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PRISÕES LATINO AMERICANAS

(*)

Sacha Darke e Maria Lucia Karam

Como em outras áreas da criminologia (e.g. Aas 2012; Cain 2000; Lee and
Laidler 2013) e das ciências sociais (e.g. Connell 2006; Santos 2007; Tuhiwai Smith
1999), recentemente começaram a aparecer em língua inglesa análises sócio-jurídicas,
históricas, etnográficas e experimentais de prisões para além da América do Norte e da
Europa Ocidental. Estudiosos de língua inglesa também vêm crescentemente
produzindo relatos acadêmicos e biográficos, não traduzidos para o inglês, sobre prisões
no mundo em desenvolvimento e em transição. Esse capítulo tem como co-autores
criminólogos do Reino Unido e do Brasil; o primeiro é um dos poucos pesquisadores do
Norte familiarizados com a literatura latino-americana sobre prisões e que
desenvolveram pesquisas in loco. A seu turno, a segunda autora se inclui no também
relativamente pequeno clube de pesquisadores latino-americanos sobre prisões com
publicações em inglês. Os autores colaboraram anteriormente na publicação de dois
artigos sobre prisões brasileiras (Darke 2014a; Darke e Karam 2012). Agora, ampliam
seu objeto de análise, explorando o que veem como aspectos-chave das prisões e da
vida prisional na América Latina como um todo. Juntamente com as edições especiais
recentemente produzidas por Global Prisons Research Network (Focaal 2014), Cheliotis
(South Atlantic Quarterly 2014), e Hathazy e Müller (Crime, Law and Social Change
2014), esperamos dar uma contribuição significativa para a redução das lacunas do
conhecimento acadêmico no hemisfério norte sobre as prisões latino-americanas.
Atentos a nossa audiência alvo, onde possível, citamos trabalhos de estudiosos sobre
prisões latino-americanas, publicados ou traduzidos para o inglês. Até onde temos
notícia, além de Ungar e Magaloni (Ungar 2003; Ungar e Magaloni 2009) somos os
primeiros cientistas sociais a produzir tal análise regional em qualquer língua.
Apesar do extraordinário esforço em identificar pontos comuns entre prisões das
20 nações que formam a região, não queremos fornecer um relato puramente descritivo.
Na conclusão, valemo-nos da oportunidade para desenvolver algumas observações
sobre a utilidade das teorias produzidas no hemisfério norte para explicar (e
potencialmente mudar ou aprender com) sistemas de justiça em outras partes do mundo.
Em um contexto de globalização, de crescentes intercâmbios políticos e ativismo
internacional, torna-se ainda mais importante explorar os contextos históricos e culturais
em que formados os sistemas de justiça em diferentes países e regiões. Cohen (1982)
demonstrou que a penologia norte-americana e europeia ocidental não só tem se
desenvolvido em grande parte na ignorância das estruturas sócio-econômicas de outras
partes do mundo, como os centralizados, profissionalizados e especializados sistemas de
justiça do Norte nos quais ela se baseia surgiram durante um específico (início do
século XIX) período de industrialização, urbanização, democratização e progressiva
modernização, condições essas que variam enormemente de um lugar para outro.
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Tradução de Maria Lucia Karam do Capítulo Latin American Prisons do livro
Handbook on Prisons (orgs. Yvonne Jewkes, Ben Crewe e Jamie Bennett), 2ª Edição, 2016,
London: Palgrave Macmillan

a América Latina é e sempre foi líder mundial. a ameaça à soberania estatal colocada pelo comércio das drogas ilícitas (Garces 2014a). 2001). sociais e culturais de instituições e grupos sociais determinados’ (Dikötter 2007: 7). voltamos nossa atenção para o quotidiano dos internos e agentes penitenciários. aí incluído o recente crescimento das religiões . Salvatore e Aguirre 1996. 2007. No entanto. dependentes das variáveis políticas. o machismo (Karstedt 2001). mas se reproduz nessas últimas ‘em uma aparentemente interminável cadeia de comportamentos abusivos e despóticos’ (Aguirre 2007: 9). na verdade. assim como a deterioração das condições da prisão. questionando até que ponto os sistemas prisionais da região continuam a aderir às normas internacionais de direitos humanos (se é que. Além de explorar especificidades culturais em e dentro de países individualizados. Cohen dá como exemplo a promoção de intervenções terapêuticas nas prisões. e o cristianismo. Isso incluiria temas como os legados do colonialismo (e. globais e regionais. porém. a securitização do ambiente prisional. mapeamos o extraordinário crescimento das populações prisionais na América Latina nas últimas duas décadas. praticamente o oposto da reabilitação. Na segunda parte. contrastando com a agenda internacional de direitos humanos/terapia profissional. é que os modelos de controle do crime que se tornaram dominantes nos sistemas de justiça do Norte nos séculos XIX e XX são cada vez mais exportados para todo o globo exatamente quando começam a ser questionados em casa. como enfatiza Cohen. o medo da violência (Bergman eWhitehead 2009). econômicas. que não só permeia as relações entre elites e classes inferiores. esse trabalho necessitaria focalizar em como ideias globais são ‘. a indiferença (Ungar 2003) e a incapacidade (Ungar e Magaloni 2009) políticas. Wacquant 2003). a construção estatal pós-colonial (Hay 2001). o tempo ou o lugar para tentar fazer uma prestação de contas sistemática sobre as condições sócio-econômicas que estão na base das condições prisionais e do uso da prisão na América Latina. na América Latina. alguma vez aderiram a tais normas). nesse capítulo voltamos nossa atenção especialmente para dois paradigmas do globalizado controle do crime que.. apropriadas e transformadas por estilos locais de expressão bastante distintos. modernizadores das prisões rotineiramente enfrentam resistências em todos os níveis políticos. desde a falta de recursos estatais ou de controle sobre práticas locais até uma tradição autoritária culturalmente enraizada. No que se refere à militarização da justiça criminal. Salvatore et al. 1999). Paralelamente ao objetivo mais amplo de dar uma visão geral das prisões e da vida dentro delas. Nesses dois aspectos. Como Carlos Aguirre e Ricardo Salvatore assinalaram em uma série de estudos históricos (Aguirre 2005. Aguirre e Salvatore 2001). o predomínio de ciências positivistas individualistas e do darwinismo social na criminologia latino-americana (del Olmo 1981. encontram particular ressonância na América Latina: a militarização da justiça criminal e.g. a escravidão (Aguirre 2007) e as ditaduras militares (de Azevedo 2006). um estudo completo das prisões latino-americanas necessitaria cobrir uma série de fatores inter- relacionados. Não é esse. a penetração da ideologia penal neoliberal (Müller 2012. as práticas e procedimentos políticos e judiciais (Macaulay 2013). sua liderança se reforça ainda mais no contexto da ‘guerra às drogas’. A ironia. Na primeira metade do capítulo. Ao invés de uma teoricamente impossível tarefa de desenvolver teorias sociais (Karstedt 2001) e concepções de direitos humanos (Santos 2007) universais e aculturais. históricos e contemporâneos. a justiça popular e a desconfiança cultural na lei (Caldeira 2000). Nosso foco então se dirige para a natureza auto-administrada das prisões latino-americanas. há pouca evidência de qualquer iniciativa internacional no campo da reforma prisional com impacto real na América Latina (Macaulay 2013)..

que deveria ser enfrentado com medidas mais rigorosas. O expandido poder punitivo Uma contínua expansão do poder punitivo se faz notar mundialmente desde as últimas décadas do século XX. em alguns casos. Uma ‘guerra às drogas’ foi declarada em 1971. Bolívia – 30% em 2009 (TNI/WOLA 2010). Argentina. Com efeito. A proibição às drogas diz respeito à criminalização de condutas que. No entanto. a ‘guerra às drogas’ teve forte impacto sobre os sistemas penais da região. até a anistia concedida a pequenos traficantes em 2008. os casos mais conhecidos sendo os do Brasil.). a produção. esperamos consolidar esses trabalhos em um esforço para desenvolver uma mais abrangente criminologia das prisões latino-americanas. No Equador. 34% dos presos equatorianos estavam encarcerados por crimes relacionados a drogas (ibid. No futuro. essas novas tecnologias punitivas não têm dispensado a privação da liberdade.2 milhões de pessoas estão sabidamente presas em instituições penais por todo o mundo. trazendo uma crescente diversificação em sua atuação. Prestação de serviços à comunidade. Vale notar que o final do século XX também marca outra notável mudança em muitos países latino-americanos: a transição de ditaduras para a democracia. pelo ex-presidente Richard Nixon. o comércio e o consumo das selecionadas drogas tornadas ilícitas têm sido apresentados como algo extraordinariamente perigoso. Desde a década de 1970.). logo se espalhando por todo o continente americano. O tráfico de drogas é hoje a terceira (e. Ao contrário. paradoxalmente. Colômbia – 17% em 2009 (ibid. A taxa mundial de encarceramento subiu de 136 para os atuais 144 presos por 100. A militarização do sistema penal contribuiu para assegurar que o despotismo latino-americano sobrevivesse à redemocratização. As penas alternativas têm colocado um crescente número de pessoas sob controle penal sem que tenha havido qualquer redução significativa no número de pessoas atrás das grades. Apesar do reconhecido fracasso das funções declaradas da privação da liberdade e da introdução de penas alternativas. monitoramento eletrônico e outras medidas penais ampliaram a rede de controle social e disciplina. a segunda) maior categoria de crimes pelos quais os presos são processados e condenados: Brasil – 26. incontrolável por meios regulares. moldando um ‘autoritarismo cool’ (Zaffaroni 2006) que mantém as estruturas formais da democracia ao mesmo tempo em que reforça o estado policial dentro de suas fronteiras (Zaffaroni et . Nos últimos 15 anos. Ministério da Justiça 2012). mais de 10. O sistema penal ultrapassou os muros das prisões. concebidas sob um paradigma bélico (Karam 2009). No entanto. a expansão dos limites do sistema penal tem se dado em paralelo com o crescimento da prisão. Peru – 24% em 2013 (Peru. Uruguai e Chile. a contínua expansão do poder punitivo tem sido alimentada especialmente pela política de proibição às drogas.9% da população carcerária em 2012 (Brasil. facilitam a criação de fantasias e o lançamento de cruzadas moralizadoras. Focalizando intensamente nos países produtores e distribuidores latino-americanos. prisões domiciliares. a prisão não só subsiste como tem crescido e se tornado mais rigorosa. além de extensamente praticadas em todo o mundo. Nossa compreensão das prisões latino-americanas é informada por cada uma dessas ideias. o número estimado de presos em todo o mundo cresceu de 25 a 30% (enquanto a população mundial cresceu em 20%). Ministerio de Justicia y Derechos Humanos 2013).000 habitantes (Walmsley 2013). a mudança democratizante não teve qualquer impacto progressivo na aplicação da lei penal. excepcionais e emergenciais. Voltaremos a uma série delas nesse capítulo. Na América Latina.evangélicas (Dias 2005). nos Estados Unidos.

Ministerio de Justicia y Derechos Humanos 2013).118 indivíduos cumpriam penas alternativas em dezembro de 2013 (International Centre for Prison Studies 2014. Peru. especialmente a presunção de inocênciaiv. não são respeitados.003 indivíduos em instituições penais eram presos provisórios (Brasil.000 habitantes) para 67. os presos eram 148. El Salvador (422).078 indivíduos estavam cumprindo penas alternativas. enquanto outros 17. esse número era de apenas 102. por exemplo.490 em 1995 (Müller 2012) para 117. efetivamente dando ao Brasil a terceira maior população carcerária do mundo: 715. Outros 147.iii Em duas décadas.665 indivíduos. Em alguns países latino-americanos. e 14. Ministério da Justiça 2012). dentre os quais o tráfico de drogas. Ministerio de Justicia y Derechos Humanos 2013). No Brasil. Equador (149). Conselho Nacional de Justiça 2014). Venezuela (161). o terrorismo e outros crimes definidos como ‘hediondos’.304 e 3. Equador (64%). Em 2002. International Bar Association 2010). a nova Constituição democrática de 1988 resgatou e reafirmou direitos fundamentais. Ministério da Justiça 2012). é normal presos esperarem vários anos até serem julgados (ibid.. a população carcerária brasileira mais do que triplicou: em 1995. 41% dos 548. No Brasil. o Brasil tinha a quarta maior população carcerária do mundo: 548. Argentina. As altas taxas de prisões provisórias indicam que princípios inscritos nas declarações internacionais de direitos humanos e constituições democráticas.al 2000)i.000 habitantes). Colômbia (35%).655 em maio de 2014 (Brasil.000 habitantes. Em alguns países da América Central podem ser encontradas taxas ainda mais altas: Belize (476).31 presos por 100. Recentes pesquisas indicam que a população carcerária teria chegado a 567. Honduras (62%). quase todos os demais países latino-americanos dobraram ou triplicaram suas populações carcerárias em 20 anos. em dezembro de 2012. El Salvador (29%) (IACHR 2011).937 indivíduos estavam em prisão domiciliar (ibid. como. Chile (266). Panamá (411). Esse dispositivo abriu o caminho para a proliferação de leis infraconstitucionais hiper-criminalizadoras. correspondendo a uma taxa de 287. Costa Rica (314) (Walmsley 2013).760 (92 por 100. por exemplo. Brasil e Guatemala. O caso brasileiro ilustra de forma eloquente a antes mencionada tendência de crescimento da prisão em paralelo ao uso de penas alternativas: o aumento da população carcerária brasileira aconteceu ao mesmo tempo em que um crescente número de indivíduos era submetido a outras modalidades de controle penal.963 (julho 2012) na Costa Rica (International Centre for Prison Studies 2014). Colômbia (245). mas dispôs que leis excepcionalmente restritivas fossem adotadas para processar e punir a tortura.003 indivíduos estavam encarcerados. Grande parte da população carcerária latino-americana é formada por presos provisórios.718 presos em 1995 (69 por 100. qualquer indivíduo acusado de um crime há de ter o direito de ser visto e tratado como inocente durante o processo: efeitos da condenação só podem repercutir sobre a pessoa após ser esta condenada em uma decisão definitiva regularmente imposta (uma decisão . Suriname (186). Tendências similares podem ser encontradas no Peru. México (201).231 (junho 2014) na Colômbia. A população carcerária passou de 15. As taxas de encarceramento em quase todos os outros países latino-americanos também são superiores à média mundial: Uruguai (281). Ministério da Justiça 2012).403 (Brasil.000). ao final de 2012. Ao final de 2009.891 em janeiro de 2014 (220 por 100. Também nesse ponto índices similares podem ser encontrados em outros países latino-americanos: Peru (54%) (Peru.ii Conforme as últimas estatísticas oficiais (Brasil. Conforme tais normas. Como no Brasil.000 habitantes.). correspondendo a uma taxa de 358 presos por 100. cujas populações carcerárias subiram de 30. Guiana Francesa (278). Os maiores aumentos aconteceram na Colômbia e na Costa Rica. 671. assim abrindo caminho para o crescimento do encarceramento.

as instituições penais têm invariavelmente operado acima de sua capacidade: em dezembro de 2012. nas quais um relativamente pequeno número de presos ‘perigosos’ é mantido em confinamento solitário. A superlotação e as acomodações densamente compartilhadas são identificadas não apenas como uma das principais fontes das precárias condições higiênicas. Essa situação se deteriorou com a superlotação. como indicam as altas taxas acima mencionadas. da inatividade. A brasileira Lei 7210/84 (lei de execuções penais) estabelece que tanto condenados como presos provisórios fiquem em celas individuais medindo no mínimo 6 m2.785 presos para 6. Embora a Suprema Corte do Brasil tenha declarado a inconstitucionalidade de tal dispositivo da lei brasileira sobre drogas.v Naturalmente. A Convenção Internacional de Direitos Civis e Políticos. incluindo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (IACHR). Apesar da frenética construção de novas prisões no Brasil (o número de estabelecimentos carcerários praticamente dobrou de 798 em 2005 para 1. Assim como o excessivo e prolongado uso das prisões provisórias. A presunção de inocência implica o fato de que quaisquer prisões provisórias sejam medidas excepcionais somente imponíveis nas raras ocasiões em que se demonstrem necessárias para assegurar o normal desenvolvimento do processo. como o Equador (13.imposta em conformidade com o devido processo legal e não mais sujeita a qualquer recurso). Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata de crimes relacionados a drogas. onde é comum encontrar um espaço de menos de 1 m2 por pessoa. Ministério da Justiça 2012). consequência natural do crescimento das populações carcerárias. Celas individuais só existem no Brasil em prisões estaduais de segurança máxima ou em prisões federais do tipo supermax. uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro revelou que quase todos os acusados (98%) de crimes relacionados a drogas permaneceram presos durante todo o desenvolvimento do processo (Lemgruber et al. da difusão de doenças.478 em 2012). esse aspecto das prisões latino-americanas atrai críticas generalizadas de organizações de direitos humanos. No entanto.687 vagas (Brasil. o encarceramento antes de uma condenação definitiva tornou-se a regra e não a exceção em muitas partes da América Latina. e da eliminação dos direitos individuais à privacidade. 2013). Por sua própria natureza.237 presos para 9. sob um regime especial conhecido como regime disciplinar diferenciado.760 presos para 24. Condições similares se encontram em outros países latino-americanos. expressamente estabelece que a punição – especialmente a privação da liberdade – deve ter como objetivos a re-educação e/ou a reinserção social dos condenados.413 vagas).003 presos brasileiros se exprimiam nas 310..403 vagas). Uruguai (8. assim como diversas constituições democráticas. Chile (53. Em muitos países latino-americanos leis ilegitimamente estabelecem prisões provisórias obrigatórias no caso de acusações por crimes relacionados a drogas. Essa parece ser uma lei feita ‘para inglês ver’.212 vagas) (IACHR 2011). Em toda a região. os 548. expressão usada pela primeira vez quando o tráfico de escravos foi ‘oficialmente’ abolido em 1831 a requerimento da Grã-Bretanha. mas ainda como fatores de redução de oportunidades para atividades orientadas no sentido da reabilitação. de conflitos entre presos e agentes penitenciários. Mesmo esses números subestimam o alcance total do problema. Outros são ainda mantidos em dormitórios coletivos. o encarceramento implica restrições tais como a limitação de . as dores do encarceramento não se restringem à América Latina. Peru (44. como o trabalho e o estudo. As prisões latino-americanas há muito são conhecidas pelas desumanas condições de vida em seu interior. sem que.673 presos para 35.894 vagas). costumam ser mantidos de três a quatro presos por cela ‘individual’. no entanto. a lei fosse efetivamente aplicada (a escravidão foi finalmente abolida em 1888).

espaço. embora esses familiares devam se submeter a humilhantes procedimentos na entrada. A vida na prisão Em sua análise sobre o surgimento da maior gangue prisional da América Latina. Levando-se em conta doenças e transferências. o PCC (Primeiro Comando do Capital) em São Paulo. por exemplo. a impossibilidade de se deslocar. os poucos guardas empregados para vigiar os presos geralmente são mal pagos e mal treinados. e uma prisão no Brasil . mais de 10% da população carcerária está infectada pelo HIV. quando a população carcerária de São Paulo somava 31. Ungar e Magaloni 2009). Em 1994. mas os números de agentes penitenciários aumentaram em apenas dois terços (para 25. os extraordinários níveis de superlotação experimentados pelos presos latino- americanos pioram os efeitos tanto psicológicos como físicos do confinamento. Brasil. 2009. No Peru. enquanto a incidência de TB chega a 30%. encontrar e estar junto com familiares e outros entes queridos. nos excessivamente altos índices de tuberculose e HIV/AIDS (Ibid. de sol e de luz. o acesso dos presos às suas famílias aumentou com a superlotação. Em comparação com os norte-americanos e europeus ocidentais. Essas dores físicas disseminam doenças. Camila Dias e Fernando Salla (Dias e Salla 2013. inclusive exames de partes íntimas (Garces et al.702 agentes penitenciários. Salla 2006) assinalam que nas últimas décadas os agentes penitenciários perderam muito de sua autoridade sobre os internos. No entanto. quando por alguns dias no início de maio o PCC orquestrou rebeliões em 74 das 144 unidades prisionais do estado. Na Inglaterra e País de Gales é de 1. A grave escassez de agentes penitenciários em São Paulo se reproduz em todo o Brasil e na maior parte da América Latina (Birkbeck 2011. os guardas eram somente três quartos do total de agentes penitenciários. Em comparação. Sérgio Adorno.172). Ironicamente. especialmente as doenças contagiosas que afetam os presos em proporções muito superiores às registradas entre populações livres. na medida em que as administrações prisionais se tornaram mais dependentes delas para suprir as falhas nos fornecimentos estatais.5:1. a taxa oficial internos/agentes em São Paulo era de 7. O efeito agravante que a superlotação tem sobre a deterioração física dos presos se reflete. Esses índices de incidência de TB são de 20 a 23 vezes superiores aos registrados na população peruana em geral (Comisión Episcopal de Acción Social 2013). 2013). estima-se que 86% dos homens presos recebem visitas de familiares (Brasil. Hoje.). Adorno e Salla 2007. os presos latino- americanos frequentemente têm a possibilidade de manter um contato relativamente próximo com seus familiares. a segregação.523).5:1.842 presos. o estado empregava 14. a taxa oficial internos/agentes é inferior a 5:1 nos Estados Unidos. Em dezembro de 2011. que em 2006 tinha oito funcionários para vigiar 1. Além disso.448 internos (IACHR 2011). e a perda de contato com as normais experiências da vida. em todos os outros aspectos. Salla et al. a população carcerária quadruplicara (para 125. as condições sanitárias precárias. Para piorar ainda mais. No Brasil. a distância do meio social. na Noruega 1:1. presos em todo o mundo sofrem a falta de ar. Em 2006. tornara-se bastante comum que prisões com populações de mais de 500 internos operassem com apenas dois ou três guardas de serviço a qualquer hora. incluindo remédios (IACHR 2011). Dentre os exemplos mais extremos de falta de pessoal encontra-se uma prisão na Venezuela. Macaulay 2013. por exemplo. a falta de higiene e a comida frequentemente deteriorada. Câmara dos Deputados 2008). na medida em que o número de agentes não conseguiu acompanhar o crescimento da população carcerária. sendo-lhes normalmente garantido o direito a visitas semanais por até quatro horas. essa situação se deteriorou ainda mais. Além disso.

exceto nos momentos de abertura e fechamento das trancas (IACHR 2011). no que diz respeito à visão. do que de instituições judiciais cumpridoras de alguma identificável função penalógica’ (Wacquant. 67% dos colombianos e 74% dos argentinos não cursaram mais do que a escola elementar – Argentina. observamos simplesmente que. Seu estreito foco em administrar a pobreza prevalece mais e mais na contemporânea era global neoliberal de crescentes disparidades sociais e decrescente seguridade social.’ Em toda a América Latina. DEPEN 2012). ou para assegurar que um nível adequado de bens e serviços flua das e para as alas. três quartos dos presos não estavam empregados quando de seu ingresso no sistema.. conflitos são normalmente evitados ou resolvidos – longe de ser uma vida boa. visitada em 2008. essas condições não são excepcionais na América Latina. não é o fato de. ou. desde suas origens os sistemas prisionais da região estiveram menos preocupados em emendar do que em segurar os condenados. carentes de recursos ou excludentes do que as prisões na Europa Ocidental ou na América do Norte. para a maioria deles. À medida que o número de funcionários deixou de acompanhar o crescimento da população carcerária. Ministério da Justiça 2012. os guardas raramente entram nos pavilhões. os internos foram sendo gradualmente deixados por sua própria conta. continuarem a exibir ordens sociais complexas. Embora escandalosas para padrões do Norte. Conscientes do perigo de estarmos minimizando a triste situação dos presos latino-americanos. familiares visitam no fim de semana. o lixo é recolhido. mas sim o fato de. serem mais desumanas. esperando-se que governassem a si próprios. Como assinalamos na introdução. na maioria das prisões.. sob condições de severas privações humanas e materiais. mas certamente uma vida que vale conceituar em seus próprios termos ao invés de desprezá-la como pré-moderna e retrógrada. O que mais impressiona nas prisões latino-americanas. por outro lado. os administradores penitenciários mal têm pessoal para garantir os muros externos de seus estabelecimentos. atingindo preferencialmente aqueles com baixas defesas. Tomando emprestada a análise de Wacquant sobre a ‘criminalização da pobreza no Brasil’.com uma população superior a 4. a maioria dos quais entra nas prisões com níveis extremamente baixos de educação formal (por exemplo.f. Ministerio de Justicia y Derechos Humanos 2014. Isso tem enorme implicação na administração carcerária. Nos afastamos de grande parte da literatura existente. tinha apenas cinco agentes de serviço (Brasil. Ministerio de Justicia y del Derecho 2014) ou de emprego na economia formal (no Brasil. para assegurar a supervisão dos internos em oficinas ou salas de aula. algumas vezes mais suposta do que fundamentada. Brasil. em média. ou empresas públicas para o armazenamento industrial do refugo social. os presos. Como aponta Zaffaroni (1991: 221- 236). 63% dos presos brasileiros. as prisões da região estão ‘mais próximas de campos de concentração para os despossuídos. porém. porém. de que as prisões latino-americanas seriam necessariamente lugares de extraordinária desordem. Como apontam Salla et al. ‘profissionais despreparados e em pequeno número não podem minimamente controlar as rotinas diárias em uma prisão e garantir um lugar seguro para.000 presos que. nosso ponto de partida é o de tratar as prisões latino-americanas como zonas de contenção e abandono. a vida segue em algum grau de normalidade cotidiana: refeições são distribuídas. Brasil. 2003: 200. Além disso. (2009: 23). Colombia. c. em boa parte à semelhança do que acontece nas áreas urbanas pobres da região que vão se tornando ‘zonas interditadas’ para a polícia (Koonings and Kruijt 2007). como . Câmara dos Deputados 2008). imagine-se então. por exemplo. doenças menos graves são tratadas. os sistemas penais latino-americanos operam como uma epidemia. Ungar e Magaloni 2009). em livre e não supervisionada associação. Como outros pesquisadores.

esses aspectos da vida na prisão se espelham pelo resto do Brasil e da América Latina. Darke 2014a. Carter 2014.000 internos para levar a cabo as tarefas da prisão: desses 1. nas eventuais irrupções de rebeliões violentas). Em São Paulo.g. providenciando bens materiais. O ponto é que.000 visitantes. esse número exclui muitos milhares de presos que trabalham informalmente nas alas.000 estavam formalmente empregados como presos de confiança. por exemplo. sob a direção de seus líderes. focalizamos nossa atenção nos ajustes situacionais pelos quais presos e funcionários enfrentam as condições desumanas sob as quais se encontram vivendo e trabalhando. as relações entre internos e funcionários nem sempre são muito piores do que nas prisões no Norte. Isso inclui especialmente a maneira pela qual os presos participam da administração das instituições em que estão encarcerados. os funcionários se tornam mais dependentes da cooperação dos presos para manter a ordem quotidiana da prisão. como antes mencionado. a prisão receberia mais de 2.700. o maior estabelecimento prisional da América Latina em todos os tempos (já desativado). assim como sistemas de ‘poder paralelo’ e ‘know how’ de sobrevivência preencheram o espaço deixado pela ineficiente administração estatal nas favelas e barrios da região (Koonings and Kruijt 2007). 1. Lima1991. por exemplo. Planejada ou não. como comida. MacNeal 2006. Biondi 2010. Varella (1999) descreve como nos anos 1990 a administração dependia de cerca de 1. vestimentas. esculpindo uma existência significativa mesmo no mais hostil e desesperador dos cenários.700 dentre os 7. 2013). dentre outras funções. tal dinâmica informal conforma o ambiente prisional por toda a América Latina e o resto do mundo pós-colonial (Garces et al. Varella 1999. Young 2003) testemunham uma realidade na qual os presos frequentemente são capazes de criar e manter relações profissionais e interpessoais.excepcional e além da compreensão de estranhos. trabalharam ou visitaram regularmente prisões latino-americanas (e. trabalhando. equipamento de cozinha. normalmente com o apoio implícito ou explícito da administração prisional. trabalhou voluntariamente na prisão por mais de 10 anos. bem como as posições assumidas por familiares de presos. ele mesmo um médico. porteiros. Já alto para padrões norte-americanos ou europeus ocidentais. esses faxinas também faziam cumprir códigos dos internos. Aqui importa notar que as vidas cotidianas dos presos e funcionários latino-americanos foram se tornando crescentemente entrelaçadas na medida em que mais e mais eles dependem uns dos outros. Mais uma vez. como antes mencionado. No fim de semana. que as horas de refeição e de visitas corram sem problemas. Em detalhado relato da participação dos presos na prisão do Carandiru em São Paulo. Além disso. médicos e religiosos. zeladores e funcionários de escritório. Para que essas aparentes contradições façam sentido. ou fora de comparação com outras regiões do mundo. 2012. Relatos etnográficos. faxineiros. Os presos contam com o reduzido número de funcionários para se manterem motivados a assegurar. que pesquisaram.608 presos (quase 9% da população carcerária do estado) estavam oficialmente empregados como apoios em dezembro de 2011. junto e (especialmente nos pavilhões) no lugar dos funcionários. como cozinheiros. roupas de cama e produtos de higiene. Varella. assim como serviços legais. enquanto. Carrillo Leal 2001. No caso dos presos de confiança. por exemplo. Além de desenvolverem tarefas domésticas. biográficos e autobiográficos daqueles que estiveram encarcerados. o etnógrafo de prisões Guttiérez . 2014c. Os restantes 700 (aproximadamente) trabalhavam informalmente nos pavilhões. Mendes 2001. a maioria das prisões latino-americanas continua a operar sob uma ordem normativa. ainda que tênue (normalmente exigindo que os presos não façam muito mais do que serem ‘humildes’ e ‘respeitem’ uns aos outros) e volátil (como testemunhado. 19. por exemplo. e ainda pelo setor de voluntariado para suprir as deficiências do fornecimento estatal.

Na carceragem. no controle do acesso aos pavilhões e aos dormitórios individuais (Darke 2014b. é importante notar a recente intensificação da organização dos presos associada ao crescimento das gangues criminosas organizadas. Embora seja equivocado ver as gangues criminosas organizadas como sendo igualitárias ou como ‘pacificadoras’ dos sistemas prisionais da América . os funcionários e seus colaboradores (c. Guatemala. De maneira semelhante. por exemplo. os ‘chefes internos’ da Colômbia. Brasil. Em estudos sobre uma carceragem de delegacia no Rio de Janeiro e sobre uma série de prisões comunitárias do setor de voluntariado em Minas Gerais. ambos ex-policiais. Lessing 2014). Honduras e Nicarágua (Carter 2014. e os limpiezas (faxinas) da Argentina (Salla et al.000 presos.f. Na carceragem. onde em regra existiam apenas 30 funcionários de serviço para tomar conta de 4. como sendo a administração da prisão. tais como o já mencionado PCC no Brasil e os Maras em países da América Central. Lessing 2014.Rivera (2010). O IACHR (2011) também cita diversos exemplos de tal autogoverno dos presos a partir de uma série de relatórios de direitos humanos da ONU e da Organização dos Estados Americanos. Em pelo menos uma prisão esses presos de confiança são selecionados dentre ex-policiais (El Impulso. no Peru (Veeken 2000). À medida que cresce a tendência internacional de mudança de ambientes prisionais correcionais para prisões de segurança. Há também relatos de guardas penitenciários recrutando polipresos (policiais internos) para manter a ordem em prisões venezuelanas (Birkbeck 2011). sendo conhecidas por corromper funcionários. advogados e contadores locais e mesmo por terem obtido concessões informais de funcionários estatais (Dias e Salla 2013. decidiam e aplicavam punições. MacNeil 2006). As gangues latino-americanas crescentemente operam no interior dos sistemas prisionais e entre as prisões e as comunidades urbanas pobres. a nueva mafia (nova máfia) e os 'coordenadores' de Honduras (Carter 2014). ele era regularmente escoltado até os pavilhões por guias que eram internos. os capataces (capatazes) do Paraguai. e os delegados (delegados) da prisão de Lurigancho. tendo como resultado o que Garces et al. tudo indica que as prisões latino-americanas provavelmente se tornarão ainda mais autogovernadas. como El Salvador. 2009). O trabalho de campo de um dos co-autores desse texto também explorou os meios pelos quais representantes e comissões de presos na carceragem e os conselhos de sinceridade e solidariedade nas prisões comunitárias organizavam a rotina da prisão. Rocha 2013). e com isso ao direito de definir o uso da violência ‘legítima’. Como tal. estão os de: directivas (diretores) da prisão San Pedro. Finalmente. incluindo os comités de orden y disciplina (comitês de ordem e disciplina) da Guatemala. Guttiérez Rivera 2010). (2013) descrevem como a 'informalização da administração prisional'. Garces (2010) descreve como em seu trabalho de campo em uma penitenciária do Equador. os representantes eram referidos como formando a ligação entre os presos. na Bolívia (Skarbek 2010. Guttiérez Rivera 2010. Dentre numerosos relatos na literatura sobre prisões latino-americanas quanto a papéis desempenhados por líderes e conselhos de presos na administração do interior dos pavilhões e celas/dormitórios. estão associadas a um fortalecimento e monopolização de posições de autoridade entre os internos. 2014). por exemplo. 2014c). os cabos/delegados de pabellón (chefes/delegados de dormitórios) e jefes de patio o pasillo (chefes de pátio ou corredor)/gremio (administração) da Venezuela (Birkbeck 2011. Young 2003). os ‘chefes de pavilhões’ do México. um dos autores desse texto dissertou sobre as posições de colaboradores e auxiliares de plantão. descreve como os administradores prisionais em Honduras supriram as faltas de funcionários nomeando internos rondinés (patrulheiros) para monitorar e informar sobre outros presos. os presos se referiam ao diretor e a seus dois mais antigos colaboradores.

como o primeiro autor desse texto explicou em outro trabalho (Darke 2014c). incluindo sistemas de controle social informal e resolução de conflitos. de modo a forjarem um ‘legítimo status comunitário’ (ibid.). Por um lado. observação contínua. Conclusão Ao observar que o encarceramento massivo. ‘os funcionários estão sob o olhar de seus superiores’. Uma característica chave da literatura sobre prisões latino-americanas e de outras regiões do Sul é o esforço em explicar. há uma correspondente necessidade de que integrem a população mais ampla de presos comuns. Foucault (1977) demonstrou como as prisões foram originalmente planejadas para ser ‘instituições completas’. como vimos. tornando-se ainda mais relevantes no contexto contemporâneo de militarização do sistema penal e securitização do ambiente prisional. para que as gangues prisionais detenham poder no longo prazo. associadas ao trabalho de Foucault. No entanto. Tampouco. Em primeiro lugar. para manter o controle sobre os internos em seus próprios pavilhões. como King (2007: 115) ressalta em uma comparação entre prisões russas e brasileiras. Finalmente. com a exceção de uma série de penitenciárias na Argentina (Aguirre 2007) . aí incluída a América Latina. especialmente teorias sobre o panoticismo. O'Day e O'Connor 2013). quando não em prisões separadas. a continuação das práticas imperiais de punições corporais e de defesa social. as dores do encarceramento e as instituições totais. Em São Paulo. isso pode envolver uma crescente animosidade contra aqueles identificados como inimigos comuns. as gangues prisionais dependem da criação de relações de solidariedade e confiança.Latina (Dias e Darke 2015). o abandono estatal e o autogoverno são aspectos definidores dos sistemas prisionais latino-americanos. presos foram proibidos de recorrer à violência sem permissão. hoje. os agentes penitenciários têm pouco envolvimento direto nas atividades do dia a dia nos pavilhões. objetivando transformar os internos através da segregação. verticais. Começando com o panoticismo. mas. No entanto. por exemplo. tais presos são invariavelmente mantidos em pavilhões separados. pelo menos três trajetórias no sentido de minimização da violência social podem ser identificadas. à medida que consolidam poder. Por outro lado. é igualmente importante não subestimar o papel que elas desempenham. Não só o confinamento solitário era quase desconhecido nas prisões latino- americanas antes da recente embora limitada importação do modelo supermax de imobilização (De Jesus Filho 2013. líderes de gangues também aboliram o uso de drogas pesadas e a posse de facas (Dias and Salla 2013). ou pelo menos têm o potencial para desempenhar. disciplina e treinamento. as gangues prisionais quase inevitavelmente desenvolvem estruturas hierárquicas. Sykes e Goffman. podemos resumir e concluir este capítulo com uma chamada para que se desenvolvam entendimentos mais matizados sobre até que ponto a literatura sociológica clássica sobre a vida nas prisões seria aplicável para além do Norte. Garces 2014a. por exemplo. e exceto em eventuais irrupções de rebelião por toda a extensão da prisão poucas oportunidades de violência se apresentam. ao contrário. há a tendência no sentido da produção de comunidades coesas nos ‘barrios unificados’ (Guttiérez Rivera 2010). As prisões latino-americanas obtêm certos níveis de controle situacional e isto é amplamente administrado por/através de presos de confiança e líderes de celas/dormitórios e pavilhões. À medida que as gangues prisionais latino-americanas se expandiram e resolveram (com maior frequência de forma impositiva) disputas territoriais. criminosos sexuais ou membros de gangues concorrentes. como no passado. em crescentes níveis de proteção mútua e apoio entre os internos das prisões. Segundo. há uma clara disjunção entre a análise do Norte sobre o desenvolvimento da prisão como uma instituição correcional e as realidades prisionais no Sul.

além disso. as barreiras entre prisões e comunidades geralmente são mais permeáveis do que na Europa Ocidental ou na América do Norte. incluindo os latino-americanos. e como resultado disso precisam ser analisadas como universos sociais paralelos. Em segundo lugar. Finalmente e em estreita relação. Macaulay 2014). o poder nas prisões latino-americanas emerge tanto de hierarquias de internos quanto da autoridade de funcionários. presos de confiança e funcionários). no sentido de que seus regimes sejam pelo menos em parte voltados para a transformação dos presos. Aqui é importante ter em conta a natureza comunal da vida na prisão na América Latina – isto é. de que as prisões nunca objetivaram fazer mais do que punir e incapacitar os criminosos. Não só os presos geralmente têm maior contato com seus familiares. é difícil contestar a conclusão de Birkbeck (2011) de que as prisões latino-americanas são menos instituições de encarceramento. Em primeiro lugar. e em negociações entre líderes de internos. dos modos pelos quais as vidas de internos e (em menor extensão) funcionários se moldam tanto por relações pessoais produzidas durante encontros diários (por exemplo. alguma vez foram. há um consenso muito mais claro entre os estudiosos do Sul. Igualmente problemática em nossa experiência é a visão de que haveria uma relação inversa entre condições prisionais precárias e relações entre internos e funcionários. em celas e dormitórios multi-ocupados. Quando interações funcionários-internos se tornam aspectos . na realidade. com seu foco na separação entre internos e funcionários. 2009). na América Latina é mais produtivo analisar as relações dos internos com os funcionários em termos de estratégias de sobrevivência do que através de uma dicotomia entre resistência e acomodação. vimos que um relato localizado do caráter abrangente da vida institucional nas prisões latino-americanas aponta para a necessidade de considerar os efeitos de funções fundidas funcionários/internos (resultando dos papéis desempenhados por presos trabalhando junto ou no lugar de agentes penitenciários) e relações entrelaçadas (funcionários-internos e prisão-comunidade). Pode-se argumentar que as práticas orgânicas que surgem desses encontros diários ajudam a compensar alguns dos aspectos desestabilizadores da vida na prisão inicialmente apontados por Sykes (1958). não obstante as esperanças e expectativas dos reformadores que as introduziram. Salla et al. Enquanto estudiosos do Norte mais radicais questionam em que medida as prisões continuam a ser. 2013). instituições de reabilitação. Darke e Karam 2012). Sob condições de reciprocidade forçada (Darke 2013. ou. as privações materiais nas prisões latino-americanos podem tanto fortalecer como impedir o desenvolvimento da solidariedade entre os internos. como microcosmos da sociedade. as prisões latino-americanas não estão isoladas da comunidade. Macaulay 2013. prisões e comunidades. lutas coletivas e trocas recíprocas. enquanto as relações entre internos e funcionários provavelmente podem se definir tanto por negociação quanto por uma distância normativa. ordens quase legítimas baseadas nos interesses compartilhados por segurança e certeza e necessidades comuns de bem-estarvi. mas também há que se considerar que o crescente fenômeno da cultura de gangues tem feito a prisão e a vida comunitária se tornarem cada vez mais ligadas. durante associações livres. Ao invés de distanciamento. nos juntamos a Birkbeck (2011) em chamar atenção para a questionável aplicabilidade universal do conceito de Goffman (1961) de instituição total. Essas experiências compartilhadas de abandono formam parte essencial do que Aguirre (2005: 144) descreve como ‘a ordem costumeira da prisão’ para desenvolver. Ao que parece. Aguirre 2007. do que instituições de internamento (cf. Como ressalta Aguirre (2007). quanto por indignidades a nível individual (Garces et al.e das unidades de prisão comunitária do setor de voluntariado no Brasil (Darke 2014c.

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