Neuci Pimenta de Medeiros

Revolução em Portugal: Aspectos políticos sobre a implantação da democracia
em Portugal no período da guerra fria

1. Introdução
A defesa e implantação da democracia em Portugal não foi uma tarefa fácil para os seus
idealizadores e apoiadores, como demonstraram DEL PERO (2011), FONSECA (2012) e
OLIVEIRA (2009). Esses autores, em seus respectivos artigos, analisaram diferentes fatos
históricos relacionados à revolução portuguesa, no período compreendido entre 1974 e 1976.
Os artigos dos autores acima referidos serão apresentados de forma resumida neste trabalho,
na seguinte sequência:
(i) O primeiro artigo apresentado será ‘Which Chile, Allende?’ Henry Kissinger and
the Portuguese Revolution, de Del Pero. Nele o autor analisa a visão e a atuação dos
americanos em relação à revolução que, em 1974, derrubou o governo autoritário que existia
em Portugal. A análise faz um paralelo entre a postura dos americanos e a de seus aliados na
Europa, especialmente a República Federal Alemã - RFA, para demonstrar como esses atores
externos influenciaram na implantação de um governo democrático em Portugal.
(ii) O segundo artigo resumidamente apresentado é o de FONSECA, O apoio da
Social-Democracia Alemã à Democratização Portuguesa (1974-1975), nesse artigo a autora
demonstra como a República Democrática Alemã – RFA apoiou a implantação da democracia
em Portugal. Sendo o referido apoio efetivado por meio de seus representantes políticos, em
especial do Partido Social-Democrata – SPD e da Fundação Friedrich Ebert (FES).
(iii) O terceiro e último artigo resumido é o OLIVEIRA, O Flanco Sul sob Tensão. A
Nato e Revolução Portuguesa. Nele o autor analisa a repercussão da revolução portuguesa
entre os membros da NATO. Destaca como a permanência ou não de Portugal na NATO foi
usada para persuadir os governos provisórios, instalados após a revolução, a agir de acordo
com os interesses da Organização e de seus pressupostos.
Os artigos resumidos a seguir trazem elementos históricos que possibilitam ampliar a
compreensão de vários fatores externos, principalmente, que contribuíram para que se
instalasse em Portugal um governo democrático, após mais de 40 anos de regime autoritário,
em pleno período de guerra fria.

poderia incentivar a expansão do comunismo na Europa Ocidental. O artigo demonstra que Kissinger e os americanos. ou seja. A ação internacional para promover a democracia em Portugal preocupava os americanos. O pensamento político dos americanos em relação a Portugal não era. Diante da ameaça de que os comunistas ficassem à frente do Estado de Portugal os americanos defendiam o abandono dos portugueses. então representado por Marcelo Caetano. Essa preocupação orientou a política americana para Portugal. Assim. Allende?’ Henry Kissinger and the Portuguese revolution Mario Del Pero1 O autor analisa a reação dos Estados Unidos da América – EUA. . Demonstra o autor que o fundamento do temor americano sobre a presença comunista no governo de Portugal acentuou-se devido à participação de membros do Partido Comunista de Portugal – PCP nos governos militares provisórios que comandaram Portugal após a queda de Marcelo Caetano. manter relações com Portugal. sua retirada da NATO além da aplicação de sanções econômicas e políticas. a URSS poderia considerar a ação dos aliados em Portugal como intervenção capaz de ameaçar o détente estabelecido entre americanos e soviéticos. os americanos preferiam abandonar Portugal que por em risco a manutenção dos valores democráticos em outros estados europeus e o détente. no entanto. compartilhado por seus parceiros europeus. por um lado. mesmo que desenvolvida por seus aliados europeus. preocuparam-se principalmente com a possibilidade do estado português ser governado por comunistas e os reflexos desse governo sobre os países localizados no sul da Europa. Entendiam os EUA que só o isolamento de Portugal. Revolução essa que deu fim ao regime autoritário existente no país. e dos aliados americanos na Europa ocidental em relação à revolução ocorrida em Portugal entre 1974 e 1976. que tinha no governo a presença de comunistas. e implantou a democracia em Portugal. poderia evitar a expansão do comunismo para outros estados do sul da Europa. sob a justificativa de afastar a ameaça comunista. entre 1974 e 1975. Para os europeus interessava que Portugal se transformasse em um estado democrático não em uma ditadura militar como a que se estabeleceu no Chile de Pinochet. ‘Which Chile. Lá houve o uso da força para derrubar o governo de Allende. Pois. 1 Mario Del Pero é Professor Associado de História dos EUA na Universidade de Bolonha. afastando-o de seus parceiros da Europa Ocidental. Estes entendiam que em Portugal não era possível aplicar a mesma estratégia adotada no Chile.2. Por outro lado. em relação à revolução que ocorreu em Portugal. principalmente a partir das manifestações do Secretário de Estado Americano Henry Kissinger.

Com isso. CEHC-IUL. Estabeleceu boa relação diplomática com o governo autoritário de Marcelo Caetano (19681974). Professora no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). Por outro lado. Mas. no processo de transição de Portugal de um governo autoritário para democrático. . pois Acreditava. havia boa relação do governo da RFA com o governo autoritário de Portugal. Tal arranjo político era indispensável para evitar o crescimento do Partido Comunista Português (PCP) como principal oposição ao regime autoritário. persuadiram os americanos a manter Portugal no rol de seus aliados na Europa e a apoiar a democratização de Portugal. econômico e militar. de um lado. 3. por meio do Partido Social-Democrata – SPD.SPD e da Fundação Friedrich Ebert (FES). Nesse sentido. no entanto. que Caetano ampliaria a liberdade em Portugal. O Apoio da social-democracia alemã à democratização portuguesa (1974-1975) Ana Mónica Fonseca2 O estudo demonstra aspectos importantes da participação da República Federal da Alemanha (RFA). no âmbito político. principalmente. ao mesmo tempo manter a boa relação entre as duas nações. A RFA.SPD e. para garantir o restabelecimento da democracia em Portugal. A política alemã de se manter próxima às elites políticas de Portugal buscava influenciar no restabelecimento da democracia e. evidencia que. fazia oposição ao governo. liderada por Mário Soares. a República Federal da Alemanha manteve estável seu relacionamento político com o regime autoritário de Portugal. Pela via diplomática.Os países que compunham a Comunidade Económica Europeia – CEE atuaram para promover a implantação da democracia em Portugal. era imprescindível conciliar o fim do regime autoritário como o fortalecimento da Ação Socialista Portuguesa – ASP. Com esse objetivo a ASP organizou-se e concorreu. No âmbito político. da Fundação Friedrich Ebert (FES). conforme demonstrado no artigo. Para a RFA. principalmente por meio do Partido Social-Democrata . ficava a cargo do Partido Social-Democrata . nas eleições de 1969. 2 Doutora em História Moderna e Contemporânea pelo Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-IUL. por meio da Fundação Friedrich Ebert (FES). os alemães apoiavam a oposição ao regime autoritário. frustrou a expectativa alemã que passou a dar apoio político à Ação Socialista Portuguesa (ASP) que. O governo de Marcelo Caetano não promoveu a liberdade política esperada pelos alemães. O apoio à ASP era executado sem a participação direta do governo alemão. não rompeu com o regime autoritário. conforme a autora. até o final da década de 60.

de cooperativas culturais e centro de estudos e desenvolvimento. Mas. Essa oposição foi efetivada com a aquisição do jornal República para a divulgação das atividades da Associação. atuou no apoio político à oposição. com o nome de Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD). ao mesmo tempo. pautada na democracia e no liberalismo. o fortalecimento interno e externo da oposição ao regime autoritário de Portugal. aumentou a visibilidade da oposição feita pela ASP ao regime autoritário de Portugal. do potencial dos socialistas portugueses para implantar um governo democrático no país. notadamente ao PS. O apoio ao PS deu-se claramente na defesa da postura ideológica do SPD. Segundo a autora. da Fundação Friedrich Ebert. Braga e Porto. por meio da Fundação Friedrich Ebert . Por esse motivo. por sua vez. E. houve o aumento do apoio e do reconhecimento internacional. a atuação da Alemanha no processo de democratização de Portugal deu-se.em listas autónomas em Lisboa. como partido que tinha o apoio da Europa. Com isso. por meio. Esse apoio contribuiu para a redemocratização do país. representada pela Chancelaria Federal. em Lisboa e Porto. A entrada na IS forçou a transformação da Ação Socialista Portuguesa em um partido político. em junho de 1972. desencadearam a revolução de 25 de abril de 1974. a ASP foi admitida como membro pleno da Internacional Socialista – IS. contribuiu para a criação da estrutura física do PS. contou com a boa vontade e algum apoio financeiro dos alemães. A Fundação Friedrich Ebert – FES atuou no fornecimento de meios técnicos e materiais que possibilitaram à oposição de portuguesa desenvolver suas atividades. Partido Social-Democrata – SPD. principalmente pelos esforços de Mário Soares junto dos principais partidos socialistas e social-democratas da Europa Ocidental. Essa estratégia da ASP teve consequências políticas externas e internas. No âmbito interno. também. sendo Mário Soares escolhido para secretário-geral do Partido. Os problemas internos do governo de Marcelo Caetano. Seu principal foco foi a organização do Partido Socialista – PS.FES e do Partido Social-Democrata . Nesse momento histórico a oposição em Portugal passa a ter o apoio aberto e decisivo da Alemanha. procurou fortalecer os socialistas.SPD. pela necessidade de neutralizar o crescimento dos comunistas. No âmbito externo. principalmente. no âmbito interno e externo. porém. capacitou os membros do partido e. foi fundado o Partido Socialista Português (PS) em 19 de abril de 1973. com a aquisição de equipamento e material de escritório. representados principalmente pelo . Com isso. principalmente. notadamente a exercida pelo PS. ocupada pelo social-democrata Helmut Schmidt. inclusive com os militares portugueses.

Assim. como foi o caso de Portugal. O Flanco Sul sob tensão a Nato e Revolução Portuguesa. apesar de formalmente se comprometer-se com a “democracia. a liberdade individual e o primado da lei”. ao permitir que a Força Aérea americana usasse a Base das Lajes como ponto de escala na ponte aérea para Israel.PCP. Professor Auxiliar do Departamento de História da FCSH-UNL. entre 1974 a 1976. em plena guerra fria. . como Portugal. pelos membros da Europa Ocidental. admitiu como membros. (ii) que a política de colonização praticada por Portugal provocou atrito entre os membros da NATO. 4. devido à aproximação dos militares com os comunistas. Grécia e a Turquia. 1974-1975 Pedro Aires Oliveira3 A partir de fontes primárias essencialmente britânicas e indiretamente. destaca-se: (i) A evidente contradição entre os valores democráticos incorporados e defendidos pela NATO e a aceitação de estados autoritários como membro.North Atlantic Treaty Organization (Organização do Tratado do Atlântico Norte. também OTAN).Partido Comunista Português . o governo alemão optou por deixar a cargo dos partidos políticos e fundações a participação da Alemanha na implementação da democracia portuguesa. Demonstra o autor que a NATO. numa 3 Doutor em História Institucional e Política Contemporânea pela FCSH-UNL (2007). devido à sua localização estratégica para a defesa do território europeu e dos interesses dos componentes da NATO. missões de luta anti-submarina e de patrulhamento do Atlântico. (iii) a restrição à atuação de Portugal na NATO. países nos quais prevaleciam regimes não democráticos. feita pelo autor. norteamericanas. Da análise do caso de Portugal na NATO. desde sua criação. (v) o contributo de Portugal à coesão da NATO. e os diferentes posicionamentos de seus membros em relação à evolução do processo revolucionário em Portugal. da permanência de Portugal na NATO. de modo a evitar que o poder fosse tomado pelos comunistas em Portugal. (iv) a defesa. o autor analisa a participação de Portugal na NATO . atuando formalmente apenas em questões específicas e indispensáveis ao objetivo de formar em Portugal um governo democrático e plural.

segundo o autor. prevaleceu o pensamento defendido pelos europeus de manutenção de Portugal na NATO. o artigo demonstra que a NATO. A permanência foi possível. O secretário de Estado Henry Kissinger começou a temer pela estabilidade do Flanco Sul da Aliança devido pela proximidade dos militares portugueses com os comunistas. a revolução de 25 de abril de 1974 em Portugal foi motivo de grande alívio para a NATO. principalmente em relação às suas colônias na África. Pois. que governavam provisoriamente Portugal após a queda do regime autoritário. Conclusão Os três textos resumidos acima analisaram fatos históricos sobre a revolução portuguesa. Assim. O artigo enfatiza o governo não democrático que existia em Portugal e sua política de colonização.conjuntura em que todos os outros aliados europeus dos Estados Unidos se recusaram a conceder esse tipo de facilidades. especialmente no período da revolução que deu fim ao regime autoritário. em especial como atores externos reagiram. aliança militar para defesa de valores e interesses de seus membros. foi um dos fatores internacionais que contribuiu para a consolidação da democracia em Portugal. demonstra o autor. que o fortalecimento do Partido Comunista e sua influência sobre as Forças Armadas. na Itália havia a possibilidade de uma coligação governamental entre democrata-cristãos e comunistas. por meio da diplomacia. Os textos evidenciam. no período entre 1974 a 1976. a Grécia e a Turquia. 5. que afrontavam os valores democráticos preconizados pela Nato. a instauração de regime democrático em Portugal diminuiria os conflitos dentro da Organização. Tal política. a eclosão de uma grave crise político–militar na ilha de Chipre. Mas. gerou divergência entre os integrantes da NATO sobre a permanência ou expulsão dos Portugueses da Organização. mas com algumas restrições. Mas. que colocou em confronto dois membros da NATO. o seguinte: (i) Que os EUA não se empenharam pela democratização de Portugal. àqueles acontecimentos. contribuiu para a definição e consolidação da democracia em Portugal. os integrantes da NATO optaram por adotar uma política que combinasse pressões e incentivos em relação às autoridades portuguesas. e. Segundo o autor. devido à sua localização geográfica estratégia na Europa. Nesse contexto. no mesmo sentido. defendida pelos europeus. causou maior apreensão às grandes potências ocidentais que compunham a NATO que a existência do regime autoritário anterior. .

Ler história | N. Allende?’ Henry Kissinger and the Portuguese revolution. Universidade de Bolonha . 2009 . (iv) A ativa participação da RFA. na implantação da democracia em Portugal. 625657. durante a revolução. O Flanco Sul sob Tensão.21. temiam que qualquer ação dos aliados em Portugal colocasse em risco o détente que haviam estabelecido com a URSS. na época da revolução. Ana Mónica. Itália. publicado online: 2011.º 63 | 2012 | pp. pp. (iii) O temor dos americanos de que a presença de comunista no governo português pudesse estimular a expansão do comunismo para outros países do sul da Europa. formal e informalmente. 11:4. 93-107. Relações Internacionais n. Lisboa. OLIVEIRA. A Nato e Revolução Portuguesa. Pedro Aires. ‘Which Chile. FONSECA. O apoio da Social-Democracia Alemã à Democratização Portuguesa (1974-1975). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PERO. Mario Del. (v) As diferentes formas de pressão usadas pelos EUA e seus parceiros da Europa Ocidental junto aos governos provisórios de Portugal. 19741975.(ii) Os EUA. Cold War History.