opinião/regional 11
A Riqueza Natural
dos Açores e a
Construção Civil (1)
Qualquer Açoriano, por mais longequeestejadasuaTerra
Natal, temsemprepresenteavontadedepoder contribuir parao
seu desenvolvimento edelevar mais longeo nomedos Açores.
Estafoi anossaprincipal motivação paraaelaboração deumcon-
junto deartigos quesepretendepublicar semanalmente, dos quais
esteconstitui o primeiro, demodo adar aconhecer ao público em
geral ariquezados recursos naturais dos Açores esuaaplicação na
indústriadaconstrução, por ser anossaáreadeformação.
No arquipélago dos Açores, tal como nageneralidadedaEu-
ropa, o universo daConstrução Civil edas Obras Públicas pos-
sui umpapel importanteno desenvolvimento local. Contudo, em
comparação comaEuropacontinental, o arquipélago dos Açores
éumapequenaeremotaregião ultraperiférica, comumapopula-
ção reduzida. Dito assim, aregião podeparecer estar emdesvan-
tagem, mas ahistóriainsular mostra-nos o contrário equeas ques-
tões desustentabilidadeeautonomiaforamsempreimportantes,
valorizadas ecomconsequências económicas significativas.
Actualmente, apesar de uma crescente dependência do ex-
terior, emdeterminados setores o arquipélago éreconhecido ou
demonstra umesforço na procura da sustentabilidade. Como
exemplos, em2007, as ilhas foramconsideradas pelaNational
Geographic Traveler como o segundo melhor destino parao turis-
mo sustentável nacategoriade“Ilhas eArquipélagos”, eestão ao
abrigo do projecto Green Islands através do MIT Portugal, onde
seprocuramsoluções energéticas sustentáveis utilizando recursos
naturais. No entanto, asustentabilidadeéumconceito comple-
xo, cujos objetivos são difíceis de cumprir, sobretudo quando
aplicados aumaatividademultidimensional, como éo caso da
construção.
Naatividaderegional daconstrução, as práticas eprocessos
construtivos, assimcomo as soluções emateriais deconstrução
utilizados dependem, deuma forma acentuada, da importação.
Estecenário resulta, namaioriados casos, deopções deprojeto
quenão consideramaespecificidadelocal, tornando o processo de
construção pouco optimizado, por vezes comrepercussões nega-
tivas no comportamento do edificado esobretudo, comrepercus-
sões negativas emtermos desustentabilidade, nas suas dimensões
económica, ambiental esocial. Nestesentido, o recenteanúncio
dacriação deumcatálogo deprodutos endógenos daconstrução
paraautilização emObras Públicas éumprimeiro passo positivo
paraasustentabilidadedaconstrução.
Nesta dimensão abrangente que é a sustentabilidade, um
dos grandes desafios do presente para os projetistas e para a
construção éatradução dasustentabilidadeenergéticanas obras
deconstrução. Os edifícios são responsáveis por cercadeumter-
ço do consumo total deenergia, enestecampo as metas europeias
estão definidas esão ambiciosas. Como exemplo, em2020 uma
partedos edifícios terádeser debalanço energético quasenulo,
isto é, comumdesempenho energético muito elevado, cujas ne-
cessidades deenergiadeverão ser cobertas emgrandemedidapor
energiarenovável.
Contudo, a sustentabilidade no sector da construção inclui
umconjunto demedidas quevão muito paraalémdas preocupa-
ções deíndoletérmica. A utilização demateriais locais, quetão
bemcaracterizaanossaconstrução tradicional, temumacontri-
buição muito significativa emtermos ambientais (redução das
emissões decarbono peladiminuição dos transportes) eeconó-
micas (diminuição das importações, criação depostos detrabalho
edinamização das nossas indústrias). A promoção desoluções
deaproveitamento edeoptimização do uso deáguaemedifícios
tambémcontribuiráparaumsector daconstrução mais eficiente
esustentável.
O próximo artigo serásobreainclusão demateriais regionais
parao isolamento térmico deedifícios.
Luís Leite, Arquitecto
Francisco Câmara, Eng. Civil
Email: sopsecacores@sopsecacores.pt
Apesar de melhores condições
Escolas dos Açores têm dos
resultados mais negativos
Os Açores dispõemdo segundo mais baixo número
dealunos por docentedo país etêmas escolas menos
lotadas, mas, mesmo assim, os resultados escolares são
dos mais negativos. A conclusão podeser tiradadeum
conjunto dedados avançados ao DI pelo sociólogo e
especialistaemestatísticaJoséEduardo Machado So-
ares.
Os dados têmcomo fontes o GAVE (Gabinetede
Avaliação Educacional) do Ministério daEducação, o
SREA (Serviço Regional deEstatística) eo INE (Insti-
tuto Nacional deEstatística).
Deacordo comos gráficos construídos por Macha-
do Soares o número dealunos por docentenos Açores
erade8,1 no ano lectivo 2010/2011, valor queapenas
eramais baixo naMadeira(7,5).
JáemLisboa, por exemplo, estenúmero subiapara
17 alunos por docente. No Alentejo, amédiaéde15
alunos por cadaprofessor.
No quediz respeito aos estabelecimentos escolares,
alémdeos Açores apresentareminfraestruturas emge-
ral bastantemodernas, apopulação residenteébaixa.
Esta população residente por estabelecimento escolar
situa-seem1108 elementos no pré-escolar eem1004
no ensino básico, indicaoutro gráfico. No Algarveeem
Lisboaesses números quaseduplicam.
Porém, as taxas deretenção por ano lectivo levan-
tamo véu sobreo real estado daEducação no arquipé-
lago. Enquanto no continente, de2004 a2011, atendên-
cianos ensinos básico esecundário foi, essencialmente,
dequedaeestabilização, nos Açores háumadescida
inicial, mas depois os números vão piorando.
Actualmente, no caso do secundário, os Açores
apresentamtaxas deretenção por ano lectivo de25,9%,
enquanto no continenteestas seficampelos 21,5%. O
ensino básico naRegião demonstrataxas deretenção
por ano lectivo de11,7%, contra7,8% no Continente.
Os resultados dos testes intermédios do terceiro
ciclo no ano lectivo de2011/2012 cimentamestaevo-
lução negativafaceao resto do país. Os Açores têmas
piores notas do ranking emFísico-química, Ciências
Naturais, Geografia, LínguaPortuguesaeMatemática.
Somos os quintos piores emHistóriaeos sextos piores
do país emInglês. Apenas nadisciplinadeHistóriaa
Madeiratemresultados piores do queos açorianos.
Tendo emcontaestecenário, Machado Soares
colocaaquestão: “Mas, afinal, o queéquefaltaà
Educação nos Açores?”.
Parar para pensar
Aparentemente, tudo estábem. Como assina-
laMachado Soares, numtexto enviado ao DI, “a
regionalização daáreadaeducação terádecorrido
da necessidade da Região assumir a responsa-
bilidade de se aproximar do nível existente nas
restantes regiões do país, das quais estevemuito
tempo afastada”.
“E, por isso, secompreendeque, por exem-
plo, o rácio ‘população residentepor estabeleci-
mento deensino’ nos Açores, tanto no pré-esco-
lar como no básico, sejamais baixo do quenas
restantes regiões do País: No ensino pré-escolar
Açores (1004 residentes por cadaestabelecimen-
to), Lisboa(1785, valor mais elevado) eMadeira
(1353); No ensino básico Açores (1108 residentes
por cadaestabelecimento), Algarve(2179, o valor
mais elevado) eMadeira(1532). Compreende-se,
também, quenos Açores o rácio ‘alunos por do-
cente’ sejacercademetadedas restantes regiões
do Continente: Açores (8,1 alunos por docente),
Madeira (7,5, valor mais baixo) e Lisboa (17, valor
mais elevado)”, elenca.
Porém, os problemas persistem. “Apesar de todo
o esforço dispendido e dos recursos investidos, os
indicadores disponíveis nemsempre dão conta des-
ta desejada aproximação como resto do País, como
mostramas evidências seguintes: 1) As taxas brutas de
escolarização são mais baixas nos Açores do quenas
restantes regiões do País, comexcepção do ensino Pré-
Escolar queésemelhanteàdas outras regiões. Enquan-
to no ensino pré-escolar estamos 1,3 pontos acimada
médiado País (90,1 nos Açores contra88,8 no País), no
ensino básico estamos 10,5 pontos abaixo damédiado
País (112,8 nos Açores contra123,3 no País) eno se-
cundário estamos 31,5 pontos abaixo damédianacional
(100,2 nos Açores contra131,7 no País); 2) As taxas de
retenção dos alunos no ensino básico eno ensino secun-
dário continuamaser superiores às restantes regiões do
País”, afirma. “Emtermos evolutivos, refira-seo facto
dequeapesar dos Açores sesituaremno ano lectivo de
2005/2006 abaixo damédiado País edo Continente,
tanto no ensino básico como no secundário, no ano lec-
tivo de2010/2011 ataxaderetenção nestes níveis de
ensino jásesituaacimadaquelas médias”, acrescenta.
Emdeclarações ao DI, Machado Soares conside-
rou quenaraiz dos maus resultados escolares podem
estar problemas no próprio sistemadeensino ou fac-
tores socioeconómicos. Outro elemento aanalisar éa
qualidadepedagógicaqueos docentes quetrabalham
nos Açores garantem. “Partindo do pressuposto queos
alunos dos Açores não possuemnenhuma limitação
cognitivaespecial, relativamenteaos alunos das outras
regiões do País, as razões paraos piores resultados ve-
rificados nestaregião devemser encontradas no âmbito
deumaanálisesistémicamais profundaqueenvolva
todos os agentes queapossaminfluenciar”, defende.
Do ponto devistadeMachado Soares aRegião tem
responsabilidades reforçadas face a ter autonomia na
áreadaEducação. “Estánahorado Governo Regio-
nal, conjuntamentecomtodos os agentes do ensino da
Região, reflectir sobreestarealidade, demodo asalva-
guardar o futuro das próximas gerações deaçorianos”,
considera. DI/CA