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Anais do Seminário Nacional de História da Historiografia

:
historiografia
brasileira e modernidade

Alphonse de Beauchamp e o (não) lugar da
Histoire du Brésil na historiografia brasileira oitocentista

Bruno Franco Medeiros1

I. Contribuição francesa na história e na literatura brasileira no século XIX
Em 1818, o abade Dominique de Prat dizia as seguintes palavras ao se referir ao
Novo Mundo:
Há quase vinte anos [a América] tornou-se o assunto de nossas meditações; ela não
ocupava, então, lugar algum na atenção pública2.

Sejam quais fossem os motivos de uma mirada de olhos da Europa sobre o Novo
Mundo, nesse momento alguns autores situados no universo intelectual francês buscaram
no Brasil algumas curiosidades pitorescas, preocupados com as implicações levadas ao
plano político pelo comércio com as colônias americanas, etc. Esta mirada de olhos da
Europa sobre o Brasil teve um impulso maior com a vinda da família Real para o território
colonial e os sucessivos acontecimentos que provocaram aquilo que a historiadora Maria
Odila da Silva Dias chamou de “interiorização da metrópole”3. Num momento em que um
príncipe europeu assentava trono no território colonial americano, não havia dúvidas de que
este episódio e as especulações sobre as conseqüências advindas deste acontecimento se
transformassem em assunto recorrente no âmbito do comércio literário desenvolvido por
uma “república das letras” que tinha suas fronteiras extremamente expandidas. Esse
comércio literário explica porque nesse momento eclode no cenário intelectual europeu
uma crescente onda de narrativas sobre o Brasil.
1

Graduando em História pelo Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto. Bolsista de
iniciação científica pelo PROBIC/FAPEMIG com projeto de pesquisa intitulado “A experiência de história
no mundo luso-brasileiro: o conceito de história na formação nacional brasileira (1808-1850)”, sob
orientação do Profº Dr. Valdei Lopes de Araujo, realizado junto ao Núcleo de Estudos em História da
Historiografia e Modernidade (NEHM).
2
Prat, Dominique de. Apud in: Maria Helena Rouanet. Eternamente em Berço Esplêndido. A fundação de
uma literatura nacional. São Paulo: Siciliano, 1991. p. 58.
3
DIAS, Maria Odila da Silva. “A interiorização da metrópole (1808-1853)”. In__: Carlos Guilherme Mota
(org). 1822: Dimensões. São Paulo: Perspectiva.
Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto:
1
EDUFOP, 2007.

Guilhermino César. que tinham um horizonte discursivo a disponível ainda a partir de uma de conhecimento forjado durante o século XVIII. Apesar da nacionalidade de alguns dos autores citados não ser francesa. em ordem cronológica. Sismondi é. Essa notícia é reforçada pela data de publicação de De la Littérature. falava da exuberância da natureza local e exaltava camponeses alemães a emigrarem para o Brasil em busca de melhores condições de vida. São Paulo: Edusp. Belo Horizonte: Itatiaia. uma gama de fatores que contribuíram para a assertiva de suas idéias. 2007. em 1813. Ouro Preto: 2 EDUFOP.A América proporcionava a esses pensadores.). Flávia Florentino Varella. Op. podemos citar a imagem edênica encontrada nas narrativas sobre o Brasil nesse período e que se tornará uma tópica nas narrativas de viajantes. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos. o clima e a natureza tropicais. Esses autores receberam. 1975. e na constituição do cânone romântico brasileiro. a produção intelectual desses autores foi produzida nesta língua. Dentro do sistema filosófico de Montesquieu. Cit. Sismonde de Sismodi e Ferdinand Wolf. Dentre esses fatores. quando o Brasil ainda não havia alcançado sua independência política. Sobre a contribuição francesa6 para o sistema intelectual brasileiro do século XIX. contribuindo sistematicamente para a fundamentação dos cânones literário e historiográfico brasileiro do século XIX. p. A imobilidade característica das sociedades indígenas proporcionaria a Rosseau um exemplo para o seu juízo sobre uma sociedade em “estado de natureza”. Em seu estudo De la Littérature du Midi de l’Europe. A contribuição européia: crítica e história literária. Ferdinand Wolf publicou o livro Le Brésil Littéraire – Histoire de 4 Cf. por exemplo. nas descrições pitorescas de um Southey e um Beauchamp. dizia uma canção popular alemã no início do século XIX. 2v. Maria Helena Rouanet. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. por parte da fortuna crítica brasileira. Ferdinand Denis. 1978. adornados por motivos edênicos. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. uma receptividade muito positiva. refletiam uma sociedade igualmente edênica4. 6 Sobre a contribuição européia na crítica e na história literária Cf. 59. “O Brasil não é longe daqui”. 5 . 39. em contraposição ao estado de civilização em que se encontrava a Europa: os indígenas viveriam sob o signo da liberdade e não da necessidade5. o primeiro a publicar um trabalho de crítica literária sobre as escolas literárias do Brasil colonial. podemos citar nomes como Auguste de Saint-Hilaire. São Paulo: Edusp. 7 Sobre a noção de literatura como sistema ver o trabalho de Antonio Candido. Idem. Sismondi faz referência a autores brasileiros pelo fato de esses autores pertencerem ao “sistema”7 da literatura portuguesa. Historiadores e críticos do Romantismo.

. Esta situação lhe daria um grande prestígio no sistema intelectual brasileiro. e quiçá entre os europeus. Denis representava uma das primeiras tentativas de sistematização orgânica da literatura nacional no Brasil. Vivendo praticamente durante quase todo o século XIX. ninguém conheceu tão bem os países ibéricos e a América meridional. Denis foi “sabidamente. p. compreendeu a literatura brasileira pela primeira vez separada da literatura portuguesa. 137. p. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. 11 AMORA. Apud in: Maria Helena Rouanet. A fundação de uma literatura nacional. em busca de características originais inexploradas”9. p. Ferdinand Denis contribuiu para definir os parâmetros do que Maria Helena Rouanet denominou de “Manual do perfeito viajante”. Antônio S. p. Idem. Wolf é “um representante qualificado da historiografia romântica”8. o nosso primitivismo. 12 Idem. o nosso barbarismo. XLIX.la Littérature Brèsillienne em 1863. suivi du Resume de l’Histoire Littéraire du Brésil (1826). XXXIII. Figura que freqüenta as notas de roda pé e bibliografias em estudos dedicados à formação da sociedade brasileira. o mais importante brasilianista e lusitanista da primeira metade do século XIX. 2007. Denis foi um dos brasilianistas franceses mais bem recebido no sistema intelectual brasileiro que se firmava durante o século XIX. principalmente. 9 3 . Ferdinand Denis. Ao “aconselhar que nossos autores olhassem mais para dentro de si mesmos e procurassem estudar cuidadosamente a natureza americana. com Ramiz Galvão – um grande erudito e conhecedor de documentos e obras sobre a história do Brasil.). entre os franceses. em seu Résumé de l’Histoire Littéraire du Portugal. Eternamente em berço esplêndido. 10 Sobre Ferdinand Denis e sua relação intelectual com o Brasil é indispensável a leitura do livro de Maria Helena Rouanet. Denis é considerado pela história da historiografia brasileira10 como um autor que ajudou a vulgarizar a imagem do Brasil no Velho Mundo. Dentre os vários exemplos de Denis como um tipo de fonte largamente 8 Idem. passim. declarando um tipo de independência literária realizada junto à independência política. particularmente Portugal e o Brasil”. 143. Ouro Preto: EDUFOP. Denis exemplificou não só um tipo de fonte mas também uma autoridade em matéria de Brasil12. nas palavras de Antônio Soares Amora11. Flávia Florentino Varella. De acordo com Guilhermino César. Em seu tempo. Mantendo correspondência extremamente ativa com o imperado Pedro II e.

enquanto tal. . Brasiliana. que em 1815 publicou uma Histoire du Brésil. p. Tentaremos demonstrar aqui por que Beauchamp sofreu um veto dentro da história da historiografia brasileira. Maria Helena Rouanet diz que essa “autoridade” da qual fala J. Alphonse de Beauchamp e a Histoire du Brésil A maioria das notas biográficas sobre Alphonse de Beauchamp encontradas em algumas enciclopédias inicia o verbete qualificando-o como historiador15. Beauchamp ingressa no serviço militar a serviço do rei da 13 José Honório Rodrigues. Ao lado da virtuose desenvolvida sobre a figura de Denis.H. um nome não foi muito bem recebido pela fortuna crítica brasileira durante o século XIX. série “Grande formato”. Teoria da história do Brasil. 14 Maria Helena Rouanet. 145.1911encyclopedia. Não nos parece que Abreu e Lima tenha copiado Bellegarde. vol. No caso.17891815. 2007. Rodrigues em sua obra não é outra pessoa senão Denis. http://www. Algumas vezes encontramos ao lado do título de historiador o termo man of letters16. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. escrito com as mesmas palavras. Ouro Preto: 4 EDUFOP. p. é sua participação como homem público e sua atuação. 1949. no período da Revolução Francesa. Flávia Florentino Varella. Nacional. não haveria espaço suficiente dentro dos limites impostos para este texto.htm. em 1624. percebemos um Beauchamp renegado pela historiografia brasileira oitocentista. que diz ser a sua obra uma “tradução correta e aumentada” do Résumé de l’histoire du Brésil de Denis14. 15 Para a escrita desse esboço biográfico foram utilizados os seguintes sites: http://www. 1. ambos repetiram a mesma “autoridade”13. Se expuséssemos aqui toda a fortuna crítica sobre Denis. O que foi dito até aqui sobre a influência e contribuição do universo intelectual francês no Brasil e. afirmando essa hipótese através das palavras de Bellegarde. indica-se uma passagem de José Honório Rodrigues. Cit. demonstra o quanto esse universo contribuiu para a fundamentação de uma historiografia e uma literatura nacional no Brasil oitocentista. filho de um major local. Ed.). 16 A qualificação de Beauchamp como man of letters é encontrado na edição de 1911 da ENCICLOPEDDIA BRITANICA. Nascido em Mônaco em 1767. São Paulo: Cia. Op. Mas o que todas referenciam. Este nome é o de Alphonse de Beauchamp.utilizado durante o século XIX. Apesar do ótimo desempenho dos nomes citados até aqui. em nota menor ou maior. principalmente sobre o papel desempenhado por Denis.org/Alphonse_De_Beauchamp.com/beauchamp. Col. 129. II. nota 16. que diz o seguinte: Um exemplo flagrante do uso da cola e tesoura está no trecho referente à invasão da Bahia.

Beauchamp morre em 1832. Em seguida vem a descrição do Brasil com a exposição dos relacionamentos. das posições e costumes dos povoados brasilienses. Beauchamp colabora como principal redator para o Tables du Moniteur. Detendo-nos sobre a estrutura da Histoire du Brésil17. Beauchamp instaura residência na casa de seus familiares em Paris. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. para a Biographie Universelle e para a Biographie Modern. sob pretexto de ter cometido um abuso de confiança ao descrever as crueldades do regime de Fouché. Privado muitas vezes de recursos financeiros. sob o Diretório.). O capítulo que inaugura o livro tem como assunto as origens da monarquia portuguesa e suas conquistas na África e nas Índias. Em um de seus retornos do exílio. das revoluções e do estado atual (à época) do vasto território brasileiro. característica de vários autores dessa época que viam na oportunidade de publicação corrente em periódicos uma forma de aumentar seus recursos financeiros. o período analisado na obra cobre desde o descobrimento do Brasil até a chegada da Casa de Bragança no território colonial brasileiro. porém foi recebido com certo descontentamento pelas autoridades francesas. Flávia Florentino Varella. As sucessivas guerras que aconteceram entre os naturais e os portugueses. encarregado da supervisão de imprensa. e passa. para a Gazette de France. 2007. política e comercial. A publicação da Histoire de la Vendeé desestabiliza a posição de Beauchamp no cenário político francês. Ouro Preto: 5 EDUFOP. . Sob a Restauração. Devido a algumas complicações decorrentes da contração da cólera. publicado em três volumes no ano de 1806. escrevendo extensivamente para jornais públicos e algumas revistas.Sardenha em 1784. para o bureaux de Policia. 17 A edição original da Histoire du Brésil. Este livro teve boa recepção entre o público em geral. ou entre estes e as nações que ameaçaram seu domínio no território brasileiro. decorrente de sua participação em alguns eventos da Revolução de 89. A terceira edição foi confiscada e o autor detido em 1809 e exilado em Reims. Esta situação proporcionou a Beuachamp utilizar vasto material que resultou no seu primeiro e mais popular trabalho histórico – Histoire de la Guerre de la Vendée et des Chouans. A vida do autor é marcada por uma série de exílios. se vê forçado a entrar no bureaux do Comitê de Segurança Geral. Em 1811 recebe uma pensão pelos “direitos reunidos” e se ocupa de trabalhos literários. é ornada de duas gravuras que ilustram duas passagens do livro e de uma carta geográfica do Brasil. de 1815. Trata da história civil.

Alphonse de Beauchamp. Beauchamp percebe nessa situação um tipo de regeneração de Portugal. acompanha a história da origem das vicissitudes. Um interesse. narrativas de viagens e documentos oficiais. Ouro Preto: EDUFOP. e que estes trabalhos estiveram. configurando uma pequena quantidade de memórias. conhecido como um daqueles países que no limiar da Idade Moderna tiveram a feliz idéia de adentrar o mar 18 Cf. As fontes históricas utilizadas por Beauchamp aparecem no final do prefácio. o caráter político. Mas essa situação ilustra uma opção. reunidos na Biographie des jeunes gens.As notas de roda-pé são inexistentes na Histoire du Brésil de Beauchamp. Depuis sa découverte en 1500 jusq’en 1810. hoje a sede da opulência portuguesa ressuscitada e o centro de seu comércio e de suas riquezas. mas este grande e belo episódio de seus anais remete também sob seus olhos o triste quadro da decadência de sua opulência e de sua monarquia. dos progressos de seus estabelecimentos no Brasil. Histoire du Brésil. após sua idade de Ouro. p. 6 . demonstrando seu valor e exemplo a ser seguido. percebemos que Beauchamp pretende. leur génie et leurs actions héroïques. 1815. Paris: Librairie d’Éducation et de Jurisprudence D’Alexis Eymery. sont dignes d’être proposés pour modèles à la Jeunesse. XII-XIII. p. em grande parte. As divisões dos capítulos se dão de forma a priorizar o político. 19 Idem. cheio de exemplos de virtude que Beauchamp inicia sua narrativa histórica a partir das seguintes palavras: As expedições marítimas e a história dos estabelecimentos dos portugueses nas Índias recordam sua antiga glória.18 Quando se trata de citações no corpo da narrativa histórica de Beauchamp. assume um papel normativo dentro da narrativa histórica da Histoire. bem como o autor sempre enfatiza o caráter heróico de alguns deles. na maioria das vezes. Portanto. V-VI Flávia Florentino Varella. Essa questão do herói como exemplo de virtude é confirmada na Histoire principalmente se levarmos em consideração que grande parte do trabalho literário e histórico de Beauchamp esteve voltado para as biografias. par leurs vertus. Beauchamp deixa bem claro no prefácio do seu livro o abandono da crítica e do rigor erudito em prol de uma opção mais focada na narrativa dos fatos. parte delas são longas e integram o corpo do texto. pois.). Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. em última instância. qui. sem nenhum destaque a não ser as aspas percorrendo toda linha da citação. 2007. ou vies de grands hommes. E é sobre esse mesmo Portugal. narrar a história da civilização portuguesa no Brasil.19 Vislumbrando a vinda da família Real para o Brasil. Levando em consideração as características gerais da forma de exposição. tomo I. da fundação e do desenvolvimento prodigioso deste novo império do hemisfério austral. mais vivo.

portos vastos e multiplicados. os Tupis não reconhecem nenhuma divindade. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. 22 Alponse de Beauchamp. 2. Forte recorrência nos relatos de viajantes. Visto dessa forma. Cit. Reconhecido como um novo Império. solo rico e fecundo. A passagem que vem a seguir demonstra um Beauchamp preocupado em descrever a falta de fé dos nativos: Mais perto da brutalidade que do homem. podemos destacar um dos tópicos mais recorrentes na história da historiografia brasileira com relação à falta de rei. rios. Op. das letras F. um dos tópicos que mais contribuíram para fazer da América o lugar de uma utopia setecentista de uma “sociedade feliz” seria a inexistência. lugar que a natureza privilegiou com abundância de florestas. eles não parecem ter a menor noção de uma vida futura. metais preciosos. Esta ocorrência justificaria. Os recursos naturais. 60. p. exprime o nome de Deus.na tentativa de complementar os quadros econômicos ibéricos com a ativação de um comércio internacional. de lei e de rei. L e R. o país ibérico é visto apenas como um apêndice do cenário comercial europeu na passagem do século XVIII para o seguinte.20 Segundo Maria Helena Rouanet. Nenhuma palavra. em estado de progressiva autonomização com relação a Portugal. na sua língua. a importância da fundamentação do pensamento do século XVIII europeu21. ao menos seus costumes não indicam nada que anuncia o sentimento consolador que universalmente inspira a espécie humana. Ouro Preto: EDUFOP. assim como em Southey. Flávia Florentino Varella. rios navegáveis e numerosos. Sobre os indígenas. essa ausência justificaria a relação das três letras a uma ausência de fé. raças vigorosas de homens e animais. nem a idéia que nós ligamos ao mestre do universo. dentre as muitas referências citadas. Muitas vezes colocada em evidência através das descrições dos viajantes 20 Idem. p. Maria Helena Rouanet. o Brasil é apresentado à Europa como um lugar cheio de recursos naturais. etc. p. Op. sua constituição edênica formam um quadro dos objetos de descrição de Beauchamp. 2007. 86. lei e fé entre os selvagens.). em grande parte. montanhas escondem todos os metais preciosos: tais são os raros benefícios que uma feliz situação geográfica assegura ao Brasil22. o Brasil já aparece em Beauchamp. 21 7 . a exuberância da natureza. que pretende anunciá-las ao círculo de leitores que lêem sua obra: Clima salubre. na língua dos selvagens. florestas profundas e magníficas. Cit.

26 A implicância de Varnhagen com Beauchamp nasce justamente de duas oposições distintas: o brasileiro dá ênfase ao estabelecimento dos fatos históricos através dos documentos e miscelâneas variadas que representavam materialmente o passado colonial. Na verdade. Em contrapartida. Primeiro Juízo. dá a algumas idéias novas formas. 26 Francisco Adolfo de Varnhagen. 1990. Digo indiretamente porque o alvo principal de Varnhagen nesse juízo era Alphonse de Beauchamp.]”. 64. 1844 (6). 1974. O Brasil não é longe daqui.. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.).. decidiu plagiar a História do Brasilde Southey25. Varnhagen macula sua imagem. dizendo que ele “[.. Nacional. Varnhagen ataca indiretamente Abreu e Lima. 24 Cf. suprime outras. Varnhagen acusou Abreu e Lima de ter feito péssima e infeliz escolha ao escolher a Histoire du Brésil de Beauchamp como fonte para a escrita de seu Compêndio.. nas palavras de Varnhagen. a viagem. pelo Sr. Ed. que data de 1844. quando. Beauchamp preserva ainda um tipo de história pedagógica eloqüente como forma de exposição dos acontecimentos do passado... Sobre o autor francês.. Beauchamp e a historiografia brasileira do século XIX Apesar de Beauchamp ser um dos primeiros franceses no século XIX a perceber a peculiaridade histórica do Brasil. seu nome fora difamado durante um longo período na história da historiografia brasileira. Flávia Florentino Varella.] aproveita-se do trabalho alheio. Juízo. . das Letras. Nesse juízo. 23 Sobre a influência dos relatos dos viajantes na historiografia brasileira conferir Flora Süssekind. bem como sua progressiva autonomia com relação a Portugal. III. Podemos indicar como uma das origens desse descrédito o Juízo proferido por Varnhagen ao avaliar o Compêndio de História do Brasil. do general Abreu e Lima24. p. 2007. procura disfarçar o plágio. esse tipo de narrativa acabou desembocando num tipo de historiografia que encontrou seu espaço de reprodução no modelo corográfico23. e portanto mais perigoso [. José Inácio de Abreu e Lima. RIHGB. bem como sua Histoire du Brésil sofreu um grande descrédito dentro do campo bibliográfico eleito para se escrever a história do Brasil. Ouro Preto: 8 EDUFOP. 25 A primeira edição da History of Brazil de Robert Southey foi publicada entre 1806 e 1819. Sobre Southey e sua History of Brazil vale a pena conferir o trabalho de Maria Odila da Silva Dias. O fardo do homem branco. sacrifica muitas vezes a verdade histórica ao estilo fascinador. acerca do Compêndio da História do Brasil. em três volumes. Southey. São Paulo: Cia. Submetido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pelo Sócio Francisco Adolfo de Varnhagen. historiador do Brasil. tendo em vista que Beauchamp já tinha “praça assente no regime dos plagiários”.. O narrador. São Paulo: Cia. Francisco Adolfo de Varnhagen.naturalistas. publicado na Revista do IHGB.

da qual surgiu a historiografia moderna. 28 Francisco Adolfo de Varnhagen.. mais digno de verdade do que as narrativas antigas eivadas de erros e falsidades.. a opção de Beauchamp: Os eruditos me reprovarão sem dúvida por não ter enchido as páginas desta história [Histoire du Brésil] de notas. a pesquisa antiquária ganhava um grande vigor com a descoberta de moedas. p.. guardados nos arquivos de um país.] Poderíamos alhures opor ao sistema de citações minuciosas a autoridade dos historiadores da antiguidade. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. Varnhagen e Beauchamp representam.. vol. rompendo com o modelo cíclico do Renascimento..] infelizmente não sou um erudito. apesar do crivo da historiografia oficial do Império se basear num tipo de escrita da história decorosa e no veto ao estilo verboso. 74. Ouro Preto: 9 EDUFOP. A autoridade dos historiadores antigos começava a ser rebatida pelo crescente empirismo fundado no trabalho dos eruditos e antiquários. 2007. a historiografia sobre o Brasil se delineava desde o início do século XIX sob vários prismas. e que a cultura de presença fora minada pela invenção da mente 27 Sobre este assunto conferir o artigo de Valdei Lopes de Araújo. nº36: p.]. estátuas.] As memórias são para a história o que as cores são ao pintor [. De um lado vemos o testemunho de Varnhagen: Pois. [. que os conservou sempre no maior recato. Flávia Florentino Varella. “Para além da autoconsciência moderna. [. de citações e comentários. e que são submetidos a exames paleografos [sic]. A historiografia de Hans Ulrich Gumbrecht”.. e ao exemplo de muitos historiadores modernos que marcham sobre suas pegadas. 29 Alphonse de Beauchamp. 314-328. Jul/Dez 2006.29 Entre eloqüência e erudição. em certa medida. quando há neles a mínima suspeita?28 Do outro lado. Ao analisar a existência de duas culturas no Ocidente – uma de sentido e outra de presença – Hans Ulrich Gumbrecht diz que a Modernidade se fundamentou em cima de uma cultura de sentido. XII-XIII.).. Belo Horizonte. medalhas. Op. construções e etc.A Querela entre Antigos e Modernos coloca em cheque o topos de uma História Mestra da Vida enquanto uma concepção que ordena o tempo histórico. p. [. O presente começa a ser percebido com um momento em contínua transição27. Ao mesmo tempo. 22. Cit. que melhores e mais seguros guias quer para a História. . a convergência entre eruditos e historiadores clássicos. Principalmente página 316. que parecia representar um tipo de documentação muito mais sólido. no fim do século XVII e início do século XVIII começou-se a pensar na superioridade do presente sobre o passado. Varia História.. do que os próprios documentos originais e autógrafos. únicos modelos que possuem uma crítica saudável. Principalmente entre os franceses.

ver o texto de Reinhart Koseleck. pois. nada impediu que elementos de uma cultura de presença fizessem parte dessa produção historiográfica. Ouro Preto: 10 EDUFOP. conhecimento este representado pelo trabalho erudito30. A publicação da História Geral do Brasil de Varnhagen veio confirmar a superioridade de um modelo historiográfico que.que fazia parte da escrita da história de Beauchamp. Cf. Idem. enquanto um estilo mais verboso e eloqüente. p. 324. levou esta a projetar nos documentos um tipo de materialidade que permitiu de certa forma tocar o passado através de uma transcendência do presente em direção a este passado. diferente do modelo proposto por Beauchamp. Op. Contribuição à semântica dos tempos históricos. excitava a força máxima dos documentos na escrita da história. 33 Sobre isto. que ao mesmo tempo. de certa forma. era renegado como exemplo a ser seguido. Cit. Valdei Lopes de Araujo. o outro (Beauchamp) acredita que essa autoridade reside exatamente nos historiadores da Antigüidade e nos historiadores modernos que seguem seus passos. 2006. Flávia Florentino Varella. forjava um futuro e uma tentativa de imortalidade do passado brasileiro para a nação que se tentava construir no século XIX. 2007. a aceleração do tempo no contexto brasileiro gerava uma nova orientação com relação ao espaço de experiência e o horizonte de expectativa. p. 31 . Contraponto. Não devemos nos esquecer que o uso sistemático da documentação no século XIX é uma característica que a historiografia moderna toma para si através de uma herança da tradição antiquária31. 30 Sobre a obra de Gumbrecht vale a pena conferir o artigo de Valdei Lopes de Araujo. Rio de Janeiro: EdPuc-Rio. situação que a historiografia clássica considerava desprestigiada. percebemos que enquanto um apóia a autoridade de seu discurso na documentação (Varnhagen). que postulava que “nenhum conhecimento verdadeiro poderia ser produzido com as mãos sujas”. In__: Futuro Passado. 325. Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org. tocar um passado perdido. O trabalho erudito procurava. Op. característica de uma cultura de presença em contraponto a uma cultura de sentido. Observando as palavras ditas acima por Varnhagen e por Beauchamp. “Espaço de Experiência e Horizonte de Expectativa”. 32 Apesar da historiografia moderna ser motivada por uma cultura de sentido. ou seja: procurava transcender o presente em direção ao passado através de uma materialidade que restou deste. Cit. conduzindo a historiografia brasileira ao elementar interesse pelo estabelecimento dos fatos a partir de uma rigorosa crítica documental.humana em Descartes. A preeminência de uma herança da tradição erudita na historiografia moderna32.). a sensação de que o passado se tornava cada vez mais distante e diferente do presente33.