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UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA

FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS


CURSO DE PSICOLOGIA
3º ANO

ÉTICA E DEONTOLOGIA

Problemáticas éticas do
suicídio, da eutanásia e do
aborto

Docente: Prof. Horácio Saraiva

Ana Rita Alves Nº


Discentes: António Ilhicas Nº 11098506
Vanessa Pires Nº11036406

2009
Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Índice

• Índice pág. 2

• Introdução pág. 3

• Eutanásia e Suicídio pág. 4

• Aborto pág. 10

• Profissionais de Saúde pág. 13

• Conclusão pág. 15

• Bibliografia pág. 16

• Anexos pág. 17

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Introdução

Somos um grupo de alunos do 3ºano de Psicologia da Universidade Lusíada de


Lisboa que está a elaborar um trabalho meramente académico no âmbito da disciplina
de Ética e Deontologia.
O nosso trabalho baseia-se nas problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e
do aborto. Todas estas temáticas são demasiado debatidas na sociedade contemporânea
que nos acompanha diariamente, dá-nos a sua opinião e ensina-nos a respeitar todas as
suas regras, valores e comportamentos.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Eutanásia e Suicídio

A Eutanásia é uma das mais importantes questões em debate hoje em dia. O


fruto deste debate poderá afectar profundamente as relações familiares, a relação
médico-paciente, e os mais elementares princípios éticos.
A palavra "eutanásia" é composta de duas palavras gregas ― "eu" e "thanatos"
e significa, literalmente, "uma boa morte". Na actualidade, entende-se geralmente que
"eutanásia" significa provocar uma boa morte ― "morte misericordiosa", em que uma
pessoa acaba com a vida de outra pessoa para benefício desta. Este entendimento da
palavra realça duas importantes características dos actos de eutanásia. Primeiro, que a
eutanásia implica tirar deliberadamente a vida a uma pessoa; e, em segundo lugar, que a
vida é tirada para benefício da pessoa a quem essa vida pertence ― normalmente
porque o indivíduo sofre de uma doença terminal ou incurável. Isto distingue a
eutanásia da maior parte das outras formas de retirar a vida.
Todas as sociedades que conhecemos aceitam algum princípio ou princípios que
proíbem que se tire a vida. Mas há grandes variações entre as tradições culturais sobre
quando é considerado errado tirar a vida. Se nos voltarmos para as raízes da nossa
tradição ocidental, verificamos que no tempo dos gregos e dos romanos, práticas como
o infanticídio, o suicídio e a eutanásia eram largamente aceites. A maior parte dos
historiadores da moral ocidental estão de acordo em que o judaísmo e a ascensão do
Cristianismo contribuíram enormemente para o sentimento geral de que a vida humana
tem santidade e não deve ser deliberadamente tirada. Tirar uma vida humana inocente é,
nestas tradições, usurpar o direito de Deus de dar e tirar a vida. Escritores cristãos
influentes viram-no também como uma violação da lei natural. Este ponto de vista da
absoluta inviolabilidade da vida humana inocente permaneceu virtualmente imutável até
ao século dezasseis quando Thomas More publicou a sua Utopia. Neste livro, More
retrata a eutanásia para os que estão desesperadamente doentes como uma das
instituições importantes de uma comunidade ideal imaginária. Nos séculos seguintes, os
filósofos britânicos (em particular David Hume, Jeremy Bentham e John Stuart Mill)
puseram em questão a base religiosa da moralidade e a proibição absoluta do suicídio,
da eutanásia e do infanticídio. O grande filósofo alemão do século dezoito Emmanuel
Kant, por outro lado, embora acreditasse que as verdades morais se fundam na razão e

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não na religião, pensava não obstante que "o homem não pode ter poder para dispor da
sua vida".
Aqueles que defenderam a admissibilidade moral da eutanásia apresentaram
como principais razões a seu favor a misericórdia para com pacientes que sofrem de
doenças para as quais não há esperança e que provocam grande sofrimento e, no caso da
eutanásia voluntária, o respeito pela autonomia. Actualmente, certas formas de
eutanásia gozam de um largo apoio popular e muitos filósofos contemporâneos têm
sustentado que a eutanásia é moralmente defensável. A oposição religiosa oficial (por
exemplo, da Igreja Católica Romana), no entanto, manteve-se inalterada, e a eutanásia
activa continua a ser um crime em todas as nações com excepção da Holanda e da
Bélgica. Aí, a partir de 1973, um conjunto de casos jurídicos estabeleceram as
condições de acordo com as quais os médicos, e apenas os médicos, podem praticar a
eutanásia: a decisão de morrer deve ser a decisão voluntária e reflectida de um paciente
informado; tem de existir sofrimento físico ou mental considerado insuportável por
aquele que sofre; não haver outra solução razoável (i.e. aceitável pelo paciente) para
melhorar a situação; e o doutor tem de consultar outros profissionais superiores.
Para analisarmos melhor o assunto sobre a eutanásia é necessário estabelecer
algumas distinções. A eutanásia pode ter três formas: voluntária, não-voluntária e
involuntária.

Eutanásia voluntária, não-voluntária e involuntária

Há uma relação estreita entre eutanásia voluntária e suicídio assistido, em que


uma pessoa ajuda outra a acabar com a sua vida (por exemplo, quando A obtém os
medicamentos que irão permitir a B que se suicide). Um exemplo deste caso é o de
Ramón Sampedro:
Ramón Sampedro era um espanhol, tetraplégico desde os 26 anos, que solicitou
à justiça espanhola o direito de morrer, por não mais suportar viver. Ramón Sampedro
permaneceu tetraplégico por 29 anos. A sua luta judicial demorou cinco anos. O direito
à eutanásia activa voluntária não lhe foi concedido, pois a lei espanhola caracterizaria
este tipo de acção como homicídio. Com o auxílio de amigos planejou a sua morte de
maneira a não incriminar a sua família ou os seus amigos. Em Novembro de 1997,
mudou-se da sua cidade, Porto do Son/Galícia-Espanha, para La Coruña, 30 km de
distância. Tinha a assistência diária de seus amigos, pois não era capaz de realizar

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qualquer actividade devido a tetraplegia. No dia 15 de Janeiro de 1998 foi encontrado


morto, de manhã, por uma das amigas que o auxiliava. A necropsia indicou que a sua
morte foi causada por ingestão de cianeto. Ele gravou em vídeo os seus últimos minutos
de vida. Nesta fita fica evidente que os amigos colaboraram colocando o copo com um
canudo ao alcance da sua boca, porém fica igualmente documentado que foi ele quem
fez a acção de colocar o canudo na boca e sugar o conteúdo do copo. A repercussão do
caso foi mundial, tendo tido destaque na imprensa como morte assistida.
A amiga de Ramón Sampedro foi incriminada pela polícia como sendo a
responsável pelo homicídio. Um movimento internacional de pessoas enviou cartas
"confessando o mesmo crime". A justiça, alegando impossibilidade de levantar todas as
evidências, acabou por arquivar o processo.
Mesmo que a pessoa já não esteja em condições de afirmar o seu desejo de
morrer quando a sua vida acabou, a eutanásia pode ser voluntária. Pode desejar-se que a
própria vida acabe, no caso de se ver numa situação em que, embora sofrendo de um
estado incurável e doloroso, a doença ou um acidente tenham tirado todas as faculdades
racionais e já não seja capaz de decidir entre a vida e a morte. Se, enquanto ainda capaz,
tiver expresso o desejo reflectido de morrer quando numa situação como esta, então a
pessoa que, nas circunstâncias apropriadas, tira a vida de outra actua com base no seu
pedido e realiza um acto de eutanásia voluntária.
A eutanásia é não-voluntária quando a pessoa a quem se retira a vida não pode
escolher entre a vida e a morte para si ― porque é, por exemplo, um recém-nascido
irremediavelmente doente ou incapacitado, ou porque a doença ou um acidente
tornaram incapaz uma pessoa anteriormente capaz, sem que essa pessoa tenha
previamente indicado se sob certas circunstâncias quereria ou não praticar a eutanásia.
A eutanásia é involuntária quando é realizada numa pessoa que poderia ter
consentido ou recusado a sua própria morte, mas não o fez ― seja porque não lhe
perguntaram, seja porque lhe perguntaram mas não deu consentimento, querendo
continuar a viver. Embora os casos claros de eutanásia involuntária possam ser
relativamente raros, houve quem defendesse que algumas práticas médicas largamente
aceites (como as de administrar doses cada vez maiores de medicamentos contra a dor
que eventualmente causarão a morte do doente, ou a suspensão não consentida ― para
retirar a vida ― do tratamento) equivalem a eutanásia involuntária.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Eutanásia activa e passiva

Até agora, definimos "eutanásia" de forma vaga como "morte misericordiosa".


Há, contudo, duas formas diferentes de provocar a morte de outro; pode-se matar
administrando, por exemplo uma injecção letal, ou pode-se permitir a morte negando ou
retirando tratamento de suporte à vida. Casos do primeiro género são vulgarmente
referidos como eutanásia "activa" ou "positiva", enquanto casos do segundo género são
frequentemente referidos como eutanásia "passiva" ou "negativa". Quaisquer dos três
géneros de eutanásia indicados anteriormente ― eutanásia voluntária, não-voluntária e
involuntária ― tanto podem ser passivos ou activos.
Um caso de eutanásia não-voluntária passiva recente é o de Terry Schiavo.
Theresa Marie (Terri) Schindler-Schiavo, de 41 anos, teve uma paragem
cardíaca, em 1990, talvez devido a perda significativa de potássio associada a Bulimia,
que é um distúrbio alimentar. Ela permaneceu, pelo menos, cinco minutos sem fluxo
sanguíneo cerebral. Desde então, devido a grande lesão cerebral, ficou em estado
vegetativo, de acordo com as diferentes equipas médicas que a trataram. Após longa
disputa familiar, judicial e política, foi-lhe retirada a sonda que a alimentava e hidratava,
tendo vindo a falecer em 31 de Março de 2005.
O Caso Terri Schiavo tem tido grandes repercussões nos Estados Unidos, assim
como noutros países, devido a discordância entre seus familiares na condução do caso.
O esposo, Michael Schiavo, desejava que a sonda de alimentação fosse retirada,
enquanto que os pais da paciente, Mary e Bob Schindler, assim como seus irmãos,
lutaram para que a alimentação e hidratação fossem mantidas. Por três vezes o marido
ganhou na justiça o direito de retirar a sonda. Nas duas primeiras vezes a autorização foi
revertida. Em 19 de Março de 2005 a sonda foi retirada pela terceira vez,
permanecendo assim até a sua morte. Este caso tem sido relatado na imprensa leiga
como sendo uma situação de eutanásia, mas pode muito bem ser enquadrado como
sendo uma suspensão de uma medida terapêutica considerada como sendo não desejada
pela paciente e incapaz de alterar o prognóstico de seu quadro.
A sociedade tem se manifestado nestes 15 anos tanto a favor quanto contra a
retirada da sonda de alimentação através de manifestações públicas e acções
continuadas. Alguns questionam o direito de uma outra pessoa poder tomar esta
decisão, por representação, tão importante em nome de outra. Outros discutem a questão

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

de recursos já gastos na manutenção de uma paciente sem possibilidade de alterar o seu


quadro neurológico.
A imprensa mundial tem dado destaque a esta situação, além dos noticiários, em
programas de debates, pesquisas de opinião, apresentando uma perspectiva meramente
dicotómica* ou maniqueísta **. As pessoas são forçadas a se posicionarem apenas de
forma contra ou a favor.

Pretendemos a partir da realização deste trabalho, através da elaboração de uma


entrevista, entrevistar dois profissionais de saúde e verificar a opinião de uma mesma
pessoa enquanto profissional de saúde e ser social (membro da sociedade) acerca da
eutanásia e do aborto
Vejamos a opinião de um médico brasileiro, Levi Guerra, que publicou um
artigo sobre a eutanásia:
“A eutanásia passou a ser permitida na Holanda! O Parlamento holandês (com
46 votos a favor e 28 contra) sancionou a lei que aprova o direito à morte, sob
condições, nos doentes com doenças incuráveis e a sofrerem em condições desumanas e
que, desejando por fim à vida, o requeiram.
E quem vão ser os executores dessas mortes? Pretende-se que sejam os médicos.
Assim, dos médicos fazem-se carrascos, e dos doentes fazem-se sentenciados de morte
por si próprios declarados tais.
A minha consciência médica, alicerçada em mais de 45 anos de prática clínica,
levanta-se indignada contra tal lei, por atentatória da dignidade do médico, e por ser
sancionadora do homicídio. O médico só pode ser a pessoa que cuida e trata do doente,
e a quem incumbe naturalmente também acompanhá-lo no fim da vida, sejam quais
forem as condições em que a morte se aproxime, mesmo que em situações prolongadas
de grande inferioridade física. O médico tem sempre muito a fazer. Nenhuma pessoa
tem o direito de por fim à sua vida. Isso não cabe no direito de autonomia da pessoa, ou
seja, no uso da liberdade. O verdadeiro médico de família, objecto da ilimitada
confiança dos seus doentes, sabe que entre as suas funções não é a menos nobre a de os
assistir no percurso final da vida, e, de forma importantíssima, nos momentos de
expiração. Assisti na minha prática médica à morte de muitos dos meus doentes. Nunca
deixei que um doente se debatesse com dores sem que o aliviasse com medicamentos
prudentemente administrados tentando não abreviar a morte, nem que se esgotasse em
esforços de respiração que não o assistisse com meios ventilatórios, nem que se

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

afogasse par acumulação de secreções que as não aspirasse. Muitas vezes rodeado dos
entes queridos, o médico nunca é a mais, antes pelo contrário, é a fonte de enorme
segurança, de conforto espiritual e de paz quer para o doente como para a sua família. E
ao passar-lhe a mão pela fronte, ou ao dar-lhe a mão, o médico pode sempre segredar-
lhe palavras de conforto, pela amizade que lhe prova nesses momentos, pelo que
também lhe possa relembrar sobre o sentido da vida e das razões sobrenaturais da
esperança em que deve manter-se, serenamente, palavras que poderão ser sempre
verdadeiro refrigério para quem está no dealbar da morte. Hão-de me dizer como será
olhado amanhã o médico que chega, não para aliviar e confortar, mas para matar! Hão-
de me dizer os médicos que se disponham a matar um seu doente como se sentirão
depois de provocarem uma morte. A um amigo? E não só! Que médico será capaz de
tal?
Na cultura cristã sempre se disse, e defendeu, que a vida é um Dom, uma dádiva
de Deus, e que, sendo o fenómeno maravilhoso que é, ao homem cumpre defendê-la e
utilizá-la para o bem. E na aparente inutilidade do sofrimento quanto bem pode vir pela
junção possível desse sofrimento ao próprio sofrimento de Cristo? O sofrimento é
perdido se sofrermos inteiramente sozinhos. Quem não conhece Cristo, sofre
inteiramente sozinho. Thomas Merton, in No man is an island, Edit Harcout Breco &
Co., 1955, pp 85).”
Levi Guerra, Voz Portucalense,
25. Abril. 2001

*Dicotómico – Bifurcado (certo/errado)

**Maniqueísta – Aquele que admite um principio do bem e um principio do mal,


independentes e em luta um contra o outro.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Aborto

O debate do problema ético do aborto está acentuadamente polarizado mas é


importante observar que não existem apenas duas posições possíveis a respeito da
permissividade do aborto, já que tanto os críticos como os defensores do aborto podem
avançar a sua posição básica com maior ou menos radicalidade.
Entre as pessoas que subscrevem a posição pro-escolha ou “liberal”, alguns
pensam que abortar é sempre permissível, mas os restantes revelam-se dispostos a
aceitar que, a partir de uma fase bastante avançada da gravidez, o aborto torna-se
objectável ou mesmo profundamente errado. Já os defensores da posição pro-vida ou
“conservadores”, declaram que abortar é sempre impermissível ou errado, ao contrário
de outras que descartam a perspectiva absolutista e afirmam apenas que o aborto é
errado, admitindo que existem algumas circunstâncias excepcionais em que abortar é
uma opção eticamente aceitável.
As excepções a que se referem, dizem respeito:
a. Casos em que a continuação da gravidez põe em risco a vida da mulher.
b. Quando a gravidez resultou de um acto de violação.
c. Quando o feto sofre de deficiências ou doenças que afectam a sua qualidade de
vida expectável.
O crítico do aborto pode também sustentar que é permissível destruir o zigoto ou
embrião durante os dias que se seguem à concepção, afirmando que ainda não existe um
indivíduo definido enquanto subsiste a possibilidade de se formarem gémeos.
Os defensores da pro-vida podem ter diferentes opiniões a respeito das
excepções à impermissivídade do aborto. Podem até divergir quanto aos actos que são
classificados como actos de abortar. Por exemplo, para salvar a vida de uma mulher
grávida é preciso fazer-lhe uma histerectomia para remover o útero canceroso, causando
inevitavelmente a morte do feto. Mesmo um absolutista poderia aprovar a realização da
operação. Ele defende, que num caso deste género, por oposição aos casos genuínos de
aborto, não existe a intenção estrita de matar o feto. O que se pretende é remover o útero
de modo a salvar a vida da mulher, sendo a morte do feto, um mero efeito colateral da
operação.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Apesar das divergências, existe uma demarcação entre os defensores da pro-


escolha e da pro-vida. Os primeiros advogam a permissividade geral do aborto e,
mesmo que considerem errado matar deliberadamente o feto numa fase avançada da
gravidez, isso levá-los-á a reprovar apenas uma pequena parte dos abortos
efectivamente realizados. Os segundos pensam que, logo no primeiro trimestre da
gravidez, o aborto é profundamente errado, na grande maioria dos casos.
A mera ausência de razões para acreditar na imoralidade de uma certa prática ou
categoria de actos autoriza a convicção na sua permissividade. Assim, o defensor da
permissividade do aborto parece estar numa posição muito mais confortável: é o crítico
do aborto que tem de avançar argumentos a favor da sua perspectiva, o ónus da prova
está do seu lado. A ele compete-lhe apenas mostrar que esses argumentos fracassam, o
que, em princípio não será tão difícil como desenvolver uma justificação positiva.
O crítico do aborto não se pode limitar a “tentar” derrubar os argumentos pro-
vida disponíveis. É encarregado de oferecer uma justificação favorável para a sua
perspectiva. Se ele acredita que o infanticídio é errado, terá de explicar por que razão é
permissível matar um feto, mas não um bebé ou um recém-nascido. E mesmo que
acredite na permissividade do infanticídio, tem de explicar por que razão é errado matar
um ser humano adulto como nós, mas não um bebé ou um feto. O defensor da pro-
escolha, tem então de nos dizer, a partir de que momento se torna errado matar um
indivíduo humano e não se pode resumir a um critério ad hoc, destituído de valor
explicativo. Quando percebemos que o defensor do aborto não pode evitar este desafio,
então vemos que afinal não está numa posição inicial mais confortável do que a do seu
adversário.

Fugir à Questão

Não se deve confundir o problema ético do aborto com o problema


essencialmente político de saber se a lei deve proibir o aborto. Embora distintos, estes
dois conceitos encontram-se relacionados: o problema ético é o fundamental, o que
significa que podemos investigá-lo sem atender ao problema político, mas o inverso já
não. A resposta correcta ao problema político depende da resposta correcta ao problema
ético. Se descobrirmos que o aborto não é eticamente errado, ficamos sem boas razoes
para o proibir. Sob a hipótese da permissividade moral do aborto, manter ou tornar o
aborto ilegal, penalizando quem o realiza, constitui uma restrição arbitrária à liberdade

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

das mulheres. Contudo, se o aborto for eticamente errado? Devemos proibi-lo? Aqui já
teremos de ter algum cuidado, pois seria absurdo afirmar que a lei deve proibir tudo
aquilo que é imoral. No entanto, se descobrirmos que o aborto é errado do mesmo modo
que o homicídio também o é, dificilmente se consegue evitar a conclusão de que a lei
deve colocar fortes restrições ao aborto.
Alega-se frequentemente que o aborto deve ser descriminalizado porque, apesar
da sua proibição, as mulheres continuam a fazê-lo, sujeitando-se aos riscos inerentes à
falta de condições médicas adequadas. A isto acrescenta-se que a criminalização do
aborto gera uma profunda injustiça social: as mulheres ricas acabam por abortar onde é
legal fazê-lo, recebendo bons cuidados médicos, ao passo que as mulheres pobres
permanecem condenadas às vicissitudes do aborto clandestino.
Estes argumentos têm um alcance muito limitado. Quem os avança foge á
questão, pois não está a levar a serio a possibilidade de o aborto ser profundamente
errado, e é esta possibilidade que importa discutir antes de tudo o resto. Imaginemos
que alguém defendia a seguinte perspectiva: a pedofilia deve ser descriminalizada
porque, apesar da sua proibição, continuam a existir pedófilos, e quem acaba
prejudicado são os pedófilos pobres, já que os ricos podem viajar para países em que a
pedofilia é consentida pelas autoridades. Nenhuma pessoa razoável irá aceitar esta
justificação. Mas, se estas razões para descriminalizar a pedofilia são inaceitáveis, por
que haveremos de aceitar as razões análogas para descriminalizar o aborto? O defensor
da descriminalização do aborto dirá que a analogia é descabida, já que a pedofilia é
profundamente errada, enquanto o aborto é eticamente permissível. O problema é que,
em última análise, aquilo que está em questão é precisamente a permissividade moral do
aborto. Se, como sustentam muitos defensores da posição pro-vida, o aborto estiver na
mesma categoria ética que o homicídio, as razões acima indicadas para o
descriminalizar serão tão más como as razões análogas para descriminalizar a pedofilia.
(E, caso o aborto seja eticamente permissível, não precisaremos de invocar essas razões
para justificar a sai descriminalização.)
Outro argumento influente a favor da descriminalização do aborto baseia-se na
perspectiva, avançada por John Stuart Mill (1859), segundo a qual a lei não deve proibir
praticas que não prejudicam os outros, pelo que se impões a revogação das leias que
criam “crimes sem vítimas”. Esta perspectiva pode proporcionar um fundamente sólido
para a revogação de leis que proíbam a homossexualidade, a eutanásia voluntaria, o
consumo de drogas e até mesmo a prostituição. Podemos pensar que algumas destas

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

práticas são moralmente erradas, mas rejeitar a sua criminalização alegando que estas
não fazem propriamente vítimas, já que só prejudicam quem nelas se envolve de livre
vontade. Criar “crimes sem vítimas” é uma forma inaceitável de forçar os outros a viver
em conformidade com certos padrões morais, aceites apenas por um segmento da
população. Por isso, mesmo que consideremos que o aborto é imoral, devemos apoiar a
sua descriminalização.
Também este argumento consiste numa fuga á questão. Afinal, depende do
pressuposto de que criminalizar o aborto é criar um “crime sem vítimas”. Porém, se os
defensores da posição pro-vida tiverem razão e o aborto for eticamente comparável ao
homicídio, o acto de abortar resulta claramente numa vítima – o feto. Assim, antes de
termos investigado a moralidade do aborto, não podemos determinar se a sua
criminalização cria um “crime sem vítimas”. E, se concluirmos que o feto é realmente
uma vítima do acto de abortar, justificar a sua descriminalização com um simples apelo
ao pluralismo moral fará tanto sentido como defender que o homicídio, a pedofilia ou o
roubo devem ser descriminalizados em virtude de constituírem uma imposição dos
nossos padrões morais àqueles que aprovam estes actos.
No debate sobre a questão do aborto, nem só os que defendem a sua
descriminalização incorrem no erro de fugir ao problema ético. De um modo geral,
quem sustenta que a lei deve proibir o aborto também se limita a pressupor que a sua
perspectiva ética é a correcta, abordando o assunto como se a simples referencia á
“humanidade” do feto a tornasse evidente e dispensasse qualquer clarificação ou
justificação.
Dada a prioridade do problema ético, a discussão pública do aborto será apenas
uma lamentável troca de equívocos caso não se reconheça a sua importância e,
consequentemente, a sua complexidade.

Profissionais de saúde

Para a realização deste trabalho entrevistamos dois profissionais de saúde para


saber qual a sua opinião sobre a eutanásia e sobre o aborto. Como método de
investigação utilizamos a Entrevista Semi-Estruturada, neste caso o entrevistador ajusta-
se a um guião de conteúdos que deve explorar obrigatoriamente. Mantém ainda assim
uma ampla margem de manobra na forma concreta de abordar e de verbalizar as
questões, a sua consequência, etc. garantindo-se que os conteúdos são abordados, tenta-

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

se equilibrar a vantagem de uma certa flexibilidade com a desvantagem da menor


fiabilidade em relação a entrevistas mais estruturadas.
Dirigimo-nos à clínica Núcleo Rádio – Diagnóstico (NRD), utilizamos um guião
de entrevista com dez perguntas (anexos pág.17), para aplicar a dois profissionais de
saúde, um neurologista e um neurocirurgião, uma vez que ambas as especialidades
médicas estão ligadas às neurociências, o neurologista na área da clínica e diagnóstico
enquanto o neurocirurgião na área cirúrgica O nosso principal objectivo é perceber qual
a opinião dos mesmos enquanto profissionais de saúde e seres sociais (membros da
sociedade) referente à eutanásia e aborto. Com o auxílio de um gravador de voz,
gravamos ambas as entrevistas, passando posteriormente para o papel o discurso de
ambos os profissionais de saúde.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Conclusão

Após a realização deste trabalho podemos afirmar que tanto o aborto, como a
eutanásia e o suicido são todos praticados em caso de desespero, uns por umas causas
outros por outras, causas essas que podem ir da extremidade da solidão à extremidade
da doença, concomitante com posses monetárias.
São temas que foram, são e hão de ser sempre debatidos com opositores e
apoiantes, uns defendem que são actos de fraqueza outros apenas dizem que “o ser
humano é livre e como ser livre tem o direito de por fim a sua vida”.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Bibliografia

 http://eutanasia.aaldeia.net/

 http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_estudantes/filosofia/filosofia_tra
balhos/eutanasia.htm

 http://images.google.pt/images?hl=pt-PT&q=eutanasia&um=1&ie=UTF-
8&sa=N&tab=wi

 http://www.youtube.com/watch?v=QdEgDw42AVo&feature=related

 http://www.youtube.com/watch?v=h6uWs6DoXXY&NR=1

 http://www.youtube.com/watch?v=U8DulKiuJs4&feature=related

 http://www.youtube.com/watch?v=4qEmrRcCf7E&feature=related

 http://juntospelavida.org/algunseut.html

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Anexos

GUIÃO DA ENTREVISTA

EUTANÁSIA SUICIDIO ABORTO

Identificação:

Data:

CRITÉRIO 1 – Profissional de Saúde

TEMA: Eutanásia

Somos um grupo de alunos do 3ºano de Psicologia da Universidade Lusíada de Lisboa que está
a elaborar um trabalho meramente académico no âmbito da disciplina de Ética e Deontologia.

1. O que é, para si, a eutanásia?

2. É de acordo com a eutanásia e o aborto enquanto profissional?


3. E enquanto membro da sociedade?

4. Durante a sua vida profissional já houve casos em que acharia melhor praticar a eutanásia ou o
aborto?

5. A sua opinião tem mudado ao longo dos anos?

6. Se se fizesse um estudo estatístico, em Portugal, em termos de concordância e discordância da


eutanásia e aborto dentro da sociedade, quanto a si quais seriam os resultados finais?

7. A eutanásia devia ser aprovada em Portugal?

8. Enquanto profissional, se fosse permitida a eutanásia em Portugal, caso fosse necessário,


conseguiria praticar este acto?

9. Supondo que a eutanásia está aprovada em Portugal, acha que deveria ser para todas as faixas
etárias?
10. Caso este tema fosse aprovado acha que deveria haver um ramo na Medicina que tratasse apenas
destes casos?

Muito obrigado pela sua colaboração.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Entrevista a Dr. Rui Pedrosa – Neurologista

O que é para si a Eutanásia?

É pura e simplesmente tirar a vida a alguém, qualquer que seja o motivo,


qualquer que seja a causa, quaisquer que sejam as circunstâncias.

É de acordo com a Eutanásia, e o aborto enquanto profissional?

De maneira nenhuma. Absolutamente contra.

E porquê?

Fui treinado para tratar, curar, aliviar e não para matar. E além do mais penso
sempre que nunca se sabe o que é o dia seguinte, portanto nada é absolutamente
incurável. Tirar a vida a alguém é sempre acabar com as ultimas esperanças que
existem. Sou absolutamente contra.

E enquanto membro da sociedade, tem a mesma opinião?

Exactamente a mesma opinião.

Então quer dizer que se não fosse profissional de saúde, teria a mesma opinião.

Teria a mesma opinião.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Durante a sua vida profissional já houve casos em que acharia melhor praticar a
Eutanásia ou o aborto?

Eu nunca acharia melhor praticar a eutanásia. Já tive dentro de circunstâncias em


que se podia discutir esse problema mas eu nunca achei, como é óbvio, nem nunca
acharei que se deve praticar a eutanásia. Em termos abortivos tenho a mesma opinião,
nunca se deve tirar a vida a um ser humano.

A sua opinião tem mudado ao longo dos anos, já percebi que não e que continua
com a mesma opinião.

Não, nunca mudou.

Se se fizesse um estudo estatístico, neste caso em Portugal, em termos de


concordância e discordância da Eutanásia dentro da sociedade, quanto a si quais
seriam os resultados finais? Pensaria que a população em geral está de acordo com
a Eutanásia ou contra?

Eu penso que deve estar muito dividido, há muita gente para um lado e muita
gente para o outro. Penso, estou convencido, por aquilo que vi, por aquilo que me tenho
apercebido, que talvez a maioria tivesse do lado daqueles que apoiam a eutanásia. Mas
penso também que isso deve-se ao facto de quem diz isso, diz ter um elo no papel das
circunstâncias, muito diferente do papel teórico de uma situação que ou aconteceu
connosco ou aconteceu com alguém à nossa frente ou temos nós de tomar a decisão.

A Eutanásia deveria ser aprovada em Portugal? Apesar de ser contra este acto,
acha que deveria ser aprovada?

Não, obviamente que não.


Enquanto profissional, se fosse permitida a Eutanásia em Portugal, caso fosse
necessário conseguiria praticar este acto?

Não. Só se fosse obrigado e mesmo assim não sei. Normalmente também não o
faria mesmo obrigado.

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Mesmo obrigado não o faria?

Pelo menos em Portugal. Se estivesse noutro sítio qualquer onde me apontassem


uma pistola, não sei.

Supondo que a Eutanásia está aprovada em Portugal, acha que deveria ser para
todas as faixas etárias, como por exemplo nos idosos ou quando as crianças nascem
e se detecta algum problema que os afectaria para o resto da vida. Como por
exemplo no seu sistema sensitivo. Acharia que deveria ser para todas as faixas
etárias?

Sim, para todas as faixas etárias.

E porquê?

Acho que não deveria haver diferenças, porque em frente a uma criança que
nasce com múltiplas deficiências, acho que não vejo que seja muito diferente do que
num adulto que não saibam se tem mais 5 ou 10 anos de esperança que é limitada por
aquela doença que tem. Não creio que fosse legitimo requerer grupos de idades ou
qualquer outro grupo de diferenciação.

E agora a nossa ultima pergunta, caso este tema fosse aprovado, acha que deveria
haver um ramo na Medicina que tratasse apenas destes casos, tendo médicos
especializados ou pessoas especializadas apenas para efectuar o acto da Eutanásia?

Penso que seria essencial alguém especificamente ligado sobre esse tema.
Exactamente para ter a máxima experiência ter-se-ia que pesar suficientemente todas as
variáveis. Penso que é absolutamente válido!

Muito obrigado pela sua colaboração!

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Entrevista Dr. Carlos Melo Sereno – Neurocirurgião

O que é para si a Eutanásia?

A Eutanásia é um método de por fim à vida de uma pessoa em situações de


doenças incontroláveis e sem qualquer tipo de esperança de vida ou pelo menos de um
mínimo de qualidade de vida no momento actual. Basicamente é isso.

É de acordo com a Eutanásia ou o aborto enquanto profissional?

Não. É evidente que não. Eutanásia pura e simples não. Quanto ao aborto,
estamos a falar de uma vida, o valor mais alto que um ser humano tem, claro que não
sou de acordo.

E porquê?

Porque acho que é um método em que ninguém tem direitos, independentemente


da religião e da atitude que tenham perante a vida, ninguém tem direito de “roubar” ou
pelo menos acabar com a vida. E portanto a partir daí não posso partilhar minimamente
com isso.

Imaginemos que não era profissional de saúde, que tinha seguido outro rumo na
sua vida, enquanto membro da sociedade teria a mesma opinião?

Claro que sim. Eu acho que a profissão em si poderá ter alguns


condicionamentos e poderá dar-nos a noção exacta de que muitas vezes nos sentimos
perfeitamente incapazes de dominar determinados tipos de situações e ficarmos sem

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

qualquer tipo de solução aparente para determinado tipo de situação. Agora quanto a
mim, isso não justifica de modo algum que se corte o circuito a não ser em casos
excepcionais de morte cerebral perfeitamente confirmada e isso é possível ao fim de 2,
3 exames com 2, 3 especialistas para não haver qualquer tipo de engano. Se houver uma
morte cerebral, ai sim não vejo grande problema em desligar uma máquina, um
ventilador, por exemplo, dando lugar a outros doentes que precisam delas e têm
hipótese de sobrevivência. Isso é completamente diferente do uso da Eutanásia, se
houver uma declaração de morte cerebral e portanto de total incapacidade de resolver o
problema. Desde que haja uma morte cerebral, não há retorno à vida.

E durante a sua vida profissional já houve casos em que acharia melhor


praticar a Eutanásia? E o aborto?

Não. Posso-lhe dizer que houve casos desesperantes se quiser e que me senti
perfeitamente impotente e como tal reactivo em relação a determinadas situações. Agora
nunca equacionei a hipótese de praticar a Eutanásia. Isso não. Quanto ao aborto ainda
nunca tive que o fazer, é a opção de cada um eu não concordo.

E a sua opinião tem mudado ao longo dos anos?

Não, mantenho exactamente a mesma posição.

Se se fizesse um estudo estatístico em Portugal, em termos de concordância e


discordância deste tema dentro da sociedade, quanto a si quais seriam os
resultados finais? Pensa que a população seria a maior parte dela de acordo ou
contra a Eutanásia?

Eu penso que tanto quanto conheço da população portuguesa e do seu


posicionamento social em termos de vida, acho que a maior parte deles ou a grande
maioria seria contra a Eutanásia.

A Eutanásia deveria ser aprovada em Portugal?

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

Não, é evidente se não estou de acordo com ela, não posso estar com a sua
aprovação.

E enquanto profissional, se fosse permitida a Eutanásia em Portugal, já sabendo a


sua opinião de que não deveria ser, mas caso fosse imposta esta aprovação, os
profissionais de saúde teriam que aceitar. Assim caso fosse necessário, conseguiria
praticar esse acto?

Não, acho que ai entravamos no campo da objecção de consciência e portanto eu


sou incapaz de praticar qualquer acto, nomeadamente profissional, se isso for contra os
meus princípios. E portanto, se à partida eu sou contra a Eutanásia, penso que
legalmente ninguém me poderia obrigar a praticar a Eutanásia. Mesmo que legalmente
por qualquer situação anormal e fora de todos os parâmetros que eu posso admitir,
eventualmente se me sentisse obrigado por entidades superiores a praticar a Eutanásia,
seguramente que me recusaria a fazer.

Supondo que a Eutanásia está aprovada em Portugal, acha que deveria ser para
todas as faixas etárias ou só para algumas, como por exemplo idosos?

Essa pergunta faz-me ficar numa situação um bocado delicada porque estou
numa faixa etária já elevada e portanto se fosse admitir que havia uma selecção, uma
eutanásia selectiva em relação as faixas etárias, eu seria dos primeiros a levar com a
eutanásia em cima. Portanto, isso não faz sentido nenhum, primeiro como disse não
concordo com a Eutanásia e segundo muito menos com uma Eutanásia selectiva. As
pessoas apesar de serem mais idosas têm o direito à vida e a ter um mínimo de
esperança ao resto da vida que lhes falta viver. Portanto de modo nenhum.

A nossa ultima pergunta, caso este tema fosse aprovado, acha que deveria haver
um ramo na medicina que tratasse apenas destes casos com profissionais de saúde
especializados?

Eu percebo a intenção da pergunta mas só lhe posso responder em função


daquilo que lhe disse que era a minha opinião em relação à Eutanásia. Portanto,
admitindo no entanto, se eu fosse adepto da eutanásia o que é que eu pensava em

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Problemáticas éticas do suicídio, da eutanásia e do aborto

relação a isso? Posso colocar-lhe a questão desse género. É evidente que sim, teria de
haver, digamos uma sub-especialização, porque seria preferível para toda a gente. Aí
caberiam as pessoas que estariam de acordo com a Eutanásia, poderiam dar o ar da sua
preferência, poderiam entretanto libertar os outros que não estão de acordo. E portanto
acho que seria perfeitamente razoável isso acontecer. Além disso, é evidente que em
qualquer situação tem de haver, digamos pessoas mais capazes, mais preparadas para
determinados actos do que outras e portanto não me incomodava nada se eventualmente
algum dia estivesse de acordo com a Eutanásia, isso fosse feito com um grupo
especifico.

Deixe-me dizer-lhe também, o que eu acho que se deve fazer e já fiz várias
vezes, é digamos acompanhar um doente numa fase terminal, que eu sei que não têm
hipóteses e que muitas vezes não vale a pena insistir em qualquer tipo de tratamento
terapêutico. Faz-se ma terapêutica de manutenção, isso já me aconteceu e acho que
ajudei já bastantes pessoas nesse sentido a terem uma morte, se é possível mais
“agradável”, se é possível dizer isto, é claro que é em sentido figurado. Ai sim, quer
dizer, ai poderá haver uma atitude de medico passiva, nunca activa, para no campo da
dor evitar que haja situações extremamente dolorosas, mantendo uma profusão de soro.
O que é que eu quero dizer com isto, Eutanásia não, agora bom senso em termos
terapêuticos sim, isso com certeza.

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