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Revista Ágora-ISSN1984 -185x

O que define os pobres como pobres: controvérsias acerca do conceito de pobreza
Alex Pizzio1
Resumo
Os sentidos e conteúdos do que se entende por pobreza têm variado a partir da
abordagem conceitual que adotamos. Esta variação, apesar de situar-se no ampo
semântico-conceitual, encontra repercussão no plano da ação, pois, ao definir sujeitos e
situações, os termos implicam em reconhecimento mútuo e, no outro, podem introduzir,
a partir das designações, um significado distorcido de modo que o parceiro de interação
pode considerar-se não reconhecido. Esta discussão tem implicações diretas nas
formulações das políticas sociais voltadas para o combate à pobreza e seus
desdobramentos no espaço da experiência e nos horizontes de expectativas abertas à
ação.
Palavras-chave: pobreza, espaço da experiência, horizontes de expectativas, políticas
sociais.
Abstract
The purpose and content of what is meant by poverty have ranged from the conceptual
approach we adopt. This variation, although situated at the large semantic-conceptual, is
passed in terms of action, therefore, to define subjects and situations, the words by a
side imply recognition and, on the other hand, they may introduce, a meaning distorted
so that the partner interaction can consider himself not recognized or disrespected.This
discussion has direct implications in the formulation of social policies aimed to
combating poverty and its consequences in the field of experience and horizons of
expectations created to action.
Key-words: Poverty, field of experience, horizons of expectations.

Introdução
A pobreza, enquanto objeto de estudo, tem ocupado um lugar privilegiado nos
embates das ciências sociais. Seu uso tem crescido com o passar dos tempos, tornandose um dos principais conceitos organizadores para declarações de condição social quer
se aplique à sociedades ricas ou pobres. Nesse sentido, cada sociedade à sua maneira
tem forjado concepções não só acerca da pobreza, mas fundamentalmente sobre quem
pode ser considerado pobre.
No campo teórico, não são poucas as formulações, sendo que a pluralidade de
definições tem repercutido nas metodologias de mensuração, nos modos de explicação e
nas políticas públicas. Pode-se afirmar que tradicionalmente trata-se de um conceito
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Alex Pizzio é professor de Sociologia na Fundação Universidade do Tocantins e doutorando no
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

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que, ao longo da história, despertou interesse intelectual e político na medida em que o
Estado e as classes dominantes necessitaram definir as necessidades dos considerados
pobres em relação à renda dos mesmos. Geralmente encontramos na literatura três
idéias básicas articuladas à noção de pobreza. Inicialmente, podemos destacar a idéia de
subsistência, onde os indivíduos foram definidos em situação de pobreza quando suas
condições materiais eram insuficientes para garantir sua integridade física. No segundo
momento, destaca-se a idéia de necessidades básicas. O conceito representa
simplesmente uma ampliação do primeiro, colocando em destaque os meios de
sobrevivência mínimos demandados no plano coletivo e não apenas individualmente.
Por fim, fala-se em privação relativa. As pessoas definidas nesta situação são aquelas
“que não podem obter regime alimentar, confortos, padrões e serviços que lhes
permitam desempenhar os papéis, participar das relações e ter o comportamento
habitual que se espera delas como membros da sociedade” (Towsend, 1996, pp. 580).
Essas idéias desempenharam um papel importante nos planos nacionais e em relatórios
internacionais (Banco Mundial, 2001; 2003; Pnad, 2005; Pnud, 2004).
Nosso intento neste trabalho é discutir as distintas abordagens que compõem a
ideia de pobreza e suas repercussões, seja na definição de políticas sociais de
enfrentamento e redução da mesma, seja na maneira como os atores definem sua ação.
1. Controvérsias acerca dos sentidos e conteúdos da pobreza

Dentre as várias maneiras de nomear as situações de carência econômica ou
social, o conceito de pobreza tem sido a abordagem mais usual. Qualquer um que se
debruce sobre a temática da pobreza se depara com extensa bibliografia sobre a sua
conceituação e ou mensuração. Assim, o panorama social pode variar de acordo com os
critérios que são adotados para definir e medir o fenômeno. A diversidade destas
delimitações reflete, na mesma medida, a pluralidade de representações apresentadas
pelos atores que estão empenhados em conhecer, enfrentar e ou superar a pobreza.
Antes de adentrar propriamente nas controvérsias acerca dos sentidos e dos
conteúdos do que se entende por pobreza, gostaria de iniciar falando sobre conceito.
Quando nos referimos a um conceito – seja ele qual for – podemos dizer de maneira
forma genérica que estamos fazendo menção àquilo que espírito conhece ou entende em
relação a um objeto. Em ciências sociais, os conceitos são bem mais que termos que
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contrastando com uma economia planificada e uma intensa produção de riqueza.. agos. A sua amplitude determina o alcance de nosso olhar. A pobreza absoluta encontra-se em relação direta com a sobrevivência física. Neste sentido. A consequência imediata pode ser observada nos constates esforços despendidos na formulação de estratégias de enfrentamento e no papel de destaque que certos organismos multilaterais têm alcançado. Por aqui. um elemento do pensamento. o Banco Mundial começa a editar um dos seus mais importantes documentos o World development report. o Banco Mundial tem se destacado pela sua inserção na luta pela erradicação da pobreza. são 2 Ver os trabalhos de Crespo & Gurovitz (2002). que funcionam como instrumentos que utilizamos em pesquisas. R. tal cenário tem gerado certo mal-estar nos interstícios do sistema de governança global.2 Em ambos os casos. os critérios encontram-se vinculados ao plano macroeconômico. Salgueiro-PE. Criado num contexto específico de reconstrução da Europa do pós-guerra. n. Recorrendo a uma pequena metáfora podemos dizer que os conceitos são as lentes que usamos para observar a realidade social. ou seja. Dentre os aspectos mais usuais encontram-se as medidas relativas e absolutas. No plano metodológico. Em 1978. 2007). Rocha (2003). 5. Diante da constatação de que a pobreza há muito se difundiu como um fenômeno em escala global. no intuito de oferecer uma extensa abordagem acerca do desenvolvimento. 2010 98 . a construção e a delimitação das linhas de pobreza têm variado em função da perspectiva adotada para abordar e ou mesurar a pobreza. v. nas últimas décadas. Ág. moradia etc. Vinhais & Sousa (2006) entre outros. esses relatórios têm sido adotados como uma referência quase indispensável nas análises sobre a pobreza (Farias & Martins. seja através da promoção de estudos com o foco na pobreza. seja por meio de financiamento de projetos ou do aconselhamento econômico e técnico.PNUD e a Comissão Econômica Para America Latina e Caribe – CEPAL e o Banco Mundial. p.Revista Ágora-ISSN1984 -185x nomeiam um objeto de conhecimento. De modo que. Sua perspectiva inicial consistiu em elencar um conjunto de indicadores através dos quais pudesse ser definida uma fronteira a separar pobres e não pobres. os casos mais expressivos são o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento . 96-117. em termos da qual buscamos conhecer e interpretar uma dada realidade ou um fenômeno. São uma espécie de unidade. 1. a carência ou insuficiência de atendimento às necessidades nutricionais vitais acrescidas de outras necessidades básicas como vestuário. Esta zona limite é conhecida como linha da pobreza. transporte.

4 A adoção de linhas de pobreza como instrumento de definição e mensuração da pobreza tem sido a opção mais usual.3 A pobreza relativa vincula-se ao conjunto das necessidades que devem ser satisfeitas em função do modo de vida predominante na sociedade em questão. serviços e inserção no mercado de trabalho. saúde. Ág. passaram a considerar no estabelecimento da linha de pobreza diversos elementos que inclui educação. de ideias de Amartya Sen. 96-117. o Banco Mundial passou a considerar que a situação de pobreza está associada principalmente a três fatores: localização numa área pobre. alimentação. v. 3 Em se tratando de especificamente das necessidades nutricionais. Salgueiro-PE. 5 Segundo a Cepal (2006). trouxe ao primeiro plano os aspectos micro-econômicos da pobreza.. como vulnerabilidade ao risco. a pobreza é “relativa” quando se refere à posição de uma família ou de um indivíduo com relação à distribuição da renda ou do consumo num determinado país ou região. R. Ou seja. a Cepal tem apresentado um entendimento mais amplo. pelo programa. igualmente. Assim. Os técnicos cepalinos. A partir do ano 2001. o desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. p. 2010 99 . e família numerosa. introduzindo outras variáveis em sua formulação. baixa escolaridade. o equivalente mensal em dólares das linhas da pobreza mais recentes varia entre 45 e 157 dólares nas áreas urbanas.Revista Ágora-ISSN1984 -185x classificados como pobres aqueles sujeitos cuja renda é incapaz de atender o conjunto de necessidades consideradas mínimas numa determinada sociedade. dependem de outros fatores como as disposições sociais e econômicas e os direitos civis. nos últimos anos. e entre 32 e 98 dólares nas áreas rurais. Embora a renda possa ser um importante meio para expandir as liberdades desfrutadas pelos membros da sociedade. 5. Seguindo essa tendência. A construção de linhas de pobreza tem sido significativamente aprimorada. as liberdades. Segundo Sen (2002). agos. ausência de voz e participação política. esse valor é denominado de linha da indigência ou de pobreza extrema. n. onde em que examina a totalidade das condições que permite a um indivíduo e sua família participarem da sociedade sem privações e sem necessidades. 1.5 O Pnud também possui uma abordagem bastante ampla. Rocha (2003: 12) 4 A linha da pobreza estabelecida pelo Banco Mundial tem sido aplicada em muitos estudos que buscam mensurar a pobreza em um determinado país ou região. A incorporação. Em termos monetários seu valor tem variado entre US$ 1/dia e US$ 2/dia. o desenvolvimento como expansão de liberdades substantivas focaliza os fins que o tornam importante ao invés de restringi-la a alguns dos meios que desempenham um papel acentuado no processo.

v. pode-se dizer que os diferentes métodos empregados na mensuração da pobreza encerram uma ideia implícita sobre as variáveis que compõem a 6 Desde o início da década de 1990. que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. sintética. Assim. mesmo uma perspectiva tão promissora. não ter direitos civis e políticos respeitados etc. não ter livre acesso à troca de bens e serviços. o Produto Interno Bruto (PIB) per capita. 2004). a pobreza passa a envolver múltiplas dimensões que ultrapassam a simples carência de renda monetária. garantias de transparência e segurança protetora. n. Vista sob o ângulo de privação de capacidades. R. Nessa perspectiva. Salgueiro-PE. 96-117. negligência dos serviços públicos etc. 2002). A privação de capacidades envolve uma série de restrições: que vão desde não ter renda monetária suficiente para obter bens e serviços desejados à incapacidade física para desenvolver certas atividades. como estados e países. Tem como objetivo padronizar a avaliação da medida do bem-estar e tornar possível a comparação entre determinadas regiões geográficas. p. 2008). nos deixa um tanto céticos quanto a redução da pobreza a níveis mínimos aceitáveis. desigualdade de poder e oportunidades. ninguém é pobre porque quer ou somente porque suas capacidades são insuficientemente desenvolvidas para lhe proporcionar a superação. as capacidades significam liberdades substantivas que permitem que as pessoas levem um tipo de vida por elas almejada. agos. são as condições objetivas que aprisionam os sujeitos numa maneira de ser que não lhes permite a superação. entre outros (Pizzio. Em linhas gerais. carência de oportunidades econômicas. do desenvolvimento humano. países e organismos internacionais têm elaborado diversos indicadores que são apresentados separadamente ou reduzidos a um único indicador como o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. facilidades econômicas.Revista Ágora-ISSN1984 -185x Assim. As liberdades do ponto de vista instrumental se distinguem em liberdades políticas. Para efeitos práticos. uma vez que a pobreza. enquanto fenômeno social. Na maior parte das vezes. oportunidades sociais. O objetivo é oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado. 1.6 No entanto. Cada um desses tipos distintos de direitos e oportunidades ajuda a promover a capacidade geral de uma pessoa (Sen.. a pobreza pode ser definida como privação de capacidades básicas em vez de meramente baixo nível de renda. o desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza. O IDH se caracteriza por ser uma medida geral. Em outras palavras. longevidade e a educação com o intuito de buscar uma análise mais próxima das condições reais de privações das pessoas. o não acesso à educação e saúde. Ág. 5. que abrange aspectos como o PIB per capita. 2010 100 . o PNUD tem calculado o Índice de Desenvolvimento Humano. como a acima esboçada. (Souza. se consolida através de mecanismos estruturais tais como: concentração de renda.

Salgueiro-PE. p. Não obstante. bem como de outras questões como a previsão de custo e a avaliação de seus impactos. são constructos demasiados grandes para dar conta do conteúdo da carência em termos de ação social que se desenvolve na vida cotidiana. são constructos sintéticos demasiados pequenos para dar conta de uma realidade complexa e. quaisquer que sejam os fundamentos teóricos das formas de abordar a pobreza. 5. 239). desta maneira. 1. 2005. (Salgado. do ponto de vista micro social. que se desenvolve no âmbito das classes sociais. o problema epistemológico consiste em ilustrar até que ponto tais formulações nos ajudam a compreender a pobreza. Na prática. quero dizer. definem e qualificam a realidade. do gênero e das regiões. Os entendimentos sobre a pobreza no Brasil R. Todo este conjunto de objeções pode ser igualmente estendido a indicadores mais complexos como o IDH: A construção técnica do índice não resolve o problema de sentido que implicam os processos de ação social. 2005. 238). pp. 2. Neste sentido. pp. o que se observa é uma teoria da pobreza alienada pelos saberes técnicos relegando sua função teórica a uma função metodológica. 1999). a utilidade de indicadores é amplamente reconhecida uma vez que no plano da formulação e implementação da política social necessita-se ter clareza da população que se deseja focalizar. culturais e políticos que a modernidade propõe aos diversos sujeitos sociais. Neste sentido. enquanto fenômeno social. (Salgado. 96-117. assim como o tipo de política a ser definida. que produzem e reproduzem no âmbito das famílias. vistos de um ponto de vista macro-social. n. das raças. Os limites dos indicadores e medidas surgem porque os mesmos eliminam uma grande parcela da experiência humana e da subjetividade ligada a uma situação social (Salama & Destremau. Entendendo que todo conceito implica uma série de pressupostos que interrogam. a construção de indicadores tende a reduzir e objetivar de modo próprio. em medições instrumentais de carência. v. a partir das quais se deduzem habitualmente os conteúdos e as ênfases dadas à caracterização do fenômeno. agos. das comunidades e das regiões os processos de assimetria e conflito que gera a luta cotidiana pelos recursos econômicos. Desta forma: Os índices de pobreza se transformaram. e a construir uma representação à qual podemos contrapor outras. 2010 101 .. Ág.Revista Ágora-ISSN1984 -185x pobreza.

. 96-117.. quanto nos setores marginalizados de cada sistema econômico. 5. contemporâneo.Revista Ágora-ISSN1984 -185x No Brasil. as populações marginais averiguadas no campo de investigação: Aparecem para a investigação como situadas nas fímbrias ou nos limites das necessidades de consumo da força de trabalho [. a apreensão conceitual da marginalidade referenciada na participação-exclusão passa a não se esgotar nos níveis político e econômico. na maioria das vezes. n. 2010 102 . não se esgota nos níveis políticos e econômicos. o tema da pobreza e conseqüentemente da desigualdade. Para Foracchi (1982). essa forma de perceber a questão contempla o nível econômico (fatores de produção) e o político (relações de dependência) e suas variáveis configuram e determinam a noção de marginalidade. Para Luiz Pereira (1978). que como característica apresenta um contingente de trabalhadores que participam no mercado de trabalho como ofertantes de mão-de-obra. Salgueiro-PE. entre outros. Estudos envolvendo a temática foram fortemente desenvolvidos por aqui entre as décadas de 1950 e 1970. capitalista. sem serem necessariamente absorvidos. o desenvolvimento econômico nas formações subdesenvolvidas periféricas é um desenvolvimento excludente. Sua abordagem sugere que: A noção de marginalidade com conotação de participação-exclusão. Paoli (1974). sendo essa população uma decorrência da superabundância de mão-de-obra. como se pode verificar nos trabalhos de Foracchi (1982). Esse fato permite ao autor caracterizar a marginalidade como realidade estrutural ligada às contradições do modo de produção capitalista numa dinâmica de participação-exclusão. p. agos. periférico.] sua existência é definida pela participação-exclusão e desta perspectiva é legítima a afirmação de que a marginalidade é uma forma específica de participação e esta marginalidade ocorre tanto nos setores afluentes ou dominantes. Naquele momento. Pereira (1971). 1. 1982. recorriam. os pesquisadores. (Foracchi. 12). pp. Dessa forma. Para Pereira (1971). Sua argumentação procura demonstrar que as formações capitalistas periféricas comportam em sua estrutura um contingente populacional marginal. ao analisarem o fenômeno da pobreza. à noção de marginalidade. Essa maneira de conceber o problema da marginalidade ganhará contornos adicionais. v. Com Foracchi (1982). faz parte da agenda de pesquisas pelo menos há meio século. Ela se esclarece na R. a marginalidade é uma forma específica de incorporação social. Ág.. global.

1. um processo de interiorização da objetividade. A situação de marginalidade é demonstrada pelos graus de participação econômica e cultural. 1974: 145). 1982. como ruptura de laços sociais ou formas de inserção precárias. leia-se. ou ainda. ou seja. No Brasil. Salgueiro-PE. v. se traduz por um tipo de exploração da força de trabalho requerida pelo capital nas economias dependentes. a marginalidade surge como uma insuficiência em relação a essas dimensões. desde meados da década de 1980 e mais intensamente nos anos 1990. ao mesmo tempo. Ou seja. como esses níveis em estruturas distintas de significação [. O “marginal” vem ao mundo como “um tipo humano cujo papel é de “sobra” em relação às estruturas fundamentais da sociedade em que se insere – no caso. as ciências sociais passam a explorar a questão da exclusão.. Segundo Leal (2004). Além disso.. A marginalidade aqui.Revista Ágora-ISSN1984 -185x medida em que a investigação seja capaz de se propor à identificação do nível cultural como expressão simbólica do econômico e do político. Essa maneira de perceber o problema não se transforma completamente nas décadas posteriores. assim. 2010 103 . o não acesso a bens matérias e simbólicos. a marginalidade é definida como carência em relação à inserção no mercado de trabalho. p. 96-117. mesmo quando a noção de exclusão social surge com mais força no centro do debate. Ág. um tipo humano desqualificado socialmente” (ibdem. Sob este aspecto. seja no meio acadêmico ou fora dele. uma modalidade de experiência do campo das carências. igualmente. 12-13). o termo se refere a situações diferenciais. Naquele momento. R. Também em Paoli (1974). (Foracchi. é menos uma definição de um enfoque segundo o qual o comportamento representa uma interiorização de uma situação objetiva. permanecendo. suas formulações em Trabalho e marginalidade apontam para uma oposição entre o que era reconhecido como trabalhadores assalariados e os maloqueiros “linguagem esta que identificava com base na maneira de morar. n. 5. p. agos. 76). à proteção social e à cidadania. apreendendo. um apanhado geral sobre as teorias da marginalidade demonstra que a noção diz respeito a vários fenômenos que significam uma forma de exclusão dos benefícios possíveis das sociedades urbano-industriais. serviços de saúde etc. Em alguns casos. As situações abarcadas pelo termo são múltiplas e distintas. pp. Assim. o debate acerca do tema ganhou corpo e se intensificou fortemente. encontramos presente tal visão.. baixa qualidade de moradia. as formações capitalistas periféricas” (Paoli.] a participação-exclusão expressa.

2003. Ág. 1997. estamos presenciando uma espécie de: Fetichização da idéia de exclusão e certo reducionismo interpretativo que suprime as mediações que se interpõem entre a economia propriamente dita e outros níveis e dimensões da realidade social.. mesmo criticando asperamente o conceito de exclusão e afirmando sua não-existência. importa para nós atentar para a circunstância de que. pp. Nesse caso. p. 5. entre economia e outros âmbitos de interpretação do mundo da vida [. Na verdade. Elas constituem o imponderável de tais sistemas. políticos e econômicos excludentes. o autor observa a permanência de uma intranqüilidade teórica em relação à exclusão proveniente de uma mudança nos modos de explicá-la conceitualmente. Salgueiro-PE. e também. torna-se difícil saber exatamente a que ele alude. (Martins. Mais do que uma definição precisa de problemas. 1997. em favor da idéia de contradição. O autor critica a generalização do conceito de exclusão ao mesmo tempo em que lança as bases para a sustentação da idéia da inexistência da exclusão. seu mal-estar e sua reivindicação corrosiva. fazem parte deles ainda que os negando. 14). Estas reações por não se tratarem de exclusão não se dão fora dos sistemas econômicos e dos sistemas de poder. 1. existe o conflito pelo qual a vítima dos processos excludentes proclama seu inconformismo. n. (Martins. Assim. o termo é adotado como sinônimo de pobreza. Quando na verdade não explica nada (Martins. 15-16). Autores como Martins (1997) criticam esse uso impreciso do conceito.Revista Ágora-ISSN1984 -185x Ponderando acerca da frequência que o termo exclusão social aparece e a diversidade de situações a que ele faz referência. Ao mesmo tempo. o que chamamos de exclusão corresponde ao que conhecemos por pobreza. ao mudarmos R. v. pp. 96-117. Segundo suas observações. existem vítimas de processos sociais. Acresça-se a essa consideração o fato de que. pp. ela expressa uma incerteza e uma grande insegurança teórica na compreensão dos problemas sociais da sociedade contemporânea.] todos os problemas sociais passam a ser atribuídos a essa coisa vaga e indefinida a que chamam de exclusão. Dessa forma. como se a exclusão fosse um deus-demônio que explicasse tudo... agos. a categoria exclusão é resultado de uma metamorfose nos conceitos que procuravam explicar a ordenação social que resultou no desenvolvimento capitalista. 2010 104 . 27). Martins propõem que: Rigorosamente falando não existe exclusão: existe contradição.

a pobreza não significa necessariamente exclusão. Ág. ou seja. há nela certa dimensão moral. de carência. 2003). que por si só já é um sistema excludente. pp. A inclusão marginal é um processo inerente à forma de produção e acumulação capitalista. Em síntese. Martins conclui que é característica dessa sociedade o desenraizamento.. Mais do que privação econômica. 2010 105 . No entanto. mudou de forma. 5. Cabe aqui a ressalva feita anteriormente.Revista Ágora-ISSN1984 -185x o nome de pobreza para exclusão podemos estar dissimulando o fato de que a pobreza hoje. em relação aos lugares que ocupavam e os papéis que desempenham na sociedade. de precariedade. na sociedade capitalista não podemos versar sobre uma exclusão absoluta. Dessa forma. Trata-se de um processo em que as escolhas oferecidas aos cidadãos são insuficientes para reverter o quadro de privação em que estão inseridos (Martins. na maioria das vezes. 1999. 2003. sua conclusão consiste em demonstrar que a pobreza hoje inclui a negação subjetiva da pobreza. pp. pois toda dinâmica dessa sociedade baseia-se em processos de exclusão para incluir. ou seja. Salgueiro-PE. de outro modo. 18). Na sua ótica. p. não oferecendo mais alternativa e nem mesmo a possibilidade remota de ascensão social (Martins. O desenraizamento se constitui num processo de exclusão dos indivíduos em relação àquilo que eles eram e àquilo que eles costumam ser. embora se encontrem articuladas. o conceito aparece despido de uma compreensão histórica. o que deve ser analisado é a forma de inclusão na sociedade. mais do que mudar de nome. ainda que possa a ela conduzir. apenas a ideia de excluído é insuficiente e não explica muito acerca do fenômeno. o sistema precisa transformar cada indivíduo em membro da sociedade e a maneira pela qual se entra nessa sociedade ocorre de duas formas: como produtores ou consumidores de mercadorias. segundo regras e lógicas próprias. um acúmulo de déficit e precariedades. pode-se afirmar que toda situação de pobreza leva a formas de ruptura do vínculo social e representa. agos. o autor dá o nome de inclusão precária ou marginal. 22). 96-117. para Martins (1997). Além disso. Dessa forma: Embora não se constituindo em sinônimos de uma mesma situação de ruptura. Pobreza e exclusão não podem ser concebidas simplesmente como aspectos de um mesmo fenômeno. 1. de âmbito e de consequências. não pode haver uma sociedade capitalista baseada na exclusão. R. A esse processo. v. n. (Sawaia. Dessa maneira. Segundo o autor.

Por isso o problema está em discutir as formas de inclusão.. Elas se tornam compradoras. de algum modo. 96-117.] elas não são excluídas. (Martins. Salgueiro-PE. na sua exclusão moral. nas formas utilizadas pelos indivíduos para realizarem sua inserção. 124). v. Porque é com o dinheiro que elas ganham na prostituição. Com esse dinheiro elas (e suas famílias) se tornam. o comprometimento do caráter destes membros.Revista Ágora-ISSN1984 -185x Dessa perspectiva. o problema da exclusão se define na maneira encontrada pelos indivíduos para participar da sociedade. ao contrário: elas são meretrizes justamente para ganhar o dinheiro que viabiliza sua inclusão na economia e no mercado. Ág. pp. encontramos opinião semelhante. pp. 40). Nessa direção. Contudo o espaço de tempo entre um momento e outro tem se tornado cada vez mais longo. por meio de uma forma subordinada de R. sua condição humana. elas alimentam esse sistema com a prostituição infantil. desde cedo submetidos a uma socialização degradante. 5. n. 1999. 2010 106 . do ponto de vista moral e político. das novas gerações.. Em autores como Sawaia (1999). que elas se incluem na economia. Em conseqüência: O momento transitório da passagem de exclusão para inclusão está se transformando num modo de vida que permanece: o modo de vida do excluído que permanece que não consegue ser reincluído. agos. Porém essa inclusão nem sempre se dá de forma digna e decente. Tal constatação adquire relevância. 8). pp. ou seja. Nesse sentido. p. sua capacidade de ser cidadão. Ou seja. O que a sociedade capitalista propõe hoje aos chamados excluídos está nas formas crescentemente perversasde inclusão. estamos todos incluídos de alguma forma no circuito reprodutivo das atividades econômicas. 1. que se desdobram para fora do econômico (Sawaia. 2003. Para essa autora. a reflexão de Martins sobre o fenômeno da prostituição contribui para iluminar o caso das meninas prostitutas da cidade de Fortaleza: [. (Véras. consumidoras. pois entendemos que a complexificação do fenômeno da pobreza acentua-se em decorrência do modo pelo qual um contingente expressivo da população acaba por se inserir na sociedade e as implicações dessa inserção nas suas condições de vida. a grande maioria se encontra inserida por intermédio da insuficiência e das privações.. E tal modo de vida compromete sua dignidade. 1999. é útil perceber que a nova dinâmica da sociedade capitalista realiza o movimento de exclusão para em outro momento incluir.

inseridos de algum modo no circuito de atividades econômicas e com direitos reconhecidos. ao comentar as formulações de Martins (1997). a respeito da inclusão marginal destaca que: Além da humanidade formada de integrados (ricos e pobres). uma “abstração-imensurável” por si mesma. p. Não obstante. o enfoque da pobreza enquanto carência de renda tornou-se parcial e o desenvolvimento de estudos mais recentes tendem a ressaltar sua complexidade. Ao longo das últimas décadas. além de duras. 5. modos de vida que comprometem sua dignidade. Salgueiro-PE. há uma outra humanidade no Brasil. Sawaia. a pobreza passou gradativamente a ser percebida como um sistema. Ág. há quase um consenso em torno da sua múltipla dimensionalidade Segundo Codes (2005). Como enfatiza Salgado (2005). as formulações e as análises sobre a pobreza caminharam em direção à ampliação da percepção sobre o fenômeno. isto é.. 96-117. crescendo rápida e tristemente através do trabalho precário. 2005). de falta de esperança. de vulnerabilidade. ao R. dolorosas e perigosas. mas que possui múltiplas propriedades que podem ser medidas. v. Vivenciar essa forma de inserção é. e fazê-lo aparecer como mais indefinido. O conceito de pobreza foi elaborado a partir da economia como uma noção que dava conta da renda suficiente para se viver uma vida digna. Nessa perspectiva. tratados como cidadãos de segunda classe. o fenômeno provoca nas pessoas sentimentos de impotência diante de seus destinos. 1999. no setor de serviços mal pagos. experimentar trajetórias. sobretudo. pp. nunca se apresentou como um instrumento de compreensão da sociedade. 40). do ponto de vista moral e político. 2010 107 .Revista Ágora-ISSN1984 -185x integração precária e instável: a inserção marginal. mas também à negação de oportunidades de se levar uma vida dentro de padrões aceitáveis socialmente. 1. a multiplicidade de abordagens e sua capacidade de se impor no mundo ocidental contribuíram para ofuscar nossa percepção acerca do fenômeno. n. no pequeno comércio. sua condição humana. Entre esses dois mundos. O grande número de carências e privações impostas àqueles que vivem em situações de pobreza faz com que suas existências possam ser prematuramente encurtadas. de insegurança e de falta de poder político (Codes. (Sawaia. Hoje. há uma fratura cada vez maior e difícil de ultrapassar. agos. sua capacidade de ser cidadão. Em suas manifestações subjetivas. Podemos dizer que o fenômeno se refere não apenas às privações em termos de necessidades materiais de bem-estar.

nem dentro da produção como paradigmas ideológicos.Revista Ágora-ISSN1984 -185x apresentar como solução a multidimensionalidade do conceito para dotá-lo de maior conteúdo social. faz-se necessário envolver e fortalecer a sociedade civil para. “ele marca e cria sua unidade. n. portanto. buscar soluções. v. 1999). renda. p. Repercussões dos sentidos e conteúdos do conceito de pobreza nas políticas públicas Toda esta discussão acerca das distintas abordagens sobre o fenômeno da pobreza tem implicações no campo da formulação e implementação de políticas públicas de combate à pobreza. 5. Salgueiro-PE. O conceito não é somente um sinal R. seja no estabelecimento de agendas públicas. Ág. Grupos de voluntários. famílias. 2010 108 . 96-117. podem desempenhar papéis vitais para lidar com questões ligadas às comunidades que são objeto de ação. É exatamente neste momento em que uma heterogeneidade de grupos se mobiliza. num esforço conjunto. A pobreza é um fenômeno de difícil mensuração. Todo e qualquer entendimento conceitual acerca da pobreza deve considerá-la dentro de uma visão histórico-social. considerando que cada vez mais fica evidente a insuficiência do Estado e do Mercado em solucionar as questões relacionadas e esse problema (Giddens. o que abrange a atividade de produzir e atuar no mercado. neste aspecto. é importante recordarmos que um conceito não significa simplesmente a ação. Nesse novo cenário. 1. As pesquisas qualitativas. 2005). associações diversas etc. 3. não pode. São pesquisas que propõem a compreensão do fenômeno da pobreza à luz da própria trajetória de vida dos que estão nesta condição. seja na formulação e implementação de políticas de enfrentamento à pobreza. Neste sentido. a única coisa que se fez foi repetir o erro de entender os processos sociais de carência como resultado final do trabalho. A pobreza é sentida. que podem surgir relações conflituosas a partir de definições conceituais. política e ideológica e passe a ser encarado como uma violação dos direitos do homem (Salama & Destremau. ou seja. mas como processo de criação do social no tempo e no espaço. Ainda falta muito para que tal fenômeno não seja visto apenas como um problema de natureza econômica. ser entendida apenas a partir do enfoque quantitativo. Neste sentido.. representam um avanço. não devemos concebê-lo nem dentro do mercado. agos. Como processo de construção humana do social e de suas instituições.

pp. As conceituações acerca do sujeito pobre podem se apresentar permeadas por avaliações subjetivas e juízos de valor. 5. (2000). o sujeito pobre. Usualmente o conceito de pobreza “exprime sempre uma noção de carência em relação a uma norma de referência que vai separar a normalidade da pobreza” (Salama & Destremau. (Koselleck. a maneira como nomeamos ou definimos uma situação vivenciada por um grupo tem consequências. mas também. antes de tudo. Washington. a relação que se estabelece entre o conteúdo conceitual que define situações e sujeitos e aqueles a quem o conceito se destina pode refletir assimetrias. 2006). Em outras palavras. é definido pelo que não tem ou pelo que não é. social e classificadora. o constructo conceitual que define sujeitos e situações apóia-se na percepção de certos “signos externos de pobreza” que vão repercutir nas representações estabelecidas. pois esta definição. 1999. A definição do sujeito pobre como arquétipo ou da pobreza como estado traduz uma construção mental política. separam sujeitos em grupos que articulam poder e saber com fins estratégicos. O risco que corremos é o de vermos reproduzir-se um imaginário persistente. modo de ser que descredencia indivíduos para o exercício de seus direitos. No limiar o acionamento destes signos acaba por transformar diferenças em desigualdades. Ág. A voz de dos pobres: relatório nacional Brasil. já que percebidos numa diferença 7 Banco Mundial. 2000. 2010 109 . mas também um fator dessa ação em agrupamentos políticos e sociais”. R. “As autoridades parecem não ver as pessoas pobres. Neste sentido. v. p. Tudo que se refere aos pobres se deprecia e sobre tudo se deprecia a pobreza” (Banco Mundial. A assimetria das posições entre quem define e entre quem é definido em situação de pobreza tende a reproduzir os níveis de desigualdade e as hierarquias sociais vigentes na sociedade. impregnada de subjetividade e de relatividade (Salama & Destremau.. 2). 110). Desse modo. mas não reconhecido (Kosseleck. pp. pode introduzir nas designações um sentido distorcido de modo que o grupo ou o indivíduo que participe da interação pode considerar-se mencionado. 96-117. “que fixa a pobreza como marca de inferioridade. 160).Revista Ágora-ISSN1984 -185x indicativo da ação. agos. em alguns casos. n. 1999). pp. podemos dizer que os conceitos esclarecem não só fenômenos e situações. 2006. A fala de um entrevistado brasileiro exemplifica bem esta questão.7 Nessa mesma linha de raciocínio. Salgueiro-PE. O fenômeno se esclarece com mais facilidade quando observamos a maneira como captamos e utilizamos os signos externos de modo diferenciar grupos e sujeitos. 1.

aquém das regras da equivalência que a lei supõe e o exercício dos direitos deveria concretizar “(Telles. preconizadas pelos três organismos anteriormente citados. Numa tal perspectiva. ou que não precisam mais estar presentes no conhecimento. 5. Na visão de Wanderley (2004).. no geral as desigualdades e injustiças na estrutura social vão se avolumar devido às relações assimétricas de dominação. Salgueiro-PE. a estratégia da Pnud se apóia em sete pontos: o crescimento sustentável. satisfação das necessidades básicas. Além disso. na vida cotidiana as ações são desencadeadas pelas experiências vividas e pelas expectativas das pessoas que atuam e sofrem. Contudo. A Cepal propõe a estratégia de transformação produtiva e seus eixos são o progresso técnico. investimento em recursos humanos. no poder político. Dirigindo-me para a parte final deste trabalho gostaria de tecer algumas considerações acerca do vivenciar a pobreza enquanto experiência e das perspectivas futuras dos sujeitos enquanto expectativas de superação. 96-117. agos. transmitida por gerações e instituições sempre está contida e conservada [. em que pese o fato de algum progresso no crescimento econômico e certas conquistas sociais. o desenvolvimento sociocultural. p. 2010 110 .] algo R. a reforma e modernização do Estado. através da promoção de serviços básicos aos pobres e da adoção de programas de transferências bem localizados e redes de seguridade. A importância das questões aqui abordadas pode ser observada na agenda de ações que têm sido formuladas no sentido de superar a questão da pobreza e da desigualdade. pp. 21). subordinação na produção. 2001. aquele no qual acontecimentos foram incorporados e podem ser lembrados. Wanderley (2004) destaca que o Banco Mundial quer a redução sustentável da pobreza no mundo em desenvolvimento e sua estratégia consiste na promoção do uso produtivo do ativo mais abundante dos pobres: a mão-deobra. que não estão mais.. em que pese o fato de pequenas variações aqui e acolá. No que diz respeito às políticas de enfrentamento da pobreza. a experiência deve ser considerada como: O passado atual.. encontramo-nos em um cenário em construção e que requer cautela frente a otimismos e ou pessimismos exagerados. Na experiência se fundem tanto a elaboração racional quanto formas inconsistentes de comportamento. a dimensão do gênero e a inovação tecnológica. a experiência de cada um. Ág.Revista Ágora-ISSN1984 -185x incomensurável. Por fim. obtenção do pleno emprego produtivo. Pois. 1. v. na estrutura de classe e na estratificação social. n. o apoio massivo à economia popular.

para o experimentado. 309-310). Compreender como os pobres configuram seus espaços de experiência e a magnitude do seu horizonte de expectativas torna-se significativo. deve ser considerado o aspecto da territorialidade. (Koselleck. de crise e de construção dessa identidade que muitas vezes se vê marcada pelas situações de não reconhecimento social e humilhação social ou por situações de desprezo. 2003:57) R. para quem a pobreza. 1. pois esse pode levar a segregação. pois permite situar esses indivíduos como sujeitos de sua história e não como mero objeto da história ou do mercado. o autor conclui que em situações onde o sujeito é chamado a responsabilização de si. ou seja. A reconstrução histórica do processo empobrecimento pode ajudar a compreender como as estruturas sociais se impõem aos indivíduos com poder constitutivo. p. nas sociedades modernas não é somente o estado de despossuir. a inquietude.8 Por fim. que marca profundamente a identidade de todos os que vivem essa experiência. 96-117. Ág.. Elementos como os destacados por Serge Paugam (2003). v. também a expectativa se realiza hoje. para o que apenas pode ser previsto. para dar conta deste movimento epistemológico. capazes de ampliar o entendimento da pobreza enquanto processo.Revista Ágora-ISSN1984 -185x semelhante pode se dizer da expectativa: também ela é ao mesmo tempo ligada à pessoa e ao interpessoal. juntamente a idéia de carência é necessário vincular ao conceito de pobreza a idéia de trajetória. Podemos a partir daí concebermos dentro de uma perspectiva que não abarca somente a insuficiência de recursos matérias ou de capacidades. Neste sentido. n. É necessário que ao conceito de pobreza seja agregado outros elementos. agos. o conceito de identidade. grifo meu) amplia a experiência do desprezo pois a pessoa é despojada das estruturas sociais e culturais que lhe impedem de ser livre e responsável. mas também a análise racional. pp. mas entender a pobreza como processo que se constitui nos interstícios do sistema social e se amplia na 8 O trabalho de Fraçois Dubet permite aprofundar as questões acerca do desprezo. 2006. é futuro presente. o conceito de pobreza elaborado apenas como medida de carência torna-se insuficiente. a base espacial que abriga processos excludentes. Salgueiro-PE. positiva ou negativa. desejo e vontade. inferior e desvalorizado. o que permite perceber o processo de empobrecimento ou de vivência da pobreza visto de forma longitudinal compreendendo o percurso temporal dos indivíduos. o apelo a uma concepção de sujeito igual (em situação de desigualdades de oportunidades. mas corresponde a um status social específico. Dessa maneira. 5. (Dubet. a visão receptiva ou a curiosidade fazem parte da expectativa e a constituem. Esperança e medo. Ao analisar as novas faces da desigualdade. 2010 111 . voltado para o ainda-não.

n. 1987. Quando consideramos as possibilidades de superação da pobreza. A incorporação destas questões permite tornar visível um problema que em muitas formulações apresentadas neste trabalho fica encoberta: o conflito social. quanto no coletivo. 2010 112 . o projeto lida com a performance individual ou coletiva. estas lógicas se apresentam de maneira contraditória. pp. não devemos perder de vista que a forma de inserção dos sujeitos na sociedade – uma inserção marginal. força e dignidade pessoal de sujeitos ou extratos até então desprezados e desprivilegiados. v. Narayan (2000) destaca que a disposição dos sujeitos para melhorar sua condição depende da forma como encaram as oportunidades. os riscos e as limitações que se lhes apresentam. 425). considerar a vivência de situações de pobreza em termos da experiência daqueles que a vivenciam permite explicitar a base objetiva de conflitos a respeito de valores e bens escassos.Revista Ágora-ISSN1984 -185x experiência vivida. agos. ancoradas a avaliações e definições da realidade. nos permitem um entendimento maior acerca de como os sentimentos de valor. por sua vez. tanto no plano individual. o modo como as pessoas definem uma situação. Daí o fato de cada vez mais constatarmos que “os atores existem lá onde menos se espera encontrá-los”(Dubet. p. onde. Contudo. status ou poder. podem ser acionados na tentativa de sobrepujar situações desfavoráveis como é o caso da vivência de situações de pobreza. segundo Dubet (2003). Ág. como renda. Estas definições e avaliações.pode obstaculizar a visão ampla do fenômeno. Tal perspectiva torna-se relevante uma vez que. Em outras palavras. 5. No âmbito de tal entendimento. muitas vezes. deixando descoberto o enfrentamento e superação do fenômeno da pobreza do ponto de vista estrutural. deve compor o centro da atenção analítica. mais do que os aspectos objetivos desta. com as explorações. fazendo com que os entendimentos e as ações dos sujeitos se voltem para suas necessidades mais básicas e ou imediatas. os horizontes de expectativas dos sujeitos envolvidos no processo. hoje os atores se definem pela sua experiência social caracterizada entre diferentes lógicas presentes na sociedade. 1. 96-117. Salgueiro-PE.. por exemplo . os desempenhos e as opções. a superação da pobreza por parte daqueles que a vivenciam pode ser obtida a partir da constituição de projetos individuais e ou coletivos. Neste sentido. Neste sentido. Assim. são consequências de complexos R. com reflexões na constituição de subjetividades.

p. Segundo Taylor (2000). Uma política balizada por uma concepção de pobreza ampla que considere os processos que a constitui e não somente as suas consequências pode abrir nos horizontes fraturados um espaço de experiência e de novas perspectivas. n. pessoas sistematicamente impedidas pela pobreza de fluir o máximo de seus direitos de cidadania são. R. agos. Mas. podemos dizer que as possibilidades destes sujeitos dependem de como as políticas são formuladas.Revista Ágora-ISSN1984 -185x processos de negociação e construção que se desenvolvem e se constituem durante toda a vida social (Velho. A voz de dos pobres: relatório nacional Brasil. as quais podem implicar. É na via da equalização que reside a necessidade do Estado adotar um conceito que compreenda a pobreza como estado de insuficiência de recursos materiais e de capacidades. Já para Duarte (2004.. a capacidade de ação dos sujeitos vai depender da amplitude do conceito que baliza a política. 2000. o conflito pode ser interno. Tal formulação pode soar um tanto utópica e certamente o é. um conflito pessoal. que envolve demandas reivindicadas coletivamente. Salgueiro-PE. a sociedade em sua complexidade está a nos mostrar todos os dias que utopias são possíveis e que não devemos perdê-las de nosso horizonte. Neste caso. relegadas a um status de segunda classe. 1994. p. 113p. Referências Bibliográficas BANCO MUNDIAL. 96-117. uma vez que o Estado é um dos atores mais importantes em se tratando de superação da pobreza. pois ele é que vai elaborar e implementar políticas sociais que visem a superação da pobreza. ou pode ser um conflito social. as quais dependem de como a pobreza é entendida. Washington. o que requer uma ação corretiva pela via da equalização. em dadas situações. 2010 113 . onde os sujeitos experimentam formas de inserção marginalizadas e estigmatizadas com consequências dolorosas na constituição de suas identidades e suas subjetividades. Essa constatação é relevante. 28). na esfera pública. p. 144). 1. pois. Em outros termos. com freqüência. em disputas em torno de interesses conflitantes. “uma negociação da realidade sublinha a qualidade conflitiva ou contraditória do horizonte de possibilidades em que se movem os sujeitos em suas decisões éticas”. subjetivo. 5. v. Ág.

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