se a jovens maiores de 14 anos que tivessem os conhecimentos suficientes para seguir seu programa. As matérias ensinadas eram as seguintes: Curso Preparatório 1º ano: gramática. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Tabela 5. aritmética. trigonometria e estereotomia. geografia e história industrial.8 – Profissões iniciais dos alunos da Escola Industrial da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional – 1873 Profissão Nº Profissão Nº Caixeiros 40 Empregados no foro 2 Empregados públicos 37 Charuteiros 2 Estudantes 35 Empregados na Santa Casa de Misericórdia 2 Tipógrafos 9 Criado 1 Maquinistas 6 Negociante 1 Serralheiros 6 Professor 1 Sapateiros 5 Adjunto a professor 1 Militares 5 Correio 1 Carpinteiros 3 Chapeleiro 1 Ajudantes de guarda-livros 2 Médico 1 Guarda-livros 2 Carpinteiro 1 Alfaiates 2 Ourives 1 Encadernadores 2 Gravador 1 Pintores 2 Fundidor de tipos 1 Torneiros 2 Modelador 1 Fonte: O Auxiliador da Indústria Nacional. constru- ções civis. mineralogia. Curso Industrial 1º ano: geometria descritiva e perspectiva. aferidos em exame de admissão. A Escola Industrial. que também funcionava à noite. ciência moral. escritura- ção e legislação industrial. 1873. geografia geral e corografia do Brasil. 2º ano: literatura portuguesa e brasileira. filologia. e um curso industrial.jstor.216.179. desenho de máquinas e de arquitetura. desenho linear. lógica. história geral e do Brasil. metrolo- gia. higiene industrial.522. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. desenho de ornatos. 3º ano: mecânica industrial.org/terms . composição portuguesa. zoologia. de três anos. botânica e tecnologia orgânica. francês. física. desenho figurado e de máquinas. química industrial. desenho aplicado às artes e ofícios. química. 141 This content downloaded from 179. economia e estatística industrial. física industrial. Esse programa estava dividido em um curso preparatório. álgebra.

p.74. p. 1886.124. Obs.26. estavam no próprio desinteresse dos alunos. 1873.216. 1887.org/terms . Dizia o diretor da Escola Noturna.477. 1889. para explicar tal fato. Ao contrário de outras instituições já comentadas.9 – Número de matrículas nas escolas da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional – 1871-1891 Ano Escola Noturna de Adultos Escola Industrial 1871 390 – 1872 447 – 1873 279 176 1874 240 158 1875 244 112 1876 238 73 1877 136 128 1878 116 94 1879 114 76 1880 121 57 1881 144 52 1882 186 25 1883 209 26 1884 187 – 1885 161 18 1886 118 12 1887 146 12 1888 149 13 1890 114 23 1891 120 23 Fonte: O Auxiliador da Indústria Nacional. 23 O Auxiliador da Indústria Nacional. Os dados da Tabela 5.jstor. 1891. Luiz Antônio Cunha Nem a Escola Noturna de Adultos nem a Escola Industrial dispunham de oficinas. sua ausência não parece ter sido objeto de maiores preocupações. que os alunos contentam-se de ordinário com saber ler e escrever sofrivelmente. apesar do trem proposto nos estatutos da entidade mantenedora.122.9 permitem constatar a irregularidade do número de alunos matriculados nas duas escolas e sua acelerada tendência declinante. p.130 on Fri.23 Tabela 5. p.: Os dados relativos à Escola Industrial foram corrigidos com base nos relatórios de diretores. 142 This content downloaded from 179.179. As razões encontradas pelos diretores. e que daí vem o serem as classes superiores pouco numerosas. p. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. em 1873.

143 This content downloaded from 179. Em meados do ano. 3ª classe: gramática nacional (incluindo a sintaxe). não vendo 24 O Auxiliador da Indústria Nacional.24 Vai aí uma referência sutil ao Liceu de Artes e Ofícios que estaria atraindo os alunos das escolas da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional? Visando adequar os currículos às características dos alunos.130 on Fri. geometria linear. isso não seria razão para ficarem as salas quase vazias. até que. Escola Industrial 1ª cadeira: desenho linear. de arquitetura. Escola Noturna de Adultos 1ª classe: leitura. que o calor desprendido do sistema de iluminação a gás nas acanhadas salas era insuportável.9. incorporada à Esco- la Noturna de Adultos. 3ª cadeira: elementos de física e química e suas aplicações. p. e permanecerem nos cursos da Escola Industrial quatro a cinco alu- nos em cada aula e apenas um terço dos matriculados nas duas classes da Escola Noturna de Adultos. julgam tirar mais partido para seu aproveitamento nesta ou naquela matéria. 25 O Auxiliador da Indústria Nacional. junto com O Auxiliador da Indústria Nacional. 1880. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Já outro dizia. p. os relatórios já não se re- ferem a essa escola.53-4. nos últimos anos da década de 1880.216. A Escola Noturna de Adultos ficaria com apenas três classes e a Escola Industrial. máquinas e ornamentação. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. metade dos alunos já tinha abandonado as aulas. sem consciência do prejuízo que daí lhes resul- ta. mas apenas a uma classe de desenho. geografia e história do Brasil. O governo republicano. provavelmente em 1891 ou 1892. uma reforma tinha sido realizada em março de 1885. 2ª cadeira: elementos de geometria e álgebra (até equações do 1º grau). 2ª classe: idem.org/terms . escrita e cálculo.25 O currículo ambicioso dos primeiros anos da Escola Industrial foi defi- nhando.179. an- dando a experimentar diferentes escolas fundadas nesta Corte para o ensino notur- no das classes mesteirais. por falta de recursos financeiros. com apenas três cadeiras. A decadência das escolas mantidas pela entidade terminou com seu fecha- mento. Mas ele estava convencido de que se houvesse desejo sério de aprender. Quer me parecer que se devem atribuir essa impersistência dos alunos à volubilidade com que. em 1879. 1885.jstor. determinando a redução do plano de estudos. aritmética teórica e prática (até logaritmos).

181 alunos. 02 Jun 2017 15:59:36 UTC All use subject to http://about. Essa diferença talvez fos- se em razão da dimensão das instituições.org/terms . enquanto prosperaram os liceus de artes e ofícios do Rio de Janeiro e de São Paulo.179. Os dados apresentados por Tar- quinio de Souza Filho sugerem que o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janei- ro. 144 This content downloaded from 179. contava com as simpatias até mesmo do governo imperial. a iniciativa da Sociedade Auxilia- dora da Indústria Nacional encontrava seu fim. enquanto as escolas da SAIN matricularam um efetivo correspondente a apenas 18% daquele. Luiz Antônio Cunha com simpatia uma sociedade considerada reduto de monarquistas. pois.jstor. apesar de reclamar da insuficiência dos subsídios estatais. o liceu recebeu 25. cortou-lhe todos os subsídios. O orçamento para o ano fiscal de 1886-1887 previa um subsídio de 70 contos para o liceu e apenas 6 para as es- colas da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional. facilitados pelo novo regime. Assim.130 on Fri.216. no período 1874-1886.

Os milhões de brancos. e a inadequação dessas relações à produção manufatureira levaram-nos a defender a substituição da força de trabalho escrava pela força de trabalho livre. 6 Escravidão. passando em revista o pensamento de vários deles. No entanto. faz-se necessária uma digressão para apresentar um esboço das concepções a respeito da educação do povo. mulatos e caboclos dispersos pelo território brasileiro – formalmente livres – não se comportariam como assalariados num país com abundância de terras.jstor. Eles precisaram ser educados para verem o trabalho como um dever. os intelectuais do novo Império começaram a ver as relações escravistas de produção como empecilho à acumulação de capital.216. ideologia e educação profissional A questão da educação do povo. elevados pelas li- mitações ao tráfico negreiro impostas pela Inglaterra. elaboradas pelos grandes expoentes do pensamento conservador europeu dos fins do século XVIII e do século XIX. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. Mas havia o temor de que da libertação da força de trabalho escrava não brotaria imediatamente uma for- ça de trabalho livre disposta a trocar sua capacidade produtiva por salário.org/terms . a questão não admitia dúvidas: a coação física era a resposta pronta. Os custos de reposição do escravo. Os intelectuais do Império diziam isso. não pode ser entendida separadamente da questão da escravi- dão. Eles exerceram grande influência sobre os intelectuais do Império brasileiro. nessa como em outras matérias. Isso porque as questões surgiram como expressão de outra: como fazer os trabalhadores trabalharem? Enquanto a força de trabalho era toda ou quase toda escrava. como veremos em se- guida.130 on Fri. todavia. Estes não estavam apenas 145 This content downloaded from 179. do ponto de vista dos intelectuais do Im- pério brasileiro.179. desde a época da Independência. Antes disso.

E nesse caso assumia sem máscara os preconceitos de sua classe: por causa de sua ignorância e de sua miséria. a educação se tornaria necessária. ele falava do povo. futuro arauto da contra-revolução. requisito mão-de-obra e não clérigos tonsurados. permitia prever os percalços do caminho da “civilização”. o povo submetia-se às piores manifestações da ideolo- gia dominante. de modo que qualquer mudança em sua situação moral só lhes poderia trazer revolta. a serem evitados. e autor. Constava que seus componentes viviam por enquanto em grande pobreza material. não em uma visão de equilíbrio ideal da sociedade. Assim. então – e só então – seria possível em- preender a educação e a libertação do povo. Ao contrário de um Rousseau. Mande-me principalmente irmãos ignorantões [religiosos da Ordem de São João de Deus] que saibam atrelar e conduzir minhas charruas”. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. e que em sua Teoria das leis civis sustenta- ra que a instrução popular destruiria a sociedade. não escondendo um grande temor das massas. que cultivo a terra. o estudo dos autores europeus não só fornecia os paradigmas a serem seguidos como.jstor. cujo pensamento expressava uma constante indig- nação contra a ordem social injusta. de um Ensaio de educação nacional: “Grato por proibir o estudo entre os lavradores. o caminho para a revolução burguesa. e os remédios para a sua cura. reuni autores todos eles europeus – franceses ou ingleses – que eram lidos pelos homens cultos. É claro que. como todos. Encontravam lá. senhor. também. frustração e infelicidade. se inevitáveis. aí sim. Vejamos o que diz Lepape: Voltaire abominava as abstrações. em 1763. receando seu esclareci- mento.216.130 on Fri. foi um dos mais importantes entre os pensadores franceses do século XVIII. Se essa ideologia fosse mudada de cima para baixo. Voltaire preocupava-se tão-somente com a criação de condições institucionais para a mais completa dominação da bur- guesia. Voltaire não tinha uma teoria sobre o papel do povo. especialmente no que concerne à educação popular. François Marie Arouet Voltaire. que prepararam. As matrizes ideológicas Para compor as matrizes ideológicas que serviram de fonte para o pensa- mento dos intelectuais do Império brasileiro. também. “Não. Mas esse cinis- mo inscrevia-se em um relativismo prático. Luiz Antônio Cunha buscando nos mestres metropolitanos argumentos de autoridade. 146 This content downloaded from 179. Eu. Voltaire replicava a Simon Lin- guet. Voltaire dizia em carta a Louis-René de La Chalotais. e se houvesse um esforço para diminuir o grau da pobreza. em termos ideológicos. uma antecipação do caminho que o Brasil deveria necessariamen- te seguir para chegar à “civilização”. Se o progresso agrícola. futuro animador da revolta do parlamento bretão contra o governo. nem tudo estará perdido quando se der ao povo condições de perceber que tem uma inteligência. industrial e administrativo fizesse recuar a pobreza. ideólogo dos “déspotas esclarecidos”.179.org/terms .

de esposo. em 1776. embora o Estado não tirasse proveito algum da instrução do povo. Como disse em uma de suas tiradas: “Quando a plebe se mete a discutir. de cidadão. da própria divisão do trabalho. em conseqüência. na situação em que vivia. algumas reflexões durante o seu trabalho. ideólogos mais lúci- dos daquela classe. discípulo francês de Adam Smith. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. (1995. indiretamente. e colocaria mesmo mais delicadeza em suas relações de pai. não escondiam seu entusiasmo pela escolarização das clas- ses trabalhadoras.496) Paralelamente a essa idéia de que a educação do povo é um importante elemento na manutenção da ordem. elas não germinam de maneira alguma num espírito incapaz de aprender relações gerais: um operário ig- norante nunca compreenderá como o respeito à propriedade é favorável à prospe- ridade pública. 1983. mesmo sendo ele mais interessado nesta prosperidade do que o ho- mem rico. um pouco de leitura. um povo instruído e inteligente sempre é mais decente e ordeiro do que um povo ignorante e obtuso . Já os artesãos mais adianta- dos. que são forçados pelas exigências da profissão a refletir muito.. isto é. tudo está perdido”. Tais pessoas estão mais inclinadas a questionar e mais aptas a discernir quanto às denúncias suspeitas de facção e de sedição. p. o povo. p. os economistas. seriam suficientes para elevá-lo a esta ordem de idéias. que. dizia em 1803 que a educação dos operários era uma imposição que decorria. As idéias elevadas dão conta de uma visão de conjunto. que nações igno- rantes.. ele olhará todos os grandes bens como uma usurpação. de irmão. Pois cedo ou tarde eles atacarão com seus chifres . dão origem às mais temíveis desordens. p. pelo que são menos suscep- tíveis de ser induzidas a qualquer oposição leviana e desnecessária às medidas do Governo. a aperfeiçoar o gosto. Além disso.jstor. muitas vezes. eles se embrutecem. ele deveria cuidar para que não ficasse dela desprovido. como plebe.. a alargar as luzes. Um certo grau de instrução.. outro economista. Isso porque quanto mais instruído o povo menos estará sujeito às ilusões do entusiasmo e da superstição. (Say. Robert Malthus.216. tudo estará perdido quando ele for tratado como um rebanho de tou- ros.130 on Fri. A fragmentação e a repetição monótona das ope- rações dispensam os operários de usarem suas faculdades intelectuais e. (Smith.249-50) Enquanto isso.org/terms . deve- ria ser mantido em seu lugar. defen- 147 This content downloaded from 179. algumas conversas com outras pessoas do seu estado. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Ao contrário. Adam Smith já escrevia na Riqueza das nações. esses começam a ler pela Europa toda”.179. Ao mesmo tempo em que Voltaire expressava esse indisfarçado temor da burguesia diante da educação do povo.217-8) Jean-Baptiste Say. 1972.

(Malthus. Malthus dizia ter des- coberto uma lei natural: a população cresce mais rapidamente do que a produção. o complemento necessá- rio. cristalizou as propostas dos ideólogos da burguesia vitoriosa na Euro- pa do século XIX: cada escola aberta fecha uma prisão. p.216. De nada adiantaria a educação dos pobres se eles fossem “deseducados” pelas práticas caritativas que contrariariam a lei natural reguladora do crescimento da popu- lação proporcionalmente ao crescimento da produção. Nos seus ensaios sobre o princípio da população. sendo revistos e ampliados em 1803. inevitavelmente. 3 É interessante notar que foi a oposição de Guizot.179. redator de uma lei que instituía a liberdade de ensino primário para a iniciativa privada. escreveu várias obras pe- dagógicas. contexto no qual foi lançado o Manifesto comunista.org/terms . Guizot foi um importante historiador e educador francês.130 on Fri. chefe de governo da Monarquia restaurada na França. por si só. Nela. Luiz Antônio Cunha dia o trabalho obrigatório como meio de se evitar uma crise de grandes propor- ções. a uma crise social explosiva. Professor de história moderna na Sorbonne. recusando-se eles a trabalhar por qualquer que seja o salário pago. de Marx e Engels. ministro da Instrução Pública. Malthus procurou justificar o abandono das práticas caritativas. não pode quase nada contra a falta de garantia da pro- priedade. todos os bons efeitos que devem resul- tar da liberdade civil e política. num epigrama célebre. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. Primeiro. poderosamente.jstor. A assistência aos pobres seria fonte de dois males. Além de político. aquele que lhe teria sido designado por Deus e pela sociedade. Dian- te disso. portanto. a obra mais completa de Malthus. com efeito. As teses dessa obra foram incorporadas nos seus escritos posteriores. a indução dos pobres à ociosidade. mas ela reforça. o povo perma- neceria “em seu lugar”. 1969. 2 A primeira edição dos Princípios de economia política. 148 This content downloaded from 179. aos projetos de reforma eleitoral dos liberais e dos socialistas que contribuiu para desencadear a revolução de 1848. pois os pobres entram em concorrência com os ricos por uma produção cons- tante.1 Essa disparidade levaria. A instrução das massas preveniria as insurreições e as transgressões a todas as normas sociais. 1 Os Ensaios de Malthus foram publicados em 1798 criticando a legislação inglesa sobre os po- bres. A educação. pela ação da escola. retoma os princípios que regem o crescimento da população e da riqueza. ou em lento crescimento. das quais ela é. Segundo.181)2 Mas foi certamente François Pierre Guillaume Guizot que. dispen- sando o Estado de manter um grande e dispendioso aparelho repressivo. em tom menos apaixonado do que nos Ensaios de 1798-1803.3 Ao contrário do que temia Voltaire. é de 1820. a inflação. como a distribuição de comida aos pobres e defendeu emprego produtivo de todos os vagabundos e proletários expulsos da agricultura pelo desenvolvimento in- dustrial.

130 on Fri. prin- cipalmente em mineralogia. de medicina. em 1763.216. em São Paulo. uma antecipação das medi- das que José Bonifácio tentaria tomar quando se tornou. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. bem como ca- deiras avulsas de medicina.4 considerado o Patriarca da Independência do Brasil. e. um ano antes. começou sua participação no movimento pela independência. botâ- nica. de direito e economia. sua transforma- 4 José Bonifácio de Andrada e Silva antes de ser dirigente político foi cientista. zoologia e minerologia. José Bonifácio. as Lembranças de José Bonifácio deram origem a uma Re- presentação5 apresentada à Assembléia Constituinte de 1823. Somente depois de toda essa carreira. 1975. Paris: Firmin Didot. medidas que alterariam profunda- mente a estrutura social da Colônia quase independente. composta das faculdades de filosofia (ciências naturais.org/terms . nas Lembranças. De 1790 a 1800. As Lem- branças continham um verdadeiro programa político. apud Falcão. Em relação aos escravos. mas publicada somente em 1825. a criação de uma univer- sidade. Várias medidas diziam respeito à educação: a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades. matemática. também fracassou em razão da vitória da contra-revolução (Rodrigues. foi secretá- rio da Academia de Ciências e lecionou mineralogia na Universidade de Coimbra.90-102). realizando pesquisas mineralógicas na Província de São Paulo. horticultura. finalmente. 1825. de quem tratarei mais adiante. ministro do Império do Brasil. em 1823. exerceu vários cargos públicos. veterinária. p. realizou viagens de estudos por diversos países da Europa.1. De todo modo. um ginásio (ou colégio) em todas as províncias. vilas e freguesias. 5 José Bonifácio de Andrada e Silva. física. de fazenda e governo. aperfeiçoando-se e realizando pesquisas em vários campos. José Bonifácio defendeu sua libertação gradual. principalmente.179. bacharelou-se em leis e história natu- ral. o memorial fracas- sou. José Bonifácio propôs. v. Veio para o Brasil em 1819. Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislati- va. Voltando a Portugal. pois as cortes foram dissolvidas e uma constituição foi outorgada pelo rei. matemática e filosofia).jstor. na Universidade de Coimbra. embora eles tratassem essas questões de diferentes maneiras. a eleição de deputados das províncias do reino para integrarem as cortes gerais (o Parlamento). As idéias abolicionistas foram retomadas e sua condenação foi ampliada pela incorporação dos argumentos moralistas de Hi- pólito da Costa. sendo a desapropriação das sesmarias improdutivas a mais revolucionária de todas. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Os intelectuais do Império e o ensino de ofícios As conexões entre a (re)produção da força de trabalho. as- sim como a supressão dos castigos corporais. em 1783. 1963. elaborou em 1821 umas Lembranças e apontamentos que deveriam servir de orientação para a bancada de representantes da Província de São Paulo às cortes portuguesas. química. Nascido em Santos. no exílio. a educação e a abolição da escravatura não eram desconhecidas pelos intelectuais do Império brasileiro. cirurgia. como antecipação de programa político para a independência. O governo português tinha determinado. Como orientação para a bancada paulista. 149 This content downloaded from 179. aspecto menos conhecido de sua vida. e.

130 on Fri. as máquinas que poupam braços. pela abundância extrema de escravo nas povoações grandes. 150 This content downloaded from 179. Para tan- to. se essas medidas educativas e esses incentivos não dessem certo. porque não poderia haver um governo constitucional duradouro sem um povo instruído e moralizado. Sugeria medidas tendentes a fa- cilitar a alforria. propunha que se desse “instrução e moralidade” ao povo com escolas de pri- meiras letras e de ginásios onde fossem ensinadas as “ciências úteis”. a formar famílias de escravos. Nos ataques à escravidão e aos males dela derivados. Mas. Perseguido pela tardia Inquisição portuguesa. a abolição da escravatura. para evitar que os escravos viessem a reclamar esses direitos com “tumultos e insurreições” como estaria havendo na Ilha de São Domingos. Hipólito da Costa defendia a indepen- dência do Brasil. Na Representação. Ele foi demitido do ministério e partiu para o exílio. por ser maçom. a multiplicar suas rendas em cai- xas econômicas.216. Primeiro. além da felicidade eterna. Luiz Antônio Cunha ção pela instrução. Nessa revista. José Bonifácio e suas propostas foram descartados. são desprezadas.179. Segundo. Tão logo a Assembléia Constituinte foi dissolvida e outorgada a Constitui- ção por Pedro I. no que ganha(ria)m muito. enquanto o escravagismo foi revigorado. De 1808 a 1823. a su- bordinação e fidelidade devida dos escravos”. recebendo missões no estrangeiro. mormente sendo estes homens de cor”.jstor. no Caribe (Haiti). primeiro órgão da imprensa brasileira. O artigo XXIV da Re- presentação dizia: “Para que não faltem os braços necessários à agricultura e indústria. Eles deveriam ser “instruídos na religião e na moral. de “homens imorais e brutos” em “cidadãos ativos e virtuosos”. porá o Governo em execução ativa as leis policiais contra os vadios e mendigos. em 1824. o industrialismo e a monarquia constitucional. deveriam ser tomadas medidas repressivas. Hipólito da Costa6 escreveu um artigo sobre a escravatura no Brasil que marcou profundamente a consciência dos intelectuais do nascente Império 6 Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça formou-se em direito em Coimbra. exilou-se na Inglaterra em 1804. que podiam con- duzir uma ou duas carretas bem construídas com dois bois ou duas bestas muares. José Bonifácio ampliou seu objetivo geral de garantir a oferta de força de trabalho sem a escravidão. alertou para a necessi- dade de se promover a civilização dos índios e exercitar os ex-escravos (e os negros ainda escravos) no amor ao trabalho. Isto. por duas razões convergentes. publicou em Londres o Correio Brazilien- se. dedicando-se ao magistério. Causa raiva ou riso ver vinte escravos ocupados em transportar vinte sacos de açúcar. Para tanto. José Bonifácio men- cionou ser ela um obstáculo ao desenvolvimento da produção manufatureira: As Artes não se melhoram. após o que exerceu cargos públicos no governo metropolitano.org/terms . 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about.

1822.130 on Fri. a criada livre teria um motivo poderoso para ser virtuosa: a esperança de. (Almeida. fundador da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e seu secretário perpétuo de 1827 a 1843. pelo casamento. entre outras coisas.. exigindo uma forte disposição para que viesse a acontecer: é necessário . grifo meu) 7 Ignácio Alvares Pinto de Almeida. “as idéias vis. visando formar uma opinião pública fa- vorável à abolição progressiva da escravatura.574). licores e proprietário de refinaria de açúcar. que por força devem entreter as escravas. por reafirmar sua convicção de que a indústria. Quem se habitua a olhar para o seu inferior como escravo. a abolição repentina da escravidão no Brasil seria um “absurdo re- matado” mas sua perpetuação. que não aca- baria por si só. A criada. pois “sua virtude nenhuma vantagem lhe pode re- sultar (e alguma ganhará com sua depravação)”. tirariam suas idéias e virtudes das escravas. Pinto de Almeida7 ia na mesma direção de Hi- pólito da Costa ao declarar como inevitável o fim da escravidão. a esperar do superior um tratamento próprio ao escravo. p. Mesmo não sendo escritor. num sistema de liberdade constitucional.. Para a denúncia dessa contradição. Homens educados juntos com escravos ou recebendo. indiretamente. seria uma contradição inaceitável. Por outro lado. que se faça o sacrifício patriótico de extirpar de seu seio o cancro da escravidão que lhe corroe as entranhas e o enfraquece na marcha da sua prosperi- dade e da sua opulência. Pois bem. os vícios da escra- vidão “não podem deixar de olhar o despotismo como uma ordem de coisas natural”. de quem se recebe a maior parte das idéias e dos costumes. 151 This content downloaded from 179.jstor. Daí a razão por que o sistema político de liberdade constitucional é incompatível com a escravidão. acostu- ma-se. Para ele. só encontraria motivos para ser depravada. “figurar um dia no mundo tanto ou mais como a sua senhora”. as mu- lheres. Hipólito da Costa convocou os escritores brasileiros nas vésperas da proclamação da independência. p. Natural da Província da Bahia.org/terms . foi homem público de notória importância.179. hão de contaminar o espí- rito (quando não derranquem o corpo) das senhoras meninas com quem vi- vem”. também. sendo escrava. a primeira educação é feita pela mãe. 1977. pública ou particular. antes de se casar. com quem viveriam “na mais íntima sociedade”. seria o móvel principal da prosperidade e da riqueza de uma nação culta e independente.14-5. era fabricante de aguardente. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata brasileiro sobre os males acarretados por esse regime de exploração da força de trabalho para a vida política dos homens livres (Costa.216. E estas seriam as futuras educadoras dos homens do Brasil. Segundo seu raciocínio. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. No Brasil escravocrata.

quanto para o externo. compartilhando.jstor. O empresário era obrigado a dispender grandes somas na compra e na ma- nutenção dos escravos. talvez. de quem recebia serviços precários. Assim. bacharel em direito e escritor. 8 Antônio Gonçalves Dias. na obtenção de lucros e vantagens ante ou- tras nações. Esses interesses eram tanto os do empresário individual quanto os do Esta- do. o empresário baiano reafirmou a incompati- bilidade entre escravidão e liberdade. n. tem sobre ela uma ação des- moralizadora. “História da educação de adultos no Bra- sil”. entremeada com a população livre.2. no tocante aos escravos. O relatório está transcrito. exerceu diversos cargos públicos no Império brasileiro. Gonçalves Dias8 encontrou na proclamação das virtudes idealizadas do índio a contrapartida da denúncia dos vícios dos escravos.130 on Fri. prejudicial tanto para o mercado inter- no. isso “inutilize braços e os redu- za à miséria” (ibidem. que a ignorância tem tormentado contra seus verdadeiros interes- ses” (ibidem. O resultado era o elevado preço dos produtos nacionais. No entanto. Mais adaptado à ordem que veio se cristalizar no Império. isto sim. em 1852. dos temores de Vol- taire. mas não os da escravidão.216. 1949.17). No relatório da sua viagem de inspeção do ensino nas províncias do Norte do país. defendia a educação moral e religiosa dos escravos. 9 Transcrito de Departamento Nacional de Educação. que não procuramos remediar”. atenuar seus efeitos pela educação do escravo.146. o que estaria demonstrado pelo fato de que cada vez mais países estariam al- cançando o progresso sem o recurso à escravidão. É nesse espírito que Pinto de Almeida conclamou os brasileiros para a pro- moção da indústria nacional com trabalho livre assalariado.-dez.37.9 Enquanto Hipólito da Costa via a escravidão exercendo uma influência de- seducativa sobre os homens livres. o “tráfico da espécie humana” já havia se mostrado ser um estorvo. Gonçalves Dias propunha não acabar com esse regime. em Moacir. 152 This content downloaded from 179. 1936-1938..16). na íntegra. p.org/terms .. seu discurso de instalação da Sociedade Auxiliado- ra da Indústria Nacional em 1827. o autor de “Canção do exílio” dizia ser perigoso dar instrução (as primeiras letras) aos escravos. pois “essa classe .179. mas. p. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. dizendo que os “maquinismos” oferece- riam a um elevado contingente de trabalhadores livres recursos fartos para sua subsistência. “habilitando o Brasil por mais este meio a atalhar a peste moral da escravidão. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. como condição de felicidade mesmo que. Luiz Antônio Cunha Além dessa justificativa. v. set. p.

em termos financeiros. se as classes livres estão condenadas à estupidez. se o uso contínuo do arbítrio e da prepotência desnaturam o caráter nacional. Se ela crescesse à custa do trabalho escravo. Além dos males diretos à acumulação de capital. mais forte que a paixão da avareza. se a indústria não pode existir. não compensaria a futura produção do escravo. se tudo concorre para a corrup- ção e a desmoralização da população? (Burlamaqui. os obriga a torná-los os mais estúpidos possível”. porque não lhes compensaria.11 mas. prevaleceriam os males que Malthus atribuía à po- pulação pobre desempregada. Fazendo coro às idéias de Hipólito da Costa. p. Ora. a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional. 1837. 153 This content downloaded from 179. na escravidão. os mais firmes esteios da liberdade e da civilização. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Frederico Burlamaqui. Em parte. o engenheiro afirmava estar na escravidão uma barreira ao regime de liberdade constitucional. em particular a manufatureira. produzindo os meios de sua própria subsistência. como a aversão dos homens livres pelo trabalho manual. Nas suas pa- lavras: Como haverá prosperidade. O progresso impulsionado pela di- visão do trabalho e pelo uso de máquinas encontrava assim. como haverá liberdade.216. Os que aqui eram produ- zidos caracterizavam-se pela imperfeição. estabelecendo-se um círculo vicioso que obrigava aqueles a importar dos países onde a escravidão não existe “todos os produtos industriais que exigem alguma inteligência na sua confecção”. Ocupou diversos cargos públicos e secretariou. em parte. 11 O custo do longo tempo de aprendizagem de um ofício. e o faz inclinar ao despotismo e à aristocracia? Como haverão [sic] costumes e religião. “pela inabili- dade dos negros para todo o serviço que exige a menor porção de inteligên- cia”. por muitos anos. os escravos eram ensinados por outros escravos. se a existência da escravidão se opõe ao desenvol- vimento de todas as faculdades? Como haverá civilização. Essa aversão fazia que toda a produção.10 numa obra publicada em 1837. aca- basse sendo feita por escravos. isto é ilustração. ainda.jstor. mais o risco de fuga. isto é ordem. se os prejuízos se opõem à igualdade de condições.org/terms . um obstáculo invencível.130 on Fri. a escravidão acarretaria males indiretos.46) 10 Burlamaqui foi engenheiro militar e doutorou-se em ciências matemáticas e naturais. Diante do desinteresse dos senhores. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. porque a “necessidade da segurança. os senhores teriam “uma tendência natu- ral” a evitar o desenvolvimento das faculdades intelectuais dos escravos.179. de doença e de morte. Invertendo a teoria de Malthus para aplicá-la ao Brasil. alinhou uma série de argumentos econômicos para mostrar aos senhores o quanto lhes era des- vantajosa a escravidão. Burlamaqui dizia que a abolição da escravidão era necessária para fazer a população livre multi- plicar-se. também.

como na Europa). às dos “paí- ses civilizados”.org/terms . de prevenir as lutas de classes (abertas e ameaçadoras. As elites intelectuais passaram a perceber com mais clareza que a abolição da escravatura correspondia de fato aos interesses dominantes. A essas novas condições políticas e econômicas juntou-se. principal- mente a partir de 1870. estendiam e aperfeiçoa- vam as plataformas de José Bonifácio. os intelectuais brasileiros anteviam os perigos que brotariam. a preo- cupação com a Comuna de Paris. as elites intelectuais tendiam a traduzir os problemas do país – isto é. também. para aceitarem as relações capitalistas de produ- ção – foi. 154 This content downloaded from 179. situada em Macacos. não só de ma- ximizar o rendimento do capital investido. dos Sexagenários (1885) e. Aqui está um texto paradigmático.130 on Fri.12 Educados na Europa. também. Para uma extensão desse ponto. Mesmo que os tipos e as intensidades das lutas de classes no Brasil não correspondessem. A abundante literatura conservado- ra francesa sobre o movimento político do proletariado francês repercutiu no Brasil como uma advertência. A necessidade de não só libertar os escravos como. em 1870. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. A notícia da visita do imperador à fábri- ca de tecidos da Companhia Brasil Industrial. na Província do Rio de Janeiro. pela adequada formação da consciência dos trabalhadores e pela incorporação do maior número de in- divíduos à força de trabalho explorável. como os primeiros elementos da grandeza desse povo industrial e manufatureiro 12 Esse propósito antecipatório esteve presente em toda a discussão da questão educacional no Império. Umas e outras propiciaram o aumento da for- ça do crescente movimento abolicionista e a promulgação das leis do Ventre Livre (1871).216. Essas pressões ganhavam eficácia à medida que afluíam para cá os capitais interessados na produção manufatureira e na exploração de serviços públicos de água. para além do âmbito tratado neste texto. antecipada pelos intelectuais do Império brasileiro. Hipólito da Costa e Frederico Burlama- qui. de educá-los para serem livres – ou melhor. era preciso se preparar para enfrentar os problemas do progresso. ou mesmo no Brasil mas com professores e/ou livros europeus. na mesma posição das “nações cul- tas”. da Abolição geral (1888). certamente. ver Silva (1969) e Beisiegel (1974). naquele momento. então. principalmente franceses. dizia: A ordem e a disciplina que reinam no trabalho são dignas de ser mencionadas. Se o destino que atribuíam ao Brasil era o de se tornar um país civilizado. Luiz Antônio Cunha À medida que o tráfico negreiro foi sendo inviabilizado pelas pressões in- glesas multiplicaram-se os intelectuais que difundiam. iluminação e transporte. mas. os problemas das próprias classes a que se referiam – segundo os termos das equações armadas para a re- solução dos conflitos lá emergidos. no caminho para a civilização.jstor. finalmente. inevitavelmente.179.

v. para se construir um regime de liberdade. que assombram o viajante e que os diretores da nascente empresa inscreveram na primeira condição de seu programa. mar.org/terms . as luzes e a moralidade se derramam por todas as classes. p. e às outras a paciência. n. Citando abundantemente pensadores con- servadores franceses. de 1864 a 1881). e saberá conservar e fazer bom uso de sua liber- dade” (ibidem). província onde nasceu. Um povo esclarecido será pelo contrário um povo livre.XVI) Mas. p. O ensino médio seria composto de dois ramos. Se ao mesmo tempo que se generaliza no povo a necessidade do bem estar. doutor em direito pela Faculdade do Recife (1852). a riqueza e o egoísmo nas classes altas. em todos os seus graus e tipos.130 on Fri. e ele cairá na anarquia. a miséria e a inveja.jstor.XLIII. depois no despotismo. 1875. Liberato Barroso traçou o perfil do ensino que deveria existir para cada uma das classes superiores. seria destinado àqueles que se preparavam para o ensino superior. e nas classes baixas a ig- norância. inspirando a umas a justiça. ocupou os mais altos cargos públicos do país: deputado (pelo Ceará. também. 1867.216. em 1865. Liberato Barro- 14 so publicou um livro abordando os principais temas polêmicos da educação escolar no Brasil.XL) Diante da perspectiva de universalização do direito de voto. Tudo está em seus lugares e tudo funciona a tempo. Rio de Janeiro. O ou- 13 O Auxiliador. a escola teria. quando tentam qualquer empresa entre nós. mas conser- va-se a instrução. Para ele. 155 This content downloaded from 179. orientado para os estudos clássi- cos. o progresso caminha regularmente. Disciplina e ordem – eis a divisa dessas monumentais ofici- nas européias. de conteúdo geral. são inevitáveis as revoluções sangrentas. Em suma. a educação escolar era uma condição indispensável para se evitar a anarquia e. está a solução do grande problema que apavora os técnicos. 14 José Liberato Barroso. uma função econômica. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata que. “um bom ensino primário é a melhor garantia contra a anarquia” (ibidem.3. que exigem as reformas pacíficas. sabe transformar em riquezas colossais o capital do trabalho bem aplicado. as luzes difun- didas pela escola seriam insubstituíveis: “Concedei o sufrágio a um povo igno- rante. do outro lado do Atlântico. além dessa função propriamente político-ideológica.13 Logo após deixar o cargo de ministro do Império.179. (Barroso. Um grande perigo pode ameaçar a civilização moderna. ministro do Império (1864-1865) e presidente da Província de Pernambuco (1882). 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. onde foi professor catedrático. ao mesmo tempo. Um deles. Na harmonia desses movimentos e no aproveitamento des- sas forças produtivas.

currículo e valor social diferente dos destinados à formação de ge- rentes. Para que isso acontecesse ele propôs que se expandissem os estabelecimentos do Estado. o ensino profissional seria de- senvolvido em grau médio. que exi- gem para a classe abastada da indústria. cuja difusão era considera- da condição necessária do seu sucesso. p. nos quais o ensino artesanal e manufatureiro era ministrado ao lado de alguma instrução geral. assim como se ampliasse a liberdade do ensino privado. embora menos elevada do que a ins- trução clássica.org/terms . Liberato Barroso não deu muita importância ao ensino profissional para os trabalhadores diretamente ligados à produção. mas uma instrução mais adequada às necessidades das sociedades modernas e reclamada pela indústria e pelo co- mércio” (ibidem. 156 This content downloaded from 179. associada ou não à instrução pro- fissional.127-8). embora citasse alguns cursos dentre os já existentes na época.216. Este ramo teria a finalidade de preparar profissionalmente as classes abastadas. p. ficava reservada a escola primária. seriam destinadas aos que buscavam as profissões liberais e/ou atividades políticas. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. ensinadas nas escolas superiores. a instrução primá- ria era tida como base sobre a qual se colocaria a instrução profissional. (ibidem. Sua ênfase recaiu sobre a instrução profissional dos gerentes da produção. Na transcrição do paradigma francês para o caso brasileiro.jstor.128) No sistema idealizado por Liberato Barroso. Além disso ressaltou a instituição de estabelecimentos de ensino médio nos quais não se restringisse “somente à instrução clássica. à agricultura e ao comércio. embora tives- sem nível. parece que se propunha naquele país a formação de operários em escolas pós-primárias. p. Mais que condição. que se desenvolve a par do ensino clássico. mas nem todos os moços se podem dedicar aos altos estudos da instrução superior. (ibidem. do comércio e da agricultura uma instrução superior à instrução primária. em estabelecimentos destina- dos a desvalidos. mas precisam de uma instrução mais desenvolvida que a elementar. após a escola primária. e mais prática. Pelas citações dos autores-paradigmas franceses.46) As “profissões sábias”.179. os operários. Luiz Antônio Cunha tro ramo seria uma combinação de estudos clássicos com os de utilidades à in- dústria. Aos trabalhadores diretos. particu- larmente. para as diferentes carreiras que não são as do homem de letras. apropria-se às necessidades do novo estado da sociedade.130 on Fri. o grau médio ficou reservado aos gerentes. as que se dedicavam diretamente aos negócios: Essa criação ou generalização do ensino especial.

dizia. 1867. nem se apoiará no pedestal das revoluções. tende a aumentar a riqueza do país. fundar-se-ão as bases de uma organização do trabalho que não se baseará mais em utopias e so- nhos. de modo a morali- zá-las e a desenvolver a produção para transformar a sociedade sem “quebrar suas molas” foi. Compreendendo-se que o ensino profissional como uma garantia social deve salvar o futuro.16 um de seus diretores. Foi deputado em várias legislaturas da Assembléia Provincial paulista e chegou a ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros e da Justiça no governo do Império.216. Bruxelas: Sandoz e Fischbacher. 16 Martin Francisco Ribeiro de Andrada. industrial ou comercial. se lançarão pelo desen- volvimento desse ensino os primeiros esteios de uma nova organização. Ela será reencontrada. um certo abade Guettier publicou uma carta a Thiers. no pensamento dos autores examinados a seguir. que é a sua condição. Na abertura das aulas do curso primário da Sociedade Propagadora da Instrução Popular. e melhoran- do-a debaixo da dupla relação da qualidade e do preço. grifos meus) A proposta de um ensino profissional para as massas. O ensino profissional. Doze anos depois de editado o livro de Liberato Barroso aqui comentado. Como no trecho seguinte. integrando. que hoje dificilmente se poderá estabelecer sem se quebrar as molas da sociedade. formou-se em ciências jurí- dicas e sociais em São Paulo.org/terms . apud Barroso. constituíam sua mais importante assessoria. transcrito de um autor francês:15 Fazendo-se penetrar em todas as classes da sociedade uma instrução prática séria. 157 This content downloaded from 179. em 1874. desta feita contra a igno- 15 O autor citado pode ter sido Guettier (1865) que escreveu uma Histoire des écoles impériales d’arts et métiers. o Conselho de Estado. das relações com outros países e nas ocasiões em que lançava mão do poder moderador. Martin Francisco. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. Librairie de l’Office de Publicité. o núcleo de todo o pensamento elaborado no Brasil im- perial sobre o assunto.130 on Fri. p. que se estava iniciando uma nova cruzada. além de sua influência imensa sobre a moralização e emancipação das massas. Os dez membros desse conselho. sobrinho de José Bonifácio. em harmonia com as necessidades de cada uma dessas classes. de São Paulo.jstor. deve ser uma necessidade pública. Não somente ele fecha a porta das revoluções. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Mas essa correção do paradigma não impediu que as conclusões políti- co-ideológicas tiradas pelos seus formuladores fossem transferidas diretamente ao caso brasileiro. talvez. todos vitalícios e nomeados pelo impe- rador. explicitamente.129. desenvolvendo a produção. (Guettier. então presidente da República Francesa. in- titulada L’enseignement public consideré comme base de l’ordre social (Paris. Ele os ouvia nas questões gerais da admi- nistração pública. Não tive condições de saber se se trata- va da mesma pessoa. ingressando no corpo docente da Faculdade de Direito desta ci- dade. dirigindo as idéias do povo para as fontes do trabalho agrícola. mas pelos conhecimentos especiais que derra- ma. também.179. 1872).

Luiz Antônio Cunha rância. Ele reconhe- cia que nem todos concordariam com esse apelo. constituindo-se um todo homogêneo e compac- to. segundo o mais puro ideário liberal: Figuremos por um momento. p. estava a mostrar seus efeitos na prosperidade da indústria.179. 158 This content downloaded from 179. A experiência dos países civilizados. seria um empecilho ao “esfarelamento político” como o que teria propicia- do o golpe de Pedro I ao dissolver a Assembléia e outorgar uma constituição. que uma educação e instrução comuns. embora pouco conhecido enquanto tal. ameaçadora da segurança. confun- dindo todas as classes. Doc. IX. da esterilidade. que nos perturbam. que a igualda- de dos direitos seja de fato uma lei social. 1934. inspetor-geral da Instrução Pública da Província de Pernambu- co.216. o interesse e a agudeza demonstrada nas análises que efetuou fizeram dele um dos mais importantes educadores do Império.159). Martin Francisco refutava essa alegação. (ibidem) Por outro lado. p. Contra esse atentado à natureza humana. O Liceu de Artes e Ofícios. Como defensor das liberdades constitucionais e abolicionista militante.157 ss. seria “uma loucura e uma impiedade decretada contra os mais fracos”. Telé- grafos e Instrução Pública. substituto de Benjamin Constant no efêmero Ministério dos Correios. veremos sem dúvida desaparecer a máxima parte das causas da agitação. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. a resistência seria justa.org/terms . Mas se a emancipação dos escravos era vista como condição para diluir a “heterogeneidade civil”. deixou abundantes escritos pedagógicos nos relatórios e nos livros didáticos que escreveu. As conseqüências políticas e sociais da educação popular fariam surgir um regime de igualdade de oportunidades. o mesmo processo era diri- gido para a necessidade de se aperfeiçoar as raças existentes. da fraqueza.130 on Fri. o privilégio do saber. na melhoria da sorte do operariado e no aumento da riqueza pública.jstor. Em presença de tão edificante espetácu- lo. O longo tempo – dezessete anos – em que dirigiu o ensino público em Pernambuco. nos quais se cuidava da educação popular. A eliminação da “heterogeneidade física”. João Barbalho Uchoa Cavalcanti17 dava especial importância à instrução públi- 17 João Barbalho Uchoa Cavalcanti. da Sociedade Propagadora da Instrução Popu- lar.). de 1872 a 1889. num amálgama racial. estado original do povo (Severo. seria o instrumento dos ideais expressos por Martin Francisco. por substituir as causas pelos efeitos: “É na ignorância que se encontra a origem da anarquia e a estatística dos crimes se aumenta na razão direta do obscurantismo” (ibidem). formando-se em algumas gerações uma nação homo- gênea. prevalecente no Brasil de então. pois certos “espíritos tímidos” consideram a doutrina que defende a educação popular “como subversiva da ordem e contemporânea do sossego público” (ibidem. todas as aptidões se desenvolvem livremente.

de outra forma. Não es- 159 This content downloaded from 179. como seria o da monarquia constitucional. a indústria e o comér- cio. 1874. segundo o inspetor da instrução pública. p. que ela fomenta as artes. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. de instruí-los mesmo a contragosto seu. dificilmente se desenvolveriam. No caso em que “o menino for rebelde. e é o principal elemento do progresso em todos os ramos da atividade humana. as crianças não eram levadas à escola ou dela eram retiradas precocemente.5). seria necessário facilitar aos pobres meios de freqüentarem escola mas. que é um bem para cada indivíduo. (Caval- canti. João Barbalho os via resultarem de dois tipos de escola. Se o povo permanecesse ignorante. eco- nômicas e políticas.216. também. os ignorantes nem sempre procuravam a instrução por vontade própria. e por isso mo- nopolizado pelo Estado que o distribuía ou o confiava ao clero para distribuí-lo em parcas e mesquinhas rações” (Cavalcanti. Diante disso. propiciaria o surgimento de diferentes ta- lentos e vocações que. para os arsenais do Exército ou da Ma- rinha. iludir a vigilância dos pais. liberalize-se ao povo todos os meios ne- cessários para instituir-se. João Barbalho propôs que facilite-se ao pobre a frequência das aulas. (ibidem. combater a ignorância (votantes e eleitores analfabetos!) seria o primeiro dever do governo. a polícia se- ria chamada para levá-lo como recruta. o governo “do país pelo país” seria “uma ficção e uma mentira”. pela variedade de matérias. abrindo-se novos horizontes ao cidadão. Os efeitos positivos da instrução popular para o fomento da produção ma- nufatureira.jstor.org/terms . lhe impõem a necessi- dade de ser instruído. que as relações civis. “elevando-se o nível da inteligência nacional e da moralidade pública. p. que pela instrução se mantém o respeito ao direito.130 on Fri. inspire-se-lhe a convicção de que é ilustrando-se que ele engrandece. num regi- me de “sufrágio quase universal”. Já se teria compreendido que só a instrução pode fazer a felicidade de um povo. Como mecanismo de viabilização da escola para o povo. é uma garantia para todos e uma segurança para o Estado. que a instrução. seria varrida a igno- rância. 1876.33) Dessa forma. O ensino primário. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata ca como condição para o progresso da sociedade. prospera e assume a posição que lhe asseguram seus destinos.3) Todavia. Em razão da negligência dos pais e da “indolência própria da classe mais baixa de nosso país”. Mas a eficácia da luta contra a ignorância não se resumiria ao campo propriamente político. em que se vê na sociedade o indivíduo. ausentar-se da escola sem causa”. Isso porque.179. depois de três comunicações ao pai ou tutor. p. Dizia ele que “passado já é o tempo em que o pão do espírito era tido por perigoso alimento. à ordem e à paz. à província e ao país” (ibidem).

ministro do Império em dois gabinetes. um ins- petor nomeado pela presidência da província (este seria o presidente do con- selho). João Alfredo foi o criador do Asilo de Meni- nos Desvalidos no Rio de Janeiro. Enquanto ministro do Império. criado no Rio de Ja- neiro em 1875 pelo conselheiro João Alfredo.179. na capital. e o diretor da escola (Fonseca. Escolas como essa viriam “fomentar as artes e indústrias. deputado-geral em quatro legislaturas. mais tarde. 1961. em 1875. presi- dente das províncias do Pará e de São Paulo.141-2).274-5). de parcela da receita orçamentária do Estado e de doações de particulares. Estipulava a criação. p. membro do Conselho de Estado. O Jornal do Comércio de 16 de março de 1875 trouxe um texto louvando a iniciativa do ministro. em nome do gabinete. Cada província deveria abrir pelo menos uma escola desse tipo. o decreto que aboliu a escravidão no Brasil.130 on Fri. se houvesse no município). Luiz Antônio Cunha condia sua admiração pelo Asilo de Meninos Desvalidos. p. Diminuirão o número de vagabundos e pretendentes a empregos públicos” (ibidem. Cada escola estaria sujeita a um conse- lho administrativo composto dos seguintes membros: um representante de cada paróquia do município. instituído pelo mesmo projeto. senador. de escolas profissionais onde fossem ensinadas as ciências e suas aplicações. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. veio a ter o seu nome (Instituto João Alfredo). nos municípios do Império. Em 23 de julho de 1874. Apesar de João Barbalho ter desenvolvido esse pensamento enquanto era ainda um “intelectual provincial”. dois representantes eleitos pela Câmara Municipal (um deles seria médico. dando-lhes pessoal moralizado e apto. um bom exemplo da ideolo- 18 Político do Partido Conservador. a ponto de considerá-lo modelo para as províncias. não sucedido.216.org/terms . o deputado João Alfredo Corrêa de Oliveira18 apre- sentou à Assembléia Geral Legislativa um projeto de lei. Foi ele quem apresentou à Princesa Isabel.jstor. dimensão nacional: idéias e até mesmo citações de seus relatórios foram encontradas por Bresciani (1976) no relatório de 1880 do diretor da Instrução Pública da Província de São Paulo. as que fossem mais convenientes às indústrias exis- tentes ou que viessem a existir. propiciando “a melhoria das classes operárias e um meio de favorecer a infância pobre educando-a para o trabalho”. creio não ser descabido dizer que ele teve. oriundo de Pernambuco. João Alfredo Corrêa de Oliveira foi deputado à Assembléia desta província. o qual. eleito pelos cidadãos qualificados (dois represen- tantes se o município tivesse uma só paróquia). 160 This content downloaded from 179. já nessa época. reorga- nizando o ensino primário e secundário em todo o país. ministro da Fazenda. As despesas dessas escolas seriam cobertas com recursos provenientes de um imposto progressivo sobre a renda das pes- soas físicas.

161 This content downloaded from 179. É este um ato de filantropia digno de encômios e que muito honra ao Sr. antigo negociante desta praça. (apud Fonseca. desde livros didáticos (antologias. O estabelecimento desta impor- tante casa de caridade. A benção do palacete foi celebrada pelo Rev. lições de coisas e ensino de francês) até obras de análise pedagógica (como o da educação da mulher) e perfis de instituições escolares. foi. algumas delas sendo. quando a ascensão do movimento abolicionista desorganizou a produção. aproveitadas por Rui Barbosa. quando se retirou com a sua co- mitiva. que devemos considerar como o gérmen de uma vasta insti- tuição que ramificará por todo o país. Depois da cerimônia serviu-se um copo d’água aos convidados. às 5 horas da tarde. e anteontem. como se poderia crer pela justaposição fre- qüente de ambas as posições.M. colchas e cobertores da melhor qualidade. João Alfredo não era abolicionista. a infância. moralizando o povo na sua fonte. o Imperador conservou-se no palacete até às 8 horas da noite. Ministro do Império e de nu- merosos convidados. o Imperador. mantenedora do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Ja- neiro.130 on Fri. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata gia que concebia a formação da força de trabalho para a indústria como obra de caridade: O antigo palacete Rudge. a fim de estabelecer ali o Asilo da Infância Desvalida. cartilha. no qual ofereceu proposições dignas de nota. do Sr. depois dos me- lhoramentos e consertos por que passou. na presença de S. do qual foi sócio-benemérito dos mais celebrados. O Sr. posteriormente. àquela hora.org/terms . p.140-1) Quatro anos depois. fez ao novo asilo uma valiosa oferta de lençóis. Embora assumisse a defesa da formação da força de trabalho industrial.M. 1961. Emílio Simonsen. Ele só aderiu ao fim da escravatura em 1887. João Alfredo foi eleito presidente da Sociedade Propa- gadora de Belas-Artes. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about.jstor. 19 Escritor e jornalista profissional. As aulas e dormitórios são espaçosos e pode dizer-se que a aquisição desta propriedade para tal fim foi das mais felizes. anteontem. não restando aos “barões do café” outra saída para o controle da força de trabalho senão dirigir o processo de libertação dos escravos conforme seus próprios in- teresses. reúne todas as condições que poderão desejar-se. Felix Ferreira publicou numerosos livros sobre educação. Vigário Geral Monsenhor Felix Maria de Freitas Albuquerque. é mais um título da glória que ficará ligada ao nome do atual Ministro do Império.179. Fora este edifício há tempos comprado pelo go- verno imperial. O edi- fício em que tem de funcionar o asilo com as suas dependências. Simonsen. teve lugar sua inauguração oficial. S. à Vila Isabel.216. Felix Ferreira19 escreveu um interessante texto sobre o Liceu de Artes e Ofí- cios do Rio de Janeiro. fronhas. tea- tro de uma bela festa de caridade.

02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. e da “falta de vulgarização do desenho”. comba- ter os dois males apontados pelo autor. a força de trabalho ficava. vendo-a exercida pelo escravo não a professa porque teme nivelar-se com ele. Luiz Antônio Cunha Ele partiu do princípio de que a agricultura não seria capaz. a um só tempo. Dentre as causas que estariam impedindo o avanço das indústrias no Brasil. p. Já a Academia seria a “escola superior do estudo da arte levada ao seu maior grau de perfeição”. não à sociedade existente. Felizmente. não procura engrandecer-se aperfeiçoando-a. mas. objetivando. esse “cancro social”. Este.130 on Fri. (Ferreira. sim. e o escravo. es- pírito elevado e vocação distinta”. tributária das realmente civilizadas. o autor apontou o “atra- so das artes industriais”.jstor. Não bastava aos seus alunos ter habilidade e boa vontade.79). Os formados pelo Liceu seriam operários empregados na produção de mercadorias destinadas ao consumo material. seria o resultado do regime escravista vigente. de fa- zer a riqueza de um país.216. o mais ignorante ainda. p. à socie- dade que se deveria construir. onde a quase ausên- cia de indústrias estaria mantendo seu povo na rotina. assim. fazendo a nação conti- nuar sendo tributária dos grandes centros de civilização. O homem livre.24) Não bastasse essa desvalorização da técnica implícita nas relações de pro- dução escravistas. paralelamente. pois exigia-se deles “talento.179. 162 This content downloaded from 179. Seria necessário que houvesse. Os formados pela Academia seriam produtores de mercadorias destinadas ao consumo simbólico. então. referida às potencia- lidades inatas da força de trabalho futura: “A Academia de Belas Artes é a alta escola da aristocracia do talento. eis a diferença entre ambas as instituições. o Liceu de Artes e Ofícios vinha oferecer cursos de desenho e a valorização da arte. ignorante em matéria de arte. fora do circuito imediato da acumulação de capital e sob outras relações de produção. “sustentar e opu- lentar uma nação”. o Liceu de Artes e Ofícios é a modesta oficina de vulgaridade da inteligência” (ibidem. destinada à forma- ção da força de trabalho “indispensável à existência da sociedade civilizada”.org/terms . entorpecida pela igno- rância do desenho. Em resumo. nivelada com estas. Este seria justamente o caso do Brasil. uma produção manufatureira para que ambas pudessem. mais ligadas ao trabalhador por conta própria e submetidos ao mecenato. por sua vez. o despreparo da força de trabalho. Ferreira faz uma distinção entre as funções do Liceu e as da Academia de Belas-Artes. ou seja. tendo à arte o mesmo horror que vota a todo trabalho de que tira proveito para alheio usufruto. O Liceu se propunha a ser uma “escola rudimentar de arte aplicada às diferentes ramificações da indústria fabril manufatureira”. sozinha. 1876. também. Mas a principal distinção entre um e outro estabelecimento de ensino proviria das diferenças dos processos de trabalho e relações de produção que envolviam a força de trabalho formada por eles.

alimentado e vestido pela oficina. manteve o Liceu de Artes e Ofícios dessa cidade. Seu emprego teria. para isso. a freqüência livre nos cursos superiores. reformando o ensino superior em todo o país. Como ministro do Império. Foi professor da Faculdade de Direito de São Paulo.179. pois mesmo que seu rendimento fosse mais baixo do que o dos adultos. fundador e membro da primeira diretoria da Sociedade Propagadora da Instrução Popular. de 19 de abril de 1879. o salá- rio seria menos que proporcionalmente inferior.7. Pelo decreto. Assim. a mesma que. Num exemplo concreto: Em uma oficina de encadernação ou brochura. a partir de 1882. o resultado financeiro poderia ser bastante favorável ao Liceu. dispensando-o de subsídios governa- mentais.jstor. ad referendum da Assembléia Geral Legislati- va. Instituía. (ibidem. O Liceu teria as mesmas razões para empregar crianças. desde que reconhecidas pelo Estado. p. Estas poderiam conceder diplomas conferidores dos mesmos privilégios dos expedidos pelas instituições públi- cas. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. o autor defendeu ser o emprego de meninos mais vantajoso do que de adultos em numerosas atividades industriais. Leôncio de Carvalho20 promulgou o Decreto n. Com base no exemplo das “maiores fábricas européias”. assim. Essa reforma pretendia in- troduzir profundas modificações no sistema de ensino. um menino dobrando 200 fo- lhas é de mais vantagem que um homem dobrando 4. ao passo que aquele.247. a baixo custo. duas medidas a serem tomadas: a exploração do tra- balho infantil e o aproveitamento das sobras de matéria-prima. as escolas particulares primárias e secundárias privadas no município da Corte passariam a ter os mesmos privilégios das escolas oficiais. mesmo fazendo-se-lhe um peculiozinho de gratificação.000.167-8) O emprego de crianças era recomendado às fábricas particulares por elevar a taxa de lucro e aumentar o suprimento de trabalhadores adultos qualificados. porque este vence pelo menos um salário de 2$500 a 3$000. aliando os dois lemas da doutrina liberal: a liberdade 20 O conselheiro Carlos Leôncio da Silva Carvalho desempenhou importante papel na pregação das idéias relativas ao ensino profissional.130 on Fri. 163 This content downloaded from 179. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata A importância que Ferreira atribuiu ao Liceu fez com que se preocupasse muito com sua própria capacidade de manter-se. junto com o aproveitamento das sobras de matéria-prima. o mesmo acontecendo com as escolas superiores de todo o Império. cria- da em 1873. Sua finalidade própria seria a de formar trabalhadores e. também. dispensando os subsídios do Estado. Propôs.org/terms .216. não despende 600 rs por dia. a produção de mercadorias de alta qualidade (em razão do ensino profissional lá ministrado). nada melhor do que começar fazen- do-o com meninos.

Achou prisões repletas de criminosos. e as segundas ao ensino prático das artes e ofícios de mais imediato proveito para a população e para o Estado. para os meninos.179. tivessem concluído a escola de 1º grau (de quatro anos).I. No ensino de 2º grau. o decreto mandava incluir no currículo do ensino de 1º grau matérias destinadas à formação de força de trabalho: “ele- mentos de desenho linear” e “costura simples”. Não encontrou escolas profissio- nais. também.. conforme as necessidades e condições das localidades. as primeiras a dar a instrução técnica que mais interesse às indústrias dominantes ou que conve- nha criar e desenvolver.org/terms .jstor. Luiz Antônio Cunha de ensinar e a de aprender. o decreto previa um importante papel para o poder central. 1881. t. sob a alegação de que implicava aumento de despesas e exigia maiores estudos prévios.216.8 que o Governo Central poderia: Criar ou auxiliar no município da Corte e nos mais importantes das províncias escolas profissionais e escolas especiais e de aprendizado destinadas. Rio de Janeiro: Imprensa Nacio- nal. em um país cuja principal riqueza é a indús- tria. para ad- missão às oficinas do Estado. tanto assim que estipulava terem preferência. de 15 de maio de 1879.208-9. A liberdade de crença de alunos. estaria precipitando reformas para as quais o país não estaria preparado. complementarmente. esta apenas para as meninas. que ali não estariam se o Estado abrindo-lhes os olhos da consciência por meio da educação tivesse-lhes patentea- do as sublimes verdades da moral e da religião .. Sessão de 15 de maio de 1879. Sua história terminou com a 21 Anais da Câmara de Deputados. Sal- vou-se apenas a parte relativa à freqüência livre nas escolas e a liberdade de crença para alunos. instituída. em igualdade de condições com os demais. até então ausente deste setor. na mesma linha doutrinária. previa-se a existência de “prática manual de ofícios”. p. professores e funcionários. A instrução primária era considerada no decreto uma qualificação impor- tante para o operariado. Dizia o Artigo n. principalmente a indústria agrícola. os indivíduos que. Na sessão da Assembléia Geral. A jul- gar pelo depoimento do próprio ministro. No que se refere ao ensino profissional. Leôncio de Carva- lho apresentou a justificativa mais importante do projeto. 164 This content downloaded from 179. Dizia que ele próprio viu a ignorância dominando populações inteiras com o inseparável cortejo de misé- rias e vícios. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. ou pelo menos de aprendizagem. acusado de socialista. além da continuação do ensino de desenho. Por outro lado.130 on Fri. professores e funcionários foi. seu projeto.21 O decreto foi longamente discutido e finalmente revogado. t.

autor de L’instruction du peuple. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata proposição de substitutivos. 1883.22 dizia que o socialismo era uma das três graves questões que ameaçavam a sociedade (a questão religiosa e a questão política eram as outras duas). no bojo das discussões em torno de seu projeto. Isso não o impediu de apelar para as “ruas e praças das cidades”. 23 Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo era filho de senador e senhor de engenho pernam- bucano. a educação faria diminuírem os gastos com as penitenciárias e os asilos de mendigos. No dizer de Emília Viotti da Costa. em 1878. Numa conferência proferida em agosto de 1883. Nabu- co escrevia em O Abolicionista: “É no Parlamento e não em fazendas ou qui- lombos do interior. A educação seria a solução para essas questões. que será comen- tado mais adiante. pudesse defender seus interesses. entre os quais o de Rui Barbosa. impossibilitada. onde tomou contato com as idéias republicanas e abolicionistas.7). ingressou na diplomacia. o que fez que. Joaquim Nabuco23 se considerava “in- vestido de um mandato da raça negra.130 on Fri.179. começasse a defender a abolição da escravatu- ra. eleito deputado. seu re- duto eleitoral. tornando-se de pronto um dos principais líderes desse movimento. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. 1966. tão logo fosse eleito deputado à Assembléia Geral. o objetivo implícito de criar condições para a mais eficiente exploração da força de trabalho. p. 22 Sociólogo francês. mais especificamente as do Recife. Mas sua manifestação dizia respeito aos interesses das classes proprietárias. Sua esta- da em Washington e Londres reforçou as convicções assumidas.jstor.366). Em 1883. Revelando uma inspiração di- reta ou indireta de Guizot. Citando Laveleye. dizia o conselheiro que. A escola preveniria o socialismo pela confraternização de todas as classes e “dando ao operário aptidão profissional e hábitos de economia. 165 This content downloaded from 179.org/terms . Terminado o curso. pelo combate ao crime e à miséria. de manifestar-se em prol da sua libertação” (Costa.216. pois os recursos empregados na educação dos desvalidos seriam recompensados pelo “aperfeiçoamento moral da sociedade” e pelo de- senvolvimento das indústrias. nem nas ruas e praças das cidades que se há de ganhar ou perder a causa da liberdade” (ibidem. existia. Mas.365). p. Estudou na Faculdade de Direito de São Paulo e do Recife. onde pedia votos aos trabalhadores para que. Era a estas que apelava e no próprio espaço político delas: o Parlamento. tor- na-o interessado na manutenção da ordem de que ele carece para ver garanti- do o fruto de seu trabalho” (Carvalho. como veremos mais adiante. p. Leôncio de Carvalho defendia-se da acusação de adotar medidas socialistas. dos quais o mais importante seria a liberta- ção dos escravos. contraditoriamen- te. pela condição em que vivia.

em primeiro lugar. compará-los com os dirigidos aos trabalhadores livres. dizia saber que o maior problema econômico e políti- co do Brasil era “atrair para o seio do nosso país ou desenvolver dentro dele” um contingente tal de força de trabalho livre que a transição do regime escra- vocrata para o salarial pudesse ser feito sem “depressão da nossa renda. os argumentos abolicionistas apresenta- dos por Nabuco na Assembléia Geral. Já no primeiro ano de sua atividade parlamentar.163-4. 1949. depois. p. Dizia ele na Assembléia Geral ainda em 1879: “Não há falta de braços no país. também. as condições do país. não porque olhe para o interesse dos proprietários. a alternativa de preparar a transição com o elemento humano já disponível. mais rigoroso do que porventura o negro”. “homens que estão prontos a sofrer um tratamento mais duro. Restava. seria necessário incentivar a imi- gração de trabalhadores europeus e promover a gradativa libertação dos escra- vos.19-20). mas dos seus interesses a longo prazo: Senhores. o estancamento de todas as nossas fontes de renda . que a partir da época em que 24 Discurso de 1º de setembro de 1879.jstor. in: Nabuco.15) No mesmo discurso. Luiz Antônio Cunha Vou comentar. mas porque olho para as condições do trabalho. A força de tra- balho assalariada deveria ser construída a partir dos trabalhadores livres exis- tentes (mas ociosos) e dos escravos. o que há são muitos bra- ços cruzados”. assim. Era violenta- mente contrário à imigração de chineses. a Lei do Ventre Livre já tinha sido promulgada. mas de modo a “evitar que no futuro os elementos de ordem e de trabalho que tememos se transformem em elementos de anarquia e de desordem”.179. Não tinha dúvidas a respeito da disponibi- lidade de um contingente demográfico suficiente. porque o interesse dos proprietários ainda poderia ser indenizado. 166 This content downloaded from 179. Nabu- co não considerava eficazes as então existentes. não sou partidário da emancipação imediata.. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. p. Significava que os filhos de escravos nascidos a partir de então teriam não só a liberdade de vender sua força de trabalho. 1949. para. pois reconhecia como inúteis as tentativas de fazer colonos trabalharem ao lado de escravos. como.org/terms . e sei perfei- tamente que a emancipação imediata seria a suspensão repentina de todo o traba- lho no país.24 A solução para descruzar os braços e pô-los a trabalhar seria a “educação dos ingênuos”. (Nabuco.130 on Fri. Quanto às medidas destinadas a incentivar a imigração de europeus.216. resultan- do numa escravidão disfarçada (ibidem. Para isso. sem os inconvenientes de ordem pública”. poderia acompanhar mais ou menos a condição do nosso crédito.. p. ele definia seu alvo não como a defesa dos interesses imediatos das classes dos proprietários de escra- vos. Naquele ano.

O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata fizessem 21 anos passariam a ter o direito de voto. Nesse sentido (a defesa da sociedade política diante do possível ingresso no corpo eleitoral de novos con- tingentes. de modo que os futuros ex-escravos adqui- rissem hábitos de trabalho voluntário. mesmo o uso de ferros e correntes. escrever e os princípios de moralidade aos escravos e aos filhos livres de mulher escrava. de que é ladrão. Para a conversão das consciências. dizendo: É cedo demais para dizer-lhes que essa raça não correrá ao salário. de comportamento ainda imprevisível. advertia: “não será tempo de pensar-se na educação e de acautelar-se o futuro de homens destinados a fazer parte da sociedade brasileira?”.216. o projeto previa a instituição do ensino primário em todas as cidades e vilas. Tanto para sua instrução como para seu trabalho os escravos terão direito a um dia livre por semana. Dizia o Artigo n. seriam imediatamente abolidos. de- pois da Lei Áurea. pergunto: qual foi a raça no mundo que jamais aprendeu a respeitar a propriedade senão pela edu- 25 Embora elaborado em 1880. mesmo o gradual. 167 This content downloaded from 179. Os proprietários seriam obrigados a enviar para ele todos os seus escra- vos e “ingênuos”. As mães escravas deixariam de ser separadas de seus filhos e os irmãos mais velhos dos “ingê- nuos”. e a defesa da economia. Joaquim Nabuco propôs à Assembléia Geral.130 on Fri. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. em 24 de agosto de 1880. Os castigos corporais. Melhor seria promover a imigra- ção em massa de europeus.org/terms . 1º de fevereiro de 1881. O projeto pretendia a abolição total da escravidão até o fim da década de 1880. bem como nenhum outro de semelhante propósito. Cf. Diante disso. já libertos pela Lei do Ventre Livre. A questão é que essa raça ainda não tem as garantias necessárias para o homem livre trabalhar. de modo que adquirissem conhecimentos de leitura. O Abolicionista. o projeto só foi publicado no ano seguinte. com inde- nização aos proprietários de escravos. um projeto de lei. Se há queixas de que o negro é vadio. ainda resistentes ao abolicionismo. vagabundo.19 do projeto: Serão estabelecidos nas cidades e vilas aulas primárias para os escravos.179. surgiram na Assembléia Geral lamentos dizendo que os ne- gros libertos não serviam para o trabalho livre. Os se- nhores de fazendas e engenhos são obrigados a mandar ensinar a ler. ga- rantindo a oferta de força de trabalho). Joaquim Nabuco respondeu a esses lamentos. A compra e venda de escravos cessaria imediatamente. de responsabilidade e de dignidade pes- soais.25 Esse projeto não teve sucesso. rejeitado pela maioria dos deputados. também não o seriam.jstor. O processo de abolição da escravatura seguiu seu curso até que. escrita e dos “princípios de moralidade”. As associações organizadas para emancipar escravos receberiam terras para nelas instalar colônias agrícolas para os libertos.

a expansão. em contrapartida. porém acabou por se opor às medidas da esquerda vindo a apoiar a ascenção de Napoleão Bonaparte ao poder.29 26 Discurso de 15 de novembro de 1888. talvez. enérgico. Foi um dos fundadores do Clube dos Jacobinos. Nem o Estado tinha essa consciência ou.179. e além disso estais desarmado por falta de organização.27 Posta esta linha de apelo político aos senhores de escravos e seus repre- sentantes. lamentasse a falta de organização destes e pedisse que se organizassem para dar novos destinos ao país. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. 27 Discurso de 4 de março de 1880. Dizia que a Alemanha tinha um exército de 2 milhões de homens e o Estado conhecia todos os seus soldados. e não influís pela fortuna. 168 This content downloaded from 179.11. 28 Emmanuel Joseph Sieyès. porque o dia da emancipação se aproxima”. enquanto grandes correntes de idéias não vos move- rem e não tiverdes consciência da vossa força. como fazia o proletariado organizado dos países da Europa. pela moralidade pelo trabalho.527.144. a escravidão do vício e da ociosidade”. Apesar dos apelos dos intelectuais. pensa- ram que nunca havia de chegar o momento de libertação. já atingiu a qualquer grau de moralidade possível? A educação se faz na prática pela liberdade. 1950. político francês. 1949.4 milhão de escravos. p. Luiz Antônio Cunha cação que recebeu nessa propriedade? Há raça que. o crescimento do Brasil está em vós.1. não teremos chegado ainda ao nível das nações emancipadas. vós que sois a democracia nacional. depende de vós. fez uma comparação interes- sante. v. não os prepararam para serem os seus trabalhadores livres. mas. v.130 on Fri. Nabuco já há muito sabia disso.jstor. deputado do Terceiro Estado à Constituinte. in: Nabuco. No Brasil. Como na passagem seguinte: Eu sei bem que vós não pesais pelo número. preponderante. e enquanto não fordes um elemento ativo. como na frase revolucionária de Sieyès.216. Em 1880. os fazendeiros não tomaram cons- ciência de seus interesses a longo prazo.org/terms . Como educaram os fazendeiros os ex-escravos para exigir deles hoje procedimento diverso? Não os educaram absolutamente. 29 “Discurso dos Artistas do Recife”. ao se dirigir aos operários do Recife. 1949. Mesmo tendo sido nomeado conde veio a exilar-se por catorze anos.26 Sem a educação dos ex-escravos nos “princípios da moralidade” – lamenta- va Joaquim Nabuco – eles estavam condenados a “uma escravidão ainda maior. O Estado não tem força para penetrar ali para dizer aos senhores: educai estes homens. privada de tudo. havia 1.368.28 podeis desde já dizer: O que é o operário? Nada. in Nabuco. in: Nabuco. O que virá ele a ser? Tudo! É que o futuro. mas “o Estado não os conhece. v.VII. o Estado não quer ir além das porteiras das fazendas. p. parece paradoxal que Nabuco. p. lhe faltasse força para obrigá-los a perseguir seus interesses como classe.

130 on Fri. nem de remuneração dos trabalhadores as- salariados. Fez parte da Assembléia Constituin- te como senador pela Bahia. Mas. que lutasse contra a “frouxidão dos princípios sociais”. repetidamente. pois ela passava de geração a geração: “ela força os músculos do primeiro.373) O pensamento de Rui Barbosa31 a respeito do ensino profissional e suas funções está expresso com clareza nos projetos de reforma do ensino por ele elaborados e em diversos discursos proferidos. além da libertação do restante da força de trabalho. para melhorarem.179. Para os operários. Depois de iniciada a seqüência. classe dominante. 31 Advogado e jornalista baiano. e membro do Conselho de Estado Republicano. recebia aplausos dos “artistas do Recife”. maior qualificação profissional. É tempo de pensarmos na educação do operário de preferência à educa- ção do bacharel. Seria preciso. chegando a disputar com Hermes da Fonseca a Presi- dência da República. em geral positivistas. O bacharel Joaquim Na- buco era enfático quanto a esta última: Do que vós precisais é principalmente de educação técnica e se eu entrar para a Câmara tratarei de mostrar que os sacrifícios que temos feito para formar bacha- réis e doutores devem agora cessar um pouco enquanto formamos artistas de todos os ofícios. “risos” e “aplausos”. adepto da Maçonaria e do liberalismo. que a escravidão as tornava piores e. É interessante notar que em momento algum ele se referiu às condições de vida. de trabalho. ape- nas a liberdade não produziria o bom trabalhador assalariado. o texto diz ter o orador recebido a resposta aprovativa de “aplausos repeti- dos”. mandato que obteve mais três vezes. e pela minha parte pelo menos não pouparei esforços para que o Estado atenda a esse imenso interesse do qual parece nem ter consciência. dizia-lhes. no limite. e assim por diante”. além disso. isto sim. Foi ministro da Fazenda e da Justiça do Governo Provisório.30 (ibidem. enerva o coração ou deprime o cérebro do terceiro. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. Essa aliança tinha como objetivo comum não a proclamada organização sindical do operariado. a abolição da escravatura. derrotado. 30 Nessa passagem. Seu liberalismo levou-o a se opor aos militares.216.org/terms . de modo que pudesse representar uma aliança entre os setores mais progressistas das classes dominantes e os traba- lhadores. pa- ralisa os movimentos voluntários do segundo. no Império. Rui Barbosa de Oliveira foi. a li- bertação dos escravos seria um meio de valorizar sua própria força de trabalho. Todas as vezes que Nabuco dizia frases como “a escravidão retardou de dois séculos a emancipação do proletariado nacional”. Nabuco pedia votos. p.jstor. e uma educação profissional. entretanto. No entanto. precisavam. É tempo de cuidarmos do nosso povo. 169 This content downloaded from 179. tornando-o condutor do processo político e. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Em termos práticos. que houvesse uma educação moral. A maioria dos trabalhadores livres existentes era descendente de escravos que traziam a escravidão dentro de si. deputado provincial e geral. sendo.

Rui Barbosa tratou dos cursos do Colé- gio Pedro II. capazes de se matricularem em qualquer escola superior sem a necessidade de “exames preparatórios”. Alguns dos argumentos desenvolvidos em ambos os projetos estão apresen- tados de forma mais livre no discurso de Rui Barbosa pronunciado no “Sarau artístico-literário” que a diretoria e os professores do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro promoveram em 23 de novembro de 1882. No currículo proposto. de 13 de abril de 1882. Na reforma do ensino secundário. pensava ele. 170 This content downloaded from 179.org/terms .130 on Fri.179. Na análise de Rui Barbosa. Os professores para o ensino dessa matéria seriam preparados pela Escola Normal Nacional de Arte Aplicada.216. e fiação e tecelagem. aplicação e direção dos grandes instrumentos da in- dústria moderna”. respectivamente no volume 9. Muitas dessas mercadorias eram elaboradas a partir de maté- ria-prima mineral ou agrícola produzida no Brasil. de 12 de setembro do mesmo ano. para a formação de candidatos aos cursos de engenharia. e o da reforma do ensino pri- mário. não me impede de analisá-los como importantes documentos que registram uma das versões da ideologia que permitia definir e almejar o en- sino profissional para a indústria vindoura.”) está impresso no volume 9. Mas o Estado brasileiro adotava uma política er- rada. o verdadeiro paradigma desse grau de ensino para todo o país pe- los privilégios que conferia aos seus concluintes. “a que nos obrigam as necessidades da vida civilizada”. curso de agrimensura.32 Os projetos não foram aprovados. entretanto. As justificativas encontradas para os dois projetos estão muito ligadas. Portanto. destinado a formar quadros médios para a burocracia do Estado. tomo 1 e no vo- lume 10. ficasse gravada pela dispendiosa mão-de-obra qualificada dos paí- ses estrangeiros. além do curso de cultura geral. o Brasil se encontraria numa situação de atraso resultante da existência de uma indústria incipiente e precária. poderíamos superar o atraso. Esse discurso (citarei como “Discurso. se ti- véssemos a força de trabalho qualificada que os países adiantados tinham. chamado bacharelado. razão pela qual resolvi comentá-las como se elas se referissem a um único. cuja criação foi também proposta. curso industrial.. Em vez de incentivar a indústria nacional com a educação industrial do 32 O projeto de reforma do ensino secundário e superior e o da reforma do ensino primário estão incluídos nas Obras completas de Rui Barbosa. curso de máquinas. Eram eles: curso de finanças.jstor. isso. para a formação de contramestres especia- lizados em química industrial. A reforma do ensino primário deveria incluir a obrigatoriedade do desenho.. com o fim de “formar profissionais destinados ao serviço de construção. com o fim de formar profissionais para esse ramo de atividade. Luiz Antônio Cunha Foram dois os projetos elaborados por Rui Barbosa: o da reforma do ensi- no secundário e superior. Isso fazia que a importação de certas mercadorias. curso de relojoaria. tão-somente propedêutico. tomo 2. tomo 2. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. previa o surgimento de cinco cursos profissionais.

jstor. a propor a obrigatoriedade do ensino de desenho em todas as escolas primárias. do operário. Favo- recer a indústria é preparar a inteligência.257). nas fábricas. a força de trabalho para a indústria seria formada nelas e. outrossim. com a produção similar dos outros Estados” (Barbosa. O meu acerto está em que erramos desconhecendo-a. Obras comple- tas. segundo a observação dos últimos cinqüenta anos. 35 Walter Smith.9. e erram ainda os que a olham como menos valiosa do que a educação clássica. v. exercitada nos laboratórios. Ver seu “Discurso aos artistas do Recife”.256-7). nem cair no erro dos advogados da educação exclu- sivamente prática. com um alfabeto com- posto de duas letras. em conseqüência. Não se teria atinado.159-60. Ao contrário de ser “vocação 33 Joaquim Nabuco empregou argumentos semelhantes a estes. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata povo. Esse termo foi empregado de modo semelhante ao de Saint- Simon na primeira metade do século XIX.179. v.1. a educação técnica ou in- dustrial. 34 Isto é: do industriário. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about.org/terms . p. vem a ser que. “Reforma do Ensino Secundário e Superior”. desse modo. Essa ênfase na educação industrial não o fazia esquecer a importância da educação geral. 1942. t.35 A identificação de Rui Barbosa com esse julgamento fez com que ele desse grande importância aos cursos profissionais do ensino secundário e.216. citado em Barbosa. seriam dispensáveis os “obséquios do sistema protetor” e. ainda mais.130 on Fri. já citado. apenas “uma finta imposta ao consumidor em benefício de uma classe de produtores indígenas”. vou me deter um pouco mais nas vantagens atribuídas ao ensino dessa matéria. a linha reta e a linha curva. nas oficinas. 171 This content downloaded from 179. o que digo. Mas seu juízo a respeito da relevância da primeira fica claro quando transcreve o pensamento de Walter Smith.9. Por isso. apelava para o protecionismo tarifário. Quando o desenho fizesse parte do cur- rículo das escolas. então professor de ensino técnico nos Estados Unidos: Não quero provar demais. ainda. nas tendas. dentre as duas.33 Nestas pa- lavras está resumido o papel atribuído ao ensino industrial no desenvolvimen- to dessa atividade no país: “Criar a indústria é organizar a sua educação. o sentimento e a mão do industrial34 para emular. p. um passatempo de ociosos”. é a que mais frutificativamente tem influído para a felicidade humana. p. afirmando que a educação industrial seja tudo. ao mesmo tempo em que diminuiria a “influência desastrosa dos hábitos de grosseria que inoculam no espírito popular” (ibidem. Na época em que redigiu seu projeto de reforma do ensino primário (1882). na superioridade de trabalho. seria possível acabar com a “tirania fiscal”. para o fato de que ele era uma espécie de linguagem da indústria. o Brasil estaria vivendo sob a crença de que o desenho era “uma pren- da de luxo.

como teria. a tal ponto que transformou uma “nação de cismadores” na dos “trabalhadores mais intensamente práticos”. também. Esta escola superintenderia o ensino das escolas que fossem criadas nas províncias. entrasse na competição pela preferência dos seus produtos industriais. secundada por outros países. assimilação e “retenção mental”. da Worcester Technical School. “sua generalização como disciplina inseparável da escola popular é uma das forças mais poderosas para a fecundação do traba- lho e o engrandecimento da riqueza dos Estados”. os produtos das indústrias inglesas teriam recuperado o prestígio perdi- do. a virtude 172 This content downloaded from 179. dizia ele. bem como do seu museu. o desenho seria um dote acessível a todos. em 1851. Rui Barbosa fez numerosas referências a países estrangeiros “civilizados”.130 on Fri. múltiplos benefícios. Não só espalharia a suavidade do conforto e da elegância nas casas. com o mesmo fim de preparar o magistério para o ensino profissional. precederia a escrita e facilitaria sua aprendizagem. pois lá o Estado teria promovido um eficiente ensino industrial.216.179. O ensino da arte aplicada.org/terms . 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. Luiz Antônio Cunha excepcional de certas naturezas privilegiadas para as grandes tentativas de arte”. os produtos franceses teriam recebido a preferência dos visitantes. principalmente o Estado de Massachusetts.jstor. tendo no desenho seu vetor principal. Na exposição industrial de Londres. além do já aponta- do de propiciar o florescimento da indústria. em 1862. todas elas apontando para a importância estratégica do ensino industrial para o progresso da indústria. traria. Além disso. na ordem peda- gógica. Para Rui Barbosa. Sua prática. A reação inglesa consistiu na re- forma radical do ensino de desenho em todas as escolas e na fundação da es- cola de South Kensington. mais angé- licas as filhas e mais amáveis as companheiras. Outro exemplo europeu é o das disputas entre a Inglaterra e a França nas exposições industriais. a quem pediria que organizasse o currículo do curso destina- do a formar os professores de desenho para as escolas primárias. se- gundo o pensamento de Rui Barbosa. de que a produtividade da indústria cresceria de 36% se todos os ope- rários fossem capazes de ler e seguir esboços de desenho industrial. Isso fez que a Áustria. graças ao ensino de desenho. fazendo mais adoráveis as mães. Onze anos depois. a partir de 1870. tendo no desenho o principal instrumento de aperfeiçoamento. cinqüenta anos na frente dos outros países europeus. bem como o desen- volvimento das faculdades de observação. o exemplo norte-americano precisava ser imitado: o go- verno brasileiro deveria ir buscar na Europa. foi citada a estimativa de um tal professor Thompson. mormente em South Kensington. foram bus- car na Europa. de preferência em Londres e em Viena. Em apoio a essa proposição. os professores e a técnica de que não dispunham para organizar o ensino de desenho nas escolas elementa- res e nas escolas profissionais. até mesmo o diretor. os professores para a Escola Normal Nacional de Arte Aplicada. invenção. A Alemanha era o principal paradigma evocado por ele. Já os Estados Unidos.

“não deprimindo as superioridades reais. no desenvolvimento do Brasil. o agricultor. Lecionou. por sua vez. na Escola Naval e. o industrial e o “simples operário”. p. a ver no trabalho. o autor deduziu ser o ensino profissio- nal condição para o progresso do país que. nos menos senti- dos aspectos do universo. para servir como elemento de propaganda da Sociedade Central de Imigração. aplicação racional das faculdades práticas. ademais. elas seriam iniciadas na obra política do Estado. Sua quase inexistência seria causada pela exclusão das “classes laboriosas” do governo. Com a intensificação do ensino profissional. na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. desde a opulência festiva da flora tropical para a engrinaldar os berços. mas destruindo as inferioridades artificiais”. O ensino industrial fa- ria. da incapacidade relativa em que elas estariam colocadas pela ausência de educação. Ela ensina àqueles cujo destino é regarem o pão com o suor do seu rosto. com as armas dos hábitos de observação. marcando a entrada do Brasil numa era de plena vigência do regime democrático.org/terms . que alfombra o leito do descanso imperturbável. na pro- pagação da fraternidade entre todas as classes sociais.9. com a pujança desse tipo de ensino nos países industrializados da Europa e da América. comparou a precariedade do ensino profissional. não uma pena.179. da qual veio a ser professor. Ao longo da obra. no qual apresentava o papel do ensino. em 1887. em particular daquele desti- nado à formação de operários. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata de produzir “a independência e a dignidade das classes operárias”. v. disciplina mental. um infinito de belezas inenarráveis. propôs a criação de um novo 36 Formou-se em direito na Faculdade do Recife. Tarquínio de Souza Filho36 escreveu um livro por encomenda do governo. engenheiros e advogados.130 on Fri. mas um apanágio da espécie humana.jstor. A arte aplicada seria um dos auxiliares mais eficazes para o crescente nivelamento das classes sociais. que a democracia se ampliasse no Brasil. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. tam- bém. Se isso fosse feito. já no período republicano. descobrindo nas modificações mais imperceptíveis. t. mediante o combate ao egoísmo. 173 This content downloaded from 179. até a amiga melancolia do musgo. a harmonia do universo (mesmo a do universo social) seria percebida por todos.216. embora suprido de escolas forma- doras de médicos. Para solucionar o problema. nos fenômenos mais humildes.2. estaria carecendo de um ensino amplo e organizado que formasse o comerciante.251) A intensificação do ensino industrial no Brasil resultaria. resultado. (Obras completas. porém. Dessa comparação. também. correlativo ao atraso econômico.

a facilidade de meios de vida. como objetivos do ensino industrial. falsamente formada neste. além do mais. as carreiras profissionais. tão desprestigiadas e abatidas entre nós aos olhos da opinião pública.jstor.49-50). O ensino técnico contribuirá para o nosso engrandecimento. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. cientí- fica e profissional das classes industriais que existem e que tendem a formar-se pela abolição da escravidão e pela corrente de imigração. comerciais. um dos meios que parece capaz. mas de. Além de prevenir a emergência da desordem. p. não sendo positivista. “Há entre nós elementos esparsos. o ensino industrial serviria para promover o progresso.50). O ensino industrial seria um meio eficaz de se evitar a existência no Brasil da “questão operária” que estaria “abalando convulsivamente o organismo de outros povos. germes flutuantes de desorganiza- ção e anarquia. como a França e a Alemanha” (Souza Filho. mas a “verdadeira igualdade”. em concorrência com outros contribuir eficazmente para isto. Não aquela apregoada pelos “niveladores”. p. têm uma tal quebra de bastardia. p. como em outros assuntos de igual relevância. ao lado do já existente “clássico-literário”. é a preparação moral. Ela viria com o tempo.216. não se deveria ter ilusões. a pequena densidade demográfica e outros fatores fizessem que a “questão operária” não atingisse o Brasil. não se têm podido emancipar do prejuízo de considerá-las como funções secundárias. as profissões do trabalho carecem de força moral. um tal vício de origem que. 174 This content downloaded from 179. de conteúdo “intermédio-científico”. o que au- mentaria a oferta de operários desejosos de se empregarem nos ofícios. Duas seriam as vias pelas quais isso se daria. a for- ma mais adequada de se promover a igualdade. Embo- ra a falta de desenvolvimento industrial.130 on Fri. elevando as clas- ses laboriosas. É justamente esse o fim das es- colas técnicas. 1887. (ibidem. na pretensão de abaixar os que estão em cima. mesmo certos espíritos cultos. É interessante notar que. que têm uma responsabilidade moral e certa ascendência sobre a opinião pública. elevando os que estão por baixo. se não fossem tomadas medidas pre- ventivas. agrícolas e industriais.51) O oferecimento ao povo de ensino profissional seria. Luiz Antônio Cunha ramo no ensino secundário.179. Para evitar que se reproduzissem no Brasil os males dos povos cultos. “comunistas”. Pri- meiramente. Tarquínio de Souza Filho apresentava.org/terms . pelo aumento do prestígio das ocupações industriais. e a criação de muitas escolas técnicas. o que suponho pela ausên- cia completa dos jargões que veiculam essa corrente de pensamento. Vou focalizar a atenção sobre o ensino destinado à for- mação de operários. dois que po- demos grupar segundo as categorias de ordem e progresso. “o espí- rito democrático que anima todo o país”. não de debelar completamente o mal. que espreitam apenas uma ocasião azada para sair deste perío- do de formação e se atualizar nos fatos” (ibidem.

a par destes requisitos de ordem física estão os predicados de ordem intelectual. Com objetivo mais político-ideológico do que técnico. mas “generali- zar as aptidões para o trabalho”. uma “infeliz concessão aos socialistas” franceses. em tese. Ele se referia à possibilidade de o Estado se transformar em concorrente das empresas industriais. se instalasse oficinas anexas às suas escolas. inevitavelmente. p.jstor. se obteria a quebra do preconcei- to contra o trabalho manual e. se encaminhariam. Vou apresentá-las em seguida. Tal é a força e o enraizamento do preconceito! (ibidem. Sua finalidade não seria ensinar um ofício. àquelas classes que se beneficiariam da difusão do ensino profissional. instalar as escolas neces- sárias. reconhecia que a iniciativa privada não seria capaz de. não influi somente a destreza. Aci- ma do braço que executa está o cérebro que pensa. pois 175 This content downloaded from 179.org/terms . Entretanto. o papel do Estado em matéria de educação consistia na manutenção da ordem. já que seu objetivo seria o ensino das técnicas necessárias à sua fabricação. O ensino do desenho deveria ser vulgarizado. a colabo- ração do Estado com os particulares. promover o ensino de que se necessitava. também. para a prosperidade industrial. Caberia à iniciativa privada. Nas escolas primárias a disciplina “trabalhos manuais” deveria integrar o currículo obrigatório.186-7) As soluções apresentadas por Tarquínio de Souza Filho para se atingir es- ses objetivos são bastante variadas. Com isso.216. Essa disciplina não deveria ser vista como uma simples “arte recreativa”. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. “suscitar as vocações para a vida industrial” e “nobilitar as profissões laboriosas”. so- zinha.130 on Fri. de modo a não se repetir. a agilidade e a vigorosa musculação do operário. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata exercidas por órgãos inferiores do corpo social. p.51) A segunda via pela qual o ensino industrial contribuiria para promover o progresso do país seria o aumento da qualificação da força de trabalho: Para o aumento da produtividade do trabalho. Essas oficinas produziriam. (ibidem. as mes- mas mercadorias das firmas. então.179. os me- ninos que tivessem vocação para as profissões técnicas. desde cedo. mas como um meio de “educar o senso estético das multidões”. na garantia da moral social e no respeito às prescrições de higiene. “um agente energético para a fecundação do tra- balho”. no Brasil. Propunha. Ou seja. haveria a tendência de se criarem aqui os ateliers de travail. A solu- ção seria o Estado anexar às suas escolas apenas as oficinas absolutamente in- dispensáveis. As escolas profissionais deveriam promover o ensino da economia política. os erros cometidos em outros países. Ele afirmava que.

Um dos mais assinalados serviços do ensi- no econômico será. do conjunto de vir- tudes cívicas e privadas que. embora necessárias aos indivíduos de todas as po- sições sociais. os grandes interesses que são postos em jogo. ou com a tenacidade indômita dos nihilistas russos. por isso. contribuindo para manter a ordem. fomentando desordens. que viessem a produzir “os desclassificados e os descontentes”.205) Os problemas econômicos seriam tão mais graves quanto maior fosse o de- senvolvimento industrial e. aliás. as múltiplas relações que aí se travam. dizia que a união entre a instrução e a educação profissional. incitando o ódio e a inveja. de onde surgiriam. noções “exatas e verdadeiras” sobre a proprie- dade. além de fornecer uma condição indispensável para o desen- volvimento da indústria. é um dos mais poderosos antídotos contra a invasão deste veneno social. Ele não concordava com os que temiam isto. Tarquínio de Souza Filho defendia que não é bastante a multiplicação de escolas profissionais. p. A unidade entre o conteúdo político-ideológico na educação dos operários com a qualificação propriamente técnica foi justificada como função da complexidade da vida social e da interdependência das classes sociais: A complexidade dos fenômenos que se operam nas regiões econômicas. nas “classes laboriosas” do Brasil. intentam efetuar o nivelamento e a liqui- dação social. o Estado. o imposto. portanto. o patrão e o operário. depois. o indivíduo.jstor.130 on Fri. prevenir as nossas classes laboriosas contra os erros e sofismas das numerosas escolas socialistas que. 176 This content downloaded from 179. seriam mais necessárias àqueles que “vivem no mundo do trabalho”. o salário.208) Ele reconhecia a existência do temor de que a “elevação do nível intelectual das classes laboriosas” suscitasse “ambições desarrazoadas”. “revolucionários e anarquistas”. que tem sido tão funesto às classes industriais da Europa.179. também. já estaria fazendo o Asilo de Meninos Desvalidos. pertur- bando enfim o mundo econômico.org/terms . o trabalho. o in- divíduo e o Estado. mas. seria preciso ir propagando desde logo.216. ou concitando grèves ou formando lockouts e coalizões. Ao contrário. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. alian- do o saber à ideologia. Luiz Antônio Cunha a verdadeira ciência econômica é o mais terrível adversário do socialismo. (ibidem. o capital. ou sob as aparências científicas do kateder-socialismus ou com a catadura feroz dos dynamitards franceses. como. p. as dependências recíprocas entre o capital e o trabalho. O bom trabalhador não seria produzido apenas pelo de- senvolvimento da destreza e da inteligência. armando o operá- rio contra patrão. (ibidem. seria capaz de evitar aqueles riscos. as inúmeras manifestações da atividade humana que nessa arena se desenvolvem. tudo isto requer da parte daqueles que se dedicam às carreiras laboriosas a mais justa e elevada compreensão dos seus deveres e dos seus direitos.

com 14 educandos.84-5) José Ricardo Pires de Almeida37 publicou no Rio de Janeiro. de tra- tados acadêmicos a peças de teatro. o ensino profissional. aptos para obter uma colocação que os põe a salvo da necessidade. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata Inaugurado. cuja falta “os chefes dos mais importantes estabelecimentos industriais” proclamavam ser “um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento de suas fa- culdades e ao progresso da indústria”. Em seguida ao ensino primário. consistiria na atribuição da “maior soma possível de bem-es- tar para as classes operárias”. a 14 de março de 1875. “objeto da preocupação dos eruditos e dos ho- mens de Estado”.org/terms . armados com os conhe- cimentos teóricos e práticos indispensáveis. Mas o ensino profissional deveria evitar dois perigos.jstor. desti- nado às massas. a indústria e a agricultura. exerceu vários cargos públicos. Um seria o ensino de “simples teorias”. sobre o ensino público no Brasil. que é a escola do vício e a preparação para o crime. em 1889. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. No tocante ao ensino artesanal-manufatureiro. escrito em francês.130 on Fri. O objetivo da instrução primária seria o de “tornar o homem capaz de seguir com proveito a carreira à qual se destina”. Escre- veu sobre os mais diversos assuntos e em distintos gêneros: da medicina à arquivística. nem todos ligados à área da saúde. não somente uma vocação na- tural”. pelo fato de ser o gérmen do “verdadeiro sucedâneo do ensino universitário”. procurado por aque- les que fazem das artes e ofícios “sua profissão. uma não dissimulada louvação ao conselheiro João Alfredo e outros ministros do Impé- rio. mesmo o ensino profissional para o comércio. resultando no aumento da inteligência e dos salá- rios dos seus membros. este asilo tem prestado desde essa época relevantíssimos serviços. (ibidem. um volumoso livro. A emancipação do povo. da razão esclarecida”. operários e artistas preparados para a vida social. o autor defendeu a excelên- cia da formação ministrada no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. p. Seu conteúdo deveria ter a finalidade de moralização e de emancipação das massas.216. Abordava aí todos os graus de ensino. 177 This content downloaded from 179. conteúdo impróprio desse sucedâneo do ensino universitá- 37 Médico e jornalista. deveria incutir atitudes que “somente o estudo pode desenvolver”: o gosto que só nasce da compreensão do belo “com os olhos da inteligência ins- truída. que os livra da ociosidade.179. admitindo em seu grêmio pobres crian- ças desprotegidas e ignorantes que são depois restituídas à sociedade de homens de bem. A moralização das classes operárias deveria começar com a instrução pri- mária.

p. no Brasil. as relações capitalistas de produção. no sentido da dominância do modo de produ- ção capitalista. momentos diferentes do processo de desenvolvimento capitalista: os primei- ros. a Escola Superior de Comércio de Paris. as escolas profissionais não deveriam estar sub- metidas a regulamentos gerais.jstor. pois Ele fecha as portas às idéias de revolução e de mudança de governo.130 on Fri. Uns e outros tinham. Luiz Antônio Cunha rio. que me- lhor bem-estar podem lhe propiciar. desenvolvendo a produção e me- lhorando tanto a qualidade quanto o preço. processos passados e em curso. imperativos do processo de acu- mulação de capital cujo ritmo era ditado. dirige as idéias do povo para as fontes do trabalho agrícola. (Almeida. pelos países europeus. além de unidos pelo mesmo processo geral de referência. nos quais seria conveniente a criação de cursos públicos de ciências apli- cadas. pelas referências do autor. como referência. permite a visão de um núcleo denso e coerente de idéias a respei- to da importância do ensino de ofícios manufatureiros para a formação da for- ça de trabalho. o processo de acumulação de capital. rígidos por natureza. industrial e comercial. na periferia do sistema capitalista. pela abolição da escra- vatura e a instituição do trabalho assalariado. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. processos que apenas se esbo- çavam mas que se impunha estender e aprofundar. a não ser nos grandes centros indus- triais. aqui. principalmente os fundadores da economia política burguesa: Smith. pelos conhecimentos especiais que difunde. O modelo desses cursos parece ser.179. ligadas às “necessidades par- ticulares e variáveis de cada localidade”. 1989. a necessidade de in- centivo da industrialização. os ideólogos brasileiros referiam-se às conseqüências daquele movimento. nas conseqüências: visíveis na Europa e previsíveis no Brasil.216. an- tecipações para evitá-las. Lá se impunham correções. Tratavam da necessidade de es- tender. Sua criação deveria ser confiada à iniciativa privada pois estariam.195) Segundo Pires de Almeida. o ensino profissional seria uma “necessidade pública”. em parte. entre outras medidas. e. coincidem. Mas enquanto estes tratavam da Revolução Industrial em curso e seus desdobramentos. 178 This content downloaded from 179. este ensino tende a aumentar a riqueza do país. Outro seria o ensino das “perigosas utopias”. Say e Malthus.org/terms . Idéias fora do lugar? O estudo do pensamento dos intelectuais do Império. Esse núcleo de idéias alimentava-se do pensamento de ideólo- gos europeus. um dos eixos por que devia passar. Mas. necessariamen- te. Os ideólogos brasileiros enfatizavam. Na sua adequada formulação. também. ao menos dos aqui focalizados. assim. ou outros.

Desse modo. poderia susci- tar a impressão de que suas idéias estariam “fora do lugar”. aquelas medidas eram definidas como resultantes de imperativos de caridade para com os deserda- dos da fortuna.179.jstor. O pensamento da elite intelectual do Império. Esses quadros chega- vam às elites intelectuais do Brasil pelos livros de autores europeus ou pela própria formação européia de alguns desses intelectuais. Mas se. as elites intelectuais conformaram-se à idéia de que a educação do povo. surgia a solução: promover a educação dos traba- lhadores e seus filhos. em particular do que dizia respeito à propriedade do capital e ao controle do aparelho do Estado. no ensino primário. particularmente mediante o ensino profissional. ao mesmo tempo de- terminante das mudanças nas relações de produção (dependência econômica) e fornecedora dos quadros ideológicos de referência dentro dos quais as mu- danças deveriam ser pensadas (dependência cultural). a correção dos “desvios morais” – nos quais os trabalha- dores incorriam “espontaneamente” – era defendida como uma necessidade da produção. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata As conseqüências antevistas eram de caráter ideológico que. pelo operário. po- deriam conspirar contra o processo de desenvolvimento existente ou por exis- tir. Por uma via ou por outra. era a precária aceitação. A educação profissional. no limite. a formulação dos projetos antecipatórios. seria o principal meio de pre- venir a contestação da ordem e mobilizar a força de trabalho para a produção industrial-manufatureira. da desatenção. “desvio moral” ou mesmo como “crime”. o ensino profissional seria res- ponsável pela produção de uma mercadoria especial. reunia as preferências. para usar a expres- são de Roberto Schwarz (1973). 179 This content downloaded from 179. con- formada técnica e ideologicamente à produção em que se dava a reprodução do capital. foi propiciada pela própria situação. morais e cívicas. simultânea ou posterior àquela. de outro modo. Outra conseqüência. A ênfase oscilava da educação geral. Por fim. motor do processo de desenvolvimento da sociedade capitalista.216. Detectado o problema. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. tudo isso percebido como “pecado”. na medida do seu desenvolvimento. do vício. já sumariado. da ideologia burguesa. a força de trabalho.130 on Fri. frugal e atenta. sobre a in- versão daquele papel. carregada de dou- trinas religiosas. por um lado. a justificativa recaía sobre o seu aspecto ideológico. ordeira.org/terms . E isso se tornava tão mais grave quanto mais desenvolvidas as relações de produção. de todo modo. As mudanças nas relações de produção propiciavam a ocorrência de falta de vontade de trabalhar. Assim é que. à educação profissional. pelas elites intelectuais do Brasil imperial. contar com uma força de trabalho dotada da autodisciplina que a tornasse operosa. por produzir um alvo perseguido mas freqüentemente negado e até invertido: a formação dos operários antes mesmo que eles ingressassem na idade e no mundo do trabalho. observada na Europa e antevista no Brasil. necessitando a socie- dade capitalista.

02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. Mas. como aqui. encobrindo a exploração do trabalho. incansavelmente. as relações baseadas no favor. Luiz Antônio Cunha Em um estudo sobre os escritores do Brasil escravocrata. no favor. assim como o pequeno proprietário para tocar seu negócio e o funcionário para desempenhar as funções inerentes a seu cargo. excluída a “casta” dos escravos. de que nenhuma é escrava. o favor assegurava às duas partes. só que lá elas correspondiam às aparências.130 on Fri. a sua livre pessoa. disfarçando a violência que rei- nava na esfera da produção.156) Haveria. especialmente Machado de Assis. o autor não desconhece que a liberdade de traba- lho. 1973. Mesmo o mais miserável dos favorecidos via re- conhecida nele. não. Ademais. A propósito disso. o que transformava prestação e con- tra-prestação.216. então. do que sobressaíam.jstor. Aqui. Carlos Nelson Coutinho (1980) mostrou que o liberalis- mo bem serviu para justificar e expressar os interesses dos dominantes: o li- vre-cambismo no comércio internacional. Nos documentos jurídicos. o profissional dependia de favores para seu exercício profissio- nal. a garantia de igualdade jurídico-formal entre os membros das oligarquias rural e comercial etc. sempre em sentido impróprio. Por exemplo. valiosa em si mesma. em especial à mais fraca. No contexto brasileiro. Enquanto os intelectuais escamoteavam a escravidão de seus escritos. idéias européias. que refletiriam a sociedade brasileira (escravagista) e o liberalismo europeu (ênfase na liberda- de individual). sem dúvida mais simpática do que a relação senhor–escravo. por modestas que fossem. ao mesmo tempo em que se diferenciavam dos escravos.179. excluídos da cidadania. (Schwarcz. p. Ele chamou de disparidade a situação dos escritores dessa época. a igualdade perante a lei e o universalismo constituíam um quadro ideoló- gico na Europa. e baseavam nela suas interpretações do Brasil. omitindo completamente a existência de um grande e fundamental contingente de escravos. eles a substituíam pela relação de favor. 180 This content downloaded from 179. ape- sar de ser ela a relação produtiva fundamental no país. Schwarz defendeu a tese de que nossos intelectuais põem e repõem. o liberalismo ex- pressava o interesse dos homens livres mas não proprietários.org/terms . numa cerimônia de superioridade social. o liberalismo 38 Não só nos textos literários essa disparidade pode ser encontrada. o cálculo racional na comercializa- ção dos produtos de exportação. uma cumplicidade entre as diferentes classes sociais a fim de elidirem a existência da escravidão. a ligarem grandes e pequenos. Com efeito. assim. que pretendiam usufruir de direitos formais à igualdade com os senhores. também. a Constituição de 1824 trata dos direitos e dos deveres dos cidadãos brasileiros.38 Com isso. no tocante à escravidão.

No entanto. o favor que marca as relações entre os grandes pro- prietários e os homens livres mas sem propriedade reforça laços de dependên- cia pessoal. b) Da coação à socialização. nem mesmo colocam-se em um ou em outro extremo. No entanto. pela educação. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. e não sobre a livre contratação no mercado. como. pois as relações econômicas fundamentais esta- vam baseadas na coação extra-econômica.216. com a abolição da escravatura e o início da industrialização. Em decorrência. salvo se fossem educados para isso. também. Vemos que essa disposição foi sen- do substituída no pensamento dos intelectuais. tornando-os trabalhadores efetivos. isto é. isto é. ao início do período estudado defendiam-se penalidades para os vadios. às quais seriam inerentes. pré-capitalistas. trabalho livre como alvo colimado. é preciso fazer uma ressalva. a abolição da escravatura deveria ser gradual. que encobriam as disparidades existentes no sistema de dominação. Tais representações não teriam “entrado” no Brasil como uma cultura importada mas empobreci- da.130 on Fri. não só para evitar que a produção fosse prejudicada. as idéias importadas vão progressivamente “entrando em seus lugares”. isso sim. De modo similar. nem todos os autores examinados podem ser enquadrados nas cinco po- laridades. 40 A construção das dimensões que serão expostas em seguida não supôs que fossem gerais nem excludentes. que os senhores perdes- sem sua força de trabalho cativa. à medida que as relações propriamente capitalistas se expandem e se tornam dominantes na sociedade brasileira. resultando em que tudo “ficou em seu lugar”. 181 This content downloaded from 179. tornam-se aderentes às realidades e aos in- teresses de classe que se pretende que elas expressem. Abolição primeiro. Haveria um risco a assumir. antiliberais.org/terms . Assim. entendida como procedimento necessário para que a motivação para o trabalho fosse in- teriorizada pelos trabalhadores potenciais. Nesse sentido. Passou-se de um temor de que os escravos libertados se recusariam a trabalhar. de modo a transformá-los em trabalhadores livres.jstor. Vi- 39 Para Franco (1976) haveria. no que diz respeito ao tema desenvolvido neste texto. para dar tempo para a educa- ção dos escravos. pode ser encon- trada nas seguintes dimensões:40 a) Do gradualismo à abolição imediata. Teriam. educação depois. “aparecido” no processo de constituição das relações de mercado. representações igualitárias. social- mente necessárias. dispostos à exploração capitalista. a progressiva aderência das idéias relativas à educação do povo. O trabalho compulsório não é coerente com as liberdades individuais apregoadas pelo liberalismo. isto é. Esse tipo de temor foi contestado por quem acusava os senhores de escravos de nunca terem se preocupado com sua educação para o trabalho livre.39 Para Coutinho. para os ho- mens livres que se recusassem a trabalhar. a salvo da tendência à ociosidade. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata estava mesmo “fora do lugar”. numa palavra. a autora concluiu que essas representações “absorveram” a ideologia burguesa da igualdade formal. mas não poderia ser de outro modo. Por isso.179. subjacente às práticas do favor.

também.216. o mi- nistro da Justiça apresentou projeto de lei de repressão à ociosidade. desenvolvia formas inéditas de re- 182 This content downloaded from 179. aos órfãos. pudesse ser o preventivo eficaz. os miseráveis. Ao fim do Império. já ao fim do período imperial. todos eles “infratores dos termos de bom viver”. chegou-se a defender enfaticamente a educação profissional das “classes laboriosas”. de uma força de trabalho qualificada. isto é.org/terms . da qual elencavam as conse- qüências catastróficas. em especial a educação profissio- nal. No entanto. até recentemente. como. além de propiciar a indus- trialização do país. à medida que a produção in- dustrial-manufatureira se desenvolvia no Brasil. poucos meses após a Lei Áurea. havia um medo generalizado diante do potencial de rebelião dos escravos. a sociedade se veria ameaçada em sua segu- rança. abandonados e expostos. esta.130 on Fri. prevendo duras penas aos vadios e mendigos. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about. À medida que os ideais capi- talistas foram aderindo ao novo tecido social que se desenvolvia. nas considerações baseadas no cálculo dos custos e dos benefícios do ensino de ofícios para a formação da força de trabalho industrial-manufatureira. por um discurso mais baseado na racionalidade capitalista. da possibilidade de prisão por vadiagem. que bem sabiam da existência da Comuna de Paris. quando não pela polícia. os intelectuais foram cada vez mais se ajustando às práticas vigentes no mercado de trabalho. que poderiam subverter a socie- dade. aos desvalidos. no país. Era preciso domesticar. d) Do temor à aliança. os destinatá- rios desse tipo de ensino foram se transferindo dos menores que não lhe po- diam opor resistência (os órfãos. a filantropia foi sendo parcialmente substituída. me- diante a participação dessa classe nos negócios do Estado. cujo resultado. Ao início do Império. permitiria que se desenvolvesse a democracia política. Pretendiam evitar que fenômeno semelhante ocorresse aqui. os desvalidos) para os filhos dos trabalhadores. A despeito da sobrevivência na legislação brasileira. Se a passagem do cativeiro para a liberdade não fosse feita de modo adequado. que substituía a coa- ção pela necessidade material. em contato com operários estrangeiros. pela educação. Concomitantemente. esse elemento perigoso. enquanto argumentação. e) Da prevenção à correção. sendo os artesãos e artífices forma- dos nos mais diferentes ofícios apenas uma espécie de subproduto útil tanto aos mecenas quanto aos próprios trabalhadores.jstor. para o que supunham que a educação. manufatureiros e industriais. por processos espontâneos e até induzidos pela formação. A filantropia foi sempre asso- ciada ao ensino de ofícios artesanais. não só a produção se veria privada de sua força de traba- lho indispensável. As lutas de classe que se travavam na Europa eram uma referência constante para os intelectuais do Império do Brasil. Luiz Antônio Cunha mos que. sem aquelas características distintivas. os expostos. mediada pela motivação interiorizada via edu- cação. c) Da filantropia à racionalidade capitalista.179.

130 on Fri. Mas esse processo de progressiva aderência ocorreu tanto pela mudança da realida- de (como. das organizações sin- dicais e da imprensa de classe. se muitas das idéias dos intelectuais do Império a respeito do en- sino profissional começaram “fora do lugar”. O ensino de ofícios artesanais e manufatureiros no Brasil escravocrata sistência à exploração capitalista. “entran- do no lugar”. elas foram aderindo à realidade a que se referiam (sem coincidirem com ela. a imigração estrangeira. ou. 183 This content downloaded from 179. 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about.org/terms . o pensa- mento dominante ia na direção da educação dos recém-libertos e dos negros. a abolição progressiva.216. a exemplo das greves. disposta à exploração capitalista. tendo interiorizado as disciplinas e as mo- tivações necessárias ao trabalho fabril. Cumpria. por exemplo.jstor.179.) quanto pela mudança nas próprias idéias desses intelectuais. Em suma. o abolicionismo mili- tante etc. ao fim do Império. a de- fesa pelos cafeicultores paulistas do trabalho assalariado. dito de outro modo. índios e mestiços para se transformarem na força de trabalho livre e qualifica- da. corrigir a situação entendida como anormal. Assim. então. por mais que houvesse quem defendesse medidas de traba- lho compulsório e de descarte dos ex-escravos pelos estrangeiros. já que eram de natureza ideológica). elas foram se ajustando. o que antes era apenas previsto como uma hipótese de desen- volvimento.

130 on Fri.jstor.This content downloaded from 179.org/terms . 02 Jun 2017 15:59:42 UTC All use subject to http://about.179.216.

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