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Revista dos Estudantes da Faculdade de Direito da UFC (on-line). a. 3, v. 7, jan./jun.

2009

A QUESTÃO DA DESAPROPRIAÇÃO POR ZONA PARA FINS DE


REVENDA (ART. 4º, DECRETO-LEI 3.365/41) FACE ÀS
FINALIDADES DO ESTADO BRASILEIRO NA CONSTITUIÇÃO
DE 1988

FELIPE ROCHA PINHEIRO BASTOS *

Resumo: Existe, no ordenamento pátrio, mais precisamente no art. 4º do Decreto-lei nº.


3.365/41, um dispositivo que autoriza a desapropriação, para posterior revenda, de imóveis
que, em virtude da obra pública realizada, sofram uma valorização considerável. É bem
verdade que tal disciplina visa a impedir o enriquecimento ilícito do particular que em nada
contribuiu, a mais do que o custo repartido com toda a sociedade, para merecer dado
acréscimo em seu patrimônio. A forma como se impedirá é que não mais coaduna com o
tratamento conferido pela Constituição Federal ao Direito de Propriedade e às prerrogativas
por ela conferidas ao Estado. É inadmissível que a administração pública utilize-se de uma
medida como a desapropriação, que é de caráter excepcional, para, praticamente
desconsiderando o cidadão proprietário do imóvel, imitir-se na propriedade do imóvel com o
fito de auferir lucro. Tal prática não corresponde ao Estado Democrático de Direito instituído
pela Constituição de 1988. Principalmente pelo fato de existir, dentro do texto da própria
Carta Política, expressa previsão de um instituto para cumprir esse mesmo desiderato de
forma, em virtude das normas traçadas pelo próprio legislador constituinte, mais coerente com
os atuais preceitos constitucionais: a Contribuição de Melhoria.

Palavras-Chave: Novo Estado Constitucional Brasileiro. Jus Imperii. Atividade Econômica

Abstract: Does exists, in the national laws, more precisely in the 4º article of the Decree-Law
number 3.365/41, a rule that authorizes the expropriation, to posterior resale, of realty that,
because a public construction, suffers a considerable valorization. It is true that this discipline
aspires to impede the illicit enrichment of the citizen that didn’t contributed, more than the
cost divided with all the society, to deserve such addition in his patrimony. The way to
impede it is that no more fits with the treatment given by the Federal Constitution to the Writ
of Propriety and with the prerogatives given by it to the State. It is unacceptable that the
public administration uses a measure like the expropriation, that has an exceptional character,
to, practically disesteeming the citizen owner of the realty, insert itself in the property of the
realty with the objective of profiting. This practice doesn’t fit with the Democratic Legal State
established by the 1988 Constitution. Mainly by the fact of exists, inside the text of the
Political Letter itself, express prediction of an institute to execute this same desideratum in a
way, because of the rules established by the constituent legislator himself, more coherent with
the nowadays constitutionals precepts: the Betterment Tax.

Keywords: New Brazilian Constitutional State. Jus Imperii. Economic Activity

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1 INTRODUÇÃO

Ao nos depararmos com a atual constituição brasileira, percebemos que, naquele


arcabouço jurídico-político de normas, fizemos escolhas, enquanto sociedade, que alteraram
profundamente, até mesmo, nossa própria concepção de Estado.
Em nossa história institucional, sempre vagamos entre o Liberalismo e o
Intervencionismo (normalmente patriarcalista). Na Constituinte de 88, contudo, foi feita uma
escolha mais coerente e acertada à realidade social pátria. Optamos pela via da liberdade de
iniciativa, mas não o puro laissez faire. Uma liberdade condicionada, por assim dizer; onde os
atores privados se restringem a determinadas balizas erigidas pela constituição como forma de
dirigir parte da força criativa própria da iniciativa privada em prol dos mais necessitadas (art.
170, caput, CF).
Adotamos, pois, baseados parcialmente no modelo americano, a figura de um Estado
eminentemente Regulador, o qual deve cuidar de estabelecer os parâmetros de atuação do
particular, conformando sua atividade às finalidades sociais estabelecidas pelo constituinte,
conforme se extrai do exame conjunto dos arts. 173 e 174, CF/88. Em consonância com o
texto constitucional, somente caberia ao Estado atuar como agente econômico em casos
extremos (segurança nacional e relevante interesse coletivo) e, neste último, da forma que
dispor a lei; ressalvados os casos previstos expressamente na própria Constituição Federal.
Nesse contexto, cabe ao jurista o questionamento, que tão parcamente é feito em
nossos manuais de Direito Administrativo e tribunais, acerca da recepção, pela CF/88, do
mecanismo previsto no final do art. 4º do Dec.-lei 3.365/41, qual seja: a Desapropriação por
Zona para fins de revenda. Estaria o Estado atuando como agente econômico fora das
hipóteses e dos parâmetros previstos no texto constitucional? E ainda mais grave: estaria, para
tanto, se utilizando de seu jus imperii, poder que põe o particular em um patamar de completa
subordinação aos ditames da Administração e só deve ser utilizado nas situações
expressamente autorizadas em nossa Lex Mater?
É nessa problemática que iremos nos pautar no presente trabalho; contrapondo, ainda,
o mencionado instituto à Contribuição de Melhoria, tributo autorizado pela Constituição de
1988 no intuito de cumprir o mesmo desiderato que essa modalidade desapropriatória cumpria
anteriormente.

2 O ESTADO COMO ATOR ECONÔMICO NA CF/88

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O art. 173, caput, da Carta Magna é cristalino ao afirmar que o Estado não pode
exercer atividade econômica de forma livre; mas, tão somente, nos casos expressamente
excepcionados na própria Carta da República.
José dos Santos Carvalho Filho divide essa exploração em “Direta” e “Indireta”, ao
passo que seja realizada, respectivamente, por entes da administração direta ou indireta. Aduz
o mencionado professor, contudo, que, na forma Direita,

[...] pela especial natureza de tais situações, a atividade econômica acaba


confundindo-se com a própria prestação de serviços públicos, já que O ESTADO
TEM OBJETIVOS SOCIAIS E NÃO PERSEGUE O LUCRO. (grifo e caixa
alta nossos).1

Atuando indiretamente, temos as empresas públicas exploradoras de atividade


econômica e as sociedades de economia mista, entes da administração indireta com natureza
jurídica mais apropriada às atividades mercantis.
Cumpre destacar, todavia, que, mesmo quando autorizado a tal exercício, o Estado
deve obedecer a uma série de princípios e regras, consubstanciados principalmente nos
parágrafos do art. 173 e no art. 170, CF. Tanto o é, que é possível traçar uma clara linha
divisória entre as prerrogativas estatais enquanto prestador de serviços públicos e travestido
de agente econômico.
Quando se concebeu como seria a empresa pública (lato sensu) pós-88, cercou-se ela
de um regime jurídico híbrido. Nem todas as suas contratações são realizadas mediante
procedimento licitatório (que é, em regra, obrigatório para toda a administração2); seu quadro
de funcionários, embora ingressos mediante concurso público, é celetista, não tem um estatuto
próprio; deve ela, ademais, submeter suas contas aos Tribunais de Contas.
Como se depreende do exposto, o legislador, embora demonstrando preocupação com
alguns princípios e regras de direito público, cuidou para que esses não afetassem o caráter
eminentemente privado do ente, de forma a não lhe conferir nenhuma superioridade em
relação aos particulares; vez que estaria a empresa pública atuando em um campo que é
próprio da iniciativa privada.
Notamos, assim, que o constituinte definiu bem o Estado enquanto atuante em suas
finalidades essenciais e como agente econômico; de forma a não permitir que a Administração

1
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 17 ed. Rio de Janeiro: Lumen
Júris, 2007, p. 795.
2
Vide art. 37, XXI, CF/88, e art. 1º, § único, L. 8.666/93.

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se utilizasse de seus poderes próprios do regime jurídico de direito público (v.g., jus imperii)
para se sobrepor economicamente aos agentes particulares.

3 O INSTITUTO DA DESAPROPRIAÇÃO E SUA MODALIDADE ZONAL PARA


FINS DE REVENDA

Para Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo, pode-se conceituar o instituto da


Desapropriação, modalidade de intervenção do Estado na propriedade, como

[...] o procedimento de direito público pelo qual o Poder Público transfere para si a
propriedade de terceiro, por razões de utilidade pública, de necessidade pública, ou
de interesse social, normalmente mediante o pagamento de justa e prévia
indenização. 3

A Constituição Federal, em seu art. 5º, XXIV, autoriza tal prática, como forma a dar
maior efetividade aos incisos XXII e XXIII (função social da propriedade) do mesmo artigo, e
o Dec.-lei 3.365/41 – conhecido como Lei Geral das Desapropriações – (disciplinando a
desapropriação por utilidade pública) e a Lei 4.132/62 (disciplinando a desapropriação por
interesse social) regulamentam infra-constitucionalmente a matéria.
Não nos ateremos, entretanto, no presente estudo, às nuanças desse instituto, por não
se tratar de nosso objeto imediato. Cumpre, entretanto, destacar a modalidade zonal, prevista
no art. 4º do Dec.-lei 3.365/41, também chamada extensiva. Dentro dessa espécie,
percebemos duas subespécies, uma que objetiva “a área contígua necessária ao
desenvolvimento da obra a que se destine” e outra, “as zonas que se valorizem
extraordinariamente em conseqüência da realização do serviço”. Deter-nos-emos, dado nosso
presente objetivo de estudo, à segunda. Eis o texto do mencionado dispositivo:

A desapropriação poderá abranger a área contígua necessária ao desenvolvimento


da obra a que se destina, e as zonas que se valorizarem extraordinariamente, em
conseqüência da realização do serviço. Em qualquer caso, a declaração de
utilidade pública deverá compreendê-las, mencionando-se quais as indispensáveis à
continuação da obra e as que se destinam à revenda. (grifo nosso)

Sobre a temática, cumpre destacar lição de José dos Santos Carvalho Filho, o qual será
de essencial importância no desenvolvimento do próximo tópico, cerne do presente trabalho:

3
ALEXANDRINO, Marcelo; PAULO, Vicente. Direito Administrativo Descomplicado. 16 ed. São Paulo:
Método, 2008, p. 715-716.

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O domínio do expropriante, portanto, terá sido provisório, durando apenas o


tempo necessário à revenda a terceiro, transferência essa que, aí sim, terá caráter
permanente. Como o expropriante arrecada valores bem mais elevados do que
os que pagou a título de indenização, tem a seu favor uma diferença pecuniária
que serve para compensar, total ou parcialmente, o custo da obra. Essa estratégia,
aliás, substitui a cobrança de contribuição de melhoria, espécie de tributo previsto no
art. 145, III, da CF, que tem idêntico objetivo. (grifo nosso)

4 JUS IMPERII EM PROL DE OBTER LUCRO?

A modalidade de Intervenção do Estado na Propriedade denominada Desapropriação é


considerada como a mais gravosa ao patrimônio do particular; uma vez que configura uma
supressão total – ao contrário das demais, que são apenas parciais – do direito de propriedade
(jus utendi, jus fruendi e jus abutendi).
Tais intervenções são consideradas medidas excepcionais, uma vez que a regra em
nosso sistema jurídico é a liberdade (arts. 1º, IV, e 5º, caput, e II, CF) e a proteção à
propriedade (arts. 5º, caput, e XXII, e 170, II, CF), e só devem ser perpetradas se presentes os
requisitos constitucionais e legais que legitimam o interesse público naquele ato determinado.
A desapropriação, por configurar medida extrema, é restrita, além das balizas constitucionais,
a um rol taxativo presente na legislação; não cabendo alargamento das hipóteses lá previstas.
Embora terrivelmente contra tal tipo de prática, não comentaremos aqui acerca da
desapropriação indireta, figura onde o Estado atua para-legalmente, exceção, muito embora
injusta, à estrita legalidade explicitada acima.
Como se percebe do acima exposto, “a intervenção [...] revela um poder jurídico do
Estado, calcado em sua própria soberania. É verdadeiro poder de império (jus imperii), a ele
devendo sujeição os particulares”4.
Cumpre-nos reafirmar que o Estado só se reveste de suas prerrogativas e poderes
quando atuando em um regime jurídico de direito público; ou seja, enquanto exercendo
funções que lhe são próprias. Dessa forma, principalmente quando revestido dessa sua
condição mais nobre, não pode a Administração se servir do aparato e da potência estatais
para perquirir objetivos que não lhe sejam essenciais; mas tão somente aqueles adstritos a
suas finalidades estritas.
Na denominada “Desapropriação por Zona para fins de revenda”, todavia, o Estado
não atua de forma a respeitar essa vontade constitucional. Ao contrário, abusa de seu jus
imperii, desapropriando uma área que não seria necessária ao atendimento do interesse

4
CARVALHO FILHO, José Afonso, op. cit., p. 659.

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público primário (lembrando que a regra é a liberdade e a proteção à propriedade);


objetivando, com isso, lucrar com a valorização imobiliária que tal imóvel deverá sofrer com
a obra realizada pelo ente público5.
Não obstante a inércia e a subordinação da maioria dos administrativistas acerca dessa
questão – e, até mesmo, da jurisprudência dominante6 –, há de se considerar tal procedimento
como atividade econômica. Como reforço de nossa posição, trazemos à baila ensinamento de
Fran Martins, grande doutrinador cearense do Direito Comercial, afirmando que “[...] no
sentido clássico, comerciante é a pessoa, natural ou jurídica, que realiza, em caráter
profissional, atos de intermediação, com intuito de lucro”7.
Partindo para uma análise mais detida do conceito apresentado, confrontando-o com o
instituto em questão; vemos que, embora não se configure o profissionalismo na ação estatal –
que, embora de direito público interno, é também pessoa jurídica –, o fato de ter previsão em
lei demonstra (e a própria praxis administrativa comprova) o caráter de habitualidade de tal
ato. Não queremos, assim, dizer que nosso Estado é comerciante; mas que está a praticar atos
de comércio.
Quanto à questão de ser ato de intermediação, cumpre destacar lição de José dos
Santos Carvalho Filho: “o domínio do expropriante, portanto, terá sido provisório,
durando apenas o tempo necessário à revenda a terceiro, transferência essa que, aí sim,
terá caráter permanente”8. (grifo nosso)

Sobre se tem, ou não, tal instituto o intuito de obter lucro, seguimos na lição do
supracitado mestre administrativista:

É em relação a estas últimas que a lei autoriza a revenda a terceiros, sendo permitido
ao expropriante que a venda se faça por valor atualizado, ou seja, pelo valor que
passou a ter o bem após a realização da obra. [...] Como o expropriante
arrecada valores bem mais elevados do que os que pagou a título de
indenização, tem a seu favor uma diferença pecuniária que serve para
compensar, total ou parcialmente, o custo da obra9. (grifo nosso)

5
Especulação imobiliária: é a compra ou aquisição de bens imóveis com a finalidade de vendê-los ou alugá-los
posteriormente, na expectativa de que seu valor de mercado aumente durante o lapso de tempo decorrido. (Fonte:
Wikipédia, a enciclopédia livre - http://pt.wikipedia.org/wiki/Especula%C3%A7% C3%A3o
imobili%C3%A1ria)
6
AI nº 42.240, Rel. Min. ALIOMAR BALEEIRO, STF. Eis a ementa: “Desapropriação – Poderá abranger
área maior do que a estritamente necessária para a obra, desde que a destine a autoridade a fim público ou de
utilidade pública” (RTJ 46/550) Eis um trecho do acórdão: “é lícito ao poder expropriante – não expropriar
para satisfazer os interesses de particulares – mas ao interesse público, sem limitações, inclusive para auferir,
da revenda de terrenos, um proveito que comporte e financie execução da obra pretendida.”
7
MARTINS, Fran. Curso de Direito Comercial. 30 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 21.
8
CARVALHO FILHO, José Afonso, op. cit., p. 710-711.
9
CARVALHO FILHO, José dos Santos, op. cit., p. 711.

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Conforme dito em seção anterior, a Constituição cuidou de conferir ao ente estatal,


enquanto exercendo atividade econômica, um regime jurídico de direito privado, em patamar
de igualdade com o particular. Tal medida visa a coibir eventuais disparidades de tratamento
entre empresas públicas (lato sensu) e privadas, bem como o abuso de poder e a concorrência
desleal.
Dessa forma, cumpre-nos lançar um olhar crítico sobre essa modalidade
desapropriatória, percebendo que ela, não bastando o fato de se utilizar de seu poder de
império para conferir, ao particular, um ônus maior que o estritamente necessário ao
atendimento do interesse público primário, estendendo-se em sua intervenção na propriedade
privada do administrado; ainda o faz com o interesse mesquinho, e nada coadunado com suas
legítimas finalidades, de, simplesmente, obter lucro.
Há, ademais, outras razões que prejudicam a aplicação desse procedimento
administrativo: uma é a Isonomia; uma vez que não se faz qualquer distinção entre os
particulares no tocante à extensão da afetação de seu patrimônio pela obra realizada; mas, tão
somente, se determina uma área na qual se pressupõe que tenha havida uma valorização para
que ocorra aí a desapropriação e a posterior revenda. Não faz diferença o quantum da plus-
valia, todos sofrerão a perda total de suas propriedades, desde que tenham sido delimitadas
pelo decreto expropriatório.
A outra é a vedação ao enriquecimento sem causa; pois, uma vez que a atividade
perpetrada pela Administração é, por natureza, especulativa, pode gerar ao Estado uma sobre-
valia superior ao despendido na realização da obra pública; tendo, ao fim, o ente público
lucrado com a realização de suas atividades essenciais, o que configura um verdadeiro
absurdo e um total contra-senso em um Estado Democrático de Direito!
Como conciliar, pois, tais atividades com a vontade constitucional, lembrando, ainda,
que, para tal mister, nossa Carta Magna erigiu um tributo, denominado Contribuição de
Melhoria?
Nesse sentido, imprescindível destacar lição da professora Lucia Valle Figueiredo; a
qual, muito embora discordemos de suas presentes conclusões, terá grande valia para o
presente estudo:

[...] no passado, antes da Constituição de 1988, entendíamos que o dispositivo (art.


4º, Dec.-lei 3.365/41) não era compatível com a Constituição de 1967 e sua Emenda
n. 1/69, no que tange às áreas que iriam se valorizar extraordinariamente.
E assim entendíamos por um único motivo. Prevista no texto constitucional a
contribuição de melhoria, considerávamos inconstitucional o Poder Público

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absorver a “plus valia” de propriedade sem ser pela forma expressada no Texto
Básico, pela forma típica10. (grifo nosso)

Cremos como a principal a razão apontada acima pela eminente administrativista. Se a


própria Constituição elencou determinado instituto como o mais adequado para cumprir uma
função específica, não cabe ao administrador público fazer opção diferente, fugindo à
determinação constitucional por uma questão de mera conveniência, como bem destaca o
professor José dos Santos: “essa estratégia (a desapropriação por zona para fins de revenda),
aliás, substitui a cobrança de contribuição de melhoria, espécie de tributo previsto no art.
145, III, da CF, que tem idêntico objetivo” (grifo e parêntese nosso).
É sobre essa questão que trataremos no próximo tópico.

5 A CONTRIBUIÇÃO DE MELHORIA COMO INSTITUTO APROPRIADO PARA A


FUNÇÃO

Gostaríamos de iniciar a presente seção com o conceito dessa espécie tributária


formulado pelo mestre cearense Hugo de Brito Machado: “Contribuição de Melhoria. É o
tributo cuja obrigação tem como fato gerador a valorização de imóveis decorrente de obra
pública”11. Tal tributo encontra previsão específica, atualmente, em nosso ordenamento
jurídico, nos arts. 145, III, CF/88; e 5º, 81 e 82, CTN.
É importante frisar que a contribuição de melhoria, dada sua natureza de tributo,
submetido plenamente ao regime de direito público, apresenta diversas vantagens em relação
à desapropriação por zona para fins de revenda; a qual, muito embora decorra de um instituto
administrativista, encontra-se incompatibilizada com a atual concepção de Direito
Administrativo e Constitucional. Nesse sentido, e complementando o sentido do exposto no
tópico anterior, iremos demonstrar ser a contribuição de melhoria o instituto adequado à
função de restituir ao Estado parte (ou o todo) do custo da obra realizada.
Em relação ao abuso na utilização do jus imperii estatal, vemos que tal não ocorre na
contribuição de melhoria, pois o CTN, em seu art. 81, erige dois parâmetros principais para a
cobrança deste tributo; quais sejam: limite total: “a despesa realizada” pelo poder público com
a obra; limite individual: “o acréscimo de valor que da obra resultar para cada imóvel
beneficiado”.

10
FIGUEIREDO, Lúcia Valle. Curso de Direito Administrativo. 2 ed. São Paulo: Malheiros, 1995, p. 219-220.
11
MACHADO, Hugo de Brito. Curso de Direito Tributário. 27 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 85.

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Vemos, dessa forma, que o Estado não onera o particular nem mais que o estritamente
necessário para o ressarcimento do valor despendido nem além do valor efetivamente
enriquecido por este. Não recai a Administração, pois, no gravíssimo erro de se utilizar de seu
poderio para perquirir objetivos não coadunados com suas finalidades.
No tocante à proteção à isonomia, o tributo em tela também se mostra evidentemente
superior; pois, como já mencionado, o art. 81, CTN, ao final, institui como limite individual à
cobrança “o acréscimo de valor que da obra resultar para cada imóvel beneficiado” (grifo
nosso). Cada proprietário será, portanto, onerado em conformidade com o que foi
efetivamente beneficiado; não cabendo generalizações como a decorrente da mera
delimitação, no decreto expropriatório, da área a ser desapropriada, em virtude de provável
sobre-valia ao final da obra.
Ampliando nossa escala de avaliação, vemos que a isonomia também resta preservada
na cobrança de determinados particulares beneficiados em detrimento da coletividade. Se tal
não ocorresse, estaria a sociedade dividindo todo o ônus (receitas provenientes dos impostos)
em prol de um bônus que seria mais adstrito a um grupo ou a uma região específica.
Outro ponto é acerca da questão do enriquecimento indevido. Com a escolha da
contribuição de melhoria como via apropriada para a função, não estaria o particular se
beneficiando extraordinariamente sem nenhuma contra-prestação individualizada; o que
certamente geraria seu enriquecimento sem causa, vez que este tributo atende perfeitamente à
função de ressarcir o Poder Público, balanceando a divisão dos encargos decorrentes da obra
pública entre seus beneficiários.
Não correria o risco, ademais, de o próprio Estado estar enriquecendo indevidamente;
pois o art. 81, CTN, limita a cobrança total da contribuição melhoria à despesa realizada com
a obra. Resta protegida, assim, a ordem jurídica e a própria vontade constitucional, que
concebeu nosso atual modelo estatal.
Por fim, cumpre-nos ressaltar, relembrando a lição, já aqui apresentada, da mestra
Lucia Valle Figueiredo, que a Constituição Federal previu expressamente a contribuição de
melhoria e sua função dentro da atividade estatal (art. 145, III, CF). É inconcebível, assim,
que um mero decreto-lei, norma de hierarquia inferior, venha a usurpar uma atribuição
determinada pela própria CF, retirando eficácia da norma constitucional.

6 CONCLUSÃO

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Gostaríamos de, nessa fase conclusiva do presente trabalho, firmar posição no sentido
de considerar a modalidade desapropriatória zonal para fins de revenda um verdadeiro
absurdo, uma subversão da Ordem Jurídica Constitucional Brasileira!
O particular (leia-se: o povo! E frise-se: principalmente os mais pobres, dada sua falta
de peso político-econômico), mais uma vez, está sendo subjugado por seu próprio Estado fora
dos parâmetros da Carta Magna. Seus direitos fundamentais de liberdade e proteção à
propriedade nada mais lhe garantem, pois a Constituição virou letra morta, servindo apenas
quando conveniente aos interesses do “Poder”, e em conformidade com as interpretações
estranhamente flexíveis dos que estão no ápice da pirâmide social.
Cumpre a nós, intérpretes do Direito, se opor, também, às diversas anomalias ainda
existentes em nosso ordenamento jurídico. Não obstante os claros avanços atingidos com a
Carta Magna de 1988 e algumas leis posteriores, que vieram a lhe conferir maior efetividade e
proximidade com os anseios sociais; ainda se percebe muitas distorções, principalmente –
infelizmente – em detrimento de nossos direitos e garantias fundamentais.
Fala-se muito em “Supremacia do Interesse Público”. Qual é, todavia, o interesse
público que merece supremacia? Será o interesse do Estado (interesse público secundário) ou
o interesse da sociedade (interesse público primário)? A própria nomenclatura nos esclarece
tal questão.
Ocorre que, aparentemente, nossos representantes (administradores e
legisladores/fiscalizadores) e magistrados, em sua maioria, ainda consideram, em inúmeras
(apenas para fins de fugir à generalização) situações, o interesse estatal como o supremo.
Majoram-se tributos exorbitantemente e o retorno, em serviços públicos, é pífio; instituem-se
diversas regalias a título de prerrogativa de função enquanto o cidadão comum não tem nem
seus direitos mais básicos respeitados; cria-se, enfim, um sistema cruel, onde o cidadão mais
se assemelha a um verdadeiro súdito, subserviente aos ditames de seus soberanos.
Esquece, todavia, o cidadão que ele próprio é o soberano, nos termos do art. 1º, §
único, CF: “Todo o poder emana do povo [...]”! Resgatemos, pois, essa consciência cidadã.
Instruamos, enquanto juristas que reconhecem seu papel em um contexto social caótico do
ponto de vista dos direitos e garantias do indivíduo, a sociedade, investindo na educação e na
conscientização para um exercício pleno de nossa cidadania.

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7 REFERÊNCIAS

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