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26 PRIMEIRO CADERNO Expresso, 24 de janeiro de 2015

CIÊNCIA

Necrópole MISTÉRIOS DA TERCEIRA

romana
COLUNA ROMANA
Na zona da Grota do Medo, a
norte de Angra do Heroísmo
(Terceira), foi encontrada a

descoberta
base em pedra de uma
escultura com uma inscrição
que parece da época romana.
O investigador espanhol
Antonio Colmenero defende

nos Açores?
que tem referências ao
imperador romano Marco
Opelio Macrino, nascido na
Mauritânia.

CONSTRUÇÕES MEGALÍTICAS
Existe um complexo megalítico
na Grota do Medo com antas,
restos de torres e outras
construções. Matéria orgânica
Nas Lajes, Terceira, foi identificada recolhida por Félix Rodrigues,
uma estrutura arqueológica professor de ciências do
ambiente da Universidade dos
onde se guardariam Açores, numa pia esculpida
numa rocha nesta zona, foi
as cinzas dos mortos datada com 950 anos de idade
por um laboratório americano.

MUDAR A HISTÓRIA
A construção escavada na
rocha agora identificada nas
Lajes (Terceira), “irá mudar a
história da navegação no
oceano Atlântico se for um
columbário romano”, afirma
Tibério Dinis, vereador da
cultura da Câmara da Praia da
Vitória, concelho onde está
localizado. “E terá um impacto
positivo no desenvolvimento
turístico do concelho”,
acrescenta o autarca. “O facto
de hoje existir uma dúvida
histórica” sobre aquela
construção “já atrai visitantes,
mas temos de preservar o local
até que terminem as
escavações, porque o
importante é que seja
analisado, investigado e
justificado, de modo a
sabermos para que servia e
quando foi construído”.

A estrutura escavada na rocha é parecida com as necrópoles do Mediterrâneo FOTOS FÉLIX RODRIGUES TEMPLOS NO MONTE BRASIL
Junto à Baía de Angra do
micircular, com sete níveis do nião baseia-se nas fotos tiradas do processo de investigação”, Depois, a DRAC anunciou que Heroísmo, no Monte Brasil,
Virgílio Azevedo chão até à cúpula. no local. Mas pelas caracterís- apesar do conhecimento e da vai avançar com escavações ar- existem cisternas que podem
Segundo a comunicação ticas únicas que apresenta — a ligação que têm a vários acha- queológicas. ser hipogeus (túmulos
Marisa Toste e José Carlos Rosa enviada por Félix Rodrigues estrutura com os nichos — iden- dos arqueológicos nos Açores. Nuno Ribeiro Lopes, diretor escavados na rocha) ou
estavam a definir um trilho pe- e pelo casal que encontrou a tifiquei-a como um columbário, regional da Cultura dos Açores, templos parecidos com os que
destre perto da Base das Lajes, necrópole às autoridades locais um possível monumento fune- Fora da arquitetura afirmou ao Expresso que “é ne- foram construídos pela
na Terceira. O casal pertence — Câmara da Praia da Vitória e rário”, esclarece Anabela Joa- tradicional dos Açores cessário resolver rapidamente civilização fenício-púnica em
ao grupo Trilhas, que organi- Direção Regional da Cultura — quinito. “Existem columbários esta questão porque por vezes, toda a região do Mediterrâneo
za caminhadas nos locais mais “a forma dos nichos, o chão da etruscos e romanos idênticos, “Na arquitetura tradicional quando os media noticiam es- há mais de 2000 anos.
remotos da ilha com interesse estrutura e a porta de entrada mas esta hipótese só pode ser açoriana não se reconhece pa- tes achados, há invasão e con-
turístico. Ao passarem por uma têm nítidas semelhanças com o considerada após recolha de ralelismo com qualquer cons- taminação dos locais” pela po- VERSÕES POPULARES
falésia a 2 km do mar, encontra- columbário romano de Castle espólio do local e de datações”. trução escavada, em escarpa, pulação. “Tal como a ciência, a A população das Lajes tem as
ram duas estruturas escavadas Boulevard, em Lenton, no Rei- A arqueóloga, especialista nas dimensões apresentadas no administração pública tem essa suas interpretações para as
na rocha com uma arquitetura no Unido”, construído há 3000 em indústria lítica (tecnologia espaço encontrado nas Lajes”, responsabilidade e não podem estruturas agora identificadas,
desconhecida. Por isso, depois anos, e que servia para guardar de trabalho da pedra), garante observa Celina Vale, professora persistir interpretações subje- salienta o relatório enviado às
de as fotografar, procuraram as cinzas dos mortos. O docu- que a Direção Regional da Cul- da Universidade dos Açores. tivas sobre o assunto”. autoridades locais pelos seus
Félix Rodrigues, professor de mento refere também os co- tura “levou esta hipótese em “Cabe à ciência, no cruzamento Mais tarde ou mais cedo, “vai achadores. Uma delas faz uma
ciências do ambiente da Uni- lumbários do Vale de Elá e de consideração, porque caso con- dos vários campos disciplina- acabar por ser encontrado ma- ligação com a Casa do
versidade dos Açores, que tem Beit Lehi, em Israel (o último trário não tinha optado por rea- res, entender as possibilidades terial arqueológico comprova- Castelhano, construída na
estado ligado a várias descober- construído há 2500 anos), e as- lizar escavações arqueológicas, do histórico funcional desta tivo da presença dos romanos Caldeira das Lajes no início do
tas arqueológicas na Terceira. sinala que “existem semelhan- tendo em conta a animosidade estrutura”. Precisamente com ou de outros povos antigos nos século XVI. “A narrativa
Félix Rodrigues entrou em ças formais com as Lajes, em que sempre demonstrou em fa- esse objetivo, responsáveis Açores”, admite Rui de Sousa popular interpreta os nichos da
contacto com dois arqueólogos termos de lógica construtiva zê-lo noutras ocasiões”. Anabe- da Direção Regional da Cul- Martins. O professor de antro- estrutura como tendo sido os
da Associação de Portuguesa e de arranjos arquitetónicos”. la Joaquinito critica o facto de tura (DRAC) visitaram o lo- pologia da Universidade dos locais de arrumo dos capacetes
de Investigação Arqueológica “Não vi os achados pessoal- os arqueólogos da APIA “terem cal, acompanhados pelos três Açores e diretor do Museu de de soldados espanhóis que
(APIA), Nuno Ribeiro (ver en- mente e por isso a minha opi- sido mais uma vez excluídos subscritores da comunicação. Vila Franca do Campo recorda defendiam a propriedade”.
trevista) e Anabela Joaquinito, que, nos últimos cinco anos, Outra versão diz que os nichos
que nos últimos anos têm iden- vários especialistas têm defen- serviriam para armazenar
tificado uma série de constru- dido “a hipótese de os Açores balas de canhão, “mas nenhum
ções nos Açores que parecem terem tido ocupações huma- canhão teria potência
muito anteriores a 1427, data TRÊS PERGUNTAS A nas anteriores ao povoamento suficiente para atingir
da descoberta oficial do arqui- português”, ao compararem qualquer barco no mar”, a mais
pélago. Os dois especialistas descobertas arqueológicas no de 2 km de distância. Além
avançaram uma hipótese: uma Nuno Ribeiro arquipélago com outras exis- disso, “não se tendo
das estruturas seria uma ne- tentes em regiões distantes e encontrado registos históricos
Presidente da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA)
crópole da época romana — ou datadas de épocas recuadas. nos Açores de tais estruturas,
mesmo de épocas anteriores “Independentemente da inter- as interpretações populares
— conhecida por columbário, P A APIA tem estado ligada P Poderia ser um pombal cons- P Como sustenta a ideia de pretação que for feita sobre pouco ou nada justificam, quer
muito comum em toda a região a descobertas arqueológicas truído pelos primeiros colonos uma cultura nova? achados como o das Lajes, o a sua cronologia quer a sua
do Mediterrâneo. nos Açores. O que pensa da es- portugueses? R Com base nos hipogeus (tú- mais positivo é a criação de um função”, adianta o documento.
trutura identificada agora nas R Não, porque a primeira fila mulos escavados na rocha), san- novo imaginário pré-português
Uma ilha misteriosa Lajes? de nichos se situa junto ao chão, tuários e arte rupestre que vi na dos Açores, muito mediatiza-
R É uma estrutura extraordiná- onde os pombos teriam dificul- Terceira — na Grota do Medo, no do, que tem contribuído para
A Terceira continua a ser uma ria, que pode ser um columbário dade em levantar voo e as cri- Monte Brasil — e noutras ilhas, revelar, valorizar, estudar e sal-
ilha misteriosa, onde os acha- do tempo do império romano as e os ovos seriam facilmente como o Corvo e o Pico. Os materi- vaguardar aspetos relevantes
dos arqueológicos pré-portu- ou mesmo de épocas anteriores, comidos por predadores (ratos, ais da indústria lítica (tecnologia e marginalizados da cultura
gueses se têm multiplicado uma necrópole com nichos que gatos, cães). Por outro lado, este de trabalho da pedra) que a APIA açoriana”. Sousa Martins dá
(ver caixa ao lado). A suposta guardavam caixas com as cinzas columbário é muito semelhante a recolheu nos maroiços (pirâmi- um exemplo: “O estudo e levan-
necrópole das Lajes, escavada dos mortos, depois de incinera- outros da área do Mediterrâneo, des de pedra) do Pico indicam tamento das dezenas de pirâ-
na rocha macia e porosa de um dos. Esta hipótese é baseada ape- mas suspeito que não é romano, isso mesmo, uma cultura nova, mides de pedra da ilha do Pico
tufo vulcânico, tem sete metros nas nas observações, mas estas mas de uma cultura nova, que e são iguais aos encontrados nas realizado pelos arqueólogos da
de altura, um teto semelhante têm de ser confirmadas agora resultou da influência de vários Canárias, onde viveram os guan- APIA, que nunca tinha sido
a uma abóbada romana e 178 por escavações arqueológicas e povos que passaram pelos Açores ches, povo de origem berbere. feito antes”.
nichos dispostos de forma se- datações. pelo menos desde há 3000 anos. vazevedo@expresso.impresa.pt