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Ae ;. 01D WILLIAMS Fae 7 ra (© Raymond Williams ‘Traduzido do original em inglés Culture Preparagio: Camen T. S. Costa ‘Revisdbo: Ingrid Basilio e Maria da Penha Faria ‘Capa: Isabel Carballo Dados Intemacionais de Catalogapio na Publicagdo (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Williams, Raymond, 1921-1988 Cultura Raymond Williams ; tradugéo Lélio Lourengo de Oliveira Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1992 1. Cultura I Titulo Jndices para catélogo sistemstico: ea 1. Cultura : Sociologia 306 CDD-306 Direitos adquiridos pela EDITORA PAZ E TERRA S. A. 7 mo eBSISA, StD4¢[02 eon) no BrasilfPrinted in Brazit CME ICE 3095 Indice Com vistas a uma sociologia da cultura Instituigdes Formagoes “Meios de produgao Identificagdes Formas Reprodugio Organizagio Bibliografia 33 ST 87 119 147 179 233 I Com vistas a uma sociologia da cultura A sociologia da cultura, em suas formas mais recentes ¢ = mais atuantes, deve ser vista como uma convergéncia de interes- pontos de concordincia inegéveis. Mas hé, atualmente, tanta gente trabalhando nela em tantos paises, que el nova fase. Dentro das categoria depois das areas mais definidas da sociologia da religido, da educagao e do conhecimento. Assim, ela ndo s6 parece ser, como é de fato subdesenvol- vida, Nao hd escassez real de estudos especificos, embora em relagio a este, como a outros , haja muito mais a ser feito. Enquanto nao é reconhecida como convergéncia, e como um pro- blema de convergéncia, a reagéo habitual diante dela, mesmo quando compreensiva (e isso, numa geragao mais antiga e tradi- cional, é relativamente raro), é encari-la como pouco mais do que ‘um agrupamento indefinido de estudos de especialistas, quet em comunicagées, em sua forma especializada modernas de “meios 9 de comunicagio de massa”, quer no campo bem diversamente ‘antropologia comparada no século XIX, onde continuou desig- especializado das “artes”. ‘nando um modo de vida global e caracteristico. _ Claro que encarar esses estudos como de es Mas, por outro lado, ha questdes fundamentais quanto 4 na- tureza dos elementos formatives ou determinantes que produzem essas culturas caracteristicas. Respostas altemativas a essas ques- contemporiinea da cul- ‘tées tém produzido amplo leque de significados convincentes, © fato uma tentativa de reelaborar, a per de determi- tanto dentro da antropologia quanto, por extensio, a partir dela: desde a antiga énfase num “espirito formador” — ideal, religioso ou nacional — até énfases mais modemnas em uma “cultura vi- vida” determinada primordialmente por outros processos sociais, ou, quando muito, como secundarios e derivados. Uma hoje designados de maneira diversa — comumente certos tipos sociologia da cultura, quer em estudos que Ihe sio peculiares, de ordem econémica ou politica. Dentro das tradigées alternati- numa sociologia mais geral, preocupa- vas ¢ conflitantes que tém resultado desse leque de respostas, a € abertamente, a respeito “propria “cultura” oscila, entdo, entre uma dimensdo de referéncia significativamente globahe outra, seguramentts parcial.) Enquanto isso, no uso mais geral re grand& desenvolvi- vas questies € mento do sentido de “cultura” como novas evidencias para oitabalho geral das ciéncias socials. demos distinguir uma gama de signi ~ _mental desenvolvido — como em \ “pessoa de cult “Cultura” ‘Tanto o problema quanto o interesse da sociologia da cul- los. desses process0s | tura podem scr pereebidos de imediato na dificuldade do termo que obviamente a define: “cultura”. A histéria e 0 uso desse termo excepcionalmente complexo podem ser estudados em Krocber ¢ Kluckhohn (1952) ¢ Williams (1958 ¢ 1976). Come- gando como nome de um processo — cultura (cul de vege- global” de determinado povo ou de algum outro grupo social. por extensio, cultura ‘A dificuldade do termo é, pois, dbvia, mas pode ser enca- tada de maneira mais proveitosa como resultado de formas pre- 7 cursoras de convergéncia de interesses. Podemos destacar duas pata configuracdo ou generalizagdo do “espirito” que informava formas principais: (a) énfase no espirito formador de um modo © “modo de vida global” de determinado povo. Herder (784. i pecs ‘© o amplo uso sociol6gico para indicar “modo de vida ciais, porém mais evidente em atividades “especificamente cultu- uma certa linguagem, estilos de arte, tipos de trabalho (b) énfase em uma ordem socidi global no seio da ltura especifica, quanto a estilos de arte e tipos de 10 bar ste trabalho intelectual, é considerada produto direto ou indireto de uma ordem primordial mente constituida por outras atividades sociais. Essas posigdes sio freqiientemente classificadas como (a) idealista ¢ (b) materialista, embora se deva obsetvat que em (b) & explicagdo materialista habitualmente fica reservada as outras ati- vidades, “primérias”, deixando a “cultura” para uma versio do “espirito formadot”, agora, naturalmente, em bases diferentes, € nao priméria, mas secundaria. Contudo, a importincia de cada ‘uma dessas posigées, em contraposigao a outras formas de pensa- mento, é que leva, necessariamente, ao estudo intensivo das rela- ges entre as atividades “culturais” © as demais formas de vida i iplica um método amplo: em que manifestam, os interesses ¢ valores essenciais de um “povo”; em (b), investi- gagdo desde 0 cariter conhecido ou verificdvel de uma ordem social geral até as formas especificas assumidas por suas mani- festagdes culturais. ‘A sociologia da cultura, ao entrar na segunda metade do vergéncia de interesses, exemplificada de mancira notivel pelo proprio termo “cultura”, com sua constante ¢ ampla gama de én- fases relacionais. Porém, nas obras contemporaneas, embora cada uma das posigdes anteriores ainda se mantenha e seja praticada, vai-se tornando evidente uma nova forma de convergéncia. Esta possui muitos clementos em comum com (b), em sua énfase numa ordem social global) mas dela difere por sua insis- téncia em que a “pratica colfural” e a “produgao cultural” (seus termos mais conhecidos) no procedem apenas de uma_ordem social diversamente constituida, mas sio clementos importantes em sua constituigdo. Por outro lado, ela patticipa de alguns cle- mentos de (a), em sua énfase em priticas culturais como constitu- tivas (se bem que, hoje cm dia, entre outras). Em vez, porém, do 12 ie a “espitito formador” que, afirmava-se, criava todas as demais ati- vvidades, ela encara a cultura como o sistema de significacdes me- inst o sa necessariamente (se bem que entre outros meios) om dada em social é comunicada, reproduzida, vivenciada ‘Assim, ha certa convergéncia pritica entre (i) os sentidos antropoldgico ¢ sociolégico de cultura como “modo de vida glo- bal” distinto, dentro do qual percebe-se, hoje, um “sistema de significagdes” bem definido nao sé como essencial, mas como essencialmente envolvido em todas as formas de atividade social, © Gi) 0 sentido mais especializado, ainda que também mais comum, de cultura como “atividades artisticas © intelectuais”, embora , devido a énfase em um sistema de significagdes sgora definidas de mancita muito mais ampla, de ido apenas as artes © as formas de produgio inte- eels ais, mas também todas as “praticas significati- vas” — desde a linguagem, passando pelas attes ¢ filosofia, até o Jomalismo, moda e publicidade — que agora constituem esse campo complexo e necessariamente extenso. Este livro foi escrito dentro dos termos dessa convergéncia contemporanea. Em alguns de seus capitulos (especialmente os capitules 4, 5, 7 © 8), trata de questes de ambito demais, ainda que sem perder de vista o campo geral atengao deliberadamente sobre “as artes” em seu sentido mais Comumente aceito. O trabalho da nova convergéncia tem sido mais bem-feito, € com mais freqiiéncia, ou na teoria geral e em estudos de “ideologia”, ou em suas dreas de interesse caracteristi- camente novas, os “meics de comunicagao de massa” ¢ a “cultura Popular”. Hé, pois, néio apenas uma lacuna cortespondente a ser Preenchida, nesses novos termos, mas também, a julgar pela qua- lidade de alguns dos trabalhos sobre as artes real a partir de utras posigées, um sentido de desafio: de fato, um sentimento de ‘ez, sobretudo nesta drea ainda mais importante, ¢ que as les dos tipos de pensamento representados pela conver- géncia contemporinea ainda ndo foram, em sua maioria, postas A prova. . 13 “a __sociologia; outra, dentro da histéria e da Por que uma “sociologia” da cultura? Jé deve estar evidente que, na convergéncia contemporinea, £7 com a deliberada ampliagdo e entrelagamento dos sentidos de + cultura até entio seperados (ainda que sempre relacionados), aquilo que hoje em dia freqiientemente se chama de “estudos cul- turais” constitui um ramo da sociologia geral, Ramo, porém, mais no sentido de um modo eatacteristico de entrada em questdes so- _@ ciol6gicas gerais do que no sentido de rea reservada ou espocia- izada. Ao mesmo tempo, embora seja um tipo de sociologia que coloca sua énfase em todos os sistemas de significagdes, est ne- cessiria e fundamentalmente preocupado com as praticas ¢ a pro- dugdo culturais manifestas. Sua abordagem global requer, como ~veremos, novos tipos de andlise social de instituigges ¢ formagies ‘¢specificamente cultur: estas € os meios mater . produgio cultural, por um lado, e, pot outro, as formas cultumis concretas. O que congrega tudo isso é, distintamente, uma sociologia, mas, nos termos da conver- géncia, uma sociologia de novo tipo. géncia e as anteriores. Podemas agora mostrar, ainda que sucinta- mente, as formas hist6ricas dese mesmo desenvolvimento. A nova sociologia da cultura pode ser vista como a convergéncia e, ‘até certo ponto, a transformagao de duas nitidas tend dentro do pensamento social geral ¢, portat ‘Temos resumidamente as contribuigdcs mais importantes dentro de cada uma delas. As “ciéndas eulturais” ¢ a sociologia Foi Vico, em sua Ciéncia nova (1725-44), quem deu ao mesmo tempo maior seguranga € uma orientagao especifica a0 pensamento social, com sua afirmagao de que “o mundo da socie- dade civil foi certamente feito pelo homem” e de que “uma vez que os homens o fizeram, podem esperar conheeé-lo”. O que até 14 0 ot entio era um argumento geral em favor da validade de todas as iéncias sociais ganhou énfase especial com a idéia de Vico de descobrir os “prineipios” da sociedade civil “no interior das mo- dificagies de nossa prépria mente humana”. mana é modificada, no deseivotviment uma énfase necesséria dos estudos soc culturais — para Vico, especialmente que jé discutimos, do “ Vico, bem como de Herder, so evidentes em Dilthey (188: \ 8presentou importante disting’o “ciéncias cultumis” | teswissenschaften) e “ciéncias nat Ele distinguiu as cién- cias culturais pelo faio de seus “objetos de estudo” serem feitos elo homem, de que alguém que os observa esta observando pro- cessos dos quais necessariamente participa, e de que métodos di- ferentes para o cstabelecimento de evidéncias ¢ interpretagdes eis. Especificamente, Dilthey definiu método nes ito de verstehen — “compreensao simpa- teética” ou “captagio intuitiva” das formas sociais e culturais hu- manas — enquanto, ao mesmo tempo, insistia em que todos os estudos desse tipo. devem ser histéricos. Essa énfase passou para 4 obra de\Max Weber ¢, assim, para uma das tendéncias da mo- dema Soci on Snow a formador”. Tragos-egseneiais de - y a 8% Todavia, outras idéias bastante diferentes contribuiram tam- bém para a formagao da sociologia modema. Essas idéias davam destaque a descoberta das leis da organizagio social pelo método diverso da observagio © -fracos € fortes em verstehen podia ser em ou recorter ao “es- fins de explicagao. piticos indispensiveis, era muitas yezes insuficientemente. cons- ciente da natureza de alguns dos processos culturais menos palpa- 15 _veis, destes como elementos da histéria e, de modo fundamental, Jos efeitos da situagio social ¢ cultural especifica do individuo sobre a observagio feita. Esses problemas, sob formas mais refinadas, continuaram a preocupar a teoria sociolégica, mas seus efeitos sobre a sociolo- gia da cultura so os JJevantes atualmente. O estudo sobre formas e obras culturais continuou, por dbvia afinidade, a ser pra- ticado por representantes do verstehen. Noutra parte, dentro da corrente predominante da sociologia, os fatos culturais mais pas- siveis de estudo observacional eram primordialmente as institui- {Gdes € 05 “produtos” culturais das destas. Na sociologia de um “modo geral, essas eram aS enfases Constantes das duas conver- ‘géncias histdricas anteriores. Cada uma delas deu uma boa contri- buigdo, mas elas nio dialogavam com freqiiéncia e, de falo, quase Iiteralmente nao podiam dialogar. Contribuigées da sociologia observacional Assim, na tradigdo da andlise observacional (que, na Gra- Bretanha e nos Estados Unidos, é freqiientemente tomada como sociologia tout court) encontramos um interesse crescente pot instituigdes culturais como tais quando, pelos avangos sociais concretos na imprensa, no cinema ¢ no radio de hoje, passou a haver instituigdes importantes e produtos seus que podiam ser estudados por métodos ji acessiveis de maneira generalizada. nalizadas da religiao e da educagi trés tipos de estudo de interesse: némicas de cultura e, como def dutos”, (ii) de seu conteiido e (iii) de seus efeitos. (i) Instituigdes ‘Tem havido muitos estudos de modemas instituigdes de co- municago de uma perspectiva explicitamente sociolégica (fun- 16 ional). Como exemplos, ver Lasswell (1948), Lazarsfeld e Mer- ton (1948), Lazarsfeld ¢ Stanton (1949). Outros estudos sobre as smesmas instituigées associam anilise jonal com algo de histéria — White (1947) — ou com temas sociais gerais — Sie- bbett, Peterson ¢ Schramm (1956). E significativo que nessa érea de estudos institucionais tenham sido propostas, direta ou indire- ered ence mais candentes a respeito da natu- reza da investigagao sociolégica. Grande parte do trabalho norte- americano inicial, muitissimo desenvolvida empiricamente ¢ em ‘seus conceitos operacionais imediatos, foi empreendida a partir de um pressuposto relativamente acritico de uma sociedade de memuado, onde ‘se pode esperar que Fungées “socializadoras” e ‘comerciais” gerais intcrajam ou conflitem entre si. Isso foi tam- bém descrito comumente por meio de uma interpretagao da socie- es modems como “sociedade de massa”, na qual se fundiam mesmo se confundiam elementos diversos, tais como piiblicos ‘muito amplos, relativa “impessoalidade” da transmisséo ou rela- tivo “anonimato” da recepgio, bem como a “heterog ndo-organizada” das sociedades “demoeriticas ¢ Esse pressuposto levou a denominagao e & metodologis quisa de “comunicagao de massa”, que ainda domina a 8ia ortodoxa da cultura. Para uma critica do conecito ¢ seus ‘Tem havido poucos estudas sobre instituigdes culturais mo- demas fora das dreas predominantes da imprensa ¢ do ridio; porém, sobre cinema, ver Mayer (1948) e, sobre abordagens mais recentes, Albrecht, Bamett ¢ Griff (1970). Estudos empiricos de instituigdes culturais mais antigas, utilizando procedimentos tanto histéricos quanto sociolégicos, encontram-se em Collins (1928), Beljame (1948), Altick (1957), S (1961) ¢ Escarpit (1966). (ii) Contetido Os estudos sociolégicos de “contetido” cultural tém-se dis- tinguido de estudos, compariveis sob outros aspectos, em his- t6ria da arte ou da pelos pressupostos metodolégicos da andlise observacional. Assim, a “andlise de contetido” tem de pesquisa para a descriglo iva do contetido manifesto das va, sistemdtica © quai comunicagdes” righ 11959) .76). Esse trabalho tem sido util em duas dreas princ de tipos de contetido — descrigao de determinadas figuras socials — ver Lowenthal (1961). No primeiro caso, a andlise exige, necessariamente, pro- cedimentos de pesquisa extensivos e sistematicos, em contraposi- ‘¢40 a0 tratamento mais seletivo ¢ até arbitrario do “contetido” em estudos néo-sociolégicos. Isso também se aplica ao ultimo caso, | onde a pesquisa cultural sobre “tipos” ficcior ciada a uma anilise mais ampl danga de certas figuras médico, enfermeiro, sace qualquer sociologia desenvolvida da cultura, nio sé em sistemas modemos de comunicagdes, em que o grande niimero de obras toma isso inevitavel, mas também em tipos mais tradicionais de trabalho. (ili) Efeizos “As contribuigdes mais evidentes da sociologia observacio- nal encontram-se no cstudo das efeitos. Essa tendéncia requer, ela _nal encontram-s propria, uma andlise sociolégica, uma vez que, sob alguns aspec- jona-se claramente com o caréter social de determinadas instituigdes modemnas, mais obviamente na publicidade e na pes- quisa de mercado mas também na pesquisa Bur dois tipos de ¢ estudo: (a) estudos operacior no publicados ampl: Bes a programas em pesquisas de rh privados sobre “temas”; e (b) pesquisa c de programas que mostram a violencia, ou na qual os efeitos ‘ransmissSes radio- avaliados por seu efeito social tanto especifico quanto geral, mui- tas vezes em resposta a uma preocupagao social expressa. Desse tipo de pesquisa originou-se muito daquilo que hoje sabemos, numa drea ainda di muito controvertida, a respeito dos diversos tipos de “violéncia televisada” ¢ de seus efeitos dife- renciados sobre criangas em situagdes sociais diversas, ou sobre os efeitos de diferentes tipos de transmissio po radio — declaragdes partidarias, rel ges dos “temas principais”. Exempl Himmelweit, Oppenheim e Vince (1958), Blumler ¢ McQuail (1968) e, de modo mais geral, em Lazarsfeld ¢ Katz (1955), Halloran (1970) ¢ Halloran, Brown Chaney (1970). ca dos “estudos sobre efeitos”, propondo a questo 19 lizando afirmagses ingénuas e até mesmo banais. Nesse caso, i , ainda que co- como em muitos outros, a contribuiga: mumente requeira critica ¢ refinamento, tem sido indispensdvel. ~* A tradigao alternativa Fora da sociologia obsetvacional, houve uma convergéncia anterior enite teorias sociais da cultura e teorias e estudos mais especificamente filosdficos, hist6ricos e criticos sobre a arte. Isso se deu especialmente na tradiggo alema, onde se desenvolveram diversas escolas importantes. E foi o que se deu, desde 0 inicio, numa tradigdo marxista mais geral, que foi especialmente ativa e, acentue-se, multiforme nos tiltimos anos, Antes de nos voltarmos para essa drea complexa atual, de- vemos assinalar alguns exemplos importantes de histéria © and- lise culturais que nao diriamos serem sociolégices, mas nos quais alguns conceitos ¢ métodos fundamentais foram estudados prati- ir trés amplas énfa- sobre material so- (i) Condigdes sociais da arte © trabalho sobre as condigées sociais da arte sobrepde-se, evidentemente, @ estética geral ¢ a alguns ramos da psicologia, bem como a historia. Ha, de fato, dentro desse tipo de trabalho, uma divisio tedrica importante entre, por um lado, abordagens primordialmente estéticas ¢ psicolégicas e, por outro, abordagens primordialmente histéricas. Certos trabalhos do primeiro tipo abstém-se totalmente de consideragdes sociais e passam ao largo de nosso contexto atval. Ha, porém, tendéncias significativas, ba- seadas primordialmente em dados “estéticos” © “psicolégicas” que (a) introduzem condigdes sociais como modificadoras de um processo humano, no mais relativamente constante, ou (b) estabe- lecem perfodos gerais da cultura humana dentro dos quais flores- cem determinados tipos de ate. Exemplos da primeira encon- tram-se em Read (1936) ¢ em outtas obras de orientagio geralmente “social-freudiana”; da iltima, com alguns precedentes em Nietzsche (1872) e Frazer (18 (1920), Sung (1933) e em Frye (: O aspecto comum mais interessante de trabalhos desse tipo, os quais em geral se afastam decididamente da sociologia e, de fato, muitas vezes so hostis a jagao que mantém com certa tendéncia do pensamento sobre atte, Nem Marx hem. Engels escreveram sistematicamente sobre arte; contudo, de relagdes sociais em obras de arte, ¢ seri discutida mais adiante. Ha, porém, trabalhos marxistas sobre as origens e sobre tipologias da arte que se enquadram adequadamente nesta pri- meira segao. Exemplos disso sio Plekhanov (traduzido em 19: que relaciona a arte com “instintos primitivos” ou com “i com 0 comportamento animal evoluido; Caudw laciona a arte com o “genstipo”; ¢ Fischer (1 mentos dessas abordagens, associadas (como também em Caud- w orientagSes_especificamente histéricas, encontram-se em 1969) © em Mareuse (1978). 21 E importante dar destaque aos trabalhos desse tipo, assina- Jando seu possivel valor, em comparago com a versio mais aca~ nhada das condigdes sociais da arte (muitas vezes chamada de “sociologismo” ou de “relativismo sociolégico”), a qual é mais ‘comumente associada ao marxismo. Nenhum estudo sobre arte Pode, afinal, desprezar as processos ¢ necessidades fisicas do or- ganismo humano, com os quais (ver capitulo 4) scus meios de rodugo possuem tio estreito envolviment tudados diretamente pela fisiologia ¢ pela psi mental, mas hi, por outro lado, 0 problema importante da variabilidade dos tips de obras produzidas a partir dessas bases (presume-se) comuns, sobre evidéncias da antropologia ¢ da historia. As correlagdes nessa area, em especial em obras nio- maraistas, mas também na maior parte das obras marxistas até o momento, tendem a provit menos da andlise equilibrada das evi- déncias do que de conceitos a priori, de modo geral de espécie Figorosamente contemporinea, aos quais aquclas evidéncias, quando existem, sio agregadas a guisa de ilustragio. Eo que se dé na abstragiio de “priticas mégicas” ou de “motivos econémi- cos” ou “simbolismo sexual” para oferecer explicagdes genéricas da arte de outras culturas. Todos esses conceitos foram aplicados 4 pinturas rupestres pré-histéricas, com resultados diversos mas blema global das priticas interligadas, porém varisveis Antidotos teéricos adminiveis contra esse tipo de procedi- ‘mento podem ser encontrados na importante obra de Mukarovsky luzida em 1970) e de Morawsky (1974). Em termos de socio- ia da cultura, essa direa pode ser agora redefinida como um estudo das situagdes ¢ das condigdes das priticas (ver capitulo 4), Temos, pois, que observar em detalhe os modos pelos quais pro- cessos bioldgicos constantes ¢ meios de produgao telativamente vatidveis tém-se associado entre si de modos especificamente compardveis e especificamente varidveis, sempre dentro de si- tuagdes sociais (histérico-sociais) determinadas. Contudo, em comparagao com a massa de especulacao conceitual, essa socio- Jogia fundamental da cultura ainda mal comegou. (ii) Elementos sociais em obras de arte ; © estudo de elementos sociais em obras de arte tem sido muito amplo e com freqiiéncia € entendido, apenas, como todo 0 contetido de uma soci da cultura, Na verdade, grande parte dele é mais propriam« rica, mas contém uma formulagio ou pressuposto sociolgico importante. Pode-se perceber isso me- Ihor na teoria da “base © superestrutura”, generalizada eficiente- mente para a cultura por Plekhanov 1953). Os proble- uma dada sociedade e/ou periodo sio aceitos ou slo estabelecidas Por anilise geral, ¢ scu ¢reflexo™ Ras obras concretas é mais ou menos diretamente identificado. Assim, tanto 0 contetido quanto a forma do novo romance realista do século XVIII podem apresentados como dependentes dos fatos, jd conhecidos, da cres- cente imporlancia social da burguesia comercial. Exemplo res- peitado € vigoroso desse método pode ser encontrado em Lu- kdes (1950). (iii) Relagdes sociais nas obras de arte Em sua maior complexidade, a andlise dos elementos so- em obras de arte estende-se até o Isso se dé especialmente quando as obras de arte incorporamj © — € modificada ou subst Katka, O-processo, PSéRido a partir de diferentes posigdes, coma (a) mediagdo por projecéo— um sistema social atbitritio ¢ imraciohat-néa ¢ diretamente-descrito, em seus préprios termos, mas sim projetido, em seus tragos essenciais, como invulgar ¢ estranho; ou (6). mediacdo pela descobertade um “correlato ob- Jetivo” — compiem-se uina ceria sittagao e Personagens para roduzir, de forma objetiva, os sentimentos subjetivos ou concre- tos — uma culpa inexprimivel — de qué'se originou o impulso Para a composigao; ou.(c) mediagdo como funcdo dos processos sociais bisicos de consciéncia; nos-quais éertas ctises, que de essa “condigio bisiea” pode ref natureza de uma época como um todo, de uma deter- minada sociedade num perfodo determinado, ou de um grupo determinado dentro daquela sociedade naquele petfodo. Todas essas referéncii ira mais Sbvia a segunda zido em 1969), Goldmann Adorno € na obra coletiva da importante escola de Frankfurt 73). ‘Tem havido certa convergéncia entre a and sociais e relagdes sociais em obras de arte e a an: de material de comunicagdes acima descrita. C pressuposto comum de que o contetido ¢ sistematicamente reconstituivel, por reflexo ou por mediagéo, elas possuem ampla base comum tém, ambas, produzido muitas obras de valor. Porém, nos tltimos 24 anos, houve uma convergéncia mais poderosa, tanto em estudos sobre a arte quanto em'estudos sobre comunicagdes, em toro do conceito de “formas”. Esse énfase foi teorizada ¢ exemplificada de maneira notavel em (Likes \traduzido em 1971), Goldmann (traduzido em 1975) e em Bloch et alii (traduzido em 1977), onde é também vigorosamente discutida, Discussio mais extensa desse tipo de anéllise social encontra-se nos capitulos 5 c 6. Formas e relagées sociais A partir da anlise daquilo que se pode definir, dentro dessa tendéncia, como as formas sociais de arte, houve alguma evolu- go da anélise de suas formagdes sociais correspondentes. Bom exemplo disso encontta-se em Goldmann (1964), ¢ ha estudos pioneiros clissicos em Gramsci (traduzido em 1971) e em Benja- culturais, © suas relagdes com a sociologia das instiwicoes mais amplamente praticada, é examinada mais diretamente nos capitulos 2 € 3. Ideologia Resta assinalar uma drea particularmente importante e difi- cil da sociologia da cultura que, na atual convergéncia, tem tido “posigio proeminente e, por vezes, predominante. Trata-se do con- junto de problemas associados i ia”. “Ideologia” ¢ um termo gica, mas © primeiro nivel de difi descrever (a) as crengas formais e consci ‘ou de outro grupo social — como no us% de uma classe vulgar de “ideolé- 25 gico” para indicar prineipios ou posigdes tedricas gerais ou, tan- tas vezes desfavoravelmente, dogmas; ou (b) a visdo de mundo também atitudes, habitos e sentimentos menos conscientes menos articulados ou, até mesmo, pressupostos, posturas compromissos inconscientes. E evidente, em primeiro lugar, que a andlise sociolégica da cultura tem muitas vezes, até mesmo primordialmente, que tra- balhar com o sentido (a). Esse é 0 modo principal pelo qual a produgio cultural pode ser relacionada, freqiientemente com muita preciso, com classes sociais ou outros grupos que podem, também, definir-se em outros termos sociais, mediante andlise politica, econémica ou ocupacional. Mas logo fica evidente tam- bem que a anilise cultural no pode estar limitada 40 nivel das des © pressu- pesos que comumente maream, de maneira muito caracteris- termos econdmicos, digamos), ¢ uma classe que perdura © per- siste. Em dreas como essa, dese culturalmente especificas ©, poi veis. A seguir, em segundo lu; alé aquela rea de produgio cu formais e conscientes de Go cultural a ela associ crengas, em contetido manifesto que contém; muitas vezes, 26 gages identificdveis com as relagdes, perspectivas e valores que as crengas legitimam ou normalizam, como em escolhas caracte- isticas (énfases e omissées) de temas; muitas vezes, ainda, liga- (ges analisdveis entre sistemas de crenga ¢ formas artisticas, ou entre eles ambos ¢ uma “posigdo e posicionamento” no mundo, | essencialmente subjacente. Mas, entio, o uso de “ideologia” como um termo comum em estégios de anilise essencialmente diversos como esses pode ser confuso ¢ causar confusio. No caso do contetido manifesto, nao ha problema, As escolhas caracteristicas podem também, sem muito esforgo, ser chamadas de “ideolégicas”, embora algo deva muitas vezes ser atribuido a uma persisténcia, diversamente con- dicionada, de determinadas formas artisticas que incorporam esse tipo de escolha. No caso de congruéncias mais profundas e de congruéncias possiveis ¢ que 0 uso de “ideologia” levanta mais problemas, uma vez que, se ideologia é um ponto de refe- réncia de importancia ou, até mesmo, um ponto de parti nesses niveis bisicos de produgio ¢ reprodugio soci ‘como vimos anteriormente em relagio a certos usos saber 0 que resta para todos os demais processos sociais. ‘Alem disso, embora “ideologia” conserve, pelo peso do uso lingtifstico, o de crengas organizadas (quer formais conscientes, quer difusas e indefinidas), pode-se muitas vezes supor que tais si cconstituem a origem verdadeira de toda a producdio cultural (¢, de fato, de toda a demais produglo soc i nte fedutor. Excluiria, por um lado, os processos diretamente fisicos e 1 pitulo 4) em que tantas artes se baseiam. Por outro | aqueles processos fundamentais de elaboragao ¢ reclaboragao que ‘constituem os elementos especificos, diferenga dos elementos dlesde (a) ilustragéo ativa (ainda relativamente simples) tipos de reinvengio ativa e de descoberta exploratoria e, essen- cialmente, (c) tens, contradigao ou o que, alhures, se chamaria de divergéncia. Distribuem-se, também, desde o que pode ser visto, simplesmente, como a “translagéo” da “ideologia” para cle- a mentos dirctamente sensoriais, até aquilo que, em termos dos processos fisicos e materiais do trabalho artistico, ¢ visto mais como produgdo de um tipo distinto e geral. Devemos, pois, observar que, a menos que fagamos essas extensdes e ressalvas, a “ideologia”, até mesmo em algumas vi- gorosas tendéncias contempordneas da andlise marxista, ¢ talvex especialmente nesses casos, estari, na verdade, repetindo a hist6- tia da “cultura” como conceito. Em seus usos mais especificas, la tem muito a contribuir & guisa de corregdo dos usos generali- zados de “cultura”. Pode demolit o que é muitas vezes a falsa generalidade de um “modo de vida global” para distin; buigdes a classes especificas a outros grupos. Como fato um termo metodoldgico essencial numa atuante sociologia da cultura, Mas em seus usos mais amplos ¢ generalizados, pode torar-se notavelmente semelhante ao “espirito formador” das teorias culturais idealistas, e isso pode continuar sendo assim quando atribui (mas no inclui nem especifica) categoria de “él- tima instncia” & economia ou ao modo de produgo. © equivoco nao € a generalidade como tal As ideologias “dizer nada mais (como em ee outros, usos i que toda pritica € significativa, Nao obstante as dificuldades de Sobreposigao com outros usos mais comuns, esse sentido é aceité- vel. Mas isso é muito diferente de descrever toda produgao cultu- tal como “ideologia™, cu como “orientada pela ideologia”, porque © que nesse caso se.omite, Como nos 1s0s idealistas de “cultura”, € 0 conjunto de complexos processas conereios pelos quais uma “cultura”, ou uma “ideologia”, € ela prépria produzida. E com esses processos produlivos, é que necessariamente est preocu- pada uma completa Sociologia da cultura. Estudar “uma ideolo- 28 [ | gia” © 0 que “cla” produz. constitui uma forma reconhecivel de = Filosofia idealista. O que © socidlogo cultural ou o historiador jos casos em que, como “falsa consciéneia” Thante, na verdade, aquela suposta drea da contra a qual se posicionou a “observ gia empirica. Seguramente, as bases fil sio diversas © até mesmo opostas. Porém, o pressupasto de um método explicativo que pode ser tomado como, a de todas as demais experiéncia social e produgdo si ‘mesmo, quando estudado, um fato da sociologia de uma determi- nada fase da cultura, Suas modalidades de privilégio, em institui- ‘goes © prdticas coneretas, requerem um estudo especialmente cuidadoso. Diretrizes Assim, pois, a sociologia cultural . ‘cessos sos de fda a produsin cultura nchsive decutine for ‘mas de_produgéo que podem ser designadas como ideologias. “Jsso define uma area, mas o trabalho que agora se faz, a partir de tantos pontos diferentes, ainda é uma convergéncia de interesses ¢ métodos ¢ ainda ha diferengas teéricas essenciais em cada etapa. Outro efeito da variedade de pontos de partida, em histéria, filosofia, estudos literdrios, lingiistica, estética e teoria social, bem como na prépria sociologia, é que sempre existe um pro- blema de sobreposigéo com outras disciplinas distintas e ainda assim necessiras. 29 Uma sociologia da cultura deve preocupar-se com as insti- tuigdes © formagées da produgdo cultural, pois essa é uma das mais diferenciadas de suas éreas, Esse é 0 tema dos capitulos 2 ¢ 3 deste livro. Por outro lado, porém, uma sociologia da cultura deve preocupar-se, também, com as relagdes sociais de seus meios especificas de produgio. Esses sio os assuntos do capitulo 4. Deve, além disso, preocupar-se com as modos pelos quais, dentro da vida social, a “cultura” e a “produgio cultural” so so- cialmente identificadas ¢ discriminadas. Esses sio os temas do capitulo 5. Em todas essas dreas, hi sobreposigées com a histéria geral e com a historia de cada uma das artes. A sociologia cultural no pode substi pode propor determinadas questées cas a0 material que elas apresentam. ‘Mais ainda, e de maneira mais evidente, uma sociologi capitulo 6, Nessa drea, existe a sobreposi¢ao com a € com o estudo geral de sistemas de sinais, como na semidtica, A sociologia das formas culturais no pode substituir essas discipli- ‘nas, mas em sua énfase sobre o social, bem como sobre a base notacional dos sistemas de sinais, vistos entao significagées gerais, ela coloca questies soci gicas especificas © agrega, ao que de outra forma seriam tipos intemos de andlises, ‘uma dimensio s do capitulo 7. Nesse caso, hi sobreposigées evidentes com tia politica e com a sociologia geral, que nao podem ser sul das pela sociologia cultural, mas com as quais esta pode colaborar com seus priprios tipas de evidéncia. Finalmente, uma sociologia da cultura deve preocupar-se com problemas gerais e ificos de organizagio cul sociologia geral, que no podem ser substituidas pela sociologia cultural, mas com as quais pode tentar colaborar com sua énfase caracteristica sobre a organizagdo de sistemas de significagses ¢ 30 specialmente necessatio © bem-vi 10 apenas como distinto de uma sociologia cultural, mas como complementar a ela. Até aqui temos falado sobre uma convergéncia, bem como sob a forma de disciplinas distintas. Podemos, agora, ingressar nas dreas especificas de suas preocupagées imediatas. 31 2 Instituigdes ‘Toda sociologia da cultura, para corresponder ao que dela se espera, parece dever ser uma sociologia histérica. Se observar- mos o mimero enorme de evidéncias das relagdes de produgao cultural em to grande numero de sociedades e periodos histéri- cos diferentes, fica claro que seria insensato adotar, como nosso primciro construto teérico, algum esquema explicativo universal ou geral para as relagées necessérias entre “cultura” e “sociedade”. Grande parte da atual sociologia da cultura pressupde, de certo modo inevitavelmente, as relagGes tipicas ou predomi- nantes do perfodo de que se ocupa; ¢ prossegue aduzindo por- menorizada evidéncia dessas relagdes. Pode suceder, porém, que essas relagdes se tornem uma norma a partir da qual outros petiodos sejam interpretados ou, até mesmo, por comparagio, sejam julgados. As relagdes culturais do “mercado” sio com- paradas com as do “patrono”, ou a situagao do “artista profis- sional” com a do “produto estatal”. Muitos desses termos fazem sentido dentro de um contexto estritamente delimitado, mas, a medida que avangamos com eles em diregio a enunci rios. O importante conceito de paliung) por exempl assim, muitas vezes encobre) pelo menos quatro ou cinco rela~ ges sociais diferentes na produgio cultural. ‘Assim, sempre € provaivel que construtos tedricos oriundos de estudos empiricos ¢ sua extensio e generalizagio tomem ex- 33 cessiva liberdade na passagem de conceitos locais e especificas para conceitos gerais. Por outro lado, apenas a partir desse tipo de estudos, seja qual for o grau de reflexio ou de distanciamento te6rico, € que podemos comegar a conceber, a testar ¢ a funda. ‘mentar nossas descrigdes conceituais. Avangar, ou parecer fazé- lo, para além desse trabalho empitico necessério, mediante a construgo antecipada de uma estrutura teérica geral, castuma ser, ica, uma incontestével passagem de conceitos locais ¢ para conceitos gerais. A diferenga entre isso e a mera gencralizagio empirica € que, enquanto esta estende seus nomes Tocais a diversas situagSes histéricas, as quais s6 so pertinentes em parte, aquela tendéncia, teoticista, esten interpretagdes © Has ao que, essencialmente, é sempre uma rativos. verses dessa tendéncia sio mais reco- nheciveis como “teoricistas” do que outras. exemplo mais co. nhecido ¢ 0 da suposta relagio (tesrica) entre “base” ¢ “superes- {rutura”, nos estudos culturais marxistas que, em sua forma mais simples, afirma que a arte “reflete” a estrutura sdcio-econémica da sociedade dentro da qual é produzida, © apresenta, a seguir, seus exemplos (muitas vezes convincentes) dessa relago. Porém, no se diria que esse tipo de teoria marxista esté sozinho. De fato, cla ndo é mais “teoricista” do que a idéia bisica liberal de eultura, za qual o pressuposto ¢ que a fonte universal da produgo cultu. mal € a “expresso individual”, de tal modo que estudat as rela. iais da atividade cultural “livre exercicio”. De fato, nesse caso, como menos obviamente na teoria da base ¢ da superestrutura, o que se presume ou se apresenta como teoria pode ser percebido, a uma observagio mais acurada, como a extensio e generalizagao dos problemas, Preceupagdes © observacées (freqiientemente muito importan- tes) de um determinado periodo cultural, ‘Uma sociologia da cultura satisfatéria deve atuar de modo mais rigoroso. Ela no pode evitar a presenga estimulante de es. tudos empiricas e de posigdes tesricas © quase-t isten- 34 ve, porém, estar preparada para reelaborar e reconsiderar tado.¢ matedal © coneeitos tidos como verdadeires, © para ofere- cer sua propria contribuigéo no ambito da interagio franca entre evidéneia ¢ interpretagio, o que consttui a verdadcira condigéo de sun adequagao. Tudo 0 que se segue neste livro ¢ apresentado neste sentido: como investigago e como um conjunto de hipste- ses de trabalho, mais do que como um corpo de conclusdes de- monstradas e verificadas. Instituigdes e formagoes Propomos o seguinte, como distingao inicial: por um lado, as relagées varidveis entre “produtores culturais” (lermo delibera- damenter neutro, embora abstrato) e instituigdes sociais reconhe- civeis; por outro lado, as varidveis em que os “produtores cultu- nis” tém sido organizados ou se tém organizado cles préptios, suas formagées. Essa é uma distingio operacional, para tomar Possivel uma certa variedade de abordagens da questio das reais relagées sociais ultura. Nao se pretende, com isso, dizer que ie iva ou até mesmo causal entre as rela- Porém, se deduzirmos vinculagdes culturais significativas ape- nas do estudo das instituigdes, correremos 0 tisco de deixar tal nao tiver sido, em qualquer de seus sentidos comuns, tucional. De modo particular, poderemos deixar escapar o fe- némeno muito surpreendente do “movimento” cult tem sido tio importante no perfodo modemo, ¢ que sera estu- dado no préximo capitulo. Neste capitulo, consideraremos, principalmente, Wgbes entre produtores ¢ instituigdes ©, apenas nesse contexto, a questio de formagées diretas. 35 Artistas instituidos © primeiro caso a considerar é aquele em que, em muitas sociedades relativamente antigas, um artista de certo tipo — de fato, muitas vezes um poeta — era off como parte da prépria organizagio soci al. Esse caso é de tal importéncia, em comparago com as situagies sociais dos ar. listas em sociedades posteriores, que freqiientemente é apresen- tado como se fosse singular e uniforme, e isso pode ter efeitos ‘importantes em sua interpretagao mais geral. Nos cas temos registros desse tipo de reconhecimento oficial organizagao social central, descobrimos nao sé — como seria de esperar — diferencas entre sociedades diversas, mas também di- ferengas hist6ricas, entre formas diferentes de uma sociedade du- radoura. Isso estd bem claro, a despeito da inseguranga quanto a detalhes, no caso caracteristico dos bardas celtas, Assim, podemos dizer que, nas sociedades celtas tradicio- nai, atribuia-se ao bardo uma posigo de honra na orgenizagao Oficial do “reino” ou da “tribo”. Mas as relagSes sociais coneretas cram sempre mais complexas ¢ varidveis. A evidéncia mais antiga que possuimos, a partir da observagao que os romanos fizeram dos celtas, na Gélia, jé é de uma ide consideravelmente desenvolvida. O que essa evidén um determinado es- tagio na especializagao de fungdes que, em estigios ainda mais antigos, nio se teria pereebido com clareza — como se dé em mui- {as casos companiveis. Esse processo de especializagio 6, por certo, essencial para a historia cultural (ver capitulo 5). As fungaes que, Iais tarde, podem ser distinguidas como as de “sacerdote”, “pro. feta” ou “bardo” — e, em termos mais ‘$40 entre essas funsdes foi, em parte, resultado de seu desenv. vimento intemo, 4 medida que cada fungo requerea mais habili- dade © tempo. Mas foi também, e talvez primordialmente, resultado de mudangas mais gerais na organizago social ¢ no ‘modo de produclo. De qualquet maneira, na época em que pode. 36 ‘mos observar esse tipo de mudangas, 0 “reconhecimento oficial” retagio) que os bardos constitufam uma ordem situada imedi mente abaixo dos sacerdotes ¢ dos videntes, muito embora for- ‘massem com cles uma casta privilegiada especifica. Hé, entio, um problema imediato na interpretagdo de suas relagdes sociais coneretas. Tem-se dito, por um lado, que, nessa situago, o bardo é responsivel perante a sociedade € € seu porta-voz; por outro lado, que é seu dever trabalhar pela gléria passada e presente da classe dominante. Num estégio ainda ulterior, quando consegui- ‘mos alguma evidéncia de obra concreta, certamente podems ob- servar 0 desempenho dessa tiltima fungio no panegirico ou mio muito comuns aos homens do poder. Porém, por ex podemos observar o caniter misto das sagas e das genealogi ue muitas vezes funcionam como legitimagio do poder, mas io também versdes da histéria. Para além disso tudo, hi casos claros de doutrinas, normas e preceitos mais gerais que, sem vida alguma, desempenhavam funga mais ampla. disso, ha evidéncia de certa indepen ‘0s govemantes ditetos, como, na tos ¢ leis subseqiientes a respeito do uso da sétira. Ou ainda: “os bardos do mundo sio juizes dos homens de coragem”, como escreveu um poeta galés do século VI (Aneirin), em notivel Pocma lamentando uma derrota ¢ homenageando os que nela ‘morreram, O reconhecimento ¢ a maior especializagao birdica conti- nuaram a mudar, & medida que as sociedades mudavam. Assim, apés a cristianizagio da Trlanda, a fungdo sacerdotal foi transfe- rida para uma ordem de tipo bastante diferente, com emprego crescente da escrita, enquanto a fungai © mais das vezes ainda oral, comegou a ter uma relagii zada com as familias atistocriticas. Na I © século V, 0 status oficial dos bardos era Tengas de temas ¢, sob alguns aspectos, de piiblico, ¢ com re- 37 Artistas instituidos i “ . inns eee cP temos registros desse tipo de reconhecimento oficial no seio da organizagao social central, descobrimos nao sé — como seria de @sherar — diferengas entre sociedades diversas, mas também di. ferengas historicas, entre formas diferentes de uma sociedade du. radoura, Isso esti bem claro, a despeito da inseguranga quanto a detalhes, no caso catacteristico dos bardos celtas. Assim, podemos dizer que, nas sociedades ccltas tradicio- se 20 bardo uma posigao de honra na organizagao ‘reino” ou da “tribo”. Mas as relagées sociais concreias ‘sacerdote”, “pro. 1 “bardo” — e, em termos mais atusis, “historiadce"’ ou ‘mesmo “cintista” —, muitas vezes eram originalmente exeridee Pelos mesmnos individuos ou grupos de individuos. A diferencie. sao entre essas fungdes foi, em Parte, resultado de seu desenvol- vimento intemo, & medida que cada fungio requercu mais hati. dade © tempo. Mas foi também, © talver primondi resultado de mudangas mais gerais na omganizagio social cn modo de produgio. De qualquer maneira, na época em que pode- 36 i j j ‘essa forma, diz-se (embora ainda com problemas de inter- pretagio) que os bardos constituiam uma ordem situada imediata- mente abaixo dos sacerdotes ¢ dos videntes, muito embora for- massem com eles uma casta privilegiada especifica. Hé, entdo, uum problema imediato na interpretagio de suas relagdes sociais, concretas. Tem-se dito, por um lado, que, nessa situago, o bardo € responsivel perante a sociedade © 6 seu porta-voz; por outro Jado, que ¢ seu dever trabalhar pela gloria passada e presente da classe dominante. Num estigio ainda ulterior, quando consegui- ‘mos alguma evidéncia de obra concreta, certamente podemos ob- setvar o desempenho dessa tiltima fungdo no panegitico ou encd- mio muito comuns aos homens do poder. Porém, por extensio, podemos observar o carter misto das sagas e das gencalogias, que muitas vezes funcionam como legitimagao do poder, mas que io também versdes da histéria. Para além disso tudo, ha casos claros de doutrinas, notmas e preceitos mais gerais que, 6 vida alguma, desempenhavam fungao social mais ampla. disso, ha evi tos ¢ leis subseqiientes a respeito do uso da sdtira. Ou ainda: “as bardos do mundo sao jufzes dos homens de coragem”, como escreveu um pocta Poema lamentando uma detrota ¢ homenageando os que nela ‘motreram. reconhecimento © a maior especializagio bérdica conti- nuaram a mudar, & medida que as sociedades mudavam. Assim, apés a cristianizagao da Irlanda, a fungo sacerdotal foi transfe- zada com as familias atistocriticas. Na literatura galesa, durante © século V, 0 status oficial dos bardos era codificado em graus: 0 pocta chefe, o poeta de batalha, o menestrel; com matcadas dife- rengas de temas ¢, sob alguns aspectos, de publico, ¢ com re- 37 gras internas relativamente rigorosas a respeito do prdprio ofi- cio. A medida que a sociedade continuou mudando — ¢ espe- cialmente & medida que a independéncia politica das cortes, em que os poetas trabalhavam, foi se enfraquecendo e finalmente foi perdida — as relagdes sociais mudaram novamente e a or- ganizacdo literétia tornou-se simultaneamente mais especiali- zada e socialmente mais desvinculada. Neste ponto que, a despeito dos casos relativamente duvi- dosos ¢ sobrepostos, podemos assinalar uma mudanga de uma categoria de relagGes sociais para outra. Apés o periodo muito antigo de relativa ndo-diferenciagdo de fungdes, em que o “li- ido, ou desligado to- talmente, do mais geralmente “cultural”, houvera essa fase de artistas especificamente institwidos que realmente no devia ser descrita em termos tomadas de fases posteriores, tais como “teconhecimento oficial” ou “patronato™. Cada um destes tlti- ‘mos termos implica um ato de escotha social varisivel: decidir reconhecer um poeta, ou poetas; decidir atuar como patrono em relagio a eles. Mas, nessa importante fase inicial, a posigiio social desse tipo de produtor cultural foi instituida como tal, ¢ como parte integrante da organizagdo social geral. Nao deve- mos nos esquecer de suas variagdes nos periodos ¢ estruturas em mudanga daquelas sociedades, mas como distingao categs- tica ela é razoavelmente clara. Artistas e patronos A distingdio que importa fazer € a partir da de “patronato”, o extremamente variado, como veremos. (i) Da instituigdo ao patronato Ha uma forma inicial de patronato que, na verdade, é uma forma atenuada da situagao anterior do artista instituido, em con- diges sociais modificadas. A mudanga é marcada, por exemplo, na literatura galesa, pela transigao dos poctas instituidos da corte 38 (es “poctas dos principes”) para os “poetas da nobreza”, que ‘agora, ainda que altamente considerados, eram mais ocasional- mente dependentes. O poeta podia estar vinculado a uma fam{- lia, ou, cada vez com mais freqiiéncia, scr itinerante‘entre uma familia e outra, desempenhando seu trabalho e buscando hospi- talidade e sustento. Esse € 0 comego de uma transigio das relagdes sociais de uma instituigo regular (com seus fatores de troca plenamente integrados e, nesse sentido, coerentes) para as relagdes sociais de troca deliberada, muito embora nfo ainda de troca com- pleta. Parte da autodefinigio social da familia patrocinadora, 0 mais das vezes deliberadamente em termos remanescentes das verdadeiras cortes, era assumir 0 que, ao mesmo tempo, consti- tuia uma responsabilidade ¢ uma honra. Enquanto isso, a orga- nizagdo literétia especifiea — a ordem bardica remanescente — estava se autodefinindo, em considerivel extensio, em graus ¢ regras compartilhados. (ii) Contratagao e encomenda ‘Uma segunda forma de patronato, muito mais general era a de uma corte, ou de uma familia poderosa, na qual nao havia uma organizagZo implicita de artistas como parte da organi- zago social geral, mas onde, de maneira freqiientemente muito ampla, contratavam-se artistas, muitas vezes com ti resentam verdadeitos casos de “reconhecimento off larmente em pintura ¢ missica, esse tipo de patronato foi extrema mente importante e durou por muitos séculos. Os detalhes de seus arranjos eram variados, nos muitos milhares de casos, mas 0 que, de modo geral, é verdadeiro quanto a sua forma de relagSes so- ciais é que o attista era tipicamente contratado ou comissionado individualmente como um trabalhador profissional. Essa ¢ uma ctapa fundamental de desenvolvimento a partir daquela em que — de mancira substancial nas etapas anteriores, e residualmente nas etapas posteriores — os artistas constituiam, por si s6s, uma forma especifica de organizagdo social. Ao mesmo tempo, sob as condigdes gerais dessa forma de patronato, dentre todas a mais, 39 conhecida, determinadas formas menos especificas de organiza- 40 profissional nas artes estavam muitas vezes presentes, numa etapa diversa: de mancira evidente, no sistema do mestre e apren- diz, 0 qual, por vezes, era semelhante aquele numa drea mais geral de artes e oficios (ver adiante, pp. 58 ¢ segs.) E interessante examinar essa distingdo relativamente & enorme quantidade de arte — pintura, escultura, arquitetura, mi- sica © (em sentido diferente) literatura — produzida dentro das relagées sociais varidveis da Igreja cristi. Algumas das obras mais conhecidas desse tipo so pelo menos andlogas as do patro- nato na corte; a grande quantidade de obras de atte encomendada pela Corte do Vaticano é um exemplo dbvio. Contudo, ha tam- bém uma érea menos definida, na qual os artistas dedicavam-se & arte religiosa, nao apenas, por vezes nio prineipalmente, por ser essa a encomenda desejada por seu patrono cles mesmos se identificavam com 0 objetivo organizagdo social fato, disponivel para empregar-se, para louvar ou enfeitar de- terminada corte ou familia que o tiver empregado. Pois, em- bora as relagdes econémicas imediatas fossem muitas vezes se- melhantes, como a forma especifica da troca patron: relagdes sociais c uma vez que se admi independente de tipo soci Na verdade, no sei haver um servigo voluntatio ¢ tha havido uma relagdo mais andloga 4 dos artist los das ordens sociais anterio- res. Nos mosteiros, particularmente, podemos encontrar muitos ccasos interessantes de formas especificas de organizagao que, em- bora reguladas por regras religiasas manifestas e nio por regras se- culares (c, nesse sentido, relativamente deslocadas da integragdo de ‘uma organizagao desse tipo na onganizagio social imediata como uum todo), funcionavam, na pratica, como organizag6es culturais de grande importincia no saber, na literatura, na dramaturgia € nas artes visuais. Uma vez que a ordem era primordialmente reli- 40 siosa, ela deve ser diferenciada de ordens culturais especificas, tas ¢ ainda mais distinta das relagdes sociais do patronato. Dentro de uma ordem desse tipo, muitos produtores tomaram-se de fato especialistas, contudo ainda nos termos de uma organiza~ fo geral que vai além de sua especializagéo. A transigao para o pleno patronato eclesidstico — transigéo naturalmente marcada pot muitos estagios intermediétios e sobrepostos — foi uma tran- sigdo para aquclas formas de profissionalismo, implicando mobi- lidade e disponibilidade para emprego, caracteristicas da segunda forma principal de patronato. (iii) Protegdo e manutengao : A terceira forma de patronato é de novo distinta, por ocu- tistas do que com a proviséo de algu: de protegio ou reconhecimento social. As companhias teatrais da Inglaterra elizabetana sao bons exemplos desse tipo. Podia ainda haver 0, € alguma manutengao (con- ipal fungdo desse patronato era o explicita adaptar-se dentro do processo de associagio de deter- inadas obras a determinados nomes influentes: de fato, 0 pa- a quem cram dedicadas. Essa era uma forma de apoio social mais moderada, que caminhava na diregao da mera reco- mendagdo social. Muitas vezes ndo implicava relagdes de troca econdmica. O que realmente estava sendo trocado, num de- terminado tipo de sociedade marcada por patentes desi gualdades de classe, era reputago © honra confiantemente reciprocas. (iv) Patrocinio , ; “ E necessitio, pois, distinguir esse tipo de patronato de um quarto tipo, num periodo em que havia relagdes sociais de arte qualitativamente novas, determinadas pela produgio cada vex 4 mais regular de obras de arte como mercadorias para venda gene- ralizada, Em qualquer dessas formas, havia a pemanéncia decle. ‘mentos das formas anteriores de patronato, agora, porém, em so- ciedades mais complexas e mais abertas, Os patronos do primeiro segundo tipos ofereciam hospedagem, recompensa e (em alguns casos do segundo tipo) retribuigo monetii alt caso, porém, por obras especificamente (quando isso era importante) possuidas por tereciro tipo, que oferecia reputagdo € protego social, atuava ciais. © patrono do quarto tipo, embora dando seqiiéneia a algu- mas dessas fungdes anteriores, atuava mais plenamente dentro de ‘um mundo em que era normal a produgio de obras de arte para vender. Sua fungio era a de oferecer apoio inicial, ou estimulo inicial, a artistas que iniciavam sua carreira no mercado, ou que ram ineapazes de, dentro dele, sustentar determinado projeto. A relagio tipica era a monetitia, ¢ veio # generalizar-se, desde 0 patrono individual até a forma de lista de subscrigao do século XVIII (pré-publicagao). Porém, havia ainda um residuo das fun- gGes de reputagiio e recomendagio social. ___ Patrocinio comercial. Esta quatta forma de patronato sobre- viveu dentro de condigdes em que as relagdes de produto ¢ de mercado se haviam tomado predominantes. De fato, cla ainda pode ser encontrada em nossa época, em alguns casos indivi- duais, mas também em novas formas de patronato. Num sentido limitado, algumas empresas industriais e comerciais tm ingres- sado no patronato do segundo tipo, andlogo ao das cortes fami- lias, contratando obras pata seu proprio uso ou propriedade, Porém, embora alguns desses casos sejam desse tipo simples, ou- tros estéo mais diretamente envolvidos com as condigées moder- nas de mercado, quer sob a forma de investimento, quer sob a forma de propaganda institucional 42 (v) O piiblico como “patrono” (© “patronato” piblico, com recursos oriundos de tributago, possui alguns elementos de fungées ¢ de atitude comuns a formas anteriores, mas apresenta algumas definigdes bastante novas de fungéo, tais como a manutengdo € expansio deliberada das artes ‘como uma questo de politica publica geral. Muitas das contro- vérsias a respeito das novas instituigdes que atendem a esses ob- jetivos podem ser encaradas, quando examinadas de perto, como discusses a respeito de formas diversas de patronato — estimulo ou intervengao, no interior do mercado ou fora de seu ambito — ‘mas também, ¢ crucialmente, a tespeito de distingdes entre rela- sociais de patronato (em que se considera que o conjunto do iplesmente substituiu a corte, a familia, ou o patrono .gdes sociais altemativas de uma arte agora ida. sricos mais acessiveis sio todos do periodo de formas diversas de patronato, ¢ no surpreende que sejam estes que tém predominado nas formas dos novos conjuntos de esses modelos ¢ 0 de artes instituidas ou integradas, a diferenga das artes patrocinadas, esto extrema- mente mais distantes, em tipos de ordens sociais tio obviamente diversas, para que scja facil compreender os prinefpios em que se ica definidora de todas as relagdes ilegiada do patrono. Dentro sociais de patronato é a situa das formas varidveis de autodefir dades que acompanham esse pt como alguém que pode dar ou néo dar sua encomenda ou seu apoio. As relagdes sociais especificas desse privilégio provém, naturalmente, da ordem social como um todo; ali é que os pode- res e os recursos do patrono esto arroladas ou protegidos; nos termos mais crus, ele est fazendo 0 que quer com o que the pertence. E esse fato, antes de mais nada, que toma a defi qualquer conjunto publico em termos de patronato, extra autoridade e recursos da suposta vontade geral da sociedade, quando menos, controverso e, no extremo, totalmente inaplicavel. 43 Contudo, as relagées costumeiras das virias formas de patronato, € de artistas como “clientes”, tém, na pritica, persistido nessas formas que, sob outros aspectos, so novas. Artistas e mercados Historicamente, existe um longo periodo de sobreposigao entre relagées sociais de patronato © de mercado nas artes. Em principio, porém, clas podem ser prontamente diferenciadas. A produgio para o mercado implica a concepgio da obra de arte como mereadoria, e do artista, ainda que ele possa definir-se de outra forma, como um tipo especial de produtor de mercadorias. Mas hi, por outro lado, fases de produgio de metcadoris. essen- cialmente diferentes. Todas elas implicam produgdo para simples troca monetéria; a obra é posta & venda e é comprada ¢, desse modo, possuida. Porém, as relagées sociais dos artistas parcial ou totalmente envolvides na produgdo de mercadorias sio, de fato, extremamente variaveis. (i)Artesanal Existe a situagio simples, antiga, mas que ainda persiste em muitas dreas, do produtor independente que poe a propria obra a venda, Comumente, chama-se a isso de artesanal. © pro- dutor ¢ totalmente dependente do mercado imediato, mas, dentro das condigdes deste, sua obra permanece sob seu zontrole em todas as etapas, e, nesse sentido, ele pode con- siderar-se independente, (ii)Pés-artesanal ‘A fase seguinte da produgio de mereadorias ¢ muito diferente tem, ela mesma, duas etapas. Em primeiro lugar, 0 produtor vende sua obra nao dirclamente, mas a um intermedidrio distribuidor que, entio, se toma, na maioria dos casos, seu empregador de fato, ainda que ocasional. A seguir, em segundo lugar, o produtor 4 vende sua obra a um intermedisrio produtor, e comegam a insti- tuir-se relagdes tipicamente capitalistas. © intermedi na compra da obra visando ao lucro; agora, suas relagées com 0 mereado é que sio diretas. ‘Podemos obsetvar as complexas relagdes dessa fase pés- artesanal fundamental, por exemplo, na evolugao dos livreitos que passam a editores. A fase caracteriza-se tipicamente pela compra direta das obras em questo. Em grande parte de suas condigdes imediatas, 0 produtor continua sendo um artesio mas, agora, num mercado mais complexo ¢ mais organizado, em que depende praticamente de intermediiios. Vs que, dentro dessa situagao, pode haver varia do proprio proceso produtivo. Em dado nivel, 0 produtor ainda oferece seu produto, uma obra terminada antes de set posta & venda, Na medida, porém, em que essas relagdes se tomam normais ou, em certas dreas, predominantes, ele pode, afinal, basicamente, estar oferecendo seu trabalho para produ- zit obras de determinado tipo conhecido. Existe grande complexidade pritica nas diversas etapas de transigdo entre esses relacionamentos fundamentalmente alterna- tivos. Isso também se verifica naquele outro nivel em que 0 pro~ dutor define, para si mesmo, a natureza de sua obra. Ai csté a origem das discussdes muito importantes ¢ dificeis a respeito das relagdes entre a responsabilidade do artista para com sua obra ¢ sua “responsabilidade”, “obrigagao™, ou “sujeigo” a um “piblico” ou a um “mercado”. Algumas dessas discusses repe- tem, no fundo, velhas discusses a respeito das relagdes entre 0 artista e seu patrono; outras delas, porém, com a expansio, a difu- so € 0 relativo deslocamento das relagées sociais do artista nesse ivamente novas. E significativo, por exemplo, que a reivindicagao do artista por “liberdade”, por “criar como Ihe aprouver” foi feita muito mais comumente apés a instituigo das relagdes predominantemente de metcado, e com elas se rela- cionam, tanto positiva quanto negativamente. Nao se pode dizer que a fase artesanal ou que a fase pés- artesanal de relagdes de mercado tenha terminado. De fato, as 45 fases parecem variar de uma arte para outra. Assim, na pintura, em que as relagGes de patronato em obras encomendadas direta- ‘mente (0 exemplo mais simples é 0 retrato) também continuaram, a existir, ha ainda alguns exemplos de relagdes artesanais ¢ mui- tas pés-artesanais, sendo que estas esto ainda em sua primeira fase, em que as relages de um pintor com uma galeria que vende suas obras geralmente se encontram ainda na fase distributiva. Na miisica, onde ainda existem também relagdes de patronato em obras encomendadss, ainda ha relagdes pés-artesanais predomi- nantemente distributivas quanto a obras eruditas ¢ partituras tra- dicionais, enquanto na miisica popular a segunda fase pés-attesa- nal, produtiva, ja se estabeleceu ha muito tempo, ¢ tem havido importante movimento em diregao a fases posteriores de relagdes de mercado. Em literatura, embora ainda haja casos de relagdes artesanais © pés-artesanais distributivas, as relagdes pds-artesa- nais produtivas predominam hi muito tempo, e importantes mu- dangas intemas tém levado grande parte da atividade editorial na dirego de uma fase posterior de mercado. Essas diferengas entre as artes so importantes por si mes- mas ¢ também para lembrar que as relagdes sociais de artistas estio intimamente relacionadas com os recursos técnii dugdo de cada uma das artes. A questo geral dos efei nais desses recursos de produgo seri discutida no ‘mas alguns de seus efeitos institucionais so registrado: medida que ocorrem. rofissional de mercado Ses pés-artesanais produ- ficado para a compreen- de fato muito com- cente capitalizagio dos alizago, de determinado tipo, entre os escritores. Os dois indicadores significativos dessas relagdes em mudanga sio 0 copyright e o royalty. 46 maior parte dos demais tipos de reprodugio artistica, now eritica a questiio da propriedade da obra. As rel tesanais) produtivas de um escritor com um editor podiam ser, © cram amplamente, perturbadas por outros editores (“piratas”, na- cionais ou estrangeitos) que reimprimiam e vendiam a obra sem qualquer mengo ao autor. Longa luta dos escritores para instituir 6 primeiro copyright nacional e, depois, o intemacional resultou no s6 num novo conceito de propriedade literiria, como também ‘em novas (ou pelo menos aprimoradas) relagGes sociais dos escri- tores. Pois, muito embora as obras ainda fossem transferidas a intermedidtios produtores, sua propriedade universal tendia a per- manecer nas mas do produtor. O novo relacionamento tipico foi tum contrato negociado para uma forma ou periodo determinado de publicagéo, com cléusulas variiveis sobre suas condigdes durago. Como expresso desse relacionamento, 0 royalty — pa- gamento relativo a cada exemplar vendido — veio substituir a antiga forma da compra de uma sé vez. Desse modo, o escritor tomou-se participante do processo direto de mercado da venda de sua obra. discutido inter- minavelmente sobre as condigdes dessa participagao, e a pritica cada vez mais comum de adiantamentos sobre royalties em certa medida a tem modificado, ao restaurar um elemento de compra. O resultado geral, porém, a despeito de sua grande desi- gualdade entre escritores, foi um tipo determinado de relaciona- mento social que pode ser definido como uma forma de in- dependéncia profissional no seio das relagdes de mercado integradas ¢ predominantes. Tipicamente, os eseritores passaram a envolver-se em relagies com o mercado como um todo, em vex se com determinado intermedisrio produtivo, essa general 10 de plenas relagdes de mercado levou-os, em sua maioria, para além da fase pés-artesanal ¢ para dentro da do mereado profissional organizado. Intermedirios iis como agentes literdrios, marcam essa fase mais desenvolvida. 47 Percep¢do do “mercado”. Em todas essas fases de mer- cado, o produtor podia ainda ser visto como um criador, embora, na pritica, por toda parte, houvesse ressalvas quanto a isso. O artesio, 0 pés-artesio em relagdes produtivas ou distributivas in- diretas 0 profissional de mercado, todos eles atendiam necessa- riamente, em algum momento, ainda que em graus mareadamente diversos, aquela forma de demanda ou de demanda projetada, que era mediada, de modo cada vez mais indireto, pela forma da rela- go de venda concreta. Na verdade, a produgdo para o mercado, como objetivo que assume prioridade sobre qualquer outro, est muito evidente cm cada uma das fases, embora haja grande nti- mero exempl produtores Iutando contra as tendéncias do mercado, ou te ignorando-as. Culturalmente, essa inte- ragio é essencial, pois define as relagées sociais dos artistas em nivel diferente do da maioria dos outros tipos de produgo. Ca- racteristicamente, toma-se dificil, mas também necessdrio, nessa fase de mercado, essa forma de produgiio de outras com as quais mantinha relagdes econémicas andlogas. Nossas distingGes convencionais entre “artesio”, “artifice” e “artista” pertencem a essa fase do mercado cultural, mas como reagio a ‘suas dificuldades internas. Na raiz dessas distingdes encontra-se a tentativa de uma mercado. Pode-se construir uma hierarquia p sidades materiais e culturais na qual a pani sempre sero “ites”, do que a pintura, o conto ou a cangao. Porém, o modo mais satisfatério de examinar essa dificil questo nao é em ter- mos abstratos, supra-histéricos mas examinando os modos © sapato + €, nesse sentido, mais 48 pelos quais esses problemas de necessidade ¢ uso sio organiza- dos praticamente, em ordens sociais especificas. (© que vemnos, entiio, é que a hicrarquia do uso ¢ da necessi- dade esta, ela mesma, relacionada com o cariter das relagées de produgdo organizadoras. Onde foi necessirio, por exemplo, fazer objetos de arte como forma de representagio das relagées de pa- rentesco vigentes, ou como forma de relagdes priticas com 0 mundo natural, ou — como tantas vezes — como forma de repro- dugo de determinada ordem social ou sécio-metafisica, © pro- blema da hierarquia é radicalmente diverso do que no inicio. Na verdade, sabe-se muito bem que sociedades que, de acordo ‘com qualquer padrio posterior, eram muito pobres, consagra~ ram muito tempo, energia ¢ recursos significativos produgdo daquilo que hoje seria percebido como objetos de arte, Em todas as fases posteriores, mais organizadas, desse tipo, em época em que a pritica da arte tanto se diferenciara como se especializara, a instituigdo de artistas como parte da organiza- ‘¢do social geral ainda era, como vimos, normal. A dificuldade excepcional do lugar da produgdo “cultural” nas sociedades modemas pode pois, por sua vez, ser estudada em termos de suas relagies com a ordem produtiva geral. E aqui hd, de saida, uma dificuldade, jé que a ordem prodativa geral, no decorrer dos séculos de desenvolvimento do capi sido predominantemente definida pelo mercado, e cultural”, como vimos, tem sido cada vez. mais assimilada as con- diges desse mercado; contudo, tem havido, em medida conside- rivel, resisténcia a qualquer plena identidade entre produgéo cul- ‘e produgao geral, sendo uma das formas dessa resistencia as ingGes entre “artesio”, “artifice” e “artista” e, de forma corre- importante, a distingao entre “objetos de utilidade” e “objetos de arte”. Seria corteto, pois, dizer que a origem dessas modernas dificuldades é na verdade a economia de mercado, mas, por outro lado, em vista das tentativas de distingdes, no seria certo — de fato, seria gravemente redutor — dizer que a ordem de mercado generalizada transformou toda produgo cultural em um tipo de produto de mereado. Pois, enquanto as formas anteriores de rela- 49 ‘ges de patronato séo, em geral, resquicios de sociedades mais integradas culturalmente, muitas das formas posteriores so exa- tamente intervengdes ou no interior das forgas normais do mer- cado, ou, por vezes, contra elas ou fora delas. Vemo-nos assim, © no pela primeira vez, ao estudar sociedades economicamente ba- seadas em modos de produgdo capitalista, diante de determinadas assimetrias significativas entre as relagées sociais do modo de produgéo predominante ¢ outras relagdes no interior da ordem social e cultural geral. Nao se deve exagerar a respeito dessas assimetrias. De fato, a maior parte das relagdes de produgio cultural tem sido assimi- Tada as condigses do mercado em desenvolvimento, Algumas, , dos produtores culturais naquilo que so relagses de mercado realmente bastante normais sempre a tem deixado de ais que essas dis- apropriadas, em suas formas convencionais ge- \gosas, seria totalmente errado des 1 que foram tentadas, de u (iv) Profissional empresarial ‘A questo tomou-se mais critica na tiltima fase das relagd ‘mente a avangos muito importantes nos meios de ral e, especialmente, uuso dos novos meios de comunicagao de 50 ‘massa. Em uma ou duas éreas, porém, o desenvolvimento empre- al ndo esta inteiramente relacionado com esses meios. Na pro- fissdio de esctitor, por exemplo, o campo das relagdes de mercado foi atingido por novos tipos de desenvolvimento de consdrcios ¢ empresas na edigdo de revistas e jomais. As relagGes sociais tipi- cas do mercado profissional integrado continuaram a existir nessa fase, mas houve, também, um desenvolvimento significativo de novas relagdes sociais, para esctitores de linhas diversas, que ‘agora estavam efetiva ou inteiramente empregados dentro das ‘nnovas estruturas empresariais. Essa tendéncia aumentou firme- mente e, paralelamente a ela, houve uma tendéncia diversa mas correlata, 4 medida que a propriedade de consércios ou empresas se tornou muito mais comum na atividade editorial de livros. ‘Uma vez mais, nesse caso, as relagées sociais do mercado pt sional continuaram a existir, mas houve um desenvolvimento sig- nificativo ¢ crescente de algumas no. slagdes, no interior de ‘um setor empresarial cada vez mais capitalizado. Essas relag6es reacendem a questo da origem da produ- Jages mais antigas, notadamente as do ¢ do profissional de mercado, aconte- \dientemente que uma obra se originasse de uma encomenda de um livreiro ou de um editor. Na estru- tura empresarial, porém, isso se tornou muito mais comum, em relagio com um mercado extremamente organizado ¢ plena- mente capitalizado, no qual a encomenda direta de prodiutos snejados tomou-se uma modalidade normal. £ virtualmente impossivel estimar a proporgo desse tipo de relagSes no total dos livros, uma vez. que algumas encomendas, ¢ talvez grande parte delas, ainda so determinadas, em termos cul- turais, por consideragdes a respeito daquilo que os autores, de qualquer modo, teriam desejado escrever. Mas em nimero consi deravel e cada vez. maior de easos, as relagdes niio sio realme' vros * ooedern de novos intermedisrios profissionais (os edit SI res) dentro da estrutura do mercado, sendo os autores emprega- dos para executé-las. As relagdes variam, entio, de empregos ocasior sos, no distantes ainda da situagdo do profissional cado, até relagGes inteiramente novas, mediante contratagies ¢ contratos periédicos, nos quais o escritor se toma, de fato, 0 profissional empregado e (com modificagées tais como os ro- yalties) assalariado. Os novos meios de comunicagdo de massa. Porém, os casos certamente mais importantes do crescimento do profissional asa Jariado na produgao cultural ocorreram nas instituigdes dos novos meios de comunicagao de massa, nos quais a produgao social in- tegrada tornou-se normal e necessitia. O cinema, o ridio ¢ a visio sio os exemplos mais destacados, onde organizagGes capi- talistas e algumas nio-capitalistas organizam a produgao desde 0 comego ¢ oferecem emprego assalariado ou mediante contrato nessas condigdes. A grande importancia cultural desses novos meios de comunicagao de massa tornou predominante ¢ até mesmo tipica essa espécie de relagdcs sociais nestas ultimas décadas do século XX. Hi, entio, uma mudanga qualitativa quanto as relages so- cioculturais mais antiges, mesmo dentro das anteriores fases de mereado. Pois a origem efetiva (ainda que por certo nunca abso- uta) da produgio cultural est, agora, essencialmente situada dentro do mereado empresarial. O volume de capital envolvido & a dependéncia de meios de produgio ¢ distribuigao mais comple- xos ¢ especializados impediram, em grande medida, 0 acesso a esses meios de comunicagio de massa nas antigas condigdes arte- sanais, pés-artesanais e, até mesmo, profissionais de mercado, ¢ impuseram condigdes predominantes de emprego empresarial Isso no significa, certamente, que antigas formas de rela- do nao hajam sobre alhures. Nas antigas artes da pintura, escultura, miisica erudita e, como vimas, certo tipo de trabalho de escritor continuaram a existir as_relagdes complexas do produtor (€ criadot) individual. Mas na misica, por exemplo, essas antigas relagdes tomaram-se menos importantes em comparago com as 52 novas instituigdes empresariais de miisica popular, baseadas nas novas tecnologias do disco e da fita gravada, onde a modalidade capitalista empresarial é decisiva. Propaganda. Devemos registrar, também, uma forma de produgo cultural extremamente especifica da fase do mercado empresarial: 0 que ainda é chamado de “propaganda”. Em fases anteriores de uma sociedade de mercado, algum tipo de propa- ganda, comumente especifica ou classificada, existia margem de outras instituigdes culturais, ¢ recorriam a algumas h: les culturais gerais. A partir, porém, do periodo da organizagao em- presarial, comegando com a imprensa de fins do século XIX, ela se tomou, de maneira especifica, uma forma de produgao cultural em si mesma. As agéncias de propaganda que haviam comegado com a reserva de espago para aniincios em joinais tornaram-se, no século XX, instituigdes de uma forma de produgo cultural, inteiramente reguladas pelo mereado organizado. E interessante que os produtores, dentro das agéncias de propaganda, rapida- mente reclamaram para si o titulo de “criativas”. Neste final do século XX, com muitas outras instituigdes culturais dependendo cada vez mais do rendimento ou do patrocinio dessa instituiggo specifica do mercado, a “propaganda” tomou-se um fenémeno cultural bastante novo e, caracteristicamente, estendew-se a sreas centemente centralizadas, passaram para uma situagao na qual se poderia dizer, uma vez mais (porém com a tiva de uma mudanga de época), que as sio partes integrantes da organizago soc como por seu fregiiente entrelagamento € integrago com outras 53 instituigdes produtivas, so partes da organizago social e econd- ‘mica global de maneira bastante generalizada e difundida. Instituigdes pés-mereado culturais modemas, contudo, no podem ser igSes pés-mercado tomaram-se importantes; clas podem ser caracterizadas como a patronal modema, a intermedii- ria ¢ a governmental. Sua incidéncia varia em diferentes socie- dades em estigios compardveis de desenvolvimento geral. Patronal moderna e intermedidria A patronal modema & comum nas sociedades capi avangadas. Certas artes que no so lucrativas nem mi veis em termos de mercado sio mantidas por determinadas tuigdes, tais como fundacdes, por organizagdes de assinantes ainda por certo tipo de patronato privado. Intermediarios entre essas ¢ instituigdes inteiramente governamentais, encontram-se organismos total ou substancialmente financiados com recursos piiblicos (como, na Gré-Bretanha, 0 Arts Council) que apéiam financeiramente certas artes. Ainda nessa mesma categoria geral, hi insituigdes como algumas que exitem na radiodifuso (oe BBC), que, de uma forma ou outra, dependem de s, mas que ditigem a propria produgio. As rela- ‘goes sociais dos produtores com as instituigdes patronais ou inter- medisrias atuais vio desde a patronal, passando pela pés-artesa- nal ¢ profissional, até (como na maioria das ridios) o emprego empresarial. Governamentais Em algumas sociedades capitalistas, e na maioria das socie~ dades pés-capitalistas, as instituigdes culturais tornaram-se de- partamentos do Estado, particularmente nos modemos meios de comunicagio de massa. No detalhe, ha grande variedade de composigdes, mas as relagées tipicas dos produtores nessas con- diges so as de empregados de empresas estatais ou, em certos casos, profissionais estatais, mais do que de mercado. Por lado, as condigées variam desde aquelas em que as insti- sulturais e seus produtores so totalmente subordinados a estatal geral — condig&o esta que da mais dura pelo monopélio total ou iodos os meios de produgao cultur flea nach comcnyode, ot poe, Sctheom a come eee politica geral, na pritica as relagdes no séo significativa- mente diferentes das organismos intermedi modos variados, orienta com a ordem social nas quai Conclusdéo A sociologia da cultura, nesse nivel das instituigées, deve, pois, levar em conta a diversidade tanto histérica quanto contem- pordnea. B importante reter toda a extensao da classificagao pro- visdria de instituigdes ¢ tipos de relagdes, como instrumentos especificas, ¢ no t com as férmulas (pré- icas) de “o artista” e “scu “a base econdmica”. De fato, é ‘em mudanga e a complexa & possibilidade de uma analise mais precisa. 55