OS NEOLUDITAS Kirkpatric Sale Em março de 1990, Chellis Glendinning, psicóloga do novo México, publicou " Notas rumo a um manifesto neoludita

", buscando das legitimidade aos que resistiam, por se sentirem incomodados, de um jeito ou de outro, ante a tecnologia da segunda Revolução Industrial; o texto lançou idéias afim de articular as criticas e objetivos do grupo. "Os neoluditas têm a coragem de olhar a catástrofe total de nosso século, resultantes do fato de as tecnologias criadas e disseminadas pela sociedades ocidentais modernas estarem fora de controle e profanando a frágil teia da vida na Terra", escreveu a autora. Em seguida, sublinhando o elo com o passado, ela acrescentou: " Como os primeiros luditas, também somos pessoas desesperadas, procurando proteger as existências, famílias e comunidades dos que amamos, e que se encontram beira da destruição". Argumentando que a eficaz resistência a esse processo " requer não somente regulamentação, ou eliminação de itens específicos - pesticidas ou armas nucleares", mas também " novas maneiras de pensar" e, em contrapartida, "a criação de uma nova visão de mundo", Glendinning definiu os três princípios básicos do neoludismo: 1. Oposição à tecnologias que "emanam da ideologia baseada no racionalismo , chave do potencial humano; na aquisição de bens materiais, chave da realização humana; e no desenvolvimento tecnológico, chave da civilização humana". 2. Reconhecimento de que "todas as tecnologias são políticas" - as que foram criadas pela sociedade tecnológica de massa, longe de serem "ferramentas neutras, utilizáveis para o bem ou para o mal", inevitavelmente, servem "perpetuação de seus objetivos de eficiência, produção, mercado e lucros". 3. Elaboração de uma critica tecnologia por meio da "análise completa de seu contexto sociológico, ramificações econômicas e significados políticos (...) a partir da perspectiva não só do uso que se faz dela" , mas do seu impacto sobre " outros seres vivos, ecossistemas e meio ambiente". Chellis Glendinning termina lançando um "programa para o futuro" em que vislumbra o desmantelamento das tecnologias nuclear, química, biogenética, eletromagnética, televisiva e informática, e a criação de novas tecnologias pelos que "as usam e efetivamente sofrem seus efeitos", únicos que serão capazes de promover " a liberdade política, a justiça econômica e o equilíbrio ecológica", baseados na comunidade e de forma descentralizada, orgânica e cooperativa. propondo a construção de uma " visão de mundo que valorize a vida", e que "as sociedades tecnológicas ocidentais reestruturem seus projetos mecanicistas e adotem a criação de maquinas, técnicas e organizações sociais respeitadoras da dignidade humana e da natureza", ela conclui: "Nada temos a perder, a não ser um modo de vida que leva destruição da vida (...) e um mundo a ganhar." Esse admirável documento foi inspirado pelas experiências vivenciadas pela própria autora enquanto escrevia um livro, encerrado poucos meses antes, e que se chamou Quando a tecnologia fere, resultado de um profundo estudo acerca dos "sobreviventes da tecnologia", pessoas que tinham sofrido danos físicos ou doenças, em anos recentes,

depois de expostas a vários produtos tóxicos, em seus postos de trabalho ou nas residências. Todas tinham sucumbido a algum tipo de ataque justificado por algum tipo de avanço do progresso - radiação nuclear, pesticidas, isolantes térmicos, métodos de controle da natalidade, drogas - passando a questionar não só os processos que as desfiguram - em certo numero de caos provocando amputações - como o mundo que lhes impusera tais processos, promessas infundadas e indiferença negligente. Glendinning descobriu que tais pessoas foram compelidas a se certificar, bastante intimamente, do que podem fazer vida as tecnologias perigosas. (...) Elas conhecem aa ruptura, perda, a incerteza, (...) sentem a quebra da confiança, catalisando suas vivências em sentido contrário às crenças sobre o progresso tecnológico (...) sintomas de todo um sistema equivocado. Isso que fez Glendinning lembrar dos luditas originais, pessoas que também haviam sido vítimas da tecnologia e que se engajaram numa " luta ideológica" contra as arremetidas do progresso que ameaçava " relações sociais de longa duração". Para ela, os sobreviventes modernos eram seus legítimos herdeiros e, por isso mesmo, parte de um movimento neoludita. A idéia de que a Terra da tecnofilia pode ser o berço desse movimento to inexeqüível como parece inicialmente, posto que a segunda Revolução Industrial jamais alcançou a unanimidade, tendo sempre mobilizado críticos e críticos, movidos por desconfiança ou ansiedade. Mesmo nas mais fervorosas sociedades industriais - talvez especialmente a - nunca chegou a ser totalmente aplacado um sentimento de inquietação, quase medo, relativamente imensa potencia e alcance dessa nova tecnologia - sua capacidade de ocasionar acidentes e danos. Parte desses temores remonta aos anos 50 e reação de alguns segmentos da intelligentsia, terrivelmente assombrados ante os eventos de Hiroshima e Nagasaki, e os campos de extermínio nazistas. A ficção cientifica pós-guerra foi dominada por alusões tecnologia mal aplicada, por falta de controle ou por ter caído em poder das forças do mal, e os filmes contemporâneos, principalmente os de terror, eram povoados de monstros irradiados ou versavam sobre invasões de alienígenas, tecnicamente ainda mais desenvolvidos do que os terráqueos. A apreensão alimentada por revelações de perigos ambientais, nas décadas de 1960 e 1970 - DDT e outros produtos químicos, vazamentos de óleo ou de radiação, cigarros, compostos possivelmente cancerígenos, lixo tóxico etc. - pôs em xeque todo o conhecimento adquirido e o grau de confiança outorgado a cientistas, especialistas e funcionários governamentais, produzindo uma ruptura entre parcela da população e a tecnocracia. Ao mesmo tempo, e de ambos os lados do Atlântico, um grupo considerável de intelectuais desencantados decidiu-se a arrostar o domínio dos tecnocratas. Lewis Mumford foi alm de todos os demais, com seus prodigiosos Mito e máquina - técnicas e desenvolvimento humano, em 1967, e O poder do pentágono, em 1970 - Mas houve outros, como Paul Goodman, Jacques Ellul, E. F. Schumacher, W. H. Ferry, George Parkin Grant, Rachel Carson, Ivan Illich, Herbert Marcuse, Doris Lessing, Robert Jungk, Henry Geiger etc. Quando a década de 1980 trouxe os dois fracassos mais desastrosos da tecnologia moderna at então, a explosão da fabrica de Bhopal, na Índia, em 1984, e o desastre do vazamento nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986, seguidos por revelações de aquecimento do planeta e destruição da camada de ozônio, ambos subprodutos de engenhos que se supunha inofensivos, a esfera de inquietação e apreensão ampliou seu alcance e atingiu todos os níveis da sociedade. Mais uma vez isso se refletiu em vários elementos da cultura popular, dos romances de Kurt Vonegut, Thomas Pynchon, Farley Mowat e Edward Abbey, aos filmes como ET, Jogos de guerra, Gremlins e sobretudo O retorno de Jedi, clímax da série iniciada com Guerra nas estrelas - película que narra o

triunfo natura, para não dizer primitivo, de Ewok, usando bastes e pedras contra as foras supertecnocráticas do Império do Mal. O apoio erudito recrudesceu: Uma nova onda de críticos, agora de uma gama ainda mais ampla de disciplinas e com impacto ainda maior, inclui academicos - aLangdon Winner, Stanley Diamond e David Noble; ecologistas - Edward Goldsmith, David Ehrenfeld e Arne Naess; ativistas - Dave Foreman e Jeremy Rifkin; e mais Wendell Berry, Jerry mander, Carolyn Merchant, John Zerzan, Theodore Roszak, Susan Griffin, Gary Snyder, Paul Brodeur, Stephanie Milss, Thomas Berry, Bill McKibben, Paul Shepard, todos extremamente causticos e amplamente respeitados. Assim não surpreende que possamos identificar algo não tão significativo como movimento, mas capaz de expressar de muitos modos e com fora crescente uma sucesso de idéias e emoções inquestionavelmente luditas. Embora disposto a resistir mais às corporações do que às maquinas, esse neoludismo vincula-se diretamente ao espírito do rei Ludd e às razões e causas defendidas por seus seguidores, no século passado. Embora mais forte e mais consciente nos Estados Unidos, o neoludismo tem alvo globais, abrangendo assim um amplo espectro, desde pequenas questões pontuais a análises filos´ficas profundas, da oposição ao uso da fora defesa da sabotagem, com muita diversidade entre várias linhas de pensamento e propostas de ação. Por isso, justo apreciá-lo com maior cuidado. A avaliação pode começar pelos "sobreviventes" , que se organizaram para remeter via postal advertências a respeito de investidas da tecnologia - em geral, desconsideradas durante décadas, inclusive por seus agentes; mais bem-sucedidos na formação de redes de intercambio de informações, eles conseguiram elaborar estratégias de atuação conjunta, levantar fundos, contratar especialistas e travar batalhas legais. Atuando em escala nacional, só nos Estados Unidos existem provavelmente três dúzias de tais grupos, entre eles Vitimas Americanas de Asbestos (isolante térmico, usados em aparelhos de ar-condicionado, Vitimas de Aspartame e Seus Amigos, Ação Nacional DES (contra produtos quimico-dietéticos causadores de doenças), Cidadão contra o Mal Uso de Pesticidas, Rede de Informação Dalkon Shield, Associação Nacional de Veteranos Atômicos, Comitê Nacional das Vitimas de Pesquisas, Campanha Nacional Antitóxicos, Coalização VDT (afetados pela radiação de computadores) etc. Lutando para curar suas próprias feridas , os membros dessas entidades desenvolveram uma sensibilidade tipicamente ludita: O problema não esta somente na "invenção" específica que lhes causou mal, mas no vício mais amplo da sociedade, aquilo que a me de uma jovem prostrada por produtos dietéticos chamou de "arrogância tecnológica", e que levou um homem canceroso, após ter sido exposto contaminação por asbestos, dizer a Glendinning: "Aprendi que a tecnologia que criamos está nos matando". Sem terem sido molestados, pessoalmente, por qualquer efeito derivado do "progresso", muitos dos integrantes desses grupos filiaram-se causa como cidadãos receosos e aflitos, engrossando campanhas contra incineração ou simples depósitos de lixos tóxicos, uso de pesticidas e diversos produtos químicos industriais, excessos no campo da biotecnologia, derrubada de florestas, malefícios decorrentes da "civilização" do automóvel e uso de cobaias animais. Os que têm acumulados mais êxitos são os ativistas antinucleares, que lutam há décadas contra as armas e a produção de energia nuclear e, mais recentemente, voltaram suas atenções questão do lixo nuclear. Suas táticas incluem grandes passeatas e outras manifestações de massa, divulgação de documentos científicos e procedimentos judiciais; em 1987, assumindo feição mais claramente ludita, uma mulher atacou com uma barra de ferro, um alicate e um martelo o computador central do sistema de mísseis da Base Aérea de Vandenberg, na

Califórnia. Na mesma linha de radicalização, os pacifistas têm usado martelos e tinta contra aviões, mísseis, submarinos e armamento esticado em várias instalações militares. As razões do relativo sucesso desses militantes - as encomendas de novas usinas nucleares cessaram, Nos Estados Unidos, em 1978 - baseiam-se no fato de eles terem conseguido provar o elo entre os reatores e a cultura industrial autoritária, o militarismo, a poluição e, de outra parte, na insofismável obliteração de duas cidades japonesas por explosões nucleares - nenhuma outra tecnologia coloca to claramente em perigo aqueles que a ela se expõem. No restante do mundo, essa fração do movimento pode gabar-se de ter pelo menos retardado a introdução da energia atômica, fundamental e to cara ao industrialismo. Contrapondo-se a projetos específicos constantes do variado cardápio high-tech, outro tipo de oposição com tonalidade nitidamente ludita a resistência ativa, nos Estados Unidos, ao avio supersônico, superacelerador de partículas, combustíveis sintéticos, sistemas de mísseis antibalisticos, alimentos energizados, engorda do gado por meio de hormônio etc. Mesmo num congresso submisso aos lobbies - altamente sedutores, alis -, algumas vitórias expressivas têm sido conquistadas, destacando-se os dois primeiros casos acima citados e, de um ponto de vista positivo, a preservação do Grand Canyon e da baa de James. Quando o acordo de Livre Comercio NorteAmericano - NAFTA - foi estendido ao México, segundo algumas pesquisas, o apoio às objeções somava 2/3 da população; tratou-se de uma luta tipicamente ludita, impulsionadas pelo temor de que os salários mais baixos e o ínfimo empecilho a automação, ao sul do rio Grande, pudessem acarretar perda de empregos norteamericanos. Por conta desse receio, ensejou-se uma aliança incomum entre certos segmentos conservadores e liberais de tendência populista, propagando-se um forte sentimento antagônico aos benefícios concedidos às poderosas corporações transnacionais vis-á-vis uma compreensão tácita acerca da cultura industrial, onde essas instituições criadas pela industria do século XIX que costuma abocanhar a maior fatia do bolo. Na Europa, algo semelhante animou protestos contra dois acordos específicos, promotores de interesses tecnocráticos e prejudiciais ás associações regionais e comunitárias, extinguindo empregos e seculares formas de lazer. Referimo-nos , em primeiro lugar, às contrariedades geradas pela União Européia - principalmente na Escandinávia, Irlanda e Grã-bretanha; o Tratado de Maastricht foi afinal aprovado por mínima margem, em 1992, mas só após muita presão dos governos e das grandes empresas. Contestação ainda maior ergueu-se quando da ultima plenaria do GATT – Acordo Geral sobre Tarifas e Comercio: verdadeira benção do ponto de vista das corporações, a proposta em curso deixava os trabalhadores e comunidades a sua merca, posto que lhes outorgava o direito de cruzar fronteiras num bilionésimo de segundo, transferindo empregos, produtos e lucros. As manifestações de massa irromperam logo em seguida reunião parcial realizada no Uruguai. Sentindo a própria existência ameaçada pelo fim dos subsídios que garantiam sua independência, os agricultores franceses montaram barricadas de fardos de feno e pneus em chamas, e colocaram seus tratores atravessados nas estradas, bloqueando o tráfego, às vezes entrando em conflito com a policia; juntando-se aos quarenta mil provenientes de diversos países do continente e partes da ásia, muitos deles participaram da concentração em Estraburgo, no mês de dezembro de 1992, quando foi queimado um boneco representado o negociador norte-americano. Alvo da zombaria do Parlamento Europeu e da imprensa, acusados de luditas, saudosistas e retrógrados – em certo sentido eles eram tudo isso, por defenderem o modo de vida das comunidades rurais, tal como seus predecessores ingleses haviam

feito – inesperadamente, eles despertaram simpatia e apoio popular suficientes para obter algumas concessões e assegurar, no acordo final, pelo menos parte das subvenções estatais. São os países não ocidentais , porém , que as resoluções do GATT tendem a provocar efeitos mais sensíveis, e onde têm se erguido os maiores clamores, em anos recentes. Convém assinalar que livre comercio só existe de fato, para aqueles que o dirigem. É nesses ligares que se produzem os atritos mais sérios entre a modernidade industrial e a tradição orgânica , muitos similares experiência dos luditas originais. Na Coréia, Índia, Ceilão e Malásia os homens do campo têm marchado e feito peticões contra os instrumentos de uma “invasão genética” comandada pela Cargill e E. R. Grace – gigantes norte-americanos do comércio internacional de grãos – que se apropriam de sementes e espécies nativas , alterando-as minimamente , patenteando-as e revendedo-as mediante pagamento de royalties.em 1992, os escritórios da Cargill, em Bangalore, na Índia, sofreram ataque e tiveram seus arquivos incendiados – em junho do ano seguinte, uma fabrica de sementes ainda em construção pegou fogo; em outubro, no estado de Karnataka, quinhentas mil pessoas participaram de manifestação hostil às incursões de tecnologias importadas. Jamais se vira, em qualquer parte do mundo, uma contestação to forte aos efeitos do livre comercio. De fato, no mundo no ocidental que o espírito ludita têm se mostrado particularmente vigoroso, animando os povos que tentam cotrapor-se não só a máquinas e projetos do industrialismo, mas cultura imposta por esse sistema. Os camponeses recusam-se a participar de vários planos governamentais de “desenvolvimento”, no mais das vezes sob a orientação do Banco Mundial ou do Departamento de Estado norteamericano: tal aconteceu no Mali, no inicio dos anos 80, quando agricultores locais destruíram represas e diques que atenderiam a um programa de cultivo de arroz no qual não queriam tomar parte. As comunidades se mobilizam para deter projetos de represas que ameaçam alagar antigos povoados, e muitas vezes com sucesso, como foi o caso dos aldees que criaram obstáculo represa de Narmanda, na Índia, nos primeiros anos da década de 1990. Em outras ocasiões sobrevêm a adversidade: em 1993, quando o povo de Java decidiu obstaculizar a represa de Nipah, as foras de segurança da Indonésia mataram quatro camponeses. Ficou famoso o movimento dos Chipko, na Índia, que nos anos 70 e 80 resolveram “abraçar as árvores” a fim de impedir a construção de estradas que cortassem seu território; lutas parecidas ocorreram na Malásia, Austrália, Brasil, Costa Rica, ilhas Salomão, Indonésia etc. No subcontinente indiano, na Malásia e na Indonésia, e em vários portos ao longo da costa do Pacífico, na América do Sul, incluindo Equador e Colômbia, pescadores defrontaram-se com frotas pesqueiras que invadiam suas águas; em vários casos, recorrendo a emboscadas, eles incendiaram os barcos que usavam redes de arrasto. Embora nem sempre ocorra destruição de maquinaria, a sabotagem um expediente comum – em 1986, na Tailândia, um conjunto de aparelhos químicos de alta pressão foi danificado; o espírito ludita permanece vivo, sustentado pelo desejo da população de manter seus costumes, não aceitando o capitalismo industrial e o mercado, nem a perspectiva de se tornar assalariada. A história de Piparwar tornou-se emblemática – provavelmente existem muitas idênticas, que não encontram espaços nos jornais. Tratava-se de um projeto multinacional de mineração, ao qual se associaram os governos da Índia e da Austrália, com vistas exploração das riquezas do rio Damodar. Os habitantes locais, detentores de uma cultura secular, temiam contatos externos com isso que j atendeu pelo nome de “civilização”, e hoje conhecido como “progresso”. Indiferente, no ínicio dos anos 1980, o governo indiano forçou muitos deles a deixar

suas terras comunais, fonte de auto-sustento há gerações, e liberou as encostas das colinas extração de carvão, altamente mecanizada e poluente. O projeto prometia empregos aos que haviam perdido seu espaço próprio, mas eram poucas as vagas que não exigiam nenhum nível de especialização – a maioria dos homens preferiu buscar trabalho nas regiões vizinhas, longe das famílias, a ter de carregar cestas de minério, para encher vages; e, no fim de 1990, a mecanização já incluía essa tarefa. O primeiro sinal de descontentamento surgiu com a ocupação do ramal ferroviário: cerca de 15 mil habitantes locais interromperam o tráfego por dez dias, e quem tinha alguma função no empreendimento abandonou o serviço. No dia 22 de janeiro, ignorando as detestadas maquinas, alguns trabalhadores retomaram as suas cestas; chamada pelos funcionários da empresa , a policia disparou contra a multidão, matando um homem e ferindo seis. Nas 48 horas seguintes, as pás mecânicas foram danificadas – por que meios, nunca se especificou, mas quem sabe não teriam sido os grandes martelos de Enoch? Consertadas ou substituídas, afinal, acabaram para sempre com a serventia residual dos carregadores. Claude Álvarez, agricultor, jornalista e escritor, nascido em Goa, argumenta que “a resposta ludita do Terceiro Mundo a indicação mais rica de rumos futuros”. Ele acredita que a réplica ludita se refere “opressão dual da ciência e do desenvolvimento”, apoiando-se em antigas crenças religiosas que rejeitam a “racionalidade cientifica” e num antagonismo contrário “colonização da consciência popular” - fatores presentes em todos os países “em desenvolvimento” e comuns às camadas populares e aos intelectuais. Impressionado por inúmeros exemplos de combatividade, Álvares previu a possibilidade de vitórias parciais a curto prazo e de um amplo sucesso “ ajudado pela ruína dos fundamentos da ciência moderna”. Não há duvida de que em décadas recentes um forte sentimento anti-ocidental e um agudo desencanto com a cultura industrial têm marcado muitas revoltas em diversas partes do Terceiro Mundo. Mas os fundamentalistas muçulmanos, do Marrocos ao Paquistão, também operam nesse sentido, ainda que sua critica extrema ao racionalismo a ciência não os levem a desdenhar as metralhadoras israelenses e os rdios transistores japoneses. Levantes armados na Somália, Argélia, Egito, Nepal, Indonésia, América Central e Filipinas têm antagonizado tanto regimes quanto corporações. Um líder da rebelião zapatista, iniciada não coincidentemente no dia em que o NAFTA entrou em vigor – 1 de janeiro de 1994 – disse explicitamente que o movimento pretendia combater “ o projeto neoliberal em toda a América Latina”; ele se referia ao comércio estrangeiro e agricultura de exportação, privatização de empresas estatais e ao capitalismo de livre mercado. O significado de tudo isso pode ser meramente secundário, mas não desprezível. No Ocidente, inclusive nos Estados Unidos, a radicalização neoludita atende pelo nome de “ecotagem” - a sabotagem que visa os agentes poluidores ou destruidores do meio ambiente. Desde os anos 70, ambientalistas de várias matizes tomaram iniciativas semelhantes contra industrias que se instalavam em áreas virgens, ameaçando devastar antigas florestas, deter o curso dos rios e interferir na vida de comunidades estabelecidas. Em meados daquela década, as famílias de agricultores do norte de Minnesota mobilizaramse contra as linhas de transmissão de energia elétrica que representavam riscos saúde e ao meio ambiente – usando alicates, na tentativa de derrubar as torres, elas só foram derrotadas pela violência policial. Tempos depois, a “Raposa”- codinome de um morador de Chicago – chamou alguma atenção obstruindo chaminés e sistemas de esgoto de fbricas poluidoras, antes de ser capturado. Nos anos 80, a ecotagem converteu-se numa verdadeira arte, principalmente graças aos esforços do Earth First! - organização ambientalista radical que badalava o slogan: “

Nenhuma concessão na defesa da Me Terra.” Sua tática consistia em utilizar quaisquer meios disponíveis – previstos por lei ou não – para deter agressões ambientais; valia tudo, da queima de pneus a destruição de motores de máquinas de terraplanagem, bloqueio de estradas por onde trafegam caminhes com toras de madeira e – isso deu manchete – pregos enormes enfiados nas árvores de florestas agrestes, de forma a impedir que fossem abatidas por moto serras. As publicações distribuídas gratuitamente pela organização – editadas pela Livraria Ned Ludd, que vendia camisetas com a inscrição “Ned Ludd vive!” - explicavam que seu objetivo precípuo era “o desmantelamento do sistema industrial”; preso por tentar derrubar uma torre de energia elétrica, um dos lideres disse que não pretendia apenas proteger a natureza, mas “ jogar uma chave inglesa” na maquina industrial. Na década de 1990, mesmo sem chegar a tanto, eles deram ao sistema prejuízos anuais estimados entre vinte e trinta milhes de dólares. Mais recentemente, a ecotagem ganhou novos adeptos. Grupos protetores de animais invadiram laboratórios que usavam cobaias em suas experiências, libertando-as e destruindo gaiolas e outros equipamentos. Contrapondo-se caça de focas prenhes e filhotes, no Ártico, ativistas danificaram os veículos dos caçadores e em pelo menos um caso atacaram e desarmaram caçadores, confiscando os porretes com que matavam os bichos. Com enorme repercussão, em 1986, a Sociedade Preservacionista Pastores do Mar, liderada por Paul Watson, assumiu a responsabilidade por causar danos irremediáveis em sete barcos pesqueiros que se dedicavam caça ilegal de baleias, quatro dos quais afundaram, no porto de Reikjavik, capital da Islândia; a industria de derivados da baleia acusou prejuízo de dois milhes de dólares. Os Pastores do Mar também “ecotaram” navios que caçavam golfinhos em águas japonesas e companhias madeireiras que devastavam florestas canadenses. Iniciativas semelhantes surgiram em várias partes do mundo industrial, algumas espontâneas, outras claramente imitativas do Earth First! Nos anos 80, na Austrália, resistindo ao abate da floresta Big Scrub, em Nova Gales do Sul, os manifestantes amarram as árvores com cabos, na esperança de quebrar as motoniveladoras, e subiram aos galhos mais altos, para evitar a poda – forçando um governo a criar um parque nacional. Prejuízos avaliados em mais de um milho de dólares levaram varias madeireiras falência. Na Europa, a ampliação da luta contra as usinas nucleares resultou na ecotagem das linhas de transmissão da energia elétrica que elas produziam e transmissores locais, na Alemanha, Escandinávia, França e Portugal; no fim dos anos 70, num assalto usina atômica de Bilbao, dois de seus empregados foram mortos - os prejuízos materiais chegaram a setenta milhes de dólares. Na Espanha e na Françaa, habitantes de diversas aldeias sabotaram equipamentos pesados de industrias high-tech em construção. As pessoas diretamente afetadas pela automação e os desempregados poderiam estar reagindo da mesma forma que os ambientalistas, através da sabotagem, mas a verdade que os deslocamentos econômicos que a segunda Revolução Industrial causou não tem provocado tanta indignação e ferocidade. No final dos anos 50, alguns sindicatos norte-americanos foram bem-sucedidos em desacelerar o ritmo da substituição de mão-de-obra pela máquina – Vide Sindicato de ladres* - ou com mais freqüência, garantir indenização aos dispensados – a greve dos metalúrgicos, em 1959, que durou 116 dias, teve motivação e venceu. Jamais houve qualquer tentativa séria de quebrar máquinas. No início da década de 1970, quando da segunda onda de automação, aí sim, ocorreram alguns casos de sabotagem, incidentes isolados, entretanto. A imprensa divulgou pelo menos dois deles: em 1970, os operários da fábrica da General Motors em Lordstown, Ohio, iniciaram uma “sabotagem criativa”,

com vistas a danificar partes do novo sistema de produção automatizada, e mantiveram sua decisão por um ano; em outubro de 1975, os gráficos do The Washington Post, temendo perder seu sustento para a tecnologia informatizada de “composição fria” , destruíram a maior parte das velhas prensas de tipos quentes - a revista Time os chamou de “luditas de Washington”. Contudo no curso de tais episódios não houve qualquer manifestação de caráter político, relacionando a questão tecnológica ao sistema como um todo, nem serviram eles para desencadear campanhas sindicais mais amplas. Isso não quer dizer que não tenha havido resistência, e tanto que o governo federal supôs estar diante de uma ação nacionalmente coordenada. Em 1973, autoridades do setor de Sade, educação e Bem-Estar (HEW) informaram que “o impacto da tecnologia tem sido agudamente sentido pelos operários”, acarretando uma acentuada queda de produtividade, “ medida pelo absenteísmo, níveis cadentes de produção, greves não autorizadas pelos sindicatos, sabotagem, produção de baixa qualidade ou simples morosidade”. O relatório recomendava que a resposta patronal devia oferecer aos operários mais “participação” na tomada de decisões como forma de tranqüilizá-los a respeito dos ganhos positivos de produtividade que derivariam, “principalmente, do aporte de tecnologia”. Por incrível que pareça, os trabalhadores norte-americanos e suas entidades sindicais engoliram a pílula, praticamente sem chiar. Sucessivamente, aguilhoados por terríveis perdas de empregos advindas da automação, as diversas categorias limitaram-se a obter compensações financeiras para os demitidos, garantindo “participação” aos que permaneciam em seus postos de trabalho. O sindicato dos estivadores, por exemplo, um dos mais poderosos, encolheu-se, negociou belos acordos, segundo os quais os trabalhadores manteriam seus salários anuais por toda a vida, estivessem ou não na ativa, permitindo que as companhias de navegação – fortemente apoiadas pelo Pentágono - usassem contêineres e cortassem a fora de trabalho em 90%. A base não protestou, não houve nenhum ato de sabotagem e as lideranças preferiram continuar complacentes, conforme observou mais tarde uma trabalhador do cais, “interferindo a favor da nova tecnologia”. Obviamente estavam todos fragilizados quando as companhias de navegação expandiram seus lucros e operações, pagando menos aos poucos homens que continuavam empregados – a maioria, operadores de guindastes – e a acabaram sucumbido informatização; as agitadas comunidades portuárias que antes cercavam os locais de trabalho e salões de contratação atrofiaram-se e desapareceram. Foram necessários dez anos para que se reconhecesse o erro que, por acordo ou coerção, levou a classe operaria norte-americana a render-se , rapidamente. Em 1974, o número de greves alcançou o pico, no mesmo nível dos anos 30 – muitas delas motivadas pela automação -, mas o movimento diminuiu drasticamente logo em seguida, chegando a menos da metade, em 1980, e a 1/10, em 1990. Minguados, diante de uma segunda Revolução Industrial to poderosa quanto a primeira, os sindicatos tornaram-se cada vez mais impotentes – em 1994, representavam somente 13% da fora de trabalho. A radicalização isolada produziu alguns exemplos de destruição de mquinaas. Quase sempre mantidas em segredo, a fim de evitar que outros trabalhadortes tomassem conhecimento delas, tais ocorrências nada mais forma do que rolhas de cortiça boiando no oceano. Ocasionalmente, umas poucas histórias vieram a tona: alguém urinou num computador do Departamento de Justiça, em Washington, danificando-o; os agricultores da Califórnia colocaram areia num tanque de gasolina de uma das primeiras colheitadeiras de tomate – mas não registro de ação organizada sequer entre os seis

milhões de demitidos no período de 1988 a 1993, muitos dos quais não conseguiram vagas equivalentes. Quando a informatização se generalizou, nos anos 70 e início dos anos 80, a reação foi de certo modo muito mais forte na Europa e até mesmo na Austrália, em grande parte devido a tradição dos movimentos sindicais que, todavia, só propondo greves, acabaram igualmente derrotados. Em 1977, na Austrália, o pessoal de telecomunicações cruzou o braço por causa de um novo sistema computadorizado que ameaçava vários empregos - “no vamos ceder lugar a um computador”, alardeou o sindicato; um dirigente chegou a anunciar “ o retorno do espectro dos Mártires Luditas (...) a fim de assustar os herdeiros daqueles que os haviam trazido algemados às nossas praias de Botany bay”. A disputa terminou numa moratória, que afastou as maquinas por breve espaço de tempo, mas não impediu que fossem instaladas, afinal, com algumas demissões negociadas. Pressionada pelos trabalhadores, a Lucas Aerospace, fábrica britânica que ficara famosa, em 1980 -81, tentando converter sua produção militar para uso civil, aceitou retardar seu projeto de informatização por um prazo inferior a um ano. Em 1982, na Dinamarca, os operários da cidade de Farum exigiram direito de veto sobre todo e qualquer empreendimento que importasse em novas tecnologias; a idéia tinha grande respaldo na opinião pública do país, mas ainda assim o governo, com apoio da central sindical, recusou-se a aceitá-la. No fim, o fracasso do sindicalismo europeu na luta contra a automação foi to devastadora quanto nos Estados Unidos. Uma análise elaborada ainda nos anos 50, por Clark Kerr e uma equipe de estudiosos, publicada somente em 1960 sob o título Industrialismo e homem industrial, concluiu que “ o protesto não teve grande influencia na industrialização nem obteve maior apoio social”. A pesquisa de inúmeros casos ocorridos em diversas partes do mundo comprovou que a resistência máquina, fabrica ou cultura industrial só é promissora no inicio do processo e onde os valores tradicionais permanecem fortes e as comunidades intactas. Ante os meios sofisticados co que as corporações controlam ou suprimem as queixas, os trabalhadores tendem a se acomodar, aceitando a fatia que lhes cabe. “A experiência detêm aspirações visionarias, transformando-as em expectativas mais sóbrias, da a diminuição das reclamações”, concluíram Kerr e seus auxiliares. Nos 35 anos seguintes, essa avaliação foi amplamente confirmada, e não temos razões para crer que não continue a sê-lo no futuro próximo. Em meio a todas essas manifestações contrárias industrialização não são poucos os ativistas e intelectuais que aceitam sem objeção o rótulo de neoluditas, trabalhando conscientemente para adaptar a experiência histórica política atual. Boa partes dele integra a Foundation for Deep Ecology (Fundação para a Ecologia Profunda), entidade fundada em San Francisco, no ano de 1992, sob a coordenação de dois veteranos militantes, Jerry Mander - autor de Quatro argumentos pela eliminação da TV e Na ausência do sagrado, destemidos ataques “megatecnologia” - e helena Norberg-Hodge – defensora da cultura dos povos do Himalaia contra a invasão da monocultura ocidental. O currículo de algumas das pessoas que fazem parte dessa combativa ONG sugere o perfil do neoludismo. John Mohawk um índio sêneca ativista, assistente da cátedra de Estudos Americanos, na Universidade Publica de Buffalo, Nova York; recentemente ele ajudou a redigir a Declaração da Confederação Iroquesa, contrapondo os valores da cultura biocentrica, animista e orgânica sociedade industrial. Jeremy Rifkin, autor de várias obras de critica sociedade industrial, preside a Fundação sobre Tendências Econômicas, lobby dos cidadãos de Washington que se opõe proliferação de biotecnologias e ameaça de aquecimentos global. Vandana Shiva, Doutora em mecânica quântica, tem atuado no sul da Ásia por mais de vinte anos, resistindo

penetração da Ciência ocidental e contra a destruição da biodiversidade e comunidades e métodos agrícolas tradicionais. Sigmund Kvalov, agricultor e escritor norueguês, desempenhou um papel fundamental para o desenvolvimento do movimento verde, na Escandinávia, e na liderança da resistência participação da Noruega na Comunidade Europa. Charlene Spretnak, primeira líder dos verdes norte-americanos, co-autora – com Fritjop Capra - de uma análise sobre política do movimento ecológica, defende uma perspectiva critica “ecofeminista” do mundo moderno, no meio acadêmico e literário. George Sessions, professor de filosofia em Sierra College, na Califórnia, principal porta-voz da Deep Ecology, prega a igualdade das espécies e a necessidade dos seres humanos viverem em maior harmonia, formando comunidades menores e em contato intimo com a natureza. Trata-se de um grupo heterogêneo, mas ilustre, atuando entre dezenas de militantes de estatura semelhante e idêntica vocação – unidos por uma determinada concepção filosófica do ludismo. Muitos deles estiveram envolvidos em ações diretas de vários tipos, mas não se tornaram conhecidos como destruidores de máquinas nocivas, ou incendiários de fábricas poluidoras – na maior parte dos casos, não se trata de gente diretamente ameaçada pelo avanço do industrialismo high-tech, ainda que conscientes do perigo que correm as sociedades a que pertencem e o meio ambiente. Por terem adotado uma filosofia to afim com o ludismo, independentemente dos atos que praticaram, que podem ser classificados como neoluditas. Isso está claramente sugerido na definição de Chellis Glendinning – que eles não são meras réplicas dos originais. Charles Cobb, economista e membro da Sociedade por uma Economia Humana - “uma economia voltada para as pessoas” - traçou a distinção da seguinte forma: A tática dos neoluditas contra as formas sutis de escravidão tecnológica não incluem a destruição física de máquinas.(...) Em contraste com os luditas originais, que se concentravam nos efeitos específicos de máquinas especificas, os neoluditas estão preocupados com o modo pelo qual a dependência tecnologia altera o caráter de toda uma sociedade. (...) Eles suscitam um reflexo sobre a inteira configuração da tecnologia moderna, e não a parir de fragmentos isolados. Evidentemente, os luditas originais também eram sensíveis as mudanças no caráter da sua sociedade, até porque conheciam bastante os antigos costumes – mas eles só assistiram a duas décadas de impulso industrial, o que lhes permitia maior esperança de deter o processo quebrando os teares a vapor, pelo menos no inicio. Os neoluditas compreendem o caráter polimorfo e extenso da tecnoesfera e seu poder abrangente, que atravessa a sociedade moderna horizontal e verticalmente, configurando-se muito alm do que os luditas originais nem sonhariam; por isso suas preocupações os conduzem em to diferentes direções – política ecológica, restauração ambiental, organização dos movimentos contrários às normas do GATT, preservação de áreas inexploradas, tecnologia alternativa, sobrevivência de culturas tradicionais, segurança dos alimentos, pesquisa histórica etc. Pelo mesmo motivo, eles não vacilam em se apropriar das tecnologias a que se opõem, incluindo telefone, faz, avies a jato e fotocopiadoras. John Davis, neoludita e editor do Wild Earth, adepto da visão de que “a tecnologia inerentemente nociva” , reconhece que dissemina suas idéias “ via computador, e-mail e impressora a laser”. São uma contradição e uma concessão que só se justificam em nome da urgência da causa e da necessidade de propagar ao maximo mensagem da resistência. Entre os próprios luditas existe outro entendimento, enunciado por Jerry Mender e amplamente aceito, acerca de “um aspecto intrínseco às tecnologias”, que traz conseqüências independentemente de quem usa, ou com que propósitos benignos; qualquer tecnologia, qualquer artefato, diz ele possui certos atributos impossíveis de serem corrigidos ou

mudados, produto do contexto político que lhes deu origem, e que inevitavelmente determinam seus usos e resultados. Mander afirma que uma “boa” usina nuclear inviável, pois nem que fosse operada por santos ela deixaria de ser frágil, perigosa, dispendiosa, concentradora de poder e danosa ao meio ambiente, tudo por conta de sua natureza essencial; idêntica impossibilidade envolve uma “boa” bomba, um “bom” pesticida, um “bom” automóvel. O que tais palavras sancionam um juízo segundo o qual a utilização de qualquer tecnologia, como o computador, traz consigo e grava cada vez mais fundo na ama do usuário o seu “aspecto intrínseco”, não importa quais os belos fins que ele tenha, nem quanto possa ser cauteloso ou consciente – o sujeito acaba abraçando, junto com os processos, os valores ideológicos da sociedade que produz tal tecnologia, tornando-se parte deles. Portanto, estando os neoluditas diante do dilema de não ter como evitar todos os aspectos do mundo industrial sem prejuízo da própria resistência, a questão que se coloca : como combater fogo com fogo.** Ante o embaraço, alguns neoluditas assumem uma postura mais vigorosa e purista. Wendell Berry, ensaísta e poeta, proprietário de uma pequena fazenda no Kentucky, diz: “Como agricultor, faço quase tudo o meu trabalho com auxilio de tração animal. Como escritor, uso lápis ou caneta, e um pedaço de papel – de dia, sem luz elétrica”. Evidentemente, o fato de seu manuscrito ser datilografado pela esposa numa velha maquina de escrever Royal - o casal trabalha junto no que ele chama de “ uma industria literária domestica” - não diminui o grau de simplicidade tecnológica. Obviamente, o texto datilografado passa por vários computadores apara ser editado, composto, impresso e vendido. Ainda assim, há uma certa lógica no método de Berry: ele não usaría um computador porque tal maquina representa o sistema ao qual sua escrita se opõe. “Não vejo que os computadores estão nos aproximando um passo que seja de qualquer coisa que importe para mim: paz, justiça social, saúde ecológica, honestidade política, estabilidade familiar e comunitária, bom trabalho”, diz ele. Não chega a ser surpresa ouvi-lo falar, com sua voz macia e arrastada de montanhês: “Sou um ludita”. Nos últimos anos do século, esse tipo de reivindicação deixou de ser rara. O físico Fritjop Capra fez igual declaração. Katharine Temple, do Movimento Operário Católico, convocou seus companheiros a “encontrar os mais variados modos de comportamento ludita”. Thomas Pynchon, romancista cuja paranóia abrange a tecnologia, após uma profissão de fé ludita, acrescentou que extrai conforto, “embora mínimo e frio”, dos versos escritos por Byron, sobre o ataque a Loughborough - “abaixo todos os soberanos, menos o rei Ludd!”. Joseph Weisenbaum, professor do MIT – Instituto Tecnológico de Massachusetts, disse: ”Penso que precisamos de um tempo, para nos desintoxicarmos da nossa ciência e tecnologia. Elas intoxicaram nosso espírito. Devemos impor uma moratória ao progresso. Se tais idéias são luditas, então também sou ludita.” Quem sabe quantos mais haver, aflitos, perplexos, ameaçados ou meramente preocupados diante de tecnologias arcanas e sistemas esotéricos, procedimentos desconhecidos at uma década atrás, maquinas todo-poderosas que impem servido ou sentimentos de inutilidade, num mundo que a cada dia mais ansioso, instável e profanado – e que murmuraram, talvez somente para seus botes: “Eu sou ludita”. Conforme se pode constatar, o espectro neoludita surpreendemente amplo e mais multifacetado e interessante do que muitos imaginam . Talvez não constitua ainda um movimento organizado, mas j engloba inúmeros adeptos, unidos pelo despertar do sonho tecnofilico e pela resistência a um ou outro aspecto da monocultura industrial – fato sociológico de considerável importância. Embora incipiente, com certeza desenvolvera novas linhas de consciência medida que se fortaleçam os tênues elos que vêm se formando entre grupos antes separados, e to logo questões distintas –

biotecnologia e livre comercio, devastação florestal e extinção de culturas tribais – passem a ser encaradas como manifestações de uma mesma besta-fera. Seria impossível calcular o numero de pessoas que podem ser atraídas por um movimento desse tipo, mas uma tentativa – a única de que tenho notícia – foi feita em 1992, pelo Dr. Felix Rizvanov, pesquisador da Academia de Ciências da Rússia; estimou em “aproximadamente, cinqüenta a cem milhes de pessoas, no mundo inteiro, que têm rejeitado a abordagem cartesiana cientifica e tecnocrata, e sua economia baseada no laissez-faire”.Se a cifra tem algum valor, permanece o obstáculo intransponível de fixar quantos se considerariam neoluditas convictos. No entanto, mesmo a partir de uma análise to limitada como a que tentei aqui, não é absurdo imaginar que o público-alvo da mensagem neoludita seja amplo e deva estar crescendo a cada dia que passa – ou que um ressurgimento e uma nova apreciação acerca dos luditas originais possa fornecer um paralelo que levar esse público alvo a se tornar rebelde contra um futuro nefasto, vislumbrando e afinal descobrindo um novo mundo a ser conquistado. Tradução: notas: * Filme de Elia Kazan, situado na época da primeira onda de automação portuária, sobre a aliança da classe patronal com a Máfia, para dominar os sindicatos e quebrar a resistência dos estivadores. (N da T) ** A respeito doas computadores, sobre os quais há tanta celeuma, basta citar dois dos seus defeitos – parte os fatos de ser necessário muito trabalho árduo e mal remunerado, poluição e riscos à saúde para que sejam produzidos; e considerável substituição e inutilização de mão-de-obra resultar de seu uso; e crescente vigilância e invasão de privacidade decorrente de sua utilização. Primeiro: nas mãos de grandes corporações e das burocracias centralizadas que os inventaram e aperfeiçoam, e a serviço da lucratividade e poder, os computadores estão levando o mundo, aceleradamente, rumo à iniqüidade e à desintegração sociais, à instabilidade e ao colapso ambientais - não importa quantas pessoas imaginem estar salvando o mundo através da Internet. Segundo funcionando - ou interpondo-se - como mediadores entre seres humanos e o mundo natural, os computadores, mais do que qualquer outra tecnologia, são capazes de reproduzir outra natureza, por meio da biotecnologia, além de criar as chamadas "virtuais"; são eles os instrumentos alimentadores por excelência da tecnoesfera, que nos distanciam de todos os entes que constituem o Universo, destruindo-os.Face a tudo isso, suas tão alardeadas vantagens - velocidade, comodidade etc. - de nada valem.

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