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A questão da aparência em Hannah Arendt
Adriano Correia*
Resumo: Pretendemos acompanhar aqui o desmonte das categorias metafísicas
iniciado por Nietzsche e que tem na obra A Vida do espírito de Hannah Arendt
uma sequencia desse percurso. Referimo-nos aos movimentos da história da
metafísica de Nietzsche para o qual além de se abolir o “mundo verdadeiro”
a aparência deve também ser abolida. Se , porém para Heidegger a filosofia de
Nietzsche é uma reação contra a metafísica, o que significa que para este Nietzsche não consegue libertar-se daquilo que motivou seu movimento, pode-se dizer
que o fim da metafísica iniciado por Nietzsche teve profundas consequências
para a filosofia e alterou profundamente seu modo de proceder. Tais consequências são analisadas aqui recorrendo-se á leitura de Heidegger, para quem a
denegação nietzscheana do platonismo é positiva.Para este autor, no entanto,
não se pode considerar que a compreensão de toda interpretação do mundo se
reduza a uma perspectiva. Mostramos então que Hannah Arendt , por sua vez,
apesar de concordar com Heidegger acerca da relação entre ser e aparência ,
afirma que a existência autêntica do indivíduo se dá na relação com os outros,
o que significa que para Arendt a aparência tem um significado positivo, pois é
nela que se dá a autenticidade.
Palavras-chave: Hannah Arendt; Nietzsche; Heidegger; crítica à metafísica; aparência

Poliética. São Paulo, v. 1, n. 1, pp. 7-22, 2013.

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Ser e aparecer coincidem”1 (ARENDT. Hannah Arendt começa o primeiro volume do seu livro A vida do espírito (The life of the mind). since it is here that authenticity occurs. For this author. 7-22. pp. one cannot consider that the understanding of every interpretation of the world can be reduced to perpective. although she agrees with Heidegger about the relation between being and appearance. 1. appearance. in turn. já há algum tempo. Com efeito. v. Hannah. 2013. n. 1. com um capítulo intitulado “Aparência”. Heidegger. we can say that the end of metaphysics started by Nietszche had profound consequences for philosophy and changed deeply its way of proceeding. 1995). says that the authentic existence of the individual is in relation to others. 8 Poliética. vêm tentando desmontar a metafísica e a filosofia. sobre o pensar. which means that for Arendt appearance has a positive meaning. We refer to Nietzsche´s history of metaphysics movements for whom in addition to abolish the “real world” appearance must also be abolished. ela afirma que juntou-se “claramente às fileiras daqueles que. We show then that Hannah Arendt. Key-words: Hannah Arendt. Na primeira página deste capítulo aparece o seguinte: “Neste mundo em que chegamos e aparecemos vindos de lugar nenhum e. however. for Heidegger Nietzsche´s philosophy is a reaction against metaphysics. however. remonta a um percurso filosófico que precede em muito o próprio projeto de Hannah Arendt. . for whom Nietzsche´s denial of Platonism is positive. critique of metaphysics. If .Adriano Correia Abstract: The Question of appearance in Hannah Arend. do qual desaparecemos em lugar nenhum. [1978]. com todas as suas categorias. fundamental à compreensão de todo o projeto daquela obra. Such consequences are analyzed here from Heidegger´s perspective. Essa frase. We will follow here the dismount of metaphysical categories started by Nietszhe which has its sequence in the work The life of the mind of Hannah Arendt. which means that for him Nietzsche fails to get free from what motivated his movement. São Paulo. Nietzsche.

um dia. p. ainda que se preveja ao santo a possibilidade de alcançar. de Platão a ele mesmo. [1978]. Poliética. do que possui o dom dialético. transcendência e imanência. v. Hannah. A história deste erro é. 7-22. tem seu início em Nietzsche. 184-5): o filósofo. com o subtítulo “História de um erro”. 1. 1995). do platonismo-niilismo.A questão da aparência em Hannah Arendt do modo como as conhecemos. “aquele que filosofa em toda pureza e justiça”3 (PLATÃO. de 1888. na Grécia. A existência terrena é degradada como aparência. tal como o descreve Nietzsche. 2013. ***** Em Crepúsculo dos Ídolos. 253e. 1. fundamentalmente. a descrição do modo como se deu a relação entre mundo verdadeiro e mundo aparente. o mundo verdadeiro. para o tema que nos interessa aqui. A história do erro contada por Nietzsche tem em Platão o seu início. n. Nesse pequeno texto de pouco mais de uma página Nietzsche busca abarcar a história da metafísica do início ao fim. inclusive para o filósofo. visto que o mundo ideal é simples promessa. Desvaloriza-se o mundo sensível. e por isso inatingível por ora. desde o seu começo. pp. Essa desmontagem das categorias metafísicas. quando este sustentou que o mundo verdadeiro é somente acessível à contemplação do que se desprende deste mundo aparente (sensível). um dos últimos escritos de Nietzsche. há uma seção intitulada “Como o mundo verdadeiro acabou por se tornar uma fábula”. No segundo movimento da história da metafísica. São Paulo. até hoje”2 (ARENDT. transitoriedade. em suma. começa a ruptura entre mundo ideal e mundo sensível. Assim o platonismo se torna platonismo para o povo ou cristianismo. 9 .

continua a se impor como um imperativo. posterior ao kantismo e ao idealismo. 1. Mas isso não significa que o platonismo-niilismo tenha sido já superado. é necessário ainda um passo adiante. Uma vez que o mundo supra-sensível é declarado absolutamente incognoscível. declarado indemonstrável nos limites da razão teórica pura. é significativo que “mundo verdadeiro” apareça então entre aspas. adiante do niilismo. n. Nos dois últimos movimentos da narrativa. que. fica vazio agora? E que sentido tem o mundo sensível depois de abolido o mundo ideal? Em vista disto.Adriano Correia Em Kant. Nietzsche pensa aqui na própria obra de demolição que com A gaia ciência atingira seu primeiro resultado. a rigor. Em decorrência da destruição kantiana das certezas metafísicas. portanto. 2013. 10 Poliética. dois problemas continuam: o que ocorre com o lugar onde estava o ideal. v. . diz Nietzsche. Nietzsche assinala a fase do ceticismo e da incredulidade metafísica. por isso. abolido este último. é excluído do âmbito da experiência e. após a abolição do mundo supra-sensível. deve ser suprimido. supra-sensível. O mundo verdadeiro. A partir do momento em que o “mundo verdadeiro” foi abolido. Ele perde a importância moral-religiosa de que ainda desfrutava como postulado da razão prática. Mas. No quarto movimento da história da metafísica. posto entre aspas. São Paulo. pp. a Ideia torna-se königsberguiana. não podemos saber coisa alguma a seu respeito e. não podemos defendê-lo nem negá-lo. desaparece a crença no mundo ideal e em sua cognoscibilidade. em que Nietzsche explicita mais claramente sua perspectiva filosófica. 7-22. como hipótese supérflua. tal termo não tem mais valor e. 1. É porém recuperado como postulado da razão prática: ainda que reduzido à pálida existência de uma simples hipótese.

11 . de abolir o mundo sensível. retirar-lhe o caráter de aparência. 1996). é como se fosse possível falar de Ser e de Aparência apenas na medida em que Ser e Aparecer coincidem. exaltando o sensível e desprezando o não-sensível. 1. Para tanto. diz Nietzsche em Ecce Homo. com ela. 2013.6 Em Nietzsche. São Paulo. enaltecendo o que antes estava embaixo. em um fragmento póstumo do inverno de 1886/1887: “eliminemos a ‘coisa em si’ e. v. portanto. como aquela mais antiga entre ‘matéria e espírito’. Abolir o “mundo aparente” significa na verdade eliminar a maneira como o sensível é visto pelo platonismo. é necessário abolir também o “mundo aparente”. É preciso abandonar inteiramente o horizonte do platonismo-niilismo. pois. ou seja. a dicotomia ontológica que ele implica e suas respectivas categorias. Para que a metafísica platônica seja definitivamente superada. Poliética. Friedrich. pp. não basta apenas inverter a velha hierarquia. “Crepúsculo dos ídolos – leia-se: adeus à velha verdade”5 (NIETZSCHE. 7-22. Friedrich. ou seja. Adeus à velha verdade – leia: se adeus à dualidade. fica demonstrada como inútil” (NIETZSCHE. abrindo caminho assim para uma nova concepção do sensível e para uma nova relação entre sensível e não-sensível.A questão da aparência em Hannah Arendt Diz Nietzsche: “Abolimos (abschaffen) o mundo verdadeiro: que mundo restou? Acaso o aparente?… Mas não! Com o mundo verdadeiro. 1987). Nietzsche já havia recomendado antes. n. 1999). um dos mais obscuros conceitos: o de ‘aparência’! Toda essa oposição. Não se trata. Friedrich. mas de eliminar o mal-entendido do platonismo. 1. abolimos (abschaffen) também o aparente!”4 (NIETZSCHE. Com efeito.

essa que resiste a toda transformação em um imaginário ‘mundo-verdadeiro (HAAR. Nietzsche julga que a aparência “não é o oposto de alguma essência”. 1962). v. enquanto metafísica. contra o platonismo. como sucede a todos os movimentos contra algo. n. . Martin. Martin.9 Para Heidegger. nunca consegue pensar sua própria essência (HEIDEGGER. 2002). como mero triunfo sobre esta. não obstante numa transformação mais elevada. 1. considero que a aparência é a realidade. que Nietzsche tem em vista e bem no sentido do positivismo do século XIX. 1993). para quem: a revirada do platonismo. implica que estes estão profundamente ligados entre si.Adriano Correia A aparência. Martin. permanece necessariamente implicada na essência daquilo contra o qual luta. pp. A eliminação do supra-sensível elimina o sensível e a diferença entre eles (HEIDEGGER. mas sim “aquilo mesmo que atua e vive”. Neutralizar e eliminar o platonismo corresponde à posição da aparência. 1962). uma implicação sem saída no interior da metafísica de tal modo que esta se dissocia de sua essência e.10 12 Poliética. 7-22. de que o sensível passa a constituir o mundo verdadeiro e o supra-sensível o não-verdadeiro permanece teimosamente no interior da metafísica. O movimento de reação de Nietzsche contra a metafísica é. como um plano único.Michel. no § 54. 1. do sensível. ****** Qualquer pensamento construído em termos de dois mundos. no sentido em que a entendo – diz ele –. Todavia. pelo contrário.7 Já em A Gaia ciência. São Paulo. Essa espécie de superação da metafísica.8 Esta é a avaliação de Heidegger. não passa de um envolvimento definitivo com a metafísica (HEIDEGGER. diz Heidegger: como mera reação. 2013. é a verdadeira e única verdade das coisas (…) Eu não coloco a ‘aparência’ em oposição à ‘realidade’. no sentido conferido por Nietzsche. Nietzsche empreende a sua própria filosofia como uma reação contra a metafísica.

[1978] 1995)14 Poliética. e a morte de Deus não era senão a morte deste “mundo verdadeiro”. em Nietzsche. Nas palavras de Hannah Arendt: o que chegou a um fim foi a distinção básica entre o sensorial e o supra-sensorial. 2013. Nesses termos. Deus era como um símbolo do domínio supra-sensorial tal como compreendido na metafísica. a quem a própria divisão entre mundo verdadeiro e aparente era “um sintoma da vida descendente”. ou o Ser. construído a partir da contradição com o mundo real. a aparência é apenas o nome genérico de todas as interpretações (HAAR. Hannah. Martin [1943] [1929]). De resto. 13 .1993). juntamente com a noção pelo menos tão antiga quanto Parmênides de que o que quer que não seja dado aos sentidos – Deus. 1.A questão da aparência em Hannah Arendt Cabe notar que. rompe-se todo o quadro de referência em que nosso pensamento estava acostumado a se orientar. 1. pp. este fim da metafísica teve conseqüências tão profundas que alterou completamente os contornos do que até então tinha sido o modo de proceder da filosofia. ou as Idéias – é mais real.11 e não um absoluto que ocupa o lugar da antiga verdade. ou se foi o contrário. ninguém melhor do que Nietzsche sabia que o sensível não pode sobreviver à morte do supra-sensível. São Paulo. mais verdadeiro. [1978] 1995). O que está morto não é apenas a localização de tais ‘verdades eternas’. mais significativo do que aquilo que aparece. Para ele. n. v. nada mais parece fazer muito sentido (ARENDT. Hannah. é o próprio Heidegger quem afirma que “à essência de tais transições pertence o fato de. mas acima do mundo dos sentidos. em certos limites.12 Não obstante. por fim: uma vez que o equilíbrio sempre precário entre os dois mundos está perdido. não importa se o ‘verdadeiro mundo’ aboliu o ‘mundo aparente’. ou os Primeiros Princípios e Causas (archai). terem de falar ainda a linguagem daquilo que auxiliam a superar” (HEIDEGGER. Michel. Nas palavras de Hannah Arendt. 7-22. que está não apenas além da percepção sensorial.13 Para ela. mas a própria distinção (ARENDT.

para um lugar supra-sensível”. Todavia. o que em última instância quer dizer que “o Ser vige e se Essencializa como aparecer” (HEIDEGGER. para que se possa permitir que a verdade se desvele e permaneça distinta de sua manifestação. “em sua elementar simplicidade.Adriano Correia Hannah Arendt sustenta que esse insight nietzscheano. para os gregos “o Ser se essencializa como physis”. Martin. n. Hannah. como Idea.15 Heidegger concorda com a denegação nietzscheana do platonismo. pp. “dado que Ser e Aparência se pertencem mutuamente e nessa mútua pertinência se implicam um ao outro. Martin. 1999). Platão declara a aparência simples aparência e a rebaixa. . 1. é necessário distinguir o Ser da Aparência. ao mesmo tempo em que “desloca o Ser. Como ele nota. Martin. Com efeito. assinala Heidegger. Platão não toma a aparência a sério: “o hiato. v. não apenas a aparência possui um caráter 14 Poliética. 1999). Ao contrário dos que o precederam entre os gregos. todavia. 1. Esta contraposição não corresponderia. por conseguinte. 1992). São Paulo. uma constante confusão e a possibilidade de engano e equivocação” (HEIDEGGER. Para ele. chorismos. 1999). ao pensamento originário dos gregos. 7-22. se abriu entre o ente apenas aparente aqui em baixo e o Ser real em algum lugar lá em cima”16 (HEIDEGGER. essa implicação recíproca instaura sempre a troca de um pelo outro e.18 É nesse sentido que ele indica que mesmo podendo afirmar com os gregos que Ser e Aparecer coincidem. 2013.17 O Ser surge e se mostra no aparecer. é relevante para todas as operações de viravolta nas quais a tradição encontrou seu fim” (ARENDT.

como emersão do Ser. Com efeito: aparência não só faz aparecer o ente. a physis. no dizer de Heráclito. o que implica que o Ser está sempre inclinado a voltar seja no grande silêncio do obscurecimento.19 A aparência se mostra tanto como esplendor quanto como presença (manifestação que subsiste) e ilusão. Porque. 1. no oferecer aspectos. Ser significa: aparecer emergente. pp. na Poliética. a posição e a opinião do espectador podem aprofundar o que na aparência representa o ocultamento do Ser: “posto que o Ser. 1999). physis. em que o homem se move no tríplice mundo de Ser. entre muitos outros modos. v. do qual é aparência. Re-velação e Aparência (HEIDEGGER. 15 . por isso pertence-lhe essencialmente o encobrimento. Somente porque a aparência já engana em si mesma.20 É por isto que em certa medida o Ser também tem de ser protegido da Aparência. aparece ao espectador. Mas o iludir-se é apenas um. 1. ama ocultar-se (Fr. pode ela enganar o homem e assim levá-lo a uma ilusão. 1999). 123). Martin. O que aparece. posto que se mostra como Ser. tal como ele propriamente não é. consiste no aparecer. 7-22. do ente. mas também se encobre a si mesma. não apenas dissimula o ente. Martin. seja na superficial dissimulação da camuflagem (HEIDEGGER. encontra-se essencialmente e portanto necessária e constantemente na possibilidade de apresentar um aspecto que justamente encobre e oculta o que o ente é na verdade. da aparência. 2013. Para além do próprio caráter equívoco da manifestação.A questão da aparência em Hannah Arendt profundamente ambíguo como. diz Heidegger. E é exatamente por isso. por dissimular essencialmente a si mesma. que a partir de um ponto de vista forma uma perspectiva do que é manifesto. ao encobrir e dissimular o ente. sair do encobrimento. que dizemos com razão: as aparências enganam. isto é. n. São Paulo.

Hannah Arendt diz que Ser e aparecer coincidem não em A condição humana. o parecer. em que uma coisa se oferece.23 A própria 16 Poliética. não é uma coisa ao lado do Ser e da revelação. Martin. Todavia a doxa é sempre ambígua. à percepção. O caráter público da aparência. mas em A vida do espírito. A existência humana se atém a esses pareceres. 1999). n. São enunciados e propalados em sucessivos pronunciamentos. A visão a nós comumente acessível se distorce e perverte em opinião e parecer. mas pertence sempre a essa. 7-22. quando lida com as atividades do espírito: o pensar. pp. como a opinião. o querer e o julgar. Significa tanto o viso. A esse se rouba a possibilidade de aceder. doxa. 1. 1. Hannah [1978] 1995). a partir de si mesmo em seu aparecimento. aprofunda a ambiguidade e a capacidade de ocultar da manifestação.21 Aqui ele retoma o que já havia assinalado em Ser e tempo (§§ 27 e 35. ***** Em Hannah Arendt a desmontagem da metafísica deve redundar em uma liberação do olhar e em um desbloqueio da manifestação dos fenômenos. que os homens têm sobre ela. A descrição fenomenológica das atividades espirituais em Arendt sustenta a necessidade de pensá-las tomando como ponto de partida o fato de que “somos do mundo e não meramente estamos nele” (ARENDT. Heidegger menciona a relação entre aparência e perspectiva. 2013. São Paulo. v. por exemplo): em suma. Desse modo o predomínio dos pareceres e das opiniões perverte e distorce o ente (HEIDEGGER. por assim dizer. mas se recusa a aceitar a compreensão de que toda interpretação do mundo sempre se reduz a uma perspectiva. Para Heidegger: a aparência. Assim a doxa é uma espécie de Logos.22 Tal como Nietzsche. que a luz do público obscurece. Martin.Adriano Correia dimensão do re-velado e des-coberto (Unverborgenheit)” (HEIDEGGER. 1999). Os pareceres dominantes obstruem a visão sobre o entre. .

nada do que é. Arendt sustenta que a existência autêntica do indivíduo humano. mas os homens é que habitam este planeta. o mundo para Arendt não representa apenas a condição de possibilidade que ao mesmo tempo oculta. A pluralidade é a lei da Terra (ARENDT. é próprio para ser percebido por alguém. Não o Homem. por assim dizer. A pólis. Com efeito. São Paulo. pode dar-se apenas no Mit-Sein. tal qual em Heidegger. à visibilidade e à pluralidade um estatuto genético positivo. v. 2004)26. Em outras palavras.25 Ainda que concorde com Heidegger nesse aspecto da caracterização da relação entre Ser e Aparência. a autora de A condição humana atribuiria à aparência. Hannah [1978] 1995). 1172b36ss. 2013. engendrados sobre sua condição de mundanidade (Bethânia ASSY. mas para explicitar e valorizar exatamente aquilo que Heidegger obnubila e de que desconfia.A questão da aparência em Hannah Arendt realidade do mundo e a minha identidade dependem do fato de que os homens são de fato espectadores.)24. 7-22. 1. existe no singular. à medida que aparece. Ao contrário. no Ser-com. Arendt faz uso do vocabulário heideggeriano na caracterização da aparência. lembra Hannah Arendt. 1995)27 que forma a realidade. Embora seja inegável que Arendt faça uso da nomenclatura heideggeriana. 17 . Cita ainda Aristóteles: “chamamos de existência àquilo que aparece a todos” (Ética a Nicômaco. pp. a realidade do mundo é garantida pela presença dos outros. Como afirma em A condição humana. Nossa autenticidade só se manifesta na produção de uma aparência – o nosso quem é público. mas também aparecem uns aos outros. 1. demudando a própria noção de autenticidade heideggeriana. pelo fato de aparecerem a todos”. tudo que é. era entendida pelos Poliética. É justamente a “gloriosa luminosidade da constante presença dos outros na cena pública” (ARENDT. “para os homens. Portanto: nada e ninguém existe neste mundo cujo próprio ser não pressuponha um espectador. para a autora. Hannah. n. o mundo plural é o espaço mesmo da gênese dos homens.

[1978] 1995). mas parece diferente para cada espécie e também para cada indivíduo da espécie. pelo qual um mundo que aparece é reconhecido e percebido. sua plena realidade como homens. que transcrevo. mas diretamente a Nietzsche: em suma. O mundo aparece por meio do parece-me (it-seems-to-me). Hannah. independentemente de sua identidade. 1. 1. e esse parecer varia de acordo com o ponto de vista e com a perspectiva dos espectadores. não é propriamente apenas a aparência que é ambígua. dokei moi – é o modo. uma espécie de disfarce que pode de fato [como quer Heidegger]– embora não necessariamente – ocultar ou desfigurar. Hannah. depende de perspectivas particulares determinadas tanto pela posição no mundo quanto pelos órgãos específicos da percepção (ARENDT. 2013. O palco é comum a todos os que estão vivos. n. Hannah. v.Adriano Correia gregos como o espaço da visibilidade. Parecer corresponde à circunstância de que toda aparência. 7-22. Aparecer significa sempre parecer para outros. Em outras palavras. pp. [1978] 1995). Parecer – o parece-me. tudo o que aparece adquire. talvez o único possível. 1993). No mundo em que nossa existência se desenvolve entre o nascimento e a 18 Poliética. como o domínio público-político “em que os homens atingem sua humanidade plena. diz ela: as coisas vivas aparecem em cena como atores em um palco montado para elas. a falácia contida na teoria dos dois mundos consiste em afirmar de vários modos a superioridade do fundamento sobre a superfície. porque não apenas são (como na privatividade da casa).29 Aqui Arendt retorna não a Heidegger. é percebida por uma pluralidade de espectadores (ARENDT. em virtude de sua fenomenalidade.28 Assim.30 Na interpretação de Jacques Taminiaux. . também aparecem” (ARENDT. São Paulo. mas o fato de que dispomos sempre apenas da perspectiva dos espectadores: nada do que aparece manifesta-se para um único observador capaz de percebê-lo sob todos os seus aspectos intrínsecos. do Ser sobre a Aparência.

desse modo.31 O fato de que “somos do mundo. 1997). 1. estritamente relacionada a um cenário comum diante do qual aparecem. pp. do qual não escapam nem o filósofo nem o cientista. nada do que é.32 Em suma. 7-22. pois aí Ser e Aparecer não formam graus hierárquicos. São Paulo. no mundo cotidiano. essa diferença nos pontos de vista não é obstáculo para a identidade dos espectadores – é constitutiva dela. [1978] 1995). Porque esta produção é apresentada a uma pluralidade de perspectivas ou pontos de vista. usando a metáfora platônica. eles são do mundo. permanece apresentando-se ao olhar de vários espectadores. é estritamente singular: em vez disso. Em vez de serem no mundo. está-se sujeito tanto ao erro quanto à ilusão e nem a eliminação de erros nem a dissipação de ilusões nos lança em uma dimensão outra que a da aparência. Cada recorte anuncia e ao mesmo tempo oculta outros recortes (TAMINIAUX. para poder abrir os olhos do espírito” (ARENDT. esta distinção não tem aplicabilidade legítima. Arendt cita Merleau-Ponty: Poliética. Para reforçar sua posição.A questão da aparência em Hannah Arendt morte. Jacques. e precisamente porque coincidem. eles coincidem. nada do que aparece. Esses espectadores no plural também se mostram como um espetáculo e estão ao mesmo tempo percebendo e sendo percebidos. e não apenas estamos nele” não é alterado quando nos engajamos em atividades espirituais como o pensar. ou seja. 1. 2013. 19 . Hannah. “quando fechamos os olhos do corpo. v. Isso também significa que aparecer é sempre um “parece-me de uma dada perspectiva” e exige um “lado” que se oferece e se apresenta. o querer e o julgar. A identidade deles está. entretanto. n.

Sofista. 20 Poliética. p. 6.. p. Publicou ainda o livro Hannah Arendt (Jorge Zahar. como organizador: Transpondo o abismo: Hannah Arendt entre a filosofia e a política (Forense Universitária. 18.33 O que ela busca evidenciar é a natureza fenomênica do mundo e ao mesmo tempo o caráter inescapavelmente perspectivo de toda aparição: “‘só posso escapar do ser para o ser’ [Merleau-Ponty]. a função ontológica da primeira… A desilusão é a perda de uma evidência unicamente porque é a aquisição de outra evidência… não há Schein (aparência) sem uma Erscheinung (aparição). __________ Notas * Adriano Correia concluiu o doutorado em filosofia na Universidade Estadual de Campinas em 2002.. Os Pensadores). KSA. 253e. p. vol. pp. 2013. toda Schein tem por contrapartida uma Erscheinung (M. 7-22. 159. MERLEAU-PONTY. 113 (Col. Cf. Publicou vários artigos em periódicos especializados. quando se rompe subitamente uma aparência. Com isto. por sua própria conta. v. p. é sempre em proveito de uma nova aparência que retoma. ética. 184-5. 2006). [1978] 1995). história da filosofia e estética. . isso quer dizer que só posso escapar da aparência para a aparência” 34(ARENDT. mas ainda a falácia de que haja um espectador privilegiado para o espetáculo que é o grande jogo do mundo. e já que Ser e Aparecer coincidem para os homens. 2007). 1968). 1. 81. 2 Ibid. bras. Atualmente é professor adjunto na Universidade Federal de Goiás. Seu projeto atual de pesquisa examina a relação entre natureza e política. 1 A vida do espírito. Desenvolve pesquisas nas áreas de filosofia política. trabalhando com ensino e orientação em nível de graduação e pós-graduação (mestrado). 4 Götzen-Dämmerung [Crepúsculo dos Ídolos]. 1. n. 2002) e Hannah Arendt e a condição humana (Quarteto. Hannah. São Paulo. assim como capítulos de livros e traduções de textos filosóficos. 3 PLATÃO. p.Adriano Correia Pois quando se dissipa uma ilusão. Arendt rejeita não apenas a falácia da teoria dos dois mundos. trad. Tem dois livros publicados.

21 Ibid. p. 14 Ibid. p. 47. p. 129 e 128. 6(23). 126-7.A questão da aparência em Hannah Arendt Ecce Homo. p. 1. 193. 2013. 28 “Filosofia e política”. 164. p. 30 Ibid. 23 A vida do espírito. 2004. p. 210-11. p. XII. bras.. In: Ensaios e conferências. 140. 1886/87). 40 (53). p. 24 A condição humana. p. p. 31 (grifos meus). n. Nietzsche et la métaphisique. 21 . 9 “A superação da metafísica”. p. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 240/1. 10. 11 Michel HAAR. The visible and the invisible. 20. “Crepúsculo dos ídolos: como se filosofa com o martelo”. 20 Ibid.. Na mesma página ela faz referência aos dois trechos de Heidegger que cito logo acima. 27 A condição humana. p. 11 (grifos meus). Fragmentos póstumos (vol. 1968. 3. p. p. v. 13 A vida do espírito. MERLEAU-PONTY. p. 12 “Posfácio” (1943) a “Que é metafísica?” (1929). (orgs. 19. 15 “A tradição e a época moderna”. 7 KGW. 15 da trad. apud Michel HAAR. p. 22. 33 M. 68-9. 18 Ibid. p. 7-22. 5 6 34 A vida do espírito. 18-9. in: Entre o passado e o futuro. VII. André. The Thracian maid and the professional thinker.. 32 A vida do espírito. 179. 8 “Nietzsches Wort ‘Gott ist tot’”. p. 58. Introdução à metafísica. p. 17. 61 da trad. Cristina e MAGALHÃES. In: DUARTE. Nietzsche et la métaphisique. 94. 135. 132. p. Marion B. p. 211 da trad.. 136. p. 131. 19 (grifos no original). 102. p. p. pp.. 17 Ibid. citado em A vida do espírito. 25 A vida do espírito. 26 Bethânia ASSY. 1. in: A dignidade da política. 19 Ibid. p. bras.. p. Poliética. Evanston.). 29 A vida do espírito. 16 Martin HEIDEGGER. 99. bras. São Paulo. p. p. p. 31 Jacques TAMINIAUX. 22 Ibid. p. p.. 1993. 106. “Hannah Arendt e a dignidade da aparência”. 10 “Nietzsches Wort ‘Gott ist tot’”.. LOPREATO.

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