Relatório do julgamento de 25 Presos Civis Saharauis (Grupo Gdeim Izik) de 1, 8-17 de

Fevereiro de 2013 no Tribunal Militar de Rabat, Marrocos

(relatório elaborado com base na informação recolhida pelas observadoras presentes no
julgamento Isabel Maria Lourenço e Rita Reis)

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Anexos:
Relatório sobre as questões jurídicas do julgamento – Fundação Sahara Ocidental
(missão que as duas observadoras da ACOSOP integraram)
Relatório sobre as Torturas, Violações dos Direitos Humanos e Condições de Saúde
(elaborado pela ACOSOP)

Lista de Siglas:
AMDH – Associação Marroquina de Direitos Humanos
ASVDH – Associação Saharauí de Vítimas de Violações Graves de Direitos Humanos
CODESA – Colectivo dos Defensores Saharauis dos Direitos Humanos
CORELSO - Comité pelo Respeito das Liberdades e Direitos Humanos no Sahara
Ocidental
HRW - Human Rights Watch
IU – Izquierda Unida
PSOE – Partido Socialista Obrero Español
RASD – República Árabe Saharauí Democrática

Glossário:
Daraá: traje típico saharauí masculino, túnica longa, aberta nas laterais, com um bolso à
altura do peito. Pode ser azul ou branca, geralmente com bordados na zona do peito
Melfa: traje típico saharauí feminino, pano comprido que cobre as mulheres da cabeça
aos pés, deixando a cara descoberta
Hassania: língua com origem afro-árabe e bérbere antigo, falado pelos saharauís e
mauritanos;
Territórios ocupados: Sahara Ocidental ocupado por Marrocos;

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1. Introdução
Teve lugar, nos passados dias 1, 8 a 16 de Fevereiro de 2013, mo Tribunal Militar
de Rabat (Reino de Marrocos), o julgamento dos 24 presos políticos saharauis, activistas
dos direitos humanos. Os acusados foram detidos antes e após o brutal ataque e
desmantelamento do acampamento pacífico de protesto, Gdeim Izik, que ocorreu às
06h30 do dia 8 de Novembro de 2010.
Após sucessivos adiamentos, o julgamento iniciou-se a dia 8 de Fevereiro, tendo
terminado com a leitura da sentença, às 01h00 do dia 17 de Fevereiro de 2013.
1.1. Acusados:
1. Enaâma Asfari d.n. 1970
2. Mohamed Tahlil d.n. 1981
3. Hassan Dah d.n. 1987
4. El Bachir Khadda d.n. 1986
5. Etawbali Abdallahi d.n. 1980
6. Ettaki Elmachdoufi d.n. 1985
7. Mohamed Lamin Haddi d.n. 1980
8. Brahim Ismaili d.n. 1970
9. Cheikh Banga d.n. 1989
10. Mohamed El Ayoubi d.n. 1956
11. Mohamed Khouna Babait d.n.1981
12. Abdulahi Lakfawni d.n.1974
13. Lbakai Laarabi d.n. 1970
14. Mohamed Mbarek Lefkir d.n. 1978
15. Sidi Ahmed Lemjiyed d.n. 1959
16. Sidi Abderrahman Zeyou d.n. 1974
17. Mohamed El Bachir Boutinguiza d.n. 1974
18. Sidi Abdallahi Abbahah d.n. 1975
19. Sidi Abdeljalid Laaroussi d.n. 1978
20. Ahmed Sbai d.n. 1978
21. Deich Eddaf d.n. 1978
22. Mohamed Bani d.n. 1969
23. El Houcein Azaoui d.n. 1975
24. Mohamed Bouryal d.n. 1976

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25. Hasanna Aalia1
1.2.As acusações contra os presos políticos:

Sobre todos recaiu a acusação de associação e conspiração para prática de actos
violentos contra autoridades marroquinas. Sendo que Enaâma Asfari foi acusado
como sendo o cabecilha do grupo.

Todos foram acusados de incitação e participação nos actos violentos contra
membros das autoridades marroquinas.

Diversos presos, como Sidi Adballahi Abbahah, foram acusados de profanação de
um cadáver de um militar marroquino.

1.3.Advogados da Defesa:
Mohamed Lahbib Rougaibi; Bouzid Lahmad; Mohamed Fadel Ellili; Mohamed
Boukhalid; Nouradin Dalil; Malek Mountaka; Mustapha Jayaf; Adelahi Chalouk;
Mohamed Al Masoudi; Abderrahman Ubaid Din; Mustapha Rachidi
1.4.Presidente do Tribunal:
Nourdin Zahaf
1.5.Painel de Juízes:
Mohamed Aitfaraj; Abdelwahab Aljawa; Al Houcein Khaduri; Bouchaib Wadad
1.6. Procurador-Geral do Rei:
Abdelkarim Hakimi
1.7.Secretário:
Abdelatif Lagrabli
1.8.Testemunhas da defesa:
Mohamed Salmani; Bachir Salmani; Mohamed Balkos; Mohamed Abhaoui;
Houcein Dalil;
1.9.Testemunhas da acusação:
Apenas uma das nove testemunhas de acusação foi chamada a depor. As
restantes 8 foram dispensadas após o primeiro testemunho.

1.10.
Identificação das vítimas:
Os nomes das vítimas mortais nunca foi oficialmente divulgado. Por outro lado, o
número de alegadas vítimas mortais nunca ficou oficialmente estabelecido, havendo
1

Que se encontra em Espanha, tendo pedido asilo político naquele país;

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informações contraditórias por parte do Procurador-Geral do Rei e do Presidente do
Tribunal.
1.11.
Breve descrição do ambiente no julgamento, no tribunal e na cidade:
Em torno do Tribunal militar de Rabat, evidenciou-se, durante todo o julgamento,
um grande aparato policial. Diante do Tribunal, um grande grupo de familiares, amigos
dos presos políticos, estudantes e representantes de Associações dos Direitos Humanos
Marroquinas, marcaram presença, manifestando-se em solidariedade com os presos.
Estando presentes durante todos os dias do julgamento, sempre entoando palavras de
ordem, mostrando cartazes com as fotografias dos presos.
À direita do grupo de apoiantes saharauís, esteve presente um pequeno grupo
de manifestantes marroquinos com imagens das supostas vítimas (militares
marroquinos) que, apenas nos últimos dias, proferiram algumas palavras de ordem.
Alguns desses manifestantes vestiam trajes típicos saharauís (daraá e melfa), com
notória incongruência e desconhecimento da utilização dos mesmos2.
Nas ruas adjacentes ao tribunal estavam inúmeros veículos anti distúrbios,
“ambulâncias” com elementos do corpo de intervenção no seu interior, carros de
“bombeiros” (com canhões de água), também com elementos do corpo de intervenção
no seu interior. Inúmeros membros das várias forças das autoridades marroquinas
vestidos à civil, estavam nos cafés e ruas, sendo facilmente identificáveis, uma vez que
uns dias se apresentavam fardados e outros vestidos à civil.
Destacam-se, também, as dificuldades de comunicação, relatadas pelos
observadores internacionais presentes em toda a cidade, em espacial, na área
circundante ao Tribunal Militar. Tal deveu-se aos inibidores de rede colocados para o
efeito.
Dentro do tribunal, incluindo na sala de audiências, os observadores foram
fotografados e filmados todos os dias durante vários minutos e várias vezes ao dia, por
pessoas não identificadas. Oficialmente, a comunicação social não tinha acesso à sala de
audiências, mas saíram várias imagens dos presos em diversas publicações marroquinas,
com entrevistas a observadores convidados pelo governo marroquino e testemunhos
dos familiares das alegadas vítimas.
Na sala de audiências o número de militares fardados e à civil aumentava
diariamente. À medida que o número de observadores internacionais diminuía, as
autoridades sentavam-se em torno dos observadores e dos seus tradutores como forma
de pressão.
Três dos tradutores que acompanharam a missão na qual as observadoras
portuguesas estavam integradas, foram ameaçados fora do tribunal. Sendo que se
mostra fundamental referir que as autoridades marroquinas se deslocaram às casas das
mães de dois dos tradutores (na cidade de El Aaiún ocupada), ameaçando a sua
integridade física, caso os seus filhos continuassem a traduzir para os observadores.
As autoridades que abordaram as referidas famílias, estavam vestidas à civil, e
proferiram intimidações físicas e verbais.
No que concerne a tradução durante o julgamento, esta – do ponto de vista
oficial – foi praticamente inexistente. Muito embora estivessem presentes tradutores
oficiais de francês, inglês e espanhol. Apenas se registaram traduções dos comunicados
do Presidente do Tribunal. Tais traduções não coincidiam entre si, nem com a
As observadoras testemunharam, possuindo registos fotográficos, dos manifestantes
marroquinos vestindo os trajes saharauís, poucos metros antes do Tribunal Militar,
desembalando-os;
2

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generalidade dos acontecimentos no julgamento. Em várias ocasiões, houve tradução de
hassania para o árabe clássico, dado que o Presidente do Tribunal não entendia o
dialecto.
Note-se que, apesar de se constituir a maioria dos observadores, nenhum dos
observadores internacionais convidados pelo governo Marroquino assistiu à totalidade
do julgamento. Sendo que, em muitas ocasiões, se testemunhou a sua relação com
membros das autoridades marroquinas.
Dos observadores internacionais independentes – que não foram convidados
pelo Reino de Marrocos - e estrangeiros, assistiram à totalidade do julgamento duas
portuguesas e cinco espanhóis.
À entrada, saída e cada vez que eram chamados a depor, todos os presos
entoavam cânticos e palavras de ordem defendendo a autodeterminação do Sahara
Ocidental, protesto contra a ilegalidade do processo e a sua presença num tribunal
militar, pelo respeito dos direitos humanos nos territórios ocupados e vivas à Frente
Polisário ao entrar e sair da sala de audiências. Estiveram sempre vestidos com a daraá.

2. As sessões do julgamento
2.1. Primeiro dia: 8 de Fevereiro de 2013, sexta-feira:
Horário da sessão: das 10h25, hora de entrada dos presos, às 21h45.
Entrada dos acusados entoando cânticos e palavras de ordem, denunciando a
ilegalidade da realização do julgamento no tribunal militar e exigindo liberdade para o
Sahara Ocidental, fim do espólio das suas riquezas naturais e referendo pela
autodeterminação. Na sala estão cerca de 300 pessoas, forte presença militar policial
(fardados).
Presença de cerca de 40 de observadores internacionais. A maioria dos
familiares dos acusados foi impedida de assistir ao julgamento pelos militares
marroquinos. Os amigos dos acusados e activistas saharauis também foram impedidos
de assistir, excepto os que estavam credenciados como tradutores pelos observadores
internacionais. Os observadores internacionais convidados pelo governo marroquino e
pelos presos políticos foram admitidos sala.
Todos os familiares marroquinos das supostas vítimas militares puderam assistir
ao julgamento sem qualquer tipo de impedimento ao contrário do que se verificou com
as famílias dos acusados. Facto apontado pela defesa como um acto de racismo e
contrário à lei.
As intervenções dos advogados da defesa concentraram-se no facto do tribunal
militar não ter jurisdição e no facto do artigo 127 da constituição marroquina não
permitir tribunais de excepção. O tribunal discordou da argumentação dos advogados
de defesa, argumentando que, à luz do artigo 75 do Código de Justiça Militar, tinha a
jurisdição necessária.
O Procurador-Geral do Rei anunciou que iria introduzir nove novas testemunhas
para a acusação. Os advogados de defesa opuseram-se devido ao facto de não terem
sido informados com os cinco dias de aviso estabelecidos por lei e porque desconheciam
a identidade das testemunhas (não lhe foi facultada nenhuma lista). Destacando
também o seu desconhecimento de que se as referidas testemunhas trabalhavam e/ou
eram pagas pelas autoridades marroquinas. O Presidente do Tribunal decidiu ouvir estas
testemunhas no final do julgamento após as declarações e apresentação da defesa, sem
esclarecer se as suas identidades seriam ou não divulgadas.

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Referindo os acontecimentos de Novembro 2010, os advogados de defesa,
denunciaram a entrada de forças policiais e militares marroquinas nas casas dos
activistas saharauís, ameaçando os seus familiares. Tal ocorreu nas várias cidades dos
territórios ocupados por Marrocos, sem mandato de busca nem qualquer legitimidade.
Violando vários artigos da lei e da Constituição marroquina. Continuam denunciando
que, após os sequestros/detenções dos presos políticos pelas autoridades marroquinas,
as famílias não foram informadas do paradeiro dos presos. Denunciam as torturas, os
maus-tratos sofridos pelos presos nas várias dependências, esquadras e salas de tribunal
em que estiveram. Sublinhando a violação da Constituição de Marrocos, diversos
tratados internacionais subscritos pelo Reino e a Carta dos Direitos Humanos.
A defesa exigiu, ainda, permissão para que os familiares dos presos pudessem
assistir ao julgamento. Nove dos presos estão em condições físicas muito precárias,
sendo o seu estado de saúde muito débil devido às torturas e maus tratos infligidos.
Os advogados de defesa requereram o início de uma investigação para
determinar a causa do brutal desmantelamento de Gdeim Izik, pelas autoridades
marroquinas, que resultou em vários mortos.
Às 13h30 os tradutores de francês, inglês e espanhol traduzem o breve resumo
do Presidente do Tribunal. As traduções são incongruentes entre si, sendo que o resumo
do Presidente do Tribunal, não reflecte o que se passou exactamente na sessão.
Durante a tarde é trazida para a sala uma “jaula” com facas e outros utensílios
de cozinha, bem como uma grade onde estão afixados vários telemóveis. Não é dada
nenhuma explicação e ficam em exposição, virados para a sala.
Às 16h30 o Presidente do Tribunal suspende a sessão por meia hora, tendo a
mesma reiniciado, depois de um significativo atraso, às 19h50.
O Presidente do Tribunal rejeita todos os argumentos apresentados pela defesa,
dando-se início à leitura das acusações referentes a cada preso. É anunciado que
Enaâma Asfari será o primeiro a depor às 09h00 do dia seguinte.
2.2. Segundo dia: 9 de Fevereiro de 2013, sábado:
Horário da sessão: 09h30h, entrada dos presos, às 22h30.
Presença de cerca de vinte observadores internacionais entre os quais, dois
Eurodeputados espanhóis, Willy Meyer (IU) e António Masip (PSOE).
Apenas foram admitidos quarenta e cinco saharauís na sala, como forma de
protesto, as famílias permaneceram diante do tribunal. Na sala de audiências estavam
três representantes da ASVDH e cinco da CODESA, ambas organizações de defesa dos
direitos humanos dos territórios ocupados do Sahara Ocidental.
Foram ouvidas as declarações de 5 presos: Enaâma Asfari, Mohamed Tahlil,
Hassan Dah, El Bachir Khadda e Etawbali Abdallahi.
Os presos entraram às 09h30, entoando cânticos, palavras de ordem, como
liberdade, Frente Polisário, autodeterminação, tribunal militar ilegal. Cantaram uma
canção tradicional saharauí que fala de paz, esperança e do fim da ocupação,
terminando com o hino nacional da RASD.
Às 09h50 entra o Presidente do Tribunal e inicia-se a sessão. São chamadas as
quatro testemunhas da defesa e as nove testemunhas da acusação sem menção dos
nomes. Todas as testemunhas se posicionaram diante do Presidente do Tribunal, sendo
dispensadas em seguida. Saíram pelas portas laterais da sala de audiências.

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É chamado Enaâma Asfari. Asfari é activista saharaui, vice-presidente do
CORELSO. Em 2009, já havia estado preso em Tan-Tan, devido às suas actividades
pacíficas em defesa dos direitos humanos.
Enaâma Asfari descreveu o enquadramento legal e histórico do conflito,
descrevendo o território do Sahara Ocidental. Paralelamente, sublinhava as várias
resoluções e definições legais que provam que a ocupação marroquina é ilegal.
Em relação às acusações afirmou a sua inocência e informou ter sido detido no
dia 7 de Novembro de 2010, ou seja, um dia antes dos alegados acontecimentos
referidos na acusação. Denunciou ainda que foi repetidamente torturado e mal tratado.
Denunciou todos os documentos apresentados como “confissões” e “declarações”
dadas por ele como ilegais uma vez que foram obtidas sob tortura e contra a sua
vontade. Os documentos apresentados tinham sido assinados com impressão digital, ao
que Asfari referiu possuir habilitações académicas superiores, sabendo por isso, assinar
o seu nome. Os vários documentos apresentados pelo Procurador-Geral do Rei,
alegadamente declarações/confissões dos presos são cópias uns dos outros havendo
frases e parágrafos inteiros exactamente iguais apesar de serem alegadamente
declarações obtidas de presos diferentes.
O Presidente do Tribunal interrompe Enaâma Asfari inúmeras vezes ordenandolhe que fale apenas do dia 8 de Novembro de 2010 e das acusações de que é alvo,
inibindo-o de abordar a causa saharauí, a lei, a história e as suas actividades no âmbito
da defesa dos direitos humanos. Entre as 10h55 e às 11h10 o Presidente do Tribunal
interrompeu o julgamento, porque Asfari não lhe obedecia e continuava a referir o facto
de ser activista saharauí.
Enaâma Asfari repete várias vezes que apenas foi detido, torturado e levado
perante um tribunal militar pelas suas opiniões políticas e não por quaisquer actos
criminosos. Reafirma que ele e os restantes presos são presos políticos e nunca
cometeram actos criminosos, nem exerceram violência contra ninguém. Enaâma
reafirma a ilegalidade deste tribunal que não pode julgar civis, algo que viola várias leis e
a constituição marroquina.
Admite ter estado várias vezes em Gdeim Izik, acampamento de mais de
quarenta mil pessoas que se manifestavam de forma pacífica, pelos seus direitos sociais,
económicos e humanos. Sendo maioritariamente composto por famílias, mulheres,
crianças e idosos, todos civis. Durante quase um mês, tal acampamento, a doze
quilómetros de El Aaiún, no meio do deserto, em tendas tradicionais saharauís, existiu
organizadamente. Foi eleito um grupo de saharauis para representar os manifestantes
nas negociações com o Governo de Marrocos, nomeadamente para que tivessem acesso
a empregos. “Este acampamento foi o início da Primavera Árabe”, disse Asfari, citando
Noam Chomsky.
O Presidente do Tribunal continua a ordenar que Enaâma Asfari se cale,
proibindo-o de abordar o Sahara Ocidental. Em várias ocasiões há forte debate (gritos)
entre advogados de defesa e o Presidente do Tribunal, por este não deixar Enaâma
Asfari falar. Enaâma Asfari declara: “sou activista dos direitos humanos e não me calo!”.
O Presidente do Tribunal dá a palavra ao Procurador-Geral do Rei, o que
segundo os advogados da defesa, se constitui um acto ilegal, visto ainda não ter
terminado o depoimento do acusado.
O Presidente do Tribunal faz um “comunicado para a opinião pública” (sic) sobre
o “pequeno incidente” (sic), referindo-se ao facto dos ânimos se terem alterado
bastante. Um dos motivos que levou à indignação da defesa foi a declaração do
Presidente, afirmando poder mandar “calar quem quer, quando quer” (sic). Novamente,

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são chamados os tradutores, cujas traduções se revelam incongruentes entre si, bem
como com as traduções dos vários tradutores que estão na sala. Durante esta sessão o
Presidente alertou também que se devia manter a calma para não dar uma “má imagem
aos observadores internacionais” (sic)3.
Enaâma Asfari refere inúmeras vezes que foi torturado e que os documentos ali
apresentados pelo Procurador-Geral do Rei foram forjados, são falsos e assinados sob
tortura. Refere os relatórios de várias organizações marroquinas de direitos humanos,
da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch sobre as torturas a que são sujeitos
os presos políticos saharauís. Conta como já havia sido detido inúmeras vezes após
manifestações pacíficas, nas quais participa há mais de 15 anos. Relatando ainda como
após ser libertado, é perseguido e detido poucos dias a seguir. Sublinhando que os
últimos anos da sua vida têm sido sempre assim. Diz apenas querer viver em paz.
Contrapõe todas as acusações com factos que podem ser comprovados, através
várias testemunhas e pelas contradições nos vários documentos das autoridades
marroquinas. Denuncia que teve os primeiros cinco dias sem saber onde estava detido,
sempre sob tortura.
Às 13h20 o Presidente anuncia uma pausa de dez minutos, que prolongou até às
15h20. Continuando o depoimento de Enaâma Asfari.
O Presidente do Tribunal pergunta porque é que Enaâma Asfari, que é uma
pessoa culta, depois de o terem obrigado a assinar os documentos/confissões, não
escreveu por baixo que estava sob tortura.
Às 16h20 o preso Ahmed Sbai desmaia e o Presidente do Tribunal abandona a
sala. O preso foi retirado em maca e foi comunicado aos observadores que iria para o
Hospital Militar porque sofria do coração.
Passados dez minutos, reinicia-se a sessão, novamente interrompida com o
abandono da sala do Presidente, sem qualquer explicação, às 17h30, após Enaâma
Asfari continuar a negar ter cometido quaisquer actos criminosos. O reinício da sessão
foi às 18h35, sendo que o depoimento de Enaâma Asfari terminou às 18h55. Sem se ter
provado nenhuma das acusações e todas se basearem apenas nos documentos
assinados sob tortura.
Às 18h56 é chamado a depor Mohamed Tahlil. São lidas as acusações. Tahlil
nega qualquer envolvimento nos actos referidos na acusação, nega ser um criminoso e
reafirma a sua condição de activista saharauí dos direitos humanos e pela
autodeterminação do Sahara Ocidental. Fala em hassania, levando a que o Presidente
peça a comparência de um tradutor de árabe clássico. A tradução foi efectuada por um
tradutor sem acreditação. Mohamed Tahlil declarou que nunca esteve em Gdeim Izik
nem fazia parte dos fundadores do acampamento. Foi detido com dois amigos num café
em El Aaiún em Dezembro de 2010, quase um mês após o desmantelamento do
acampamento.
Denuncia ter sido repetidamente torturado, incluindo perante o juiz de
instrução. Afirmou que as assinaturas nos documentos são dele mas que foram obtidas
sob tortura. Nega todas as acusações.
Às 19h10, é chamado Hassan Dah que se levanta a gritar palavras de ordem. São
lidas as acusações. Hassan Dah nega todas as acusações e reafirma ser activista saharauí
dos direitos humanos e pela autodeterminação do Sahara Ocidental. Denuncia as

3

Note-se que tal afirmação não foi traduzida pelos tradutores oficiais, mas pelos integrados nas
missões de observação, como de resto, ocorreu em diversas circunstâncias;

9

torturas de que foi vítima, nos vários sítios onde esteve detido, incluindo na presente
sala diante o juiz de instrução.
O Presidente do Tribunal ordena-lhe que se cale. Hassan Dah explica que tudo o
que assinou foi sob tortura. O Presidente do Tribunal diz que ele tem um bacharelato, é
uma pessoa inteligente poderia ter escrito por baixo que tinha sido forçado a assinar.
O Procurador-Geral do Rei levanta-se e interrompe o Presidente, dizendo que
Hassan Dah mente quando afirma que foi torturado. O advogado de defesa levanta-se e
declara que Procurador-Geral do Rei não pode interromper, inicia-se nova ronda de
discussão aos gritos.
Hassan Dah nega todas as acusações e nega ter estado em Gdeim Izik no dia 8 de
Novembro, é mandado sentar pelo Presidente do Tribunal.
Às 19h45 É chamado El Bachir Khadda que começa por denunciar que foi
sequestrado e torturado.
O Presidente do Tribunal ordena mais uma vez que se fale apenas das acusações,
não de política, nem de alegadas torturas.
El Bachir Khadda nega todas as acusações, reafirma a sua inocência e diz que o
único crime de que é culpado é ser activista saharauí dos direitos humanos e pela
autodeterminação do Sahara Ocidental. Todas as declarações e confissões foram
assinadas sob tortura. As observações do Presidente do Tribunal sobre a falta de estudos
e inteligência do acusado para se pronunciar sobre as leis, levam o advogado de defesa a
insistir com o Presidente para que não ofenda nem humilhe El Bachir Khadda.
O Procurador-Geral do Rei diz ter um documento assinado por El Bachir Khadda
onde diz que não sofreu torturas.
El Bachir Khadda diz, uma vez mais, que tudo o que assinou foi sob tortura.
Relata como foi sequestrado e os dias que esteve em paradeiro desconhecido. Em
seguida transportado por via área, sempre sob tortura física e psicológica. O Presidente
do Tribunal pergunta se ele tem um telemóvel e se é um dos que está em exposição4, El
Bachir Khadda diz que tinha um Nokia mas como são todos iguais não sabe se o seu é
um dos daqueles.
Às 20h15, é chamado Etawbali Abdallahi e são lidas as acusações. Etawbali
Abdallahi diz que era um dos porta-vozes do acampamento de Gdeim Izik nas
negociações com o governo marroquino. Nega todas as acusações e reafirma ser
activista saharauí, defensor dos direitos humanos e da autodeterminação do Sahara
Ocidental. Refere que só diz a verdade e que todos os documentos apresentados são
forjados e falsos. Afirma que estavam em negociações com os representantes do
Governo marroquino5 e que, derivado às negociações, tinham sido prometidos postos
de trabalho para os saharauís. Exige que seja ouvido o testemunho da Senhora Gajmula
Mint Abbi6, membro do Parlamento, que o visitou no dia 7 de Novembro 2010 e no dia 8
de Novembro, na sua casa.
Etawbali afirma que ninguém suspeitava do ataque, no dia 8 de Novembro, pela
manhã e ninguém foi avisado que tal iria acontecer. Disseram-lhes para prepararem
duas tendas grandes para a assinatura do referido acordo. No dia 7 de Novembro,
Etawbali Abdallahi foi para o hospital militar, porque tinha sido atropelado7, uma vez
não admitido, foi para casa. Denuncia que, após a sua detenção, esteve sob tortura e
Primeira menção aos telemóveis expostos no centro da sala;
Note-se que os referidos representantes, não foram admitidos pelo Tribunal como testemunhas;
6 Também o pedido para que a referida deputada foi considerada testemunha foi rejeitado pelo
Tribunal;
7 Referindo haver testemunhas do seu relato;
4
5

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que não lhe foi facultado nenhum advogado. Etawbali Abdallahi informou o juiz de
instrução que tinha sido torturado, mas nada foi feito.
O Presidente do Tribunal ordena-lhe que mencione apenas o ocorrido dia 8 de
Novembro, afirmando que “o resto não é relevante” (sic). O advogado de defesa
interrompe defendendo o direito de Etawbali Abdallahi à palavra, mas o Presidente do
Tribunal diz que não está ali “para ouvir histórias, apenas quer saber o que se passou no
dia 8 e os crimes que o acusado cometeu” (sic).
Etawbali Abdallahi nega novamente todas as acusações. Negando ainda alguma
vez ter recebido armas ou dinheiro dos outros acusados, reafirmando que foi forçado a
assinar documentos, sempre sob tortura, sem sequer os ter lido.
O advogado de defesa interrompe mais uma vez defendendo Etawbali Abdallahi
e o Presidente do Tribunal, declara: “Só falas quando eu deixar! Senta-te!” (sic).
Etawbali Abdallahi diz só ter conhecido Enaâma Asfari, cinco meses após ter
estado preso e pergunta porque só se julgam saharauís e não está a ser julgado nenhum
marroquino. Volta a falar das torturas, relatando que, um dia, as autoridades entraram
na sua cela com El Houcein Azaoui, coberto de sangue. Ele “estava amarrado como uma
ovelha” (sic). Identifica um dos torturadores como Hamid, que trabalha como
enfermeiro na prisão Salé II. “Ele não é enfermeiro é um torturador” (sic).
Etawbali Abdallahi refere ser uma pessoa pacífica e que tal, é do conhecimento
geral. O Presidente volta a interromper dizendo que ele não pode falar das negociações,
apenas do dia 8 de Novembro.
Etawbali Abdallahi mostra cicatrizes que tem no corpo das torturas sofridas. Ele
escreveu cartas ao Procurador-Geral do Rei, ao Ministro da Justiça e ao Presidente da
Comissão dos Direitos Humanos do governo marroquino, denunciando as torturas de
que foi vítima, sem nunca ter recebido resposta.
Às 22h15 entra uma pessoa que se identifica como médico e informa que
Ahmed Sbai tem que ficar 48 horas a descansar, não sofrendo de nenhum problema
físico, tendo-lhe sido administrados ansiolíticos.
Advogado de defesa pede um relatório médico, ao que o Presidente responde
que ele só pode falar sobre Ahmed Sbai na presença do próprio.
Sessão é encerrada 22h30 e deverá continuar no dia seguinte às 09h00.
2.3. Terceiro dia: 10 de Fevereiro de 2013, domingo:
Horário da sessão: das 10h50 às 20h00.
Às 10h50 entram os presos entoando cânticos e palavras de ordem, excepto
Ahmed Sbai que continua hospitalizado.
Às 11h15 O Presidente do Tribunal informa que Ahmed Sbai se encontra no
Hospital Militar Universitário Mohamed V, porque tem uma personalidade emotiva e foi
medicado com ansiolíticos. Está de baixa médica por 48 horas, que se iniciou às 17h00
do dia anterior.
Chama as testemunhas de Enaâma Asfari e informa-as que irão ser ouvidas na
próxima terça-feira, 12 de Fevereiro, às 09h00. Chama as testemunhas da acusação sem nunca mencionar os seus nomes - informando-os do mesmo.
Às 11h35 é chamado Ettaki Elmachdoufi a depor. Ettaki Elmachdoufi começou
por denunciar as torturas a que foi sujeito apesar de ser várias vezes admoestado pelo
Presidente do Tribunal. Esteve detido durante cinco dias em paradeiro desconhecido,
onde foi torturado. Continuou a ser torturado por todos os sítios onde passava,
esquadras, gendarmarias, quartéis e prisão. Não o deixavam ter roupa vestida e apenas

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podia beber água da sanita. Foi torturado perante o juiz de instrução na sala do tribunal.
Esteve vários meses sem ver a luz do dia. Viu Cheikh Banga a ser torturado na sua
presença. Denuncia o enfermeiro Hamid da prisão Salé II, como sendo um dos
torturadores, assim como os funcionários prisionais Hassan Hafdal, Hafid Benchacherm
e Yousi Bouziz.
Nega todas as acusações e reafirma ser activista saharauí, que luta pelos seus
direitos de forma pacífica.
Refere que o acampamento pacífico de Gdeim Izik foi a mais clara forma do povo
saharauí demonstrar o seu repúdio pela ocupação marroquina.
Às 12h15 é chamado Mohamed Lamin Haddi, que declara que estar com graves
problemas de saúde, tendo dificuldades em falar. É taxista de profissão, nunca cometeu
um crime na vida e está a ser julgado apenas por ser um activista dos direitos dos
saharauís e pela independência do Sahara Ocidental. Nega todas as acusações. Estava
em casa no dia 8 de Novembro. Foi preso no dia 20 de Novembro 2010, na Cafetaria
Sahara Line, em El Aaiún. Denuncia ter sido torturado repetidas vezes, uma deles na sala
do tribunal diante do juiz de instrução. Tudo o que assinou foi sob tortura. Está surpreso
com as acusações, nunca fez mal a ninguém. Foi detido e torturado, mais tarde foi
levado num avião militar e novamente torturado. Esteve quatro meses sob tortura.
Identifica alguns dos torturadores como sendo Hassan, Hafid, Hamid e Bouziz. Sempre
que se recusava a cantar o hino nacional marroquino ou gritar “viva o Rei” foi torturado.
Nega ter recebido dinheiro de Enaâma Asfari, repete que assinou todos os
documentos sob tortura. Nega ter feito cocktails Molotov. Tem testemunhas em como
estava em El Aaiún no dia 8 de Novembro de manhã. Não estando, por isso, em Gdeim
Izik.
Refere ter sido preso porque assistiu, juntamente com setenta e uma pessoas ao
Simpósio Internacional na Argélia em Setembro de 2010 sobre “O Direito do Povo à
Resistência”.
Saiu a entoar palavras de ordem.
Às 12h40 é chamado Brahim Ismaili, nega as acusações, o Presidente do
Tribunal pede um tradutor de árabe clássico, pois Brahim Ismaili só fala hassania. O
Presidente do Tribunal adverte que o réu só pode falar sobre as acusações.
Brahim Ismaili diz que é activista saharauí, que já tinha sido sequestrado e preso
com dezassete anos, em 1987, tendo passado oito meses numa prisão secreta, em El
Aaiún.
Foi novamente detido a 6 de Janeiro de 2009, tendo-lhe sido retirada toda a sua
documentação e telemóvel. Foi impedido de viajar para os acampamentos de refugiados
de Tindouf8, via Mauritânia. Após quatro meses foi-lhe devolvida a documentação e o
telemóvel.
Falou sobre as resoluções da ONU, sobre o Sahara Ocidental, sobre a ilegalidade
da ocupação. Refere que os crimes cometidos contra a população saharauí pelos
marroquinos nunca pararam desde 1975. E alertou para o facto da escalada da presença
de forças paramilitares nas cidades dos territórios ocupados ser prenúncio de mais
violência contra a população civil. Saiu saudando e agradecendo a solidariedade de
todos os saharauís.
Às 13h30 é chamado Cheikh Banga, que nega todas as acusações e denuncia a
situação vivida pelo povo saharauí. Faz o enquadramento legal e histórico da ocupação

8

Local onde vivem cerca de duzentos mil saharauís, situando-se o governo-em-exílio da RASD;

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ilegal e fala do direito à autodeterminação do povo saharauí. Cita Noam Chomsky que
afirmou que Gdeim Izik foi o início da Primavera Árabe.
Banga foi detido, dia 8 de Novembro de 2010, dentro do acampamento de
Gdeim Izik, tinha ido ao local para entregar medicamentos a uma tia. Após a detenção
foi-lhe infligida tortura física e psicológica.
Durante o desmantelamento do acampamento pelas forças marroquinas, viu
incendiarem tendas e maltratarem mulheres. Foi torturado, referindo ter marcas e
cicatrizes em todo o corpo, podendo comprovar o que diz.
Afirma que nenhuma cidade saharauí quer estar sob a ocupação marroquina, a
prova disso é a presença de veículos das Nações Unidas e outras organizações nas ruas
dos territórios ocupados, apesar de toda a propaganda e manipulação dos ocupantes.
Às 14h15 foi feito um intervalo.
Às 17h55 é chamado Mohamed El Ayoubi, de 57 anos de idade. Tem grandes
dificuldades em andar, mas diz aos militares para não lhe tocarem, “são assassinos não
me toquem” (sic).. Depõe sentado.
Quer retirar as suas roupas para mostrar as inúmeras cicatrizes e sequelas
consequências das torturas a que foi submetido, não tendo sido permitido.
Nega todas as acusações. Denuncia ter sido sodomizado com “objectos
estranhos” (sic). Relata como foi torturado nos testículos e que só podia beber água da
sanita. Durante algum tempo teve que estar com um trapo sujo cheio de insectos na
boca.
Nega ter facas, nega ter atropelado alguém. Tem diabetes, vê mal, quase não
anda e não conduz há muitos anos. Fala em hassania, levando o Presidente a pedir um
tradutor de árabe clássico.
Nega novamente as acusações e diz que todos os documentos foram assinados
sob tortura. Afirma que até ser preso estava bem de saúde, excepto a diabetes, e agora
está muito mal. Foi acusado de praticar bruxaria, tendo sido condenado por isso. Repete
que foi torturado e foi assim que assinou os documentos. Participou em Gdeim Izik
porque defende os direitos sociais, económicos e políticos do povo saharauí e o direito à
autodeterminação.
Às 18h45 o Presidente do Tribunal anuncia um intervalo de dez minutos, mas
apenas regressa às 20h00, altura em que chama três presos. Todos referem que não
podem testemunhar porque estão exaustos. Sidi Abderrahman Zeyou diz que estão
exaustos, uma vez que os tiram da prisão todos os dias às 05h00 da manhã para o
tribunal e só regressam depois 24h00, praticamente não dormem, para além de estarem
todos doentes. Devido ao estado de exaustão dos presos a sessão foi terminada e
anunciado o reinício para às 09h00 da manhã seguinte.
2.4.Quarto dia: 11 de Fevereiro de 2013, segunda-feira:
Horário da Sessão: das 10h30, hora de entrada dos presos, às
Às 10h30 entram os presos entoando cânticos e palavras de ordem, falta Sidi
Abdeljalid Laaroussi que, segundo informação do Presidente do Tribunal, se encontra
doente e teve que ser transportado para o hospital para fazer exames.
Às 10h45 é chamado Mohamed Khouna Babait, vai para a tribuna gritando
palavras de ordem sobre a autodeterminação e independência do Sahara Ocidental.
O Presidente interrompeu-o várias vezes alertando que se cingisse aos
acontecimentos de dia 8 de Novembro e às suas acusações.
Mohamed Khouna Babait nega todas as acusações e diz que no dia 8 de
Novembro não estava em Gdeim Izik. Está a ser julgado porque é activista saharauí,

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defende os direitos do seu povo, a independência e autodeterminação do Sahara
Ocidental. Exige que lhe mostrem “uma prova, uma só, em como matou alguém, uma
imagem ou uma prova física” (sic). O Presidente ordena-lhe que se cale e se sente.
O Procurador-Geral do Rei entrega um documento ao Presidente, dizendo que
naquele documento está a assinatura do preso, que é a prova.
Mohamed Khouna Babait diz que foi preso dia 8 de Novembro e não dia 15,
como está escrito no documento. Denuncia as torturas a que foi sujeito desde da
detenção, descrevendo a viagem de avião militar até Agadir e depois para Salé II.
Reafirma mais uma vez que tudo o que assinou foi sob tortura. Nega conhecer Enaâma
Asfari antes de ser preso e volta a afirmar a sua inocência.
Às 11h00 é chamado Abdulahi Lakfawni, dirige-se para a tribuna gritando
palavras de ordem sobre a autodeterminação e independência do Sahara Ocidental,
“Viva a RASD”, “Viva a Polisário!”
O Presidente do Tribunal não o deixa começar a falar e inicia logo o
interrogatório perguntando se ele já tinha sido preso anteriormente. Aos protestos do
advogado de defesa, replica que “pergunta e faz o que quer” (sic), e que o preso “fala
quando ele quer e cala-se quando ele quer” (sic).
Abdulahi Lakfawni declara que já tinha sido preso anteriormente, uma das vezes
por ter ajudado imigrantes ilegais, outra por não ter os documentos do carro em ordem,
e outra porque tentou passar o Muro da Vergonha, esteve preso sete anos. Foi
torturado todas as vezes que foi preso.
O Presidente do Tribunal diz que o que o réu apresenta não interessa, para que
fosse directamente ao dia 8 de Novembro, não falando desse tipo de questões e iniciase uma acesa discussão com todos os advogados de defesa em pé.
Abdulahi Lakfawni continua dizendo que também esteve preso em 1994 por
tentar passar o muro e em 1996 por participar numa manifestação pacífica pelos
direitos humanos em Bojador. Nega todas as acusações.
O Presidente não quer que ele fale sobre o muro, impedindo-o de prosseguir,
ordenou-lhe que se sentasse. Reinicia-se uma acesa discussão com advogados de defesa
em pé. O Procurador-Geral do Rei diz ao Presidente do Tribunal para chamar o preso e
os tradutores oficiais. Estes traduzem o comunicado oficial do Presidente do Tribunal
sobre a “pequena tensão” (sic). Mais uma vez a tradução é de fraca qualidade, não
coincidindo nos diferentes idiomas, nem com os reais acontecimentos na sala de
audiências.
O Presidente do Tribunal diz que o tribunal não é um fórum sindical, partidário,
ou ideológico, e que os presos se devem limitar a falar sobre o que o presidente refere.
Faz-se um intervalo entre às 12h15 e as 13h43. Volta a entrar Abdulahi Lakfawni
gritando “viva a Polisário” e agradecendo o apoio de todos.
Nega pertencer a bandos de criminosos. Nega todas as acusações, nega ter
recebido dinheiro ou câmaras fotográficas de Omar Bulsan ou de Enaâma Asfari.
Declara ter estado cinco dias sob tortura depois da detenção. Afirmou ter sofrido todas
as formas de tortura, maus-tratos e humilhações. Durante esse tempo e depois, assinou
tudo o que lhe que lhe foi proposto, assinou muitas folhas e documentos, até com
impressão digital, desconhecendo completamente o seu conteúdo. Todos os
documentos são ilegais, assinados sob tortura. Foi torturado em todos os locais por
onde passou até chegar a prisão Salé II, onde esteve sempre nu e continuou sob tortura.
Afirma que tais situações são contra todas as leis marroquinas, os acordos e convenções
subscritas por Marrocos, o direito internacional e a carta dos direitos humanos.

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Esteve várias vezes em Gdeim Izik e no dia 8 de Novembro estava a dormir na
sua tenda, juntamente com um jornalista espanhol (Erena Calvo), que assistiu a tudo.
Deu entrevistas a jornalistas espanhóis, denunciando a situação nos territórios ocupados
e todas as ilegalidades que são cometidas diariamente contra o povo saharauí.
Reafirma que é activista saharauí, que participa em formas de luta pacíficas.
Sublinhando que Gdeim Izik foi uma manifestação pacífica. No dia 8 de Novembro foi
levado para a gendarmaria com o jornalista espanhol, tendo ficado oito horas ano local.
O jornalista espanhol viu como se vivia em El Aaiún, que é uma cidade sitiada. Pergunta
porque nunca houve uma investigação do jovem saharauí morto a 24 de Setembro de
2010, pelos polícias marroquinos. Presidente do Tribunal corta-lhe a palavra e manda-o
sentar.
Às 13h25 é chamado Lbakai Laarabi. Entra com palavras de ordem.
O Presidente do Tribunal adverte para que ele fale apenas das suas acusações.
Lbakai Laarabi diz ter sido membro da direcção do acampamento de Gdeim Izik,
que nunca ninguém avisou que iriam desmantelar o acampamento e que no dia 8 de
Novembro as autoridades marroquinas entraram à força, destruindo todo o
acampamento civil, uma atitude absolutamente ilegal.
Foi preso em 2012, em Dakhla, é motorista e transporta peixe entre Dakhla e El
Aaiún, disseram-lhe que era preso por transporte de peixe sem a documentação
necessária.
O Presidente do Tribunal pergunta se ele deu entrevistas para a RASD TV e ele
confirma que sim.
Tudo o que assinou foi sob tortura, os documentos e as folhas.
Das nove pessoas da direcção (comissão de negociação) de Gdeim Izik, cinco
estão presos. Alguns dos outros, entre os quais a sua esposa, foram detidos e depois
soltos9.
Lbakai Laarabi nega ter recebido dinheiro de Enaâma Asfari, e nega todas as
acusações, descreve as negociações com os representantes do governo de Marrocos
antes do desmantelamento. Informa que não teve advogado após a detenção.
Às 14h05 é chamado Mohamed Mbarek Lefkir, que declarou ser activista pela
independência do Sahara Ocidental mas nunca de forma violenta, nem nunca usou
violência.
Relata como havia um muro/barreira em torno do acampamento de Gdeim Izik
erguido pelas forças de ocupação marroquinas.
Denunciou as torturas e as humilhações infligidas pela polícia e militares
marroquinos. Bateram-lhe repetidamente na cabeça, esteve sempre nu, arrancaram-lhe
as unhas dos pés e das mãos, arrancaram-lhe a barba e obrigaram-no a assinar muitos
documentos e folhas que ele nunca leu.
É trabalhador e pai de família, está muito mal física e psicologicamente.
Diz que os meios de comunicação social dizem que “os saharauís são uns
animais, não são animais, são saharauís” (sic), não são criminosos, querem a
independência querem a sua terra a liberdade e não têm medo.
Refere que a presença dos observadores internacionais serve para denunciar e
verificar o que se está a passar no tribunal. Os saharauís só querem paz.
A sessão foi interrompida por se ter criado um burburinho devido à presença de um militar,
sentado junto do Procurador-Geral do Rei, que estava sentado, virado para a plateia, a tirar notas.
O advogado de defesa quer que ele se identifique, o Procurador diz que ele pode estar ali e ri-se,
no entanto o Presidente do Tribunal manda-o abandonar a sala. Apesar de o ter feito, voltou a
entrar por outra porta, poucos minutos depois;
9

15

Já se esqueceu de muito desde que foi preso em Novembro de 2010, devido às
pancadas na cabeça. Mostra as cicatrizes que tem na cabeça, mostrando também as
mãos e os pés. Diz que só queria morrer quando estava a ser torturado e humilhado, foi
sodomizado e sofreu outras torturas sexuais que tem vergonha de descrever.
Foi sequestrado, puseram-lhe um saco na cabeça e foi agredido em frente de
testemunhas. Enquanto foi torturado dizia que sim a tudo, dizia todas as mentiras que
queriam que dissesse, assinou todos os documentos e papéis.
Nega todas as acusações. Fala novamente das torturas e o Procurador-Geral do
Rei diz que ele não pode falar das cicatrizes que tem em certos sítios por causa do pudor
e da assistência na sala do tribunal.
Mohamed Mbarek Lefkir ignora o Procurador-Geral do Rei e continua a
descrever que tem cicatrizes nos testículos, no pénis, queimaduras de cigarros em todo
o corpo. Foi torturado em todos os sítios por onde passou desde que foi preso, inclusive
na sala de tribunal, nunca esteve presente um advogado que o representasse.
Às 16h27 é chamado Sidi Ahmed Lemjiyed, que conta que foi preso a 25 de
Dezembro de 2010. É activista saharauí, defende o direito da independência do Sahara
Ocidental, é apoiante da RASD e trabalha desde 1999 como activista. Conhece pessoas
da RASD e da Polisário e os seus representantes em Espanha, Portugal e outros países,
denuncia a situação que se vive nos territórios ocupados e a violação dos direitos
humanos da população saharauí. Esteve na Argélia em 2009.
Depois de ter sido preso foi torturado, sofreu maus-tratos e foi sodomizado. Foi
torturado em todos os locais pelos que passou.
Afirma que disse sempre a verdade mesmo sob tortura, diz “a tortura não é
nada de novo para nós, todos os saharauis presos são torturados até as mulheres e os
muito jovens”. Tem cicatrizes no corpo todo.
Esteve em Gdeim Izik como observador, em representação da sua associação de
direitos humanos. Não estava no local dia 8 de Novembro.
Escreveu cartas e artigos para todo o mundo a contar o que era Gdeim Izik e
porque é que as pessoas se estavam a manifestar. Esteve em Madrid, Córdoba, Jaén e
Badajoz. Saiu dia 4 de Novembro de Espanha e foi para a Argélia. Chegou dia 8 de
Novembro a El Aaiún.
Nega todas as acusações, nega ter recebido dinheiro de Enaâma Asfari, nega ter
dado ou recebido ordens para matar fosse quem fosse. Volta a dizer que foi torturado e
a pedido do Presidente do Tribunal mostra as cicatrizes nas mãos e na cabeça.
Durante o período da sua detenção, diversas vezes pediu para ir ao médico, o
que lhe foi sempre negado, o juiz de instrução também negou apoio médico.
Às 17h02 é chamado Sidi Abderrahman Zeyou. Sidi Abderrahman Zeyou é
funcionário público e activista militante de uma associação de defesa dos direitos do
povo saharauí. Ama a paz e condena a violência. Diz que foi preso devido às suas
declarações à cadeia internacional de televisão Al Jazeera. Foi torturado e nega todas as
acusações. Diz que a solução é o estado saharauí. Agradece a todos os que o apoiaram. E
menciona o seu professor de universidade, economista marroquino, o recém falecido,
Idris Benali.
Refere os vários artigos da lei marroquina que foram violados flagrantemente
durante a sua detenção, em especial os artigos 106, 107 e 109 que falam sobre os
trâmites de detenção a observar, bem como o artigo 68 que faz menção ao tempo de
prisão preventiva, que neste caso foi excedido.
“Sou activista saharauí, sou do comité para a defesa da cultura saharaui e
presidente da liga de quadros políticos saharauís”, afirmou.

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Nesta altura o nosso tradutor teve que sair devido às pressões dos militares
marroquinos. Isabel Lourenço, Rita Reis, José Manuel de La Fuente e Rosário Díaz
estão rodeados de militares fardados e à civil que se sentaram ao seu lado, na fila da
frente e na fila de trás. Murmuram em árabe, mas não se sabe o que dizem. Há onze
militares a rodear-nos. Quando o tradutor sai, senta-se um militar de alta patente ao
lado de Isabel Lourenço e tenta perceber o que esta a escrever. Intervalo das 18h00 às
18h35. Chegam mais militares à sala. Há grande movimentação na sala, de entrada e
saída de militares fardados e à civil. O nosso tradutor regressa.
Às 19h10 é chamado Mohamed El Bachir Boutinguiza, entra entoando cânticos
e palavras de ordem.
Diz que foi preso em 1992, durante dez, meses e, em 1997, esteve quatro anos
preso.
Afirma que todos os acusados são activistas dos direitos humanos e não
criminosos.
Em 2005, esteve em manifestações e viajou para Espanha onde denunciou a
situação que se vivia nos territórios ocupados. Conhece Aminetu Haidar e voltou para o
Sahara Ocidental com o início da crise em Espanha.
Foi preso no dia 19 de Novembro. Relata que entraram à força na sua casa,
bateram-lhe e foi torturado de muitas formas. Pendurado pelas mãos, torturado nos
órgãos genitais. Foi torturado em todos os sítios por onde passou, e também na
presente sala de tribunal perante o juiz de instrução. Foi sodomizado com uma garrafa
pelo funcionário prisional Hamid Bahri.
Denuncia que fizeram inúmeras queixas ao Procurador-Geral do Rei sobre as
torturas e as condições na prisão mas nunca tiveram resposta. Mostra as marcas de
queimaduras de cigarros no corpo.
Nega todas as acusações e desafia a acusação a exibir vídeos ou outras provas
que comprovem que ele fez alguma coisa errada. Diz estar preparado para ser
confrontado com tudo, não tem nada a temer, não fez mal a ninguém.
Exige exames médicos para comprovarem as torturas e a violência sexual.
Nega conhecer Enaâma Asfari antes de ter sido detido, negando ainda ter
recebido armas, dinheiro ou qualquer outra coisa para praticar violência.
O Procurador-Geral do Rei, responde, afirmando que passado tanto tempo não
vale a pena fazer exames.
Advogado de defesa diz “claro que se pode fazer!” e exige que se realizem
exames médicos e que se apure quem eram os médicos da prisão.
Às 20h05 é chamado Sidi Abdallahi Abbahah, entra dizendo em espanhol “O
único representante legítimo do povo saharauí é a Frente Polisário”, saúda a AMDH10 , o
partido político “Via Democrática”, todos os marroquinos honestos, observadores e
todos os que estão solidários com o povo saharauí e assistem ao julgamento.
Relata que o governo de Marrocos enviou ao longo das últimas três décadas,
mais de 180.000 colonos marroquinos para as cidades e aldeias do Sahara Ocidental,
com o intuito de falsificar o referendo, sem nunca lhes dar uma oportunidade de
movimento ou progresso social.
É activista saharauí e diz que a prisão para ele foi uma universidade, porque
aprendeu o que não pode aprender na escola.
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Associação Marroquina de Direitos Humanos;

17

Foi detido em 19 de Novembro de 2010, de forma ilegal, enquanto tomava chá
em sua casa, relatando a entrada de um grupo armado.
Começa a falar em espanhol e o Presidente do Tribunal interrompe dizendo que
ele tem que falar em árabe.
Sidi Abdallahi Abbahah continua a contar que foi a Espanha denunciar o que se
passava nos territórios ocupados, teve que viajar numa batera e atravessar o Mar
Mediterrâneo.
Nega todas as acusações, afirmando que “sob tortura todos assinam seja o que
for”. Assinou muitos documentos, mas sempre sob tortura. Exige que lhe mostrem
provas físicas que comprovem as acusações. O Procurador-Geral do Rei levanta-se,
gritando: “Chega! Chega! Cala-te!”
Sidi Abdallahi Abbahah nega ter profanado um cadáver.
Descreve as torturas a que foi sujeito entre outras a tortura do “frango assado”,
esteve sempre sem roupa, provado de comida e água, asfixiado com saco plástico
repetidamente, foi violado com uma cadeira, queimado com cigarros e tudo isto dias e
dias a fio.
Exige que a MINURSO monitorize os direitos humanos no Sahara Ocidental.
2.5. Quinta Sessão: 12 de Fevereiro de 2013, terça-feira:
Horário da sessão: 09h55 entrada dos presos; terminou às 20h25.
À entrada do tribunal o nosso tradutor foi revistado, durante mais de cinco
minutos, com seis policias militares à sua volta. No exterior está um camião com scanner
onde os observadores têm que colocar os seus pertences antes de entrarem, onde como
é habitual são novamente revistados, as malas, casacos, e pessoas com scanner e por
um/a militar.
A sala de tribunal está cheia de militares vestidos à civil, que são reconhecidos
devido às sessões anteriores, em que estavam fardados.
Estão presentes dezassete observadores internacionais (Portugal, França, Reino
Unido, Espanha).
Às 09h55 entram os presos com Hassan Dah a entoar cânticos e os restantes a
responder com palavras de ordem.
Às 10h05 o presidente do tribunal inicia a sessão chamando Sidi Abdeljalid
Laaroussi, que tem que ir amparado por dois militares. Senta-se diante do Presidente do
Tribunal.
Sidi Abdeljalid Laaroussi é taxista de profissão e presidente de uma associação
espanhola de Direitos Humanos em El Aaiún. Nega todas as acusações. Nega que Osmar
Bulsan seja o seu líder. Era membro da segurança de Gdeim Izik.
Fala sobre o enquadramento político e legal do conflito do Sahara Ocidental,
referindo-se à “Marcha Verde”11.
Afirma a ilegalidade do Tribunal Militar e do julgamento. Tudo o que assinou foi
sob tortura, tornando-os ilegais e sem qualquer valor.
Foi sequestrado em Bojador, a 13 de Novembro de 2010, relatando que a sua
casa foi invadida violentamente, e bateram nas mulheres. Violaram a sua mulher.
Na esquadra onde foi torturado acusaram-no de ter participado numa
manifestação em Madrid, ao que ele respondeu que tinha estado em Madrid a
manifestar-se pacificamente e em Granada numa reunião da sua associação.
Marcha em que 350.000 marroquinos (civis e militares das Forças Armadas Reais), invadiram
o Sahara Ocidental em 1975;
11

18

Relata como foi torturado na “grelha” com choques eléctricos, cortes com
objectos afiados, queimaduras de cigarros, sexualmente e coisas que não quer descrever
por respeito às pessoas que estão na sala. Não podia utilizar a casa de banho, tinha que
fazer as necessidades onde estava e dormia em cima delas.
Nunca lhe bateram na cara e na esquadra havia três câmaras de filmar, que o
filmaram limpo e só do pescoço para cima, estava algemado e com pistolas apontadas.
Disseram-lhe que deveria falar calmamente e confessar.
Foi torturado por todos os sítios por onde passou, esteve cinco dias em
paradeiro desconhecido, no avião militar regaram-no com químicos. Recusaram-lhe
comida e água. Denunciou inúmeras vezes as torturas, maus-tratos e condições da
prisão ao Procurador-Geral do Rei e outras entidades.
Só conheceu Enaâma Asfari na prisão, negando todas as acusações, não recebeu
nem dinheiro, nem armas, nem ordens de ninguém, não matou ninguém.
Diz que está muito mal dos joelhos. Mostra cicatrizes enormes nos joelhos e nas
pernas direita e esquerda, os pés não têm unhas e a cabeça está cheia de cicatrizes e
“buracos”.
O Procurador-Geral do Rei interrompe, declarando possuir um documento
médico (emitido no dia anterior), que diz que as lesões nos joelhos são antigas,
originadas pela prática desportiva. E que Laaroussi tinha uma tensão arterial de 19,5.
Às 12h00 É chamado Ahmed Sbai. Ahmed Sbai tinha sido levado para o hospital
militar após ter desmaiado no dia 10 de Fevereiro.
Começa a relatar como no dia 8 de Novembro, foi sequestrado e levado para um
lugar desconhecido. Ele tinha tentado ir para a África do Sul para uma reunião onde iria
falar sobre a situação no Sahara Ocidental.
Denunciou que durante os interrogatórios só lhe fizeram perguntas sobre a sua
actividade política e nunca sobre os acontecimentos de Gdeim Izik.
Durante os interrogatórios desmaiou várias vezes devido ao seu problema
cardíaco e o médico do hospital pediu aos polícias para não o torturarem mais. Alwazna
Abderrahman e Mohamed Dachisi foram dois dos torturadores. A sua tortura foi tão má
que ele se convenceu que iria morrer e tornar-se um mártir. Todos os documentos que
assinou, foi sob tortura.
Nega todas as acusações e reafirma que os acusados não são criminosos, são
activistas da causa saharauí e é por isso que estão a ser julgados.
Sidi Abdeljalid Laaroussi é retirado da sala apoiado em dois guardas, não
consegue manter-se de pé.
Às 13h35 é chamado Deich Eddaf, que se levanta a gritar palavras de ordem,
necessita de uma cadeira, está muito fraco não se consegue manter de pé. O Presidente
do Tribunal diz-lhe que tem que ser muito breve.
Deich Eddaf, declara que vai falar em hassania. É activista dos direitos humanos
e pela independência do Sahara Ocidental, todos o conhecem. É conhecido porque é de
um Clube Desportivo (futebol) e já esteve em muitos jogos em várias cidades.
Era responsável pela organização das tendas em Gdeim Izik e a organização do
acampamento em bairros, de forma a ser mais fácil administrar o campo com mais de
40.000 pessoas.
Fazia parte do grupo de negociação e diz que o general Abdelaziz Benani,
prometeu 2.700 postos de trabalho diante os três governadores que representavam o
Ministro da Administração Interna Marroquino, criando assim a ilusão que as
revindicações sociais do saharauís estavam a ser ouvidas quando de facto se passou o
contrário.

19

No dia 8 de Novembro, quando desmantelaram o acampamento estava a dormir
na tenda com a sua família. No dia 3 de Dezembro, arrombaram a porta da sua casa e
sequestraram-no vendado e algemado. Esteve em lugar desconhecido sem roupa e sob
tortura. Foi sodomizado com uma barra de metal, e infligiram-lhe várias torturas nos
testículos e no pénis. Não o deixavam ir à casa de banho e tinha que fazer as suas
necessidades no “cubículo onde dormia” (sic). Quando pediu um médico torturam-no
mais ainda. O responsável da prisão Abderrahman, estava presente e disse para lhe
tiraram a venda dos olhos, deram-lhe roupas e uma sandálias e mandaram-no assinar
documentos. Ele quis ler os documentos, não o deixaram e disseram-lhe para assinar,
batendo-lhe o tempo todo. Forçaram-no a colocar o dedo nalgumas folhas e não se
lembra se assinou outras, estava muito mal. Foi cortado com um objecto afiado.
Mostra as marcas da tortura na sua cara. Denuncia o enfermeiro Hamid como
sendo um dos torturadores. Nega conhecer os outros presos antes da prisão. Quando
pediu ao juiz de instrução para ver um médico ele respondeu que isso não era nada com
ele que não era da sua responsabilidade. Deich Eddaf estava coberto de sangue quando
fez o pedido ao juiz de instrução.
Nega todas as acusações e quando o Presidente do Tribunal lhe pergunta porque
só estão presos cinco dos nove responsáveis do comité de negociações de Gdeim Izik,
ele responde: “Sei lá! Você é que sabe porque nos prenderam! Não sou a pessoa
indicada para lhe responder”. O Presidente do Tribunal diz que não é responsável pela
saúde de Deich Eddaf, que isso é com as autoridades prisionais.
Entre as 13h30 e as 15h16 é feito um intervalo.
O Presidente do Tribunal chama os tradutores que traduzem o comunicado do
Presidente que diz que Deich Eddaf vai ser enviado para um especialista para examinar
os olhos e ouvidos e que Sidi Abdeljalid Laaroussi tinha sido enviado no dia anterior
para o Hospital Militar Universitário Mohamed V, devido a dores no joelho que se
devem a uma lesão antiga e que não necessita de nenhuma intervenção.
É chamado Mohamed Bani, nascido em 1969. Fugiu com os saharauís para o
exílio, para os campos de refugiados no sul da Argélia em 1975 (sob bombardeamento).
Estudou ali na escola 9 de Junho. Esteve no Exército Popular Saharauí de Libertação,
onde lhe foram ensinados valores morais sólidos, por isso nunca poderia matar alguém
da forma como dizem as acusações. Nega todas as acusações.
Em 199112, voltou a viver em El Aaiún. Desde 1994 é funcionário público, nunca
faltou ao trabalho. Tem um documento assinado pelo seu director de departamento, e
quinze colegas, em como estava a trabalhar no dia 5 de Novembro de 2010. O
Procurador-Geral do Rei afirma que esse documento é irrelevante.
Todos os documentos que assinou foram assinados sob tortura. Esteve em
paradeiro desconhecido vários dias. Só soube onde se encontrava quando estava em
Agadir.
O Presidente do Tribunal diz que não quer saber das torturas que isso não lhe
compete. Diz que há trinta e duas folhas assinadas por Mohamed Bani e que não lhe
parece credível que tenham todas sido assinadas sob tortura que ele podia ter escrito
por baixo que estava a ser torturado.
Às 17h02 é chamado El Houcein Azaoui, que saúda a AMDH e todos os que
estão solidários com a causa do povo saharauí. Nega todas as acusações. Foi um dos
membros do grupo de negociações em Gdeim Izik, participando nas reuniões com os
representantes do Governo Marroquino. Nestas reuniões estiveram presentes o
12

Ano em que foi acordado o cessar-fogo entre Marrocos e a Frente Polisário;

20

Ministro do Interior e três governadores e eram chefiados por M. Ilias El Hamari,
delegado dos órgãos supremos (Rei).
El Houcein Azaoui foi abordado várias vezes para aceitar subornos por parte de
oficiais marroquinos, que sempre recusou. Foi sequestrado da sua casa e foi vítima de
tortura, violação e sodomia de tal forma que teve que ser transportado para o hospital.
Foi forçado a assinar documentos sob tortura e quando estava no tribunal o juiz
de instrução perguntou-lhe porque não tinha aceitado os subornos.
Denuncia o enfermeiro Hamid e mais dois funcionários da prisão como
torturadores. Fez várias denúncias escritas às várias instâncias e entidades sobre a
tortura, maus-tratos e condições da prisão. Mostra as marcas nas costas, a falta de
unhas nos pés e mãos e cicatrizes nos braços, que o Presidente do Tribunal enumera. O
Procurador-Geral do Rei observa o corpo a rir.
Advogado da defesa exige um exame e relatório sobre as torturas infligidas a El
Houcein Azaoui assim como exame rectal. Procurador-Geral do Rei diz que é impossível
confirmar seja o que for passado algum tempo. Advogado de defesa contrapõe que o
Procurador-Geral do Rei não tem as habilitações necessárias para fazer essa avaliação e
que existem técnicas forenses que podem comprovar a idade das cicatrizes. Volta a
exigir relatórios e exames aos presos que denunciaram as torturas.
Às 18h23 o Presidente do Tribunal abandona a sala sem qualquer justificação. Às
19h18 volta o Presidente e chama os tradutores (apenas francês e inglês, o de espanhol
não compareceu), para comunicar que Deich Eddaf, de 45 anos tem diabetes desde dos
dois anos, e, no momento, não está com os valores desequilibrados. Os exames aos
olhos e ouvidos não mostram problemas orgânicos.
O presidente interroga El Houcein Azaoui que nega todas as acusações. Termina
com o grito “Quero a Independência do Sahara Ocidental!”
Às 19h35 é chamado Mohamed Bouryal, informa que foi membro do grupo de
negociações de Gdeim Izik. Questiona o tribunal porque é que não foi aberta nenhuma
investigação a seguir à morte do jovem saharauí Ennajem Lgarhi, assassinado no dia 28
de Outubro 2010, pelos militares marroquinos.
Confirmou a presença de Ilias El Omari como representante do palácio nas
reuniões de negociação, assim como o Ministro do Interior. Negou todas as acusações.
Denuncia que foi torturado e que tudo o que assinou foi assinado sob tortura.
Pergunta onde estão as provas, porque é que “não há impressões digitais, não
há autópsias, não há nada” (sic). Denuncia que esteve dezasseis horas na “grelha”
levando choques eléctricos e a ser regado com água gelada. Esteve quatro meses em
solitária.
2.6.Sexta Sessão: 13 de Fevereiro de 2013, quarta-feira:
Horário da Sessão: às 9h30 entram os presos; terminado às 16h40.
9h00 é aberta a sala e entram os militares e policias. A “jaula” com as armas e a
grade com os telemóveis não estão na sala. Estão presentes cerca de dezoito
observadores internacionais de Espanha, Itália, Portugal, França e Bélgica, quatro destes
observadores assistem pela primeira vez ao julgamento. Estão dois LCD’s grandes na
sala, um de cada lado da tribuna.
Às 9h30 entram os presos a entoar cânticos e palavras de ordem.
Às 10h20 entra o Presidente do Tribunal e anuncia que se vai ouvir as quatro
testemunhas da defesa e as nove do Procurador-Geral do Rei.

21

Um advogado da defesa informa que Sidi Abdeljalid Laaroussi se encontra mal
de saúde, está muito debilitado e pede que o acusado seja transportado para um local
onde possa descansar.
O Procurador-Geral do Rei diz que há um documento que diz que Sidi Abdeljalid
Laaroussi está bem de saúde mas que: “o presidente do tribunal pode fazer o que
entender”13. O Presidente do Tribunal ordena que levem Sidi Abdeljalid Laaroussi para o
Hospital Militar, dando instruções para regressar assim que estiver melhor.
O Presidente do Tribunal inicia o interrogatório da primeira testemunha de
defesa Mohamed Salmani, funcionário em BuCraa14, residente em El Aaiún. Pergunta se
esteve preso, ao que Mohamed Salmani responde que esteve preso por razões políticas.
O Presidente do Tribunal grita-lhe: “Ninguém é preso por razões políticas!” e dizlhe que funcionários de Bucraa não podiam manifestar-se em Gdeim Izik, para ele dizer
a verdade, “quem diz mentiras ofende a Deus”. Mohamed Salmani jura dizer a verdade
e diz uma frase do Corão sobre a verdade.
Inicia-se o interrogatório do advogado da defesa que faz várias perguntas que
estabelecem que Mohamed Salmani estava em casa da sua mãe com Enaâma Asfari no
dia 7 de Novembro de 2010.
O Presidente do Tribunal interrompe e pergunta-lhe que habilitação é que tem,
ao que Mohamed Salmani responde que tem o bacharelato. O Presidente do Tribunal
manda-o falar em árabe e não em hassania.
Mohamed Salmani continua o seu depoimento em árabe e, por vezes, em
hassania, testemunhado como no dia 7 de Novembro de 2010, entraram várias pessoas
não identificadas no prédio onde ele e Enaâma Asfari vivem, que haviam duas carrinhas
brancas para além das viaturas da guarda civil, que entraram primeiro no apartamento
de Enaâma Asfari mas como ele não estava lá, entraram no apartamento de Mohamed
Salmani. Insultaram e intimidaram as mulheres e crianças presentes, venderam e
algemaram Enaâma Asfari que foi levado.
O Presidente do Tribunal volta a insistir para que Salmani fale árabe e quer saber
porque Enaâma Asfari estava em casa de Salmani, ao que este responde que são amigos
e vizinhos, é habitual visitarem-se e tomarem chá. À pergunta se sabe o seu número de
telemóvel, ele responde que sim mas não sabe de cor.
É chamado Bachir Salmani, a segunda testemunha. Identifica-se como sendo
irmão da primeira testemunha e engenheiro de profissão, na função pública. Faz o
juramento. Testemunha que quando regressou do trabalho no dia 7 de Novembro de
2010, Enaâma Asfari estava a tomar chá com o irmão e quando foi arrumar o carro na
garagem viu os carros da guarda civil, nessa altura pessoas não identificadas prenderamno, mas assim que Enaâma Asfari saiu escoltado, vendado e algemado do prédio
voltaram a solta-lo. Testemunha que a sua casa estava toda revolta. Os carros que viu
eram azuis, Enaâma Asfari era amigo da família e estava muitas vezes com eles, não
conseguiu saber quem eram as pessoas que levaram Enaâma Asfari.
É chamado Mohamed Balkos, terceira testemunha, é funcionário público e
nunca foi preso, vive em El Aaiún. Afirma conhecer Sidi Abderrahman Zeyou e que
tinham combinado no dia 7 de Novembro ir a uma manifestação pacífica em frente ao
Tribunal de El Aaiún. Da parte da tarde quiseram ir até Gdeim Izik visitar as suas famílias
e levara-lhes água e comida, mas as autoridades não os deixaram passar. Conta que
combinaram encontrar-se no dia seguinte de manhã para irem a outra manifestação em
El Aaiún. Viu Enaâma Asfari no dia 7 de Novembro à tarde.
13
14

A afirmação do Procurador-Geral do Rei cria um grande burburinho na sala de audiências;
Importante mina de fosfatos;

22

No dia 8 de manhã, quando soube do desmantelamento quis ir buscar a sua
família a Gdeim Izik mas não o deixaram passar. Voltou para El Aaiún onde esteve com
Zeyou. Deu-lhe um abraço e separam-se. Da parte da tarde o irmão de Zeyou disse-lhe
que ele tinha sido preso.
É chamada a quarta testemunha Mohamed Abhaoui, que vive em El Aaiún e
nunca foi preso, faz o juramento. Nunca ouviu nada relacionado com Enaâma Asfari dar
ordens ou organizar actos criminosos contra ninguém. Afirma ter a certeza que Zeyou,
nos dias 7 e 8 de Novembro de 2010 estava em El Aaiún e não nos acampamentos.
Esteve com ele e viu-o nesses dias.
A quinta testemunha é Houcein Dalil, vive em El Aaiún, faz o juramento. Afirma
ter visto Zeyou no hospital militar à meia-noite de dia 7 de Novembro e que ele estava
mal. No dia 8 de Novembro de manhã foi à casa da sua família e Zeyou estava lá. Afirma
também ter visto Etawbali Abdallahi no Hospital às duas da manhã, de dia 8 de
Novembro de 2010. Conhece bem Etawbali Abdallahi e os outros, conhece de os ver em
fotografias, é saharauí.
Intervalo das 12h00 às 21h3015
Presidente do Tribunal chama um médico para falar sobre a situação de
Laaroussi. Este diz que Laaroussi tem problemas nas articulações e que foi admitido
por ter cefaleias, o que se deve à tensão arterial elevada. Foi visto por um médico de
medicina desportiva e foram prescritos três tipos de medicamentos, um deles para a
ansiedade, mas tem que ser tomado sob vigilância médica. Os problemas nos joelhos
são antigos e devem-se à prática desportiva.
Advogado da defesa pede para falar sobre a invalidade das testemunhas da
acusação. O Presidente do Tribunal diz que primeiro se ouve os testemunhos e só depois
é que os advogados de defesa podem voltar a intervir. O advogado de defesa volta a
apresentar os argumentos sobre a invalidade das testemunhas de acordo com os artigos
80 e 81 e cita vários outros artigos como o 10º e 11º da carta dos direitos humanos e o
artigo 723 do código civil. Reafirmando que estes testemunhos são ilegais e que até à
data a defesa não recebeu nenhuma lista com a identificação das testemunhas, o seu
nome, profissão, nada. Procurador-Geral do Rei afirma que segundo a lei, não é
importante apresentar os nomes das testemunhas. O Presidente do Tribunal dá ordens
para que se inicie a audição das testemunhas de acusação e ignora mais uma vez o
pedido dos advogados de defesa para lhes ser fornecida uma lista com os nomes e
identificação das testemunhas.
É chamada a primeira testemunha de acusação Radwan Halawi, bombeiro,
nascido a 3 de Março de 1983. Faz o juramento e declara que esteve em Gdeim Izik, no
dia 8 de Novembro de 2010, aquando do desmantelamento do acampamento pelas
autoridades marroquinas e os ataques às mesmas autoridades16. Relata que haviam
muitas pessoas a correr de um lado para o outro, algumas tinham facas, outras pedras e
usavam turbantes. À pergunta se reconheceu algum dos acusados responde que não,
nunca os tinha visto, só os viu na sala do tribunal.
O Presidente do Tribunal pergunta porque usavam turbantes e quantas pessoas
tinham facas e se houve mártires. Halawi responde que deveriam ser umas sete pessoas
e que não houve mortos, turbantes usam muitas pessoas no deserto.
15

Mais um dos tradutores Mahjub (primo de El Houcein Azaoui) foi pressionado pelas
autoridades marroquinas para deixar de traduzir.
16 O Presidente do Tribunal manda os tradutores oficiais apontaram este facto para depois
informarem os observadores internacionais.

23

Houve pessoas feridas e dessas, algumas delas eram transportados para o
hospital militar em El Aaiún. Em El Aaiún havia coisas incendiadas e muita confusão.
Havia uma barreira militar quando voltou. Não sabe quem atacou quem em Gdeim Izik,
porque estava muito longe do acampamento por isso só via fogo, fumo e ouvia gritos.
Nunca ouviu nenhum aviso por parte das autoridades marroquinas que iam
desmantelar o acampamento. Ouviu um helicóptero mas nenhum aviso.
Advogado da defesa diz que se ouviram cinco testemunhas da defesa e que o
tribunal é para se apurar a verdade, que esta testemunha da acusação confirmou não
conhecer, nem ter visto nenhum dos acusados a praticar nenhum acto criminoso.
O Presidente do Tribunal interrompe e diz que este testemunho foi o suficiente,
chamando as restantes testemunhas da acusação. Perguntou-lhes se alguma reconhecia
algum dos presos, ao que todas as testemunhas responderam negativamente. O
Presidente dispensa todas as testemunhas da acusação.
Um advogado representante das famílias dos mortos marroquinos interrompe
exigindo justiça de acordo com a Sharia17 e acusa os presos de “serem uns animais” (sic).
Todos os advogados e Procurador-Geral do Rei estão em pé aos gritos. O Presidente do
Tribunal sai da sala.
15h30 regressou o Presidente do Tribunal à sala de audiências. A sala está
repleta de militares fardados e à civil. O Presidente do Tribunal diz ao advogado das
famílias, que as vítimas neste processo são representadas pelo Procurador-Geral do Rei
e que ele não pode intervir. O Procurador-Geral do Rei discorda do Presidente do
Tribunal e afirma que o advogado das famílias deve ser ouvido. O Presidente do Tribunal
cita o artigo 9º do código militar, que apesar de o advogado das famílias ser uma pessoa
de bem, não pode intervir, que só o Procurador-Geral do Rei pode intervir. Advogado da
defesa diz que no tribunal o que é vigente é a lei marroquina não a Sharia. E que o
advogado das famílias falou em frente ao tribunal para as cadeias televisivas e afirmou
que este era um julgamento justo.
O Presidente do Tribunal chama os tradutores para “explicarem” (sic) que se
ausentou da sala para analisar os artigos invocados pelo advogado das vítimas – as
traduções nos três idiomas são muito contraditórias, deixando os observadores sem
saber o que o Presidente do Tribunal realmente disse.
Presidente do Tribunal chama onze familiares das vítimas para se apresentarem,
sem mencionar nenhum nome e começa a fazer perguntas como:
“Quem te mataram?” – “Um filho”
“Trabalha em quê?” – “Era gendarme”
“O teu irmão morreu?” - “Sim, era o nosso único sustento”
As perguntas e respostas foram todas semelhantes, não acrescentado nenhuma
informação ao processo.
O Presidente do Tribunal informa que vai ser mostrado um filme que contém
imagens violentas e quem for sensível deve abandonar a sala. Ahmed Sbai abandona a
sala está débil e sofre de problemas cardíacos.
Os LCD’s são ligados mas o que é apresentado não é um filme mas sim um
PowerPoint com imagens várias em que nunca são identificados nenhuns dos acusados
nem se consegue identificar nenhum interveniente. Uma das imagens é de uma mesa
com notas de 5.000Euros, 10.000Dólares e 300.000Dinares Argelinos. As notas estão
limpas e cintadas como quando são entregues no Banco. Mostra ainda um conjunto de
telemóveis, de armas brancas e facas de cozinha (limpas), cadernos empilhados. Tem
17

Lei Corânica;

24

legendas em francês a dizer que estes foram utilizados na conspiração contra as
autoridades marroquinas.
Inicia-se o vídeo em que se vê o desmantelamento do acampamento e pessoas a
fugirem a pé do acampamento, pessoas a entrar em autocarros, uma ambulância a
passar e pessoas (não se conseguem identificar) a atirar pedras, garrafões de gás butano
no chão a arder.
Seguem-se imagens de distúrbios em El Aaiún, “seguem” com um círculo em
redor de uma pessoa na imagem com uma legenda a dizer que este era o assassino. Não
se consegue identificar e está com roupa casual. Supostamente essa pessoa degola um
homem deitado no chão, mas não se consegue ver o acto em si nem há sangue no corpo
estendido, na roupa ou em redor dele.
O Procurador-Geral do Rei, termina mostrando fotografias dos acusados nos
acampamentos de refugiados, com diversos activistas, como “prova” de serem culpados
das acusações.

2.7.Sétima Sessão: 14 de Fevereiro de 2013, quinta-feira
Horário da sessão: 09h55 entram os presos; terminou às 20h30
Continuam na sala os dois LCD’s, e voltaram a “jaula” com as armas e a grade
com os telemóveis.
Às 09h55 Entram os presos entoando cânticos e palavras de ordem. Laaroussi
voltou ao tribunal.
Às 10h25 Presidente do Tribunal inicia a sessão.
Presidente do Tribunal diz que após ter ouvido os acusados e as testemunhas irá
ouvir as alegações da defesa e do Procurador-Geral do Rei. Neste momento irão
abandonar a sala para discutirem se irão ou não aprovar a realização de exames médicos
conforme tinha sido pedido pelos acusados e os seus advogados para provar a prática de
tortura.
Às 10h50 regressa o Presidente do Tribunal
Enaâma Asfari pede a palavra e diz que “como puderam verificar nem eu nem
nenhum dos outros acusados apareceram no vídeo ou no PowerPoint, não há nenhuma
prova contra nós”.
Dão-se as alegações finais do Procurador-Geral do Rei. O Procurador-Geral do
Rei diz que tem muitos documentos que demonstram a relação dos acusados com os
actos praticados. Afirma que Gdeim Izik não era um acampamento de protesto mas sim
um bairro ilegal e que por isso se justificou o seu desmantelamento.
Enaâma Asfari tinha uma tenda montada de forma a controlar todo o
acampamento. Que alguns dos acusados faziam parte do corpo de segurança do
acampamento e que era Enaâma Asfari que decidia tudo e que ele tinha distribuído
armas e carros para outros matarem militares e polícias.
Quando Enaâma Asfari foi preso tinha 3000 Dirham (300Euros). Cheikh Banga no
seu documento confessou tudo e admitiu ter recebido armas e ordens de Asfari.
Enaâma Asfari é o responsável directo dos grupos criminosos.
Em 8 de Novembro de 2010 quando as autoridades entraram no acampamento
encontraram duas tendas com dinheiro e armas, isso foi confirmado em várias
confissões. Enaâma Asfari confessou ser responsável pela morte de muitos militares.

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O Procurador-Geral do Rei diz ainda, que é óbvio que os acusados mentem
porque as suas assinaturas nem sempre são iguais nos documentos. Enaâma Asfari
nunca escreveu que tinha estado sob tortura nos documentos que assinou.
Bouryal confessou todos os crimes, está tudo assinado nos documentos, pegou fogo e
fez cocktails molotov e recebeu muito dinheiro de Espanha e Argélia.
Alyoubi também confessou tudo, é um criminoso, tinha um carro e assassinou
com ele militares.
Continua a enumerar todas as confissões dos acusados Lakfawni assassinou três
militares e El Bachir assassinou quatro, Sidi Abderrahman matou cinco militares, El
Houcein matou dois militares com uma faca, Babait matou dois militares, diz o
Procurador-Geral do Rei que tudo isto está assinado, as confissões e os documentos têm
as assinaturas e as impressões digitais dos acusados.
Às 15h30 o Presidente do Tribunal informa através dos tradutores oficiais que
não se irão realizar qualquer tipo de exames médicos aos acusados Abdeljalil Laaroussi,
Deich Eddaf, El Houcein Azaoui e Mohamed El Ayoubi conforme tinha sido solicitado. O
pedido foi negado pelo tribunal.
Em seguida iniciaram-se as alegações da defesa que se resumem ao seguinte:
Advogado Mohamed Lehbib Rguaibi referiu-se a todas as questões levantadas e
citando o relatório efectuado pelas Associações Marroquinas de Direitos Humanos sobre
Gdeim Izik, sobretudo o paragrafo intitulado “o início do acampamento e a sua
organização” que fala sobre os tabus ou seja a situação legal nos territórios ocupados.
Advogado Lehbib comparou este julgamento a três julgamentos distintos da
história da humanidade, todos eles ilegais e em épocas distintas.
Advogado Masudi falou sobre a responsabilidade das autoridades marroquinas
nos acontecimentos durante o desmantelamento de Gdeim Izik e em El Aaiún nos dias
seguintes. Evidenciou o facto que as autoridades encorajaram constantemente o
conflito entre os dois povos.
Na sua opinião, o tribunal nunca conseguirá uma sentença justa, enquanto
houver 4 juízes militares e um juiz civil. Reafirma que as acusações não são legais de
acordo com a lei militar artigo 56, e violando os capítulos 56, e 60 da dita lei.
Os acusados negaram todas as acusações tanto perante o juiz de instrução como
neste tribunal. Há testemunhas que declaram ter visto Enaâma Asfari ser detido no dia 7
de Novembro de 2010, informação contraditória com as acusações que dizem ele ter
participado no dia 8 de Novembro de 2010 em actos criminosos.
Quanto o que respeita ao número de mortos nas declarações do Procurador
Geral do Rei, que ouvimos foram referidos quinze, mas nas acusações fala-se em nove,
não há confirmação concreta de numero e identificação dos mortos, isto viola a lei.
“O Procurador-Geral do Rei acusou os presos de terem atropelado e morto membros
das forças de autoridade marroquinas, mas onde estão as provas? Não há provas físicas!
Onde estão os carros? Pedimos ao Tribunal que retire as acusações.”
Advogado Mustapha Errachedi, membro da AMDH. Recordou que a constituição
marroquina está a ser violada ao serem julgados civis num tribunal militar. “Todos
aqueles que pensavam que os anos de ferro/negros tinham terminado estavam
errados!”.
A responsabilidade dos mortos sejam eles membros das forças de autoridade
marroquinas, sejam civis saharauís está nas mãos das autoridades marroquinas.
Mostrou-se surpreendido que Enaâma Asfari tivesse deixado 5.000Euros, 10.000 dólares

26

e 300.000 dinares argelinos, na sua tenda sem qualquer supervisão. Deduz por isso que
Enaâma ou é louco ou todo o argumento é mentira.
As autoridades legitimaram as negociações com o comité de Gdeim Izik, comité,
este, que representava os cidadãos saharauís. Lembrou dois políticos marroquinos,
Abderahaim Baoubaid, ex-Secretário Geral da UFCP preso em 1981, e Abrahm Serfati
ambos presos por apoiarem a RASD.
Dois outros advogados pediram ao tribunal a absolvição dos acusados uma vez
que o tribunal não tem nenhuma prova física nem evidencia que confirme a culpa dos
acusados.
2.8.Oitava Sessão: 15 de Fevereiro de 2013, sexta-feira:
Horário da Sessão: às 10h00 entram os presos; termina às 20h40.
São libertas as quatro primeiras filas, segundo o militar de serviço, são para os
observadores e advogados marroquinos, mas sentam-se civis marroquinos diante dos
observadores.
Às 10h00 entram os presos. Sbai está com muito mau aspecto físico. Assistem ao
início da sessão, trinta e dois observadores internacionais.
Às 10h15 inicia-se a sessão.
Os tradutores da missão apenas chegam apenas às 10h45, dado que foram
novamente intimidados.
O advogado do Fórum da Dignidade declara que não partilha nem concorda
com as crenças políticas dos acusados, mas que eles são inocentes das acusações.
Acrescentou que o Procurador-Geral do Rei não conseguiu apresentar nenhum
argumento válido. Na sua opinião Marrocos, encontra-se agora numa encruzilhada e
observado a microscópio. Este julgamento é um teste que demonstrará se existe
independência e legitimidade no sistema judicial marroquino.
Por outro lado o advogado Jaiaf declarou que as acusações do Procurador-Geral
do Rei continham apenas generalidades sem nunca explicitar quem foi morto quando e
onde, e quem matou quem.
O advogado El Masaoudi comenta as fotografias apresentadas pelo ProcuradorGeral. As fotos foram tiradas com alguns dos acusados nas suas visitas aos
acampamentos de refugiados em roupa tipo militar. Segundo ele estas fotos apenas
provam a sua persistência e opinião política. Não são nem prova, nem argumento, nem
evidência contra os acusados.
Os advogados falaram ainda da falta de prova que constituem tanto o
PowerPoint como o filme apresentado onde nunca há identificação de nenhum dos
acusados.
2.9.Nona Sessão: 16 de Fevereiro de 2013, sábado:
Horário da sessão: 11h00 entrada dos presos; terminada às
11h00 entram os presos entoando cânticos e palavras de ordem
O Presidente do Tribunal dá alguns minutos a cada preso para poderem
pronunciar-se pela última vez.
Mohamed Kouna Babait – “estou solidário com as vítimas de Gdeim Izik, não
sou responsável por nada de que me acusam.”

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Ettaki Elmachdoufi – “não somos criminosos, somos activistas saharauís.
Agradeço o apoio de todos advogados, marroquinos e observadores internacionais.
Estivemos sempre sob tortura.”
Mohamed Tahlil – “somos activistas saharauís desde o primeiro dia, como o
comprovam as fotos que temos com membros dos governo da RASD – liberdade para o
Sahara Ocidental!”
El Bachir Khadda – “Agradeço a todos e agradeço ao Procurador-Geral do Rei
por ter mostrado as fotografias que mostram o verdadeiro motivo porque estou aqui.
Este julgamento vai ficar na história.”
Mohamed Lamin Haddi – “Agradeço a todos e estou solidário com as vítimas de
Gdeim Izik. Sahara Livre!”
Lbakai Laarabi – “Este Tribunal Militar é Ilegal! Estou solidário com as vítimas de
Gdeim Izik.” Diz uma estrofe do Corão. “Fomos condenados porque queremos a paz
nada mais que a paz e pelos nossos princípios políticos.”
Etawbali Abdallahi – “Viva a Frente Polisário! As confissões são falsas, tenho
testemunhas, estamos aqui neste julgamento e quero agradecer a todos que nos
apoiarem. O acampamento de Gdeim Izik era para defender os nossos direitos, a paz,
estamos inocentes.”
Deich Eddaf – “Estou solidário com as vítimas de Gdeim Izik. Os documentos não
são verdadeiros, mas agora já ouviram a verdade. Peço exames médicos para
comprovarem que fomos torturados.”
El Houcein Azaoui – “Agradeço a todos e estou solidário com as vítimas de
Gdeim Izik, as saharauís e as marroquinas. Exijo exames médicos para comprovarem que
fomos torturados.”
Mohamed Mbarek Lefkir – “Estou solidário com as vítimas de Gdeim Izik. Estou
Inocente! As confissões são falsas, estou aqui devido às minhas opiniões políticas.”
Ahmed Sbai – “Agradeço a todos. Agradeço ao Procurador-Geral do Rei ter
mostrado as fotografias nos acampamentos de refugiados, são elas que mostram
porque estamos aqui. Todas as perguntas que me fizeram durante este tempo foram
sempre sobre a Frente Polisário e a RASD, nunca sobre Gdeim Izik. Somos pacifistas, sou
inocente dos crimes que me acusam. Fomos presos porque pedimos a independência.
Agradeço a todos os que estiveram em Gdeim Izik, aos estudantes, ao povo saharauí e a
todos os que nos apoiaram. Mesmo torturados ou encarcerados durante anos nunca
deixaremos de lutar pela nossa independência e pela paz!”
Sidi Abdeljalid Laaroussi – “Agradeço a todos, especialmente às organizações de
direitos humanos marroquinas. As confissões são falsas, somos pacifistas, não somos
pela violência. Queremos justiça, queremos a verdade para que se possa escrever uma
nova página na história. Queremos uma investigação internacional. Agradeço ao
Procurador-Geral ter mostrado as fotos nos acampamentos que mostram o verdadeiro
motivo pelo qual fomos presos e estamos aqui.”
Abdulahi Lakfawni – “Viva a Frente Polisário! Viva a Paz! Sou inocente, não fiz
nada do que me acusam. Estou solidário com todas as vítimas de Gdeim Izik, sejam civis
saharauís ou militares marroquinos. Agradeço a todas as organizações nacionais, a
AMDH e as organizações internacionais e a todos os que nos apoiaram e se
manifestaram por nós. Exijo uma investigação sobre o desmantelamento de Gdeim Izik e
julgamento das autoridades marroquinas responsáveis. Exijo sistemas de monitorização
dos Direitos Humanos no Sahara Ocidental! Independência para o Sahara Ocidental! Sou
inocente!”

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Mohamed El Bachir Boutinguiza – “Independência e liberdade para o Sahara
Ocidental! Agradeço a todos os que nos apoiaram. Estas acusações são falsas, quero a
verdade! Estou solidário com todas as vítimas de Gdeim Izik, sejam civis saharauís ou
militares marroquinos. Exijo sistemas de monitorização dos Direitos Humanos no Sahara
Ocidental! Sou inocente, Viva o Sahara Ocidental Livre!”
Sidi Abdallahi Abbahah – “Viva a Frente Polisário! Viva a Paz! Sr. Procurador
existem muitas falhas nos documentos e não existem provas. Estamos aqui porque
queremos a independência do Sahara Ocidental. É ilegal tirar-nos fotografias e filmarnos durante o julgamento e divulgar essas imagens nas cadeias de TV marroquinas. Não
existem provas de que somos criminosos. Todos sabem que somos inocentes. Roubamnos os nossos recursos naturais, queremos as nossas terras, os nossos recursos! As
fotografias nossas nos acampamentos de refugiados que o Sr. Procurador mostrou, são
a evidência porque estamos aqui! Exijo que a MINURSO tenha o mandato da
monitorização dos Direitos Humanos! Viva o Sahara Ocidental livre!”
Brahim Ismaili – “Sou inocente de todas as acusações e todos sabem que somos
inocentes porque viram que não há provas! Agradeço a todos que nos apoiaram. Sr.
Procurador-Geral agradeço ter mostrado que estamos aqui por lutarmos pela nossa
independência! Eu sempre disse que estive nos acampamentos da Frente Polisário e
tenho fotos! Sou acusado porque tenho fotos com membros da Frente Polisário, luto
pela independência do nosso povo. Mesmo preso e sob tortura nunca me calarei!
Direitos Humanos para o Sahara Ocidental! Liberdade para todos os Presos Políticos!
Labadil, labadil, antakrir al massir!18”
Sidi Ahmed Lemjiyed – “Agradeço a todos os que nos apoiaram. Sou inocente de
todas as acusações, não existem provas, estou solidário com todas as vítimas de Gdeim
Izik, civis saharauís e militares marroquinos. Os responsáveis por toda a violência são as
autoridades marroquinas. Fui torturado, obtiveram confissões falsas. Exigimos exames
médicos que mostrem que fomos torturados, mas sempre nos foram negados. Estamos
aqui porque somos activistas e lutamos pela independência do nosso povo. Os
documentos da União Europeia condenam a expolição dos recursos naturais. Exijo o
sistema de monitorização dos Direitos Humanos no Sahara Ocidental, os marroquinos
não deixam entrar estrangeiros. Fomos ocupados primeiro por Espanha, e depois por
Marrocos. Queremos a nossa independência, queremos respeito pelos direitos
humanos. Sou inocente de todas as acusações! Não há provas! As vítimas são
responsabilidade das autoridades marroquinas. Labadil, labadil, antakrir al massir!”
Mohamed Bani – “Agradeço a todos que nos apoiaram. Agradeço ao Sr.
Procurador-Geral por ter mostrado fotografias nossas nos acampamentos de refugiados.
Estou solidário com todas as vítimas de Gdeim Izik, saharauís e marroquinas. Sou
inocente de todas as acusações. Estou aqui porque visitei os acampamentos de
refugiados da Frente Polisário. Sou inocente, não há provas! O povo saharauí é pacífico,
não somos criminosos, todos os saharauís que estão aqui, estão presos por serem
activistas. Viva a RASD!”
Mohamed El Alyoubi – “Viva a frente Polisário! Deram-me cabo do rabo, preciso
de uma cadeira com assento mole como a do Sr. Procurador! Nasci em 1956 sou
saharauí, estive em Gdeim Izik a manifestar-me pelos nossos direitos sociais ...”
Presidente do Tribunal interrompe: “Já ouvimos isso!”
Alyoubi continua a falar sobre Gdeim Izik. “Os saharauís que estão aqui não são
criminosos! Não há provas físicas, não há evidências! Não somos violentos, somos pela
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Não há outra solução que não a autodeterminação;

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paz! Estamos aqui porque queremos trabalho e queremos os nossos recursos naturais, a
nossa terra ....”
Presidente do Tribunal interrompe: “tu estás em liberdade condicional, vai-te
embora!”
Mohamed Bouryal – “Sou inocente, estou solidário com todas as vítimas de
Gdeim Izik, civis saharauís e militares marroquinos. Estamos aqui porque defendemos a
independência. Qual é a relação das fotografias em que estamos nos acampamentos de
refugiados que mostrou ontem e os acontecimentos de Gdeim Izik? Somos inocentes!
Estamos presos porque lutamos pela nossa independência! Todos os presos saharauís,
são presos políticos!”
Às 11h48 o Presidente do Tribunal anuncia uma pausa de dez minutos.
Às 12h50 entram os acusados
Às 13h00 entra o Presidente do Tribunal
Hassan Dah – Entra a gritar cânticos e palavras de ordem. Cita o Corão e depois
uma poesia. “Não temos medo de morrer, só queremos a independência do nosso povo!
Quero agradecer ao Sr. Procurador as fotografias que mostrou ontem que provam o
verdadeiro motivo pelo qual estamos presos. Este julgamento vai ficar na história como
aquele em que presos políticos foram julgados como criminosos num tribunal militar!”
Cheikh Banga – “Agradeço a todos os que nos apoiaram. Estamos aqui por
questões políticas e não por sermos criminosos, nem por causa dos acontecimentos de
dia 8 de Novembro de 2010. Agora já todos sabem disso. Um tribunal militar a julgar
civis é uma ilegalidade. Gdeim Izik foi o início da Primavera Árabe, foi o início para
muitos países como a Tunísia e o Egipto. Che Guevara foi assassinado e entrou para a
história, todos sabem quem é, o seu assassino não. Hoje é um dia importante para a
justiça marroquina, o Procurador mostrou não ter provas. Somos inocentes, não fizemos
nada do que nos acusam. Estou solidário com as vítimas de Gdeim Izik saharauís e
marroquinos. Os saharauís são pela paz, não pela violência. Em todos os pontos do
mundo onde vamos defendemos a luta pacífica. Agradeço ao Sr. Procurador ter
mostrado as fotos ontem. Assim se demonstrou o verdadeiro motivo pelo qual estamos
aqui, pelas nossas opiniões políticas. Mesmo não conhecendo nenhum destes
estrangeiros, eles estiveram aqui para nos apoiarem. Numa reunião, Hassan II dizia aos
representantes da RASD: Eu ocupei o vosso país, mas não consigo ocupar os corações
dos saharauís. Quando nos julgar seja justo! Estamos a ser julgados não por crimes que
cometemos, mas sim pelas nossas convicções políticas. Se for necessário morro pela
independência do nosso povo!”
Presidente do Tribunal interrompe: Não fales sobre as tuas opiniões políticas!
Sidi Abderrahman Zeyou – “Agradeço a todos os que nos apoiaram. Devemos
ser julgados de acordo com a lei e não pelas nossas opiniões políticas, a lei deve basearse em provas e testemunhas! É ilegal prender-nos sem provas, não existe nenhuma
prova, estamos presos devido às nossas opiniões. Somos inocentes, os advogados
marroquinos mostraram provas da nossa inocência, nada temos a ver com esses
acontecimentos. Gdeim Izik foi um exemplo de uma manifestação pacífica, um exemplo
para o mundo árabe. Todos que assistiram a este julgamento puderam ver que somos
inocentes.”
Presidente do Tribunal interrompe: “Fala menos para podermos ir descansar!”
“Exigimos a monitorização dos direitos humanos no Sahara Ocidental. Em 1975
as autoridades marroquinas reuniram com Espanha e França e ocuparam o nosso país!”

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Presidente do Tribunal interrompe: “Não fales na história!”
“As autoridades marroquinas são as verdadeiras responsáveis e são responsáveis
por estarmos aqui neste tribunal. Até o nosso advogado marroquino que não concorda
com a independência do Sahara Ocidental e defende que o Sahara Ocidental é
marroquino, veio aqui dizer que somos inocentes. Marrocos adoptou todas as ideias
francesas de colonização e aplicou-as no Sahara Ocidental.”
Presidente do Tribunal interrompe: “Não fales na história!”
“Estou solidário com as vítimas de Gdeim Izik, as autoridades marroquinas são as
responsáveis pelas vítimas. Porque enviaram soldados jovens contra 40.000 pessoas a
manifestarem-se pacificamente sem qualquer aviso?”
Presidente do Tribunal interrompe: “Já disseste isso!”
“Não, é a primeira vez. As fotos que o Sr. Procurador mostrou, não têm nada a
ver com os acontecimentos de dia 8 de Novembro. Sou inocente, os documentos são
falsos! Quem escreveu estas confissões foram as autoridades.” Cita o Corão sobre a
justiça.
Enaâma Asfari –
Presidente do Tribunal interrompe: “fala apenas sobre dia 8 de Novembro de
2010”
“A polícia prendeu-me dia 7 de Novembro de 2010. Esse foi o dia em que fui
preso. Sou activista saharauí, estudei direito e tenho muitas habilitações académicas,
conheço a lei internacional. Este julgamento num tribunal militar de civis, é ilegal. Todo
o mundo está a ver e a escrever história. Enaâma Asfari foi nomeado em todas as
confissões como dirigente máximo do acampamento. Eu sou um activista e estou em
todas as manifestações.
Agradeço ao advogado que já referiu os vários artigos da lei que nos dão razão.
Estive cinco meses em prisão solitária, sem manta, sem comida. Depois a minha
esposa visitou-me e deu-me uma barra de chocolate que tinha a Torre Eiffel no papel.
Pensavam na altura que a torre Eiffel não ia conseguir manter-se de pé muito tempo,
pois é como os saharauís e a nossa luta, não cairemos. Gdeim Izik foi uma manifestação
pacífica em defesa dos nossos direitos sociais, económicos e políticos. Quem escreveu os
documentos falsos, diz que Gdeim Izik é uma povoação bárbara. Torturam-me. Todos
somos activistas, sempre participei em manifestações pacíficas. Mas não sou
responsável pelo início de Gdeim Izik e não participei em reuniões em Argel para fazer
conspirações. Gdeim Izik foi um exemplo para o mundo árabe, o início da Tunísia e do
Egipto. O dia de hoje vai ficar na história. Eu não era o responsável de Gdeim Izik mas
estive lá e fiz relatórios sobre o acampamento. Os dias que passei em Gdeim Izik foram
os melhores da minha vida. Estes advogados que aqui estão, são meus amigos da
faculdade. Não há aqui nenhum saharauí criminoso. Este julgamento é histórico, aqui
todos ficaram a saber que Enaâma Asfari é activista dos Direitos Humanos e é um preso
político. Quando visitei pela primeira vez os acampamentos de refugiados em Tindouf
dei uma entrevista a uma jornalista marroquina. “– Vou-vos dar uma ajuda para que
possam apurar a verdade.” - Ontem os advogados queriam mostrar-vos muitos
documentos para provar a verdade. A verdade é que eu estou a ser julgado por ser
saharauí! Porque quero a independência para o Sahara! Porque não quero ser
marroquino! Estou aqui pelas minhas opiniões políticas.”
Lê um texto de um jurista marroquino, que afirma e prova que não existe
imparcialidade no sistema judicial e prisional marroquino. E que as autoridades
marroquinas dominam os tribunais, o que impede a justiça. Fala sobre a importância das
testemunhas e pergunta porque após a primeira testemunha da acusação não ter

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conseguido estabelecer qualquer ligação dos presos com as acusações não se terem
chamado as restantes testemunhas de acusação. “Há provas da tortura, os torturadores
foram identificados, nomeados. Tudo isto é ilegal. Conheço estas pessoas bem, estamos
há mais de dois anos presos, somos acusados sem provas, mas ontem o Procurador
apresentou as verdadeiras provas, as fotos connosco nos acampamentos de refugiados!
Apresentou provas depois do tempo legal para o fazer. Este tribunal não é justo!”
Presidente do tribunal interrompe: “termina!”
Asfari cita os relatórios das associações marroquinas para os direitos humanos,
da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch, sob a prática da tortura em
Marrocos, sobre o desmantelamento de Gdeim Izik, sobre a violência das autoridades
marroquinas no desmantelamento do acampamento pacífico. Fala sobre um documento
de um relator que visitou as prisões marroquinas e provou que havia tortura.
O Presidente do Tribunal interrompe: “Não podes falar sobre isso! Tu és uma
pessoa com estudos, sabes que não podes falar disso, que não podes dirigir a palavra ao
Procurador-Geral do Rei, que não podes falar disso.”
“Eu apenas estou a falar da lei e de coisas escritas por pessoas que são juristas.
Eu tenho o direito a falar, fui torturado, estive calado muitos anos e meses, deixa-me
falar! Este julgamento é ilegal. Não há respeito pela lei, os documentos estão cheios de
falhas! “
Procurador-Geral do Rei interrompe: “Etawbali Abdallahi afirma estar doente
tem que ir para a prisão ou para o hospital.”
14h00 – inicia-se intervalo (sem tempo pré-determinado)
16h40 Inicia-se a sessão
Os tradutores oficiais traduzem as informações do Presidente do tribunal:
Vai iniciar-se o período de perguntas e respostas do tribunal em que são lidas as
acusações e cada preso tem que se pronunciar culpado ou inocente. Foi ainda
comentado que Hassana Aalia era considerado um fugitivo e a sentença a aplicar-lhe
deveria ter em conta todas as acusações como o facto de ter fugido. O Procurador-Geral
do Rei reconheceu que, apesar de não haver evidências que alguns dos acusados
estivessem em Gdeim Izik, no dia 8, isso não os ilibava de terem um papel activo no
estabelecimento do acampamento. O Presidente do Tribunal considera Omar Bulsan, o
cérebro da concepção do acampamento. Interroga cada preso sobre a acusação e todos
se declaram inocentes.
No final faz-se um minuto de silêncio pelas vítimas.

2.10. Décima Sessão: 17 de Fevereiro de 2013, domingo:
às 01h00 da manhã foram lidas as sentenças evitando assim manifestações
frente ao tribunal.
Foram atribuídas as seguintes penas:
Prisão Pérpetua:
Sidi Ahmed Lemjiyed
Sidi Abdeljalid Laaroussi
Brahim Ismaili
Mohamed El Bachir Boutinguiza
Abdulahi Lakfawni

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Sidi Abdallahi Abbahah
Ahmed Sbai
Mohamed Bani BANI
Hasanna Aalia
30 anos de prisão:
Enaâma Asfari
Cheikh Banga
Mohamed Bouryal
Hassan Dah
25 anos de prisão:
Deich Eddaf
Mohamed Lamin Haddi
Mohamed Mbarek Lefkir
Mohamed Khouna Babait
Lbakai Laarabi
El Houcein Azaoui
Etawbali Abdallahi
20 anos de prisão:
El Bachir Khadda
Mohamed Tahlil
Pena cumprida:
Sidi Abderrahman Zeyou
Ettaki Elmachdoufi
Pena suspensa de 20 anos:
Mohamed El Ayoubi

Lisboa, 7 de Março de 2013

O presidente da ACOSOP,

(Carlos Artur Ferreira de Moura)

As observadoras,

(Isabel Maria Lourenço)

(Rita Marcelino dos Reis)

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