JORNADAS DE PATRIMONIO INDUSTRIAL MINERO Y

DESARROLLO LOCAL

Mineração e civilização em Minas Gerais: um olhar para o
passado, as tensões do presente e uma proposta para o
futuro
Universidade Federal de Minas Gerais:

Fabiana Araújo - Fabiana Santos - Fernanda Borges - Flávio Carsalade Jeanne Crespo

Guayaquil, novembro de 2014

PAUTA

1. A importância da mineração para o processo civilizatório mineiro.

2. O problema do pós-mina atual: aspectos regulatórios

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com alternativa de
articulação entre setores

1. A importância da mineração para o processo
civilizatório mineiro.
- Brasil, até o final do século XVII: baixa ocupação populacional concentrada na sua
faixa litorânea;

- Pós descoberta e exploração das minas: penetração no território de forma mais
efetiva;
-Mineração no Estado de Minas Gerais: desencadeador da ocupação do território

brasileiro no período colonial.
Século XVIII (ouro)
-surgimento de uma rede de ocupação urbana composta por pequenos núcleos
dispersos pelo território;
- expressivo patrimônio cultural resultante: barroco;

- transformação da ambiência do território: legado também muito significativo, do qual
quase não se fala

1. A importância da mineração para o processo civilizatório
mineiro.
Século XIX
-Decadência na exploração de ouro (início do ciclo do café)
- abertura à entrada de capital estrangeiro para as atividades econômicas de extração
mineral.
-cidades e vilas constituíram um tipo de sociedade peculiar
Século XX:

- políticas econômicas e de infraestrutura do Estado brasileiro tentaram promover a
integração do território e dos mercados nacionais.
-indústrias metalúrgicas (Quadrilátero Ferrífero) receberam os efeitos de “estímulo”
econômico
- privatizações

1. A importância da mineração para o processo civilizatório
mineiro.
Situação atual
-Minas Gerais responde por mais de 45% do produto mineral nacional;
- cadeia produtiva mineral responde por mais de 35% do PIB do Estado;
- consequência: poder político demasiadamente forte em favor do poder de barganha
da atividade minerária;
- Governos estaduais e municipais X Empresas X Grupos sociais;

Lógica metodológica de licenciamentos baseada em Estudos de Impactos Ambientais e

em uma legislação baseada em mitigações desses impactos e compensações:
vislumbra qualquer lugar como passível de minerar desde que haja uma
negociação.

Novos Projetos Minerários
em Minas Gerais

Alto Paraopeba
Médio Espinhaço
Norte de Minas
RMBH
Outros

Fonte: CEDEPLAR, 2013

2. O problema do pós-mina atual: aspectos regulatórios
-Contradição sobre quando e como o fechamento de uma mina deve ser planejado:

Plano de Recuperação de Áreas Degradadas – PRAD, juntamente com o EIA-RIMA

X
Plano de Fechamento de Mina – PFEM, a ser entregue apenas dois anos antes da
previsão de encerramento da atividade minerária

O PFEM ultrapassa o sentido stricto sensu de recuperação de áreas degradadas

(PRAD) ao incluir a necessidade de mitigação de impactos socioeconômicos, para
além daqueles ambientais.

2. O problema do pós-mina atual: aspectos regulatórios

-“compensações” ou “efeitos mitigadores de impactos” serão sempre suficientes ou
para restituir os potenciais paisagísticos e ambientais das áreas mineradas ou para
substituí-los por algo melhor, mais “útil” à sociedade

-Necessidade de se pensar a questão não apenas no “caso a caso”, mas de uma forma
que envolva por um lado, uma visão de futuro com planejamento, metas sociais e
inclusão em planos integrados de desenvolvimento territorial e, por outro lado, um
equilíbrio maior entre os jogadores, com empoderamento social e maior realismo com
os atributos insubstituíveis de certo lugar.

Em Minas Gerais, recentemente, foram eleborados 4 planos de caráter
regional:
Alto Paraopeba (2011): maior volume de investimentos privados em
curso no país para fins minerários e metalúrgicos;
Região Metropolitana de Belo Horizonte - RMBH (2011 e 2014)
Norte de Minas (2013);
Médio Espinhaço (2013).
Com exceção da RMBH, outros 3 planos foram elaborados para regiões
mineradoras ou que viriam a ter exploração mineral:

- Planos elaborados por equipes multidisciplinares.
- Grandes eixos com avaliações e proposições para a estrutura regional.
- Estudos específicos sobre economia, meio ambiente, transportes, rede
urbana e desenvolvimento territorial.
- Objetivos:
-orientar as políticas públicas na perspectiva do desenvolvimento
regional
- articular diversas instâncias de poder em torno de um interesse
coletivo regional

2. O problema do pós-mina atual: aspectos regulatórios
Região Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH:
- Indústria extrativa mineral representa mais de 70% dos investimentos esperados para
os próximos anos.
- Esses investimentos são uma realidade antiga na região, especialmente no Vetor Sul.

- Conflito: mineração x expansão imobiliária x preservação ambiental, dos recursos
hídricos e do patrimônio material e imaterial existentes.
- Empreendimentos com atividades encerradas em que se verifica uma grande
tendência de aproveitamento em empreendimentos imobiliários voltados para as
classes média-alta e alta: segunda safra da mineração.

2. O problema do pós-mina atual: aspectos regulatórios
Desafio: grande concentração da propriedade da terra nas mãos das
mineradoras = possibilidade de valorização do capital das mineradoras pela
especulação e expansão imobiliária em um eixo de rápida expansão dessas

atividades.

Crítica aos empreendimentos imobiliários está relacionada com a postura
elitizada das alternativas econômicas propostas como forma de reconversão
do território minerado, com alto grau de sofisticação e segregação social,
sintetizando a mistura contemporânea de cultura, natureza, negócios e

turismo (COSTA, 2003)

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com
alternativa de articulação entre setores

Mapa1 – Localização do Quadrilátero Ferrífero.
Fonte: RUCHKYS, 2007, p.44.

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com
alternativa de articulação entre setores
GEOPARK QUADRILÁTERO FERRÍFERO:
-Ideia não se sustenta, na ideia tradicional – inclusive da UNESCO – de uma reserva
onde a ação humana é meramente contemplativa ou de redomas de proteção de

santuários, mas em uma noção próxima a do ecomuseu: o acervo dentro da realidade
das transformações e como um de seus agentes.
- Parte da riqueza e excepcionalidade de seu território, mas não o entende apartado de
interesses e pressões e por isso, justamente, necessitando de uma nova instância de
proteção, baseada em formas contemporâneas de atuação.

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com
alternativa de articulação entre setores
UNESCO: território com limites definidos que apresente sítios geológicos de especial
valor científico, combinados com valores ecológicos, arqueológicos, históricos ou
culturais inseridos em um processo de desenvolvimento sustentável que fomente
projetos educacionais e de valorização do patrimônio cultural local.

Processo sustentável: diz mais respeito à sustentabilidade do próprio parque –
porque o geopark é, sobretudo, um parque, uma reserva – e por isso elege como
mecanismos de sustentabilidade os clássicos: turismo, atividades culturais,
educação ambiental e patrimonial.

Grande diferença entre o conceito da UNESCO e a iniciativa brasileira se dá em dois
pontos: quanto a sua escala e dimensões e quanto a sua inserção na dinâmica
territorial (não se trata de uma “reserva”).

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com
alternativa de articulação entre setores
Resistência: empresas de mineração e setor agropecuário, por acreditarem que a
criação de um parque deste tipo implicaria na criação de novas unidades de
conservação ou restrição de atividades.

Programa perdeu força no âmbito governamental, mas conseguiu apoio em
universidades e outras instituições de fomento e pesquisa

UNESCO: vem condicionando seu reconhecimento, previsto para 2015, a uma nova
estratégia de descentralização da gestão do Geopark em Núcleos, especialmente os
quatro “clássicos”, voltados a seus padrões específicos: Turístico, Geocientífico,
Educação e Promoção Sócio-Econômica.

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com
alternativa de articulação entre setores
Metas e visão de futuro:
- Consolidação do Geopark como indutor de Agenda Alternativa de Desenvolvimento
Sustentável para o Território
- Reconhecimento da UNESCO para o Trecho Zero Serra da Moeda
- Sistema de participação interativa plena até 2016, associado aos Jogos Olímpicos
2016
- 100 sítios de visitação de abordagem múltipla implantados até 2016

2020 – Agenda de Desenvolvimento Geopark reconhecida por todos os municípios to
território
Alguns programas já se encontram em andamento, independentemente da

chancela final da UNESCO

3. A proposta do Geopark Quadrilátero Ferrífero com
alternativa de articulação entre setores

A alternativa GQF se insere, portanto, como uma
resposta de uma região tradicionalmente mineradora em

construir soluções que modifiquem o quadro atual
dicotômico e fechado das relações entre a mineração e

a sociedade.

4. Referências
ACCIOLY, Sabrina Maria de Lima. Uso futuro de áreas mineradas e o meio urbano: o caso de
Águas Claras. Dissertação. MACPS/UFMG, 2012.
ANGLOGOLD ASHANTI. Complexo Rio de Peixe. Disponível em:
http://www.anglogoldashanti.com.br/Paginas/AreasNegocio/ComplexoRioPeixe.aspx Acesso em: 10
de julho de 2014
ANDRADE, F. E. A invenção das Minas Gerais: empresas, descobrimentos e entradas nos sertões
do ouro da América portuguesa. Belo Horizonte: Autêntica Editora/Editora PUC Minas, 2008.
ANTONIL, A.J. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. São Paulo: Itatiaia- editora
da Universidade de São Paulo, 1982.
BARBOSA, G.V. & Rodrigues, D.M.S. Quadrilátero Ferrífero. Belo Horizonte, Universidade Federal
de Minas Gerais, 1967.
BRASIL. Política Nacional de Meio Ambiente. Lei 6.938 de 1981. Disponível em:<
www.siam.mg.gov.br> Acesso em: 10 de julho de 2014
BURTON, R. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1976.
CANO, W. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil. Campinas, SP: Editora da
Unicamp, 1998.
CARSALADE, F. ET AL. “Mineração em Minas Gerais. território e paisagem cultural”. Anais do I
Seminário Internacional de Reconversão de Territórios. Belo horizonte, 2012. CD-ROM
CEDEPLAR. Macrozoneamento da RMBH. Produto 2. Em elaboração. 2014.
_________. Plano de desenvolvimento regional em torno de grandes projetos minerários no Médio
Espinhaço. 2013. No prelo.

4. Referências
COSTA, Heloisa Soares de Moura. Natureza, mercado e cultura: caminhos da expansão
metropolitana de Belo Horizonte. In: MENDONÇA, J. G. de ; GODINHO, M. H. de L. (orgs.).
População, espaço e gestão na metrópole: novas configurações, velhas desigualdades. Belo
Horizonte: PUCMINAS/PRONEX/Observatório das Metrópoles, 2003.
DNPM, Departamento Nacional de Produção Mineral. Portaria nº 12 de 22 de janeiro de 2002.
Altera dispositivos do ANEXO I da Portaria nº 237, de 18 de outubro de 2001. Disponível em:<
http://www.dnpm.gov.br/conteudo.asp?IDSecao=67> Acesso em: 10 de julho de 2014
DORR, J.V.N. Physiographic, stratigraphic and structural development of Quadrilátero Ferrífero,
Minas Gerais, Brazil. USGS/DNPM. Professional Paper , 1969.
FERRAND, P. O ouro em Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1998.
FRANCO, L. M. PATRIMÔNIO EM FUGA: OS INGLESES MINEIROS NAS MINAS GERAIS. s/d.
Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=2952. Acessado em 30 e
junho de 2014.
FREDERICO, S. Formação Territorial de Minas Gerais, 2009. Disponível em:
http://enhpgii.files.wordpress.com/2009/10/samuel-frederico.pdf. Acessado em 30 de junho de 2014.
GARDNER, George. Viagens pelo Brasil. Principalmente nas províncias do Norte e nos Distritos do
Ouro e do Diamante durante os anos de 1836-1841. Trad: Albertino Pinheiro. Rio de Janeiro:
Companhia Editora Nacional, 1942.
GEONATURE. Serviços em Meio Ambiente Ltda. Estudo de Impacto Ambiental - EIA, Relatório de
Impacto Ambiental - RIMA: Projeto Minerário Morro do Pilar (EIA MOPI). Belo Horizonte, março de
2012.

4. Referências
GEOPARQUEQUADRILÁTEROFERRÍFERO. Disponível em:
http://www.geoparkquadrilatero.org/index.php. Acessado em 11 fevereiro de 2013.
GRAHAN, R. Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil - 1850/1914. São Paulo:
Brasiliense, 1973.
GUIMARÃES, A.P. A siderurgia em Minas Gerais: estudo geográfico. Belo Horizonte, 1962.
KÜHL, B.M. Patrimônio industrial: algumas questões em aberto. USJT - Arq. Urb, 3, 2010.
Disponível em: http://www.usjt.br/arq.urb/numero_03/3arqurb3- beatriz.pdf . Acessado em 11 de
fevereiro de 2013.
LIBBY, Douglas Cole. Transformação e trabalho em uma Economia Escravista: Minas Gerais no
Século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1988.
MINAS GERAIS, Conselho Estadual de Meio Ambiente. Deliberação Normativa n° 127 de 27 de
novembro de 2008. Estabelece diretrizes e procedimentos para avaliação ambiental da fase de
fechamento de mina. Disponível em: < www.siam.mg.gov.br> Acesso em 27 nov 2011
MORAES, Fernanda Borges de. A rede urbana das Minas coloniais: na urdidura do tempo e do
espaço. Tese (Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo),v. I, II e III. São Paulo,
2006.
RUCHKYS, U.A. Patrimônio geológico e geoconservação no Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais:
potencial para a criação de um geoparque da UNESCO.Belo Horizonte, Universidade Federal de
Minas Gerais, 2007.
SAINT-HILAIRE, A. Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Tradução de L. de A.
Pena: Itatiaia/Edusp, Belo Horizonte/São Paulo, 1988.
SANTOS, M. & SILVEIRA, M. L. O Brasil, território e sociedade no inicio do século XXI. Rio de
Janeiro & São Paulo: Ed. Record, 2001.
VIEIRA COUTO, J. “Memórias sobre as minas de Minas Gerais”. In:Rev. Arq. Públ. Mineiro, v. 6,
1900.

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