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A CRUELDADE SIMBÓLICA DO DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO (E
SIMILARES).

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Ramos
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Natal, Rio Grande do Norte
DOM, 08/06/2014 - 06:34

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por vezes quebra objetos e agride fisicamente a mãe. não. que demandam um protocolo diferenciado e um tratamento específico. Já os transtornos mentais. tanto melhor para a eficácia do tratamento. Estas reflexões certamente parecerão extremamente polêmicas ou mesmo absurdas àquelas mentes formatadas por um discurso cientificista e desumanizado. em psiquiatria. Por que afirmo que o diagnóstico. Preocupada. o diagnostico vem sempre acompanhado de uma trilogia maligna: (a) descontextualização. Quanto antes ocorrer a prescrição do correto diagnóstico. após analisar os seus sintomas. ROBERTA: Trata-se de uma adolescente que apresenta acessos freqüentes de fúria incontrolável. exigem um tratamento diferenciado? É que. Todo o esforço da psiquiatria e de boa parte dos neurocientistas é tentar demonstrar que os transtornos mentais são doenças ou desequilíbrios do cérebro. a família a leva ao psiquiatra. Antes de tudo. ela é diagnosticada como portadora do Transtorno Explosivo Intermitente (TEI). E aqui é preciso fazer uma diferenciação entre as doenças do cérebro – as quais podem ser tratadas com medicamentos ou cirurgia – e as “doenças” ou transtornos mentais. no caso dos transtornos mentais. é preciso fazer alguns esclarecimentos. Conversa pra boi dormir. A fim de ilustrar e embasar a argumentação. São-lhe prescritos ansiolíticos e calmantes. Além de não respeitar os pais e questionar-lhes a autoridade. Os sintomas médicos exigem e demandam um diagnóstico. (b) naturalização e (c) perenização do sofrimento psíquico. .Tentarei fazer algumas considerações a respeito das implicações da formulação de diagnósticos em psiquiatria e demais disciplinas que seguem o mesmo protocolo. Seu comportamento tanto na escola quando em casa é caracterizado por atitudes ríspidas quando não extremamente agressivas. Na consulta. vou citar dois casos clínicos – o de Roberta (fictício) e o de Márcia (real). Ameaça fugir de casa ou se matar. Mas as ciências da saúde estão sofrendo de um déficit crônico de sutileza – e esta carência está tendo conseqüências catastróficas para a vida e o futuro das pessoas.

Seu olhar é retrógrado e petrificador . “Quando o psiquiatra enquadra. Foi aí que os acessos de raiva começaram. Era para ela se sentir feliz com a morte da pessoa que mais amava? A sua tristeza foi patologizada. O padrasto estava abusando sexualmente de sua enteada há meses. centrando-se no que já está posto. a faz ver que ela estava assumindo um papel de vítima. Sempre fora uma jovem dinâmica. Toda doença e principalmente todo transtorno decorre da confluência de múltiplos fatores. prospectiva e amorosa. Ela é diagnosticada como sofrendo de Depressão. A mãe sofrera no passado de violência sexual.       Tanto num caso como no outro. afastada do trabalho por uma Junta Médica há uma década. consciente ou inconscientemente. Ela começa a tomá-lo e sua vida piora a cada dia. Chega ao consultório andando com dificuldade. Vive durante dez anos afastada de suas atividades profissionais em função do pânico e da depressão. Já o calvário de Márcia teve início quando ela foi diagnosticada como deprimida. distancia-se inevitavelmente de uma postura terapêutica aberta. Segundo Ato.             Voltemos ao caso de Márcia. Converte-se em encefalatria. a uma coisa. Freqüentemente padece de fome em casa por não conseguir atravessar a rua para comprar alimentos na venda da esquina.net/glossary/term/133). reduz-se o homem a um código de barras. Natal (RN). B) Naturalização. Não consegue mais trabalhar. e prescrevem-lhe três medicamentos. através de um trabalho vivencial e reflexivo acerca do papel que ela estava representando na sua própria vida. o que a fazia ter pavor de sexo. Mas a alteração química explica o surgimento do pensamento. Das Classificações). independente e trabalhadora.        A) Descontextualização. Surgem os sintomas de pânico. o terapeuta.  Sua relação como marido. do sentimento e do transtorno? Não. Voltemos aos nossos exemplos. Quando a psiquiatria envereda por esse caminho reducionista sem escutar o sujeito e sem levar em conta o histórico de sofrimentos que se ocultam por trás do sintoma. C) Perenização. Eles se separam.redehumanizasus. mas esta os desconsiderou. classifica e diagnostica. ou seja. sem fala e dignidade. a uma simples mercadoria. morre enquanto tal. Seus movimentos são lentos. Ocorre quando se supõe que os transtornos mentais são decorrentes de alterações químicas no cérebro. deixar de ser solicitada pelo padrasto foi para ela um alívio. . e congela o próprio olhar do psiquiatra no diagnóstico realizado num determinado momento. de doente. Não havia intimidade entre a mãe e o padrasto. sem história. acobertado e justificado pela psiquiatria. Não há dúvida de que todo pensamento e todo sentimento vem acompanhado de uma alteração química no cérebro. (A Tragicomédia da Medicalização: a Psiquiatria e a Morte do Sujeito (http://www. sua voz carregada. E a razão é de ordem psíquica. Quando. em animais sem vida própria. na segunda sessão. Levam-na a um psiquiatra. E por que não? A razão é que o surgimento de um hormônio ou substância no cérebro se dá por alguma razão. Com a morte do pai.MÁRCIA: Sempre fora muito apegada à família. O ser humano é um animal cultural. dificultando-lhe a percepção da evolução ou variação da sintomatologia do mesmo paciente ao longo do tempo. A mãe parecia não se dar conta do que se passava dentro de casa. atua no sentido de capturar o paciente numa classificação nosológica”. fica profundamente triste e desconsolada. Roberta vivia com o padrasto e a mãe. amparada e auxiliada por dois familiares. Quando se supõe que um transtorno psíquico decorre de um desequilíbrio químico no cérebro. colocou “entre parênteses” todo o contexto que levou ao surgimento dos sintomas e transformou os seus portadores em coisas. o diagnóstico psiquiátrico operou um psicocídio: ao ser formulado. se deteriora. após a morte do pai. O diagnóstico matou a subjetividade. A filha ensaiou denunciar os abusos que sofria à mãe.  restando apenas um corpo com uma patologia. Sapiens: 2012. Desta forma. que não ia bem.petrifica o paciente num estigma.

            Pode-se fazer uso do diagnóstico. Ou seja. ao ver a sua ansiedade ser suavizada por um ansiolítico. O CORO: “O que é válido para alguns. Ao receber um transplante de coração. ao sair da sala de cirurgia. dessas variações individuais indesejáveis. que passou no vestibular. ao perceber que suas dores abdominais diminuem com um remédio para o fígado. Supondo-se que a atividade cerebral seja regulada pela genética. Na terceira sessão. No momento que percebe que ela mesma alimentava aquele papel que a fazia vegetar. E. de um estilo de vida. permite-se adotar um estilo de vida mais agitado e frenético do que antes. Uma substância administrada para amenizar a depressão pode. um portador de diabetes. por exemplo.             E aí. Toma consciência que o rótulo a escava colocando numa jaula simbólica ad infinitum. Confiar num medicamento é sempre uma aposta perigosa e imprevisível. Alguém que esteja triste pela perda de um ente querido. quando o tratamento vai acabar? Nunca se sabe. o princípio ativo pode provocar reações inversas às pretendidas. Assim.) Ao medicar um paciente sob a alegação de ajudá-lo em seu tratamento. graças às conquistas da farmacologia. o discurso biomédico sustenta. e com razão. O sujeito vai ao psiquiatra e sai com um remédio na mão.             Esse procedimento é o mais usual. a resposta é: nunca. a estética e a motivação que poderia levar à cura. Esse holocausto da subjetividade é perpetrado diariamente nos postos de saúde e rede pública. ao tomar um remédio que diminui as taxas de glicose no sangue. O paciente precisa ser medicado para todo o sempre. Entretanto.” Contudo. especialmente na rede pública. para finalizar. portanto. efetivamente funciona para um bom número de pessoas.           Com efeito. os medicamentos não funcionam da mesma maneira para todos. Primeira: Diagnóstico + medicação (sem tratamento). quando o indivíduo é medicado (ou se automedica) e constata um efeito positivo no melhoramento dos seus sintomas. mesmo que os sintomas estejam ausentes. induzir ao suicídio a determinadas pessoas. como a medicação está dissociada de uma dietética existencial. Isto porque a medicalização suprime a ética do cuidado de si. Isso funciona?             Cito outro trecho (é longo. inimiga da subjetivação. ao tomar um antidepressivo pode indefinidamente sentir-se propenso a apegar-se à lembrança do morto.. Não vou perder essa oportunidade!”             Nesta conformidade. ou seja. os indivíduos apresentam reações diversas em relação a uma mesma droga. que se move predominantemente na lógica do capital. sente-se livre para abusar dos docinhos. que o uso dos medicamentos. ela se sentia “doente” simplesmente porque se colocava e aceitava o papel de doente. já que tem à mão um recurso que pode contornar e aliviar os excessos cometidos. falou para um repórter: “Estou me sentindo tão bem que vou comemorar comendo um churrasco!” O mesmo vale para os psicofármacos: aquele que se sente ansioso. os psiquiatras não estão se colocando do lado daquele que sofre. E volta a viver.             Essa trilogia maligna é uma expressão inequívoca do processo de medicalização da vida. pode ser prudente medicar-se “de forma preventiva” para evitar uma recidiva. Da mesma forma do que ocorre em relação à nutrição. onde um alimento saudável pode ser danoso para alguém que possua alguma rejeição aos ingredientes dele. um pedreiro. decide mudar. Assim.             Se o transtorno psíquico é causado por um desequilíbrio químico do cérebro. de um procedimento simbolicamente cruel. cuja perda acha inaceitável e intolerável. temos algumas possibilidades.ela se DESCOLA do rótulo.. permite-se abusar mais ainda do álcool. Segunda: Diagnóstico + medicação + tratamento. mas é importante): "(. pode não ser válido para todos. mas sim a favor do pharmacolonialismo. para a obtenção de dois direitos – o remédio e o tratamento psicológico. sendo. se não fosse uma tragédia. por exemplo. Os indivíduos são diferentes e reagem de forma desigual aos estímulos. sente-se imediatamente autorizado a desequilibrar-se ainda mais. impedindo-lhe a elaboração do luto. O Transtorno de Explosividade Intermitente poderia ser considerado uma piada. ou seja. apesar dessas “anomalias”. mesmo . Um viciado em bebidas alcoólicas. ela afirma: “Vou voltar a estudar! Vou pegar carona com a minha sobrinha.O remédio converte-se na senha para empreender toda a sorte de desatinos(1).

A consequência desta acomodação clínica do sintoma é evitar que o indivíduo entre em contato com as verdadeiras causas de seu malestar. os quais não se autorizam a praticar nenhum tipo de excessos. e a sua individualidade é eclipsada por trás dela. pelo diagnóstico o rótulo adere ao paciente como um estigma. se o medicamento diminui ou cessa o mal-estar. E mais: ele não mais consegue sentir-se e perceber-se como outrora: o medicamento altera o seu humor. e ele jamais . a guisa de conclusão. terceiro. Edward BACH: “. ora! Nenhum psiquiatra bem intencionado e esclarecido sustentaria que o remédio por si só possa resolver todos os males! O ideal é que ele venha acompanhado de uma psicoterapia a fim de reforçar e retroalimentar os efeitos positivos da medicação. segundo. ele é rebanhizado. age como uma máscara trágica a se interpor entre o sujeito e os seus sentimentos e emoções. é benéfica e existe para nosso próprio bem. Se o medicamento minimiza o sofrimento. ao contrário de todos aqueles que pregam que a medicação e a terapia caminham muito bem juntas. o restrito grupo daqueles que tomam um psicoativo e ele efetivamente funciona. na verdade a medicação é o maior empecilho para um efetivo avanço terapêutico. de outro. nós nunca desejamos tanto comer um alimento como quando sentimos nas vísceras a fome nos corroer por dentro. será a causa da supressão desses defeitos e fará de nós pessoas melhores e mais evoluídas do que éramos antes. há ainda. José Ramos Coelho  (1)“(. a doença. ele é nomeado pelo diagnóstico como portador de algum distúrbio ou perturbação. aplicar-se-á um remédio inespecífico para um indivíduo genérico que não existe enquanto tal”. um bom nível de educação é preferível ao consumo médico” (2011. a terapêutica medicamentosa indicada será aquela aplicável não ao indivíduo na sua singularidade.. preferível a todas as outras.390) (2) Com profunda sabedoria. As consequências desta rebanhização são. p. e. quando ingerido. a despersonalização e perda de referenciais internos. Saudações. Terapia e remédio. mas sim ao rebanho no qual ele foi inserido.que funcione. tanto pior será!” Porém. Se tratada com propriedade. Em suma. Isto porque há uma harmonia entre os opostos em todas as coisas. Evita os efeitos colaterais da medicação e não atrapalha no tratamento.             Por fim. O sofrimento é um corretivo para se salientar uma lição que de outro modo não haveríamos de aprender. diminui também a capacidade de sentir prazer. de um lado. Só em casos especiais não seria recomendável. Benditos. guiar-nos-á em direção aos nossos defeitos principais. nós nunca ansiamos tanto por carinho como nos momentos em que nos sentimos sós e desamparados.."   Terceira possibilidade: Diagnóstico + tratamento (sem medicação)             É. posto que pareça tão cruel. e um oposto remete para o seu pólo oposto e complementar. seguindo fielmente o protocolo médico prescrito. tornando-o “adequado” ou “saudável” dentro de normalizações socialmente determinadas. pontifica o Dr. elimina também aquilo que poderia ser a motivação para a busca do bemestar(2). tendo apenas uma função de viabilizar um controle biopolítico sobre os corpos e as mentes dos pacientes.. cito um trecho do livro “A Tragicomédia da Medicalização”. – “Conclui-se que.as etapas da violência simbólica à qual o paciente é submetido: primeiro. A máscara dá a ele uma aparência de universal normalidade. Ora.. retomando a tese de Ivan Illich. ou seja. o medicamento. para não cansar demais os leitores: a formulação precipitada de um diagnóstico para um transtorno psíquico é um desserviço àqueles que buscam o autoconhecimento e a autotransformação. terapia para a alma! No entanto. por último. se interpretada de maneira correta. Ora. ou seja. o remédio ainda assim é danoso para um grande número de pessoas. tal como as marcas de identificação apostas aos animais quando são ferrados.) a educação age sobre o nível de vida em uma proporção duas vezes e meia mais importante do que o consumo médico” – afirma Michel FOUCAULT. esses bons pacientes! O sonho de todos os psiquiatras! Para esses. embora ocultas. O CORO: “Quanto melhor o remédio. E o motivo é óbvio e irrefutável: nós nunca desejamos tanto estar saudáveis como ao nos sentirmos doentes. já que o tratamento é focado nos sintomas e não em cima de suas causas que continuam ativas e atuantes. na maioria dos casos. as referências se deslocam de sua personalidade individual e única para o rebanho anônimo e indistinto da categoria nosológica em que é agrupado. remédio e terapia: remédio para o corpo. onde a violência simbólica do diagnóstico é resumida:   “Eis – antecipando o que diremos ao longo deste opúsculo . para viver mais tempo.

p.18).poderá ser dispensado até que a lição seja totalmente assimilada”. (2010. . O combate precipitado aos sintomas está a serviço da manutenção da ignorância e da cegueira.