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O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig

TAUSSIG, Michael T. O diabo e o fetichismo da mercadoria na América do Sul. Tradução Priscila Santos da Costa. São Paulo: Ed. UNESP, 2010. Data do fichamento: 17 de setembro de 2013. Destino: Fetichismo da mercadoria.

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Capítulo 2. O diabo e o fetichismo da mercadoria Imagens de Deus correspondem ao modo de produção camponês, enquanto o diabo e o mal caracterizam a metafísica do modo de produção capitalista (p. 37). Olha! Será que a busca dos temas de pesquisa significa a busca pela representação de elementos religiosos, divinos que são negados pela Ciência? Pacto com o diabo para aumentar a produtividade no trabalho assalariado. O dinheiro obtido desse pacto é estéril, ele não pode ser aplicado para a compra de terras, pois a terra ficaria infértil. Além disso, o trabalhador que faz o pacto tem a saúde prejudicada e pode morrer antes do tempo. Tanto na Colômbia (canavieiros), como na Bolívia (mineiros) havia a participação de militância política e consciência de esquerda dos trabalhadores. Militância dos trabalhadores bolivianos é lendária. “Nas minas de estanho bolivianas, os ritos envolvendo o diabo também podem ter o papel de restringir a competição entre os mineradores, mas essa é uma questão por demais complexa e que não deveria obscurecer o fato de tais ritos referirem-se à relação político-econômica global de classes sociais em luta e ao caráter e significado do trabalho” (p. 40). O autor busca elaborar “a interpretação de que as crenças no diabo formam uma mediação dinâmica de oposições que surgem em um momento histórico de desenvolvimento particularmente crucial e sensível. Tais crenças podem ser pensadas como mediadoras entre dois modos distintos de apreensão ou avaliação do mundo, das pessoas e das coisas. Seguindo Marx, denomino essas formas de avaliação valor de uso e valor de troca” (p. 43). Para isso, o autor contrasta o “misticismo popular pré-

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45). os empreendedores capitalistas” (p. Terra. o meio social produtivo e a natureza estão cindidas para sempre. Tal resposta frustrou. entretanto. São organizados em mercados e tratados como mercadorias. A reação imediata dos trabalhadores que se confrontam com a moderna situação do trabalho assalariado nas empresas de negócios é de “indiferença em relação aos incentivos salariais e à racionalidade que motiva o homo economicus. “Da perspectiva do valor de uso. „O postulado de que 2 . trabalho e dinheiro – elementos essenciais da empresa industrial capitalista. agora dominadas pelo muno das coisas – coisas que elas mesmas criaram” (p. essa reação pode ser entendida como “tradicionalismo primitivo”. 43). sarcástico. 48). A incorporação é „paga‟ pelo salário ou pelo preço de venda. e ainda frustra. A transcendência desse tradicionalismo seria o espírito capitalista do cálculo. Para Weber. o que implicaria em um salário mais elevado. rotulou de fetichismo da mercadoria” (p. que não aceitou ser líder no Rei Frango. mas pelo menos dois influentes teóricos sociais consideraram a desconstrução da metafísica pré-capitalista da produção e da troca como mandatória para o estabelecimento bem-sucedido do capitalismo moderno” (p. e também na necessidade de causar sofrimento a outras pessoas. pois teria que pressioná-los a intensificar a produção. assim como a „posse‟ de uma mercadoria é transferida no momento da venda. Potlatch – banquete para o homenageado. as relações entre elas subjugam as pessoas. que distribui seus bens acumulados para amigos e familiares. Na sociedade capitalista a incorporação da pessoa ao produto “é exorcizada de acordo com as normas da propriedade privada burguesa. A mercadoria assume uma autonomia das atividades sociais humanas e. Depois ele espera receber também outras coisas quando for no potlatch de outras pessoas. esses elementos não são mercadorias. 57). Lembrar o caso de José Maria. [Weber e Marx] Sugestão de leitura: Sete domingos vermelhos. ao transcender essas atividades. vender ou comprar significa requerer ou perder toda conexão com o artigo transferido. As relações do produtor com o produto. De acordo com o léxico capitalista. de Ramón Sender.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig capitalista com a forma de mistificação capitalista que Marx. “Realistas birrentos rejeitarão com desdém essa resistência cultural como se ela fosse menos importante.

Arboleda – família que tinha muitos escravos. cultivar bosques e pagar dez dias de trabalho por mês. que. escreve Polanyi. Final do século XIX – tentativa dos senhores de escravo de aprovar uma lei violenta contra os escravos. Reificação leva ao fetichismo. Capital é comparado à árvore que gera frutos. Negros libertos descontentes no Vale do Cauca. foi estabelecido uma nova categoria de trabalhadores. 1781 – guerra dos comuneros. ambas presentes no cotidiano (p. Nas sociedades pré-capitalistas os produtos também aparecem com características das pessoas. que deveriam derrubar árvores. restringindo a produção nas roças e os encontros públicos. 73).O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig tudo que é comprado ou vendido deve ter sido produzido para a venda é enfaticamente falso‟. não é produzida para venda. mas com propósitos inteiramente diferentes‟. p. os concertados. Capítulo 3. Arboleda controlavam de forma rígida os arrendatários. 59). „O trabalho é apenas outro nome para a atividade humana que acompanha a própria vida. 68). Religião escrava e a ascensão do campesinato livre Dois pontos sobre a religião escrava na América Latina: a) brancos tinham receio dos poderes sobrenaturais dos dominados e o contrário também era verdadeiro. Europeus definiam a magia africana e indígena como maligna. 1852 – abolição da escravatura. Para evitar uma rebelião venderam os negros escravizados no mercado internacional. 3 . Mineração do ouro cessou após a abolição ao sul do Vale do Cauca. por sua vez. 72)” (p. Eles dividiram a mata virgem entre os negros. 1957. mas porque incorporam o contexto social onde foram criadas (p. Fetichismo da mercadoria – capital e produtos dos trabalhadores tratados com termos usados para pessoas e animais. E conclui: „a definição mercantilizada de trabalho. b) religião unida à magia. Um pouco antes. Colômbia. VER Reificação no dicionário do pensamento marxista. que aceitavam trabalhar alguns dias nas haciendas em troca de um pedaço de terra. terra e dinheiro é completamente ficcional‟ (Polanyi.

mas sempre perseguidos. Arboleda arrendou as terras também para fazendeiros de gado e estabeleceu uma elite trabalhadora de brancos. “O mercantilismo e a escravidão deram lugar às tentativas de criar uma economia de mercado. 96). que lhes negou seus direitos à representação política ou à possibilidade de qualquer estrutura de moradia representativa dentro do quadro administrativo oficial. Preses entre dois modos de produção. Mas a terra era abundante. e não por tempo e que as mulheres deveriam receber um salário menor. Ideias religiosas e sentimento místico formavam o núcleo duro de outros ideais políticos. Tanto conservadores como liberais recorriam à religião para difundir seus ideais. Novo campesinato continha elementos das tradições dos escravos e a dos escravos fora da lei (palenquero).O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig Para aumentar a renda. 93). e destituídos da segurança da posse da terra. Arrendatários refratários. “Os liberais estavam para o verdadeiro sentido de Deus como os conservadores estavam para o diabo. Porém. ritos rurais e magia. os camponeses negros formaram uma nova classe social que estava fora da sociedade” (p. 4 . a convulsão incessante de uma guerra civil e a natureza restrita do mercado de exportação tornaram insustentável a agricultura comercializável em larga escala. a cultura da servisão fora transcendida e esse tipo de contrato mostrou-se muito caro. “perseguidos por uma pequena nobreza hostil. com os mercados nacional e de exportação bloqueados” (p. Campesinato negro. os ex-escravos não podiam ser compelidos ao trabalho assalariado. Camponeses valorizavam o indiviso e as terras comuns usadas para criação de gados. os latifundiários tentaram recorrer a um „neofeudalismo‟ diluído pela contratação de mão de obra livre. 103). violentas guerras civis entre liberais e conservadores na Colômbia. pequenos proprietários” (p. 1840 – final da década. Tradição religiosa dos negros incluía crenças populares. Ele estabeleceu que o dia de trabalho dos negros deveria ser pago por produção. Mal podia ser diferente nessa sociedade saturada de religião e magia e com as feridas da escravidão ainda latejando nas almas dos agora relativamente independentes.

segundo a qual a luta camponesa por terra era santificada por uma tradição cultural complexa e desenvolvida a partir da escravidão. Quando os negros romperam com esse laço. A relação de Deus com o submundo permaneceria eternamente repleta da violência dos laços entre senhor e escravo. e quanto aos senhores. recrutaram Deus para seu lado. 1914 – Linha ferroviária cortava os Andes e ia até o Pacífico. 115). Elevada demanda por comida. “Os camponeses produziam para o mercado nacional. em 1900. centenas de famílias podiam reivindicar seu uso” (p. Proprietários e cercas Início do século XX – vitória dos conservadores após a guerra civil. Século XX – a terra é transformada em mercadoria. 112-113). Em geral. Os laços camponeses de parentesco e de povo significava que a acumulação capitalista era uma impossibilidade virtual” (p. Eles não eram capazes nem zelosos quando se tratava de expandir excedentes (. Aumento no preço das terras – grandes proprietários expulsam camponeses para iniciar a agricultura comercial em larga escala. essas terras comuns eram chamadas indivisos porque não podiam ser divididas: os direitos de uso eram herdados geração após geração. 107). sem divisões.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig “A religião popular e os ódios de classe – talvez consciência de classe – uniramse de forma simbiótica. Sul do Vale do Cauca – aumento da população rural e também da população urbana. “A revigorada classe empresarial tomara também as chamadas terras comuns – os vastos pastos que as pessoas utilizavam como se fosse um tipo de propriedade comunal..). 5 . sendo seu status legal muito complexo.. Nesse período era o presidente Reyes. Riqueza pode ser acumulada. visando guardar para as próximas gerações. Riqueza é diferente de capital. Capítulo 4. de forma que. Entrada de investimento estrangeiro no Vale do Cauca. O ódio aos privilégios de raça e de classe era alimentado por uma interpretação radical do catolicismo. dos palanques e dos esconderijos das classes camponesas foras da lei nas florestas ao lado das haciendas em falência. mas consumiam poucas das mercadorias disponíveis nesse mercado. que o diabo os carregasse” (p.

De 1933 para 1967 a área das terras dos camponeses diminuiu cinco vezes. compravam a produção dos camponeses. e ajuda a assegurar uma reserva elástica de força de trabalho para arcar com as flutuações da demanda” (p. Mas apesar do que dizem os contratantes. Cercamento das terras camponesas pelo desenvolvimento dos canaviais ao redor. Camponeses atacavam as propriedades que haviam sido retiradas. solapa a força política de todos os trabalhadores. Comerciante brancos. 121). 1930 – aumento da produção camponesa orientada para fins comerciais. logo. para acabar com as greves. em geral conservadores. “À medida que os camponeses voltavam-se cada vez mais para cultivos com fins comerciais. enquanto a população dobrou no mesmo período. essas 6 . facilita o controle dos trabalhadores. eles são contratados. diminui o gasto total com mão de obra. 129). em detrimento da antiga autarquia. “A mão de obra temporária não pode formar ou filiar-se a sindicatos. eles entravam em um círculo vicioso no qual vendiam a maior parte do que produziam e compravam a maior parte do que consumiam” (p. A partir de 1922 conflito entre camponeses negros e senhores de terra. comendo ou vendendo as sementes que acham jogadas no chão. O sistema contratual atomiza a força de trabalho. “Quando a terra era abundante e barata. Violência – forma como ficou conhecida a guerra civil colombiana entre 1948 e 1958. Mas quando a terra tornou-se escassa e cara. Grandes proprietários jogavam pesticidas nos cacaueiros para destruí-los. eles também se tornavam mais dependentes do dinheiro. na maioria das vezes. o cacau era uma escolha mais lucrativa que o café. O início do cultivo de café pelos camponeses nos anos 1920 foi uma resposta a esse fato” (p. Essas terras eram um indiviso. 123). temporários ou permanentes. “Mulheres e crianças trabalhadoras são conhecidas como iguazas. Algumas pessoas obtêm a maior parte de sua renda com esse tipo de coleta. Defendia os camponeses que lutavam contra a cobrança de impostos pelo cultivo do cacau.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig Cenecio Mina – feiticeiro poderoso que escapava da polícia. em referência aos patos migratórios que apanham sementes deixadas nas plantações. o café passou a ser uma alternativa mais lucrativa.

Submetidos a um autoritarismo humilhante. “Camponeses ricos incorporam a terra de seus vizinhos. perda das roças de subsistência. e o nivelamento econômico que costumava ocorrer com a morte de um camponês rico agora é raro. Quem faz o pacto morre cedo e de forma dolorosa. pois eles vendem ou alugam suas terras para os canaviais. Conhecida também como “Monstro Verde”. As mulheres perderam a provisão de comidas tradicionais que costumavam acumular nas roças antigas para vender nas cidades. O diabo e a cosmogênese do capitalismo Trabalho assalariado no agronegócio – mais árduo e menos desejado. e se tornaram mais que nunca dependentes dos homens. Capítulo 5. 135). sem lideranças organizadas. Para compensar essa ineficiência. Elas tornam-se reserva de mão de obra para os contratantes ou para os abastados da cidade.  Ruptura entre agricultura e nutrição – desenvolvimento do agronegócio. Trabalhador se situa entre dois mundos: proletário e camponês. Crença de que trabalhadores para aumentar a produtividade no corte de cana faziam pacto com o diabo.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig mulheres lutam de forma ocasional e espontânea. com o objetivo de aumentar a produtividade da agricultura camponesa. 7 . A partir de 1970 houve a promoção da Revolução Verde. o agronegócio se aproveita da eficiência do cultivo camponês. 1972 – povo organizou invasão aos canaviais e grandes fazendas. que as utilizam como empregadas domésticas” (p. “Prefiro ser gordo sem dinheiro que magro com dinheiro”. Pobreza que assola os camponeses é consequência da ineficiência do agronegócio. Trabalho em oposição à vida. sem que fosse feita a reforma agrária. deixando as plantações quando as taxas oferecidas são ofensivamente baixas” (p. 131). Cana-de-açúcar é fetichizada – planta que suga e devora as pessoas. Alimento x dinheiro originado da cana.

O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig Esterilidade do dinheiro – dinheiro advindo do pacto com diabo só poderia ser usado para consumo de luxo (produtos como manteiga. por medo.  Situações em que o pacto com o diabo não ocorre: “camponeses trabalhando em suas roças ou em roças de outros camponeses em troca de salário. “Imagem que ilumina a autoconsciência cultural da ameaça feita à sua integridade” (p. Capatazes dispensam o trabalhador que faz uso do muñeco. O homem que trabalha com o muñeco não precisa trabalhar mais que os outros. Muñeco – feito de farinha. Conceito cultural de cosmogonia para ler o pacto com o diabo feito a partir da transformação nos meios de produção da sociedade. este sim poderia utilizá-lo como dinheiro comum. Trabalhadores repreendem quem ultrapassa a média: “Nossa! Quanta coisa você fez com seu boneco!” Observação minha: lembrar do texto de Bourdieu. feirantes. Crença de que o dinheiro deveria ser compartilhado com um amigo. roupas finas e licor) e não como capital produtivo. 145). Ocorrência secreta. E suspeitam quando encontram trabalhador com produtividade muito elevada. a terra não produzirá e os animais comprados com esse dinheiro morreriam. Então. sobre a questão do tempo. mesmo quando compondo mão de obra proletária. com a ajuda de um feiticeiro. “Texto” – (Benjamin) ver o perigo presente que ameaça a sociedade com olhos do passado. Confecção de um boneco (muñeco) que deve ser levado ao local de trabalho. quando alguém produz e corta muito mais cana significa que está “fora do ritmo”. Estar em uma comunidade significa seguir os mesmos ritmos. mas ninguém diz que fez. Pacto com o diabo – todos já ouviram falar. Assim. trabalhadoras do sexo feminino. O desencantamento do mundo. Pacto deve ser feito em segredo. Ajuda de um feiticeiro para fazer o pacto com o diabo. e imigrantes da costa do Pacífico que voltam para onde 8 . individualizada e rara. Pensar também na questão dos grupos étnicos/pertencimento geográfico – os que “cortam muito e não dão trabalho”.

Mulheres Não fazem pacto porque são provedoras das famílias e das crianças. 146). Naquele local as pessoas o utilizam para rituais de cura e proteção contra feitiçaria. vela e fósforo. Camponeses locais Não utilizam o pacto com o diabo. “Por trás do princípio da mágica contagiosa pode-se perceber que.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig nasceram. 148). E o pacto implica em esterilidade e destruição do crescimento. Mulheres usam feitiçaria contra as amantes dos parceiros ou contra os parceiros infiéis. Xamãs indígenas absorvem parte da mágica africana. em formato humano ou animal. em 9 . Magia é utilizada para evitar que a propriedade seja roubada. A costa Uso diverso do muñeco na costa do Pacífico e nos canaviais do Vale. Analogia entre esferas produtiva e reprodutiva. mas tais metáforas exaltam o capital. eles têm “papel central na cura através do exorcismo de espíritos animais ou de xamãs vingativos que tenham sequestrado a alma do paciente” (p. Uso de bonecos não deve ser interpretado como um desejo de aumentar a produção. e sim como a regulamentação de um processo perigoso que está em questão. Boa magia ligada à alma dos mortos virtuosos e aos santos católicos – com a finalidade de proteger uma roça contra o roubo ou influências malignas. É interessante notar que a linguagem cotidiana da economia capitalista madura também utiliza metáforas biológicas. Bonecos são de argila ou madeira. “O aumento da produção sob incipientes relações capitalistas dá lugar à esterilidade da natureza e à falta de poder reprodutivo dos salários ganhos. Comprados com o dinheiro do marido infiel e pegos de uma pessoa malvada. Charuto. dotando-o de capacidades férteis” (p. Procurar o que é machete. Princípio: coisas incorporam e transmitem a essência espiritual de uma pessoa. trabalhando em uma economia não mercantilizada relativamente subsistente” (p. 147).

vida e morte. Cosmogonia lida com a mudança. a cosmogonia preexistente dos trabalhadores torna-se uma frente crítica de resistência. 152). Classes mais baixas – não são camponesas nem proletárias. “Como os escolásticos. o começo e o fim da existência. 150). O rito pretende destruir a potência masculina quando esta ultrapassa os laços com sua parceira de reprodução e passa a assemelhar-se ao investimento de capital apenas para aumentá-lo” (p. O que era considerado vício passa a ser virtude. produção e reprodução – todas essas questões interessam à cosmogonia” (p. que as classes dominantes tentam fazer funcionar seus princípios dominantes em uma nova tradição. modos de expressão. crescimento. 151). Evans-Pritchard – pensamento primitivo não foi assimilado pelo misticismo ocidental moderno. de mediação. “A fé no rito mágico é uma manifestação da virtude do antigo sistema e a deslegitimação do atual” (p. e que seu poder persuasivo encontra-se. “A magia não tem a finalidade de aumentar a produção. 10 . com os conceitos de infra-estrutura e superestrutura. unir-se a ele” (p. 154). medos e esperanças. 151).O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig certas situações. precisamente. Cosmogonia Tawney – revolução moral com o nascimento do capitalismo. no tipo especial de conhecimento que surge de tal criação” (p. “À medida que uma nova forma de sociedade de luta para emergir a partir da velha. uma troca de bens e dinheiro envolve a noção de que essas coisas incorporam e transmitem a essência espiritual de uma pessoa” (p. 151). Ciências naturais e positivistas – racionalidade instrumental X Nova Ciência – considera a experiência da vida cotidiana. Isso me lembra Marx e Gramsci. Novo cosmos em processo de formação – “Criação. Vico pensava que só se pode conhecer verdadeiramente o que se cria. e que conhecer algo é alguma maneira de tornar-se esse algo. 153) Weber – proletarização inaugura uma nova ordem natural: imenso cosmos que se apresenta ao indivíduo como uma ordem inalterável. “Ritos cosmogônicos criam realidade. ou ambas” (p.

por um lado. O diabo simboliza. Até hoje! Versão oficial da Igreja – cosmos dividido entre Paraíso. Feitiçaria ligada à sujeira e coisas maléficas. contradição e salvação. Associação com a morte e ressurreição de Cristo nos rituais contra feitiçaria e também no cultivo. o processo antitético de dissolução e 11 . “Baseada na mitologia da queda e da salvação. Santos estão na Igreja. Proibições da Sexta-Feira Santa. Poluição. a posição desses semicamponeses semiproletários é tanto de negação quanto de afirmação de todas as posições estruturais” (p. Ánimas – principalmente mãe e avó – servem de intermediários com Deus. enquanto os animas estão mais próximos do cotidiano. 1966). ligados ao mundo natural e à criação das primeiras coisas. 161). almas ou espíritos que se desligam do corpo e vagam pela noite. uma vez que os veem como primitivos. Exemplo: ánimas. a religião popular e a cura mágica no sul do Vale do Cauca são apenas a afirmação dessa unidade dialética entre bem e mal. nem ainda o que se tornarão – . 154).O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig “Como seres liminares – não são nem o que eram. “Em uma incessante dialética do conquistado transcendendo seus conquistadores. Sujeira e poluição são formas de proteger contra a contradição (Douglas. santos para pedir a sorte. Ánimas são invocados para impedir o perigo. Versão popular acrescenta a crença nos espíritos dos ancestrais. o significado social da desigualdade e do mal é mediada pela imersão no pagão do mito de salvação dos conquistadores” (p. Inferno e Terra. “Tanto negros quanto brancos atribuem vasto poder mágico a esses nativos forasteiros. Cosmologia em ação Cosmologia no Vale do Cauca tem origens na Igreja Católica. Base dos ritos e magia popular – a queda e a transcendência do mal na ressurreição. A tradição local também associa os indígenas ao renascimento mágico e ao misticismo da antiguidade mediterrânea na Cabala” (p. Capítulo 6. 161) Incredulidade e a sociologia do mal Cultura compartilhada para que a feitiçaria tenha validade.

o desencantamento do mundo. 173) 12 . A sujeira coloca em questão o paradigma mercantil da equivalência. mas o trabalho é mais intenso. por outro. sem divisão restrita de tarefas entre sexos e idades. Uniões por laços sociais que envolvem parentesco e vizinhança. “O medo da feitiçaria equivale ao medo de possuir mais que os outros. mas não são vistos como ricos ou pobres porque existe a redistribuição e a reciprocidade. o crescimento. produção de alimentos. constituindo uma pilhagem moral e material. a cada um segundo a capacidade. A cada um segundo a necessidade.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig decomposição. Há diferenças econômicas entre os camponeses. A feitiçaria é o mal. Trabalho visto como mais prazeroso física e socialmente. Trabalho envelhece rápido. Dois tipos de igualdade: igualdade social humana e a igualdade de direitos e oportunidades. Relações impessoais e opressivas. os salários aumentam. Mas suas raízes residem em preocupações legítimas com relação a esferas em que a competição coloca individualismo e comunitarismo em confronto” (p. 171). No pacto proletário com o diabo. Sistemas de troca no Vale do Cauca:  Agricultura camponesa: sistema de reciprocidade e auto-renovação. encontramos no diabo o processo mais paradoxal e contraditório. o que indica que não houve partilha. Sob tais condições. a transformação e a reformulação de velhos elementos de acordo com novos padrões. 166). produção e destruição tornam-se termos intercambiáveis e em intercâmbio” (p. Lembrar do exemplo no livro de Bourdieu. Lembrar que Itana disse que Henrique Hildebrando tinha feito pacto com o diabo. Recebem mais que os camponeses. Agronegócio se apropria da terra dos camponeses. são estéreis e cheiram à morte. e é essa dialética de destruição e de produção que constitui a base da associação do diabo à produção do agronegócio – morte em vida e esterilidade florescente. (p. porém.  Sociedade dos canaviais: troca desigual e autoextinção. Mesmo para os camponeses que trabalham em terras de outros camponeses. Portanto.

193). 13 . “Quando o sistema mercantil penetra em uma formação social pré-capitalista. 177). “Uma mudança no modo de produção é também uma mudança no modo de percepção” (p.O diabo e o fetichismo da mercadoria Michael Taussig Oeconomia – modo de produção doméstico. 185). o dinheiro é estéril. 176). “A questão que Marx se coloca. As superstições são “formulações precisas que implicam uma crítica sistemática da invasão do modo capitalista de produção” (p. Capital é antinatural e imoral. Os homens criaram em conjunto produtos que ocultam sua vida com uma objetividade fantasmagórica” (p. No pacto feito com o diabo. a do mistério do crescimento econômico capitalista da acumulação do capital a partir da qual o capital parece criar mais de si. Homens são mais adeptos às tecnologias da Revolução Verde. Capítulo 7. Batismo do dinheiro – pacto feito com Deus. o mesmo acontece com o mercado e com as mercadorias – entidades sociais criadas pelo homem mas que funcionam na imaginação coletiva como seres animados dotados com a vida que o homem nega a si. “Assim como com Deus. 185). O batismo do dinheiro e o segredo do capital Batismo do dinheiro na igreja. parece ocorrer neste caso com a ajuda de forçar sobrenaturais invocadas pelo batismo cristão da cédula de dinheiro” (p. então o dinheiro é fértil. Dava um nome para a nota e passava ela para frente durante uma negociação. esperando que recebesse de volta o dinheiro acrescido de mais valor. Mulheres são responsabilizadas pelo cuidado dos filhos. as duas formas de fetiche – a magia da troca recíproca e a magia da troca mercantil – afetam-se mutuamente e coalescem em uma nova forma” (p.