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Resumos Literatura Portuguesa 1

Exames 2011

Época Clássica (Recuperação da Antiguidade
Clássica)
Séc. XII - XIV Séc. XIV - XVIII Séc. XVIII Séc. XIX

10º Ano
Cantigas de amor

o Elogio superlativo da dama (de elevada estirpe social);
o Amor cortês (distância respeitosa do trovador em relação à Senhora, cuja
identidade, por princípio, não revelará);
o Vassalagem amorosa;
o Queixume pela desgraça de amor devido aos rigores, indiferença ou desamor
da dama; (A dama não deixa, por esse motivo, de ser, a todos os títulos, digna
de amor e louvor).
o Quem nestas cantigas fala é um homem (sujeito poético) que se dirige ou se
refere a uma dona, oriunda de um estrato social superior (residindo em
ambientes palacianos).
o O trovador imaginava a “dona” como um “suserano” a quem “servia” numa
atitude submissa de “vassalo”.

Cantigas de Amor: neste tipo de cantiga o trovador destaca todas as qualidades da mulher
amada, colocando-se numa posição inferior (de vassalo) a ela. O tema mais comum é o amor
não correspondido. As cantigas de amor reproduzem o sistema hierárquico na época do
feudalismo, pois o trovador passa a ser o vassalo da amada (suserana) e espera receber um
benefício em troca de seus “serviços” (as trovas, o amor dispensado, sofrimento pelo amor
não correspondido).

Cantigas de Amigo

As Cantigas de Amigo, de forma mais simples, apresentam-nos, em geral, a mulher integrada
no ambiente rural: na fonte ou na romaria, lugares de namoro; sob as flores do pinheiro ou de

Joana Filipa Calado

Resumos Literatura Portuguesa 2
Exames 2011

avelaneira; no rio, onde lava a roupa e os cabelos ou se desnuda para tomar banho; na praia,
onde aguarda o regresso dos barcos.

O trovador usa o artifício de falar como uma menina enamorada, do povo, que se dirige ao
amigo ou amado, que fala dele à própria mãe, às irmãs, às companheiras ou ao Santo da sua
devoção.

Estas cantigas são postas na boca de uma mulher solteira (sujeito poético), donzela, que
exprime os seus pequenos dramas e situações da vida amorosa.

O paralelismo constitui a característica formal mais importante deste tipo de cantigas)

Nas cantigas de amigo nota-se: o eu-lírico é feminino, apesar de escritas por homens;
ao contrário da cantiga de amor, onde o sentimento não se realiza fisicamente, na
cantiga de amigo (entende-se por amigo, o amado) há nítidas referências à saudade
física do amigo ausente.

Cantigas de Amigo: enquanto nas Cantigas de Amor o eu-lírico é um homem, nas de Amigo é
uma mulher (embora os escritores fossem homens). A palavra amigo nestas cantigas tem o
significado de namorado. O tema principal é a lamentação da mulher pela falta do amado.

Cantigas de escárnio e maldizer

Cantigas de Maldizer: através delas, os trovadores faziam sátiras diretas, chegando muitas
vezes a agressões verbais. Em algumas situações eram utilizados palavrões. O nome da pessoa
satirizada podia aparecer explicitamente na cantiga ou não.

Cantigas de Escárnio: nestas cantigas o nome da pessoa satirizada não aparecia. As sátiras
eram feitas de forma indireta, utilizando-se de duplos sentidos.

Cantiga de escárnio e maldizer

 A cantiga de escárnio distingue-se da cantiga de maldizer pelo facto de na primeira a
sátira ser
 Menos direta, baseando-se em trocadilhos e ironias, sem identificar a pessoa
satirizada, ao contrário do que sucede nas cantigas de maldizer, que por vezes chegam
a ser grosseiras.

Farsa de Inês Pereira (Gil V icente)

A Farsa de Inês Pereira é uma peça de teatro escrita por Gil Vicente, na qual retrata a ambição
de uma criada da classe média portuguesa do século XVI. Desafiado por aqueles que
duvidavam do seu talento, Gil Vicente concorda em escrever uma peça que comprove o
provérbio "Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube".

Toda a peça gira à volta da personagem principal Inês Pereira que nunca sai de cena. As
didascálicas são escassas, não há mudança de cenário, e a mudança de cena é só pautada pela
entrada ou saída de personagens.

Joana Filipa Calado

Não tarda em querer casar de novo. Pero Marques. A Farsa de Inês Pereira parte de um provérbio: «mais quero asno que me leve. Brás da Mata. que se casa duas vezes. continua casadoiro. garante-se na segunda. cantar e dançar. que acredita no casamento como solução para as suas dificuldades financeiras. Inês Pereira. Inês Pereira recusa-o. pois pretende alguém que demonstre alguma cortesia. por isso são chamadas personagens tipo. e ainda canta com ela “assim são as coisas”. Inês casa com ele logo ali. O ditado “mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube”. alguém como Brás da Mata. sua educação e casamento. moça simples e casadoira mas com grande ambição procura marido que seja astuto e sedutor. dá ordens ao seu moço que fique a vigiar Inês e que a tranque em casa de cada vez que sair à rua. Esta farsa censura os «homens de bom saber» que constitui uma referência direta ao público cortês. apenas para se livrar do tédio da vida de solteira. no entanto o lavrador não agrada Inês Pereira. portanto. baseiam-se em temas da vida quotidiana. com o marido ingénuo. era um escudeiro falido que casou com Inês de forma a poder aproveitar-se do seu dote. boa -educação e bem-estar social. tendo um enredo cómico e profano. e já no fim da história aparece um Ermitão que se torna amante da protagonista. incita-a a casar com Pero Marques. preocupada com a sua filha. saiba combater. de resto como este tinha prometido a Inês aquando do primeiro encontro destes. assim funcionando como mecanismo subliminar o autoelogio da Corte. que lhe é trazido pelos Judeus Casamenteiros. Apesar de seu comportamento Joana Filipa Calado . A mãe de Inês. um pouco menos sinceros e bem-intencionados do que Lianor Vaz. e isso não deixa de provocar o riso. Resumo As farsas. Personagens Inês: representa a moça casadoira. Esta era dotada de uma incontornável vertente não só dramática mas acentuadamente teatral. Inês recebe a prazeirosa notícia de que o seu marido foi morto por um mouro. nunca viu sequer uma cadeira.Resumos Literatura Portuguesa 3 Exames 2011 Todas as personagens desta farsa visam a critica social. Três meses após a sua partida. por ser ignorante e inculto. fazer versos. um simulacro de elegância. Não conseguindo casar-se na primeira tentativa. não podia ser melhor representado do que na última cena da obra quando o marido a carrega em ombros até ao amante. e é nesse mesmo dia que Lianor Vaz traz- lhe a notícia que Pero Marques. jogando com o tema medieval da mulher como personificação da ignorância e da malícia. que por tanto procurar um marido astuto acaba por casar com um. à boa maneira da Corte. que cavalo que me derrube». fútil. que antes de sair em missão para África. pretendente arranjado pela alcoviteira Lianor Vaz. Mas Brás da Mata representa apenas o triunfo das aparências. Este casamento depressa se revela desastroso para Inês. o segundo pretendente. de uma sátira aos costumes da vida doméstica. muito preguiçosa e interesseira. alguém que. Trata-se.

que o ajuda a mentir para se casar com ela. Pero Marques: é o marido bobo mas um lavrador abastado. De assinalar a importância da divisão em espaço interior e exterior.  As alcoviteiras e os judeus casamenteiros. Podemos considerar as rezas e as pragas (esconjuros) como cómico de linguagem. finge. Escudeiro: Preocupado em encontrar uma esposa. e deixa Inês presa na sua casa mas ele é morto por um mouro. Moço: era um amigo do primeiro marido de Inês. Apesar de ser ridicularizado por Inês. e engana. consegue até mesmo a simpatia do público pela inteligência com que planeja seus passos. ele casa-se como ela e deixa que ela o maltrate e o traía. e Joana Filipa Calado . criando uma imagem de "bom moço" que depois se revela um tirano. galantes e pelintras.  Os escudeiros fanfarrões. acha importante que ela não fique solteira e torna-se cúmplice das atitudes dela. Estrutura da peça Nesta farsa não existem divisões cénicas. mas é possível dividi-la em 3 atos. tendo o espectador dificuldade de se aperceber da sua passagem Cómico Encontramos. Tempo É um tempo dilatado.  A selvajaria e ingenuidade de Pero Marquez.  Os clérigos e os Ermitões. de linguagem na carta e linguagem de Pero Marque e na fala dos judeus casamenteiros. Objetivo da crítica vicentina Gil Vicente critica:  A mentalidade das jovens raparigas. Lianor Vaz: é a alcoviteira. De notar o paralelismo presente nos contrastes que Gil Vicente estabelece na construção do monólogo e diálogo inicial da peça. Ermitão: era o amante de Inês que depois se torna num padre.  Os casamentos por conveniência. Pero Marquez e no escudeiro. mulher na época assim chamada que arrumava casamentos. de situação na cena de ‘’namoro’’ de Inês com Pero Marquez. revelando que a base da família está corrompida.Resumos Literatura Portuguesa 4 Exames 2011 impróprio. Latão e Vidal: judeus casamenteiros. cómico de situação ou de personagem em Inês. nesta farsa. Mãe: apesar de dar conselhos à filha.

Podes esquematizar os 3 atos da seguinte maneira: Concluindo Desta ação pode extrair-se que o que Inês mais queria. Inês Pereira. A unidade da ação é dada pelo tema e pela personagem principal. acabou por conseguir: a sua liberdade.Resumos Literatura Portuguesa 5 Exames 2011 no monólogo e diálogo ocorridos após a noticia da morte de Braz da Mata. e com esta peça. o grande criador das obras que fazia representar. ser de facto. É através destes paralelismos e contrastes que Gil Vicente expressa a mudança ocorrida com Inês. Joana Filipa Calado . encontrada junto de Pero Marquez. Não há dúvida de que Gil Vicente demonstrou aos contemporâneos que nele não acreditavam.

mostrava ser ingénuo e complacente: o marido ideal para Inês poder gozar da sua liberdade há tanto desejada. Todavia. para assim nunca mais ter de trabalhar. através do cómico de personagem. É demasiado complacente com a mulher. Após o casamento. por isso. de situação e de linguagem. através da ironia. Ao longo da peça. o marido ideal: É um fidalgo discreto e meigo. porque Brás da Mata não a deixa sair de casa e recebe alegremente a notícia de que este tinha sido morto na guerra por um mouro. ter sido um ato covarde. o Ermitão. é uma rapariga leviana e preguiçosa. e ainda troça da sua imbecilidade. Pero Marques Pero Marques foi o primeiro pretendente de Inês. Foi morto em combate por um mouro o que. Por toda a peça. vai representar vários tipos sociais. Após o casamento com Inês. nem falar com ninguém e manda o Moço vigiá-la: é um marido tirano. para Inês. esta personagem representa o camponês rude e sem maneiras. aceita casar-se com ela e não se apercebe que está a ser traído por esta. Decide. Inicialmente. contudo “sai-lhe o tiro pela culatra” quando casa com Brás da Mata e recusa Pero Marques: julga os pretendentes não pelo caráter. Nesta altura. então. casar-se com Pero Marques que. Vê no casamento uma forma de se libertar da mãe e de gozar da sua liberdade. Logo desde o início e ao longo de toda a peça mostra ser astuta a planear as suas ações. Inês expressa a sua inteligência e ironia no planeamento dos seus passos. Brás da Mara é. Brás da Mata Brás da Mata aparenta ser. Inês solteira. Apesar de da primeira vez ter sido recusado por Inês. revela a sua verdadeira face: não deixa Inês sair de casa. deixando-a ir onde bem entende e ainda carrega-a às costas para ir de encontro com o amante. que sabe tocar viola. o ‘cavalo’ desta Farsa. torna-se na mulher adúltera desta história. sofre uma evolução (degradante) e. Inês revela. É a personagem mais ridicularizada da história. tornasse no marido traído e enganado. Revela-se detentora de um caráter imoral e sem- vergonha. Nesta fase. mas pela aparência. deste modo. apesar da rudeza.Resumos Literatura Portuguesa 6 Exames 2011 Caracterização das personagens: Inês Pereira Inês é a personagem-tipo mais complexa de toda a história. sugerido por Lianor Vaz. Inês torna-se a mulher oprimida. a verdade é que não tem onde cair morto e o seu objetivo é o de casar com uma rapariga rica e aproveitar-se do seu dote. Joana Filipa Calado . até imbecil. fase final e mais degradante da personagem: aproveita-se do pobre marido para a levar de encontro ao seu amante.

os cemitérios. ânsia. os ciprestes.  A morte como libertação. (gosto teatral) – verso solta-se. férteis em agoiros. Temas românticos  Amor. elegia. linguagem oralizante. apaziguamento. Manchei… oh! Se me creste…”). interjeições. de acordo com a agitação do estado de espírito do poeta.Resumos Literatura Portuguesa 7 Exames 2011 Bocage Características neoclássicas Características românticas Na forma  Uso da mitologia com valor  Procura de uma linguagem nova e tom alegórico/ personificação de declamatório para melhor traduzir a força dos conceitos: “Ó retrato da Morte! Ó sentimentos: pontuação expressiva Noite amiga”. masoquismo (comprazimento na dor). os  A morte igual a tristeza. harmoniosa. pessimismo. o mar revolto são  Sublimação do amor.  Noite. espelho da alma). ode. a um destino fatídico.  Expressão hiperbólica dos sentimentos. alegre…).  Manifestação de estados de alma doentios (angústia. os túmulos.  Formas literárias ainda clássicas: vocativos. animais noturnos. No  A natureza: Locus amenus  A natureza: Locus horrendus (o poeta entrega-se conteúdo (bucolismo. gosto pelo mórbido (a obsessão da morte. individualismo. forma dialogada sonetos. através das suspensões. paixão.  Marcas autobiográficas (uso abundante de pronomes e formas verbais de 1º pessoa).  Gosto da solidão. verso (“Outro Aretino fui … A santidade/ equilíbrio verbal. cortes no interior do  Concisão e clareza na linguagem. entrega total à infelicidade. ciúme. interrogações). elementos do cenário que funcionam como o  Domínio da razão. agrestes e solitárias.  O desengano e o fatalismo.  Vocabulário convencional do ambiente e sentimentalismo romântico. quebra o  Vocabulário erudito (por vezes equilíbrio clássico através das suspensões inspirado no latim).  O amor como fonte de prazer delirante. às paisagens sombrias. apologia do génio individual.  A temática da liberdade (ideológica). Joana Filipa Calado . perdição ou castigo.  Fado (destino). os abismos. a confidência e a sinceridade confessional). etc. (exclamações.  Morte. paisagem às visões lúgubres. a linguagem flui correntemente. plena luz. tendência antissocial.  A aguda consciência do Eu (temas autobiográficos. inquietação. A noite. culto do lamento. o fascínio pelo macabro). melancolia).

Diante do público. abre a série de quinze volumes dos sermões de Padre Vieira. e do ouvinte.") para. e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos. E por que se perderam estas três? A primeira perdeu-se. à verdade dos textos religiosos. nele o pregador examina as condições indispensáveis para que faça fruto a palavra de Deus. há mister luz. por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores"). não se pode ver por falta de olhos. Visto que. Isso é o que diz Cristo. mesmo que semeada em pedras. associá-los ao seu objetivo religioso ("Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro de si mesmo. Além das parábolas bíblicas. a segunda. porque a secara as pedras. há mister espelho e há mister olhos. Essa parábola pode ser encontrada no Livro de São Lucas. a terceira porque a pisaram os homens. faz efeito. do pregador. se são maus. até a conclusão de que. texto que se encontra no evangelho de Mateus no capitulo 13: 1-9. tomados de surpresa pela avalanche diabética. espinhos e má terra. Padre Vieira envolve o ouvinte. isso é devido a alguma falha do pregador/semeador. um dos seus sermões mais famosos. ou seja. fazendo-o chegar às conclusões que ele almeja. mas notai o que não diz. nunca da palavra de Deus ("Sabeis cristãos. servindo de prólogo." O orador utiliza-se de passagens bíblicas estreitamente vinculadas às ideias que procura expor. que é o conhecimento. Para isso. Pregado na Capela Real. Deus concorre com a luz. ou por parte de Deus?") No Sermão da Sexagésima. se a pregação/ semeadura falha. o orador consegue atingir os fiéis de modo direto e insinuante. em "O Sermão da Sexagésima. porque a afogaram os espinhos. não se pode ver por falta de luz. Utilizando uma linguagem simples. seduzidos pelo entrelaçamento das odeias. inspirada pela dialética conceptista. ou seja. deixam-se facilmente conduzir pelo orador. ou por parte do pregador. em março de 1655. se são bons."). Se tem espelho e é cego. e a comeram as aves. Estes. Padre Vieira traça paralelos com a parábola bíblica do semeador. "Do trigo que deitou à terra o semeador uma parte se logrou." Padre António Vieira. Logo. e é de noite. e três se perderam. o resultado é um só: o ouvinte assimila a mensagem do pregador. é necessária luz. por qual deles havemos de entender que falta? Por parte do ouvinte. pregada para maus ouvintes. o homem concorre com os olhos.Resumos Literatura Portuguesa 8 Exames 2011 Sermão da sexagésima (Padre António Vieira) O Sermão da Sexagésima é. que é a graça. O pregador concorre com o espelho que é a doutrina. Padre Vieira conduz o ouvinte. digna de Sócrates e Platão. se tem espelho e olhos. inteligente e filosófica. Padre Vieira utiliza jogos de ideias geniais ("Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas: olhos. ainda que não faça neles fruto. e é necessário espelho. através da associação da parábola do semeador. sempre acaba provocando algum efeito ("Os ouvintes ou são maus ou são bons. a palavra de Deus. espelho e luz. ao mesmo tempo que encerra uma arte de pregar. suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus. Ora. Análise Parte I O Padre Vieira pregou sobre a parábola do semeador. Espécie de profissão de fé da oratória conceptista. logo em seguida. em Lisboa. faz neles grande fruto a palavra de Deus. Com toda a sedução de sua retórica. indo contra os excessos gongóricos. 19-23: Joana Filipa Calado . talvez.

parte da semente caiu ao longo do caminho. Argumentos: 1. que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. enfim. trinta por um. Acercou-se dele.A citação de passagens bíblicas. E. por falta de raízes. onde não havia muita terra. Ouvi. houve aqui trigo mirrado. é inconstante: sobrevindo uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra. padeceram lá os semeadores. trigo afogado. e os pregadores que pregam em pátrias diferentes. Vieira tenta conquistar a docilidade se seu auditório com um discreto elogio. que precisou entrar numa barca. Terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a palavra.. Disse ele: Um semeador saiu a semear. trigo comido: Volucres caeli comederunt illud. trigo pisado: Conculcutum est. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui. Vede se Joana Filipa Calado . logo encontra uma ocasião de queda. O solo pedregoso em que ela caiu é aquele que acolhe com alegria a palavra ouvida. saiu Jesus e sentou-se à beira do lago. e para onde venho. Como bom orador que era. Também cita Marcos 16:15. Fala também sobre os diversos tipos de dificuldades que os pregadores enfrentam e sobre a necessidade de serem perseverantes para superar as dificuldades. porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas. sessenta por um. como vem enganado com o pregador! Ouçamos o Evangelho. mas não tem raízes. quia non habebat humorem. texto em que Jesus manda os apóstolos evangelizarem toda criatura. Outra parte caiu em solo pedregoso.1. sessenta por um. que o sol nasceu. o sentido da parábola do semeador: quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende. porém. Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram. Tudo o que aqui padeceu o trigo. mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa. onde tal houve. houve missionários mirrados.. por amor ao evangelho: Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. que fala sobre animais que não olham para trás. porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs. que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe. o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração. A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende. no caso em questão a que se encontra no livro de Ezequiel cap. mirrados da fome e da doença. trinta por um. porém. caíram em terra boa: deram frutos. semeando. Nela se assentou. E seus discursos foram uma série de parábolas. Logo.. Assim como esses animais os pregadores não podem desistir.Resumos Literatura Portuguesa 9 Exames 2011 Naquele dia. porque a terra era pouco profunda. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte.O exemplo dos missionários no Maranhão que sofreram. os pássaros vieram e a comeram. enquanto a multidão ficava à margem. Outras. também chama a tenção para a importância do tema pelo fato de ter viajado tão longe para pregar para eles: E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação. e nasceu logo. 2. uma tal multidão. trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud. houve missionários comidos. Segue falando sobre os pregadores que pregam em sua própria pátria. trigo comido e trigo pisado. e ouçamo-lo todo.. queimou-se. pois. Houve missionários afogados. Se bem advertirdes. porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins. cem por um. Trigo mirrado: Natum aruit. Este é aquele que recebeu a semente à beira do caminho. e produz fruto: cem por um. .

Geralmente tem uma sentença interrogativa. Cita cinco qualidades importantes do Joana Filipa Calado . que. e também a vós. A mim será. Deus o ouvinte e o pregador. mas por amor de vós perseguidos e pisados Parte II Na parte II. quia non habebant humorem! E que sobre mirrados. que aprendais a ouvir. pelos semeadores. só pela seara o sinto. como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva. Vieira dá prosseguimento à introdução da mensagem. nasce nas pedras. Vieira usa novamente (como em todo o sermão). nasce entre espinhos. Senhor. sem cortar nem despontar espinhos. Ele encerra essa parte II. tem a finalidade de mostrar aos ouvintes o tema principal da mensagem. O Céu sempre ajuda sendo com sol ou chuva. a mim. sobre afogados. ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu. afogados sim. Desses três apenas um é responsável pelo sucesso na pregação. É tanta a força da divina palavra. mas por amor de vós afogados. com a proposição da mensagem. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa. para aprender a pregar. os caminhos. a vós. comidos sim. os espinhos. ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo. explicando o significado da parábola do semeador. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos omnipotente. Vieira usa esse recurso com verdadeira maestria: Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações.Resumos Literatura Portuguesa 10 Exames 2011 lhe quadra bem o Notum aruit. mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem. isto são glórias: mirrados sim. não há um velho que se desengane. A proposição é uma declaração simples do assunto abordado. fala que existem três agentes na pregação. Para os semeadores. nem tantos pregadores como hoje. não há um moço que se arrependa. As causas são terrenas. as pedras. Deus não pode ser o culpado porque Ele é infalível. Argumentos: Não pode ser o ouvinte porque a Palavra de Deus tem o poder de convencer qualquer tipo de ouvinte: É tanta a força da divina palavra. sobre comidos. mas por amor de vós mirrados. só pela seara o digo. Parte III Vieira finalmente entra no corpo do sermão. pisados e perseguidos sim. se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores. assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era. que. a parábola do semeador para ilustrar a pregação do evangelho comparando-a com o semear. Parte IV Vieira segue falando sobre a culpa do pregador. tão grande e tão importante dúvida. porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta. mas por amor de vós comidos. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus. o pregador. sem arrancar nem abrandar pedras. será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. a resposta à essa questão é o eixo sobre o qual os tópicos do sermão vão girar. Essa é uma declaração de fé defendida no concílio de Tridentino.

e o que não é isto. com as conveniências que se hão de seguir. O pregador prega não apenas aos ouvidos com suas palavras. que tem lido quantos escreveram. Cita o salmo 19.. Argumentos: 1. há de prová-la com a Escritura. mas nascidos da mesma matéria e continuados nela. tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem.Resumos Literatura Portuguesa 11 Exames 2011 pregador: a pessoa que é. há de persuadir. há de amplificá-la com as causas. estes ramos hão de ser secos. com as circunstâncias. O pregador deve ter um estilo simples e natural. A pessoa. há de concluir. Parte V O estilo. e muito poucos as medem. Segundo Vieira o estilo dos pregadores de sua época era ruim. que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas. há de dividi-la.. o sermão deve ser focalizado num único tema. há de ter um tronco. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas. O rústico acha documentos nas estrelas para sua lavoura e o mareante para sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos. Fala sobre a estrutura dos sermões e com domínio do assunto resume a arte homilética: há de tomar o pregador uma só matéria. tem folhas.” O estilo pode ser muito claro e muito alto. há de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários. Isto é sermão. há de satisfazer às dificuldades. Passa então a falar sobra cada uma dessas qualidades. Tal pode ser o sermão: -. há de ter esta árvore varas. que são as sentenças. com os inconvenientes que se devem evitar. muitos pregadores pregavam (e pregam). tem frutos. e por remate de tudo. que diz que “os céus declaram a glória de Deus e o firmamento proclama a obra de suas mãos. para que se conheça. tem varas. tem tronco.Ele cita uma metáfora sobre a árvore e suas diversas partes que exemplifica a estrutura de um bom sermão: Uma árvore tem raízes. tem ramos. tem flores. a matéria. Argumentos: O céu (natureza) foi o primeiro pregador. não alcança a entender quanto nelas há.estrelas que todos veem. prega também aos olhos com suas atitudes. porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria. porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. De maneira que o rústico e o mareante. com os efeitos. a ciência. senão cobertos de folhas. e o matemático. deste tronco hão de nascer diversos ramos. há de apertar. há de ter flores. há Joana Filipa Calado . o estilo e a voz. é falar de mais alto. Mas as pessoas são falhas e esse não pode ser o principal problema. que são a repreensão dos vícios. há de declará-la com a razão. que são diversos discursos. há de defini-la. isso apenas confunde os ouvintes. isto é pregar. Parte VI A matéria. há de responder às dúvidas. porque há de ser fundado no Evangelho. há de confirmá-la com o exemplo. e depois disto há de colher. para que se distinga. sobre vários temas diferentes. há de acabar.

porque a língua de Pedro não serve a André. isso porque uns tem a voz fraca outros a voz forte. nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat: nem a do estilo: Seminare. é madeira. há de haver flores.Faz uma metáfora comparando a pescaria com a pregação. Só de cinco temos escrituras. Santo António de Pádua e S. não é sermão. senão fundado nas raízes do Evangelho: Seminare semen. e a principal causa da falta de fruto que a pregação teve em seus dias: Em conclusão que a causa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus. Bernardo. S.Resumos Literatura Portuguesa 12 Exames 2011 de ter frutos. há de haver o proveitoso do fruto. mas a diferença com que escreveram. 2. já os que tem ciência podem pregar de uma forma original. porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu. a voz não é uma causa importante. Cipriano. não pode ser. Vicente Ferrer. há de haver folhas. E senão vede-o no estilo de cada um dos Apóstolos. não é sermão. Argumentos: 1. referindo-se a forma diferente que eles tinham de pregar: Porque não servem todas as línguas a todos. O pregador deve buscar conhecimento e originalidade ao invés de imitar outros pregadores. há de haver ramos. nem a da matéria: Joana Filipa Calado . porque não há frutos sem árvore.Fala também sobre as línguas de fogo que foram vistas sobre os apóstolos no dia de Pentecostes quando eles foram batizados com o Espírito Santo (Atos cap.Cita Aristóteles e Túlio. e assim dos mais. Se tudo são varas. filósofos gregos e professores de retórica. Se tudo são folhas.2). não é sermão. o rigoroso das varas. não é sermão. mas tudo nascido e fundado em um só tronco. Gregório. eis aqui como não são. são maravilhas. Argumentos: Cita a Bíblia que fala de Jesus como alguém que prega sem bradar e João Batista que bradava no deserto. à que podemos chamar «árvore da vida». outra língua só sobre André. sobre que desceu o Espírito Santo. Citam também grandes pregadores da história da Igreja que deixaram sua marca usando esse método: S. o formoso das flores. são versas. o vestido das folhas. que é o fruto e o fim a que se há de ordenar o sermão. o estendido dos ramos. De maneira que há de haver frutos. mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar. porque a língua de André não serve a Filipe. Vieira encerra essa parte levantando uma questão que aponta para o desfecho do sermão. E assim não é muito que se não faça fruto com eles. Parte VIII Vieira segue a mensagem falando da voz. S. O pregador que não possui ciência apenas imita os pregadores que ouviu. e isso varia também pelo estilo do pregador. senão a cada um a sua. S. Basílio Magno. Se tudo são ramos. Gregório S. Se tudo são troncos. Serem tudo frutos. que é uma só matéria. Eis aqui como hão de ser os sermões. Se tudo são flores. João Crisóstomo. Uma língua só sobre Pedro. Segundo Vieira os apóstolos pescavam com as próprias redes. Parte VII Nessa parte Vieira fala sobre a falta de ciência dos pregadores. 2. não é sermão. é ramalhete. Assim que nesta árvore. Seria ela a causa do fracasso de muitos pregadores? Segundo ele. é feixe. de S. é admirável. como sabem os doutos. há de haver varas. outra língua só sobre Filipe.

o importante é a recuperação do paciente. Balaão não tinha exemplo de vida. que sempre ensinou que o pregador deve pregar: “com infâmia ou com boa fama”. se homem palavra de homem. O Senhor confronta Satanás com uma interpretação verdadeira das escrituras: O demónio transportou-o à Cidade Santa. Parte X Nessa última parte. 2. transforma a Palavra de Deus em palavras da pessoa que está falando. texto que encontra-se no evangelho de Mateus no capítulo 4:6-8. Apóstolo S. Paulo.Para argumentar ele cita o maior pregador e teólogo da história da Igreja. Vieira fala que um dos maiores problemas é os pregadores terem medo de cair em descrédito. estão as tribunas dos anjos. usando a Bíblia para defender suas ideias. persuadiam e convenciam. ele cita a tentação de Cristo.11s}. lança-te abaixo.Argumenta também citando o exemplo de um médico que não se preocupa se o tratamento do doente é doloroso. e sim aquele que faz os ouvintes se sentirem mal e refletirem sobre suas vidas para que busquem o perdão dos pecados: Argumentos: 1. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus {Dt 6. se demónio palavra de demónio. e convida as pessoas para se santificarem: Advirtamos que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo. Pois se nenhuma destas razões que discorremos. e contudo todos estes. Angelis et hominibus. a mudança de sentido do que está escrito. encerra a parte X chamando a atenção dos ouvintes para a responsabilidade do pregador que prestará contas a Deus. com cuidado.16}. colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: Se és Filho de Deus. e também: “se eu contentasse aos homens não seria servo de Cristo”. Ficam adulando o povo em vez de pregar as verdades divinas. O diabo muda o sentido do que está escrito querendo levar Jesus ao suicídio. Salamão multiplicava e variava os assuntos. O pregador não deve impor significados ao texto. Que conta há de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram. proteger-te-ão com as mãos.Resumos Literatura Portuguesa 13 Exames 2011 Semen. para não machucares o teu pé em alguma pedra {Sl 90. nem a da ciência: Suum. que nos ouve e nos há de julgar. nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus. nem a da voz: Clamabat. Amós tinha grosseiro estilo. Moisés tinha fraca voz. qual diremos finalmente que é a verdadeira causa? Parte IX Segundo Vieira os pregadores não pregam a Palavra de Deus. pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito. Vieira faz a conclusão de sua mensagem com uma aplicação prática. Segundo Vieira. Deve sim extrair do texto o real significado. Isso porque eles mudam o sentido do texto. Diz que o bom sermão não é aquele que faz os ouvintes se sentirem bem. e sim com o efeito benéfico desse tratamento. está a tribuna e o tribunal de Deus. o seu animal não tinha ciência. Mas o pregador? Joana Filipa Calado . falando. se mudam o sentido pregam suas próprias palavras. Argumentos: Para argumentar e exemplificar. Acima das tribunas dos reis.

por amor de Deus e de nós. Representação de um homem saudável. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdejar e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum. quia tacui: Ai de mim. Representação de um homem carregado de moralista. O livro não é fruto do acaso. Amor racional. que não disse o que convinha! Não seja mais assim. Os poemas referem-se a uma época de vida íntima e não foram feitos para o público. A mulher é representada como deusa (um A mulher é representada como um anjo ou reflexo do amor. Subjetividade. assume-se poeta até ao fim da vida. 2. intelectualizado. Equilíbrio. Predomínio do sentimento e da imaginação. Ele contém um riquíssimo ensinamento cristão. porque antes tinha afirmado que já não era poeta. Advertência a Folhas Caídas de Almeida Garrett 1. O poeta sente necessidade de justificar a publicação dos seus poemas. divino. Gosto pela vida solitária e isolada. contra as cobiças. alegre e suave Natureza sombria. mas pode ser apreciado também por pessoas de religiões diferentes. Versificação rígida. a influência de suas palavras tem um impacto muito forte. Joana Filipa Calado . indisciplinado. mas de uma seleção criteriosa. Natureza luminosa. Qualquer que seja a reação do público aos poemas (“gozo ou admiração”) será sempre em segunda mão. Versificação livre. O Padre António Vieira não marcou apenas o seu tempo. contra as sensualidades. Arrebatamento. 11ºAno Diferenças entre o clássico e o romântico Clássico Romântico Predomínio da razão. platónico). disciplinado. horrendus). Afinal. e como todo clássico merece ser lido e relido. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados. Gosto pela vida em sociedade. colorida. Culto da Antiguidade Clássica. que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja. Amor sentimental e físico (sensorial). melancólica (locus (locus amenus). principalmente para aqueles que são amantes da arte de pregar. contra as invejas. Objetividade. Isso porque a sua qualidade literária é algo admirável. Estamos às portas da Quaresma. Culto da Idade Média. 4. traumas. e em que ela se arma contra os vícios. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus. instável e egocentrista. como um demónio. Considerações finais O sermão da sexagésima é um exemplo do estilo sofisticado da época do Barroco. exaltação. 3. ou até mesmo sem religião. contra as soberbas. contra as ambições. contra os ódios.Resumos Literatura Portuguesa 14 Exames 2011 Vae mihi. porque o autor já sentiu o mesmo. É um clássico. disciplina e clareza.

 Cena III – Pero identifica Bernardim e mostra-lhe que conhece o seu segredo. Esta tenta convencê-lo a ficar calado. Caracterização do “tu” “Em toda a natureza/ Não vejo outra beleza/ Senão a ti – a ti” (Os Cinco Sentidos). Relação eu – tu/ mulher-anjo/ mulher. Dicotomia amor espiritual e amor físico/ “Divinas têm essas flores”. não” (Não te amo). mas Pero consegue sempre “dar a volta por cima”. Liberdade poética (estrutura formal) Não te amo. O “Ignoto Deo” permanece misterioso. Um Auto de Gil Vicente (Almeida Garrett) Ato I (Pátio dos Paços de Sintra)  Cena I – Pero Safio ensaia Cortes de Júpiter e levanta suspeitas sobre a fidelidade de D. 7. luz és tu/ verdade és tu só” (Ignoto Deo). Nesta cena.  Cena V – Conversa entre Pero e Chatel em que este último tenta “tirar nabos da púcara”.A).  Cena II . “E infame sou. Coloquialidade “Ai! Não te amo. Anjo és. Nos poetas apenas o corpo é mortal. Bernardim e Paula: Estes últimos saem dos paços com ar comprometido. Aspetos fundamentais da poesia de Folhas Caídas Aspetos Poemas/Versos Caracterização do “eu” “Prazer não sabia o que era/ Mas dor.D) ” (Anjo demónio És). mostrando-se incomodado por saber o segredo de Bernardim e da Infanta. Paula vai-se embora e Bernardim prepara-se para enfrentar Pero Safio. Beatriz para com o Duque de Saboia. “A ti/ Ai a ti só sensual meus sentidos/ todos num confundidos” (Cinco Sentidos). 8. que me domina (M. “Beleza és tu.Resumos Literatura Portuguesa 15 Exames 2011 5. não na conhecia” (Quando Eu Sonhava). Bernardim começa a delinear o seu plano ao tomar conhecimento do enredo das Cortes de Júpiter.  Cena IV – Monólogo de Pero. O poeta é louco porque aspira sempre ao impossível. “Não se enrede a rede nela/ Que perdido é remo e vela/ Só de vê-la” (Barca Bela). 9.Pero. O mundo material e o poético são incompatíveis e o que permanece é o espírito do poeta. 6. Joana Filipa Calado . Os poemas foram inspirados por um “deus” a quem o autor os consagrou. Caracterização da Natureza “Acabava ale a terra/ Nos derradeiros rochedos” (Cascais). “Anjo és (M. e tanto” (Não te amo). porque te quero.

Manuel despede-se da filha. Gil Vicente elogia a filha e fala-lhe sobre a sua personagem no auto. Bernardim ajoelha-se perante a Infanta e entrega-lhe o anel. etc. Entra Gil Vicente e chama Paula. Saint- Germain pede a Beatriz que o avise quando desejar partir.  Cena VII/VIII – D. Manuel está a gostar do auto e afirma a sua filha que esta vai ter saudades de Portugal. Inês de Melo. mas o pai recusa que a filha mostre ingratidão. esta apercebe-se que é Bernardim e acaba por desmaiar.  Cena X – Rei D. Decorrendo o auto. Paula (para si) lamenta a vida do pai.  Cena VIII – Pero diz a Paula que se não a conhecesse teria ciúmes da moura. mas avança para o palco. Ato III (Galeão de Santa Catarina)  O galeão está prestes a partir e os senhores da Corte conversam sobre a viagem. Beatriz pede a Paula que a acompanhe e Chatel fica desconfiado. Damas. Manuel. Paula e Bernardim falam sobre o casamento da Infanta. Gil Vicente entra em cena como um dos responsáveis pela arte no reino de D.  D. Gil Vicente e Paula: D. O grupo entra em palco.  Cena III – Conversa entre Paula e Gil Vicente sobre o auto e a Infanta. Beatriz. Gil Vicente duvida que Bernardim se porte bem em palco. D. Manuel e D.  Cena XI – Estão presentes em cena Bernardim e ditos. Chatel. Beatriz. mas este quer ver D.  Cena VI – Bernardim Ribeiro ao ver o pajem põe a máscara para não ser reconhecido. a sua origem humilde. Dona Beatriz. Joana Filipa Calado . Beatriz conversam sobre a partida desta. Gil Vicente pede a Pero Safio para o retirar do palco. perturbando a Infanta que está cada vez mais atormentada. Beatriz confessa a Paula que se sente a desfalecer de tanto amor e comunica a vontade de rever Bernardim. o facto de viver enganado. Paula relê a carta de Bernardim e pede ao pai para o receber. Paula recebe um bilhete de Bernardim em que pede para ser recebido por ela e por seu pai. Ato II (Paços da Ribeira)  Cena I – Paula Vicente lamenta a vida que leva. Paula diz que não quer fazer o auto e amaldiçoa a Infanta. Manuel e acompanhantes.  Cena XII – D.  Cena V – É o ensaio geral que é feito de maneira apressada. Bernardim em trajos de moura entra em cena e começa a declamar os seus poemas.  Cena IX – Bernardim conclui que é impossível decorar o papel da moura.  Cena II – Gil Vicente lamenta o facto de ter posto Joana a fazer de Moura. mas avisa Paula que é uma imprudência. Paula diz-lhe que ainda está a tempo de desistir. Gil Vicente. Manuel diz que não está feliz com o desenrolar do auto.Resumos Literatura Portuguesa 16 Exames 2011  Cena VI – D. O rei mostra-se espantado com a ausência de Bernardim. e diz-lhe para o interromper a fala de Bernardim com a autoridade de Júpiter. Este manda chamar Bernardim. mas Pero pede para o deixar ficar e ver até onde vai.  Cena VII – Bernardim diz estar receoso em relação ao seu papel. Paula. mas este não o entende. D. Gil Vicente em pânico tenta orientar Bernardim. Saint-Germain. El-rei entra para a sala do trono e manda o mordomo-mor que aprontem as figuras e que saia o auto.

 Rapidez do ritmo narrativo.  O galeão está prestes a partir e D.  D. afirmando que o amor de Bernardim é-lhe dirigido. Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco) Características da novela  Concentração de episódios conducentes à ação principal e consequente ausência de episódios colaterais.  A ação principal dura 6 anos: de 1801 a 1807. antes de ser degredado. o 1801 – Simão tem 15 anos.  Bernardim aparece e a Infanta desfalece.  Extensão (menor do que a do romance). reafirmando-lhe o seu amor e confessando a sua perdição. Simão morre e é lançado. Joana Filipa Calado .  Concentração do espaço e do tempo.Resumos Literatura Portuguesa 17 Exames 2011  D. o 1807 – Simão parte para o degredo. na Índia a 17 de março.  Paula chega ao galeão e convence Chatel de que está tudo. ao mar.  Bernardim fala coma Infanta. dizendo-lhe que o seu pai a ameaça de ir para o convento. Beatriz pede que a deixem sozinha e escreve uma carta a Paula.  Bernardim despede-se e atira-se do galeão. o 1803 – Teresa escreve a Simão.  Quase inexistência de descrição.  Bernardim chega ao galeão sob a proteção de Paula.  Beatriz prefere morrer a ficar sem Bernardim.  Beatriz conversa com Paula e revela o desejo de reencontrar Bernardim que está escondido.  Frequência do diálogo como expressão dos momentos de tensão dramática. Personagens  Simão  Nasce em 1784. o 1804 – Simão é preso com 18 anos.  Número reduzido de personagens. Manuel apercebe-se do sofrimento da filha e sente-se culpado. provocando a desconfiança de Chatel. Domingos Botelho é corregedor em Viseu. Tempo da história  A ação decorre nos finais do século XVIII. o 1807 – A 28 de março. o 1805 – 1807 – Simão encontra-se preso. Manuel regressa para falar com a filha.  Paula sente piedade dos dois.  Ausência de digressões. inicio do século XIX.

em 1801. escreve: “Vou. por excelência. passeia pelo campo. creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. que tentara matar Simão. à data de inicio da ação. nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu amor. e quantos homens falam a minha língua.Resumos Literatura Portuguesa 18 Exames 2011  Tem 15 anos. Joana Filipa Calado . Este sentimento valer-lhe-á a admiração de personagens como João da Cruz e ainda daquelas que se situam numa esfera social marcada por valores conservadores. afirmando: “Quero ver o céu no meu último olhar.  Quando Teresa é obrigada a sair da janela. ao degredo.  O sentimento de dignidade é. A par desta faceta. à sua tragédia. que se manifesta nas cartas que escreve a Teresa (cf. Abomina a pátria. ainda que viril. Em Portugal. irá porém surgir uma outra: a sua nobreza de alma. em defesa de seu irmão Marcos) e de seu avô paterno. em legítima defesa. inconformismo político – herança de seu tio paterno.  Surge. em Portugal.  Após a visão de Teresa. inseparável da possibilidade de realização do seu amor – é assim que Simão não acede ao pedido de Teresa. É belo como a sua mãe. abomina a minha família. estuda humanidades em Coimbra. em 1758 (cf. mais outra faceta de Simão: a de poeta. Luís Botelho (que matara um homem. não me peças que aceite dez anos de prisão. procurando o espaço natural. em detrimento do espaço social. Teresa!”. incluída no Cap. depois de ter morto Baltasar. Simão representa o herói romântico antissocial. cumpre os seus deveres de estudante. depois. Cap. torna-se caseiro. Ele significa a oposição a uma sociedade podre e aos seus valores anti-humanos. rebeldia e coragem. Cap. entretanto. O seu código de honra conduzi-lo-á.  O seu sentimento exacerbado de honra é também notável – ele manifesta-se pelo facto de Simão enfrentar sempre aqueles que se lhes opõem. que se manifesta no momento em que deseja poupar um dos criados de Baltasar. para Simão o amor associa-se à liberdade e à sua integridade pessoal. Fernão Botelho (que fora encarcerado por suspeita de uma tentativa de regicídio.  Características hereditárias psíquicas e fisionómicas (anúncio do realismo): “génio sanguinário”. e ainda por recusar qualquer ajuda da família. posteriormente. Simão transforma-se: distancia-se da ralé de Viseu. I). Cap. pelo facto de o homem se encontrar ferido. como é o caso do desembargador Mourão Mosqueira. aceitando a sua condenação à forca e. XIX. na cadeia. em última análise. I) e ainda de seu bisavô Paulo Botelho Correia (que era considerado”o mais valente fidalgo que dera Trás-os-Montes” (cf. quando lhe comunica o desejo do seu pai de que ela se case com o seu primo Baltasar. X). para que cumpra os dez anos de pena. Na sua última carta a Teresa.” Com efeito. todo este solo está nos meus olhos coberto de forcas. por outro lado. Simão revela-se de novo rebelde. nem a liberdade tem opulência. Tu não sabes o que é a liberdade cativa dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses. pelo facto de se ter negado a fugir. local onde via Simão e.

 Revela autonomia. ainda. bondoso. enfim.  Ele é.  É o paradigma da mulher-anjo.  A sua vaidade torna-o incapaz de esquecer o seu orgulho ferido e de compreender o amor que Simão e Teresa sentem um pelo outro.  João da Cruz  É uma personagem que se aproxima bastante do protótipo do homem popular português. Joana Filipa Calado .Resumos Literatura Portuguesa 19 Exames 2011  Morre a 28 de março de 1807. para a época.  São inflexíveis nas suas decisões e baseiam-se no seu próprio orgulho e nas suas conveniências sociais.  Teresa  Tem 15 anos.  Caracteriza-se pela sua intuição. corajoso e violento. fazendo sobressair as qualidades exemplares do herói.  Mariana  Tem 24 anos. a sua linguagem de cariz popular.  Manifesta uma força de vontade e uma desenvoltura viris.  Tadeu de Albuquerque e Domingos Botelho  Representam o antagonismo motivado pelo preconceito de honra social.  Destaca-se pela sua beleza. se opõe a Simão.  Pela antítese das emoções que experimenta e pelas atitudes que apresenta. pois o seu amor motiva as suas esperanças e os seus desalentos.  Esta personagem apresenta a evolução psicológica. contribuindo para a tragédia final. simultaneamente. é considerado o tipo do “bom bandido”. oscilando entre emoções que fazem vibrar a sua dimensão humana. grato.  Esta personagem não tem uma evolução psicológica.  É cobarde. pelo poder de predição. no beliche do navio que o transportava para o degredo e o seu corpo é lançado ao mar.  Caracterizam-no. ao nível das emoções que experimenta e da esperança que acalenta de poder ser amada por Simão e ficar junto dele. mesquinho e vingativo.  Baltasar  É a personagem que.  É astuta. pelo realismo da expressão. pelo que é considerada uma personagem plana.  O narrador salienta a sua beleza física.  Apresenta complexidade humana. quando se recusa a casar com Baltasar. sobretudo. pela sua delicadeza e pela grandiosidade dos seus sentimentos. pelo misticismo popular.  Representa os valores sociais instituídos e fossilizados. pelos seus defeitos. determinada e orgulhosa.

como cisão entre as personagens e o espaço social em que estas se inserem. após a morte das personagens. reduzindo-os à dimensão de objetos. Não esqueçamos que as grades que aprisionaram Simão e Teresa não são mais do que o alargamento e a equivalência simbólica dos fios (os fios da aranha formam a teia.Resumos Literatura Portuguesa 20 Exames 2011  Preferem perder os filhos. o único laço familiar genuíno. Romeu e Julieta. Porque é conduzida por aquilo que sente e não pelas convenções que lhe são impostas. a segunda enrola-o – trata-se da fase que corresponde à vida do individuo – e a terceira corta-o – é o momento da morte). após a morte. Elemento de ligação entre o interior e o exterior. então. órgãos de perceção (a janela também se liga à recetividade da luz exterior) que.  Representa. quando mariana.  D. Ela funciona. o tempo associa-se ao destino que terá que ser cumprido. a vida. o lençol. que lembra o sudário de Cristo e representa o amor. são “o espelho da alma”. para Simão. as remete para o elemento líquido. a paixão. a realidade enganadora. é o local onde os dois amantes se veem pela primeira vez. o sofrimento e a morte dos humanos Joana Filipa Calado . mas aos grilhões sociais que o condenam e motivam a sua clausura. através dos sentimentos das personagens: o aqui (espaço terreno de hostilidade) que se opõe ao além (espaço da esperança e da ilusão fecundante). espaço ligado à criação e à vida. a ilusão.  A janela. Associada aos olhos. não apenas as grades materiais que aprisionam Simão. ligado ao mito das três parcas (a primeira dá o fio. a perder a dignidade social. elemento que aparece na história amorosa shakespeariana. a sua simbologia situar-se-á ainda ao nível de dois outros espaços presentes na obra. Os fios separam-se das cartas. Simbologia  As grades simbolizam. Aqui.  A sua ligação a Simão leva-a a ser ela a relatora da sua história ao autor da obra. Podemos ainda relacionar os fios com a aranha. por sua vez.  Ritinha  Distingue-se das outras irmãs de Simão pela sua capacidade afetiva. Aliás. Por outro lado. a janela está conotada simbolicamente com a interioridade de Simão e de Teresa e com a sociedade. que aprisiona os seres que nela caem). os fios são também o símbolo da união dos diferentes estados da existência – Simão e Teresa acreditam que permanecerão unidos após a morte. o facto de as cartas e os respetivos fios que as envolviam terem sido lançados ao mar. permite a reafirmação desta ideia. suicidando-se. isto é. quando este era criança. ajuda Simão porque esse é o seu papel e não porque o amor de mãe a leve a perdoar e a compreender as atitudes do filho. neste sentido. é envolto num lençol. O fio remete igualmente para o destino. Rita Preciosa  Representa a convencionalidade do sentimento materno – age mais por obrigação familiar do que por motivos afetivos.  Os fios simbolizam a ligação eterna dos amantes. a sua significação remete para a união total do par amoroso. ou seja. Simão. que não se desfaz após a morte (os fios envolvem as cartas de Teresa a Simão). o fio evoca.

. Simão. Retorno ao racionalismo e às formas poéticas clássicas.Poeta-pintor:  Capta as impressões da realidade que o cerca com grande objetividade.Resumos Literatura Portuguesa 21 Exames 2011 (etimologicamente paixão significa morte). no dia do seu julgamento. No último capitulo. metaforicamente. enxugou as lágrimas e arrancara de si no primeiro instante de demência”. pois é com ele que Mariana limpa as lágrimas que chora por Simão. a regularidade métrica.  O avental assume. na cadeia da Relação do Porto.Pintura literária e rítmica de temas comuns e realidades comezinhas. Cristo morreu para redimir os pecados dos homens. também. associa-se à condição social de Mariana.Parnasianismo: “arte pela arte”  Tendência artística que procura a confeção perfeita através da poesia descritiva. o que a condenava a um irremediável sofrimento motivado por um amor que não era correspondido.Impressionismo:  Acumula pormenores das sensações captadas e recorre às sinestesias. pedir a João da Cruz que cuidasse de sua filha. pois ela tinha nascido “debaixo da [sua] má estrela”. o rigor formal. Mariana atira-se ao mar para se juntar a Simão e o comandante do navio que transportava Simão para o degredo viu “enleado no cordame. A simbologia do avental reúne. o avental. Joana Filipa Calado . O mar espelha o céu. “ramalhetes secos. escolhendo as palavras que melhor os refletem. mas condenado pelos homens. guardava igualmente o avental de Mariana. o trabalho e o martírio. antes.  O mar. Poesia Cesário Verde Poesia: . significando o percurso de Mariana na terra uma forma de purificação.  Transmite as perceções sensoriais. local de renascimento. os seus manuscritos do cárcere de Viseu”. estrófica e rimática. fonte de vida e. na obra. um valor polissémico – por um lado. e à flor da água um rolo de papéis que os marujos recolheram na lancha”.  As palavras antecipam a simbolismo. deste modo. Este elemento do traje de Mariana encontra-se. Preocupação com a perfeição. no âmbito da referência ao seu estado de loucura ao saber que Simão ia ser preso – é assim que. . para além de conter as cartas de Teresa. “o ultimo com que ela. Simão tem sobre uma mesa um caixote de pau-preto que. . por outro. Busca da impessoalidade e da impassibilidade. O corpo de Simão é deitado ao mar. o espaço em que os amantes acreditavam como único local onde poderiam realizar o seu amor puro. liga-se ao sofrimento. Simão morre vítimas dos seus iguais.

mas coisas que observa a cada instante. . fantasias mórbidas. frágil. saúde. Subjetividade do tempo e a morte: cidade = certeza para a morte . Mulher campesina: proporciona um amor puro e desconfinado. rejuvenescimento. terna. predadora. energias.Resumos Literatura Portuguesa 22 Exames 2011 .Poesia do quotidiano: nasce da impressão que o “fora” deixa no “dentro” do poeta . calculista. fria.deambulação do poeta. Binómios e Dicotomias em Cesário Verde: Cidade Campo Mulher fatal Mulher angélica Morte Vida . nem dá a conhecer o que sente -> oposto ao romantismo . ricos pretensiosos que desprezam os humildes. Subjetividade do tempo e a morte: Salvação para a vida. colorido da linguagem. sem sentimentos. madura. precisão vocabular. formosa. vitalidade. erótica. altiva.Não canta motivos idealistas. seres humanos dúbios e exploradores. artificial.Cidade: . saúde.Nível morfossintático: expressividade verbal. Mulher citadina: fatal. rica e expressiva (hipálage). local de trabalho onde acontece alegrias e tristezas (oposto ao local paradisíaco defendido por poetas anteriores). adjetivação abundante. descreve ambientes que nada têm de poético. liberdade.Campo: . monotonia. É assim que se pode falar deste mito em Cesário Verde na medida em que o contacto com o campo parece reanimá-lo.“Bairro Moderno”: Joana Filipa Calado . sofrimento. ingénua. vícios. . miséria. com a mãe-terra. despretensiosa. vida. . incomoda o poeta e os trabalhadores que nela procuram melhores condições de vida. “desejo absurdo de viver”.vida rústica de canseiras.Interesse pelo conflito social do campo e da cidade. melancolia. dominadora. destrutiva. Poemas: . frígida.O mito de Anteu permite caracterizar o novo vigor que se manifesta quando há um reencontro com a origem. poluição. dando-lhe forças. cheiro nauseabundo.Não dá a conhecer-se.Recorre raramente à subjetividade -> imaginação transfiguradora . vampírica. identificação do poeta com o povo campesino. fertilidade. quadras em versos decassilábicos ou alexandrinos. frases curtas e acumulativas.

“Contrariedades”: -  Poesia do quotidiano.“O sentimento dum Ocidental”:  Poema representativo da cidade em várias fases do dia  Poesia do quotidiano  Capturação de factos sem referir causa/efeito  Opção pelas formas impessoais.  Impressão que o “fora” deixa na alma do poeta (cruel. recusa dos jornais em publicarem os seus versos. impaciente)  Alteração do estado de espírito -> causa: depravação nos usos e nos costumes. denuncia e acusação do mundo injusto e pouco solidário. injustiça da vida pela doença que destrói a vizinha (abandono e exploração).“Em Petiz”  Poema representativo do campo -“De Tarde”  Tom irónico em relação aos citadinos  Recordação do passado: companheira e campo . fim do poema: intervencionismo.“Nós”:  Poema representativo do campo  Crítica à cidade  Campo: refúgio dos males da vida e recordação da família.Resumos Literatura Portuguesa 23 Exames 2011  Poema representativo da cidade  Transfiguração de elementos do campo para a cidade  Poesia do quotidiano .  Oposição entre sociedades industriais e sociedades rurais  Oposição entre proprietários e trabalhadores .“De Tarde”  Poema representativo do campo .“Deslumbramentos” Joana Filipa Calado . construções nominais e sinestesias (materializar o . exigente.“Cristalizações”:  Poema representativo da cidade  Poesia do quotidiano . . frenético.

“Esplêndida”  Poema representativo da mulher citadina  A mulher arrasta para a morte . Deslumbramentos  Mulher.  Transposição do plano individual para o plano coletivo: vingança contra a ordem social personificada pelas "miladies": duas últimas estrofes.ª estrofe. na segunda.“A Débil”  Mulher campesina retratada na cidade. que correspondem a personalidades distintas. Joana Filipa Calado . encontramos experimentações modernistas com a procura da intelectualização das sensações e dos sentimentos. que conserva o nome do seu criador e uma pequena humanidade.ª estrofe. arcanjo e demónio: 6. 16. "Grande dama fatal. 26- 28. que se manifesta como processo de rutura. Na primeira. observa-se a influência lírica de Garrett ou do sebastianismo e do saudosismo.  Erotismo de humilhação: redução do amante à condição de servo: vv. formada por heterónimos. sempre sozinha/E com firmeza e música no andar!"  Mulher. e a modernista. em versos geralmente curtos. coexistem duas vertentes: a tradicional. há uma personalidade poética ativa. designada de ortónimo.“Vaidosa”  Poema representativo da mulher citadina  A mulher arrasta para a morte .15. na continuidade do lirismo português. Resumos Literatura Portuguesa 24 Exames 2011  Poema representativo da mulher citadina . apresentando suavidade rítmica e musical. produto de convenções mundanas e identificação com a cidade: 1.“Frígida”  Poema representativo da mulher citadina  Mulher -> símbolo direto da própria morte .  No ortónimo.  Mulher fatal de humilhante indiferença como a mulher de "Les Fleures du Mal" de Baudelaire: "gestos de neve e de metal". Fernando Pessoa Ortónimo Síntese  Em Fernando Pessoa.

 O tempo. porque tudo é efémero. Fingir é inventar. a felicidade parece existir na ordem inversa do pensamento e da consciência. pela imaginação e pela inteligência. pois nada se concretizou. Isso leva-o a desejar ser criança de novo. uma felicidade passada. a cujo conjunto Pessoa queria dar o título Cancioneiro.  Pessoa procura.  O ortónimo tem uma ascendência simbolista evidente desde os tempos de Orpheu e do Paulismo.  O fingimento artístico não impede a sinceridade. implica e explica a construção da poesia de ortónimo. aquilo que sente naquilo que escreve. com autêntica sinceridade.  O conceito de fingimento é o de transfigurar. apenas implica o trabalho de representar. para lá da infância. ou entre a ambição da felicidade pura e a frustração que a consciência-de- si implica.  Pessoa sente a nostalgia da criança que passou ao lado das alegrias e da ternura. elaborar mentalmente conceitos que exprimem as emoções ou o que quer comunicar. representar com palavras ou outros signos o “fingimento”. na poesia pessoana.  Para exprimir a arte. fingir ao exprimir as emoções. Mas. antes se traduziu numa desilusão. através da fragmentação do eu. é marcada pelo conflito entre o pensar e o sentir. é um fator de degradação. ou nos poemas interseccionistas Hora Absurda e Chuva Obliqua. A fragmentação esta evidente. de exprimir intelectualmente as emoções ou o que quer representar. Joana Filipa Calado .  Fernando Pessoa não consegue fruir instintivamente a vida por ser consciente e pela própria efemeridade. o autor criativo precisa de intelectualizar o sentimento. a totalidade que lhe permita conciliar o pensar e o sentir. a realidade e idealidade surge como tentativa para encontrar a unidade entre a experiência sensível e a inteligência. Daí a sensibilidade a fornecer à inteligência as emoções para a produção do poema. Muitas vezes. o que pode levar a confundir a elaboração estética com um ato de “fingimento”.  A dialética da sinceridade/fingimento liga-se à da consciência/inconsciência e do sentir/pensar. que não é mais do que uma realidade nova. frequentemente. por isso.  O intersecionismo entre o material e o sonho. O poeta parte da realidade mas só consegue. em Meu coração é um pórtico partido. Chora. o passado é um sonho inútil. mas com toda a dimensão de sinceridade.  Pessoa considera que a arte “é o resultado da colaboração entre o sentir e o pensar”.  Entrar no jogo artístico. por exemplo. Resumos Literatura Portuguesa 25 Exames 2011  A poesia.

Isso leva-o a desejar ser criança novamente.  Há uma nostalgia do bem perdido. para lá da infância. elaborada mentalmente graças à conceção de novas relações significativas. a felicidade parece existir na ordem inversa do pensamento e da consciência. Daí o constante ceticismo perante a vida real e de sonho.  O pensamento racional não se coaduna com verdadeiramente sentir sensitivamente. e por isso. apenas implica o trabalho de representar. que a distanciação do real lhe permitiu. mas resulta da sua recordação.  Há uma necessidade da intelectualização do sentimento para exprimir a arte. Características Estilísticas: Joana Filipa Calado . A nostalgia da infância  Frequentemente. de exprimir intelectualmente as emoções ou o que quer representar. Resumos Literatura Portuguesa 26 Exames 2011 O fingimento artístico  Para Fernando Pessoa. único momento possível de felicidade. uma felicidade passada. a elaboração do poema confunde-se com um “fingimento”. pois nada se concretizou. A emoção precisa de “existir intelectualmente”. Muitas vezes. mas uma construção mental. porque tudo é efémero. com autentica sinceridade. Chora.  Pessoa sente a nostalgia da criança que passou ao lado das alegrias e da ternura. antes se traduziu numa desilusão.  O tempo.  A dor de pensar traduz insatisfação e dúvida sobre a utilidade do pensamento.  O fingimento não impede a sinceridade. que não é mais do que uma realidade nova. o que só na recordação é possível. é um fator de degradação. não acontece “no momento da emoção”.  A dialética da sinceridade / fingimento liga-se à da consciência / inconsciência e do sentir /pensar.  Na criação artística. Ao não ser um produto direto da emoção. na poesia pessoana. por isso. A dor do pensar  Fernando Pessoa não consegue fruir instintivamente a vida por ser consciente e pela própria efemeridade. do mundo fantástico da infância. representar com palavras ou outros signos o “fingimento”. para Fernando Pessoa o passado é um sonho inútil. um poema “é produto intelectual”. o poeta parte da realidade mas só consegue.

predomínio da quadra e da quintilha) . . da quadra popular Na poesia do ortónimo coexistem duas vertentes. tom nasal (que conotam o prolongamento do sofrimento e da dor)  Verso geralmente curto  Predominio da quadra e da quintilha  Adejectivação expressiva  Linguagem simples mas muito expressiva (significados escondidos)  Pontuação emotiva  Uso de simbolos  Fiel à tradição poética “lusitana” e não longe.Uso frequente de frases nominais . ritmo. inclusive a própria sinceridade que. com marcas do saudosimo. aliterações.Reaproveitamento de símbolos tradicionais (água. como impõe a modernidade. verso curto. redondilha maior).Pontuação emotiva . a tradicional e a modernista. rimas. rio.Economia de meios (linguagem sóbria e nobre. transporte. outras iniciam o processo de rutura.Sensibilidade musical (eufonia/harmonia de sons.Associações inesperadas (por vezes desvios sintáticos – “Pobre velha música”) . oximoros . a totalidade que lhe permita conciliar o pensar e o sentir. Resumos Literatura Portuguesa 27 Exames 2011 . A poesia é marcada pelo conflito entre o pensar e o sentir.Comparações. dá uma ideia de simplicidade e espontaneidade. com o fingimento. a realidade e a idealidade surge como tentativa para encontrar a unidade entre a experiência sensível e a inteligência. Algumas das suas composições seguem na continuidade do lirismo português. muitas vezes. possibilita a construção da arte. encavalgamentos. rimas. Joana Filipa Calado . mar…)  Musicalidade: aliterações. Pessoa procura. que se concretiza nos heterónimos ou nas experiências modernistas. metáforas originais. ritmo.Uso de símbolos . O intersecionismo entre o material e o sonho. equilíbrio clássico) .Adjetivação expressiva . A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a própria criação poética. ou entre a ambição da felicidade pura e a frustração que a consciência-de-si implica.Simplicidade formal (rimas externas e internas. transportes. através da fragmentação do eu. O poeta recorre à ironia para pôr tudo em causa.