3/1/2016

:: Le Monde Diplomatique Brasil ::

Imprimir página
« Voltar

O PÓS­GUERRA IMPERIAL

Em nome do "destino manifesto"
Desde o século 19, em nome do "progresso" e da "democracia" ou das "obrigações internacionais", forças militares e
econômicas dos EUA interviram em países latino­americanos, quando não usurparam território, garantindo seu controle do
continente.
por Maurice Lemoine

No dia 22 de fevereiro de 1927, data do aniversário de George Washington, o embaixador dos Estados Unidos na
França, Myron Herrick, reuniu num banquete, em Paris, os representantes diplomáticos dos países latino­americanos
membros da União Panamericana. "Os Estados Unidos não cobiçam terras", declarou em seu speech. "Não desejam
novos territórios. Como é do conhecimento de todas as pessoas bem informadas, os Estados Unidos recusaram
durante os últimos quarenta anos, de forma constante e deliberada, ocasiões freqüentes e fáceis de expandir seus
domínios. Aqueles que nos acusam de propósitos imperialistas ignoram os fatos e não estão sendo sinceros1." Com
a memória sem dúvida embotada pelos vinhos e jóias da Cidade Luz, ele esquecia deliberadamente o México
desmembrado, Cuba acorrentada, o Haiti e a República Dominicana sob controle, o Panamá arrancado da Colômbia,
a invasão da Nicarágua, a anexação das Filipinas...
No ano de 1823, em sua mensagem ao Congresso, o presidente norte­americano James Monroe lançou a doutrina
que iria levar seu nome. Enquanto o império ibérico desmoronava, despertando certos apetites britânicos, Monroe
recusava toda e qualquer intervenção européia em assuntos das Américas. Essa atitude poderia ser considerada
vantajosa se, sob o pretexto de lutar contra o colonialismo externo, os Estados Unidos já não estivessem, naquela
época, orientando sua política externa para a constituição de um bloco continental a partir do qual pretendiam
instaurar sua dominação.
A política do big stick
Chile, Bolívia, Equador, Nova Granada (Colômbia) e Peru se reunirem em Lima, em 1847, para examinar os
problemas criados pelo intervencionismo norte­americano
Sem se preocupar muito com a credibilidade de suas justificativas, os Estados Unidos efetuaram uma intervenção
militar em Porto Rico, em 1824, na Argentina, em 1831, no México, em 1845 e 1847, na Nicarágua, em 1857, e, em
1860, na província do Panamá e novamente na Nicarágua. A ponto de levar os governos do Chile, da Bolívia, do
Equador, de Nova Granada (Colômbia) e do Peru a se reunirem em Lima, em 1847, para examinar os problemas
criados por esse intervencionismo. No ano seguinte, 1848, a guerra contra o México justificaria suas preocupações:
do Texas à Califórnia, os Estados Unidos anexaram a metade do território do país vizinho.
Terminada a Guerra da Secessão, os Estados Unidos da América do Norte perceberam a enorme força que
detinham. A partir de 1880, após terminar a conquista do Oeste, essa força virou­se resolutamente na direção Sul.
Durante a presidência do general Grant (1869­1877), a teoria do Destino Manifesto expôs cruamente o projeto dos
Estados Unidos: o controle total do continente. Isto, logicamente, invocando sempre a mística da "defesa da
democracia". Mas foi com a política do big stick (porrete) e o envio dos marines (fuzileiros navais) que a puseram em
prática. A essas intervenções militares pontuais, sucederam­se invasões que culminaram com a criação de
protetorados.
A "independência" cubana
Durante a presidência do general Grant (1869­1877), a teoria do Destino Manifesto expôs cruamente o projeto
dos Estados Unidos: o controle total do continente
http://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ac&id=784

1/4

 Tomando esse incidente por pretexto. Vencendo facilmente as tropas ibéricas após uma "magnífica guerrinha". o status de uma república latino­americana independente tornou­se inferior ao de um simples Estado norte­americano Desde que conseguiu sua primeira concessão da Costa Rica. A defesa da soberania nacional tornou­se uma rebelião contra a potência que se arrogou o protetorado dessas repúblicas ­ e é esmagada a ferro e fogo em proveito de interesses influentes. pois moralmente já nos pertence. e não dos da civilização. Trata­se da defesa de interesses. José Martí lidera uma segunda guerra da independência. A partir de 1895. Theodore Roosevelt lançou essa advertência como "corolário da doutrina Monroe. Eleito presidente em 1903. votada pelo Senador norte­americano em 1901. prossegue a explicação do documento. em condições misteriosas. podem eventualmente tornar necessária ­ na América como em qualquer outro lugar ­ uma intervenção por parte de uma nação civilizada. Cuba "libertada" teve que aceitar que se anexasse um apêndice à sua Constituição. dominada por governos sem poder real. Intervenção sem qualquer controle Sem a aparência de uma conquista territorial.). que muitas vezes subsistem num estado de anarquia crônica e de http://www. a Espanha renunciaria à soberania de Cuba e das Filipinas. Protetorado norte­americano até 1934. o Tio Sam ­ uma enorme cartola.3/1/2016 :: Le Monde Diplomatique Brasil :: Ainda sob dominação espanhola. quando as outras colônias americanas já haviam se tornado independentes.. a adesão dos Estados Unidos à doutrina Monroe pode forçá­los. a exercer. sem qualquer tipo de controle. o presidente William McKinley declarou guerra contra a Espanha. Em função dessa emenda. um poder internacional de polícia". como a bandeira ­ intervém diplomática e militarmente. de fato. a Emenda Platt. No hemisfério ocidental. É verdade que se trata de nações turbulentas. Sob pressão da ocupação militar. 1912 e 1917. "o governo de Cuba venderá ou alugará aos Estados Unidos o território necessário para a instalação de depósitos de carvão ou bases navais em pontos determinados (. "Com o objetivo de que os Estados Unidos tenham as condições desejadas para manter a independência de Cuba e proteger seu povo. os marines desembarcariam no México. Cuba continuaria. assim como para sua própria defesa". Sob os auspícios daquilo que denomina good will (boa vontade)..diplomatique. nas questões internas das repúblicas latino­americanas." Para forçar os países latino­americanos a cumprirem suas "obrigações internacionais" e a "justiça para com os estrangeiros" (leia­se: pagar as dívidas para com as multinacionais emergentes) e para "trazer o progresso" e a "democracia" aos "povos atrasados". a United Fruit Company (UFCo. Por meio do Tratado de Paris. as forças armadas norte­americanas tomaram Porto Rico2. na Nicarágua.php?tipo=ac&id=784 2/4 . ou uma impotência que resulte numa negligência generalizada dos vínculos adequados a uma sociedade civilizada.br/print. no qual a intervenção do governo federal não pode ocorrer senão em casos muito específicos e deve ter a autorização do Congresso4. ou com tal impotência. A ilha perdeu a independência antes mesmo de a ter conquistado. em seu sistema eleitoral e em seu regime fiscal. o encouraçado norte­americano US Maine explodiu no porto de Havana. a propriedade e as liberdades individuais". o status de uma república latino­ americana independente tornou­se inferior ao de um simples Estado norte­americano. Seus milhões de hectares e suas propriedades constituem autênticos reinos independentes." Sem a aparência de uma conquista territorial nem a de uma guerra declarada. usando de sua própria autoridade. Poder internacional de polícia Em função da Emenda Platt. como gostava de chamá­la Theodore Roosevelt. na seqüência.) construiu um império bananeiro no litoral atlântico da América Central (assim como na Colômbia e na Venezuela). Havana teve que aceitar um direito de intervenção dos Estados Unidos "preservar a independência cubana"  "Um persistente comportamento ruim. de 10 de dezembro de 1898. por mais que lhes repugne fazê­lo. Havana teria que aceitar um direito de intervenção dos Estados Unidos para "preservar a independência cubana" (sic) e manter um governo que protegesse "a vida. em 1878. em suas instituições.org. devido à superioridade de nossa raça. em 1912: "Todo o hemisfério ocidental nos pertencerá. No dia 15 de fevereiro de 1898. na Colômbia e no Equador." Foi assim que nasceu a base de Gunatánamo3. o presidente Taft declararia. Menos hipócrita. Intrometendo­se em sua política doméstica. na Guatemala. os Estados Unidos fizeram intervenções militares em Cuba nos anos de 1906. Cuba revoltou­se. colete estrelado e calças listradas. nos casos flagrantes em que se depararem com tais comportamentos ruins.

 A Conferência para a manutenção da paz (Buenos Aires. onde a Convenção de 8 de fevereiro de 1907 permitiu aos invasores administrarem as alfândegas. o Tratado Bryan­Chamorro concedeu aos Estados Unidos direitos exclusivos sobre a construção do eterno canal. em Honduras. do ponto de vista militar. até 1925. A boa vizinhança de Roosevelt Em Honduras. É desse ano que data a instalação em Manágua de uma guarnição norte­americana que ali permaneceria por treze anos. além da defesa de seus interesses econômicos na região. em seu território. tratava­se de garantir a posse do futuro canal interoceânico. seu protegido. Tiburcio Carias.diplomatique. a boa vizinhança se traduziria pelo apoio aos ditadores Rafael Leónidas Trujillo. baseados nas forças armadas locais. Seu Artigo 6 confere a Washington direitos especiais em tempo de guerra. 1905. silenciosamente. foi na Nicarágua que a "diplomacia do dólar" exerceu seu controle de forma mais imperial. Os marines entraram de novo em cena em 1927. 1919 e 1924 para "restabelecer a ordem" (principalmente a da United Fruit e de outras empresas que exploravam. depois que o conservador Emiliano Chamorro. as alfândegas e o banco do Estado (substituído pelo National City Bank) em mãos norte­americanas. concedeu­ lhes o direito de uso perpétuo do canal e de uma zona de oito quilômetros em cada margem. a pequena República do Haiti. na Venezuela. (Trad. os Estados Unidos intervieram em 1903. por exemplo ­ que não justificam que o grande vizinho do Norte faça pose de dar lições. para "proteger a vida e os interesses dos cidadãos norte­ americanos". em 1903. repassando em garantia as receitas alfandegárias e aceitando um administrador­geral aduaneiro norte­ americano.3/1/2016 :: Le Monde Diplomatique Brasil :: desordem financeira. transformando o Panamá. A mesma lei marcial foi aplicada na República Dominicana. Só que. Também nesse país. os Estados Unidos criaram na Nicarágua uma Guardia Nacional cujo jefe director foi um marine até 1932. ele pretendia também garantir a posse de um futuro canal que ligaria o Atlântico ao Pacífico.org. Caperton impôs ao governo uma convenção cujas cláusulas ­ aparentemente legais e voluntariamente consentidas ­ depositavam a administração civil e militar. Um tratado de aliança. Juan Vicente Gómez. Durante esse período. nomeado pelos banqueiros de Nova York e com o aval do Departamento de Estado. após uma longa luta desigual com os outlaws do "exercitozinho louco" de Augusto César Sandino. em Cuba. os fuzileiros navais reapareceriam em 1912 para quebrar a resistência dos liberais. distribuindo a receita entre credores estrangeiros. o almirante William B. antes que fosse empossado o general Anastásio Tacho Somoza. Entronado no poder. 1936) e a VIII Conferência dos Estados Americanos (Lima. Para quebrar a resistência. o presidente Adolfo Díaz concordou com o famoso empréstimo. o democrata Franklin D. retomou o poder por meio de um golpe de Estado. Em 1915.br/print. Assim. 1938) iriam reafirmar a soberania absoluta de cada país. 1905. proclamou a lei marcial sobre toda a extensão do território. cujo traçado definitivo ainda não fora determinado. Desembarcando em Porto Príncipe à frente de uma força expedicionária. assinado em 1926. na época. durante a fase dos protetorados. Porém. o Tratado Hay Brunau­Varilla. de 18 de novembro desse ano. Em troca de 10 milhões de dólares. na República Dominicana. Jorge Ubico. que se recusavam a aceitar o acordo pelo qual os Estados Unidos concederiam um empréstimo mediante a condição de estabelecerem o controle financeiro da Nicarágua. No entanto. as minas e as florestas). Fulgencio Batista. Roosevelt substituiu essa política "do porrete" pela da good neighbourhood (boa vizinhança). Só se retiraram em 1932. Mas existem alguns precedentes ­ o etnocídio dos "peles­vermelhas" e a Guerra da Secessão. as finanças. Nesse período. os Estados Unidos intervieram em 1903. agravou a submissão.: Jô Amado) http://www. dedicadas à defesa de seus interesses. os Estados Unidos conseguiram organizar regimes autoritários estáveis. bem como à dinastia Somoza na Nicarágua. na Guatemala. assim como a soberania total desse território. Após um primeiro desembarque em 1853. 1919 e 1924 para "restabelecer a ordem" (principalmente a da United Fruit e de outras empresas) Em Honduras. num novo Estado da União.php?tipo=ac&id=784 3/4 . a grande democracia norte­americana também estrangulou. Empréstimos por controle financeiro Na Nicarágua a "diplomacia do dólar" exerceu seu controle de forma mais imperial para garantir a posse do futuro canal interoceânico Como a Colômbia os fizesse esperar demais para consentir nas condições que propunham para a cessão dessa futura via hidroviária na província do Panamá ­ "por cem anos" ­ os Estados Unidos incentivaram a secessão. Em 1934.

 sob a autoridade de um governador norte­americano. Paris . 1928.php?tipo=ac&id=784 4/4 . Palavras chave:    http://www. foi outorgada a cidadania a todos os porto­riquenhos que a desejassem. após vários anos de protestos por parte de dirigentes porto­riquenhos junto ao Congresso. Armand Colin.br/print. L?Amérique latine et l?impérialisme américain. 2010. Paris.org.  2 ­ A ilha ficou submetida a um regime vagamente autônomo. de Louis Guilaine. ed. Em 1952. Dom Quichotte.diplomatique. a ilha Maurice Lemoine é jornalista ee autor de "Cinq Cubains à Miami ( Cinco cubanos em Miami)".3/1/2016 :: Le Monde Diplomatique Brasil :: 1 ­ Ler. Em 1917.