VULNERABILIDADE LGTBI E DE OUTRAS DIVERSIDADES SEXUAIS

Manuel Antonio Velandia Mora1

investigadormanuelvelandia@gmail.com

manuel.velandiam@campusucc.edu.co

Espanha, 17/11/2014

Palavras-chave: gêneros, corpo, sexualidades, orientação sexual, identidade,
LGTBI, HSH, MSM

Estrutura de tópicos: Introdução; Vulnerabilidade; Definições; Direitos humanos
e sexuais; Princípios, vulnerabilidade e saúde; Delito ou legalidade; Estratégias
para a não discriminação; Alternativas de solução.

Nota do Autor: Uma versão curta deste texto foi publicado no livro Atenção
Saúde à dos vulneráveis Populações. Vol. 4 - 1ª Edição – impresso, 2014.
Manole Editorial. Brasil.

1. Introdução

Os gêneros, os corpos e as sexualidades estão sendo utilizados em
lutas de poder político, dentro e fora dos países e das instituições. Nos
trabalhos de acadêmicos, como Foucault, Butler e Fausto-Sterling, entre
outros, se demonstra que sexo, corpo e gênero produzem significados sociais
e, simultaneamente e de forma recíproca, o sexo, o corpo e o gênero são
produzidos por tais significados. Desde seus inícios pré-natais e neonatais,
incluindo os infantes intersexuados, a cultura, a economia, a política, a religião
e a sociedade influem no corpo material, em sua explicação e nas emoções
que gera.

1
Velandia Mora, Manuel Antonio Velandia Mora Antonio. Sociólogo, filósofo, sexólogo,
Especialista em Gestão de projetos educativos institucionais, Mestrado em Educação,
Mestrado em Gestão de Políticas Migratórias e Intercultural, Diploma de Estudos Avançados -
DEA / Master-Intervenção em Psicologia e Doutor em Educação pela Universidade do País
Basco; DEA / Mestrado e Doutorado pela Universidade de Alicante em Enfermagem e cultura
de cuidado. Prêmio doutorado extraordinária pela Universidade de Alicante.
A partir da perspectiva sistêmica, é evidente que os genes não agem
isoladamente, mas sim que necessitam de todo um âmbito de domínio, um
ambiente de proteínas e estrutura celular para interagir. No nível celular, assim
como no social e planetário, as coisas viventes só podem desenvolver-se
dentro de uma relação interativa e, portanto, interdependente, inter-relacional e
interafetante com outros organismos viventes. Não se pode afirmar, em
consequência, que um gene em particular, um órgao sexual, um corpo
específico pode determinar algo tão complexo e variável como a sexualidade, a
identidade, o corpo ou o gênero.

A sexualidade é um dos âmbitos mais interessantes e complexos da vida
social para o estudo da plasticidade da conduta humana.1 Como bem analisou
Petchesky (2008), a sexualidade não é uma questão secundária, mas sim um
tema central que atravessa qualquer situação em que um ser humano se
vincula a outro, porém, no caso que do vínculo surjam emergências, como uma
gravidez ou uma doença, a sexualidade passa a ser o nó da situação; tal como
acontece com a pandemia do HIV/AIDS, as doenças sexualmente
transmissíveis (DST), a gravidez adolescente, o aborto ou a guerra, em que o
corpo das mulheres e dos homens “que parecem não sê-lo” se converte em
pilhagem de guerra. Por isso, as realidades e debates acerca do lugar da
mulher dentro da sociedade, os direitos das minorias sexuais, a
autodeterminação reprodutiva – em especial o aborto –, os significados das
masculinidades, das feminilidades e dos trânsitos identitários de gênero, como
também as famílias, sobretudo a monoparental ou a constituída por pessoas do
mesmo sexo, se veem afetados pelos discursos ideológicos, pelas expressões
e corrupções do poder político.

Gayle Rubin (1984),2 considera que “o sexo é sempre algo político”. Nas
palavras de Petchesky (2008), sua politização envolve o intento contínuo de
estabelecer limites entre sexo “bom” e “ruim”, baseado em “hierarquias de valor
sexual” na religião, na medicina, nas políticas públicas e na cultura popular.3
Para Rubin, essas hierarquias “funcionam da mesma maneira que os sistemas
ideológicos do racismo, do etnocentrismo e do chauvinismo religioso.
Racionalizam o bem-estar dos sexualmente favorecidos e a adversidade da
plebe sexual”.
Como sugeriu Rubin, afirma Petchesky (2008), as inquietudes populares
(dos homens heterossexuais, dos grupos hegemônicos e beligerantes, dos
economicamente cobiçosos ou inseguros), com muita frequência, assumem a
forma de “pânico moral”, cujo alvo são as pessoas marginalizadas e
sexualmente vulneráveis. Essa vulnerabilidade resulta perigosa de formas
muito particulares para os proscritos por gênero, por corpo e por sua
sexualidade, sejam gays ou lésbicas, pessoas transgênero e intersexuais,
jovens solteiros, trabalhadores sexuais ou mulheres heterossexuais, que
tentam viver uma existência social e erótica “não tradicional”.

2. Vulnerabilidade

A palavra vulnerabilidade, derivada do latim vulnerare, quer dizer
“provocar um dano, uma injúria”. É um termo frequentemente utilizado na
literatura geral, aplicado no sentido de desastre e perigo.

Para a Defensoria do povo, Colombia (2003)4, vulnerabilidade é “todo
déficit social que as pessoas têm, resultado da brecha existente entre uma
dotação mínima para conseguir uma vida digna e desenvolver um projeto de
vida, e a dotação real que têm”. Conquistar uma vida digna tem como base o
reconhecimento do ser em sua identidade como pessoa, sujeito de direitos5 e
cidadão. O projeto de vida não é somente um fato particular, como também
relacional e sociocultural, que não se pode alcançar quando para os outros e
as outras o ser não se assume em sua existência plena e real. Não existe a
dignidade quando a pessoa não é reconhecida como um autêntico outro.

A vulnerabilidade (Niachiata, 2008) pode ser analisada segundo três
dimensões interdependentes: individual, programática e social.6

Propõe-se, aqui, que a vulnerabilidade seja definida como o fator de
risco ao qual uma pessoa ou um grupo delas está exposto, ou seja, à ameaça
correspondente à sua predisposição intrínseca de ser afetado, de ser
suscetível a sofrer um dano e de encontrar dificuldades em recuperar-se
posteriormente de seus efeitos.
Em epidemiologia, um fator de risco é toda variável conectada
estatisticamente ao fato de que se produza um evento. Trata-se de uma
característica individual ou coletiva, associada causalmente a um aumento da
incidência da doença, a um fenômeno de saúde ou a um fenômeno
sociocultural em uma população e, portanto, a um incremento da probabilidade
de que um indivíduo desenvolva a enfermidade, tenha outros problemas de
saúde ou seja afetado por crimes de ódio.

O termo crime de ódio se refere a qualquer fato punível, incluídos os
delitos contra as pessoas ou a propriedade, naqueles casos em que a vítima, o
lugar dos fatos ou o objetivo do delito se justifica e sua conexão, adesão,
afiliação, apoio ou pertencimento real ou percebido a um grupo social,
etnia/raça, cor, idade, condição social, identidade sexual, orientação sexual,
expressão de gênero, sexo, especialmente por não ajustar-se aos modelos de
gênero e de sexualidade dominantes, circulação de pessoas (imigração) e
condição de saúde, por exemplo, viver com HIV/AIDS ou deficiência; os fatos
se manifestam como negativa de oferecer serviços de saúde, esterilização ou
aplicação de qualquer outra classe de tratamento médico aversivo, como
também a negativa de acesso a bens, serviços, moradia, segurança social,
educação e/ou retificação dos documentos oficiais, não reconhecimento dos
direitos civis dos casais do mesmo sexo, anulação do matrimônio, incitação ao
ódio, violência de gênero, bulling, exclusão social, dano físico, dano emocional,
ataques verbais, discriminação, assédio, ameaças sexuais, ameaças de morte,
deslocamento forçado, negativa ao direito de asilo, assassinato,
heteronormatividade, e, igualmente, a omissão em aceitar que a vítima
denuncie tais ataques ou a sua obstaculização, encarceramento, controle
familiar, violência doméstica; situação que se agrava pela ausência de um
marco legal que as puna, de programas que as previnam e diminuam a
vulnerabilidade e suscetibilidade das pessoas e grupos, mitiguem seu risco e
pela falta de apoio institucional emocional, físico, econômico ou de outras
ordens que é requerido pelas vítimas.

A vulnerabilidade é maior ou menor a partir da interdependência, inter-
relação e interafetação do sujeito ou grupo vulnerável com três dimensões –
individual, programática e social –, em um lugar particular e durante um período
de tempo definido e em um âmbito de domínio ou contexto, determinado pela
ideologia, a cultura e as condições sociais, econômicas e políticas. Ver Figura
1, Efeitos da Vulnerabilidade.

Figura 1. Efeitos da Vulnerabilidade. Elaboração própria.
Tradução do miolo da figura:
Efeitos da vulnerabilidade
Tempo
Programática Social
Efeitos no indivíduo e/ou no grupo
Individual
Espaço Âmbito de domínio
A vulnerabilidade, que transcende aqui o eixo da saúde para ampliar-se
a qualquer situação em que a pessoa possa se ver afetada, é correlativa com a
predisposição ou suscetibilidade7 física, emocional, econômica, política,
cultural ou social que uma comunidade ou uma pessoa tem de ser afetada ou
de sofrer efeitos adversos, no caso de que um fenômeno perigoso de origem
natural ou causado pelo ser humano se manifeste. As diferenças de
vulnerabilidade determinam o caráter seletivo da severidade de seus efeitos e
dependem do contexto social e material em que é exposto o grupo ou a pessoa
diante de tal fenômeno.

Partindo da definição da OMS8 sobre os determinantes sociais da
saúde, pode-se dizer que os determinantes sociais da vulnerabilidade são as
circunstâncias em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e
envelhecem. Essas circunstâncias são o resultado da distribuição do capital, do
poder e dos recursos a nível mundial, nacional e local, que depende, por sua
vez, das políticas adotadas.

Risco

É a possibilidade de que algo ocorra. Risco é a probabilidade de que se
apresente um nível de consequências econômicas, sociais, emocionais, físicas
ou ambientais em determinado lugar e durante um período de tempo definido.

A quantificação ou medição do risco é obtida da relação da ameaça com
a vulnerabilidade aos elementos expostos a partir da suscetibilidade que se
possua, com o fim de determinar os possíveis efeitos e consequências
associados a um ou vários fenômenos perigosos. As alterações em um ou mais
destes três parâmetros (ameaça, vulnerabilidade e/ou suscetibilidade)
modificam o risco em si mesmo, ou seja, o total de perdas esperadas e
consequências em uma área determinada (ver Figura 2). Matematicamente, o
risco é igual à frequência do evento arriscado pelas suas consequências.9

Figura 2. Medição do risco. Elaboração própria.
Tradução do miolo da figura:

Medição do risco
Ameaça Suscetibilidade
Risco
Vulnerabilidade
Âmbito de domínio
2.1.1 Risco social

Uma pessoa está em risco social se pertence a um entorno social que
apresenta fatores de risco.

São fatores de risco social os problemas baseados no gênero, no sexo,
na sexualidade, nas expressões comportamentais sexuais, na identidade, na
orientação sexual, na economia, na cultura, na política, na religião, no conflito
armado, na desestruturação familiar, nas condutas anômalas e outras
circunstâncias pessoais, familiares ou do entorno que afetam os cuidados, a
atenção e os serviços que as pessoas vulneráveis recebem ou devem receber.

Vulnerabilidade individual e grupal

Refere-se à ação individual e grupal de prevenção diante de uma
situação de risco. Contém aspectos relacionados às características pessoais
(idade, sexo, gênero, orientação sexual, expressões comportamentais sexuais,
identidade, etnia, cultura, crenças religiosas, valores, princípios éticos,
exercício da biossegurança, etc.), ao desenvolvimento emocional, à percepção
do risco e atitudes direcionadas à adoção de medidas de autoproteção; assim
como com atitudes pessoais diante da sexualidade e sua vivência,
conhecimentos adquiridos sobre as situações de saúde que podem lhe afetar;
e das habilidades para negociar práticas nas quais a pessoa pode se ver
afetada nos aspectos emocional, físico e social.

Os processos sociopolíticos desenvolvidos por grupos constituídos por
pessoas com vulnerabilidades similares, como, por exemplo, as decorrentes
das sexualidades, criam condições que diminuem sua vulnerabilidade, em
especial quando estas organizações de base estão em possibilidade de
negociar com os agentes de políticas públicas a aplicação de programas que
diminuam sua vulnerabilidade individual e social.

Política pública é a emergência da participação e o diálogo de todos os
atores envolvidos com relação a um tema, que se considera prioritário por ser
entendido socialmente relevante, depois de uma análise clara e realista sobre o
que existe e é apropriado, quanto à satisfação de necessidades da comunidade
considerada vulnerável. São um “curso de ação” (Aguilar Villanueva, 1992)
dinâmico, definitivo ou não, que deve possibilitar a revisão, o desenho e a
implantação de ações conjuntas com outras entidades públicas e privadas que
cooperam com a população vulnerável, que se delineia e constrói em um
território específico (espaço-temporal, relacional, cultural e emocional), de tal
maneira que se possa ajustar quando for necessário e apoiar a redireção da
legislação existente quando esta não for suficiente ou apropriada.

Velandia (2005) especifica que “para que haja participação devem-se
criar os mecanismos para alcançá-la e conseguir que, de maneira ativa, os
demais setores envolvidos apoiem a decisão sobre o que, quem, para quem,
quando, onde, como, por que, para que, com que recursos, metodologias,
ferramentas, instrumentos, estratégias de acompanhamento e avaliação, fazê-
lo”10.

Toda PP se desenvolve a partir de um enfoque diferencial [1] e de
equidade, tendo em conta os gêneros, sexualidades, idades, territórios sociais,
pertencimento étnico e deficiências, realizando e restabelecendo direitos, como
fundamento de qualquer tipo de ação afirmativa para compensar as
inequidades, produto da falha estatal no dever de proteção.

Segundo Aguilar Villanueva (1992), uma PP: “não é a simples decisão
deliberada do ator governamental: a grande decisão no cume do Estado”, posto
que é evidente que nela deve intervir “todo um conjunto complexo de decisores
e operadores”. Na definição de Duran, utilizada por Roth Deubel (2002),
destaca-se que é preciso incorporar outros setores de igual importância na
criação, acompanhamento e cumprimento da PP; são eles os atores
provenientes de setores sociais, tais como organizações não governamentais
(ONG), organizações de base comunitária (OBC), associações gremiais e
outras associações da sociedade civil. Uma comunidade de PP, como diz
Duran, está constituída pelas pessoas pertencentes a diferentes posições –
responsáveis por entidades governamentais, congressistas, representantes
políticos, dirigentes de grêmios, pesquisadores – e, em especial, pelos e pelas
beneficiários (a)s das políticas, que, além de compartilhar um sistema similar
de crenças – série de valores, fundamentos, supostos e percepções de um
problema específico – demonstram um certo grau de coordenação de suas
atividades no tempo.

Em todo o mundo, as pessoas socialmente desfavorecidas nos aspectos
econômico, político, social, cultural, étnico e sexual têm menos acesso aos
recursos sanitários básicos e ao sistema de saúde em seu conjunto. Como
afirma a OMS11, é assim que adoecem e morrem com maior frequência que
aquelas que pertencem a grupos que ocupam posições sociais mais
privilegiadas. Isso se torna mais crítico em alguns dos grupos mais vulneráveis.
Essas iniquidades têm aumentado, apesar de que nunca houve antes no
mundo a riqueza, os conhecimentos, a sensibilidade e interesse pelos temas
que dizem respeito à saúde como na atualidade.

Vulnerabilidade programática

Refere-se à inexistência ou aplicação inapropriada de políticas públicas
de enfrentamento das situações de risco individual e grupal; metas e ações
propostas nos programas de prevenção; organização, distribuição dos recursos
para prevenção e controle; e a avaliação e redirecionamento da aplicação das
estratégias para a gestão dos riscos a partir de um enfoque diferencial.

Segundo Meertens (2004), um enfoque diferencial é um método de
análise que leva em consideração as diversidades e iniquidades existentes em
nossa realidade, com o propósito de administrar os riscos, oferecendo uma
atenção adequada e proteção dos direitos da população. Emprega uma análise
da realidade que pretende tornar visíveis as diversas formas de discriminação
contra aquelas populações consideradas diferentes e define as discriminações
mais relevantes no contexto da crise.12

Gestão de riscos é o processo social que conduz ao planejamento e
aplicação de políticas, estratégias, instrumentos e medidas orientadas a
impedir, reduzir, prever e controlar os efeitos adversos de fenômenos perigosos
sobre a população, os bens e serviços e o ambiente. Ações integradas de
redução de riscos, por meio de atividades de prevenção, mitigação, preparação
para, e atenção de emergências e recuperação pós-impacto.
As políticas públicas devem ter como fim gerir o risco, ou seja,
implementar medidas compensatórias direcionadas a modificar ou diminuir as
condições de risco existentes. São medidas de prevenção-mitigação e
preparação que se adotam com anterioridade, de maneira alternativa,
prescritiva ou restritiva, com o fim de evitar que um fenômeno perigoso se
apresente, ou para que não gere danos, ou para diminuir seus efeitos sobre a
população, os bens e serviços e o ambiente.13

Nas políticas de saúde têm predominado as soluções centradas no
tratamento das doenças, sem incorporar adequadamente intervenções sobre
as "causas das causas", tais como, por exemplo, as ações sobre o entorno
social.14 Entretanto, os efeitos dos crimes de ódio contra populações
vulneráveis, tão somente até este momento, estão começando a ser
considerados como elementos cuja ameaça, dada a vulnerabilidade social,
dificulta a atenção integral em saúde.

Vulnerabilidade social

Refere-se aos efeitos da estrutura econômica, da gestão ineficiente do
risco a partir das políticas públicas, em especial de educação e saúde, como
também da cultura, da ideologia e das relações de gênero e sexo que definem
a vulnerabilidade individual e programática. A vulnerabilidade social se
relaciona com os processos de exclusão, discriminação ou debilitação dos
grupos sociais e sua capacidade de reação.

Para Parker (1999), talvez a maior contribuição no debate e ação sobre
a distinção do conceito de risco e vulnerabilidade esteja no esforço de deslocar
a noção do risco individual para uma nova percepção de vulnerabilidade
social15. Um exemplo disso pode ser a AIDS. Parker considera que, sem
desconsiderar que todo ser humano é biologicamente suscetível à infecção
pelo HIV, ou que a transmissão realmente ocorra mediante atos de
comportamento de indivíduos específicos, na perspectiva de ampliação da
intenção da epidemia, colocam alguns indivíduos e grupos em situações de
maior vulnerabilidade, o que permite perceber mais amplamente como a
desigualdade e injustiça, o preconceito e a discriminação, a opressão,
exploração e violência da sociedade aceleram a disseminação da epidemia nos
diferentes países.16

O conceito de vulnerabilidade social pode se aplicar a uma pessoa ou a
um grupo social, segundo sua capacidade para prevenir, resistir e se sobrepor
a um impacto. Kreuser (1998) afirma que alguns estudos caracterizam como
vulneráveis as mulheres, os adolescentes, as pessoas com deficiências e
outros grupos que vivem em exclusão social.17 A vulnerabilidade também se dá
pelas condições sociais, políticas, econômicas e culturais, assim como pelas
situações que decorrem da falta de programas nas políticas públicas que
tenham como objetivo diminuir tal vulnerabilidade. Considera-se que o grau de
vulnerabilidade se altera ou depende da modificação na condição ou ambiente
social e na aplicação de ações programáticas.

Populações vulneráveis

São aquelas que necessitam de uma proteção especial, ou seja, que por
distintos motivos particulares, grupais e/ou sociais não têm desenvolvida ou
não podem desenvolver a capacidade de se defender diante de uma ameaça
específica que pode afetá-las individual ou coletivamente. Essa capacidade é
determinada pelo grau de informação ou de experiência, e, com frequência, é
afetada pelo que se chama “o erro otimista”18, que é a capacidade dos
humanos de não se sentirem ameaçados individualmente por uma ameaça
geral, inclusive quando esta existe.

Para os especialistas em bioética, tal qual se lê na Declaração de
Helsinki (2000), “Devem-se reconhecer as necessidades particulares dos que
têm desvantagens econômicas e médicas. Também se deve prestar atenção
especial aos que não podem outorgar ou repudiar o consentimento por si
mesmos, aos que podem outorgar o consentimento sob pressão, aos que não
se beneficiarão pessoalmente com a pesquisa e aos que têm a pesquisa
combinada com a atenção sanitária”.
3 Definições

A construção conceitual no tema das identidades sexuais teve que se
ocupar da grande diversidade de sexualidades que existem, entretanto, ao
discurso sexológico oficial e linear positivista, tem sido muito difícil assumir a
mobilidade na identidade sexual das pessoas, talvez por isso os homossexuais,
lésbicas, bissexuais, transgêneros, transexuais, queers2 e demais
interessados/as nas sexualidades temos tido que nos apoiar em nossas
próprias vivências e emoções para nos aproximarmos de construções teóricas
em que todos, todas e todes3 caibamos, rompendo, assim, com nossa própria
auto e hetero exclusão.

3.1 Sexo

Dependendo a partir de qual perspectiva se explique, o sexo pode ser
entendido, primeiro, como definição biológica; segundo, como definição
psicossocial; ou, terceiro, como uma definição contínua que imbrica e
transcende as duas anteriores.

Primeiro. Se sexo é uma definição binária eminentemente biológica,
então sexo faz referência ao que somos genotípica e fenotipicamente como
fêmeas ou machos da espécie, ou seja, aos traços primários e secundários que
nos caracterizam e diferenciam, tais como o sexo gonadal, hormonal, o sistema
genital externo e interno, a estrutura cerebral, a morfologia corporal, a estrutura
óssea, a distribuição das gorduras no corpo e a distribução dos pelos púbicos,
entre outros. A definição biológica do ser humano concebe a normalidade
sexual como inerente e exclusiva do coito vaginal com fins reprodutivos [2] e
que se deve considerar qualquer possibilidade erótica pênis-vagina perversa ou
patológica, seguindo a tradição judaico-cristã da “medicalização do pecado”,
que se orientou ideologicamente para sustentar que, fora destas dicotomias e

2
N. de T.: vocábulo inglês que siginifica “homossexual”, geralmente em sentido ofensivo.
3
N. de T.: todes é um neologismo que significa “todos” sem a conotação de gênero masculino
ou feminino.
da prática com fins procriadores, não há salvação e que provê de explicações
patológicas as condutas sexuais.

Segundo. Se, ao contrário, sexo é entendido como definição
psicossocial, à definição de macho e fêmea deve-se somar a identidade de
gênero, compreendida como a única possibilidade de percepção que cada
pessoa tem de ser homem ou mulher; e o papel de gênero, em consequência,
é a expressão de masculinidade no homem ou de feminilidade na mulher, a
partir do que a sociedade determina como o “dever ser” com que cada
indivíduo deve se identificar e agir socialmente.

Terceiro. Se sexo é entendido como uma definição contínua, então o
conceito imbrica o biológico à dimensão psicológica e social da sexualidade no
que se concebe sob a denominação de gênero. Nesse caso, já não se fala
apenas de homem e mulher, pensando no primeiro como masculino e na
segunda como feminina, e sim que se entende que existe uma gama de
variações sexuais.

Não existe apenas o macho e a fêmea; na espécie se apresentam,
igualmente, estados intersexuais que podem se apresentar no processo da
diferenciação somatossexual durante o desenvolvimento pré-natal, variações
que, por sua vez, têm uma expressão particular nos sexos genotípico e
fenotípico; não é em vão que os dois sexos compartilham um cromossomo X,
hormônios “masculinos” e “femininos” e até um cérebro que, hoje sabemos, é
bissexual e possui diferentes estruturas e regiões, cuja masculinização ou
feminilização, independentemente, ocorre não só na vida embrionária e fetal
como também ao longo de todo o ciclo vital.

3.2 Gênero

O gênero é uma noção, uma construção social e cultural sobre o que
uma pessoa “deve ser” e como deve se comportar, mas o gênero é em
especial uma construção particular, a partir da qual a pessoa assume uma
maneira de agir, à qual se chama “papel de gênero”; geralmente, se espera
que tal papel acompanhe, em sua atuação, um corpo que lhe corresponda; ou
seja, por exemplo, a um corpo de macho corresponderia um papel masculino.

3.3 Sexualidade

Nós, seres humanos, somos muito mais que nosso corpo e suas
possibilidades para o contato genital; a sexualidade não é determinada
unicamente por nossa corporalidade, já que está ligada ao fato de obter prazer
e este não se obtém, apenas, do intercâmbio genital, portanto, a sexualidade
transcende a esfera da genitalidade e esta não é seu único componente.

A sexualidade envolve: aspectos físicos, porque está relacionada com o
corpo; aspectos emocionais, já que está vinculada com a identidade da pessoa
(o que ela assume de si) e os processos afetivos próprios das relações
interpessoais; além de aspectos sociais, culturais e relacionais que se
adquirem na família, na escola e na vida cotidiana; aspectos ecossistêmicos, já
que se vivencia de uma maneira particular em cada sociedade, espaço (região
geográfica) e tempo; aspectos históricos, haja vista que o que nos é trasmitido
resume o desenvolvimento das sociedades e dos seres humanos que as
constituem.

A sexualidade não é "algo" que aparece com a adolescência; está
presente em todos os momentos de nossa existência, desde que nascemos até
quando morremos. Relaciona-se com o fato de que os humanos são seres
sexuados.

Nós, seres humanos, além de termos um corpo e um sexo, fato comum
com os demais animais, nos diferenciamos destes não só por nossas
possibilidades intelectuais, como também pelo desenvolvimento de nossas
funções emocionais e operativas; estas funções nos possibilitam a tomada de
consciência, a vivência e assunção das emoções que geram o corpo, o sexo, o
gênero, a orientação sexual e as expressões comportamentais sexuais.

As culturas e sociedades determinaram um "dever ser" que expressa um
modelo único de sexualidade; tal modelo é eminentemente heterossexual,
concebe a existência de diferenças baseadas no sexo e no gênero entre as
mulheres e os homens, que determinam relações inequitativas entre os
gêneros e, portanto, maneiras de ser, de se comportar, de se relacionar e,
inclusive, atribuindo capacidades diferenciais intelectuais, produtivas e
emocionais, a partir das quais se pretende perpetuar um modelo linear
positivista da sexualidade.

3.4 Identidade

Cada ser humano se reconhece no cotidiano, no tempo e no espaço, a
partir das vinculações que estabelece em razão de ser ecossistêmico, em
virtude de que existe um intrincado nexo entre os seres humanos e seus
ambientes biofísicos, sociais e econômicos que se reflete no estado de saúde
física e emocional da população.

Em trabalhos anteriores, Velandia (1999) havia proposto que “o
processo de construção do ‘querer ser’ implica uma ruptura entendida como
uma tomada de posição diante do ‘dever ser’”.

Todavia, pode-se afirmar que existem três sistemas de representações
da construção identitária: o primeiro tem a ver com as representações sociais,
a partir das quais se espera que cada ser vivencie a visão “oficial” do mundo –
neste caso, da sexualidade – que se assume no “dever ser”; no segundo, as
representações particulares de quem se identifica consigo mesmo – significado
que tem para cada pessoa o mundo e a sexualidade que quereria
experimentar) em seu “querer ser” –; e, terceiro, as representações que os
seres se vêm obrigados a assumir em seus processos de socialização, e que
se evidenciam no processo de intercâmbio social, no “estar sendo”.

Em consequência, cada pessoa se constrói baseando-se no “dever ser”,
mas, em especial, tendo como referente suas próprias vivências e sentimentos,
ou seja, a partir da consciência de seu “querer ser”, do que considera que quer,
deseja e necessita para si. O “querer ser” prima sobre o “dever ser” na medida
em que reafirma as diversas identidades sexuais.

As pessoas na construção de sua identidade, mesmo quando
reconhecem parte de dito “dever ser”, constroem para si um modelo particular,
um “querer ser”, aquilo que para si desejam e consideram é o que as realizaria
plenamente como pessoas sexuadas. No encontro com o outro ou a outra, a
pessoa deve se decidir entre o “dever ser” e seu “querer ser”, ou seja, que
dadas as tensões próprias de todo encontro e as pressões socioculturais,
estabelece um “estar sendo” a partir de três opções possíveis, transgredindo a
si mesma (a seu “querer ser”), isto é, acomodando-se às necessidades
próprias do contexto; transformando o contexto em função de seu “querer ser”;
ou abandonando tal contexto, aproximando-se de outros em que tal “querer
ser” tem um reconhecimento que não implique exclusão. O “querer ser” não é
uma construção própria das minorias sexuais, senão que toda pessoa vivencia
para si e no aspecto relacional transgressões do “dever ser”, já que o “dever
ser” ajuda a manter a institucionalidade da sexualidade.

Toda relação é um espaço de poder, este pode ser exercido
verticalmente (dominação-dependência), ou horizontalmente (equidade na
tomada de decisões). As relações horizontais partem do reconhecimento do
exercício da particularidade do sujeito, requerem reconhecer que cada um é
único, exclusivo, dinâmico e histórico. Esse dinamismo implica uma mobilidade
permanente do ser, de sua própria maneira de identificar-se e, portanto, em
seu desejo e suas necessidades para o intercâmbio. Daí que os seres
humanos e suas relações não sejam “estáveis”, e sim que variem (são móveis)
em função dos territórios sociais, corporais e relacionais dos/as sujeitos, já que
estão influenciados pelas relações sociais, a cultura e as condições
ecossistêmicas (tempo, espaço e sociedade).

É diferente, (Velandia Mora, 2007) já que as explicações, vivências e
emoções que emergem do reconhecimento de si mesmo e dos demais
determinam não só uma identidade particular (a que a pessoa tem de si
mesma), como também uma identidade social (construída pelos demais sobre
mim) e uma identidade de socialização que se acopla às exigências próprias do
intercâmbio social, do contexto ecossistêmico e cultural relacional.

Em seu processo individual de “querer ser”, os seres humanos podem
reelaborar o desejo e redirecioná-lo. Inclusive, uma vez vivenciado um desejo,
podem pensar no reconhecimento de outro e dar continuidade a seu processo
de construção de identidade. Por exemplo, algumas pessoas na comunidade
em geral e, inclusive, na comunidade científica, consideram que certas práticas
não são adequadas ou podem ser antinaturais ou anormais; aceitam ou negam
esta valorização, de acordo com o que decidiram que querem para si e
costumam considerar que esta decisão é o “dever ser” para todas as demais.

A pessoa tem de si e para si uma identidade particular que se
fundamenta em seu querer ser. As pessoas são reconhecidas em uma
identidade que é construída e identificada desde fora, a partir do “dever ser”,
uma identidade social; ou seja, uma pessoa tem tantas identidades sociais
como pessoas que pretendem identificá-la.

As mútuas e complexas relações entre a sociedade e a natureza,
mediante as quais a primeira modifica o meio para seu próprio
desenvolvimento, como também o meio determina aspectos emocionais e
físicos do ser humano.

Nesse constante “estar sendo” há algo no ser que é fundamental: o que
viveu, é histórico. Cada situação que se experimenta tem como fonte o vivido e
o transcendido. Ainda quando em essência se “está sendo” a pessoa mesma,
geram-se uma série de alterações que transformam a identidade. Por tal razão,
toda mudança é viável a partir das aprendizagens, experiências e emoções
vivenciadas previamente.

As reflexões das pessoas se relacionam com suas experiências de
“estar sendo”, que vinculam, necessariamente, sua vivência do corpo, a
vestimenta, a linguagem ou as relações com os demais; ou seja, a identidade é
dinâmica. Não é algo cuja construção está terminada; ao contrário, se edifica
em relação consigo mesmo, com os demais e com a cultura.

Ressaltando o conceito de mobilidade e a ideia de que o ser se constrói
na cultura, a partir da dinâmica própria dos sistemas, então a identidade pode
se definir como: as ideas e as sensações móveis que o ser humano tem, em
uma sociedade e tempo concretos, de ser o que busca ser com relação à
cultura, a outros seres em seu entorno e consigo mesmo/a e de continuar
sendo-o no transcurso do tempo.

Essa definição explicaria, por um lado, que a identidade é a emergência
de uma construção, nem sempre consciente, que afeta os processos de
socialização do sujeito; e, por outro, que por meio da educação (formal, não
formal e informal) se provê às pessoas os referentes de um “dever ser” da
identidade, baseados na cultura, cuja assunção, em alguns casos, torna
possível a perpetuação da cultura e, em outros, a transformação desta.

Uma das propriedades dos sistemas vivos é sua contextualidade. Para a
compreensão desses sistemas, deve-se passar do entendimento de seus
elementos de maneira simplificada, isolados e desligados uns dos outros, para
percebê-los como produtos, produtores e transformadores dos contextos nos
quais estão imersos e, por tal razão, da cultura. Os sistemas não podem ser
compreendidos por um método que isole, desligue, simplifique e busque
causas únicas, já que existem em uma complexa trama de inter-relações que
os determinam. No caso dos sistemas vivos, estes existem graças a essas
relações com o meio, ao que se denomina “acoplamento estrutural com o
meio”. Em consequência, a identidade deve ser entendida contextualmente, e,
quem deseje comprendê-la, deve reconhecer que sua explicação e vivência
estão influenciadas por seu próprio contexto, como também por aquilo que tem
capacidade de observar ou distinguir. (Velandia Mora, 2007)

Wade (2002) considera que as identidades se estabelecem por meio de
repetidos atos de representação, de identificação, e que as diferenças que
constroem a identidade têm que ser marcadas, observadas e indicadas pelos
sujeitos em sua vida cotidiana. Em consequência, a identidade volta a se
estabelecer ou reforçar com cada identificação.

A cultura e a sociedade fabricam as ideias daquilo que a pessoa “deve
ser”, com o fim de reproduzir a ordem social, e, a partir deste padrão de
oposição binária, tomam forma nas pessoas as práticas, ideias, discursos e
representações sociais pelos quais são reconhecidas ou estigmatizadas. Na
aproximação contextual, o sujeito deve pensar em si mesmo a partir do olhar
externo (Asier, 2000). O sujeito constrói para si, a partir do que lhe tenham dito
ou tenha entendido que “deve ser”, uma identidade, uma maneira de se
compreender, um “querer ser” que sempre terá como referente o “dever ser”,
para aceitá-lo ou negá-lo parcial ou totalmente.

As pessoas, neste caso as mulheres não biológicas, não vivem o “dever
ser” em seus processos de socialização, como tampouco seu “querer ser”,
dado que as representações sociais e culturais, além da troca de olhares
(familiares, escolares, eclesiásticos), afetam sua própria construção e seus
processos de socialização. Como resposta ao acoplamento estrutural com o
meio, em suas inter-relações a pessoa trai a si mesma, trai seu “querer ser” por
efeito da pressão social e de acordo com suas próprias necessidades de fazer-
se visível ou “invisível”. Da mesma maneira, assumem uma identidade que se
mobiliza de acordo com o tipo de relações sociais relativas a uma cultura e
sociedade específicas. A identidade é móvel porque “está sendo”
ecossistêmica e culturalmente; pode ser entendida como a mistura entre aquilo
que se espera que as pessoas sejam e o que elas mesmas desejam ser,
composição e experiência que se denomina identidade de socialização.

Esse “estar sendo” é o produto das relações simbólicas entre o “dever
ser” e o “querer ser” – ou, mais concretamente, entre a cultura e a sociedade –
e aquilo que a pessoa identifica de si e para si mesma. As diversas identidades
são o efeito da representação particular do mundo e de si mesmo, isto é, o
individual.

O entorno e as situações em que as pessoas se inter-relacionam com as
demais que frequentam tal entorno influem no tipo de construções identitárias
que todas e cada uma produzem. Entretanto, deve-se evidenciar que o ser
humano, diferentemente dos outros seres vivos, além de agir em congruência
com o meio e a sociedade (contexto) a partir de suas representações (o
situacional), deve agir em congruência consigo mesmo.

Só pode-se garantir a possibilidade do exercício dos direitos no âmbito
da sexualidade quando os atores envolvidos na situação de intercâmbio social,
cultural, político, econômico, como também genital, erótico ou sexual têm o
mesmo poder de decisão e, ao mesmo tempo, podem manifestar suas
diferenças vitais diante do outro ou da outra. Não é possível escolher se não se
tem uma identidade, já que sem identidade não há relação, porque toda
relação implica um reconhecimento de si e do outro. Todo indivíduo se
autorreconhece no exercício de seus direitos à medida que toma consciência,
vivencia e assume emocionalmente que é pessoa (soar através de)4, cidadão

4
N.deT.: pessoa: origem no verbo personare, que significa soar através de.
em exercício e tem a possibilidade de escolher suas vivências, ou seja, é
sujeito de direitos.

Cada pessoa, por sua história particular, veio configurando um sistema
cognitivo que a leva a perceber, distinguir e significar de maneira distinta e
única, daí sua necessidade de agir em congruência consigo mesma e a partir
dessa realidade que construiu para si.

Os seres humanos e os seres vivos em geral não podem distinguir na
experiência entre o que chamamos ilusão e percepção como afirmações
cognitivas sobre a realidade. Essa asseveração leva a pensar que a identidade
não é um fato real, e sim uma ilusão porque, ao usar a linguagem (um gerador
de mundos) para entendê-la, o que cada um entende como identidade própria
ou a do outro é tão somente seu próprio relato cognitivo ou, mais exatamente,
o que consegue distinguir do que o outro ou a outra lhe relata de si.

A identidade é ilusão, pois, se compreendemos que a realidade se
constrói a partir de uma ontologia e sabemos que esta não necessariamente
tem que ser objetiva, mas sim que é constitutiva, então compreenderemos que
o critério de validade da realidade do outro ou da outra se dá a partir da
efetividade que possa ter para ele, observador(a), e das condições em que
este(a) observador(a) vê ou escuta.

Uma pessoa se relaciona com muitas mais, e cada uma delas tem seus
próprios domínios explicativos. Poderia afirmar-se, então, que há sobre uma
pessoa ou um fato tantos domínios explicativos como pessoas que pretendem
explicá-lo; portanto, quem interage são os geradores de diversas realidades
que se podem considerar legítimas e necessariamente diferentes por serem
particulares.

As identidades sociais de alguém se possibilitam na construção de
acordos ou, mais concretamente, na possibilidade de aceitar diferentes
realidades e validar distintas explicações com respeito a tal pessoa.

O enfoque sistêmico entende o ser humano e a sociedade como
sistemas, e as identidades como emergências sistêmicas. Dadas as
propriedades dos sistemas vivos (Velandia, 2003), pode-se concluir que os
enfoques contextual e situacional são complementares, inter-relacionados,
interafetados e interdependentes; e que, além disso, na construção da
identidade, o encontro consigo mesmo exerce um papel fundamental, pois a
partir deste se constroem as representações e se valida o contexto.

As identidades sexuais podem ser de gênero, de corpo, de sexo, de
orientação sexual e de expressões comportamentais sexuais.1 No caso dos
travestis e transexuais, soma-se a identidade da vestimenta e, nas que são
trabalhadoras sexuais, sua identidade como tais. Como afirma Peter Wade
(2002), as identidades podem entrar em conflito, cobram seu significado a partir
de diversas redes e de sua interação, e os valores que se atribuem a uma
identidade determinada incidem na maneira como se reclama ou se configura
esta identidade.

Os seres humanos, em especial os que vivem sexualidades não oficiais,
costumam ver-se obrigados a se definir em sua identidade a partir de seus
domínios explicativos, mas também se veem afetados em tais definições pela
pressão externa exercida por representantes do poder, sejam estes
profissionais da saúde ou representantes da autoridade legal ou ilegalmente
constituída e, inclusive, pelas organizações que com elas/eles trabalham e
demais membros da comunidade. Nessas redes de intercâmbio, determinados
valores mobilizam a construção da identidade ou a negam.

O reconhecimento social das diversidades sexuais não oficiais
usualmente se manifesta como agressão, exclusão e separação social ou
familiar, e, por outra parte, no contato com outras mulheres não biológicas,
membros de minorias sexuais e por pessoas que modificaram seu discurso em
direção a outro mais includente das diversidades, formas de
heterorreconhecimento que aumentam, por sua vez, seu próprio
autorreconhecimento. Esse reconhecer-se é feito por meio dos relatos que
cada observador constrói sobre si mesmo e sobre os demais.

Para Velandia (2004), não se tem uma identidade como algo construído
e terminado, pois se está sendo e fazendo uma identidade de maneira
dinâmica em relação consigo mesmo(a), com os/as demais e com a cultura, a
partir de como a pessoa experimenta a si mesma; e em relação com as
demais, explica tal situação e se emociona com ela.
Para esse autor, a mobilidade da identidade, sistemicamente falando,
faz referência à possibilidade que existe de que a identidade se modifique no
tempo, a partir das relações sociais e por interinfluência com o meio, a cultura e
a sociedade.

Velandia considera que se pode entender a identidade como a
emergência de uma construção, nem sempre consciente, que afeta os
processos de socialização do sujeito. Para esse autor, a identidade emerge da
vida cotidiana, mais especificamente da socialização que provê às pessoas os
referentes do “dever ser” da identidade. Esses referentes estão baseados na
cultura, são próprios de uma sociedade e tempo determinados, e estão
afetados pelos processos de inter-relação e interdependência do indivíduo.

A situação e o entorno em que as pessoas se inter-relacionam têm uma
série de características que influem no tipo de construções identitárias que
produzem entre todas e cada uma. A sociedade e a cultura como sistemas têm
resistência à mudança. Suas redes elásticas, por um lado, possibilitam que os
seres que constituem o sistema façam mudanças em sua estrutura, em seu
“querer ser”; por outro, pressionam para que as pessoas tendam a regressar à
estrutura original (dever ser). Na prática, nos processos de socialização as
pessoas se veem obrigadas a se afastar de seu “querer ser” para se acomodar
estruturalmente ao sistema, assumindo um comportamento, um “estar sendo”
que se pode explicar como uma acomodação ao macrossistema.

O ser humano é integral. Daí deriva a importância de reconhecer as
variações que emergem de suas propriedades como sistema. A pessoa não
tem uma identidade, senão diversas identidades particulares, sociais e de
socialização em relação com seu sexo, seu corpo, seu gênero, sua orientação
sexual e suas expressões comportamentais sexuais.

A identidade sexual não é fixa, e sim móvel, posto que, ao modificar o
significante e/ou o significado com relação ao corpo, ao sexo e/ou ao gênero,
igualmente a identidade se transforma. A mobilidade da identidade,
sistemicamente falando, faz referência à possibilidade que existe de que a
identidade se modifique no tempo, a partir das relações sociais e por
interinfluência, inter-relação e interdependência com o meio, a cultura e a
sociedade.
Toda pessoa tem um processo de construção identitária com relação a
seu sexo, corpo, seu gênero e sua orientação sexual (Velandia, 2005). Quando
um bebê nasce, os pais e a equipe de saúde ou a parteira (a quem
chamaremos “o outro”) lhe atribuem um sexo e um gênero. Se tem um pênis, “o
outro” assume tal referência como o significante e lhe confere um significado: é
macho e masculino; se possui uma vulva, então lhe atribui ser fêmea e
feminina. A esse processo de atribuição a partir de um “significante”
denominaremos “dar um significado”.

Com os desenvolvimentos sociais e culturais e as relações
interpessoais, a pessoa se constrói homem ou mulher, mas nem sempre é
assim. Alguns bebês, ao nascer, apresentam certas alterações nos genitais
externos e internos, em sua morfologia corporal, que aos olhos da sociedade
lhes outorga um nível de ambiguidade no significante (intersexualidade) que
dificulta aos olhos do observador (o outro) dar um significado e, em
consequência, a “atribuição de um sexo”; porque entende que alguns
componentes do sexo biológico não concordam com o que conhece como
especialista. Espera-se que a um sexo designado corresponda o gênero
respectivo, e, em consequência, ao fazer uma atribuição de um sexo, assume-
se um “gênero por atribuição”.

As pessoas começam sua construção identitária sendo bebês, aos
quais “outro” lhes dá um “significado”; ao que cada um/a (pai, mãe e a
pessoa mesma, ao estar em condições de fazê-lo) dá seu consentimento ou
não, aceita-o ou não e lhe provê seu próprio e particular “significado”. As
pessoas podem transformar o significado que dão a seus significantes
particulares com o passar do tempo, porém, além disso, têm a possibilidade de
transformar os mesmos significantes; mesmo quando nem sempre é assim, os
clássicos critérios biológicos, que são amiúde arbitrários e insuficientes, e o
estigma patriarcal de gênero, se entrecruzam e determinam intervenções
cirúrgicas prematuras e apressadas que não respeitam a relação mais
essencial que cada ser humano tem com seu próprio corpo, com sua própria
identidade de gênero e sua orientação sexual.
3.5 Identidade sexual

Define-se como o sentimento de pertencimento a um sexo. Não se deve
confundir a identidade sexual (percepção de si mesmo como homem, mulher
ou intersexual), com a identidade de orientação sexual. Algumas teorias
apontam que a identidade sexual é inata e permanente, embora a maioria dos
estudos e teorias mais recentes indique a influência de distintos fatores, tais
como: a herança genética (pesquisada por Simon Le Vay, entre outros), as
experiências durante a infância e adolescência, os processos relacionais, a
cultura e a vivência do corpo, o sexo e o gênero.

3.5.1 Identidade de gênero
O gênero é uma noção, uma construção social e cultural sobre o que
“deve ser” e como uma pessoa deve se comportar, mas o gênero é,
sobretudo, uma construção particular baseada em uma construção cultural
aprendida socialmente e ensinada ao indivíduo em função de significados que
dão a seu gênero. A partir de seu gênero, a pessoa vivencia um “papel de
gênero”, entendido como uma maneira de agir que corresponde a um conjunto
de condutas, atitudes, práticas, comportamentos e valores que a sociedade
estabelece como apropriados e correspondentes a cada gênero e que
transmite e espera que o indivíduo adote e torne próprios. Geralmente, espera-
se que esse papel acompanhe o corpo que “corresponde” a tal gênero; ou seja,
por exemplo, a um corpo de macho corresponderia um papel masculino.

Trânsito identitário de gênero
Algumas pessoas podem experimentar uma situação que em psiquiatria
se denomina “disforia de gênero” (CIE-10, 1992) e que aqui denominamos
“Trânsito identitário de gênero”. Nelas seu papel, seu agir, a performance do
gênero não está em consonância com seu corpo: assumem uma performance
feminina apesar de que seu corpo é ou foi designado masculino, ou uma
performance masculina mesmo quando seu corpo é ou tenha sido designado
de fêmea. Nesse caso, podemos dizer que a pessoa abandonou seu “gênero
por atribuição” e assumiu um “gênero por opção”.
Nem todas as pessoas assumem e vivenciam um papel de gênero
diferente de seu “gênero por atribuição”. Na Colômbia, denomina-se
“transgeneristas” a quem assume um “gênero por opção” e, no resto do
mundo, “transgêneros”. As pessoas transgêneros acompanham o papel de
gênero optado com os acessórios, vestimentas e maquiagens (quando isso se
considera culturalmente necessário) próprios do gênero para o qual
“transitaram”. Podem se apresentar, então, pessoas que vivenciam um
“trânsito identitário da masculinidade à feminilidade” (Velandia, 2006) e
outras que experimentam um “trânsito identitário da feminilidade à
masculinidade”.

Denominam-se “travestis” aos homens biológicos que assumem por
momentos ou permanentemente os acessórios, vestimentas e maquiagens
próprios do gênero feminino, vivenciam-no como uma expresão
comportamental sexual que lhes dá prazer, experimentam-no como parte de
sua identidade sexual, porém, não assumem o gênero feminino como sua
opção. Costuma-se crer que todos/as os/as travestis são homossexuais, mas o
número de travestis heterossexuais é proporcionalmente maior. Deve-se dizer
a travesti se a pessoa que vivencia esta expressão comportamental sexual
assume uma identidade feminina e o travesti se a pessoa assume uma
identidade de gênero masculina.

Sexologicamente falando, não há um nome para denominar as mulheres
que assumem os acessórios e vestimentas masculinos; isso se deve a que o
poder da masculinidade é tal, que se considera social e culturalmente aceitável
que toda mulher aspire e assuma certos elementos representativos da imagem
de quem ostenta o poder: o macho, masculino, machista e falocrático.
Entretanto, mesmo que nos manuais de sexologia não se utilize isso, em
alguns países, como Espanha, alguns sexólogos e organizações utilizam o
termo travesti também para as mulheres.

Não é travesti a pessoa transgênero que transitou identitariamente da
masculinidade à feminilidade (ou da feminilidade à masculinidade) porque as
prendas e acessórios utilizados são próprios do gênero optado. Nem todo/a
travesti é transgênero.
3.6 Transexualidade

Uma mulher transexual é aquela pessoa que pertence psiquicamente
ao gênero feminino, que é seu gênero optado, apesar de haver nascido com
anatomia de macho.

Um homem transexual é aquela pessoa que pertence psiquicamente
ao gênero masculino, que é seu gênero optado, apesar de haver nascido com
anatomia de fêmea.

Uma pessoa transexual não deseja as características do sexo com o
qual nasceu, e sim lhe apetece um corpo que esteja de acordo com seu gênero
optado. Se é transexual, é provável que a pessoa aproxime seu corpo
cirurgicamente e/ou com aplicação de hormônios ao corpo desejado, ou
apenas o faça com truques de maquiagem, enchimentos, acessórios,
implementos e/ou vestimentas.

Na transexualidade, a orientação sexual pode ser – igual à população
não transexual – heterossexual, homossexual, lésbica, bissexual ou assexual.
Existem todas as combinações possíveis quanto ao desejo, à atração erótica, à
afetividade e à genitalidade e, por isso, é factível a combinação dupla de
transexualidade e lesbianidade para as mulheres não biológicas.

3.7 Orientação sexual

A orientação sexual expressa a atração emocional, intelectual, física e
sexual que uma pessoa sente por outra em relação ao gênero e ao sexo do par
envolvido na atividade sexual. A orientação sexual se expressa no erotismo, na
afetividade, na genitalidade ou na forma de comportamentos, pensamentos,
fantasias e/ou desejos sexuais, ou em uma combinação de todas as anteriores.

3.7.1 Identidade de orientação sexual

A identidade de orientação sexual se refere à consciência da vivência
desta. Nem todas as pessoas possuem tal consciência identitária e é por isso
que, em certas estratégias preventivas da AIDS e das doenças sexualmente
transmissíveis (DST), utiliza-se o conceito de HSH (Homens que fazem sexo
com homens), para se referir a homens que têm uma identidade de orientação
sexual heterossexual, mas uma vivência bigenital.

3.7.2 Homossexualidades

O termo homossexual foi empregado pela primeira vez em 1869, por
Karl-Maria Kertbeny19 em um panfleto anônimo que apoiava a revogação das
leis contra a sodomia na Prússia, mas foi o livro Psychopathia Sexualis, de
Richard Freiherr von Krafft-Ebing, que popularizou o conceito em 1886.

A despatologização e despenalização da homossexualidade abrem o
caminho para a despatologização das demais orientações sexuais, visto que
quase em nenhuma lei se penaliza a lesbianidade ou a bissexualidade.
Favorece, igualmente, o avanço na direção da despatologização da
transexualidade. A ILGA – Associação Internacional de Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Trans e Intersexo – em seu informe Homofobia de Estado, em maio
de 2011, informa que não se registram novas “adições” no grupo infame dos 76
países (incluindo os 5 que têm a pena de morte) que penalizam a
homossexualidade e que, tampouco, foram registradas "diminuições". Em
Malawi, o Presidente Bing Wa Mutharika, inclusive, considerou necessário
confirmar sua postura diante dos casais do mesmo sexo, fazendo que o Código
Penal criminalize também as "práticas indecentes entre as mulheres."20

A Associação Americana de Psiquiatria (APA), de maneira unânime,
votou pela retirada da homossexualidade, como transtorno, da seção Desvios
sexuais, da segunda edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos
Transtornos Mentais (o DSM-II) em 1973. Essa decisão se confirmou em 1974
e foi substituída pela categoria "perturbações na orientação sexual"; no DSM-
III, foi trocada pelo termo homossexualidade egodistônica; eliminou-se na
revisão desta mesma edição (DSM-III-R) em 1986. A APA considera que as
tentativas de modificação da orientação sexual homoerótica não são
procedimentos profissionalmente éticos.
Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS)
excluiu a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de
Doenças e outros Problemas de Saúde.

No Brasil, a homossexualidade foi retirada da relação de doenças pelo
Conselho Federal de Medicina em 1985 e o Conselho Federal de Psicologia,
por sua parte, determinou, em 1999, que nenhum profissional pode exercer
“ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas
homoeróticas”.21

Contudo, nem sempre a despatologização da homossexualidade é de
ordem psiquiátrica ou psicológica; na Colômbia (Velandia, 1999), o processo na
busca da aceitação e da tolerância dos homossexuais tem um primeiro e
substancial “avanço” com a reforma do Código Penal vigente desde 1936 (no
qual a homossexualidade deixa de ser delito para ser considerada como uma
"doença"). Em 1982, com a reforma do Código Penal de 1936, foram
despenalizadas as atividades homossexuais entre maiores de 14 anos
(desapareceram os Arts. 323 e 329 que as condenavam).

Velandia (2007)22 evidencia a necessidade de redefinir as orientações
sexuais, partindo do reconhecimento dos trânsitos identitários de gênero e
corpo e envolvendo-os em sua definição, é assim que propõe as definições de
orientações sexuais que se apresentam a seguir.

Define-se a orientação sexual homossexual como a de um homem
(biológico, optado ou transformado) que orienta seus desejos, afetos,
genitalidade e eroticidade a outro(s) homem(s) biológicos, optados ou
transformados e à consciência particular que faz de tal identidade. Cada
pessoa vivencia suas relações de uma maneira única e particular, portanto, não
se pode afirmar que haja uma homossexualidade, e sim que há tantas
homossexualidades como homens que se identificam homossexuais.

3.7.3 Heterossexualidades
Define-se a orientação sexual heterossexual como a de uma pessoa
(biológica, optada ou transformada) que orienta seus desejos, afetos,
genitalidade e eroticidade unicamente para outra do outro sexo, seja este
biológico, optado ou transformado e à consciência particular que faz de tal
identidade. Cada pessoa vivencia suas relações de uma maneira única e
particular, portanto, não se pode afirmar que haja uma heterossexualidade, e
sim que há tantas heterossexualidades como pessoas que se identificam
heterossexuais.

3.7.4 Bissexualidades

A orientação sexual bissexual é a de um homem ou uma mulher
(biológico/a, optado/a ou transformado/a) que orienta seus desejos, afetos,
genitalidade e eroticidade para outros homens e mulheres biológicos/as,
optados/as ou transformados/as, e também à consciência particular que faz de
tal identidade. Cada pessoa vivencia suas relações de uma maneira única e
particular, portanto, não se pode afirmar que haja uma bissexualidade, e sim
que há tantas bissexualidades como homens e mulheres que se identificam
bissexuais.

3.7.5 Lesbianidades

Denomina-se orientação sexual lesbiana ou lésbica à de uma mulher
(biológica, optada ou transformada) que orienta seus desejos, afetos,
genitalidade e eroticidade para outra mulher biológica, optada ou transformada
e à consciência particular que faz de tal identidade. Cada mulher vivencia suas
relações de uma maneira única e particular, portanto, não se pode afirmar que
haja uma lesbianidade, e sim que há tantas lesbianidades como pessoas que
se identificam lésbicas.

3.7.6 Homens que fazem sexo com outros homens
Identificados com a sigla HSH, esta se utiliza para se referir a homens
que, sendo bidesejantes, bieróticos, bigenitais e/ou, inclusive, biafetivos, têm
uma identidade de orientação sexual heterossexual, mesmo quando têm
relações genitais com outros homens.

Pode-se afirmar, então, que alguns homens possuem uma identidade de
orientação sexual não coincidente com a vivência de seu desejo, erotismo,
afetividade ou genitalidade. Nesse sentido, é possível ser, por exemplo, um
homem bigenital, heteroafetivo, heteroerótico e bidesejante e ter uma
identidade heterossexual.

3.7.7 Mulheres que fazem sexo com outras mulheres

Mesmo quando deveriam ser identificadas como mulheres que fazem
sexo com mulheres e com a sigla MHM, a misoginia e o sexismo imperantes
em nossa cultura desconhece as sexualidades femininas e, por esta razão,
pouco se reconhece ou se utiliza este conceito para se referir a mulheres que,
sendo bidesejantes, bieróticas, bigenitais e/ou, inclusive, biafetivas, têm uma
identidade de orientação sexual heterossexual, ainda que tenham relações
genitais com outras mulheres.

Pode-se afirmar, então, que algumas mulheres possuem uma identidade
de orientação sexual não coincidente com a vivência de seu desejo, erotismo,
afetividade ou genitalidade. Nesse sentido, elas podem ser, por exemplo,
bigenitais, heteroafetivas, heteroeróticas e bidesejantes e ter uma identidade
heterossexual.

3.8 Trabalho sexual

Segundo a vigésima segunda edição do Dicionário da Língua Espanhola
– DEL, a palavra “prostituição” se origina no latim “prostitutĭo, -ōnis”. É um
substantivo feminino que faz referência à “ação e efeito de prostituir” ou à
“atividade à qual se dedica quem mantém relações sexuais com outras
pessoas, em troca de dinheiro”.
O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP) define
“prostituição” como “atividade de quem obtém lucro através da oferta de
serviços sexuais”. Esse dicionário, igualmente, o analisa como um substantivo
feminino.

Durante séculos se chamou "prostituição" à prática das mulheres, de
intercambiar relações sexuais por dinheiro como forma básica de sustento.
Definição que é a que atualmente apresenta o DEL. É evidente que esse
dicionário revela uma posição sexista e machista ao assumir a atividade como
exclusiva das mulheres, esquecendo que cada vez é maior o número de
homens que a realizam.

A prostituição é tão somente uma das formas pelas quais homens e
mulheres, meninos, meninas, adolescentes e adultos são explorados
sexualmente, em tal sentido o termo não abarca todas as modalidades e faz-se
necessário definir conceitos mais includentes e menos pejorativos como
representação particular e social.

Há alguns anos criou-se o termo "trabalhadores sexuais", que buscava
proporcionar certo status a este ofício e para que aquelas(es) a quem
denominaram despectivamente "as(os) prostituídas(os)" pudessem ter acesso
aos direitos e prerrogativas das demais trabalhadoras(es), para eliminar toda
conotação pejorativa e, em especial, para ampliar o âmbito de domínio das
possibilidades de análise das violências sexuais.

Informa Velandia (2009)23 que, na Segunda Conferência Pan-americana
de AIDS, realizada em Santo Domingo, República Dominicana, em dezembro
de 1989, durante o painel "Como alcançar os indivíduos", um grupo de
profissionais recomendou a utilização, nos diferentes países participantes do
evento, do termo “trabalho sexual”, para se referir de uma maneira não
pejorativa às pessoas vinculadas à prostituição, quando se fala desta forma de
produção específica e de quem a exerce, e evitar, assim, que surjam em quem
pesquisa, escreve e lê a respeito, juízos de caráter moral que afetem a
interpretação da informação.

O “trabalho sexual” é uma atividade produtiva, em condições
equiparáveis às de outras formas de produção. Entretanto, nesse caso, a
pessoa é considerada como o objeto – mercadoria. O que se vende não é
somente um contato físico-genital, mas também, neste intercâmbio,
compromete-se a identidade particular e psicossocial de quem faz parte da
negociação e sua integridade emocional e corporal.

Nessa forma de intercâmbio econômico, a oferta e a demanda giram em
torno do corpo: suas possibilidades para o exercício genital, o qual pode estar
ou não acompanhado de intercâmbios eróticos e simulações afetivas; para ser
exibido como objeto sexual como, por exemplo, na pornografia; ou a
possibilidade de ser transportado(a) consciente ou inconscientemente a outro
lugar para atividades sexuais comerciais (turismo sexual). Um ato se refere a
um encontro e, segundo a negociação, pode-se contratar um ou mais atos e,
em cada ato, uma ou mais práticas. As práticas têm a ver com os gostos,
pedidos e exigências do cliente, como jogos eróticos, posições nas relações
genitais, relações não genitais, como massagens eróticas, exibicionismo,
práticas voyeuristas, etc.

Cabe esclarecer que o trabalho sexual não inclui a possibilidade de que
a pessoa seja “tratada” com fins sexuais, já que esta modalidade é outra forma
de exploração.

Historicamente, o trabalho sexual se abriga nos lugares onde se
apresenta desenvolvimento econômico e social. Expande-se em relação direta
com o crescimento da população, o desenvolvimento das vias de comunicação
e de outras atividades que indicam mobilização da população, como a
industrialização da agricultura, a criação de meios massivos de comunicação e
a abertura de novas formas de produção e emprego.

Existem outros fenômenos que se relacionam com o aumento do
trabalho sexual, como as colonizações rápidas, as bonanças de produtos
agrícolas e mineiros, a proliferação de cultivos ilícitos e a difusão do consumo
de substâncias psicoativas.

Alguns compradores dos serviços – homens ou mulheres – de quem
trabalha sexualmente se tornam visitantes assíduos(as) ou "permanentes" e
não necessariamente têm contatos genitais com os(as) trabalhadores(as)
sexuais. A essência do trabalho sexual está igualmente na venda de um
espaço de tempo de quem oferta o serviço. Isso quer dizer que o/a
comprador(a) pode fazer uso de seu "direito" de ter um contato genital pelo
dinheiro que paga ou optar por não tê-lo e, em todo caso, está obrigado a
cancelar o acordado. Por isso se diz, coloquialmente, que muitas vezes os(as)
compradores vão à "terapia", para conversar e não necessariamente têm
contatos de tipo erótico ou genital.

Quanto ao pagamento ou estipêndio, no trabalho sexual, a
contraprestação pode ser em dinheiro, em espécie, e inclusive de outro tipo,
como droga ou diferentes prebendas que, em última instância, são
consideradas benéficas por quem presta o serviço.

Considera-se trabalhador(a) sexual à pessoa, homem ou mulher, maior
de idade, que de uma forma mais ou menos permanente oferta sua expressão
genital, e suas habilidades eróticas ou de simulação afetiva a outras pessoas
de igual ou diferente sexo, em troca de uma recompensa.

Essa definição de trabalhador(a) sexual supõe que quem recebe a
proposta e a aceita tem plena consciência do tipo de negociação que está
realizando. A pessoa se encontra conforme com essa modalidade de produção
e não está interessada em modificá-la, ou seja, possui uma identidade de
ofício.

A atividade do mercado sexual (compra e venda de serviços) se
apresenta em todas as classes sociais, mesmo quando as mulheres e os
homens que se situam na classe social denominada classe alta e as pessoas
que são seus compradores(as) são muito mais reservados(as) que nos outros
setores de classe.

O(a) trabalhador(a) sexual tem com seu trabalho mais ou menos a
mesma relação que qualquer outro(a) trabalhador(a) tem com seu ofício. Em
termos gerais, seu trabalho lhes agrada, avaliam como justo o pagamento e o
consideram uma boa alternativa econômica de subsistência. Ao contrário do
que pensam alguns membros de programas de reabilitação, o(a) trabalhador(a)
sexual não considera que necessite de ajuda, que deva mudar sua forma de
produção ou que esteja fazendo algo ruim, já que o trabalho sexual entre
adultos, exercido de forma autônoma e independente, não é ilegal na
Colômbia.

A denominação "trabalhador sexual" ou "trabalhadora sexual", embora
seja menos pejorativa que "prostituta" ou "prostituto", adquiriu uma conotação
social negativa e, em todo caso, na prática situa quem exerce este ofício em
um escalão inferior aos(às) demais trabalhadores(as) dentro da escala social,
produtiva e laboral; todavia, o termo costuma se associar, unicamente, à
prostituição e não a outras possibilidades do trabalho sexual, como a
pornografia e o turismo sexual.

3.8.1 Trabalhador(a) sexual

Em 2000, Velandia24 propôs definir trabalhador/a sexual como um
homem ou uma mulher maior de idade que, no exercício de sua atividade
laboral, de forma mais ou menos permanente e de maneira consciente oferta
sua genitalidade ou suas habilidades eróticas a outras pessoas de igual ou de
diferente sexo, em troca de uma recompensa econômica ou em prebendas,
buscando com isso satisfazer suas necessidades básicas e/ou as de sua
família, diante da impossibilidade de obter um emprego. Essas pessoas nem
sempre têm identidade de ofício (têm uma relação com seu ofício que não
difere da de qualquer outro trabalhador, ou seja, nem sempre lhes agrada o
que fazem, avaliam como justo o pagamento que recebem em troca ou o
consideram como uma alternativa aceitável ou adequada de subsistência).

É necessário partir da consideração de que o exercício do trabalho
sexual implica à mulher trabalhadora sexual, ou ao homem em circunstâncias
similares, relacionar-se com os usuários de seus serviços, em uma relação
comercial em que ela se assume como mercadoria, mas que, por sua vez, é a
fonte de renda com a qual pretende alcançar um nível de vida apropriado e em
uma atividade laboral em que o tipo de serviço que se presta, muitas vezes,
constitui-se em obstáculo para a manutenção de sua saúde.

Uma distinção importante para o uso da definição de trabalho sexual é
que não se deve fazer referência indiscriminada a trabalho como sinônimo de
ofício, e sim referir-se exclusivamente a trabalho e não a ofício, já que se
considera que um ofício é uma atividade produtiva, que se exerce para obter
uma remuneração e cujo exercício produz desfrute na pessoa que a executa,
na medida em que sente e assume que tal atividade laboral está orientada por
seus princípios e de acordo com seu projeto de vida. O trabalho, ao contrário, é
uma atividade que não é considerada gratificante pelo/pela trabalhador(a), já
que seu exercício não incorpora as características assinaladas anteriormente
como próprias da definição de atividade. Será usado o conceito de trabalho
mesmo quando para algumas mulheres sua atividade laboral seja um ofício.

Existem algumas diferenças sociológicas dentro do amplo grupo de
mulheres que se denominam “trabalhadoras sexuais”; assim mesmo existem
diferenças no uso que se dá à categoria trabalhadora sexual, já que, se a
pessoa é menor de idade, não se considera trabalhadora sexual, e sim “menor
em exploração sexual comercial”.

3.8.2 Exploração sexual comercial

Como se abusa da situação de indefensabilidade, da carência de
oportunidades e da dificuldade para optar livre e autonomamente que têm os
meninos, meninas e adolescentes, é determinante definir quando há
exploração, abuso ou violência sexual. Para conseguir uma compreensão a
esse respeito, Velandia (2005/2009) propõe analisar uma série de conceitos:

Violência, no DLE, é “aplicar meios violentos a coisas ou pessoas para
vencer sua resistência, sua repugnância para fazer algo”. No DPLP, violência é
“constrangimento exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a fazer um ato
qualquer”.

Quando se fala de violência sexual, entende-se que é uma situação em
que há um atentado à integridade e dignidade humana, no qual estão
presentes relações de poder desequilibradas entre um(a) agressor(a) –
vulnerador(a) e uma vítima, neste caso, um menino, menina ou adolescente.
O(a) agressor(a)-vulnerador(a) não necessariamente é uma pessoa
considerada legalmente maior de idade, também pode ser outra menina,
menino ou adolescente.
Toda violência sexual é uma vulneração dos direitos das meninas,
meninos e adolescentes, em que se atenta contra a dignidade ao tratar estes e
aquelas como objetos sexuais, mercadorias, coisas e não como pessoas.

No interior da violência sexual de meninos, meninas ou adolescentes,
apresenta-se tanto o abuso sexual como a exploração sexual. 25

O abuso sexual é qualquer conduta de um adulto ou outro(a) menino,
menina ou adolescente para com uma pessoa cuja idade é menor, com a
intenção de estimular sexualmente a pessoa agressora-vulneradora. Esse
abuso pode ser tanto com contato físico (masturbação, tocamento ou
esfregação do corpo ou, especificamente, dos genitais, beijos, sexo oral,
penetração vaginal ou anal) como sem ele (fustigação, assédio verbal, exibição
dos genitais por parte da pessoa adulta, mostrar imagens de vídeo, fotografias
ou revistas sexualmente explícitas).

O abuso nem sempre implica violência física, em algumas ocasiões
os(as) vulneradores(as) se aproveitam dos vínculos afetivos e emocionais para
exercer formas sutis de pressão, como a chantagem, a ameaça, o suborno ou
a manipulação; em outras ocasiões, aproveita-se a relação de autoridade e
confiança para ter acesso ao corpo ou a partes dele na pessoa vulnerada.

O conceito “exploração”, segundo o DLE, se entende como “ação e
efeito de explorar”. Nesse mesmo dicionário, “explorar” faz referência a “utilizar
em proveito próprio, em geral de um modo abusivo, as qualidades ou
sentimentos de uma pessoa, de um acontecimento ou de uma circunstância
qualquer”, tal exploração pode estar relacionada com a sexualidade. O DPLP
define “exploração” como o “abuso da boa-fé, da situação precária, da
ignorância (de alguém, para auferir interesses)” e também como a “tentativa de
tirar proveito ou utilidade de alguma coisa (a boa ou má parte)”.

No caso dos meninos, meninas e adolescentes, a exploração sexual é,
além disso, uma forma de violência e maus-tratos.26

Com respeito à ideia de que a exploração sexual pode chegar a ser
comercial, considera a Fundação Renascer, com sede na Colômbia, que “se
diz comercial porque implica, em todos os casos, uma transação de caráter
econômico; se estabelece um intercâmbio entre uma pessoa adulta (cliente-
abusador) e o menino(a) ou uma terceira ou terceiras pessoas que, direta ou
indiretamente, lucram ou se beneficiam de tal transação; aqui prima o interesse
comercial, a busca de ganhos, a conversão do menino(a) em uma mercadoria,
em um objeto com valor de troca”.

O DEL define, em uma das acepções da palavra “comércio”, como a
“comunicação e trato secreto, na maioria das vezes ilícito, entre duas pessoas
de sexo diferente”. Para o “comércio”, em português, se define como “compra,
troca ou venda de mercadorias, produtos, valores, etc.” Como se observa em
português, a palavra comércio não tem a mesma conotação em espanhol.

É evidente que, a partir do nosso conhecimento e experiência, o
“comércio sexual” não só se realiza entre pessoas de sexo diferente, como
também ocorre entre pessoas do mesmo sexo. No dicionário citado,
igualmente, pode-se entender “comércio” como a “negociação que se faz
comprando e vendendo ou permutando gêneros ou mercadorias”.

Unindo as duas acepções, neste caso, a mercadoria se relaciona com a
sexualidade das pessoas envolvidas na negociação.

Partindo-se de que a definição no DEL de “mercadoria” é “coisa móvel
que se faz objeto de trato ou venda”; em português “mercadoria”, segundo o
DPLP é “aquilo que é objeto de compra e venda”, como também “aquilo que se
comprou e que se expõe à venda”; podemos concluir que a sexualidade é
assumida como “coisa” que se faz objeto de tráfico. Em tal sentido, como
veremos mais adiante ao falar da sexualidade como uma condição própria do
ser humano que te faz humano, a “coisa” mercadejada é a pessoa mesma. Ou
seja, a pessoa é assumida como mercadoria.

Pode-se, ademais, concluir a partir do anterior que existe um “mercado
sexual”, já que, como afirma o DLE, “mercado” é o “estado e evolução da oferta
e da demanda em um setor econômico dado”, no DPLP é “estado da oferta e
da procura”, pelo que fica claro que em torno do sexo se desenvolveu desde
tempos imemoriais um mercado, e, portanto, existe outra das características
que faz o mercado, isto é, que exista um “conjunto de consumidores capazes
de comprar um produto ou serviço” ou de “quem compra para gastar em uso
próprio”.
Trata-se de um fenômeno em que a pessoa adulta visualiza a pessoa
legalmente considerada menor de idade como um objeto ou produto
comerciável (suscetível de ser comprado ou vendido) para a satisfação de seus
próprios desejos e fantasias.27 Em todos os casos, existe uma relação de
poder, de subordinação e de abuso, já que meninas, meninos e adolescentes
não têm a maturidade necessária para decidir sobre seu corpo e sexualidade.
Há alguém que explora e alguém que é explorado.28

A exploração sexual comercial dos meninos, meninas e adolescentes é
uma atividade lucrativa e ilícita, que obedece a um conjunto de práticas sociais
próprias de uma cultura de exercício abusivo do poder e da violência diante de
quem, por sua condição histórica de subordinação, ou por causa de suas
circunstâncias de vida, costumam ser mais fracos e vulneráveis.

Compreendemos que o “cliente” é, neste caso, um vulnerador, dado
que violenta o menino, a menina ou adolescente, posto que estes(as) se veem
obrigados(as) a “vencer sua repugnância para fazer algo”, que é como o DEL
define o termo “violentar”, em português é, segundo o DPLP “fazer alguma
coisa ou consenti-la contra vontade; constranger”, e “constranger” se define
como: “tolher o meio de ação; coagir; forçar; obrigar pela força, violar”.

No DLE, a palavra “vítima” é compreendida como a “pessoa que se
expõe ou se oferece a um grave risco em obséquio de outra” e também como
“pessoa que padece dano por culpa alheia ou por causa fortuita”. Em português
é “pessoa que é sacrificada aos interesses de outrem” ou “pessoa que sofre
pela tirania ou injustiça de alguém”, do que se conclui que os meninos,
meninas e adolescentes explorados(as) sexualmente são vítimas, já que ao
vencer sua repugnância para fazer aquilo que não desejam fazer, assim
parece, se expõem a padecer um dano por culpa alheia, isto é, se sacrificam
pelos interesses de outro.

Se a atividade ou mercado ao qual fazemos referência é o da
sexualidade, se a mercadoria é a pessoa sexuada que a realiza e se tal
atividade de mercado é comercial, então, pode-se afirmar que nas transações
pertinentes há alguém que é o(a) comprador(a) e outro(a) alguém que é o
objeto comprado. Recordemos que “comprar”, segundo o DEL e o DPLP, é
“Obter algo com dinheiro”. Quem obtém esse algo é quem, por sua vez, utiliza
esse alguém que é a mercadoria, neste caso é o cliente, já que “cliente”, no
citado dicionário, se refere a uma “pessoa que utiliza os serviços a respeito do
que exerce uma atividade, profissão ou ofício”.

As meninas, meninos e adolescentes vítimas da exploração sexual
sofrem um forte repúdio social, são estigmatizados e sofrem danos
psicológicos e emocionais, muitas vezes irreversíveis. Têm níveis de
autoestima muito baixos e vivem um desencontro com seu próprio corpo, pois
foram tratados como objeto sexual, mercadoria e bem de intercâmbio.

Nem sempre o(a) cliente-explorador(a)-algoz paga diretamente o serviço
a quem o presta, ele pode pagá-lo a quem faz as vezes de intermediário(a),
seja um/a proxeneta ou um(a) familiar próximo(a) ao menino, menina ou
adolescente explorado(a) sexualmente de maneira comercial. Embora se
possam assinalar proxenetas e clientes como o elo primário dessa complexa
cadeia, diversas pesquisas realizadas em diferentes países do mundo,
incluindo a Colômbia, concluem que se trata de uma atividade desenvolvida
sob amparo de redes ou organizações delituosas altamente especializadas e
com suportes tecnológicos de ponta, nas quais participam diversos atores.

Intermediários(as), recrutadores (incluída a família), taxistas e
proprietários de hotéis, são apenas parte da vasta gama de pessoas envolvidas
nas diversas transações ilícitas subjacentes, tais como o suborno, a falsificação
de documentos, imigrações ilegais, para mencionar somente algumas”29.

Acerca das causas pelas quais as pessoas, menino, menina e
adolescente se veem envolvidos nessa atividade, devemos assinalar que são
variadas e complexas.

“Vão desde a desintegração familiar e a violência intrafamiliar, assim como a
urgente situação econômica e de desvantagem social em que se encontram –
diante da miragem de uma vida melhor, oferecida pelos proxenetas – até o
desgaste ou distorsão de valores, em que aqueles mais sublimes sucumbiram
em face do materialismo e do bombardeio incessante de comerciais,
transmitidos nos meios de comunicação coletiva, que convidam ao consumo
desmedido. A todo o anterior devemos agregar arraigados padrões culturais e
atitudes históricas, próprios de uma sociedade de estrutura patriarcal, que situa
a infância e a mulher em um nível de inferioridade com relação ao homem
adulto, que vê naquelas pessoas um objeto de sua possessão”30.

As condições de miséria ou pobreza, por si só, resultam insuficientes ao
explicar as causas. Está demonstrado que nem todas as vítimas de exploração
sexual provêm de famílias pobres. Podem-se tratar, também, de meninos,
meninas e adolescentes que, por diversos motivos, fogem de seus lares de
classe média e que veem na prostituição o único meio para poder sobreviver
por sua conta, ou, simplesmente, para poder adquirir mais bens de consumo.

O que é realmente importante é compreender o fenômeno dentro do
contexto social em que se desenvolve para, assim, orientar as ações
requeridas na direção correta e evitar cair na tentação – como comumente
acontece – de envolver preconceitos na tomada de decisões, e julgar a pessoa
menor como quem busca soluções fáceis para sua realidade.

É preciso ter consciência de que, sem importar as causas que
motivaram ou obrigaram um menino, menina ou adolescente a ser partícipe
nesse vergonhoso negócio, que lesiona e degrada seu corpo, capacidades e
autoestima, este, longe de ser um cúmplice, é vítima de pessoas
inescrupulosas, que se aproveitam de sua circunstância, vulnerabilidade e
necessidades.

Falar de exploração sexual comercial é referir-se a uma situação que
se apropria de maneira violenta da vida das meninas, meninos e adolescentes,
alterando seu desenvolvimento normal a partir do uso de seu corpo e do abuso
de sua situação de indefensabilidade. Longe de ser uma opção de vida, é um
beco sem saída ao qual muitas meninas e meninos são vinculados por
proxenetas, clientes-exploradores, que se aproveitam de sua vulnerabilidade,
causada por uma infância traumática, caracterizada pela violência em suas
famílias, pelo abuso sexual e pela insatisfação de suas necessidades mais
básicas.

A exploração sexual comercial de meninas, meninos e adolescentes –
ESCMMA – constitui uma violação dos direitos humanos fundamentais e dos
direitos sexuais de meninas, meninos e adolescentes.
Uma vantagem de usar o termo exploração sexual comercial reside em
que não exclui a possibilidade de ser tratado(a), ou seja, recrutado(a) ou
levado(a) por terceiros com propósitos de exploração com fins sexuais.

A exploração sexual comercial de meninos, meninas e adolescentes não
conhece fronteiras nem classes; existe praticamente em todos os países do
mundo e está presente em todos os estratos sociais e, ao contrário do que
comumente se crê, também – e principalmente – se assenta e lança raízes em
nível nacional e local31.

Não se trata de problemas exclusivos de países em desenvolvimento ou
de grupos minoritários, nem de atividades de tráfico desigual em que os países
mais pobres abastecem os mais ricos de um mercado livre de meninos e
meninas para sua utilização e consumo, embora seja bem conhecido que se
estabelecem vínculos estreitos entre países em desenvolvimento e países
industrializados.

A exploração sexual comercial é considerada pela OIT como uma das
“piores formas de trabalho infantil,” que responde a muitas causas, e sua
dinâmica transcende o âmbito de um contexto social particular, de uma classe
socioeconômica determinada ou de um grupo social específico. Não é um
fenômeno novo nem local, nem exclusivo de um ou outro país.32

3.9 LGTBIfobia

A LGTBIfobia é o preconceito, estigma ou discriminação dirigidos às
pessoas em relação à sua orientação sexual não heterossexual, seus trânsitos
identitários de gênero e corpo ou sua identidade sexual quando esta não foi
definida como de macho ou fêmea da espécie humana.

4. Direitos humanos são também direitos sexuais

Na essência dos direitos sexuais está a definição de saúde sexual, tal
como foi proposta pela Organização Mundial da Saúde em 1975: "Saúde
sexual é a integração dos elementos somáticos, emocionais, intelectuais e
sociais do ser sexual por meios que sejam positivamente enriquecedores e que
potencializem a personalidade, a comunicação e o amor (...) tal noção da
saúde sexual supõe a adoção de um critério positivo a respeito da sexualidade
humana; a finalidade da assistência prestada nesse setor deve ser o desfrute
intensificado da vida e das relações pessoais e não meramente o
assessoramento e a assistência relacionados com a procriação ou as doenças
de transmissão sexual (...) uma concepção que contemple a sexualidade como
uma capacidade inerente ao ser humano, que se expresa ao longo do ciclo
vital, respeitosa com as variantes sexuais existentes, repudiando qualquer
conduta sexual que venha imposta pela coação, seja física, legal, moral ou
psíquica”. (OMS, 1975).

Um modelo biomédico regulador tem prevalecido social, cultural e
politicamente no que diz respeito à população e à sexualidade. Entretanto,
como demonstra Françoise Girard (2008), apesar das poderosas forças
biopolíticas e religiosas fundamentalistas no interior das Nações Unidas, tem
sido possível avançar em um discurso alternativo: aquele dos direitos sexuais
como direitos humanos.33 Esses avanços têm sido muito mais profundos,
consensados e promovidos pelas organizações da sociedade civil.

As Nações Unidas têm sido a sede de uma luta aberta pela sexualidade,
ao menos desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 e de
outros tratados sobre direitos humanos, todos os quais têm a ver com o papel
da família, o tema do matrimônio e a igualdade entre sexos. De fato, conforme
Rubin, desde o começo da década de 1990, foram intensificados os debates –
seja para fazer valer certos direitos relativos à sexualidade, ou para nomear
explicitamente aqueles aspectos que dão origem à discriminação.

Esses discursos se desenvolveram de forma simultânea em diferentes
países e regiões do mundo. Na América Latina, os desenvolvimentos
conceituais sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, de algumas
feministas como a colombiana María Ladi Londoño34 e a mexicana Marta
Lamas35, foram a base para os trabalhos realizados sobre os direitos humanos
e sexuais das minorias sexuais – incluídas as mulheres –, por autores pioneiros
pertencentes às minorias sexuais, como Velandia (1992, 1996, 1998, 1999).
Em 1992, a Apoyémonos Fundación Colombiana de Apoyo en Sida,
Hepatitis e ITS publica uma série de materiais informativos (cartazes, placas,
revistas, camisetas) nos quais, pela primeira vez e por iniciativa de Velandia –
diretor da fundação – é impresso o slogan “os direitos humanos também são
sexuais, os direitos sexuais também são humanos” e são publicados conteúdos
a respeito no encarte do jornal El Espectador, em 1 de dezembro36. Em 1995, a
Universidade Javeriana de Bogotá, Colômbia, realiza o “Encontro sobre paz e
tolerância: diversidade cultural/direitos humanos/diversidade religiosa”, cujas
apresentações são publicadas em 1996, pela revista Pastoral Xaveriana; uma
delas, com autoria de Velandia, denominou-se “Tolerância e minorias
sexuais”.37 Em 1996, a Fundación Manuel Cepeda Vargas realiza o Seminário
Duelo, Memória e reparação, cujas memórias são publicadas como livro
conjuntamente com a Defensoría del Pueblo, Colômbia. Nesse seminário e
publicação, Velandia apresenta o documento “Os direitos humanos também
são sexuais, os direitos sexuais também são humanos”.38 No "Primeiro
Simpósio Ética e Sexualidade", novembro de 1998, Medellín, organizado pela
Sociedad Colombiana de Sexología e a Federación Latinoamericana de
Sociedades de Sexología y Educación Sexual FLASSES, as memórias de tal
evento foram publicadas na Revista Latinoamericana de Sexología, edição
especial XX anos, produzida pela Sociedad Colombiana de Sexología, volume
XIII, n. 1, 2 e 3, Colômbia, em 1999; várias das apresentações e artigos
versaram sobre os direitos humanos e sexuais, sendo esta a primeira
oportunidade em que estes temas foram postos em público em um fórum
latino-americano.

Em 1993, a declaração de Viena e seu programa de ação reafirmaram
os princípios de universalidade e não discriminação e confirmaram que os
direitos humanos são “indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados”.

O tema da discriminação com base na orientação sexual foi posto em
consideração em um fórum público mundial, pela primera vez, em um fórum
das Nações Unidas, durante a Quarta Conferência Mundial das Nações Unidas
sobre a Mulher, celebrada em Beijing, China (1995), pela Delegação da Suécia,
com vistas à sua aprovação a partir do consenso entre os Estados; a objeção
apresentada pelas delegações islâmicas impossibilitou sua adoção. Em 8 de
setembro de 1995, durante a conferência, um grupo de 35 mulheres sul-
africanas do Caucus Lésbico desdobraram uma imensa bandeira que dizia: “Os
direitos lésbicos são direitos humanos”.

No XXIII Congresso Mundial de Sexologia de Valência, 1997, cujo lema
foi "Sexualidade e direitos humanos”, promulgou-se a “Declaração de Valência
dos Direitos Sexuais”.39

A “Declaration of Sexual Rights” foi aprovada pela Assembleia da
Associação Mundial de Sexologia (WAS) no XIV Congresso Mundial de
Sexologia (Hong Kong, 1999)40; esta declaração se constituiu em um dos
elementos base para a elaboração do novo documento sobre saúde sexual por
um comitê de especialistas da OMS (Antígua, Guatemala, maio 2000).

O debate sobre a não discriminação com base na orientação sexual foi
retomado de forma organizada durante o processo preparatório41 para a
Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e
Formas Conexas de Intolerância realizada em Durban, África do Sul (2001);
contudo, não foi incorporada ao texto final da Declaração de Plano e Ação da
conferência.

4.1 Quais são os direitos sexuais

Velandia (1999) propôs no "Primeiro Simpósio Ética e Sexualidade",
novembro de 1998, Medellín, organizado pela Sociedad Colombiana de
Sexología e a Federación Latinoamericana de Sociedades de Sexología y
Educación Sexual FLASSES42, uma série de direitos humanos compreendidos
como direitos sexuais, para serem considerados no código de ética dos
sexólogos e educadores sexuais latino-americanos, são eles:

 A uma identidade particular como Homem ou como Mulher e como Ser
Sexuado e ao reconhecimento e aceitação social de tal identidade;

 À equidade de gêneros;

 Ao fortalecimento da autoestima, da autovalorização e da autonomia para
tomar decisões adequadas em torno da sexualidade;
 Ao livre exercício da orientação sexual;

 A escolher as atividades sexuais segundo as preferências particulares;

 Ao exercício responsável da função sexual em seu modo erótico e
reprodutivo (ou, mais corretamente, diversificado);

 À educação sexual positiva;

 A espaços de comunicação familiar, laboral e social para tratar temas
pertinentes às sexualidades; e,

 À intimidade pessoal, à integridade, à vida privada e ao bom nome.

5. Princípios, vulnerabilidade e saúde

Os Princípios de Yogyakarta (2006)43 são princípios sobre a aplicação
da legislação internacional de direitos humanos em relação com a orientação
sexual e a identidade de gênero. Esses princípios e recomendações refletem a
aplicação da legislação internacional de direitos humanos às vidas e
experiências das pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de
gênero, e nada do que está disposto aqui se interpretará no sentido de que
restrinja ou, de alguma maneira, limite os direitos e liberdades fundamentais de
tais pessoas, reconhecidos nas leis ou normas internacionais, regionais ou
nacionais.

Em 2008, os 34 países-membros da Organização de Estados
Americanos aprovaram, de forma unânime, uma declaração em que se
estendia a proteção dos direitos humanos à identidade de gênero e à
orientação sexual.

Em 22 de março de 2011, no Conselho de Direitos Humanos das
Nações Unidas (CDHNU), em Genebra, a Colômbia apresentou uma
declaração conjunta durante o debate geral (ponto 8 da ordem do dia –
Acompanhamento e implementação da Declaração de Viena e do Programa de
Ação), na qual se fez um chamado aos Estados para pôr fim à violência, às
sanções penais e aquelas violações de direitos humanos relacionadas,
baseadas na orientação sexual e na identidade de gênero das pessoas e na
qual, além disso, instou-se o Conselho de Direitos Humanos a atender estas
importantes questões de direitos humanos. A declaração foi entregue em nome
de um grupo de 85 Estados de todas as regiões do mundo, o grupo mais
numeroso até a data para apoiar o tema da orientação sexual, da identidade de
gênero e dos direitos humanos. Essa declaração se fundamentou em uma
similar, entregue pela Noruega ante o Conselho de Direitos Humanos em 2006
(em nome de 54 Estados) e em outra declaração conjunta entregue pela
Argentina na Assembleia Geral, em 2008 (em nome de 66 Estados).44

A resolução L9/rev1, apresentada pela África do Sul junto com o Brasil e
outros 39 países auspiciadores de todas as regiões do mundo, foi aprovada por
32 votos a favor, 19 contra e 3 abstenções. Na 17ª. Sessão do Conselho de
Direitos Humanos das Nações Unidas (UNHRC) foi aprovada a Resolução
sobre violações dos direitos humanos por orientação sexual e identidade de
gênero, iniciada e dirigida pela África do Sul com o apoio do Brasil, na qual se
pediu um estudo em âmbito mundial sobre os fenômenos de violência e
discriminação contra pessoas LGTBI, sob a direção do Alto Comissário para
direitos Humanos da ONU. A moção convida, também, a finalizar o estudo com
um painel internacional sobre o tema, planejado para o 19º. Conselho de
Direitos Humanos da ONU em março de 2012, (Genebra, 17 de junho de
2011).45

Os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), do Brasil, de
universalidade, equidade e totalidade se orientam, também, no sentido de
reduzir as desigualdades e a violência. O SUS teve seu nascimento na
Constituição Federal de 1988, no artigo 198. O SUS estabeleceu seus
princípios na Lei Orgânica de Saúde, em 1990. Esses princípios são:
universalidade, integridade, equidade, participação da comunidade ou controle
social, descentralização político-administrativa, hierarquização e
regionalização, e eficiência e eficácia.

De acordo com o segundo relatório nacional do Estado brasileiro,
apresentado no mecanismo de revisão periódica universal do conselho de
direitos humanos das Nações Unidas – 2012, a promoção dos direitos da
população LGTBI está baseada na efetivação do Plano Nacional de Promoção
de Direitos de LGBT, envolvendo vários órgãos públicos. O diálogo com o
movimento social foi ampliado por meio da realização de duas Conferências
Nacionais LGTBI (2008 e 2011) e reforçado, também, pela criação do Conselho
Nacional de Combate à Discriminação e Defesa dos Direitos LGBT, em 2010,
responsável por monitorar a implementação das políticas públicas. Avanços
importantes foram também a normatização do uso do nome social por
servidores públicos federais travestis e transexuais47; a extensão do benefício,
nos planos de saúde, para companheiros do mesmo sexo como dependentes;
e o reconhecimento da constitucionalidade da união estável para casais do
mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal (STF).46

Entretanto, parece existir uma contradição entre a proposta anterior e o
que parece acontecer na realidade. “Os pedidos de asilo político, feitos por
brasileiros gays que vivem no exterior, passaram de três, em todo o ano de
2011, para 25, apenas nos três primeiros meses deste ano de 2012. A
informação é da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e
Transexuais), que afirma ter remetido os casos à Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência da República”.47

6. Delito ou legalidade

Os dados que se apresentam a seguir fazem parte do informe
“Homofobia de Estado: um informe mundial sobre as leis que criminalizam a
atividade sexual com consentimento entre pessoas adultas do mesmo sexo”,
produzido por Eddie Bruce-Jones e Lucas Paoli Itaborahy para a ILGA,
Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e
Intersexo, em maio de 2011.

Os atos homossexuais são legais em 113 países. Os atos sexuais entre
pessoas do mesmo sexo nunca foram penalizados em Benim, Burkina Faso,
Chade, Congo-Brazzaville, Costa do Marfim, República Democrática do Congo,
Gabão, Madagascar, Mali, Níger, República Centro-Africana e Ruanda. Os atos
homossexuais são ilegais em 76 países. O status de legalidade dos atos
homossexuais não é claro em Bahrein nem no Iraque. Os atos homossexuais
são castigados com a pena de morte na Mauritânia e no Sudão, assim como
em doze estados do norte da Nigéria e partes meridionais da Somália, na
Arábia Saudita, Iêmen e Irã.

Existe igualdade de idade de consentimento para os atos homossexuais
e heterossexuais em 99 países. Em catorze países a idade do consentimento é
desigual para atos homossexuais e heterossexuais.

Cinquenta e quatro países proíbem a discriminação no emprego
baseada na orientação sexual. Dezenove países proíbem a discriminação no
emprego baseada na identidade de gênero. Sete países têm uma proibição de
classe constitucional de discriminação baseada na orientação sexual. Em vinte
países os crimes de ódio baseados na orientação sexual são considerados
como uma circunstância agravante. Em seis países os crimes de ódio
baseados na identidade de gênero são considerados como uma circunstância
agravante. Em 24 países é proibida a incitação ao ódio baseada na orientação
sexual.

Dez países permitem o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Doze
países possuem leis de uniões civis que oferecem aos casais do mesmo sexo
a maior parte ou a totalidade dos direitos do matrimônio. Nove países oferecem
alguns dos direitos do matrimônio. Nove países permitem a esses casais a
adoção conjunta de menores.

Dezoito países possuem legislações específicas em matéria de
reconhecimento do gênero após um tratamento de reatribuição de gênero.

7. Estratégias para a NÃO discriminação

O que se segue é um exemplo do que poderia ser feito. Em 2004, o
“Programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e promoção
da cidadania homossexual”, que faz parte do Conselho Nacional de Combate à
Discriminação, Brasil sem homofobia, Ministério da Saúde, produziu o
documento “Brasil sem homofobia”48, tendo como objetivo a ampliação e
fortalecimento do exercício da cidadania no Brasil, com o objetivo de alcançar a
educação e a mudança de comportamento dos gestores públicos. Para
alcançar tal objetivo, o programa é constituído de diferentes ações, tais como:
a) apoio a projetos de fortalecimento de instituições públicas e não
governamentais que tutelam a promoção da cidadania homossexual e/ou o
combate à homofobia;

b) capacitação de profissionais e representantes do movimento homossexual
que tutelam a defesa dos direitos humanos;

c) disseminação de informações sobre direitos e promoção da autoestima
sexual;

d) incentivo à denúncia de violações dos direitos humanos do segmento GLTBI.

As ações, necessariamente, requerem a articulação entre o governo
federal e a sociedade civil organizada, a partir das quais se criam as condições
para implementar alternativas de solução.

8. Alternativas de solução

Como se pôde identificar, as pessoas LGTBI, os HSH e as MSM são
sujeitos objeto de uma série de vulnerabilidades culturais, sociais, políticas,
econômicas, laborais e, especialmente, em sua saúde física e emocional, cuja
transformação é um trabalho árduo, multidisciplinar e intersetorial, no qual
entram em jogo diferentes estratégias, de cujas sinergias e ações emergeria
uma série de ações com tendência a reduzi-las. A seguir analisaremos
algumas delas.

8.1 Política pública

Para Velandia (2005)49, a política pública é a resultante do processo que
articula a participação e o diálogo de todos os atores envolvidos com relação
ao tema que a convoca; este se considera prioritário por ser um problema
entendido como socialmente relevante, após uma análise clara e realista sobre
o que existe e o que é apropiado a respeito, quanto à satisfação de
necessidades da comunidade direta e indiretamente afetada.
A política pública se desenha e se constrói a partir e com as pessoas
afetadas pela situação que as convoca, em um território determinado, tendo
como objetivo dar respostas a um problema determinado. Tais respostas
podem ou não ser definitivas, mas possibilitam a revisão ou o desenho e
implantação de ações em conjunto com outras entidades públicas e privadas
que cooperam na busca de alternativas.

Toda política pública deve se formular no momento em que se requeira,
isto é, antes que o problema se torne impossível de solucionar. Em seu
desenho deve-se contemplar não apenas como deve ser executada, mas
também como avaliá-la permanentemente, de tal maneira que possa se ajustar
quando for necessário e se redirecionar quando sua análise crítica assim o
determinar. A política pública, igualmente, pode apoiar a implantação da
legislação existente ou a sua redireção quando esta não for suficiente ou
apropriada.

As condições nas quais se desenvolve uma política pública devem se
apresentar de acordo com as necessidades próprias e particulares de cada
população, neste caso, falamos das necessidades das pessoas LGTBI, os HSH
e as MSM; ou seja, a partir de um enfoque diferencial e de equidade, que tenha
em conta os gêneros, as idades, as orientações sexuais, os territórios sociais,
as culturas, o pertencimento étnico e as deficiências, quando estas existem,
como também a realização dos direitos.

Compreendendo que o cuidado da saúde não é somente a atenção pós-
emergência – quando existe uma doença grave para a qual não se conseguiu a
atenção requerida – mas sim que se deve antecipar ao risco, gerando as
condições básicas para a realização dos direitos como fundamento de qualquer
tipo de ação afirmativa.

O fim do restabelecimento de direitos é tentar compensar as
inequidades, produto da falha estatal no dever de proteção, no nosso caso, as
pessoas LGTBI, os HSH e as MSM; em consequência, as ações desta ordem
abarcam todo o ciclo da política pública, desenho, desenvolvimento,
implementação, acompanhamento e avaliação.
O acompanhamento e avaliação de uma política pública de prevenção e
atenção em saúde, direitos sexuais, abuso sexual, exploração sexual comercial
ou de educação para a saúde e/ou para a sexualidade, dirigida(s) à população
LGTBI, HSH e MSM, abarca uma série de tarefas e compromissos adiantados
por agentes de política pública, que têm oportunidades e espaços limitados de
ação pessoal e institucional.

Contudo, os agentes de política pública não devem ser os únicos
interessados ou obrigados a levar a efeito as estratégias de prevenção das
causas estruturais e da atenção integral. Essa tarefa requer o concurso e a
legitimação dos diversos agentes sociais afetados e afetantes, como podem
ser as associações de usuários e as organizações da sociedade civil, as
organizações LGTBI, HSH e MSM, as associações de profissionais da saúde,
as organizações de pessoas afetadas em seu direito à saúde, como, por
exemplo, as redes de pessoas que vivem com HIV/AIDS, entre outras.

Uma comunidade de política pública ou uma comunidade que faz
alianças para a realização de direitos é constituída, segundo Duran Patrice
(2000)50, pelas "pessoas pertencentes a diferentes posições – responsáveis
por entidades governamentais, congressistas, representantes políticos,
responsáveis por grêmios, pesquisadores – e, em especial, os e as
beneficiários(as) das políticas, falamos aqui das pessoas LGTBI, HSH e MSM,
que compartilham um sistema similar de crenças – série de valores,
fundamentos, supostos e percepções de um problema específico – e que
demonstram certo grau de coordenação de suas atividades no tempo".

O desenho, implementação, acompanhamento e avaliação de uma
política pública partem do princípio e direito à participação. Velandia (1999)51
especifica que "a participação não consiste exclusivamente em permitir que
outros e outras façam, mas, em especial, que se criem os mecanismos para
alcançá-la e se consiga, de maneira ativa, que as pessoas na comunidade e
nos demais setores envolvidos o façam e, em consequência, possam apoiar a
decisão sobre o que, quem, para quem, quando, onde, como, por que, para
que, com que recursos, metodologias, ferramentas e instrumentos se faz, além
das estratégias de acompanhamento, avaliação e redireção e a produção dos
informes correspondentes".
8.2 Incidência política

A incidência política representa uma das formas de ação coletiva de que
dispõem as organizações e grupos sociais em geral e os setores LGTBI, HSH e
MSM em particular, para a visibilização de situações e condições excludentes,
discriminatórias e injustas, e o posicionamento na esfera pública e política de
alternativas viáveis e desejáveis de transformação de tais situações, no âmbito
da garantia dos direitos humanos. Enquanto forma de ação coletiva, sua
natureza, organização, limites, alcances, etc. encontram-se moldados pelo
contexto concreto em que tenha lugar, ou seja, pelas práticas políticas, sociais
e culturais próprias e o momento em que se atue.

Velandia (2012)52 expõe que, “Com base na existência de uma política
pública, a incidência política das populações vulneráveis (neste caso, os
LGTBI, HSH e MSM) se focaliza em ações de política para a restituição e
garantia de direitos. A incidência política se requer, especialmente, quando as
populações são vulneradas em seus direitos e, por esta vulneração, não têm
participação ativa, livre e significativa no desenvolvimento, de tal maneira que
lhes possibilite exigir dos titulares de obrigações o cumprimento de suas
responsabilidades.

Além disso, é preciso considerar que as distintas situações que essas
populações atravessam devem ser tratadas de maneira diferente e de forma
proporcional a tal diferença.

No momento em que se reconhecem os direitos dessa população, se
estabelece, também, o conceito de cidadania. A cidadania implica reconhecer
que um indivíduo, membro de uma comunidade política, conta com direitos
civis, políticos e sociais que contemplam seu reconhecimento como sujeito
pleno, íntegro e integral da sexualidade e sua definição no ser e fazer por parte
das pessoas. A população LGTBI, HSH e MSM expressa uma diversidade que
depende de diversos fatores sociais, culturais e econômicos ligados a um
determinado contexto e, por conseguinte, derivam em diferentes condições,
processos distintos de construção de identidade e de projetos de vida.
Um modelo realmente democrático de incidência política deve basear-se
no reconhecimento da pluralidade humana, portanto, da diversidade das
unicidades, do espaço público como território de apropriação, visibilização e
encontro da sociedade e do exercício ativo da cidadania, como elementos
fundamentais na hora de participar dos assuntos públicos.

8.3 Cultura e condições sociais

Velandia (2012) propõe que, na prática, é necessário começar por
transformar a cultura e as condições sociais e políticas, produzindo mudanças
decisivas em seus contextos locais de marginalização. Nesta distância
territorial e cultural entre exclusão e sociedade marginalizante, deve-se
reconstruir o papel dos e das LGTBI, HSH e MSM, ao mesmo tempo em que
isso implica modificar o papel dos heterossexuais e a qualidade do diálogo
entre os diferentes atores da comunidade de política pública.

Enquanto o ser “L”, “G”, “T”, “B”, “I”, “HSH” ou “MSM” se identificar com e
como um problema social, resulta improvável inventar uma oferta criativa que
abra um espaço real para a população LGTBI, HSH e MSM, no qual se possa
experimentar o exercício das diferenças individuais, sociais e culturais. “Deve-
se entender que cada um(a) é um ser complexo, com diversas dimensões e
possibilidades; pelo fato de serem dinâmicos estão em permanente mobilidade
e construção de si mesmos e do entorno que os rodeia. Os e as LGTBI, HSH e
MSM estão interessados em transformar seu mundo e serem coconstrutores do
mundo em que vivem, para tornar real aquele em que desejam viver; mas isso
se torna impossível sem assumi-los integralmente como sujeitos de direitos,
pessoas capazes de assumir a vida em plena autonomia, de construir seus
próprios limites e exigi-los diante do mundo e de si mesmos, dispostos a
desfrutar de seus corpos, seus amores e suas histórias, e desejosos de
construir vidas mais tranquilas, livres, justas e seguras do que as que têm
vivido.

Nas palavras de Sepúlveda (2002)53, na hora de falar de assuntos como
o empoderamento na perspectiva do desenvolvimento faz-se necessário um
sentido mais certo das próprias identidades e iniciativas e que cada ser
humano aja de acordo com uma ética social, mas com o respaldo de sua
autonomia como sujeito; por isso, falar com perspectiva de gêneros provoca
que tanto as pessoas nas masculinidades como nas feminilidades e nas
transgeneridades rompam toda tentativa de discriminação, invisibilidade e
marginalidade das mulheres, dos homens, das intersexualidades e da
diversidade das orientações sexuais.

Dependendo da cultura, do tempo e do território em que estamos
imersos na interiorização dos discursos das sexualidades, dá-se primazia a um
tipo de conhecimento – assumindo como válidas e verdadeiras as tradições
cultural, científica e social – como também a determinados paradigmas que
fixam uma epistemologia, uma ontologia e uma socioantropologia, ou seja, uma
maneira de ver, entender e explicar o mundo, uma maneira de entender como
nos relacionamos com o mundo e uma maneira de compreender as relações
sociais, interpessoais e consigo mesmo(a). Se não se esquece que existem
diversas epistemologias, ontologias e visões sobre o ser humano, a partir das
quais são possíveis diferentes explicações, práticas e emocionalidades, é
possível apresentar a possibilidade da multiversalidade discursiva, vivencial e
de participação como alternativas viáveis no momento de aplicar as habilidades
comunicativas, de negociação e de utilizar os instrumentos para planejar
exercícios de incidência política.

8.3 Transversalização

A transversalização de uma situação de saúde é o processo de análise
do contexto no qual se trabalha, de identificação daquilo que é necessário fazer
de forma diferente ou adicional, no trabalho ou na aplicação de uma política
pública ou na cooperação internacional e na organização, para responder ao
impacto de tal situação e de adaptação das organizações e seu trabalho para
continuarem sendo relevantes e eficazes.

Tão importante como saber o que é transversalização é saber o que não
é transversalização. Transversalização NÃO é: mudar as prioridades e setores
nos quais uma organização trabalha para “trabalhar em outro”; acrescentar
uma atividade de luta contra uma situação de saúde (por exemplo, educação e
informação, distribuição de preservativos, assessoramento e teste de HIV, etc.)
a seus programas setoriais; fazer alterações nos programas que se apliquem
unicamente àquelas pessoas que foram identificadas como portadoras de um
microrganismo causador de uma infecção e que se encontram em situação de
vulnerabilidade; e continuar como se não tivesse acontecido nada.54

Uma vez que a organização aposta na transversalização, é preciso
designar recursos humanos e econômicos para abordar o processo. Embora a
estrutura interna necessária para liderar e coordenar o processo dependa da
organização, é necessário ter, no mínimo, uma pessoa especialista no tema de
saúde que nos convoque, que lidere a preparação de uma política em tal tema
no âmbito laboral, desenhe uma estratégia de transversalização, organize
oficinas de formação para o pessoal e prepare guias e outras ferramentas que
ajudem o pessoal técnico em todo o processo de transversalização.

Toda estratégia de transversalização deve ter dois níveis de atuação: o
nível interno, isto é, o entorno laboral da instituição, e o externo, que se refere
ao âmbito programático, ou seja, ao trabalho de cooperação e ajuda
humanitária, como o trabalho vertical de quem lidera as políticas públicas.

Responder a uma epidemia a partir da própia organização está se
tornando uma prioridade para governos, organizações não governamentais,
organizações internacionais e agências de cooperação bilateral presentes nos
países.

8.3.1 Transversalização interna

As administrações nacionais e locais trabalham a nível horizontal
quando promovem, facilitam, reconhecem e validam a participação de todos os
setores e pessoas envolvidos na comunidade de política pública.

Esse enfoque55, também conhecido como o dos 4P, propõe ter em
consideração quatro elementos na transversalização interna de qualquer
situação problemática de saúde: 1. Potencial; 2. Proteção; 3. Poder; e, 4.
Prioridades (Grupos/indivíduos a incluir). Em cada um deles se propõe
responder a uma série de perguntas. Devem ser respondidas pelos membros
de qualquer organização de saúde, educativa ou comunitária que esteja
trabalhando no tema e envolvida na política pública e não apenas responder
em função deles mesmos, mas, além disso, em função dos grupos
prioritários que se veem afetados. O interesse não é somente diagnosticar a
situação, e sim, especialmente, propor o que o programa pode fazer de forma
diferente ou o que tem que acrescentar para: 1. Continuar sendo relevante e
eficaz, e, 2. Não causar dano.

1. Potencial. Aqui se examina se a redução na capacidade de adaptação, a
perda de habilidades e/ou as responsabilidades de atenção sanitária
relacionadas com a situação de saúde em questão afetam o potencial do
pessoal para concluir o trabalho da organização e vice-versa, ou seja, se os
efeitos de tal situação são exacerbados pelas práticas administrativas e/ou as
condições gerais de trabalho da organização. Considere o seguinte:

A. A situação de saúde afeta o potencial de sua organização para oferecer
respostas de desenvolvimento e/ou humanitárias eficazes e relevantes? Em
caso negativo, isso pode acontecer, por exemplo, durante os próximos cinco
anos?

Considere, por exemplo: habilidades e competências, disponibilidade do
pessoal, horário regular e possibilidade de modificá-lo, temor a determinados
tipos de violência física ou emocional, absentismo, diferenças por gêneros.

B. A capacidade para enfrentar a deficiência ou as doenças crônicas – se é que
estas são reconhecidas – é afetada pelas condições laborais?

Leve em conta, por exemplo: horários estritos de trabalho, exigências
dos diretores ou dos colegas; intimidação, manipulação ou outros
comportamentos destes; níveis de higiene e salubridade institucional;
distribuição espacial do local de trabalho; falta de transparência no que
concerne às tarefas e responsabilidades, segurança econômica e laboral, etc.;
diferenças por gêneros.

2. Proteção
A. Que particularidades da situação laboral podem aumentar a vulnerabilidade
do pessoal à violência sexual, à violação ou à coação sexual?

B. Que situações laborais podem levar o pessoal a recorrer ao álcool, às
drogas ou ao sexo casual como mecanismos de adaptação?

C. Que situações laborais podem aumentar a exposição do pessoal a doenças
sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV?

D. Que situações laborais podem estigmatizar o pessoal, incluindo o afetado
pelo HIV?

3. Poder

Quem tem poder sobre quem? Existem possibilidades de que haja abuso
desse poder por meio da coação sexual?

4. Prioridades (Grupos/indivíduos a incluir)

O estudo do potencial, da proteção e do poder identifica algum grupo prioritário
no contexto laboral?

8.3.2 Transversalização externa

Produz-se quando as administrações nacionais e locais trabalham a
nível vertical, com administrações de diferentes níveis, para fazer confluir
diferentes respostas às necessidades públicas e garantir sua continuidade ao
longo do tempo.

É possível que as ferramentas de transversalização interna tenham
identificado alterações necessárias nos grupos prioritários ou interessados e
nos orçamentos, assim como mudanças no desenho do programa e nas
práticas organizativas. O propósito da monitoração é revisar a implementação
das alterações propostas em todas essas áreas e não apenas naquelas que se
aplicam às atividades do programa.
Portanto, é necessário saber muito claramente qual é a fonte da
informação/meios para verificar que o que se afirma que acontece está
acontecendo na prática ou existe um alto risco de que assim seja.

8.4 Atos de reconhecimento

Em um nível simbólico, podem-se expressar o apoio das administrações
nacionais e locais ao grupo LGTBI, HSH e MSM e o reconhecimento de sua
contribuição, convidando os representantes de associações LGTBI, HSH e
MSM para participarem de atos oficiais e garantindo a presença institucional
em atos organizados pelas associações que estas pessoas constituem.56

Uma maneira de oferecer apoio e, ao mesmo tempo, dar visibilidade à
contribuição desse grupo à vida social e cultural de uma cidade ou país
consiste em incluir na lista de nomes da cidade referências a atos e
personagens históricos relacionados com o âmbito LGTB; por exemplo, criar
um centro cívico, um escritório técnico de apoio, pôr um monumento ou uma
placa em comemoração de atos importantes nos quais o grupo se viu afetado;
apoio às associações LGTBI, que não deve se limitar à organização de atos
pontuais; fomentar o ativismo com a difusão, por parte da prefeitura ou das
instituições de saúde, de informação sobre as associações destes grupos e das
atividades que organizam; reconhecê-las como representantes cuja opinião
deve ser levada em consideração nas questões que lhes concernem; criação
de organismos de participação permanente, em que se congreguem
representantes do ativismo local, com o objetivo de definir prioridades e
implicá-los no desenho, implementação e avaliação das políticas.

8.5 Reconhecimento da vulneração

As administrações de saúde nas prefeituras e instituições de saúde e,
inclusive, nas instituições que formam agentes de saúde, por exemplo,
enfermeiras, podem estabelecer estratégias para combater a incitação ao ódio
e os crimes de ódio contra as pessoas LGTBI, HSH e MSM. Para combater a
violência contra essas pessoas deve-se começar por compreender melhor os
motivos que levam a perpetrar este tipo de ataque. Esse é o motivo pelo qual é
importante colaborar no desenvolvimento de projetos de pesquisa voltados a
aprofundar nas causas que originam a violência homofóbica e transfóbica e sua
relação com a saúde.

Por exemplo: podem-se fazer declarações oficiais, empreender
campanhas ou aprovar regulamentos que proíbam e punam a discriminação de
tais grupos em lugares públicos e nos serviços públicos sanitários da cidade;
também podem-se formar agentes de saúde comunitários, como um passo
primordial para alcançar a integração da perspectiva das minorias sexuais, é
recomendável orientar-se para a eliminação de qualquer atitude e
comportamento heterossexista, como supor que todas as pessoas atendidas
são heterossexuais; é aconselhável que não se tratem de cursos de formação
esporádicos nem opcionais, mas sim que o tratamento e a prevenção da
LGTBIfobia faça parte da formação obrigatória; reconhecer os delitos
motivados pela homofobia e a transfobia nos códigos éticos das profissões da
saúde, uma maneira de abordar as agressões e as discriminações é integrá-las
nas medidas existentes para combater o ódio relacionado com outros tipos de
discriminação (por exemplo, a xenofobia, o antissemitismo, etc.); com o
objetivo de aumentar o número de denúncias, podem-se elaborar materiais
específicos para esses grupos e estabelecer contatos com suas associações e
espaços de encontro. Ao mesmo tempo, podem-se criar canais de
comunicação para facilitar que terceiros informem sobre delitos LGTBIfóbicos.

8.6 Informação

Uma maneira de aumentar a visibilidade das pessoas LGTBI, HSH e
MSM e sua relação com a saúde é incluir informação sobre o tema nos
serviços de atenção à cidadania, na página da internet da prefeitura, dos
serviços de saúde, das instituições educativas em saúde e em suas linhas
telefônicas de informação e publicações.

8.7 Família
O Livro branco europeu (2011) propõe, no que se relaciona à esfera
familiar, destacar três grandes áreas de intervenção. Em primeiro lugar,
integrar a perspectiva LGTBI de saúde nas políticas familiares que já estão
sendo levadas a efeito. Isso implica ter em conta as necessidades e as
realidades das famílias formadas por progenitores LGTBI e oferecer apoio
àquelas famílias nas quais os conflitos surgem porque um de seus membros
(de qualquer geração) é LGTBI, HSH e MSM.

Uma segunda área de intervenção consiste em favorecer um clima de
segurança e apoio familiar para os/as menores de idade LGTBI, HSH e MSM e
os temas de saúde que lhes são pertinentes, mediante a organização de
conversas sobre o tema dirigidas aos progenitores; por exemplo, por meio de
associações de pais e mães ou de instituições municipais.

Por último, pode-se visibilizar a realidade em que vivem as famílias com
progenitores homossexuais e transexuais ou com pais e mães com filhos ou
filhas LGTBI, HSH e MSM, realizando campanhas ou atividades públicas
relacionadas com a saúde, como, por exemplo, explicar contos ou organizar
outros atos culturais que visibilizem a pluralidade de modelos de família. Desse
modo se dá o conhecimento de que as estruturas familiares são cada vez mais
diversas e, ao mesmo tempo, se favorece um clima de respeito para com os/as
filhos/as de pais LGTBI, HSH e MSM.

8.8 Educação

Os centros educativos deveriam ser entornos seguros para todos os
alunos, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
O principal desafio, então, é combater as agressões sistemáticas que as
pessoas LGTBI, HSH e MSM sofrem e fomentar o respeito pela diversidade
sexual e de gênero, a fim de que possam construir sua própria sexualidade,
identidade de gênero e acudir aos recursos sanitários em um entorno
acolhedor e respeitoso.

Para consegui-lo, é preciso que o pessoal docente e os demais
profissionais que trabalham no âmbito educativo, no qual se formam agentes
de saúde ou se oferece educação para a saúde e a sexualidade, recebam
formação, a fim de que compreendam a situação que vivem as pessoas LGTBI,
HSH e MSM e disponham dos meios para detectar as agressões e a
discriminação que sofrem. Além da organização de jornadas formativas
periódicas, essa questão deveria se incorporar de maneira sistemática na
formação que esses profissionais recebem, já que é necessário que todos os
centros educativos compreendam a importância do respeito pela diversidade e
a necessidade de construir um entorno livre de violência LGTBIfóbica.

8.9 Saúde

As competências das prefeituras e das instituições de saúde, em matéria
de assistência sanitária a populações vulneráveis, podem variar notavelmente
de um município a outro e de uma entidade a outra em função de suas
dimensões ou do país e, portanto, algumas das recomendações podem não ser
pertinentes em todos os casos.

Como nos demais âmbitos, a primeira atuação que se pode empreender
é oferecer formação ao pessoal sanitário – tanto o de enfermagem como o
médico –, já que, amiúde, mantêm estereótipos ou simplemente não são
conscientes da situação que vivem as pessoas LGTBI, HSH e MSM, o que, em
última instância, pode ter um efeito prejudicial na atenção sanitária que lhes
prestam. Um dos objetivos da formação deve ser a criação de um entorno em
que tais pessoas sintam-se seguras e possam falar abertamente de sua
orientação sexual ou identidade de gênero, nos aspectos que estejam
relacionados com sua saúde.

Em resumo, trata-se de conseguir que o pessoal sanitário se mostre
receptivo e reconheça a diversidade sexual ou de gênero de seus pacientes, o
que significa, entre outras coisas, não presumir que são heterossexuais.

No caso das pessoas trans, é importante estabelecer um protocolo
específico para garantir o respeito no que se refere à identidade de gênero e ao
nome escolhido, assim como promover que os profissionais de saúde
conheçam as diversas opções médicas e emocionais para levar a efeito a
transição de gênero.
8.10 Os meios de comunicação e a cultura

Embora nos municípios pequenos a intervenção nos meios de
comunicação possa ser limitada, todos os municípios e instituições de saúde
dispõem de seus próprios canais de comunicação – boletins, revistas, páginas
na internet, emissoras de rádio ou canais de televisão oficiais (municipais,
estatais, autônomos, etc.) – e realizam campanhas públicas. Cada instituição
transmite, consciente ou inconscientemente, um conjunto de valores por
intermédio de todos esses meios, que podem ser utilizados para dar
visibilidade às questões LGTBI e fomentar o respeito para com a diversidade
sexual e de gênero.

Na hora de abordar a temática LGTBI, é recomendável procurar
assessoramento sobre a terminologia que seja adequada e respeitosa, assim
como afastar-se dos estereótipos para se referir ao grupo LGTBI, HSH e MSM.
Diversas organizações LGTBI de todo o mundo têm elaborado guias e códigos
éticos para que os profissionais do jornalismo saibam como abordar as
questões LGTBI em geral e de sexualidade em particular57.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o objetivo principal de
qualquer bom sistema de saúde é prestar serviços de qualidade a todas as
pessoas, no momento e lugar em que os necessitem. Com frequência, o
primeiro ponto de contato para as pessoas LGTBI, HSH e MSM que procuram
atenção sanitária em países de investimentos baixos e médios é um âmbito de
atenção sanitária primária. Por outra parte, em muitos países não existem
práticas de atenção sanitária sexual especializada exclusiva para essa
comunidade.

O papel dos médicos, do pessoal de enfermagem e de outros
prestadores de atenção em saúde deve ser esclarecido com respeito a suas
responsabilidades éticas na prestação de atenção solidária a todos os
membros da comunidade. É de suma importância que exista uma relação
terapêutica contínua entre o prestador e o paciente, baseada na confiança e
dirigida às necessidades de saúde do paciente. Ao longo de todo o processo
de tomada de decisões clínicas, as pessoas LGTBI, HSH e MSM, como todos
os demais pacientes, possivelmente confiam que o pessoal de enfermagem e
médico entenderá suas necessidades e abordará a prestação de atenção com
sensibilidade, responsabilidade e sem preconceito. Isso inclui adolescentes e
homens e mulheres adultos que, provavelmente, estejam experimentando sua
sexualidade e que, além disso, não sejam abertos quanto à sua sexualidade
em espaços públicos.

Para um diagnóstico, tratamento e acompanhamento preciso do HIV,
DST e outras situações de saúde, os médicos, o pessoal de enfermagem e
outros prestadores de atenção em saúde guiam-se, fundamentalmente, pelos
antecedentes clínicos destacados. Uma narração genuína sobre os
antecedentes sexuais influi nas decisões clínicas posteriores sobre exames
físicos e nas pesquisas de laboratório que se requeiram. É possível que as
pessoas LGTBI, HSH e MSM não procurem atenção em saúde se não se
sentirem confortáveis para falar de seus antecedentes sexuais com seus
prestadores. Em virtude das capacidades reconhecidas do prestador, de
manter o profissionalismo e prestar atenção ética e personalizada, ele se torna,
portanto, um dos jogadores mais importantes do entorno no qual as pessoas
LGTBI, HSH e MSM expressam suas necessidades de atenção sanitária.

8.11 Princípios para práticas clínicas e compromissos efetivos com
as pessoas LGTBI, HSH e MSM

No documento “Como desenvolver-se no entorno clínico com homens
que têm relações sexuais com homens” (2011)58, o Fórum Mundial sobre HSH
e HIV (MSMGF) propõe algumas pautas assistenciais para esta população.

Evitar uma série de suposições associadas com o comportamento
sexual, a orientação sexual, a identidade sexual ou de gênero e as expressões
comportamentais sexuais de uma pessoa pode dar lugar a uma comunicação
autêntica e solidária, centrada no paciente, que influi na tomada de decisões
clínicas de maneira mais apropriada. Além disso, é importante que os médicos,
o pessoal de enfermagem e outros prestadores de atenção sanitária reflitam
sobre seu papel e responsabilidades éticas para com as necessidades de
saúde das pessoas LGTBI, HSH e MSM no contexto da prestação de serviços
de qualidade.

Alguns possíveis enfoques de liderança são educar os companheiros de
trabalho e pacientes sobre a discriminação social das pessoas LGTBI, HSH e
MSM; ocupar um papel ativo no compromisso a nível comunitário com estas
pessoas; conduzir e lançar programas que mitiguem a homofobia; advogar pela
eliminação de obstáculos estruturais que evitem o aceso à atenção sanitária
delas e deles e expressar opiniões quanto às necessidades das pessoas
LGTBI, HSH e MSM em fóruns relacionados. O conjunto de princípios a seguir
serve ao pessoal de enfermagem, de medicina e a outros prestadores de
atenção em saúde, de pauta geral, sobre a qual teorizar acerca de um
desenvolvimento mais amplo de habilidades e conhecimentos nas práticas
clínicas e nos compromissos efetivos para com essas pessoas:

 Adotar uma atitude imparcial e refletir sobre suas próprias
responsabilidades éticas e morais para com as pessoas LGTBI, HSH e
MSM;

 Estar preparados para prestar a atenção confidencial e anônima necessária
que não comprometa a segurança nem a saúde das pessoas LGTBI, HSH e
MSM;

 Esforçar-se para se comunicar com as pessoas LGTBI, HSH e MSM de
maneira efetiva, para obter uma história social e sexual completa de
maneira respeitosa, solidária e imparcial.

 Melhorar seus conhecimentos sobre áreas que são básicas e integrais para
dedicar-se à realização da prestação da atenção às pessoas LGTBI, HSH e
MSM, por exemplo: (a) práticas e comportamentos sexuais frequentes entre
HSH; (b) os principais obstáculos de saúde e atenção sanitária que
enfrentam as pessoas LGTBI, HSH e MSM; (c) prevenção ante o HIV,
tratamento, atenção e necessidades de apoio destas pessoas e (d) atenção
dirigida a casais e familiares deles e delas.

 Capacitar o pessoal não clínico e funcionários administrativos em seus
respectivos âmbitos clínicos sobre a necessidade de uma maior consciência
sobre as preocupações das pessoas LGTBI, HSH e MSM e sobre as
políticas institucionais contra a discriminação.

 Modelar sua liderança mediante a participação preventiva em estratégias
que mitiguem a discriminação social para com as pessoas LGTBI, HSH e
MSM no âmbito clínico.

 Os modelos de educação de atenção sanitária e de capacitação clínica
devem incluir temas que concernam às pessoas LGTBI, HSH e MSM no
plano de estudos da capacitação, de maneira estruturada e objetiva.

 As associações médicas e de enfermagem profissionais devem ocupar um
papel ativo para conscientizar os prestadores de atenção sanitária e os
sistemas de saúde nos quais trabalham sobre as necessidades e assuntos
de saúde dessas pessoas.

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