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Letras

licenciatura língua portuguesa
* graduação a distância 2° Período

Teoria da Literatura II
profº responsável
Leontino Filho

Teoria da Literatura II


Tereza Virginia de Almeida

Período

Florianópolis - 2008

Felipe Oliveira Gall Revisão gramatical: Verônica Ribas Cúrcio Design Instrucional Responsável: Isabella Benfica Barbosa Designer Instrucional: Verônica Ribas Cúrcio . Kelly Cristine Suzuki Responsável: Thiago Rocha Oliveira Adaptação do Projeto Gráfico: Laura Martins Rodrigues.Governo Federal Presidente da República: Luiz Inácio Lula da Silva Ministro de Educação: Fernando Haddad Secretário de Ensino a Distância: Carlos Eduardo Bielschowky Coordenador Nacional da Universidade Aberta do Brasil: Celso Costa Universidade Federal de Santa Catarina Reitor: Alvaro Toubes Prata Vice-Reitor: Carlos Alberto Justo da Silva Secretário de Educação a Distância: Cícero Barbosa Pró-Reitoria de Ensino de Graduação: Yara Maria Rauh Muller Departamento de Educação à Distância: Araci Hack Catapan Pró-Reitoria de Pesquisa e Extensão: Débora Peres Menezes Pró-Reitoria de Pós-Graduação: José Roberto O’Shea Pró-Reitor de Desenvolvimento Humano e Social: Luiz Henrique Vieira Silva Pró-Reitor de Infra-Estrutura: João Batista Furtuoso Pró-Reitor de Assuntos Estudantis: Cláudio José Amante Centro de Ciências da Educação: Carlos Alberto Marques Centro de Ciências Físicas e Matemáticas: Méricles Thadeu Moretti Centro de Filosofia e Ciências Humanas: Maria Juracy Filgueiras Toneli Curso de Licenciatura Letras-Português na Modalidade a Distância Diretora Unidade de Ensino: Viviane M. Thiago Rocha Oliveira Diagramação: Gabriela Dal Toé Fortuna. Heberle Chefe do Departamento: Zilma Gesser Nunes Coordenadoras de Curso: Roberta Pires de Oliveira e Zilma Gesser Nunes Coordenador de Tutoria: Josias Ricardo Hack Coordenação Pedagógica: LANTEC/CED Coordenação de Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem: Hiperlab/CCE Comissão Editorial Tânia Regina Oliveira Ramos Izete Lehmkuhl Coelho Mary Elizabeth Cerutti Rizzati Equipe Coordenação Pedagógica Licenciaturas a Distância EaD/CED/UFSC Núcleo de Desenvolvimento de Materiais Produção Gráfica e Hipermídia Design Gráfico e Editorial: Ana Clara Miranda Gern. Karina Silveira Figuras: Lissa Capeleto.

Teoria da Literatura II / Tereza Virgínia de Almeida. 3. sem a prévia autorização. Ficha Catalográfica A447t Virgínia de Almeida. : 28cm ISBN 978-85-61482-11-4 1. Narrativa. Tempo. I. por escrito.Copyright © 2008. Lugares textuais. por fotocópia e outros. por qualquer meio eletrônico. transmitida e gravada. Tereza. Título. 2008.01 Catalogação na fonte elaborada na DECTI da Biblioteca da UFSC . Universidade Federal de Santa Catarina/LLV/CCE/UFSC Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida. 2. CDU 82. da Coordena- ção Acadêmica do Curso de Licenciatura em Letras-Português na Modalidade a Distância. 95p.— Florianópolis : LLV/CCE/UFSC.

....3 Figuras de Duração.......................................13 1...................................................29 3......................................................................17 2.........................................2 Narrativa e Experiência Humana..........13 1.. 7 Unidade A..........................................2 Os Diferentes Tempos na Narrativa..................................1 Personagem como Sintoma Ficcional...........................3 Personagem Plana ePersonagem Redonda..................33 4  Narrador e Foco Narrativo...............................................................................................................................................25 Unidade B...................................................54 5............................2 O Foco Narrativo...........................................................................62 5....... Autor e seus Lugares na Narrativa.......................................................................18 2.........................................37 4.........................2 Autor-empírico e Autor-modelo......................1 O Narrador.................11 1  A Temporalidade e a Experiência..........................................................42 Referências.................................................................3 Considerações Finais...14 2  Tempo e Figuras de Duração............................................................................1 Leitor-empírico x Leitor-modelo.................... Linguagem e Personagem.......................66 .................................................................................31 3.........2 Personagem x Ser Humano.........................................................51 5..............4 Outras Tipologias para a Abordagem da Personagem de Ficção............................27 3  Leitor..............................................1 Introdução....17 2...........................................................................................................47 Unidade C...........................................................29 3..........................................21 Referências............................................1 A Narrativa Histórica e a Narrativa Ficcional.............................................................................................................................Sumário Apresentação.................................................37 4.........49 5  Ficção..........................51 5...............................................................................................................................................................

.....................................................71 Unidade D..........................................87 10  Algumas Palavras sobre Você e a Narrativa...................95 ...........................2 A Recepção Criativa......................................................... .............................................................................85 9....................................................................................................................79 8............................................................................................ ...........................................................................................................80 9  A Narrativa no Ensino Médio....1 A Narrativa como Parte do Cotidiano......2 O Cânone Literário...........................................................................................................................85 9.......................................................93 Referências...............................................1 O Cotidiano.............. 6  O Enredo.....................................................................79 8........75 8  A Narrativa no Ensino Fundamental.................73 7  A Adequação do Conteúdo ao Público-alvo....69 Referências....................

de ficção. Narrativas ficcionais: O cortiço de Aluízio de Azevedo. pode se utilizar de elementos literários como metáforas e metonímias. ministrada pelo Professor Marco Antonio Castelli.Apresentação A disciplina Teoria da Literatura II tem como objetivo permitir a você o acesso a um conhecimento do gênero narrativo. será possí- . por sua vez. ao longo desta disciplina. não se está necessariamen- te falando de conto ou romance. o que poderá ser amplamente exemplificado pelas obras de história selecionadas e que se configuram como clássicos do modernismo brasileiro. na medida em que se percebe que muitas das convenções utilizadas pela ficção também estão presentes no discurso da história. adquire complexida- de. aparentemente simples. ou seja. As obras a que me refiro se dividem em narrativas ficcionais e narrativas his- toriográficas: 1. de forma que você sempre terá como avaliar a sua própria compreensão dos pressupostos teóricos através de sua capacidade de relacioná-los com os exemplos retirados dos livros que estará lendo. Cada capítulo será trabalhado com referência às obras literárias. Narrativas historiográficas: Retrato do Brasil de Paulo Prado Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda A subdivisão acima já remete a uma primeira distinção a ser estabelecida entre história e ficção. Neste sentido. os aspectos teóricos da narrativa a partir de obras que você estará lendo na disciplina Literatura Brasileira II. Esta distinção. que. suas especificida- des e elementos constitutivos. optei por abordar. Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto Dom Casmurro de Machado de Assis Macunaíma de Mário de Andrade Iracema de José de Alencar Vidas secas de Graciliano Ramos 2. Isto significa dizer que quando se fala em narrativa. acrescidos a contos que estarei designando ao longo do período. Para tanto.

vel perceber que a narrativa ficcional apresenta suas especificidades. de uma pintu- ra. é importante examinar com atenção o que está sendo proposto no plano de ensino. terá um volume sobre-humano de textos para ler e sua aprendizagem pode ser prejudicada. se você acumular.. lanço mão de uma narrativa.. Narrar é contar. porém produ- zidas por teóricos consagrados e reconhecidos por suas trajetórias intelectuais e pela qualidade e extensão de suas obras. A compreensão de cada uma das unidades pres- supõe a leitura cuidadosa de textos teóricos. Quando chego a casa à noite e tenho que informar como foi meu dia no trabalho. comumente nos utilizamos do discurso nar- rativo para relatar acontecimentos. lidam com a temporalidade. um aluno deixou o celular ligado e no momento em que eu estava explicando. para que você possa ter uma visão panorâmica do que será trata- do ao longo do semestre. . enquanto representações. Digo: “Hoje. Portanto. Você deve manter-se em dia com estas leituras e fazê-las na ordem em que forem solicitadas no livro-texto. São obras introdutórias.. esteja ciente da disponibilidade dos textos e do tempo que levam para chegar em caso de enco- menda. minha chefe me pediu para escrever um relatório. É importante perceber que se a narrativa é uma forma de representação. Escolhi abordar quase a totalidade da disciplina servindo-me dos pequenos volumes da Série Princípios. Se você tiver que acumular leituras. Só assim poderá acompanhar o conteúdo e saber se está conseguindo estabelecer as relações corretamente. é importante que você se planeje de forma a ter em mãos os textos solicitados nas datas em que forem abordados. A quantidade de leitura solicitada obedece ao bom senso. Se o cinema também é um exemplo de narrativa.. o mesmo não se pode dizer de uma tela. Para isso. por exemplo. A solicitação de leituras obedece a um planejamento em que a via- bilidade do acompanhamento está prevista.” Também é possível perceber que a narrativa está presente em outras formas de representação. É uma forma também de estar apto a cumprir as ati- vidades propostas e a participar dos debates. deve se diferenciar de outras formas de representação. No momento. Em nossa fala cotidiana. E a diferença central estaria nas formas como a narrativa e a pintura. da Ática. será difícil acompanhar a disciplina a contento. como o cinema e a novela televisiva.” ou “Hoje. E a narrativa está presente em nosso cotidiano de diversas formas. mas que apresenta aspectos em comum com a narrativa historiográfica. Mas. durante o planejamento de seu semestre.

mas toda vez que a leitura não for suficiente para sua compreensão. Tereza Virginia de Almeida . literários e teóricos. mas é preciso sublinhar que nada substitui a leitura dos textos. que apresenta verbetes que podem ser bastante esclarecedores e indicar bibliografia e informações complementares. dirija-se aos tutores e peça explicações. Na medida em que formos trabalhando os conceitos relacionados à narrativa.Você poderá perceber que cada um destes pequenos livros contém uma biblio- grafia rica. que você poderá consultar mais tarde com o objetivo de aprofundar os seus conhecimentos. Assim. você terá como estudar e como voltar aos textos com mais facilidade para estabelecer relações. Os livros vêm divididos em capítulos curtos. já deve ter se familiariza- do com o ambiente virtual de aprendizagem e com as possibilidades que este ambiente apresenta. que podem facilitar os seus resumos e fichamentos. Outro ponto muito importante: não acumule dúvidas. Adquira também o hábito de fazer resumos dos pontos principais abordados nos textos teóricos. vou estar constantemente remetendo você ao E-dicionário de termos literá- rios. Leia o material com atenção. Como você já está no seu segundo período de curso.

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Unidade A Tempo e Narrativa .

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. até então. a princípio. Caetano Veloso) 1. a represen- tação discursiva de uma representação pictórica. A Temporalidade e a Experiência Capítulo 01 1 A Temporalidade e a Experiência Compositor de destinos Tambor de todos os rítmos Tempo tempo tempo tempo Entro num acordo contigo Tempo tempo tempo tempo. Por seres tão inventivo E pareceres contínuo Tempo tempo tempo tempo És um dos deuses mais lindos Tempo tempo tempo tempo. ou seja... de um quadro. (Oração ao tempo. pedi que você lesse o conto de Sérgio Sant’Anna. sentado na estação ferroviária com uma maleta no colo. Entretanto. O que esta revelação deixa perceber é justamente aquilo que se tor- na específico da narrativa.1 Introdução Para abordar esse primeiro capítulo. 13 . aquilo que o narrador acrescenta à representação do quadro.. a acreditar que o homem na estação ferroviária é uma personagem e talvez até mesmo a personagem principal do conto. Você deve ter percebido que a relação entre o título do conto e a sua introdução leva o leitor. O homem sozinho na estação ferroviária e os capítulos iniciais do livro de Benedito Nunes. Claro que seria possível falar do imaginário que permite ao narrador fazer algumas afirmativas como: “Carrega to- dos os indícios de uma civilização que a Europa largou nos trópicos. ou seja. após algumas indagações acerca da origem e do des- tino do viajante. o narrador permite que o leitor perceba que o homem do qual fala está retratado em uma pintura: sua narrativa havia sido.

sejam estes externos ou motivações internas de ordem psicológica. porém. Não importa se o que está sendo contado seja referente ao espaço de um dia ou de um século. embora o negue até para si mesmo”. o enredo organiza personagens e ações em uma linha temporal. O tempo torna-se tempo humano 14 . Enquanto os elementos do quadro descrito pelo narrador podem ser apreendidos de imediato. nesse quadro. 1. depende da linearidade do discurso para ser apreendida e configura um enredo que terá a tempora- lidade como dimensão necessária. à dimensão do tempo que é inerente a toda narrativa.2 Narrativa e Experiência Humana Em sua obra Tempo e narrativa. “O mais terrível. A representação narrativa se distingue da representação pictóri- ca em função da dimensão temporal. Paul Ricoeur afirma que toda obra narrativa exibe um mundo temporal. o leitor desta pequena narrativa introdutória terá que perpassar mais de uma página para chegar a esta outra forma de representação do mesmo homem nas mesmas circunstâncias. de forma instantânea. ao representar uma cena estática.Unidade A . para o próprio ato de narrar que será capaz de recriar Mário e Oswald como entidades absolutamente ficcionais. Um homem colonial e conservador. o imaginário do narrador se debruça sobre o homem da estação atribuindo-lhe um passado. a narrativa terá que se desenrolar no tempo. esta introdução chama a atenção para a própria capacidade imaginativa do narrador. Esta introdução do conto que você leu está aí para informar ao lei- tor desavisado que o tema do conto é a própria possibilidade da nar- rativa ficcional de construir mundos. Mas o elemento principal é a temporalidade. Ou seja. ou seja. já que apenas alguns segundos são necessários para que se visualize um homem sentado numa estação. Enquanto um quadro pode ser apreendido pelo olhar. E o “mais terrí- vel” diz respeito ao passado e ao medo do futuro. Personagens se transformam ao longo do tempo da narrativa a partir de acontecimen- tos. Por isso. Tanto na narrativa ficcional quanto na narrativa histórica. é o que não vemos nele”.Tempo e Narrativa desamparada. a narrativa se desenvolve no tempo.

A relação com o tempo é recriada através da narrativa. 15 . através da qual o ser humano vivencia o real. Esta relação entre temporalidade e narrativa faz com que a narrati- va tenha um caráter referencial: toda e qualquer narrativa reproduz. em compensação. a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da expe- riência temporal. se apresenta como uma forma de redescri- ção da realidade. a experiência humana do tempo. Embora a ficção se defina como irreal. de uma maneira ou de outra. não porque descreva fatos acontecidos na realidade. mas porque toda forma narrativa reproduz a experiência humana do tempo. A Temporalidade e a Experiência Capítulo 01 na medida em que está articulado de modo narrativo.

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Nos capítulos que você leu do livro de Benedito Nunes. Sérgio Buarque de Holanda e Paulo Prado. desde a chega- da do português. enquanto historiadores. já que pretendem buscar represen- tações para a origem da sociedade brasileira e de suas especificidades. Como exemplos. Alec Haiat/Céu) 2. A narrativa ficcional pode operar com anacro- nismos. além de informações importantes acerca das relações entre tempo e narrativa. é possível citar Raízes do Brasil e Retrato do Brasil. (Dez contados. Já o tempo ficcional é guiado apenas pela própria estrutura da nar- rativa em que se insere. Para tanto. entretanto. as distinções entre narrativa histórica e narrativa ficcional. está reproduzindo a mesma sensação que se tem no cotidiano em relação ao futuro. interromper e inverter o tempo cronológico. 17 . A distinção básica estaria no fato de que a narrativa histórica é constrangida pelo tempo cronológico e a narrativa ficcional não. Da mesma forma. Tempo e Figuras de Duração Capítulo 02 2 Tempo e Figuras de Duração Mandei uma mensagem a jato às entidades do tempo já me foi verificado que nem mesmo haverá segundos que os minutos foram reavaliados e a cada suspiro serão dez contados.1 A Narrativa Histórica e a Narrativa Ficcional Quando uma criança demonstra curiosidade em saber como termina uma estória. são forçados a obedecer à cronologia. ambos retomam o Brasil do período colonial. Isto não equivale a negar. todo leitor segue uma narrativa em busca dos acontecimentos que se revelam ao longo do tempo da narrativa.

Esta distinção. Alguém que espera uma notícia ou o nascimento de um filho pode ter a sensação de que o tempo demora a passar.1 Tempo Físico e Tempo Psicológico Este capítulo diz respeito à distinção entre o tempo que pode ser medido objetivamente. implícito em toda relação temporal. Para que o tempo de um mesmo evento se estenda. No caso da narrativa. Da mesma forma. publicada em 1973.2 Os Diferentes Tempos na Narrativa 2. leia um bri- com/vgiudice_arquivo. A morte de uma personagem pode ser contada em uma linha. mas pode também se estender por um ou mais capítulos. dependendo de como o narrador opte por abordá-la. não acontece apenas na narrativa. mas em nossa própria relação cotidiana com os acontecimentos. já que é através das relações de causalidade que os acontecimentos podem se relacionar no tempo. Narrar é justamente preencher com uma explicação o espaço entre um evento e outro. o narrador pode criar esta sensação de maior ou menor duração. 2. em função de seu estado psicológico dominado pela ansiedade. o narrador lança mão do ele- mento causal. dias e anos (tempo físico) e a maneira como o sujeito vivencia o tempo (tempo psicológi- co). em durações como minutos.asp lhante conto do escritor Victor Giudice. portanto. dependendo da maneira como lida com a subje- tividade dos personagens e da forma como sua própria subjetividade se conecta aos acontecimentos.2. Como exemplo.Unidade A . 18 . as mesmas duas horas de um filme po- dem parecer demorar mais ou menos dependendo do menor ou maior envolvimento do espectador.releituras. A narrativa ficcional tira partido de todos os seus elementos para Você pode encontrá-lo em: http://www. O conto se chama O arquivo e foi originalmente publicado na obra do escritor chamada Necrológio.Tempo e Narrativa você encontra algumas importantes distinções e definições que devem ser bem compreendidas e das quais tratarei nos próximos itens. criar efeitos que possam engajar o leitor. Alguém que está de férias em uma viagem repleta de alegrias e surpresas pode ter a sensação de que o tempo passa muito rápido.

2. de forma objetiva. na his- tória da literatura. 19 . Ou seja. Pós-modernismo. frieza esta que é reproduzida pela maneira sintética com que o narrador narra os fatos. a mediocridade da vida de João e a anulação de sua subjetividade por um sistema que explora sua força de trabalho se reproduzem na frieza e brevidade com que os fatos mais cruéis e inusitados. Assim como na história política. se or- ganiza a partir de datas que se tornam referência para outras. Desta forma. mas não é idêntico a este.2. Ao mesmo tempo em que pode ser mensurado. Observe como esta transformação opera uma redução que é reproduzida ao longo do conto pela maneira econômica com que os fatos são narrados. Realismo. Por exemplo. como os cortes salariais. Antes disso. o tempo histórico se dá por unidades como Idade Média e Idade Moderna. aquilo que se compreende como barroco era compreendido em continuidade com o clássico. etc. que podem criar novas unidades para se referir ao passa- do (e ao presente) através da percepção diferenciada dos acontecimentos e de seus efeitos e conexões causais. É importante assinalar que como o tempo histórico é cultural e de- corre de um conjunto de valores. Modernismo. Tempo e Figuras de Duração Capítulo 02 Você deve ter percebido que a brevidade da narrativa é funcional no conto de Victor Giudice . crua. Ou seja. pode ser relativizado por novas gerações de historiadores. o termo barroco surge a partir do séc. são contados pelo narrador. o tempo histórico se configura através da periodização literária: Romantismo. para o estabelecimento de relações de anterioridade e posterioridade. a cultura do século XIX permitiu que os historiadores percebessem sutilezas na cultu- ra e nas artes do século XVII que não haviam até então sido percebidas.observe como ela se relaciona intimamente com o seu conteúdo. As frases curtas e a rapidez com que um corte sala- rial se sucede a outro na vida de João reproduzem a frieza da burocracia. XIX. Já o tempo histórico está relacionado com outro tipo de medida: a for- ma como se configuram unidades para a abordagem dos acontecimentos e seus processos de transformação.2 Tempo Cronológico e Tempo Histórico O tempo cronológico está relacionado ao tempo físico. o leitor é surpreen- dido justamente pela crueza com que a vida de João fracassa a ponto de o funcionário se transformar em um arquivo de metal.

1999. Dom Casmurro. mas apresentar um narrador que se posicione claramente no presente. Um dia. remontar ao pas- sado como forma de configurar explicações para o presente. Machado de . na medida em que se apresenta como uma narrativa em primeira pessoa. 5ª edição.18) Observe os verbos que coloquei em negrito e perceba como o nar- rador do livro se posiciona no presente da escrita. Antes disso. o presente é sempre o eixo temporal a partir do qual os eventos se ordenam. passo a escrever o livro. mas vá lá.2.Unidade A . com um criado.Tempo e Narrativa 2. lem- brou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Matacavalos. distanciado dos acontecimentos. há bastantes anos. através da descrição da casa em que mora. Vivo só. São Paulo. o presente do discurso do já maduro Dom Casmurro é o ponto central da narrativa. a obra acaba sendo sobre o estado presente da personagem principal. uma visão que se dá no presente da escrita. Na verdade. digamos os motivos que me põem a pena na mão. que abre o capítulo II de Dom Casmurro: Agora que expliquei o título. que desapareceu. (grifos meus) (ASSIS. A maneira como esta organiza os aconteci- mentos do passado através do discurso faz com que a temática do livro seja a própria visão parcial do narrador-personagem sobre os fatos. p. FTD.3 Tempo Lingüístico e Tempos Verbais Neste capítulo. A casa em que moro é própria. em sua vida presente. dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra. Este movi- mento entre o presente e o passado da escrita que se dá neste pequeno trecho é o mesmo movimento que se reproduz ao longo de toda a nar- 20 . Como poderemos ver em um próxi- mo capítulo. fi-la construir de propósito. levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo. A narrativa pode se utilizar de verbos no passado. Embora Dom Casmurro de Machado de Assis conte uma história que remonta ao passado ao refazer todo o percurso da paixão do narrador por Capitu. então. para. Benedito Nunes procura elaborar uma distinção entre o tempo do discurso e o tempo verbal utilizado em uma narra- tiva. Observe este trecho. porém.

O primeiro se refere ao tempo sobre o qual se narra e o segundo ao próprio tempo da narrativa. Por sua vez. diante do leitor. ao analisar uma citação do conto de Machado de Assis A causa secreta.4 Tempo da História e Tempo do Discurso No segundo capítulo. É o que se chama de É procedimento comum os narradores iniciarem seus romances anacronia. seus atos e crenças no presente. Tempo e Figuras de Duração Capítulo 02 rativa. cimento de causalidades. cronológico. No caso do conto A causa secreta. uma vez que com a apresentação de personagens em um tempo mais próximo do a estratégia se dá como desobediência ao tempo presente para só depois remontarem ao passado. 2. 2. um dia pode durar muitas e muitas páginas em uma narra- tiva lenta. por exemplo. O tempo da narrativa é medido em função das relações entre o tempo do narrar e o tempo narra- do. Três sé- culos podem ser contados por uma rápida sucessão de acontecimentos que torna a narrativa rápida. Macunaíma.3 Figuras de Duração Benedito Nunes apresenta algumas figuras de duração que você pode identificar ao longo da leitura das obras de Literatura Brasileira. repleta de digressões do narrador. São muitos acontecimentos e transformações narrados. existe uma relação significativa en- tre a desobediência à ordem cronológica e a dramaticidade da narrativa. A história diz respeito à realidade narrada. em busca do estabele. São elas: 21 . O fato de uma narrativa tratar de um menor ou maior es- paço de tempo nada tem a ver com o tempo da narrativa em si. é uma narrativa rápida. por exemplo. A mesma história pode ser contada por uma narrativa literária e por um filme. O passado é sempre retomado e recontado para que o narrador estabeleça relações de causalidade que justifiquem. Tal como demonstra Benedito Nunes. o tempo do discurso nem sempre obedece à ordem dos acontecimentos.2. aos personagens e acontecimentos. Benedito Nunes trata da dualidade que existe na narrativa entre história e discurso. Esta distinção vai operar outra distinção: entre o tempo da história e o tempo do discurso. mas o narrador dá conta de toda a vida de Macunaíma em um pequeno livro. Já o discurso refere-se ao modo de narrar.

Constantemente. 22 . d) elipse: quando se dá a omissão de um acontecimento que pode ou não vir a ser revelado no decorrer da narrativa. por sua vez. há exemplos de outra figura de duração. Em um único capítulo. em diversos mo- mentos. tornando explícito o caráter textual da narrativa. é um exemplo. Como exemplo de elipse. estas figuras de duração corres- pondem a figuras retóricas de crucial importância no que diz respeito aos processos de estruturação da narrativa. interrompe a história para se ater a reflexões. serão de extrema importância na relação que o lei- tor estabelece com o discurso narrativo. b) alongamento: quando a narrativa. de forma que a narrativa dura mais que o tempo da história.Unidade A . O primeiro capítulo de Macunaíma de Mário de Andrade é um bom exemplo de sumário. já que são figuras relaciona- das aos efeitos estéticos advindos das diferenças de andamento. Tal como afirma Benedito Nunes. o herói nasce e cresce. O narrador Personagens de Dom em primeira pessoa tem apenas uma visão parcial dos fatos e o leitor Casmurro não pode acessar nenhuma informação que comprove as suspeitas do narrador em torno da traição da esposa e do amigo. Ao longo de toda a narrativa de Dom Casmurro. o narrador comenta capítulos anteriores. O capítulo LXIV. c) pausa: quando o tempo da história se interrompe para dar lugar à descrição.Tempo e Narrativa a) sumário: quando a narrativa abrevia os acontecimentos em um tempo menor do que o da suposta duração na história. posso citar os acontecimentos que envol- vem o caráter do relacionamento entre Capitu e Escobar. Uma idéia e um escrúpulo. já que o narrador. Estes efeitos. prolonga o tempo de duração do discurso. a pausa. A partir da leitura dos romances designados na disciplina Litera- tura Brasileira II. você pode encontrar exemplos das figuras de duração acima descritas. ao contrário do que ocorre no sumário. ao longo do romance.

e pediu pra Sofará que o levasse até o derrame do morro lá dentro do mato.htm Como você pode ver pela consulta ao verbete. Umberto Eco estará conceituando alguns Vale. Ambos se configuram como leituras bora a definição destas instâncias para dar conta da complexidade ine. teórico. Este exercício será muito importante para o estabelecimento de relações e para a fi- xação das categorias estudadas. lei. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Itatiaia. unl. Tempo e Figuras de Duração Capítulo 02 A narrativa se torna ágil principalmente porque se dá constantemente a intervenção do elemento mágico: A moça botou Macunaíma na praia porém ele principiou chora- mingando.. A compre- ensão desta distinção é crucial para que se percebam as nuances do discurso ficcional e para que se torne possível uma atividade de análise literária. ces consagrados como O Nome da rosa e O pêndulo Autor e leitor são termos familiares a você. escolhi pedir que leia os dois primeiros ca- pítulos do livro de Umberto Eco intitulado Seis passeios pelos bos- ques da ficção.pt/edtl/verbetes/A/ tornando-se ágil como a conexão dos acontecimentos. de Foucault.fcsh. A próxima unidade de nosso programa prevê a abordagem de duas instâncias do discurso narrativo: o autor e leitor. http://www. 1981. Ao longo destes capítulos. a moça fez. peço que São Paulo. é autor de roman- tor empírico e leitor-modelo. Para abordar o tema. ainda. fique atento ao apareci- mento destas figuras e vá anotando exemplos.. sobre o assunto. anisocronia. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas. Mas Umberto Eco ela. Ao longo de sua leitura dos romances. o termo anisocro- nia se refere a estas mesmas figuras de duração abordadas por Benedito Nunes. de grande interesse. que tinha muita formiga!. e botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo.10) leia o verbete anisocronia do E-dicionário de termos Observe como a linguagem do narrador sintetiza as informações literários. rente ao universo ficcional. Mário de. Para mais informações (ANDRADE. 23 . tajás e trapoerabas da serrapilheira. ressaltar que Umberto Eco. além de elementos relacionados à narrativa: autor empírico e autor-modelo. p.

Unidade A . 24 . mas sugiro que adquiram o livro e que o leia por inteiro.Tempo e Narrativa Creio que os dois primeiros capítulos do livro sejam suficientes para a compreensão destas definições. pois se trata de uma obra muito interessante para aqueles que desejam compreender as nuances e especificidades do discurso ficcional.

1994. SANT’ANNA. São Paulo: Papirus. São Paulo: Companhia das Letras. 2003 PRADO. 1989. Retrato do Brasil. I. I. Paul. São Paulo: Compa- nhia das Letras. 25 . Referências da Unidade A HOLANDA. NUNES. v. 1997. São Paulo: Papirus. 1973. 1998. 1994. Rio de Janeiro: Editora do Pasquim. Leia mais! RICOEUR. São Paulo: Companhia das Letras. Tempo e narrativa. GIUDICE. Sérgio Buarque de. Paulo. Victor. Raízes do Brasil. Tempo e narrativa. Benedito. São Paulo: Ática. A Senhorita Simpson. O tempo na narrativa. Sérgio. RICOEUR. Paul. v. Necrológio.

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Unidade B Os Lugares Textuais .

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1 Leitor-empírico x Leitor-modelo Umberto Eco se refere à narrativa ficcional como a um bosque. Eco pretende apontar para o fato de que para ler ficção. Quando uma criança ouve o “era uma vez” de um conto de fadas e aceita como possível a fruição de uma narrativa em que os bichos falam e os príncipes são encantados. O primeiro ponto a se reconhecer no pensamento de Eco diz respeito ao fato de que ao adentrar o universo ficcional. Leitor. o leitor está participando de um jogo. mesmo que não conheçamos o conceito. aprender a língua portuguesa culta de um capítulo para outro e escrever às Icamiabas. entretan- to. Autor e seus Lugares na Narrativa Como uma encadernação vistosa feita para iletrados a mulher se enfeita mas ela é um livro místico e somente a alguns a que tal graça se consente é dado lê-la (Elegia. entre outras peripécias. através do narrador. Trata-se de 29 . Logo nas primeiras páginas de Macunaíma. Todo jogo tem regras definidas. descobrimos. tradução de Augusto de Campos) 3. transportar toda a casa da família para o lado do rio. Ao tratar do tempo na narrativa. uma opção do leitor. Com esta imagem. O mesmo ocorre quando você lê Macunaíma e aceita que o he- rói possa mudar de cor. Nada disto é. está aceitando as regras daquela forma de ficção: os fatos narrados não devem ser testados segundo as leis físicas do mundo cotidiano. Autor e seus Lugares na Narrativa Capítulo 03 3 Leitor. Péricles Cavalcanti e John Donne. é preciso percorrer caminhos e se encontrar em um percurso que às vezes mostra certas artimanhas. A narrativa indica ao leitor como ele deve se comportar. que se trata de uma narrativa que pertence ao ma- ravilhoso. citei o trecho em que o herói Ma- cunaíma se transforma “num átimo” em um príncipe lindo.

um lugar ideal de leitura a ser inferido e ocupado pelo leitor-empírico. não criaria um narrador que escrevesse de forma irônica. O mesmo acontece com a ironia. possa tomar as afirmações e informações fornecidas pela narrativa como verdadeiras. Quando um autor se expressa de forma irônica. capaz de decodificar a ironia. Mas o leitor-modelo de uma comédia deve rir. O leitor com biografia. Cada narrativa pressupõe um leitor-modelo e este não coincide com a pessoa que está lendo. deve ser um leitor perspicaz. pois a ironia pressupõe certa complexidade de ordem in- 30 . é capaz de estabelecer re- lações. Nestes casos. em outras palavras. de perceber conflitos entre o que está sendo escrito e as crenças do narrador. as narrativas em terceira pessoa funcionam dentro das convenções realistas. já que pressupõe um leitor-modelo que. deve tomar como possíveis estas formas de intervenção.Os Lugares Textuais uma intervenção mágica que faz com que o leitor imediatamente com- preenda que. O autor dá voz a um narrador que se expressa de tal maneira que o leitor deva perceber o seu discurso como um discurso humorístico e responder a este com o riso. Além da utilização do narrador neutro como forma de escamotear a subjetividade do ponto de vista. É possível chorar diante de uma comédia caso esteja- mos em um dia ruim. pressupõe uma leitura ideal em que se é capaz de compreender que o que está sendo escrito não deve ser lido de forma literal. verossímeis dentro da narrativa porque esta estabeleceu suas re- gras próprias e as indicou ao leitor. data de nascimento e in- dividualidade é o leitor que existe no mundo real e a quem Umberto Eco denomina leitor-empírico. então. Primeiro.Unidade B . data. locais e personagens passíveis de comprovação. naquela obra. O autor do discurso historiográfico também se utiliza de convenções realistas. ao contrário do leitor de Macunaíma. Por outro lado. Já leitor-modelo é uma instância ficcional. Caso o autor não previsse um leitor assim. também utilizado pela ficção. através de um exemplo dado pelo próprio Eco. às quais estarão submetidas os personagens e a partir dos quais se estabelecem transformações. livros como Triste fim de Policarpo Quaresma e O cortiço apresentam narradores que nos levam a um comportamento dis- tinto enquanto leitores. Vou tentar esclarecer melhor. Este leitor. Estas transformações se tornam. o narrador historiográfico faz referências a documentos histó- ricos.

portanto. é a crença nesta idealidade que faz da crítica literária um campo fértil e de estudos complexos. Enquanto leitor-empírico. Diferentes formas de reação são ativadas pelos distintos romances. O crítico literário é um leitor sofisticado que procura inferir o leitor-modelo dos textos. Umberto Eco estabelece uma distinção entre leitor- modelo de primeiro nível e leitor-modelo de segundo nível. Neste sentido. posso não perceber ironia e ler um texto de forma literal (às vezes. mas há um lugar ideal pressuposto. prender a atenção. por algum motivo. enquanto leitor- empírico. requerem diferentes leitores-mo- delo. você deve já ter estabelecido alguma analogia que permita concluir o que são o autor-empírico e o autor-modelo. mas é capaz de perce- ber que Macunaíma e Iracema são narrativas que solicitam de você com- portamentos diferenciados e. Assim como o leitor empírico. o autor pressupõe um leitor que compreenda que aquilo que é escrito pelo narrador não necessariamente coincide com suas crenças. O leitor-modelo de primeiro nível é aquele lugar de leitura referen- te à capacidade do leitor de acompanhar o desenrolar da narrativa. Entretanto. a simetria entre autor e leitor empíricos é perfeita. criar suspense. o autor-empírico é a pessoa. em função do desconhecimento de algum elemento necessário para a percepção da ironia). Da mesma forma. está mais relacionado à capacidade da narrativa de entreter. É a esta 31 . mais próximo do crítico literário. em todos estes caso. o homem ou mulher que. Na ver- dade. Talvez nunca seja de fato preenchido por ninguém. Mas isto é um capítulo para mais adiante. manter curiosidade. escolheram a função social de escritor. Leitor. Já o leitor-modelo de segundo nível é este. Estarei.2 Autor-empírico e Autor-modelo A estas alturas. O importante no momento é compreender que. Este lugar é apenas ideal. você é uma pessoa. posso estar de mau-humor e não conseguir rir diante de um texto humorístico. sendo um mau leitor. 3. Autor e seus Lugares na Narrativa Capítulo 03 telectual.

são aqueles que veiculam a narrativa. existência de um leitor que infira ironia. mas. pois aquele que vê ironia onde ela não existe Hutcheon intitulada Teoria e política da ironia. Já o autor-modelo se confunde. se apóia na beleza da linguagem utilizada. delineiam diferentes estilos de leitura. Estes estilos distintos são vozes distintas que. de que não deva ser lido de forma literal. não o autor. Iracema é poética. Belo apenas terá se equivocado. Neste ensaio. com este lugar que se denomina estilo e que acaba atendendo pelo nome de pessoa. UFMG. ou seja. descobrir o que o autor quis dizer. não é possível a Caso você deseje se apro- fundar no estudo da ironia. ao contrário do que diz o senso comum. por sua vez. no caso o estilo do Horizonte. à voz que dá instruções ao leitor-modelo. O estilo de uma narrativa corresponde ao que Umberto Eco chama de autor-modelo.Unidade B . ratura I e releia o ensaio de Roland Barthes. Caso isto ocorra. já que é o autor-modelo. abordados. estão se referindo a uma forma de escrever.Os Lugares Textuais pessoa que se dedicam os biógrafos. 32 . O esti- lo irônico delineia o leitor de ironia. estaremos consulte a obra de Linda diante de um mau leitor. Mais uma vez. Macunaíma se organiza com rapidez. você leu o ensaio de Roland Sugiro que você faça uma Barthes intitulado “A morte do autor”. você já tem mais condi. é uma narrativa risível. Na disciplina Teoria da Literatura I. se torna clara a revisão do material im- presso da última unidade idéia de que o autor é uma invenção moderna e que não se pode atri- da disciplina Teoria da Lite. o autor-empírico pouco interessa à crítica literária. buir à intencionalidade do autor o correto significado da obra literária. Quando os críticos literários falam da literatura de Machado ou de Aluízio de Azevedo. enquanto autores-modelo. que configura os marcadores de ironia. o exemplo da ironia é bastante apropriado. repleta de imagens. apresenta peripécias. Você deve lembrar também que o ensaio de Barthes esclarece que questiona a centralidade do autor. ao lembrar que nas sociedades etno- gráficas. um mediador ou um recitador. Basta que você compare Macunaíma e Iracema para perceber que estas narrativas pedem de você que se comporte de forma diferente enquanto lei- tor-modelo porque. da prosa de Lima Barreto. 2000. salvo raríssimas ex- ceções. já que o autor não controla todos os ções de aprofundar os conteúdos anteriormente significados do texto que escreve. elas também são totalmente distintas. Sem um discurso que se organize através de indicações de que deva significar o oposto ou além do que diz. discurso. em geral. pois agora Interpretar um texto não é. de certa forma.

“estética da recepção”. ad- vêm de uma reação generalizada da crítica literária à antiga tendência de acreditar que ler uma obra correspondia a descobrir e revelar as in- tenções do autor. Ao criar categorias internas ao texto que incluem tanto a autoria quanto a recepção. estratégias ficcionais. Não se trata. tralizam no leitor a sua atenção. 33 . no E-dicionário de termos literários e lesse os diver- Por outro lado. através do próprio corpo e da co-presença física da audiência. o corpo do autor foi recalcado e em seu lugar surgiu uma idéia abstrata de sujeito e de subjetividade. o papel do leitor foi sendo cada sos verbetes disponíveis referentes a autor. com o desenvolvimento de tendências críticas centradas no texto. a literatura era veiculada através de narrativas orais e do canto dos trovadores. O ensaio com o qual você entrou em contato na primeira fase do curso é um clássico dos estudos literários. que se deu no século XV. O verbete relativo ao “autor” apresenta como ponto central justamen- te a maneira como a figura do autor se enfraquece ao longo do século XX. 3. Ao longo do século XX. como se a entidade empírica fosse detentora da verda- de acerca do significado do texto. Umberto Eco traz as intenções da obra para dentro Gostaria que você voltasse de sua própria estrutura. de forma a possibilitar a abordagem do texto como entidade autôno- ma. de mera coincidência. leitor e vez mais valorizado e há correntes como a estética da recepção que cen. o verbete cita o ensaio de Roland Barthes. Antes da invenção da imprensa. Como você pode perceber. Autor e seus Lugares na Narrativa Capítulo 03 Barthes assinala o fato de que o autor adquire centralidade na so- ciedade moderna justamente pela ênfase que esta dá ao indivíduo e à pessoa. assim como as reflexões de Foucault também citadas no verbete. ao longo dos anos. entretanto. a literatura buscou se desenvolver como ciên- cia. Após a invenção da impren- sa. sem que se dê importância a suas origens. independente do autor e de sua intencionalidade ao escrever a obra. Leitor.3 Considerações Finais É importante perceber o quanto as definições de autor-modelo e leitor-modelo como instâncias da narrativa. ou seja. Em sociedades em que o saber é concebido como patrimônio coletivo. as narrativas são transmitidas de geração a geração pelos me- diadores.

em 1984. sendo im- possível rastrear a verdadeira origem de textos e idéias. Daí o fato de se compreender a autoria como uma convenção. e sim como um ato coletivo. Claro está que a autoria é também algo típico da cultura moderna que. só existem porque houve a recepção. valoriza o indivíduo e a individualidade e. é possível que se realize uma leitura psicanalítica de um texto quando esta está disponível para determinada comunidade interpretativa. publicada pela Editora Nova Fronteira. por conse- guinte. sugiro que você procure a obra Os filhos do barro do poeta e crítico mexicano Octavio Paz. a originalidade e o talento individual. na medida em que as leituras podem ser comparti- lhadas por um ou mais indivíduos que formam o que se chama de comunidade interpretativa. Por exemplo. Isto corresponde a dizer que.Unidade B . como vimos. Caso você tenha interesse em aprofundar sua compreensão das relações entre a modernidade enquanto cultura e a estética moderna.Os Lugares Textuais Em sua obra intitulada O que é um autor. Trata-se de um livro esgotado. Os verbetes referentes às diversas denominações dadas à figura do leitor podem ser assim resumidos: a) leitor cooperante: aquele que lê de acordo com os critérios da comunidade interpretativa a que pertence. por mais criativos que sejam os textos. o que 34 . embora haja alguém que assine um texto e a quem se atribua a identidade por sua originalidade. o filósofo francês Michel Foucault defende a idéia de que a autoria é uma função que se atri- bui a certas formas textuais como os textos literários. mas que pode ser encontrado em bibliotecas e sebos. o ato de leitura não é visto como um ato individual. compreendida como aquela que se manifesta do Pré- Romantismo. mas não a todo e qualquer tipo de texto. Neste sentido. a leitura de textos anteriores.

permitiram a maior centralidade do lei- tor na abordagem do texto literário. que parte do pressuposto de que o leitor não é apenas aquele que identifica um sentido pré-existente. d) leitor informado: é aquele que apresenta não apenas competên- cia lingüística. ao menos de aceitabilidade em torno desta leitura. gostaria que você lesse o texto de Walter Benjamin intitulado O narrador. 35 . mas também competência literária para compac- tuar com aquilo que é exigido pelo discurso literário. apesar de suas estripulias. b) leitor implicado: também chamado de implícito ou narratário. mas não ser capaz de compre- ender figuras de linguagem utilizadas pelo texto literário. É importante. Destas. Autor e seus Lugares na Narrativa Capítulo 03 torna possível o estabelecimento de um consenso ou. Leitor. bem como os dois primeiros capítulos do livro de Ligia Chiappini intitulado O foco narrativo. Trata-se do leitor fictício previsto pelo texto e que acaba funcio- nando como um dos personagens. entretanto. c) leitor real: diz respeito ao leitor individual que lança mão de seus valores no ato de leitura. Macunaíma é uma obra que pressupõe um leitor capaz de neutralizar seus valores morais e éticos em torno do bem e do mal e se tornar cúmplice do herói. destaquei a Estética da re- cepção. No verbete relativo ao “leitor”. Ao simpatizar com Macunaíma. Por exem- plo. perceber que não se trata aqui de defender a idéia da pertinência de qualquer leitura individual. ao longo do século XX. e sim da possibilidade da diversidade de sentidos para um mesmo texto a partir de sua inscrição em diferentes comunidades interpretativas. a autora mapeia as diversas teorias que. inspira simpatia. mas é soberano ao escolher a interpretação adequada. Por exemplo. arte e política. Para o próximo capítulo. um indivíduo pode ser capaz de ler em língua portuguesa e deter conhecimento gramatical. que se encontra no livro Magia e técnica. Isto faz com que os textos adquiram sentidos diferentes de acordo com os contextos históricos e culturais em que são recebidos. O herói. estamos assumindo esta máscara prevista pela organização da narrativa.

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o gênero épico. somos po- bres em histórias surpreendentes. ligado à Escola de Frankfurt. A razão é que os fatos nos chegam 37 . Benjamin rela. Ao longo de seu artigo. de geração em vência dos fatos é coletivizada através dos meios de comunicação: “Cada geração. E. mal ouvida uma história bem ruim (Resto do Mundo. Narrador e Foco Narrativo Capítulo 04 4 Narrador e Foco Narrativo Alguém falou que ouviu de alguém que ouviu de alguém que disse ter ouvido alguma coisa sobre mim uma história mal contada. manhã recebemos notícias de todo o mundo. aquele que narra através da oralidade. Paulinho Moska) 4. escritor russo do século XIX.1 O Narrador Apesar de ter o subtítulo de Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. memorizada e cantada justamente a uma sociedade em que a experiência é neutralizada e a vi. Benjamin chama atenção para a relação entre narrativa e experi- ência naquele que se compreende como o narrador tradicional. En. O predomínio da informação corresponderia va com métrica e ritmo. ao qual se relaciona a à oralidade: uma narrati- invenção da imprensa. Benjamin estabelece uma gradação que vai da narrativa oral. por poetas. A poesia ciona esta transformação na forma de abordagem dos fatos ao processo épica é a origem da nar- rativa e está relacionada de consolidação da burguesia e do capitalismo. Na disciplina Teoria da Literatura I você estudou quanto teórico marxista. passa pelo romance e chega à era da informação. mas sim em função do fato de apresentar algumas considerações importantes acerca das origens da narrativa. não é por conta deste escritor que este artigo de Walter Benjamin nos interessa. É esta relação com a experiência que Benjamin detecta no narrador arcaico e que será mais e mais neutrali- zada no romance. mal falada. no entanto.

Unidade B - Os Lugares Textuais

acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que
acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da in-
formação” (BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e
política. Rio, brasiliense, 1987, p. 203).

Tal como afirma Benjamin, o primeiro grande romance é Dom
Quixote de Miguel de Cervantes. O romance representa a passagem de-
finitiva da narrativa para a escrita. Isto não quer dizer, entretanto, que
as marcas de oralidade não possam estar presentes no romance e esta
permanência é justamente o que é valorizado por Benjamin.

Na literatura brasileira, um grande exemplo da sobrevivência de
traços da oralidade no romance é a obra-prima de Guimarães Rosa,
Grande Sertão Veredas, romance em primeira pessoa em que Riobaldo
conta sua história dirigindo-se a um interlocutor fictício.

Para Benjamin, a invenção da imprensa irá representar uma rela-
ção de afastamento entre o narrador e o leitor: “A origem do romance
é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre
suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem
sabe dá-los” (Idem, ibidem, p. 201). Benjamin vê o narrador oral como
o portador de experiências vividas que são incorporadas à experiência
do ouvinte. A narrativa oral pertence à coletividade. Já o narrador do ro-
mance representa o indivíduo isolado e distanciado daquilo que narra.
No limite, a informação escamoteia mais e mais as marcas do narrador
para ir em busca da apresentação do fato em si.

Não será difícil perceber que, apesar de estarmos inscritos em uma
cultura que valoriza as informações advindas do texto impresso, como
livros, revistas e jornais, o narrador oral sobrevive nos dias atuais. Pais
e mães continuam contando histórias a seus filhos, narrativas memori-
zadas e transmitidas de geração a geração. Nas culturas tradicionais, os
mais velhos costumam ser os detentores de informações sobre o passa-
do transmitidas às novas gerações através da oralidade.

No volume I da coleção História da vida privada no Brasil, você
pode encontrar um capítulo intitulado O que se fala e o que se lê de
Luiz Carlos Villalta. A temática é a escassez de livros no Brasil Colo-
nial e todo o controle que era mantido em torno da cultura livresca,

38

Narrador e Foco Narrativo Capítulo 04
acessível apenas a alguns indivíduos pertencentes à elite, como o cle-
Você leu poemas épicos
ro e os advogados. Era comum, então, tanto a memorização de obras no primeiro período do
por alguns indivíduos que eram capazes de contar romances e obras curso, assim como as refle-
xões de Aristóteles sobre
que tinham de cor, quanto a reunião das famílias e de associações em o tema. Está, portanto,
torno da leitura oral, devido à escassez de livros destinados à leitura apto a compreender esta
breve introdução feita por
individual. Ligia Chiappini acerca dos
pensamentos de Aristóte-
Tal como afirma Ligia, Platão estabelece uma distinção significati- les e Platão.
va entre imitar e narrar, na medida em que sua preocupação se direcio-
na à idéia de real e de verdade. Para Platão, a poesia é uma imitação em
segundo grau, porque se dá dentro de um mundo que já é um simulacro,
uma imitação do Mundo das Idéias.

Aristóteles, por sua vez, também reconhece a poesia como imitação,
mas não vê nisto algo negativo. Para ele, a imitação é um atributo huma- Como você viu no semes-
no que coloca o homem em posição superior em relação a outros seres. tre anterior, a imitação em
Aristóteles tem o nome de
mimese.
Ligia Chiappini escolhe abordar brevemente um filósofo que siste-
matizou os pensamentos de Platão e Aristóteles: Hegel. Em sua obra Es-
tética, Hegel aborda os gêneros épico, lírico e dramático a partir de suas
relações com a objetividade. O épico seria objetivo, o lírico subjetivo e
o dramático seria objetivo-subjetivo. Esta distinção é crucial para que
Hegel introduza sua concepção do romance que tem origem no épico,
mas que se alimenta dos três gêneros: lírico, épico e dramático. Neste
sentido, o gênero dramático e o gênero épico se entrelaçam na comple-
xidade inerente ao foco narrativo e o gênero lírico estará cada vez mais
presente no romance através da poeticidade da narrativa.

Em seguida, Chiappini lança mão do pensamento de Wolfgang
Kayser e de sua distinção entre o gênero épico e o romance. Esta distin-
ção já está presente no artigo de Benjamin. A passagem do épico ao ro-
mance pressupõe um processo de individuação. Para isso, Kayser chama
a atenção para o fato de que o herói do poema épico representa valores
Para enriquecer seus
coletivos, seu narrador compartilha dos valores de seu público. No caso conhecimentos acerca
do romance, o narrador, os personagens e o leitor sofrem um crescente do narrador, peço que,
mais uma vez, consulte
processo de particularização. o E-dicionário de termos
literários: http://www.fcsh.
A partir daí, Chiappini vai abordar, além de alguns teóricos, o es- unl.pt/edtl/verbetes/N/
critor Henry James e suas visões acerca do foco narrativo. narrador.htm

39

Unidade B - Os Lugares Textuais

Dentro deste panorama, vou selecionar um conceito que pare-
ce digno de nota. Trata-se do autor implícito, apresentado por
Wayne C. Booth. Este conceito já foi citado no E-dicionário de
termos literários e se opõe às idéias de Percy Lubbock, pois sugere
que a narrativa não deve ir em busca apenas de verossimilhança,
mas dos efeitos que se quer alcançar. Estes efeitos são decididos
pelo autor implícito, que se mascara através do narrador, mas que
é, na verdade, a instância que define como se estrutura o uni-
verso ficcional. O autor implícito é a projeção na materialidade
da linguagem do próprio autor real. Em função disto, creio ser
possível estabelecer uma analogia entre autor-implícito de Booth
e o autor-modelo de Umberto Eco.

Chiappini apresenta, ainda, a tipologia de Jean Poullon: a visão por
trás, a visão com e a visão de fora:

a) visão por trás: trata-se do narrador onisciente, que domina to-
dos os elementos sobre a vida dos personagens e seu destino.

b) visão com: o narrador que só tem conhecimento do que a pró-
pria personagem sabe sobre si.

c) visão por fora: o narrador só descreve sem demonstrar nenhum
conhecimento para além do que pode ser visto exteriormente.

Portanto, este é um desafio para você: refletir sobre a adequação des-
tas diferentes tipologias aos romances que está lendo”.

Chiappini apresenta as relações que Maurice-Jean Lefebve estabelece
entre narrador, diegese e discurso. Cabe ressaltar, em primeiro plano, que
os termos diegese e discurso correspondem aos dos mesmos conceitos que
utilizamos em capítulo anterior sob os nomes de história e discurso. O
primeiro se refere aos acontecimentos e o segundo à forma de narrá-los.

Como é possível perceber, o foco de Lefebve reside na maior ou me-
nor ênfase que cada narrativa dá à história e ao discurso. No romance
clássico, caracterizado por um narrador com visão “por trás”, há o equilí-
brio entre história e discurso, entre diegese e narrativa. Na “visão com”, há

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creio ser possível caracterizá-los da seguinte maneira. a forma de narrar se torna mais importante do que o que é narrado. É o caso dos narradores de Iracema. o capítulo A tipologia de Norman Friedman. a partir desta tipologia: Visão por trás Visão com Visão por fora Além das definições já estudadas. Neste tipo de romance. Triste fim de Policarpo Quaresma e O cortiço. b) narrador heterodiegético: é aquele que não faz parte da tra- ma. o E-dicionário apresenta ainda três outras formas de classificação do narrador. sendo o pri- meiro uma instância ficcional mesmo que não faça parte da trama en- quanto personagem. que se encontra no livro Uma literatu- ra nos trópicos. intitulado O foco narrativo. Na “visão por fora”. e o artigo de Silviano Santiago intitu- lado Retórica da verossimilhança. 41 . é o mesmo que narrador-personagem. mas não o personagem principal. Para a próxima etapa. ou seja. Observo aqui que esta forma de romance acaba por encontrar fronteiras com o gênero lírico. Narrador e Foco Narrativo Capítulo 04 a predominância do discurso sobre a narrativa. c) narrador homodiegético: é aquele que é personagem da tra- ma. ou seja. gostaria que você lesse o segundo capítulo do livro de Ligia Chiappini. ou seja. apresentadas por Gerard Genette na obra Discurso da narrativa: a) narrador autodiegético: é aquele que narra suas próprias expe- riências. em que o mais importante a fri- sar é a distinção definitiva existente entre narrador e autor. No que se refere aos romances estudados em Literatura Brasileira II. há o predomínio da história sobre o discurso. É o caso do narrador do romance Dom Casmurro. Este último é um estudo do romance Dom Casmurro de Machado de Assis que demonstra de forma brilhante a importância do foco narrativo para a compreensão de um texto literário. de Machado de Assis. a narrativa quase não se deixa ver enquanto materialidade.

referentes à noção de A onisciência diz respeito onisciência e às formas de narrador que lhe são correspondentes. já que o nar- rador se comporta como se tivesse sido testemunha daquilo que conta. o narrador sabe mais que a personagem sobre si mesma e seu destino. manter em segredo aspectos relativos a outras personagens cujas atitudes podem ser cruciais para o desenvolvimento da trama. e e f. mas que não participa da trama. O narra- dor onisciente é um nar.Os Lugares Textuais 4. A utilização da primeira pessoa neste caso tem. Esta estratégia permite. A subjetividade do narrador onisciente neutro gens nela envolvidas. em geral. e o segundo se limita a apresentar os fatos.Unidade B . a moral. Ligia Chiappini apresenta a tipo- logia a partir da qual Norman Friedman conceitua as diversas formas de narrador: a) narrador onisciente intruso b) narrador onisciente neutro c) “eu” como testemunha d) narrador-protagonista e) onisciência seletiva múltipla f) onisciência seletiva Vamos abordar primeiro os tópicos a. 42 . por exemplo. mantendo-se cego em relação ao restante das personagens. No caso da onisciência seletiva múltipla o narrador é onisciente ape- nas em relação a algumas personagens da trama. O “eu” como testemunha é um narrador em primeira pessoa. b. Já a onisciência seletiva diz respeito a um narrador que é oniscien- te apenas em relação a uma única personagem. é escamoteada ao máximo para que obtenha o efeito de objetividade. Neste caso. a uma posição do sujeito que se coloca acima dos A distinção entre o narrador onisciente intruso e o narrador onis- acontecimentos. qualquer tipo de intromissão.2 O Foco Narrativo No segundo capítulo de seu livro. os rador em terceira pessoa costumes. ciente neutro é que o primeiro tece comentários sobre as personagens. etc. evitando que sabe mais acerca da trama do que as persona. mas apenas e tão somente em relação a esta. o objetivo de dar verossimilhança à narrativa.

já que o sexagenário sabe se utilizar das palavras de forma a convencer o seu interlocutor. O discurso de Dom Casmurro não é falso ou verdadeiro. Narrador e Foco Narrativo Capítulo 04 O narrador-protagonista é aquele que narra a partir de um centro fixo limitado a suas percepções e sentimentos. narrativa em terceira pessoa em que o narrador onisciente desvenda os fatos para o leitor. os fatos apresentados são aqueles selecionados e apresentados por um único ponto de vista e este não é o do marido traído. mas o do marido que se sente como tal. como Madame Bovary de Flaubert e O Primo Basílio de Eça de Queiroz. Silviano demonstra que Dom Casmurro é um livro sobre o ciúme. O mundo que se apresen- ta ao leitor é um mundo parcial que se dá como a representação deste único ponto de vista. a primeira pessoa traz à narrativa ambigüidade. Dom Casmurro é alguém que domina a arte da retórica. principalmente Capitu. Daí o título do artigo: Retórica da verossi- milhança. já que a crítica de Silviano Santiago permite que se perceba que Machado de Assis arqui- tetou sua narrativa de tal maneira que passa ser inegável que há um leitor ideal capaz de perceber que. mas extremamente verossímil. O objetivo do crítico é demonstrar o equívoco de se considerar a obra de Machado como um simples derivado dos roman- ces do século XIX relacionados ao adultério feminino. O artigo de Silviano Santiago. 43 . O motivo desta crença reside no fato de que sendo o narrador a personagem central do livro e estando todos as outras personagens silenciadas. uma artimanha utilizada pelo autor-modelo de forma a tornar a abordagem do casamento e do tema da fidelidade um tanto mais complexa do que em romance anterior. Em Dom Casmurro. enquanto advogado. Ressurreição. independente da verdade ou não da traição. A partir de uma forte linha argumentativa que tentarei acompanhar. Silviano Santiago demonstra o quanto é ingênua qualquer crítica que se atenha no tema do adultério e o quanto erram aqueles que procuram no livro de Machado uma verdade acerca da infidelidade de Capitu. A questão do ponto de vista ou do foco narrativo se une ao que aprendemos com Umberto Eco acerca do leitor-modelo. trata justamente da função do narrador-personagem em Dom Casmurro de Machado de Assis. assim. Retórica da verossimilhança. O ponto de vista em primeira pessoa é.

que este artigo de Silviano Santiago Consulte no E-dicionário de demonstra o quanto o conhecimento dos elementos da narrativa e de termos literários o verbe. atividade esta que exige a ultrapassa- Genette para designar o gem de um nível superficial de leitura e o conhecimento dos procedi- mesmo que foco narrativo ou ponto de vista: http:// mentos efetivamente utilizados para a configuração de uma narrativa.htm O verbete focalização cita. suas funções é capaz de promover uma leitura especializada. Neste sentido. trata-se de uma técnica que possibilita re- produzir em uma superfície bidimensional a realidade tridimensional. no mínimo. Entretanto. o narrador teria. E a retórica é uma arte que se pauta no provável. A perspectiva é um fenômeno. se perceba que há no livro o predomínio da imaginação sobre a memória. que ter uma grande memória.pt/edtl/ verbetes/F/focalizacao. as ques- tões relativas ao tempo. no verossímil e não no verdadeiro. Daí a utilização do termo na narrativa para designar a posição do narrador que é tecnicamente construída e delineia a maneira como 44 . o que. em alguns momentos. Perceba-se que o narrador. para um homem letrado como Dom Casmurro.Os Lugares Textuais Santiago demonstra que o narrador de Dom Casmurro se comporta como quem defende uma tese. fala em um suposto presente. Para que este tempo já ido pudesse ser resgatado. o que faz com que a questão da personagem de Machado seja ética. no século XV. o termo perspectiva como apropria- do para designar a relação que o sujeito da narrativa mantém com o objeto que narra. o autor deixa pistas ao fazer com que. Silviano Santiago vai ainda mais além quando aponta para o fato de que. são de extrema valia. É possível perceber.fcsh. além de ser uma narrativa sobre o ciúme. O termo é utilizado nas artes plásticas para designar a técnica de pintura que permitiu. bem como te intitulado focalização. não é de todo perdoável. Ele sabe o que comprovar para justificar seu comportamento diante da esposa e do filho.Unidade B . já que precisa conven- cer o leitor da culpa de Capitu para inocentar a si mesmo. ao fazer com que o narrador demonstre dúvida acerca da autoria de citações das quais se utiliza. termo utilizado por Gerard possibilitar a atividade da análise. ainda. abordadas em capítulo anterior.unl. Dom Casmurro se confi- gura como uma crítica a uma sociedade que valoriza a retórica pratica- da amplamente por bacharéis e jesuítas. embora tenha vivido no passado que narra. que os quadros apresentassem uma ilusão de profundidade. ou seja. www. diante do qual este passado já está distante. relacionado à percepção humana. Mas Machado permite que se perceba que não é o caso. portanto. portanto.

não havia esta necessidade e os quadros podiam apresentar figuras independentes na tela. e o terceiro capítulo do livro de Beth Brait. porque estas figuras estavam todas submetidas à existência divina. Assim como na pintura. 45 . em uma superfície plana. a perspec- tiva define a maneira como se torna possível visualizar os objetos de um quadro. Somente a perspectiva permite que um objeto pareça. por exemplo. A personagem. na Idade Média. estar à frente de outro. ainda. Cabe ressaltar. Para a próxima unidade. Antes. peço que leia o capítulo Literatura e per- sonagem. do livro A personagem de ficção. Narrador e Foco Narrativo Capítulo 04 os objetos aparecem para o leitor. de Antonio Candido e outros autores. que a perspectiva é um fenômeno da Idade Moderna e está relacionada com o próprio humanismo e com a neces- sidade de fazer os objetos da realidade se relacionarem através do ele- mento humano.

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331-386. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Nova Fron- teira. São Paulo: Companhia das Letras1999. José de. Roland. 2005. São Paulo: Ática. In: SOUZA. Seis passeios pelos bosques da ficção. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1992. ASSIS. São Paulo: Ática. São Paulo: Brasiliense. Leia mais! CERVANTES. Laura de Mello e. FOCAULT. Macunaíma. Michel. Machado de. 1999. Magia e técnica. 1994. Umberto. Grande Sertão veredas. arte e política. p. V. BARTHES. Dom Quixote. 2006. SANTIAGO. 1998. São Paulo: FTD. BENJAMIN. São Paulo. Mário de. 1981. São Paulo: Ática. Iracema. Belo Horizonte: Itatiaia. In: Uma literatura nos trópicos. Walter. Miguel de. BARRETO. Ligia. 1987. 47 . Lima. O rumor da língua. 1978. Guimarães. Perspectiva. Luis Carlos. Lisboa: Vega. ROSA. Referências da Unidade B ALENCAR. I. História da vida privada. Retórica da verossimilhança. 2004. p. São Paulo: Compa- nhia das Letras. ECO. O que é um autor?. 29-48. 2004. CHIAPPINI. ANDRADE. 1994. São Paulo: Martins Fontes. 3 ed. 13 ed. Silviano. VILLALTA. Triste fim de Policarpo Quaresma. O que se fala e o que se lê. O foco narrativo.

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Unidade C A Personagem e o Enredo .

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embora não saiba dizer exatamente o que levou você a esta certeza. O capítulo argumenta em torno do fato de que. como ocorre com o romance Esaú e Jacó de Machado de Assis. Linguagem e Personagem Capítulo 05 5 Ficção. por exemplo. algumas vezes. Talvez você possa lembrar até que. Mas isto pode ocorrer porque alguns autores se utilizam de convenções realistas: inscrevem narradores em terceira pessoa. Claro que você pode. Linguagem e Personagem Nos filmes que eu tento ver Nos livros que eu tento ler Você sempre é O personagem principal Que tem o beijo no final (Personagem. ter se equivocado. é comum a recriação ficcional de eventos e fatos históricos.1 Personagem como Sintoma Ficcional Creio que o ponto crucial do primeiro capítulo do livro A persona- gem de ficção seja o de chamar a atenção para o fato de que a persona- gem e seu surgimento em uma narrativa possibilitam o imediato reco- nhecimento de seu caráter ficcional. você não costuma se enganar e sabe quando um livro é ou não de narrativas de origem imaginária e quando está diante de tramas e personagens ficcio- nais. É claro que isto é algo de que você já tinha conhecimento. Ficção. Na ficção histórica. por exemplo. 51 . Pedro e Paulo. é possível perceber a elaboração imaginária do discurso narrativo. em que a oposição entre República e Monarquia é recriada através da narrativa em torno de dois irmãos. Na maioria das vezes. se confundiu e tomou como um texto de história. embora talvez nunca tenha refletido sobre o assunto. uma obra de ficção. Carmem Silva) 5. de fato. a partir do tratamento dado pelo narrador à personagem. ambientam suas personagens em eventos retirados da historiografia oficial e as mesclam com personagens históricas.

e o vaqueiro precisava chegar.. Você poderá utilizar seus conhecimentos para escolher os melhores textos literários para os seus alunos. enquanto nas disciplinas de Literatura Brasilei- ra. assim como a ma- neira de abordá-los de forma adequada. “desejar”. na medida em que estados psíquicos não podem ser percebidos e descritos por observadores externos. “imaginar”. Em outras palavras. em muitos momentos. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. daqui em diante.. “re- cear”. por exemplo. que só podem ser atribuídos a personagens de ficção. “duvidar”. Tinha o coração grosso. A presença de uma afirmativa do tipo: “João refletiu por alguns segundos em silêncio: valeria a pena arris- car-se a perder tudo que havia conquistado em tantos anos?” se define como um sintoma da ficção. o narrador expõe ao leitor uma seqüência de pensamentos de Fabiano que testemunha a dimensão da crueldade da realidade vivida: O pirralho não se mexeu. É o caso da origem imaginária de um texto. como aqueles referentes a processos psíquicos como “refletir”. ao apresentar a triste re- alidade vivenciada pelas personagens.A Personagem e o Enredo O importante é que. mas dificultava a marcha. e Fabiano desejou matá-lo. você estará entrando em contato com os elementos que configuram os textos literários e com as diversas correntes críticas. você deve estar mais e mais consciente da narrativa ficcional enquanto conjunto de estratégias textuais. não sabia onde (. você estará entrando em contato com obras do cânone literário brasileiro. Certamente esse obstáculo miúdo não era cul- pado. Como disse acima.Unidade C . você estará aprenden- do a perceber e a abordar de forma mais objetiva o que já intuía. a não ser no plano do imaginário. O que se está querendo afirmar? Que existem certos verbos.) 52 . Logo no primeiro capítulo de Vidas secas. “pensar”. nas disciplinas de Teoria Literária. queria responsabilizar alguém pela sua desgraça.

os joelhos encostados ao estôma- go. Sinhá Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afir- mou com alguns sons guturais que estavam perto. Outro sintoma de ficção está na relação com o passado. irresoluto. Rio de Janeiro: Re- cord. depois da toillette e do café. que se encolhia. 103. Linguagem e Personagem Capítulo 05 Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a idéia de abandonar o filho naquele descampado. O trecho se torna. Lia 53 . com isto. (RAMOS. pegou no pulso do menino. examinou os arredores. pois narra como se fosse testemunha ocular de um tempo que não é o presente. co- çou a barba ruiva e suja. Vidas secas. sentava-se no divã da sala principal e lia todos os jornais. e somente aqueles que o narrador inscrever em sua narrativa. assim. Embora uma narrativa ficcional possa se utilizar do pretérito. explicita sua origem imaginária. Na sua meiga e sossegada casa de São Cristóvão. de Lima Barreto: Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. idéias. Observe. Ficção. ed. guardou-a no cinturão. na narrativa. É importante também perceber como a relação entre o narrador e a personagem é crucial para delinear a ficção. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. 2007.10-11) Observe como o trecho citado tem como centro uma seqüência significativa de acontecimentos que não poderiam ser descritos por um observador externo. Fabiano meteu a faca na bainha. enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu temperamento. o início do segundo capítulo de Triste fim de Policarpo Quaresma. permitir que o leitor também tenha acesso a eles. De manhã. a visão se torna parcial e somente os pensamentos internos do próprio narrador poderão ser acessados pelo leitor. nas ossadas. p. No caso. sensações e pensamentos internos a Fabiano. Graciliano. este perde seu ca- ráter de pretérito porque o leitor passa a presenciar o passado junto com o narrador. o narrador presentifica o passado. a título de exemplo. No caso de um narrador em primeira pessoa. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. frio como um defunto. um dos sintomas de ficção porque. ao expor pensamentos. acocorou-se. Ou seja. já que giram em torno de sentimentos. o narrador é capaz de adentrar os pensamentos de Fabiano e. Pensou nos urubus.

Estes detalhes tornam o leitor não somente próximo do passado.A Personagem e o Enredo diversos. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo. assim como a exposição da consciência da personagem através de afirmações como “Lia diversos. como forma de arte. mas próximo da própria personagem. ed. passando a viver sua própria experiência. São Paulo: Ática. como se fosse bem cerejas e figos.Unidade C . 30) É importante ressaltar que o narrador faz o leitor acompanhar em pormenores os hábitos do Major Quaresma. continuava a tomar a pri- meira refeição de garfo às nove e meia da manhã Acabado o almoço. para os não perder. por sua vez. Triste fim de Policarpo Quaresma. 1984. embora estivesse de férias. dava umas voltas pela chácara. (BARRETO.)”. Assim. a quem poderá acompanhar de forma minuciosa. Lima. recebendo a pitanga e o cambuí os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia. difíceis de se- rem apreendidos pela memória. são de extrema valia para a configuração de um quadro coerente acerca da personagem. todos os elementos se tornam funcionais. p. Esta aproxima- ção. Neste sentido.. como a contagem de dez dias sem sair de casa. é importante observar que.2 Personagem x Ser Humano Em relação à personagem de ficção. 13. na narrativa ficcional. Estes detalhes tornam evidente o cará- ter imaginário da configuração do passado. e. através da apresentação de detalhes que aproximam a narrativa do tempo passado. porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa.. a sugestão de uma idéia útil à sua cara Pátria. explicita o caráter ficcional da narrativa porque se atém a detalhes. dos hábitos regula- res ao cultivo das “fruteiras nacionais” na chácara do Major Quaresma. chácara em que predominavam as fruteiras nacionais. 5. porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa (. adquire na ficção a função de configurar a coerência do cenário e das personagens. Observe também como determinados detalhes. o capítulo apresenta uma com- paração desta com os seres humanos reais e afirma que as personagens 54 . aquilo que figuraria numa narrativa histórica como mero suple- mento ou detalhe.

seleção e den- sidade. José de. as personagens apresentam um perfil muito mais definido e coerente do que as pessoais reais. a virgem dos lábios de mel. 1998) b) “Quaresma era um homem pequeno. Na ficção. Vestia-se sempre de fraque. 13. e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta. olhava sempre baixo. Iracema. Lima. magrinha. magro. um forte brilho de penetração. e mais longos que seu talhe de pal- meira. 20) c) “Zulmira tinha então doze para treze anos e era o tipo acabado da fluminense pálida. São Paulo: Ática. em nome do prazer estético. ou melhor. as personagens são dadas à observação e se tornam transparentes de uma forma impossível aos seres humanos. p. que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna. compreender por que a personagem de ficção é um ser de linguagem. com pequeninas manchas ro- xas nas mucosas do nariz. na narrativa ficcional. que usava pince- nez. nos trechos acima citados. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ficção. de pano listrado. Ática: 1984. e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da coisa que fixava. (ALENCAR. ed. ou de cinza. mas sem- pre de fraque. (BARRETO. como se se guiasse pela pon- ta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. o ser humano tornado personagem não se separa dos significantes utilizados para descrevê-lo e que são elaborados. Selecionei alguns trechos dos roman- ces que você está lendo para que possamos examinar cuidadosamente esta relação estreita existente entre linguagem e personagem. antes de tudo. O favo da jati não era doce como seu sorriso. nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado”. como é o caso de Fabiano e do Major Quaresma. os seus olhos tomavam. Contudo. das pálpebras e dos lábios. por detrás das lentes. sempre os trazia baixos. azul. mas. quando fixava alguém ou al- guma coisa. faces leve- 55 . Na medida em que há um número limitado de orações em uma narrativa. Além disto. preto. a) “Iracema. feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época”. Linguagem e Personagem Capítulo 05 são mais ricas porque são elaboradas com concentração.

ao se ater ao hábito de Quaresma de olhar para baixo a maior parte do tempo e de demonstrar intensidade nas poucas vezes em que fixa o olhar em alguém. Chile. na utilização da frase: “manchas roxas nas mucosas do nariz”. personalidade esta que será refor- çada por suas ações ao longo do romance. pés pequenos. negros. En- tretanto.Unidade C . pre- sente na citação acima. 56 . por exem- plo. (AZEVEDO. unhas moles e curtas. homem de hábitos regulares. dentes pouco mais claros do que a cútis do rosto. objetivo. p. Por sua vez. assim como em toda obra de arte. Já o Major Quaresma. O Globo/Klick Editora. Iracema não existe sem as analogias com a natureza e é através delas que o narrador guia o leitor para configurar a imagem da heroína romântica que se constitui através do estabelecimento de um contínuo entre sua beleza e o cenário natural em que nasce. através de orações que se detêm em de- talhes externos que formam uma imagem visual da personagem. ao contrário do trecho de Iracema. que não pode ser separada do discurso que a apresenta. quase não há analogias. Compare Iracema e Zulmira. como as da mãe. vivos e maliciosos”. Aluízio de. mas os olhos grandes. Neste trecho. 25) Gostaria que você observasse como as opções descritivas dos dife- rentes narradores modelam as personagens de forma tal que estas não podem ser dissociadas da linguagem e do estilo com o qual são abor- dadas. o narrador oferece uma pista que permite entre- ver a personalidade da personagem. é descrito por um narrador contido. uma brancura fria de magnólia. a forma é indissociável de seu conteúdo e o mesmo é verdadeiro para a persona- gem ficcional. Você acredita que é possível separar as representações narrativas romântica e naturalista das personagens? Na narrativa ficcional. a menina Zulmira de O cortiço é indissociável da lin- guagem objetiva de estilo naturalista e que se deixa entrever. cabelos castanho- claros.A Personagem e o Enredo mente pintalgadas de sardas. Respirava o tom úmido das flores noturnas. quadril estreito. vive e morre. mãos quase transparentes. 1997. O cortiço.

relação esta que pressupõe a suspensão de valores morais para que o herói possa ser. por uma narrativa que configura. Introdução à literatura fantástica de Tzvetan ção constante do elemento mágico. de suas crenças e valores. Exemplo disto é a própria personagem Capitu do romance Dom Casmurro de Machado de Assis. possibilita que o leitor suspenda pelo tempo de leitura as suas crenças e valores para se permitir visitar. mas também em Ao tornar-se outro através do imaginário. a personagem de ficção apre- senta a complexidade humana de forma condensada. através do imaginário. Exemplo disto é a relação já citada do leitor com a personagem Macunaíma. ou melhor. Embora descreva atos de Macunaíma que poderiam ser considerados perversos ou erra- dos. desde sempre. Para se aprofundar neste tema. o narrador. E como se dá a suspensão destes valores? Primeiro. a experiência ficcional possibilita simultaneamente a vivência e a con- templação. desde já. 57 . Independente da narrativa. que não seja definido pela representação discursiva do próprio Dom Casmurro. na medida em que se ofe- rece a uma apreciação de ordem estética. afasta o leitor Todorov. um mundo que não é regido pelas leis físicas do mundo em que vive o leitor. consulte a obra Ao ambientar a personagem em um mundo regido pela interven. A personagem é modelada diante do leitor através do ponto de vista do narrador em primeira pessoa. na medida em que a percepção estética se define como forma de experiência. entretanto. Ficção. possibilitando ao próprio homem tornar-se observador de sua condição. e contemplação. ou mesmo de Escobar. Outro ponto importante é a forma de narrar através da qual a per- sonagem Macunaíma é apresentada como inocente. percebido como síntese da própria indefinição do caráter do brasileiro. em relação àquele que escreve. O seu nível de onisciência. mentar papéis diferenciados. através da op- ção pelo maravilhoso. o narrador não atribui intencionalidade ou finalidade a estes atos. seu ponto de vista vão definir o maior ou me- nor grau de transparência da personagem. Linguagem e Personagem Capítulo 05 Basta que se pense na relação do narrador com a personagem. um mundo outro. Neste processo. Nada se sabe de Capitu. na medida em que o leitor Observe que utilizo a pala- vra imaginário não apenas se torna observador de algo distinto de si. o ser humano pode experi. em toda sua complexidade. relação àquele que lê. ou seja. Vivência.

em menor ou maior grau.Unidade C . unido ao elemento mágico. em relação ao mundo ficcional. Caso ainda não tenha lido todos os romances citados. valores completamente diversos daqueles que apresenta na vida cotidiana? Na verdade. A narrativa ficcional apresenta uma série de estratégias para expor a própria complexidade da vida e estas estratégias se dão no nível da própria linguagem. Como procurei demonstrar através dos trechos retirados dos romances. Isto permite entender por que é possível simpatizar com assassinos e vilões. procure anotar es- tes elementos. pois isto corresponderia a afirmar que a narrativa teria um ponto de referência externo. ver um filme ou assistir a uma novela televi- siva. Alguma vez você já se flagrou torcendo pelo bandido? Ou expres- sando. mesmo que estes sejam os sujeitos de ações condenáveis na vida cotidiana. o leitor é levado a se afastar de sua realidade. Procure se lembrar de algum caso específico em que isto ocorreu com você ao ler um livro. para tê-los em mente no momento na leitura. assim como os referentes a outros tópicos tratados neste livro-texto (pontos de vista. Quando se lê uma obra de ficção. para criar no leitor a empatia com a personagem. Sugiro que você volte aos exemplos e os examine com atenção. etc. 58 . Isto certamente vai enriquecer suas leituras e a compreensão mais aprofundada das obras. da qual são indissociáveis. que se configura como o elemento do qual se constitui a personagem de ficção. Isto significa dizer que a personagem de ficção não é a representação do ser humano através da linguagem. Na ficção. o imaginário possibilita a reelaboração dos elementos com os quais lidamos na vida cotidiana. A relação que o leitor estabelece com as personagens de ficção não é a mesma que estabelece com os seres humanos. tempos. as personagens de ficção adquirem existência no interior da própria linguagem. enredo. dependendo do estilo da narrativa.). o elemento lúdico prevalece ao longo da narrativa. se adentra um mundo outro em que o leitor também se vê forçado a se reinventar.A Personagem e o Enredo Com isto.

O exemplo extremo da configuração de personagens através de fotografias está nas fotos artísticas capazes de criar auras em torno dos fotografados. Beth Brait mostra como o reconheci- mento e a compreensão da personagem como um ser de linguagem foi uma conquista de séculos e dependeu do próprio desenvolvimento dos estudos literários. uma criatura verossímil. Linguagem e Personagem Capítulo 05 Em seu livro A personagem. Mas isto não nega a existência no mundo e naquele tempo histórico de pessoas que exercessem aquelas atividades. o romance de Alencar. Brait su- gere que. o ângulo. Logo no início de seu livro. Ficção. em personagens. que tem o objetivo de retratar a pessoa de forma que esta possa ser reconhecida. Ou seja. a escolha do penteado determinam a personagem. Entretanto. ele se utiliza de conven- ções realistas. Estas narrativas têm compro- misso com referências externas a si mesmas. antes mesmo de come- çar a tratar dos posicionamentos da crítica. o com- promisso de Alencar é a configuração de uma criatura “possível”. mesmo em uma fotografia 3x4. dentro da obra historiográfica. Isto não quer dizer. pois o escritor teve como base para sua narrativa um argumento histórico: a fundação do Ceará. portanto. como no caso do “semeador” e do “ladrilhador” da obra de Sérgio Buarque de Holanda. Observe. a teórica mostra. neste caso. como as personagens são escolhidas para configurar uma oposi- ção crucial para a própria estruturação da obra. como referência. Para poder explicar melhor a diferença entre personagem e pessoa. os seres humanos também vão se tornar personagens. que os fatos da história não sejam modelados pela linguagem. Braith cita Iracema. a distinção entre pessoa e personagem. Alencar tem. há uma mediação que afasta a imagem da foto da complexidade da pessoa humana: a pose. que opta por tratar as funções no singular para transformá-las em modelos. é importante lembrar que a relação com os docu- mentos históricos é totalmente outra no caso de obras da historiografia como Retrato do Brasil e Raízes do Brasil. através do exemplo da fotografia. Para tanto. o testemunho de cronistas em torno das relações entre o indígena e o português. entre- tanto. dentro das convenções românticas que modelam a linguagem do romancista. 59 . O historiador precisa alcançar um efeito de real para que sua narrativa possa ser tomada como verdadeira. ou seja. Neste sentido.

60 . o que não ocorreria somente nos textos literários. Com seu desenvolvimento. mas como produto da psicologia do ar- tista. que vai possibilitar que se com- do E-dicionário de termos literários referente ao preenda a obra como um sistema de signos. com os formalistas russos. Daí surge a demanda por “formalismo russo”: http:// uma compreensão dos elementos que compõem o texto.pt/edtl/ verbetes/F/formalismo_ formalistas aos conceitos de fábula e trama. A personagem continua.htm pelo conjunto de eventos da obra e a segunda pela maneira como os eventos são interligados. de que as personagens são reproduções dos seres vivos e modelos a serem imitados. entre outros elementos. que com o Romantismo. em que a personagem é vista como um signo dentro de um sistema de signos. A primeira seria composta russo.A Personagem e o Enredo No primeiro semestre. veiculados. como a de Phili- ppe Hamon. estará cada vez mais apegada à noção de obra de arte como produto do talento individual e expressão das paixões humanas. Está apto. Como você pode perceber. o que leva os www.Unidade C . portanto. as pessoas passam a ser signos. em um texto de história ou em uma notícia de jornal. uma vez que são modeladas pelo sistema de signos em que são inscritas.unl. a estar relacionada ao humano. Isto se deve à própria Peço que leia o verbete filiação do formalismo à Lingüística. pelas personagens. a personagem de ficção deixa de ser compreendida como réplica do ser humano para ser tomada como projeção da psicologia do criador. de fato. daí a ênfase nos aspectos mo- rais. portanto.fcsh. O reconhecimento do ser de ficção como um ser de linguagem só vai se dar. Beth Brait está correta ao afirmar que o formalismo russo é um divisor de águas nos estudos críticos. Em meados do século XVIII. a compreender a noção que Beth Brait afirma ter vigorado até meados do século XVIII e que foi reforçada pela idéia de Horácio. Em outras palavras. Isto porque a ficção era vista em termos pedagógicos. mas não como reprodução de modelos existentes no mundo exterior. você estudou em Teoria da literatura I o conceito de mimese de Aristóteles. Esta compreensão coincide com transformações inerentes à pró- pria literatura. chega-se a noções importantíssimas.

Uma sugestão que. new criticism. As- sim como não é possível dissociar autor. como a Psicanálise e a Antropo- logia). É importante observar que. é claro. Ou seja. estética da recepção. você não precisa se in- quietar com a terminologia referente às correntes críticas: forma- lismo russo. 61 . Caso seja de seu interesse. Daí a idéia de que se trata de um sistema de signos. Entretanto. o estruturalismo será o nome de uma corrente crítica que se dá como desdobramento do próprio formalismo rus- so. peça sugestões de leitura. momento no qual você já terá tido contato com seus nomes e estará apto a compre- ender com mais profundidade as contribuições oferecidas aos es- tudos literários por cada uma das correntes críticas. serve para todos os conteúdos da área de lite- ratura é: professores e tutores sempre estarão disponíveis para re- comendar obras que possam ser de seu interesse individual. no momento. na verdade. que você tenha uma noção panorâmica de cada uma delas através do E-dicionário de termos literários ou mesmo consultando outras obras e artigos a respeito. também não é possível separar a personagem do narrador e por aí vai. os elemen- tos são interdependentes. O que é de extrema importância é que você perceba que estas foram correntes críticas que surgiram ao longo do século para atender à demanda por metodologia para a abordagem do texto literário (sendo que o estruturalismo diz respeito também a outras áreas das ciências humanas. A narrativa deve. portanto. Não é possível transformar um destes elementos sem afetar todo o resto. Ficção. leitor e narrador. entretanto. você deve saber que terá uma disciplina especí- fica para abordar as diferentes correntes críticas. ser compreendida como uma estrutura. etc. Linguagem e Personagem Capítulo 05 Você também já deve ter percebido que. Tal como você leu no verbete sobre o formalismo. Nada impede. com o contato entre Jakobson e o antropólogo Lévi-Strauss. estruturalismo. eles não podem funcionar sem estarem interligados. o contexto de seus surgimentos e a pertinência ou não de seus pressupostos no contexto contemporâneo. embora os elementos da narrativa sejam apresentados neste livro em capítulos distintos. estilística.

Entretanto.Unidade C . você pode encontrar de- poimentos de vários escritores acerca da criação de suas personagens. mas sua coerência em relação aos elementos internos da obra. O que define a eficácia de uma personagem não é o mundo exterior à narrativa. mas possibilitar a configuração de tipologias diferenciadas para sua abordagem. vida esta que se faz. 5. as diversas correntes críticas vão não apenas propiciar a compreensão da perso- nagem como um ser de linguagem. que. já que os escritores falam da memória e da ob- servação de pessoas para criar os seres fictícios. se for um mal escri- tor.A Personagem e o Enredo No último capítulo do livro de Beth Brait. Este é um ponto. parecer contradizer a idéia defendida até agora de que a personagem é um ser de linguagem. unl. Por exemplo. A memória e a observação são mediadores entre o escritor e as pessoas. o ser de ficção pode parecer falso. O que comprova isto é o fato de que a existência de um modelo no mundo exterior não é critério para a qualidade de uma narrativa e nem mesmo para sua eficácia. As respostas acerca das origens das personagens podem. http://www. que parece ganhar vida própria. O contrário também é verdadeiro: o escritor pode criar a personagem a partir de sua imagi- nação e esta pode ganhar vida e força.htm verdade. mas.3 Personagem Plana e Personagem Redonda Como bem demonstra Beth Brait. é tão coerente enquanto síntese no E-dicionário de termos de representação do brasileiro. através da força da linguagem. 62 .pt/edtl/verbetes/P/per. apesar de se movimentar num mundo mágico que denuncia este capítulo lendo o verbe- te referente à “personagem” o caráter imaginário de sua existência. através de sua relação com todos os ele- literários. inverossímil. mentos do livro. Outro ponto é que. é importante ressaltar que estes depoimentos interes- sam apenas como curiosidade em torno da criação literária. as personagens só se definem como tal a partir de sua inscrição na narrativa ficcional através da linguagem. na sonagem. baseadas ou não em pessoas. um escritor pode se basear em uma pessoa que co- nheça muito bem para criar uma personagem. Basta que se pense na força de uma personagem como Macunaí- Gostaria que você fechasse ma. à primeira vis- ta.fcsh. ao longo de seu livro.

o sujeito da canção. mesmo sendo um narrador em primeira pessoa. em que apresenta a distinção entre personagens planas e personagens redondas. Linguagem e Personagem Capítulo 05 Em 1927. assim definidas: a) personagens planas: são aquelas que giram em torno de uma única idéia ou qualidade. e tendem a apresentar recursos comumente utilizados 63 . E. oferece a você um claro exemplo de caricatura. ou você acredita que. Tarzan. É possível até mesmo afirmar que as canções se dividem entre aquelas que se filiam ao gênero lírico e aquelas que se filiam ao gênero épico. como tipo ou caricatura. interpretada por música no AVEA Djavan. Foster publica a obra Aspects of the novel (Aspectos do romance). vamos refletir um pouco sobre o ro- mance Dom Casmurro de Machado de Assis. Quando há deformação ou distorção e exagero. Ficção. creio. no caso. As primeiras centram sua mensagem na expressão das sensações do sujeito poético. o narrador como uma personagem redonda. passa-se a falar em caricatura. b) personagens redondas: são personagens complexas que apre- sentam qualidades diversificadas. O que pode levá-lo a perguntar: mas não se trata de uma disciplina sobre narrativas? Esta se configura em uma ótima oportuni- dade para esclarecer que. Podem ainda ser subdivididas em tipo e caricatura. também as canções podem veicular narrativas. Não é difícil identificar. e não mais em tipo. em versão mais recente. Caracteriza-se como tipo a personagem que mantém sua particularidade única sem atingir a deformação. de 1936. com objetivo satírico. M. Dom Casmurro permite que se atribua complexidade a estas personagens? E nos demais romances que está lendo? Quais personagens você caracterizaria como redondas? Quais você compreende como persona- gens planas? Será que as personagens de O Cortiço de Aluízio de Azeve- do podem ser definidas como tipos? Escute e acompanhe a A canção de Noel Rosa e Vadico. filho de Capitu? Você acha que o narrador se fixou em alguma qualidade específica que pos- sa caracterizar alguma destas personagens. assim como existe a narrativa cinematográfica. que se caracteriza por expor sua complexidade através do sentimento de ciúme que nutre por Capitu. Mas e Capitu e Escobar? E o menino. A partir da oposição acima.

mas que pesa e faz doer Eu poso pros fotógrafos. por exemplo. pra evitar assassinato Rasgou logo o meu contrato quando me viu sem roupão Eu poso pros fotógrafos. O meu parceiro sempre foi o travesseiro E eu passo o ano inteiro sem ver um raio de sol A minha força bruta reside 64 . Assim acontece com a letra do samba de Noel Rosa e Vadico que transcrevo abaixo: Tarzan (o filho do alfaiate) Noel Rosa e Vadico Quem foi que disse que eu era forte? Nunca pratiquei esporte.. nem conheço futebol.Unidade C . me vendo em Copacabana: ‘No hay fuerza sobre-humana que detenga este Tarzan’ Quem foi que disse que eu era forte? Nunca pratiquei esporte. e distribuo autógrafos A todas as pequenas lá da praia de manhã Um argentino disse.. As segundas contam pequenas histórias e estão centradas em ações e personagens. como é o caso da maioria dos sambas-enredo. me vendo em Copacabana: ‘No hay fuerza sobre-humana que detenga este Tarzan’ De lutas não entendo abacate Pois o meu grande alfaiate não faz roupa pra brigar Sou incapaz de machucar uma formiga Não há homem que consiga nos meus músculos pegar Cheguei até a ser contratado Pra subir em um tablado.. e distribuo autógrafos A todas as pequenas lá da praia de manhã Um argentino disse.A Personagem e o Enredo na poesia.. pra vencer um campeão Mas a empresa. O meu parceiro sempre foi o travesseiro E eu passo o ano inteiro sem ver um raio de sol A minha força bruta reside Em um clássico cabide. já cansado de sofrer Minha armadura é de casimira dura Que me dá musculatura. nem conheço futebol.

um ter- no com armadura. Beth. mas que pesa e faz doer Como é possível perceber. constituindo imagens totais e. entretanto. Compreender a personagem caricata como aquela que se delineia através da ênfase exagerada em um único traço é fundamental para que se compreenda a personagem que lhe é diametralmente oposta. a afirmar sua superioridade em re- lação à personagem plana. pois o que o caricaturista faz é justamente acentuar o traço que pretende criticar: uma parte do corpo ou um gesto. a personagem redonda. a canção começa e termina com a estrofe cujos últimos versos revelam a artimanha utilizada pela personagem para simular força física: “A minha força bruta reside em um clássico cabide já cansado de sofrer/ Minha armadura é de casimira dura que me dá musculatura e me pesa e faz doer”. Ao ouvir a canção. já que todas as ações descritas giram em torno da ênfase exagerada na simulação de porte físico de acordo com os ideais estéticos vigentes. Na verdade. Macunaíma. que vai figurar na maioria dos romances: Ira- cema. assim. trata-se de um discurso em primeira pes- soa em que o sujeito da canção se revela como uma personagem que se define por uma característica central: se utilizar da vestimenta. são multifacetadas. para simular ser um homem musculoso. um ótimo exemplo de caricatura. Linguagem e Personagem Capítulo 05 Em um clássico cabide. Op. 41) O fato de se diferenciar a personagem redonda por sua complexi- dade não corresponde. utili- zada aqui para remeter a um tipo de personagem plana. se delineia claramente a imagem desta figura risível através da qual os compositores satirizam os padrões estéticos relacionados ao cor- po atlético que começam a circular nas primeiras décadas do século XX. p. já cansado de sofrer Minha armadura é de casimira dura Que me dá musculatura. É claro que você já deve ter relacionado a palavra caricatura. O caráter circular da canção comprova a ênfase no aspecto caricatural. principalmente com a propagação do cinema e de seus artistas. a um tipo de de- senho também denominado caricatura. seja esta um tipo ou caricatura. 65 . (BRAIT. A relação é bastante pertinente. A per- sonagem se torna. ao mesmo tempo. Ficção.cit. ou seja. muito particulares do ser humano”. ou seja. Dom Casmurro são personagens que parecem ade- quadas à definição de Beth Brait: “são dinâmicas.

obras como as de Clarice Lispector e Guimarães Rosa apresentam um nível tal de complexidade que pouco podem ser abordadas sem o acesso à lin- guagem específica e ao conhecimento disponibilizado pelas diferentes correntes críticas. por exemplo. linguagem e enredo. como as narrativas de Marcel Proust. também é impossível perceber a riqueza de uma personagem como Macunaíma sem captar a relação de interdependência entre personagem. mas a outros elementos da narrativa.A Personagem e o Enredo o estilo da obra é que vai modelar a melhor forma de personagem. Estas afirmações apenas confirmam o que já foi dito acima: que a personagem não é pessoa. James Joyce. assim como as narrativas psicológicas funcionam melhor ao expor a complexidade das personagens redondas. Virginia Woolf. Brait obser- va como as correntes críticas tendem a se sofisticar em suas tentativas de abarcar as nuances e especificidades do texto literário à proporção em que surgem novos desafios. no Brasil.4 Outras Tipologias para a Abordagem da Personagem de Ficção O livro de Brait torna bastante claro o fato de que as metodologias de abordagem do texto literário tendem a acompanhar as transforma- ções ocorridas nos próprios textos ficcionais. Não é muito diferente com Machado de Assis e Mário de Andrade. Neste sentido. independente das tipologias utilizadas para a análise do romance. como é difícil perceber a sutileza da obra de Machado sem compreender a função exercida pelo ponto de vista. mas um ser de linguagem. A sátira parece se valer muito bem dos tipos e caricaturas. é importante compreender o quanto as formas de classifi- cação das personagens demonstram que estas estão ligadas não a ele- mentos do mundo exterior. 5. em que a tipologia vai se concentrar nas relações entre as personagens e entre estas e os lugares e objetos. É o caso da obra de Bournef e Ouellet. Obras como Dom Casmurro e Macunaíma requereram a compreensão dos dispositivos utilizados para que se tornassem as refe- rências que são. Basta que observemos que. através da leitura de Silvia- no Santiago. Assim como já demonstrei. 66 . Desta forma.Unidade C .

através da qual o agente da ação pode ser subdividido em seis categorias: condutor da ação. 67 . árbitro ou juiz. um dos objetos de disputa. Linguagem e Personagem Capítulo 05 com a seguinte classificação da personagem ficcional: elemento decora- tivo. dentro do romance de Mário de An- drade. aquele que pode ocupar funções diferenciadas em relação à ação. sentir e perceber os outros e o mundo. ser fictício com forma própria de existir. surge a figura de Maanape como adjuvante. Ou seja. O que as tipologias acima demonstram? Justamente a relação de in- terdependência entre os elementos da narrativa. Mas. funcionalidade em procurar no mundo exterior pessoas que possam assemelhar-se à personagem Macunaíma. não é possível haver oponente sem haver o condutor da ação. A relação entre as personagens e entre as personagens e o objeto está intimamente ligada com as ações que terão lugar na trama. é certo. Por exemplo. a relação entre estes três elementos: Macunaíma muiraquitã Venceslau Pietro Pietra (gigante Piaimã) Nos dois extremos. ou seja. oponente. Em função desta relação estreita existente entre ação e personagem. que é o talismã de Macunaíma. agente da ação. destinatário. Não encontramos. objeto desejado. uma outra tipologia. vê-se uma relação de oposição.e no centro. porta-voz do autor. não se pode pensar nas ações em torno destas personagens sem pensar no jogo de oposições exis- tente entre elas. No que diz respeito ao agente da ação. Da mesma forma. desenvolvida por E. Brait apresenta. Uma personagem não pode ser considerada como elemento decorativo sem que haja outro que seja compreendido como o agente central ou mesmo algum outro ele- mento que apresente mais centralidade do que as personagens. Macunaíma alterna com Piaimã as posições de condutor e opositor. que vem em auxílio de Macunaíma e o salva de Piaimã. ainda. Greimas substitui a palavra personagem pela palavra ator. adjuvante. Ainda dentro deste conflito. ser fictício que vive em um mundo também fictício regido por leis pró- prias. veja como é funcional. Souriau e W. Propp. de- pendendo da ação em que estão envolvidos. Ficção.

Macunaíma não seria Ma- cunaíma se não se movimentasse em um mundo em que a intervenção mágica é constantemente o elemento transformador. narrador.A Personagem e o Enredo É fundamental que se perceba que estilo. enfim.Unidade C . Peço. são estudados em separado apenas por questões didáticas. que. 68 . O último capítulo que vamos abordar vai apenas confirmar esta relação de interdependência entre os elementos da narrativa. como preparatório. por- tanto. enredo. O naturalismo de Aluízio de Azevedo não poderia se expressar da maneira crua como se dá em O cortiço se as personagens não fossem abordadas como repre- sentantes do grupo a que pertencem. personagem. os elementos que constituem a narrativa. leia o livro de Samira Nahid de Mesquita denominado O enredo.

cit. definido pela autora como “a própria estruturação da narrativa de ficção em prosa”. O Enredo Capítulo 06 2 O Enredo Olha a voz que me resta Olha a veia que salta Olha a gota que falta Pro desfecho da festa Por favor. p. Não é o caso de Macunaíma. Observe que a autora demonstra que.. em Iracema. a narrativa se inicia no segundo capítulo. Chico Buarque) A partir da leitura do livro de Samira Nahid de Mesquita. Esta últi- ma também atenderia pelo nome de enredo. Desta forma. Op. cit. portanto. 23). indo de um estado inicial até o desfecho. através da palavra enredo. se articulam personagens na ação que se traduz como “o percurso seguido pelas personagens através das sucessi- vas situações” (MESQUITA. você deve ter percebido que.. p. A primeira se refere àquilo que se narra e a segunda à forma como se narra. que narra o nascimento do herói logo nas primeiras linhas. (Gota d’agua. vem à tona uma dicotomia a que já me referi anteriormente: a história e o discurso. a autora enumera as fases do enredo de uma narrativa tra- dicional: a) apresentação b) complicação c) desenvolvimento d) clímax e) desenlace 69 . não diz respeito somente ao que é narrado mas à forma como os fatos se sucedem. 21) O enredo. dentro do enredo. Op. Assim. (MESQUITA.

da inovação na ordem do discurso. enfim. o enredo também se relaciona com o tem- po e com as figuras de duração. o enredo. e as personagens. não é o tema ou assun- to da obra que se dá como crítica somente. Trata-se de elementos de crucial importância para o enredo.A Personagem e o Enredo Estas fases correspondem a um encadeamento de conseqüências que vão se dando como transformações ocorridas em relação ao uma situação inicial. Se há flashbacks ou interrupções para descrições. A crítica se materializa através da experimentação no nível da linguagem. por exemplo. assim como o ponto de vista. O enredo é a forma efetivamente adquirida pela narrativa. Ou seja. E é a forma de narrar. É o que acontece em Dom Casmurro e em outras obras de Machado de Assis. anteriormente estudadas. Ou seja. a autora cita Macunaíma para de- monstrar como a linguagem e a relação com o espaço e o tempo vão ser fundamentais para configurar o caráter experimental da obra que se faz como crítica veemente da cultura brasileira. que define o ritmo com que estas transformações se dão. o processo de transformações ocorrerá de forma mais lenta. 70 . o enredo é o entrelaçamento de todos os elementos anteriormente estudados. Na verdade. que enca- minham as transformações de formas diferenciadas e se ocupam das posições de protagonista ou antagonista. Ao abordar a prosa modernista. da incorporação pela prosa de elementos do discurso poético.Unidade C . que articula o tempo e o espaço.

5. ed. 1976. 4. este excelente trabalho. A personagem de ficção. Beth. São Paulo: Perspec- tiva. A personagem.. CANDIDO. na década de 70. 2006. a obra foi reeditada em 2008. Morfologia de Macunaíma. Esgotada durante al- guns anos. São Paulo: Ática. 2008. Haroldo de Campos publicou. Samira Nahid de. São Paulo: Perspectiva. MESQUITA. Leia mais! CAMPOS. Antonio et alli. ed. em que reflete sobre as categorias de Vladimir Propp em Morfologia do conto através da análise Macunaíma de Mário de Andrade. 2006. Haroldo de. São Paulo: Ática. Referências da Unidade C BRAITH. 71 . O enredo.

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Unidade D Prática como Componente Curricular .

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Com isto. o aluno poderá. com uma gra- duação em Letras. mas totalmente possível. enquan- to profissional a quem será confiada a tarefa de auxiliar outros indivíduos na construção do conhecimento. o PCC. já que. enquanto aluno de Letras. devido à complexidade das questões abordadas no curso. aplicabilidade esta que pode. parecer uma possibilidade remota. um certo número de horas dedicado ao que se denomina Práti- ca como Componente Curricular. o objetivo do PCC é possibilitar que o aluno possa. A Adequação do Conteúdo ao Público-alvo Capítulo 07 7 A Adequação do Conteúdo ao Público-alvo É sempre bom lembrar Que um copo vazio Está cheio de ar Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho Que o vinho busca ocupar o lugar da dor Que a dor ocupa a metade da verdade A verdadeira natureza interior (Copo vazio. Gilberto Gil) O currículo do Curso de Letras da UFSC inclui. você esteja atento e consciente de sua formação enquanto professor. é necessário que. desde sempre. você poderá atuar nos ensinos fundamental e médio. pensar aquilo que aprende ao longo das disciplinas em sua adequação às atividades que exerce ou que virá a exercer no futuro como profissional de ensino. assim como serão diver- sificadas as possíveis atitudes que você possa vir a ter em uma sala de aula. Claro está que estas horas são dedicadas a reflexões voltadas à adequação do conteúdo das disciplinas à prática pedagógica nos ensinos fundamental e médio. Isto já signi- fica compreender que o leque de opções é amplo. ou seja. refletir sobre a aplicabilidade presente e futura de seus conhecimentos. Ou seja. para algumas dis- ciplinas. 75 . durante o curso. a princípio. mas que vai aos poucos se mostrando como algo não somente desejável. Para tanto. da quinta série do primeiro grau à terceira do segundo grau. O primeiro aspecto que se deve ter em mente diz respeito à identidade destes indivíduos.

no caso do ensino supletivo. assim como cada indivíduo também deve ser considerado enquanto ser único. por outro lado. ou seja. Para tanto. O que se quer dizer com isto? Antes de tudo. Neste aspecto. mais apto estará a fazer adaptações quando neces- sárias e a rever suas posições. que responde de forma diferenciada à construção de conhecimento. Você pode traba- lhar com crianças. pois cada grupo vai demonstrar características distintas. entram em cena outros fatores que só podem ser conhecidos com o tempo. que envolve desde diferenças entre a realidade urbana e rural até o nível sócio-econômico dos alunos. você deve ter em mente estas per- guntas. você deve adaptar estes parâmetros e expectativas ao conhecimento que for adquirindo ao longo do semestre em relação aos alunos. aquele que estabelece as regras para o melhor funcionamento das aulas. Isto não significa que o professor não possa partir de alguns pressupostos e expectativas e se sentir seguro em relação a seu planeja- mento. adolescentes e até mesmo adultos. Isto vai permitir que você estabeleça parâmetros para sua atuação e mapeie expectativas em relação ao rendimento dos alunos. até mesmo crianças. a série e o nível sócio-cul- tural dos alunos. todos. primeiro você planeja a disciplina a partir de pressupostos que envolvem a faixa etária. que em maior ou menor grau. fatores relacionados a traços de personalidade e temperamento individuais.Unidade D . Mas. portanto. Claro está que todos os aspectos abordados acerca do grupo a que pertencem os alunos importam na medida em que podem fornecer pa- râmetros acerca dos conhecimentos prévios. mesmo que estas regras possam ser revistas e reavaliadas. Muito ao contrário: quanto mais seguro estiver o professor em relação a suas crenças. assim como o desejo de conhecer mais e mais os seus alunos ao longo do ano letivo. Ou seja. Antes de planejar uma disciplina. Este repertório é fun- damental para que você possa fazer com que os novos conhecimentos interajam com conhecimentos prévios. Este é um primeiro ponto que deve nortear as suas decisões em torno de sua prática pedagógica. têm algum conhecimento ou alguma forma de relacionar conteúdos es- 76 .Prática como Componente Curricular de acordo com os alunos com os quais tenha que lidar. é fundamental que sempre esteja claro para as turmas que você é a instância de avaliação e. O segundo ponto diz respeito ao contex- to cultural em que vivem seus alunos. dos elementos que podem vir a constituir o repertório dos alunos.

Embora esta seja a distinção básica que pode aqui ser abordada. Nos próximos capítulos. etc. se assistem televisão. o indivíduo desenvolve a capacidade de abstração. o estudo da literatura está a serviço dos estudos da linguagem e dos desenvolvimentos da capaci- dade de leitura. é preciso levar em consideração que. Os conteú- dos que você assimila nesta disciplina acerca da narrativa serão utiliza- dos de diferentes formas no ensino fundamental e médio. Crianças e adolescentes costumam se pergun- tar acerca da função da escola e dos conteúdos que aprendem. a novela televisiva. Assim como Machado de Assis e Mário de Andrade. a canção. o Big Brother. b) n o ensino médio. Entretanto. Estas informações ser- vem para que você contextualize as novas informações em relação a seus cotidianos. Por exemplo. da infância à ida- de adulta. você vai poder saber se eles pos- suem internet. se têm acesso a formas diversificadas de artes. a cartomante. o que possibilita a abordagem de obras mais complexas. como já visto. mas estórias. e não apenas em função da faixa etária. a cartomante e o fofo- queiro também são contadores de estórias. como o nível sócio-econômico dos alunos e o contexto cultural. é claro. se conhecem outras cidades e esta- dos. Na verdade. música. se têm livros em casa. tudo pode ser utili- zado para contextualizar uma conversa sobre a narrativa. teatro. trata-se de versões contemporâneas de narradores orais. a notícia veiculada pela Internet. você precisa apenas utilizar o bom senso. artes plásticas. vou me concentrar em comentar e exem- plificar as diferentes maneiras pelas quais você pode lançar mão de seus conhecimentos acerca do estudo da narrativa em suas atividades como professor nos ensinos fundamental e médio. A Adequação do Conteúdo ao Público-alvo Capítulo 07 colares com suas vivências cotidianas. não tão sofisticadas do ponto de vista da elaboração da linguagem. a fofoca. A partir da percepção acerca do cotidiano dos alu- nos de uma escola pública ou particular. o rapper. Esta relação é fundamental para a manutenção do interesse. interpretação e produção de textos. Estes exemplos 77 . como cinema. A princípio. há outras questões que podem e devem ser levadas em consideração. para respeitar estas diferenças. a literatura torna-se uma disciplina específi- ca. mas também porque: a) n o ensino fundamental.

Você também pode suprir como professor muito da carência de informação advinda da origem familiar. 78 . canções. em uma classe de escola pública. Ou seja.Prática como Componente Curricular vão servir para levar à percepção de que os conteúdos estão próximos dos alunos. Os conteúdos podem ser ilus- trados com filmes. o que pode ser apenas uma sugestão para que se pegue um filme numa locadora ou se assista a um vídeo no youtube em uma sala de aula de uma escola particular de classe média pode se transformar em uma atividade de sala de aula.. obras de arte. etc.Unidade D . principalmente quando você souber que não podem ter acesso às informações por outras vias.

é importante perceber que esta fase do ensino fundamental corresponde. desde a primeira fase. Assim. espera-se que. você se torne um leitor mais sofisticado e. Vinicius de Moraes) 8. você estará trabalhando com Língua Portuguesa e a narrativa aparecerá como uma forma de texto entre outros. Apesar das transformações. é preciso considerar a enorme diferença compor- tamental entre os alunos da quinta e sexta e os da sétima e oitava. como tal. a partir dos estudos de Teoria da Literatura. Creio ser possível afirmar que a aplicabilidade do conteúdo de Teo- ria da Literatura II será demonstrada através de sua contribuição na for- mação de novos leitores. à passagem da infância à adolescência. A Narrativa no Ensino Fundamental Capítulo 08 8 A Narrativa no Ensino Fundamental Era uma casa Muito engraçada Não tinha teto Não tinha nada Ninguém podia entrar nela.1 A Narrativa como Parte do Cotidiano Quando se pensa nas séries (entre quinta e oitava) nas quais um licenciado em Letras pode atuar. possa ser mais exigente na escolha dos livros a serem designados como leituras obrigatórias para seus alunos. não Porque na casa não tinha chão Ninguém podia dormir na rede Porque na casa não tinha parede Ninguém podia fazer pipi Porque penico não tinha ali Mas era feita com muito esmero Na rua dos Bobos Número zero (A casa. 79 . Ou seja. entretanto. em geral. não somente como narrativa ficcional.

8.Prática como Componente Curricular É importante salientar que este é o período em que se inicia ou solidifica o hábito da leitura. é extremamente funcional para que se aborde a distinção entre pessoa e personagem e entre ver- dade e verossimilhança. Uma novela televisiva. através das atividades que designar. na medida em que forem consultados acerca de suas prefe- rências. É plenamente pos- sível trabalhar com conceitos como ficção e personagem através des- tes exemplos. séries televisivas. acesso às mídias etc. A qualidade e a riqueza das obras e dos textos com os quais se tem contato nesta fase são de extrema importância para a configuração ou manutenção do hábito da leitura. é uma forma de reelaboração da realidade. novelas. Para a abordagem da narrativa. é importante partir da vivência dos próprios alunos. você não é somente aquele que escolhe as nar- rativas. Em todas as culturas. Procure sempre estabelecer o contato com a turma no primeiro mês de aula através da descoberta dos elementos que os próprios alunos podem fornecer para o seu assunto: hábitos. mas a pessoa que vai mediar a relação entre o aluno e o texto. por exemplo. Tanto as narrativas com as quais o aluno lida em seu cotidiano quanto a memória de estórias infantis podem ser- vir como introdução para a leitura de narrativas ficcionais. assim como a ficção. A lite- ratura se configura através de um uso específico da língua. a especificidade do discurso literário e sua relação com a estética. já que alguns leitores se formam logo na infância. canções. como já dito.2 A Recepção Criativa No ensino fundamental. através do imaginário. Como professor. a literatura faz parte do con- tato com a interpretação e produção textual enquanto um dos aspectos do estudo da Língua Portuguesa. é importante que o profes- sor tenha internalizado. através dos estudos da Teoria da Literatura. através da inclusão como objeto de reflexão de exem- plos retirados das próprias narrativas que lhes são familiares: histórias em quadrinhos.Unidade D . Entretanto. Os próprios alunos podem indicar os caminhos a serem seguidos. Todos que convivem com crianças ou que relembram a própria in- fância sabem que o imaginário faz parte do cotidiano infantil e se ex- 80 . cultura familiar.

princesas. A criança pode ser levada a compreender a importância do narrador se for levada a contar a mesma história de diferentes perspectivas. para isto. Ao contrário. com as histórias que ouve na escola. E. através dos conceitos que in- corporou. mas também em relação a uma narrativa oral. Depois de um tempo o passarinho voltou para perto de sua amiga e a encontrou no mesmo lugar”. assim como são capazes de imaginar o interior das casas bem como os quintais e calçadas como reinos e terras encantadas. de forma que ela possa aprender a perceber as sutilezas e artimanhas do mundo ficcional. a criança não deve ser ex- posta a conceitos em relação à literatura. A Narrativa no Ensino Fundamental Capítulo 08 pressa através de brincadeiras em que a ficção prevalece. O que se aprende com o tempo e com a escolaridade é a utilizar uma linguagem objetiva. contar uma história: “Era uma vez um passarinho que morava em uma árvore que era sua única amiga e que adorava ouvir seu canto desafinado. mas ela pode se tornar um leitor sofisticado se você puder mediar. ao longo desta disciplina. elas fazem parte da linguagem desde a fase de sua aquisição. as metáforas e analogias. que o ponto de vista da narrativa é fundamental para o de- senvolvimento do enredo e para o desenho das personagens. Você pode. não são aprendidas na linguagem adulta. Da mesma forma. Mas a criança não tem nenhuma dificuldade em compreender quando alguém é definido como uma flor. índios em seus jogos. Para dar um exemplo bem claro: você aprendeu. um conto. concei- tual. por exemplo. Neste sentido. através da sua própria criatividade. no ensino fundamental. Crianças se transformam com facilidade em reis. as imagens literárias. 81 . a relação das crianças com os livros. uma estrela ou com um pedacinho de algodão. livre de imagens. o passarinho se viu forçado a migrar para o sul e ficou meses longe de sua amiga. Este é um exercício de produção textual que pode ser feito em relação a um livro. é extremamente importan- te manter a conexão entre a literatura e o espírito lúdico que faz parte do universo infantil desde sempre. na TV e no cotidiano. Mas quando o inverno chegou. é preciso que a criança possa interagir com aquilo que lê. No momento da formação de um leitor.

também pode ser feito em relação a um filme. Minha sugestão é que você não se limite 82 . Desta forma. vão emergir naturalmente. Basta. que a produção textual é uma forma de trabalhar a narrativa. bem como suas diferentes leituras. suas atividades no ambiente virtual estarão direcionadas a criar possíveis exercícios deste tipo.Unidade D . Você pode pedir que seus alunos de quinta a oitava produzam narrativas para serem contadas para crianças menores. O exercício é este.Prática como Componente Curricular Trata-se de um enredo simples que pode ser contado a crianças bem pequenas. É importante ressaltar. que você esclareça que aquele que conta pode entrar nos pensamentos das pessoas. Claro está que estes exercícios também desafiam a criatividade do professor. Tal como o conflito entre Macunaíma e o Gigante Piaimã. para tanto. você pode ir além: pode pedir pode dar ao que chamamos de narrador onisciente. entretanto. na medida em que se percebe a diversidade de estilos de escrita que surgem na sala de aula com os exercícios. É claro que o passarinho vai ter o que narrar sobre a viagem e sobre a terra para onde migrou e a árvore só poderá falar do cenário onde ficou e de suas saudades do canto. O exercício será pedir que eles criem uma situação e uma terceira personagem ficcional que será o condutor da solução para o conflito. Você vai poder perceber tam- bém que cada criança vai criar outros fatos a partir deste núcleo simples Nome provisório que se que você forneceu. a partir dos conteúdos aprendidos nesta disciplina. mas que deve acontecer em paralelo à leitura de narrativas ficcionais. que elas unam as duas histórias em uma única história contada por um “sabe-tudo”. tópi- cos tratados quando falamos do autor-modelo e do leitor-modelo. Você pode criar uma situação em que haja uma ação e duas personagens envolvidas em um conflito. Feito este exercício. Os estilos das narrativas. mas de duas maneiras diferentes: do ponto de vista do passa- rinho e do ponto de vista da árvore. Por isto. das árvores e dos bichos. mas nada saberá sobre a viagem do passarinho. você estará estimulando a relação dos alunos com a literatura através da própria produção textual. Assim como este exer- cício pode ser feito em relação a uma narrativa simples.

Nem todos os alunos vão sentir prazer com a narrativa de Clarice Lis- pector. Saiba que gosto e valor são duas coisas distintas. Porém. sem maiores relativizações. Claro que você pode argumentar: “mas eu só darei bons livros!”. peço que leia a obra de Cândida Vilares Gancho intitulada Como analisar narrativas. saber quais estilos mais o estimulam. tente priorizar livros de contos. muitos recursos literários estão mais próximos da criança do que se pode pensar. Contudo. é conhecida pela sofisticação e complexidade de suas narrativas. desde que você nelas reconheça valor literário. por exemplo. algumas crianças se tornam leitores muito cedo. por último. Como a criança e o adolescente ainda não têm dis- cernimento para estabelecer esta distinção. 83 . Posso reconhecer o valor de uma obra na história da literatura. Clarice Lispector. Para o próximo capítulo. só têm con- tato com a leitura na adolescência e na idade adulta. se olhar com cuidado. Como já visto. Caso você perceba que seus alunos ou uma parte deles jamais leram uma narrativa longa. Como já disse. tais como Lalande de Flavio Carneiro. você vai encontrar narrativas de escritores considerados “difíceis” perfeitamente apropria- das ao trabalho com crianças e adolescentes. Outras. vão considerar como boas aquelas narrativas que lhes derem prazer. não venha a ser do agrado da criança pode afastá-la dos livros. mas não ter afinidades com o estilo do escritor. A Narrativa no Ensino Fundamental Capítulo 08 a trabalhar com os alunos apenas com livros compreendidos como li- teratura infanto-juvenil. Este método permite que o aluno tenha contato com uma maior diversidade de estilos de narrativas e que tenha a oportunidade de descobrir o seu gosto pessoal. Daí ser de fundamental importância possibilitar o contato com narrativas diversas. no entanto. Isto não quer dizer que não haja excelentes narrativas infanto-juvenis. porventura. A obrigatoriedade da leitura de um livro longuíssimo que. Felicidade clandestina e Laços de família são dois livros de contos de Clarice que se adequam bem a jovens leitores. de fazer uma observação em relação ao con- tato com a narrativa no ensino fundamental. Gostaria.

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a mediação do professor pode fazer perceber que a narrativa está centrada na exploração de um sentimento humano complexo e bastante presente ao longo dos tempos: o ciúme. o professor pode selecionar trechos. ou através da mediação do professor. A escrita criativa pode ser um meio 85 . é claro. A adolescência é uma fase em que as emoções se encontram à flor da pele e em que o indivíduo tende a superdimensionar seus sentimentos. fazer com que o aluno se sinta afastado do que é tratado na obra. Isto pode ocorrer através da abordagem de livros com personagens jovens ou temáticas que falem aos adolescentes. A Narrativa no Ensino Médio Capítulo 09 9 A Narrativa no Ensino Médio Aquele amor nem me fale (Adolescência. Por exemplo. estabelecer comparações com narrativas ou fatos contemporâneos. a princípio. mesmo que estes se refiram a tempos e sociedades bastante distintos. estimular a interação com os textos através da produção textual. As próprias diferenças devem ser um estímulo à reflexão acerca do próprio contexto dos alunos. Principalmen- te no que diz respeito à escolha das obras a serem estudadas e na ma- neira de abordar as obras canônicas. no nível médio. promover o debate.1 O Cotidiano Da mesma maneira que você deve considerar o cotidiano dos alu- nos de ensino fundamental na tarefa de familiarizá-los com a narrativa. também no ensino médio este cuidado deve ser tomado. Entre- tanto. Só que. Pode também. Oswald de Andrade) 9. a linguagem de Machado de Assis pode. É importante que o aluno possa reconhecer nas narrativas elementos que fazem parte de seu universo. espera-se que o aluno seja capaz de escrever re- senhas e pequenos artigos críticos. Para levar o aluno a esta percep- ção. que pode levar o aluno a perceber afinidades entre o seu contexto e os contextos das obras literárias.

e não apenas memorizar. por um lado. ou seja. a literatura não é mais um dos meios para o estudo da língua. estas informações são bem-vindas. d) I nforme aos alunos acerca dos procedimentos corretos ao se utilizar de idéias alheias. b) S eja original ao solicitar reflexões sobre as obras. Alguns cuidados podem ser tomados neste sentido: a) P rocure estar ciente das informações existentes na Internet acerca dos livros com os quais trabalha. no ensino médio. 86 . na posição de alguém que já conhece sua especificidade. Outro cuidado que se deve ter é com a quantidade de informações disponíveis no espaço virtual. estabelecer relações. c) P rocure sempre pedir que os alunos façam comparações e es- tabeleçam relações entre textos de forma a manter a originali- dade das questões que você propõe. Se. mas se configura como o objeto mesmo de estudo e o currículo se organiza a partir do conhecimento da história da literatura e da periodização literária. propondo questões que estejam relacionadas com debates surgidos den- tro da própria sala de aula e com o contexto dos alunos. O aluno NÃO deve poder encontrar as suas propostas disponíveis no espaço virtual. ele deve ser capaz de refletir sobre a informação de forma crítica. A Internet disponibiliza inúmeros artigos sobre lite- ratura e o aluno pode eventualmente apresentar um trabalho “baixado” ou mesmo apresentar como sendo de sua autoria o conteúdo de um trabalho já existente na Internet. mas o objetivo final é que o aluno produza re- flexões acerca da literatura.Prática como Componente Curricular para estimular a leitura. Ou seja. citações e a maneira correta de fazer paráfrases e de mencionar o autor das idéias. trabalhe em sala de aula o uso de aspas. que divide as obras e autores em estilos de época. tal como apresentada pela his- toriografia. É preciso que o professor esteja atento e informe os alunos a respeito da ilegalidade deste procedimento e da importância de produzir reflexões de sua própria autoria. Para que o alu- no possa passar da informação ao conhecimento. Isto porque informação e conhecimento são duas coisas distintas.Unidade D . nem sempre estão a serviço do conhecimento.

Mais importante ainda é que o professor valorize as contribuições dos alunos. na medida em que se transformam as metodologias de abordagem do texto literário. Quando se fala em cânone literário. Daí se origina sua aplicação à literatura. pensa-se em uma lista de livros considerados clássicos e que devem ser preservados de geração a geração. por estar a serviço da história. e não um mero receptor passivo. Para tanto. o cânone literário é dinâmico. mas nem por isto deve ser considerada ilegítima. entretanto. passou a ser incorporada pelo discurso religioso para se referir à lista de livros que deveriam ser lidos. de uma concepção moderna do tempo e não mais a serviço da religião como o cânone religioso.2 O Cânone Literário A palavra cânone é de origem grega (kanón) e era inicialmente uti- lizada para designar um instrumento de medida. Mais tarde. Daí a importância de o cânone estar sempre sendo testado em novos leitores. é preciso que o aluno se sinta um protagonista em relação ao conhecimento. Ao contrário. Uma intervenção pode não estar correta. 87 . regras que permitam que as intervenções em sala e o debate entre os alunos aconteçam sem tumulto. e com delicadeza. Pressupõe-se que. princi- palmente porque. o que não poderá ocorrer pelo simples acúmulo de informações e nem pela memorização de reflexões alheias. o professor deve criar um bom ambiente em sala de aula. Isto corresponde a come- çar o comentário sobre a intervenção do aluno a partir do enfoque no que este pode apresentar de positivo e pertinente para só então. a cada nova geração. 9. Para isto. que o cânone deva ser visto como fixo e imutável. antes de criticá-los. mudam também os padrões de gosto e os critérios de valor segundo os quais as obras são abordadas. que são efetivamente aqueles que confir- mam a viabilidade de sua permanência na lista de grandes obras. A Narrativa no Ensino Médio Capítulo 09 Estes procedimentos têm como objetivo justamente levar o aluno à construção de conhecimento. É necessário também que o professor estimule o respeito entre os alunos e mostre o quanto a diversidade de opiniões é salutar. novas obras do passado serão valorizadas. procurando sempre jus- tificar os pontos de vista. Isto não quer dizer. É importante que o aluno seja estimulado a participar e a interagir com as aulas e com os seus conteúdos. apontar suas limitações. de forma que ninguém se sinta intimi- dado ou desmotivado a dar sua opinião.

mas não garante a leitura aprofundada e a capa- cidade analítica dos textos literários. tendo em vista o pertencimento a um certo estilo de época. ainda. No ensino médio.Unidade D . pressupõe a compreensão do tempo como portador de mudança. Kafka. por sua vez. Drummond são alguns nomes que não podem escapar de um bom currículo de Letras. só teve este nome no século XIX. Guimarães. E a periodização está a serviço da história. dentro do qual valorizam-se mais as semelhanças do que as diferenças entre as obras. o Barroco. Realismo. você precisará abordar os livros através de análise e oferecer subsídios aos alunos para que. por exemplo. A pe- riodização existe justamente para possibilitar a compreensão das épocas a partir do estabelecimento de relações entre as obras. Ou seja. Modernismo.Português pudesse entrar em contato com obras canônicas da literatura universal. as obras produzidas em certo período são reunidas em função de características comuns e recebem o nome de escolas literárias que se sucedem em ordem cronológica como. Clarice. mas também porque a disciplina foi elaborada de forma a possibilitar que o aluno de Letras-. Por isto você leu poemas épicos. Romantismo. Alencar. a preocupação também é com o conhecimento do cânone. Borges. Shakespeare. O primeiro desafio existente no ensino da Literatura no nível médio diz respeito a um currículo que tende a valorizar a aproximação da Literatura através do estudo de períodos literários e estilos de época. Para isto. tragédias gregas.Prática como Componente Curricular Na disciplina Teoria da Literatura I você já entrou em contato com esta discussão sobre o cânone não somente porque o livro-texto ins- creve este tema logo em seu início. A periodização literária tende. que. ao longo 88 . Nas disciplinas de Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa não é diferente: você estará lendo os clássicos destas literaturas e entrando em contato com aquelas obras consideradas pela história e pela crítica como mais valiosas: Machado. Esta forma de historiografia tende a reunir certo número de obras em um mesmo período. por exemplo. Como já visto. Saber os autores de livros e conhecer as características principais das escolas literárias é uma forma de lidar e aprender sobre a cultura de diver- sos contextos históricos. para citar apenas alguns. a enfatizar o contexto de produção de obras e a não inscrever o contexto de recepção. Mas quem as reúne? Os historiadores.

sobre os contextos históricos de produção das obras. que pode ca- ber em pouquíssimas linhas. neste caso. O livro Como analisar narrativas traz um panorama dos elementos da narrativa de que tratei ao longo desta disciplina. como de analisá-lo e interpretá-lo. novela ou crônica. A propósito. está fazendo uma síntese. Ou seja. Por um lado. um duplo desafio. que nele podem encontrar um excelen- te guia para a análise de narrativas. antagonista. personagem secundá- ria. Quando um aluno resume um romance ou um conto a partir dos elementos principais do enredo. você deve ter conhecido alunos que nas aulas de literatura se limitavam a memorizar as características dos estilos. Por isto. Ou seja. psico- lógicas. que. Para chegar a uma análise. 89 . é importante reforçar as informações sobre os períodos literários. 3) Personagens: protagonista. 2) Partes do enredo: exposição. sociais. Você deve ter mente este duplo objetivo de seu traba- lho. complicação. a aula de literatura. está preparando o alu- no para o vestibular . A Narrativa no Ensino Médio Capítulo 09 do ensino médio.exame que pode levar à universidade. Trata-se de uma sugestão de leitura para os alunos do ensino médio. não cumpre o papel de formar um leitor. conto. Como professor de ensino médio você tem. o aluno deverá apresentar uma abordagem dos elementos que constituem a narrativa. está mediando a relação do aluno com a literatura e auxiliando na formação de um leitor. portanto. a partir do seguinte roteiro: 1) Gênero narrativo: romance. em sua maioria já foi tratado nos capítulos anteriores. seu objetivo não é propriamente de abordar seu conteúdo. eles possam aperfeiçoar suas estratégias analíticas. clímax e desfecho. que se pauta em uma avaliação com perguntas objetivas acerca das obras. almejada pela maioria -. morais. Por outro. 4) Caracterização das personagens: características físicas. mas é importante também oferecer subsídios para que o aluno possa analisar as obras e criticá-las. personagem plana. personagem redonda. Daí a im- portância de haver a preocupação com a promoção de atividades em que o aluno possa efetivamente demonstrar a leitura do livro e sua capacidade não só de compreendê-lo.

que Macunaíma inverte o percurso do coloniza- dor. Ocor- re. serve também para que você elabore questões relativas às narrativas. d) Vidas Secas de Graciliano Ramos é uma narrativa sobre a crua realidade da seca nordestina. Aborde as distinções entre per- sonagem e ser humano. Apresente as principais características da personagem que confirmem esta afirmação. Você pode também selecionar alguns elementos e elaborar questões es- pecíficas que possam guiar o aluno para a interpretação e a abordagem crítica das obras. 6) Ambiente 7) Tipos de narrador 8) Tema. indireto O roteiro acima. na verdade. tempo psicológico e tempo cronoló- gico. duração. De que 90 . c) O romance Macunaíma é ambientado na terra brasileira. de romantização da figura do índio. a personagem feminina de Alencar é fruto de um processo de idealização. No ensino médio. Este é o tema da obra. no entanto. como personagem em primeira pessoa.Prática como Componente Curricular 5) Tempo: época. portanto. Qual a fun- ção que o ponto de vista da narrativa exerce na obra? b) P ara a composição de seu romance Iracema. configurando-se. Quais as funções exercidas pelo ambiente e pelo espaço para fazer do romance uma crítica à realidade brasileira? Dê exemplos. José de Alencar tem como base as relações entre brancos e índias que acontece- ram nas terras brasileiras desde os primeiros tempos da colo- nização. Entretanto.Unidade D . o narrador é o próprio personagem que dá título à obra. o aluno pode produ- zir um trabalho sobre uma narrativa abordando todos os itens acima. assunto e mensagem 9) Discursos: direto. Por exemplo: a) No romance Dom Casmurro de Machado de Assis. pois este foi do litoral para o interior do país e Macunaíma vai do interior para o litoral.

an- tes disto. No momento de maturidade enquanto crítico. Para tanto. O ideal é que fizesse um roteiro com o resumo dos elementos principais para cada uma das obras que está lendo em Literatura Brasileira. de acordo com a obra. A Narrativa no Ensino Médio Capítulo 09 forma a configuração das personagens contribui para a drama- ticidade na apresentação do tema? Dê exemplos. Você certamente será capaz de criar muitos outros. Você poderá perceber que. um elemento se torna mais significativo que outro. se é capaz de perce- ber elementos novos nos textos e produzir reflexões originais. você anote as informações relativas às obras que lê. é preciso que se internalizem os conceitos que possam permitir reconhecer os elementos de uma narrativa. Mas. é importante que daqui por diante. tendo em vista não apenas aumentar seu campo de visão enquanto leitor. e) Q uais os tipos de discursos utilizados no romance Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto? Que funções exercem estes discursos em sua relação com o enredo? Estes são apenas alguns exemplos de como se pode utilizar o estudo dos elementos da narrativa no ensino médio. tal como faz Silviano Santiago em relação à figura do narrador. 91 . mas também suas possi- bilidades de estratégias enquanto professor. É por isto que é possível escrever um ensaio ou artigo sobre um único ele- mento.

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Algumas Palavras sobre Você e a Narrativa Capítulo 10
10 Algumas Palavras sobre Você
e a Narrativa

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo

(Livros, Caetano Veloso)

Assim como falei sobre o papel do cotidiano e das distinções entre
informação e conhecimento em relação aos alunos do ensino fun-
damental e médio, também tenho em mente estas questões em rela-
ção a você como aluno. Por isto, gostaria de terminar este livro-texto
com algumas palavras em torno de seu percurso por este livro.

Desde o início do livro, para facilitar o processo, determinei que
estaria comentando os elementos da narrativa através da referência às
obras estudadas em Literatura Brasileira II. De fato, na medida do pos-
sível, fui retirando exemplos, assinalando aspectos, propondo percursos
em relação àquelas narrativas. Suas anotações em torno das obras são
de importância fundamental para que você possa voltar às narrativas
em vários momentos, não somente ao longo da disciplina, mas também
quando precisar elaborar um trabalho para Literatura Brasileira, ou ain-
da, em sua atuação futura como professor. Faça fichamentos, tenha re-
sumos das obras e anotações sobre os elementos que mais se destacam
em cada uma delas. Caso você perceba algum aspecto que não foi trata-

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Unidade D - Prática como Componente Curricular

do ao longo deste livro, mas que chama sua atenção nas narrativas que
está lendo, dê sugestões.

Se surgir alguma dúvida em relação ao diálogo entre as duas disci-
plinas, não deixe de questionar os professores e tutores a respeito.

Tão somente por questões didáticas, optei por abordar estes ro-
mances. Entretanto, a teoria da narrativa diz respeito a toda e qualquer
narrativa e você deve ter estes elementos em mente em relação aos ro-
mances, contos, canções, narrativas orais, crônicas, material de internet,
novelas televisivas, etc. Enfim, de agora em diante, você deve perceber
aspectos nas narrativas literárias e nas narrativas do cotidiano que até
então não tinha subsídios para perceber. Sempre que se der conta de
algo que se relacione com o conteúdo deste livro, anote e, assim que
possível, compartilhe.

No próximo período, em Teoria da Literatura III, você trabalhará
com a poesia. Veja como começou o curso em um certo nível, leu os
clássicos no período passado, agora acaba de estudar um novo conteú-
do sobre narrativa e se encaminha para se aprofundar nos estudos do
gênero lírico. Assim, você se transforma aos poucos e constrói seu co-
nhecimento, indo de um estado inicial até o desfecho, com sua forma-
tura. Você também é uma personagem e este processo faz parte de sua
narrativa. Bom enredo!

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Referência da Unidade D
GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Áti-
ca, 2006.

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