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1959

A MEMóRIA DE ERNST JoNES DE UM SILABÁRIO A POSTERIORI

1959 A MEMóRIA DE ERNST JoNES DE UM SILABÁRIO A POSTERIORI EscRITos Jacques Lacan

EscRITos

Jacques Lacan

À memória de Ernest Jones:

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Sobre sua teoria do simbolismo

And bring him out that is but woman's son Can trace me in the tedious ways of art, And hold me pace in deep experiments.

(Henry IV, Parte I, 111-I, 45-47)

Longe da pompa fúnebre na qual nosso colega desaparecido foi homenageado segundo sua dignidade, aqui lhe consagraremos o memorial de nossa solidariedade no trabalho analítico. Se é essa a homenagem que convém à posição de nosso grupo, não elidiremos a emoção que em nós emerge a partir da lembrança de relações mais pessoais. Pontuando-as em três momentos, cuja contingência reflete um homem muito diverso em sua vivacidade: a imperiosidade irres­ trita para com o novato que éramos em Marienbad, ou seja, no último de nossos concílios antes que o vazio viesse atingir a área vienense, contato epidérmico cuja contundência revela-se ainda, após a guerra, em um de nossos escritos; a familiaridade, quando de uma visita ao planalto de Elsted, com que, em meio às cartas de Freud espalhadas sobre uma mesa imensa, para o primeiro volume da biografia em processo de composição, nós o vimos vibrando por nos fazer partilhar as seduções de seu labor, até que o horário da sessão de uma paciente mantida aguardando pôs a isso um fim cuja pressa, com seu toque de compulsão, produziu-nos o efeito de ver a marca de um colar indelével; por fim, a grandeza da carta de julho de 1957, na qual a desculpa por não comparecer à nossa casa de campo só alegou um sofrimento estoicamente explorado para aceitá-lo como o sinal de uma altiva competição com a morte, que perseguia de perto a obra por terminar.

O órgão que é o lnternational Journal of Psycho-analysis, e

que deve tudo a Ernest Jones, de sua duração à sua envergadura, não deixa, em seu número de setembro/outubro de 1958, de fazer surgir entre algumas de suas linhas a sombra com que um poder

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por muito tempo exercido parece continuar a obscurecer quando a noite vem juntar-se a ela: tinta súbita a acusar aquilo que, por seu edifício, ele obliterou de luz. Esse edifício nos solicita. É que, por metafórico que seja, ele muito se presta para nos lembrar o que distingue a arquitetura da construção: ou seja, um poder lógico que ordena a arquitetura para-além do que a construção suporta de utilização possível. Aliás, nenhuma construção, a menos que se reduza ao barraco, pode prescindir dessa ordem que a aparenta com o discurso. Essa lógica só se harmoniza com a eficácia ao dominá-la, e a discordância entre elas não é, na arte da construção, um fato apenas eventual. Por aí se avalia o quanto essa discórdia é mais essencial na arte da psicanálise, cuja experiência de verdade determina o campo - de memória e de significação -, ao passo que os fenômenos que nela se revelam como os mais significativos mantêm-se como motivos de escândalo em relação aos fins utilitários em que se apóia todo poder. Eis porque nenhuma consideração de poder, nem que seja a mais legítima a concernir à construção profissional, 1 pode intervir no discurso do analista sem afetar o próprio propósito de sua prática, ao mesmo tempo que seu médium. Se Ernest Jones foi aquele que mais fez por assegurar aos valores analíticos uma certa circulação oficial, ou até um status reconhecido pelos poderes públicos, será que não nos podemos propor interrogar a imensa apologia que é sua obra teórica, para aquilatar sua dignidade? Isso só pode efetuar-se no plano de uma amostra de seu trabalho, e escolhemos o artigo publicado em outubro de 1916,

no British Journal of Psychology (IX, 2, p. 181, 229), sobre a

teoria do simbolismo, e desde então reproduzido em cada uma

  • 1. A finalidade do poder é articulada como tal, quanto ao fator de degradação

que acarreta no training [formação] analítico, num artigo publicado no número de novembro-dezembro de 1958 do IJP, sob a assinatura de Thomas S. Szasz. Foi dessa mesma finalidade que, em nosso relatório no Congresso de Royau­ mont em julho passado, denunciamos a incidência na direção do tratamento. O autor citado acompanha seus efeitos na organização externa do training,

em especial na seleção dos candidatos, sem ir à raiz de sua incompatibilidade com o próprio tratamento psicanalítico, isto é, com a primeira etapa do training.

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Figuração da libido, eis como um discípulo de Jung interpre- taria o aparecimento da serpente num sonho, numa visão ou num [701] desenho, manifestando inadvertidamente que, se a sedução é eterna, ela é também sempre a mesma. Pois aí está o sujeito ao alcance da captura por um eros autístico que, por mais renovado que seja seu aparato, tem um ar de Velho Conhecido. Em outras palavras, a alma, cega lúcida, lê sua própria natureza nos arquétipos que o mundo lhe reverbera: como não acabaria por se acreditar a alma do mundo? O estranho é que, em sua pressa de querer saber dessa alma, os pastores calvinistas tenham sido ludibriados por ela. 7 Convém dizer que ter estendido essa mão à bela alma do refúgio helvético foi, para um discípulo de Brücke, progenitura de Helmholtz e de Du Bois-Reymond, um sucesso bastante irônico. Mas essa é também a prova de que não há compromisso possível com a psicologia, e de que, a admitirmos que a alma conheça, com um conhecimento anímico, isto é, imediato, sua própria estrutura - nem que seja naquele momento de cair no sono em que Silberer nos roga reconhecermos, num recheio de doce que se introduz numa massa folhada, o "simbolismo fun­ cional" das camadas do psiquismo -, nada mais pode separar o pensamento do devaneio das "núpcias químicas" . Não é fácil, contudo, captar o corte tão ousadamente traçado por Freud na teoria da elaboração do sonho, a não ser recusando, pura e simplesmente, a ingenuidade psicológica dos fenômenos valorizados pelo talento de observação de Silberer, e foi justa­ mente essa a triste saída por que se decidiu Freud na discussão que fez dela na edição de 1914 da Traumdeutung, quando acabou proferindo que os chamados fenômenos não passam de obra de

"cabeças filosóficas, 8 levadas à percepção endopsíquica

e até ao

delírio de observação" , de metafísicos da alma, sem dúvida, caberia dizer - o que Jones leva ainda mais longe, com efeito,

elevando em um tom a nota de aversão que se permite mostrar por isso.

7 .

O autor destas

linhas sustenta que somente a Prostituta romana pode, sem

prejuízo, conviver com o que ela rejeita.

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Rejubilemo-nos por não haverem entrado por essa porta as hierarquias espirituais, junto com as materiais, as pneumáticas, [702] as psíquicas e tutti quanti, se virmos nisso a origem da presunção daqueles que se crêem "psicanalistas natos" . Esse não é, no entanto, um argumento que seja utilizável aqui, e Jones não pensa em fazê-lo. Quanto à serpente, ele retifica que ela é símbolo não da libido, noção energética que, como idéia, só se destaca num alto grau de abstração, mas do falo, na medida em que este lhe parece característico de uma "idéia mais concreta" , ou até concreta no limite máximo. Pois é essa a via escolhida por Emest Jones para evitar o perigoso retomo que o simbolismo parece oferecer a um misti­ cismo, o qual, uma vez desmascarado, lhe parece excluir-se por si só de qualquer consideração científica. O símbolo se desloca de uma idéia mais concreta (ao menos é assim que ele se expressa), na qual tem sua aplicação primária, para uma idéia mais abstrata, com a qual se relaciona secunda­ riamente, o que quer dizer que esse deslocamento só pode ter lugar num único sentido. Detenhamo-nos nisso por um instante:

Para convir que, se a alucinação do despertar faz com que, na histérica princeps da análise, 9 seu braço - entorpecido sob o peso de sua cabeça sobre o ombro, pressionado que ficara contra o espaldar de onde ele se estendia, quando ela adormeceu, em direção a seu pai, velado nos estertores da morte - esse braço seja prolongado por uma serpente, e até por tantas serpentes quantos são os dedos dela, é do falo e nada mais que essa serpente é símbolo. Mas, a quem pertence esse falo "concretamente" , eis o que será menos fácil de determinar naquele registro da psica­ nálise de hoje tão graciosamente rotulado por Raymond Queneau de liquette ninque 10 • Que esse falo, com efeito, seja reconhecido por uma posse que provoca a inveja do sujeito, por mais fêmea que ela seja, não resolve nada, se pensarmos que ele só surge tão inoportunamente por estar de fato ali no presente, ou seja,

9 . Cf. o caso de Anna 0., não reproduzido nas GW, como pertencente a Breuer. Encontraremos essa passagem evocada na p.38 da Standard Edition dos Studies (vol.II), ou na p.30 da edição original dos Studien über Hysterie.

10 . Hic et nunc pronunciado em francês. (N.E.)

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na já citada liquette, ou, muito simplesmente, na cama em que bate as botas junto com o moribundo. É justamente esse o problema sobre o qual Emest Jones, onze [703] anos depois, daria um trecho digno da antologia, pela imagem de patinação dialética que ele demonstra ao desenvolver no contrapé das posições assumidas por Freud sobre a fase fálica, unicamente através de afirmações reiteradas concordando intei­ ramente com elas. Mas, não importa o que devamos pensar desse debate lamentavelmente abandonado, a pergunta pode ser for­ mulada a Emest Jones: se o falo é mesmo o objeto da fobia ou da perversão, com as quais ele relaciona alternadamente a fase fálica, como foi que permaneceu no estado de "idéia concreta" ? Em todos os casos, ele tem de reconhecer que o falo assume uma aplicação "secundária". Pois é exatamente isso que Jones diz, quando se empenha em distinguir com grande habilidade as fases proto- e deuterofálica. E o falo, de uma à outra dessas fases, como idéia concreta dos símbolos que irão substituí-lo, só pode estar ligado a si mesmo por uma similitude tão concreta quanto essa idéia, pois, de outro modo, tal idéia concreta não seria outra coisa senão a clássica abstração da idéia geral ou do objeto genérico, o que deixaria a nossos símbolos um campo de regressão que é o que Jones tenciona refutar. Em suma, anteci­ pamos, como se vê, a única noção que permite conceber o simbolismo do falo, que é a particularidade de sua função como significante. 11 A bem da verdade, não deixa de ser patético acompanhar a espécie de rodeio dessa função, imposta a Jones por sua dedução. É que ele reconheceu prontamente que o simbolismo analítico só é concebível ao ser relacionado com o fato lingüístico da metáfora, o qual lhe serve de ponto de apoio de uma ponta à outra de sua exposição. Se ele não consegue encontrar aí seu caminho, é, segundo todas as aparências, em dois tempos, na medida em que o erro

11. Esta digressão não é gratuita. É que, depois de seu "desenvolvimento precoce da sexualidade feminina", de 1927, e de sua "fase fálica" de 1932, Jones concluiria pela monumental declaração de 1935 diante da Sociedade de Viena, declaração de completa adesão ao genetismo das fantasias de que Melanie Klein fez o eixo de sua doutrina, e onde qualquer reflexão sobre o simbolismo na psicanálise permaneceu encerrada, até nosso relatório de 1953.

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de seu ponto de partida decorre, a nosso ver, da insidiosíssima inversão de seu pensamento pela qual sua necessidade de serie­ dade no tocante à análise se prevalece, sem que ele a analise, da seriedade da necessidade. Disso é testemunho esta frase de sua controvérsia com Sil- [7 04] berer: 1 2 "Se há alguma verdade na psicanálise, ou, muito sim­ plesmente, numa psicologia genética, então os complexos pri­ mordiais que se manifestam no simbolismo devem ser 1 3 as fontes permanentes da vida mental e, falando propriamente, o contrário de puras figuras de estilo." Observação que visa a uma certa contingência que Silberer assinala, justificadamente, tanto na aplicação dos símbolos quanto nas repetições a que eles dão consistência, 14 para contrastá-la com a constância das necessi- dades primordiais no desenvolvimento (necessidades orais, por exemplo, cuja promoção crescente Jones seguiria). É para reencontrar esses dados originais que serve esse retomo à metáfora, através da qual Jones tenciona compreender o sim­ bolismo. Portanto, é como que retrocedendo e em prol das necessidades de sua polêmica que ele entra na referência lingüística, mas ela se liga tão de perto a seu objeto, que é suficiente para retificar sua visada. Nisso ele encontra o mérito de articular seu próprio desmen­ tido, ao fornecer a lista dessas idéias primárias, sobre as quais observa com justeza que são pouco numerosas e constantes, ao contrário dos símbolos, sempre abertos à adjunção de novos símbolos que se empilham sobre essas idéias. São elas, em suas palavras, "as idéias de si mesmo e dos parentes imediatamente consangüíneos, e os fenômenos do nascimento, do amor e da morte" . Todas elas "idéias" em que o que há de mais concreto é a rede do significante, onde é preciso que o sujeito já esteja capturado para que nela possa se constituir: como ele mesmo, como situado em seu lugar num parentesco, como existente,

1 2 . Op. cit., p. 125. 1 3 . Must be, grifo nosso. 1 4 . Jones, nesse ponto, chega até a se valer da arma analítica, destacando como um sintoma o emprego do termo ephemeral [efêmero], apesar de logicamente justificado no texto de Silberer.

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como representante de um sexo, e até como morto, pois essas idéias só podem passar por primárias ao se abandonar qualquer paralelismo com o desenvolvimento das necessidades. Que isso não seja ressaltado é algo que só se pode explicar por uma fuga ante a angústia das origens, e nada deve à pressa da qual mostramos a virtude conclusiva, quando ela se funda- [705] menta na lógica. 15 Esse rigor lógico, acaso o mínimo que se pode exigir do analista não é que ele o mantenha nessa angústia, ou, dito de outra maneira, que ele não poupe da angústia aqueles a quem ensina, nem mesmo para assegurar sobre eles seu poder? É que Jones busca sua via, mas onde é traído por seu melhor recurso, pois os retóricos ao longo das eras tropeçaram na metáfora, retirando-lhe a oportunidade de retificar seu próprio acesso com base no símbolo. É o que aparece no fato de ele estabelecer a comparação (simile, em inglês) como origem da metáfora, tomando "João é tão valente quanto um leão" por modelo lógico de "João é um leão" .

É

de

surpreender

que

seu

senso

tão

vívido

da

experiência

analítica não o alerte para a maior densidade significativa da segunda enunciação, ou seja, que, reconhecendo-a como mais concreta, ele não lhe confira sua primazia. Sem esse passo, ele não consegue formular o que, no entanto, a interpretação analítica toma quase evidente, ou seja, que a relação do real com o pensamento não é a do significado com o significante, e que a primazia que tem o real em relação ao pensamento se inverte do significante para o significado. O que confirma aquilo que em verdade acontece na linguagem, onde os efeitos de significado são criados pelas permutações do significante. Assim, se Jones disceme que, de certo modo, é a memória de uma metáfora que constitui o simbolismo analítico, a chamada realidade do declínio da metáfora oculta-lhe a razão disso. Ele não vê que foi o leão como significante que se desgastou até o ão, ou mesmo até o ão-ão cujo rugido bonachão serve de vinheta aos ideais glutões da Metro-Goldwyn-Mayer - com seu clamor,

15. Cf., supra, "O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada", p.l97.

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ainda que pavoroso para os perdidos na selva, atestando melhor as origens de seu emprego para fins de sentido. Jones acredita, ao contrário, que o significado tornou-se mais poroso, que passou para o que os gramáticos chamam de sentido figurado. Assim, ele deixa de ver essa função às vezes tão sensível no símbolo e no sintoma analítico, por ser uma espécie de regene­ ração do significante. Perde-se, ao contrário, repetindo uma falsa lei do desloca- mento do semantema, segundo a qual este sempre iria de uma [7061 significação particular para uma mais geral, de uma concreta para uma abstrata, de uma material para outra mais sutil, chamada de figurada ou até moral. Como se o primeiro exemplo a pescar nas notícias do dia não mostrasse sua caducidade: a palavra lourd [pesado], porquanto é esta que se nos oferece, atestada como havendo a princípio significado lourdeau [rude] 1 6 , ou até étourdi [aturdido] 1 7 (no século XIII), e portanto, ter tido um sentido moral, antes de ser aplicada, em época não muito anterior ao século XVIII, como nos ensinam Bloch e Wartburg, a uma propriedade da matéria - a qual, para não nos determos em tão belo caminho, convém notar que é enganosa, na medida em que, por se opor ao leve, conduz à tópica aristotélica de uma gravidade qualitativa. Iremos nós, para salvar a teoria, creditar ao uso comum das palavras um pressentimento da pouca realidade de uma física assim? Mas que dizer, justamente, da aplicação que essa palavra nos forneceu, ou seja, à nova unidade da reforma monetária francesa:

que perspectiva haveremos de abrir, de vertigem ou de gravidade, a que transe da espessura recorrer, para situar esse novo vôo do próprio para o figurado? Não seria mais simples aceitarmos aqui a evidência material de que não há outra mola do efeito meta­ fórico senão a substituição de um significante por outro como

1 6 . Lourdllud tem ainda as acepções de molengão, pesadão, grosseiro etc., enquanto étourdi se insere nos campos semânticos de estúrdio, aturdido, estou­ vado, irrefletido; estabanado, cabeça-de-vento; travesso; leviano, precipitado etc. (N.E.)

1 7 . Antes, sem dúvida, o sujo.

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círculo vicioso ao deduzir disso que há uma realidade mais profunda, mesmo qualificada de psíquica, que se manifeste aí. Todo o esforço de Jones visa justamente a negar que se possa preservar o mais ínfimo valor num simbolismo arcaico, compa­ rado a uma apreensão científica da realidade. Mas, como ele continua a referir o símbolo às idéias, entendendo por isso os suportes concretos que o desenvolvimento supostamente lhe traz, ele mesmo não consegue livrar-se de conservar até o fim a noção de um condicionamento negativo do simbolismo, o que o impede de lhe apreender a função de estrutura. E, no entanto, quantas provas não nos dá ele de sua justeza de orientação, pelos encontros fortuitos que tem em seu caminho? - como quando se detém na transposição que uma criança faz do "qüém-qüém" que ela isola como significante do grasnido do pato, não apenas para o pato, de quem ele é o atributo natural, mas para uma série de objetos, que abrange as moscas, o vinho e até uma moedinha, desta vez servindo-se do significante como metáfora. Por que terá ele que ver nisso apenas uma nova atribuição, baseada na apercepção de uma similitude volátil, ainda que a autoridade da qual se reveste em seu empréstimo, e que não é [708] ninguém menos do que Darwin, se contente em que a moedinha seja cunhada com o selo da águia para incluí-la nessa categoria? Pois, por mais complacente que seja a noção de analogia, para estender a abrangência do volátil até a diluição do líquido, talvez a função da metonímia, enquanto sustentada pela cadeia signi­ ficante, resgate melhor aqui a contigüidade da ave com o líquido em que ela patinha. Como não lamentar, neste ponto, que o interesse votado à criança pela análise desenvolvimentista não se detenha no mo­ mento, na aurora mesma do uso da fala, em que a criança que designa por um "au-au" aquilo que, em alguns casos, houve quem se empenhasse em chamar unicamente pelo nome de " cão", transpõe esse "au-au" para quase qualquer coisa - e como não lamentar que ela não se detenha, além disso, no momento posterior em que ela declara que o gato faz "au-au" e o cachorro faz "miau", mostrando com seus soluços, quando alguém pre­ tende corrigir sua brincadeira, que, afinal, essa brincadeira não é gratuita?

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sonhadora, como sendo o significante do esquecimento do guar­ da-chuva, em sua última sessão de análise. É nisso mesmo que está o que os analistas mais clássicos chamaram de interpretação "para a saída" , se nos permitirem traduzir desse modo a expres­ são, introduzida em inglês, reconstruction upward. 22 Para dizê-lo, a qualidade de concretude numa idéia não é mais decisiva quanto a seu efeito inconsciente do que o é a do peso num corpo pesado quanto à rapidez de sua queda. É preciso afirmar que é a incidência concreta do significante na submissão da necessidade à demanda que, recalcando o desejo na posição de desconhecido, dá ao inconsciente sua ordem. Que da lista dos símbolos, já considerável, frisa Jones, ele observe - frente à aproximação que ainda não é a mais grosseira de Rank e Sachs (terceira característica do símbolo: inde­ pendência das determinações individuais) - que ela se mantém, ao contrário, aberta à invenção individual, acrescentando apenas que, uma vez promovido, um símbolo não muda mais de desti­ nação, aí está um comentário muito esclarecedor a ser resgatado no catálogo, meritoriamente preparado por Jones, das idéias primárias no simbolismo - permitindo-nos completá-lo. Pois essas idéias primárias designam os pontos em que o sujeito desaparece sob o ser do significante; quer se trate, com efeito, de ser ele mesmo, de ser pai, de ser nascido, de ser amado ou de estar morto, como não ver que o sujeito, se ele é o sujeito que fala, só se sustenta neles pelo discurso? Evidencia-se, por conseguinte, que a análise revela que o falo [710] tem a função de significante da falta-a-ser que determina no sujeito sua relação com o significante. O que confere importância ao fato de todos os símbolos que o estudo de Jones leva em conta serem símbolos fálicos. Portanto, desses pontos imantados pela significação sugeridos por seu comentário, diríamos que eles são os pontos de umbili­ cação do sujeito nos cortes do significante - sendo o mais fundamental deles a Urverdriingung em que Freud sempre in­ sistiu, ou seja, a reduplicação do sujeito provocada pelo discurso,

22. Cf. R.M. Loewenstein, "Some thoughts on interpretation in the theory and practice of psychoanalysis", Psa. Study of the Child, XII, 1957, Nova York, IUP, p.143, e "The problem of interpretation", Psa. Quart., XX.

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ainda que permaneça mascarada pela profusão daquilo que ele evoca como ente. A análise nos mostrou que é com as imagens que cativam seu eros de indivíduo vivente que o sujeito vem a provar sua implicação na seqüência significante. É claro que o indivíduo humano não deixa de apresentar uma certa complacência com esse despedaçamento de suas imagens -e a bipolaridade do autismo corporal favorecido pelo privilégio da imagem especular, 23 dado biológico, se prestará singularmente a que essa implicação de seu desejo no significante assuma a forma narcísica. Mas não são as conexões de necessidade, das quais essas imagens se destacam, que sustentam sua incidência perpétua; antes, é a seqüência articulada em que elas se inscreveram que estrutura sua insistência como significante. É por isso mesmo que a demanda sexual, pelo simples ter que se apresentar oralmente, ectopiza no campo do desejo "genital" imagens de introjeção. A idéia do objeto oral que eventualmente se tornaria seu parceiro, por se instalar cada vez mais no cerne da teoria analítica, nem por isso deixa de ser uma elisão, fonte de erro. Pois o que se produz, em última instância, é que o desejo encontra sua base fantasística naquilo a que se chama defesa do sujeito diante do parceiro, tomado como significante da devora­ ção consumada. (Que ponderem sobre nossos termos aqui.) É na reduplicação do sujeito pelo significante que está a mola do condicionamento positivo pelo qual Jones leva adiante a busca [711] daquilo a que chama simbolismo verdadeiro, aquele que a análise descobriu em sua constância e redescobre, sempre novo, a se articular no inconsciente. Pois é suficiente uma composição mínima da bateria dos significantes para que ela baste para instituir na cadeia signifi­ cante uma duplicidade que resgata sua reduplicação do sujeito, e é nesse redobramento do sujeito da fala que o inconsciente como tal consegue se articular, ou seja, num suporte que só se percebe ao ser percebido como tão estúpido quanto uma cripto­ grafia que não tivesse cifra.

23 . Cf. nossa concepção do estádio do espelho e o fundamento biológico que lhe demos na prematuração do nascimento.

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Nisso jaz a heterogeneidade do "simbolismo verdadeiro" que Jones em vão procura captar, e que lhe escapa precisamente na medida em que ele conserva a miragem do condicionamento negativo, que falsamente deixa o simbolismo, em todos os "níveis" de sua regressão, confrontado com o real. Se, como dizemos, o homem está aberto para desejar tantos outros em si mesmo quanto seus membros têm nomes fora dele, se ele tem de reconhecer tantos membros disjuntos de sua unidade, perdida sem jamais ter existido, quantos existem entes que são a metáfora desses membros, vê-se também que está resolvida a questão de saber que valor de conhecimento têm os símbolos, já que são esses mesmos membros que retomam para ele depois de terem vagado pelo mundo sob uma forma alienada. Esse valor, considerável quanto à práxis, é nulo quanto ao real. Impressiona muito ver o esforço que custa a Jones estabelecer essa conclusão, exigida por sua postura desde o princípio, pelos caminhos que ele escolheu. Ele a articula através de uma distinção entre o "simbolismo verdadeiro", o qual concebe, em síntese, como o produtor de símbolos, e os "equivalentes simbólicos" que ele produz, e cuja eficácia só se mede pelo controle objetivo do domínio que estes têm sobre o real. Pode-se observar que isso é requerer da experiência analítica que ela dê à ciência seu status e, portanto, dela muito distanciar-se. Que pelo menos se reconheça que não somos nós que nos encar­ regamos aqui de desencaminhar nossos praticantes, e sim Jones, a quem ninguém jamais censurou por fazer metafísica. Mas cremos que ele está enganado. Pois só a história da ciência pode aqui ser decisiva, e ela é fulgurante ao demonstrar, [712] ao dar à luz a teoria da gravitação, que foi somente a partir do extermínio de qualquer simbolismo dos céus que se puderam estabelecer as bases, na terra, da física moderna, isto é: que, de Giordano Bruno a Kepler e de Kepler a Newton, por tanto tempo se manteve uma exigência de atribuição de uma forma "perfeita" às órbitas celestes (na medida em que implicava, por exemplo, a preponderância do círculo sobre a elipse), que essa exigência criou um obstáculo ao surgimento das equações mestras da teoria ?4

2 4 .

Cf.

Alexandre

Koyré, From the Closed

World to the Infinite Universe,

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operação técnica é proibida, por ser incompatível com um dado efeito das leis da aliança e do parentesco, no que conceme, por exemplo, ao usufruto da terra, que a operação que vem substituir a primeira toma-se propriamente simbólica de uma satisfação sexual - só que, a partir daí, submetida ao recalque -, ao mesmo tempo que se oferece para sustentar a concepções natu­ ralistas de molde a obstar ao reconhecimento científico da união dos gametas como princípio da reprodução sexuada. O que é estritamente correto, na medida em que o simbolismo é tido como solidário ao recalque. Vê-se que, nesse grau de rigor na precisão paradoxal, podemos legitimamente nos indagar se o trabalho de Emest Jones não realizou a essência do que ele podia fazer em sua época, se ele não foi tão longe quanto lhe era possível ir no sentido da indicação que destacou de Freud, citando-a da Traumdeutung: 2 6 "O que hoje é simbolicamente ligado provavelmente era unido, nos tempos primevos, por uma identidade conceitual e lingüística. A relação simbólica parece ser um signo residual e uma marca dessa identidade de outrora." E no entanto, que não teria ele ganho, para apreender o verdadeiro lugar do simbolismo, ao se lembrar de que este não havia ocupado lugar algum na primeira edição da Traumdeutung, o que implica que a análise, tanto nos sonhos quanto nos sintomas, só tem que levá-lo em conta como subordinado às molas mestras da elaboração que estrutura o inconsciente, ou seja, à conden­ sação e ao deslocamento, em primeiro lugar - a nos atermos a esses dois mecanismos, uma vez que eles teriam bastado para suprir a falta de informação de Jones no tocante à metáfora e à [714] metonímia como efeitos primeiros do significante. Talvez ele houvesse então evitado formular, contrariando sua própria elaboração, da qual cremos ter seguido as linhas mestras, e contrariando a advertência expressa do próprio Freud, que o que é recalcado no retiro metafórico do simbolismo é o afeto. 27

2 6 . Jones, loc. cit., p.l05. 27. Se Jones aplicasse a si mesmo a suspeita analítica, ter-se-ia alertado para a estranheza pela qual ele próprio foi afetado (a curious statement, profere, loc. cit., p.l23-4) ante a observação de Silberer, no entanto bem fundada, de "que a universalidade ou a validade geral e a inteligibilidade de um símbolo variam

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recuperado pelo punch do

inglês, 29 para, transformado em pun­

chinello, resgatar a adaga, o dintel e o instrumento rotundo que dissimula, e que lhe abre o caminho por onde baixar, meninote, à sepultura da gaveta, onde os carregadores, ciosos do pudor das Henriettes, fingirão, fingirão nada ver, antes que ele tome a subir, ressuscitado em sua valentia. Falo alado, Parapilla, 30 fantasia inconsciente das impossibili­ dades do desejo masculino, tesouro em que se esgota a impotência infinita da mulher, esse membro para sempre perdido por todos aqueles - Osíris, Adônis, Orfeu - dos quais a ternura ambígua da Deusa-Mãe tem que reunir o corpo despedaçado, aponta-nos, a ser reencontrada sob cada ilustração dessa longa pesquisa sobre o simbolismo, não apenas a função eminente que ele desempenha ali, mas o modo como a esclarece. É que o falo, como mostramos alhures, é o significante da própria perda que o sujeito sofre pelo despedaçamento do sig­ nificante, e em parte alguma a função de contrapartida a que um objeto é arrastado, na subordinação do desejo à dialética simbólica, aparece de maneira mais decisiva. Aqui redescobrimos a seqüência anteriormente indicada, atra­ vés da qual Emest Jones contribuiu essencialmente para a ela­ boração da fase fálica, comprometendo-se um pouco mais com ela no recurso ao desenvolvimento. Não será esse o limiar do labirinto em que a própria clínica parece ter-se enredado, e do [716] retomo a um renovado desconhecimento da importância essencial do desejo, que se ilustra por um tratamento de contenção ima-

29 . Em petit dindon (peruzinho ), dindon significa o animal peru e também "tolo" ou "parvo" , além de "bode expiatório" ou "pato" ; petit poulet (franguinho, frangote) tem na linguagem coloquial o sentido de "pombinho" e "queridinho", como o pullus latino, o qual, como adjetivo, significa também "pequenino", "escuro" ("castanho escuro" ) e ainda, em linguagem figurada, "de pobre" ; o punch do inglês, além de ser o diminutivo de Punchinello, reúne as acepções de "murro" ou "soco" , "furador" , "buril" , "ímpeto" , "vigor" , e ainda "atar­ racado" (referido ao homem) e "satisfeito" . (N.E.) 30 . Título de um poema obsceno em cinco cantos, supostamente traduzido do italiano, muito livremente ilustrado e publicado, sem indicação da editora, em Londres, no ano de 1782. É a palavra que faz surgir nele, sob uma forma prestimosa para todas aquelas que a pronunciam, o objeto a cuja glória são consagrados esses cantos, e que não poderíamos designar melhor de que chamando-o de falo universal (como se costuma dizer "chave mestra" [clef

universelle]).

De um

silabário a posteriori - 1959 729

diferença qualitativa de uma sensação - imaginar um ressalto tangível onde quer que isso exista no real, a fortiori uma camada, seja ela qual for, que nele constitua como que estra- [721] tificado, o que significa como que unitário, o campo do psíquico e até da simples representação. Portanto, seria perfeitamente fútil qualificar de fenômenos funcionais os limiares, ainda que passíveis de inscrever, do sentimento, em qualquer domínio de um pesado e de um leve igualmente carregados de simbolismo, como veremos mais adiante, se com isso pensarmos conferir-lhes o menor valor na teoria da gravitação, que só ganhou forma ao tomar em­ prestados significantes inteiramente vindos de outro lugar. Jones, como nós, julga esse ponto pertinente na questão, e é por isso que o discute e decide similarmente. Não percebe ele, no fundo, até que ponto isso equivale a renunciar à antiga fantasia do conhecimento? Importa-nos apenas registrar seu recurso à decência do pensamento psicanalítico. Mas esta é também a oportunidade de apontar que esse recurso, ele o enfraquece, ao articulá-lo somente pelo que o figurado da metáfora tem de ceder diante do concreto do simbolismo. Pois é a partir desse concreto que ganha força e argumento toda a ficção que, reservando ao simbolismo as cotas do primitivismo, do arcaísmo, da indiferenciação e até da desin­ tegração neurológica, concorre para que não se veja nele senão a virtualidade das funções de síntese. Que se lhes acrescente sua potencialidade só faz coroar o erro, envolvendo-o em misticismo. Ao cravar a espada nesse terreno portanto secundário em 1916, Jones triunfa, sem dúvida. Havemos de desculpá-lo por não evitar o perigo que iria surgir do lado de cá: precisamente o da psicologização de que a prática da psicanálise iria carre­ gar-se cada vez mais, em oposição à descoberta de Freud. Pois nenhum pudor prevalece contra um efeito do nível da profissão, o do recrutamento do praticante para os serviços em que a psicologização é uma via muito propícia para toda sorte de exigências bem especificadas no social: como recusar, àquilo de que se é o suporte, falar sua linguagem? Na pergunta assim formulada, nem sequer se veria malícia. A tal ponto a psica­ nálise não é mais nada, a partir do momento em que esquece que sua responsabilidade primeira é para com a linguagem.

  • 730 Escritos [Écrits[ - ]acques Lacan

Por isso é que Jones seria muito fraco (too weak, como nos repetiram) para dominar politicamente o annafreudismo. Termo com que designamos um freudismo reduzido ao uso de anto­ logias,32 e que é sustentado por Freud Anna. Que Jones, contrariando esse clã, tenha preservado a sorte dos k:leinianos, é suficiente para mostrar que ele se opunha a isso. Que tenha marcado em Viena sua completa adesão a Melanie Klein, por fracas que devessem parecer-lhe, compa- radas à sua própria exigência, as conceituações dela, basta também para mostrar sua fidelidade ao procedimento propria- mente analítico. E, já que foi a propósito da discussão que ele dominara, a da fase fálica na mulher, que essa adesão foi levada para aquele local, forneçamos a ajuda de um comentário ao que nos foi demonstrado da escassa acuidade de alguns para apreender nossa colocação aqui. Ressaltamos em seu devido lugar o fato espantoso de Jones haver permanecido surdo ao alcance de seu próprio catálogo das " idéias primárias" , ao agrupar os símbolos no inconsciente. Pois, ao produzir esse catálogo para corroborar sua afirmação de que o concreto fundaria o verdadeiro símbolo, ele só fez salientar mais, dessa afirmação, a contraverdade. É que não há nenhuma dessas idéias que falte no concreto, por só se sustentar no real através do significante, e a tal ponto que poderíamos dizer que elas só fundamentam uma realidade ao destacá-la contra um fundo de irreal: a morte, o desejo, o nome do pai. Seria, pois, inútil esperar que Jones se apercebesse de que a função simbólica deixa transparecer o ponto nodal, no qual um símbolo aparece no lugar da falta constituída pela " falta em seu lugar" , necessária no começo da dimensão de deslocamento de onde provém todo o funcionamento do sím­ bolo. O símbolo da serpente, como sugerimos logo de início, na própria modulação da frase em que evocamos a fantasia pela qual Anna O. cai no sono nos Estudos sobre a histeria, dessa

[722]

32. À l'usage d 'anas, trocadilho com o nome próprio. (N.E.)

De um silabário a posteriori - 1959 733

O nó do fenômeno funcional não passa de uma falsificação, por esse critério, e não é à toa que Jones finge que ele acentua o primeiro. Mas desfazer o segundo não toma o primeiro mais tratável. Um nó que não se pode desfazer é a estrutura do símbolo, aquela que faz com que só se possa fundamentar uma identi­ ficação se alguma coisa contribuir para decidir a questão.

(1966).