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AS MULHERES E A DESCENTRALIZAÇÃO DO PODER LOCAL: o caso do Orçamento Participativo da cidade de Porto Alegre (2005) ORSATO, Andréia1; LOECK, Robson

Becker2; PEREIRA, André Luis3; HELLEBRANDT, Luceni Medeiros4; GUGLIANO, Alfredo Alejandro5
Mestrado em Ciências Sociais - ISP/UFPel,andreiaorsato@yahoo.com.br 2 Mestrado em Ciências Sociais - ISP/UFPel, robson.loeck@vetorial.net 3 Acadêmico em Ciências Sociais - ISP/UFPel, alp_isp@yahoo.com.br 4 Cientista Social - ISP/UFPel, luceni@metodo.inf.br 5 Depto. de Sociologia e Política - ISP/UFPel, Rua Alberto Rosa 154 2º piso, CEP 96010-710, aag@ufpel.edu.br
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1. INTRODUÇÃO Ao longo das últimas décadas muitos foram os esforços, por parte das teóricas feministas, para buscar reverter as desigualdades de gênero. Com a eclosão dos novos movimentos sociais, no final dos anos 60, o movimento feminista que havia conhecido um período intenso de refluxo, ganhou novo impulso a partir da reformulação de seus marcos teóricos. Uma das transformações ocorridas foi a mudança do discurso que proclamava a busca por igualdade para o reconhecimento das diferenças, movimento impulsionado a partir da entrada em cena do conceito de gênero, inicialmente empregado para designar os estudos a respeito das mulheres. Neste período, o objetivo passou a ser recontar a história sob uma ótica feminista, demonstrando que as mulheres também eram sujeitos históricos e estavam presentes no curso das transformações sociais. Entretanto, como os movimentos sociais geralmente não são homogêneos, alguns teóricos insatisfeitos com a posição subalterna que as mulheres continuavam a desfrutar na sociedade, propuseram uma nova forma de pensar o conceito de gênero que, a partir de uma abordagem relacional, passou a ser utilizado para designar as relações entre homens e mulheres. Dentre as análises que empregaram essa perspectiva, um enfoque que tem merecido a atenção de muitos pesquisadores e pesquisadoras é a participação feminina na esfera pública. A proposta deste trabalho é analisar como se processam as relações de gênero em experiências de democracias participativas, ou seja, em espaços onde há a possibilidade de participação direta dos cidadãos na gestão pública. Neste sentido, tomar-se-á como referência a experiência do Orçamento Participativo (OP) da cidade de Porto Alegre, no ano de 2005, município gaúcho no qual se desenvolve, desde 1989, um dos modelos de democratização do poder local mais bem sucedidos no contexto internacional. 2. METODOLOGIA A metodologia utilizada para a realização deste trabalho foi o levantamento, das informações contidas nas fichas de inscrição dos participantes nas assembléias regionais e temáticas do OP realizadas em 2005, disponibilizadas pela Prefeitura de Porto Alegre. Inicialmente, buscou-se o número de participantes nestes fóruns nas dezesseis regiões em que se subdivide a cidade e nas seis temáticas que compõem

“Desenvolvimento Econômico e Tributação”. RESULTADOS E DISCUSSÃO Sendo uma possibilidade de deliberar sobre a aplicação do orçamento público. 3. 1 Neste trabalho não serão considerados os dados referentes aos conselheiros sindicais e aqueles indicados pela administração municipal. o OP passa por uma série de discussões democráticas antes da proposta orçamentária. Esporte e Lazer”. além da deliberação sobre a proposta de orçamento. de um total de 24 conselheiros temáticos (titulares e suplentes). são escolhidos os delegados dos fóruns regionais e temáticos. um perfil feminino. no caso das temáticas “Cultura” e “Educação. “Saúde e Assistência Social” numa porcentagem de participação na ordem de 69% e “Educação. Na pesquisa sobre esse processo de inclusão dos cidadãos na gestão pública. Este debate se realiza em Assembléias Populares (regionais e temáticas) nas quais. uma participação socialmente construída a partir da representação dos papéis considerados essencialmente femininos e masculinos. Desenvolvimento Urbano e Ambiental”. Em resumo. Nas sessões temáticas. nas quais nenhuma mulher foi eleita para a representação no COP. . se as mulheres são maioria na assembléia temática “Organização da Cidade. 48% eram homens e 52% mulheres. 59% mulheres e 1% não identificaram seu sexo. Nesta instância. bem como os representantes para o Conselho do Orçamento Participativo (COP). ser encaminhada ao Poder Legislativo para apreciação e votação. participam quatro representantes de cada região (dois titulares e dois suplentes). as mulheres são maioria na representação da temática referente à “Saúde e Assistência Social” e estão em igualdade numérica com os homens. 41% eram homens. em 2005. Em contrapartida. A partir disso. com 54% do total de participantes. A respeito deste tema ainda é importante ressaltar que. com 57% do total de participantes desta temática. fizemos um levantamento que aponta para o fato de que do total de participantes das plenárias regionais do OP. que é a principal instância de discussão e fiscalização das deliberações aprovadas nas assembléias cidadãs. mais quatro representantes de cada temática (dois titulares e dois suplentes). Desenvolvimento Urbano e Ambiental”. 16 (67%) são homens e 8 (33%) são mulheres. tradicionalmente. e as mulheres naquelas outras que discorrem sobre assuntos de menor visibilidade e mais de acordo com aquilo que é considerado. É interessante observar o fato de que nas assembléias temáticas o número de mulheres cresce naquelas que versam sobre “Organização da Cidade. Assim. Tributação e Turismo” e “Circulação e Transporte”. elas acabam perdendo esta posição quando se trata da representação deste fórum no COP. passou-se a analisar a participação das mulheres nas diferentes etapas desta experiência participativa. Uma situação ainda menos favorável pode ser encontrada no caso das temáticas sobre “Desenvolvimento Econômico. 43% dos participantes do OP em 2005 eram homens e 57% mulheres. Estes dados indicam a possibilidade de uma divisão sexual dos participantes de acordo com as temáticas discutidas. Esporte e Lazer”. visto que os homens se concentram naqueles assuntos considerados de maior impacto e polêmica na opinião pública como. Em porcentagens totais (regiões e temáticas). na medida em que foi eleita apenas uma mulher entre os titulares e suplentes escolhidos. Também fazem parte do COP representantes de sindicatos e do poder público municipal1. por exemplo. com 54% do total de participantes.seus eixos de discussão. elaborada nos fóruns de discussão.

O homem público é associado ao poder. .. 25 (56. Em se tratando do espaço público. na medida em que se avança nas etapas de organização desta proposta essa participação sofre uma considerável diminuição. Estes dados demonstram. o campo militar. A vocação das mulheres é que elas sejam boas filhas. em suas formas de sociabilidade. passa a ser um campo masculino.Outro dado que chama a atenção no que diz respeito à distribuição dos cargos no COP.94%) mulheres. Em totais gerais (titulares e suplentes das assembléias regionais e temáticas). diz respeito ao mundo privado. são objetos de desejo masculino. A mulher pública. recomenda a reserva de cotas para participação de ambos os sexos: um mínimo de 40% e máximo de 60%. a maioria são homens.129-130) Embora seja conhecido que algumas poucas mulheres ocuparam e ocupam postos importantes na chefia de Estados. que se trate de partidos. invertendo a porcentagem entre os sexos.79%) são homens e 16 (37. quando ocupado por homens ou mulheres ele se apresenta valorativamente diferente. do reconhecimento. o religioso e o político. que no OP também ocorre uma inversão na representação dos sexos na instância de maior decisão do OP em relação às assembléias populares.18%) mulheres. ao contrário. 41% eram homens e 59% mulheres.06%) são homens e 13 (41. o que não foge à lógica exposta por Michele Perrot (1998) de que existem esferas que se destinam prioritariamente a homens e outras às mulheres. que molda também a expectativa do público. cit. às grandes decisões e. mas as mulheres públicas são aquelas que pertencem a todos.25%) são homens e 14 (43. p. o qual em seu Regimento Interno. da visibilidade e do debate a respeito dos rumos da sociedade. aquele do qual os homens participam. são desmerecidas. criaturas vulgares e depravadas. Em seus ritmos.23%) mulheres No que tange à representação no COP de acordo com as regiões. 27 (62. porém a região “Glória” só apresentou um suplente. De um total de 872 conselheiros eleitos pelas assembléias de base. Do total de 44 conselheiros titulares (regionais e temáticos). pois sobre elas recai sempre uma conotação sexual.82%) são homens enquanto que 19 (43. apesar do cumprimento da meta das cotas. A política é uma profissão concebida e organizada no masculino. se constituem ainda hoje como três ordens da Idade Média. passa a ter reconhecimento e prestígio social. O espaço público destinado às mulheres não é do poder. do legislativo e do executivo. por isso o cálculo é feito com base em 87 e não 88 conselheiros. de um total de 43 conselheiros. eventualmente decepcionado por ser representado por uma mulher. Se nas reuniões de base do OP as mulheres são maioria. se do total de participantes nas reuniões de base. em sua apresentação de si. Conforme afirma Perrot. santuários que fogem às mulheres e que simbolizam a diferença entre os sexos: A entrada das mulheres na política não é normal em nenhum lugar.77%) homens e 35 (40. o patriarcalismo e o paternalismo são 2 O total de conselheiros vindos das assembléias regionais e temáticas deveria ser 88. o COP em 2005 contou com a participação de 52 (59. (op. não desfruta do mesmo valor que os homens. dos 31 conselheiros suplentes 18 (58. juntamente com isso. quando tratamos da eleição dos 32 conselheiros titulares verificamos que 18 (56. porque tem a sensação de ser desvalorizado ou menos bem representado. Na condição de suplentes. O mundo da política. em seus horários. e no qual lhe é assegurado uma conotação positiva. O ideal socialmente construído a respeito das mulheres.21%) mulheres. boas esposas. da formação de opinião. boas mães.75%) mulheres e.

A principal questão a ser levantada é a persistência das desigualdades de gênero mesmo com avanços concretos que as mulheres conquistaram ao longo do século XX. CLARA. 157 p.da mesma forma como ocorre no OP em 2005 na cidade de Porto Alegre das temáticas talvez menos caras à política. 5. frente aos quais buscam ser uma alternativa. nem mesmo as democracias participativas parecem dar conta de solucionar esta questão e proporcionar a participação eqüitativa de setores da sociedade que historicamente se encontraram alijados do real processo de tomadas e decisões. embora sejam iniciais. GUGLIANO. Porto Alegre. . Polít. nas democracias tradicionais se adota uma política de cotas. FARAH. poucos resultados significativos. 5-22. Curitiba. no entanto. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Estudos Feministas. 2004. permanece associada ao mundo masculino. p. Alfredo Alejandro. p. BIBLIOGRAFIA ARAÚJO. Ruth. Maria Ferreira Santos. Fato semelhante a este se encontra nas democracias tradicionais. vereadoras e senadoras. sobretudo no que diz respeito à relação de poder entre os sexos. Mulheres em Movimento. Pedagogia cultural. Rev. p. para não correr o risco de reproduzir a estrutura de divisão sexual dos poderes e das esferas de atuação de homens e mulheres que se encontram nos modelos de democracias tradicionais. 4. Sociol. No campo político. São Paulo: fundação Editora da UNESP. Sociologias: problemas e práticas. 51-70. Diante disso. as experiências de democracia participativa precisam ainda avançar significativamente na questão de gênero. as mulheres deputadas (estaduais e federais). Participação e governo local. PERROT. Lisboa. Educação e Realidade. voltando-se para as iniciativas consideradas como “femininas”. as mulheres também são a maioria do eleitorado. p.09-21. Mulheres Públicas. SABAT. 2003. Joan. 16. Isto é evidente quando se nota que as mulheres são mais participativas nas reuniões de base de organização e elaboração de uma proposta orçamentária para o município.valores ou práticas que desfrutam ainda de muito vigor na regulação das relações sociais nos mais variados espaços. Além disso. Partidos políticos e gênero: mediações nas rotas de ingresso das mulheres na representação política. SCOTT. A política. que tem surtido. parecem se ocupar . 2005.117-132. Estudos Feministas. 2°semestre/2001. Estudos Avançados 17 (49). n°46. 1998. pp. Sueli. Também. gênero e sexualidade. janeiro-abril/2004. 12 (1): 47-71. os percentuais se invertem em favor dos homens. CONCLUSÃO Esses dados. tal como a entendemos no mundo ocidental. 24. CARNEIRO.. permitem perceber que as democracias participativas ainda precisam avançar mais no que concerne à questão de gênero. porém subrepresentadas em termos de presença feminina nas mais variadas instâncias de decisão formal. ao analisar sua participação nas instâncias de maior prestígio e visibilidade pública do OP. 193-215. Florianópolis. Comparativamente. Michele. até o presente. jun. ano 9. nos mais diversos campos. 1990. jul/dez. Gênero e Políticas Públicas.