Está en la página 1de 30

Inquietudes da crítica literária militante de

Antonio Candido*
Rodrigo Martins Ramassote

Entre os anos de 1943 e 1947, Antonio Candido atuou como crítico literá- * Agradeço a Luiz Carlos Jackson
pelo convite e aos integrantes
rio militante na grande imprensa paulista, assinando os rodapés da coluna do Projeto Temático da Fapesp
“Notas de crítica” nos jornais Folha de S. Paulo (de janeiro de 1943 a janeiro “Formação do campo intelectual
e da indústria cultural no Brasil
de 1945) e Diário de S. Paulo (de setembro de 1945 a fevereiro de 1947).
contemporâneo” pela leitura
No total, foram publicados 162 escritos, dos quais oitenta foram recolhidos crítica, estímulos e sugestões a
uma primeira versão deste texto.
em livros (Brigada ligeira, de 1945, e Observador literário, de 1959), revistas
(Literatura e Sociedade, Remate de Males, Inimigo Rumor, entre outras), ou 1. Editada entre maio de 1941
e novembro de 1944, a revista
reunida em um volume organizado por Vinicios Dantas (cf. 2002b). Clima perdurou por dezesseis
Como se sabe, com o prestígio amealhado pela participação na seção edições. À frente da seção de crí-
tica literária, Candido assinou 28
de crítica literária da revista Clima1 – quando ainda era estudante no Cur- contribuições, distribuídas entre
so de Ciências Sociais (1939-1941) da Faculdade de Filosofia Ciências e artigos, resenhas e notas (algumas
delas com pseudônimos). Sobre
Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) –, Candido viabilizou Clima, ver Pontes (1998).
seu ingresso na imprensa diária de São Paulo2. Indicado por Lourival 2. Cf. Pontes (1998, p. 112).
Gomes Machado, também formado em Ciências Sociais e colaborador da
3. Ex-militante do Partido Co-
seção de artes plásticas, e sob o aval de Hermínio Sacchetta3 (diretor de munista Brasileiro (PCB) – com
o qual rompe por divergências
redação), assumiu a condição de crítico titular no jornal Folha da Manhã,
ideológicas em 1939 – e então
com a obrigação de “fornecer semanalmente, sobre livros do momento, dirigente da organização trotskis-

um comentário que ocupava toda a parte inferior de uma das páginas ta Partido Socialista Revolucio-
nário (PSR), o jornalista paulista
internas, o ‘rodapé’ (antigamente, ‘folhetim’), subordinado a uma rubrica Hermínio Sachetta (1909-1982)
geral invariável, que dava nome à secção e vinha impressa acima do título iniciou sua carreira como revi-
sor no Correio Paulistano. Em
de cada artigo” (Candido, 1992a, p. 10). novembro de 1937, assumiu o

Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido, pp. 41-70

cargo de diretor de redação na O exame das posturas e alianças políticas, ambições intelectuais, pressu-
Folha da Manhã.
postos doutrinários, preferências literárias, autores privilegiados e conceitos
analíticos incrustados nesse material depende da consideração de quatro
frentes correlatas de pesquisa. Em primeiro lugar, os contornos mais gerais
do contexto social e clima político-ideológico desses anos. Período de in-
tensa agitação política, os anos de 1943 a 1945 marcam, no plano interno,
o declínio do Estado Novo (e seus corolários: os primeiros movimentos
contestatórios, a reorganização da vida política, o abrandamento da censura
etc.) e, no externo, o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Em segundo
lugar, a alternância vivida por Candido entre a atividade de crítica literá-
ria e a profissionalização acadêmica na área da sociologia. A inserção na
FFCL-USP – como professor-assistente da Cadeira de Sociologia II (sob
a direção de Fernando de Azevedo) e dando prosseguimento às etapas da
carreira acadêmica (ao ingressar no curso de Especialização) – repercutiu
profundamente na perspectiva analítica adotada por ele nos rodapés. Em
seguida, a militância política em pequenos grupos de esquerda. Aderindo à
luta contra a ditadura varguista, Candido assume posições políticas e inte-
lectuais combativas, participando de agrupamentos de oposição na esteira
do processo de retomada da democracia. Por fim, a apreensão, por parte do
jovem crítico, do movimento e vida literária do início da década. Assinalado
pelo convívio entre os remanescentes do modernismo e as novas tendências
e autores que despontavam.
4. Cf. Bolle (1979), Lafetá Conforme afirma a bibliografia sobre o assunto4, a década de 1940
(2000), Candido (1988, 2000a),
prolonga e acentua as transformações de ordem estrutural e ideológica do
Johnson (1995) e Pontes (2001).
decênio anterior: expansão do mercado editorial e do sistema de ensino,
ampliação da grande imprensa e aumento do número de periódicos, acir-
ramento da polarização de ideários políticos e religiosos, entre outras. Mas,
no plano literário, caracteriza uma época de transição, em que veteranos
consagrados das primeiras gerações modernistas e jovens estreantes dividem a
cena literária. Às publicações tardias de escritores associados ao modernismo
ou à geração de 1930 (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge Amado,
José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Érico
Veríssimo etc.) se juntam as primeiras obras de Clarice Lispector, João Cabral
de Mello Neto, Fernando Sabino, Geir Campos, Lêdo Ivo, entre outros.
Dos 92 rodapés redigidos durante o período em que atuou na Folha da
Manhã, Candido selecionou e refundiu dezoito para compor os ensaios do
seu livro de estreia, Brigada ligeira, publicado em fins do primeiro semestre
de 1945. Neste artigo pretendo rastrear as principais discussões que mar-

42 Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 23, n. 2

Rodrigo Martins Ramassote

caram a produção intelectual de Candido nessa primeira fase, para então
finalizar com comentários sobre os critérios que presidiram a reunião e a
organização dos ensaios do livro.

O método crítico de Antonio Candido

Conforme prescrevia a tradição, em seu artigo de estreia na Folha da Ma-
nhã – intitulado “Ouverture” – Candido delineia o programa de trabalho a
ser seguido, destacando os fundamentos e a afinidade de seu método crítico
com o contexto histórico abrangente. Recusando o impressionismo como
finalidade última do julgamento crítico, admite, contudo, a sua validade
como “prolegômeno a toda atividade crítica” (Candido, [1943]* 2002c, p. * A data entre colchetes refer-se
à edição original da obra. Ela é
25). Por outro lado, a chamada “crítica científica”, pautada pelo ânimo de
indicada na primeira vez que a
superar as “condições personalíssimas” que constituem a base da avaliação obra é citada. Nas demais, indica-
se somente a edição utilizada
em nome de “fórmulas aplicáveis ‘objetivamente’”, consiste, no fundo, numa
pelo autor.
quimera: “pedantismos criados pela pretensão dos homens de letras” (Idem,
p. 24). Deflagrada pelas impressões pessoais, a qualidade e a penetração
da leitura ainda subordinada à “aventura do espírito” será superada, numa
segunda etapa, pelo esforço de “integrar a significação de uma obra no seu
momento cultural” (Idem, p. 25).
De acordo com os principais estudos sobre a crítica literária no Brasil,
a década de 1940 e a seguinte constituem o momento de apogeu do
rodapé, em cujas sessões atuavam representantes já veteranos da “crítica
modernista”5 (Tristão de Athayde, Mário de Andrade, Sergio Buarque de 5. A expressão foi cunhada por
Wilson Martins (1999).
Holanda, Sergio Milliet, Álvaro Lins, para citar os mais conhecidos), ao
lado de jovens recém-formados pelas faculdades de filosofia que surgiam
pelo país. Nas palavras de Süssekind,

Os anos 1940 e 1950 estão marcados no Brasil pelo triunfo da “crítica de rodapé”.
O que significa dizer: por uma crítica ligada fundamentalmente à não especializa-
ção da maior parte dos que se dedicam a ela, na sua quase totalidade “bacharéis”;
ao meio em que é exercida, isto é, o jornal – o que lhe traz, quando nada, três
características formais bem nítidas: a oscilação entre crônica e noticiário puro e
simples, o cultivo da eloquência, já que se tratava de convencer rápido leitores e
antagonistas, e a adaptação às exigências (entretenimento, redundância e leitura
fácil) e ao ritmo industrial da imprensa; a uma publicidade, uma difusão bastante
grande (o que explica, de um lado, a quantidade de polêmicas e, de outro, o fato
de alguns críticos se julgarem verdadeiros “diretores de consciência” de seu público,

novembro 2011 43

Com a criação da FFCL-USP. [. a um diálogo estreito com o mercado. em 1934. esclarece. pp. Falta às vezes para esta crítica. o panorama da vida intelectual começa a se modificar. v. 44 Tempo Social. Substituin- do a figura do bacharel polígrafo. crítica. e. que permite o contato íntimo com a criação literária (Candido. a adoção de uma orientação científica indispensável para o exercício da pesquisa e ensino em literatura – sem deixar de reconhecer. Candido defende. Milliet. por fim. aquela força penetrante e como que poética de simpatia. por excelência. estabelecendo critérios e formando cânones. Em ensaio de homenagem a ma. revista de sociologia da USP. 1994). Comen- pressionista” e “crítica científica” servem a variados desígnios e são tando em rodapé quatro conferências7 promovidas pelo Departamento acionados por ele de modo distin. acentuando a distância entre diletantes e profissionais. p. Basta lembrar a defesa das impressões pessoais no método celebrar o centenário de nascimento do poeta português Antero de Quen- crítico de Plínio Barreto. 23. Dada a centralidade da literatura e da imprensa diária na vida intelec- tual do período. Rejeitando “integralmente” o “conceito impressionista que faz da crítica uma aventura da personalidade”. mas que nem sempre triunfa na análise de um autor. n. entra em cena o especialista munido de sólida formação científica adquirida nas salas de aulas. 2002. para tanto. através da imaginação. Candido de saída avalia que a proposta analítica do conferencista. em pre. 1986. Emitindo juízos.] é mais uma crítica de erudito e historiador – crítica que situa. 2002d. o estatuto adquirido e o papel exercido pelo crítico conferiam influência e autoridade para arbitrar legitimamente sobre a dinâmica da vida cultural. na sua complexidade e diversidade. Os marcadores “crítica im. de períodos e movimentos literários. de uma obra. e do curso de Letras da Fa- culdade Nacional de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro. o papel desempenhado pelo gosto e apuro literários6. Antonio visão panorâmica. dominante à época. contudo. 6. 1943a.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. requer o senso histórico e Soares Amora destaca a impor- a profundidade da erudição. Municipal de Cultura e proferidas por Fidelino de Figueiredo – então to em função de contextos espe- responsável pela Cadeira de Literatura Portuguesa na FFCL-USP – para cíficos. aclamando ou conde- nando estreias e lançamentos literários. o exercício regular de uma coluna ou rodapé de crítica literária era bastante cobiçado. fácio de Papéis avulsos (1958) ou então o ensaio dedicado a Sergio de um modo geral. em 1939. onde a Fidelino de Figueiredo. 41-70 como costumava dizer Álvaro Lins. no qual Candido reivin- dica a retomado do ato crítico (cf.. grifos no original). A chegada dessa nova geração redefine os princípios e os critérios de legitimidade da atividade crítica. em várias passagens. com o movimento editorial seu contemporâneo (Süssekind. a única. atraindo o interesse e atiçando as preten- sões de seus possíveis postulantes. compara.. 17). tância desse ciclo de conferências (cf. 2000b). 2 . tal. Candido. infor- 7. Amora.

Isso não significa que Can- dido não reconheça (e exorte) rodapé dedicado à leitura da segunda série do Jornal de Crítica. um esforço para inserir na mesma ordem de que participa a essência da obra literária” (Candido. 1941a. segundo livro do crítico titular do jornal paulista A Noite. Parece-nos que ele se coloca sempre ante de um livro como que diante de um absoluto. tornando-a “uma aventura da personalidade. que transcende às contingências”. Rodrigo Martins Ramassote Não obstante. mas sim a equivocada perspectiva de análise por eles adotada8. 1979). diante da predominância da postura impressionista imperante – promovida em sua maior parte por “franco-atiradores” –. sempre confrontadas do ângulo fessada pelo crítico pernambucano – o mais influente do período (cf. toda aquela parte que significa neles ligação com o tempo. É o que se lê. Quando fala da missão do intelectual. na obra literária. A mesma objeção é endereçada a Carlos Burlamarqui Kopke. Da leitura de Faces descobertas – também publicado em 1943 –. quer como crítico de ideias. Não são exatamente a ausência de especialização e o amadorismo dos colegas de profissão que preocupam Candido. no 8. separam a crítica especializada Candido não deixa de registrar sua divergência em relação à postura pro. das diferenças geracionais (cf. Quero sugerir com este vocábulo impreciso a sua tendência de procurar o sentido por assim dizer metafísico das obras. o empenho analítico de Kopke é menos uma explicação do que “um esforço de comunhão” da realidade misteriosa da novembro 2011 45 . 17). se refere a um certo padrão eterno de conduta (Candido. do Sen- tido. p. a atitude defendida pelo historiador português é de grande importância. num meio no qual “quem não reconhece em si mesmo nenhuma vocação específica se põe a fazer crítica de livros”. relatividade” (Idem. [1943] 2002i. Chamando a atenção para a dedicação integral de Lins ao ofício. por exemplo. pois “falta-nos o hábito e a formação necessários para nos dedicarmos ao trabalho indispensável da localização da obra no seu tempo. ibidem). Bolle. e a produzida por amadores. e à busca inteligente das circunstâncias com ela relacionadas” (Idem). ele comenta o empenho do crítico em averiguar “a determinação. Da Beleza. contingência. daquilo que é eterno. [1944] 2002j). “por mais completa que possa ser a participação de um crítico no núcleo essencial de uma obra. Para Candido. o sr. da Poesia. Embora o tom elogioso predomine no artigo. Candido afirma: Quer como crítico de ficção e poesia. publicada as profundas diferenças que em 1943. Candido. é fora de dúvida que só há um meio para se chegar a eles: os seus sinais exteriores. de Álvaro Lins. porém. Carlos Burlamaqui Kopke manifesta preocupações que poderiam ser chamadas de essen- cialistas. [1943] 1999. De acordo com Candido. 1944d).

“em que não raro os indivíduos são ao mesmo tempo poetas. 1943g). Ressalvando que na revista Clima. o autor encontrar-se-ia nas antípodas “do verdadeiro espírito crítico. pode-se encontrar uma definição precisa da posição do autor.” (Idem). Com efeito. Ao proceder dessa maneira. porventura mais profundo e mais poético. porque é uma ilusão. e provavelmente nunca me verão falar de livros de teatro. é difícil dizer quais os limites precisos entre o crítico da literatura e o de ciências morais ou filosofia”. numa palavra [. Em contraposição a tal enfoque.. “minha escola de crítica”. Candido adota o conceito de fun- cionalidade como a diretriz geral de sua orientação analítica. Candido assevera que [.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Candido esclarece que a “especificação das funções do crítico varia na razão direta da complexidade e consequente diferenciação do trabalho cultural de uma sociedade” (Candido. Quanto ao resto. Em vista disso. como que o limita aos prazeres de uma aventura pessoal (Idem). O primeiro tende a incorporar o trabalho no patrimônio da história da cultura. até mesmo imposto por sua época. de cinema. 2 .. em “umas duas admoestações escritas e umas quatro orais”.. que o nosso autor pretende nunca esquecer.. escritores políticos.. de pintura ou de economia.]”. v. sociologizantes. 41-70 poesia com o “drama mental” do escritor (Idem). 23. filosofantes. No rodapé “Problema de jurisdição”. de “deslizar frequentemente para fora da crítica literária e invadir canteiros do próximo”. romancistas. n.. revista de sociologia da USP.] para a compreensão e o aproveitamento humano de uma obra o critério cul- tural (sentido largo) me parece melhor e mais sólido do que o critério metafísico. a fim de que este julgamento se torne um bem comum” (Idem). o resultado da crítica deve ser uma objetivação. de música. Ela deve poder extrair da obra analisada um julgamento tão desligado quanto possível do eu crítico. datado de 11 de julho de 1943. Por sentir-se “tanto mais à vontade para comentá-lo e tanto mais livre para apreciá-lo quanto me acho em posição bastante diversa da sua”. ou seja: objetivo. é aquele que consegue captar nas obras literárias 46 Tempo Social. ele anuncia que o método mais adequado. “procurou-se fazer uma seleção nítida entre certos gêneros de crítica”. Num meio marcado pela incipiente diver- sificação funcional. críticos. o encarregado de tal seção se vê obrigado a dar conta das solicitações que o ambiente lhe faz (Idem). De evitar a ficção. Respondendo a certos leitores que o haviam acusado. conferindo “uma notória preferência a livros que não são romances nem contos. pp. o segundo. afirma que “meus leitores nunca me viram.

Rodrigo Martins Ramassote [. Para tanto. novembro 2011 47 . cultura popular. à atuação profissional9 10. um dos autores preferidos de dade literária e princípio de seleção dos autores que merecem a atenção do Candido.”. não raro. E que leva a situações pa- radoxais: no rodapé “Vinte anos e às posições derivadas da militância política então exercida. critério de aferição da quali. Este caráter museu” (Candido. de seu objeto de pesquisa de dou- torado. Uma atitude arriscada10. nesse momento Candido exercia a função de professor-as- sistente na Cadeira de Sociologia Não se pode encontrar uma definição mais precisa da moldura social II e estava às voltas com a eleição em que a obra literária está engastada. eu direi que é o critério da sua necessidade. eis. num apanhado geral. Bastide. lar) –. Mas confesso que o acho bom. empreendia pequenas in- os achados analíticos utilizados por Candido. é necessário um ponto de vista. útil (Idem). Condicionamento histórico-social. dessa concepção se tornar. nalidade por ele adotada prende-se. É certo. neste sentido. No amor permanente que Candido indica que dedicamos a Proust (veja bem o plural. Necessi. contudo. os livros que mais se prestam sociologia – o que somente virá a ocorrer em 1947 (quando ele a esse tipo de estudo. Assim. é possível ao crítico embrenhar-se pela literatura. dedicado a Marcel Proust. isto é.] o denominador que aparenta umas às outras as diferentes manifestações de uma fase da cultura (Idem).]. o que nelas significa o caráter comum de todas as obras de uma cultura.. Sob o estímulo de Roger momento cultural e histórico. Proust envelheceu. buscando nela a repercussão da época e a sublimação dos traços nhum ensaio científico na área da da cultura. selecionando. Proust é uma sobrevivência de que a obra pareça alguma coisa que não poderia deixar de existir [. livro de contos de Aurélio Buarque de Holanda. simultaneamente. Não garanto a superioridade do método. quase sempre de maneira cursões a municípios do interior do estado visando travar contato cambiável. [revela-se] quase um atestado de óbito. compartilho- a com vós outros) há um pouco Se me perguntarem qual o critério mais firme e mais imediato para se julgar uma do amor que dedicamos às coisas obra de arte ou de literatura. voluntariamente. E.. partindo de uma formação filosófica ou socio- lógica. mais útil do que levar para as coisas literárias certos princípios de ordem sociológica e filosófica. Proust não tem razão de dade. como desculpa vossa. leitura de Dois mundos. quer dizer a presença de uma série de razões que fazem com ser. Apesar de não publicar ne- funcionalmente. Proust passou. procurando interpretá-la 9.] creio que não pode haver ofício mais interessante e. Isso ao ponto e. como em Éramos seis ou no Moleque Ricardo[. o crítico pode ser literário e ana- lisar uma obra como Casa-Grande & Senzala ou Raízes do Brasil ou História Geral das Bandeiras. em arma de combate. em certa medida. para designar a preocupação com os nexos entre a produção com práticas e manifestações da literária e seu contexto social. Contando que considere nelas. sobretudo... o elogio ao escritor francês..] o que há de mais fundamente cultural. Daí o interesse com que.. mortas. que procuro por em se afasta da crítica literária regu- prática. vem acompanhado da consta- tação de que a data “para a sig- No rodapé “Ficção (I)” datado de 4 de fevereiro de 1943 e dedicado à nificação funcional de sua obra. espírito de época. um princípio norteador: [. se há culpa. “na homenagem do vigé- crítico... que tendia a transformar a obra literária simo aniversário de sua morte”. que a concepção de funcio. 1943d).

Este. no sentido próprio. um fenômeno de antecipação nas esferas do conhecimento.. ao contrário da imagem apregoada por Candido – da sociologia como ponto de vista –. a meu ver. ela constitui então o fundamento central de sua orientação crítica. seja uma máquina que permite um domínio maior sobre a natureza. nesse sentido. Com efeito. que atravessa de ponta a ponta o conjunto. o valor de uma obra é inseparável deste aspecto de resposta a uma incógnita – de que acima falei” (Idem). seja em razão do quadro conceitual assumido. v. [. depende em grande parte daquele. a importância do empenho participativo nos rumos de sua época. 48 Tempo Social. portanto.] quando. Com as mudanças provocadas pela situação externa. revista de sociologia da USP. 41-70 é dado à obra por um conjunto de fatores. seja pelos pressupostos doutrinários adotados. aos inúmeros problemas que ele vê ou pressente em si. é sempre uma resposta: uma resposta dada por um indivíduo. pp. coisa alguma existe que permita sentir a sua eficiência artística – podemos dizer sem medo que esta obra é desnecessária. Ao caráter funcional da obra literária “vem ligar-se o seu valor próprio. os 92 rodapés redigidos na Folha da Manhã assumem um registro predominantemente sociológico e político. Em decorrência imediata dessa posição. nos outros ou no grupo (Candido. 1943b). que se reúnem. 23. 2 . é fatal para ela (Idem). Sendo a arte. seja um poema que torna mais claro um canto qualquer da alma – podemos dizer que o seu aparecimento foi necessário. tanto internos quanto externos. afinal de contas. certas características do homem ou da sociedade de uma época. Uma obra autêntica. isto é. para a sua funcionalidade. de modo geral. Por conseguinte. por fim.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. E tal constatação. de mais sensibilidade ou mais penetração do que a média. porém. n. não me parece exagerado afirmar que. Essa perspectiva for- nece régua e compasso para a avaliação das obras analisadas e. pode-se identificar uma insistente preocupação com o papel do intelectual diante das circunstâncias históricas de período marcado pela agitação e confusão político-ideológica. Quando se vê que numa obra nada responde a nada.. ou. a sua razão de ser em função de certos problemas ou. com isso. pelas preferências estéticas e autores privilegiados. uma produção do homem vem responder a este esforço de penetração. o posicionamento do intelectual no debate sobre a vida nacional avança para primeiro plano e. porque ela se integra funcionalmente no conjunto das atividades de uma cultura. simplesmente.

O seu grande trunfo. Clerica- lismo! Era só o que faltava! (Idem). é a crença na reforma graças a uma tomada mais funda de consciência. [. bernanosia- namente [referência ao escritor francês George Bernanos]. Me parece. todos unidos num regime de justiça social. contudo. O prefácio foi republicado em Aspectos da literatura brasileira não incompatíveis. O resto viria depois (Idem). milagrosamente. pode-se constatar a [. “característico dos diferentes espiritualismos. aceitar a inteligência. solução de classe. reunião de escritos do jovem crítico Otávio de Freitas Júnior. e que no seu caso.] preocupação central do autor: a luta por um novo humanismo que substitua o anti-humanismo dos dias presentes e passados. uma ética individualista e essencialista. a autorealização espiritual pela autoconsciência (Candido. Solução de elite. o pensamento adotado pelo crítico pernambucano acaba por afastá-lo das questões essenciais e prementes do tempo. não se acha. Girando em torno do personalismo essencialista. a que Candido exclama: Arrepio-me ao ver um moço. Rejeita violentamente as implicações direitistas do seu credo religioso e aceita plenamente certos aspectos populares. Andrade ([1945]1978). uma democracia popular. que o Sr. 1943i) Nesse amálgama de pontos de vista contraditórios. espécie de norma para uma pseudo elite intelectual..] boa vontade que deseja. publicado em 1944 e prefaciado por Mário de Andrade11. Quer um estado de coisas em que os homens participem intensamente da existência um dos outros. combinado com a Reação” (Idem). quando 11. Otávio de Freitas Junior esteja bem orientado nesse sentido. nas quais se misturam a (cf. ao mesmo tempo. mesmo. para isso. de reajustamento constante do homem com as suas condições de vida. que toca harpa enquanto Roma arde e salvaguarda a pureza de um Espírito que só tem sentido humano quando se volta para o sangue e a dor dos homens. um tipo cristão de existência. a uma compreensão mais aguda e mais essencial dos próprios problemas por parte do homem de inteligência.. E prega. e dos melhores. com efeito. Rodrigo Martins Ramassote Avaliando o lançamento de Ensaios do nosso tempo. que geram as condições morais – mas como a criação isenta de um enquadramento ideal. de modo consciente. novembro 2011 49 . Não me parece. que não percebe o quanto a sua orientação pouco ou nada resolve.. anti-hierárquicos da política moderna. eis o que ela é. a luta sem tréguas ao fascismo. não como um instrumento de vida e de reforma.. Candido identifica tendências conflitantes.

os mitos emergem quando ocorre a ruptura entre a estrutura social e as representações coletivas correspondentes. do caráter funcional do mito na sociedade”.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Por uma militância de esquerda independente Não é possível compreender as posições analíticas adotadas por Can- dido nos rodapés sob exame sem levar em conta seu envolvimento com a militância política. n. e convida os outros para as delícias do Clericalismo! Não faltava mais nada! (Idem). isto é. Tomá-los como ética privada. tal como apregoava Athayde. Na outra ponta. vá lá. o pensamento católico ou conservador assu- mido por intelectuais consagrados da geração anterior. Candido (1943e) aponta como a principal falha do livro encarar “o mito em si. 23. que são soluções novas. servindo de ponto de apoio para coletividades desnortea- das. gira. é erro. Há lugar para tudo. 41-70 E arremata o artigo: [. Talvez fosse mais acertado fazer um estudo. investindo contra os representantes da “Reação” – sempre grafada em maiúscula–. num livro que pretende agir sobre os outros. buscando uma explicação de caráter filosófico. que o autor não fez. gira. que visa julgar o seu alcance ético de acordo com um ponto de vista ontologista. chamou a atenção para essa questão. [Athayde] remastiga vagos ideais. reconhecendo a predominância de certo “sec- tarismo deformante” que o conduzia “para o aspecto ideológico o mais que podia. porém. v. e cada intelectual tem o direito de seguir os caminhos que escolheu. Ora.] não basta ser anti-fascista. num momento em que há ideias vivas. a fazer a avaliação crítica com base na importância 50 Tempo Social. nunca os problemas de convivência humana serão solucionados. que gira. revista de sociologia da USP. da perda em si mesmo. às vezes. o apelo reacionário ao passado é um perigo para o mundo futuro” (Idem). Ao abordar o ensaio Mitos do nosso tempo (publicado em 1943). Através do gidismo autofágico. Candido não poupa nem mesmo figuras de prestígio como Gilberto Freyre e Tristão de Athayde. pp. Querer. Erro e manivelada na roda-gigante da Reação.. 2 . É nesse período que sua filiação doutrinária de esquerda aparece com maior estridência. Longe “de virem de crises morais internas do homem ou da falta de sentido religioso da vida” (Idem). no rodapé “Os mitos e a reação”. E encerra seus comentários com a seguinte frase: “Nada propondo de efetivo. tendia. Ele próprio. não sai do lugar.. em diferentes ocasiões. ver neles soluções coletivas de progresso. do intelec- tual católico carioca.

p. Nunca cheguei a ser esquemático. pela independência tanto em relação às posições stalinistas como trotskistas e. Rodrigo Martins Ramassote ideológica. Radek. “simpatizante comunista e [que] aconselhava a leitura de livros de Marx. Lembro da impressão que tive vendo as atas dos Processos de Moscou. Candido. alto funcionário que fugiu para o Ocidente e começou a revelar as iniquidades do regime socialista. Ao retornar ao país. pelo exemplo de Paulo Emílio Salles Gomes. 12. Kamenev. mas não stanilistas nem trotskistas” (Idem. alterando a fundo sua visão política12. onde passou a adolescência (cf. p. esse interesse foi reforçado pelo contato com o professor de filosofia Jean Maügué. 8). 128). a nos dar livros reveladores. 1996a). de um lado. p. apud Jackson. Candido integra-se no final de 1942 a um pequeno grupo de intelectuais (composto por Paulo Zingg. como o de Alexandre Barmine. 8). De acordo com depoimento concedido à revista Praga. ingressar na FFCL-USP e con- viver com Candido e os demais integrantes do que viria a ser conhecido por grupo Clima. ainda em Poços de Caldas (MG). Piatakov e outros “confessando” que eram todos traidores a serviço das potências capitalistas! Foi uma das farsas mais trágicas e mais ignominiosas da história (Idem. em fins de 1939. Sob o estímulo e a orientação de Paulo Emílio. Paulo Emilio [. como Bukarin. com um espírito muito aberto” e. das diretrizes impostas pela União Soviética – o grupo adquiriu certa expressividade. Candido revelou um interesse precoce pelas ideias de esquerda. nem fanático.. Paulo Emílio contatou na França “grupos e pessoas de orientação marxista. Fiquei petrificado quando li as declarações dos grandes revolucionários de 1917. encarcerado em dezembro de 1935 (na onda repressiva que se seguiu à Intentona Comunista) no presídio Paraíso – de onde fugiu no Carnaval de 1937 para o exílio na Europa –. p. Adotando uma fórmula de ativismo marcada. pela busca de um modelo de socialismo ajustado à rea- lidade nacional – afastando-se. Com o ingresso na FFCL-USP. 2002. 8). ver Can- dido (1986). mas um pouco redutor” (Candido. Zinoviev. portanto. preconizador de um “tipo de socialismo independente” (Idem. redigir documentos e praticar alguns atos contra a ditadura. sobretudo.] começou a nos comunicar essas coisas. Ex-membro da Juventude Comunis- ta.. juntando-se a outros na rede clandestina de luta pela redemocratização (nucleada em torno da Facul- dade de Direito de São Paulo). Germinal da Costa Feijó e Antonio Costa Correia) que se reúne aos finais de semana para discutir temas políticos. Eric Czaskes. novembro 2011 51 . Sobre o assunto. de outro.

em 1943. feitamente no perfil social de adeptos indicado por Rodrigues Distanciada dos embates políticos. Ele destaca a espantosa transformação econômica que critica da economia política. que a para o português. intelectual. Resenhando. 41-70 Dessas reuniões dominicais surge o Grupo Radical de Ação Popular (GRAP). centrada na elucubração e intervenção (1986) em análise sobre o PCB. há “certos livros que nos arrastam violentamente Socialista Revolucionário (PSR). coligou-se à Esquerda Democrática (ED) – que então se formara no Rio de Janeiro – e participou de seu estabelecimento em São Paulo. as divergências internas afloraram e o grupo se desfaz: os liberais ingressaram na União Democrática Nacional (UDN).Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Nos rodapés. A principal iniciativa dessa frente foi a publicação de quatro edições do jornal clandestino A Resistência. De igual maneira. os socia- listas fundam a União Democrática Socialista (UDS). a ED mudou o nome para Partido Socialista 13. os rigores impostos pela tradicionais partidos políticos de esquerda. Candido adverte. Seguindo de perto o modelo instaurado pelo GRAP. pp. Candido. de uma indústria apenas esboçada e limitada ao aspecto manufatureiro também Ridenti (2010). 1986) 13. Dada a “dificuldade de arregimentar e coordenar as tarefas para a luta eleitoral que então se iniciava” o grupo. o livro Hitler cannot conquer Russia. Sobre o assunto. as reuniões do grupo ocorriam na casa de Paulo Emílio. suas incursões políticas dedicação extremada à causa privilegiam a bibliografia internacional sobre o marxismo e temas relacionados não coadunavam com o perfil profissional admitido dentro da com a Revolução Russa e seus principais protagonistas. ao segundo lugar no mundo na produção pesada e a um desenvolvimento agrícola que é o mais perfeito da terra” (Idem). Não é casual. Brasileiro (cf. Com o declínio da ditadura. que se ligou. numa tradução “muito má e revisão abaixo da crítica”. a um grupo combativo de estudantes ou jovens formados em Direito – composto em sua maioria por liberais– para formar a Frente de Resistência. 2 . v. n. o leitor: “nessa semana não política assumida Florestan Fernandes. em 25 FFCL-USP (distante das ques. no interior do Partido farei crítica literária”. de Maurice Hindus – vertido tões políticas mais candentes). Camur- ça (1998) e Rubim (1988). revista de sociologia da USP. Em meados de 1947. por modalidade de participação A Resistência Russa –. pois. e seu feito de maior destaque foi a redação do Manifesto da União Democrática Socialista (UDS). ver tiva. de uma agricultura primi- Karl Marx. de projetou o país da “extrema carência econômica. de saída. A eficiência do modelo rus- so – reconhecida “mesmo pelos que não partilham da doutrina oficial do governo de Moscou” – parece-lhe “devida a dois fatores: compreensão clara da forma de organização econômica compatível com as condições nacionais e execução dos seus princípios dentro de um regime político que mergulhava solidamente nas tradições do país” (Idem). a militância assumida por Candido reivindicava uma posição inde- Candido não se ligou aos partidos pendente e autônoma da disciplina e do conteúdo doutrinário exigidos pelos de esquerda tradicionais. para fora da literatura. 1943c). de fevereiro. Não se enquadrando per. além do lançamento de um manifesto (redigido por Paulo Emílio) em 1945. antes de se dissolver. 52 Tempo Social. em pleno jogo das ideias vivas e dos acontecimentos” tenha se restringido à tradução e comentário de Contribuição à (Candido. 23. também.

A despeito da rejeição das tendências trotskistas – mas não da admiração da figura e dos escritos de Trotski –. ser a imposição totalmente nova de um tipo de vida a um povo não preparado para recebê-la” (Idem). a autobiografia do revolucionário russo. Em tempos de domínio absoluto da doutrina stalinista. Candido. apesar dos esforços de muitas das Nações-Unidas. Num momento em que “sentimos no ar a ameaça. quando muito. Rodrigo Martins Ramassote Revelando um domínio extenso da literatura sobre a história russa – sem dúvida decorrente da participação nas reuniões da GRAP –. assi- nala a importância desse revolucionário para a concretização da Revolução Russa: se “Lenine foi o Patriarca e o Condutor. portanto. o que estão é. que foi de encontro a condições favoráveis. assentou a sua construção com a racionalização de alguns de seus mais sólidos princí- pios”. diariamente anunciada por quem sabe ver de um neofacismo de após guerra. se escudando num soi disant motivo dia- lético. e só por isso conseguiu realizar o que realizou (Idem). de 4 de julho. não podendo “de modo algum. Minha vida (traduzida em 1943 por Lívio Xavier). Assim. que venera e cultua o sucesso do fato consumado como a verdade suprema” (Idem). E se indaga: novembro 2011 53 . 1943f ). Foi. torna-se mais dramático e comovente o apelo que faz uma grande vida como a de Trotski. uma revolução que se apoiou nas mais profundas tradições nacionais. Candido comenta que não se deve julgar as realizações do segundo como desvios em relação ao ideário comunista. no sentido da inteireza ideológica e da intransigência na defesa dos interesses populares” (Idem). se curvando ante não sei que desfibrado evenemencialismo. tampouco aceitá- las de maneira fatalista: “[posição] que se colocam certos intelectuais de um oportunismo sem imaginação que. A propósito do embate Trotski versus Stalin – oposição “entre a Pureza e a Eficiência” –. o artigo salienta a correspondência entre a orientação adotada na condução dos processos que culminaram na transformação indicada e características e tradições seculares do povo russo: “Longe de ser uma ruptura total com o passado. O rodapé destaca ainda a trajetória revolucionária e participação decisiva de Trotski na tomada do poder pelos bolcheviques em 1917. O regime soviético é um fenômeno especificamente russo. com indisfarçável satisfação. o seu deslanchador em Leon Trotski” (Candido. teve o seu realizador. é tratada no rodapé “Uma vida exemplar”. propondo solução compatível com os problemas da “realidade russa”. e da consequente rejeição do legado de Trotski pela maioria dos partidos políticos de esquerda.

Não obstante. Esta não se nutre apenas da riqueza humana do autor. Daí seu defeito ser não do [. da definição de uma existência” (Idem). Incapaz de delinear a psicologia de seus personagens – “não se tem a impressão de gente viva. operando a passagem da vida à arte” (Idem). do escritor comunista Tito Batini. 54 Tempo Social. Requer uma agudeza psicológica. concedida em janeiro de 2011. como é angustiado o brado que levanta em relação à condição da massa proletária e como se orienta decididamente para a sua justa solução” (1943h). do fundo do caos em que estamos? (Idem). Tito Batini o defeito vem do romancista. Sobre a Livraria e Editora Martins e Por incentivo do amigo e futuro editor José Martins14.. n. Candido confirmou que a sugestão da publicação veio da Da militância combativa à brigada ligeira parte de José Martins..]. a concepção dos homens em sociedade. v. cujo pensamento esclarece o pensamento [. a mais justa e a mais propícia para encher os pulmões de um verdadeiro escritor. Candido lamenta discordar esteticamente do autor: “porque se percebe logo quanto de humanidade e justiça há na sua orientação em face do homem.] assunto.. Em entrevista a mim composição sem as quais o resto de nada vale (Idem). cuja ação dá confiança na ação. nem da concepção de vida do autor. isto é. A vida desse homem foi uma ilustração destas suas palavras. revista de sociologia da USP. pp. É um homem cuja vida é exemplo. ver Silva Brito (1968) e Pontes (2001). porém. ou do seu sentido mais ou menos justo das coisas. de modo a articular os acontecimentos por que passa o protagonista do romance com a “sucessão correlata de estados psicológicos que vão se organizando no sentido de uma evolução interior.. Candido decide seu proprietário. Não é mais o trotskista Trotski quem fala. um senso de participação e qualidades de 14. Batini confina a vida de seus personagens ao pitoresco e ao acúmulo exterior de sentimento. Que exemplo melhor para reinfundir confiança no homem. O romancista é que é o culpado pelo desperdício do assunto e pela inconsistência que se esvai o problema social exposto. que as convicções políticas redundem na descon- sideração pelos desafios da linguagem literária. Não se pense. O que vem provar mais uma vez que a honestidade e a boa vontade não bastam para fazer obra de arte. O assunto é o mais rico possível. 2 . No Sr.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Batini “não tem a constituição romanesca necessária para dar aos seus ideais um cunho verdadeiro de literatura. mas de fantoches do autor” –. 23. 41-70 O apelo de uma vida como a sua transcende as divisões ideológicas para se situar no campo em que se encontram todos os homens interessados em ver justiça na terra. Na leitura de Entre o chão e as estrelas (publicado em1944). reunir em livro parcela expressiva dos rodapés publicados na Folha da Manhã.

em 28 maio. Batini. resenha D. em “An- cunho programático ou polêmicos e os rodapés dedicados à poesia. a seleção dos rodapés de Brigada ligeira sinaliza. Stuart Gerry Brown. do Sono (publicado em 1942). o que acarreta. 416). (1998). ver Pontes seus julgamentos críticos. “Antes de Marco ênfase a orientação política. Candido traduz com precisão a justaposição entre crítica literária. Sobre a polêmica com Oswald. De acordo com Candido. palestras. em 1943. Brigada ligeira privilegiou análises na data de 19 de outubro de de romances. a extensão e o limite dessa questão. Paulo no final do primeiro semestre desse ano. de um lado. his Cow. Não por acaso. certa distorção em Zero” e “Marco Zero”). defendido por Candido. E com isso retornamos à questão do sectarismo crítico. riormente. de outro. por sua redigidos a partir do final do vez. a tese sobre responsável por atribuir “a seção de crítica literária” ao autor – e a Lourival Sílvio Romero foi redigida entre Gomes Machado – que “dois anos depois” empurrou-o “para a aventura 1º de fevereiro e 11 de março de 1945 (cf. Exemplo disso é a polê- ficção. O período de inscrição ao volume. Dantas. historiografias literárias. na revista Clima de setembro. Diversamente das leituras dedicadas aos romances. permitindo uma discussão mais mica com Oswald a respeito do julgamento da obra de Tito qualificada do problema. estudos históricos. Deixando de fora artigos de circunstância. Dedicado a Alfredo Mesquita – patrocinador da revista Clima e estipulado foi de 150 dias. 2002a). sociologia 16. que viria a ocorrer entre 23 de julho e 4 de agosto de 194515. Uma avaliação detida dos rodapés dedicados à análise de poesia19 de William York Tindall. excluída da versão final de nas quais a cobrança da participação dos intelectuais adquire uma posição “Estouro e libertação” (composta da junção dos artigos “Romance mais discreta e de fundo. A rosa do povo (Carlos Drummond de Andrade). livros de crítica etc. volumes finos e de pequeno for- Organizada paralelamente à redação de O método crítico de Sílvio Ro. publicado ros não literários (biografias. de Wright Thomas e nem mesmo a retocar ou elidir trechos significativos dos artigos escolhidos18. De acordo com Hallewell e política no centro de seu projeto intelectual. gêne. em mero (Candido. revela. mond e Cassiano Ricardo– era As metamorfoses e Mundo enigma (Murilo Mendes). como veremos a seguir. bem como a redefinição das (1982. textos de de Cleanth Brooks. para uma estratégia de depuração dos excessos do engajamento então primeiro semestre de 1944 dão prova das mudanças em curso. Lawrence and Susan. nos estudos de poesia Candido assume com maior e expectativa”. Boa parte deles reunida no estreias poéticas promissoras – com exceção. abordada ante- H. Candido (1944a) cita Modern poetry and tradition traduções. de obras contemporâneas brasileiras. o que. conferiu certa unidade 1944. coletâneas de ensaios. acima mencionado e a partir da qual ele começa a rever seus pressupostos 17. de Pedra volume organizado por Dantas (2002b).). Em “Última nota”. foi “iniciada a ‘Coleção Mosaico’. conforme expresso no prefácio. é verdade que o período caracteriza certa entressafra de 19. não raro. menciona Reading também excluía as contingências temporais mais evidentes – não se furtando poems. Mar absoluto (Cecília ligada à chamada poesia espi- novembro 2011 55 . o autor tologias”. de João Cabral de Melo Neto –. de 26 de março do mesmo ano. os rodapés intelectuais17 –. talvez de maneira mais nítida do que nos escritos sobre prosa de 18.1944. Rodrigo Martins Ramassote O objetivo imediato era robustecer o currículo profissional para concorrer à vaga do concurso da Cadeira de Literatura Brasileira. o livro de estreia de Paulo. O edital do concurso foi publicado no Diário de S. Diário Oficial de São mais ampla e comprometedora do rodapé de jornal” –. [1945] 1988) – tese com que se candidatou ao concurso sua maioria de crítica literária”. a maioria Candido não aborda o lançamento de livros importantes de poetas consa- desses poetas – exceto Drum- grados do modernismo20. mato (17 cm de altura). de posições assumidas por ele até o momento. p. Com efeito. 20. Publicado na coleção Mosaico16 15. Se.

se não me engano. Numa palavra: 21. p. há seis anos [1938]”. cuja produção ligeira – que perfazem apenas nove dos noventa artigos publicados – se despontava no cenário literário relaciona à excessiva ênfase na defesa da poesia participante por parte do nacional. de que lhe que dou a notícia do seu último livro. de um lado. de outro. “é com prazer da sua poesia? Justamente esta ausculta angustiada. tende a ser menor”. ou seja. [1943] 2002i. Candido indaga: “Quem é o grande poeta da em 1944 – segundo livro de poesia de Rossine Camargo Guarnieri. mas perfeitamente justo em suas apreciações de ordem estética” (Can- dido. a atenção de Candido recaiu Minha hipótese é de que a exclusão dos rodapés de poesia de Brigada preferencialmente sobre os poetas de sua geração. a uma visão bastante reticente das tendências tística. 129) – a propósito do absenteísmo da poesia de Manuel Bandeira (que autoqualificara sua obra como menor). liação elogiosa de autores representativos da poesia participante que 22. Já abordei essa questão em “a poesia passou. o perigo de ser mal compreendido (ela poderia se prestar a “segundas inter- pretações”) –. marcada pelo lirismo intimista e pela notação emotiva. científica – nos poéticas intimistas e formalistas que culminariam logo mais na chamada aparece como um instrumento de conhecimento e um guia geração de 1945. o que estava em conflito com a redefinição pela qual ele passava. Moraes) – todos publicados entre 1943 e 1945 – são alguns exemplos disso. a querer ser pura” (Idem)21. retriz assumida em “Ouverture”: Esses rodapés evidenciam que a cobrança do engajamento político dos au- “Assim compreendida. Qual é a característica publicação de Porto seguro. falo. preocupada com a meditação sobre o homem e seus problemas. Procedimento que não deixa de ser coerente com a di- crítico. a partir do simbolismo. v. o ro- 1945 no volume Plataforma da dapé “Longitude”. em boa parte. e a sua Exemplar nesse sentido é o escrito “Sobre poesia”. [1943] 2002c. Ramassote. p. outro artigo (cf. abril de 1944. [1944] 2002e. já que “a aspiração de grande parte das correntes posteriores foi se limitar aos momentos poéticos. dedicado à leitura de A voz do grande rio – publicado nova geração. nesse sentido. nossa idade aqui em São Paulo: Saudando-o como o “melhor e o mais forte dos poetas moços de São o único verdadeiro poeta. Por isso. Candido discute as pertinência de se adotar como critério estético a oposição en- tre poesia menor. pp. Com a preocução Meireles). aos momentos raros em que uma emoção agudamente sentida fosse transmitida com pureza ao leitor” (Idem. e poesia maior. Em decorrência dessa linha de raciocínio. O sangue das horas (Cassiano Ricardo) e Cinco elegías (Vinícius de de orientar o sentido geral do movimento que então surgia. Candido sugere que 56 Tempo Social. a crítica – literária. 28). pois que a ela incumbe uma parte desse tores estudados levou. nos caminhos difíceis. 41-70 ritualista. a uma valorização exagerada de poetas trabalho. republicado em hoje estão completamente esquecidos.243). n. ar. Recuperando um artigo de Carlos Lacerda – “polêmico. não causa espanto a ava- 2009). do tempo e do homem” Esboçando uma tipologia de conotação política – ainda que reconheça (Candido. descontados Paulo”22. 2 . guardando um silêncio interrompido após a Guarnieri. 129-130). O rodapé começa assinalando que “a poesia moderna. Candido (1944b) lamenta que Guarnieri tenha se mantido os inéditos? Rossine Camargo “esquivo ante o público. p. No depoimento concedido a Mário Neme. É ilustrativo. 23.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. filosófica. hoje esquecidos e. A voz do grande rio” (Idem). revista de sociologia da USP. publicado em 30 de utilidade não pode ser negada” (Candido. pp.

foi incorporado à sensibilidade do poeta. O sr. Rodrigo Martins Ramassote [. São poetas sintéticos. assim. resultando. Nas coisas e nas cenas do mundo. Além disso. vêm de preferência correlativos objetivos – para usar uma expressão de Eliot – das suas idiossincrasias. que procura individualizá-las ao extremo. emoção ou ideia por meio de verso” (Idem). a ponto de se tornar poesia – isto é. levando-os a coletivizar as suas emoções em oposição à primeira atividade.. embora muito lhe falte para atingir a posição verdadeiramente poética conseguida por ele e por mais alguns poucos na literatura moderna: Aragon. o rodapé recusa a convicção. de que pelo fato de ser intemporal a poesia não deve “se dirigir aos problemas presentes da coletividade. como síntese. tomam consciência do mundo e o opõem a si mesmos. A primeira atitude compreende os poetas aos quais a sua própria personali- dade aparece irremediavelmente misturada com a dos outros. Aplicada ao exame da tradição poética brasileira recente.. Day Lewis. mas relacionados a questões de técnica e de concepção da poesia. numa palavra. Rossine Camargo Guarnieri também se coloca ao seu lado. que. usando os termos. partindo do seu eu (etapa em que permanecem os da primeira categoria). muito em voga à época. uma esquerda e uma direita poéticas. Candido afirma que a questão reside em saber “até que ponto o tema. excessivamente teses. Manuel Bandeira. criando beleza dentro de condições extremamente individuais de sensibilidade.] os poetas se organizam segundo um meridiano ideal. A segunda atitude caracterizaria os poetas preo- cupados sobretudo com a expressão do destino individual. e à sua direita. construindo um sistema poético em que sobreleva a necessidade de expansão do eu e da obtenção de uma poesia mais ou menos pura. maior ou menor. “encontra- mos apenas um grande poeta. Alinhada aos desafios de seu tempo. qualquer que ele seja. estilização acentuadamente pessoal de qualquer impressão. Por outro lado. Carlos Drummond de Andrade [. não no sentido político corrente. a poesia (Idem). na vertente oposta. no sentido de bastante a si mesmo e inimiga do tema poético. Murilo Mendes – uns mais outros menos” (Idem). a poesia de A voz do grande rio se nutre novembro 2011 57 . Haveria. Vinicius de Moraes. pois assim se torna demasiado circunstancial” (Idem). Os poetas de direita geralmente não se ultrapassam. São. Os poetas de esquerda tentam transpor este individualismo.. abrindo a sua sensibilidade ao mundo e ao semelhante e procurando uma expressão mais total do mundo. havendo os que se colocam à sua esquerda. se me permitem a expressão.]. Spender.. tal classificação indica um predomínio maior de poetas à direita do meridiano adotado: “Schmidt. Neruda” (Idem).

. José Tavares de Miranda. segue na mesma direção. O rodapé “Um poeta impuro”. 23. de José Tavares de Almeida.] (Idem). num movimento intenso de fraternidade. Assim. 2 . “é um livro que é necessário ler. obrigação inelutável de bradar contra a iniquidade. com tanto mais veemência quanto não se trata de um qualquer. mas de um poeta de primeira qualidade levado ao discursivismo pela sua intenção – aliás muito nobre de transformar o seu verso em arma de com- bate” (Idem). organizando-o e podando-lhe os brotos excessivos.. não só porque nele se encontram poemas de vigorosa beleza. E é justamente o verbalismo do poeta (“um condor mais polido e manso”) que chama a atenção de Candido. A crítica inicia com uma lembrança pessoal: a figura do poeta pernambu- cano discursando – “dando às palavras uma veemência de tribuno antigo” (Candido. Rossini Camargo Guarnieri. de ontem e agora. Candido chama a atenção para o uso recorrente de recursos como o “slogan. e a lembrança daquela sessão agitada do XI de Agosto ajuda-me a compreendê-lo melhor” (Idem). encontro-o num livro de versos. pp. o dístico quase de propaganda ideológica [que] mutila dolorosamente certos poemas que. mas porque representa das poucas tentativas sérias feitas entre nós no sentido de uma poesia menos personalista e mais humana” (Idem). não deixa de assinalar ressalvas. revista de sociologia da USP. Candido teve “a impressão exata de um último condoreiro. 41-70 [. se teriam tornado obras- primas” (Idem). Seja como for. “é deste equívoco que acuso o sr. Essa característica relega “para segundo plano o elemento consciente que em geral leva o poeta a construir o poema. no entanto. Na ocasião. n. a China enchem as páginas com a sua dor e a sua paixão. O nosso poeta aceita a sua fatalidade oratória e faz bem – porque se ela o torna não raro palavroso 58 Tempo Social. v. O poeta sofre e canta com os seus irmãos da terra inteira. que inflama o poeta e forma a base desse livro [. 1944c) – no grêmio estudantil Centro XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. de um líder da Abolição cheio de imagens e bêbado com o som da própria voz.] do fato de todo dia. dedicado ao exame de Poemas – também publicado em 1944 –... Nunca mais vi o moço de sotaque nortista. A apreciação. Parece que é este sentimento de compromisso moral. A Abssínia. Não faz muito tempo que soube tratar-se do Sr. Indicando certo desequilíbrio no livro de Guarnieri – resultado da ausência de “amadureci- mento suficiente dos temas para que eles encontrem a sua forma própria” –. mais pensados e mais depurados. Agora. a Espanha. Os países que sofreram primeiro de todos os botes do fascismo são como que os heróis que aparecem a cada poema.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido.

p. Para ser fecunda. a eloquência que leva o tema acima da banalidade” (Idem). o som (Idem). confesso que o aprecio mais por esta circunstância. as sensações que lhe pode dar. e não que queiram 23. Quero os elementos humanos que a tornam comunicativa e inteligível. Mallarmé e. 2010). compreensiva (cf. o crítico exorta: Não é possível a arte. A pureza está longe de ser um ideal artístico absoluto. impuro. de antinatural na concepção semítico-cristã de castidade – por exemplo. a cor. que não passa de um ideal. Com efeito. José ção de Candido sobre a poesia Tavares de Miranda. portanto. A poesia pura. sobretudo. novembro 2011 59 . tornando-se mais mal explicadas (1944c)23. leio Mallarmé e gosto muitíssimo dele. Posteriormente. acentuando as qualidades plásticas. a meu ver.. porque sinto nele um calor de finessecular francesa – e também sua congênere nacional – irá se vida nem sempre discernível nas chinoiseries e no vocábulo puro – [coisas]. 168). Rodrigo Martins Ramassote e superficial. do dadaísmo” (Candido. cheio de demasias. Ele reconhece a importância do Simbolismo francês “não só pelos valores próprios que manifestou”. lhe dá em troca. as virtudes de despojamento e pureza poética. despida que se nutre das migalhas do silêncio e soluça por não poder atingi-lo. as mais das vezes. Verlaine são. a concep- virar som puro – porque neste caso vou ao concerto. Aborda o tema pelo exterior. Nesse sentido. modificar. [1944] 2002h. Os seus temas são simbólicos ou gravemente altíssonos. nesse momento. Pires. é a negação mesma do esforço artístico. para se realizar. ao encerrar o rodapé sobre José Tavares. toda pureza deve começar por renunciar a si mesma. um corres- pondente moral da pureza poética. Poesia para ele é exaltação antes de compreensão ou ponto de vista. as bêtes noires de Candido. E sustenta: De minha parte. [a] pureza que esteriliza de certo modo algumas das expressões mais vivas do homem. aliás.] o Sr. a poesia. Estamos num tempo em que se exagera bastante.. como mui- ta gente. É dos meus poetas prediletos. Tavares de Miranda usa meio tom e nunca se faz o cantor da vida corriqueira ou pequenina. Nós todos sabemos o que vai de antivital. E a poesia não escapa à regra. raramente [. Quero poetas como o Sr. Mesmo assim. que todos os seus poemas sejam a poesia – como se pretendeu afirmar durante certo tempo. Mas não quero. se quisermos ver nela a poesia. E mesmo de ideal humano. Quero palavras que tenham coragem de ser palavras. e. sob pena de ser um significado extremamente limitado e quase aberrante. mas também porque tornou possível a “desbragada experimentação do cubismo poético. do surrealismo. Como toda gente.

uma reflexão sobre a prosa modernista brasileira. dois dos traços que terão longa vida na fortuna crítica do autor pernambucano. pp. Ganha uma beleza meio geométrica e se isola. Num momento de polarização e acirramento ideológico entre 2001-2002. 24. por isso mesmo. a entrada das análises. do sentido de comunicação que justifica neste momento a obra de arte” (Candido. com veemência. n. Candido repele. Como se vê. em minha opinião. qualquer forma de absenteísmo ou alheamento dos problemas objetivos que afetavam 25. composição e técnica narrativa) e comentários analíticos sobre as modificações de ordem econômica social e ideológica 60 Tempo Social.140). Conjugando exame das características internas dos livros avaliados (traços estilísticos.]” (Candido.. construindo o mundo fechado de que falei. uma análise sociológica das transformações sociais – a dinâmica de classes. o Sr. Isso porque a seleção e a reunião 2004. Porém..Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. de imediato. Candido não padece propriamente de insensibilidade poética – conforme o acusam seus detratores e seus adeptos o defendem –. ele co. de outro. Se o esforço de neutralizar os aspectos mais salientes desse sectarismo Antonio Candido é mestre nessas condicionou a organização do material reunido em Brigada ligeira. tendo em vista as pretensões do crítico em relação ao concurso da Cadeira de Literatura Brasileira. que Candido foi um dos primeiros a reco- nhecer o valor literário do estreante João Cabral de Melo Neto. no entanto. o perfil descobertas: a poesia brasileira começou com Rossini Camargo da crítica politicamente orientada do autor não foi totalmente relegado. antes. os artigos de Bri- gada ligeira revelam um duplo encadeamento: de um lado. aliás. O rodapé “Poesia ao norte” assinala a construção rigorosa dos poemas e a influência do surrealismo. Guarnieri. 1930 e 194026. Apreendidos na sequência em que foram dispostos. Subvertendo a ordem cronológica em que contudo aprofundar o problema. [1943] Mas esse aspecto não esgota a questão. assinalada24. Em outra ocasião. Intuição semelhante. o crítico não deixa de pontificar que a riqueza verbal da obra tem como contrapartida “certo empobrecimento humano”: “O erro de sua poesia é que. a grandeza do poeta pernambucano foi.. 68).. o destino dos homens25.” (Andrade. v. Em “Antes do Marco zero”. 2 . p. ideários de direita e de esquerda. p. revista de sociologia da USP. sem décadas de 1920. 293). efetuadas por Candido são também um meio de reafirmar a trama entre áreas de pesquisa e frentes de atuação profissional na qual estava envolvido. ela tende a se bastar a si mesma. [1944] e o mundo. menta: “[João Cabral de Melo Trata-se. os rodapés foram publicados. afinal. p. 23. Oswald de Andrade detecta com precisão esse aspecto: “Aliás. [1943] 2002f. foi encontra-se em Aguiar (2000). construção dos personagens. concebida de modo a formar um panorama do romance modernista nesse período – bastante apropriado. de uma perpectiva que decorre de uma preocupação mais Neto é] a mais promissora das estrelas poéticas dos últimos geral com o afastamento dos intelectuais dos conflitos que assolavam o país tempos [. 41-70 Deve-se lembrar. os impasses dos intelectuais e o realinhamento ideológico – pelas quais o país passou no decurso das 26.

Rodrigo Martins Ramassote do período em curso.. conscientização é concomitante à aceleração das transformações econômicas 31. No rodapé “O romance vendeu sua alma”. os estivadores. Enquanto José Geraldo Vieira causa a impressão de não cação de massa e da tendência a adentrar em “campo alheio ter sido incomodado pela renovação promovida pelo romance de 1930. de realização de um retrato sensível de sua realidade objetiva e complexidade humana. Esses eventos foram escritores dessa geração “vão viver menos obsessivamente voltados para a registrados no estouro da prosa experimental e satírica do par Europa. sociologia. no sentido pleno. Através dos livros. Filosofia. comenta episódio – uma con- versa com o escritor paulista e Fernando Sabino (de passagem Aferrados às narrativas de cunho marcadamente social. 1992c. os operários de fábrica. Candido o seu vigor e a sua poesia na literatura europeizada da burguesia (Idem. 1922 é ano de fundação do das camadas populares – mero objeto de contemplação estética – em favor Partido Comunista. O lodo das ruas e O realidade criadora. publicado no as obras. de Farias) são alguns exemplos. do aspecto artístico da sua obra” diante da concorrência com minados não conseguem se desgarrar dos influxos estilísticos e ideológicos os principais meios de comuni- dos anos de 1920. alheada dos problemas contemporânea” (Candido.] a força do romance moderno foi ter entrevisto na massa. e Serafim Ponte Grande. Essa Miramar. não assunto. O artigo examina a pro- internacional – do misto de intenção ideológica avançada e realização dução romanesca de Oswald passadista do segundo. tes do romance de 1930. o e receber as mais disparatadas primeiro volume do ciclo Marco Zero de Oswald de Andrade fracassa porque transfusões. com os trabalha- anjo de pedra (ambos de Octávio dores de engenho. romance de José Geraldo Vieira também publicado em No centro do livro estão três artigos dedicados aos principais representan- 1943. os plantadores de cacau. de 1933. muitas coisas mais constituem o Em que pese a distância que separa o cosmopolitismo do primeiro – “su. 1941b). política. Leitura de A quadragésima movimentos de contestação à sociedade capitalista em início de decadência30. 47). denunciando por São Paulo). cosmopolitismo litorâneo do Encilhamento e confrontada pelos primeiros 29. 48). de certo modo. mas 1942 e 1944: Inácio (de Lúcio Cardoso). Ao abandonar a representação pitoresca e exótica 30. transfundindo Em depoimento recente sobre Mário de Andrade. Os escritores aprenderam. toda essa massa anônima criou. tas. na qual a prosa de ficção procurava seu lugar em meio à crescente sexto número da revista Clima. apesar da publicação de obras importantes entre os anos de [. realizando e dando sentido humano ao pro. que tende a integrar as grandes quase completa ausência de inte- massas da população à vida moderna: resse pelo romance introspectivo. verdadeiro recheio da boa ficção prema afirmação literária” das classes dominantes. nacionais e sustentada por uma economia agrária voltada para o mercado 28. porta. Memórias sentimentais de João grama estético dos rapazes de Vinte-e-Dois” (Candido. p. especialização do trabalho intelectual27. defendiam o mérito literário novembro 2011 61 . em que ambos as mazelas e as injustiças que acometiam as realidades locais e regionais. de 1922. Candido institui uma linha de continuidade entre 27. vão aceitar o povo. composto pelos artigos “Estouro e libertação”28 progressivo. Candido já chamava a atenção para “o abandono constante e Num primeiro bloco. Candido observa que os autores exa. Nesse sentido.. p. por parte dos artis- e “Um romancista da decadência”29. É bastante significativa a e sociais operadas no meio rural e operário. estética – todas estas e a técnica pontilhista utilizada não se coaduna à proposta de romance mural. da Semana de Arte Moderna em São Paulo e das primeiras revoltas essa geração inaugura “o romance brasileiro”31. os principais tenentistas. a técnica literária excessivamente intelectualista de de Andrade e foi suscitado pela publicação de A Revolução ambos expressa a cosmovisão de uma burguesia que se via mergulhada no melancólica em 1943.

551). no qual incorporando ao gênero categorias e tipos sociais até então relegados pelos teria dito que os romances do ciclo burguês eram “prolixos” “escritores burgueses”. A esse respeito. a tensão entre a nostalgia e o inconformismo social referente ao universo decadente de sua região. demarcando um antes e um depois na trajetória evolutiva da prosa de ficção do período. 41-70 de Octávio de Faria –. a elegância e o equilíbrio da prosa do escritor mineiro. José Lins do Rego (Fogo morto) e Érico Veríssimo (O resto é 32. Não constituindo um lançamento literário. Não deixando 33. p. O amanuense Belmiro – originalmente lançado em 1937 (ano de instauração do Estado Novo) – representa um marco fronteiriço. os esquematismos e a qualidade mais declarado para o de convic. significativamente. ver o terceiro Vargas. Candido justifica a decisão de abordá-lo com uma referência à distinção formulada por Almeida Salles entre escritores táticos (que se valem do impulso criativo) e estrategistas (que concebem o ato criativo como um “afloramento definitivo de um largo trabalho anterior”). pp. as obras maduras de Jorge Amado (Terras do sem fim). o ideal de romance almejado por é possível divisar a transição do escritor de engajamento político Candido. Combinando de forma equilibrada a denúncia social – as condi- 2008. ções aviltantes dos trabalhadores da zona cacaueira da Bahia. crescimento e fe- chamento da Aliança Nacional e romance – aspectos destacados na recepção imediata da obra33 –. Realizando a passagem dos veteranos do romance de 1930 para os jovens estreantes do decênio seguinte. a geração de romancistas de 1930 empreendeu a “va- e não questionavam a “ordem lorização do povo”. v. duvidosa de parte das obras anteriores. por “Estraté- gia” – a atenção se volta para as experiências literárias surgidas no começo de 1940. n. Deve-se lembrar que de elogiar a beleza. incorporando-o ao nosso “patrimônio estético e ético” burguesa”: “Eles não tiram o sono de Roberto Simonsen” (Candido. 1992d. nos três casos. p. em José Lins do Rego. por que passa a intelectualidade após a implantação do regime ditatorial de 34. Candido capítulo de Miceli (1979).Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. a decadência dos engenhos da zona da mata do Nordeste e as vicissitudes das camadas médias urbanas das grandes capitais. em Érico Veríssimo. e da Intento. para anunciar que ao ler o artigo lembrou-se imediata- mente de Ciro dos Anjos: “um dos maiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contemporânea” (Candido. a dialética entre documento e poesia. revista de sociologia da USP. 79). Bueno. 23. Burocrata lírico. ano tampouco de abordar a influência machadiana e a relação entre autobiografia da formação. a análise do romance de estreia de Ciro dos Anjos. (Idem). vislumbra na postura de Belmiro 62 Tempo Social. 50). 2006. ao que tudo indica. Sobre esse assunto. oscilação entre a representação da psicologia diferencial das classes sociais e o destino individual de seus membros. a atenção Libertadora (ANL). Nessa disposição sequencial silêncio)32 representam. nem a narrativa se passa em 1935. p. as realizações literárias analisadas ções mais discretas e ambíguas. No terceiro e último bloco – iniciado. ver No- bile (2005). revelam a síntese feliz operada por cada autor: em Jorge Amado. imerso na malhas do serviço público 34. de Candido retém-se no processo mais geral e nos responsáveis pela defecção na Comunista (cf. Deixando de lado. 2 . por exemplo – com o pleno domínio dos meios de expressão literários.

]. desligada mento das tendências intimistas do meio social envolvente e pairando no jogo desinteressado da inteligência.]” (Candido. setor que. 2000-2001. datado de 9 de junho de 1944. o que. Criando-lhes condições de vida mais ou menos abafantes. justamente por ser reflexo dos conflitos que é das mais grandiosas da do nosso tempo. padece da paralisia vital que impede a transformação 36. 35. as suas aparece. do “conflito em solução dinâmica do progresso” (Candido. Embora não ressurja nos demais artigos. e ideológica da burguesia [. não deixa de cor- responder aos fatos. a burguesia [. absorto nas donzelas Arabelas. novembro 2011 63 .. numa aventura relação à literatura personalista. sociedade organizada. postos públicos e privados entre 1920 e 1945. Rodrigo Martins Ramassote [. nas Vilas Caraíbas do passado. para confiná-lo nas esferas em que seu pensamento. um dos instrumentos se opõe ao desenvolvimento dialético da personalidade e da sociedade.] o destino do intelectual na sociedade. “rompendo a coexistência relativamente harmoniosa que certa medida. 92). ver Miceli (1979). deveu-se tanto à incapacidade de renovação do gênero como a narrativa revelada nesse período reflete as agudas contradições sociais e a ao realinhamento ideológico crise de consciência que marcariam o fim da civilização burguesa36. Nisto não vai um julgamento de valor estético. estudo de Bueno. Nada mais natural que a crise se manifestasse no Numa última palavra – e usando termos rebarbativos. Singularizada pelo predomínio do romance introspectivo. ou quando entra reverente no seu séquito (Idem. 84) Pelo que se pode depreender do argumento de Candido. mostrando É nesse contexto intelectual e político que a obra de autores estreantes que o arrefecimento do romance social (ou proletário) em detri- é lida... tem sido dos mais brilhantes da literatura deste fim de civilização história literária. p. o romance é bem reflexo da crise estrutural burguesa (Idem. No já citado tinha assegurado o amplo movimento do decênio de 30” (Candido. a linha excessivamente personalista do romance entrou em crise e.. Por força avanço da literatura introspectiva ao abafamento político causado dessas estruturas ocorre uma radical separação entre preocupações estéticas pelo Estado Novo. em e político-sociais. Anar- quizado. na autocontempla- ção. como defesa das posições já gastas da inteligência e da sociedade. atirando-se à busca de novos campos. Sobre a relação parada à imagem do peru hipnotizado e paralisado.. 1992e. as estruturas opressivas de poder insulam os intelectuais em meros exercícios de autocon.] num tempo como o nosso.. questão se torna explícita: “devi- do ao desenvolvimento das suas contradições internas. a impressão que templação e são responsáveis pela linha excessivamente personalista que se tem é que Candido associa o passa a dominar o panorama literário do início dos anos de 194035. a compreensão pp. 2000b. p.. romance. tal Nesse sentido. No rodapé “Esclarecendo”. escapando aos quadros brecar o vir a ser por meio do prolongamento indefinido das oposições do ser e do que o contiveram cerca de dois não-ser. pelos quais me desculpo –. p. que até aqui tem movido uma conspi- ração geral para belmirisá-lo. de Fernando Sabino. do assunto se amplia. 116-117). 189).. provocado pela instauração do Estado Novo. mas antes histórico. ideologias. Com. explorando metodicamente os seus complexos e cacoetes. p. em séculos. a ficção autocentrada entre intelectuais e o mercado de e ensimesmada dentro do “círculo magnético do próprio eu” de A marca. com ela. não apresenta virulência alguma que possa pôr diretamente em xeque a ela. não raro. procurando mais autênticos destas [. 89). os poderosos desse mundo só o deixam em paz quando ele se expande nos campos geralmente inofensivos da literatura personalista.

revista de sociologia da USP. perdidos em uma situação de incerteza e desagregação. Não se deve esquecer que o principal representante desse filão37. Católico con- dial. v. 41-70 Do mesmo modo. de “um dos romances capitais de nosso tempo. o romance de estreia do escritor de Cataguases suscita comentários sobre a assimilação de correntes literárias estrangeiras. O agressor. Ao contrário do que sucede com a obra do escri- tor gaúcho. é provável que a decisão de por Candido enfocaram a obra poética de T. Daí o caráter de exercício assumido pelo livro: “tentativa de transplantar a planta estrangeira para a terra pátria”. Com efeito. os temas. 113). Lançado primeiramente no Brasil – onde sua redação foi concluída –. Nessa estadia. Trata-se. escreveu livros panfletários e artigos de jornal (cf. de Rosário Fusco. pois. em conversa pessoal. Embo- ra Candido constate que os recursos técnicos utilizados por Veríssimo se inspiram em autores estrangeiros (especialmente os ingleses). o retrato da pequena aldeia francesa traçado por Bernanos exprime a obsolescência dos princípios valorativos que até então sustentavam os alicerces da civilização do Ocidente. 107). p. Eliot. 106). Monsieur Ouine recebeu uma avaliação elogiosa de Candido. 1992f. ver Almeida (2000). S. de George Bernanos. nista adotada por Vichy na França. Devo essa condenando a ascensão dos regimes nazi-fascistas e a política colaboracio- indicação a Vinicius Dantas. a linguagem. e pregando um catolicismo sensível às 38. (Idem. consigo próprio e com a vida. Sobre a recepção crítica do questões sociais. Talvez o romance Monsieur Ouine. Além. n. p. pp. então refugiado no Brasil. como uma grande obra que 64 Tempo Social. numa verdadeira aposta. a diretriz adotada pelo livro excluiu sagrado. são poucas as análises de literatura estrangeira produzidas por Candido. percebe-se o equilíbrio instável das condutas: “o indivíduo como que solicitando perigosamente as mais desencontradas possibilidades. outro nome incluir “Paixão dos valores” em Brigada ligeira tenha ocorrido em função de peso no cenário literário mun- do renome do escritor francês. para a eleição de novos valores – aposta que pode levar à sal- vação ou à perdição irremissível” (Candido. Ocorre que. No comportamento doloroso dos personagens. de um lado. De acordo com o crítico. 1992g. 2 . do desafio estético os três últimos rodapés redigidos que o romance impunha à recepção crítica38. livro no país. p. constitui um exemplo indicativo da consciência burguesa em crise: “desvairada ante o divórcio cada vez mais pronunciado entre as suas ideologias e a sua significação social” (Candido.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Tal como a avaliação da produção romanesca de Érico Veríssimo. numa conjuntura marcada pela “paixão dos valores”. é claro. de de 1938 e 1945 em pequenas cidades do interior do Rio de Janeiro e de outro. o conteúdo dos artigos era “deliberadamente informativo” Minas Gerais. Candido. 2000c). Candido não reconhece no romance de Fusco uma assimilação efetiva das correntes super-realistas surgidas na Europa. seja 37. Bernanos residiu entre os anos as apreciações de poesia e. 23. monarquista e antitotalitário. os personagens e os sentimentos expressos em sua obra seriam “essencialmente brasileiros”.

In: Nitrini. em suas linhas gerais. Paulo’. Andrade. jul. assim.). pelo que tem de permanente no seu sentido apocalíptico e no seu admirável estilo” (Idem. Referências Bibliográficas Aguiar. Leituras cruzadas.]” (Sachetta. marco na contestação ao regime de Vargas. O dr. Almeida. Porto Alegre.. o ‘Jornal de S. “Bernanos no Brasil: o rastro de uma permanência”. pp. Oito meses depois ele voltará às páginas da grande imprensa. Estudos Avançados. de Antonio Candido”. 8: 7-12. Nabatino ativismo político e as atribuições da Cadeira de Sociologia II. set. Candido se demite do cargo de crítico literá- rio titular do jornal Folha da Manhã em solidariedade aos companheiros de redação39. Aspectos da literatura brasileira. Sandra (org. participa ativamente do I Congresso Brasileiro 39. se projeta pelo restante da vam de perder seu secretário-geral produção intelectual do autor. predile.]. Aquém e além mar: relações culturais Brasil-França. São Paulo. já em franco de- Lima [fazendeiro ligado ao co- clínio. mesmo que de modo atenuado. Ao mesmo tempo. Fundamos um novo diário. p. Brigada ligeira. dessa mércio de café e proprietário da Folha da Manhã Ltda. me comunicar um fato impor- Grande parte dos rodapés escritos por ele no período permaneceu inédita. pp. Eis o modo como Candido encerra sua apreciação de Monsieur Ouine e. . Teresa de. um quadro de Octaviano que as ‘Folhas’. (1994). 117). “Fidelino de Figueiredo na origem dos estudos de literatura portuguesa no Brasil”. direção da empresa. Constituem. Antonio Soares. Juízo significativo para se refletir tanto acerca de uma civilização em vias de reconstrução após um sangrento conflito ar- mado mundial como sobre um país que começava a dar adeus a uma longa ditadura rumo ao futuro ainda incerto. veículo a 1945] apareceu na redação para no qual permanecerá pelos dois anos seguintes. ros.. O fato é que eu sai e comigo saíram mais de 50 companhei- ou então subentendido.-dez. (2000). In: . Hucitec.. “Fidelino de Figueiredo: sua obra crítica e sua ação na Universidade de São Paulo”. que faria parte do escritó- rio de Costa Neto. São Paulo. Flávio. São Paulo. de 1931 vez assumindo a coluna “Notas de crítica” no Correio de S. acaba- referências e reflexões que. reformulado [. novembro 2011 65 . iria assumir a instauram uma série de princípios analíticos. em que se entrelaçam o por Costa Neto. Vendera para um grupo liderado Elaborados numa etapa de indefinição profissional. 215-223. Em fins de janeiro de 1945. “Segundo momento pernambucano”. 1981. tam- bém naquele momento. tante: havia vendido o jornal. In: Pesavento. Editora da Universidade/UFRGS. Rodrigo Martins Ramassote é necessário ler. 257-262. esses escritos Ramos.. pp. adesões ideológicas. Sandra Jatahy (org. Editora Martins. (2000). Mário. Respondi ao ções estéticas e intersecções disciplinares. Tradução & Comunicação.). 1ª edição 1945. (1978). financiado pelo grupo da rádio Record [. 325). 22 (8): 423-426. 115-130 Amora. “Brusco lampejo: digressão sobre a presença de Érico Veríssimo em Brigada Ligeira. São Paulo. p. (1986). Sacchetta comenta o caso: “Certo dia o Octaviano Alves de de Escritores. também. Paulo.

Antonio. Folha da Manhã. 5. Folha da Manhã. São Paulo. (1944b). 5 . Petrópolis. (1944a). . 4/2003. Folha da Manhã. “Notas de Crítica Literária – Longitude”. (1958). “Notas de Crítica Literária – Ficção (I)”. 5. 5. p. Clima. “Notas de Crítica Literária – À margem”. . 12/2009. São Paulo. Mário da Silva. 6: 26-32. Folha da Manhã. São Paulo. jan. “Notas de Crítica Literária – Santo Antero (I)”. Juiz de Fora. revista de sociologia da USP. 11/2007. n. . p. maio. Adélia Bezerra de Meneses. Bueno. 5. 66 Tempo Social. 25/02. A obra crítica de Álvaro Lins e sua função histórica. (2004).. pp. Locus: revista de história. Ponta de lança. . 04/2002.-jun. Folha da Manhã. Uma História do Romance de 30. 23. Folha da Manhã. v. Bolle. . (1943a). (1979). p. “Notas de Crítica Literária – Vinte anos e. São Paulo.. São Paulo. (1941b). “Notas de Crítica Literária – Os mitos e a reação”. São Paulo. “Intelectualidade rebelde e militância política: adesão dos Intelectuais ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) – 1922-1960”. (1943cd). p. São Paulo. Folha da Manhã. (1943gh). (1944d). Livraria Martins Editora. 27/2006. 1 (4): 65-80. . (1998). “Notas de Crítica Literária – Um poeta ‘impuro’”. Brito. . Globo (Obras completas). p. Martins: 30 anos. 5. São Paulo. Plínio. Luís. “Antes do Marco Zero”. “Notas de Crítica Literária – Uma vida exemplar”. (1944c). Marcelo A. (2006). (1943hi) “Notas de Crítica Literária – Inteligência e momento”. 5. José Olympio. São Paulo. “Notas de Crítica Literária – Não vale a intenção”. (1943ef ). p. “Prefácio” In: Barreto. 1: 107-117. nov. 1ª edição 1943. p. (1943bc). São Paulo. Folha da Manhã. 23/2007. Camurça. Candido. São Paulo. p. “Notas de Crítica Literária – Problema de jurisdição”. São Paulo. Folha da Manhã. 41-70 Andrade. 5. 5. p. 96-103. Páginas avulsas.”. . p. Folha da Manhã. (1968). São Paulo. p. São Paulo. .5. Editora da Unicamp. 10/2009. Clima.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Oswald. 28/2007. . p. 4/2007. . (1943ab). 21/2001. 03/2009. 2 . pp. Vozes. Rio de Janeiro. . Folha da Manhã. . 5. São Paulo. “Notas de Crítica Literária – Última nota”. “O romance vendeu sua alma”. p. (1943de). São Paulo. São Paulo. 5. In: . “Notas de Crítica Literária – Faces descobertas”. Folha da Manhã. (1943fg). 5. Folha da Manhã. “Apresentação”. São Paulo. 25/2007. (1941a). .

pp. . “Prefácio”. Duas cidades. In: . São Paulo. “Poesia. pp. Brigada ligeira e outros escritos. Editora da Unesp. . Editora da Unesp. 109-117. . . “Sobre um crítico” [1943]. (1992e). . . “Paixão dos valores” In: . pp. In: . . “Prefácio da 1ª Edição”. pp. número especial sobre Antonio Candido. pp. . (1995). São Paulo. Ciência Hoje. (1993b). documento e história”. São Paulo. A educação pela noite & outros escritos. In: Brigada ligeira e outros escritos. São Paulo. São Paulo. Edusp. Entrevista concedida a José Pedro Renzi. “Surrealismo no Brasil”. . Sergio. pp. pp. . pp. São Paulo. pp. pp. (1993a). 103-107. pp. “Os vários mundos de um humanista”. “Repúdio à doutrina do capitalismo de estado”. In: Recortes. São Paulo. pp. São Paulo. Praga: Revista de Estudos Marxistas. (1997). (2000a). “Antonio Candido: marxismo e militância”. Remate dos males. . . (1992a). . 122-137. Vários escritos. (1996b). São Paulo. Rio de Janeiro/São Paulo. 11-16. jun. “O ato crítico” [1981]. 67-103. São Paulo. “Érico Veríssimo de 30 a 70”. novembro 2011 67 . 79-85. 55-71. São Paulo. In: Miceli. Embrafilme/Brasiliense. 181-198. (1992c). set. São Paulo: Editora da Unesp. 15. Editora da Unesp. 45-60. (1979). (1988). IX-XIII. Editora da Unesp. Companhia das Letras. São Paulo. . Difel. pp. Ática. 231-246. (1996a). 91 (16): 28-41. Brigada ligeira e outros escritos. Poetas do Brasil. set. In: . 87-92. “Prefácio”. 15-28. . Campinas. Ática. Rio de Janeiro. “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”. Brigada ligeira e outros escritos. Maria Teresa. São Paulo. In: .-dez. Brigada ligeira e outros escritos. In: . (1992f ). Paulo Emílio: um intelectual na linha de frente. 1ª edição 1945. (1992d). 1: 21-24. . (1986). “Entrevista”. . . Entrevista concedida a Gilberto Velho e Yonne Leite. A educação pela noite e outros escritos. (1999).-dez. Brigada ligeira e outros escritos. In: Bastide. Carlos Augusto & Machado. (1992b). O método crítico de Sílvio Romero. Brigada ligeira e outros escritos. In: . Praga: Revista de Estudos Marxistas. In: . “Informe político”. (2000b). pp. pp. São Paulo. Editora da Unesp. Editora da Unesp. Rodrigo Martins Ramassote . São Paulo. “Estratégia” In: . Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945). In: Calil. (1992g). Edusp. “Roda de peru”. 1: 5-21. 64-73. “A Revolução de 30 e a cultura”. Roger.

. São Paulo.). (2001). 9: 60-61. . pp. 251-258. . . (2002h). (2008). In: . 101-126. . Dantas. São Paulo. “Prefácio à 3ª edição”. . Textos de inter- venção. “Literatura e cultura de 1900 a 1945”. (2001-2002). 23-30. pp. (2002b). In: . Rio de Janeiro. Vinícius. “Agora é com a literatura”. 37-51. Literatura e sociedade. Publifolha. (2002i). (2002g). 135-142. In: . Rio de Janeiro. Literatura e sociedade. (2002e). “Depoimento”. Antero. Textos de intervenção. (2002a). revista de sociologia da USP. F. “Plataforma da nova geração” [1943]. . São Paulo. Duas Cidades/Editora 34. pp. No hospital das letras. (2002c). Fidelino de. 168-174. Rio de Janeiro. São Paulo. Nova Fronteira. Duas Cidades/ Editora 34. In: . pp. (2002f ). Bibliografia de Antonio Candido. nov. In: . Dulles.) Eu sou trezentos. . Concurso para provimento do cargo de Professor Catedrático de Literatura Brasileira. pp. pp. (1963). São Paulo. São Paulo. 6: 293-297. In: . (org. (2000c). n. São Paulo. pp. Coutinho. Textos de intervenção. Duas Cidades/Editora 34. 23. . pp. 19-22. Textos de intervenção. pp. Telê Ancona (org. “Notas de crítica literária – Sobre poesia” [1944]. In: Pesavento. (2002b). Coleção Departamento de Cultura. “Verlaine” [1944]. . v. (2002j). Tempo Brasileiro.45-50. São Paulo. Afrânio. pp. Diário Oficial de São Paulo. Duas Cidades/Editora 34. São Paulo. “Poetas menores hoje (III)” [1944]. 129-134. In: . “Ouverture” [1943]. (1942). Textos de intervenção. São Paulo. Duas Cidades/Editora 34.) Érico Veríssimo: o romance da história. Rio de Janeiro. “Nota prévia”. 68 Tempo Social. São Paulo. p. São Paulo. 41-70 . São Paulo. Textos de intervenção. Inimigo Rumor : Revista de Poesia. 20. Publifolha. São Paulo. In: . Sandra Jatahy et al. (org. eu sou trezentos e cinquenta. pp. In: . Duas Cidades/Editora 34. pp. . Textos de intervenção. v. Duas Cidades/Editora 34. Nova Alexandria. “Notas de crítica literária – Carta a Luís Martins” [1944]. In: . 143-153. Figueiredo. “Notas de crítica literária – Poesia ao Norte” [1943]. (2002d). (2002a).Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. John W. Agir. 2 . (1944). . 1-2. In: Lopez. Literatura e Sociedade. Duas Cidades/ Editora 34. Textos de intervenção. . São Paulo. Duas Cidades/Editora 34. (1984). “Ordem e Progresso na poesia” [1944]. A Faculdade de Direito de São Paulo e a resistência anti- Vargas (1938-1945). Duas Cidades/Editora 34. pp. 19/09. 237-250. Textos de intervenção. XXVI. “Um impressionismo válido” [1958].

leitor de poesia fin-de-siècle”. (2010). pp. Quei- roz/Edusp. jun. (1999) “A crítica modernista” In: Coutinho. v. “Antonio Candido. Tempo Social. (2005). 3. Brasilidade revolucionária: um século de cultura e política. 363-443. Global. Editora da UFMG. São Paulo. Rio de Janeiro. (1979). Nobile. Editoras e ‘Coleções Brasiliana’ nas Décadas de 30. 40 e 50”. São Paulo. . 1 (20): 219-237. Belo Horizonte. de Cyro dos Anjos (1937). jan. rev. Boris (org. Itinerários. 5. A. Miceli. São Paulo. (2009). Cadernos de Campo. tomo III. “Retrato do crítico jovem”. jun. “A formação dos desconfiados: Antonio Candido e crítica literária acadêmica (1961-1970). (2004). (2010). São Paulo. v. Sergio (org.-dez. Estudos de Sociologia.-jun. São Paulo. Araraquara. Wilson. jan. T. 30: p. 57-83. Com- panhia das Letras. Lafetá. Intelectuais e classe dirigente no Brasil. Araraquara. “A sociologia clandestina de Antonio Candido”. v. pp. 26: 164-181. . Melo e Souza.115-137. São Paulo. Ana Paula Franco. Destinos mistos: os críticos do grupo Clima. História Geral da Civilização Brasileira. Martins. Johnson. (1998). . 7 ed. José Inácio. 419-476. novembro 2011 69 . (2001). Afrânio & Coutinho. “Artistas e intelectuais comunistas no auge da Guerra Fria”. Hacker. São Paulo. Alexandre. 19 (19): 13-34. São Paulo. Ramassote. Rodrigues. “A sociologia paulista nas revistas especializadas (1940-1965)”. São Paulo. Heloisa. In: . Pires. Randal. 1 (16): 263-283. “Antonio Candido. Marcelo. O livro no Brasil: sua história. Tempo Social. Literatura e Sociedade. (2008). jun-ago. A recepção crítica de O amanuense Belmiro.). Paulo Emílio no Paraíso. 591-651. A tradição esquecida: Os parceiros do Rio Bonito e a sociologia de Antonio Candido. Leôncio Martins. (2010). Editora da Unesp. São Paulo. “Retratos do Brasil: Editores. (1986). Ridenti. “A dinâmica do campo literário brasileiro”. Laurence. São Paulo. In: Fausto. 27 (14): 445-463. Difel. Jackson. . 1. Socialismo sociável. Rodrigo Martins Ramassote Hallewell. pp. Revista USP. (1985). e atual. (2000). História das Ciências Sociais no Brasil. 1930: a crítica e o modernismo. São Paulo.). Pontes. (2009). Antonio Donizeti. A literatura no Brasil. (2002). Eduardo de Faria. Annablume. leitor de poesia (em torno de um artigo de Ítalo Moriconi)”. Editora da Unesp. Record. (2002). (1998). 11: 248-253. Sergio. “O PCB: os dirigentes e a organização”. Duas Cidades/ Editora 34. Difel. João Luiz. São Paulo. (1995). pp. São Paulo. In: Miceli. Sumaré. Luis Carlos. Rodrigo Martins. . O Brasil Republicano.

“Depoimento” In: Mota. pp. Ao final. Flora. pp.Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido. Editora da Unicamp. História do marxismo no Brasil. São Paulo. Papéis colados. 41-70 Rubim. pp. Rio de Janeiro. Texto recebido e aprovado em 30/7/2011. 2 . Tais critérios guardam afinidade com as frentes de atuação e os princípios doutrinários assumidos por Candido no período. Palavras-chave: Antonio Candido. Antônio Albino Canelas. the text examines the author’s first book. 325. Resumo Inquietudes da crítica literária militante de Antonio Candido Este artigo examina os rodapés de crítica literária assinados por Antonio Candido na coluna “Notas de crítica literária” do jornal Folha da Manhã. Carlos Guilherme & Capelato. Impres. Brigada ligeira (Light brigade). It looks to correlate the analytic approach pursued by the critic with his political activism in small left-wing groups and his responsibilities as assistant professor of Sociology Chair II. Crítica de rodapé. (2002). Footnote critique. v. Paulo: 1921-1981. entre os anos de 1943 e 1945.). Militância política. 70 Tempo Social. “Marxismo. Finally. História da Folha de S. Brigada ligeira. (1981). Rodrigo Martins Ramassote é doutorando pelo Departamento de Antropologia Social do IFCH- Unicamp e técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Ar- tístico Nacional (Iphan). Brigada ligeira. (1988). Brigada ligeira. In: Moraes. 23. Busca correlacionar a perspectiva analítica defendida pelo crítico com a militância política em pequenos agrupamentos de esquerda e as atribuições de professor-assistente da Cadeira de Sociologia II. cultura e intelectuais no Brasil”. 15-36. p. aborda o livro de estreia do autor. identificando os critérios que presidiram a seleção e a reunião de seu conteúdo. Maria Helena. E-mail: <ramassote@hotmail. Abstract The disquiet of Antonio Candido’s activist literary criticism This article examines the footnotes of literary criticism authored by Antonio Candido in the column ‘Notes of literary criticism’ in the newspaper Folha da Manhã between 1943 and 1945. tratados e ensaios: a formação da crítica brasileira moderna” In: . João Quartim (org. Süssekind. Editora da UFRJ. “Rodapés. These criteria are closely associated with the political and professional activities and theoretical principles adopted by Candido during the period.com>. 305-382 Sachetta. Hermínio. revista de sociologia da USP. Keywords: Antonio Candido. n. Political activism. v. Campinas. 3. identifying the criteria involved in the selection and organization of the included essays.