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ases e faces da migração em São Paulo

Universidade Estadual de Campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Vice-Reitor Edgar Salvadori de Decca Pró-Reitor de Desenvolvimento Universitário Roberto Rodrigues Paes Pró-Reitor de Pesquisa Ronaldo Aloise Pilli Pró-Reitor de Pós-Graduação Euclides de Mesquita Neto Pró-Reitor de Graduação Marcelo Knobel Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários João Frederico da Costa Azevedo Meyer Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa Ítala Maria Loffredo D’Ottaviano Coordenação do Núcleo de Estudos de População (NEPO) Estela Maria Garcia Pinto da Cunha

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ases e faces da migração em São Paulo

Rosana Baeninger

3.unicamp. Rosana. 1920 Ficha Catalográfica Adriana Fernandes FICHA CATALOGRÁFICA Fases e faces da migração em São Paulo / Rosana Baeninger.nepo. Teixeira Capa. I. ISBN 978-85-88258-32-7 1.Campinas: Núcleo de Estudos de População-Nepo/Unicamp. 2012. Título. São Paulo. . Migração internacional. II.br Apoio Projeto: Observatório das Migrações em São Paulo FAPESP – Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Organização e Revisão Geral Rosana Baeninger Colaboração Maria Ivonete Z. Produção Editorial Traço Publicações e Design e Diagramação Fabiana Grassano Flávia Fábio Foto da Capa Família Batola Raffaelli. Albert Einstein. Baeninger. . 2. 146p.Núcleo de Estudos de População (NEPO) – UNICAMP Av. 1300 – CEP: 13081-970 – Campinas – SP – Brasil Fone: (19) 3521 5913 – Fax: (19) 3521 5900 www. Migração interna.

.......................................................... 144 Créditos fotográficos ............................................................................. 114 Novos imigrantes do Pós-Segunda Guerra Mundial.............................................. 132 Migrações internas do século 21.............................................................................................Sumário Introdução............................................................................................................. 122 Linha temática II..................................................................................................................................... 7 9 12 37 58 86 88 99 Faces da migração em São Paulo....... 116 Migrações rurais-urbanas......................................................................................................................................................... Fases da migração............................... 142 Mobilidade dos Povos Guarani..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... Referências.............................. Linha Temática I...................................................................................... 143 Emigração de brasileiros............................................................................................................................................................................................................................ registros de vida.................................... 140 Cenas da presença nordestina......................................................................................................................................................................................... 125 Cidades e imigração............................................................................................................................................................................. Migrações......................................... 147 ............................ 126 Imigração internacional contemporânea............... Migrações: modalidades migratórias e urbanização......................................................................................................................................................................................................................................................... 97 Registros históricos.................................................................................................................................. 138 Local de origem dos migrantes temporários..................................................................................................................... Considerações finais...................... 104 Entrada de imigrantes durante e Pós-Primeira Guerra Mundial............................................ 100 Registros históricos.......................................................................................................................................................................................................................... Migração: tipo e etapa.................................................................. 118 Desenvolvimento e imigração....................................................................... Migrações.......................................................................................................................................................................................................................................

I .

A reconstrução histórica desse fenômeno. a complexidade. Considero que as migrações internas também se redesenham nessa nova ordem internacional. que se redefinem na composição de um movimento mais amplo de transformação social. e a identificação de tipos ideais (Weber. Na segunda parte. De um lado. 1973). seletividade. 1949:90). dentre outros autores.. – é composto por duas partes. são as fases da migração. a tipologia permite captar “fenômenos individuais concretos (.) dispostos em uma construção analítica unificada” (Weber. De outro lado. Nas condições sociais contemporâneas. Na reconstrução histórica do fenômeno migratório pode-se encontrar elementos que permitem acompanhar o deslanchar de processos posteriores. desde meados do século 18 até o século 21. analisa-se os processos migratórios que deram origem à nossa sociedade atual. 1949) na migração são aportes que auxiliam na analise de contextos. subtipos (denominados neste estudo de modalidades migratórias) e comparações em meio aos diversificados movimentos migratórios experimentados pela sociedade brasileira.I I ntrodução Os desafios teóricos e metodológicos para o estudo das migrações internas e internacionais têm pautado os estudos da comunidade científica nas últimas décadas. apontam para uma nova era das migrações a partir do final do século 20. Do ponto de vista metodológico e teórico. com o aporte teórico histórico-estrutural (Singer. acompanhando as migrações nas diferentes etapas da dinâmica econômica do país. Bauman (1999).. o contexto macro presente no enfoque histórico-estrutural contribui para construção da relação entre etapa da economia e movimentos migratórios específicos. as faces nos convidam a pensar nos desafios entre a ação social dos indivíduos e os processos mais amplos da sociedade. Com essas preocupações de pesquisa. a importância. . busca-se apontar as faces da migração em São Paulo através do olhar para documentos e fotos. Castles e Miller (2004). as novas rotas e direções coexistem com processos migratórios antigos (internos e internacionais). este livro – produto das reflexões de pesquisa do projeto temático Observatório das Migrações em São Paulo: fases e faces do fenômeno migratório no Estado de São Paulo. Na primeira delas. etapas. e é nesse contexto que a centralidade de São Paulo no âmbito das migrações internas no Brasil contribui para avançar no conhecimento dos processos migratórios (internos e internacionais) na atualidade no país.

F 8 | Introdução .

A preocupação com a reconstrução histórica permite observar tipos e características dos movimentos migratórios relacionados a etapas da economia. todavia. determinado tipo de movimento migratório Introdução | 9 . indicando uma maior complexidade do fenômeno migratório. É possível apreender a contribuição da migração como população necessária em determinados momentos e como população excedente em outros. Os movimentos migratórios apresentaram características distintas em cada uma das etapas econômicas. onde processos histórico-estruturais engendraram movimentos migratórios que compuseram a sociedade brasileira de maneira geral. que a separação analítica entre essas ordens de fenômenos – tipo migratório e etapa da economia .permite vislumbrar reciprocidades da dinâmica econômica sobre os processos migratórios e. causas. uma vez que. embora a migração seja sempre definida como uma mudança de residência. consequências bastante variadas. por outro lado. Embora não se possa estabelecer uma relação linear entre tipos de movimentos migratórios e etapas da economia. Desse modo. a partir da qual é possível compreender tipos migratórios em etapas específicas da dinâmica econômica do país. meus estudos apontaram a existência de uma defasagem entre os processos. em particular a relação migração/industrialização. o entendimento dos processos migratórios nacionais contemporâneos tem suas raízes históricas assentadas na passagem para uma sociedade urbano-industrial. dos movimentos migratórios com relação ao evolver da economia. envolve sentidos. Tal centralidade permite reconstruir análises acerca da evolução de sua dinâmica econômica e as migrações. direções.F F ases da migração A primeira parte deste livro objetiva apontar reflexões acerca dos movimentos migratórios no Brasil. até os anos 1970 há simultaneidade nesses processos. destacando a centralidade de São Paulo. Considero. a partir de então.

até o final do século 20. 2010). No olhar dessas análises. com destaque para os anos 2000. Sassen. Essa perspectiva de reconstrução teórico-metodológica do fenômeno migratório possibilita apreender suas dimensões teórico-explicativas em cada situação histórica concreta. 1992. o panorama para o entendimento das migrações internas se amplia.teve sua expressão num momento e pode ter significado diferente noutra etapa e em outro espaço. 1974). A reconstrução histórica das migrações internas no Brasil e seus aportes teóricos estiveram. Nesta minha trajetória de estudos busco apontar as fases e faces do entendimento dos processos migratórios. as configurações atuais das migrações internas no Brasil explicitam o enfraquecimento das forças centrípetas como absorvedoras de contingentes migrantes que acomodaram a redistribuição das migrações no país por quase um século. meus estudos recentes buscam incorporar – às explicações dos movimentos migratórios internos – os reflexos da nova ordem econômica internacional. onde a rotatividade migratória (Baeninger. Desse modo. A inserção periférica de espaços nacionais no âmbito da atual globalização passa a incluir dinâmicas locais ao sistema-mundo (Wallerstein. aponta especificidades nas complementaridades regionais no fenômeno migratório no país. Todos esses fenômenos compuseram e podem explicar os processos migratórios até o final dos anos 1990. incluindo-se a dimensão espacial. a defasagem entre as dinâmicas econômica e migratória que se redesenhou a partir dos anos 1990 reflete os processos de reestruturação econômica em uma nova sociedade global. emergem indícios de formas sociais globais nos processos migratórios. além do contexto nacional é preciso incorporar as transformações advindas da nova divisão social do trabalho no mundo (Harvey. Considero que ao entrarmos no século 21. alicerçados nos processos internos vinculados à dinâmica econômica e a penetração do capitalismo em âmbito nacional. a industrialização. A dinâmica econômica do local/nacional se estabelece como o pano-de-fundo das migrações. a desconcentração econômica. o processo de urbanização. Nessa perspectiva. mas não como a única determinante – diferentemente de quando estávamos em busca do tipo/etapa. Tornam-se limitadas as explicações das migrações internas no país apenas pelos movimentos estruturais ou conjunturais da dinâmica da economia brasileira. 1988). sendo que para as migrações dos anos 2000 é preciso abrir o olhar para fora das fronteiras nacionais. 2008) permite captar a fluidez da força de trabalho. a reestruturação produtiva. A inserção do Brasil no cenário da economia internacional. A penetração e expansão do capitalismo na ordem global expressam novos arranjos das migrações internas que refletem e são refletidos na lógica externa redesenhada pela divisão internacional e territorial do trabalho. as migrações rurais-urbanas. trazendo desafios para a 10 | Fases da migração Rosana Baeninger . Os processos transnacionais da economia habitam de modo simultâneo os espaços nacionais (Sassen.

no capítulo “Migração:Tipo e etapa”. Essas reflexões compuseram o ensaio para concurso de professor livredocente no Departamento de Demografia da Universidade Estadual de Campinas. financiada pela FAPESP e CNPq. O estudo beneficia-se das preocupações e análises da pesquisa Observatório das Migrações em São Paulo: fases e faces do fenômeno migratório no Estado de São Paulo. em desenvolvimento no Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas. 2002) e para suas metodologias de análises. pois o tipo migratório teria o alcance de explicar as causas do fenômeno na relação migração e desenvolvimento. Migrações” internas e internacionais no século 21 com o desafio de incorporar dimensões da escala global para o entendimento dos processos migratórios nacionais. período entre 1970-2000. período em que a diversidade de situações migratórias explicita a necessidade de incorporar a dimensão espacial e o processo de urbanização para o entendimento da complexidade que os movimentos urbanos-urbanos imprimiram. em março de 2012. Assim. Vainer. 2012 Banco de Imagens Observatório das Migrações em São Paulo Rosana Baeninger Fases da migração | 11 . Município de Santos.interpretação dos movimentos migratórios em diferentes escalas (Brandão. No capítulo “Migrações: mobilidades migratórias e urbanização” encontram-se as Migrações – no plural. a busca pela explicação do fenômeno migratório inicia-se nesse texto pela Migração – no singular. o último capítulo situa as “Migrações. 2007. abrangendo o período do final do século 19 até os anos 1970. Finalmente.

Lopes (1973). dentre outros. café. Graham e Holanda (1980). 1991). por sua vez. Merrick e Graham (1981) concluem que do início do século 18 até princípios do século 19. a economia do país foi marcada por ciclos de crescimento de exportação baseado em mão-de-obra escrava (pau-brasil.. Cano (1977).contribuíram para a ocupação do território e para a formação da sociedade1. mineração. 2001). tendo como elementos básicos os processos migratórios e de urbanização (Faria. pelo menos. 12 | Fases da migração Rosana Baeninger . borracha). cana de açúcar. expressivos contingentes populacionais que – seja pelas migrações internas e/ou internacionais . No bojo das transformações econômicas estruturaram-se e redefiniram-se. a recuperação histórica permite identificar articulações da etapa econômica e a migração até. A dinâmica da redistribuição da população no espaço vincula-se. às transformações estruturais pelas quais a sociedade brasileira passou.17) “cada ciclo [. pecuária. a população brasileira Destaca-se na bibliografia nacional os importantes estudos de Faria (1991). a última década do século 20. Merrick e Graham (1981) analisam que desde o início do período colonial. Singer (1973). Como salienta Martine (1990 p. Nas condições histórico-estruturais advindas de períodos antecedentes à emergência de uma economia capitalista já se podia visualizar estreita relação entre a dinâmica da produção econômica e os processos migratórios. em suas distintas etapas de desenvolvimento econômico. De fato.M M 1 igração: tipo e etapa O Brasil mobilizou. Lopes e Patarra (1975). sociais e políticos] seja muito mais íntima que a das outras variáveis demográficas”.] ao deslocar o eixo geográfico da atividade exportadora mais dinâmica. também ocupou novos territórios e provocou a aparição de novos núcleos de assentamento”. os movimentos migratórios de acordo com os locais da produção de riqueza (Matos e Baeninger. Balán (1974).17) “é indiscutível que a imbricação da história migratória com esses processos [econômicos. sendo que para Martine (1990 p. historicamente..

24 7.418 População Total 1854 1872 1887 250.319 8.110 1.25 8.612 107.839 17.644 % População escrava no total 1854 1872 1887 17. A concentração da população escrava.922 5.053. “foi o período de mais rápido crescimento relativo da população do Brasil” (p.Tabela 1 População Livre e Escrava Grandes Regiões. em função da alta mortalidade.188 1.65 21.672 13. em função da predominância da economia açucareira.588 480.48 25.410 449.125.889 3.732.72 22.56 8.679.952 398.873 382.329 317. havia metade desse contingente: 1.093 304.812 309.057. Brasil.850.70 8.423 3.669. 1995). O tipo migratório pautado na migração forçada de escravos para economia colonial .248 716.735 3.305 2.30).334 7.000 837.191.56 10.459 191.760 370.212 4.510. 1974).616 5.94 1.8).534 655.337 1.23 32.947 1.19 8.21 5.696 1.806 723.752 341.351.013 243.560 5.700 721.437 10.306 482.512 891.36 3. 1968 p. ano anterior à abolição. em especial para a monocultura da cana-de-açúcar e para a primeira fase da economia cafeeira determinou a ocupação territorial e populacional e as especificidades das economias regionais nos séculos 18 e 19 (Franco.039.335.731 156.000 332. resultado da imigração portuguesa e da importação de escravos.842 8.645.602 984.206.882 21.203.995 801. passou de 300 mil para mais de 3 milhões.392 1.16 12.844.354 1.1872.907 28.158.644 283.077.952 9.800 4.940 3.493 301.571 117.452 1.84 2.931 1.23 Fonte: FIBGE.389.002 1.436 628.161 203.66 15.269 680.22 23.323.16 6.40 18.226 População Escrava 1854 1872 1887 43.864.55 18.553 378.419.909 95.872.6 milhão.335 16. 1887 Regiões Norte Nordeste Sudeste SP MG RJ Sul C.216.444 500.409 205.120 1. mas as maiores proporções em relação à população total ocorriam nas Rosana Baeninger Fases da migração | 13 .152 2.121.Oeste TOTAL População Livre 1854 1872 1887 206.056.276 2.895 265.638.548 3.29 17. do fim do tráfico negreiro e das libertações (Balán.243 846.016. se dava no Nordeste (50% em 1854 e em 1872).200.930.146 6.742 1.302. sendo que em 1854.576 169. Estima-se que o tráfico de escravos tenha trazido mais de 4 milhões de cativos para o Brasil. 1974). Furtado.11 24.361. 1854.151 5.51 27.847 460. Brito (2002). denotando. 1960.663.000 1.que perdurou por três séculos (Bassanezi.54 2. contudo “a inexistência de qualquer divisão de trabalho interregional no país” (Singer.29 12.478 13.000 220.264 93.28 33.

do ponto de vista da construção da migração como processo histórico-social. No conjunto da população brasileira. ainda em 1872. Tabela 2 14 | Fases da migração Rosana Baeninger . A economia cafeeira escravista.3 milhão de habitantes. com a entrada de imigrantes europeus. Os estados do Sudeste. já se nota a inversão nos volumes de população com São Paulo em 1890 (1. chegando a representar. e São Paulo. contudo. 22% da população do Sudeste.224 e 1. São Paulo chegou ainda em 1887. esse diferencial entre as regiões havia sido de um milhão de escravos nos anos de 1954 e 1872. da entrada maciça de imigrantes europeus em São Paulo. em 1854. por exemplo. No caso do estado de Pernambuco. os últimos anos do século 19 já delineavam “a base de desequilíbrios criados pela economia exportadora” (Balán.384. Com isso.regiões Sudeste e Sul. Assim. os estados de Rio de Janeiro. respectivamente). 1974. portanto. c) as transferências interregionais dentro do próprio Sudeste de áreas não cafeeiras e de áreas cafeeiras pouco produtivas. passavam a aumentar sua participação da população escrava. com a redução no número de escravos no Norte e Nordeste. 837 mil. que se refletia na inversão dos volumes populacionais entre estados do Nordeste e os do Sudeste entre 1872 e 1900 (Tabela 2). Nota-se aqui. que viria a ocorrer depois de 1890.5 milhões e 5. o volume populacional de escravos no Nordeste passava a ser muito próximo daquele do Sudeste em 1887: 5. enquanto no Nordeste a população escrava – que representava 17% em 1854 .030.753. A partir de 1900. A Bahia. segundo Brito (2002 p. 1974 p. era principalmente terra e escravos. em função do tráfico interprovincial que acompanhava a expansão cafeeira. Minas Gerais e São Paulo tiveram seus volumes aumentados.baixava para 3% em 1887.4 milhões. “na sua fase do plantio. De fato. Buarque de Holanda. Merrick e Graham (1981) consideram três fontes internas de trabalho escravo para as plantações de café depois da suspensão do tráfico negreiro em 1851: a) as transferências das áreas urbanas do próprio Sudeste para as plantações entre 1840 e 1850. 1991) já se constituíam em modalidades migratórias internas no Brasil ainda antes do trabalho assalariado. Antes. já registrava 1.6). as transferências inter-regionais de escravos de que chama a atenção Merrick e Graham (1981) e os deslocamentos de escravos e libertos (Balán. b) a transferência interregional de escravos do Nordeste para o Sul-Sudeste de 1850 a 1870. a população de São Paulo ultrapassaria a da Bahia também. gradativamente. com 8% de sua população nessa condição. Escravos havia disponíveis internamente para serem transferidos”. as raízes da complementaridade migratória e do início dos fluxos de população entre os estados do Nordeste com São Paulo.41). no Rio de Janeiro a população escrava alcançava 33% da população total do estado naquele ano (Tabela 1). respectivamente.

14 Fonte: FIBGE Censos Demográficos de 1872. 1890 e 1900. 1890 e 1900 Regiões Brasil Norte Nordeste Ceará Pernambuco Bahia Sudeste Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo Sul Rio G. portanto.686 841.057.560 721.43 7. se processou com a transferência de mão de obra das regiões de menor produtividade para outras de maior dinamismo (Furtado.719.930.70 4.919. já conduzia a modalidades migratórias específicas. nesta época.507 849.117.478 322.78 20.616 3.333.735 1..282. 1984). Segundo Brito (1997) a economia escravista contribuiu para gerar dois grandes reservatórios de força de trabalho no país.97 6.631 3.93 22.802 4.796.434 695.384.95) “cada ciclo mobilizou importantes contingentes populacionais [.21 9.430.08 10. Brito (2002) destaca que “as migrações internas já tinham uma contribuição importante. O saldo migratório interno do estado.030.61 9. esta população continuou sobrevivendo. 1974). dentre elas as transferências de população Rosana Baeninger Fases da migração | 15 .10). Esse foi o processo experimentado entre o Nordeste e o Sudeste já no período de 1854 a 1890.915 476.47 13.178.535 1.687 1.455 320.337 434.66 9.65 8. entre 1872-1890.179.26 4.847 4.] passado seu auge.696 837. ainda com a presença escrava. “o que seria insuficiente para garantir o expressivo crescimento da população livre“ (Brito. Brasil.32 41.22 N 14.127 1.542.812 % 100 3.309 1900 % 100 3. A expansão da região cafeeira.099 1.18 13. Bassanezi (1995) e Brito (2002) indicam que segundo os censos demográficos de 1872 e 1890 os volumes de estrangeiros em São Paulo eram de apenas 29 mil e 75 mil.370 6.224 1.População Total Grandes Regiões.354 721.77 12.399 1890 % 100 3.26 8.112 6.150 2.99 38.30 6.97 13.98 6. contribuindo para a ocupação do território”. correspondeu a 16% do incremento absoluto dessa população (Graham e Buarque de Holanda..438. O tipo migratório baseado na mão-de-obra escrava.638.279 1.02 20.149.399. respectivamente. um no Nordeste e outro em Minas Gerais. Como apontou Faria (1973 p.184.568 2.55 10.332 3. para o crescimento da população de São Paulo”.594. 1872.495 1.62 7.749.078 2.15 31.35 46.59 2.24 N 17.715 897. provavelmente numa área maior.813 220.039.38 2.738.379.956 5.047 805.471 1.753 1.26 2.76 9.87 5. 2002 p. do Sul Centro-Oeste 1872 N 9.71 7.539 1.39 32.070 373.89 32.002.

Bassanezi (1995) destaca a diversificação dos movimentos migratórios ultramar através de projetos de colonização dirigidos a imigrantes livres europeus (alemães. 1974). é a história da formação do capitalismo moderno. porém necessitada do trabalho assalariado. De fato. De fato. e com a necessidade emergente de se promover a imigração internacional. pelas ondas de migração portuguesa voluntária e pela transferência da Corte Imperial para o Brasil. A lei de terras. a história da 16 | Fases da migração Rosana Baeninger . ocupacional e geograficamente móvel. a questão da terra assume uma nova dimensão. consequentemente. acelerado pela importação maciça de escravos. 1995).8) “a história da formação de uma força de trabalho. essa modalidade migratória – migrações internas advinda do tipo migratório imigração forçada de escravos africanos na etapa da economia da monocultura de exportação . no regime da parceria) e nãoportugueses já em meados do século 19. em outro tempo e em outra escala.56) “problemas demográficos passam a ser problemas políticos. suíços. bem como objetos de políticas que sanassem a questão da mão-de-obra”. o governo do Império já tinha entregue às companhias de colonização grande parte das Províncias do Sul: Paraná.] A imigração internacional foi contemplada na lei pelas vantagens concedidas à pequena propriedade necessária à colonização européia. E para Brito (2002 p. Balán (1974 p. 2009) guardariam suas marcas também nos históricos processos migratórios da formação social do país em períodos posteriores. Santa Catarina e Rio Grande do Sul”. Na medida em que essa formação se faz através de atividades econômicas novas e da reelaboração ou do desaparecimento de outras. por exemplo. com a inevitável agonia da escravidão. O contexto da virada do século 19 para o século 20 imprimiu novas relações sociais no Brasil.Transformou-se no tipo migratório dominante somente em etapa bem mais avançada do processo de desenvolvimento do capitalismo no país. com a transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado (Balán.7) “a eminência da proibição do tráfico de escravos e. Nesse processo. as do café [.7) assinala que “apesar do rápido crescimento que a população brasileira experimentou durante o século XVIII e a primeira metade do século XIX. Nesse sentido. principalmente. não restava dúvida de que o progresso do Brasil estava sendo freado por falta de população num extenso território”.1936). localizadas diferencialmente no espaço. formalmente livre. a migração cumpriu papel fundamental para a expansão e desenvolvimento do capitalismo (Hobsbawn. Para Balán (1974 p. Para Graham e Holanda (1971 p..do Nordeste para o Sudeste (Buarque de Holanda..viria a ter impactos significativos na constituição da sociedade brasileira posteriormente. As condições de “dependência passada” (Siqueira. a abolição gradual da escravidão e a imigração internacional são dimensões de um mesmo processo: a transição para o trabalho assalariado no Brasil com o menor custo possível para as oligarquias.

1989. Braços para a lavoura (Bassanezzi. 1970. assinala Bassanezi (1995). para uma sociedade primário-exportadora trouxe. representando 6%. desempenhando importante papel na vida econômica e social do País (Balán. com a abolição da escravatura e com a expansão cafeeira a partir das últimas décadas do século 19 (Balán. Martine (1990 p. De fato. que criava um excedente populacional. forte contingente de imigrantes estrangeiros europeus (Hall. estiveram estreitamente vinculadas aos interesses do café. estimulado a migrar para outros países (Hobsbawn. Graham e Buarque de Holanda.39) é enfático ao afirmar que “uma vez adotada a política imigratória. 1971). 1996. Mello. podendo ter inibido deslocamentos de mão-de-obra nacional (Martine. as perspectivas mais ou menos certas da abolição e a renovação técnica e mecanização da produção influíram na adoção da mão-de-obra livre em substituição à escrava”. Cano. 1995).formação do capitalismo em uma sociedade nacional pode ser descrita em termos de movimentos de população”. A passagem de uma sociedade escravocrata. Ao longo deste período. 1973.Truzzi.993. 1984). As decisões sobre a imigração estrangeira. 1974. 1995. a migração interregional foi temporariamente desestimulada e a mão-de-obra composta de ex-escravos foi deslocada”. 1996). formação de núcleos urbanos para o complexo cafeeiro (Cano. Esse movimento imigratório. esbranquiçamento da raça (Vainer. Balán (1974 p. Bassanezi. Morse. bem como a uma política de conformação da população seguindo o padrão racial europeu (Brito. 1974. 1990). 1987. 1981). políticas migratórias de subsídios governamentais para vinda de imigrantes europeus (Paiva. Camargo. Levy (1974) aponta que a imigração internacional representou quase a totalidade dos imigrantes chegados ao Estado de São Paulo até 1930. 1996). A população estrangeira representava cerca de 3% da população brasileira em 1872 chegando no seu ponto máximo entre 1890-1899. Levy. A imigração internacional foi componente decisivo para a Rosana Baeninger Fases da migração | 17 . Vainer. até 1930. 1974). com o fim do tráfico de escravos em 1850. Entretanto.766 imigrantes estrangeiros (Levy. 2001. o país assistiu a entrada de 3. A partir da segunda metade do século XIX. 1979. particularmente com destino a São Paulo (Merrick e Graham. a mobilidade espacial da população no Brasil se acelerou com o final do Império. teve impactos significativos nas migrações internas no Brasil.19) conclui que “a redistribuição da população sobre o espaço parece ter sido menor com a abolição do que poderia ter sido esperado“. Segundo Balán (1974 p. 2007). 1977. Fato importante para esse deslocamento de população ultramar foi a consolidação do capitalismo na Europa. 1995). Graham e Buarque de Hollanda.16) “a escassez crescente do escravo. 1977). por sua vez. Decca. a implantação da cultura do café conduziu a essa expressiva imigração européia. Levy. 1973). 1982.

59 5. judeus (Salles. Tabela 3 Número de Entrada de Imigrantes Internacionais. 1984.407 815. Paraná e Rio de Janeiro.84 Períodos 1872-1879 1880-1889 1890-1899 1900-1909 1910-1919 1920-1929 1872-1929 Fonte: Levy (1974).5 milhão de imigrantes). As principais nacionalidades dessa imigração estrangeira subsidiada foram italiana (1. portuguesa (1. romenos.16 Estoque de imigrantes estrangeiros nos Censos Demográficos Anos 1872 Total de imigrantes 388.793 Taxas de crescimento (% ao ano) 1872-1899 1900-1929 1872-1929 9. Estoque de Imigrantes e População Total – Brasil.459 Proporção estrangeiros/ população brasileira (%) 3.074.337 448. categoria representada pelos poloneses. 1872-1929 Número de entrada de imigrantes internacionais 176. Santa Catarina.622 1. Rio Grande do Sul. Note-se que a partir de 1900 (Tabela 4) decrescem as entradas de italianos.511 2. Censos Demográficos de 1872.90 1920 1.82 1. sobretudo em São Paulo.647 4.545 1. 1974).1 milhões de estrangeiros no Brasil (Tabela 3).961 5. espanhola (574 mil) e a crescente entrada de outras nacionalidades (de 58 mil imigrantes entre 1872-1879 para mais de 200 mil entre 1920-1929).327 622. 1974). nesse período foi de cerca de 10% e os efeitos indiretos de 5%. em função da proibição pela Itália da emigração para o Brasil através do Decreto Prinetti de 1902 (Hall. No período 1872 a 1929 entraram 4.453 846.2 milhão).107. Graham e Buarque de Holanda.04 4.36 11. 1900 e 1920. 1890. 1980) e para formação do mercado de trabalho brasileiro (Furtado. tal concentração consiste em fato histórico importante para a composição populacional do país. revelando a 18 | Fases da migração Rosana Baeninger .45 6. FIBGE. Levy (1974) aponta que o efeito direto dessa imigração estrangeira no país. russos. 1989).11 1890 1900 351.198. A proporção de imigrantes que se dirigiu para São Paulo passou de 7% em 1872 para 44% em 1900 e se manteve em torno de 55% até os anos 1940 (Levy.565.68 1872-1890 1900-1920 1872-1920 -0.construção de um mercado de trabalho livre (Holloway. 2004).

Uma delas de 1904 até 1914 quando haviam entrado 1.5) esclarece que “isso não impediu. Apesar do preconceito da sociedade brasileira com os asiáticos. A autora indica três fases da imigração internacional no país nesse período. De 1900 a 1929.985 europeus.3 milhões de imigrantes no período. Com maior força do final do século 19 e nas primeiras décadas do século 20. dada a crescente dificuldade de obter trabalhadores para a lavoura cafeeira. Merrick e Graham (1981) indicam para o Brasil em 202 mil o número de italianos retornados. Ressalte-se que o retorno dos imigrantes italianos e sucessivas reemigrações (Levy. A primeira leva de imigrantes estrangeiros se concentrou entre 1880 e 1903.91% ao ano). no entanto. com a entrada de 1. 2004). há aqui outra modalidade migratória submersa e com origem no tipo migratório vinculado à imigração européia de massa na etapa de constituição do capitalismo no Brasil.porém este crescimento foi bem acima da média do crescimento da população brasileira no período (2.2 milhão de imigrantes internacionais. 1986) compuseram os processos migratórios internacionais nessa fase. Essa participação relativa não ultrapassou 6% na população total (vide Tabela 4). 1995). 1974. Houve incremento no volume dessa imigração. para 350 mil. a proporção de estrangeiros no total da população sempre foi bastante baixa. Ou seja. com a predominância de italianos (Bassanezi. A segunda onda de imigrantes se refere ao período 1904 -1930. em 1890). sendo o ponto máximo entre 1880-1899. entre 1902-1913. poloneses. em 1872. a taxa de crescimento das entradas anuais de imigrantes europeus chegou a 9%. quando o Brasil recebeu cerca de um milhão de imigrantes.850. Alvim. Trata-se de etapa muito pouco estudada no país (Sales. agravada pela proibição da Itália de emigração subsidiada para o Brasil (1902) e pela necessidade de conquistar novos mercados para o café – que as portas do país fossem abertas à imigração japonesa em 1908”. Por isso. subdividido em duas fases. dentre eles portugueses. é que Bassanezi (1995) chama atenção para o fato de que. com o aumento da entrada de portugueses e espanhóis e o início do fluxo de japoneses (vide Tabela 5). Bassanezi. tendo suas entradas atingido 2. Bassanezi (1995 p. 1995. A outra fase foi de 1918 a 1930. qual seja: um processo emigratório internacional (e de retorno). romenos e japoneses. A terceira onda imigratória de estrangeiros está vinculada ao término da II Guerra Mundial até os anos 1960.6% ao ano) . Entre 1872 a 1899. quando o país contou com a chegada de mais de um milhão de estrangeiros. ocorreu uma diminuição no ritmo de crescimento das entradas de imigrantes estrangeiros (4. diminuindo entre 1900- Rosana Baeninger Fases da migração | 19 . russos. com uma taxa de 35% de retorno pós-1900. esse fenômeno se refletiu na diminuição do estoque absoluto de estrangeiros no Brasil (de 388 mil.importância desse contingente em termos sociais. mesmo com volumes de entradas tão elevados.

793 Fonte: FIBGE. A expressiva imigração internacional “relegou a um segundo plano a mãode-obra nacional e.325 18.902 75.296 113. As bases dessa economia primária-exportadora faziam surgir o embrião da rede de cidades bem como o início do processo de industrialização brasileira (Cano. 1986).392 30.052 Italianos 45. 1872-1929 Período 1872-1879 1880-1889 1890-1899 1900-1909 1910-1919 1920-1929 Total Portugueses 55.365 221.432 58.622 1. A rede de cidades gerada a partir dessa economia primário-exportadora contribuiu para relativa desconcentração da mão-de-obra rural.801 165. 1977). por assim dizer.1920 seu peso relativo na população total (de 6% para 5%. espanhóis e portugueses (Levy.168 106. 1977). específica do período primário-exportador da economia brasileira” (Patarra e Baeninger.861 Japoneses 861 27.915 1.467 277.481 301.353 195.568 Alemães 14.126 17.79). 20 | Fases da migração Rosana Baeninger . 1974.394 138.835 1. a taxa de crescimento do estoque de imigrantes no Brasil alcançaria 11% ao ano.124 690.084 13.479. argentina e italiana. As áreas cafeicultoras tornaram-se privilegiadas permitindo a ligação com outros centros urbanos e a capital de São Paulo mais adensada em termos populacionais (Patarra.327 622.232 77.195. entre 1900-1920. Graham (1973) enfatiza que teria sido difícil o Brasil competir na procura de imigrantes europeus sem a política governamental de subsídio a essa imigração. Faria. Tabela 4 Estoques da Imigração Internacional segundo Nacionalidade Brasil. a um terceiro plano os ex-escravos “ (Balán. 1995 p. a industrialização.690 219. respectivamente).486 123.107. o que possibilitou a expressiva entrada de europeus na década de 1890”.931 574. fornecendo as bases para uma urbanização menos concentrada. contudo “esta só foi eficiente pela prosperidade cíclica da economia brasileira estar desencontrada do bom desempenho da economia americana.577 Outros 58.337 448. Censo Demográfico de 1940.819 221. configurando “a passagem para uma migração de força de trabalho livre e de origem européia. Essa forte emigração de retornados foi composta por italianos.841 107. 1983).066 164. a urbanização (Cano.453 846. 1974). em contraposição a alguns países latino-americanos (Furtado.651 81.232 181. As condições que deram origem a uma imigração européia de grande escala se basearam no rápido crescimento da economia cafeeira em São Paulo e os efeitos do complexo cafeeiro: a expansão da ferrovia.647 4.385 Total 176.198.848 25.353 Espanhóis 3.407 815.901 17.284 86.027 104.586 318.881 606.

124 12.380 -173 -1982 12. Balán (1974:26) sintetiza para o as últimas décadas do século 19 e as primeiras do século 20 a diversidade de tipos migratórios: 1.901 168. Até 1920 esses saldos migratórios internacionais foram bastante elevados para o Sudeste.490 121. que o país não teria se desenvolvido e industrializado sem os benefícios trazidos pela mão-de-obra estrangeira. Nesse sentido.623 -14. d) imigração livre.850 103.938 -19. c) imigração subvencionada de mão-de-obra livre. assimilável em um regime escravocrata a transferência de trabalhadores como mercadorias. Destaca..435 45. contudo.174 -3. Sudeste e Sul (Tabela 5).656 -266 33.. contribuindo para consolidar e até aprofundar as disparidades entre as regiões brasileiras.896 639. mais de 500 mil imigrantes entre 1890 a 1920. em pequena propriedade.865 377.221 -135.276 776. mas em medida importante radicada inicialmente nas cidades. imigração estrangeira com diversos subtipos a) colonização em áreas novas.044 Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: Graham e Buarque de Holanda (1971). Graham (1973) afirma que a imigração estrangeira restringiu a migração interna no Brasil nesse período.393 9.281 78. De fato.139 600.837 -232 10. os saldos migratórios internacionais estimados por Graham e Buarque de Holanda (1971) já indicavam saldos positivos da imigração internacional desde 1872 para regiões como a Norte.324 111. b) contratação de mão-de-obra sob um regime de endividamentoparceria. Rosana Baeninger Fases da migração | 21 . Brasil 1872-1920 Norte Migração Interna 1872-1890 1890-1900 1900-1920 Migração Internacional 1872-1890 1890-1900 1900-1920 1.320 TOTAL 111. pode-se concluir que a imigração estrangeira foi impulsionadora das transformações estruturais da sociedade brasileira nesse período.). sem intervenção estatal ou de companhias de colonização(.046 6. ao mesmo tempo em que esta região experimentava saldos negativos para os fluxos migratórios nacionais no período.844 10. objetivando a busca do tipo migratório.128 168. destinada abertamente a prover colonos.502 -523.740 501.“ 1974:18). 2.609 -114.487 -142. migração de escravos.001 109. Tabela 5 Estimativas da Migração Líquida Interna e Internacional Grandes Regiões.

os movimentos migratórios constituintes e decorrentes daquela etapa de desenvolvimento econômico-social do país.3. enfatizo que as demais modalidades 22 | Fases da migração Rosana Baeninger . Avançando. e de 3 a 6 do autor). inserindo-se nele parcialmente. Martine (1990 p. Ou seja. contudo.26) menciona. porém ligada por vínculos de endividamente e recrutada em forma maciça para a produção da borracha na Amazônia. embora ressaltando que todos estão vinculados à emergência do capitalismo. migração de mão-de-obra nacional. em pequena propriedade. migração de negros libertos deslocados por imigrantes estrangeiros e não assimilável ao trabalho assalariado”. e no caso da imigração estrangeira chega a elencar “subtipos”.tanto pelo seu volume quanto pelas modificações e contribuições na estrutura social . b) contratação de mão-de-obra sob um regime de endividamento-parceria] tenham tido uma maior proporção de fracasso e inicialmente não tenham constituído uma força de trabalho livre.18) compreende que Balán (1974) fez “uma lista útil de seis grandes categorias de deslocamentos nessa época“. essa tipologia proposta por Balán (1974) pode ser reconstruída atribuindo-se à imigração internacional o tipo migratório dominante . no Nordeste e no Norte a partir da decadência da produção da borracha. Portanto. o próprio Balán (1974 p. migrações lentas e de curta distância ampliando as regiões ocupadas com economia agropecuária de subsistência. 6. migração de mão-de-obra formalmente livre. constituindo as bases demográficas do sistema capitalista moderno de produção”. nos espaços deixados pela mobilização rápida da mão-de-obra estrangeira ou seus descendentes. ex-escravos pela abolição). ao comentar o que denominou de subtipos da imigração internacional da citação acima. Desse tipo/ etapa foram engendradas as demais modalidades migratórias (itens 1. “embora os dois primeiros subtipos [a) colonização em áreas novas. Atente-se para o fato de que o autor denomina de “tipos migratórios” toda essa diversidade de fenômenos sociais. Esse tipo de migração se vincula com a migração rural-urbana no Nordeste. tanto no Sudeste (caboclos expulsos pelo café. 4. em conjunto a população de imigrantes e seus descendentes formaram o primeiro contingente importante de trabalhadores formalmente livres no Brasil. no entendimento desses processos migratórios e compreendendo-os como fundantes da estrutura da sociedade naquele momento histórico. advindas de processos histórico-estruturais: imigração internacional e emergência de estruturas capitalistas na economia exportadora. proposição deste ensaio. Nesse sentido.na etapa da economia primário-exportadora. 5. consequência das secas e da desagregação do complexo rural. bastante lenta no princípio e crescendo nas primeiras décadas deste século [do século 20] e direção às regiões onde o capitalismo moderno se expandia.

1977). inclusive. Rosana Baeninger Fases da migração | 23 . Já existia na sociedade como parte de um processo que se redefine com o momento histórico determinado.esteve presente também nesse período explicando. alterando o comportamento demográfico. segundo Cano (2011: 2).] Com o tempo.. localizações. na “ruptura política e econômica desencadeada pela ‘Crise de 1929’ e pela Revolução de 1930. A Tabela 6 aponta saldos migratórios positivos. Em termos teórico-metodológicos isto nos conduz a uma diferenciação entre migração – como tipo estruturante . mesmo que as duas conceituações tenham por definição a mudança de residência entre municípios ou estados. a ampliação da malha urbana brasileira. As modalidades migratórias apresentam condicionantes. 1977). contextualizando e reconceitualizando o fenômeno social. as bases histórico-estruturais para a migração interna estavam sendo geradas como modalidade migratória em fases anteriores. 1982) ampliou o setor urbano. embora grande parte daquelas migrações se vinculasse ao surgimento do capitalismo moderno. A acumulação cafeeira permitiu que o excedente gerado passasse a ser aplicado em investimentos urbanos e industriais (Cano. A reconstrução do fenômeno migratório como tipo ou como modalidade permite desvendar as especificidades e características.e as modalidades migratórias dela recorrentes. enquanto o tipo migratório é um dos elementos na construção das estruturas sociais em transformação. impactos. em especial fora da região dominada pelo núcleo econômico dinâmico do café (Dedecca e Baeninger. A nova etapa econômica de substituição de importações 1930-1956 (Mello. Exemplo disso está na citação do próprio Balán (1974:27) ”entretanto. que fez a economia do país transitar do antigo modelo ‘Primário Exportador’ (de crescimento para fora). para as regiões Sul e Centro-Oeste no final do século 19 e começo do 20. o perfil populacional e econômico e as formas de inserção das cidades na divisão social do trabalho em âmbito nacional. Assim.migratórias somente se fariam presentes tendo como tipo migratório definidor da mão-de-obra “necessária” a imigração estrangeira européia. A etapa seguinte da economia nacional esteve ancorada. a mobilidade interna – configuradas como modalidades migratórias advinda do tipo/etapa . 2011). apenas uma porção reduzida era constituída por movimentos de trabalhadores livres [. entretanto. A modalidade migratória parece corresponder e emergir com as tendências conjunturais. da segunda metade dos anos 80 do século 19 até os anos 30 do século 20. Ou seja. abrangência. Por outro lado. direção e sentido bastante diferenciados do tipo migratório. mesmo com menor intensidade e circunscritas a espaços limitados. vínculos. coube ao movimento migratório internacional. aumentando em importância”. para a Industrialização (crescimento para dentro)”. desempenhar papel relevante no processo de urbanização.. este tipo de migração irá. com o início do processo industrialização (Cano.

. ele nunca chegou a aproximar-se das décadas mais intensas do final do século XIX”. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Graham e Buarque de Holanda. 1980).A incipiente economia industrial que se processava. 1968. Na verdade. 1971). em especial. se adotaram quotas para limitar a migração [. Paiva. centralizada em sua região mais dinâmica. 2001. 2007) com diferentes condicionantes. 1977. Balán.] porém. novos processos e fluxos imigratórios internacionais ingressaram no Brasil. Os portugueses voltaram a registrar o maior volume (389 mil imigrantes no período). “Estas mudanças se radicaram geograficamente nos estados do Sul [. O processo de localização e concentração industrial tendeu a implantarse nos maiores centros urbanos da Região Sudeste. 1974.. significou também uma redefinição das relações entre regiões” (Balán.. Lopes. a aumento do desemprego urbano e o crescente nacionalismo. Nesse contexto. 1973. A entrada de japoneses alcançou quase 100 mil imigrantes ainda na década 24 | Fases da migração Rosana Baeninger . intercâmbio entre as regiões e o desenvolvimento do mercado nacional. Entraram mais de um milhão de imigrantes estrangeiros entre 1930-1959 no Brasil. mas se transformou em modalidade migratória no modelo da economia industrial que se processava. pois apesar de termos como “linha divisória” essa temporalidade . Balán (1974:46) enfatiza “as migrações internacionais depois de 1930 foram muito reduzidas. as migrações internas passariam a responder pelas necessidades de mãode-obra nacional (Cano.] embora tenha havido um despontar migratório posterior. 1974:41). no Pós-Segunda Guerra (Salles.. foram criadas e ampliadas as vias de transporte para a interligação entre os mercados regionais. por exemplo.Truzzi. Patarra. especialmente São Paulo. a partir de 1930. a reorientação voltada para a economia brasileira. propiciando a expansão da rede urbana em todas as regiões do Brasil (Cano. Com o término do subsídio à imigração internacional (1927) e a crise do café (1929). através da integração econômica. nacionalidades e características. Esse ponto é de especial importância para as reflexões aqui apresentadas. Apesar dessa observação de Balán (1974). 2004. 1977. que para o período 1950-1959 a entrada de imigrantes teria sido muito próxima ao período 1900-1909 (583 mil e 622 mil imigrantes estrangeiros respectivamente) embora os condicionantes possam ter se alterado. Faria. Singer.fim da imigração internacional e o início das migrações internas no Brasil – e trabalharmos com o Brasil como uma população fechada a partir dos anos 1930 (Carvalho. 1996. Com a depressão. Os planos de desenvolvimento industrial exigiram a unificação do mercado e sua articulação. Desapareceu como tipo migratório dominante e de maior volume dada a falência do modelo primário exportador. 1995) – a imigração internacional da etapa econômica anterior não desapareceu. impunha novos padrões de urbanização. a Tabela 6 indica.

Isto demonstrava de acordo com Balán (1974:46) que “apesar da crise cafeeira existia demanda de mão-de-obra para outros cultivos naquela região [São Paulo]”.184 Japoneses 99.170 15.643 50.944.629 211.807 16.325 104. Observatório das Migrações em São Paulo. Bassanezi (1995).587 1. Em outra etapa.746 4.931 129.732 Sem identificação 3.158 Espanhola Japonesa 17 175 5. outro espaço e outra escala as migrações internacionais se diversificaram com a categoria ‘Outras nacionalidades’ chegando a cerca de 200 mil entradas.947 Espanhóis 12.743 45. 2004.11 3.159.497 6. por exemplo. Estoque de Imigrantes Internacionais e População Total Brasil.406. São Paulo.593 135.579 389.304 Fonte: Banco de dados POS2WAR – Hospedaria dos Imigrantes do Estado de São Paulo.828 33.222 2. A imigração espanhola.604 241. outros 90 mil – em função dos acordos bilaterais de alocação de mão de obra para a indústria (Sales.434 Grega 47 1.651 Apátrida 1.768 114.565. 2004.679 11 1.390 38. FAPESPNEPO/UNICAMP.870 2.397 Italianos 22.592 12. Com os registros de imigrantes da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo.de 30.635. Tabela 7 Imigrantes Internacionais registrados na Hospedaria dos Imigrantes Principais nacionalidades.693 112.085 583.730. 1940 e 1950.297 40. Paiva (2011). Tabela 6 Entrada de Imigrantes Internacionais.141 Outros 68.752.643 População TOTAL 30.716 2 14 4.42 2.344 Proporção população estrangeira no total (%) 5. 1946 a 1960 Período 1947 – 1950 1951 – 1955 1956 – 1960 Total Italiana 269 27. Bassanezi. é possível verificar para o período do pós-Guerra a entrada de imigrantes gregos e poloneses.538 1.702 94. o pós-Segunda Guerra Mundial registrou a entrada de imigrantes internacionais no país. Dominguez.214.464 Polonesa 4.342 1.961 1.361 405 3.030. 1930-1959 Período 1930-1939 1940-1949 1950-1959 TOTAL  Anos 1920 1940 1950 Total de Entradas Imigrantes Estrangeiros 332.979 50. FIBGE Censos Demográficos de 1920. Mesmo com menores volumes.239 1.487 5. Rosana Baeninger Fases da migração | 25 .605 41.321 51.926 Estoque de estrangeiros 1.920 Alemães 27.213 Portugueses 102.644 39.547 4.34 Fonte: Levy (1974). 1995). bem como a entrada dos apátridas (refugiados da guerra) entre 1947-1960 (Tabela 7).819 91.399 80 172 3. em torno de 5 mil cada naquele estado.440 População Brasileira 29.184 2.069. A imigração italiana foi de 60 mil pessoas entre 1950-1960.

Lopes (1980) recupera as informações para São Paulo acerca da entrada de trabalhadores nacionais (Camargo. através das quais é possível verificar 26 | Fases da migração Rosana Baeninger ..383 340.187 -230.673 * 462.110 -23. começaram a adquirir caráter maciço [. que se estabeleciam com lentidão nas décadas anteriores.530 * -186. O saldo migratório internacional para o período 1940-1950 foi de mais de 100 mil imigrantes. contudo.] a rápida urbanização de praticamente todos os estados brasileiros durante o período posterior a 1930 indica claramente a mobilização rural-urbana dentro de alguns deles.734 49.800 -366.46/47) aponta “com a queda da imigração estrangeira e a contínua demanda de mão-de-obra.614 23.242 * -3. tanto urbana como rural.901 * 159. Tabela 8 Estimativas da Migração Líquida Interna e Internacional Grandes Regiões. além da migração interregional”.3% dos trabalhadores que entraram no Estado nesse período (Tabela 9).777 115. Balán (1974 p. passou a se configurar em uma modalidade migratória vinculada aos novos processos econômicos pós-1930. Brasil 1920-1960 Norte Migração Interna 1920-1940 1940-1950 1950-1960 Migração Internacional 1920-1940 1940-1950 1950-1960 -3.443 4.Ou seja. com elevadas perdas migratórias para o Nordeste – quase 600 mil pessoas entre os anos 19201950 – em contraposição aos ganhos da Região Sul. a imigração internacional seguiu compondo a sociedade brasileira.710 -317 3. algumas das correntes internas.308 * 358. não como recorrência dos mesmos fluxos vindos entre o século 18 e 19.640 * TOTAL 544.064 1.848 -48.574 2.. essa imigração. Fonte: Graham e Buarque de Holanda (1971) Foi considerável a entrada de imigrantes estrangeiros entre 1926-1960 em São Paulo ainda respondendo por 26.745 -89. Às migrações internas corresponderia o próximo tipo migratório.759 143. Apesar do volume.455 * Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste (*) informações não disponíveis. em especial concentrado no Sudeste (Tabela 8).646 * 10. 1981).020 * 77. no Sudeste e Sul (excetuando-se os anos de depressão). mas envoltos em um novo contexto marcado pela Segunda Guerra no contexto internacional e pelo processo de industrialização e urbanização no país.

a crescente participação da migração interna no período pós-1930. A estagnação de áreas agrícolas tradicionais. 1990). Já a vertente da industrialização. equivalendo – em volume – ao fluxo da imigração internacional em massa do período de maior entrada (1890-1920.910.722 TOTAL 1. fundamentalmente. por outro lado.63 57.969 1. As migrações internas. o agro paulista atraiu importantes fluxos de trabalhadores rurais de MG e do NE”. No período 1926-1960 a entrada de migrantes internos no Estado chegou a 2.414. 1900-1960 Período 1900-1925 1926-1960 Total Migrantes Internos 123. 1990). Minas Gerais. duas vertentes: os deslocamentos rumo às fronteiras agrícolas (Paraná.632 Imigrantes Internacionais 1.045. Esse período marca o início da configuração de um novo tipo migratório no país: a crescente migração rural-urbana.169.669 2.60 73.716 3. em longo prazo. marca a centralidade de São Paulo na dinâmica econômica e migratória do país. Martine (1990:19) enfatiza “no que se refere às migrações. A partir da ‘Crise de 29’. a entrada de migrantes internos correspondeu a apenas 10% das entradas entre 1900-1925. estima-se um êxodo rural em nível nacional de 3 milhões de pessoas. Martine (1990). a cana de açúcar e algodão. Lopes (1980). para as migrações internas em direção às fronteiras agrícolas (Martine.538. contribuiu. Centro-Oeste e Maranhão) e rumo aos centros industriais do Sudeste (Martine.06 Fonte: Boletim de Imigração e Colonização. que só recentemente começaram a se resolver e se confundir num Rosana Baeninger Fases da migração | 27 . modernização e diversificação do agro paulista reduziram a cafeicultura e expandindo. contabilizando em mais de um milhão a entrada de estrangeiros em São Paulo. seguiram. para a agricultura do PR e CO. Tabela 9 Entrada de Migrantes Internos e Internacionais São Paulo.963 2. 1930 pode ser visto como ponto de referência para o início de dois processos aparentemente contraditórios.753 864. que inibiram. A vertente da ocupação e colonização contou com fluxos migratórios do Nordeste. nos anos 40 (Martine. essas culturas no NE. basicamente. com 2. Isto provocou um grande fluxo de saída de pequenos produtores e trabalhadores rurais que migrariam. notadamente. indiretamente provocada pela própria concentração industrial (Lopes.354 Proporção Migrantes Internos no Total (%) 10. para a economia urbana de SP. e em parte.6 milhões de estrangeiros).5 milhões de pessoas.449. De fato. entre 1930-1950. 1980).638 4.279. Rio Grande do Sul e São Paulo. que crescia com a industrialização. 1987). Cano (2011:3) enfatiza que “a profunda transformação.

8 milhão no urbano e 0.] os mesmos fatores de expulsão que ajudaram a engrossar a migração rural-urbana serviram também para promover movimentos de interiorização e ocupação de novas fronteiras agrícolas” (Martine.7 milhões de pessoas.19).11). os migrantes nacionais tornaramse a grande maioria dos que chegavam à parte mais dinâmica da economia. 28 | Fases da migração Rosana Baeninger . Mortara (1965 apud Martine. Segundo Dedecca (2010 p. O entendimento do primeiro somente faz sentido se analisarmos a totalidade do fenômeno migratório (tipos e modalidades) e o alcance de seus impactos e transformações em meio à etapa econômica que se processava. pelas migrações internas (Cano. com um ganho de 1. 1990). Faria. 1990 p. tendo como um de seus resultados o início da mobilização interna de trabalhadores. passou de 10.9 milhão no suburbano. “o início da real integração nacional quebrou a situação de isolamento dos mercados regionais. Na perspectiva dos tipos/etapas. 1990) estimou um êxodo rural de 2. a população não natural de São Paulo. os movimentos em direção às fronteiras são expressos pela modalidade migratória em direção ao rural ou urbano da fronteira. 2001). Assim. Vainer e Brito. entre 1940 e 1950 no Brasil. esta perda rural representou 10% da população rural em 1940 (Martine.20). Lopes (1980 p. 1983.único movimento”. A concentração da migração nas cidades resulta do tipo migratório (rural-urbano). 1977. em especial no Estado de São Paulo”. redefine e recompõe processos anteriormente experimentados. no primeiro caso. Destaca-se a expressiva contribuição da imigração estrangeira para o deslanchar da industrialização no país. constituindo como seu principal vetor a imigração de população nordestina para sustentar a montagem do complexo produtivo induzido pela industrialização concentrada na Região Sudeste.. 1990:19/20).De fato. As próximas etapas da dinâmica econômica brasileira em seu processo de industrialização. seriam alimentadas. até o final do século 20.131) afirma “já no fim da década dos anos 30.4% em 1940 para 12% em 1950. o autor enfatiza a “importância do processo de industrialização para a intensificação da migração interna” (p. As novas dinâmicas econômicas pós-1930 “terminaram provocando migrações substantivas de origem rural em dois sentidos: para as cidades e para as áreas de fronteira interna” (Martine.. Isto é relevante para reforçar o argumento aqui apresentado referente ao entendimento do fenômeno migratório como um processo social que herda. portanto. considero que a separação entre as ordens de fenômenos – migração e modalidades migratórias – também contribui para a compreensão e análise do que Martine (1990) chamou de aparentemente contraditório: “enquanto parte dos movimentos promovia a abertura da fronteira agrícola e a interiorização outros fluxos serviam para concentrar a população cada vez mais nas cidades [. oriunda de outros estados brasileiro.

Rosana Baeninger Fases da migração | 29 . a emigração líquida atinge par ao total dos estados de Minas Gerias até o Piauí.. setor de eletrodomésticos etc.6 milhões de pessoas no decênio [. nos anos 1960.411.428. Tabela 10 Volumes de Imigração e Emigração Interestaduais Grandes Regiões. Lopes (1980) explica os intensos processos de migração rural–urbana tendo os seguintes determinantes: a unificação da economia nacional. Do ponto de vista econômico. já no fim dos anos 1950.629. para mais de 3 milhões..125. Entre 1960-1970 cerca de 6.5 milhões na década seguinte (Tabela 10 ). números crescentes de emigrantes.008 159.496 808.789 Fonte: FIBGE. a subordinação da agricultura à indústria também contribuiu para incrementar os fluxos migratórios e a urbanização brasileira.158 4.135).591 Emigrantes 1960-70 87.) de caráter monopolista e de propriedade estrangeira ou associada a capitais estrangeiros [..527 4.924 1.323.036 1. Em contrapartida. sendo que este volume se elevou para 9.971 1970-80 209.184 8.848 2. na “nova industrialização de bens intermediários e duráveis (indústria automobilística. 1980 p. Para os anos 1940 e 1950. mais de 2. em cada período intercensal subsequente. depois de 1960.Este fato refletia a interligação crescente.237 1.034 6.323 2. do seu desenvolvimento urbano-industrial e da sua expansão agrícola”. O Nordeste assistiu a uma emigração de 1.092 1970-80 797. inicialmente dos estados mais próximos de São Paulo (Minas Gerais e Bahia) para alcançar paulatinamente os estados mais ao norte.793 1.021.540. o cenário das migrações rurais-urbanas se acentuou.5 milhão. até que nos anos 1950.821. ao mesmo tempo.720 680.. nos anos 1970.061 721.695.316 2.] a atração exercida pela economia paulista resultou.845 3..] mudanças políticas começando com o movimento militar de 1964 tornaram viável o novo modelo econômico de desenvolvimento” (Lopes. o Sudeste chegou a receber cerca de 6 milhões de imigrantes entre 1960-1970. Censos Demográficos de 1970 e 1980.] começando com o período 1920-1940.946 803. pode-se verificar.053 7.524.613.804 1. metalurgia. das várias partes do mercado interno que antes tinham se desenvolvido separadamente [.5 milhões de pessoas mudaram de UF de residência. o fortalecimento da ação do Estado e as altas taxas de crescimento da população (resultado da diminuição da mortalidade).095.526.939.130 1. Assim..160. especialmente durante os anos 40 e 50. 1960-1980 Regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Total Imigrantes 1960-70 186.

84 5. b) empregar-se como força de trabalho temporária (i.002 Urbana 12.87 2. chegando a 45% em 1960.) Total 2.48 1. Censos Demográficos de 1940 a 1991. 30 | Fases da migração Rosana Baeninger .a.566 Taxas de Crescimento (% a. O autor.32 5. Graham e Buarque de Holanda (1981) ressaltam a importância da alocação intersetorial de mão de obra para o entendimento da migração interna até os anos 70. a saída de população do meio rural brasileiro foi de 7 milhões de pessoas chegando a quase 16 milhões nos anos 1970.80 1970-1980 15.61 Volume de Migração Rural-Urbana (em milhões) 1940-1950 3. pós-anos 1950 – resultante das altas taxas de crescimento vegetativo da própria população urbana e da contribuição das migrações internas campo-cidade . não distingue. c) migrar para a fronteira agrícola.162 38.96 Rural 1.60 -0. Em 1950.534 52.05 2. em quarenta anos. onde em terras livres podem reproduzir a agricultura de subsistência”.436 Rural 28. apenas 36% da população brasileira residia em áreas urbanas.33 3. um crescente deslocamento intersetorial de mão-de-obra com transferência do setor rural para o de serviços e industrial. Martine et al (1988) analisam que o dinamismo da urbanização. Urbana e Rural Brasil.140) “os movimentos de população surgem. Nos anos 1950. sazonal) nas plantações das grandes propriedades (nas lavouras de mercadorias de exportação).58 1.236 51. qual seja.356 33.4 milhões de pessoas (Tabela 11). como produto e fator da transformação global”. o rural do país perdeu cerca de 38.fez com que a taxa de crescimento do Brasil urbano entre 1950 e 1960 atingisse os níveis de 5.783 31. A enorme transferência de população do meio rural para o urbano refletiu as distintas etapas do processo de desenvolvimento e contribuiu para o esvaziamento do campo.191 93.139 119.44 2. conclui Lopes (1980 p.Lopes (1980 p.93 Urbana 3.00 1950-1960 7.3% ao ano.15 4.054 38.60 Total 1940-1980 38.54 . garantindo a redistribuição da força de trabalho para o meio urbano e contribuindo para alavancar o processo de industrialização nacional.994 70.084 80. 1940-1980 Ano 1940 1950 1960 1970 1980 População (em milhões) Total 41.e.657 41. na análise.40 Fonte: FIBGE.62 -0. Assim. Martine (1990).137) explica: “a força de trabalho excedente tem três destinos possíveis: a) migrar para os centros urbanos.880 18.00 1960-1970 12. Tabela 11 População Total.

tanto de longa distância como de curta distância. é claro. Os excedentes populacionais do rural constituíam transferências populacionais para as cidades com a incorporação desses contingentes no mercado de trabalho industrial em expansão. em última instância. a concentração de capital. o estilo global de desenvolvimento” (p. Para Brito (2006) essas são as trajetórias secundárias do padrão migratório. onde as ‘causas’ e ‘motivos’ da migração eram resultantes das transformações econômicas globais da sociedade. das migrações e da urbanização. a um processo migratório marcado por importantes deslocamentos rurais-urbanos e entre as regiões Nordeste e Sudeste (Singer. Por isso do ponto de vista da construção teórico-metodológica do fenômeno. e na sua combinação específica. em particular até os anos 1970. As áreas rurais estagnadas ou em processo de transformação contribuíam para “fatores de estagnação” ou “fatores de mudanças” impulsionadores de fluxos migratórios nos locais de origem. O tipo migratório ruralurbano. As análises de Singer (1973) permitem identificar a importância dos fatores de expulsão nas áreas de origem quando considerados tais movimentos migratórios para a compreensão dos destinos migratórios no Sudeste que se industrializava em moldes fordistas.com origem no rural e destino urbano – representavam a força de trabalho necessária à etapa de acumulação capitalista. as ordens de fenômenos como tipo e modalidades e esclarece que “estes vários movimentos são. de maneira concomitante. em especial do período 1950-1980. Singer (1973) contextualizou esses movimentos migratórios no bojo do processo de industrialização em curso. portanto. Modalidades estas que poderiam tomar impulso dinamizador em sua articulação com uma nova etapa econômica vindo a se configurar posteriormente como um tipo migratório. 1973). refletem.contudo. prevaleceu por quatro décadas no Brasil e ancorou as atividades vinculadas ao processo de industrialização brasileira. este foi o caso da modalidade urbana- Rosana Baeninger Fases da migração | 31 . Na vertente da migração rural-urbana. sob o enfoque histórico-estrutural. interrelacionados. Oliveira e Stern (1980) destacam. O processo de industrialização nacional consolidou-se. onde os deslocamentos populacionais . migração e modalidade migratória correspondem à determinado momento histórico com profundas alterações (e inclusive com inversão nas escalas e ordens de fenômenos) à medida em que também se altere o modelo de desenvolvimento. marcando.138). que esses fatores afetam diferentemente os indivíduos segundo sua inserção na estrutura social e econômica. Modalidades migratórias – advindas do tipo migratório rural-urbano – também foram desenhadas ao longo desse período. Considero se tratar de modalidades migratórias integradas e reproduzidas pelo tipo migratório articulado à dinâmica econômica daquele momento.

retrata uma nova etapa na relação urbanização-migração. em outro tempo. tornando bastante estreita a relação urbanização.urbana. com a transferência de enormes contingentes populacionais (Martine e Camargo. em outra escala. que se elevou entre 1930-1950. a migração rumo às fronteiras agrícolas (Martine. Todos os movimentos de população de origem rural para o urbano. b) o papel da rápida industrialização paulista com as migrações Nordeste-Sudeste e a substituição da mão-de-obra estrangeira agricultura de São Paulo pela brasileira. mesmo que esta última de maneira mais tímida. entretanto. 1991). intensificou-se nos anos 1950 e declinou consideravelmente na década de 1960. porém. estes já estiveram presentes na fase da sociedade primário-exportadora. a redistribuição espacial da população. as migrações internas. Destaquese entre os anos 1940-1960. c) a acentuada intensificação da migração para as fronteiras agrícolas. migração e emprego (Matos e Baeninger. ocorria por forças centrípetas em direção ao Sudeste e por forças centrífugas em direção à expansão das fronteiras agrícolas. suas especificidades. até os anos 1970. em outro espaço. 1987) que ocorreu em direção ao interior do país e estabeleceu a ocupação populacional das regiões Centro-Oeste e Norte. apesar da desconcentração 32 | Fases da migração Rosana Baeninger . 2011). Graham e Buarque de Holanda (1980) sintetizam os seguintes aspectos das migrações interregionais do referido período: a) a trajetória das taxas de migração interna. 1984). A migração interna no Brasil entre 1930-1970 sintetiza profundas transformações econômicas e sociais que marcaram a passagem de um mundo agrário para um mundo urbano. com a inserção de migrantes internos aos mercados de trabalho urbanos. Nessa etapa. portanto. modalidades migratórias rurais-rurais e urbanasurbanas já se faziam presentes. representavam uma forma de possibilidade efetiva de mobilidade social (Faria. A recuperação do processo de constituição do fenômeno migratório (quer como tipo quer como modalidade) constitui caminho teórico-metodológico imprescindível para a compreensão do fenômeno social. Segundo Martine e Camargo (1984). O período 1967-1973. na formação inicial da sociedade industrial brasileira (Baeninger. com o chamado ‘milagre econômico’. Como resultado surge um padrão de crescimento urbano intenso e concentrado nas áreas mais dinâmicas do Sudeste brasileiro. momento em que o país já contava com um operariado. com a maturação do desenvolvimento urbano-industrial (Faria. Nesse contexto. A industrialização do Sudeste induziu a densificação de fluxos migratórios rurais-urbanos. 2001). de curta ou longa distância. O embrião de possíveis processos migratórios de maior envergadura é gerado como modalidade migratória em um processo histórico de formação do fenômeno. dimensões e análises da migração na atualidade e em seus espaços. sobretudo nas áreas mais dinâmicas do Sudeste. 1978).

De uma taxa de crescimento correspondente a 3.a. no período 1950-1960. nos anos 1970.. taxas menores de crescimento urbano: 5. De fato.a. marcaram uma mudança expressiva na distribuição da população no País: a taxa de crescimento da população rural passou de 1. quando a média nacional apontava 45% de sua população morando em áreas urbanas. não atingiu todas as regiões de forma homogênea. a Região Norte foi a única a apresentar. Diniz. Quanto à população rural.a. por exemplo.a. de modo que os contrastes socioeconômicos prevalecentes no território nacional refletiram-se no âmbito da urbanização.60% a.. a partir dos anos 1950. a população rural apresentou participação cada vez menor no conjunto da população brasileira. Embora tanto a taxa anual de crescimento da população brasileira quanto a taxa de crescimento urbano tenham registrado decréscimos ao longo do período em estudo. uma vez que a base demográfica não era tão extensa. Em contrapartida.8% a. passou para 2. como já destacado. A acentuada urbanização que se processava contribuiu para que.a. 1995.15% a.44% a.. a partir de 1980. entretanto.a.a. Negri.54% a. o acelerado processo de urbanização pode ser evidenciado através da elevação da participação da população urbana no total populacional: 45% em 1960... A taxa de crescimento da população urbana passou de 3. significativa taxa de crescimento: 3. 56% em 1970. À medida que essa base foi se alargando. mais da metade de suas populações estivessem residindo em áreas urbanas. ao passo que no Nordeste essa participação chegava apenas a 34%. em função da acentuada queda da fecundidade.60% a. Esse incremento da população urbana foi consequência. para 0. no período 1960-70. o enorme esvaziamento do campo que se operava. Os anos 1950. levou a aceleração do processo de urbanização. 1996). O avanço do processo de urbanização no País. basicamente.05% a. devido à fronteira Rosana Baeninger Fases da migração | 33 . portanto. alcançou taxas negativas. em todas as grandes regiões. no período 1960/70. O ritmo de crescimento da população brasileira em seu conjunto perdeu intensidade a partir dos anos 1960.. nos anos 70. em torno de 0.48% a.. Em 1960. o impacto dessa população foi diminuindo e apresentando.industrial ter sido inaugurada no decorrer dos anos 1970 (Cano. antigamente consideradas rurais.a.71% a. no período 19401950. entre 1970-1980. 4.a. 1993. Pacheco. entre 1950-60. da migração com destino urbano e da expansão do perímetro urbano de muitas localidades. para 5. O dinamismo e a complexidade desse processo se expressaram na multiplicação do número de cidades no País.32% a. entre 1950-1960.1998.a. somente a Região Sudeste registrava população urbana superior a 50%. no período 1970-1980. O impacto da transferência de população rural para o meio urbano se fez sentir de maneira mais acentuada nos anos 1950. de três fatores: do próprio crescimento vegetativo das áreas urbanas.

Censos Demográficos de 1940 a 1980.62 Norte  1.55% a. Tabela 12 Taxas de Crescimento da População Rural Grandes Regiões do Brasil.5% a.47 C. Embora. o aumento nas taxas de crescimento natural da população e a destruição de barreiras internas à mobilidade com a maior centralização política e expansão da rede de comunicações.80 2. refletindo o esgotamento da fronteira agrícola do Paraná.06 -1.84 1. assim como por uma reformulação das 34 | Fases da migração Rosana Baeninger . provocou uma forte concentração de terra que.90 2.64 1. 1950-1980 Taxas de Crescimento da População Rural (%a. 1987:29). até os anos 70. O Sudeste. embora pequena. na estrutura produtiva rural e urbana. os movimentos migratórios rurais-urbanos fossem a principal força redistributiva da população. o panorama dos movimentos migratórios no Brasil foi se ampliando a partir de então.89 3. O processo de modernização agrícola.88 -1. já havia apresentado diminuição em sua população rural.78 Fonte: FIBGE. ou ausência delas.2 -2. conduziu “a população migrante a se dirigir para as cidades.98 3. à exceção da região Norte. A industrialização e seus resultados foram as principais responsáveis por uma redefinição da relação campo e cidade. de 0.a) 1940-50 1950-60 1960-70 1970-80 Grandes Regiões BRASIL  1. particularmente São Paulo.6 -0.10 0. incluindo-se aí a estrutura da propriedade fundiária. em 1970.amazônica. e cidades cada vez maiores” (Martine.14 -0. No período 198091.a. O rápido crescimento das áreas urbanas apontava. em números absolutos. principalmente nos anos 1950 e 1960.58 1. O Nordeste rural cresceu a uma taxa também positiva. As demais regiões acompanharam a tendência nacional: todas apresentaram taxas negativas para os seus contingentes rurais.02 1.37 2. aliada ao esgotamento das fronteiras agrícolas.97 2.11 3.55 0.99 Sul  2. Esse fenômeno de transferência de população era indicativo das mudanças. intensificado a partir de meados da década de 60.a. “As condições subjacentes à maior mobilização interna da população brasileira [de 1940-1970] são o avanço da economia industrial no Sudeste. que o campo não só crescia menos que a cidade como também começava a sofrer um processo de esvaziamento populacional. destacandose o Sul com taxa de -2.71 Nordeste  Sudeste  1.. todas as demais registraram taxas negativas de crescimento da população rural (Tabela 12).Oeste  2.54 0. até mesmo pela nova etapa de desenvolvimento econômico que o País viria assistir.

teve como maior expressão a industrialização. o padrão de concentração da população em cidades de tamanho cada vez maiores. gerando estímulos para que a população se mobilizasse geograficamente” (Balán. principalmente aquelas intrametropolitanas. que parecia se concentrar em aglomerações de maior porte. pela Lei Complementar 9 do Governo Federal.perdem vigor. Nos anos 1970 iniciava-se a intensificação das modalidades migratórias urbanourbano. O panorama dos deslocamentos populacionais ocorridos na década de 1970 apontava. no contexto nacional. O tipo migratório predominante – rural-urbano .relações e desequilíbrios interregionais. e para o predomínio da Região Sudeste. reforçando as vertentes da metropolização e periferização. mas Balán (1974 p. especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. 32. As principais tendências da urbanização e da redistribuição espacial da população brasileira. de curta e de longa distância.55) adverte “seria um erro. sendo seu crescimento. as quais atraíram 70% das migrações internas da década de 70. em conjunto. principalmente em áreas metropolitanas. o fluxo urbano-urbano passou a responder por 46. Nesse contexto. responsável por mais de 40% do crescimento total verificado no País. tanto em termos econômicos quanto populacionais Em 1970. no período 1940-1980. para a crescente concentração da população em localidades urbanas de grande porte. entretanto. pela primeira vez. pensar Rosana Baeninger Fases da migração | 35 . como modalidade do processo migratório rural-urbano industrial . 1974: 55). A população residente nas noves regiões metropolitanas representava 30% da população nacional em 1980.2% das migrações entre 1970-1980. gerando a predominância da população residindo em áreas urbanas. e particularmente São Paulo. ao tipo migratório rural-urbano ainda correspondia 54. Nesse período. então. apontaram para a multiplicação do número de cidades. foram criadas as regiões metropolitanas em 1973. para Martine (1987). O processo de urbanização no Brasil foi marcado por enormes migrações do campo para a cidade.7% dos movimentos migratórios intermunicipais no País e o fluxo rural-rural. 52 milhões contra 41 milhões. ganha impulso a migração rural-urbana que partia dessas áreas de fronteira. engrossando o tipo migratório rural-urbano no cenário da industrialização e reforçando. Nesse momento. respectivamente.marcada por migração ruralrural. a população urbana brasileira ultrapassou a população rural. resultando num incremento populacional elevado para o Sudeste. A expansão dos grandes centros urbanos ganhava nova expressão espacial com a emergência das configurações metropolitanas. As forças centrífugas . para o aumento dos estados expulsores de população e a diminuição dos receptores. quando começa também a ocorrer o esgotamento de algumas das áreas de fronteira agrícola.1% do total.

quer sejam nacionais . em especial para as migrações até os anos 1970.que isso implica que as principais correntes migratórias se dirijam para a indústria”. Banco de Imagens Observatório das Migrações em São Paulo 36 | Fases da migração Rosana Baeninger . pois se baseiam em migrações de longa distância . 1950.e no processo nacional de industrialização. Coleção Família Pescarini. O enfoque recai na relação migração e desenvolvimento. intrarregionais e intra-estaduais. essas análises encontram seus limites. De fato.estas incluíram o fluxo de longa distância (fronteira e Sudeste). Embora. Considero que a compreensão da contribuição da migração no desenvolvimento capitalista no país em seus tipos/etapas permite captar sua importância como processo histórico e seus desdobramentos posteriores. Estrada de Ferro Mogiana.quer sejam transatlânticas. consista em importante recurso teórico-metodológico. mas de curta distância como intramunicipais. c. se contemplarmos as modalidades migratórias – advindos do tipo ruralurbano .

Em segundo lugar.97%. a compreensão de tipo migratório e etapa econômica dá sinais de seus limites explicativos quando se passa para uma sociedade eminentemente urbana e com as implicações da desconcentração industrial e produtiva a partir dos anos 1980. chegando a 35 milhões em 1991 e passando a representar 24% da população brasileira (Tabela 13). sendo que em 2010 essas chegavam a 5.a. Ainda nos anos 70.1989). Em 2000. nota-se em primeiro lugar.6 milhões. a população urbana era de 137 milhões de habitantes chegando a 160 milhões em 2010.889 cidades. nos período 1980-1991. entre 19701980. tanto pela vertente do esgotamento das fronteiras agrícolas (Martine. nos anos 80.5 milhões. Em 1980.5 milhões. em 1950 eram 1. a concentração das migrações com destino urbano. para 10. um aumento em seu volume de uma para outra década: de 9. baixando para 1. a população rural brasileira registrou pela primeira vez na história a diminuição em números absolutos. A taxa de crescimento da população urbana registrou 2. em 2000-2010. poucos destinos migratórios no cenário nacional (Tabela 14).M M Rosana Baeninger igrações: modalidades migratórias e urbanização No entendimento das migrações no Brasil e sua importância no desenvolvimento econômico e na formação social ao longo do século passado. ou seja. em 1980-1991. 1987) quanto pela migração rural-urbana. Os reflexos do processo de urbanização se fez sentir na expansão da rede urbana no país. Nessa minha releitura das interpretações das migrações internas no Brasil é possível identificar os diferentes cenários migratórios em função da urbanização em curso no país nas duas últimas décadas do século 20. contribuíram para aumentar o número de estados expulsores de população (Martine e Carvalho. em 1980. de 41 milhões em 1970 para 38. O país passou de um grau de urbanização de 67% em 1980 para 84% em 2010.55% a. Fases da migração | 37 . ainda se mantiveram os quatorze estados expulsores de população.545 localidades. Ao se considerar os fluxos de imigração interestadual.

Tabela 13 População.25 18.990 35. 2000 e 2010. nos anos 1970.925.45 -1.17 80. 38 | Fases da migração Rosana Baeninger .755.953. entre 1970-1980.327 38. a década de 1980 poderia ser explicada pelas características das migrações internas dos anos 1970. respectivamente). para o autor. Censo Demográfico de 1980. que implicou na alteração da distribuição espacial das atividades econômicas no país.41 75. o país conviveu com o importante processo de desconcentração relativa da produção econômica. a colonização da Amazônia. comandado pela economia paulista.211 160. beneficiou as regiões mais atrasadas através da integração dos mercados. ocorreram significativas mudanças econômicas que tiveram rebatimentos sobre os movimentos migratórios. iniciado nos anos 1930.990.64 Taxas de Crescimento (% ao ano)  2. para 623 mil. Cano (1996) argumenta que o processo de concentração da indústria.93 1.725 110. Nesse contexto.799. Assim.011. 1980 e 1991 Ano População 1980 1991 2000 2010 1980 1991 2000 2010 1980-1991 1991-2000 2000-2010 Urbana  Rural  Total  119.65 Fonte: FIBGE.825. a diminuição na imigração em direção ao Estado de São Paulo (de 3.573. respectivamente.007 Distribuição Relativa (%)  67. 3) as políticas de desenvolvimento regional (Sudene.36 15.792 29.485 137. de outro lado.7 milhões de 1981-1991) e ao Rio de Janeiro ( de 855 mil imigrantes para 576 mil. Rural e Total Brasil. nos anos 1980. 1991. Goiás e Mato Grosso entre 1930 e 1970. não fosse. liderado por São Paulo.475 169.59 32. para 2.2 milhão de emigrantes para cerca de 1. de um lado.845.959 31. 2) a expansão da fronteira agrícola do Paraná.30 1.97 -0.59 24.41 81. os principais determinantes do processo de desconcentração produtiva podem ser sintetizados: 1) no próprio processo de integração do mercado nacional.834. em particular a desconcentração industrial (Cano. De uma para outra década.63 1. migrações para o CentroOeste a partir dos anos 70 – que viram a repercutir em etapas posteriores no surgimento da agroindústria.67 2. as áreas estimuladas pelo Plano de Metas a partir de 1950. e do Rio de Janeiro. Urbana.55 -0.2 milhões de pessoas. de 531 mil emigrantes. 1986).437. Na perspectiva do padrão concentrador urbano. no período 1930-1970. o aumento da emigração desses estados: no caso de São Paulo de 1.799 100 100 100 100 1. E.830.052 146.5 milhão.75 84.170 190.

459 Emigração 39.475 475.614.671.104 237.050 1.080 55.287.668.494.434 99.098 1.378 22.900 3.063 576.781 167.734 1.015 1.813 498.954 1.140.046 455.093 408.914 326.169 4.588 133.763 613.640 73.179 340.773 10.959 262.877 312.672 19.550 96.229.438 345.329.957 30.331.248 208.083 287.670 16.852 122.807 1. Censo Demográfico de 1980 e 1991.133 727.090 182.081.234 292.566 519.957 204.G.399 2.462 797. Rosana Baeninger Fases da migração | 39 .471 1.748 3.917 233.322 363.677 150.520 329.722 294.521 370.802 29.296 657.G.167.833 212.057 227.978 151.930 3.732 201.612 541.OESTE BRASIL 1970/1980 Imigração 285.742 518.518 280.224 464.424 244.603 236.289 14.367 94.007 523.443 296.587.016.327.122 165.579 508.771 923.891 161.921.152 159. Sul Mato Grosso Goiás D.628 153.134 623.353 18.802 124.145 349.702 797.230 3.Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais E.452.734 224.856 245.510 588.399 62.156 855.815 3.255 292.889 4.Tabela 14 Volumes da Imigração e Emigração Interestaduais(*) Brasil.635 73.120 197.739 1.782 13.412 43.491 192.688 10.237 151.245 113.040 876.261 103. Fonte: FIBGE.884.879 269.322.140 (*) Migração de última etapa.250.478.113 935.223 Emigração 157.Federal C.383 1.148 383.474 242.447 356.914 159.650 654.279 98.679.922 1.006 144.421 1981-1991 Imigração 411.218.122 350.169 2.985 531. 1970-1980 e 1981-1991 Estados Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins NORTE Maranhão Piauí Ceará R.126 1.243.526 340. Catarina R.088 329.649.244 1.Santo Rio de Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná Sta.Sul SUL M.151.749 812.151 4.344 9.G.300 395.712 165.360 1.189 1.535 271.825 92.

as políticas de incentivo às exportações. as forças centrífugas.4%.9%). Nordeste e Centro-Oeste. Assim. com a modernização da agricultura e agroindústria. segundo Cano (1998). não tivesse tido reflexos imediatos nos deslocamentos populacionais captados pelo censo demográfico de 1980. Bahia (de 1. a Região Metropolitana de São Paulo reduziu sua participação de 43. resultantes da força de atração exercida pelas fronteiras agrícolas. as políticas de descentralização dos governos do estado de São Paulo. 5) II Plano Nacional de Desenvolvimento. sugerindo uma defasagem entre os deslocamentos das atividades econômicas e os deslocamentos de população.3% e 7. É revelador nesse processo que os efeitos da desconcentração relativa das atividades econômicas.4% da indústria de transformação brasileira. iniciada no decorrer dos anos 1970. Nesse processo. 40 | Fases da migração Rosana Baeninger . demonstrando os limites de se explicar a direção das migrações pela dinâmica da industrialização. em 1970.9%.3%. os custos da concentração industrial em São Paulo. em 1985). contribuindo para a acentuada desconcentração da indústria entre 1970 e 1985. Paraná (3. Essa desconcentração relativa da indústria propiciou também fluxos migratórios nessas direções. inclusive a migração de retorno. respectivamente). Santa Catarina (2. bem como reteve uma população que potencialmente migraria destas áreas.5% para 3. Ou seja. A desconcentração industrial também ocorreu em direção a outros estados.7% para 22. a interpretação das migrações.8%). 4) política de incentivo às exportações.9%) e Rio Grande do Sul (6. o Estado de São Paulo concentrava 58. com os complexos agroindustriais da cana e da laranja e o Pró-alcool. Suframa).4% para 29. baixando para 51. nos meus estudos para os anos 1980. em favor do crescimento do seu Interior (de 14. a migração seguia na direção da desconcentração industrial. a partir de meados da década de 1960. em 1985. 7) a crise da década de 1980. Somente no período 1981-1991 é que esse processo tornou-se mais evidente. com subsídios fiscais. nos respectivos períodos. embora os fatores de expulsão não fossem – para todos os fluxos – aqueles referentes à estagnação ou modernização agrícola (Singer.9%. Contudo. os investimentos federais no interior. em 1970. As políticas de atração municipal. tendo como determinantes. Essa defasagem poderia ser interpretada – passados mais de vinte anos – como o ‘descolamento’ entre tipo/etapa.Sudam. 6) intensificação do processo de urbanização no Norte. O interior de São Paulo beneficiou-se da política de desconcentração regional entre 1970/1985. 1973).5%). já haviam acentuado sua perda de importância nos anos 70. como Minas Gerais (que concentrava 6. De acordo com Pacheco (1998). elevando essa participação para 8. esteve bastante ancorada no movimento da indústria.6% e 3. que afetou mais a economia paulista.1% e 4. com a diversificação dos serviços e criação de industrias locais.1% da indústria de transformação nacional.

e. de 48.5) menciona que nos anos 1980 “a magnitude da metamorfose demográfica foi tão significativa quanto inesperada”. 1999). a Região Metropolitana de São Paulo.muito embora seus desdobramentos tenham ainda se refletido nos anos 1980 nos movimentos migratórios. Já as forças centrípetas. embora de maneira muito tímida. concentração da população. com a predominância do fluxo para o Sudeste. as análises a respeito do processo de distribuição espacial da população até mesmo durante a década de 1980 estiveram baseadas e preocupadas em apontar o crescente e intenso movimento de concentração: concentração da migração. A queda da fecundidade ocorreu em ritmo mais intenso do que se previa. porém não desapareceram. ao mesmo tempo que ainda se mantém como o maior centro de recepção migratória. um refluxo de mineiros para seu Estado já nos anos 70 (Brito. arrefeceram a partir dos anos 80.5% de seus imigrantes interestaduais (Tabela 15). quando cerca de 15. 2006. por exemplo. Essa modalidade migratória. Ou seja. emprestando novas características ao processo de distribuição espacial da população e redefinindo a migração interna (Baeninger. O processo de desconcentração das atividades econômicas que marcou o período beneficiou Minas Gerais. Rosana Baeninger Fases da migração | 41 . no período 1981-1991. apontando o incipiente processo de reversão emigratória da área. manifestada no processo de metropolização. com a enorme transferência de população do campo para a cidade. Martine (1994 p. refluxo de população (Rigotti. concentração do processo de urbanização. Nesse sentido.elemento não considerado nas análises da migração brasileira para os anos 1970. 1994). inclusive. bem como para atração e.5% dos imigrantes para o Estado de Minas Gerais eram de retorno naquele período e. em especial a exercida pela metrópole de São Paulo. já estava presente no tipo rural-urbano. acrescentar a outra face e fase da migração – a emigração . O entendimento da migração interna nos anos 1980 no Brasil passava a ter que contemplar o processo emigratório. passou também a se destacar pela importância de seu volume emigratório em nível nacional. na reconstrução das modalidades migratórias advindas do tipo migratório rural-urbano já se configurava. Matos. Compondo um movimento mais amplo de distribuição populacional. entretanto. 1997). De fato.6 milhões deixaram as áreas rurais nesse período (Martine. encerrava-se o alto crescimento demográfico nas fronteiras e o explosivo crescimento urbano dava lugar ao crescimento das cidades médias e pequenas. Cerca de 36. podendo já ter contribuído para a absorção de sua população natural. 1994).

Tabela 15 Migração de Retorno Brasil e Unidades da Federação, 1970-1980 e 1981-1991
Estados Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá NORTE Maranhão Piauí Ceará R.G.Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais E.Santo Rio de Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná Sta. Catarina R.G.Sul SUL M.G. Sul Mato Grosso Goiás ** D.Federal C.OESTE BRASIL 16.210 69.895 278.947 224.250 34.410 70.914 271.387 600.961 73.408 49.502 54.815 177.725 22.421 14.333 36.143 13.741 86.638 1.177.637 Migração de Retorno 1970-1980 3.614 1.057 6.565 326 20.767 1.037 33.366 65.803 22.426 12.989 31.138 31.943 28.543 1981-1991 9.208 6.224 18.519 1.510 52.612 4.529 92.602 84.829 73.192 173.207 67.156 109.710 175.423 46.823 38.813 179.811 948.964 386.560 58.851 129.548 387.474 962.433 249.046 89.026 119.337 457.409 41.549 26.344 128.312 13.712 209.917 2.671.325 % Retorno no total imigração 1970-1980 1,27 6,35 8,95 1,78 5,25 4,56 4,11 35,99 24,20 8,63 31,20 25,65 10,18 0,00 22,17 19,94 19,20 36,54 17,11 8,29 8,35 12,21 14,01 20,15 35,65 19,25 7,65 4,39 9,43 2,89 5,86 12,28 1981-1991 2,24 21,28 16,33 2,41 10,35 10,50 6,98 35,81 45,39 59,13 42,17 52,61 47,34 34,98 31,80 39,50 44,33 48,45 21,87 22,48 14,46 22,27 42,35 26,98 51,01 39,71 15,82 4,86 24,76 3,93 12,56 25,17

(*) não incluem os efeitos indiretos da migração de retorno (Ribeiro, 1998) (**) inclui Tocantins Refere-se à população nascida na UF de residência atual que retornaram há menos de 10 anos a esta UF, para o período 1970-1980 e 1981-1991. Fonte: FIBGE, Censo Demográfico de 1980 e 1991.

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Já o retorno migratório para os estados do Nordeste chegou a representar mais da metade da migração para o Ceará e para a Paraíba, entre 1981-1991. As explicações para o retorno para o Nordeste estiveram baseadas na crise metropolitana paulista (Cunha e Baeninger, 2005) e no incipiente processo de desconcentração produtiva para essas regiões (Pacheco, 1998). Nos anos 70, o movimento de retorno aos estados de nascimento representava apenas 12,0% do total da migração nacional, proporção que chegou a dobrar no período 19811991, alcançando 25,2% do total. Passou-se de um volume de migração de retorno de 1,2 milhão de pessoas, no período 1970-1980, para 2,6 milhões, entre 19811991. O maior incremento na migração de retorno, ao longo desses períodos, foi registrado para os estados da Região Nordeste que apresentava um fluxo de 278 mil imigrantes de retorno nos anos 1970, atingindo um volume de quase um milhão no período 1981-1991. O importante a reter desse retorno migratório é que o Estado de São Paulo respondeu por 18% do total nacional entre 1970-1980, elevando-se para 26%, entre 1981-1991. No caso da Bahia, por exemplo 53% dos retornados vieram de São Paulo (Cunha e Baeninger, 2005). No contexto do debate da década de 1980, os estudos realizados a respeito dos possíveis impactos do processo de desconcentração das atividades industriais na redistribuição espacial da população nesse período sugerem, de acordo com Matos e Baeninger (2001): a) transformações mais expressivas no âmbito do Estado de São Paulo, indicando um incipiente processo de desconcentração populacional; b) aumento da urbanização nas regiões e estados que se constituíram em canais da desconcentração industrial (Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Centro-Oeste); c) expressivos fluxos migratórios de retorno para estados tradicionalmente emissores de população; d) incremento das migrações intra-regionais; e) relativa desconcentração do sistema urbano brasileiro, com a inserção das cidades pequenas e intermediárias nas dinâmicas das aglomerações urbanas, em especial as metropolitanas. Segundo Matos (1994) a desconcentração demográfica coincide com a desconcentração econômica, com as deseconomias de aglomeração e a interiorização do desenvolvimento que podem dispersar atividades e população. O debate da desconcentração-concentrada da economia (Cano, 1988) ganhou espaço nos estudos populacionais na vertente da desconcentração relativa da população. A explicação do fenômeno migratório – suas especificidades dos anos 1980 – ancorou-se na crise metropolitana e na desconcentração industrial que beneficiaria regiões fora do Sudeste, trazendo de volta seus migrantes e retendo sua população com o novo dinamismo da economia. Assim, o tipo migratório

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urbano-urbano estaria pautado pelo processo de desconcentração da economia, como parece indicar essa releitura dos processos migratórios. As tendências dos movimentos migratórios no Brasil suscitaram análises interpretativas enriquecedoras do debate dos anos 80. As transformações ocorridas no fenômeno migratório poderiam ser explicadas: • pelo arrefecimento dos processos de concentração metropolitana (Martine, 1994) • pela configuração de um novo padrão migratório brasileiro (Brito, 1997) • pelo resultado das transformações ocorridas na sociedade e em sua dinâmica econômica no mesmo período (Pacheco e Patarra, 1998) • pelas variações de um mesmo processo historicamente referenciado no tempo e no espaço (Cunha, 1994) • pela desconcentração econômica (Matos, 1994) • pela a expansão dos espaços da migração (Baeninger, 1999) Mesmo com diferentes maneiras de interpretar o fenômeno, essas análises indicaram, de modo geral, a partir dos anos 1980, as evidências e características apontadas anteriormente de inflexão no crescimento metropolitano, o aumento nas migrações de curta distância, a importância da migração de retorno, o esgotamento da migração para as fronteiras agrícolas, a diminuição no ímpeto das migrações inter-regionais. Estiveram ainda presente, no debate, os possíveis efeitos migratórios advindos do processo de desconcentração das atividades econômicas e da crise econômica dos anos 80. Martine (1994 p.33) afirma “em nível de tendência, a redução do ritmo de crescimento e de concentração urbanos, o arrefecimento do crescimento das grandes metrópoles e a periferização do crescimento metropolitano constituem os processos mais importantes apresentados pelo censo de 1991”. Segundo o autor, os fatores determinantes do arrefecimento do processo de concentração metropolitana seriam: “os efeitos retardados da desconcentração industrial; a adoção de padrões de comportamento associado à contrametropolização; os efeitos cumulativos de um longo processo de interiorização e consequente nucleação de uma rede urbana mais equilibrada, os impactos da crise sobre a redução do movimento migratório, inclusive sobre o êxodo rural; e o impacto da queda da fecundidade sobre o ritmo de crescimento dos migrantes em potencial e sobre o crescimento vegetativo de migrantes e nativos nas áreas urbanas” (Martine,1994 p.33). Segundo Negri (1996) as duas décadas subsequentes a de 1970 já não registraram o mesmo ímpeto da industrialização desconcentrada. Mesmo assim, “o primeiro quinquênio dos anos 80 marca um grande avanço do processo de interiorização da indústria no Estado de São Paulo” (Negri, 1996 p.216). A partir de 1985 e início dos 1990, esse processo de desconcentração industrial perdeu dinamismo, em função do esgotamento dos ciclos de investimentos dos

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marcando um processo de desconcentração-concentrada da dinâmica econômica em âmbito nacional (Cano.12).anos setenta. embora enfatize a desconcentração de atividades econômicas e de população. “o crescimento médio anual do PIB foi medíocre tanto para o Brasil (2. pífio. dada a perda de dinamismo da indústria em seu conjunto (Pacheco. 1998). 1984).5%) [. pela crise do emprego metropolitano.1996) e mesmo tendo a desconcentração das atividades industriais perdido fôlego nos anos 80 (Pacheco. De fato. Para o autor. de 0. A polarização reversa.2%)”. mesmo que possa ter havido uma defasagem entre os dois processos (Negri. com mais vigor nos anos 70 (Cano. entre 1980-1989. 1988.10-11). mas se processando em um ritmo menos intenso. os menores volumes da migração interestadual para o Sudeste nos anos 1980 foram analisados.] A indústria de transformação. também denominado como reversão da polarização (Richardson. concluindo “o que atenuou esse movimento foi a continuidade da expansão agrícola no Norte e Centro-Oeste. Rosana Baeninger Fases da migração | 45 . o setor antes mais dinâmico. no meu entendimento. pelos reflexos dessa desconcentração econômica em direção às áreas externas a São Paulo e Rio de Janeiro e. teve desempenho ainda pior. 1988).. Azzoni. Considero que as evidências empíricas dos anos 1980. as interpretações baseadas na relação entre desconcentração econômica e fluxos migratórios indicam possíveis explicações para os novos destinos migratórios. 2011 p. o melhor desempenho da economia nordestina e a forte expansão urbana ocorrida nessas três regiões” (Cano. a crise econômica também teve reflexos na diminuição dos volumes migratórios entre as Grandes Regiões do país. por um lado. as políticas indutoras de desconcentração da indústria a partir da Região Metropolitana de São Paulo. Nesse contexto. por outro lado. De acordo com Cano (2011 p. 1993). Dentre suas modalidades. 1986). nos anos 80.9% para o Brasil e ainda mais baixo para São Paulo (0. As fortes mudanças nos padrões de redistribuição da população e das atividades econômicas resultaram em processos complexos de desconcentração espacial. geraram deseconomias de aglomeração (Redwood. A interiorização industrial prosseguiu. O fortalecimento da dinâmica industrial no país e o processo de urbanização conduziram a processos migratórios onde o fluxo urbano-urbano passou a ser predominante (60% dos movimentos migratórios).1998)..2%) quanto para São Paulo (1. 1983). na realidade parece estar mais direcionada aos fatores econômicos e presa à idéia da relação migração-emprego. 1980). Contribuiram para a desconcentração industrial delimitada por um campo aglomerativo (Azzoni. impulsionando a localização de atividades industriais e de pessoas para além das áreas metropolitanas (Gottdiener. 1986) e por uma extensão da área de influência do pólo paulista (Diniz.

em especial a intrametropolitana e intra-regional. servindo de amortecedor dos fluxos para as metrópoles. indicam outras áreas de recepção migratória ou mesmo de retenção populacional. a partir das expressivas alterações em sua dinâmica. 3. a inflexão no ritmo de crescimento metropolitano.6 milhões de pessoas) para os centros urbanos de maior porte e o próprio patamar em que se encontra o processo de urbanização (Ebanks. recuperação migratória no âmbito intra-regional.portanto. intraperiféricos que no atual processo de urbanização complexificam o entendimento da relação migração/emprego. surgimento e consolidação de pólos de absorção migratória no âmbito inter-regional e intra-regional. as migrações de retorno redesenham a maior “área de absorção de população migrante” em décadas anteriores – a Região Metropolitana de São Paulo. 5.passaram também a sobressair outras direções de modalidades migratórias urbanas-urbanas: movimentos de curta distância. a migração intrametropolitana e a migração intraregional (em âmbito nacional e local) foram as mais expressivas nos anos 80. que se refletem nas novas especificidades e tendências do processo de distribuição espacial da população. movimentos de retorno. movimentos intra-regionais. 7. de áreas de origem e áreas de destino. bem como de áreas de atração e áreas de expulsão. nas últimas décadas do século 20. 6. fluxos e características dos movimentos migratórios. onde o conjunto de rede de cidades brasileiras teve papel importante. mesmo que incipiente fora do Sudeste. a migração de retorno. a predominância das migrações de curta distância. Uma dimensão anteriormente não considerada na migração. 8. que é a dimensão espacial. emergência (ou recorrência) das modalidades de deslocamentos populacionais de tipo pendular. 2. onde emergem e reforçam variadas modalidades de deslocamentos populacionais. tornou-se elemento 46 | Fases da migração Rosana Baeninger . redefinindo os movimentos interestaduais para outras regiões. Ao lado dos tradicionais fluxos migratórios – expressos no tipo migratório predominante . com destaque para o interior da Bahia. Os anos 1980 evidenciaram enormes mudanças nos volumes. o decréscimo nas migrações interestaduais de longa distância apontam novos destinos migratórios. os movimentos migratórios intra-regionais no âmbito das Grandes Regiões passam a se diversificar. 1993) vêm contribuindo para a predominância do movimento urbano-urbano. A menor pressão dos grandes movimentos rurais (o êxodo rural dos anos 80 foi da ordem de 10. a saber: 1. 4. especialmente os estados nordestinos. intensificando a vertente das modalidades migratórias. dupla residência. Analiso as migrações internas no Brasil. conferem novos significados aos conceitos de migrante.

Ampliando o entendimento dos movimentos de população. portanto. a década de 1980 retrata a evidente periferização da população das metrópoles brasileiras. que imbuídos de uma nova realidade social e econômica.] a partir de 1980. 1992). As expressivas alterações em seus volumes revelam muito mais do que mudanças em seus níveis. pode-se indicar aqui desdobramentos advindos das modalidades migratórias. no qual parte da população envolvida realizou movimento intrametropolitano (Cunha. 1994)... definindo-o a partir do modo como se dá a articulação entre as trajetórias migratórias e a dinâmica social e econômica “[. portanto. Como em diferentes escalas do fenômeno migratório. força motriz das análises centrípetas. a partir do tipo migratório urbano-urbano. quando o país ingressou numa grande ‘crise de transição’ é que o padrão migratório tem sido notavelmente afetado”. como aponta Brito (2000). movimentos migratórios constitutivos e elemento fundamental na configuração do processo de urbanização atual.6 milhões (Tabela 16).5 milhões de pessoas. O panorama geral dos fluxos migratórios entre os estados do país seguiu indicando incremento em seu volume no período 1990-2000 alcançando 12. contudo. Martine. 1994. Brito (2000:1) analisa tratar-se de alterações no padrão migratório. com modalidades migratórias no espaço intrametropolitano. particularmente. As evidências empíricas sobre os movimentos migratórios interestaduais para os anos 1990. os anos 1980 – e os anos posteriores – indicam que. Este é o caso dos deslocamentos pendulares (mora em uma cidade e trabalha em outra). inclusive com a inversão de determinadas tendências. revelado pela saída de população do centro para as áreas distantes e periféricas (Cunha. No caso do processo de ocupação das áreas de fronteira claramente houve redução em seu ímpeto tanto no Centro-Oeste. assumem maior complexidade a partir dos anos 1980 em função. Portanto. 1994). do predomínio das migrações entre áreas urbanas. Considero que tais mudanças nas tendências da migração sejam recorrentes dos próprios processos migratórios e dos tipos vigentes anteriormente. criam-se modalidades migratórias (com mudança de residência) e deslocamentos populacionais (sem que haja mudança de residência) em espaços regionais e entre esses espaços. As migrações internas.explicativo e determinante do fenômeno migratório (Villa e Rodriguez. quando entre 1981-1991 havia sido de 10. do eixo de análise via migração rural-urbana. indicaram que parte das mudanças ocorridas nos anos 1980 não se sustentou na década seguinte. em especial no Mato Grosso. Ou seja. dão novos contornos aos processos migratórios. O entendimento do processo de reorganização da população no espaço desloca-se. concluo que diversificaram no contexto urbano-urbano as modalidades migratórias. por exemplo. Na Região Norte persiste a tendência ao aumento nos volumes de emigração (de Rosana Baeninger Fases da migração | 47 .

(particularmente no caso de Rondônia que registrou o maior decréscimo de imigrantes entre as décadas de 1980 e 1990.703 23.535 Trocas Migratórias (I-E) 1970-1980 1981-1991 1990-2000 245.873 417.968 29.332 -226.52 4.132 -374.133.97 13.1991 e 2000.766 225.Sul SUL M.399 174.77 50.92 12.007 41.225 -3.070 189.522.527. alcançando 958 mil entre 1990-2000).687 22.30 16.15 9.Santo Rio de Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná Sta.232 -134.710 910.929 -47.188 297.797 4.18 51.482 549.93 55.789.694 542.011 -377.087 173.30 38.344 -1.458.772 346.872 1.478.619 151.588 -493.33 51.325 117.3 milhões anos 1980 e 1990.518 -514.76 18.61 32.890 754.922 1.055 -24.296 758.G.927 170.762 324.67 25.199 -147.447 58.072 69.Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais E.684 -118.47 52.172 2.178 229.91 26.751 -158.423 341.776.965 283.346 -132.58 51.520 -239.19 50.283 451.084 279.782 -218.891 98.397 236.053 168.38 Emigração 152.033.034 1.957 -805.51 24.239 990. para 797 mil nos 1980.614 309.953 87.626 -30. (**)inclui Tocantins Refere-se à população nascida na UF de residência atual que retornaram há menos de 10 anos a esta UF.187 125.612 -961.212 -93.172 -497.115 434.617 49.790 1990-2000 % retorno 12.515 28.231 364.555 196.923 253.254.934 1.080 1.845 -1.145 25.677.998 -2440 18.321 -311.016 (*) não incluem os efeitos indiretos da migração de retorno (Ribeiro.479 67.775 -287.077 517.631 798.625 -1.37 22.294 mil pessoas nos anos 1970.971 -605.814 22.192 -126.618 2.548 44.340 1.103 249.842 218.867 30.97 25. Ao mesmo tempo em que mantém importante volume de imigrantes ao redor de 1.182 654.524 887.22 57.714 115.722 5.731 -1.178 458.829 323.93 27.39 17. 1981-1991 e 1990-2000. 1970-1980 e 1981-1991 Estados Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins NORTE Maranhão Piauí Ceará R.180.259 -44.086 152. 1998). para o período 1970-1980.839. Catarina R. Censo Demográfico de 1980.798 -6.806 3.807 320.72 24.347 -67.G.407.551 12.04 37.153 1.658 388.353.915 245.963.077 70.305 16.605 12.141 1.93 30.474 -62.936 175.236.184.692 24.G.790 -261.975 475.32 4.091 504.530 30.250 64.57 36.OESTE BRASIL Imigração 197. Fonte: FIBGE.84 45.457 -45.863 424.464.870 1.123 29.209 659.67 28.552 619.574.305.605 1.242 262.819 29.733 180. Sul Mato Grosso Goiás D. 48 | Fases da migração Rosana Baeninger .Federal C.304 172.138 8.248 775.68 51.202 14. Tabela 16 Migração de Retorno Brasil e Unidades da Federação.146 14.856 383.544 3.589 36.241 71.845 1.60 48.993 119.829.529 -244.389 5.921 573.106 151.547 -314.006 -421.653 410.362 1.447 296.736 67.252 -123.030 420.245 -78.429 206.570 -146.313 529.525 168.265 285.966 9.150 958.

5 milhão. Aumentaram seus volumes de imigrantes.7 milhões). sendo que o Ceará. outras tendências mostraram-se diferentes das análises baseadas nos anos 1980. com São Paulo. inversão da tendência a menores ganhos populacionais em São Paulo.3 milhões nos 90) e incremento de seu volume de imigrantes (de 923 mil para 1. incremento nos ganhos populacionais do Espírito Santo e.2 milhões nos anos 1970. Rio de Janeiro e São Paulo registraram inversão da tendência verificada entre os anos 1970 e 1980. este volume foi de 2. que inclusive havia registrado para os anos 1980 diminuição de sua imigração: de 4. Os estados da Bahia. além dos fluxos de entradas e saídas. no Sudeste. Paraíba e Pernambuco diminuíram suas perdas populacionais. entre Rosana Baeninger Fases da migração | 49 .Outro ponto se refere a complementaridade em termos de transferências de população do Nordeste para o Sudeste. finalmente.6 entre 1981-1991. inclusive. o quadro migratório nacional dos anos 1990 apontou algumas tendências já esperadas em função da dinâmica de décadas passadas. d) na Região Sul houve menor evasão populacional. Como recurso metodológico. baixou para 4. as trocas migratórias (imigração menos a emigração) que se mostraram importantes para a compreensão da dinâmica das migrações no Brasil. foi a única que manteve a mesma tendência dos anos 1980: diminuição de sua evasão populacional (de 1. b) uma maior diversidade da situação migratória interestadual entre os estados do Nordeste. e volta a ser retomada entre o período 1990-2000. o balanço das trocas migratórias interestaduais permitiu captar as evidências empíricas das tendências nacionais dos anos 1990: a) enxugamento das antigas áreas de fronteira no Centro-Oeste e Norte. elevando-se para 5. c) no Sudeste observou-se certa recuperação migratória no estado do Rio de Janeiro. Todavia. nos movimentos interestaduais totais. A Região Sul. como os casos das fronteiras agrícolas e da recuperação da região Sul.0 milhões nos 1990) e a um expressivo incremento da imigração do Sudeste.3 milhões nos anos 80. retomando os mesmos patamares dos anos 70: em torno de 3. respectivamente).8 milhões de emigrantes nos 70 para 1. sendo que. com a Bahia e o Maranhão apresentando maiores perdas populacionais em suas trocas migratórias.2 milhões entre 1990-2000. Como conceitos operatórios incorporei também.2 milhões de imigrantes (nos anos 1980.9 milhões pessoas entre 1970-1980. que parecia ter diminuído nos anos 1980. Assiste-se a um incremento da emigração nordestina (era de 3. consolidação da reversão migratória de Minas Gerais. do Maranhão e do Piauí apresentaram os maiores acréscimos em seus volumes de emigração. passando para 3. chegando a 4. Desse modo. Contudo esses estudos ainda estavam centrados nas áreas de absorção e de perdas de população – mesmo substituindo os antigos conceitos de áreas de atração e de áreas de expulsão de população.

1998). Essa complementaridade. da articulação entre migrações metrópole-interior e da articulação entre determinadas migrações interestaduais. Minas Gerais e Paraná. Essas evidências implicaram em se aprofundar e se aproximar das idas e vindas entre os estados. Assim. estabelecida através das relações entre modalidades migratórias (e visualizada a partir das trocas migratórias). De fato. representou 30% das migrações nacionais. Desse modo. em especial na migração de longa distância e com o Nordeste. como parece ter sido parte dos anos 80. particularmente de suas regiões metropolitanas. entre 1990-2000 (era de 1. analisamos naquele momento (Cunha e Baeninger. do ponto de vista dos processos migratórios. milhão nos anos 70). O caminho teórico metodológico percorrido para o entendimento desses anos 1990 foi analisar a complementaridade migratória – a qual articula espaço. nos anos 1990. os movimentos de retorno ilustram as duas pontas complementares do processo migratório. 2004). e. tempo e escalas diferenciadas . marcada . chegando a responder por 52% da imigração dos estados da Região Nordeste.8 milhões de pessoas. ao menor desempenho do Nordeste.1. perda ou rotatividade migratória presente nos diferentes estados no país (Baeninger.no tipo migratório urbano-urbano . Os maiores volumes de retorno foram registrados para estados historicamente expulsores de população como os do Nordeste (em particular. Considerei a rotatividade na interpretação das migrações nos anos 1990 50 | Fases da migração Rosana Baeninger . há o incremento de suas imigrações. o Índice de Eficácia Migratória (IEM) permite verificar a absorção. 2005) que tais efeitos foram bem mais limitados. à menor capacidade de absorção migratória dentro dos próprios estados nordestinos. a retomada da intensidade das migrações para o Sudeste. Assim.elas o incremento da emigração nordestina. tendo tido apenas reflexo imediato no momento de maturação dos investimentos (Cano. em parte fomentada pelo retorno de seus naturais. uma vez que mesmo com a permanência da emigração dos estados do Nordeste nos anos 90.permitindo contribuir para o entendimento das tendências migratórias naquele final de século. Bahia e Pernambuco e Ceará).pela modalidade migratória do retorno. reflete-se na articulação da migração de longa distância com movimentos migratórios intra-regionais. justamente num momento em que as transformações produtivas no país levavam a apostar na continuidade do arrefecimento desses fluxos. poderia estar relacionada. O movimento migratório de retorno alcançou 3. a primeira delas se refere à nova complementaridade entre NordesteSudeste. Com as interpretações pautadas ainda nos efeitos da desconcentração industrial e a explicação para a retomada da emigração do Nordeste nos anos 1990. do ponto de vista da dinâmica econômica.

Desde os anos 1980. Não utilizo o conceito de circularidade ou circulação de população.2006). à exceção da RMBH que registrou importante declínio nesse fluxo (de 335 mil pessoas para 29 mil).ainda como conceito operatório para nos aproximarmos do fenômeno – como proxy do ir-e-vir migratório. Adoto a contribuição de Domenach e Picouet (1990) acerca da reversibilidade dos processos migratórios que passaram a compor as interpretações para explicar o incremento na rotatividade migratória nos estados brasileiros. no decorrer das décadas. Em 1970. Com decréscimos menos expressivos as RMs de Fortaleza. chegando a dezesseis em 2000. 1999). Note-se nesse último caso. os mesmos que saem. se tratarem das regiões metropolitanas do Nordeste. A segunda complementaridade se refere aos fluxos Região Metropolitana e Interior. os processos migratórios internos também têm um peso importante nesse crescimento. O destaque coube às RMs do Sudeste: a RMBH com a interrupção das migrações do seu interior para o núcleo e a RMSP e RMRJ com perdas migratórias em favor do interior dos respectivos estados. 53 milhões dos brasileiros residiam em regiões metropolitanas – eram 36 milhões em 1980 sendo que 50% do crescimento demográfico brasileiro (cerca de 11 milhões de pessoas) ocorreu dentro dessas áreas. o país assiste um processo de desconcentração demográfica desde as metrópoles no Brasil. visto que as migrações interestaduais apontaram para um caráter de menor permanência e rotatividade de população. Baeninger. sobretudo as de tamanho médio (Martine. com o crescimento das localidades e aglomerações urbanas não-metropolitanas (IPEA/NESUR. As migrações aumentam sua importância em contexto metropolitanos. Recife e Pernambuco. especialmente porque as taxas de fecundidade nessas áreas tendem a ser menores que as de outras localidades (IBGE. as quais passaram a ter papel decisivo tanto no âmbito estadual quanto para os cenários das migrações em direção ao Sudeste a partir dos anos 1990. eram 5 estados nessa condição. no caso de São Rosana Baeninger Fases da migração | 51 . por entender que – do ponto de vista da própria informação migratória – não haveria como saber se são os mesmos migrantes que entram. Os movimentos migratórios entre as regiões metropolitanas e o interior de seus respectivos estados expressam a diversidade de modalidades migratórias e a força de novos processos de redistribuição e (re)organização espacial da população no contexto de generalizada urbanização no país (Tabela 18). Ou seja. Em 2000. compondo de fato um movimento circular. 2000). negativos ou positivos. As migrações do interior em direção às suas regiões metropolitanas mantiveram volumes muito semelhantes nos períodos 1986-1991 e 1995-2000 para grande parte dos estados. A Tabela 17 indica a crescente presença dos valores do IEM mais próximos de zero. 1994.

26 0.23 0.OESTE Índice de Eficácia Migratória 1970-1980 0.63 0.15 -0.12 0.01 0.24 -0.15 -0.G.34 -0. Tabela 17 Ìndice de Eficácia Migratória Unidades da Federação-Brasil.28 -0.23 0.07 0.22 1981-1991 0.04 0. Sul Mato Grosso Goiás D.26 -0. Catarina R.76 -0.14 0.40 -0. passei a acrescentar o fenômeno da interiorização da migração no país nos anos 90 e sua interligação com as metrópoles.28 -0.01 0. 1988). Assim.25 -0.Federal C.21 -0.13 -0.07 -0.05 0. Baeninger.64 0.29 -0.Paulo esta evidência já havia sido identificada desde os anos 1970 (Cunha.37 -0.47 -0.45 -0.17 0.32 -0.51 0.41 0.38 -0.28 -0.33 -0.35 -0.Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais E.01 0.21 -0.08 0. Censo Demográfico de 1980.42 -0.08 0.37 -0.05 0.22 0.25 -0.01 -0.03 0.36 * 0.49 -0.03 0.18 0.30 0.G. 1991 e 2000.34 0.28 0.06 0.G.05 0.23 -0.55 0. atraindo ou retendo uma população que potencialmente migraria para outras regiões.43 0.12 -0.18 1990-2000 0.23 0.17 -0.30 0.07 0. 1987.1970-2000 Estados Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins NORTE Maranhão Piauí Ceará R.32 -0.29 0.22 Fonte: FIBGE.20 0.38 0.36 -0.52 0.02 -0.38 0.58 0.02 0.24 0.29 -0.43 0.Santo Rio de Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná Sta.03 0.19 -0.23 0.Sul SUL M.18 0.13 -0. com a migração interestadual.06 0.05 0. inclusive.04 -0. 52 | Fases da migração Rosana Baeninger .26 -0.13 0.51 -0.20 0.13 0.10 -0.

430 -272.212 118.819 335.654 81.607 52.978 RM Porto 97. Rosana Baeninger Fases da migração | 53 .337 -339. 1986-1991 e 1995-2000 NORTE e NORDESTE 1986-1991 Pará RM Belém interior Interior -RM Belém trocas migratórias 32.523 RM Fortalezainterior Interior -RM Fortaleza trocas migratórias 40.748 São Paulo -48.059 Rio de Janeiro 8.143 108.459 61.652 RM Recifeinterior Interior -RM Recife trocas migratórias 29.635 Alegreinterior 49.945 -24.295 131.786 Rio G.748 91.919 58.866 39.404 57.do Sul 80.7 milhão de pessoas entre 1986-1991 e 1.370 37.902 Ceará 322.230 145.316 65.864 78.296 68. Censo Demográfico de 1991 e 2000.170 29.391 128. A terceira complementaridade migratória se refere às migrações intra-regionais (entre os estados de uma mesma Grande Região) que foram definidoras de novos espaços migratórios no Brasil e mobilizou cerca de 1.877 33.208 -RM Belo Horizonte 26.Tabela 18 Fluxos Migratórios entre Regiões Metropolitanas e Interior dos respectivos Estados.728 468.042 Bahia 24.483 Horizonteinterior Interior 71.111 20.430 RM Salvadorinterior Interior -RM Salvador trocas migrat.439 RM Curitibainterior Interior -RM Curitiba trocas migratórias 1995-2000 SUL 1986-1991 Paraná 36.547 40.688 Fonte: FIBGE. 47.036 Pernambuco 29.200 Interior -RM Rio de Janeiro trocas migratórias 67.725 trocas migratórias 1995-2000 SUDESTE 1986-1991 Minas Gerais 13.584 43.774 RM São Paulo-interior Interior -RM São Paulo trocas migratórias 382.004 29.255 Janeirointerior 84.231 Interior -RM Porto Alegre trocas migratórias 87.393 133.917 RM Belo 44.548 RM Rio de 54.8 milhão entre 1995-2000 (Tabela 19).682 103.093 118.204 110.481 1995-2000 62.

no último fio do êxodo rural no Brasil. que perde migrantes para São Paulo. 1999) imprime e redefine características importantes das migrações internas (Tabela 20). Em 1995-2000 a migração intra-regional do Nordeste foi de 408 mil pessoas e a do Sudeste de 715 mil.2011). Brasil.547 Fonte: FIBGE.767 726. que o conceito de rotatividade migratória deva ser atribuído à migrações urbanas (Baeninger.786. O surgimento de novas espacialidades no processo de urbanização (IPEA/NESUR.322 1995-2000 200. O final do século ainda reservou para esse Estado a fatia do êxodo rural do país. as regiões com maiores volumes de migrantes nessa modalidade nos dois períodos.832. O fluxo urbanorural chegou a 400 mil pessoas. mas que polarizam as migrações regionais. assim.406 186. quase 4 milhões dos migrantes interestaduais mudaram entre áreas urbanas.547 715. mas são. respondendo por cerca de 10% das migrações desses estados.960 1. com estados que podem apresentar perdas migratórias nas trocas com estados de outras regiões. A modalidade migratória rural-urbana representou apenas 12% dos movimentos migratórios interestaduais (cerca de 650 mil pessoas no quinquênio). Nas regiões Norte.664 1. Essa migração tem contribuído para desenhar novos pólos regionais no âmbito das Grandes Regiões. uma vez que possivelmente ainda possamos dialogar com os fatores de estagnação e de mudança – baseados em Singer (1973) . Sul e Centro-Oeste houve incrementos em seus volumes. Os movimentos rurais-rurais foram impor tantes para Rondônia e Pará.638 279.Tabela 19 Migração Intra-regional Grandes Regiões. com São Paulo concentrando 40% desses fluxos interestaduais.555 268. Considero. contudo. particularmente quando se consideram os movimentos intra-regionais e os inter-regionais separadamente. parecendo indicar mais problemas de definição 54 | Fases da migração Rosana Baeninger .957 408. Censo Demográfico de 1991 e 2000. Este é o caso da Bahia. a expansão dos espaços da migração se viu confirmada também nos anos 1990. mas ganha migrantes da Região Nordeste.634 459. sendo que nas regiões Nordeste e Sudeste um pequeno decréscimo. correspondendo a 75% das migrações internas no país. Assim.741 227. No período 1995-2000. 1986-1991 e 1995-2000 Grandes Regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste TOTAL 1986-1991 144.

A dimensão política se constitui também em elemento importante na formação de espaços urbanos selecionados.dos perímetros municipais (urbanos e rurais) do que o retorno para a área rural. Na continuidade do incremento das modalidades migratórias. Rio de Janeiro. bem como a definição de origem e destino de determinado fluxo não têm o mesmo significado que esses termos representavam quando se tratava de analisar os grandes movimentos rurais-urbanos. houve o surgimento e consolidação de pólos de absorção migratória no âmbito inter-regional e intra-regional. o panorama da mobilidade espacial da população vem apresentando um leque variado de modalidades com implicações mais determinadas na configuração dos espaços e na estruturação das cidades e suas redes. com a maior parte dos Estados tornando-se “ganhadores” de população . que canalizaram os fluxos do Nordeste. Rosana Baeninger Fases da migração | 55 . Outras dimensões passaram a compor as explicações do fenômeno. 1988). mantiveram-se como área de absorção de fluxos de longa distância. É nesse sentido que coloco em questão a capacidade das análises ancoradas apenas nos fatores econômicos comportarem todas as explicações do fenômeno migratório. as tendências na migração interna no Brasil nos anos 1990 apontaram: 1. 2. Considero que o fortalecimento de economias regionais impulsiona deslocamentos de população intra-urbanos. Goiás e Distrito Federal. porém não a única – que estão embutidas na decisão de migrar. especialmente os Estados nordestinos. Nesse contexto. 3. os quais parecem não estar ligados propriamente a interpretações do tipo atraçãoexpulsão. com incrementos das áreas de rotatividade migratória. que marcaram o crescimento e a concentração da população em áreas metropolitanas. Os clássicos fatores de expulsão e de atração populacional (Singer. as quais podem ser melhor compreendidas e apreendidas considerando as novas formas de configuração do espaço. onde a conformação de espaços urbano-regionais oferece um novo aporte para o entendimento do processo de redistribuição espacial da população. os fluxos migratórios de longa passaram a ter outro papel na relação migração/urbanização. houve a recuperação migratória no âmbito intra-regional de “espaços perdedores” no âmbito nacional. os Estados de São Paulo. mas sim a várias determinações da vida social – dentre elas a econômica. 4. particularmente as políticas de desconcentração das atividades econômicas (Cano.mesmo que estes ganhos estejam circunscritos a contextos regionais específicos. 1973) dentro de um mesmo contexto urbano-regional.

81 19. 1995-2000 Fluxos Estados Rondônia (%) Acre (%) Amazonas (%) Roraima (%) Pará (%) Amapá (%) Tocantins (%) Maranhão (%) Piauí (%) Ceará (%) Rio G.598 100 56.740 4.22 15.10 10.60 21.94 10.80 7.39 112.62 656.672 60.28 3.952 100 201.437 20.278 16.99 6.157 13.013 100 97.11 3.47 10.826 76.53 7.98 353.82 15.44 12.167 77.301 12.70 RuralUrbano 8.17 240.139 11.472 100 374.582 74.725 80.867 10. Sul (%) Mato Grosso (%) Goiás (%) Dist.142 14.450 3.252 5.267 13.701 10.502 100 164.25 157.61 19.584 11.96 257.29 3.51 5.972 1.980 100 299.23 44.18 31.90 293.79 6.092 100 1.18 7.69 35.68 8.33 37.29 31.467 7.92 UrbanoRural 13.09 10.529 4.44 70.45 101.43 16.55 6.24 31.598 100 95.164 7.435 14.569 4.893 12.770 4.914 100 52.29 4.15 403.031 4.56 157.76 23.721 10.15 305.457 3.790 63.356 59.95 4.786 5.308 14.354 6.467 23.110 74.893 5.271 72.975 100 102.81 5.351 4.418 3.167 9.884 5.17 1.348 6.71 23.101 11.453 100 130.826 4.86 TOTAL 84.18 6.95 18.765 5.33 111.39 43.737 100 202.39 34.110 100 114.537 11.098 100 323.70 12. Censo Demográfico de 2000.670 100 4.59 9.86 56.242. Norte (%) Paraíba (%) Pernambuco (%) Alagoas (%) Sergipe (%) Bahia (%) Minas Gerais (%) Esp.94 10.210 11.071 5.172 9.56 14.633 77.214 100 44.037 9.926.596 15.17 6.85 10.378 9.Tabela 20 Migração Interestadual segundo Situação de Domicílio Unidades da Federação.143 4.83 5.080 6.43 7.102 12.84 76.45 1.08 71.73 1.14 129.318 74.227 7.33 8.43 60.363 78.033 3. 56 | Fases da migração Rosana Baeninger .853 100 5.829 66.747 8.81 3.256 70.358 65. Federal (%) Brasil (%) Urbano-Urbano 50.08 1.153 78.055 7.36 14.47 19.880 8.31 69.38 8.577 8.82 36.88 17.48 5.578 3.51 2.445 7.947 100 172.53 RuralRural 12.080 5.090 10.26 6.03 17.664 6.96 884.97 25.496 9.689 100 Fonte: FIBGE.541 6.870 90.71 3.83 6.164 6.269 11.7955 100 185.061 14.548 6.805 72.355 7.441 14.14 84.61 7.078 67.39 10.379 100 13.399 100 102.80 18.105 2.920 7.418 10.39 8424 4.77 5.445 4.277 15.57 7. do Sul (%) Mato G.022 9.47 38.442 100 89.59 13.23 4.855 100 167.442 7.50 124. Santo (%) Rio de Janeiro (%) São Paulo (%) Paraná (%) Santa Catarina (%) Rio G.348 77.444 74.795 17.631 74.49 42.248 5.18 3.809 78.691 15.242 100 450.05 18.240.724 15.45 13.49 61.53 22.52 254.293 78.67 184.718 100 78.89 7.18 6.89 20.614 71.998 1.07 74.204 71.092 67.20 5.410 10.568 12.682 8.665 100 253.856 100 90.891 8.99 5.530 2.623 81.

O processo de escolha ao nível individual passa também a ter papel relevante. 1994). de 30. econômicos.1% [em 2003] e em SP de 40.2% para 48. Rosana Baeninger Fases da migração | 57 . a reestruturação econômica dos anos 1990.8% em 1989 para 18.5% para 7. que cai para o Brasil.14) traz alterações significativas na dinâmica econômica brasileira. A defasagem temporal da explicação das ‘novas’ tendências migratórias dos anos 1980 e 1990 via desconcentração econômica já podia estar indicando que “tipo migratório e etapa econômica” permite muito mais .9% para 35. de 48. sociais. do que a explicação do mesmo depois de 1980.5%”. excedendo até mesmo a definição tradicional de migração (Villa e Rodríguez. os anos 2000 denunciam que a mobilidade espacial da população no território nacional insere-se num contexto mais amplo de transformações da sociedade global em seu conjunto. tem apresentado complexidade crescente.4% (em SP. No período 1989-2003 houve “a diminuição do peso da indústria de transformação. de 9. explicações e interpretações das migrações internas no Brasil no século 21. Os distintos contextos históricos. demográficos e políticos serão as heranças para as diferentes manifestações. por vezes simplista.1% para 7. De fato. e vice-versa.no crescente contexto da urbanização – reconstruir a trajetória de determinado processo migratório até os anos 1970. Apesar dessa limitação do enfoque teórico para anos recentes. o setor serviços aumentaria. baseada em uma nova ordem financeira e produtiva transnacionais (Cano.7%). Assim. subiria de 3. apresentando estes estreita relação com os espaços em que esse fenômeno se processa. de 50. onde. no Brasil. considero que a reconstrução histórico-social do fenômeno migratório em seu tipo/etapa em diferentes espaços é que permitirá identificar as raízes das modalidades migratórias e suas especificidades e articulações na formação social e nas relações que estabelece em suas diferentes escalas. uma vez que as múltiplas formas de interação dos espaços regionais vêm apontando novas modalidades de deslocamentos populacionais. A relação migração-emprego. para o Brasil.0%. por exemplo.3% para 64. a agropecuária passaria . Nesse sentido. a dimensão espacial passou a representar outro significado aos deslocamentos populacionais. a mudança de emprego não implica necessariamente mudança de residência. 2011 p. desde o local até o global.8% e em SP.

o autor enfatiza que. No âmbito da questão regional. consequente. reestruturação urbana. A diversidade de situações migratórias locais. afinal assistimos a permanência do maior fluxo de emigração no Brasil tendo como origem seu centro financeiro. Para o período 1989-2003. mesmo em diferentes conjunturas econômicas. seu potencial explicativo se restringe a uma fase bastante recortada da histórica migratória nacional e a um fluxo específico marcado pelas migrações rurais-urbanas de grande magnitude. “os quais seriam vetores ligando zonas produtivas a portos de exportação.M M 58 | Fases da migração igrações. já em 1995. São Paulo. O patamar da urbanização brasileira. notadamente de commodities agropecuárias. Apesar de sua importância para explicar as migrações internas no país. aprofunda a inserção do Brasil nos processos globais de reestruturação produtiva. regionais. Migrações Tendo como pano-de-fundo o intenso processo de urbanização e sua importância para a inserção dos espaços nas diferentes escalas locais. Quais processos migratórios estariam reservados para o Brasil no cenário da globalização nos primeiros anos do século 21? O olhar para as interrelações sociais e demográficas atuais permitem afirmar que as migrações urbanas reconfiguram os processos migratórios no novo século. considero que a abordagem de tipos e etapas não tem o alcance necessário para explicar as migrações urbanas-urbanas. não sendo possível nos pautarmos apenas no dinamismo econômico das áreas. nos anos 2000. agroindustriais e minerais. a guerra fiscal. e os efeitos da desconcentração industrial. regionais. a execução de infraestrutura descentralizada. 2003). gerando impactos na. principalmente em termos da indústria de transformação. Cano (2011) indica os seguintes fatores que contribuíram para a continuidade da desconcentração produtiva regional no país: as políticas de incentivo às exportações. o governo abandou a política de desenvolvimento regional em favor das políticas dos grandes eixos (Galvão e Brandão. e receberiam grandes Rosana Baeninger . nacionais e globais. estaduais recodifica a complexidade do fenômeno.

com a expansão de produção destinada a exportações (notadamente de commodities) e à produção energética. da consolidação da província mineral de Carajás. da grande expansão do petróleo no RJ. em grande medida. 2002.25) afirma “o entendimento de que os processos econômicos. quase sempre transescalares (haverá ainda hoje algum processo social relevante cuja compreensão e modificação seja possível através de uma análise ou intervenção uniescalar?). 1998). particularmente Norte. arranjos produtivos locais e poder local. o aumento do poder político e econômico de grandes grupos privados nacionais e internacionais sobre alguns importantes espaços do território nacional. à de São Paulo [. procuro apontar que a análise dos movimentos migratórios nos anos 2000 reforça a tendência de configuração de novos espaços da migração. independentemente de qual é o sítio em que ocorre um evento..] a exceção a esse processo reside na ‘autonomia’ regional ganha por algumas áreas do país. ES e RN [. Entendo que não basta apenas indicar que se trata de “novas” modalidades migratórias ou “novos” rumos da migração interna.] a expansão da periferia estará atrelada. 26) Nesse cenário. seus sentidos e repercussões em diferentes níveis. 2007). PI e MA pelas commodities exportáveis. acrescentando “é evidente que a desconcentração produtiva continuou em todos os grandes setores: é a consolidação da fronteira agropecuária do NO e do CODF e do aumento da ocupação dos cerrados da BA. Cano (2011) aponta. e pouco ou nada fariam em prol dos maiores espaços regionais em que estivessem inseridos” (Cano. seus efeitos são sentidos em diferentes níveis escalares”.. sociais culturais têm dimensões escalares não podem conduzir à reificação das escalas. políticos.210) analisa autores e afirma “muitas vezes..investimentos para aumentar a eficiência e competitividade exportadora. É nesse sentido que proponho incorporar nas causas e explicações das migrações internas suas articulações escalares transnacionais. Brandão. partes do Nordeste e Centro-Oeste. imersos no contexto da reestruturação produtiva internacional. como o álcool de cana.16). É preciso buscar incluir as dimensões espaciais em que o fenômeno migratório opera em suas diferentes escalas territoriais (Vainer. eles apenas ligariam pontos de origem-destino. acrescentem-se as ‘ilhas de prosperidade’ (Pacheco. questões relativas à região competitiva. o petróleo e a hidroeletricidade” (Cano. Contudo. 2011 p. como se estas antecedessem e contivessem (como um receptáculo) os processos. “Brandão (2007 p. O que temos são processos com suas dimensões escalares. dentre as determinações para a questão regional e urbana no Brasil. 2011 p. Vainer (2002 p. Para 2003-2010. com a necessidade de diferentes olhares para as escalas aonde esses fluxos se processam. Rosana Baeninger Fases da migração | 59 . Para o autor o debate acerca do dinamismo regional contemplou no final dos anos 1990 e início dos 2000..

poder-se-ia explicar as evidências dos anos 1990 referentes ao descolamento na relação entre migração/ emprego. o debate atual acerca das novas configurações e tendências dos impactos territoriais dos processos de reestruturação produtiva.Considero ser este um caminho desafiador para o estudo das migrações internas no Brasil no século 21: acrescentar a perspectiva da produção social de escalas que permite “captar a complexidade desse heterogêneo e continental país” (Brandão. A complexidade e a diversidade do processo de redistribuição da população têm apontado a necessidade de se recuperar e incorporar aos estudos de população. A intensificou-se a velocidade das transformações tecnológicas. para a configuração de espaços urbanos selecionados (Sassen. relações construídas para a interpretação das migrações em uma dimensão uniescalar: a escala nacional. É nesse contexto. com mudanças no cenário urbano mundial (Sassen. regional e local.15 apud Brandão. que desembocarão em modalidades e deslocamentos populacionais específicos dessas escalas e lugares. 1988). em especial nas grandes concentrações metropolitanas (Benko e Lipietz. em particular a histórica migração do fluxo Nordeste-Sudeste apresenta uma dimensão transescalar e transnacional nessa primeira década do século 21.211). 1992). à medida que os espaços nacionais se conectam aos espaços globais – via mobilidade do capital – as migrações internas redefinem seus significados no contexto nacional e nas demais escalas regionais e locais. 1999) e migração/mobilidade social (Brito. Assim como Kornin e Moura (2002 p. As cidades pequenas e de porte médio passaram a constituir uma importante fatia do dinamismo regional. 1994). 60 | Fases da migração Rosana Baeninger . de urbanização e das migrações no âmbito da reestruturação urbana. ou espacialidades estariam afetas a uma dimensão transescalar não capturável por mecanismos e instrumentos convencionais de planejamento e gestão?” coloco a hipótese de que a redefinição das migrações internas no Brasil. Mudaram a direção e o sentido dos fluxos migratórios nacionais e internacionais. incluindo o âmbito global. Modificaram-se as formas e os processos urbanos até então vigentes nas cidades. Essa reestruturação urbana traduz as recentes transformações do capitalismo em âmbito internacional (Harvey. Em uma concepção abstrata.1988). migração/industrialização (Baeninger. 1997). 2007) perguntam em relação ao planejamento urbano “há uma escala espacial que abarque o processo de metropolização e de configuração de aglomerações urbanas. O processo de reestruturação produtiva em âmbito internacional tem contribuído. sobretudo para o entendimento do fenômeno migratório. Tais espaços têm apresentado transformações significativas em termos econômicos. em nível nacional. 2007 p. que se torna importante inserir o debate a respeito das novas configurações urbanas para o entendimento dos processos de redistribuição espacial da população. portanto. políticos e sociais em um esforço de inserção nessa dinâmica global. Nesse entendimento.

refletindo os impactos territoriais do processo de reestruturação produtiva. Harvey. permitindo flexibilizar a forma fordista de acumulação e a dinâmica espacial desse sistema (Harvey.1999). em particular nos anos 2000. o que requer o surgimento de novas espacialidades e o redesenho de fenômenos sociais que historicamente foram construídos no âmbito nacional (Sassen. 1999. Desse modo. É nesse sentido. onde a compreensão dos fenômenos locais pressupõe o entendimento dos fenômenos regionais. nacional e global. O surgimento de rearranjos nas funções urbanas das cidades. metropolitanos e até aqueles em âmbito mundial (Castells. às transformações recentes da economia em âmbito internacional e a nova divisão social do trabalho (Gottdiener. Rosana Baeninger Fases da migração | 61 . fundado numa flexibilidade crescente tanto no nível econômico como no social” (Benko. Isto porque a reestruturação produtiva não se limita à dimensão econômica (Castells. 1988) ou rede de distritos (Benko. O que procuro acrescentar é que . o elemento central da reestruturação econômica está calcado sob as novas formas de flexibilização da produção e sob a transformação vigorosa nos serviços de coordenação financeira. 1996:28). regional. nacional e local. Portanto. constituem também um dos elementos e produção desses impactos territoriais. experimentaremos diversificados movimentos migratórios e suas interpretações no âmbito local.Esse cenário traz novos contornos às cidades. cidades globais (Sassen. espaço de fluxos (Castells. 1999). Assim. “Desde os anos 80 observam-se os primeiros sinais do advento de um novo período de desenvolvimento do capitalismo. que quero enfatizar que a configuração das migrações. 2007). com articulações em nível internacional. culturais e espaciais (Harvey. O sistema de cidades em nível nacional e suas conexões com a hierarquia urbana internacional traz reflexos para a escala nacional no que se referente às migrações internacionais como aponta Sassen (1988). em termos de atividades econômicas e de redistribuição espacial da população. as novas formas do espaço denunciam a dinâmica econômica atual e representam redes de lugares (Santos. A reestruturação urbana articulase à reorganização econômica mundial. 1997). A nova divisão internacional do trabalho oferece o eixo da reestruturação econômica. 1992). 1992). 1992). por sua vez.1988. Ao mesmo tempo transformam-se as dimensões sociais. A contextualização e o entendimento do processo de reestruturação urbana atual remete. revelando nexos transescalares. políticas. 2010). 1993). em especial o histórico fluxo Nordeste-Sudeste. Sassen. constitui elemento fundamental no fortalecimento de economias regionais que se articulam em diferentes níveis escalares (Brandão.em se considerando os diferentes níveis escalares – parte das migrações internas no Brasil se vinculam às transformações em âmbito global. 1996) no contexto da dinâmica econômico-urbana em nível global.

Assim. as perspectivas sobre a reestruturação compartilham uma característica comum: a afirmação de que as recentes mudanças no capitalismo. a vinculação do capital. as novas tecnologias de informação e de comunicação e a constituição de poderosas organizações transnacionais ligadas por redes subordinadas e descentralizadas são fatores decisivos no processo que dá sentido estrutural a cada território em um contexto mais amplo. Gottdiener (1993). 1980. O processo global de reestruturação das atividades econômicas implica em transformações significativas para países centrais e periféricos. dentre outros aspectos. que procuro inserir as migrações internas no Brasil como elemento que reflete e compõe esse movimento de reestruturação nos contextos urbanos. especialmente a partir de 1970. oscilação entre as condições da migração (retenção. É nesse sentido. políticas e culturais no âmbito nacional e internacional (Sassen. Benko (1996). para as análises das migrações internas no século 21 no Brasil. (1992). provocadas pela crise. são responsáveis pela reorganização das estruturas espaciais urbanas e das relações entre as cidades no sistema urbano. Brandão (2007). onde. a dimensão territorial constitui elemento fundamental do desenvolvimento atual2. representando enormes alterações nas estruturas sociais. nas atuais condições de crise. As mudanças advindas do processo de reestruturação produtiva alteraram significativamente a relação das cidades na economia 2 Veja-se. 2010). Harvey. urbanas. 1988). Santos (1997). com a configuração de espaços marcados como o lugar da produção (Sassen. Sassen (1988). dentre outros autores: Castells (1999). 62 | Fases da migração Rosana Baeninger . 1990) e a consequente expansão da produção terceirizada em diferentes espaços locais (Sassen. Apesar das divergências teóricas. às mudanças socioespaciais que reestruturam o ambiente urbano continua sendo o traço comum das obras recentes”. Enfatizo que a diversidade crescente de situações migratórias dentro do processo de reestruturação urbana tem diferentes interpretações em função das articulações escalares. a dispersão espacial da produção tornou-se elemento central (Sassen. Castells (1989) enfatiza que a economia internacional. A nova fase da acumulação capitalista pressupõe uma intensa mobilidade do capital e da força de trabalho (Sassen 1988). 1990). a tecnologia da informação (telecomunicações.) confere enorme dinâmica à produção e aos lugares. Como enfatiza Gottdiener (1993 p.59) “apesar das diferenças. microeletrônica etc. que a partir desses lugares inseridos na lógica da produção global se desencadeia a nova configuração migratória nacional: alta rotatividade. É importante reter aqui.No atual processo de reestruturação econômica. perda e rotatividade migratória) e a utilização dos espaços como recurso para outros deslocamentos populacionais.

De acordo com Harvey (1992:266) “a produção ativa de lugares dotados de qualidades especiais se torna um importante trunfo na competição espacial entre localidades. 1991). significados. indicando seus mecanismos de desencaixe (Giddens. onde não se contemplam as necessidades internas da cidade e das condições de vida de seus cidadãos.internacional (Sassen. com intensas idas-e-vindas sem a capacidade de absorção dessa população. Os efeitos sociais dessa nova forma econômica. destaca a autora. regiões e nações”. Considero que esse novo contexto social incide fortemente nos contingentes migrantes da metrópole de São Paulo. os efeitos sociais da reestruturação produtiva alcançam cada vez mais espaços nacionais. portanto. no crescimento de trabalhos feito em casa e em indústrias domésticas. a necessidade/demanda por força-detrabalho para essa etapa da dinâmica econômica dependerá da ligação dos espaços da produção na economia globalizada. correspondendo à mesma velocidade da mobilidade do capital na contemporaneidade. Meu argumento aqui é o de que à medida em que as localidades se inserem na lógica global. permanências. cidades. Por exemplo. Ao mesmo tempo. as migrações internas tenderão a ser mais “fluidas”. Procuro então apontar. Sassen (1990) analisa que a estrutura ocupacional do crescimento industrial da reestruturação da produção é caracterizada pela concentração locacional dos principais setores da indústria juntamente com a polarização ocupacional. o que contribui para o crescimento de um estrato de alta renda e um estrato. voltada para o mercado mundial. Isto faz diferença para os processos migratórios atuais no Brasil e suas direções. À medida que diferentes espaços e suas produções locais passam a responder à uma demanda internacional. com a confluência da entrada de imigrantes estrangeiros nesses mesmos espaços (Baeninger. a migração de mão-de-obra qualificada tenderá a ser absorvida pelos centros de excelência em ciência e tecnologia e nos grandes centros industriais-financeiros. refletemse no aumento da pobreza nessas cidades. com a consequente redefinição no papel da migração no desenvolvimento e constituição do mercado de trabalho no país. se processará a continuidade das entradas e saídas de fluxos migratórios de menor qualificação. em especial o “trabalhador do conhecimento” (Castells. que para os anos 2000.1999). No século 21 essa mobilidade da força-de-trabalho interna – via histórica migração Nordeste-Sudeste – é também a manifestação da mobilidade do capital em nível global. de trabalhadores de baixa renda. no subemprego. Esses efeitos compõem o crescimento do complexo industrial orientado para a economia global. os movimentos migratórios mudarão suas interpretações nos diferentes níveis escalares. 2011). Rosana Baeninger Fases da migração | 63 . que possivelmente terão menor permanência em destinos voltados para uma economia global. bastante grande.1990) e.

os ganhos do capital não corresponde aos ganhos da migração (em termos de fixação desses migrantes). portanto.. As dinâmicas nacionais e globais não são excludentes. Gottdiener (1993) afirma que processos socioeconômicos experimentados em décadas anteriores contribuíram para uma nova forma de espaço. 2007). “As cidades representam lugares específicos. são contempladas como as ‘regiões ganhadoras´(Benko e Lipietz. “Nessa visão. a autora completa analisando que as relações entre o local e o global podem ocorrer de múltiplas formas. com expressivas perdas migratórias para os demais estados do país e para suas respectivas áreas interioranas. a escala global. 1994) dos fluxos de capitais no âmbito da economia global. em particular São Paulo. que (re)configuram seus processos migratórios justamente pela articulação que passam a estabelecer em outra escala. Isto não diminui o papel central dessas localidades no contexto nacional. O autor enfatiza que a reestruturação urbana está baseada na problemática da desconcentração.] as estruturaschaves da economia mundial estão necessariamente situadas nas cidades” (Sassen. e particularmente do Estado de São Paulo (Baeninger. O eixo explicativo para a configuração das novas espacialidades é a desconcentração. indicam arranjos regionais e locais no processo de urbanização e suas migrações. porém. mesmo antes da reestruturação pós-fordista. do ponto de vista das migrações internas no Brasil tratar-se dos espaços que vem sendo marcado como regiões perdedoras de população. o processo de desconcentração implica tanto um movimento socioeconômico que sai das cidades centrais mais antigas para áreas afastadas – ou descentralização – quanto o surgimento de aglomeração tipo cidade e a formação de densidade 64 | Fases da migração Rosana Baeninger . sem que haja uma hierarquia entre os níveis. entendida como o aumento absoluto de população e o adensamento de atividades sociais em áreas fora das tradicionais regiões urbanas e dos maiores centros populacionais. espaços da estrutura social. 2008) e do Rio de Janeiro (Oliveira. ter entendido que as grandes transformações na rede urbana brasileira e na redistribuição da população e das migrações tivessem se iniciado justamente pelas concentrações metropolitanas (Baeninger e Brito. O desafio que teremos a enfrentar é acrescentar a escala transnacional na composição das causas desses fluxos migratórios. Entendo. 1990: 4).. afirma Sassen (2010). nas diferentes abordagens. Faz sentido. da dinâmica interna e da nova ordem global [. é essa concentração territorial hegemônica que se volta para o mundo globalizado. De fato. 2010). nessa releitura. ocorre uma inversão: quanto mais globalizado o espaço maior será sua emigração. Este é o palco dos grandes fluxos migratórios nacionais no Brasil: as regiões metropolitanas.Destaca-se que no processo de reestruturação produtiva as metrópoles. Refletem impactos territoriais no âmbito nacional do processo de reestruturação produtiva na escala nacional. A experiência brasileira.

a dinâmica interna das cidades e regiões constitui elemento fundamental para a configuração das migrações no processo de reestruturação produtiva transnacional.. quando as clássicas interpretações da migração ancorada somente no desempenho econômico das áreas alcançaram seus limites. De fato. As análises de Gottdiener (1993) suscitam que se mencione a discussão acerca dos processos de reestruturação urbana vis-à-vis os processos de urbanização. Quando se considera os movimentos migratórios interestaduais e suas trocas migratórias pode-se verificar entre 1995 e 2009.social em áreas afastadas – ou concentração [. que o deslanchar dos processos migratórios recentes tem suas raízes de transformações desde os anos 1980. no entanto. Entre 2001-2006 e 2004-2009.para minhas análises. foram. de processos socioeconômicosespaciais derivados de uma etapa prévia à reestruturação produtiva. imersos em um novo contexto socioeconômico e urbano nacionais e globais. o tema das migrações internas no Brasil adquire importância crescente nos estudos de população no século 21. juntamente com a reestruturação contemporânea de tais regiões em domínios multicentrados – esparramados por vários quilômetros e localizados em todo lugar do país. as dinâmicas regionais passaram a imprimir especificidades às migrações urbanas-urbanas.. De outro lado. intrametropolitanas e intra-estaduais são manifestações das expressões locais dos processos sociais que podem ter elementos do global. áreas de perdas migratórias e áreas de rotatividade migratória. Considero que as migrações interestaduais de longa distância e suas rotatividades são expressões de sua inserção na escala global. especialmente naquelas áreas consideradas antigamente imunes ao desenvolvimento urbano” (Gottdiener. Nesse sentido. Já as migrações intraregionais. Os processos migratórios nacionais. escolho o termo desconcentração para descrever os padrões atuais de crescimento polinucleado porque ele apreende a dispersão regional maciça de pessoas. respectivamente. as novas espacialidades resultariam. apontado por Gottdienier (1993) é importante resgatar que o próprio fenômeno pode ter contribuído para a formação e surgimento de espaços urbanos selecionados. Assim. a manutenção no número de Estados ganhadores de população: 17 Estados entre 1995-2000 e entre 19992004. os quais se fortalecem e se recriam diante do atual processo de reestruturação econômica. No movimento de desconcentração. De um lado. em parte. 1993 p. as migrações de longa distância redesenham seus trajetos e seus significados. refletindo a situação de trocas migratórias Rosana Baeninger Fases da migração | 65 . imprimem espaços da migração marcados por diferentes “condição migratória”: áreas de retenção de população. indústria e administração pública.] em resumo. portanto. Analiso. preparando e abrindo espaço para os espaços da globalização. de redistribuição espacial da população e das atividades econômicas. 12 e 13 os Estados com ganhos migratórios.19). comércio.

com novas modalidades de deslocamentos populacionais em âmbitos locais e regionais.4 milhões. como às de destino. Os anos 2000 indicam redefinições da relação migração-industrialização. onde os fluxos mais volumosos e de longa distância são compostos de idas-e-vindas. Na minha interpretação. É nesse contexto.2 milhões. bem como seus atuais desdobramentos. não implica em uma tendência à estagnação das migrações. Ainda que a PNAD 2009 aponte para o decréscimo do saldo migratório negativo do Estado de São Paulo e trocas positivas para o Estado do Rio de Janeiro. denota outros arranjos da própria migração interna. as migrações assumem um caráter mais reversível (Domenach e Picouet. mesmo que em uma leitura histórico-estrutural (Singer. sem a definição – que anteriormente poderia se visualizar – dos rumos da migração no país. as migrações internas tornaram-se ainda mais complexas. para 3. para 4. nas quais as explicações da migração estavam pautadas na capacidade de atração do destino migratório. Esse decréscimo. Nesse sentido.2 milhões entre 2004-2009. é essa nova configuração produtiva em âmbito nacional e internacional que constitui o panode-fundo do dinamismo atual das migrações internas no Brasil. migração-emprego no contexto atual da economia e da reestruturação produtiva. outras etapas. 1990) em comparação com décadas anteriores. as oscilações nas tendências da migração de alguns Estados da Região Nordeste e a nova posição de São Paulo e Rio de Janeiro no cenário de perdas migratórias no contexto das migrações internas no Brasil (Tabela 21 e 22). com um crescente vai-e-vem. para o conjunto do país.6 milhões. com o incremento da migração de retorno. O fenômeno da reversibilidade das migrações internas diz respeito tanto às áreas de origem. embora se deslocando da clássica relação entre dinâmica econômica e migração. contudo. re-emigração.negativas dos Estados da Região Norte. que a migração interestadual. migração-desconcentração industrial. no início do século 21. Ao contrário. considerando o comportamento verificado em décadas ou quinquênios anteriores. Acrescento ainda que as fontes de informação limitam captar a intensidade das trocas migratórias. 66 | Fases da migração Rosana Baeninger . entre 1995-2000. entre 1999-2004 e de 4. continuou exibindo decréscimos em seus volumes: passou de 5. 1973). de 2001-2006. refluxos.

380 234.113 82.142 Emigração 72.887 188.921 517.688 458.470 140.318 45. Censo Demográfico de 2000 e PNAD 2004. 1995/2000 e 1999/2004 Regiões/UF Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins NORTE Maranhão Piauí Ceará Rio G.643 591.809 2.930 1.244 -29.338.325 13.924 447.384 235.200 -11.819.095 398.659 95.694 21.650 -52.680 73.571 152.156 180.152 336.223 884.709 71.537 -89.917 62.004 452.069 58.469 12.968 33.857 204. emigração e trocas migratórias por Regiões e Unidades da Federação Brasil.572 1.OESTE TOTAL 1995/2000 Imigração 83.917 102.617 -155.312 516.251.494 138.653 978.949 56.415 258. Federal C.001 38.836 129.924 119.986 -39.69 63.551 590.587 30.169 319.586 -7.815 186.275 -86.741 -77.325 187.046 14.680 274. Sul Mato Grosso Goiás D.223.565 11.526 339.020 45.936 -4.777 64.Tabela 21 Volumes de imigração.641 1999/2004 Emigração 55.872 55.704 75.902 Trocas 10.350 2.121 1.713 -173.997 -47.168 29.019 -29.354 97.029 42.635. Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais Esp.016 113.822 97.073 25.343 1.591 -2.111 32.212 52.132 166.438 107.071 192.690 59.434 30.372 556.508 429.411 -39.651 113.393 100.286 163.132 -215.258 378.092 5.478 214.563 297.978 -1.908 5. Rosana Baeninger Fases da migração | 67 .574 199.982 546.738 123.210 42.471 271.079 -23.909 203.726 169.967 52.011 168.838 Trocas -6.554 108.408 90.200 111.854 408.820 88.513 493.196.430 556.073 750.006 Imigração 49.200 852.106 36.471 -24.036 823.526.120.284 95.460 108.928 13.868 85.395 610.574 37.668 43.669 255.709 166.649 262.689 1.891 629.734 16.998 139.308 -10.783 6.749 1.297 372.626 47.358 -763.287 116.426 18.582 95.213 15.109 250.665 152.480 -115.005 164.685 14.417 -71.268 146.557 1.045 44.635 89.568 * Não inclui os imigrantes estrangeiros nem os de UF não especificada.496 -19.271 81.750 182.930 39.239 13.585 -88. Fonte: Fundação IBGE.815 27. Sul SUL Mato G.932 81.149 274.370 -52.485 280.406 4.571 202.741.281 112.Catarina Rio G.525 82.631 -61.182 139.736 162.691 315.193 1.646 141.680 146.662.926 77.812 -267. Santo Rio Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná S.729 34.328 179.843 290.618 1.289 127.177 34.308 199.702 216.982 -4.059 47.952 120.055.658 14.163 260.

325 9.900 78.799 12.652 74.303 33.893 393.084 3.958 417.818 56.249 13.361 263.800 120.502 137.560 8.491 314.499 30.083 434.629 203.565 -36.334 80.946 -37.810 40.340 123.418 Emigração 56.839 50.775 120.616 11.185 Trocas -20.104 181.036 487.784 157.307 17.121 69.114 -35.458 246.073 37.661 -10.419 -15.308 85.596 12.501 210.804 63.991 204.524 109.869 12.330 194.640 137.228 810. 2001-2009 Regiões/UF Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins NORTE Maranhão Piauí Ceará Rio G.950 533.469 1.071 -168.270 133.775 306.793 621.177 52.821 1.757 36.825 -34.108 70.063 -53.699 -66.782 156.317 -5.025 9.366 107.675 160.783 Trocas -6.150 251.343 85.092 665.517 3.048 12.552 40.154 54.421 141.023 202.946 -22.684.435 55.531 125.590  - Fonte: FIBGE (PNAD 2006.490 174.249 69.627 264.816 153.674 165.559 -29.351 118.276 102.463.Tabela 22 Volumes de Imigração.441 154.043 33 27.031 138.567 1.291 4. Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais E.682 57.041 99.366 221.291 100.748 155.613 194.059 63.112 48.033 90.654 135.047 70.472 -53. 68 | Fases da migração Rosana Baeninger .629 217.423 -25.594 14.769 90.317 70.358 93.477 -75.027 129.429 50.652 1.126 142.205 90.618 172.808 29.718 19.736 203.341 2.005 -4.055 416.292 19.071 174.710 1.792 36.133 1.798 93.398 99.329 30.919 89.903 550.968 41.072.090 154.383 169.987 50.169 -19.823 67.038 36.002.548 127.493 40.102 15.545 353.545 104.190 511.585 8.301 Imigração 34.801 4.801 13.908 8.130 245.762 51.300 25.783 3.196 54.930 -10.282 -5.730 425.639 213.567 -29.014 54.954 13.440 -1.200 11.098 -153.914 -31.087 149.240.166 -16.488 -13.859 104.058 1.438 58.Santo Rio Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná S.158 17.856 146.218.772 12.936 37.016 389.321. Sul Mato Grosso Goiás D.564 54.073 82.262 357.220 56.063 112.740 60.299 979.843 -40.531 23.653 86.769 43.747 -24.927 Trocas 2.741 2003/2008 Emigração 47.757 59.168 220.707 -11.869 98.943 157. Unidades da Federação.038 765.000 17.634 972.695 -12.106 Imigração 40.535 29.Catarina Rio G.415 31.144.876 508.894 44.634 319.748 110.724 288.044 171.762 63.333 23.067 82. 2009).555 8. Emigração e Trocas Migratórias.908 -11.206 13.163 -108.056 11.209 67.351 -41.026 35.211 1.374 -6.135 3.842 136.510 262.745 80.381 378.350.116 1.282 8.457 573.459 535.266 80.534 39.903 193.125 -6.387 74.866 136. OESTE TOTAL 2001/2006 Imigração 36.024 -4.717 -4.522 588.303 -19.316 349.182 74.769 38.017 -53.980 98.267. 2008.867 154.567 83.917 107.613 66.423 39.885 814.085.573 312.560 -12. do Sul SUL Mato G.199 13.608 -2.327.472 -30.602 198.628 452.253 7.889 296.826 75.885 83.714 93.418 274.276 -12.044 -35.376 1.326 -187.727 56. Federal C.083 2004/2009 Emigração 32.868 113.352 38.373 107.624 640.821 111.596 -207.600 7.822 98.508 676 -41.593 276.037 413.472 339.768 130.078 101.361 105.512 73.

o Rio Grande do Norte e o Ceará vêm conseguindo manter trocas migratórias positivas com as demais Unidades da Federação. no período 1995-2000. respectivamente. muito mais. Deve-se ressaltar que estas perdas podem estar relacionadas. 1998) e internacional (Sassen. com um saldo migratório positivo de 33. Do outro lado. para uma perda de -207. A compreensão das migrações no Nordeste passa necessariamente pela nova realidade da Região Sudeste. mais uma vez destacar. 2008 e 2009 é possível identificar que a imigração para São Paulo diminuiu para 765. e a reorganização da indústria no território nacional (Coutinho. o Estado da Bahia é um dos melhores exemplos: com uma trajetória de perdas migratórias por mais de cinquenta anos – apesar do decréscimo em seu volume como um todo – a PNAD 2006 revelou maior contingente de imigrantes (339. o Estado de São Paulo passou de um ganho de migrantes (339. As dinâmicas migratórias dos Estados do Nordeste são profundamente marcadas por oscilações em termos de recuperação.Para o entendimento deste novo cenário das migrações no país é necessário que se observe as tendências atuais da Região Nordeste. respectivamente. esta imigração ainda havia sido de 1. entre 2001-2006 e 2003-2008. do início do século 21.809 migrantes interestaduais.376 migrantes nacionais para o período 2004-2009 – quando. as PNADs 2008 e 2009 apontam perdas migratórias de 75 mil pessoas e de 108. alcançando 53 mil e 168 mil pessoas. Entre 2004-2009 o saldo negativo migratório para a região Nordeste mantevese em 187 mil pessoas. nas trocas migratórias. torna-se pertinente. no período 1995-2000.223. as análises a respeito da reversibilidade das migrações.469 em 2001-2006 para 621.São Paulo e Rio de Janeiro . Com uma tendência que se delineia desde os últimos vinte anos. como aponta Domenach e Picouet (1990).326.116). e do Rio de Janeiro. como a instabilidade das tendências dos movimentos migratórios de retorno.em áreas de perdas migratórias. entre 1999-2004. Nesse contexto. diminuindo esta perda -19.688).652 pessoas entre 20032008 e -53. entre 2001-2006. De um lado. No entanto. absorção e expulsão de suas populações que refletem tanto os processos intra-regionais. Esta nova face e nova fase da imigração para o Nordeste estão relacionadas ao contexto atual da Região Metropolitana de São Paulo.276 entre 2004-2009.017 pessoas para esse Estado. de 763 mil pessoas. para a Bahia com alta rotatividade migratória. 1988). transformaram os grandes Estados de atração populacional dos anos 70 .133 pessoas) do que de emigrantes (306. Nas PNADs 2006. a Região Nordeste continuou o decréscimo em seus saldos migratórios negativos. em especial. Com isso. o que indica a força da migração de retorno na composição de sua imigração. às saídas de população da Região Metropolitana de Rosana Baeninger Fases da migração | 69 . para 86 mil pessoas.058 entre 2003-2008. Os movimentos migratórios. entre 19952000. chegando a 535.098 pessoas.

com perdas migratórias entre 2004-2009 (-12. com histórico consolidado de migrações interestaduais – em especial nordestina . passando a um saldo positivo de 39. para -6.784 pessoas. positivo de 12. entre 1995-2000.063).438).São Paulo. Todavia.459 no período 2004-2009. entre 2001-2006. em especial Rondônia e Amapá. no período 2003-2008. com maiores volumes negativos no período 2003-2008(-19. portanto. O Rio de Janeiro teve seu volume de imigrantes diminuído de 319. o início dos anos 2000 aponta a inversão dos processos migratórios em Rondônia. no período 2003-2008.027 pessoas).038. esse Estado volta a apresentar trocas migratórias negativa de -5. passou para uma perda de população em 2001-2006 de 12. O Estado do Mato Grosso nos três períodos (1995-2000. mas também voltando a saldos positivos entre 2004-2009 (11. porém. Na Região Centro-Oeste.029 migrantes). passou a ter saldo negativo de -16. voltando a ter ganhos populacionais entre 2004-2009.783.398 pessoas. Na Região Norte.591 pessoas). com declínio mais intenso. indicando no período 2001-2006 aumentos em suas perdas migratórias (-20. ainda em 19952000 (27.193). Para as antigas áreas de fronteiras agrícolas. entre 2001-2003. o redesenho dessas áreas com a expansão da “nova fronteira agrícola” (Cano. voltando a ser negativo entre 2004-2009 (-24. embora com menor força que o decréscimo para São Paulo.793 imigrantes e 141. no período 2003-2008.do que ao cenário do interior paulista. no período 1995-2000.695 pessoas). de um para outro período: de -19. 2002). O Rio de Janeiro registrou saldo migratório negativo foi de -41. as tênues fronteiras entre as “condições migratórias” mesmo nos atuais pólos migratórios no país. 2011) já se fez sentir nos movimento migratórios do período 2003-2008 com declínio das perdas migratórias.866 pessoas). o Mato Grosso do Sul que apresentava tendência de perda de população em 1995-2000 (com saldo negativo de 11.169 pessoas. Ainda no período 1995-2000.200. no período recente (2003-2008). para 210. o Estado registrava trocas migratórias interestaduais positivas (10.596 migrantes.649 pessoas). Cabe ainda destacar que a Região Sul passou a ter saldo positivo no âmbito nacional. para 193.818 migrantes. Nota-se. passando para um saldo migratório negativo entre 1999-2004 (-6.801 migrantes). apresentou saldo positivo em suas trocas migratórias. O importante a reter aqui são os níveis escalares em que se operam tais fenômenos migratórios e sua manifestação local/regional e nacional. entre 2001-2006. as mudanças nos movimentos migratórios também foram expressivas. diminuiu sua emigração.749. Outra tendência inversa no Centro-Oeste é registrada pelo Distrito Federal que de ganhos migratórios.166 pessoas e oscilando para saldo migratório positivo entre 2004-2009 (7. para 70 | Fases da migração Rosana Baeninger . que vem expandindo suas áreas de migração com o Nordeste mais recentemente (Baeninger. 1999-2004 e 20012006). Porém.

Alagoas.282 pessoas. Mato Grosso. entre 2004-2009. 2001-2006.12 e 0. Rio de Janeiro. nos períodos 1995-2000. entre 2001-2006.534 migrantes. São Paulo. Os Estados com capacidade de retenção migratória (IEM acima de 0. Maranhão. em especial as oscilações nos volumes de emigração e imigração e suas novas modalidades. 1999-2004. Bahia. 2003-2008 e 2004-2009. Paraíba. Piauí. Assim. em função principalmente pelos ganhos migratórios de Santa Catarina.12 e –0. Destaca-se que essas áreas têm apresentado também oscilações em suas “condições migratórias” como demonstra a evolução do IEM. Sergipe.14. a própria reversibilidade (Domenach e Picouet. Minas Gerais. c) áreas de origem e destino por áreas/etapas constituintes dos processos de rotatividade migratória. O entendimento das migrações internas atuais. com valor superior de 0. Há sim um intenso movimento de rotatividade migratória no Brasil. Ou seja. b) áreas de atração ou absorção por áreas de retenção migratória. Duas dimensões estão particularmente presentes na redefinição desses processos: em primeiro lugar. Santa Catarina e Goiás.30). Mato Grosso do Sul.12. Amazonas. Rosana Baeninger Fases da migração | 71 . tais como: a) áreas de evasão por áreas de perdas migratórias. conduz à substituição de conceitos historicamente datados. onde o índice de eficácia migratória. a partir desse novo olhar para os processos migratórios.30) são apenas: Pará. nota-se que o país vivencia uma intensa mobilidade da população. Ceará. com manutenção do saldo de 40. no período 2004-2009 totalizam apenas 5 estados: Amazonas. Rio Grande do Norte. Rio Grande do Sul e Distrito Federal. com o indicador situando-se próximo de zero (entra migrantes e saem migrantes). Considerando-se o Índice de Eficácia Migratória interestadual. Em segundo lugar. Já as áreas de perdas migratórias (IEM entre -0.40. a menor permanência das condições da migração para a caracterização das áreas. no período 2003-2008 e de 98. já não há mais áreas de grande retenção migratória e nem de elevada perda migratória. tanto positivo quanto negativo. ou seja. Espírito Santo.12) – são no período 2004-2009: Rondônia. Pernambuco. compreendendo dezessete estados brasileiros. com o aumento das áreas de rotatividade migratória. Tocantins. Isto fica evidente quando observado o comportamento em termos de grandes regiões brasileiras. Para a Região Norte e Região Sul os índices de eficácia migratória se situam na faixa entre -0. 1990) dos diferentes fluxos migratórios. Paraná. os Estados com índice de eficácia próximo ao de rotatividade migratória – mesmo com valores negativos (entre –0. Acre.05 e 0. muito distante dos extremos do indicador (-1 como área de evasão e +1 como área de retenção migratória). são bastante próximo de zero (Tabela 23).253 migrantes.

2008 e 2009 Observatório das Migrações em São Paulo.17 -0.10 0.40 -0.15 -0.21 -0.11 -0.06 0.22 0.21 -0.23 0.08 0.17 0.05 -0.02 0.01 -0.03 0.418 2003/2008 -0.18 -0.03 -0.09 -0.05 0.15 0. 1995-2010 UFs Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins NORTE Maranhão Piauí Ceará Rio G.39 -0.29 -0. 2006 . Fapesp/CNPq.39 -0.06 -0.2 -0.36 0.48 0.24 0.02 0.25 -0.06 0.02 0.09 0.44 -0.05 -0.04 -0.06 0.18 0.05 -0.07 0.02 0.37 0.196.30 0.07 -0.27 -0.33 -0.08 0.1 0.27 0.42 0.01 -0.23 -0.13 -0. Federal C. Catarina Rio G. 72 | Fases da migração Rosana Baeninger .16 0.142 1999/2004 -0.02 0.04 0.2 0.1 -0.14 3. Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia NORDESTE Minas Gerais E.30 0.10 0.04 0.20 -0.12 -0.06 0.04 0. Censo Demográfico de 2000 e 2010.40 0. Nepo/Unicamp.11 0.35 -0.08 -0.06 0.09 0.23 0.11 0.02 -0.05 -0.05 0.06 -0.13 -0.02 -0.28 -0.07 0.03 -0.03 0.04 0.09 0.03 -0.15 0.11 0.25 -0.33 0.15 -0.04 -0.11 0. Santo Rio Janeiro São Paulo SUDESTE Paraná S.13 4.08 -0.04 -0.16 4.02 0.16 0.08 0.06  3.34 -0.26 -0.08 0.07 0.04 -0. e PNAD 2004.04 0.03 0.13 0.08 0.46 -0.635.12 0.21 0.08 0.752 Fonte: Fundação IBGE.03 0.04 0.28 0.02 -0.Tabela 23 Índice de eficácia migratória por Regiões e Unidades da Federação Brasil.25 0.12 -0.20 4.54 -0. Sul SUL Mato G.27 0.15 0.13 -0.23 -0.03 0.01 0.02 0.21 -0.02 0.240.18 -0.463.643.03 0.641 2001/2006 -0.21 -0.10 -0.03 0.24 -0.3 -0.07 -0.21 -0.03 -0.03 0.15 -0.42 0.36 0.05 -0.327.15 -0.08 0.10 -0.05 0.083 2005/2010 0.17 0.26 -0.15 0.03 -0.04 -0.OESTE TOTAL 1995/2000 0.32 0.18 5.14 0.09 0.36 -0.09 -0.11 -0.02 -0.08 0.07 -0.07 0.05 -0.04 0.49 0.3 -0.15 0.41 0.18 0.05 0.68 0.01 -0.01 0.04 -0.07 -0.01 -0. Sul Mato Grosso Goiás D.14 0.26 -0.04 -0.18 -0.18 -0.32 -0.05 0.06 -0.22 -0.07 0.741 2004/2009 0.

Com isso as trocas migratórias de São Paulo com as demais Unidades da Federação passaram de 1.05 pelas PNADs e IEM de 0. mesmo que em menores patamares que em décadas anteriores.846. Amapá.086 pessoas que declararam ter mudado de Unidade da Federação na década e confirmando as grandes tendências que se delinearam com as informações das PNADs.389 imigrantes entre 19902000 para 2. em especial quando se observa os índices de eficácia migratória. A Região Nordeste diminuiu sua perda migratória.409. Tendo sido considerado o pólo nacional das migrações no Brasil por mais de 50 anos.789.15 com o Censo). mantendo em torno de -1. Nas principais trocas migratórias ocorridas entre 2000-2010. A Região Sul revelou no período 2000-2010 perdas migratórias para o Rio Grande do Sul e Paraná. Destaca-se no período 2000-2010 a Região Sudeste com troca migratória em torno de 800 mil pessoas.998 pessoas entre 1970-1980 para 146.507. tendo a emigração registrado : 1. caracteriza-se por distintas “condições migratórias” a depender dos fluxos que se processam de e com São Paulo. respectivamente. é possível verificar os menores patamares da migração interestadual. Ceará e Bahia. Já com os demais estados brasileiros São Paulo caracteriza-se como área de rotatividade migratória.193.438 pessoas no período 2000-2010. apresenta saldos migratórios negativos com estados como Rondônia. totalizaram 11.631 entre 2000-2010. Com a Região Norte tendo decrescido seu saldo migratório de 245. portanto.840.962 entre 20002010. Essa dimuinuição nos ganhos migratórios do Sudeste se deveu à forte diminuição na imigração para São Paulo: de 3. para 667.254. Roraima. Piauí. como pudemos captar com as PNADs. Considerando as trocas migratórias as últimas duas décadas (Tabela 24) para todas as Unidades da Federação do país. São Paulo apresentou-se como área de forte perda migratória para Santa Catarina e estados do Centro-Oeste.464. Porém o censo continua a confirmar a tendência de rotatividade migratória do Estado de São Paulo. O que mais chama a atenção é o fato do Censo 2010 não ter comprovado a perda migratória do Estado de São Paulo. O Centro-Oeste manteve seus elevados ganhos populacionais. O caso de Estado de São Paulo. é indicativo da complexidade que assume o fenômeno migratório no século 21. como as PNADs da década vinham apontando (com IEM em torno de -0.Os volumes dos fluxos migratórios interestaduais para o período 2000-2010. com a Região Norte. Pernambuco. Com os estados do Nordeste voltou a reter população do Maranhão.544 e 1. segundo o Censo Demográfico de 2010 (Tabela 24).8 milhão.6 milhões suas trocas migratórias entre 1990-2000 e 2000-2010. em torno de 600 mil pessoas. Rosana Baeninger Fases da migração | 73 . mas ganha migrantes do Pará. entre 1990-2000. Acre. quando no período 1990-2000 havia sido de 1. dentre os estados brasileiros.

682 37.306 452.636 -476 1.254 BRASIL Imigração 1.441 25.666 547.988 85.443 223.05 -0.599 124.904 817.11 0.00 -0.742 225.22 -0.840.357 2. Oeste TOTAL Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará R.04 -0.723 41.703 121.043 244.853 -19.13 0.206 Emigração de São Paulo 52.19 0.438 -2.863 -177. Gerais E.743 2.636 227.193 738.17 0.989 162 -1.959 418.16 -0.889 4.431 Emigração 1.031 197.04 0.275 11.428 701.Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia M.180 1.114 126.698.45 0.882 184.18 -0.198 100.275 -163. Catarina Rio G.36 0.488 25.13 -0.408 271.597.20 * não inclui sem especificação (2.07 -0.530 -143.853 12.48 0.736 57.14 -0.617 75.21 0.462 -101.56 0.776 309.460 2.808 5.066 93.997 -408.262 307.334 386.147.13 152.912 66.022 289.311 749.129 292.178 47.065 27.07 0. Federal Imigração para São Paulo 59.476 -91.151 62.501 171.191 0.002 366.623 585.416 41.966 1.095 667.781 4.451.988 31.204 3.631 649.042 25.994 56.617 -432 9.275 2.722 424.957 51.701 48.805 116.267 1.275 140.193 13.076 136.457 24.672 1.796 79.04 0.152 -217.117 -2.320 99.181 1.09 -0.067 618.981 324.507.063 16.547 -876 48.027 161.157 541.559.158 37.690 55.661 1.114 1.06 -0.424 677.352 110.30 -0. do Sul Mato G.42 -0.689 36.507.014 7.119.946 77.334 -46.042 1.710 36.882 155.37 0.357 7.774 1.829 54.080.205 914.407.10 0.907.02 -0.17 0.976 35.G.924 609.440 291.248 20.894.773 -86.10 -0.654 613.452 17.09 0.562 101.816 62.822 31.05 Trocas Migratórias 146.901 -9. Censo Demográfico de 2000 e 2010.26 0.699 22.06 -0.489 588.020 27.17 0.31 -0.25 -0.939 475.444 119.986 -58.381.515 986.07 -0.23 -0.34 0.22 0.115 1.410.07 -0.913 147.139 109.121 31.01 0.34 -0.487 173.914 33.541 38.255 -40.442 301.26 0.012 casos) Fonte: FIBGE. 74 | Fases da migração Rosana Baeninger .557 47.653 384.195 9.10 -0.477 -8.732 1.19 0.089 328.438 -89.150 1.058 629.649 -4.531 -7.315 813.958 -510.156 IEM 0.15 -0.690 190.04 0.01 0.269 359.839 701.847 286.04 0.948 44.174 122.43 -0. 2000-2010 Regiões e UF Norte Nordeste Sudeste Sul C.903 2.421 268.278.310 -71.35 0.Tabela 24 Volumes de Imigração e Emigração Interestaduais e Trocas Migratórias Estado de São Paulo e Brasil.06 0.574 Trocas Migratórias São Paulo 6. Santo Rio Janeiro São Paulo Paraná S.348 18.40 0. Sul Mato Grosso Goiás D.576 92.717 250.14 0.182 393.395 30.10 0.832 1.672 490.045 185.01 -0.000.601 460.078 451.476 -256 -21.450.35 0.06 0.32 0.004 33.210 9.669 388.895 38.367 34.350 351.761 428.631 11.899 206.060 118.962 -1.166 82.337 370.538 8.13 -0.987 143.377 122.368 Índice de Eficácia Migratória SP 0.

onde transitam os volumes mais elevados da migração do país. como são os casos de Minas Gerais. Reconfiguram-se espacialidades migratórias em âmbito sub-regional. com intensas áreas de rotatividade migratória. pela generalização do processo de urbanização. espelhando.Tocantins. A tendência de menores saldos migratórios para o Sudeste.como define Wendin (2001) para as migrações internacionais – mas sim de variados sentidos e direção das migrações internas no Brasil. contudo. revela a consolidação dos espaços da migração no país. e agora pelos seus refluxos Sudeste-Nordeste. portanto. redesenha-se a mobilidade espacial da população no Brasil. na primeira década do século 21. Rosana Baeninger Fases da migração | 75 . perda ou rotatividade migratória para as áreas requer o entendimento da complexidade que o fenômeno migratório assumiu no século 21. o novo pólo das migrações. Pará (Região Norte). situado na região Centro-Oeste e área de expansão da nova fronteira agropecuária ii) áreas de retenção migratória regional. onde a complementaridade migratória. Maranhão e Piauí até o Pará (áreas dos commodities exportáveis.Como se poderia visualizar essa configuração migratória para São Paulo dez anos atrás? Como mantermos a hipótese de que esta tendência atual de rotatividade migratória permanecerá? A passagem de uma “condição migratória” de retenção. apenas das “duplas migratórias” . Brito e Carvalho. 2006. Não se trata. as novas áreas de expansão da fronteira agrícola. com processos migratórios que resultam na expansão dos espaços de rotatividade migratória. 2006). 2006. que se pode observar nas migrações internas do Brasil. ou seja. Hakkert e Martine. Rio Grande do Norte (Região Nordeste). se redefine num cenário de menores fluxos migratórios. pelas modalidades migratórias e pelos reflexos da inserção na dinâmica global. Já o outro corredor da migração nacional é historicamente conformado pelos fluxos Nordeste-Sudeste. Bahia e São Paulo. ganham importância na recepção dos fluxos migratórios do Pará com a atual retenção migratória de Roraima. iii) área de rotatividade migratória nacional: São Paulo e Rio de Janeiro. com decréscimo na absorção migratórioa e a presença da rotatividade migratória. processos locais da esfera global. evidenciada já entre 1999-2004 (Cunha. historicamente existente entre Nordeste-Sudeste. estados do Mato Grosso (Região Centro-Oeste). o Estado de Goiás. Nesse contexto de redefinição de áreas de retenção e perdas migratórias. Espírito Santo (Região Sudeste) e Santa Catarina (Região Sul). em especial suas metrópoles É nesse sentido. Pode-se caracterizar os espaços da migração no Brasil na última década da seguinte maneira: i) área de retenção migratória nacional e regional. uma faixa que se estende do Mato Grosso passando por Goiás. Já no Norte/Nordeste do país. fronteira mineral e agropecuária).

636.581 1. sendo necessários estudos que capte a especificidade dos fluxos migratórios e os lugares que os compõem para a inclusão da escala transnacional no entendimento e conceitualização das migrações no século 21. assim.460.453 Relativa 120. no entanto. bem como a migração de retorno.841.97 17.090. permanece expressiva a emigração para o Sudeste. entre 2000/2010.111 17. Entre 2000 e 2010. relativa (%) 2000 4. desencadeando os mecanismos de desencaixes (Giddens. somente o Estado de São Paulo diminui a sua participação relativa no estoque de empregos formais de 65% em 2000 para 61% em 2010.932.46 18.630. Considerando o estoque de emprego formal em 2000 e 2010 (Tabela 25). tiveram aumento relativo no estoque de empregos formais – chegando a Bahia a ter um aumento absoluto de mais de um milhão (Tabela 26).67 68. notase que o Estado de São Paulo ficou abaixo da média nacional.839 22.624.12 509.418.313. e do global através dos investimentos estrangeiros nessas localidades e suas relações com o capital internacional. a diminuição nos volumes de emigrantes dessas regiões. poder-se-ia concluir que o menor incremento dos empregos no Sudeste na década em relação às demais regiões (em torno de 60%).804 44.780 2.41 73.15 8.042.010.24 100 Variação 2010/2000 Absoluta 1.06 83. possivelmente.Brasil.531 3. Em termos relativos.374. com destaque para o Nordeste e Norte. Considero.97 100 2010 5. enquanto as demais regiões veem ampliadas suas capacidades de geração de empregos aumentam.693 14.63 7.17 16.219 4. Os dados são contundentes. Contudo.95 63.094.540.408.835 3. que a reprodução desses fluxos migratórios NordesteSudeste incluem componentes do nacional. 76 | Fases da migração Rosana Baeninger .347 4.Para o entendimento da migração na escala nacional/regional é importante voltar as análises à clássica relação migração e emprego.950 2.54 17.146 8. como a geração de empregos.693 26.226. está vinculada com processos da reestruturação produtiva internacional. 1991) nos espaços selecionados.557. embora não seja suficiente para explicar sozinha as migrações em seu conjunto.068. 2000/2010 Grandes Regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Brasil 2000 1. Tabela 25 Estoque de Empregos Formais Grandes Regiões . que foi de 68%.03 Fonte: RAIS/MTE – 2000/2010.355 Part. em especial Norte (120%) e Nordeste (83%) explica em grande medida.182 8.68 53.18 50.902 2010 2. articulada com os empregos não formais.999 7. A análise desagregada por UFs selecionadas mostra que todos os estados do Nordeste. entre 2000 e 2010 diminui a participação relativa do Sudeste e Sul no estoque de empregos formais no Brasil.

84 82.792 575. 2000/2010 UFs Selecionadas Maranhão Piauí Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia São Paulo Total Fonte: RAIS/MTE – 2000/2010. seguido de Recife e Curitiba.335 8. Por outro lado. característicos da reestruturação produtiva atual (Sassen. com 55% de aumento nos seus empregos formais e RM do Rio de Janeiro. ainda lideram em números absolutos a geração de empregos formais.833 171.873.04 79.729 691.Tabela 26 Estoque de Empregos Formais UFs Selecionadas... com destaque para a RM de São Paulo.730 198.626 470.325. contudo. com 42%. Todas as metrópoles fora do Sudeste alcançaram um estoque de empregos acima de um milhão.090 315. Dedecca (2011 p.824. que tais informações da PNAD não permitem captar as constantes idas e vindas Rosana Baeninger Fases da migração | 77 .734 634.139. Essas áreas estão fortemente vinculadas aos processos da economia global e.488 339.444 Variação 2010/2000 Absoluta 351.392 8.7% no período).378 653. portanto. Ressalto.625 377.1) analisa a participação da migração nos anos 2000 no conjunto da população e no mercado de trabalho com os dados das PNADs. sendo que sua relação com o mercado de trabalho apresenta características mais positivas.04 73.896 272.897 4. não sinaliza o recrudescimento da migração frente ao crescimento da economia [.054 1. Ademais.48 91.538 Relativa 123.70 59.504 1.] Ao contrário.992 369.884.536.126 882.809 163.94 68. as políticas sociais e o crescimento populacional mais lento podem estar contribuindo para uma maior retenção da população em suas regiões de origem” (p.10 Essa mesma tendência pode se observar para as regiões metropolitanas do Sudeste (Tabela 27).177.026 579.463 1. 2010). 8).525 961.605 20.460. ao mesmo tempo que devem reproduzir um estrato muito elevado de empregos não formais.232 12.049. A RM de Fortaleza foi o grande destaque (com incremento relativo de 84.579 2.423.27 70.213 12.88 74. as metrópoles do Sudeste e Sul tiveram menores incrementos. sugerem que o padrão de crescimento menos concentrado espacialmente.54 83.792 205.36 81. 2000 284. Conclui que “os resultados apontam uma menor densidade do processo de migração atualmente.906 2010 636.183 206.702 259.538 240.

78 Concluo que o cenário migratório do século 21 apresenta dois grandes vetores redistributivos nacionais. como o é para as migrações internacionais (Sassen.327.864 4.630. De maneira complementar.180.016.04 60. assim.176.867 2.70 63. o segundo vetor refere-se a “interiorização migratória”.766 952. 2000 495.030 2.03 42.939 702. constituindo uma força de trabalho móvel.501.192. As características dessa economia global se manifestam nas grandes 78 | Fases da migração Rosana Baeninger .em sua totalidade e outras temporalidades e espaços constituintes das migrações internas no Brasil hoje.165 1.731 7.76 61.106. 1988.1998). O primeiro é caracterizado pela “dispersão migratória”.566 1.687.949 1. expressos na maior retenção de população migrante nos estados e nas regiões demográficas.553 929.72 54. envolvendo aglomerações urbanas e espaços nãometropolitanos.64 52. com trajetórias migratórias de mais curtas distâncias.074 1.988 11.539 730. esta tendência se evidencia com a conformação de importantes fluxos migratórios metrópole-interior.552 17.568 395.51 39.535.067.583 3. A reversibilidade dos processos migratórios adquire significado distinto quando se contempla dinâmicas urbano-regionais específicas. dimensões que podem explicar o papel de uma força de trabalho móvel presente nos mercado de trabalho do país.564 6. expressam relações diferenciadas no entendimento das migrações internas no Brasil e seus níveis de escalonamento na inserção da economia global.868 449. Esses dois vetores.407 1.166. 2000/2010 Regiões Metropolitanas MTE Fortaleza Recife Salvador Belo Horizonte Rio de Janeiro São Paulo Curitiba Porto Alegre Total Fonte: RAIS/MTE – 2000/2010.185. Massey.30 53.523 374. No vetor da dispersão migratória – notadamente marcado pelos maiores volumes de imigrantes/emigrantes e pela alta rotatividade entre o Nordeste-Sudeste – a penetração da economia global é catalisadora da intensa mobilidade.672 2010 914.135 365. Nesse sentido.479 Relativa 84. que em nível nacional é marcado pelos significativos volumes de migrantes de retorno interestaduais que partem do Sudeste em direção ao Nordeste.151 Variação 2010/2000 Absoluta 419.907.401 715. Tabela 27 Estoque de Empregos Formais Regiões Metropolitanas MTE.289 1. a meu ver.381 620. no âmbito intra-estadual.

a dispersão geográfica da produção industrial. mas que se tornam internacionais” (Sassen. advinda do processo de reestruturação urbana e econômica.] contribuiu para a mobilização de pequenos produtores e produtos artesanais deslocados no sentido de migrações laborais. Para Sassen (1988) são nas cidades globais que se articulam a dinâmica e circuitos do global: diferentes fluxos de capital. 1998).. 1973). 2010 p. quanto seu importante papel na conformação de espaços regionais e locais. Mas esses reflexos do global não se limitam às cidades globais. no âmbito intra-estadual ela corresponde a 67%.. correspondeu a 75% do total das migrações interestaduais. enquanto as migrações urbana-urbana no Brasil.] o desenvolvimento da agricultura comercial e da manufatura padronizada orientada para a exportação deslocou economias tradicionais [. 2010) e da estrutura política da economia global (Massey. Singer. as cadeias produtivas.. por exemplo. As localidades de partida e chegada. embora predominem os fluxos urbanos-urbanos. é o lugar da diversificação das modalidades migratórias e dos deslocamentos de população em suas espacialidades. com importantes participações dos fluxos rurais-urbanos e rurais-rurais dependendo dos estados em que se processam (Tabela 28). inclusive com um forte componente positivo da relação migração/emprego. O fenômeno migratório atual apresenta especificidades que indicam tanto sua complexidade. “as conexões criadas pela internacionalização econômica vão desde offshoring da produção e o estabelecimento de uma agricultura orientada para exportação por meio de investimentos estrangeiros [. O entendimento do fenômeno como processo histórico-social. Para estados do Nordeste. 122). Já o vetor da interiorização das migrações é a expressão da escala local (mesmo com vínculos com o global) e seus nexos com os processos que se operam concretamente naquele território. O expressivo retorno migratório revela configurações da migração e de trajetórias urbanas-urbanas não contempladas nos conceitos datados em seu tempo histórico. a migração rural-urbana representou no período 1995-2000 mais de 20% de suas migrações intra-estaduais. 1966. como já indicava Singer (1973). no período 1995-2000. os mercados financeiros (Sassen. contudo. constitui a raiz do entendimento também para os processos migratórios urbanos atuais.concentrações urbanas. não se configuram mais como as antigas áreas de origem e destino conforme pensadas para a migração rural-urbana desde suas formulações clássicas (Lee.. Rosana Baeninger Fases da migração | 79 . De fato. que inicialmente podem ser internas.

27 65.166 99.237 107.178 102.12 9.66 16.647 29.930 136.259 347.21 6.52 9.08 13.734 397.060.509 85.03 15.001 22.059 55.05 9.248 10.59 9.036 154.34 6.197 82.27 10.752 100.10 13.140 85.742 29.07 4.72 12.453 14 1.592 1.90 9.84 8.70 24.48 16.44 59.88 62.47 67.53 7.00 67.142 43.335 783.233 111 6.46 30.284 Total 128.540 4.41 16.877 62.476 28.913 17 907. Sul Mato Grosso Goiás D.590 64.360 11.19 11. Federal Total Urbano Urbano 58.88 2.026 25.76 1.097.831 84.58 14.46 13.68 45.76 10.00 67.86 8.72 12.825 64.78 16.584 181.40 10.43 88.49 9.585 2.567 Distribuição dos Fluxos migratórios (%) Urbano Urbano 45.833 147.34 18. 1995-2000 Fluxos Estados Rondônia Acre Amazonas Roraima Pará Amapá Tocantins Maranhão Piauí Ceará Rio G.502 21.69 12.931 87.02 Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 Fonte: FIBGE.12 16. Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Bahia Minas Gerais Esp.49 11.87 11.060 19.78 18.378 125.468 93.044 26.622 18.380 13.109 46.12 13.86 12.443 30.622 60.61 12.36 Rural Urbano 14.28 12.36 16.005 46.186 59.442 19.488 74.995 126.594 26. Santo Rio Janeiro São Paulo Paraná S.860 13.66 Rural Rural 23.95 13.24 13.26 58.137 743.338 14.840 Rural Urbano 18.62 9.33 68.91 11.865.791 Urbano Rural 20.918 24.247 746.412 38.542 25.272 511.05 12.450 47.46 15.33 58.273 5.570 28.33 14.067 101.00 12.51 19.278 30.56 55.980 153.463 15.22 19.376 9.605 59.977 391.Tabela 28 Migração Intra-estadual segundo Situação de Domicílio Unidades da Federação.313 254.820 59.959 6 941.32 15.20 69.118 7.74 5.136 24.49 6.75 15.80 63.73 21.86 10.636 421.61 8.729 247.77 13.470 515.51 14.31 83.264 412 11.770 25.84 11.346 30.181 1.70 42.836.do Sul Mato G.366 199.593 16.483 15.889 23.979 72.775 34.453 217.48 7.609 145.90 24.398 11.543 12.979 29.634 1.99 3.78 64.66 71. 80 | Fases da migração Rosana Baeninger .840 10.558 148 10.21 19.397 3.46 19.474 38.263 524.832 5.799 139.318 83.613 76.720 54.26 8.777 269.022 332.374.612 65.72 9.351 395.82 59.505 28.482 19.180 63.528 14.643 154.457 368.49 8.87 7.558 171.37 29.06 75.68 14.77 18.96 Urbano Rural 16.66 42.94 54.051 593.39 18.84 67.041 10.426 228.20 37. Censo Demográfico de 2000.240.643 651.797 79.088 1.06 17.424 5.399 41.77 14.304 67.95 4.90 9.459 278.29 10.459 111.Catarina Rio G.652 Rural Rural 30.970 1.00 61.106 2.891 19.911 63.80 46.03 56.021 101.62 7.

Proponho. Ou seja. Wage labour circulation is just one manifestation of this syndrome”. the parasitic character of urban areas and possibly many more. portanto. mesmo que temporários ou sazonais. rural exodus. 1999). onde as mudanças na estrutura agrária geram também um contingente de força de trabalho móvel (Spaan. uma vez que se baseiam em áreas de origem menos dinâmicas para áreas de destino com dinâmicas produtivas e capacidade de emprego. uprooting. utilizar o conceito de rotatividade migratória para o entendimento das migrações urbanas (Baeninger.Poder-se-ia. contudo. Como primeiro pressuposto. ainda estão baseadas em um excedente populacional com origem rural que circula por trabalhos sazonais ou temporários no lugar de destino. Na minha proposta de análise. usually short-term. considero que a rotatividade migratória refere-se a um fenômeno migratório eminentemente urbano e que . pauperization. or cyclic in nature. que este conceito de circularidade.também no âmbito das migrações internas – constitui um fato social total (Sayad. a circulação traduziria a complementaridade dos deslocamentos de população. pois circulação não implica em mudança de residência e tem restrita temporalidade. 1990). quando não há mudança permanente de residência.226). em sua formulação clássica. spatialeconomic disorganization. A circulação. Muray e Prothero (1985) denominam circulação como um conceito que substitui migração. então. but all having in commom the lack of any declared intention of a permanent or long-lasting change in residence” (p. Tais conceitos partem de uma sociedade em transição para o mundo urbano. Ainda na perspectiva das migrações ruraisurbanas. Chapman. recorrer ao conceito de circulação para as análises dos processos migratórios atuais? Zelinsk (1971) define circulação como uma etapa de transição para movimentos migratórios permanentes. Essas interpretações conceituais.293) destaca “[…] the process of wage labor circulation must refer to many interrelated macro factors – land inequality. diferenciando circulação de migração. urban polarization of resources. O autor define circulação como “a great variety of movements. conditions maintaining both rural and urban poverty. sendo um fenômeno que comporta transformações na esfera social. Collectively these may be called the working of a syndrome of poverty and mobility. 2011). traduz a força de trabalho disponível em meio às transformações geradas pelo urbano e pela industrialização. Já Skeldon (1990 p. considero. a imigração e a emigração fazem parte de um mesmo processo social. repetitive. assim. na etapa atual da sociedade urbanizada encontra limites para contemplar a complexidade do fenômeno migratório. na dimensão econômica Rosana Baeninger Fases da migração | 81 . Nesta mesma direção. disarticulation of links between village and town.

abrangentes e de nível macro que dominam a noção vigente.. O desafio consiste em encontrar caminhos teóricometodológicos para o aprofundamento do fenômeno das migrações nacionais e suas conexões com o global. É nessa maneira de entender as causas das migrações que conseguiremos avançar na importância que as migrações internas – nos dois vetores redistributivos nacionais – detém em parte como expressão do global. petroquímica (pólo de Camaçari/BA). No caso do Nordeste é revelador a inserção de segmentos econômicos na competitividade global. Fortaleza. Oscilará tanto na origem quanto no destino. De acordo com estudo do CGEE (2011) estes são: energia e petróleo/gás (no Rio Grande do Norte e Bahia). 82 | Fases da migração Rosana Baeninger . Quanto mais as regiões vão inserindo seus segmentos na economia internacional. com a fluidez da mão-de-obra nos setores dessa produção. Juazeiro. No contexto atual. saúde/fármacos (RecifePE). mais propensas se tornam essas áreas para experimentarem a rotatividade de suas populações. MA). 100) aponta que “a globalização econômica. Além disso. Sayad (1999) se refere ao conceito de double absence para o entendimento das migrações internacionais nessa perspectiva.] Essas cidades estão assistindo a uma expansão dos empregos malremunerados que não se encaixam nas imagens superiores da globalização. A rotatividade da mão-de-obra nos processos migratórios – via migrações – contribuirá para atender as demandas e custo da força de trabalho nos locais de chegada e de partida. João Pessoa. mas fazem parte dela”. esse é um excedente populacional urbano gerado tanto na área de origem como na área de destino. equipamentos médicohospitalares (Caruaru. desse modo. construindo um excedente populacional. metalurgia (São Luis-MA). Cariri. Recife. Incluo como segunda premissa do conceito de rotatividade migratória que a rotatividade se vincula à expansão clássica do capitalismo com a circulação de capital. deve ser entendida em suas diversas localizações e não apenas em termos dos processos amplos. que será rotativo dependendo das necessidades do capital e da inserção dessas localidades na divisão social e territorial do trabalho em âmbito nacional e internacional. devemos enxergar que certas localizações geralmente não são codificadas como parte da economia global. BA). papel e celulose (Ilhéus-Porto seguro. [. haverá mão-de-obra excedente vinculada a este processo global de reestruturação da produção e de circulação de capital. software e tecnologia de informação (Salvador. como já demonstram os estudos de Sassen (1993) e Harvey (1992).. Estudos já têm avançado no caso da migração internacional. Natal e Fortaleza). Jaguaribe e Mossoró.e cultural no local de partida e de chegada. Em menor escala no oeste Bahiano. Mossoró e Picos). grãos (BA. Sassen (2010 p. Petrolina. fruticultura (Ilhéus-Porto Seguro. mercadorias e pessoas.

portanto. Recife e Fortaleza). aglomeração sub-regionais (Barreiras. poderíamos dizer que o século 21 traria o esvaziamento da migração na maior metrópole brasileira. Alto Piranhas e sul de Sergipe).79). Feira de Santana. nanotecnologia. Feira de Santana e Salvador). Petrolina. Teresina). Sobral. Caruaru.Uruçuí/Gurguéia. informática (Ilhéus/porto Seguro). couros e calçados (Jaguaribe. Destaca-se que no segmento de petróleo e gás “a participação da Petrobrás é destacadamente importante na região [. biocombustíveis (Balsas. Carira. Cariri. Baixo Jaguaribe. pois o saldo migratório da RMSP que já era baixo Rosana Baeninger Fases da migração | 83 .. Se mantivermos apenas o olhar para o destino migratório.] sua demanda por serviços técnicos [. Feira de Santana. tais como: optoeletrônica.. 2010). em especial em uma economia baseada nos serviços (Sassen. João Pessoa e Aracaju). 2010) com a reversibilidade dos movimentos migratórios no atual processo de urbanização no Brasil. circuitos vinculados à lógica global da produção. A releitura do conceito de força de trabalho móvel pode ser contemplada aqui como uma dimensão das migrações internas urbanas da atualidade no âmbito do conceito de rotatividade migratória.Vitória da Conquista. As cidades estratégicas no Nordeste locus de CT&I para o desenvolvimento são: macro pólo consolidado (Salvador. Os saldos migratórios para a Região Metropolitana de São Paulo para o período 2000-2010 possibilitam visualizar a dificuldade das informações apreenderem a dinâmica do fenômeno migratório na atualidade. Imperatriz. Acrescenta-se ainda os segmentos emergentes e com alto conteúdo tecnológico em desenvolvimento no Nordeste. Crato e Juazeiro do Norte). que se pode apreender um fluxo migratório expressivo de profissionais com nível de escolaridade elevado – pós-graduação/doutores . novo macro-polo (São LuisMA). madeira e móveis (Imperatriz/Santa Luzia. Aracaju. Seridó e João Pessoa).] vem impactando a oferta de CT&I e a qualificação de competências profissionais na região” (CGEE. mineração (Petrolina/Juazeiro. biotecnologia e equipamentos médico-hospitalares. aglomerações locais (Teresina. No caso dos segmentos do mercado nacional/regional do Nordeste. Portanto. Mossoró. Arapiraca. vinicultura (Petrolina/Juazeiro). o estudo do CGEE aponta o dinamismo dos seguintes setores: têxtil e confecção (Fortaleza. 2011 p. recife. Caruaru. No contexto atual da reestruturação da economia em nível internacional e seus rebatimentos em âmbitos locais (Harvey. Vitória da Conquista e Aracaju).. podendo gerar interpretações de uma menor importância desses processos na constituição atual da sociedade brasileira. Mossoró.. como fazíamos nos anos 1970.que saem do Sudeste em direção ao Nordeste em anos recentes (CGEE. 1992) a força de trabalho móvel urbana tende a crescer. Forataleza. Maceió. Campina Grande. Ilhéus/Porto seguro). Caruaru. Natal. eletrônicos (Salvador. É nesse contexto. Campina Grande. Sobral e Fortaleza). artefatos de plástico (Campina Grande. Vitória da Conquista. Ilhéus-Porto Seguro).

com idas-e-vindas. ainda que invisível e sempre difícil de expressar empiricamente.637 19.82 1. seus espaços de vida (Courgeau. 1991-2000 e 2000-2010 Áreas Estado de São Paulo RMSP População 2000 2010 Taxas Cresc.76 Saldos Migratórios 1991-2000 147. É no espaço de vida de Courgeau (1990) e no campo social Bourdieu. 1994) e.132 36. Para o Estado de São Paulo esses saldos foram de 147.378 41. Taxas de Crescimento (% ao ano) e Saldos Migratórios Estado de São Paulo. Tabela 29 População. incluindo-se a dimensão multiescalar entre áreas urbanas (Vainer.968 -32.443 24.265 de uma para outra década (FSEADE. temporalidades limitadas. Os percursos dos migrantes e os novos espaços da migração em sua complexidade 84 | Fases da migração Rosana Baeninger .824 2000-2010 47.974. 1990) pode ser também reescalonada a depender dos espaços urbanos em que se processa: desde espaços migratórios internos que transcende as migrações interestaduais – embora essas sejam as expressões nacionais/regionais do que faz parte do global . 2011) e a cidade de São Paulo.558 Município de São 10. é a realidade mais real (.683 17.399 -50. mantendo suas perdas migratórias. de -50 mil para -32 mil (Tabela 29).09 0.399 pessoas.91 1.443 para 47. 2007). 210).até espaços locais/ nacionais. O conceito de rotatividade migratória pressupõe ainda a dimensão espacial para o entendimento dos processos migratórios (Villa e Rodriguez. 2007 p. considero que a perspectiva de Tarrius (1996) pode nos aportar elementos acerca de territórios circulatórios.97 0. Brandão.983 Paulo Fonte: FSEADE (2011). que em outro grau ou indiretamente se tornam expressões sociais do global em diferentes escalas.245.. (1997) onde agentes “ocupam posições relativas em um espaço de relações que.. “A escala é central e decisiva. para estruturar processos” (Brandão. População (% aa) 1991-2000 2000-2010 1. de 24. adotando a proposta de Brandão (2007) para a compreensão de território e desenvolvimento. A partir da definição teórico-conceitual de considerar as migrações internas no Brasil no século 21 de maneira transescalar.265 -29.968). passou a ser negativo no período 2000-2010 (-29.entre 1991-2000.68 0.213. Ao buscar entender o que são os processos migratórios como configuração da migração. 1990). mais que isto. a reversibilidade migratória (Domenach e Picouet.) e o princípio real dos comportamentos dos indivíduos e dos grupos”.852.667. RMSP e Município de São Paulo. Isto porque tais espaços são usados como recursos no percurso migratório seja ele interno ou internacional.384 11. retornos. material e politicamente. 2002.426.

por um lado. A partir dos Rosana Baeninger Fases da migração | 85 . como ressaltam Domenach e Picouet (1990). a dificuldade em classificar as migrações como temporárias ou permanentes e. 1998). contemplando tanto lugares de partida. Segundo o autor. como para as manifestações do local que se definem nesses espaços da migração interna e suas vinculações com demais processos internos e internacionais. 2010). dada a dificuldade de se estabelecer a fronteira clara entre o que é uma mobilidade temporária do que é uma migração de longa permanência é recomendável compreendêlas simultaneamente. o espaço de vida engloba não apenas lugares de passagem e de permanência.3 milhões em 2000-2010. nem sempre coincide com o lugar de residência. Considero. como analisa Cougeau (1990). que a análise de fluxos e estoques de migrantes internos podem desconsiderar a multiplicidade e formas das dinâmicas de deslocamentos de população. As evidências empíricas acerca das migrações internas no Brasil conduzem a novos olhares para a interpretação dos movimentos migratórios e sua descrição. volta a ser retomada nos 90. tanto como entendimento dos processos mais amplos que ocorrem no âmbito global. Por outro lado. que depende de sua percepção subjetiva. baixando para 3. Nesse sentido. mas igualmente todos os outros lugares com os quais o indivíduo se relaciona. que parecia ter diminuído nos anos 80. porém se redesenha nos 2000. bem como impõe enormes desafios conceituais e metodológicas. tenho avançado para explicações acerca das dinâmicas migratórias internas no país que têm se aproximado cada vez mais de aportes teóricos das migrações internacionais.como transferências de população do Nordeste para o Sudeste -. mais que isto. mesmo de forma não presencial. em 1990-2000. na vertente da demanda por trabalhadores. para as migrações internacionais (Schaeffer. As noções de campo migratório. quer seja no contexto das cidades globais (Sassen. quer seja na vertente do tema das redes sociais (Massey et al. Em termos empíricos. como indicado por Krissman (2005). O Nordeste registrava um total de 4 milhões de emigrantes para outras regiões. definindo a porção do espaço onde os indivíduos realizam suas atividades. como de passagem e de instalação dos migrantes. o elemento que mais chama a atenção se refere à complementaridade migratória . 1988. por exemplo. Acredito que este seja um caminho teórico-conceitual importante para as explicações da migração no âmbito da construção social de seus espaços no século 21. 2002). a dificuldade em definir o lugar de residência de um indivíduo. mas este é o desafio que teremos que enfrentar. do sentimento de pertencimento e de apropriação espacial.demandam a formulação e revisão de conceitos (Simon. Contudo. 2009) serve para comportar uma análise sobre o espaço transnacional estruturado pelos fluxos de migrantes de uma mesma origem.

Essas modificações são resultados de inúmeras transformações ocorridas no cenário econômico internacional e nacional. Entretanto. mas voltando a um milhão entre 20042009. configurando mais áreas de rotatividade da migração do que áreas com uma tendência polarizadora de longa permanência. Essas oscilações nos volumes da imigração e emigração entre o Nordeste e Sudeste parecem confirmar as enormes idas-e-vindas. um esforço de periodização dos processos migratórios e distintas etapas econômicas. no caso da compreensão de espaços de “partida e chegada” tão difusos é imprescindível considerar a articulação de processos locais ao âmbito regional e global. 1991). 1991). Considerações finais Dentre as análises e conclusões aqui expostas retomo alguns pontos importantes para o avanço no entendimento dos processos migratórios. 1999). Nesse contexto. a rotatividade migratória tenderá a se consolidar. da tecnologia da informação (Castells.e o emprego na indústria oscila conforme o mercado internacional. como foi o caso do Sudeste nos últimos cinquenta anos. 1992). com o enfoque histórico-estrutural busquei 86 | Fases da migração Rosana Baeninger . As migrações no século 21 redefinem seus pólos.anos 2000 diminui para o patamar de 1. Tais mudanças exercem efeitos sobre a decisão de migrar e num contexto atual. torna-se cada vez mais evidente a complexidade do entendimento das migrações internas na sociedade brasileira do século 21.3 mil emigrantes no período 2001-2006. que trouxeram efeitos em termos políticos e econômicos. onde o setor terciário tem importante papel – quer seja nas metrópoles do Sudeste ou do Nordeste . com reflexos nos processos de urbanização e nas migrações nos variados contextos regionais e nacionais. Procurei situar o debate das dimensões explicativas das migrações internas percorrendo. que promovem “mecanismos de desencaixe” como efeito das relações entre o local e o global (Giddens. e para 980 mil emigrantes entre 2003-2008. os volumes de imigração e emigração entre Nordeste-São Paulo não deverão ser muito menores. de risco (Beck. sobre a decisão de permanecer ou não na Região/Estado para a qual migrou em tempos passados. Encontrar caminhos teórico-metodológicos para a nova leitura das migrações internas no Brasil requer considerar que para a conceitualização de rotatividade migratória torna-se importante destacar que estamos diante de uma nova sociedade: reflexiva (Giddens. marcando uma nova fase do processo de redistribuição espacial da população brasileira. Assim. Em um contexto de enormes transformações na dinâmica produtiva. de um lado. o caráter de reversibilidade dos movimentos migratórios internos de longa distância no Brasil. De outro lado.

Contudo. que emergem na sociedade de riscos (Beck. portanto. Desse modo. As novas territorialidades e os espaços da migração no Brasil aceleram esses processos de articulação do nacional e. em alguns casos. a rotatividade migratória – marcada por entradas e saídas . acredito ser esse o caminho de construção teórico-metodológica de determinado fluxo migratório para sua caracterização nas tendências atuais da migração nacional. com a migração de retorno demonstrando ser a modalidade migratória que explicaria as menores retenção migratórias no Sudeste e as respectivas trocas migratórias. De todo modo. A intensificação de áreas com rotatividade migratória no país indica a fluidez da força de trabalho em espaços compartilhados dessa nova sociedade global. A construção do conceito de rotatividade migratória permite apreender especificidades das migrações urbanas-urbanas e se demonstrou capaz de identificar as tendências migratórios ao longo da década passada. No esforço de extrair o máximo de potencial das informações censitárias e das PNADs acerca das migrações no Brasil. Para os anos 1980 e 1990 foram incorporados os fluxos de emigração. 1992). do local com o global. Parece aqui também ser o caso de se lembrar da limitação em termos teóricos.está imersa em um conjunto de sistemas peritos da sociedade (Giddens. os riscos são compartilhados (Ojima. quanto pela concomitância dos dois processos em territórios nacionais. Já para os anos 2000 e 2010 com o índice de rotatividade migratória pude identificar as possíveis idas-e-vindas de contingentes migrantes. recodificando as áreas em espaços de absorção e perdas migratórias. é a expressão nacional de fenômenos que compõem a escala global. 2010).articular tipo migratório a tais etapas até os anos 1970. pois as migrações internas e internacionais se confluem tanto pelos espaços da globalização. buscando áreas de atração e expulsão até os anos 1970. depois dos anos 1980. no meu entendimento. informações somente dos volumes e dos fluxos de imigração com o olhar para o destino. as tecnologias de informação. Rosana Baeninger Fases da migração | 87 . 2007) que se vincula aos processos em âmbito global da reestruturação produtiva (Sassen. até a conformação de novos espaços da migração no âmbito local e regional com nexos globais. em especial quando se considera as tradicionais áreas de origem e de destino. apontei os limites dessa perspectiva de análise quando das migrações urbanas-urbanas no Brasil. Por isso. considero que o entendimento das migrações internas no século 21 muito se beneficiará da inclusão das teorias da migração internacional. Proponho que o entendimento da fluidez dos fluxos migratórios e da força de trabalho que se estabelece no eixo Nordeste-Sudeste incorpore a dimensão transescalar (Brandão. tanto em nível macro quanto micro. utilizei num primeiro momento. Essa rotatividade. 1991): desde a facilidade de transportes. 2003) e.

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