Tradições Negras e Políticas Brancas

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Previdência Social e populações afro-brasileiras

Ministério da Previdência Social Secretaria de Previdência Social

Florestan Fernandes afirmou que, no caso do Brasil, poderia-se falar de um racismo cordial, caracterizado pela invisivilização das populações negras.
Distribuição da população por cor, segundo os décimos de rendimento familias per capita - IBGE, 2002 16,0 14,0 12,0 10,0 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0

Branca Preta e parda

2º c im dé o 3º c im o dé 4º c im dé o 5º c im dé o 6º c im dé o 7º c im dé o 8º c im o dé 9º c im dé o 10 c im ºd o éc im o

Este trabalho teve um duplo propósito: por um lado, visibilizar as diferenças, no reconhecimento das tradições afrobrasileiras e por outro lado observar a chegada da previdência junto a estas diversas populações

Nos oitenta anos da previdência, inicialmente pensada para operários urbanos, brancos, nesta pesquisa analisamos a cobertura que a previdência oferece a diferentes populações afrobrasileiras.

Remanescentes de Quilombos

Brejo dos Crioulos

“Esse local que nós tamo aqui foi fundado por três irmãos, que é um Moreno, Leopoldo e Manoel Novo. Eles tocaram isso aqui tudinho. Então isso aqui tá com pelo menos cento e tantos anos...” Francisco, Brejo dos Crioulos

-“Aí Brejos dos Crioulos conseguiu crescer. Mesmo com a malária e tudo, o pessoal vivia livre, não tinha ninguém de fora. Não existia ninguém de fora não existia nada. Vivia aquele pessoal ali.” Francisco, liderança do Brejo dos Crioulos.

“Meu pai falava que quando uma panela está vazia tem que procurar. Porque entrou uma fome, mas eu não sei o que era a fome, que o povo comeu a raiz de pau, mucunã.”
Sr. Manoel Sousa, 70 anos, Brejo dos Crioulos, aposentado.

“Ah, depois que os fazendeiros conheceu que nós tava numa boa aqui dentro dos territórios, e o fazendeiro chegou apertando para nos, apertando, apertando, apertando... e foi indo.”

“Mas como a gente é fraca, então fica obrigada a ficar chupando o dedo... chupando dedo, chupando dedo, chupando dedo.” Zé Guará, aposentado, 74 anos

“Eles mesmo atirou em mim quando tava tomando a terra nossa, só não pegou né. Aí ele matou uma cachorra pertinho de mim assim, pra tomar as terras nossas ali em baixo. Sabe que eu nem gosto de lembrar disso, quando eu vou lembrar meu coração já bate ruim.” Elisaria Pinheiro de Abril, 63 anos, aposentada, Brejo dos Crioulos.

“Em casa somos eu e minha mulher, eu sustento duas mulher e a minha mulher sustenta dois homens.”

Outros remanescentes de Quilombos

Córrego Misericórdia

Outros quilombos estão relacionados com a população que participou da extração de ouro. Outras povoações estão relacionadas com a decadência da grande propriedade escravista.

As comunidades de remanescentes de quilombos vivem numa economia de subsistência ancorada nas roças. Estas populações estão formadas pelos mais velhos, os primogênitos e as crianças. Grande parte dos jovens migraram para trabalhar nas fazendas, na coleta da canade-açucar em São Paulo. As mulheres migram para a cidade à procura de emprego como domesticas. Os filhos destes migrantes são criados pelos avós e participam das tradições do grupo.

O pertencimento ao grupo está mediado pelo parentesco. Estas comunidades apresentam altos índices de endogamia, casamento entre primos. Uma identidade ancorada em um passado comum a partir do qual são construídas fronteiras sociais. Participam de uma tradição que se manifesta nos cultos, nas rezas quando alguém da comunidade morre e principalmente nas festas.

As tradições são performáticamente apresentadas nas festas. Os cantos, as danças, os ritmos e as vestimentas expressam uma tradição vivida emotivamente.

Nas festas a comunidade se reúne. É no período das festas que os migrantes retornam e participam da vida social do grupo. Nas festas acontecem os namoros que resultaram em novas famílias. Os mais velhos, os aposentados, ocupam um lugar de destaque nas festas.

O tipo de dança pode variar de uma região a outra e reflete as diversas origens africanas.

As festas marcam importantes momentos sociais, como o plantio e a coleta.

As mulheres participam da lavagem da igreja na quinta-feira antes da festa.

O grupo de congada do Corrego de Misericordia participa das Festas de Nossa Senhora do Rosario em Chapada do Norte (MG).

“Antes de aposentar era difícil comer carne aqui. Antes de aposentar não comia mesmo não, mas aposentando começamos a comer carne.”

Dona Furtuosa, 67 anos, aposentada, Brejo dos Crioulos

“A gente dá um jeito em casa com a ajuda da aposentadoria; e a gente vai tocando ai pra fora, né? Tem que gastar muito comprando remédio direto também.”
Adelina, 63 anos, Córregos da Misericórdia, aposentada.

“...esse meu osso dói demais, e porque eu já trabalhei demais e já trabalhei muito. Tenho roça para acolá, o fundo de um brejo, mandei arar, tava ai com um quebradinho (da aposentadoria)... fiquei sem os quebradinho, mandei arar, qualquer ora que Deus abençoar que mandar a divina (chuva) eu corro e planto.” Adelina, 63 anos, aposentada.

“Nóis hoje tamo com a causa na procuradoria exigindo do governo o reconhecimento como remanescente de quilombos, né, tomá uma providência prá nóis. Mesmo antes de gente ser reconhecido como remanescente de quilombo, o INSS tem aposentado bem à gente. Porque as terra boa tava na mão do pessoal daqui e foi o alvo dos fazendeiros, ta na mão deles. Então o pessoal não tem como prantá tudo aquilo que a gente deseja. É foram expulsos das suas terras, então, vieram juntando-se, são trabalhador rural, dependendo das nossas terra né.

Hoje nois encontra uma dificuldade dessa que... se não fosse o INSS mesmo a gente não se aposentava né. Tem salário maternidade, tem ajudado muito a gente né. Quem tem na casa um aposentado já ajuda, né. Eu sinto aqui que o INSS tem ajudado muito.”
Francisco, liderança Brejo dos Crioulos.

“Com o PREVmóvel, mudou o seguinte: a gente faz o trabalho, reúne o povo, passa a informação e organiza o atendimento. Agora com o PREVmóvel, a despesa do sindicato é só com o telefone e material de escritório.”
(Presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Chapada do Norte)

“Os contratempos são poucos, as vitórias são maiores, o maior prêmio é o sorriso da pessoa quando aposenta, quando sabe que vai ter o dinheirinho pra receber todo mês no período certo.”

“A gente tem que ter carinho pelas pessoas. Falam: ó eu tô rezando procê pra sempre, todo dia eu peço a Deus pra te proteger. E isso é o lado legal da coisa.”

“Essa alegria é o que eu acho que mais ajuda a gente a vir na região, o sorriso na boca do povo.”

Valda, Técnica da previdência, comissionada no PREVmóvel

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

Araçuaí – (MG)

As irmandades negras, que tiveram sua origem no século XVII, foram obrigadas a formalizar seus compromissos no final do século XIX. Esta medida teve por objetivo o controle do catolicismo popular. O Papa Pio IX impôs uma romanização da igreja católica e obrigou as irmandades a criarem um livro de registro com os compromissos e as atas das reuniões.

As irmandades eram a forma que tinham as populações negras de terem uma boa morte. Inicialmente os corpos dos irmãos eram enterrados no chão da igreja. Depois de 1850, com a aplicação de regras sanitárias, as irmandades passaram a construir seus cemitérios nos fundos da igreja.

A estrutura da irmandade opõe o rei aos tambozeiros. Enquanto os reinados são cíclicos, os tambozeiros têm um lugar permanente.

Os tambores ocupam um lugar central nas tradições africanas. Pelos tambores se invocam as deidades. Os tambores estão relacionados a conhecimentos ancestrais.

As irmandades tem uma estrutura da qual participam rei e rainha, juizes, casal de honra ou pajem; presidente, tesoureiro, secretário, procurador; capitão da bandeira e capitão do tambor.

A igreja pertence à irmandade. Nela se realizam as novenas, os encontros dos tambozeiros e as reuniões da irmandade.

Na igreja tem lugar as festas e a coroação. Neste espaço social a irmandade se reúne e se percebe como ator coletivo. A irmandade toma conta da igreja e nela realiza sua vida social.

A virgem Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, e o rei Negro são as referências que oferece a Igreja católica. Estes símbolos foram reinterpretados à luz das tradições africanas.

Na igreja se hibridam o culto católico e as tradições africanas. As tradições, danças e batidas africanas se reproduzem mimeticamente nos encontros das irmandades.

A Confraria de Nossa Senhora do Rosario, em Olinda é uma das irmandades mais antigas. Data de 1632.

O alpendre, segundo o presidente da confraria era para que os tambozeiros, o pessoal do Maracatu, tocasse do lado de fora da igreja.

A esquerda da igreja estão as casas dos alforriados. Até a década de 1970 eles pagavam a taxa da alforria pelo uso dos terrenos à Igreja.
A direita da igreja está a casa do Rei Congo. Ela foi vendida em 1975 para reparar o telhado da igreja. Pertencia à Confraria de Nossa Senhora do Rosario dos Homens Pretos.

Pedro Pereira dos Santos, aposentado como trabalhador da prefeitura, presidente da INSRHP Araçuaí

Seu Vicente, aposentado como trabalhador rural. Foi Rei Festeiro da INSRHP de Chapada do Norte em duas oportunidades

Luiz Pereira dos Santos, 88 anos, aposentado. Antigo capitão do tambor, entrou na irmandade em 1942 como tambozeiro. Ele que mostrou-se desmemoriado durante a realização da entrevista, parece revitalizado ao puxar os tambores, uma tradição que recebeu do seu pai e passou para o novo capitão.

“Eu aposentei com um salário só, porque você trabalhando, eu trabalhei muito tempo assim de sapateiro né. Agora a felicidade minha é de aposentar com condições de continuar trabalhando, família já criada. Porque se você tiver com família para sustentar, claro que com 200 reais não ia ter condições”

“O sujeito paga 40 reais que muita gente acha pesado e acaba que fica sem pagar e a previdência fica vazia. E depois ela tem que atender essas pessoas sem contribuição nenhuma.”
Sr Luiz, Sapateiro, 72 anos, aposentado. Araçuaí, MG.

CANDOMBLÉ

O segredo é um valor central na organização social do candomblé. Por ser uma religião iniciática, de transmissão oral, o saber do candomblé não pode ser revelado aos não iniciados.

O ilê reproduz o axé e cultua os orixás trazidos da África. As práticas e os cantos em ioruba são passados de geração em geração.

Hierarquia

O candomblé está organizado de forma hierárquica com os ebômi ou sacerdotes; iaôs ou iniciados e abias aqueles que estão em preparação para a iniciação.

Cada casa tem seu sistema de cargos, com a ialorixá ou Mãe de Santo e o babalorixá ou Pai de Santo.
A Mãe Pequena, que auxilia nas tarefas da casa e prepara as comidas para os Orixás

Ekedes e Ogans, que não encarnam o Santo. As primeiras auxiliam os filhos de Santo quando estão em estado de transe.

Sistema de cargos

Entre os Ogans estão aqueles que realizam os sacrifícios, os que tocam o atabaque assim como os brancos que auxiliam e dão proteção à casa.

Os atabaques rum, rumpi, e le, têm um papel central no culto. Diversos toques são utilizados durante as festas e os sacrifícios. Eles permitem a comunicação entre o mundo dos homens e o dos Orixás.

“Esta conta só recebemos na hora do cargo [de ebômim], após uma obrigação de sete anos. Quando nós fazemos sete anos é que temos o cargo depois da confirmação Aí eu chego só com essa conta, com a roupa normal mas todo mundo vai saber que eu sou uma ialorixá. Pelo colar é que me identifica.” Mãe Ditinha, aposentada.

No pejí -o quarto do Santo- são guardados os fundamentos e realizam-se os sacrifícios e os cultos secretos.

Por contraposição no barracão acontecem os cultos públicos, a festa.

“Então, com essa idade toda que eu tenho de santo e de idade aqui nessa casa do Candomblé, elas todas me apóiam. Se a gente briga com o marido, se o marido larga a gente, a gente corre para aqui e ela acolhe a gente, faz com a gente filha, filha mesmo, feito uma mãe materna. Ela acolhe a gente, aqui a gente almoça, a gente janta, a gente ceia, a gente passeia, a gente faz tudo aqui nessa casa do Candomblé. Coisa boa, gostosa.”
Antônia Castro, 76 anos, Terreiro Mãe Menininha do Gantois, não tem aposentadoria ou benefícios previdenciários.

Omolú é o Orixá que melhor representa a previdência. Ele tem seu corpo coberto por uma vestimenta feita de palha da costa. É a este orixá que se recorre em casos de necessidade por estar associado às doenças. Nas diferentes nações do candomblé também recebe os nomes de Obaluaé ou Sapatá.

No sincretismo com a igreja católica, Omolú ou Obaluaé são assimilados à imagem de São Lazaro na Bahia e Saõ Sebastião no Rio de Janeiro.

Na segunda feira, na igreja de São Lazaro, os fieis vão a tomar banho de pipocas para obter a proteção do Orixá.

“Só Omolú tem esta flor”

A representação de Omolú está relacionada aos ancestrais. No seu xaxará carrega eguns. Os eguns ou egun-gun são os espíritos dos ancestrais. No candomblé da nação ketou eles recebem seu culto nos terreiros de egun.

“Nunca ninguém estudou de onde veio na África, o povo não sabia dessas coisas não. Os antigos passavam só a religião mesmo. Eles morriam e a gente não sabia como se chamava o bisavô nem tataravô. Eles não falavam, eles eram muito fechados. Eles só contavam essa parte de Egun. Você sabe o que é Baba Egun?” Pai Balbino, Alapini, terreiro Ilê Axé Opô Aganju, Lauro de Freitas, BA.

O candomblé como religião se divide em quatro partes: o culto aos orixás, nas mãos de babalorixás e ialorixás; o conhecimento das plantas e das folhas, nas mãos do babaossain; a adivinhação do Ifá, nas mãos do babalaô; e o culto dos Eguns, cujo sacerdote é o ojé.

Terreiros de Egun

Tal sacerdócio quádruplo corresponde a uma estrutura quatripartite do mundo: deuses, homens, natureza e os mortos ou a linhagem.

Os Eguns constituem a parte mais secreta do candomblé. Eles não podem ser enxergados diretamente, não podem ser tocados. O Ojé controla eles com uma vara, danko, guia os Eguns e mantém a distancia entre os mesmos e os fieis.

Diferente dos outros, os terreiros de Egun são comandados pelo Ojè, que tem o poder de invocar e controlar os espíritos dos ancestrais. Os eguns representam a ancestralidade africana. Exercem uma ascendência moral sobre os descendentes.

Diferente dos Orixás, os Eguns falam, se comunicam com seus descendentes. Eles são a força moral da linhagem, são a tradição viva, a interação entre o mundo dos vivos e Olorum, que é Deus

“O candomblé era discriminado em todos os sentidos. Anos atrás nós não tínhamos a liberdade que tem hoje. A polícia perseguia, os moleques abusavam, pessoas de posição mais elevada não queriam ser do candomblé porque achavam que era coisa para gente pequena, coisa para gente muita baixa, inclusive diziam que era “negragem”, tá entendendo?” Mãe Ditinha

Para poder funcionar, os terreiros tinham que ter autorização da delegacia de jogos e costumes. As religiões afro-brasileiras eram enquadradas junto com os contraventores, prostitutas e bicheiros.

“Aqui teve casos de polícia que ia aí a prender pai de santo e quando chega lá, dá ordem de prisão e viraram no santo. O santo veio pra envergonhar ele, para mostrar a ele que ele não poderia fazer aquilo. Tá entendendo? O Santo desceu no policial, aconteceu. Você sabe disso, não sabe?”

O acarajé, comida de Iansã é vendido nas ruas de Salvador. As Baianas do Acarajé foram reconhecidas, recentemente, pela previdência como trabalhadoras artesanais.

Inicialmente as baianas reivindicaram um regime análogo ao da previdência rural. Como trabalhadores urbanos enquadrados num sistema bismarkiano, elas foram obrigadas a efetuar o recolhimento junto ao INSS. A forma encontrada para viabilizar estes recursos foi depositar o valor de um acarajé por dia num cofrinho, o que no final do mês era suficiente para pagar os aportes para a aposentadoria.

Os sacerdotes dos cultos afro-brasileiros conseguiram seu reconhecimento junto à previdência depois de um longo processo de negociação. O impasse se resolveu depois que a Associação de Cultos Afro-Brasileiros criou um código de ética, registrado em cartório, onde são enumeradas as principais características das diferentes religiões afro. Nesse código de ética se estabeleceu que os ebôme, devem passar por um processo formação de sete anos antes de realizar sua obrigação. Os ebomê foram reconhecidos pela previdência como Ministro de ordem religiosa.

“Eu fui e fiz a aposentadoria e daí foi um reboliço, foi televisão, tive uma semana de cama, era televisão, era jornal, telefonema da Espanha, telefonema de outros países. Quer dizer, “propalou”, e aí foi um benefício muito grande, porque, nossa religião precisa de expansão, precisa porque já foi muito, como é que se diz, já foi muito discriminada.” Mãe Ditinha, primeira ialorixá aposentada.

Mãe Caiudé, 72 anos,

que no ano 2002 realizou sessenta anos no Santo, foi uma das primeiras mãe de Santo a receber sua aposentadoria. Ela que participou do terreiro do Pai Rufino, tem seu terreiro que funciona na sua casa na periferia de Salvador, no bairro Caixa d´agua.

Mãe Luiza Guaiaku, 98 anos, importante mãe de santo da nação Gege. Aposentada como trabalhadora rural. Na sua época a previdência não reconhecia a aposentadoria como ministro de ordem religiosa para os cultos afro-brasileiros.

- “Tem um provérbio africano que diz assim: "Quando um idoso falece é como se uma biblioteca inteira se incendiasse". É o nosso caso, cada mulher dessa que a gente perde, perde muito porque a nossa cultura é oral.”

Maria José, Terreiro Gantois, parceira do Programa de Estabilidade Social.

MARACATU

Assim como Rio de Janeiro tem suas escolas de samba, Recife tem seus Maracatus.

O Maracatu Nação ou de baque virado, não deve ser confundido com o Maracatu rural. O Maracatu nação tem uma origem mais antiga, que alguns remontam às irmandades de tradição africana. Eles se organizam a partir das suas sedes localizadas na zona norte de Recife, na periferia da cidade, onde mora uma população majoritariamente negra e de baixa renda.

Os Maracatus apresentam um cortejo real. Aberto pelo porta-estandarte, que carrega a bandeira do bloco. Segue um cortejo formado pelo rei e a rainha, protegidos por um guarda sol; os personagens da corte real; as baianas ricas e os músicos. Tambores, gongue e um grande número de alfaias acompanham o Maracatu e anunciam a passagem do cortejo. A dama de paço e a calunga ocupam um lugar central.

“A calunga é a verdadeira dona do Maracatu” Dona Helda, Rainha do Maracatu Nação Porto Rico

Cada Maracatu Nação têm suas calungas: as do Maracatu Estrela Brilhante são Joventina e Erundina; as do Maracatu Nação Gato Preto são Jupira e Laurunda; as do Maracatu Nação Encanto da Alegria são dona Brígida e dona Alice.

As calungas cumprem com as obrigações do candomblé, guardam resguardo no pejí, recebem alimentos e os que pegam nelas devem seguir uma serie de preceitos.

A sede do Maracatu funciona freqüentemente no terreiro. Uma vez por ano acontece a festa da Calunga, quando o espírito da entidade representada pela boneca desce à terra e participa da festa com os integrantes da nação do Maracatu.

Na festa que presenciamos, a calunga princesa Catarina encarnou em Dona Helda, Rainha do Maracatu Nação Porto Rico.

Na festa que presenciamos, a calunga princesa Catarina encarnou em Dona Helda, Rainha do Maracatu Nação Porto Rico.

Ela se apresentou no terreiro acompanhada do seu séqüito real. Depois de realizar uma evolução com cada um dos homens da Nação sentou-se numa cadeira numa das paredes da sala, recebeu saudações e conversou com cada um que se aproximou dela. A festa se encerra com uma batida de Maracatu.

Os Maracatus realizam um importante trabalho social nas suas comunidades. Eles oferecem cursos de alfabetização, aulas de percussão e fabricação de instrumentos. Com a proximidade do carnaval transformam-se em uma fonte de emprego e renda, quando tem lugar a confecção dos trajes e adereços para a festa.

“O dinheiro quando chega já é a conta de pagar a venda que eu compro que o senhor sabe né, muita gente aqui, pra comprar e comer não dá pra nada né. Mas, eu tenho como pagar com o Instituto na mão. Tenho crédito.” Celia.

Na periferia é onde percebemos o maior déficit de políticas previdenciárias, seja pelos altos índices de desempregos, trabalhos informais ou não registrados e altos índices de óbitos devidos à violência.

Dona Mariu, 104 anos, aposentada como trabalhadora rural. Na foto aparece com sua calunga Emilia. Ela a ganhou do seu pai quando tinha 10 anos. Ela é a Rainha de honra do Maractu Estrela Brilhante de Igarassú.

Os Maracatus podem ser uma porta de entrada para a chegada da previdência até estas populações.

A formulação de uma política previdenciária não bismarkiana é outra das medidas a ser implementada para dar cobertura a estas populações excluidas.

Durante o transcurso da pesquisa observamos as estratégias implementadas pelo PEP no trabalho junto a estas populações.

No caso das populações rurais a estratégia se apóia no PREVmóvel como forma de levar os serviços da previdência até as populações rurais.

Em Recife, o PEP implementou estratégias de tipo universal, tendentes a atingir um público amplo, como panfletagem e divulgação na mídia. Esta estratégia não alcançou às populações visitadas. O motivo que pode ser apontado é que no Brasil, o universal é branco.

Em Salvador a equipe do PEP trabalhou junto às populações, com uma ação focal que teve por objetivo a inclusão social das populações não atendidas pela previdência, como as Baianas do Acarajé e os ministros das ordenes religiosas afro-brasileiras. A estratégia de comunicação direta permitiu implementar ações que se estenderam para outras populações como o “cofrinho da previdência”. O trabalho corpo a corpo e a comunicação direta com os diferentes grupos excluídos permitiu a inclusão de amplos segmentos da população como feirantes, pescadores, trabalhadores ambulantes.

O princípio que orientou a pesquisa foi a tradição cultural. A negritude não pode ser reduzida à cor da pele.

A política social não pode ser pensada como antigamente pensava-se a modernidade, inscrita sobre uma tabula-rasa. O desafio é formular uma política que tenda à universalização dos benefícios e que contemple a diversidade de tradições culturais.

Observamos a presença ativa dos aposentados nas diferentes tradições culturais.

Aposentados como ministros de ordem religiosa nos candomblés.

Aposentados rurais nas comunidades remanescentes de quilombos.

Funcionários públicos e autônomos nas irmandades de Nossa Senhora do Rosario.

O sistema previdenciário foi instituído a mais de oitenta anos no Brasil. Inicialmente pensado para operários brancos urbanos e porque não católicos, só recentemente reconheceu o direito destas populações negras aos benefícios previdenciários.

A aposentadoria rural, que se fez extensiva na constituição de 1988. A aposentadoria para as baianas do acarajé, reconhecidas como trabalhadoras autônomas na década do 90. Aposentadoria para ebômims, como ministros de ordem religiosa no ano 2000.

O principal déficit de políticas previdenciárias localiza-se nas periferias das grandes cidades, onde mora uma população majoritariamente negra, com altos índices de desemprego e trabalho informal.

Num país como o Brasil, onde a pobreza é negra, o principal desafio é pensar uma política previdenciária não bismarkiana, orientada para estas populações que do ponto de vista do Ministério da Previdência Social poderiam estar enquadradas em situação de risco social.

Um olhar orientado pela tradição cultural acerta de cheio nas populações excluídas das políticas sociais. Neste sentido, as instituições analisadas podem ser importantes parceiros para estender os benefícios.

Sem auto-estima não tem inclusão social. Sem reconhecimento da diversidade se reproduz a situação de invisibilidade à que foram tradicionalmente submetidas estas populações no Brasil.

O reconhecimento das tradições favorece o fortalecimento e a autoestima destas populações.

Os fatos sociais analisados mostram tradições culturais e formas de organização social. As festas re-atualizam identidades de resistência cultural e revelam verdadeiras redes de relações sociais. As diversas instituições são parceiros estratégicos para iniciativas de inclusão previdenciária.

As lutas pelo reconhecimento, criam uma dinâmica com profundos impactos políticos. As políticas brancas, interpeladas desde as tradições negras deixam transparecer os principais avanços e desafios em termos de inclusão social. As lutas pelo reconhecimento, inclusive no campo do direito à previdência, constroem, na prática, uma cidadania diferenciada.

Previdência Social

Política de inclusão social

Ministro da Previdência Social: Nelson Machado Secretário de Previdência Social: Helmut Schwarzer Diretor do Depto. do Regime Geral de Previdência Social: Coordenador-Geral de Estudos Previdenciários: Rafael Liberal Ferreira de Santana

Pesquisa antropológica

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Gabriel O. Alvarez Assistentes de pesquisa Gabriela Nunes Selma Santos Fotografia Luiz Santos Realização Ministério da Previdência Social Secretaria de Previdência Social 2002-2005

Gabriel O. Alvarez Antropólogo

Luiz Santos Fotógrafo

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