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CENTRO UNIVERSITÁRIO DE JOÃO PESSOA - UNIPÊ
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E EDUCAÇÃO CONTINUADA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CRIMINOLOGIA E PSICOLOGIA
INVESTIGATIVA CRIMINAL

CÉLIA MARIA SILVA SANTOS

A NEGOCIAÇÃO EM GERENCIAMENTO DE CRISE COM A INTERFERÊNCIA DA
SÍNDROME DE ESTOCOLMO E OS REFLEXOS NO DIREITO PENAL

JOÃO PESSOA
2015

1

CÉLIA MARIA SILVA SANTOS

A NEGOCIAÇÃO EM GERENCIAMENTO DE CRISE COM A INTERFERÊNCIA DA
SÍNDROME DE ESTOCOLMO E OS REFLEXOS NO DIREITO PENAL

Monografia apresentada à Pró-Reitoria de PósGraduação e Educação Continuada do Centro
Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, como
exigência parcial para a conclusão do Curso de
Especialização em Criminologia e Psicologia
Investigativa Criminal.

Orientador: Ten Cel PMPB Dr. Onivan Elias de
Oliveira

Área: Direito Penal

João Pessoa
2015

2

S237n

Santos, Célia Maria Silva.
A negociação em gerenciamento de crise com a
interferência da Síndrome de Estocolmo e os reflexos no direito
penal / Célia Maria Silva Santos.- João Pessoa, 2015.
51f.
Monografia (Curso de Especialização em Criminologia e
Psicologia Investigativa Criminal) –
Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ

1. Negociação. 2. Gerenciamento de crise. 3. Síndrome de
Estocolmo. 4. Direito Penal. I. Título.

UNIPÊ / BC

CDU – 343.549

3

TERMO DE RESPONSABILIDADE

Eu, CÉLIA MARIA SILVA SANTOS, discente devidamente matriculada no
Curso de Especialização em Criminologia e Psicologia Investigativa Criminal,
matrícula nº 1411010079, declaro para todos os fins de direito e para salvaguardar
na pessoa do meu Professor Orientador, Ten Cel PMPB Dr. Onivan Elias de Oliveira,
bem como do Centro Universitário de João Pessoa/UNIPÊ, que a monografia
intitulada “A negociação em gerenciamento de crise com a interferência da
Síndrome de Estocolmo e os reflexos no direito penal” é autêntica e foi por mim
produzida, submetida à avaliação técnica, correções gramatical e ortográfica, não
constituindo cópia ou plágio de qualquer outra pesquisa acadêmica anteriormente
realizada.

João Pessoa, 22 de outubro de 2015.

__________________________________________________________
CÉLIA MARIA SILVA SANTOS
RG 3.061.477-5 SSP/SE

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AGRADECIMENTOS

A Deus, pela força e proteção de cada dia.
A meus pais, Vilomar e Lucivone, e a minhas irmãs, Juliana e Olga, por
sempre acreditarem em meu potencial, pelo amor e pelo apoio imprescindíveis à
concretização desta jornada.
A meu orientador, Ten Cel PMPB Dr. Onivan Elias de Oliveira, pelos
ensinamentos ao longo do curso de especialização, pela paciência e pela atenção
dispensadas nessa última etapa.
A Douglas, pela compreensão, pela perseverança, pelo estímulo e pelo amor
indispensáveis aos longos períodos de aula e de elaboração da presente
monografia.
Aos colegas de sala, pela amizade construída ao longo desses quinze
meses de estudo.
Aos demais mestres do curso de especialização, pelo aprendizado
concedido.
Muito Obrigada.

e necessária no impasse da aplicação do direito penal. Para tanto. os dos reféns ou das vítimas.5 RESUMO A temática abordada no presente trabalho monográfico se resume à importância da atividade do policial negociador na contenção e resolução de uma crise. da dinâmica desenvolvida pelas polícias militar e civil brasileiras. procedeu-se à farta pesquisa doutrinária e jurisprudencial acerca da identificação de uma crise. a situação por meios pacíficos. Nesse contexto de busca da preservação da vida. como. Gerenciamento de crise. Palavras-chave: Negociação. ressaltando a atividade do negociador. sejam os do causador da crise. mais do que a conhecida força tática das polícias militares. contudo. Direito Penal. pela ótica do negociador. mas que pode também obstaculizar o trabalho do policial negociador – ocultando a realidade que rodeia as vítimas no epicentro da crise – e do aplicador do direito – impedindo que se alcance a imputação de crime ao causador do evento crítico. a qual pode trazer consequencias positivas e/ou negativas. pelo envolvimento que os reféns tiveram com os causadores do risco. Síndrome de Estocolmo. por vezes. ao máximo. com o fito de contornar. um empecilho no efetivo cumprimento da lei. objetivou-se demonstrar a interligação existente entre o direito e a psicologia. que se torna aliada na preservação da vida de reféns. pela ótica do aplicador do direito. O interesse em trabalhar a questão adveio da crescente demanda no uso da negociação em um evento crítico. com o fito de gerenciar o evento crítico. . ao ponto de tentar protegê-los de qualquer imputação delituosa. a fim de se garantir e preservar os direitos de todos os envolvidos. ou os dos policiais. vista. é que surge a problemática da Síndrome de Estocolmo. inclusive quando da presença da Síndrome de Estocolmo na casuística surgida. principalmente dos reféns subordinados ao julgo dos seus captores. Diante disso. como importante garantia da preservação da integridade física das vítimas reféns. quando da interferência da Síndrome de Estocolmo. presente na resolução de uma crise. e do enfrentamento da temática da Síndrome de Estocolmo.

Searching for life preservation.6 ABSTRACT This research is focused on the importance of the police as a negotiator to solve and control a crisis. Criminal Law. victims or the police. always using peaceful solutions in the situation. The purpose of this research is to demonstrate the interaction between the law and psychology used in the solution of a crisis and required to apply the law when the Stockholm Syndrome interferes in the situation. . The research of this project was based on case law.The interest of this work came from the growing demand using negotiation in critical cases. the Stockholm Syndrome causes an obstacle to the law. as a negotiatior. which can bring positives or negatives consequences. Crisis Management. always trying to protect them from the law. especially of the victims that are subordinate to the criminal. It is also important to point out the Stockholm Syndrome that can help to preserve the life of the victims but can also create an obstacle to the negotiator and for the law because it can hide the reality of the victims in the crisis situation. seeing from the perspective of the negotiatior as a guarantee of the physical integrity of the victims. such as the person the criminal. even when the Stockholm Syndrome is involved in a situation. Keywords: Negotiation. this method has the purpose to preserve the rights of all the people involved in the situation. however for those that are responsible to apply the law. it is important to talk about the problem of the Stockholm Syndrome. more used than the military strategies. Stockholm Syndrome. jurisprudence and in the interaction developed by brazilian military and civil polices trying to solve the critical situation. because of the relation between the victims and their kidnappers.

......1...........................37 4.......7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................... Brasil..........13 3 O GERENCIAMENTO DE CRISE E A NEGOCIAÇÃO DE REFÉNS....................................................50 ..................29 4 A SÍNDROME DE ESTOCOLMO......................................3 Sequestro de Natascha Kampusch – Viena.................................................................................................................1.........................................................18 3.............................................................12 2..........1...................................18 3......................................................1 A INSTALAÇÃO DE UMA CRISE E OS SEUS PERSONAGENS......................................................48 REFERÊNCIAS............37 4...........................................................................36 4..... Estados Unidos...36 4..........2 Sequestro de Patty Hearst – Califórnia......................................................38 4......................3 A NEGOCIAÇÃO COM REFÉNS..2 CARACTERÍSTICAS E SINTOMAS PERCEPTÍVEIS DA SÍNDROME DE ESTOCOLMO................1 HISTÓRICO............4 Sequestro de Patrícia Abravanel – São Paulo..............................1......1 AS POLÍCIAS MILITAR E CIVIL E SEUS FUNDAMENTOS ........2 A ESTRUTURAÇÃO DO GERENCIAMENTO DE UMA CRISE...1 Assalto ao Kreditbank – Estocolmo.......39 4.........26 3.......................................2 A FORMAÇÃO DOS GRUPAMENTOS OPERACIONAIS TÁTICOS DA POLÍCIA MILITAR......................8 2 A SEGURANÇA PÚBLICA E OS GRUPAMENTOS OPERACIONAIS TÁTICOS POLICIAIS..............................................3 REPERCUSSÃO DA SÍNDROME NA SEARA JURÍDICO-PENAL.......................................10 2...................................................................... Áustria............................42 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS. Suécia.................................................34 4.............

quando da incidência da Síndrome de Estocolmo. desde a estruturação da organização policial para lidar com o evento crítico. com realce na atuação do policial negociador. objetiva abordar o aspecto da interação entre o direito e a psicologia. A relevância social se dessume do fato de que. demandando destas um preparo específico para enfrentar os provocadores da crise. que envolve diversos setores da corporação policial. garantindo a sobrevivência destes e dos reféns. em especial. Para tanto. os direitos constitucionais dos policiais e das vítimas. O interesse nessa abordagem temática surgiu em virtude dessa delicada casuística que mais frequentemente vem sendo apresentada às corporações policiais. demonstrada na presença de psicólogos durante o gerenciamento de uma crise. o direito e a psicologia. a qual pode se tornar um obstáculo à aplicação da lei penal aos provocadores do evento crítico. até o enfrentamento da questão da Síndrome de Estocolmo. a pesquisa se mostra como uma linha interpretativa da necessidade de. através da negociação. até no exame da . o Direito se interligar com outros ramos do saber. ante o reflexo que essa atuação pode promover após o seu término e. de modo geral. principalmente quando se deparar com o desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo entre as vítimas. pois assim preservará também. buscando-se a solução de uma crise da forma mais pacífica possível. e na mesma proporção. tem-se por norte que o gerenciamento de crise é uma atividade complexa. no presente estudo. de forma equilibrada. o presente trabalho monográfico objetiva. cada vez mais.8 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho apresenta a conjuntura envolta da negociação de reféns em uma crise. Já quanto à relevância acadêmica. a garantia dos direitos fundamentais deste deve ser mantida. mesmo diante de um potencial transgressor da lei. visando à correta aplicação do direito durante a crise. e de forma mais específica. analisar o aparato policial que é erguido e designado para conter um evento crítico. cujos reflexos se dão desde a crise instalada até depois do seu fim. que em seu mister tem a incumbência de ponderar. O cerne dessa pretensa pesquisa gira em torno da importância em primar pela atividade do policial negociador. Nesse contexto. como a Psicologia. exigindo-se de cada grupamento designado a atuar no evento crítico um estudo aprimorado da casuística apresentada.

através de consulta à doutrina. melhor se desenvolve a sua atividade. apresentando os casos internacionais que mais relevância trouxeram ao estudo da Síndrome. na medida em que mais se aprofundam no assunto. seu significado. ou mais acervo bibliográfico é posto à disposição da corporação policial. com abordagem qualitativa. é a dedutiva. há tempos. atuação do policial negociador na contenção da ameaça. e as adaptações e evoluções necessárias diante da atual conjuntura da criminalidade. sendo que no primeiro capítulo será evidenciada a atividade policial. como a norte-americana. de modo puramente formal. para se chegar à lógica particular implícita nessa generalidade. por polícias outras. em consonância com o que já vem sendo desenvolvido. por fim. sua classificação em grau de ameaça. bem como lhe é apresentada e ressaltada as consequências advindas de incidentes que podem ocorrer durante a crise – Síndrome de Estocolmo – com reflexos para além da casuística em que se desenvolveu. E o terceiro e último capítulo tratará do significado da Síndrome de Estocolmo. cujos efeitos se prolongam para além do evento crítico e interferem de modo relevante na análise processual dos participantes do conflito. É importante que seja trazido mais essa abordagem sobre a temática da negociação e da Síndrome de Estocolmo porque as polícias militar e civil brasileiras vem. A linha metodológica a ser seguida. No segundo capítulo será abordada as nuances envoltas de uma crise. Quanto ao procedimento.9 Síndrome de Estocolmo. . com seus fundamentos e princípios norteadores. seus participantes. a artigos publicados. Nesse ínterim. com a interferência da Síndrome de Estocolmo e as implicações desta no ordenamento jurídico brasileiro se dá em três capítulos. através da investigação. inserindo esse proceder mais pacífico – negociação – nas suas atividades. partindo-se de formulações gerais procedentes de princípios reconhecidos na dogmática. evidenciando a interferência dessa doença na persecução criminal ao causador da crise. o estudo sobre a negociação presente no gerenciamento de crise. segue-se o histórico-interpretativo. e cada vez mais constante. a técnica de pesquisa utilizada é a bibliográfica. quanto à abordagem. E. e. à legislação e à jurisprudência pátrias. com enfoque no gerenciamento do evento crítico e na importante. baseado na linha doutrinária e jurisprudencial de uma interpretação das leis e dos princípios jurídicos. cada vez mais.

e as práticas policiais continuam marcadas pelos estigmas de classe. sem distinção de qualquer natureza. o trabalho. o medo da sociedade não é ilusório nem fruto de manipulação midiática. dever do Estado. seja nos gestos de atrocidades e meios aplicados. a se ver: Art. por diferentes razões.] Art.] Art. à liberdade. dentre os quais a gritante desigualdade social que ainda impera na nação. na forma desta Constituição. 5º Todos são iguais perante a lei. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. direito e responsabilidade de todos. 2014. entre as quais devem ser sublinhadas as seguintes: (a) a magnitude das taxas de criminalidade e a intensidade da violência envolvida. tornando-se dever do Estado a sua efetiva prestação. à segurança e à propriedade. a alimentação. p. a moradia. penetra cada vez mais nas instituições públicas.. A crescente violência na sociedade brasileira. vem “inovando” em cada nova constatação. (c) a degradação institucional a que se tem vinculado o crescimento da criminalidade: o crime se organiza. e o direito trivial de ir e vir. a segurança pública vem sendo objeto de repetidas políticas públicas organizacionais. haja vista o contexto extremamente dinâmico em que se consagra.. a segurança. que permanecem sem acesso aos benefícios mais elementares proporcionados pelo Estado Democrático de Direito. que tem suas raízes nos mais diversos motivos. (b) a exclusão de setores significativos da sociedade brasileira. seja em suas vítimas. 6º São direitos sociais a educação. através dos seguintes órgãos. a assistência aos desamparados. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 trata da segurança pública em seus artigos 5º. [. isto é. A segurança pública. a previdência social. como liberdade de expressão e organização.. E acrescenta: Indispensável é compreender que segurança pública é matéria de Estado. a saúde. a proteção à maternidade e à infância. o lazer. [. Soares (2003 apud DUARTE. corrompendo-as.16) assevera que: Hoje. .. O quadro nacional de insegurança é extraordinariamente grave. cor e sexo. o transporte.10 2 A SEGURANÇA PÚBLICA E OS GRUPAMENTOS OPERACIONAIS TÁTICOS POLICIAIS Direito constitucional e fundamental assegurado aos cidadãos. é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. à igualdade. nos termos seguintes. 6º e 144. 144.

recuperação e tratamento dos que violam a lei. Esta situação não é difícil de se encontrar. geralmente. 2003 apud DUARTE. tem obstaculizado a concretização de diversos outros. Bengochea (2004 apud CARVALHO. Para ser responsabilidade superior precisa constituir-se como responsabilidade de todo o governo. um conjunto de conhecimentos e ferramentas de competência dos poderes constituídos e ao alcance da comunidade organizada. 2014. p. do poder judiciário e da própria sociedade. ficando em prejuízo e à mercê do medo o cidadão de bem.. igualmente fundamentais. Às instituições ou órgãos estatais. A segurança da sociedade surge como o principal requisito à garantia de direitos e ao cumprimento de deveres. estabelecidos nos ordenamentos jurídicos. a mais interessada. tendo como eixo político estratégico a política de segurança pública. al. . (CARVALHO. compromissos e objetivos comuns. facilmente se constata a presença da “lei do silêncio” ou do “toque de recolhida” impostos. em contrapartida. A segurança pública é considerada uma demanda social que necessita de estruturas estatais e demais organizações da sociedade para ser efetivada. num mesmo cenário. p. visando assegurar a proteção do indivíduo e da coletividade e a ampliação da justiça da punição. o conjunto de ações delineadas em planos e programas e implementados como forma de garantir a segurança individual e coletiva. 2011. incumbidos de adotar ações voltadas para garantir a segurança da sociedade. necessário se faz o desligamento com o modelo tradicional de policiamento para. a insegurança que assola a sociedade. e otimizado porque depende de decisões rápidas e de resultados imediatos.16) Consoante se destaca.62) afirma que: A segurança pública é um processo sistêmico e otimizado que envolve um conjunto de ações públicas e comunitárias. Um processo sistêmico porque envolve. 60) Diante desse quadro. além de lhe privar de um de seus direitos fundamentais. A participação da sociedade civil é outro componente fundamental. por traficantes de drogas que dominam determinadas comunidades. garantindo direitos e cidadania a todos. (SOARES. et. interagindo e compartilhando visão. e que não é atual. p. ou das grandes “gangues” que conseguem estender suas atuações de dentro dos presídios até as comunidades. como a moradia. não só das polícias e das secretarias de Segurança e de Justiça. a alimentação e o próprio direito de ir e vir. ou seja.11 não apenas de governo. denomina-se sistema de segurança pública. 2011. muito embora assegure a Constituição da República brasileira de 1988 ser dever do Estado a garantia da segurança pública. No seio das comunidades mais carentes de cada estado brasileiro. entrar em cena a implementação de mais ações conjuntas da polícia.

o papel investigativo. ou mesmo no auxílio à justiça. sobre as funções de cada um. discorrendo. 2014. exclusivo da polícia militar. tão-somente. a competência específica dos demais órgãos policiais. enquanto que à Polícia Civil cabia.12 Foi nesse contexto de rupturas. 2. a polícia ferroviária federal. sistematização de ações pontuais fundamentadas na valorização do ser humano em todos os aspectos. Todavia. 6) ensina: A competência ampla da polícia militar na preservação da ordem pública engloba. as polícias civis. Lazzarini (1996 apud GRECO. p. quando da constatação da flexibilidade das funções destes profissionais. a polícia rodoviária federal. a exemplo de suas greves e outras causas. classicamente. em um primeiro momento. quando da realização de escoltas a presos em audiências judiciais . igualmente. tais como o tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo . em tese. a polícia militar é verdadeira força pública da sociedade. bem como a atuação dos policiais civis junto às blitz realizadas por todo Brasil. Contudo. dentre os quais. as polícias militares e os corpos de bombeiros militares. Greco (2014) leciona que essa diferenciação vem sendo aos poucos mitigada. Nesse contexto. Concentrando-se mais os estudos nas polícias militares e civis. como a atuação investigativa dos policiais militares. como auxílio à justiça. pois. inclusive. preventivo e ostensivo. em uma atitude preventiva de crimes. seja na atividade repressiva.papéis estes entendidos como cabíveis apenas à polícia civil. à Polícia Militar cabiam os papéis repressivo.1 AS POLÍCIAS MILITAR E CIVIL E SEUS FUNDAMENTOS A Constituição da República brasileira de 1988 elenca como órgãos responsáveis pela segurança pública a polícia federal. no caso de falência operacional deles. mudanças de paradigmas. ao se depararem com uma ocorrência policial. na ostensiva ou na . o surgimento dos grupos operacionais táticos. considerando os elevados e inovadores índices de criminalidade que a própria corporação da Polícia Militar também realizou ajustes internos. que os tornem inoperantes ou ainda incapazes de dar conta de suas atribuições. seja na preventiva.papel este.

p. Afora estes princípios. rotineiramente. retira da corporação policial a imagem de combatentes violentos. o Brasil começou a evoluir reconhecidamente para um Estado Democrático de Direito. os membros de uma corporação policial devem se nortear pela incondicional observância do princípio fundamental da dignidade humana e pelo fiel cumprimento da lei. e dando exemplo a demais membros da sociedade no que diz respeito ao cumprimento da lei. 2. a conduta policial também deve sempre ser pautada na eticidade. a "troca de favores" com grupos criminosos e traficantes de drogas.13 investigativa. como quando ocorre. Neste sentido. razoabilidade. o respeito dos direitos humanos por parte das autoridades responsáveis pela aplicação da lei reforça de fato a eficácia da atuação dessas autoridades. de puro uso da força bruta. ao mesmo tempo que constroem uma estrutura de aplicação da lei que não se baseia no medo ou na força bruta. pois.] os agentes policiais e serviços responsáveis pela aplicação da lei que respeitam os direitos humanos colhem. o respeito à dignidade da pessoa humana e. após um longo período de recessão. além de torná-los vistos como parte integrante da comunidade.2 A FORMAÇÃO DOS GRUPAMENTOS OPERACIONAIS TÁTICOS DA POLÍCIA MILITAR Em meados da década de 80. ou mesmo a não prestação do serviço por propina. [. por exemplo. mas antes na honra. muito embora a mídia. fazendo prevalecer o profissionalismo destes policiais.. benefícios que servem os próprios objetivos da aplicação da lei. aos direitos humanos. com mudanças salutares e precisas à população que tanto sofreu com as agruras do . tenha mostrado à população a escandalosa corrupção que também alcança as unidades policiais. desempenhando uma função social válida.15-16) assevera que: Pelo contrário. haja vista seu dever constitucional de zelar pela segurança pública. além de ser um imperativo ético e legal.. Fato é que. 2014. servindo a comunidade e protegendo as pessoas com base na legalidade. constitui também uma exigência prática em termos de aplicação da lei. o respeito da polícia pelos direitos humanos. É nessa ótica que Lasso (2001 apud GRECO. De outra forma não se poderia esperar. por extensão. a facilitação da entrada de materiais proibidos nas penitenciárias. no profissionalismo e na dignidade". proporcionalidade e necessidade.

que a polícia. Pautados nessa nova ótica apresentada. o qual deveria ter um treinamento específico. incluindo materiais de combate mais tecnológicos. emocional daqueles combatentes. aproveitando-se do terreno fértil de mudanças e evoluções. não estava obtendo êxito na contenção do crime. dai-nos o medo. principalmente no que tange às sucessivas tomadas de reféns. encontra-se presente inclusive na Oração do Guerreiro do GATE. na sociedade. seja pelo poderoso armamento que começou a ser contrabandeado para as mãos dos criminosos. bem como no anseio da população por maior segurança ante a violência urbana crescente. sempre com vista ao melhor preparo para o enfrentamento das circunstâncias em que seriam exigidas a presença desses grupos especiais. a fé. Tornou-se notório tanto dentro das corporações policiais. ante a inusitadas situações de violência que lhes apareciam. quanto fora. A vontade desvinculada de qualquer obrigatoriedade de adentrar em uma equipe onde a perseverança. A diferença deste grupo especial já se iniciava pelo ingresso do candidato. por vezes. que diz: Ó Senhor meu Deus. Contudo. dai-nos o frio. sendo um marco nesta década a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.14 período militar. a qual disseminava mais a insegurança e intranquilidade. outros podem. a própria polícia enxergou a necessidade de criação de um grupamento especial. o qual se dava pela voluntariedade. equilíbrio emocional e comprometimento com os colegas de trabalho se tornariam o norte das atividades. mas não podem. Uns têm. ainda que com toda a sua prática e efetivo policial despendido. dai-nos a fome. dai-nos somente aquilo que vos resta. incutia no candidato o sentimento de pertencimento que o fazia atravessar os pesados treinamentos. a criminalidade também se fez presente. ó Senhor. . sendo surpreendidos com novos e mais potentes armamentos utilizados pelos bandidos. com um “aperfeiçoamento” em suas ações. deixando à vista o despreparo físico e. a coragem e a vontade de vencer. seja no modus operandi de suas intentadas. diante de novos enfrentamentos com criminosos. p. no interior da corporação. e ao êxito da equipe. mas dai-nos acima de tudo. Lucca (2014. servindo de apoio residual às guarnições policiais. 26-27) ressalta que esta consciência de estar em um grupo que lidará apenas com as situações mais inusitadas e que exigem muito mais do ser humano.

furtiva. uma vez que as coisas boas já foram pedidas pelos outros. de atuação em missões pontuais que exigem destes uma constante atualização das mais modernas táticas de ação. prudente manter o pé no chão e invocar o apoio de uma força superior ou pelo menos aceitar que ela exista.Controle emocional. o guerreiro reconhece que há fatores não controláveis por ele. a força. portanto.. Esses fundamentos precisam ser absorvidos integralmente para a manutenção dos pressupostos éticos e morais do indivíduo e do grupo como um todo.Flexibilidade. o treinamento dos policiais é preparado com o fito de jamais estes combatentes agirem com base em “achismos”. 2º . fidelidade aos princípios doutrinários.] Por outro lado. São eles: 1º .Espírito de corpo. [. [. e que o risco é inevitável sendo. de forma audaz. agradecemos ao Senhor. a sede. E explica o significado da referida oração: Nessa oração estão contidos muitos atributos pertinentes e particulares de um homem de operações especiais.Versatilidade.Perseverança e 11º . da surpresa. 4º . engenhosa. Não se trata de apenas querer.Honestidade. os mandamentos das Operações Especiais ajudam a manter o moral elevado. p. 3º . o frio e o medo expressa-se de forma subliminar e alegórica estar preparado para qualquer adversidade. em virtude do caráter especial destes combatentes. É no mínimo curioso pedir a Deus só algo que resta. da repetição e o do propósito. são necessários também alguns requisitos que nem todos possuem ou que nem todos podem desenvolver. Entre eles. Quanto aos fundamentos e mandamentos éticos estabelece: Os fundamentos éticos. voluntariado. a vontade de vencer.Disciplina consciente.. 9º . 10º . (grifo do autor) Como cediço. da simplicidade..Agressividade controlada. ao pedir a Deus a fé. . 27) Como toda e qualquer conduta policial.Liderança. mas sim. 2014. Ao pedir a fome. Betini (2014 apud GRECO. só os que forem constantes em sua virtuosidade é que permanecerão. a coragem. com precipitações ou improviso. são: responsabilidade coletiva.15 mas não tem. da rapidez.] o guerreiro reconhece a importância de seu pertencimento a um grupo que possui menos vagas em relação à quantidade de pessoas que desejam ingressar. Além dos fundamentos éticos. 5º . (LUCCA. comuns aos Grupos de Operações Especiais.Iniciativa. com objetivo definido. 8º . os militares pertencentes aos Grupos de Operações Especiais também pautam o seu servir em princípios.Lealdade. fundamentos e mandamentos éticos. entre os melhores. 6º . 2014. apenas os melhores terão essa chance e. dever de silêncio (o operador deve ser discreto em sua vida profissional e particular) e comprometimento. p. os quais sintetizam os objetivos buscados em cada operação policial. Nós que temos e podemos. 7º .. 340-341) elenca seis princípios das Operações Especiais: o da segurança.

desenvolvendo um alto controle emocional para o êxito das operações críticas a que são chamados. abordagem e condução de cidadãos infratores. resgate de feridos. sala de atiradores de precisão. direção ofensiva. inclusive com o apoio sempre presente do grupo de Inteligência. casa de tiro. Estágio de Aplicações Táticas no BOPE. Existe. (BETINI. retomada de trem e metrô. sobrevivência na água. ainda. 339) Consoante se expõe. muro especial para treinamento com explosivos. noções de tiro de precisão. 2014 apud GRECO. negociação. tatame.. armamento e tiro. não esquecendo de sempre enaltecer o trabalho em equipe. cuja sede dispõe de [. desempenho. como a cidade cenográfica com 1200m² e o tanque tático para treinamento de mergulho e operações anfíbias. retomada de aeronaves (São Paulo). a gestão de pessoas nas tropas especiais é baseada em quatro requisitos: potencial.] estande de tiro iluminado com extensão de cem metros. 2014. retomada de navio (Rio de Janeiro). pista de obstáculos. controle de distúrbios civis. salvamento aquático. patrulha rural. Estágio de Combatente de Montanha do Exército Brasileiro em São João Del Rey. antiterrorismo e contraterrorismo. técnicas de abertura. alojamento e setor administrativo. p. combate corpo a corpo. em Manaus. por exemplo. pista de Cooper com 900 metros e múltiplas estações de atividade física. orientação e navegação terrestre. Polícia Militar do Rio de Janeiro. caixa de areia. retomada de ônibus. competência e comprometimento. estande de tiro coberto. sala do grupo de assalto. paraquedismo. setor de operações táticas (SOT). radiocomunicações. Amazonas. Curso Expedito de Operações Ribeirinhas da Marinha do Brasil. . combate e sobrevivência na selva. noções de chefia e liderança. Em linhas gerais. p.16 sempre com a seriedade e rigor técnico necessários. uso progressivo da força. técnicas em ambiente vertical. setor de estratégias táticas (SET). pista de cordas.. torre para treinamento de técnicas em ambiente vertical. planejamento operacional e explosivos. Polícia Militar de Pernambuco. a se ver: Primeiros socorros. heliponto. (BETINI. contempla diversas matérias. 2014 apud GRECO. técnicas e tecnologias menos letais. 2014. sala de recarga. gerenciamento de crises. Estágio de Adaptação à Caatinga na CIOSAC. setor de inteligência. a exemplo do COT – Comando de Operações Táticas da Polícia Federal. ter muita disciplina e aptidão para enfrentar um longo aprendizado físico e mental. Essa especificidade no treinamento já se inicia pela própria estruturação da sede do grupamento. Minas Gerais. 336) O curso para formação de combatentes do COT. operações aéreas. o policial integrante de um grupo de operações especiais deve. academia de musculação. uma série de edificações em construção. retomada de edificações. patrulha urbana. antes de qualquer coisa. auditório.

de permanecer no grupo. a instalação de uma crise com a conseguinte tomada de refém por criminosos. dentre as quais. quem tem alto potencial e alto desempenho está em condição. a virtude de querer fazer. e por comprometimento. mas de se tornar sério candidato a uma promoção ou a um desafio maior. 2014. p. organizados e devidamente fiéis aos preceitos que norteiam a sua corporação. (LUCCA. . não só de permanecer no grupo. 58-59) Treinados. Assim.17 Potencial e desempenho estão ligados à capacidade de entrega e às possibilidades de encarar novos desafios e até. o policial integrante de um grupo operacional tático está apto a enfrentar agruras maiores e circunstâncias as mais complicadas possíveis. no limite.. [.] entende-se por competência a capacidade de saber fazer..

3. qual seja o aumento da criminalidade e. "jogados" para a ocorrência com o objetivo único de findá-la. no passado remoto.1 A INSTALAÇÃO DE UMA CRISE E OS SEUS PERSONAGENS O termo “crise”. ou simplesmente crise. Ocorreu que. um efeito inverso também se fez presente. na medida do possível. os próprios criminosos acompanharam a devida adequação que a Polícia se enquadraria no que tange à preservação dos direitos de todo cidadão. não se tratando apenas do Brasil. 152). devido a uma maior confiança dos transgressores das leis de que sairiam vivos das situações que deram causa. p. p. Destas sucintas descrições se verifica que uma crise se configura como um estado momentâneo. 581). 1999. Com isso. sendo a "ordem maior" a garantia do direito à vida e à dignidade da pessoa humana. com a crescente democratização dos Estados. “manifestação violenta e repentina de ruptura de equilíbrio” (FERREIRA. diz respeito a um “evento ou situação crucial. sem a estipulação de critério algum para a ocasião. de ruptura de uma zona de conforto ou de equilíbrio de um ou mais indivíduos. vez que se configurava de maneira esporádica e pontual. aí se incluindo também o criminoso. na maioria das vezes de maneira não muito efetiva. consequentemente dos eventos críticos. praticamente. a fim de assegurar uma solução aceitável” (GRECO. a volta da estabilidade que antes persistia. 2014. ou também em bom português. devendo ser estritamente obedecido pelos comandos policiais. segundo o Federal Bureau of Investigation (FBI). vez que o próprio Estado lhes garantiria isso. pelos policiais que eram. que exige uma resposta especial da polícia. de duração não precisa e casuística. ainda que tivessem uma relativa perda de outros direitos a que lhes assistissem. apesar de a grande maioria dos exemplos de crise vivenciados por autoridades policiais. bem como os mais corriqueiros exemplos . não se caracterizava como uma situação apta a merecer um estudo e preparo singular por parte da Polícia. É importante ressaltar que. sendo contida. e isso a nível internacional. que acarreta a mobilização de setores institucionais do Estado com o fim de conter o evento e garantir.18 3 O GERENCIAMENTO DE CRISE E A NEGOCIAÇÃO DE REFÉNS Um evento crítico.

não só se entende por crise esta situação. mantém um número variável de indivíduos sob o seu poder de comando.16) Nesse contexto. a crise se caracteriza através da presença de alguns elementos em comum. . movimentos reivindicatórios que. meliantes. sejam eles as vítimas. ou mesmo os próprios provocadores do evento crítico. muito embora haja ocasiões em que as autoridades competentes tenham condições de prenunciar a instauração de uma crise. onde há tempos os detentos não veem garantidos seus direitos enquanto encarcerados. 2011. terceiros não afeitos ao evento crítico. p. envolver um cidadão que. desde muito deixou de se voltar exclusivamente para criminosos contumazes. ou mesmo movimentos reivindicatórios dos mais variados pleitos. Quanto mais tempo se prolongar o gerenciamento e a negociação de uma crise. a compressão de tempo e a ameaça à vida ou à integridade física das pessoas. e a isto recaem as responsabilidades penal. enfim.19 didáticos de um evento crítico. Casos de suicídios. A atuação do policial negociador ou gerenciador de crises. durante um determinado lapso temporal. justamente por envolver o tenso limiar entre a vida ou a morte de um ou alguns dos envolvidos no evento crítico. A imprevisibilidade diz respeito ao elemento surpresa tão presente nas crises. além da busca pelo equilíbrio anteriormente constatado. (SALIGNAC. por qualquer motivo. descambam para a violência ou o confronto. também são reconhecidos como potenciais situações de crise. A compressão de tempo está intrinsecamente relacionada a outra característica essencial da crise: a ameaça à vida ou à integridade física das pessoas. como é o caso de rebeliões em presídios. Isso se dá ao fato de que o objetivo primordial do gerenciamento de crise. através dos mais variados meios e artefatos materiais. pessoas portadoras de psicopatologias graves. Trata-se da urgência na resolução do conflito. quais sejam a imprevisibilidade. Casos de iminente suicídio de uma pessoa. é preservação da vida dos cidadãos. que pode descambar para uma crise. estão em sua área de atuação – e nesses casos. sejam estes reféns ou vítimas. os reféns. mais riscos correm todos os envolvidos. situação que inevitavelmente levará a uma insatisfação parcial ou geral dos apenados. não cabe rotular como “bandidos” os causadores ou provocadores do evento crítico. e a aplicação correta da lei. policiais pertencentes ao grupo de gerenciamento de crise. civil e administrativa pelos resultados obtidos.

A validade do risco traz em si a ideia de ponderação entre os riscos advindos da decisão e os resultados obtidos. (SALIGNAC. tanto pelas autoridades como pela comunidade e pela mídia. de baixa probabilidade de ocorrência. uma crise pode apresentar outras características peculiares: a) Necessidade de muitos recursos para sua solução. o terceiro grau. elenca três critérios fundamentais: a necessidade. moral – no que tange a não ir de encontro à moralidade e aos bons costumes daquela sociedade – e ética – referente aos ditames das organizações policiais. O Tenente Coronel da Polícia Militar do Estado da Paraíba. aquela em que existe a presença de elementos químicos. p. radiológicos.22) Verificando-se a presença das características elementares de uma crise. biológicos. c) Acompanhamento próximo e detalhado. as condutas praticadas pelos responsáveis no gerenciamento da crise devem ter um respaldo e aceitação legal. A necessidade diz respeito à tomada de decisões que sejam realmente indispensáveis ao bom andamento da negociação. mas graves consequências. Correspondente a cada grau de risco. A Academia Nacional do FBI. aquele em que existe a presença de explosivos independente da presença de reféns. aquele em que existe a presença de reféns. didaticamente se passou a estabelecer uma classificação do risco de determinada crise e do correspondente nível de resposta. b) É um evento caótico. determinados critérios basilares devem ser apreciados e adotados durante a tomada de decisões para a contenção do evento crítico. Onivan Elias de Oliveira. assim sendo. e o quarto grau. há o que o FBI adotou como níveis de resposta: . o segundo grau. E a aceitabilidade traz consigo três elementares: a legal. ou alto risco. bacteriológicos. Identificadas as características do evento crítico e os critérios de ação frente a este. a validade do risco e a aceitabilidade. ou ameaça exótica. 2011. ou altíssimo risco. nucleares ou fenômeno da natureza. ou ameaça extraordinária. a fim de uma melhor dinâmica entre os envolvidos no gerenciamento da crise. como sendo o primeiro grau. ou mesmo da resolução do conflito. aquele em que a única vida em risco evidente é apenas a do causador.20 Além dessas características essenciais. doutrinariamente discorre acerca dos graus de risco de uma crise. costumeiramente. a moral e a ética.

normalmente. Os indivíduos tomados como reféns não são. isolada ou conjuntamente com os reféns. inclusive de organismos de outros países. convém ressaltar que também há situações em que. Contudo. d) NÍVEL QUATRO (correspondente à AMEAÇA EXÓTICA): A solução da crise requer o emprego dos recursos do nível três e outros. 2010. a exemplo de um assalto a uma farmácia interrompido pela ação da polícia. 30) Identificado o grau de risco de uma crise. sendo antes objeto de seu ódio: o captor busca eliminação física dessas pessoas ou danos à sua integridade. (SALIGNAC. Os reféns seriam aqueles “que possuem valor real para o captor” (SALIGNAC. 2011. por qualquer razão. b) NÍVEL DOIS (correspondente à crise de ALTÍSSIMO RISCO): A solução da crise exige recursos locais especializados (emprego do grupo tático). como é o caso de suicídio. no nosso caso. Uma vítima não tem outro valor para quem a captura. previamente delimitados e escolhidos. de acordo com os níveis estabelecidos. fruto do inusitado. ao menos. O perpetrador da crise nada mais é do que o indivíduo que. recursos da sede. quando de seu objetivo primário. em regra. não devidamente evitado pelo causador da crise. também. 66). bem como a resposta a ser dada. mas sim. 2011. Dentro da categoria elementos operacionais estariam o negociador. Diferenciar entre uma e outra categoria muda radicalmente os rumos táticos e técnicos de uma negociação. modifica seu objetivo primário e se volta para terceiros que passarão a ser seu alicerce na garantia de sua sobrevivência – ressaltando que há casos de crise instalada com apenas o perpetrador figurando no meio. 16) e “não tem nenhum valor como pessoa para o sequestrador” (SOUZA.21 a) NÍVEL UM (correspondente à crise de ALTO RISCO): A crise pode ser debelada com recursos locais. 2011. o gerente da crise e o grupo tático. c) NÍVEL TRÊS (correspondente à AMEAÇA EXTRAORDINÁRIA): A crise exige recursos locais especializados e. Greco (2014) elencou como sendo três os elementos fundamentais envoltos a um evento crítico: o perpetrador da crise. (SALIGNAC. 16) . p. p. exceto o da realização dos desejos de seu captor. do elemento surpresa não esperado ou. em relação àqueles. vendo frustrada sua intentada delitiva. guardam uma tênue diferença. “Vítimas” formam uma categoria que diz respeito àquelas pessoas capturadas e que não têm valor para os captores. insta delimitar o papel de cada personagem envolto ao gerenciamento de crise. p. as vítimas também se fazem presentes e. os reféns e os elementos operacionais. p.

o fim a que suas ações se destinam. se a negociação técnica por qualquer motivo não prosperar. Por vezes se faz auxiliar por um segundo negociador. aceitar ser exposto a abusos. b) Deve ter facilidade para desempenhar tarefas cognitivas em estado de tensão. d) Deve manter a serenidade quando os circundantes a tiverem perdido. ou negociador secundário. senso comum e ser experiente com o trabalho operacional (das ruas). companheira (o). m) Deve aceitar o fato de que. É quem intermedeia o causador da crise e o gerente desta. c) Deve possuir maturidade emocional. j) Deve ter bom raciocínio lógico. O negociador é o que se pode dizer de peça-chave da primeira fase do gerenciamento de crise. diferentemente dos reféns. g) Deve ser o tipo de pessoa que facilmente se torna digno de crédito. preferencialmente um policial experiente e em excelente estado físico e mental. h) Deve ter habilidade para convencer os outros de que seu ponto de vista é aceitável e racional. principalmente pelo fato do menosprezo do perpetrador da crise em relação à vítima. a quem incumbiria a produção de relatórios acerca do andamento das negociações. ridículo ou declarações insultuosas sem respostas temperamentais. Geralmente são exemplificadas por familiares do captor. 191-192) elenca as características fundamentais de um bom negociador: a) O negociador deve ser voluntário.22 É que. e) Deve ser bom ouvinte. Fuselier (1988 apud SALIGNAC. i) Deve ter facilidade para se comunicar com pessoas de variados estratos sociais e econômicos. e são os “figurantes” do evento crítico que mais causam tensão entre as autoridades responsáveis pelo gerenciamento. as vítimas. não se confundindo com a própria pessoa do gerenciador do evento crítico. 2011. p. deverá auxiliar na preparação da ação tática. quando não são a “moeda de troca” dos seus captores. são o próprio objetivo destes. desafeto. k) Deve ter habilidade para manipular situações de incertezas e aceitar responsabilidades mesmo sem poder de mando. quando não o ódio a esta. o que pode acarretar em consequências drásticas ao bom andamento das negociações. e disso tudo dando ciência ao Grupo de Negociação. . e havendo risco de vida para envolvidos no evento crítico. tomando por nota todos os sucessos e empecilhos constatados durante a tratativa com os perpetradores. l) Deve concordar inteiramente com a doutrina básica da negociação. f) Deve ter excelente habilidade como entrevistador.

como bem assevera Greco (2014. 2014. que seria a mais drástica das posições. gerenciando. Uma decisão equivocada poderá até mesmo fazer com que seja responsabilizado administrativa. a negociação se torna uma atividade dinâmica e. pelos consultores.. sejam estes psicólogos ou psiquiatras.. Ao chefe de equipe caberia o mister de organizar o grupo. aqui. E assevera que: [. em fornecer dados para a imprensa. ao negociador cabe a intermediação entre integrantes da crise. 158): É o encarregado de comandar todas as operações necessárias ao desfecho de evento crítico. que não prejudiquem o andamento das negociações. Sua função é de extrema importância. suscetível a humilhações. devendo sempre se ater às decisões e delimitações dadas pelo gerente de crise. necessita de um aparato especial. o tiro de comprometimento.23 Como já mencionado. para tanto. civil e penalmente. as decisões a serem tomadas por aqueles. em manter contato com a família dos reféns. sabendo quais grupos atuarão no caso concreto. O grupo tático se constitui de uma parcela de policiais que recebe um . pelo negociados secundário – um auxiliar do negociador principal. vez que o mesmo se encontra em uma situação de tensão. o que não se confunde com poder de mando. acionar as equipes de resgate (ambulância. Aos consultores cabe a difícil tarefa de repetidas vezes avaliar o negociador. por fim. o Grupo de Negociação. O gerente da crise. e pelo chefe de equipe. coordenando-a e a organizando.] também deverá se preocupar com a manutenção dos perímetros interno e externo. dos constantes envios e recebimentos de informações referentes aos indivíduos presentes no ponto crítico. 158) Em suma. incluído. p. O grupo de negociação é composto pelo negociador principal. vítimas e do próprio causador da crise. delimitando tarefas e mantendo contato com os demais grupos presentes no evento crítico. podendo substituí-lo –. que podem propiciar uma fraqueza e derrubar toda a sistemática do gerenciamento e negociação em crise. evitando a presença de curiosos no local. pois é ele quem detém o poder de decisão. bombeiros etc. p. elaborar o plano de ação do grupo tático. em traçar os planos para uma possível rendição do produtor da crise (ritual de rendição) ou. qual seja. o gerente da crise é a pessoa responsável por planejar toda a operação.). Todas as ordens deverão partir do gerente da crise. (GRECO. Por demandar dessa autorização do gerente da crise.

quando entra em ação. em um sinal de uniformidade do grupo. ou vítimas. que prima pela voluntariedade em seu recrutamento.] a) A responsabilidade coletiva. Qualquer excesso que venha a ser praticado por um dos policiais pertencentes a este grupo estará sujeito a punição. e) Os seus integrantes trabalham em regime de dedicação exclusiva ao grupo. ou “assaltos”. São conhecidos como Special Weapons and Tactics (S. impõe-se como inafastável princípio moral que eles sejam dotados de rígidos fundamentos éticos. Geralmente são acionados quando a crise tomou proporções mais drásticas. grupos de assalto. não está individualizado na pessoa de um . São os responsáveis por ficar no aguardo da decisão do gerenciador da crise e da conseguinte ordem do comandante do grupo para entrarem em ação. (SALIGNAC.) e seguem uma doutrina com fundamentos rígidos: a) Unidade paramilitar de pequeno porte (sete a dez homens em cada equipe).A. b) Fundamenta-se na hierarquia. na disciplina e na lealdade.T. p. c) O voluntariado. entre outros. o qual. (SALIGNAC. do grupo tático são pontuais e rápidas. As ações.. não reversíveis com a negociação. d) O grupo é submetido a treinamentos constantes e tão assemelhados quanto possível à realidade.. 2011. [. 70) A responsabilidade coletiva sintetiza a unicidade do seleto grupo: o ato praticado por um dos integrantes a todos os demais alcança. na coragem e na experiência do candidato em situações de crise. no dizer dos norte-americanos). explosivistas. tornando os componentes deste grupo especialistas nestas. em virtude da situação alarmante que se tornou a atitude do perpetrador da crise com os reféns. Não é por menos que dentre o fardamento utilizado pelos agentes do grupo tático está a “balacava”. espécie de capuz que possui abertura para os olhos. sendo a escolha pautada na conduta. Sendo os GT dotados de tão delicados encargos e sujeitos aos riscos decorrentes dessa condição. ante ao fiel e irrestrito seguimento aos seus princípios. p.24 treinamento mais severo e voltado a determinadas atividades pontuais.W. assim sendo. atiradores de precisão. 2011. d) O dever do silêncio. b) A fidelidade aos objetivos doutrinários. c) O recrutamento é feito na base do voluntariado. 67) É um grupo seleto. f) Todos assumem o compromisso de matar (commitment to kill.

há que se dar o devido valor aos que trabalham com a mídia. p. bem como a suprir os cadastros que o gerenciador da crise possui sobre a personalidade e interesses do . sujeitar-se hierárquica e disciplinadamente ao seu Comandante de maneira inconteste. as quais podem ser acompanhadas. inclusive. fumar ou usar narcóticos.25 determinado integrante. gerente de crise e grupo tático –. e tudo isso. não ser suscetível a ansiedade e remorsos. ser calmo e ponderado. ou seja. capacidade de julgamento. inteligência. 161) bem elucida essa fidelidade ao tratar do sniper. e. o qual prega a não obrigatoriedade de pertencimento de qualquer policial a um grupo tático. os “componentes” de um evento crítico não se resumem única e exclusivamente nestes – perpetrador da crise. 71). no que tange a dar uma resposta à sociedade do andamento das investidas policiais. buscou seu desligamento. do risco que um movimento estranho sequer pode trazer para a vida ou integridade física de reféns ou vítimas. negociador. posto que por vezes deturpam informações sobre o evento crítico. principalmente. 2014. Muito embora passe a imagem de mais atrapalhar que ajudar. Como indissociável consequência da responsabilidade coletiva. Napoleão (2014 apud GRECO. Em decorrência dos demais fundamentos. As habilidades necessárias à qualificação do Sniper. A efetiva atuação do grupo tático deve ser o máximo possível eivada de erros. p. Mas. obrigatoriamente. vontade. em virtude. envolvem. se ingressou no grupo voluntariamente. reféns. principalmente o “Sniper Policial”. em decorrência da atuação precisa que necessita ter quando autorizado a agir em um evento crítico. pelos próprios causadores da crise – a depender se no local onde se encontra enclausurado há televisor e energia ainda –. os funcionários que trabalham para a imprensa podem ser de grande valia. da mesma forma não será obrigado a nele permanecer” (GRECO. pois “essa deve ser uma opção de livre escolha dele. “ainda que observe erros graves dos seus pares durante as operações. A fidelidade aos objetivos doutrinários é reflexo da rigidez com que são treinados. há o voluntariado. finalmente. ou atirador de precisão: Não é suficiente que o indivíduo seja um exímio atirador para ser um Sniper. há o dever do silêncio entre os integrantes. altíssimas doses de paciência e disciplina. 160). aliado a um alto grau de discernimento. mas tempos depois. p. 2011. o integrante de um grupo tático especial não os deve divulgar nem revelar” (SALIGNAC. Por outro lado. 2014. possuir equilíbrio mental e emocional. confiança no grupo. não beber.

Por fim. ou seja. esses governantes não costumam ser postos para falar diretamente com os perpetradores da crise. autoridade legislativa. 3.2 A ESTRUTURAÇÃO DO GERENCIAMENTO DE UMA CRISE É certo que um evento crítico. já que essas autoridades não receberam treinamento específico para lidar com a referenciada circunstância. fazem-se presentes no local da crise. são o ponto crucial para a existência de determinada crise. haja vista a carga emotiva excessiva com que estes parentes chegam ao local e. as autoridades judiciais. é aconselhável a presença destes para que seja dado o respaldo necessário à atuação dos policiais. principalmente. há ainda a possibilidade da presença de familiares do causador do evento crítico.26 provocador do evento crítico e dos reféns ali presentes. De igual forma. Por vezes. muito embora se façam presentes em meio à crise instalada. a permanência destes próximo ao local do evento é exigência dos causadores da crise. quando não autorizados. por vezes são os únicos alvos que o causador da crise quer atingir. Aliás. Assim como a imprensa. seja de pequenas proporções. em uma clara expressão de revolta ao relacionamento familiar que possui. encabeçado pelo gerente da crise. para não desvirtuar a linha de pensamento adotada pelo negociador e gerente de crise. os quais. quando da chegada de informação da instalação de uma crise. desde que não venham a interferir diretamente. como forma de direcionar seus pleitos e anseios a determinado dirigente do município ou do Estado. governantes ou autoridades do Poder Executivo ou Legislativo podem se fazer presentes nessas circunstâncias. para uma maior segurança deles próprios e. O perímetro interno constitui-se de um cordão de isolamento ao redor do . ou ainda. Ressalta-se que. em alguns casos. necessita de todo um aparelhamento para a sua contenção. principalmente. Assim. isolamento e início das estratégias negociais e táticas para a sua resolução. pela reação que o perpetrador terá ao tomar ciência da presença de seus entes próximos. por vezes. no processo de gerenciamento do evento crítico. muito embora seja essa probabilidade mais remota. seja de grandes dimensões. o que primeiro se procura delimitar são os perímetros interno e externo.

para uma melhor estruturação da atuação de cada agente responsável por seu respectivo setor. de onde saem as diretrizes e instruções para o bom andamento da resolução do evento crítico. amplamente resguardados por policiais designados para este mister. em regra. a tática do medo: É permanentemente utilizada durante o gerenciamento da crise. resguardados os devidos cuidados na segurança de todos que fazem parte do grupo de gerenciamento de crise. inclusive. O centro de operações táticas é onde permanece o grupo tático apenas à espera do efetivo comando para dar início ao assalto ao local da crise. qual seja. que se faça o uso excessivo de informantes e dos meios de comunicação.27 epicentro do evento crítico. O perímetro externo é a área logo em seguida ao perímetro interno. O posto de comando é onde se instala o grupo de gerenciamento de crise. ou mesmo que o perpetrador da crise já tenha dado início à rendição. pelo posto de comando. do epicentro do evento. ainda que a fase da negociação já esteja obtendo êxito para uma rendição. É importante que essa estrutura esteja o mais próximo possível. quanto o de operações táticas e o posto de comando devem estar os mais próximos possíveis. O centro de negociações é onde fica o grupo de negociação. Tanto o centro de negociações. ou ainda. que podem retardar mais o procedimento de neutralização da crise. É importante destacar que. com riqueza de detalhes. em virtude de uma das estratégias. pelo centro de operações táticas. encabeçado pelo gerente da crise. negociador secundário e chefe do grupo. A . por vezes. para o gerente da crise. utilizadas. pelo centro de negociação e pelo centro de operações de emergência. o grupo tático nunca deve baixar a guarda. inclusive o grupo de negociação e o grupo de operações táticas. constituído pelo negociador principal. voltar-se-á contra algum dos agentes do gerenciamento da crise. além de auxiliares. com o fito de evitar a proximidade de curiosos que possam interferir negativamente em todo o planejamento do gerente de crise e dos grupos operacionais essenciais com ele coadunados. a fim de dar um maior campo de visão. composta. evitando. uma vez que nunca se sabe se o perpetrador da crise desistirá da rendição e retornará ao seu local de enclausuramento com os reféns. o entremeio entre este e o público em geral.

28 movimentação da Polícia produz uma sensação de aflição nos seqüestradores. 2010. bem como buscando informações mais afincas e céleres sobre todos os que se encontram sob o julgo do perpetrador da crise. sem aumentar a tensão do ambiente e exercendo um cerrado controle de suas emoções. 56) Além de todos estes agentes. caso contrário. Como já ressaltado. Todavia. Por capacidade de controle entende-se o número máximo de pessoas que um indivíduo pode pessoalmente dirigir e controlar. apenas podendo nele ingressar com autorização do posto de comando. o aparelhamento elaborado para gerenciar um evento crítico dependerá da amplitude. pois. quanto às informações levadas à sociedade do andamento das negociações e estratégias. Deve ser utilizada com eficiência para que dela possa ser tirado proveito na busca da solução negociada. pelo negociador ou . p. b) Numa operação de campo que requeira coordenação entre várias unidades de uma mesma entidade policial. O negociador. razão pela qual é indispensável a instalação de um posto de comando: a) Quando o número de pessoas envolvidas numa operação de campo exceder a capacidade de controle do gerente da crise. Desde o primeiro contato. ele é a maior garantia de que não haverá solução extrema. ou entre organizações policiais diferentes. assim. tudo com o máximo de cuidado para não dar margem ao causador da crise tomar ciência dos passos conseguintes que serão dados pelo gerente da crise. p. a imprensa costuma ficar em local apartado do perímetro externo. o negociador dirá que a Polícia não vai invadir. mas eles devem saber que ela está ali e pode invadir. da crise. mantendo-os e fazendo-os sentirem-se completamente isolados do mundo. pressioná-los de todas as maneiras. equipes médicas e de inteligência e equipes de serviço público. A habilidade do negociador é justamente demonstrar que ele é mais importante que os reféns e. 2011. possuindo em seu encalço o próprio apoio policial. estará fortalecido. e deste também. ser-lhe-á explicado e designado o momento e o agente responsável por dar as informações essenciais e pontuais a serem apresentadas à sociedade. maior ou menor. Essa capacidade pode ser reduzida pelo efeito do estresse.117) E o centro de operações de emergência é aquele destinado a atender situações emergenciais. (SALIGNAC. ao mesmo tempo. unidades de bombeiros. Buscar mecanismos que proporcionem situações que repercutam cansaço físico e mental são exemplos comumente utilizados. há que se relembrar do importante papel da imprensa. (SOUZA. de uma maneira eficiente e eficaz. c) Numa operação de campo que exija atividades múltiplas.

conseguindo com isso. Por vezes. 3. a fim de se inteirar acerca da proporção que o evento crítico tomou. de suas residências que serão utilizadas para o gerenciamento de uma crise. empresariais. bem como calcular possíveis indenizações por parte do Estado. É necessário esclarecer que nem sempre. através do negociador. pela urgência. vez que há sempre a possibilidade de o perpetrador ter perto de si aparelhos de comunicação e radiodifusão. o gerente da crise e os grupos de negociação e de operações táticas. controlar os agentes e pessoas autorizados a naquele espaço adentrar ou transitar. Toda essa sistemática decorre de um plano específico traçado pelo gerenciador da crise. ou mesmo em construções que estejam próximas do local da crise. Nesse mesmo intervalo. restringindo o provocador do evento crítico a um pequeno espaço terrestre. A ponderação sobre qual grupo operacional agirá em determinada ocasião é incumbência do gerenciador. também. Nesse ínterim é que se prima também pela presença de servidores públicos que estejam aptos a realocar famílias. bem como mantido o primeiro contato com o causador da crise. o controlador da crise deve conter a casuística apresentada. urge a designação de um gerente de crise para as medidas iniciais. Como medida primordial. temporariamente. pela localidade em que se desenvolveu a crise. pela proporção que o evento já alcançou. instalam-se em residências. delimitando o perímetro interno. já são delimitados os grupos operacionais essenciais.3 A NEGOCIAÇÃO COM REFÉNS Instalado um evento crítico e estando as organizações policiais cientes. no interior do chamado perímetro externo. o qual deve verificar que a . assim também identificada como “resposta imediata”. de operações táticas e demais se fazem através de vans equipadas e especialmente fabricadas para ocasiões como as de um evento crítico. guardadas as devidas proporções com o que se estabeleceria de dimensão do perímetro interno e externo. principalmente. em virtude de algum dano que os agentes policiais venham a causar nos bens daquelas. a instalação do posto de comando e dos centros de negociação.29 mesmo pelo grupo tático. e na grande maioria das vezes não o é.

e sendo alimentado de todas as informações possíveis acerca dos presentes no epicentro da ameaça.118) Todavia. na grande maioria das vezes.30 atuação do grupo tático. tornando-se uma peça chave que demanda um curso didático e aperfeiçoador. e dos próprios agentes policiais. e que. (SALIGNAC. Encarado como elemento coadjuvante no processo do gerenciamento. respectivamente. tende a ser tratado como um mero transmissor de recados entre o GGC e o PEC. 2011. necessita de um trabalho em equipe do grupo de gerenciamento de crise. que fica a cargo do humor do encarregado do GGC. o qual se encontra encurralado. a negociação deve se pautar pela atenção ativa por . um acompanhamento clínico por especialistas das áreas de psicologia e psiquiatria. um impactante desarme do causador da ameaça. 101) Mas. Negociar: opção cuja maior e principal vantagem é a de salvar vidas. a praticidade e a participação do negociador foi. do grupo tático e do setor de inteligência da corporação. principalmente. tendo sido o negociador visto como um mero intermediário entre o provocador e o gerenciador da crise. temerário da ação tática policial de confronto. A partir dessa atitude. tendo a sua guarda protegida e uma equipe de prontidão a “assaltar” quando viável. é célere. trabalhada constantemente no meio policial. além de demandar um gasto ao poder público. principalmente. e ainda é. p. As desvantagens são. recebendo os comandos necessários. a enorme quantidade de trabalho que exige e o treinamento necessário. projetar uma imagem de eficiência e modernidade e proteger os policiais dos riscos da atuação tática. p. porém. 2011. e. por vezes. já a negociação. pois ainda permanece enraizado nas organizações policiais o exclusivo uso da força. o excessivo consumo de tempo. é arriscado no que tange à integridade física do perpetrador da crise. com a evolução das dinâmicas das polícias de todos os estados. muito embora possa demandar um longo período de tempo. Certificado de tudo que lhe rodeia e resguarda. logo. Esta atitude primária visa a uma quebra de barreiras entre ambos os personagens. o negociador deve manter o primeiro contato com o provocador da crise apresentando-se. é a solução mais viável e pacífica. Tudo isso se transforma em óbice para o profissional negociador. (SALIGNAC. a mais aceita. o negociador ganhou mais notoriedade. dos reféns ou vítimas. não se admitindo sequer que estabeleça estratégias e táticas de condução do processo de negociação.

principalmente nas primeiras horas de controle da ameaça. como o relatado por Lucca (2014. além da possibilidade de o policial empregar um determinado termo de forma equivocada. informará ao gerente da crise e ao chefe do grupo tático. e) Deve haver tempo disponível para a negociação. como já ressaltado. o esperar a manifestação do causador. até a troca de negociador. Deve haver ameaça do uso de força pelas autoridades. o policial negociador cientificará o chefe do grupo de negociação. não sem o deixar ciente da existência de uma relação mútua e de contínua troca. no entender do causador. g) Tanto a localização do incidente crítico como as comunicações entre PEC e negociador devem estar claramente delimitadas e restringidas. o que já traz mais dificuldade para o enfretamento da situação. (SALIGNAC.31 parte do policial negociador. com base nas oito características apontadas pela polícia federal norte-americana: a) b) c) d) O PEC deve desejar manter-se vivo. p. h) O negociador deve ser capaz de identificar e de atuar em conjunto com o PEC que é responsável pela tomada de decisões. 121-122) Em caso de se verificar uma situação não solucionável através da negociação. f) Um canal de comunicação confiável deve ter sido estabelecido entre o PEC e o negociador. não é recomendável que o negociador procure se comunicar com o perpetrador da ameaça utilizando-se das gírias deste. 2011. para que seja providenciada a “saída” que resta: o “assalto” tático. De igual forma. momento em que. mas que deseja ajudá-lo. por desconhecer das gírias utilizadas. para alcançar isto. com as tratativas feitas. O policial negociador sempre procurará não apresentar respostas negativas ao provocador da crise ante às exigências deste. prontamente. pois este pode entender como uma ofensa. desde o uso da linguagem adequada. há muita tensão por parte do causador do evento. O negociador deve ter sido percebido pelo PEC como uma fonte potencial de ameaça. 101-102) em uma de suas ocorrências na contenção de uma rebelião na antiga FEBEM de . pelo modo forçado que soa. o qual. O PEC deve ter feito exigências realísticas. tentando dessa forma identificar se aquele evento se trata de uma crise negociável. o negociador se valerá de todos os meios possíveis. busca-se em eventos críticos a rendição do causador da ameaça e. o que o leva a fazer pedidos aviltantes e incabíveis. Mas. que nada mais é do que pôr em prática o saber ouvir. geralmente. p.

rapaziada. ainda que perplexo com o que julgava ser um detalhe banal. evitar que um criminoso escape misturando-se aos capturados. ou seja. Terminada a chuva de pedras pude me aproximar dele para manter o seguinte e. tentando-se. desse jeito não vai dar!” Há quem diga que três coisas não voltam atrás: a palavra falada. Foi nesse instante que cometi um erro. a surpresa e a agressividade da ação. buscados pelo negociador seja a obtenção do rapport. a flecha lançada e a oportunidade perdida. talvez. – Que palavra? – O senhor disse “moçada” que para eles significa um grupo de moças e por isso se revoltaram. o senhor falou uma palavra que não podia falar. para mim. dirigime novamente à escada. que simbologicamente corresponde ao sucesso da negociação.. E. o policial negociador deve se valer do auxílio do grupo tático. É por casuísticas como essa que o negociador nunca deve deixar de se valer do auxílio do gerente da crise. ao alcançar novamente a muralha disse-lhes: – Aí. apresentar alguma ideia que não tivesse sido discutida anteriormente. na rendição. Inclusive no momento da rendição. usei uma expressão da qual iria me arrepender: “Aí. se é que é possível subdividi-los desta forma. para o caso de ação de extrema urgência. o grupo tático deve se valer dos seus fundamentos teóricos de atuação: a rapidez. do setor de inteligência. Melhor teria sido falar “rapaziada”. nessa situação. mas percebi um certo constrangimento do diretor do presídio. Assim. ou produza algum comportamento violento e inesperado. moçada. contudo. Não entendi o que havia acontecido. uma aproximação maior. recomenda-se que. com o causador da crise. Na intenção de colocar um mínimo de ordem no tumulto. que me dez um sinal de que queria conversar comigo em particular. de cunho psicológico. todos os envolvidos sejam algemados. vez que o causador pode mudar de ideia a qualquer momento. Não me restou alternativa se não descer rapidamente pela escada e me proteger das pedras mantendo o corpo encostado na parede externa da muralha. Se eu pudesse voltar atrás.32 Franco da Rocha: Parecia que as coisas estavam indo bem quando um terceiro grupo. 2011. passou a se manifestar. um dos objetivos principais. A reação dos jovens foi péssima: começaram a me apedrejar. . p. subi os degraus e. podemos conversar novamente? Por incrível que possa parecer todos acolheram a nova abordagem e assumiram uma atitude que tinha um sentido duplo: aceitação de um pedido de desculpas e permissão para continuarmos as tratativas. com uma outra liderança. e de terceiros que convivam com o causador. desta forma. (SALIGNAC. nitidamente querendo sobrepujar os demais sem. Em uma rápida avaliação.. 201) Mas. surpreendente diálogo: – Comandante.

inclusive. 167) Contudo. conseguindo. quando da aplicação necessária do direito. e menos com o próprio causador. por um lado. como uma medida a seu favor. por parte do negociador. dificultando mais a atuação dos policiais. trazer benefícios. o negociador pode extrair do próprio causador se as pessoas que se encontram sob seu julgo são reféns ou vítimas e a situação em que os mesmos se encontram. a partir deste momento. esse mesmo vínculo afetivo pode desvirtuar as informações colhidas através dos próprios capturados. essas informações sobre os reféns ou vítimas devem ser obtidas com o máximo de cautela. Todavia. a sua perpetuação pode não ser muito favorável ao ordenamento jurídico. o negociador e o gerente de crise devem ficar atentos a uma casuística que pode acontecer e que pode. menos possibilidade há de prática de violência contra estes. vez que estes procurarão defender e proteger seu captor. os quais poderão variar entre as diversas situações críticas que se apresentam. O desenvolvimento da Síndrome produz uma importante garantia de proteção aos capturados. no que tange aos crimes praticados pelo causador da crise. em determinadas ocasiões. os efeitos da Síndrome persistem para além do fim do evento crítico e. ter contato com um destes reféns ou vítimas para poder arrancar maiores e precisas informações. Embora relativa. Ainda assim. Ademais. como também trazer malefícios: a Síndrome de Estocolmo. esta proteção deve ser buscada de todas as formas possíveis pelo negociador. pois não há um método absolutamente sistematizado de procedimentos. pois quanto mais afeto for desenvolvido entre o captor e os seus capturados. p. A Síndrome de Estocolmo é vista. . logo. (SALIGNAC. este pode se sentir acuado e passar a ameaçar mais seus subjugados. 2011. uma vez percebendo o provocador do evento crítico que o negociador e o aparato policial externo se encontram bastante preocupados com os reféns. posto que. como uma peça chave na sua atuação.33 Através do rapport. não muito bem quista. A criatividade do profissional será posta em prova.

quando esta se vê em risco provocado por um agressor. 182183) tem vasta aplicação. ou seja. sob uma ótica eclética de múltiplas perspectivas. mas sim. e enxergando um melhor meio de sair daquela situação de risco. “colocando-se no lugar do agressor”. tais como a comportamental. como toda ciência. com o fito de não mais se prejudicar. mais especificamente na esfera do Direito Penal. bem como para propiciar a reestruturação de ordem psíquica dessas vítimas. Psicologia . não objetiva e isoladamente. e para a aplicação das normas do nosso ordenamento jurídico. a psicanalítica. assim sendo. segundo Leal (2008. em que a sua sobrevivência é posta em risco. conselho tutelar. a Síndrome de Estocolmo retrata uma situação que evidencia a necessidade cada vez maior de interdisciplinaridade entre os vários ramos do conhecimento. p. no qual ela. infração e medidas sócio-educativas). a se ver: Psicologia Jurídica e as Questões da Infância e Juventude (adoção. criança e adolescente em situação de risco. o comportamento envolto da Síndrome de Estocolmo se caracteriza por um transtorno involuntário de ordem psicológica. a biológica. expresso através de uma linguagem específica. Essa identificação da vítima com o causador do risco desencadeia uma relação de afeto com consequências relevantes em dois grandes ramos do saber: a Psicologia. porém. acaba por se projetar neste. a subjetivista e a cognitiva. estuda o ser humano. quando de sua atuação como conselheiro psicólogo no caso policial que deu notoriedade a referida Síndrome. configura-se como um conhecimento acerca de uma realidade.34 4 A SÍNDROME DE ESTOCOLMO Identificada como um dos vários danos psíquicos que acometem vítimas submetidas a estados de extrema violência ou de agressões de cunho físico e/ou psicológico. e o Direito. intervenção junto a crianças abrigadas. A Psicologia. A Psicologia Jurídica é um dos ramos da Psicologia que interrelaciona o saber psicológico com as situações de aplicação do direito e. originário da própria vítima. a vítima. Cunhada como síndrome pela primeira vez pelo criminólogo e psicólogo Nils Bejerot. mais especificamente na sua subdivisão da Psicologia Jurídica. Seu diferencial consiste em ser uma ciência humana. para a manutenção do melhor convívio social dos cidadãos.

Psicologia Jurídica do Trabalho (acidente de trabalho. intervenção junto ao recluso. Psicologia Policial e das Forças Armadas (seleção e formação da polícia civil e militar. os quais têm por pressuposto fundamentador o respeito à dignidade humana. a exemplo de uma crise com mantença de reféns. Psicologia Judicial ou do Testemunho (estudo do testemunho. falsas memórias). O Direito. fez-se reger por normas delimitadoras de sua função de mantenedor da segurança jurídica e da harmonia social. atendimento psicológico). Psicologia Jurídica e Direito Civil (interdições. acompanhamento de visitas). Vitimologia (violência doméstica. insanidade mental e crime. Psicologia Penitenciária (penas alternativas. A par dessa limitação. Neste contexto. Esse aparato constitucionais penais normativo da consubstanciado intervenção mínima. trabalho com agentes de segurança). atendimento a vítimas de violência e seus familiares) e Autópsia Psicológica (avaliação de características psicológicas mediante informações de terceiros). O Direito Penal surgiu como forma de garantir à sociedade a conservação dos seus bens tomados por mais valiosos e. indenizações. egressos. disputa de guarda. consultoria e atendimento psicológico aos juízes e promotores). Psicologia Jurídica e Direitos Humanos (defesa e promoção dos Direitos Humanos). da adequação social e da proporcionalidade. Mediação (mediador nas questões de Direito de Família e Penal). como ciência social. nos da princípios jurídicos fragmentariedade. a proteção penal incidiria quando da efetiva ofensa a um bem jurídico tutelado. para tal mister. é crucial para o melhor gerenciamento da situação e não .35 Jurídica e o Direito de Família (separação. e vê-se muito atuante nos chamados Estados Democráticos de Direito. reconhecer os primeiros sinais do desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo em uma determinada situação. da lesividade. Psicologia Jurídica e o Direito Penal (perícia. dentre diversos outros. dano psíquico). não obtivessem êxito em seu resolver. Formação e Atendimento aos Juízes e Promotores (avaliação psicológica na seleção de juízes e promotores. nas suas últimas consequências. a exemplo do cível e do administrativo. reconhecidos constitucionalmente. delinquência). paternidade. a intervenção penal se daria apenas em ultima ratio e quando não contrariasse os valores institucionalizados na Constituição do Estado. por conseguinte. tornou a utilização do direito penal afeita a situações em que os demais ramos do direito. indenizações. é o estudo de um conjunto de regramentos especificamente determinados para o convívio social dos indivíduos em sua melhor forma harmoniosa. Esse ramo jurídico. Assim. Proteção a Testemunhas (existem no Brasil programas de Apoio e Proteção a Testemunhas). da subsidiariedade. dano psíquico).

não sem antes receber destes abraços de despedida. Suécia Era 23 de agosto de 1973. Porém. capital da Suécia. 4. do qual resultou um policial ferido. nem todas relacionadas a sequestros e cárceres privados. como. Decorreu que a polícia foi prontamente acionada e dois policiais adentraram no banco. no interior do banco. principalmente. três casos de repercussão mundial lhe deram notoriedade.36 ofuscamento de qualquer circunstância que tenha interferência na aplicação das normas do direito penal ao caso. . juntamente com 3 milhões de coroas suecas. na região de Norrmalmstorg. em especial o caso que deu origem à referida expressão “Síndrome de Estocolmo”. segundo outra refém. O término do sequestro. quando então houve tiroteio. libertando os reféns. dentre outras exigências. fortemente armado. ainda. então. Estocolmo. da mulher. e Olsson se enclausurou dentro da instituição juntamente com quatro reféns. foi mantido o contato com o primeiro-ministro sueco Olof Palme. quando então se percebeu o primeiro sintoma da Síndrome de Estocolmo: uma das reféns. que os reféns se negaram a sair antes dos sequestradores e. que durou cerca de seis dias. Clark Olofsson. quando da violência doméstica e. Durante as negociações que se sucederam. deu-se com a utilização de gás lacrimogêneo pela polícia. Olsson exigiu a presença de outro criminoso amplamente conhecido na cidade.1. quando Jan-Erik “Janne” Olsson se dirigiu à filial do Sveriges Kreditbank naquela região. Kristin Enmark demonstrou confiança do sequestrador e demonstrou repulsa aos policiais pela forma “truculenta” como lidavam com tal situação.1 Assalto ao Kreditbank – Estocolmo. um carro e um caminho livre para fugir. Birgitta Lundblad. a exemplo. quando. para assaltar. 4. ou nos casos de assédio sexual em ambiente de trabalho. dentro das próprias estruturas familiares. Verificou-se. A presença de Olofsson foi autorizada e. a qual passou a ser utilizada por todo o mundo.1 HISTÓRICO A Síndrome de Estocolmo pode ser percebida em diversas ocasiões. Olsson e Olofsson se renderam e saíram do banco.

37 isso havia se dado em virtude do receio que tinham de a polícia machucar os agressores.3 Sequestro de Natascha Kampusch – Viena. à época. Natascha. onde fora mantida em cativeiro por oito anos de sua vida. identificando-se como “Tania” e.1. que participava de toda a negociação com os sequestradores. nunca visto por parte de reféns. mas decidiu ficar com seus agressores para lutar pela própria libertação e pela dos oprimidos. o desenrolar do sequestro tomou um rumo diferente: cerca de dois meses após ser sequestrada pelos membros do SLA. por muitos anos. teve a opção de ser libertada. a pé. dirigia-se a sua escola. no estado da Califórnia. no distrito de Donaustadt. primeiramente cunhou o comportamento das vítimas como “Síndrome de Estocolmo”.2 Sequestro de Patty Hearst – Califórnia. 4. 4. informou que. até então. em Strasshof an der Nordbahn. impedida. Natascha sofreu todo tipo de violência. mais adiante. ou “Patty Hearst”. então com 19 anos de idade. Áustria Um dos casos também internacionalmente conhecido do desenvolvimento da referida Síndrome na vítima. foi o do sequestro da austríaca Natascha Kampusch. Estados Unidos Outro importante caso em que se verificou a presença da referenciada Síndrome foi o do sequestro de Patrícia Campbell Hearst. em Viena. foi sequestrada por um grupo terrorista paramilitar intitulado Exército Simbionês de Libertação (SLA). William Randolph Hearst. Diante do comportamento. em um assalto a banco. de sair de sua minúscula cela. a fim de serem distribuídos aos pobres. em 04 de fevereiro de 1974. no porão da casa do . Dentre as exigências do resgate estava a entrega de vários alimentos e uma soma vultosa de dólares. o criminológo e psicólogo Nils Bejerot. então uma simples garotinha de 10 anos de idade. física e mental. sendo feita escrava. quando presa por outro crime. Patty Hearst apareceu ao lado destes. A jovem herdeira de um magnata da comunicação. Contudo. perto de Viena. quando foi bruscamente raptada por Wolfgang Priklopil e levada para a casa deste. Estados Unidos. em Berkeley. em 02 de março de 1998.1. como um conselheiro psicólogo.

. filha do empresário Silvio Santos. em 21 de agosto de 2001. 581-582) Retomando aos poucos a vida que lhe restou. no Morumbi. Não sentia nenhum desejo de vingança contra ele – ao contrário. jogando-se na frente de um trem em movimento. eu chegava a acreditar que me mataria assim que o fizesse. Sua liberdade foi alcançada quando.4 Sequestro de Patrícia Abravanel – São Paulo. Wolfgang Priklopil se suicidou. bem como ao assistir a todos os noticiários da região e descobrir que estava sendo procurado pela segurança nacional do país. assim que deixasse o seqüestrador. de ter uma alimentação adequada. em 23 de agosto de 2006. a idéia não me alegrava. absorvendo toda sua energia violenta. finalmente. sendo estuprada. Não podia suportar a idéia de que minha liberdade o colocaria atrás das grades por muito tempo. A idéia de subitamente emergir no mundo real. constantemente ameaçada e vigiada 24 horas pelo agressor. mas minha mente já o abandonara. 3096 Dias. Algumas vezes.1. ainda não conseguia me imaginar chegando ao outro lado em segurança. Brasil No Brasil. com a porta entreaberta. do lado de fora. Naquele momento. me assustava tremendamente. só a libertando com o pagamento de resgate. em São Paulo. p. É óbvio que eu queria que as outras pessoas fossem protegidas daquele homem. Patrícia se encontrava em sua casa. tendo inclusive chorado ao saber de seu suicídio. onde a mantiveram por sete dias enclausurada. eu ainda providenciava essa proteção. 4. muitas vezes referindo-se a ele com palavras gentis. Contudo. que era capaz de qualquer coisa. Ainda assim. demonstrou certa compaixão com seu sequestrador. (KAMPUSCH. conseguiu fugir. para a surpresa e estranho de muitos. quando. Nós dois oscilávamos entre a realidade e as aparências. Ao perceber a fuga de sua prisioneira. sequestrou-a de casa e a levaram para um cativeiro a cerca de dez quilômetros de sua residência. Eu estava presente fisicamente. um caso de grande repercussão relacionado à Síndrome de Estocolmo foi o sequestro de Patrícia Abravanel.38 sequestrador. 2011. aproveitando-se de um deslize de Priklopil ao atender um telefonema enquanto a havia deixado limpar seu carro no jardim da casa. disfarçado de carteiro. Natascha passou a conceder poucas entrevistas e decidiu escrever um livro autobiográfico. quando um dos dois criminosos. seria responsabilidade da polícia e da justiça evitar que ele cometesse outros crimes. Depois.

tomo = parte) consiste em um sinal que precisa ser interpretado.. independente do nível que esta atinja. Em outras palavras. seja orgânica ou mental. “previsíveis” ações. na maioria dos casos.. algo que necessita de uma nomeação. 2007) Não confundida com um Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). 2007). a mobilização de esforços e reservas de energia que podem culminar na resolução e na volta ao estado primário de equilíbrio. nas quais se dirigia a seus agressores com palavras de compaixão. deflagra no ser humano. esta significação se atribui pela junção das partes que funcionam como sinais indicadores de uma alteração orgânica ou psicológica. Esse encontro não previsto por um indivíduo com uma situação-problema. 72) já ressaltava que “um acontecimento como um trauma externo está destinado a provocar um distúrbio em grande escala no funcionamento da energia do organismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas possíveis”. 2014. p. segundo estudos feitos por Favaro (2000 apud FERREIRA-SANTOS. 4. [. Correlacionando-se diretamente o conceito de síndrome ao de sintoma. trata-se de um significado ainda em busca de significação.39 Após a sua soltura e a prisão dos sequestradores.] para os efeitos da Psicologia Jurídica. (FERREIRA-SANTOS. em suas devidas proporções. ou uma condição crítica. o aumento progressivo do estado de tensão. p. pode-se considerar que um sintoma (sin = junção. em virtude da permanência do estímulo e a falha das respostas empregadas. (TRINDADE. Como em um quebra-cabeça. e o ponto de ruptura. forçando o indivíduo a utilizar suas respostas costumeiras frente a situações de ameaça. que é antecedido pelo estágio de resignação à insatisfação ou uso de distorções perspectivas perante a persistência da situação geradora de mudança de estado. Patrícia Abravanel concedeu entrevistas. 212) Freud (1920 apud FERREIRA-SANTOS. com . perdoando-os do crime que cometeram e afirmando entender as razões que os levaram a tal ato. uma patologia. 2007. como a elevação inicial da tensão.2 CARACTERÍSTICAS E SINTOMAS PERCEPTÍVEIS DA SÍNDROME DE ESTOCOLMO O termo “síndrome” remete a um conjunto de sinais característicos de um determinado evento.

resultando daí uma irrefutável obediência aos comandos deste. 83) ressaltou o que se entende por transtorno de estresse pós-traumático – TEPT: Pelo DSM-IV. São eles: a) evento traumático (assalto. física e/ou psicológica. O quadro sintomático completo deve estar presente por mais de um mês (Critério E) e a perturbação deve causar sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social. ou até mesmo reflexo. o qual caracteriza-se como uma constante ameaça e violência a sua integridade. Trindade (2014.. seqüestro. relacionado a experiência pessoal direta de um evento ameaçador real que envolva morte. a fim de se obter êxito na resolução do conflito. o TEPT é definido como o desenvolvimento de sintomas característicos após exposição a um extremo estressor traumático. violência. catástrofe) com ameaça física ou psicológica. a Síndrome de Estocolmo irá se fazer presente quando uma vítima se encontrar em uma situação de perigo. os quais. gentileza) por parte do agressor. roubo. ferimento grave ou outra ameaça à integridade física (Critério A) [. amabilidade. acidente. no contexto de terror. sem que a relação afetiva criada pela vítima para com o seu agressor interfira de forma negativa. na esquiva persistente de estímulos associados ao trauma e no embotamento da responsividade geral (Critério C) e nos sintomas persistentes de excitação mental (Critério D). abuso sexual. p. ocupacional e/ou em outras áreas importantes da vida da pessoa (Critério F). Contudo.. b) crença de que o desfecho irá acontecer. percebe um mínimo gesto de atenção (carinho. c) a vítima.40 base apenas na Classificação Internacional de Doenças (CID) e na Escala de Eventos Dissociativos. d) sentimento de impotência para escapar. uma vez perceptíveis em meio a uma crise. p. também apresenta sinais característicos da sua incidência. devem nortear a atuação do gerenciador de crise e de toda a sua equipe. da vítima será sua percepção da situação de subordinação e de completa submissão ao seu agressor em que se encontra.] Os sintomas característicos citados pelo DSM-IV consistem também na revivência persistente do evento traumático (Critério B). 225) descreveu a existência de quatro sintomas da Síndrome de Estocolmo. uma vez que a Síndrome de Estocolmo se faz presente ante a uma . visando sempre a sua sobrevivência. Ferreira-Santos (2007. nesse ínterim. Tomando por base este parâmetro supramencionado. uma primeira atitude. Como consequência. a Síndrome de Estocolmo.

225) periodiza essas características citadas. p. em determinado momento. a vítima nega seu ódio contra o agressor. a vítima fica em constante estado de alerta para satisfazer as necessidades do agressor e deixá-lo contente. como é o caso dos policiais. uma vez que a vítima não vai aceitar mais a ajuda de qualquer estranho que esteja fora da situação em que a vítima se encontra. 119).41 crise que perdura por mais de um dia. bem como resgatando as vítimas. Trindade (2014. que a sua fiel obediência já não mais se basta. É a partir deste momento que a vítima passará a se projetar no seu agressor. bem como na avaliação do criminoso e aplicação correta da . dando fim a crise. como bem salientou Ferreira-Santos (2007. Essa “estocolmização”. os quais vão desde uma pequena alimentação oferecida pelo ofensor durante o cárcere. Juntamente com essa projeção da vítima no agressor. a vítima tem dificuldades de abandonar o agressor. passará a analisar a situação como se no posto do agressor estivesse. aquela começará a perceber pequenos sinais neste que são interpretados por ela como um afeto maior do seu agressor. a vítima sente como se o agressor a protegesse. entendendo ela que sua condição de vida ou morte depende única e exclusivamente do agressor. mesmo depois de estar livre. "com os olhos do agressor". a vítima percebe as pessoas que desejam ajudá-la como más. até o fato de este ainda ter mantido a vítima com vida. e este aspecto tem papel fundamental para o reajustamento do próprio indivíduo. afim de identificar o que o causaria mais temor e. a crise instaurada se tornará mais delicada. colocaria mais em risco a vida da vítima. no que tange ao seu bemestar posterior à crise. Nessa circunstância. por conseguinte. aflora na vítima como forma de esta “negar sua condição de vítima. a vítima tem medo de que o agressor volte por causa dela. a vítima constatará. e o agressor como bom. a se ver: 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) a vítima e o agressor mantêm um vínculo bidirecional. mesmo depois de preso ou morto. assim sendo. pessoas estas que lá se expõem para contornar a situação. a vítima nega ou racionaliza a agressão contra ela. visando a ganhar confiança. p. a vítima se sente agradecida pelos mínimos favores do agressor. minorar o temor e a ansiedade e obter um mínimo controle sobre si mesma e sobre a situação a que está submetida”.

vez que isto pode repercutir em sua sobrevivência. fazendo uso de violência e/ou ameaça. procurando. involuntariamente aquelas vítimas desenvolvem em si um quadro psicológico em que procuram sua sobrevivência “aliando-se” ao seu agressor. a vítima começa a “enxergar” atos de bondade do agressor. trazendo instrumentos que a resguardem de uma nova situação traumática. o simples fato de ainda a manter viva. em constante perigo de vida. inclusive no que tange a sua reestruturação . mas também a vítima. uma vez que se está tratando de uma situação em que um indivíduo mantém uma vítima como refém. tem impacto também junto ao Direito. o que é prontamente combatido pelo direito penal. a qual é desencadeada em algumas vítimas que se encontram em uma situação fora da sua normalidade. no sentido de não apenas ter em foco o criminoso e a sua punição em virtude do delito. colocando em risco a integridade física e psicológica daquela.42 legislação a este cabível. por um determinado período de tempo. investigando sua gênese. biologia criminal – de forma muito próxima. política. ao mesmo tempo. dialogando com os saberes – sociologia. Nesse contexto. o que leva a vítima a crer que sua sobrevivência está “por um fio”. 4. com o fito de não o contrariar. preocupando-se com esta. em uma espécie de defesa de si mesma. Esta conjuntura. Dentro desta temática se encontra a vitimologia. a fim de enxergar o contexto em que se encontram sob os olhos destes. projetar-se no agressor. em meio a um processo. como por exemplo. vez que esta se enquadra entre um dos bens jurídicos protegidos por este ramo do saber. retratado este em forma de violência física e/ou psíquica. rejeitando qualquer ajuda de terceiros que não se encontram na mesma situação que ela e o causador do perigo. dinâmica e principais variáveis. Diante desse quadro.3 REPERCUSSÃO DA SÍNDROME NA SEARA JURÍDICO-PENAL Comprovado está que a Síndrome de Estocolmo se configura como uma doença de natureza psicológica. A criminologia é um ramo do direito que se presta à compreensão e à explicação da criminalidade em todos os aspectos. ramo da criminologia científica moderna que tem por objeto de estudo a vítima. ainda que a primeira vista se trate de objeto apenas de estudo da Psicologia. psicologia. ou mesmo mecanismos que se voltem para a participação mais ampla desta.

O direito brasileiro. contudo. o Juiz esclarecerá sobre a possibilidade da composição dos danos e da aceitação da proposta de aplicação imediata de pena não privativa de liberdade. inclusive com a possibilidade de composição civil de danos.] Art. À exceção de situações em que haja crime de lesão. 72.099/1995 – resgata o papel da vítima. em determinadas situações. em meio à disciplina dos procedimentos referentes a crimes de menor potencial ofensivo.43 psicológica após uma situação traumática.340/2006. entendeu dever o art. e é quanto a este último ponto que a Síndrome de Estocolmo tem relevante interesse para o ordenamento jurídico. atualmente. A composição dos danos civis será reduzida a escrito e. O art. criando um espaço dialógico. O seu art. presente o representante do Ministério Público. O Supremo Tribunal Federal. ao passo que. homologada pelo Juiz mediante sentença irrecorrível. 16. em situações de violência doméstica e familiar contra a mulher. buscando penas que tragam benefícios à vítima. esta deve ser feita na presença do juiz e em audiência designada para esse único fim. A Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais – Lei nº 9. Nesse ponto é que se faz relevante o estudo da influência da Síndrome de Estocolmo na aplicação do direito a determinado casos. abarca as novas tendências da vitimologia. incumbe a esta o início de uma persecução penal contra aquele.099/1995 e a nº 11. no que tange ao aspecto de por a vítima igualmente em foco numa processualística criminal. consoante se retira dos artigos da referida lei abaixo: Art. terá eficácia de título a ser executado no juízo civil competente.340/2006 – Lei Maria da Penha –. acompanhados por seus advogados. garante a esta medidas protetivas contra seu agressor.. o autor do fato e a vítima e. determina que é admitida a renúncia à representação da ofendida nas ações penais públicas condicionadas à representação. [. 22 da supramencionada lei lista em cinco incisos medidas protetivas diversas que obrigam o agressor da vítima. 16 da Lei nº 11.424. em julgamento da ADIN nº 4. antes do recebimento da denúncia e ouvido o Ministério Público.340/2006 ser interpretado . do consenso. Na audiência preliminar. 74. a vítima tem a faculdade de oferecer representação contra seu agressor. por sua vez. o responsável civil. a cumpri-las. Já a Lei nº 11.. se possível. a exemplo das Leis nº 9. em casos de ação penal pública condicionada à representação relacionada à Lei Maria da Penha.

] e a razão é simples: como a apuração dos fatos pode expor a frágil intimidade da vítima ou envolver questões de natureza política. 47) explica o porquê dessa participação mais ativa da vítima: [. Assim. de 6 (seis) a 10 (dez) anos Violação sexual mediante fraude Reclusão. 147) Detenção. de um a seis meses. uma vez acometida da Síndrome de Estocolmo. que podem ser identificados em uma situação de crise. desenvolveu para com este. involuntariamente. processado e.44 conforme a Constituição Federal de 1988. julgado. é esperado que uma vítima não procure a justiça a fim de dar início a uma investigação ou ação penal contra o seu agressor. o que pode levá-lo à impunidade. ainda que a vítima manifestasse seu desejo de representar criminalmente contra seu algoz. “caput”) Reclusão. por meio da representação. 2015. ante a afeição que. independente da extensão da referida lesão. tem-se os abaixo listados a partir do Código Penal Brasileiro: Crime Pena Ameaça (art. autorizar ou não o início da persecução penal. Távora (2013. p. Primeiramente.. de três meses a um ano “caput”) Estupro (art. determinando a natureza da ação penal em crimes de lesão contra a mulher em ambiente doméstico. por fim. Ressalta-se que. Como exemplo de crimes de ação penal pública condicionada à representação. Detenção. ação penal pública condicionada à representação é aquela que teve seu início após o interesse da vítima em ver o agente do crime em questão investigado. ou ao Ministro da Justiça. de 2 (dois) a 6 (seis) anos (art. através da requisição. “caput”) Quadro 1 – Exemplos de crimes de ação penal pública condicionada à representação Fonte: Adaptação do Código Penal Brasileiro. 215. Tanto a representação quanto a requisição ministerial são ao mesmo tempo um pedido e uma autorização (condições de procedibilidade). sem as quais não haverá processo. inquérito policial e nem mesmo a lavratura do auto de prisão em flagrante. ou multa Lesão corporal leve (art. 213.. caberá ao ofendido. sempre que a lei assim condicionar. igualmente lhe faculta a possibilidade de se retratar . 129. como incondicionada.

a se ver: Art. em se tratando de ações penais públicas outras condicionadas à representação. AUSÊNCIA DE PROVA ESCLARECEDORA DA EXISTÊNCIA DO FATO DELITUOSO. atentando-se ao óbice apenas de ofertá-la antes do recebimento da denúncia. CONTRADIÇÕES NAS . ou até o oferecimento da exordial acusatória.] o comportamento da vítima passou a constituir importante foco de análise no campo da dogmática penal e não poderia mais ser desconsiderado na avaliação de responsabilidade do autor. consoante art. ou vir em forma de subsídios aptos a reduzir a pena cominada ao réu. quando da fase de dosimetria da pena. bem como ao comportamento da vítima. Esse benefício pode vir em forma de depoimentos controversos que levem o magistrado a fazer incidir o princípio do in dúbio pro reo e. ou seja. investigar o comportamento da vítima para buscar uma co-responsabilidade pode ter também alguns efeitos negativos que. 25 do Código de Processo Penal “a representação será irretratável. ainda assim. dentro dos limites previstos Oliveira (1999 apud NUCCI. aos motivos. causariam uma absurda inversão de papéis. 2008. aquele trauma psicológico pode interferir no andamento da persecutio criminis. aquela que independe de manifestação da vítima para ser dado início a investigação policial.. p. conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: I – as penas aplicáveis dentre as cominadas.. às circunstâncias e consequências do crime. CONDENAÇÃO. atendendo à culpabilidade. depois de oferecida a denúncia”. 401-402) discorre que [. consoante se deduz do art. O juiz. estabelecerá. consoante se observa abaixo: O CRIMINAL ROUBO QUALIFICADO. no extremo. estando a título do Ministério Público o início da correspondente ação penal. na dúvida ante a culpabilidade deste. Como os casos relacionados à incidência da Síndrome subsumem-se a crimes de ação penal pública incondicionada. 59 do Código Penal Brasileiro. aos antecedentes. II – a quantidade de pena aplicável.45 da referida representação. que prevaleça a absolvição. vez que a vítima pode narrar os fatos de maneira que beneficie o seu agressor. No entanto. à personalidade do agente. sob pena de sobrecarregá-lo com uma culpa que não é só sua. em se tratando da Lei Maria da Penha. 59. E assim já foi visto em nossa jurisprudência pátria. INCOMFORMISMO. à conduta social.

ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais. uma vez incidindo quaisquer das situações abaixo descritas: Art. 36. IV . Relator: Guimarães da Costa. dentro do prazo de 60 (sessenta) dias. III . sendo o querelante pessoa jurídica. a qualquer ato do processo a que deva estar presente. qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo. ressalvado o disposto no art. II . sendo que essa inércia pode ser manifestada de quatro formas. O próprio art. Data de Publicação: 20/08/2004 DJ: 6690) Se nos casos de ações penais públicas incondicionadas há essa possibilidade de não colaboração da vítima durante a instrução processual.quando.. consequentemente. IMPLICABILIDADE DA SÍNDROME DE ESTOCOLMO. iniciada esta. 60 do Código de Processo Penal: I . ficando o agressor. ou sobrevindo sua incapacidade. A figura da perempção diz respeito à inércia do particular na ação penal privada.. a qual tem seu direito de ingressar com a respectiva queixa-crime durante o lapso de seis meses decadenciais. o único titular da ação penal é a vítima. impune. Segunda Câmara Criminal (extinto TA). (TJ-PR .46 DECLARAÇÕES DA PRÓPRIA VÍTIMA E QUANTO AOS DEPOIMENTOS DAS TESTEMUNHAS. quando a vítima claramente – seja por via expressa ou . sem motivo justificado.ACR: 2473756 PR Apelação Crime . 107.] IV – pela prescrição. MESMO EM LONGO CONTATO COM OS POLICIAIS A VÍTIMA NÃO DELATOU SEU POSSIVEL ALGOZ. Extingue-se a punibilidade: [. Já a renúncia ao direito de queixa se dá antes do término do prazo decadencial de seis meses. decadência ou perempção. Data de Julgamento: 24/06/2004. e nas ações penais públicas condicionadas à representação a investigação pode nem ser iniciada. para prosseguir no processo. esta se extinguir sem deixar sucessor. falecendo o querelante.quando. sob pena de não mais o poder fazer. IN DUBIO PRO REO.0247375-6.quando o querelante deixar de comparecer. 107 do Código Penal elenca situações em que a extinção da punibilidade de um agente é devida. o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias seguidos. ou seja. nos crimes de ação privada. RECURSO PROVIDO. não comparecer em juízo. tão alarmantes quanto são os casos em que a ação penal é privada. V – pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito.quando. de acordo com o art.

como por exemplo. que a Síndrome de Estocolmo tem seus efeitos ramificados não apenas aspecto psicológico da vítima. através de atuação conjunta de aplicadores do direito e profissionais da área da psicologia. O perdão também se refere à desistência. ou mesmo não os deixar interferir na investigação. não apresenta representação que autoriza a persecutio criminis. ante a sua possibilidade de ampla colaboração na melhor forma de lidar com situações jurídicas em que esteja presente a Síndrome de Estocolmo. distorce os fatos quando inquirida a depor sobre a experiência reclusa que teve com o agressor.47 tácita – desiste de propor a ação penal privada. a própria punibilidade do agente. visando a proteger seu agressor. inclusive de forma inteligentemente pouco onerosa. caso seja condenado. mas do prosseguimento da ação penal privada e. mas no âmbito processual jurídico. A duplicidade do comportamento da vítima torna mais dificultosa a elucidação crime que se deseja ver processado e. a fim de que seja refletido na dosimetria de sua pena. renuncia ao seu direito de queixa-crime ou ainda perdoa o agressor no curso do processo. e diminuir os seus efeitos no curso de um processo. em não conseguindo. É nesse contexto que a vítima da Síndrome. O trabalho conjunto de ambos os profissionais mencionados pode ensejar a uma identificação mais rápida do desenvolvimento da Síndrome na vítima. o estudo vitimológico ganha relevância. quando oferecido o perdão. através de melhores táticas e técnicas na forma de questionar a vítima acerca do ocorrido. Por este fato. Fica evidente. . ainda. tudo com o fito de não prejudicar o agente e. expressa ou tacitamente. A relação de empatia que a vítima desenvolve com seu agressor. pode ser manifestado – concedido e aceito – até o trânsito em julgado da decisão condenatória. procurando minorar as circunstâncias envoltas à figura do agressor. dessa forma. igualmente desperta nela a rejeição por ajuda ou interferência de qualquer terceiro que demonstre interesse em punir o algoz. deixa decair seu direito de apresentar a competente ação penal.

como se constata quando a polícia é acionada para conter uma crise. com o objetivo de ter seus anseios e pleitos atendidos. mas com o diálogo e técnicas de acordos com os causadores da crise. um grupo tático. tenta desvirtuar a atenção do . garantindo sua sobrevivência com o término daquele evento. de onde partem as decisões de comando aos demais grupamentos. O negociador. as corporações policiais aprimoraram o seu agir em situações de crises com reféns. tem se apresentado de forma muito mais constante e em uma escala de crueldade descabida e crescente. Toda a conjuntura é encabeçada pelo gerente da crise. tem tornado a sociedade vítima dos ímpetos insaciáveis destes transgressores da lei. um grupo de negociação. onde há a presença de reféns. as próprias organizações policiais precisaram realizar ajustes. subdividindo suas ações e vinculando cada etapa a determinado grupo. principalmente por ser dever instituído na nossa Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. inclusive dos criminosos. Por ser dever de todos e garantia. É dessa forma que se vê a atuação de um grupo de gerenciamento de crise. Em virtude desse cenário. contrabando. novas táticas de ação. tanto a nível nacional quanto internacional. novos grupamentos especialmente criados para lidar com um determinado tipo de circunstância. a preservação da vida de todos os cidadãos. tentando ao máximo garantir a segurança pública aos seus concidadãos. É nessa conjuntura que a polícia se depara com um provocador do evento crítico. De forma altamente meticulosa e inteligente. Esses ajustes vieram em forma de novo aparelhamento. sendo que vem crescendo em meio aos órgãos policiais a exigência de atuação do negociador. ou vítimas. não atua com a força “bruta”. diferentemente de um policial pertencente a um grupo tático. A facilidade com que criminosos tem tido acesso a armamentos com calibres de uso restrito às Forças Armadas. em um reflexo do tráfico de drogas e armas.48 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A criminalidade. do Estado. e um grupo de operações emergenciais. principalmente em fronteiras. em especial. o qual mantém sob seu julgo reféns. com o fito de conter a ação desses bandidos.

. havendo a necessidade de uma interligação constante entre o campo do Direito e a seara da Psicologia. foi apresentado no estudo também que. pois pode lhe trazer já uma garantia de que as vítimas estarão a salvo de alguma agressão durante o desenrolar da crise. buscando garantir a integridade física de todos. por um lado traz benesses e. mas principalmente dos capturados. seja sustentando bom comportamento do agressor. pode também ser prejudicial ao negociador.49 captor para com seus reféns. a Síndrome de Estocolmo pode interferir diretamente na aplicação do direito. incutindo nestas um sentimento de afeição com seu agressor e. em virtude de a vítima procurar extinguir a punibilidade do agente. na grande maioria dos casos. seja por renúncia. entre outros. doença de ordem psicológica que surge em vítimas que se encontram em real perigo de vida. Todavia. consequências drásticas para o efetivo cumprimento da lei. podem camuflar a real situação da crise. por outro. em meio a esta problematização. não oferecimento da respectiva ação penal. uma casuística que pode se fazer presente durante a crise é a Síndrome de Estocolmo. após a captura do agressor e término da crise. como há a possibilidade de a relação de afeto ser mútua. ainda que para garantir a vida do próprio refém. em virtude de as vítimas tentarem beneficiar o agressor. o presente trabalho não teve por escopo o esgotamento da matéria. e este tem sua aparição perpetuada no desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo. que. perempção. para se encontrar um ponto de equilíbrio em casuísticas como a apresentada. Mas. A par desta circunstância. Assim. vez que as informações prestadas pelos capturados. muitas vezes o próprio policial negociador visa a esse desenvolvimento da Síndrome. Mas. vez que a negociação e o gerenciamento de crise envolvem fatores não só de ordem jurídica. como pode trazer esse benefício. esperou-se ter contribuído para uma boa elucidação dessa temática ainda muito complexa. no que tange a atuação dos policiais. de repulsa a terceiros que venham a interferir nessa casuística. não informando a polícia qualquer indício ou circunstância que possa influenciar negativamente no estado em que o causador da crise se encontra. ou minimizar as circunstâncias envoltas à condenação e a dosimetria da pena. De igual forma. mas também do campo psicológico. seja omitindo informações em seu depoimento à justiça.

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