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Paulo Noviello

Balada Infinita:
Uma bizarra e divertida jornada às profundezas da vida
noturna na cidade de São Paulo

ECA/USP

1
Universidade de São Paulo

Escola de Comunicações e Artes

Balada Infinita:
Uma Bizarra e divertida jornada às profundezas da Vida
Noturna na cidade de São Paulo

Paulo Noviello

Projeto Experimental em Jornalismo, apresentado no


Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como
exigência parcial para obter graduação de Bacharel em
Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo

Orientador: Prof. Dr. Claudio Julio Tognolli

São Paulo

2009

2
RESUMO

Na década de 1960, nos Estados Unidos, um grupo de jornalistas começou a utilizar técnicas literárias de
descrição e narração dos fatos apresentados em uma reportagem, o que deu início a escola conhecida como
New Journalism (Novo Jornalismo). Dentro desta perspectiva, surgiu em 1966 no cenário jornalístico norte-
americano o nome de Hunter S. Thompson (1937-2005), que puxou o limite dessas experimentações ao criar
o gênero denominado Jornalismo Gonzo. Neste trabalho busco utilizar alguns conceitos do Jornalismo Gonzo
em uma narrativa que funde reportagem, crônica e ensaio, onde o tema é a boemia e a cultura da vida noturna
da cidade de São Paulo, que possui uma cena boêmia comparada à das principais cidades globalizadas do
mundo. O Jornalismo Gonzo baseia-se fortemente na apresentação do narrador como protagonista dos fatos,
e neste trabalho utilizo minhas experiências como participante desta vida noturna paulistana como principal
matéria-prima das situações narradas. O trabalho visa mostrar os locais, pessoas, música e cultura que
florescem nestes espaços, suas relações com o Poder Público e a sociedade como um todo, e sua importância,
muitas vezes subestimada, nos campos econômico, social e cultural da cidade de São Paulo.

Palavras-chave: Jornalismo Gonzo, Thompson, Hunter S., New Journalism, vida noturna, cultura, São Paulo

ABSTRACT

In the 1960's in the United States, a group of journalists began to use literary techniques on the description
and narrative of the facts presented in a feature article, fact that led to the New Journalism movement. In this
perspective, came into prominence in 1966 the name of Hunter S. Thompson (1937-2005), who pushed the
boundaries of these experimentations creating the genre called Gonzo Journalism. In this present work, I
utilize some concepts of the Gonzo Journalism in a narrative that blends reporting, chronicle and essay,
focusing on the bohemia and the culture of the nightlife in the city of São Paulo, home of a bohemian scene
comparable to the main globalized cities of the world. Gonzo Journalism is heavily based on presenting the
narrator as main protagonist of the facts, and in this work I use my own experiences as a member of this São
Paulo nightlife as the main source material of the situations presented. This work intend to show the places,
people, music and culture that flourishes on this spaces, its relations with the Government and society as a
whole, and its importance, many times underestimated, in the economic, social and cultural fields of the city
of São Paulo.

Keywords: Gonzo Journalism, Thompson, Hunter S., New Journalism, nightlife, culture, São Paulo

3
Para meus avós,

Nelson e Cida,

Por tudo!

Para Júlia Dallora, in memoriam

4
Agradecimentos

Em primeiro lugar, à Força Cósmica Universal que faz as coisas acontecerem, seja lá qual for sua
natureza;

À minha família, por agüentar este filho encrenqueiro e por todo o apoio em momentos difíceis;

À segunda família, os amigos que conheci ao longo da vida, em especial Álvaro Schmidt, André
Schatz, João Pedro Berardo e Rodrigo “Pinta” Turrer; e todos os amigos que conheci em sete anos e
meio de convívio intenso na Escola de Comunicações e Artes: A galera do Vamoaê, a Mundrungagem
Cósmica, o pessoal do Jornot 2002, principalmente a família Unidos da Cerca Frango F.C: André
Benevides, André e Marion Tristão, Diogo Jorge, Gustavo Tristão, Marcel Nicolau, Marcos “Crovis”
Jorge, Mauricio Grilli, Tato Carbonaro e Thomaz Favaro, e a Laura Gaiarsa, uma das melhores leitoras
dos meus textos, além de todos os outros (as) malucos (as) que trombei neste caminho;

À todas as Repúblicas onde já bebi, comi, me diverti e relaxei meus ossos: Maracangalha, Pasárgada,
Taj Mahal, RepSat, NãoNãoNão, Dasloo Butantã, Pouso da Cajaíba, Manga Rosa...;

À todo mundo que já me pagou uma cerveja. Parafraseando Hunter Thompson, “nenhum escritor
sobrevive sem vocês. Obrigado”;

A todos os professores que já me ensinaram algo que guardo para sempre, principalmente a saudosa
Maria de Lourdes Loureiro, a “Lurdinha” do Mackenzie. Aos professores e funcionários da ECA-USP:
Luiz Antonio Cintra, José Coelho Sobrinho, Nancy Nuyen Ali Ramadan, José Luís Proença, e meu
orientador Claudio Julio Tognolli; e ao doido do Luli Radfahrer;

Aos que me ajudaram neste trabalho, principalmente: André Barcinski, André “Cardoso” Czarnobai,
Bruno Procópio, Davi Lima, Flávio Machado, Lígia Alonso, Paulo Martin, Xico Sá e Zílio Gnecco;

À todos os trabalhadores da noite, Garçons, Garçonetes, Barmen, Barwomen, DJ's, Produtores... em


especial a dupla dinâmica Dedé e Will, do Bar Samaro;

Aos gênios Albert Hoffman e Timothy Leary, por ajudarem a humanidade a superar a barbárie;

E, acima de tudo, agradeço à São Paulo, essa cidade tão fácil de odiar e tão difícil de amar, onde nasci
e aprendi a viver; e ao time batizado em seu nome. Vamo São Paulo, vamo ser campeão!
Índice

Introdução............................................................................................................................................... 08

Primeira Parte: O Gonzojornalismo: Teoria

Capítulo 1 – Hunter S. Thompson e o Gonzojornalismo

1.1 - Vida e Obra...................................................................................................................................... 14

1.2 - Características do Gonzojornalismo................................................................................................ 29

Segunda Parte: Gonzojornalismo na prática: A vida noturna Underground na Cidade de São Paulo

Capítulo 2 – Em busca da balada perfeita

2.1 – O autor e o baladeiro: preciso parar com essas coisas..................................................................... 36

2.2 – A importância da USP na vida noturna de São Paulo...................................................................... 47

2.3 – Vila Madalena: elitização e “sambificação”?................................................................................... 64

2.4 – Augusta, Roosevelt, Centrão... Balada como revitalização.............................................................. 74

2.5 – A Virada Cultural, ou o que lembro dela.......................................................................................... 87

2.6 - Barra Funda, nova ocupação geográfica............................................................................................ 95

Capítulo 3 – Você tem que lutar pelo direito de fazer festa:A questão das drogas ilícitas na noite. 102

Epílogo: Aqui e agora, a simultaneidade, a sincronia, e tudo o mais................................................... 111

Bibliografia................................................................................................................................................. 115

6
O sonho acabou,
Quem não dormiu
No sleeping bag
Nem sequer sonhou
(Gilberto Gil)

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Introdução

Jornalismo Gonzo é um estilo de “reportagem” baseado na idéia de


William Faulkner, de que a melhor ficção é muito mais verdadeira do que
qualquer tipo de jornalismo - e os melhores jornalistas sempre souberam
disso. Isso não significa que a Ficção seja necessariamente mais
“verdadeira” que o Jornalismo - ou vice-versa – mas que tanto “ficção”
quanto “jornalismo” são categorias artificiais. As duas formas, em seus
melhores momentos, são apenas dois meios diferentes para alcançar o
mesmo fim. 1

Bem, lá vamos nós. Agora vai! Foram quase sete anos de relação com esse lugarzinho especial chamado
Escola de Comunicações e Artes da USP, mas é hora de me despedir. Entrar na ECA foi sem dúvida a
melhor coisa que aconteceu na minha vida, mas sete anos é demais, certo? Foram vários desvios de percurso,
andanças em círculo, ruas sem saída, mas a experiência foi boa. Na ECA, eu me perdi e me encontrei, para
me perder de novo, e agora estou tentando pela última vez me encontrar. E esse presente trabalho será meu
instrumento.

Hoje é 14 de julho de 2008, dia da Bastilha. Cá estou sentado no computador, no quarto que divido com meu
irmão. A internet foi cortada por falta de pagamento e a maldita privada do banheiro está vazando, mas quem
se importa? O que importa é que nesse momento me senti seguro o suficiente pra começar meu projeto de
conclusão de curso. E já comecei pelo título. Balada infinita é um dos termos do glossário ecano-
mundrunguês que eu aprendi nesses anos de faculdade. “Balada infinta é quando você não conta as baladas
pelos dias, mas pelos anos. Por exemplo, ‘putz, 1999 foi foda!’”. Ou 2003, ou 2007. Essa é apenas uma das
várias pérolas de sabedoria de Luizão, um dos principais personagens dessa narrativa. Falaremos mais dele
adiante.

Por enquanto tenho que parar de enrolar, sem nariz de cera, certo professor? Vou tentar explicar (vai ser
difícil) porque resolvi fazer esse trabalho acadêmico tão pouco acadêmico e como pretendo realizá-lo. Para
isso terei que vasculhar minha memória surpreendentemente boa e lembrar dos motivos que me fizeram
escolher essa profissão sórdida chamada jornalismo. E também os motivos que me fizeram um viciado em
festas, festinhas, baladas, cervejadas, churrascos, reuniões, festanças, enfim... um verdadeiro party monster.

1- THOMPSON, Hunter S. Texto de Capa para Medo e Delírio em Las Vegas, in A Grande Caçada aos Tubarões – Histórias
Estranhas de um Tempo Estranho. São Paulo, Conrad, 2004
8
Desde que aprendi a ler e escrever, graças em grande parte aos gibis da turma da Mônica, me tornei um leitor
compulsivo. Livros do Monteiro Lobato, todos os clássicos infanto-juvenis da biblioteca da escola, revistas,
revistinhas, enciclopédias, guias de rua, folhetos, bulas de remédio. E foi por ler, não por decorar a gramática
ensinada na escola, que eu aprendi a escrever direitinho. A minha saudosa professora de literatura e redação
do primeiro colegial, a grande (com seu 1,40m) Lurdinha, gostava de mim por isso. E só por isso, pois,
apesar de bom aluno, eu era uma peste. Ela foi talvez a primeira que falou que eu deveria fazer jornalismo.
Sim, por que não? Não deve ser muito difícil escrever sobre um fato e publicar isso em algum lugar, certo?

Indeed! Minha família assinava a Folha de São Paulo e eu me imaginava como um daqueles colunistas com
espaço reservado para escrever sobre o que bem entender. O Paulo Francis tinha acabado de morrer nessa
época, e eu ‘pagava um pau forte’ pr'aquela figura. Aquela cabeçona, os óculos fundo de garrafa, aquela voz
de bebum, eram uma fachada perfeita pro que tinha dentro. Um mestre na arte da provocação. Um dos
maiores causers do jornalismo brasileiro. Com o Francis, aprendi que o jornalista tem que causar. Chocar o
leitor, falar o que der na telha (com embasamento argumentativo, of course). Afinal, Francis era possuidor de
uma cultura enciclopédica, foi trotskista crítico do ‘socialismo’ aplicado na União Soviética, e no final da
vida virou neoliberal, arrastando muitos consigo. Francis, portanto, foi um dos meus padroeiros na profissão.

O outro e maior padroeiro eu conheci numa viagem de ônibus com meu melhor amigo, João, para Itanhaém.
Lendo uma revista Trip que ele tinha, conheci um senhor chamado Hunter S. Thompson. Aquela edição da
Trip trazia uma tradução do artigo fundador do Jornalismo Gonzo, The Kentucky Derby is Decadent and
Depraved, escrito originalmente em 1970. Pode-se dizer que aquela leitura naquele ônibus mudou minha
vida. Um delírio em primeira pessoa, vagamente baseado em fatos reais, cruel e sarcástico, envolto em uma
nuvem de fumaça e vapor de álcool, e que não obstante, é JORNALISMO da melhor qualidade que já vi na
vida. Nesse momento percebi que tudo é possível quando escrito numa folha de papel (ou numa tela de
computador, for that matter).

Paralelamente a essa descoberta vocacional, descobri outra de minhas vocações: fazer balada. Todo mundo
normal gosta de festa, mas eu, desde as festinhas de criança da infância, gostava mais do que o normal dessa
atividade tão importante da civilização humana. A grande maioria das pessoas vai a festas por apenas uma
razão: conseguir alguém disposto a dar uns beijos, uns amassos ou, de preferência, sexo mesmo. Bem, pra
mim não é diferente, mas alguns episódios traumáticos no começo da adolescência me deixaram com um
complexo de timidez difícil de ser revertido. Contudo, quando comecei a beber, lá pelos 15 anos, descobri a
grande mágica por trás do consumo de álcool: a desinibição que essa substância provoca. Desde então, não
consigo estar em uma situação social-recreativa que não tenha algum álcool à disposição. E, claro, isso me

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trouxe mais problemas que soluções. Afinal, como diria o filósofo Homer Simpson, “o álcool é a causa e a
solução de todos os nossos problemas”.

Identifiquei-me com a figura do Hunter Thompson por que também ele era um viciado em festas, diversão,
birita e drogas de toda espécie. Uma de suas frases mais conhecidas diz: “Odeio recomendar drogas, álcool,
violência ou insanidade para alguém, mas com certeza essas coisas funcionaram para mim”. Bem, pode-se
dizer que funcionaram para mim também. O álcool e depois a Cannabis me ajudaram a sobreviver nesse
mundinho tão interessante. Além da timidez, tinha outro problema comum dessa fase da vida: uma revolta
violenta contra tudo e contra todos. Os poderes relaxantes da Cannabis me ajudaram a ficar mais calmo e
contemplativo. Não que isso não tenha me trazido problemas...

TODAVIA, não pretendo ficar aqui falando da minha relação com entorpecentes (embora estes sejam
personagens importantes deste trabalho). Bem, vejamos... depois de um período de abstinência para passar no
vestibular, me vi entrando na ECA, na única vez em que prestei a Fuvest. Esse momento simbólico de
passagem para a vida adulta me fez perceber que existia gente muito mais louca e sem noção do que eu, e
mesmo assim, esses malucos também tinham passado no vestibular mais concorrido do país, uma espécie de
seleção natural para as cabeças mais alucinadas do Brasil se encontrarem nesse espaço bucólico onde
funciona a ECA. Aqui, pela primeira vez, senti que estava no meu lugar.

Nesses sete anos desde então, me vi fazendo parte de algo maior. Uma geração de jovens inteligentes, bem
informados - cada um com sua loucura peculiar - se encontrando e produzindo juntos. Conheci dezenas,
quiçá centenas, de pessoas fantásticas. Uma geração com muitas diferenças em relação à tão falada geração
de 1968, mas sem dúvida com algo em comum: a vontade de viver melhor.

O auge do trabalho de Hunter Thompson foi o livro Fear and Loathing in Las Vegas. Nessa surreal narrativa
da viagem de seu alter ego, Raoul Duke, e de seu bizarro advogado Dr. Gonzo à capital da jogatina,
Thompson lança um comovente epitáfio da geração flower power dos anos 60.

Lembranças estranhas nesta noite nervosa em Las Vegas. Cinco anos


depois? Seis? Parece uma vida inteira, ou pelo menos uma Grande Era – o
tipo de auge que nunca mais volta. A San Francisco dos anos 60 era um
tempo e um lugar muito especiais para se fazer parte. Talvez tenha
significado alguma coisa. Talvez não, a longo prazo... mas nenhuma
explicação, nenhuma mescla de palavras, música ou lembrança se compara
àquele sentimento de saber que você estava lá, vivo, naquele canto do
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tempo e do mundo. Seja lá o que isso tenha significado.

A loucura estava em qualquer lugar, a qualquer hora. Se não estava do


outro lado da Baía, estava Golden Gate acima, ou descendo a 101 para Los
Altos ou La Honda... dava pra pegar fogo em qualquer lugar. Havia uma
fantástica sensação, comum a todos, de que aquilo que estávamos fazendo,
seja lá o que fosse, era certo... que estávamos ganhando...

E essa, acho, foi a armadilha – aquela sensação de vitória inevitável sobre


as forças do Antigo e do Mal, mas não em qualquer sentido maldoso ou
militar. Não precisávamos disso. Nossa energia simplesmente iria vencer.
Lutar não fazia sentido – fosse do nosso lado ou do deles. Era a nossa hora.
Estávamos na crista de uma onda enorme e linda...

Agora, menos de cinco anos depois, você pode subir um morro íngreme em
Las Vegas e olhar para o oeste. Com o certo tipo de olhos você quase
consegue enxergar a marca da maré – daquele lugar onde a onda
finalmente quebrou e se retraiu.2

Agora, 2009, já no fim da “década 00”, sinto que, guardadas as devidas proporções, a minha geração está na
mesma encruzilhada que a geração hippie de Thompson estava em 1971, quando o livro foi escrito. A
geração que viveu os anos 90 e a primeira década do novo século possui muitos paralelos em relação à dos
anos 60. Um período de prosperidade econômica, de maior acesso à informação, de vontade de experimentar
novas realidades, novas sensações, dentro de um mundo ainda cruel, violento, careta. Nos anos 60 foram a
guerra do Vietnã, a ditadura militar no Brasil, o rock psicodélico, o LSD. Na década de 1990 e 2000, o
governo Clinton e depois o fiasco da administração de George W. Bush, o 11 de setembro, a guerra no
Iraque. No Brasil, o plano real e as eleições de FHC e Lula, a explosão da violência urbana gerada pelo
tráfico de drogas e pela desigualdade social, o crescimento da música eletrônica, das raves, do Ecstasy.

Pensando bem, mesmo, a década de 2000 foi uma bela porcaria. Ainda mais depois do 11 de setembro e da
cruzada neoconservadora de Bush, do pânico em relação ao aquecimento global, e finalmente da atual crise
financeira, passando por gripes aviárias e suínas, descrença com a política e falta de um alternativa viável ao
tal do capitalismo. Mas mesmo assim, usando conceitos que remontam aos ideais hippies da contracultura
dos anos 60, uma parcela cada vez maior dos jovens agem com consciência social e ambiental, tentam viver
2 - THOMPSON, Hunter S. Medo e Delírio em Las Vegas. São Paulo, Conrad, 2007
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de forma mais harmônica e exploram novas formas de viver, contando com isso com a ajuda fornecida pela
Internet e outras novas tecnologias que tornaram o mundo realmente a Aldeia Global preconizada por
Marshall McLuhan.

Chegando ao dilema de ter que entrar num mercado de trabalho ultracompetitivo e muitas vezes injusto e
antiético, com baixos salários e longas jornadas, a minha geração está dando adeus a um período que foi tão
bonito para nós quanto os anos 60 devem ter sido para quem esteve lá. E esse presente trabalho é minha
singela homenagem a esse período do qual fiz parte. A resposta que quero encontrar é: afinal, o que estão
sendo estes anos 00? Para que isso se concretize, esse trabalho será orientado por alguns conceitos do New
Journalism, do Jornalismo Gonzo e da Literatura Beat, gêneros que estudei apaixonadamente nestes anos.

Enquanto pensava no tema para esse trabalho, enfrentei diversos dilemas. Sabia que queria fazer um livro-
reportagem sobre a geração da qual faço parte, mas diversas vezes relutei quanto à abordagem. A princípio
queria focar em apenas um aspecto, e no começo a cultura das raves e da música eletrônica foi minha
escolha. Contudo passei a achar que esse espectro era por demais estreito para explicar todas as nuances e
contradições que vivemos, além do que, era um mundo do qual eu não fazia parte. Também não queria fazer
um trabalho por demais “egocêntrico”, por isso queria focar em personagens que seriam entrevistados em um
esquema jornalístico mais “convencional”. Mas, ao reler Fear and Loathing in Las Vegas, percebi que a
melhor maneira de passar com maior fidelidade a sensação de fazer parte dessa época seria me aproximar do
que Hunter Thompson tentou fazer em sua obra-prima: uma narrativa em primeira pessoa, com o narrador
sendo personagem central e protagonista dos fatos.

Contudo, embora o narrador seja o principal personagem deste trabalho, as diversas pessoas com quem ele se
relaciona também serão de fundamental importância nesta narrativa. Por isso, a ajuda dos vários amigos que
conheci nessa trajetória será indispensável. Eles me ajudarão tanto a lembrar passagens importantes quanto a
participar comigo de incursões pelo submundo da noite paulistana com o objetivo de registrar o momento
pelo qual esta passa, que pode ser considerado uma certa ‘ressaca’ depois do período áureo dos últimos anos.

Ultimamente é nítida uma crise da vida noturna em São Paulo, pelo menos de uma certa vida noturna
“alternativa”, underground. Em parte devido à cruzada legalista e “higienista” do prefeito Gilberto Kassab e
do governador José Serra, que através das subprefeituras controladas pela eminência parda Andrea
Matarazzo estão em verdadeira cruzada contra as baladas paulistanas, ao menos das baladas alternativas,
principalmente os clubes, bares e botecos freqüentados por essa molecada retratada neste trabalho. Além da
cruzada contra os párias sociais representados pelos moradores de rua, viciados, bêbados, prostitutas e

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demais personagens do submundo, como evidenciado pela tentativa de “limpeza” da antiga “cracolândia”, no
centro da cidade. A instituição boêmia por excelência, o boteco, agora não pode mais funcionar depois da
uma hora da manhã, nada de mesas na calçada e conversas madrugada adentro. Contudo, apesar destes
desafios, mostro nesse trabalho que a balada tenta sobreviver em São Paulo, e há lugares onde ela sobrevive
lindamente, em uma cena noturna comparável, senão melhor, que a das cidades mais importantes do mundo.

Também é dada atenção especial à experiência deste narrador como participante dessa vida noturna, atuando
como DJ, outra vocação que descobri graças à ECA, e como produtor de festas e eventos. E também tento
relembrar minha breve, mas riquíssima experiência como sócio de um bar na região da Vila Madalena,
principalmente quanto às dificuldades de se lançar à esse tipo de empreitada. Não deixo de narrar as
dificuldades financeiras e profissionais que tive por causa dessa “aventura”.

A bibliografia desse trabalho também é ‘não-convencional’. São utilizados, além dos livros teóricos que
estudei na faculdade, romances, livros de contos e outras peças de literatura que me influenciaram em nível
pessoal nestes anos. A principal fonte teórica consultada foi a monografia de conclusão de curso defendida
pelo jornalista e gonzólogo gaúcho André Czarnobai, mais conhecido como Cardoso. Em seu trabalho,
Cardoso esmiúça o estilo gonzo e o que o diferencia de outras práticas jornalísticas. Conheci Cardoso ainda
antes de entrar na faculdade, por meio de seu antológico e-zine Cardosonline3, do qual fui ávido leitor e
colaborador eventual. Com suas ótimas egotrips, Cardoso mostrou que não há problema de se falar sobre si
mesmo, desde que sua vida seja suficientemente interessante.

O primeiro capítulo deste trabalho discorre sobre a obra de Hunter S. Thompson e a definição de
gonzojornalismo de Cardoso. A seguir relembro minha trajetória acadêmica, profissional e pessoal para
tentar me encaixar dentro do contexto que desejo abordar. E o filet mignon dessa empreitada é minha
tentativa de aplicação prática do gonzojornalismo em uma jornada sem limites às profundezas da boemia
paulistana, essa cidade que nunca dorme, mas que anda com sono. Em seguida há um capítulo de cunho
ensaístico, onde tento analisar a questão do consumo de drogas ilícitas na noite e o fracasso das tentativas da
erradicação das drogas no mundo.

Paralelamente à este trabalho, eu criei um Blog, o SP Lado B4: Nele, pretendo narrar, com a liberdade
estrutural e riqueza de recursos & ferramentas audiovisuais, de interatividade e hipertexto, próprios desta
mídia, minhas experiências de incursão na noite paulistana, e também outros assuntos relacionados. Na
3- http://www.qualquer.org/col

4- http://spladob.wordpress.com
13
atualidade, a Internet é indispensável para o trabalho do jornalista, e não consigo pensar neste trabalho
apenas como palavras no papel. Espero que o conteúdo deste blog possa fazer parte oficialmente do meu
projeto, mas de qualquer maneira ele será muitíssimo importante para o processo de elaboração deste
trabalho, e continuará a ser atualizado, mesmo após o trabalho pronto.

Comecei a usar a Internet em 1997, quando o primeiro computador, um Pentium 166, chegou na minha casa.
Logo me apaixonei pela possibilidade de conhecer pessoas com mentalidades e interesses parecidos com o
meu, espalhadas pelo mundo. Através do hoje jurássico mIRC, um protocolo de chat, conheci várias pessoas
fantásticas espalhadas pelo Brasil, fiquei sabendo, por exemplo, da existência do CardosOnline e outros e-
zines, e participei de e-zines e de um blog coletivo que infelizmente não foi para a frente.

Desde então, as ferramentas da Internet evoluíram tremendamente, e hoje a chamada Web 2.0 é baseada na
participação horizontal de todos os usuários da rede na criação do conteúdo. Hoje é praticamente impossível,
por exemplo, um jornalista não ter o seu blog para escrever sobre o que bem entender, sem compromisso
com empresas de mídia, patrões ou interesses político-econômicos. O impacto disso no exercício do
jornalismo está sendo amplamente discutido.

Neste trabalho, pretendo fazer com que o blog e o livro sejam duas faces da mesma moeda. Textos do blog
irão para o livro, e vice-versa. Afinal, até Hunter Thompson, no final da vida, produziu para a internet. A
nova geração de jornalistas literários e escritores brasileiros está toda na internet. Se há uma diferença
importante entre essa nossa geração e a geração dos anos 1960, é o tremendo aumento do acesso à
informação possibilitado por estas ferramentas. Desta maneira, o novo paradigma trazido pela informática
não pode de forma alguma ser ignorado neste trabalho. Boa leitura!

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Primeira Parte: O Gonzojornalismo - Teoria

1- Hunter S. Thompson e o Gonzojornalismo

1.1 – Vida e obra

Fig. 1 - Hunter S. Thompson (1937-2005)

Apreciadores do trabalho de Hunter S. Thompson afirmam que ele foi o criador e único representante
genuíno do que se convencionou chamar de Jornalismo Gonzo, ou Gonzojornalismo. Os muitos jornalistas
influenciados por Thompson, portanto, não são gonzojornalistas, sendo este um gênero de um homem só.

Adepto de técnicas que o aproximam muito mais dos ideais beatniks e


hippies (como o obrigatório abuso de drogas, os caóticos métodos de
captação e a liberdade criativa na hora de escrever os textos) do que os
seus contemporâneos, Hunter dá origem ao que se convencionou chamar de
Gonzo Journalism, que ainda hoje é reconhecido academicamente como
uma escola de um só autor. O Gonzo Journalism prima pela total anarquia,
pelo sarcasmo e pelo exagero. É a tradução mais aproximada dos ideais
libertários da época: a busca incessante pelo Sonho Americano - coisa que
todos, de uma forma ou outra, estavam fazendo nos Estados Unidos nos
anos 60. 5

Para entendermos o Gonzojornalismo, portanto, devemos conhecer a trajetória de vida desta figura peculiar
que foi Hunter Thompson.

5 CZARNOBAI, André. Gonzo: o filho bastardo do New Journalism. Monografia de Conclusão de Curso, FABICO/UFRGS, 2003
15
Hunter Stockton Thompson nasceu em 18 de Julho de 1937 em Louisville, no estado do Kentucky, sul dos
Estados Unidos. Seus pais eram alcoólatras, e o pai morreu quando ele tinha 14 anos. Desde cedo, Hunter
demonstrava a propensão à literatura e problemas com a lei.

Criança hiperativa, Thompson tinha a tendência de empregar sua energia


para fins violentos e destrutivos, como provalecimento na escola e a
destruição de propriedade. Além de ser conhecido na vizinhança pelo
hábito de atirar pedras e disparar armas de pressão, uma de suas
brincadeiras preferidas durante a infância era "Norte-sul", na qual ele e
seus amigos reproduziam batalhas da Guerra Civil norte-americana. As
relações com a escrita e os desvios de conduta acompanham Hunter desde
muito cedo. Aos oito anos de idade, Thompson é convidado pelo amigo
Walter Kaegi Jr., então com 10 anos, a escrever sobre estas batalhas para
um jornal de bairro chamado Southern Star. Na mesma época é registrado
o seu primeiro atrito com a lei:

Ele e um grupo de garotos vandalizaram um banheiro masculino do Parque


Cherokee, atirando latas, espalhando lixo e pichando as paredes. O grupo
foi pego pela polícia e levado à delegacia, onde uma ocorrência chegou a
ser preenchida. (Czarnobai, 2003)

A adolescência de Thompson também foi problemática. Mostrando talento para esportes, jogava nos times de
beisebol, futebol americano e basquete da escola. E escrevia sobre esportes para o Southern Star. Mas era um
típico “delinqüente juvenil”.

Por volta dos 17 anos, Thompson costumava convencer colegas da escola a


matarem aula para beber com ele, o que mais tarde acabou dando origem a
um grupo que batizaram de The Wreckers, cuja principal atividade era
praticar atos de vandalismo pela cidade. Por conta desse tipo de atividade,
pouco antes de completar 18 anos, Thompson é condenado a sessenta dias
de prisão por um assalto. Por sugestão do juiz que o condenara, ele aceita
alistar-se na Força Aérea como parte da sentença. (Czarnobai, 2003)

Na Força Aérea, foi repórter do jornal da base em que servia, escrevendo sobre esportes. Seus textos eram
populares, mas sua postura rebelde causou problemas com seus superiores. Ao ser dispensado, foi para Nova
16
York, onde freqüentou aulas na Universidade de Columbia, sem nunca ter se matriculado em um curso
propriamente dito. Em Nova York, levava um estilo de vida influenciado pelo Movimento Beat.

Em 1958 saí do Kentucky rumo ao norte e me tornei um não-estudante em


Columbia. Me inscrevi em dois cursos e até hoje recebo cobranças pelas
mensalidades. Meu lar era um quarto que custava 12 dólares por semana
num prédio perto do campus cheio de músicos de jazz, ladrõezinhos de
supermercado, viciados em heroína, poetas que berravam e viciados em
sexo de todo tipo. Era uma vida boa. (Thompson, 2005)

Conseguiu um emprego de copydesk na revista Time, de onde em pouco tempo foi despedido por
insubordinação. Na Time, costumava copiar, à máquina, livros de autores que admirava, como Ernest
Hemingway e F. Scott Fitzgerald, para aprender seu estilo. Em 1960 muda-se para San Juan, na ilha de Porto
Rico, para trabalhar na revista El Sportivo. Em Porto Rico escreve o romance The Rum Diary, baseado em
suas experiências na ilha. O livro só seria publicado muitos anos depois, quando Thompson já era conhecido.

Descontente com o trabalho em Porto Rico, Thompson perambulou pela América Latina escrevendo como
free-lancer para o jornal National Observer. Esteve no Rio de Janeiro em 1963, pouco antes do golpe militar
de 1964. Um de seus artigos sobre o Brasil falava de um tiroteio em uma boate de Copacabana chamada
Domino.

O ataque ao Domino, executado por pára-quedistas uniformizados usando


graxa preta no rosto, foi um ato de pura e simples vingança. Há várias
semanas, um sargento do Exército foi espancado até a morte por causa de
uma discussão a respeito do valor de sua conta no Domino. Alguns dias
depois, um capitão do Exército passou no clube para dizer que o Exército
acertaria as contas. Ele foi severamente surrado pelo porteiro e por vários
outros sujeitos. Uns dez dias se passaram sem incidente algum, e então o
Exército veio acertar suas contas. (Thompson, 2005)

De volta aos Estados Unidos, casou-se com a namorada Sandra Dawn Conklin, e seu único filho, Juan,
nasceu em 1964. Thompson continuou colaborando com o National Observer, até pedir demissão após o
jornal ter se recusado a publicar sua resenha do livro The Kandy-Kolored Tangerine Flake Streamline Baby,
de Tom Wolfe.

17
Thompson enfrentava o dilema de tantos colegas contemporâneos: queria se tornar romancista, mas tinha que
se resignar à dura vida de jornalista free-lancer enquanto não conseguia sua grande chance. Esta veio em
1965, quando Carey McWilliams, editor do The Nation, tradicional publicação esquerdista em circulação
desde 1865, lhe fez uma proposta: se infiltrar por 18 meses na temida gangue de motociclistas fora-da-lei
Hell’s Angels, então com grande exposição na mídia devido a seus supostos crimes violentos e escrever sobre
a experiência para a revista.

A reputação dos Hell's Angels havia se alastrado pelo país desde que um
relatório feito pelo então Secretário de Segurança da Califórnia, Thomas
C. Lynch, havia os considerado uma ameaça. O famoso Lynch Report trazia
denúncias de estupro, vandalismo e brigas causadas pelos motoqueiros,
muitas delas baseadas em evidências bastante questionáveis. "Trazia, por
exemplo, uma denúncia de estupro que havia sido feita pela vítima às
risadas, sem que o exame de corpo delito tivesse encontrado sinais de
penetração forçada" (Giannetti, 2002, p.28). O relatório ajudou a
alimentar uma safra de matérias sensacionalistas sobre os Hell’s Angels,
que muitas vezes não correspondiam ao que de fato havia acontecido. A
idéia de Thompson era mostrar às pessoas até que ponto o Lynch Report se
baseava na realidade, comparando trechos do relatório com as suas
experiências na convivência com o grupo. (Czarnobai, 2003)

O resultado deste ano e meio de convivência intensiva com os Hell’s Angels rendeu um trabalho excepcional.
Thompson desmontava com habilidade e embasamento concreto as histórias sensacionalistas da imprensa e
as meias-verdades do Lynch Report sobre os Angels. Mas isso de nenhuma forma os redimia. Thompson não
se furtava a descrever com precisão a violência dos motoqueiros. Thompson também enveredou pela
sociologia e psicologia para narrar a formação da gangue, quem eram seus membros e quais eram seus
métodos. Ele acabou levando uma surra de alguns membros do clube que queriam dinheiro pela publicação
da história.

Nessa época começou o envolvimento de Thompson com outras drogas, além do habitual álcool.
Perambulando pela cena noturna de San Francisco, descobriu o LSD, que na época era vendido de forma
legal, produzido pelos laboratórios Sandoz e receitado por psiquiatras. Mas logo depois, em 1966, o governo
americano proibiu a venda do LSD, o que imediatamente criou uma rede clandestina de produção e
distribuição.

18
Enquanto fazia o livro, ele conheceu o escritor Ken Kesey, autor de Um Estranho no Ninho e líder dos Merry
Pranksters, grupo de proto-hippies que viajavam pelos Estados Unidos distribuindo LSD de altíssima
qualidade a quem quer que estivesse disposto a tomar. A saga dos Pranksters foi narrada por Tom Wolfe em
The Electric Kool-Aid Acid Test.

Thompson apresentou Kesey a seus amigos Angels, e o resto é história. A conexão entre os hippies e radicais
da contracultura californiana com os Hell’s Angels provocaria uma mistura violenta, que explodiu algumas
vezes, culminando na tragédia ocorrida em um show dos Rolling Stones em Altamont, Califórnia, em 1971.
Contratados para fazer a segurança do evento, os Angels mataram um espectador e provocaram tumultos,
levando o show a ser interrompido, no que ficou conhecido como o marco final da ‘geração do amor’.

Após a publicação no The Nation, diversas editoras procuraram Thompson para lançar a história em livro. A
Random House ganhou os direitos e Hell’s Angels: A Strange and Terrible Saga of the Califórnia Outlaw
Motorcycle Gang foi publicado em 1967, tornando-se um best-seller. Thompson havia chegado lá. Mas ainda
não havia desenvolvido o estilo Gonzo.

É importante observar que, ainda que as técnicas usadas para captar as


informações e escrevê-las já fossem mais ousadas do que as praticadas pelo
New Journalism, este artigo ainda não é considerado um exemplo do Gonzo
Journalism.(Tom) Wolfe escreve sobre essa variação dentro do New
Jornalism no qual o repórter participa da ação de forma mais direta, sem,
no entanto, referir-se a ele como um gênero à parte:

“Em 1966 surgiu uma nova leva de jornalistas dispostos a se infiltrar em


qualquer ambiente, incluindo-se sociedades fechadas, e sair com vida da
empreitada. (...) Mas o prêmio Bolas de Ferro para escritores
independentes correspondeu aquele ano a um obscuro jornalista da
California chamado Hunter Thompson, que misturou-se aos Hell's Angels
durante 18 meses - como repórter, não como membro para escrever Hell's
Angels: The Strange and Terrible Saga of the California Motorcycle Gang
(...)”

O principal motivo pelo qual Hell’s Angels, ainda que escrito por
Thompson, não seja categorizado como Gonzo Journalism é a ausência de
algumas características fundamentais que serão descritas nos próximos
19
capítulos deste trabalho. Outros autores, como Christine Othitis,
reconhecem que: "Hell's Angels provavelmente é o único livro de Thompson
que poderia ser chamado de new journalism (...) é o primeiro - e único -
livro no qual Hunter mantém um estilo controlado de se expressar, no
sentido de "escritura não-gonzo". (Czarnobai, 2003)

A partir de 1967 Thompson mergulha fundo na contracultura hippie de San Francisco. Ele apresenta essa
geração revolucionária ao americano médio com uma matéria para a The New York Times Magazine: O
Hashbury é a Capital dos Hippies, publicada em maio de 1967. O artigo dá a descrição exata do que foi o
lendário “Verão do Amor” na região de Haight-Ashbury. Thompson não deixa de ter uma visão crítica do
movimento, principalmente em relação ao consumo desenfreado de drogas e à banalização dos ideais hippies.

Foi apenas em 1970 que Thompson escreveu seu primeiro artigo considerado Gonzo, quando foi convidado
pela revista Scanlan’s Monthly, uma publicação de vida curta que buscava publicar peças de New
Journalism, para escrever sobre o Kentucky Derby, a mais importante corrida de cavalos dos Estados
Unidos, que acontece anualmente desde 1875 na cidade natal de Thompson, Louisville.

Quer dizer, Thompson deveria escrever sobre a corrida, mas ao invés disso se lança a uma narrativa delirante,
marcada por fortes críticas ao modo de vida da sociedade local, que ele, como nativo de Louisville, conhecia
muito bem, e desprezava. The Kentucky Derby is Decadent and Depraved, publicado em junho de 1970 na
Scanlan’s Monthly, logo chamou a atenção de outros jornalistas pelo estilo único.

O jornalista do Boston Globe Bill Cardoso, amigo de Thompson, cunha o termo “gonzo” em uma carta
comentando o artigo sobre o Kentucky Derby. “Eu não sei que porra você está fazendo, mas você mudou
tudo. É totalmente gonzo". A origem do termo “gonzo” é incerta. Segundo Bill Cardoso, a palavra originou-
se da gíria franco-canadense gonzeaux, que significaria algo como "caminho iluminado" (Czarnobai,
2003). Outras fontes afirmam que “gonzo” seria uma gíria de origem irlandesa da região de Boston para
designar o último homem de pé após uma noite de bebedeira.

The Kentucky Derby is Decadent and Depraved também marca o encontro de Thompson com o seu mais
importante colaborador, o desenhista e ilustrador inglês Ralph Steadman, que passaria a ilustrar boa parte de
suas obras. O estilo surreal e violento dos desenhos de Steadman é o complemento perfeito para o texto
também violento e surreal de Thompson.

20
Fig. 2 - Auto-retrato de Ralph
Steadman

O Steadman queria ver alguns coronéis do Kentucky, mas não tinha muita
certeza de que aparência eles teriam. Falei para ele voltar para o banheiro
dos homens na sede e procurar por homens vestindo ternos brancos de
linho e vomitando nos mictórios. “Geralmente eles vão ter manchas
marrons de uísque enormes no terno”, expliquei. “Mas fica de olho nos
sapatos, é o que entrega. A maioria deles consegue não vomitar nas
próprias roupas, mas sempre acertam os sapatos.

(...)

E, no final do artigo:

Eu mal o escutava. Meus olhos finalmente estavam abertos o suficiente para


eu enxergar direito o espelho do outro lado do quarto, e o choque de
reconhecimento me deixou zonzo. Por um instante confuso, achei que o
Ralph tinha trazido alguém com ele – um modelo para aquele rosto especial
que procurávamos. Ali estava ele, por Deus – uma caricatura inchada,
arrasada pela bebida, cheia de doenças... como uma horrível versão
21
desenhada de uma velha foto no álbum de família de uma mãe que um dia
foi orgulhosa. Era o rosto que estávamos procurando – e claro, era meu
próprio rosto. Horrível, horrível...6

No ano seguinte Thompson é convidado pela Sports Illustrated, principal revista esportiva dos EUA, para
fazer uma matéria sobre a Mint 400, uma corrida de motocross realizada no deserto nas imediações de Las
Vegas, Nevada. Na época ele estava trabalhando em uma matéria delicada, sobre o assassinato de um
jornalista de origem mexicana pela Polícia de Los Angeles. Seu principal contato para a matéria era o
advogado mexicano Oscar Zeta Acosta, que prestava serviço para grupos radicais.

Vendo na matéria da Mint 400 uma oportunidade para espairecer um pouco da tensão provocada pela história
do assassinato, Thompson decidiu aceitar e chamou Acosta para acompanhá-lo na viagem à Las Vegas. E
esta não seria uma viagem comum.

Dos 300 dólares em dinheiro fornecidos pelos editores da


revista, quase tudo já tinha sido gasto com drogas
altamente perigosas. O porta-malas do carro mais parecia
um laboratório móvel do departamento de narcóticos.
Tínhamos dois sacos de maconha, 75 bolinhas de
mescalina, cinco folhas de ácido de alta concentração, um
saleiro cheio até a metade com cocaína e mais uma galáxia
inteira de pílulas multicoloridas, estimulantes,
Fig. 3 - Raoul Duke, por Ralph tranqüilizantes, berrantes, gargalhantes... além de um litro
Steadman
de tequila, outro de rum, uma caixa de Budweiser, meio
litro de éter puro de duas dúzias de amilas. Não que
precisássemos de tudo aquilo para a viagem, mas quando
alguém se dedica de verdade à tarefa de montar um
suprimento de drogas, a tendência é levar a coisa a sério.
(Thompson, 2007)

No livro, Thompson afirma que sua intenção na viagem a Las Vegas era encontrar o “Sonho Americano”. A
cidade construída no meio do deserto, onde pessoas de todos os Estados Unidos iam em busca de dinheiro
fácil nos jogos de azar, em cassinos administrados pela Máfia, era para ele o símbolo deste Sonho
6- THOMPSON, Hunter S. O Kentucky Derby é Decadente e Depravado in: A Grande Caçada aos
Tubarões. São Paulo, Conrad, 2004.
22
Americano. A noção de que, nos Estados Unidos, qualquer um, não importa sua origem, tem a oportunidade
de fazer a vida, ganhar muitas verdinhas.

Senti que a única maneira de ficar pronto para uma matéria como aquela
era me vestir como um pavão humano, enlouquecer, cantar pneu pelo
deserto e, no fim das contas, cobrir a matéria. Nunca se esquecer da sua
responsabilidade principal. Mas qual era a pauta, exatamente? Ninguém se
dignou a dizer. Teríamos que descobrir sozinhos, Livre Iniciativa. O Sonho
Americano. Fazer tudo na hora: puro jornalismo gonzo. (Thompson, 2007)

Mas ele logo percebeu que cobrir esta matéria no sentido jornalístico tradicional era impossível. Ao invés de
um relato curto sobre a corrida para legendar as fotos que sairiam na Sports Illustrated, o que surgiu da
viagem foi uma tortuosa narrativa cheia de digressões e muitas vezes formada por diálogos não editados,
sobre a busca de Thompson e Acosta, sob os pseudônimos de Raoul Duke e Dr. Gonzo, pelo Sonho
Americano.

Obviamente, a Sports Illustrated recusou o texto enviado por Thompson, e se negou a pagar as exorbitantes
despesas da viagem. Mas a Rolling Stone, então uma revista alternativa baseada em San Francisco, convidou
Thompson para cobrir a conferência nacional dos promotores públicos sobre drogas, que também aconteceria
em Las Vegas.

Jann Wenner, editor da Rolling Stone, adorou o texto de Las Vegas e o publicou. O sucesso foi imediato.
Pouco depois, a história foi também publicada em livro, e se tornou o maior sucesso de Thompson. Mas
ainda assim ele considerou Medo e Delírio em Las Vegas uma “experiência fracassada” de jornalismo gonzo.

Minha idéia era comprar um bloco de anotações bem grosso e registrar a


coisa toda enquanto ela acontecia, e em seguida mandar as anotações para
publicação – sem edição. Desse jeito, imaginei, o olho e a mente do
jornalista funcionariam como uma câmera. O texto seria seletivo e
necessariamente interpretativo – mas, uma vez que a imagem fosse
registrada, as palavras seriam definitivas. Da mesma forma que uma
fotografia de Cartier Bresson é sempre (de acordo com ele) um negativo de
quadro inteiro. Nenhuma alteração no quarto escuro, nada de cortes ou
aparadas, nada de procurar erros... nada de edição.

23
Mas isso é uma coisa difícil de fazer. No final das contas, acabei impondo
uma estrutura essencialmente ficcional ao que começou como uma peça
jornalística convencional/maluca. A verdadeira reportagem Gonzo requer
os talentos de um mestre do jornalismo, o olho de um artista/fotógrafo e os
colhões firmes de um ator. Porque s escritor precisa participar da cena
enquanto escreve sobre ela – ou pelo menos gravá-la. Ou mesmo desenhá-
la. Ou as três coisas. Provavelmente a analogia mais próxima do ideal seria
um diretor/produtor de cinema que escreve seus próprios roteiros, faz seu
próprio trabalho de câmera e de algum modo consegue filmar a si mesmo
em ação, como protagonista ou pelo menos um dos personagens principais.
(Thompson, 2004)

De qualquer forma, Fear and Loathing in Las Vegas, transformou Thompson num superstar da
contracultura, e ajudou a consolidar sua imagem como uma persona literária. Ainda antes disso, em 1970,
Thompson havia chamado a atenção como líder contracultural ao concorrer ao posto de xerife do condado de
Aspen, no Colorado, onde vivia em um sítio nas montanhas. Aspen é famosa pelas pistas de esqui e por ser
um destino de férias para os ricos e famosos. Nos Estados Unidos, cargos como o de xerife são escolhidos
por eleição direta, e Thompson decidiu concorrer ao posto pelo partido Freak Power. Entre suas propostas
estava a descriminalização do uso de drogas no condado, transformação de ruas e estacionamentos em áreas
gramadas para passeio e proibição dos carros na cidade. Thompson perdeu a eleição, mas seu artigo sobre a
disputa foi seu primeiro trabalho publicado na Rolling Stone.

Em 1972, após a publicação de Fear and Loathing in Las Vegas, Thompson foi designado pela Rolling Stone
para cobrir as eleições presidenciais americanas, onde o então presidente, o republicano Richard Nixon,
tentava a reeleição. Ele sempre foi um “viciado em política”, segundo suas próprias palavras, e como já foi
dito, chegou a se candidatar a xerife.

Politicamente, Thompson se encontrava dentro da tradição libertária norte-americana. Sua visão política era
quase anarquista. Era favorável às liberdades individuais, o que incluía direito a usar drogas e a portar armas
de fogo. Seus ídolos políticos eram John e Robert Kennedy, e seus assassinatos foram marcantes na vida de
Thompson. Esteve nos protestos organizados pelos radicais do Yippie (Youth Internacional Party, ou Partido
Internacional da Juventude) durante a convenção do Partido Democrata, em 1968 na cidade de Chicago. A
violenta repressão policial aos protestos foi um dos marcos da agitação política de 1968.

24
Fig. 4 - Cartaz da campanha de
Thompson para xerife de Aspen,
Colorado

Por tudo isso, Thompson detestava o presidente Richard Nixon. Quando Nixon morreu, em 1994, Thompson
escreveu um famoso obituário na Rolling Stone, chamando o ex-presidente de “alguém que pode apertar sua
mão e o apunhalar pelas costas ao mesmo tempo”, afirmando que “seu caixão deveria ser jogado em um dos
canais de esgoto de Los Angeles que desaguam no oceano”.

Na cobertura das eleições, Thompson claramente apóia o senador George McGovern, da ala mais à esquerda
do Partido Democrata, que surpreendentemente ganhou as primárias do partido e disputou a eleição com
Nixon. Os dois se tornaram grandes amigos. McGovern acabou perdendo a eleição por uma grande margem,
mas logo após ser reeleito, Nixon foi envolvido no escândalo de Watergate, que Thompson também cobriu
para a Rolling Stone, sem disfarçar sua satisfação com a derrocada do presidente.

Em 1974, foi para o Zaire cobrir a histórica luta entre George Foreman e Muhammad Ali pelo título mundial
dos pesos-pesados. Ali era outro grande ídolo de Thompson. Mas, odiando o clima da luta e da cidade de
Kinshasa, se afundou no consumo de drogas, abundantes no Zaire, e nem foi assistir à luta, ficando na piscina
do hotel.

Logo depois, foi mandado pela Rolling Stone para Saigon, capital do Vietnã do Sul, quando já era certa a
vitória da guerrilha comunista do Norte na guerra. Os Estados Unidos já estavam evacuando seu pessoal da
cidade, e Jann Wenner, editor da revista, deixou de enviar apoio financeiro a Thompson, que se viu
abandonado em meio ao caos de Saigon. Sua matéria sobre a “queda de Saigon” só seria publicada dez anos

25
depois. Ele também iria cobrir a eleição de 1976 para a Rolling Stone e um futuro livro, mas Wenner
novamente se recusou a dar o adiantamento pedido por Thompson e o livro não foi feito. Estes incidentes
estremeceram a relação entre Thompson e a revista.

Nos anos 80 o trabalho de Thompson não foi tão importante e relevante quando o da década anterior, mas ele
continuou escrevendo alguns artigos com ácidas críticas ao estilo de vida egoísta e fútil da geração “yuppie”.
Participava freqüentemente de palestras em Universidades, onde, com seu comportamento espalhafatoso, era
tratado como um verdadeiro rockstar pelos estudantes. Em 1980 um filme baseado nos trabalhos seminais de
Thompson dos anos 70, com Bill Murray no papel principal, chamado Where the Buffalo Roam, foi lançado
com pouco sucesso. No mesmo ano ele se divorciou de Sandra Conklin.

Nesta época, Thompson colaborou com a revista Playboy, em um artigo sobre a maratona de Honolulu, no
Havaí, intitulado The Curse of Lono, que também saiu em livro. Ele ainda foi designado pela Playboy para
escrever sobre “pornografia de casais”, e para isso se empregou como porteiro do Mitchell Brothers O’Farrell
Theater, em San Francisco, que apresentava shows de sexo explícito. Seu texto sobre a experiência não foi
publicado. Durante boa parte dos anos 1980, ele escreveu em uma coluna de crítica de mídia no jornal San
Francisco Examiner.

Em 1990 Thompson foi acusado de assédio sexual pela diretora de filmes eróticos Gail Palmer, que visitava
seu sítio em Aspen. Um mandado de busca foi expedido e a polícia encontrou grande quantidade de drogas e
armas no local. As acusações foram retiradas posteriormente, e Thompson escreveu sobre a experiência no
livro Kingdom of Fear, uma coletânea de artigos lançada em 2003.

Na década de 1990 os trabalhos de Thompson se tornaram ainda mais raros, mas ele chegou a escrever duas
matérias importantes para a Rolling Stone, em 1992. A primeira era uma narrativa ficcional sobre um
encontro com o juiz Clarence Thomas, que acabar de ser nomeado o segundo negro na Suprema Corte dos
EUA e enfrentava acusações de assédio sexual, intitulada Fear and Loathing in Elko. A segunda foi uma
entrevista com o então candidato à presidência Bill Clinton.

Em 1998 uma versão para o cinema de Fear and Loathing in Las Vegas foi lançada, com Johnny Depp no
papel de Raoul Duke e Benicio del Toro como o dr. Gonzo. O filme foi dirigido pelo ex-Monty Phyton Terry
Gilliam e Thompson colaborou com o roteiro e aparece fazendo uma ponta. O filme foi bem recebido pela
crítica e pelos fãs. Thompson entrou no século XXI escrevendo sobre esportes para o website da rede ESPN.
A coluna foi publicada de 2000 até sua morte. Em 2001 ele escreveu sobre os ataques terroristas de 11 de
setembro. Thompson se tornou um feroz crítico da administração de George W. Bush, chegando a afirmar
26
que se Richard Nixon concorresse contra Bush em uma eleição, votaria alegremente em Nixon.

Fig. 5 - Hunter S. Thompson, já um senhor

Em 2003, se casou com sua assistente Anita Bejmuk, muitos anos mais nova. Sofrendo de fortes dores por
causa de uma fratura na bacia, e desesperançoso com a situação dos Estados Unidos, Thompson começou a
mostrar sintomas de depressão. Ele sempre havia dito que esperava morrer cedo, e que gostaria de se
suicidar, como tantos outros escritores, entre eles seu ídolo Ernest Hemingway.

Ele cumpriu a promessa em 20 de fevereiro de 2005, quando deu um tiro de espingarda na própria cabeça.
Seu bilhete de despedida dizia: “Sem mais jogos. Sem mais bombas. Sem poder mais andar. Sem mais
diversão. Sem poder mais nadar. 67. São 17 anos a mais que 50. 17 a mais do que eu precisava ou queria.
Tédio. Estou sempre reclamando. Sem diversão – para ninguém. 67. Você está ficando ganancioso. Aja como
velho. Relaxe. Não vai doer”.

Como sua vida, a morte de Thompson também se transformou em um evento extravagante. Por muitos anos
ele planejou um funeral no melhor estilo espetáculo: depois de cremado, suas cinzas deveriam ser colocadas
em um canhão que seria lançado de um monumento de 47 metros na forma do símbolo gonzo, enquanto
fogos de artifício explodiam ao fundo. A cerimônia, ocorrida em 20 de agosto de 2005, foi financiada por seu
amigo Johnny Depp.

Com sua morte, Thompson foi reverenciado como um dos grandes autores americanos do século XX. Em seu
obituário de Thompson para o Wall Street Journal, Tom Wolfe o chama de “maior escritor cômico da língua
inglesa no século XX”. Sua influência é sentida em boa parte dos jornalistas ensaístas dos Estados Unidos e
Europa, e seu estilo serve de inspiração para milhares de jovens jornalistas que escrevem em blogs, fanzines
e sites da internet.

27
No início de 2008 foi lançado o documentário Gonzo: The Life and work of Dr. Hunter S. Thompson,
dirigido por Alex Gibney. Com muitas imagens de arquivo e passagens dos livros de Thompson narradas por
Johnny Depp, o filme mostra sua trajetória de vida e sua influência, principalmente do ponto de vista
político. O documentário começa com a narração do artigo que Thompson escreveu após os atentados de 11
de setembro, e se detém na cobertura das eleições de 1972.

O diretor Gibney, que já havia feito o premiado Enron: The Smartest Guys on the Room, estabelece assim um
paralelo entre as administrações de Richard Nixon e de George W. Bush. Os entrevistados lamentam a falta
da voz de Thompson, contra a guerra e a corrupção do governo americano. As últimas imagens do filme
mostram o funeral espetacular de Thompson.

A influência de Hunter Thompson nas gerações de jornalistas que se seguiram é nítida. Embora, como dito
anteriormente, ele seja o único gonzo genuíno, diversos jornalistas influenciados por ele têm tentado realizar
novas formas de reportagem em todo o mundo, utilizando principalmente a internet para disseminar suas
idéias incendiárias.

No Brasil, temos o já citado André “Cardoso” Czarnobai e seus asseclas da Irmandade Raoul Duke7, além de
uma pequena multidão de blogueiros e fanzineiros espalhadas por todo o país. As mídias “tradicionais”
também possuem seus representantes gonzo. As revistas Trip, com o decano Arthur Veríssimo e valente
Bruno Torturra Nogueira, e a turma da piauí e da Rolling Stone brazuca são bons exemplos, além do mestre
Xico Sá e também meu orientador Cláudio Júlio Tognolli. O grande Goulart de Andrade, em seu saudoso
Comando da Madrugada, tem sem dúvida o DNA gonzo no sangue.

Ainda assim, não são poucos os que torcem o nariz para esse jeito de fazer jornalismo, e estes têm seus
motivos. No entanto, neste momento de nítida crise no jornalismo tradicional e da revolução trazida pelos
blogs, estas novas formas de relatar o que acontece no mundo trazem impressa de forma incontestável a
iconoclastia e anarquia que Hunter Thompson passava para seus textos. Pode-se dizer que Thompson está
mais vivo do que nunca.

7 http://www.qualquer.org/gonzo
28
1.2 – Características do Gonzojornalismo

Fig. 6 - O símbolo Gonzo, um punho de


dois polegares segurando um botão de
Peyote (Cacto alucinógeno)

Em sua monografia, André Czarnobai busca mostrar as diferenças básicas entre o gonzojornalismo e o New
Journalism norte-americano, que na época estava quebrando os paradigmas do Jornalismo ao utilizar técnicas
literárias, e identifica quatro características que distinguem o gonzojornalismo de outras práticas jornalísticas.
São elas: a captação participativa, a dificuldade de discernir ficção e realidade, o consumo de drogas e
a narração em primeira pessoa.

Captação participativa

O Gonzo jornalista não se contenta em observar ou recolher depoimentos


de pessoas que vivenciaram determinadas experiências. Para oferecer uma
maior dimensão de informações, ele próprio precisa viver a experiência.
Tornando-se parte do objeto de sua reportagem, o Gonzo jornalista acaba
interferindo - ainda que involuntariamente - no destino da história.

Dificuldade de discernir ficção da realidade

Para o Gonzo jornalista é permitido o uso de personagens e situações que


nunca existiram, se isso contribuir para aumentar o nível de informações
dispensado ao leitor e conferir maior dramaticidade à cena que está sendo

29
descrita. É importante também que a diferença entre ficção e realidade não
seja jamais explicitada.

Consumo de drogas

Ainda que não seja necessariamente uma exigência para que um artigo seja
considerado Gonzo, o abuso de drogas e também de bebidas alcoólicas é
recorrente na obra de Thompson. Em Fear and Loathing in Las Vegas, por
exemplo, um capítulo inteiro do livro é dedicado ao uso do adrenochrome,
uma droga raríssima e incrivelmente potente. No livro, o abuso de drogas é
a característica mais predominante, o que contribui para que se acredite,
erroneamente, que o Gonzo Journalism é apenas um formato de reportagem
feito sob o efeito de drogas.

Uso do narrador na primeira pessoa

Uma vez que a captação de dados é feita de forma participativa, o uso da


primeira pessoa imprime legitimidade às histórias contadas pelo Gonzo
jornalista e o transforma em uma espécie de jornalismo confessional.
(Czarnobai, 2003)

Essas são, segundo Czarnobai, as características básicas do gonzojornalismo, que o difere e até o coloca em
oposição direta ao modelo clássico de jornalismo, especialmente no que tange à linha borrada que separa
ficção de não-ficção. É por isso que muitas escolas de jornalismo simplesmente não consideram o gonzo um
gênero jornalístico, e sim literário.

Como autor deste trabalho, eu entendo o ponto de vista de Thompson sobre a tênue linha que separa ficção e
não-ficção, que ele explica na epígrafe que abre a introdução. No entanto eu não me sinto seguro dos meus
dotes de ficcionista o suficiente para aplicar essa característica do gonzojornalismo no meu trabalho, por isso
não utilizarei deliberadamente esse expediente em sua parte prática. Pretendo narrar os fatos como eu acho
que acontecem, sem tentar incrementá-los usando recursos ficcionais. Contudo, pretendo utilizar da melhor
maneira possível as outras características que tornam o gonzojornalismo um gênero único e o mais adequado
para retratar o universo que pretendo abordar neste trabalho.

Além dessas quatro características básicas, Czarnobai apresenta mais sete características específicas do

30
trabalho de Hunter Thompson, que não necessariamente devem ser aplicadas por quem quiser fazer um
trabalho gonzo, mas que são marcantes na trajetória de Thompson. Elas foram reunidas pela pesquisadora
canadense Christine Othtis, que mantém o site The Great Thompson Hunt8, dedicado à obra de Thompson.

Em seu artigo The Beginnings and Concept of Gonzo Journalism (1994a),


Christine Othitis enumera sete características que, segundo ela, estão
sempre presentes na obra de Hunter Thompson. Para a autora, Thompson é
o "único gonzo jornalista do mundo" (Othitis, 1994) e, sendo assim, não há
nada com o que comparar o seu trabalho a não ser com ele mesmo. As sete
características apontadas por Othitis são:

Abordagem de assuntos relacionados ao sexo, violência, drogas, esportes


e política

Nem todo texto Gonzo precisa estar relacionado com algum destes quatro
temas, mas a obra de Thompson, de um ou outro jeito, está. Thompson tem
a tendência de escrever sobre assuntos nos quais ele está pessoalmente
envolvido e faz questão de conhecê-los muito bem. Os temas predominantes
em sua obra não são estes por acaso: aparecem em sua obra justamente
por representarem as principais obsessões da maioria do povo norte-
americano. "Deste modo, Thompson não está escrevendo só a seu respeito -
literalmente - mas para uma grande fatia da população." (Othitis, 1994a)

Uso de citações de gente famosa e outros escritores - ou às vezes, dele


mesmo – como epígrafe

Este recurso estilístico é largamente utilizado por Thompson e serve para


situar o leitor no clima da narrativa e oferecer uma pequena prévia do que
ele vai encontrar nas páginas a seguir. Para abrir Fear and Loathing In
Las Vegas, por exemplo, Thompson usa uma frase do Dr. Johnson: "Aquele
que faz uma besta de si, livra-se da dor de ser um homem" (Thompson,
1971). O livro, essencialmente, fala sobre duas pessoas que chegam a um
extremo tanto no consumo de drogas como no relacionamento com as
outras pessoas. Thompson e seu advogado consomem doses maciças de
8- http://www.gonzo.org
31
todo o tipo de substância entorpecente e depois invadem, roubam,
vandalizam e mentem. Em suma, brutalizam-se.

Referências a figuras públicas como jornalistas, atores, músicos e


políticos

Esta característica da obra de Thompson relaciona-se com a popularização


do Gonzo Journalism como elemento da cultura pop norte-americana. Por
falar abertamente sobre drogas e tecer comentários políticos sem meias-
palavras na Rolling Stone, Thompson tornou-se muito popular entre os
jovens e demais inseridos na contracultura durante os anos 70.

Tendência de se distanciar do assunto principal - ou do assunto por onde


o texto começou

George Plimpton descreve a tendência que Thompson tem de mudar de um


assunto pro outro como uma tentativa de escrever sobre aquilo que ele
acredita que os seus leitores querem ler. (Othitis, 1994a) Na maior parte do
tempo, Thompson está escrevendo sobre o comportamento das pessoas.

Em grande parte de sua obra, a narrativa começa com a tarefa de cobrir


determinado assunto para a imprensa tradicional, mas Thompson acaba
atraído pela possibilidade de discorrer sobre o componente humano
presente na história. Neste ponto, é interessante ressaltar o que Wolfe
escreveu sobre Gonzo Journalism:

Uma forma de jornalismo em que o repórter é chamado para fazer um


artigo sob encomenda (...) mas acaba escrevendo uma curiosa forma de
autobiografia. Não se trata de autobiografia no sentido usual, porque o
escritor se coloca na ação sem outro motivo que o de escrever algo. O tema
acaba por ser puramente casual e o escritor tem de usar o talento para
enganar o leitor, fazendo com que aquilo pareça fascinante. Hunter
Thompson é o mestre desta forma, que se denomina gonzo jornalismo.
(1976)

32
Uso de sarcasmo e/ou vulgaridade como forma de humor

O escritor P.J. O'Rourke, amigo pessoal de Thompson, é quem diz, durante


entrevista que realizou com o inventor do Gonzo Journalism para a Rolling
Stone, em 1996:

Duas coisas separam Hunter Thompson da horda comum de profetas


ansiosos da literatura moderna. Primeiro, Thompson é melhor escritor...
Segundo, Thompson nos faz rir. Isso é uma coisa que é improvável que
façamos durante a apresentação de... Esperando por Godot, ainda que
estejamos tão doidões quando Raoul Duke. Hunter Thompson pega as
questões mais sombrias da ontologia, os mais sérios questionamentos
epistemológicos e, através da sua maneira de apresentá-los, nos contorce
de rir, nossos corpos doendo do sovaco à virilha, nossos joelhos vermelhos
de tanto levar tapas, cerveja espirrando de nossos narizes. Rimos tanto que,
a qualquer momento, podemos vomitar como o advogado Samoano de 150
quilos. (1966, p.66).

Tendência das palavras "fluirem" e um uso extremamente criativo do


inglês

Para analisar melhor a presença desta característica, temos de recorrer a


trechos retirados dos textos originais de Thompson, mas não é difícil
perceber a verdade neste apontamento de Othitis. O segundo parágrafo do
quarto capítulo de Fear and Loathing in Las Vegas é um bom exemplo
desta característica:

I agreed. By this time the drink was beginning to cut the acid and my
hallucinations were down to a tolerable level. The room service waiter had
a vaguely reptilian cast to his features, but I was no longer seeing huge
pterodactyls lumbering around the corridors in pools of fresh blood. The
only problem now was a gigantic neon sign outside the window, blocking
our view of the mountains - millions of colored balls running around a very
complicated track, strange symbols & filigree, giving off a loud hum...
(Thompson, 1971, p.27)
33
A construção vaguely reptilian cast to his features não é muito comum no
inglês coloquial, demonstrando um certo grau de erudição do autor ao ser
empregada. Features, sobretudo, é uma palavra utilizada para designar as
partes do rosto de uma pessoa. Na frase, Thompson diz que o camareiro
tem "formas vagamente reptílicas" nos elementos do seu rosto, o que
poderia ser facilmente substituído por algo mais banal, como the room
service waiter still looked a bit like a reptile, ou "o camareiro ainda parecia
um pouco com um réptil".

O verbo lumbering com este sentido também não é de uso muito freqüente
no idioma norte-americano. Neste contexto, lumber, segundo o Cambridge
International Dictionary of English, quer dizer "mover-se lenta e
deselegantemente" (1995, p.847).

Por fim, a presença incomum da palavra filigree, que refere-se a tanto um


tipo de jóia feita de um arame prateado retorcido como, no sentido
figurativo, a padrões decorativos. Além disso, todo o trecho quando lido em
voz alta é extremamente sonoro, com a mistura de palavras de pronúncia
mais entruncada como tolerable ou pterodactyls com outras mais abertas
como pools, neon e a expressão loud hum.

Descrição extrema das situações

Thompson é um observador rigoroso, percebendo os pequenos detalhes que


fogem à atenção da maioria das pessoas, e os aplicando à sua escrita de
duas formas. A primeira é a descrição. Geralmente ele consegue expor
todos os detalhes pertinentes a um objeto ou pessoa em duas ou três frases,
enquanto cria uma representação visual muito forte daquilo que está
descrevendo. Por exemplo, em Fear and Loathing in Las Vegas, o carro
não é só um conversível vermelho, é um Grande Tubarão Vermelho. Lucy, a
jovem pintora com a cabeça cheia de ácido é descrita desta forma no seu
primeiro encontro:

Mas a porta atingiu algo que eu imediatamente reconheci como uma forma
humana: uma garota de idade indeterminada com o rosto e o porte de um
34
Pit Bull. Ela usava um vestido azul sem forma e os seus olhos estavam
furiosos. (Thompson, 1971, p.110) (Czarnobai, 2003)

Essas características que perpassam a obra de Thompson são, obviamente, únicas a ele, e parte de seu estilo,
sendo, portanto, impossível transpô-las integralmente para este presente trabalho. No entanto, pretendo usar
essas características como um “guia espiritual” quando estiver escrevendo os capítulos práticos deste
trabalho, por acreditar que esses recursos estilísticos ajudarão a passar com maior fidelidade para o papel as
situações, diálogos e descrições dos lugares apresentados.

Claro que não tenho a pretensão de ter o talento literário de Hunter S. Thompson, um dos melhores escritores
satíricos do século XX, nem o de outros ídolos meus na literatura, como William Burroughs, George Orwell,
Charles Bukowski, entre tantos outros. Mas, me aproveitando da liberdade de estilo proporcionada por este
projeto experimental, tentarei fazer algo dificilmente encontrado na produção acadêmica e na prática do
jornalismo brasileiro. Romper com a objetividade, com a ditadura do lead e com boa parte das regras
aprendidas durante esse curso, oferecendo um contraponto que acredito ser interessante para retratar o
universo que pretendo abordar.

35
Segunda Parte: Gonzjornalismo na prática: a vida noturna underground na cidade de São Paulo

2- Em Busca da Balada Perfeita

São Paulo pulsa, né meu... (Zílio Gnecco)

2.1 – O autor e o baladeiro: preciso parar com essas coisas...

Festividades são parte importantíssima da civilização humana desde tempos imemoriais. Toda cultura tem
seus festejos, festivais, bacanais, carnavais, em maior ou menor grau. São através delas que a população
interage fora do contexto de trabalho, se socializa, firma laços de amizade e amor, e, em última análise,
perpetua a espécie. A sociedade brasileira é conhecida mundialmente por ser uma das mais festeiras que
existem, principalmente graças ao bom e velho carnaval, outras festas típicas, como o São João, profusão de
feriados, e claro, pelo futebol. Um traço positivo do catolicismo sem dúvida são essas festividades e
feriados...

São Paulo, a maior cidade do país, não é tão conhecida pelo carnaval, apesar de estar longe do estereótipo de
“túmulo do samba”, mas possui uma vida noturna considerada de alto nível, principalmente no que tange à
diversidade. É possível para o baladeiro obstinado e com conta bancária confortável sair todos os dias da
semana e encontrar uma balada diferente e divertida. Quer dizer, será que ainda é assim? Faz tempo que não
encaro essa peregrinação semanal, principalmente devido ao impacto disso em minha saúde física e
financeira.

Isso não quer dizer que abandonei completamente a vida noturna, muito pelo contrário. Não consigo agüentar
o tédio de ficar em casa. Felizmente, tenho a sorte de ter muitos amigos que gostam de se reunir e se divertir
regularmente, nas festas da faculdade, festas em repúblicas, churrascos, botecos, etc, etc, o que garante a
diversão semanal sem gastar muito dinheiro e sem enfrentar as encheções de saco das baladas comerciais.
Assim, descobri que a velha máxima “se você quer algo bem feito, faça você mesmo”, vale também para as
festas.

E, devo dizer, o pessoal que eu conheço sabe e gosta de fazer festa. E, se ao entrar na faculdade eu imaginava
que ia aprender a profissão de jornalista para conseguir um bom emprego e seguir minha vida, como
qualquer pessoa normal, o furacão provocado por esses festeiros atropelaram totalmente meus planos. E não
posso dizer que foi ruim não, afinal, como já afirmado anteriormente, sou viciado em festa. E rapidamente
aprendi a organizar uma boa bagunça.

36
Sempre tive dificuldade pra dormir a noite. Quando era criança, nunca ia dormir antes do terceiro bloco do Jô
Soares 11:30. No sábado, ficava acordado pra ver o Goulart de Andrade e seu lendário Comando da
Madrugada. Com suas reportagens bizarras sobre personagens da noite como os travestis, sobre o nazista
escondido no Brasil Josef Mengele e sobre Objetos Voadores Não-Identificados, entre outras, Goulart pode
ser considerado um jornalista gonzo honorário. Um dia alguém tem que fazer um livro ou documentário
sobre o figura.

Até a sétima série estudei à tarde. Quando passei pra manhã, dormia à tarde, depois da escola. Fiz o cursinho
no período noturno, e ao me inscrever na FUVEST, coloquei jornalismo noturno como primeira opção.
Ainda bem.

Meu cérebro sempre foi mais ativo à noite, e ao optar pelo curso noturno tive a sorte de entrar na sala com os
colegas mais legais que poderia pedir à Deus, a hoje já lendária Jornot 2002 da ECA. Dos 30 que entraram,
ao menos 15 viraram grande amigos. Tristão, Dé, Crovis, Tato, Thomaz, Leo, Dudu, Gui, Rômulo, Lígia,
Mari, Yara, Laura, Julinha, Marianinha...

Bem, mas claro que meu interesse pela boemia precede a entrada na faculdade. Durante a adolescência,
comecei a sair a noite. O interessante que eu pulei direto da fase de moleque, de jogar futebol e videogame,
para a vida noturna. Nunca curti as “matinês”, onde boa parte da molecada começa a cair na balada. Na
verdade, torcia o nariz pro esquema “mauricinho”, e a música, geralmente dance music comercial, que rolava
nesses lugares. Mas fui algumas vezes, principalmente no outrora famoso Krypton, depois Club K, na Vila
Olímpia.

Com 14 anos, quando estava na oitava série do primário, tomei meu primeiro porre, num churrasco na casa
de um amigo. Achei uma vodka no fundo da geladeira e mandei ver. Lógico que dei vexame. Ao passar para
o ensino médio, quis trocar minha escola de bairro, administrada por freiras franciscanas e cheia de
“playboys” que eu odiava, pelo Mackenzie. Lá começou minha vida de baladeiro propriamente dita. Para me
enturmar com o pessoal, passei a sair com eles. Nessa época rolavam várias festas open bar que, lógico,
raramente verificavam a idade de quem entrava. Mas sempre pareci mais velho, e nunca, pelo que me
lembro, pediram documento para comprar bebida.

A galera matava aula nos botecos da rua Maria Antonia, o que começou a criar problemas. Eu tinha bolsa
para estudar e teoricamente não podia bagunçar, mas acabei virando um dos líderes da baderna no colegial.
Na mesma época, comecei a freqüentar os botecos da Cardeal Arcoverde. Nessas duas ruas aprendi a beber e
a ser boêmio. Também comecei a ir em bares onde rolava rock alternativo, na Vila Madalena e na região da
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Paulista. Na época, era essa a música que eu curtia. Ia muito no DJ Club Bar, na Alameda Franca, onde até
hoje rola um dos projetos mais duradouros de rock alternativo de São Paulo, o Sound.

Certo dia meu amigo Pinta, loucão que era punk e tinha sido expulso do Mackenzie, me convidou pra botar
um som junto com ele no Britty Bar, um dos lugares mais ‘underground’ que eu já vi na vida, que ficava
numa sobreloja escura em cima de um dos botecos da Cardeal, entre a Mourato Coelho e a Simão Álvares.
Antes de entrar pra tocar a gente virava umas Maria-moles (conhaque com vermute) no boteco abaixo. Era
divertido pra caramba. Podia tocar o que quiser, e ganhava umas cervejas de graça. Assim começou minha
vida paralela como DJ.

Aí chegamos ao ponto em que entrei na ECA. Como todo bixo, não tinha noção do que encontrar, mas
devagarinho fui conhecendo o pessoal e me integrando. E, como já disse, começou pela sorte de cair numa
turma cheia de malucos. A primeira festa da turma, no minúsculo apartamento da Marianinha, já foi
quebradeira. Eu lembro de, já bêbado, depois que os vizinhos terem reclamado do barulho, ir tentar diminuir
o volume do som, mas o som era daqueles que quando você roda o botão do volume pra diminuir, ele
aumenta. Foi minha primeira “causação” com o som, heheh.

No meu primeiro ano ainda não conhecia muita gente da faculdade, além da minha sala, e continuava
andando bastante com meus amigos do colégio. Para complicar, tinha uma paixão um tanto platônica e mal
resolvida por uma menina carioca que conheci no mIRC. E, para complicar mais um pouco, estava passando
por uma situação familiar difícil. Meus pais estavam separados após uma série de problemas financeiros e eu
morava na casa da minha avó, no bairro do Jardim Monte Kemel, um fim de mundo.

Isso tudo me impediu de aproveitar como deveria o meu ano de calouro na ECA. Por exemplo, não fui no
JUCA (Jogos Universitários de Comunicações e Artes, evento imperdível, como viria a descobrir depois).
Apesar dessas “marmotagens”, fui me enturmando, principalmente através das então recém-criadas “Quintas
i Breja”, happy hour semanal que acontece todas as quintas-feiras no Centro Acadêmico e se espalha pela
“prainha”, bucólico espaço atrás do prédio principal da ECA. A “QiB” veio se somar à tradicional festa
ecana, a sempre inclassificável Festeca, que acontece às sextas-feiras, mas apenas duas ou três vezes por ano.

Nesses primeiros tempos freqüentava apenas as recém montadas repúblicas Pasárgada e Maracangalha, dos
meus colegas de sala que vieram do interior. A Copa do Mundo de 2002, cujos jogos aconteciam geralmente
de madrugada, ajudou bastante a unir o pessoal em torno de um objetivo comum, que no caso era tão ou mais
a balada e a cerveja do que a copa em si. Num desses jogos, a eletrizante semifinal contra a Inglaterra, a
Maracangalha ficou apinhada de gente e eu conheci uma galera. Mas a final eu assisti em casa com meu avô,
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nem fiquei sabendo que o pessoal havia se reunido de novo na “Maraca” pra comemorar o pentacampeonato.
Outra marmotagem...

Uma das pessoas com quem eu melhor me dava nesse primeiro ano era a Julia, do jornalismo matutino.
Conhecia a simpática moça de Ribeirão Preto por um amigo em comum. Cervejeira valente como tantos da
sua cidade natal, tivemos uma empatia mútua, mas ficamos só na amizade... Julia entrou pro C.A. e começou
a participar da organização das QiBs. Eu comecei a ajudar, claro.

Um dos principais fatos que ajudaram essa integração cósmica de malucos na ECA foi causado por nossa
sala ter uma “janela” de aulas nas terças-feiras do segundo semestre. Não foi preciso pensar muito para
descobrir uma boa maneira de ocupar essas noites ociosas: sair para beber em um boteco qualquer. Assim
nasceu a hoje lendária “terça cerca frango”. Cerca frango? Pois é... Sabe quando você bebe tanto que sai
cambaleando, parecendo que está cercando um frango? Então, essa é a idéia. Claro que o nome veio de
algum interiorano da turma, mas quem foi mesmo? Ninguém mais lembra...

A idéia original era percorrer os botecos localizados próximos à outras faculdades, como o Mackenzie, PUC,
Casper Líbero, FAAP... Mas essa idéia logo se esgotou, pois invariavelmente os bares fechavam e nós ainda
queríamos beber, e invariavelmente íamos para a Maracangalha tomar as saideiras. A Maraca ficava próxima
à estação Vila Madalena do Metrô, na rua Apinagés. A três quadras dali havia uma verdadeira preciosidade.
Um posto de gasolina aberto 24 horas, que vendia cerveja de garrafa, geladassíma e a preços módicos. Não
durou muito para abandonarmos os bares e ficarmos desde o começo na Maraca mesmo. Esses dois eventos,
Cerca Frango e Quinta i Breja, fizeram maravilhas para a socialização da grande turma baladeira da ECA.

No final do meu primeiro ano na faculdade, meus pais reataram e voltaram a morar juntos, em uma
apartamento alugado no Itaim Bibi. Isto facilitou minha capacidade de locomoção pela noite de São Paulo e
meu humor. Na mesma rua do meu novo lar, a Clodomiro Amazonas, descobri o Samaro, boteco
tradicionalíssimo do bairro que se tornou mais um QG etílico da rapaziada. Meu amigo e vizinho André
trabalhava em uma churrascaria argentina “pomada” a uma quadra de casa, e sempre ele e os outros malucos
que lá trabalhavam saíam depois do expediente para beber no Samaro. Lá ocorreram noitadas homéricas, que
por vezes se estendiam, depois do bar fechar, num boteco ainda mais fuleiro na rua Iguatemi, que funcionava
24 horas e tinha um sinistríssimo karaokê no andar de cima.

Ainda no final de 2002 fui para o BIFE, jogos das faculdades menos gabaritadas da USP, realizado naquele
ano na aprazível cidade de Socorro. O clima intimista do evento me fez conhecer mais uma galera firmeza da
ECA, e descobri o estado de espírito peculiar que emerge nestes jogos. Tato, Crovis, Tristão, Thomaz, e Leo,
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todos da minha sala, entraram para a Atlética no final do primeiro ano. Eu oficialmente não fazia parte da
gestão, mas logo me envolvi na organização das baladas e eventos. Na Quinta i Breja em comemoração ao
título do BIFE, fiz minha “estréia” como DJ na ECA, com uma inesquecível discotecagem utilizando apenas
uma montanha de bolachões de vinil emprestadas pelo Pinta e levadas de ônibus para a USP. Modéstia à
parte, foi sucesso total.

Na virada deste ano tive a triste notícia que minha amiga Júlia havia morrido em um acidente de carro no
reveillon. Foi duro, mas reagi como geralmente reajo à esses fatos: tentando esquecer a tristeza caindo na
balada. Nas férias de janeiro costumava passear pela USP quase deserta e assim fiz amizade com um pessoal
que era da agência ECA Jr na época, Zarpa, Sherlon, Davi, Brunão... Conheci mais uma república, a RepSat,
onde moravam Zarpa e Davi, um paranaense típico e um sergipano também típico, grandes figuras.

Na semana de recepção dos bixos neste ano, apesar de não pertencer oficialmente a nenhuma entidade, me
diverti paca, conheci um monte de bixos e bixetes e bebi quantidades oceânicas vendendo cerveja no bar.
Descobri que o segredo para conhecer a galera é estar onde elas todos vão buscar seu refresco de cevada.

No começo do segundo ano da faculdade, a falta de grana crônica já incomodava e era hora de arranjar um
emprego. Meu primeiro trabalho foi como redator de uma pequena agência de publicidade na Vila Mariana,
especializada em anúncios de lançamentos imobiliários. O trabalho era pouco, mas o pagamento também, e
após cerca de dois meses saí de lá para estagiar na própria USP, como repórter da revista eletrônica Espaço
Aberto, destinada aos funcionários da USP. Lá tinha liberdade para fazer reportagens bem elaboradas sobre
assuntos variados, que me permitiu desenvolver meus dotes jornalísticos. Os textos que mais gostava de fazer
eram perfis de personagens ilustres da Universidade. Gostava de ouvir e contar as histórias das pessoas.

Mas o trabalho ainda era tranqüilo. Com periodicidade mensal, a revista me deixava com bastante tempo
livre, que utilizava para baixar músicas na internet, aproveitando a conexão super-rápida da USP. Outra boa
forma de matar o tempo era com os e-groups, grupos de e-mails onde a galera mandava coisas interessantes
da internet, besteiras em geral e combinava as baladas. Havia dois egroups dos veteranos baladeiros, o Painel
Mundrungo, da galera mais velha, os lendários Mundrungos, e o Vamoaê, dos meus veteranos “imediatos”.
Passei a participar ativamente destes e-groups e assim conheci ainda mais gente. “Mas o que é um
mundrungo?”, você me pergunta. Aí vai uma deifinição boa: Mundrungo – malandro sem maldade. Sujeito
em evolução que aceita a condição de filosofar como caminho para se tornar um sabugo Não se importa
com o ter, mas com o ser, busca o lado bom das pessoas. (Extraído da tese de doutorado do polêmico e

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conhecido professor de comunicação digital do CRP e mundrungo himself Luli Radfahrer).9

O termo existe desde meados da década de 1990 e a mundrungagem formou um núcleo duro de amigos,
baladas e contatos profissionais dos mais unidos, e se especializaram, após adquirir muita experiência, em
fazer baladas inesquecíveis. Com o passar do tempo a minha turma foi se incorporando a esse grande grupo
de amigos de várias gerações ecanas. Essa época foi meu auge na boemia. Com um salário razoável do
estágio, tempo livre e disposição de um moleque de vinte anos, saía praticamente todo dia. O roteiro básico
era: Às segundas-feiras, sambinha no extinto KVA, que não cobrava pra entrar. Terça, cerca-frango, claro.
Quarta, “sakezada”, rodízio de saquê no Sacolão da Vila Madalena, geralmente esticando no famoso Ó do
Borogodó. Quinta, quinta i breja, geralmente seguida por alguma outra balada. Sexta, sábado e domingo?
Festas, baladas, churrascos, botecos, etc, etc... Ô época boa...

Não marmotei e fui, pela primeira vez, ao JUCA, que foi realizado na aprazível Guaratinguetá. Nossa, que
legal que foi. Lógico que apesar de não ser da Atlética oficialmente me envolvi na organização da bagunça,
principalmente nas nobres funções de pôr a cerveja para gelar e o som para tocar. E destas duas funções não
larguei nunca mais. Descobri a alegria de proporcionar alegria para os outros através destes dois pilares de
uma boa festa: cerveja sempre gelada e abundante e som sempre bom, tanto no aspecto técnico quanto no
repertório.

Apesar de estar cada vez mais envolvido com os amigos da ECA, ainda andava bastante com alguns velhos
camaradas do colégio. E, vendo que o povo gosta mesmo da boemia e que eu gastava boa parte do que
ganhava naquilo, eu e um desses amigos, o Rafael, começamos a pensar que seria uma boa idéia abrir a nossa
própria balada, ou bar. Isso coincidiu com a tradicional desilusão com a profissão de jornalista que eu estava
sentindo na época. Sobre esse sentimento Hunter Thompson falou muito melhor do que eu jamais
conseguiria:

A única coisa importante a ser dita sobre Medo e Delírio em Las Vegas
neste momento é que foi divertido de escrever, e isso é raro – para mim, ao
menos, porque sempre considerei escrever o mais odioso tipo de trabalho.
Acho que é meio como foder: só é divertido para quem é amador. Putas
velhas não ficam dando risadinhas por aí.

9 RADFAHRER, Luli – Cyrano Digital: a busca por identidade em uma sociedade em transformação São Paulo. ECA-USP.
Tese de Doutorado. 2002
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Nada é divertido quando você precisa fazer aquilo – muitas e muitas vezes,
dia sim e o outro também – para não ser despejado. Com o tempo, enche o
saco. Então é um negócio bem raro um escritor trancado em casa, que
paga aluguel, se meter com um trampo que, em mesmo em retrospecto, foi
uma tiração de sarro fabulosa e enlouquecida do começo ao fim... e ainda
por cima ser pago para escrever esse tipo de enrolação doentia, olha,
parece realmente estranho. É como ser pago para chutar o saco de Spiro
Agnew. (Vice-presidente dos EUA na gestão de Richard Nixon).
(Thompson, 2004)

De fato... estava perdendo o tesão de escrever, e isso é fatal. Minha decepção com o curso também colaborou
para isso, apesar de eu gostar muito de fazer os jornais laboratório e demais matérias práticas, era consenso
que o nível geral do curso estava muito fraco. Ajudou ainda nesse “bode” com o jornalismo um problema que
eu tive no estágio. Ia escrever uma matéria sobre abandono de animais domésticos. Na época havia um
grande problema na ECA. Ali na “prainha”, atrás do prédio principal e ao lado do Espaço de Vivência onde
fica o C.A., há um espaço hexagonal de concreto meio maluco que num passado distante abrigava uma caixa
de força. Naquela época aquele espaço abrigava um canil. Sim, isso mesmo, era pra lá que eram levados os
muitos cachorros abandonados na Cidade Universitária. Ficavam lá presos, amontoados, mijando, cagando,
latindo... Uma velhinha completamente maluca aparecia para dar comida.

Enfim, era uma merda. E com esse fato tão acintoso acontecendo literalmente debaixo do meu nariz, não
tive como não falar sobre o tal canil na minha matéria. E, do alto do meu FARO jornalístico de “foca”,
fiquei sabendo que a secretária da graduação da ECA, a Maria Fernanda, que adorava cachorros, também
tentava ajudar a dar destino à cachorrada do canil. Fui lá entrevistá-la, e quando ela viu a matéria, onde
obviamente eu espinafrava o canil, ficou indignada e pediu minha cabeça pra minha chefe. Não fui
demitido, mas fiquei muito, muito puto com a situação e virei desafeto de quem talvez seja a pessoa mais
importante da faculdade.

Todo jornalista que se preze já caiu numa arapuca destas. Em algum momento você vai acabar pisando no
calo de alguém, e se não tiver como provar o que disse, tá na vala. Dizem que o Paulo Francis morreu de
preocupação depois de ter feito denúncias sobre a Petrobrás que não tinha como provar e ser processado
pela empresa. Bom, mas o fato é que esse acontecimento colaborou para meu azedume com o jornalismo, e
resolvi pular de cabeça naquela idéia de abrir um bar.

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Eu e o Rafael começamos a pesquisar um ponto, e vimos que o local onde funcionava o Sótão, que fez
história na balada da Vila Madalena, no final da rua Mourato Coelho, estava para alugar. Na época meu pai
tinha acabado de perder mais um dos negócios que, empreendedor nato, traço que eu herdei, tinha
começado. Depois que a gráfica fundada pelo meu avô em 1942 tinha falido, em 1994, meu pai tentava
recomeçar a vida. Nada do que tentou foi pra frente. Apesar deste currículo pouco promissor, falei para ele
da idéia do bar e ele também entrou de cabeça.

Alugamos o lugar, só para começar a descobrir o pesadelo kafkiano que é querer abrir um negócio do tipo
em São Paulo. Sem nenhuma experiência ou noção do ramo, batemos cabeça com a reforma do espaço,
compra dos equipamentos, elaboração geral do bar e principalmente com os aspectos burocráticos, como a
obtenção do alvará de funcionamento, mas conseguimos com muito custo, após alguns alarmes falsos e
inaugurações desmarcadas, abrir a porta e começar a funcionar. No começo parecia que a coisa ia rolar.
Graças à grande rede de relacionamento que eu criei na ECA, o bar começou a ser freqüentado por uma
galera bacana, mas os custos de manutenção do local eram muito altos, as exigências da Subprefeitura de
Pinheiros para a obtenção do alvará de funcionamento eram impossíveis de serem cumpridas, e a cada dia
que o bar não enchia, perdíamos todo o dinheiro que tínhamos investido, e após um ano apenas, meu sócio,
que definitivamente não levava jeito para a coisa, quis pular fora não tive como continuar tocando.

Mas eu gostava pra caralho de trabalhar lá, em algo que era meu, e vendo as pessoas se divertirem. Ficava lá
no balcão fazendo caipirinhas, abrindo cervejas, lavando copos, conversando com a galera, botando som na
vitrola, e admirando a freqüência feminina que, para meu orgulho, era de uma graciosidade ímpar. Quando
vi que não ia ter como continuar e tinha perdido um ano ralando em algo que não deu em nada, e perdido
também TODO o dinheiro que eu tinha e não tinha, caí em uma proverbial depressão. Fiquei totalmente sem
rumo. O jeito agora era tentar voltar para o mercado de trabalho e recuperar o tempo perdido na faculdade.
Mergulhei de cabeça no projeto de documentário que nosso grupo, formado por mim, Tristão, Thomaz,
Tato, Crovis e Laura, fizemos, sobre o Largo da Batata, que aliás ficou bem legal.

O bar fechou em julho de 2005. A minha depressão foi aliviada pelo meu time, o São Paulo, ter vencido a
Copa Libertadores daquele ano. Mas continuava sem grana, sem emprego e sem rumo. Em setembro fiquei
sabendo que ia haver o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação, o Enecom, em Maceió. Meu
objetivo se tornou ir pra lá, e fiz uns trambiques pra levantar a grana para a viagem. E que viagem! Só para
chegar foram dois dias dentro do ônibus, atravessando o interior de Minas Gerais e da Bahia.

Lá, foram seis dias de praias paradisíacas e baladas infinitas. No total, dez dias mágicos. A diminuta

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delegação da ECA, que tinha umas quinze pessoas, mais alguns malucos da PUC e do Mackenzie, causou
forte. Entre outras coisas, organizamos uma legendária “oficina de massagem e cafuné”, que ganhou
credibilidade graças ao grande André “Araras”, que havia feito curso de massagem e levou na bagagem uma
cadeira de massagem profissional.

Mas, de volta a São Paulo, a realidade continuava cruel. Consegui alguns trabalhos freelance, mas emprego
fixo que é bom, nada. No final deste ano a Maracangalha e outra república lendária, a Taj Mahal, deixaram
de existir. A última festa da “Maraca” foi um homérico churrasco no térreo do prédio, que só acabou no dia
seguinte, que por acaso ou não foi o dia em que meu tricolor se sagrou tricampeão mundial interclubes ao
vencer o Liverpool.

Só em julho de 2006, providencialmente logo após a Copa do Mundo, que foi mote para mais baladas
homéricas até a desclassificação do Brasil frente à França nas quartas-de-final, consegui um trampo fixo, que
na verdade era uma roubada. Era para fazer clipping e análise de mídia em uma das maiores agências de
Comunicação Empresarial e Assessoria de Imprensa de São Paulo, que tinha clientes de peso e geralmente
com imagem ruim. Era um trabalho de corno, tendo que entrar as 7h da manhã para “dixavar” os jornais e
notícias do dia e elaborar os clippings para os clientes. Esse horário matutino fez estrago no meu corpo
acostumado à noite, afinal não conseguia deixar de ir nas baladas, “virei” várias noites em claro, e olhando
agora parece que naquele ano em que lá trabalhei devo ter envelhecido uns cinco anos.

Neste ano resolvi fazer com o que o Festival Universitário de Música da ECA, o famoso Fumeca, voltasse a
ser realizado, depois de um ano de hiato. Já com a experiência de diversas baladas realizadas, achei que não
ia ter segredo, mas não foi bem assim. Organizar um festival dá muito trabalho, precisa de muita gente na
função, e de tudo o mais foda é lidar com o ego dos músicos que querem todos tocar no melhor horário.
Enfim, essa edição do Fumeca foi caótica, teve vários problemas, mas foi bem divertido. No ano seguinte,
com mais experiência, uma turma maior organizando e maior planejamento, a história foi outra. Fizemos um
baita de um festival onde tudo deu certo e foi elogiado por todos. Curti muito ajudar a produzir um evento tão
legal, e fiquei com gostinho de quero mais.

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Fig. 7 - Cartaz do Woodsteca 2007, feito por
Bruno Procópio

A essa altura já estava fazendo hora extra na ECA, tinha várias matérias atrasadas da época do bar e do ano
que passei no clipping, quando simplesmente não conseguia encarar a aula à noite depois de ter acordado as
6h da madrugada. Nessa época já havia uma outra galera agitando as coisas pela ECA, diferente do que havia
antes. Historicamente, a turma das Artes quase não aparecia nas baladas, mas isso começou a mudar. Uma
molecada nova das Artes Cênicas, das Plásticas e da Música começavam a aparecer. A primeira diferença
visível foi com a tomada do ex-canil, que àquela altura já havia tido os cachorros removidos, mas estava lá
largado e sem uso, quando um bando (matilha?) de malucos, liderados pelo hiperativo Paulinho Fávero,
calouro das Plásticas, resolveram tomar o espaço e transformá-lo em um espaço de divulgação da cultura e
outras coisas legais produzidos pela ECA e outros cantos da USP e do mundo. Assim surgiu o CANIL_ -
Espaço Fluxus de Cultura.

Dessa nova agitação cultural surgiu a Banda do Canil, formada por alunos de Música da ECA (no caso,
música erudita), e da Unicamp. A banda foi formada meio às pressas para se apresentar no ritual de tomada
do Canil, em 04/05/2006 (sacaram o lance da data?) e desde então têm feito apresentações lendárias no Canil,
e estão agora com disco lançado e tocando em diversos lugares, até no Fórum Social Mundial de Belém. O
som que eles fazem é difícil de classificar, podemos dizer que é a improvisação jazzística com influência da

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música brasileira, principalmente na percussão, tocada por estudantes de música erudita, o que realmente não
é pouco. Quem não entendeu pode ouvir no http://www.myspace.com/bandadocanil.

Desde que saí do clipping tenho me virado com frilas, alguns bem legais, outros nem tanto, e tentando fazer
esse presente trabalho e finalmente me formar. Continuo botando meu som nas baladas e gostando da noite,
saio sempre que possível, mas, aos 26 anos e pelo menos dez de boemia intensa, com certeza não agüento
mais as maratonas noturnas de antes.

Neste meio tempo diversos amigos e colegas passaram temporadas fora de São Paulo, fazendo intercâmbio
em diversos países da Europa, indo trabalhar nos Estados Unidos, Europa e até outras cidades do Brasil. Eu
não fui, em parte porque na época e com o dinheiro que geralmente a galera faz isso, eu resolvi investir no
bar... pois é. Permaneci em São Paulo, testemunhando as mudanças que se passaram nessa cidade que eu
adoro, mas que francamente, exige muito da gente. Por isso tenho a convicção que a cidade deve ser o grande
personagem desse trabalho.

Acho ainda que devo a todos que me acompanharam nessa trajetória mostrar esse pedacinho pequeno, porém
importante, da História da Vida Noturna em São Paulo, da qual a USP também é importante. Neste ano em
que a Universidade de São Paulo faz 75 anos e todos falam sobre a imensa contribuição da Universidade na
Ciência, Cultura, Política e Educação do Brasil, creio ser importante mostrar que a contribuição no campo da
cultura se estende também à vida noturna, com os festivais e eventos que são realizados no campus, que
provocam polêmica por não serem exatamente parte integrante do tripé “ensino, cultura e extensão”, embora
proporcionem bastante destes três “pés” aos participantes, e que, como pretendo mostrar, são sim importantes
e há pelo menos três gerações são o que de melhor acontece em São Paulo em matéria de relação custo-
benefício para os boêmios. Essa pequena história da balada na USP será contada no próximo capítulo.

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2.2– A importância da USP na vida noturna underground de São Paulo

“A USP é uma fábrica de transformar mentes brilhantes em salsicha”


(Luizão)

Onde há uma Universidade, há uma cena cultural e boêmia circundante, e isso acontece desde a criação das
primeiras Universidades pelo mundo. A boemia é tão indissociável do ambiente acadêmico quanto a
discussão política, que aliás acontece tanto nas mesas dos bares e eu reuniões em repúblicas estudantis
quanto no próprio ambiente acadêmico.

Em cidades menores onde há grandes universidades instaladas, como Ouro Preto, Viçosa e Alfenas, em
Minas Gerais, São Carlos e Botucatu, no interior de São Paulo, entre outras, a vida noturna está quase
exclusivamente atrelada aos estudantes. Em Campinas, o bairro de Barão Geraldo, onde fica a Unicamp, é o
maior centro boêmio da cidade. Em São Paulo, com todo seu gigantismo, essa relação é diferente, pois a vida
noturna, como outros aspectos da vida urbana, fica muito mais diluída e dividida em diversos nichos. Mas
ainda assim, desde a instalação da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1823, a primeira
faculdade da cidade, se criou uma vida boêmia em torno do ambiente acadêmico.

Com a criação da Universidade de São Paulo, em 1934, e a instalação da sua Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências na rua Maria Antonia, a região da Vila Buarque, onde já existiam o Mackenzie, a Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, a Escola de Sociologia e Política, a Santa Casa e a FAAP, virou o centro da boemia
em São Paulo. Nesta época, entre as décadas de 1940 e 1960, a região foi também um dos centros do debate
político no Brasil.

Desde a década de 1940 existia o projeto da Cidade Universitária, que seria localizada no então distante e
quase rural bairro do Butantã. Com a instalação do regime militar, em 1964, e a radicalização política da
década de 60, que culminou com a “batalha da Maria Antonia”, em 1968, o afastamento de diversos
professores ligados à esquerda e a perseguição aos estudantes ligados aos movimentos esquerdistas, a cena
cultural da Vila Buarque foi dispersada e a maioria dos cursos da USP foi transferida para o cenário bucólico,
porém nada apropriado para a mobilização estudantil, da Cidade Universitária.

Se há uma vantagem no campus da Cidade Universitária, é que, isolado do resto da cidade, pode-se tocar o
puteiro à vontade, pôr o som alto, e fazer o que bem se entender sem criar problemas com a vizinhança, se
não atrapalhar as aulas, claro. Então, desde a década de 1970, o campus da USP é cenário de algumas das
melhores festas, festivais de música, eventos culturais e coisas divertidas em geral da cidade. Em termos de

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relação custo-benefício, certamente as melhores festas da cidade são as realizadas na USP.

É claro que a relação da administração da Universidade com esse tipo de eventos não é sempre harmônica.
Em primeiro lugar, sim, é claro que rolam drogas ilícitas nestas festas, afinal vocês esperavam o que? As
substâncias psicoativas, sejam lícitas ou não, acompanham as festividades desde os primórdios da
civilização, e é mais do que sabido que o grupo demográfico que mais faz uso destas substâncias (e mais faz
festa) são os jovens adultos. E, entre eles, por algum motivo que muitos tentaram explicar, os estudantes
universitários são os que mais consomem.

No entanto, de longe o psicoativo mais consumido nessas festas e em todo o mundo, é o álcool,
principalmente em forma de cerveja. Já se tentou proibir a venda da cerveja dentro do campus, assim como a
de cigarro. Com o cigarro, rolou, mas com a cerveja ninguém pretende acabar. Comprar um maço de cigarros
dentro da Cidade Universitária é missão quase impossível, e se seu maço acabar durante uma festa, o sujeito
tem que ir até a banca de jornais da portaria 1 ou se render ao esporte de filar os cigarros alheios.

Entre os entorpecentes ilícitos o mais utilizado, novamente emulando o mundo lá fora, é a Cannabis Sativa, a
maconha, beck, banza, fumo, enfim, vocês sabem do que eu estou falando. Além de ser a mais comum, é a
mais facilmente reconhecível graças ao peculiar aroma que emana ao ser fumada.

A cocaína tem seu consumo mais difícil de ser reconhecido, mas está lá, principalmente como aditivo nas
festas. Depois do boom de consumo nas décadas de 1980 e 1990, ela saiu de moda, mas ultimamente tem
voltado a ser amplamente utilizada. O lança-perfume, importado da Argentina, onde é legal, chegou a ser tão
popular entre os estudantes que recebeu o nome de “Universitário” no rótulo, mas seu consumo também
parece ter diminuído recentemente, assim como seu equivalente caseiro, o Loló, feito com clorofórmio e
álcool de cereais. Ainda bem, porque seus efeitos são bem zoados e sua toxicidade é alta.

A década de 1990 foi a década do Ecstasy, e seu consumo, após uma diminuição em relação ao pico, se
mantém estável. O LSD, apelidado de “doce”, também está disponível. O problema dessas duas substâncias é
que dificilmente se consegue saber qual realmente é a composição química das pílulas e cartelinhas.
Geralmente, ao invés do MDMA e do LSD-25, substâncias difíceis de serem sintetizadas, elas trazem
anfetamina, substância barata e sem dúvida mais perigosa e menos divertida.

Claro que não é só na USP que se encontra os psicoativos ilícitos, aliás nas faculdades particulares talvez seu
consumo seja ainda maior, mas como estamos falando aqui da boa e velha Universidade de São Paulo...

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(Nota: essas afirmações sobre o uso de psicoativos ilícitos são baseadas apenas na percepção pessoal do
autor enquanto freqüentador das festas, mas elas se encaixam nos dados de pesquisas feitas sobre o
assunto).

O importante, e o que pretendo fazer aqui, é falar não apenas sobre a questão do consumo de drogas, afinal
isso seria uma saída fácil e sensacionalista, mostrando os estudantes como hedonistas irresponsáveis e
entorpecidos, o que aliás é recorrente na imprensa tradicional. Em 2007, uma edição do programa “Repórter
Record” da Rede Record de Televisão, ligada, como vocês sabem, à Igreja Universal do Reino de Deus,
mostrava imagens gravadas com câmeras ocultas de estudantes supostamente fumando maconha no campus.
E a idéia que passava era justamente o reforço do estereótipo do estudante maconheiro irresponsável,
hedonista e entorpecido.

O que quero mostrar neste trabalho é a parte legal (em ambos os sentidos) da coisa: a cultura, a arte, a
música, as idéias, as conexões e as novas formas de se relacionar que têm surgido desta cena noturna
universitária. É mostrar que nós, estudantes, estamos produzindo coisas interessantes. Além de assistir nossas
aulas, batalhar nossos estágios, fazer nossas pesquisas, praticar esportes, temos este outro lado da vida
universitária que é indissociável da academia em si. E aqui, talvez, façamos as coisas mais interessantes.

Um exemplo: abaixo está um texto que publiquei em meu blog sobre uma certa quarta-feira que passei na
USP onde pude ver coisas interessantes, arte, cultura, debates elevados e diversão, quase que por acaso, e que
acabou em uma das extensões da universidade, uma república de um amigo, passando antes pela região da
Vila Madalena, outra extensão da USP. Lá vai:

Ontem poderia ter sido um dia qualquer, como tantos outros em que, buscando
oxigênio e ar livre, saí da frente do micro e fui pra USP admirar o que a cidade
universitária tem a oferecer, na companhia sempre sensacional do Brunoise. E
ontem, por acaso, a USP tinha muito a oferecer. Em grande parte graças à
sempre valente MECA (Mostra Ecana de Cultura e Arte), que tá rolando essa
semana e nos presenteoou com um verdadeiro deleite estético através duma
exposição FODA de Poptic (Pop+ Optic) Art que tá lá no espaço de trás do CJE
(perto da entrada do CRP). já com a retina e o cérebro devidamente deleitados
fomos ver ninguém menos que a BANDA DO CANIL numa apresentação insana
no DCE Ocupado, e putz, que saudade daquele espaço estragueira, se posso
resumir a USP num espaço, é aquele. O João Mion Fideles tá mandando

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insanamente bem na batera, putaqueopariu. Ah, tava esquecendo, antes teve o
Filipera e outro frito da música mandando um THROAT SINGING de dar orgulho
em siberiano, muito foda…

Mas como com o Movimento Estudantil nada é perfeito uma hora acabou a
breja e tivemos que rumar em direção à Cardeal Arcoverde. Brunão
abandonou o barco mas o Lucas, AKA “O último jornalista independente do
Brasil”, foi ótima companhia. Colamos primeiro no bar de Denise e
Dorival, que no dia anterior havia abrigado mais uma edição DANTESCA
da cerca frango, da qual aliás não participei, motivo pelo qual tava inteirão
na bela noite de quarta. Mas a frequência ali tava ainda mais bizarra que o
habitual, apesar da presença sempre deslumbrante da Denise, então
partimos para o Seu Zé, que nos acolheu com a aconchegância de sempre.
Depois de entornar as geladas até o * fazer bico, fomos pra rep do Lucas,
que mostrou a que veio com uma sequência fodíssima de vinis da CTI
Records, só pepita. e da-lhe freddie hubbard, herbie hancock e outros cujo
nome me escapa. E a noite foi coroada com a exibição de uma obra prima
absoluta de WALTER HUGO KHOURI no Canal Brasil, Noite Vazia, de
1964, mindfuck dos brabos, fotografia e trilha sonora impecáveis e NORMA
BENGELL no esplendor de seus vinte e poucos anos.

Capotei no sofá para acordar banhado por esse sol delicioso de outono e um céu
de azul profundo

como diria aquele cara, QUER MAIS O QUE, IRMÃO?!

what a day…10

Dá pra se ter uma boa idéia da coisa, certo? E sinceramente, sem querer puxar a brasa para minha sardinha,
as melhores festas, as melhores bandas, os melhores sons e acontecimentos costumam vir da boa e velha
Escola de Comunicações e Artes, até porque é o que se espera de uma escola de comunicação e arte, que haja
uma cena cultural forte saindo dela. A ECA, desde sua criação, em 1966, juntamente com a Escola de Arte
Dramática (EAD), têm formado personagens importantes das artes e da cultura brasileiras, e muitas vezes

10 http://spladob.wordpress.com/2009/05/14/uma-quarta-feira-qualquer/
50
eles começam a expor sua produção em algum dos eventos estudantis.

No começo da década de 1970, os cartunistas Laerte e Luis Gê, estudantes da ECA e da FAU,
respectivamente, lançaram a lendária revista Balão, mãe de todas as revistas de quadrinhos alternativos que
viriam depois e lançariam alguns dos mais importantes cartunistas brasileiros. Influenciados pelos quadrinhos
underground americanos, principalmente a Zap Comics de Robert Crumb, Laerte e Gê fizeram nove números
da Balão, que eram vendidos nos Centros Acadêmicos, filas de peças de teatro... Ainda antes, Laerte
publicou seus primeiros trabalhos n'A Prensa, órgão do Centro Acadêmico Lupe Cotrim da ECA.

Laerte continuou sua trajetória fazendo cartuns para veículos alternativos como O Pasquim e para o
movimento sindical do final da década de 1970, criou os famosos Piratas do Tietê e outros personagens
marcantes, participou das revistas Chiclete com Banana e Circo, marcos dos quadrinhos nacionais na década
de 1980 e hoje em dia suas tiras, publicadas no jornal Folha de S. Paulo, mergulham em um
experimentalismo fascinante, o que faz dele um dos mas importantes cartunistas do mundo na atualidade.

A tradição dos quadrinistas da ECA continua. Gabriel Bá, que com seu irmão gêmeo Fábio Moon formam a
dupla de desenhistas mais premiadas do Brasil na atualidade, estudou Artes Plásticas na ECA e teve alguns
de seus primeiros trabalhos publicados na tradicional Quadreca, revista editada pelos alunos da disciplina de
Editoração em Histórias em Quadrinhos do curso de Editoração. Bá e Moon, com a revista 10 Pãezinhos11,
adaptações de obras literárias como O Alienista de Machado de Assis, entre outros trabalhos, que foram
publicados nos Estados Unidos, Espanha e Itália e já receberam o mais importante prêmio internacional dos
quadrinhos, o Eisner Awards. Suas tiras, intituladas Quase Nada, são publicadas aos domingos na Folha
Ilustrada.

Mais recentemente, surgiu o coletivo e a revista O Contínuo12, obra dos chapas Rafael Mathé, Alcimar
Frazão, Pedro Felício, Dalton Correa Soares, Pedro Bottino, Carlos T. Lemos e colaboradores. Já saíram sete
edições, e tenho orgulho de ter sediado no meu falecido bar a festa de lançamento da primeira edição da
revista, ocasião que lotou o bar, fez acabar a cerveja e me rendeu de presente uma camiseta d'O Contínuo.
Em 2009 os chapas foram indicados em três categorias do HQMix, principal prêmio dos quadrinhos
nacionais.

11 http://10paezinhos.blog.uol.com.br/

12 http://ocontinuo.blogspot.com/
51
Fig. 8 - Capa da edição nº 6 d'O
Contínuo, desenhada por Fábio
Moon

No campo do Cinema, a produção alternativa brasileira dos últimos 40 anos se confunde com a produção do
antigo curso de Cinema e do atual curso de Audiovisual da ECA. Nomes como Philippe Barcinski, Paulo
Sacramento, José Roberto Torero, Fernando Bonassi, André Klotzel, Alain Fresnot, Maurice Capovilla,
Suzana Amaral e Sergio Bianchi, que formam pelo menos três gerações do cinema underground brasileiro,
estudaram e tiveram seus primeiros trabalhos produzidos na ECA, muitos deles premiados em festivais como
os de Gramado e Brasília.

Recentemente, a animação Dossiê Rê Bordosa, dirigido pelo ex-aluno de cinema e mundrungo César Cabral,
recebeu, entre outros, o prêmio de melhor filme nacional no festival Animamundi e foi amplamente elogiado
pela crítica. Sua produtora, Coala Filmes, produz filmes para comerciais, cinema e TV, e seu trabalho de
conclusão de curso, Shpluph, é baseado na obra Os Palhaços Mudos, de Laerte.

E, enquanto escrevia essas linhas (dia 19 de maio de 2009, especificamente), recebo a notícia de que o filme
Espalhadas pelo Ar, trabalho de conclusão de curso da aluna de Audiovisual Vera Egito, foi exibido com
destaque na mostra paralela do Festival de Cannes “Semana da Crítica”, organizada desde 1962 pelo
Sindicato Francês dos Críticos de Cinema, que premia jovens cineastas promissores. Como vocês podem ver,
neste campo também a produção cultural ecana continua importante.

Em outras mídias a produção audiovisual atual também tem se destacado. Os chapas que criaram a produtora

52
Massa Real, Angelo Ravazi, Arthur Warren, Júlio Taubken e Pedro Arantes, além de filmes muito bons,
como A Guerra de Arturo e Honra Lavada com Sangue, fizeram o antológico programa de TV Videodroga e
hoje produzem o excelente quadro Massaroca, exibido pelo programa Metropolis da TV Cultura.

Marcelo Tas, apesar de ter se formado em Engenharia na Poli, cursou (mas não se formou) Rádio e TV na
ECA, época em que criou o antológico personagem Ernesto Varela, em parceria com Fernando Meirelles. O
humorista Marco Bianchi, do Rock Gol da MTV, estudou Rádio e TV e começou, com os amigos Paulo
Bonfá e Felipe Xavier, o grande programa Sobrinhos do Atahyde, na Rádio USP. Os mundrungos mais
velhos lembram de Bianchi comentando com a hilaridade de sempre partidas de pebolim no C.A. O curso de
Rádio e TV produziu ainda programas independentes antológicos como o Cid não tem pernas, Hirros de
Tchê e o personagem Sombrero Luminoso.

Na literatura podemos lembrar, além do já citado José Roberto Torero, Marcelo Rubens Paiva, que fez parte
da lendária turma de 1985, junto com nomes como Paulo Ricardo (ele mesmo) e Claúdio Julio Tognolli,
entre outros. Nas Artes Plásticas, Artes Cênicas e Música também não são poucos os nomes revelados na
ECA, e no campo musical diversas bandas da cena independente paulistana fizeram suas primeiras
apresentações nas festas e festivais ecanos.

O Festival Universitário de Música da ECA, criado em 1994, revelou bandas como Maybees, Ecos Falsos,
Multiplex e mais recentemente a Banda do Canil, entre outras. O Ecos Falsos, liderado pelo meu veterano do
Jornalismo Gustavo Martins e com meu brother e também veterano Denis von Brasche como produtor, tocou
na edição de 2004 no Fumeca, e hoje é uma das mais destacadas bandas do circuito independente paulistano,
com disco lançado pela gravadora Monstro Discos.

A Banda do Canil merece uma atenção especial. Sua proposta musical talvez seja única no Brasil. Formada
de modo despretensioso por Zé Motta, Henrique Gomide, João Fideles e os gêmeos Kiko e Ed Woiski,
estudantes dos cursos de Música da ECA e da Unicamp, suas apresentações já se tornaram lenda pela alta
qualidade de suas viagens baseadas na improvisação do Jazz ,influências da percussão afrobrasileira e a fina
flor da boa música brasileira e vanguardas musicais do mundo e pela catarse que provoca em suas
apresentações que as vezes se prolongam por mais de quatro horas e quase botam abaixo a estrutura do canil.

53
Fig. 9 - Banda do Canil em ação no Canil_ - Espaço Fluxus de
Cultura

Outra lendária banda ecana são os Lisérgicos Românticos, apelidada de “A Maior Banda do Mundo”. De
formação mutante e apresentações bissextas, os Lisérgicos são o braço musical da mundrungagem. A
“formação clássica” dos Lisérgicos, por assim dizer, é Sapo no vocal, Mau “Guitar” na guitarra, Pé na Cova
no baixo e na batera, quem estiver disposto. No último show, na mais recente edição do Woodsteca, quem
assumiu as baquetas foi o incansável baterista da Banda do Canil João Fideles. Teve um show inesquecível
em uma Quinta i Breja organizada pela galera do Vamoaê onde ninguém menos que JANIS JOPLIN (ou
alguém que recebeu seu espírito) entrou para cantar de forma impecável. Mas por que “Maior Banda do
Mundo”? Porque é tradição todos os amigos da banda (e são muitos) subirem no palco para fazer backing
vocal nas músicas, dançar, enfim... No cardápio musical da banda, lisergia, é claro. Mutantes, Novos
Baianos, Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Tim Maia, Jorge Ben, e as
composições próprias: “Agora estou ouvindo Mutantes” e “Ando pirando muito”.

Todos os anos, na semana de recepção aos bixos, rola a palestra de ex-ecanos ilustres, dos quais vários dos
citados acima já compareceram. Acho engraçado que a grande maioria deles ou não se formou, ou demorou
bem mais do que o normal para terminar o curso. Isso me deixa um pouco mais sossegado em relação aos
longos sete anos e meio que levei para fazer meu curso...

Tanto quanto o currículo de muitos de seus ex-alunos e sua produção cultural, além da fama frente às outras
unidades da USP, inerente a uma escola de comunicação e arte, de ser o lugar onde menos se estuda na
Universidade, outro traço inusitado da ECA é sua propriedade de ser um verdadeiro “ímã” de excêntricos,
malucos, fritos, doidões e desajustados em geral, que encontram em seu bucólico espaço o habitat natural.

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Várias gerações destes personagens peculiares já passaram pela Prainha e demais espaços da nossa escola. Os
mais antigos lembram do Profeta das cores, do Piauí, do Cássio, entre muitos outros cujo nome se perde na
memória.

Mas ouso dizer que nenhum ficou tanto tempo ou causou tanto quanto o atual, que faz do Espaço de
Vivência, do Canil e da Prainha sua morada há pelo menos quatro anos e diz se chamar Gautier, Gautiê,
Galtiê, enfim. Sua piração lhe diz que a ECA é um castelo do qual, ele, obviamente, é o dono e senhor. Os
alunos, professores, funcionários, seriam, portanto, seus servos. Ele se notabiliza por evitar tomar banho e
passar o dia pedindo cigarro ou um “pega” de roda em roda, mas tentar conversar com ele é trabalho para
alguém com pelo menos dez anos de estudo e doutorado em psicologia. Coisa que, obviamente, ninguém que
tem que conviver com ele possui, o que gera uma série de problemas e mal-estar geral.

Mas é claro que não dá pra simplesmente expulsá-lo, parar de dar coisas, alimentar ou, imagine, usar de
violência física contra ele, apesar de suas constantes ameaças (nunca concretizadas) de usar de violência
física contra os outros. Para pessoas esclarecidas, estudantes, intelectuais, não se admite usar esses
expedientes bárbaros. Deve ser por isso que o Gautiê gosta daqui, imagino que na Poli ou na Medicina ele
não seria tratado com tanta cortesia...

Enfim, este é apenas um exemplo de como essa Escola é insólita, e um dia alguém com muita paciência vai
conseguir tirar algo do Gautiê e fazer um novo O segredo de Joe Gould, mas com certeza não será eu... Um
pesquisador da Psicologia e Psiquatria, também com muita paciência, certamente faria uma bela tese sobre o
peculiar estado mental do Gautiê, cujo traço mais incômodo é essa nóia de propriedade que diz que ele é o
dono do “castelo” ECA. Já eu imagino o que deve ter no solo do terreno da ECA que atrai estes malucos para
cá, e creio que haja uma relação entre essa eferverscência artístico-cultural e o poder de atração para os
loucões deste mundo.

Cabe aqui um breve histórico sobre esse espaço tão único, que remonto por relatos de pessoas mais velhas
como o grande Luizão, que trabalha na USP há exatos vinte anos, e por minha própria experiência de
freqüentador assíduo do local desde 2002.

O Centro Acadêmico Lupe Cotrim, que está também fazendo 40 anos, antes ficava localizado no Bloco C da
ECA, onde hoje, após demorada reforma, fica o Departamento de Audiovisual. O “C.A. Vecchio”, como é
carinhosamente chamado pelos mundrungos véios, foi palco de diversas lendas, em baladas abençoadas pela
pintura psicodélica de Jimi Hendrix na parede.

55
Ficou famosa a história do grupo punk que ganhou as eleições para o C.A, que era dominado há mais de dez
anos pela famosa Libelu, lá naquela época louca de meados dos anos 80, com a proposta de dar uma festa
com a grana que tinha em caixa, e depois fechar o Centro Acadêmico e jogar a chave fora, o que transformou
o Espaço do C.A em morada para punks sujos, drogados e, bem, vocês sabem... eram os anos 80.
Eventualmente os punks sujos foram expulsos e os alunos voltaram a ocupar o espaço. Mas, olhando por alto,
alguns nem perceberam a diferença, porque naquela época a coisa era feia por lá, com a cocaína comendo
solta.

Em 1994, por exemplo, o aluno de Jornalismo Felipe Miura fez seu Trabalho de Conclusão de Curso,
belamente intitulado Alma em Pó, sobre sua experiência com a branquinha. Quando falava para o ilustre Luiz
sobre meu trabalho, ele não titubeou: “Lê o Alma em Pó, do Felipão”. Foi o que fiz, e realmente o trabalho é
uma seca e real narrativa sobre o que é ser viciado nessa que é talvez a droga mais careta de todas. O uso da
cocaína caiu bastante em relação àqueles dias, mas não é difícil perceber, nas festas da ECA e em várias
outras baladas “descoladas” de São Paulo, que ela ainda está por aí.

Início da década de 1990, com o bode da eleição de Collor e o confisco das poupanças, o clima era meio
deprimente, sentimento que começou a mudar com o movimento para o Impeachment do presidente. Lá no
princípio dos anos 90 o ilustre e finado Marcelo “Lobão”, ex-aluno de Rádio e TV e funcionário da Rádio
USP, dominava o som que rolava no C.A, e com uma dieta musical ortodoxa, formada basicamente por
muito Jimi Hendrix e Mutantes, catequizou os novos alunos que acabaram formando o “núcleo duro” da
Mundrungagem, com as turmas que entraram entre 1994 e 1998, principalmente a de 1997, considerada pelo
oráculo Luiz a mais louca de todos os tempos.

Dessa época datam mundrungos históricos como Caco, Sapo, Haroldo, Gabão, Amauri, os irmãos Mauricio e
Daniel Grilli, Mau Araújo, Lobs (o outro “Lobão”, um dos fundadores da agência ECA Jr.), Pé na Cova,
Vina Segalla, Modesto, Tibúrcio, Carlos Lunetta e outros ilustres cabeludos, ou não, que mantiveram vivo o
espírito hippie cósmico na década do neoliberalismo e da música eletrônica. É lendária a história de uns caras
do Cinema que queriam fazer uma rave de música eletrônica no C.A e foram prontamente impedidos pela
ortodoxia mundrunga. Dessa turma a ala feminina também era representativa. Giu Tatini, Fê Querida,
Renatinha e Phydia, entre outras, traziam graça, suavidade e inteligência, claro, ao ambiente dos cabeludos.

Essa turma criou termos de gíria próprios, que foram compilados por Luli Radfahrer em sua tese sobre novas
linguagens, como exemplo de linguagem própria de uma subcultura.

Mundrungo - malandro sem maldade. Sujeito em evolução que aceita a condição


56
de filosofar como caminho para se tornar um sabugo. Não se importa com o ter,
mas com o ser, busca o lado bom das pessoas;

Sabugo - sábio, mestre. Mundrungo que atinge o grau de perfeição e passa a


viver em sintonia plena com a Consciência Cósmica, já no plano da unidade
universal de existência (sic);

Marmota - ser primitivo, de visão estreita, do qual o mundrungo teria evoluído;

Marmotagem - ato ou efeito do marmota. Ação equivocada em relação a seu


objetivo original. Uma marmotagem causa ou é efeito de um azeite;

Azeite - algo desagradável, difícil, ruim, embaraçoso. Uma situação marmota,


pessoas marmotas ou uma marmotagem, mesmo que involuntária, são exemplos;

Sabose - energia sabuga, que leva à sabugagem, que, por sua vez é o equivalente
de “sabedoria”;

Marmose - o oposto de sabose;

Sabugagem, sabuguice - fazer algo muito bem feito ou com um efeito resultante
muito bom, irrepreensível. Um exemplo de sabuguice máxima seria o indivíduo
sair-se bem de uma situação sem denegrir, incomodar ou ferir outras pessoas.
Assim o fazendo, ele estaria sabugando harmoniosamente (sic);

Ôia - “energia” intrínseca ao ser humano. Se for uma ôia brava, é uma forma
ruim, pesada e opressora desta mesma energia;

Milonga - conversa fiada sem objetivo definido, “filosofia de boteco” em que o


raciocínio é cíclico e não se chega a lugar algum; “conversa para boi dormir”;

57
Gorpinho - flertar com alguém, “passar uma cantada”, ou xavecar uma mina,
dar um chamego, um vem-cá-minha-nega, uma mordiscadinha na orelha, um
olhar mostrando que tá a fim, uma mãozinha no lugar certo etc (sic); e

Pata Imunda, Pata - aplicar o gorpinho nas(nos) namoradas(dos) dos outros.


(Radfahrer, 2002)

Um termo que eu acho muito bom mas não consta deste glossário é Midá Midá. Sabe aquele cara que só cola
pra pedir coisa? “Irmão, tem um cigarro pra arranjar?” “Brother, rola dar um pega?” Aquele cara que chega
quando tá todo mundo bebendo, pega a cerveja e sai fora sem pagar? Isso, meus amigos, é um midá-midá. O
que qualifica uma pessoa como midá-midá é nem tanto o fato de consumir coisas sem pagar, mas a atitude ao
fazê-lo. É basicamente pegar as coisas sem oferecer nada em troca. Se você por acaso tá sem grana (como
aconteceu comigo tantas vezes, principalmente depois que o fracasso do bar detonou minha vida financeira),
tem que ter algo para oferecer. Se oferecer para ir buscar a cerveja, pôr pra gelar, pôr o som, agilizar alguma
coisa, e ser sincero. Dentro da hierarquia mundrunga, o Midá-Midá rivaliza com o Pata Imunda como a mais
baixa forma de existência, superando inclusive o Marmota.

Quando entrei na ECA os mundrungos eram os veteranos lendários, e me senti transportado para os anos 70
ao ver aqueles cabeludos por lá. Com o passar do tempo e das baladas, acabei tornando-me grande amigo de
muitos. Mas a essa altura a influência da cultura mundrunga na ECA havia se diluído um pouco. A
convivência da nossa turma com estes mundrungos velhos ajudou a “manter a chama acesa”, por assim dizer.
A identificação entre os “velhinhos” e o sangue novo foi total.

No ano anterior, 2001, considerado um dos mais “zicados” da História da ECA, o C.A foi desalojado do
bloco C para a construção do novo CTR, sendo transferido para o espaço atrás do prédio principal, onde
antigamente funcionava o restaurante VG (ou Vegê).

Até então, os espaços de convívio dos estudantes eram o entorno no Bloco C e o espaço arborizado entre a
ECA e a Psico, onde ficava a lendária árvore rosa. Quando tentaram fazer um estacionamento naquele
espaço, os estudantes ocuparam as árvores, e uma delas, a mais propícia para se subir, foi pintada de rosa em
protesto. As árvores estão lá até hoje, mas ninguém mais freqüenta ali. A prainha, que até então era um
espaço meio abandonado, foi ocupada como espaço de convívio com a transferência do C.A, mas a adaptação
foi difícil.

58
Em primeiro lugar, ficou muito afastado fisicamente dos prédios das artes, o que conseqüentemente fez com
que os artistas não comparecessem ao novo espaço. Vocês devem pensar, “pô, mas é só andar um
pouquinho”. Pois é, mas o fato é que, como dito no capítulo anterior, demorou pra galera artística descobrir
as possibilidades divertidas da prainha. E, também como dito anteriormente, o Canil, e seus cachorros latindo
e exalando odores nada agradáveis, contribuía para tornar o local um tanto inóspito.

Foi em 2001 que o prédio principal da ECA pegou fogo, destruindo materiais de valor inestimável, como
filmes, gravações de programas de TV e novelas antigos e outras obras das quais só a ECA tinha registro.
Quando vi a notícia, estava estudando para o vestibular e pensei “então é pra isso que eu quero ir?”.

Outra diferença fundamental: no C.A antigo, a lanchonete, de propriedade da brava lusitana Dona Hermínia,
vendia cerveja de garrafa, era praticamente um boteco mesmo. Era o happy hour da USP. Todos os fins de
tarde ficava lotado de gente bebendo e fazendo otras cositas más. Segundo o Luizão “depois das 21h não
tinha mais comunicação, a galera já tava tudo além”. Era uma putaria, enfim. Luizão lembra de uma história
exemplar. “Tinha época que o falecido Lobão e o Sálvio Santana, que também já morreu e também trampava
na Rádio USP, pegavam pesado. Eles ficavam na sala da rádio no prédio da Antiga Reitoria e “pescavam” as
garrafas de cerveja por uma cordinha. Esquema de cadeia mesmo. Teve uma vez que eles ficaram tão loucos
que começaram a jogar vinis e CD's pela janela.” Sentiram o drama?

Na mesma época que o C.A foi transferido pra prainha proibiu-se a venda de cerveja na USP. Nos primeiros
meses a regra foi seguida à risca, pelo menos pela Dona Hermínia, e por um curto tempo a lei seca assolou a
ECA. Meu grande amigo Daniel Carvalho ganhou o apelido de “Nóia” nesta época, ao liderar protestos
contra essa proibição. E foi justamente ali que surgiu a idéia da Quinta i Breja, para suprir essa sede
reprimida e ao mesmo tempo ser um espaço de integração e divulgação da produção cultural dos alunos.

Quando começou a Quinta i Breja, eram vendidas cerca de 30 caixas de cerveja por noite, só colava o pessoal
da ECA mais ligado ao C.A e à Atlética, era bem low profile a coisa. Mas rapidamente o negócio foi
crescendo. 50 caixas, 70, 100, 150, 200... Hoje em dia uma QiB “normal” vende impressionantes 500 caixas
de cerveja por noite, e se tornou a principal fonte de financiamento tanto do C.A quanto da Atlética e de
outros grupos que pegam uma QiB para organizar, como os organizadores da Semana de Audiovisual, grupos
das Artes Plásticas e Cênicas, Movimentos como o do Passe Livre, entre outros. A QiB hoje é referência em
toda a USP, vem gente até do Direito para conhecer esse evento tão divertido. Pode-se dizer que a QiB deu
certo até demais, e se não tivesse rolado lá atrás a mudança do C.A e a proibição da cerveja, ela talvez nunca
teria começado.

59
Fig. 10 - Cartaz da QiB "Vamoaê pra Plutão", feito por Bruno Procópio

E posso dizer que nossa turma se esforçou de verdade para manter acesa a chama da agitação cultural-boêmia
da ECA. Inventamos festas, como a Outubrounada, onde eu discotequei várias vezes e os camaradas do
restaurante argentino trabalharam como barmen. Outra festa lendária foi a Melindrosa, festa a fantasia
lançada pelos empreendedores baladeiros Erick Roza e Rafa Mantarro. Fizemos a “Marcianos”, festa dos
aniversariantes do mês de março, que tradicionalmente rola num sabadão a tarde na prainha com churrascão,
caneca de chopp, futebol no gramado da prainha e “papelões” generalizados. E, sejamos sinceros, a
finalidade das festas é mesmo a diversão. A cena cultural que se formou em torno disto é conseqüência.

Fig. 11- Flyer da quarta edição da


Festa do Vamoaê

60
Como dito no começo deste trabalho, essa turma realmente gosta de fazer festa. Os tradicionais aniversários,
as inevitáveis despedidas e boas-vindas de quem se aventura pelo mundo, as comemorações de futebol, e até
os casamentos, não são suficientes, o que faz a gente inventar novas festas, apenas pelo intuito de fazer festa,
como a já tradicional “Festa do Vamoaê”, que vai para sua quarta edição neste ano. Aliás, até os casamentos
nós gostamos de organizar. Quando meu grande brother Tristão casou com a gente finíssima francesa
Marion, que ele conheceu no intercâmbio em Portugal, nós organizamos a festa, na república onde eles
moravam, a lendária Dasloo Butantã, e a festa, apesar das restrições orçamentárias, não fez feio. No
casamento dos chapas Diogão e Emília e Fê Assad e Maíra, também, houve o dedo da organização
mundrunga/vamoaê, e eu inclusive pus som em ambas, para meu grande prazer. Sobre a bela festa do Fê e
Maíra eu escrevi algo que acho pertinente a esse trabalho, que coloquei no meu blog:

São Paulo é a Terra Prometida?

Ontem de madruga, um tanto breaco, assisti o Valsa com Bashir. Filmasso,


pelo que consigo me lembrar. A treta lá na tal Terra Santa é forte mesmo…
O mais foda é que os caras são ‘brimos’ mesmo, tudo mesma etnia, naquele
espaço que não deve ser maior que o Rio e Espirito Santo juntos, aquele
desertão.. o que será que tem naquele lugar pra deixar as pessoas tão
noiadas?!

aí pensei no casamento do meu querido amigo fernando assad, o fê, ou


tunico, gente finíssima representante dos ASSAD que se vc mencionar na
Síria são os caras que mandam lá. Enfim, o cara é um turco do caraio
(heheh). Mas nasceu em São Paulo, essa terra verdadeiramente abençoada
onde tanto os síros, libaneses, turcos, árabes, palstinos, até uns irquianos, e
uma pá de armênios, veio ganhar a vida e se deram bem, assim como alguns
poucos judeus que tb se deram muito bem, diga-se de passagem. Sugiro um
rolê no Bom Retiro pra ver do que eu estou falando.

Enfim, no casório do fê, com uma carioca também gente finíssima, pós-
moderno, politicamente correto, sustentável, rolou um belo ECUMENISMO
onde teve espaço pruma bela cerimônia hebraica, umas danças de roda afro

61
mutcholocas e um churrascão de carneiro roots, além de um inesquecível
momento DJ PAULADA, me senti realmente abençoado por essa terra, que
é violenta sim, tem vários problemas, desigualdade, sim, mas enfim, aqui as
pessoas tem coisa melhor pra fazer do que ficar se matando por um
pedaçinho de chão (embora hajam alguns noias que ainda acham isso legal)

como diria aquele cara, all you need is love, my friends…

ah, e o filme é sobre o massacre de Sabra e Shatila, dois campos de


refugiados palestinos no Líbano, massacre feito por tropas libanesas cristãs,
não judeus portanto, mas os israelenses fizeram uma bela vista grossa pro
caso…13

Esta cena cultural baladeira da ECA é um dos exemplos de como a vida noturna e as festas são importantes
na cultura de um lugar, de uma cidade. E essa cena em específico se espalha para além do muro da Cidade
Universitária. Exemplo disto são os bairros da Vila Madalena, Vila Pompeia, Butantã, Morro do Querosene,
Vila Gomes, entre outros, onde, pela proximidade com a Cidade Universitária, muitos estudantes formaram
Repúblicas, moram professores e funcionários, e se criou uma cena cultural subjacente. A Vila Madalena é o
exemplo mais claro disto, e ela própria tem se transformado no tempo recente. Vamos analisar este bairro,
sua cena e suas transformações no próximo capítulo.

(Update) Enquanto escrevia este capítulo recebi duas notícias potencialmente mortais para esta querida cena
ecana. A primeira é a reforma da ECA, que já teve a verba aprovada e prevê a construção de um novo prédio
no espaço da prainha. A segunda é a sanção pelo governador José Serra de um projeto de lei que proíbe a
venda de bebidas alcoólicas nas faculdades e universidades do estado de São Paulo.

Pois é... A coisa não tá fácil. A proposta de reforma da ECA se encaixa na percepção de que os espaços
estudantis da USP estão desaparecendo, como evidenciado pela “reforma” dos espaços de vivência da FEA e
das Ciências Sociais, entre outros. Não é preciso muita reflexão para perceber que a idéia é cada vez mais
formar apenas estudantes para o mercado de trabalho, eliminando esse traço tão importante da vida
universitária que é a convivência através das festas e eventos, e ignorando a produção cultural e artística que
surge nesses espaços de convívio.

13 http://spladob.wordpress.com/2009/05/17/sao-paulo-e-a-terra-prometida/
62
Mas já há um movimento entre os atuais estudantes da ECA, com a participação minha e de outros veteranos,
para evitar que isso acabe com o que a nossa faculdade tem de mais interessante. Em relação à construção do
prédio novo a missão é menos difícil, é preciso apenas garantir que essa área verde e aberta de convivência e
produção cultural chamada de Prainha seja preservada nesta reforma. Quanto à proibição do álcool, o buraco
é mais embaixo, mas como dito anteriormente, a USP já tem uma norma que prevê essa proibição e é
solenemente ignorada. Veremos o que o futuro nos reserva... Ou reserva para quem está entrando agora na
Universidade, que pode não usufruir destas coisas fantásticas que eu e meus colegas contemporâneos
viveram.

63
2.3 - Vila Madalena: elitização e “sambificação”?

“Blitz, conto de fadas, eu só acredito vendo, na Vila Madalena, a gente vai


bebendo!” (Trecho da marchinha do Cordão Carnavalesco Confraria
do Pasmado, versão 2009)

A Vila Madalena e suas “irmãs”, Vila Beatriz e Vila Ida, foram realmente batizadas em homenagem a três
irmãs. Beatriz, Ida e Madalena eram as filhas do português Gonçalo, que loteou o sítio do Rio Verde, área
de colinas, cortada pelo Rio Verde, na década de 1910. Nos primeiros anos, a região, então afastada do
centro, e com ruas de terra, que viravam cachoeiras de lama na época de chuvas, atraiu imigrantes
portugueses pobres, muitos dos quais trabalharam na construção do Cemitério São Paulo. Barracos de
madeira e cortiços eram comuns, mas havia casas de alvenaria onde moravam os portugueses mais “bem de
vida”, a maioria comerciantes.

Talvez a característica mais marcante da Vila, junto com as ladeiras, são os nomes peculiares de suas ruas,
como Wisard, Aspicuelta, Fidalga, Harmonia, Girassol, Purpurina, Simpatia, Rodésia... Diz-se que os nomes
foram sugestão de estudantes anarquistas, já que o tal Gonçalo não queria manter a tradição de batizar as
ruas com nomes de autoridades. Isto seria amostra do espírito irreverente da Vila, antes mesmo dela ser
tomada por hordas de estudantes hippies.

O que ocorreu no início da década de 1970. A maioria dos cursos da USP havia sido transferida para o
campus da Cidade Universitária. Com o recrudescimento do regime militar, após a promulgação do AI-5,
em 1968, começou uma verdadeira caça aos elementos “subversivos” no movimento estudantil. Nesta época
houve a invasão pela polícia do CRUSP (Conjunto Residencial da USP). Boa parte dos estudantes, muitos
influenciados pela contracultura e pelo movimento hippie, escolheram a Vila Madalena, próxima da USP e
com aluguéis baixos, para morar. As casas dos portugueses muitas vezes tinham edículas nos fundos, e os
velhos habitantes as alugavam aos exóticos estudantes cabeludos a preços módicos14.

Entre estes portugueses estava o seu Antonio, pai do Silvio, que casou com a Irene, filha do Leonardo, irmão
do meu avô Nelson, todos portugas da gema. Seu Antonio morava numa destas casas, na rua Harmonia.
Após casar, Silvio e Irene moraram nesta casa. Minha mãe lembra de quando criança ir lá brincar com as
primas, e lembra que a Vila “era um sossego só, nada a ver com hoje em dia. Era residencial, só casinhas,
sobrados...”

14 http://www.vilamada.com.br/conteudo/historia.html
64
A Vila era uma “quebrada”, um bairro periférico, e lá ficava, na baixada localizada no final das ruas Fidalga
e Fradique Coutinho, a favela do Mangue, que com o passar do tempo e com a profusão de malucos,
chapados e fritos que foram atraídos para o bairro, se tornou uma das “bocas” de drogas mais quentes da
cidade. De lá surgiu para a fama Rogério Dias de Simone, o Gegê do Mangue 15, um dos líderes da facção
criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC.

Nesta época já existia a Mercearia São Pedro, inaugurada, pelo comerciante de origem síria Pedro Benuthe,
em 1968, na rua Rodésia, parte mais alta do bairro. No começo era uma mercearia mesmo, que vendia de
tudo. Com o passar dos anos a “Merça” virou um dos pontos mais representativos da Vila. A transformação
da Vila num bairro “cool”, fez com que o Mercearia virasse point de escritores, jornalistas e intelectuais
boêmios em geral. Além de continuar vendendo coisas como sabão em pó e pasta para limpar graxa das
mãos, virou livraria, com um dos melhores acervos de livros da cidade, batendo várias livrarias “de
verdade”, locadora de vídeos e um dos bares mais concorridos da Vila, vendendo cerveja em quantidades
industriais, várias marcas de cachaças artesanais e ótimas porções e sanduíches. Lota toda noite de um
pessoal pra lá de animado que discute aos gritos sobre futebol, política, cinema, arte, música, literatura,
tornando as vezes o ambiente um tanto desesperador para quem gosta de beber sossegadamente. Depois que
foi considerado o melhor boteco da cidade pelo guia “Comer e Beber” da Veja São Paulo, então, virou um
inferno. Volta e meia acontece lá algum lançamento de livro. Se este trabalho um dia virar um livro, seria
apropriado que ele fosse lançado lá, não acham?

Na mesma época que surgiu a Merça, abriu o lendário Sujinho, botequinho pra lá de simples que foi o
primeiro do bairro a ficar aberto até altas horas da madrugada, localizado na esquina das ruas Mourato
Coelho e Wisard. Logo o Sujinho virou o point dos cabeludos, artistas, músicos e estudantes que moravam
na região. Figuras como Raul Seixas, Almir Sater, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé e os Novos Baianos
Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor eram presenças constantes no surrado balcão de fórmica do bar.
Quando vi que o Sujinho fechou e foi reformado, ficando “limpinho”, senti que simbolicamente a velha Vila
Madalena deixava de existir.

O Empanadas, fundado em 1980 por sócios chilenos e argentinos, saídos das ditaduras nos seus países, virou
reduto de cineastas “udigrúdi”e intelectuais de esquerda, que discutiam interminavelmente sobre a
revolução, política e cinema em suas mesinhas de ferro, entornando cerveja gelada e beliscando as famosas
empanadas que dão nome ao lugar. Hoje, o bar, administrado por ex-funcionários nordestinos, continua
enchendo de gente, e já foi ampliado duas vezes para abrigar as hordas de sedentos.

15 http://alertabrasiltextos.blogspot.com/2006/07/geg-do-mangue.html
65
Até meados da década de 1990, esses bares e alguns poucos outros, como o Jacaré Grill, o tradicional Filial,
freqüentado por um público mais velho, o Batidão da Mourato e o Radiola São Luís, e as festas nas
repúblicas e casas da região, resumiam a balada no bairro, que ainda era tranqüilo como lembrado pela
minha mamma. Mas então aconteceu o inevitável: o grande público descobriu o charme do bairro, que era
justamente esta despretensão e despojamento.

Lá por 1998 eu comecei a dar meus rolês noturnos pela Vila. Essa época foi talvez o auge da popularidade
do bairro como destino boêmio de malucos de todos os tipos. Hippies, metaleiros, punks, rappers, manos,
rastafaris, intelectuais, e também pessoas aparentemente normais, apinhavam as ruas do bairro, os barzinhos,
botecos e clubes. Naqueles tempos, a Vila Madá era Rock and Roll na veia. Os bares e clubes como Torre do
Dr. Zero, Alternative, Vila Rock, Matrix, Borracharia, Jungle, Sótão, Brancaleone e o lendário Britty Bar,
entre outros, davam o tom de guitarras pesadas e as perenes filas de “noinhas” no banheiro.

Entre os botecos, que ficavam abertos e lotados de gente até o amanhecer nas madrugadas de sexta e sábado,
eu freqüentava os obrigatórios Real, Copo a Copo, Bar do Meio e Frangrill, o famoso “Toldo Azul”, todos
na Cardeal Arcoverde, entre a Mourato e a Simão Álvares, além da padaria 24 horas da esquina da Fradique
com a Cardeal, apelidada de “Fradroga”, onde os mundrungos véios, que moravam na mitológica república
Furacão, que ficava a poucos metros dali, batiam ponto. Para matar a “larica”, a melhor pedida era o Trailer
do Hervi. O Hervi, no mesmo local desde 1997, está lá até hoje, mantendo vivo o espírito daqueles tempos.
Os sandubas naturais, de frango, berinjela e pasta de queijos, feitos no pão de ervas caseiro, continuam
sensacionais, assim como os menos saudáveis, mas também deliciosos lanches de calabresa e filé de frango
na chapa, além do saborosíssimo de carne desfiada.

Isso sem falar nas próprias ruas, onde ambulantes vendiam goró, hippies vendiam artesanato e a marofa de
maconha rolava solta. Lembro de uma noite em particular, em que eu ia numa festa num lugar lá no fim da
Fradique, perto da Purpurina. Com pouco dinheiro no bolso, resolvi investir numa garrafa de Catuaba
comprada no Pão de Açúcar da esquina da Teodoro Sampaio com a Mourato. Subindo a Mourato cheia de
hippies e rastas chapando, uma mina hippie, aliás segundo minha memória bem ajeitadinha, pede um pouco
da Catuaba e me oferece em troca um cordãozinho de pescoço com uma pedra, que guardo até hoje.

Mas isso é o passado. Recentemente, ao dar um rolezinho noturno na Vila numa noite de sexta-feira, como
havia feito tantas vezes antes, senti uma grande diferença em relação aos meus primeiros anos de boemia na
Vila Madá. Até escrevi no blog a respeito:

66
A Vila Madalena Acabou?

Noite de sexta-feira, tempo agradável, perfeito para ir pra rua curtir o que
São Paulo tem de melhor, a vida noturna. Ou melhor dizendo, o que tinha
de melhor. Pelo menos na Vila Madalena, o bairro sinônimo de balada ao
ar livre, o que eu vi na noite de sexta foi no mínimo melancólico.

Quando comecei a sair de balada, lá pelos idos de 98, a Vila era um


verdadeiro caos noturno (no bom e no mau sentido). Saía de busão lá do Jd.
Monte Kemel com 10 reais no bolso e dava pra passar a noite tomando
umas e jogando conversa fora nos botecos da Cardeal, com direito a
queimar unzinho sem ser incomodado e ainda matar a larica no trailer do
Hervi. E eu não era o único. As ruas, Cardeal, Mourato, Fradique, Wisard,
Aspicuelta, eram tomadas por gente. Ambulantes vendiam seu goró nas
esquinas, botecos colocavam as mesas na calçada e a democracia baladeira
imperava.

Dez anos depois, mudei eu ou mudou a vila? Eu não mudei muito, afinal
continuo querendo tomar minha cervejinha ao ar livre até a hora que eu
bem entender, o difícil é achar um boteco aberto. Duas da manhã e somos
expulsos do Mercearia São Pedro, os garçons desesperados para fechar
logo e evitar uma multa. Resolvo descer a pé até a Mourato. Tirando as
baladas e barzinhos pomadas que deveriam estar na outra vila, a Olímpia,
tudo fechado. Ninguém a pé nas ruas. Muitos carros. Na Mourato, as luzes
apagadas dos postes aumentam a sensação de Ghost Town. Entre a Inácio e
a Cardeal, finalmente sinto a tão familiar marofa dos tempos idos, mas
nada de rastas queimando um na caruda sentados na calçada. Na Cardeal
apenas o Barbante, antigo bar do meio, que era o mais roots dos botecos e
ganhou um banho de loja pomadinha, está aberto, cheio de gente aliás.
Copo a Copo, Toldo Azul, Real, Seu Zé, todos com as portas baixadas.

Com certeza os moradores da região devem estar achando boa essa


cruzada higienista antibaladeira do Kassab, aquele que é prefeito sem
ninguém ter em nele votado. Mas, suprema ironia. Resolvo ir pra casa
67
depois de ter conseguido tomar umas poucas no 24 horas da Fnac, que
traindo o nome parou de vender goró depois das 4h. Passo pra comer um
pastel na barraca que já está montada na mourato, atendendo a lariquentos
como eu. Pego o busão na Cardeal pra ir pra casa. Ironia, moro na outra
vila, a olímpia. E, na frente do meu prédio, claro, tem uma balada de boy.
Essa o Psiu não fecha. Chego em casa e meu pai tá acordado, puto da vida,
com a barulheira que vem da rua. Um bando de panaca bêbado gritando e
fazendo merda na frente da balada. Por que será que eles podem e eu não?
Mesmo no auge da doidera dos anos 90, a Madá era mais civilizada.16

De fato, muita coisa mudou na Vila nestes dez anos em que eu a conheço. Eu devia ter previsto esta elitização
quando resolvi montar o meu barzinho mundrungo, despojado e barato, lá, em 2004, quando esta elitização
estava em plena marcha. E bem, sejamos honestos, do jeito que era lá atrás não podia mesmo continuar por
muito tempo. Os antigos moradores do bairro não deviam gostar nem um pouco daquela multidão de malucos
que tomava o bairro de assalto.

Essa tendência pode ter seu início atribuído à inauguração do bar Posto 6, em um ponto antes “micado”, na
esquina das ruas Mourato Coelho e Aspicuelta. Entre os sócios do bar estava o grande jornalista Fernando
Costa Netto, que percebeu, como eu percebi depois, que o dinheiro de verdade estava na balada. Mas ele fez
o negócio direito. Competente tanto no ramo botequinesco quanto no jornalismo, Fernando e seus sócios
abriram um belo bar, com decoração inspirada no Rio de Janeiro dos anos 50, cardápio caprichado e serviço
de primeira. Mas, claro, cobravam por isso. Não que isso tenha sido um empecilho para o Posto 6 fazer
enorme sucesso e abrir caminho para diversos outros bares “arrumadinhos”, como o José Menino, Salve
Jorge e Cervejaria Patriarca, dos mesmos donos, Maddá, Boteco São Bento, Anhangüera, Zeppelin, Bossa
Nueva, entre outros, como o Municipal, também no “miolo” da Aspicuelta, dos antigos sócios do Sótão, com
quem conversei quando tentava abrir meu próprio bar.

O Sótão tinha esse nome justamente por estar no segundo andar de um galpão no finalzinho da rua Mourato
Coelho, próximo ao conjunto de predinhos do BNH. O Sótão marcou época pelo ambiente despojado e
aconchegante, a cerveja sempre gelada e a bom preço e seus sanduíches no Tostex, marca registrada da casa.
Por alguns anos, lotou de estudantes da USP e PUC, a galerinha típica dos bons tempos da Vila, e conseguiu
gerar uma boa renda para os sócios, que espertos, saíram fora quando viram que o bar já havia passado do

16 http://spladob.wordpress.com/2009/01/26/a-vila-madalena-acabou/
68
auge e abriram o Municipal, bem mais “chique”. O Sótão entrou em decadência com o novo dono, que
definitivamente não era do ramo, e fechou. Quando eu e meu sócio vimos o imóvel pra alugar, os olhos
brilharam. Parecia ser o lugar ideal para o que queríamos fazer.

O problema é que na época a Vila, definitivamente, já possuía um outro perfil. Além do público mais
abonado, o samba, com a popularidade novamente em alta após o verdadeiro cataclismo provocado pelo
pagode romântico mela-cueca no gênero, havia desbancado o bom e velho rock na preferência da galera que
circulava pela Vila. Os dois estilos podem parecer incompatíveis a princípio, mas não são tão diferentes
assim na essência. Pelo menos o que há de melhor em ambos os gêneros, que é aquela música que vêm da
alma. A raiz negra, africana, dos dois ritmos, é a mesma.

Como eu disse, fui criado no Rock and Roll, e quando moleque torcia o nariz pra música brasileira,
principalmente daquela MPB intelectualóide que achava muito chata. Haviam exceções, como os Mutantes,
Tim Maia, Cartola, que já conhecia. Mas estes, até o Cartola, tinham uma história bem Rock and Roll,
convenhamos...

É claro que na ECA tinha muita gente que curtia o samba e a MPB, principalmente na mundrungagem
(embora ela seja, também, bastante Rock na veia). Foi na ECA que descobri o que há de melhor na música
brasileira, e entre este melhor, o que há de melhor, na minha humilde opinião, é esse samba de raiz. É essa a
verdadeira música popular brasileira.

E o melhor lugar para se ouvir o verdadeiro samba de raiz em São Paulo, com os melhores músicos
disponíveis, seja talvez o Ó do Borogodó. Esse boteco muito simples, rústico mesmo, que abriu há cerca de
dez anos na pequena rua Horácio Lane, travessa da Cardeal, ao lado do Cemitério São Paulo, se tornou um
templo do bom samba em São Paulo e virou o bar de estimação da mundrungagem.

O dono do bar, o gente fina Léo, ficou amigo da galera, e fez parte por várias vezes da comitiva mundrunga
que quase sempre escolhe a paradisíaca praia do Pouso da Cajaíba, na região de Paraty, para passar o final de
ano. O Léo inclusive comprou uma casa lá, e um dos barzinhos da praia vira uma verdadeira filial do Ó
nessas ocasiões. A Cajaíba, aliás, é uma das extensões intermunicipais da balada mundrunga. Virou tradição:
reveillón no Pouso da Cajaíba, com direito à caminhadas para as também maravilhosas praias próximas,
como a Sumaca, talvez a praia mas bonita que já visitei. Fui pra lá quatro vezes, e na primeira, em 2003 pra
2004, conheci bastante alguns grandes mundrungos, como o grande Luizão, que na ocasião estava

69
acompanhado da filha. Teve ano que tinha cem pessoas da galera da ECA e agregados na pequena praia.

Opa, mas estamos digressando. Voltando ao Ó, o bar é mesmo um marco, e ganhou ainda mais fama ao ser
considerado o melhor lugar da São Paulo para um Mundrungo mal-ajambrado conseguir se dar bem com uma
das lindíssimas moças que costumam freqüentar o local. O único problema do local é o tamanho. Lá é bem
apertadinho, e com o sucesso, fica apinhado todas as noites. Para alguém grande e um tanto claustrofóbico
como eu, às vezes fica desconfortável. Isso sem falar nas filas que se formam na entrada nos dias mais
concorridos. Ultimamente nem tenho ido muito por lá, até porque o sucesso fez com que eles subissem
bastante os preços. Mas esse aumento dos preços também fez com que o bar ficasse menos hiperlotado. É o
velho dilema das baladas que começam a ficar muito famosas...

Recentemente um novo boteco nos mesmos moldes do Ó, mas com preços bem mais camaradas, abriu na
Vila, mais precisamente na rua Inácio Pereira da Rocha, quase esquina com a Girassol. Trata-se do Pau
Brasil. É também um lugar simples e pequeno, tanto que é até difícil vê-lo passando pela rua. Quem deu a
dica desse novo lugar foi o sempre antenado Vina Segalla. O esquema é o mesmo do Ó, basicamente.
Ambiente despojado, cerveja de garrafa gelada, cachacinhas e ótimos músicos fazendo a roda de samba, e,
sim, belas moças circulando pelo espacinho exíguo. E o atendimento é excelente, as duas garçonetes são
muito simpáticas e fazem milagre pra atender a galera que vem lotado o lugar. Devo que confessar que uma
delas, uma morena brejeira daquelas, me deixou de queixo caído...

Além destes dois bares, a Vila tem alguns outros dedicados ao samba, porém mais “arrumadinhos” e de
acordo com o novo perfil do bairro, como o Salve Simpatia, na Mourato, e o Samba (nome apropriado, não?),
na Fidalga. Também podemos citar o Traço de União, que fica na verdade em Pinheiros, perto do Largo da
Batata, mas possui o mesmo perfil. Outro local um pouco mais simples e, dizem, muito bom (nunca fui,
confesso), é o Bar do Cidão, na Deputado Lacerda Franco.

A região do Largo da Batata, aliás, tem sua própria tradição baladeira, mas diferente da que tratamos aqui.
Trata-se de uma região popular, de passagem, de convergência de transporte, principalmente ônibus, que
ligam as outras regiões de São Paulo à Zona Oeste e às cidades da região oeste da Grande São Paulo. Assim,
da mesma forma como outros pontos da cidade, como o Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, o centro da
Penha e da Lapa, entre outros, virou ponto de encontro da população mais humilde, principalmente migrantes
do Nordeste. Daí para a proliferação dos botecos, forrós, casas de show e inferninhos foi um pulo. Nosso
documentário sobre o Largo da Batata mostra bem essa vida noturna popular, fruto de algumas divertidas

70
noitadas que passamos lá. Agora com a construção do metrô a região está começando a se descaracterizar, e o
documentário já é quase um registro histórico do passado. Procurando um bar que ficasse aberto até tarde
para sediar nossa velha cerca-frango, descobrimos um boteco firmezíssima ali na rua Cunha Gago, onde dão
expediente no balcão o sósia do Dorival Caymmi e a beleza negra da Denise.

Um fato interessante, talvez conseqüência desta “sambificação”, que ocorreu na Vila em tempos recentes foi
o surgimento de blocos de carnaval que desfilam nas ruas do bairro, geralmente nas semanas anteriores aos
festejos de Momo, já que, como todo mundo sabe, paulistano não fica em São Paulo no Carnaval. Entre os
principais desses novos blocos, tem o do próprio Ó do Borogodó, que sai no sábado antes do Carnaval, e o
Cordão Carnavalesco Confraria do Pasmado, da roda de samba Confraria do Pasmado, da qual participa meu
amigo e colega de classe da ECA Dudu Piagge, exímio violonista e cachaceiro. Já rolaram quatro edições do
C.C.C.P, das quais fui em três (a primeira foi no dia seguinte ao show do Rolling Stones na praia de
Copacabana, em 2006, show histórico que obviamente presenciei e me acabei).

As três edições seguintes foram divertidíssimas. Nada como festa de rua, minha gente. O cortejo sai da
pracinha em frente do Mercearia São Pedro, onde rola a concentração, percorre um pequeno trecho da
Rodésia e desce a Harmonia até a Aspicuelta, onde vira à esquerda e acaba na praça em frente ao antigo
Sacolão da Vila. Aliás, vocês viram que o Sacolão, um dos pontos mais representativos da antiga Vila, onde
rolava a lendária sakezada nas noites de quarta-feira, virou mais um bar arrumadinho, com “tema” de
quitanda? Pois é amigos, mais um exemplo da transformação da nossa Vila em parque temático...

Voltando ao bloco de carnaval, acho pertinente colocar aqui meu relato sobre o bloco deste ano, que está no
blog, apesar do potencial de queimar meu filme... Vamos lá:

Preciso parar com essas coisas...

Galera, to zuado. Puta dor de garganta, febre, dor no corpo... é, quem


manda abusar? o bloco domingão foi quebradeira total. Acordei e estava
chovendo. "Sujou", pensei. Mas eis que lá pelas 14h, horário marcado para
o início da concentração, uma nesga de azul surge no céu. "Agora vai!"
Peguei o busão, o bom e velho terminal pirituba que me deixou a uma
quadra da pracinha. No bumba encontro o Toledo, e vamos tomar as
abrideiras na Mercearia, já que só tinha cartão pra pagar as geladas.

71
Logo alguém aparece com uma garrafa de Ipióca. "Sujou". Tomo umas 4
doses e desço pra encontrar os fritos na pracinha. O doido do Mau me
recepciona com uma dose generosa de purpurina. Maldito. Pelo menos ele
tinha uma garrafa de red label e gelo, que coloco no copo roubado do
mercearia. A partir daí as lembranças são vagas. Só sei que tava muito
divertido. O bloco sai, nóis vai atrás. Marchinhas. A velha brincadeira de
pintar a cara do próximo. goró, goró. Quando chega no ponto final, já
estou totalmente entregue ao palhaço. Caio no chão com uma mina, rolo. O
copo que tava no bolso quebra, corto a mão. Aí começa a chover. Chover
MUITO. muito mesmo. Um verdadeiro dilúvio. De lavar a alma. Mas porra,
essa chuva não pára. E tá fria. "Agora fudeu. Vem aí a pneumonia". O
Thomaz fala pra gente vazar, e vamos andando até a casa dele debaixo
daquele temporal. Tomo um banho quente e ponho roupa seca. "Paulão, eu
fiz salmão hoje, quer?", pergunta Thomaz. Mas é claro que eu quero.
Delícia. Depois de uma risadeira na sala, capoto. Acordo e parece que um
caminhão passou por cima de mim. Sinto os primeiros sintomas, tosse,
garganta rspando. Vou verificar o conteúdo da minha carteira que ficou
secando e pra minha grande surpresa e alegria encontro uma nota de 50
que eu tinha escondido num bolsinho interno para emergências. E quando
Thomaz propõe "Paulão, to indo pra praia agora, vamos?" nem pestanejo.
Vamoae! Uma prainha agora é tudo que eu preciso pra curar.

E lá vamos nós pegar a estrada, junto com o Filippo e sua irmã recém-
chegada da gélida itália. O litoral norte lindo como sempre, e com sol como
nunca tinha visto. A combinação sol na cabeça e cerveja geladassa não
contribuiu nem um pouco, e depois que voltamos ainda passamos na cerca-
frango. Quando acordei na quarta-feira, minha garganta já não existia,
substituída por uma ferida aberta que dói horrivelmente cada vez que algo
passa por ela. Poisé, agora, meu amigo, é antibiótico e sobriedade pelos
próximos dias, o que signfica que o carnaval para mim não vai existir. Tudo
bem, saúde em primeiro lugar.17

17 http://spladob.wordpress.com/2009/02/19/preciso-parar-com-essas-coisas/
72
Como vocês podem ver, o samba tomou de assalto a Vila Madalena. Mas o bom e velho Rock and Roll
continua vivo na noite paulistana, principalmente em duas regiões que recentemente viraram foco de atração
para novas baladas: a região do Baixo Augusta, na rua Augusta e imediações, em seu trecho mais próximo ao
centro, e o bairro da Barra Funda. Falaremos destes dois novos focos nos próximos capítulos, começando
pelo Baixo Augusta, que no momento é o pedaço mais quente da noite paulistana, e pelas tentativas de
revitalização do centrão através da balada.

73
2.4 - Augusta, Roosevelt, Centrão... Balada como revitalização

Subi a Rua Augusta a 120 por hora,


botei a turma toda do passeio pra fora,
fiz a curva em duas rodas sem usar a buzina,
parei a quatro dedos da esquina!
(Rua Augusta, de Hervé Cordovil)

Ah, a boa e velha Augusta... Talvez seja a mais paulistana da ruas, mais até do que a Paulista. Segundo o
projeto CentroSP da Prefeitura de São Paulo18, a Augusta foi aberta em 1875 como uma trilha de terra que
ligava a entrada da Chácara do Capão, na rua Dona Antonia de Queiroz, à Estrada da Real Grandeza (atual
Avenida Paulista). Diz-se que o nome não homenageia nenhuma Augusta em especial, mas refere-se ao
adjetivo de origem latina que indica nobreza (lembrem de Caesar Augustus, primeiro Imperador de Roma).
Mas é definitivamente uma rua do gênero feminino, como as vizinhas Maria Antonia, Antonia de Queiroz,
Angélica, Consolação...

Até a década de 1950 era uma rua residencial, com casas grandes e espaçosas. Com a construção do Conjunto
Nacional, na esquina com a Paulista, a Augusta começou a se transformar na mais elegante região comercial
da cidade, com boutiques, lojas, cafés e restaurantes chiquérrimos. Na mesma época começaram a chegar os
cinemas, um dos símbolos da rua até hoje. Na década de 1960 a Augusta virou tema de música e ponto de
peregrinação dos fãs da Jovem Guarda. Não era raro encontrar Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa e outros
na lendária loja de discos Hi-Fi, do folclórico imigrante espanhol “Generalíssimo” Helcio Serrano. Entre
outras contribuições para a música no Brasil, Serrano foi quem reivindicou o lançamento dos LP's dos Beatles
no Brasil, em 1964.19

Desta época há lugares que sobrevivem, como a lanchonete Frevo, onde artistas batiam ponto para tomar
chopp e comer beirute, e ainda está lá, com seu ambiente anos 60. A confeitaria Bologna, a cantina D'Amico
Piolin e a loja de chapéus Plas são outros bons exemplos.

A decadência da Augusta começou com a inauguração do Shopping Iguatemi e a migração do comércio


chique para os shopping centers. O lado dos Jardins, graças ao entorno rico, resistiu melhor, mas do lado do

18 http://centrosp.prefeitura.sp.gov.br/projetos/augusta.php

19 http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u21937.shtml
74
centro o negócio ficou sinistro. A partir dos anos 80 a região foi dominada pelas casas noturnas de reputação
duvidosa, que viraram ponto de garotas de programa. Foi essa Augusta que eu conheci nas primeiras vezes
que, com os hormônios adolescentes em polvorosa, me aventurei por lá. O fascínio daqueles inferninhos era
forte para a molecada. Meu amigo Álvaro era um verdadeiro entusiasta da região, conhecia os seguranças e as
meninas pelo nome. Isso de noite. De dia, passava para lá indo do Mackenzie para pegar o ônibus na avenida
Nove de Julho e parecia uma rua mais “normal”.

Do lado dos Jardins a coisa era diferente. Já estava acostumado a passar por lá com a minha mãe, e a
proximidade com o comércio chique da rua Oscar Freire deixava esse trecho da rua mais parecido com o que
era antigamente. O toque alternativo era a Galeria Ouro Fino, que virou ponto de encontro da galera
“clubber” e “raver”, seguidores da música eletrônica nos anos 90. Lojas de discos, roupas e acessórios, como
a primeira loja da marca de óculos escuros Chilli Beans, de tatuagem e piercing, e até uma loja de acessórios
e parafernália para fumantes de cigarrinhos diferentes, a Ultra, deixavam aquele pedaço da Augusta mais
colorido. Na época começou o lendário Hell's Club, a primeira balada After Hours da cidade, que rolava no
Columbia, esquina da Augusta com a rua Estados Unidos. Desta época é também a Klaatu, que ficava numa
das galerias comerciais da rua.

O “outro lado” da Augusta começou a mudar com a abertura do Espaço Unibanco de Cinema, em 1996. O
cinema que passava só filmes alternativos, “de arte”, nacionais, atraiu aquela turma meio intelectual, meio
cult, meio boêmia, e nos meses de outubro, quando rola a Mostra Internacional de Cinema, a muvuca é maior.
E, depois do cineminha, a pedida é tomar uma cerveja nos botecos próximos. O BH, o Charm, o Monarca...

Algumas boas baladas surgiram naquele pedaço mais próximo à Paulista, como o Astronete, “boteco-balada”
na rua Matias Aires, e o Milo Garage, espaço realmente underground que mistura balada e loja de discos,
sempre com bons sons ao vivo ou com os DJ's, que fica na rua Minas Gerais, próximo ao finalzinho da
Paulista.

Mas a Augusta lá pra baixo continuava a rua dos prostíbulos. Já no entorno começavam a surgir os clubes
noturnos alternativos. Na Frei Caneca, A Lôca fez história entre o público gay e curiosos em geral. Fui lá
duas vezes (acompanhado de mulher, que fique bem entendido, heheh), na famosa Grind, projeto de rock que
rola há mais de dez anos na noite de domingo, e devo dizer que a balada lá é forte, forte demais pro meu
gosto até. Bem ao lado d'A Lôca, fica o peculiar Lapeju, do qual vale uma descrição mais detalhada.

75
O Lapeju era a residência do músico Laércio Alves de Lima. Volta e meia Laércio convidava músicos amigos
para tomar uma cerveja gelada e fazer um som no porão da casa. Em 1995 ele e os filhos resolveram fazer
destes encontros um meio de ganhar a vida, e assim nasceu o bar Lapeju, batizado com as primeiras sílabas
dos nomes de Laércio e dos filhos Pedro Paulo e Júlio César. Lá não cabem mais de cinqüenta pessoas
apertadinhas, o bar é na cozinha, tem sofás e uma televisão velha na sala, enfim, o clima é de casa de amigos
mesmo. E o som é de primeira, sempre. Samba-rock, música brasileira, funk, soul, e outros grooves. E o
público é no mínimo interessante. Lembro de uma noite de domingo em que fui lá com meu amigo e
highlander de baladas Zílio, e conhecemos umas “minas-manos”, meninas que se vestiam como manos do hip
hop. Até então não sabia da existência deste subgrupo do underground. Pois é, vivendo e aprendendo...

A poucos passos dali, no boteco da esquina da Frei Caneca com a Peixoto Gomide, conhecido como “Boteco
da Lôca”, dá expediente um dos personagens mais folclóricos da região, o Zé das Medalhas. Garçom-símbolo
do bar, é conhecido pela simpatia e pela profusão de correntes, medalhas, pulseiras e outros objetos dourados
que brilham por todo seu corpo.

Na Frei Caneca também ficava o saudoso Juke Joint/Subjazz, balada de rock alternativo onde rolavam sempre
bons shows de bandas independentes como o Hurtmold e Objeto Amarelo, entre outros. Do outro lado da
Augusta, na Bela Cintra, abriu em 2002 a Funhouse, outra pioneira “alternativa” do pedaço. Batizada em
homenagem ao clássico álbum da banda proto-punk Iggy & The Stooges, de Iggy Pop, foi aberta, adivinhem,
por quatro ex-ecanos. A casinha pintada de azul-calcinha, construída em 1941, segundo o release da casa já
foi escolinha infantil e residência de coreanos que faziam doces clandestinamente (!). E nestes sete últimos
tem sido uma das referências em bom rock and roll na noite paulistana, tanto pelos shows e discotecagens na
pista de piso quadriculado do andar de baixo como na jukebox recheada de bons discos do andar de cima.

Na Augusta em si, a primeira casa diferente das “zonas” que pintou por ali foi o Sarajevo, localizado próximo
ao Espaço Unibanco. Autenticamente underground, o casarão antigo, que se esconde por detrás de uma
portinha discreta, começou com um espaço que misturava cybercafé, sebo e casa de jogos, com mesas de
xadrez, sinuca e pebolim. Inclusive entre seus sócios originais estava o grande Dagô, vendedor de livros
usados na USP e ás do pebolim na ECA. Mas, mostrando pouco tino comercial, o Dagô saiu da sociedade
antes da casa estourar, atraindo levas de universitários e um pessoal de jeitão hippie com ótimos sons e
discotecagens, principalmente de rock antigão, funk, soul, samba-rock, dub, reggae e grooves em geral, além
da cerveja de garrafa, como deve ser.

76
No pedaço do “Baixo Augusta”, todos creditam o começo de seu renascimento à abertura do Vegas, em 2005.
Mas antes do clube-símbolo do Baixo Augusta abrir as portas, já havia o Outs. Instalado num galpãozão
reformado, o Outs abriu em 2003 e foi o primeiro lugar da rua a apostar no rock alternativo. Nestes primeiros
tempos, eu, o Pinta e o Nelson, outro chapa que trabalhava com o Pinta numa loja de discos, chegamos a
agitar algumas discotecagens lá, mas o projeto infelizmente não foi pra frente. De qualquer forma, podemos
nos considerar pioneiros do bom e velho rock and roll na Augustona, heheh...

Hoje, a Augusta no trecho Centro está bem diferente da rua que eu conheci. Os puteiros ainda estão lá, mas
em nítida crise. Os tiozinhos que eram o público tradicional das casas de tolerância (junto com a molecada
roots como meu amigo Álvaro) não querem correr o risco de trombar com seu filho na rua... E pipocam os
bares e clubes em diversos níveis de “alternatividade”. Há o Inferno, Rock and Roll na veia, o ótimo Studio
SP, que abriu na Vila Madalena e se transferiu para a Augustona, sempre com as melhores novas bandas da
cena independente, o Roxy, voltado pras meninas que gostam de meninas, além dos já citados Outs, que
acabou virando point dos Emos, e o Vegas, que já entrou para a história da noite paulistana, onde entre outros
projetos, rola a nova encarnação do Hell's Club.

Os sócios do Vegas dizem que pretendem fechar o clube ainda este ano, e já se lançam a novos
empreendimentos, como o Sonique e o Volt, de decoração modernosa e que já estão virando point da galera
mais “bacaninha” que freqüenta a região. Outro espaço interessante que abriu recentemente é o Z Carniceria,
num espaço que antigamente era um açougue. Outro novo pico da Augusta é o Tapas Club, com boa
programação musical onde cabem Dub, Ska, Jazz, Hip Hop Underground e Música Eletrônica.

E há os botecos, vários deles, onde todas as tribos acabam se juntando. Há o clássico Ibotirama, e na frente
dele a Pizzaria/Boteco Vitrine, que virou o ponto oficial de reunião da molecada Emo, essa juventude para
mim indecifrável. Conheci o Vitrine passando na frente com meu amigo Thomaz, e como constatamos que lá
a cerveja era mais barata que nos bares circundantes, resolvemos fazer umas cerca-frangos ali. As terças-
feiras o lugar ficava vazio, e o dono, Fernando, adorava a gente lá entornando engradados de cerveja. Mas eu
achava o ambiente meio bizarro, parecia um restaurante self-service zoado, e pra piorar começamos a
desconfiar que o pilantra do Fernando estava roubando na conta. Logo após abandonarmos o Vitrine a horda
Emo começou a tomar o pico de assalto, e hoje em dia o Fernando deve estar rico e feliz com o sucesso
improvável do Vitrine. Nas noites de sexta e sábado a calçada em frente da pizzaria fica intransitável, e não
raro rola alguma treta, provocada principalmente por grupos de skinheads que adoram dar porrada num
Emo...

77
Entre os botecos há ainda o grande Bahia, que fica aberto 24 horas, o Pescador, o Ecléticos, a ex-bomboniére
Augusta 472, e muitos, muitos outros, cujos donos estão felizes da vida com a revitalização da região. Ao
contrário de outras regiões, onde os botecos costumam fechar no máximo a 1h da manhã, na Augusta a noite
nunca acaba. Não é raro ver gente ainda tomando suas últimas cervejas da noite já com dia claro, ao lado de
trabalhadores tomando pingado com pão na chapa.

Uma noite típica na Augusta começa com um filme no Espaço Unibanco, prossegue com cervejinha em
algum dos botecos, pode se estender para alguma das baladas, e se a balada estiver ruim e você já estiver
muito loco, rola aquela tentação irresistível de entrar em algum dos inferninhos, que atraem com as fachadas
de neon, o xaveco dos cafetões que ficam tentando te convencer a entrar oferecendo “esquemas”, drinks na
faixa, shows de strip... E a noite pode acabar só de manhã, batendo a larica em algum lugar qualquer, antes de
ir pra casa.

Numa noite destas fui ver um show da ótima nova banda independente Vanguart, cujo vocalista Hélio
Flanders é brother de longa data, conhecido lá no mIRC circa 2000. A noitada rendeu, e relatei-a no blog.
Saca só:

Vanguart no Studio SP

Na sexta-feira 13 chuvosa e fria em SP resolvi fazer duas coisas que tava


precisando fazer e matar dois coelhos com uma CAJADADA só. Ver um
show do Vanguart, cujo vocalista Hélio é brother desde antes da banda e
sempre me chamava pra ver um show, e finalmente conhecer o Studio SP. O
Helio colocou meu nome na lista VIP digrátis e lá rumei eu para a
augustona. Mas a ocasião pedia um esquenta. Ia ter o bloco de carnaval do
mackenzie na Maria Antonia. Então fui pra casa do tristinho na Santa
Cecilia, comprei uma caixinha de antarctica e as 20h abria a primeira
cerveja da empreitada.

O bloco em si tava bem xis, tinha umas piriguetes, mas tava determinado a
ir no show e ficamos tomando breja na padoca da Maria Antonia até umas
23h30. Aí o tristinho saiu fora e rumei para a Augusta. Cheguei e já entrei
no Sutdio SP o que se provou um erro. O lugar ainda tava quase vazio, e a

78
cerveja a R$ 5 a long neck não ajudava. Além do que, não conhecia
absolutamente ninguém lá dentro. Depois da primeira cerveja resolvi
radicalizar e pedi uma cachaça Germana. Ao fim da cachaça já tava
completamente chumbado. Me posicionei bem na frente do palco para tirar
umas fotos. Mas, vacilão que sou, percebi que tinha esquecido o cartão de
memória em casa, o que me dava direito a umas 15 fotos com a memeória
interna da câmera. Que seja, pensei.
Aí começou o show. Muito bom. Helio manda bem como frontman, mandou
mais de 20 músicas quase sem parar, já tinha ouvido algumas musicas da
banda, achei legaizinhas, mas ao vivo é bem melhor. Rock meio sessentista
com pitadas folk, aliás o Vanguart é expoente desse tal de neofolk que tá
rolando. Senti orgulho do moleque.

Aí acabou o show. E Helio tinha me falado pra gente tostar um depois do


show, e foi o que fizemos, ao lado do bar de baixo do Studio. Aí eu percebi
a diferença que faz ser da banda ou ser amigo da banda. Em menos de 15
minutos de papo, eu já tinha me dado bem. Claro que não era nenhuma top
model, mas é nóis. Quando menos percebi o lugar já tinha esvaziado, hora
de ir embora. Entramos em sete no carro, todo mundo eu tinha conhecido
naquele momento, mas já eramos bons amigos. Paramos no apê de uma das
minas pruma saidera, mas eu fiquei com minha nova amiga na lavanderia,
nos conhecendo melhor. Já era dia claro quando fomos pra casa dela, e
dormir mesmo, só umas 10 da matina.

Enfim, a balada rendeu. Quanto ao lugar, é bem legal. Decoração de arte


urbana/grafitti, som de primeira, palco próximo do público, e a
programação musical costuma ser boa. Além do que, o fator público
maluco é ótimo. Prum cara chegar lá sem conhecer ninguém e começar
novas amizades, é o lugar ideal. Recomendo!20

Nada mal, não? E isso é apenas uma noite qualquer de um freqüentador aleatório da balada da Augusta.
Cultura, música, diversão, cachaça, sexo, loucuras... tudo faz parte do cardápio. E, felizmente, a balada no
bom e velho centrão de São Paulo não se resume à Augusta. Logo ali, na Praça Roosevelt, um outro tipo de

20 http://spladob.wordpress.com/2009/02/15/vanguart-no-studio-sp/
79
vida noturna floresce e revitaliza uma área urbana antes deteriorada. A força por detrás destá revitalização é o
Teatro. Oito grupos teatrais, como o Satyros e o Parlapatões, ocuparam os espaços disponíveis na praça de
concreto com salas de espetáculos complementadas com bares e espaços para eventos. O Satyros foi o
primeiro a apostar no clima de degradação urbana da praça como palco teatral, em 2000. Desde então, as
calçadas antes consideradas perigosas e ponto de traficantes, viciados, travestis e outros personagens do
submundo recebem o público dos teatros, que dividem espaço com os antigos ocupantes. A proposta do
Satyros foi não remover esses personagens de lá, mas integrá-los. 21

Além dos espaços dos Teatros, bares, restaurantes e cafés freqüentados pela turma teatral estão cheios como
nunca. A nova vida da Roosevelt atraiu ainda outros tipos de negócios, como a agência de publicidade
Tatarana, fundada por ex-ecanos e onde muitos amigos já trabalharam, que fica num prédio de escritórios da
praça, em cujo terraço há uma vista sensacional da cidade. E ajudou a revitalizar lugares históricos da boemia
da cidade, como os bares Repertório e Papo, Pinga e Petisco, que funciona onde nos anos 60 existia a lendária
Boate Djalma, e o Boteco da Rafaela, onde rola a Vai Quem Quer, uma feijoada com roda de samba de
primeira nas tardes de sábado.

A Prefeitura de São Paulo tem há cerca de dez anos um projeto para demolir o bizarro pentágono de concreto
da praça e torná-la uma praça de verdade, arborizada e mais agradável para os olhos. Veremos se o projeto sai
do papel em breve...

Já no resto da região central de São Paulo, as várias tentativas de revitalização urbana não têm oficialmente
na vida noturna seu principal instrumento, mas novas e interessantes baladas tem surgido no centrão, e
iniciativas como a sensacional Virada Cultural dão algum alento para essa que na minha opinião é a parte
mais legal da cidade, e está bem mais bonita com a retirada das placas de publicidade e restauração das
fachadas dos prédios antigos.

Mas é no centrão, perto da Augusta e da Roosevelt, que fica o que talvez seja o maior símbolo da boemia
paulistana, o glorioso Bar e Lanches Estadão. Fundado em 1968, época em que a sede do jornal O Estado de
S. Paulo ficava no prédio ao lado (hoje ocupado pelo Diário de S. Paulo), foi a primeira lanchonete da cidade
a funcionar 24 horas e virou ponto de referência para os personagens da noite. Taxistas, policiais, jornalistas,
bêbados, prostitutas, bandidos, clubbers e distintos senhores de terno acotovelam-se há mais de quarenta anos
no balcão para matar a fome. A estrela é o lendário sanduíche de pernil, mas o extenso cardápio tem boas

21 http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u49225.shtml
80
sugestões para fomes de todos os tamanhos, de salgados, como a coxa-creme, à pratos-feitos, como a
Feijoada, servida desde a noite de terças e sexta-feiras. Traçar uma feijuca depois da balada de sábado é uma
experiência inesquecível, lhes digo...

A poucos metros do Estadão, na rua Major Quedinho, fica um dos lugares mais literalmente underground da
cidade. Primeiro, porque fica mesmo num porão, e se chama A Gruta Bar & Sinuca. Além de bar, é casa de
jogos, com mesas de sinuca e xadrez. Os preços são honestíssimos. E o ambiente estiloso e roots fez d'A
Gruta um endereço de festas “descoladas”, como a Degusta Groove, que volta e meia leva Acid Jazz, Rap
Underground e Drum'n'Bass para A Gruta. E teve uma festa inesquecível que prestigiei lá, aniversário da
minha amiga e ilustre mundrunga Carol “Ambrô” Rolim, ocasião em que vi um show espetacular do lendário
guitarrista Lanny Gordin acompanhado de um trio insano que mandou um jazz psicodélico/drum'n'bass
orgânico inacreditável. Lembro que nessa ocasião acabou a cerveja do bar e o grande Mauricio Grilli se
prontificou a buscar mais, e os caras do bar aceitaram de boa a proposta. Isso não se vê muito por aí...

De resto o centrão têm alguns outros pontos folclóricos da noite de São Paulo, mas ainda está longe de voltar
a ser um centro da boemia como era no passado, e creio que isso seria o jeito mais fácil para que sua tão
decantada revitalização aconteça. Podemos citar ainda o chiquérrimo Clube Royal, no final da Rua da
Consolação, cuja entrada para homens custa a pechincha de 100 reais, o espaço para eventos do Edifício
Copan, que é bem bacana, e é claro, o bom e velho Love Story. Sobre “a casa de todas as casas” não posso
falar muito porque, na real, eu nunca tive a coragem de encarar algum dos seus lendários after hours
povoados pela fauna mais representativa da noite paulistana, desde as proverbiais garotas de programa depois
do expediente até famosos, passando por malucos de todas as estirpes, coxinhas e molecada curiosa. É, falha
imperdoável minha nunca ter entrado no Love Story, preciso corrigir isto...

Um lugarzinho bem bacana que descobri recentemente é o Bar B, localizado bem perto do Love Story, na rua
General Jardim, naquele pedaço que é tomado por travestis e outros tipos típicos de noite. Destoando do
clima da região, o Bar B é decorado por graffitis e móbiles pendendo do teto, a luz é baixa, os preços são
módicos e a programação musical é de primeira, geralmente com bandas de jazz e afins tocando ao vivo. Lá
vi uma bela apresentação da banda Ai Laika, da excelente cantora e ex-ecana Susana Bragatto. Na outra vez
em que lá estive, não foi uma noite normal do bar, pois lá costuma ser um lugar “sussa”, com o pessoal
sentado bebendo e ouvindo um jazzinho, e na ocasião rolou uma festança daquelas fortes. Foi a primeira
edição paulistana da Carnivale Balkan – Paranormale Hits, festa dedicada aos sons pra lá de animados da
nova cena musical do leste europeu (!) Pois é, mais underground que isso acho difícil. Mas a festa foi

81
sensacional, e sobre ela escrevi num dos primeiros posts do blog. Lá vai:

CARNIVALE BALKAN - PARANORMALE HITS

Essa festa aconteceu no já distante 1º de novembro de 2008, mas como


concorre forte ao prêmio de melhor balada de 2008 merece um post aqui.
Essa balada poderia muito ter o epíteto de "só em São Paulo mesmo", mas
saibam que a festa começou no Rio por obra da maravilhosa DJ Sol. A
namorada do Fetu organizou e garantiu a presença da mundrungada em
peso, o que sem dúvida conferiu à noitada a característica de CATARSE
GENERALIZADA.

Foi no Bar B, lugarzinho bem legal ali n centrão, perto do Love Story, em
meio à vizinhança decadente. Mas é um bar, e normalmente o pessoal bebe
sentado ouvindo um sonzinho sussa. Neste dia, era balada forte, e a
divulgação eficaz fez com que o lugar ficasse atulhado de gente querendo
requebrar ao som do Leste Europeu. Logo o lugar ficou insuportavelmente
quente. Cheguei cedo e no local ainda predominava a frequência cool/blasé
habitual. Mas logo, com a chegada de maloqueros do porte de Mauricio
Grilli e Marcel, e o aceleramento das músicas sensacionais, a coisa pegou
fogo. É impressionante como essa galera consegue empolgar uma balada.
A gente devia montar uma empresa de animação de eventos. Dentre os sons
inclassificáveis, os que eu achei mais locos eram uma espécie de
drum'n'bass TURCO mutcholoco que me fez dançar alucinadamente. na ala
feminina, carol ambrô, lau fosti e outras se acabavam dançando, enquanto
a Ju tocava o terror com umas amiguinhas que eu não conhecia. Dava pra
ver que o pessoal blasé estava entre admirado e chocado com a
performance da trupe mundrunga. Quando chegou a apoteose com a
quebra de pratos eu não aguentava mais, a claustrofobia e o calor tavam
me vencendo, e achei melhor sair. tirei a camiseta do lado de fora, tava um
friozinho e garoando, e isso colaborou para o aparecimento de mais um
resfriado, mas valeu a pena.

82
A noite terminou no bom e velho estadão, e voltei de busão pra casa. Na
minha opinião, melhor balada "não 100% mundrunga" de 2008, fácil. Falei
com a namorada do Fetu que tem que rolar mais, quem sabe até numa
Quinta i Breja. E viva os Bálcãs!

ah, dá pra ouvir as musicas no blog do carnivale:


http://carnivalebalkan.blogspot.com22

Também já participei de boas baladas em espaços diferentes e não-comerciais do centrão, onde por meio de
algum bom contato foram realizadas festas fantásticas. Lembro da “Festa da Dona Florinda e sua Gravata”,
ou seja lá o que isso quer dizer, que foi num prédio antigão mutcho loco bem no Vale do Anhangabaú,
organizada por uma galera mundrunga das antigas. Para se ter idéia do nível da coisa, a balada acabou com
uma galera pendurada na estátua de Carlos Gomes na Praça Ramos de Azevedo, entoando O Guarani a
plenos pulmões...

Outra festa memorável ocorreu numa cobertura de um prédio também antigão, na Praça do Correio, ao lado
do Viaduto Santa Efigênia, com uma belíssima vista do centrão, enquadrando o viaduto e os edifícios do
Banespa e Martinelli. Lá mora uma galera artista/descolada, e na época minha veterana ecana Binha também
habitava por lá. O apartamento é muito style, pra começar ele é REDONDO, fica numa cúpula no alto do
prédio, e de tão legal virou até cenário do programa Almanaque Educação da TV Cultura. Era uma festa de
fim de ano da galera da ECA, onde tive o prazer de pôr o som e botar a festa pra ferver. No final tinha
champanhe pingando do teto, e a quantidade de coisas sem-noção, feitas por pessoas igualmente “Joselitas”,
como uma cadeira arremessada para baixo, fez com que a galera nunca mais cogitasse fazer festa lá, mas a
que houve foi memorável...

E estamos nos esquecendo de uma região também emblemática de São Paulo, onde estão voltando a pintar
baladas interessantes nos últimos anos, o bom e velho Bixiga, ou Bela Vista. O bairro-símbolo da imigração
italiana em São Paulo tem também história pelo seu samba, graças principalmente à ilustre Escola de Samba
Vai-Vai. Mas as baladas do bairro se dividem entre samba, rock and roll e outros. No lado rock, os bares
tradicionais da rua Treze de Maio, como o Café Piu-Piu, Café Aurora e o The Wall, são sucesso ininterrupto
há pelo menos duas décadas. Nos anos 80 o Madame Satã e o Carbono 14 fizeram história.

22 http://spladob.wordpress.com/2009/02/01/carnivale-balkan-paranormale-hits/
83
Hoje, o samba-rock dá o tom em lugares como o Teatro Mars, antigo teatro de arquitetura bem legal onde já
estive algumas vezes, inclusive para pôr o som antes do show de lançamento do primeiro disco da Banda do
Canil. E há lugares ainda mais “rooteza” no Bixigão, como um boteco aparentemente sem nada demais onde
estive certa feita com meu amigo Montanha, e fui surpreendido com a presença do primeiro ARTISTA
genuíno que conheci na vida. O impacto deste encontro me fez criar e escrever o primeiro post do blog SP
Lado B, que segue:

Benvindos ao SP Lado B

Olá, mundo. Esse é o SP Lado B. Aqui pretendo narrar fatos curiosos


ocorridos nas minhas andanças pelas profundezas da noite paulistana.
Ontem, por exemplo, fui parar num lugar onde nunca tinha ido antes, um
dos butecos mais ROOTS CULTURE onde tive o prazer de pôr os pés.

Noite de quinta-feira, ainda não tinha saído essa semana, tava louco pra
tomar uma gelada honesta nas ruas dessa cidade. Tava um frio do cacete
para o verão, ventava e garoava, mas minha vontade de sair era maior. A
opção era o aniversário de uma amiga no Traço de União, tradicional casa
de samba pra playboy e gringo ver, 20 reais só pra entrar. Desnecessário
dizer que preferi a alternativa pé no chão, botecos da Cardeal Arcoverde,
lugar onde me sinto em casa. O Montanha, véio companheiro de buteco,
falou que estaria no Real. Cheguei lá e nada do frito. Quase desisti e voltei
pra casa, mas resolvi persistir e o locão apareceu. Tomamos algumas no
Real, decidimos atravessar a rua e ir no bar da frente, o Tupinambá, mais
conhecido como seu Zé. A idéia era saborear a excelente empanada de lá,
para matar a larica. O quitute realmente é fantástico, grande, quentinho,
bem recheado e bem condimentado. Nesse interim, chega o Brunão.
Devidamente alimentados, tomamos mais algumas brejas e o sono chegou,
lá pela meia-noite. Decidimos ir embora, mas com o Montanha nunca se
sabe. Subimos a Teodoro degustando um ótimo verdinho que o Brunão pôs
e deixamos ele pra pegar o ônibus no viaduto 9 de Julho. Então, o
Montanha vira pra mim e declara: “Paulada, agora vou te levar num lugar
que você vai gostar”.

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Rumamos para a Bela Vista. Na subidinha da Treze de Maio, em meio a
lugares já contemplados com a REVITALIZAÇÃO URBANA resiste um
buteco que parece pertencer a outras eras, talvez aos anos 80. A porta tem
vitrais coloridos, logo na entrada um grande quadro com uma paisagem
PANTANEIRA se sobressai no ambiente esverdeado. O salão está vazio, e o
cara do balcão e uma mina jogam caixeta. O montanha parece frequentar
faz tempo o lugar. "Vamo lá em cima", diz. Lá em cima tem umas mesas de
sinuca e personagens saídas diretamente de algum romance noir. Tomamos
uma breja lá, enquanto o montanha espera seu contato. Ele chega e eu fico
sozinho no balcão, mas não por muito tempo. Logo uma figura invulgar
adentra o recinto. Um tiozinho de baixa estatura, barba branca, cara de
alucinado, carregando embaixo do braço uma tela com uma pintura de uma
paisagem noturna, lua cheia em meio a nuvens no céu avermelhado. Gostei
da figura e da obra. Ele não hesita e vem puxar papo. "Você já conheceu
algum artista? Artista de verdade?", pergunta. "Cara, acho que não", é
minha resposta. Isso parece agradá-lo. Saca debaixo do braço a tela e
pergunta se eu gostei. "Claro, é bem legal", é tudo que eu consigo dizer.
Orgulhoso, aponta o painel na parede do bar. "Você consegue ler o nome
ali? Rogerca. Sou eu. Prazer, Rogerca. "Pô, quando eu entrei aqui curti
essa pintura, queria saber quem tinha feito", digo. Vendo que a plateia tá
ganha, Rogerca começa a falar sobre sua visão da vida, da arte e tudo isso
que está aí. "Eu já trabalhei no estúdio do Mauricio de Sousa, na Abril.
Mas um dia eu larguei tudo, e passei a viver só da minha arte. Do que vem
de dentro de mim. Hoje eu vivo só o agora, não penso no futuro nem do
passado. Tudo que eu tenho é a arte, e tudo que eu preciso pra continuar
vivendo é o reconhecimento de pessoas como você. Aliás, quer levar esse
quadro? Qualquer dez conto você leva". Eu levaria fácil, mas no momento o
que eu tinha de dinheiro do mundo se resumia a 10 conto pra pagar as
brejas já consumidas. Nessa altura montanha volta do banheiro feliz e
animado, se empolga com o quadro do rogerca e diz que vai levar. "Só vou
pegar a grana lá no carro". Volta com uma cara de susto, falando "putz
paulada, levaram minha mochila do carro!". Desconcertados, vamos ao

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carro, e o frito acha a mochila, ele não tinha visto embaixo do banco de
trás. Feliz e aliviado, compra o quadro do Rogerca e vamos embora, dando
a noite por encerrada. Sucesso em mais uma empreitada rumo ao submundo
paulistano.23

É, são essas coisas que fazem esse meu prazer pela noite paulistana valer a pena. Personagens como o
Rogerca são o prêmio por tantas roubadas, ressacas e cagadas que ocorrem naturalmente para quem quer se
aventurar nas profundezas noturnas. Mas vou lhes dizer, nada do que já vi em São Paulo é tão legal e com
tanto potencial para boas histórias do que a Virada Cultural paulistana. Quando a Virada deste ano se
aproximava, pensei: “Taí o filé do meu trabalho! Vou encarar a Virada durante as 24 horas do evento munido
com meu bloquinho e o que sair vai ser o capítulo mais legal do meu TCC.” É este o capítulo que vem em
seguida. Espero que fique bom mesmo...

23 http://spladob.wordpress.com/2009/01/23/benvindos-ao-sp-lado-b/
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2.5 – A Virada Cultural, ou o que me lembro dela...

“Quando eu tinha 18 anos, não ficava cheirando cocaína, eu cheirava era a


xereca das meninas!” (Reginaldo Rossi)

Como eu adoro o centrão de São Paulo. Toda cidade tem sua alma residindo em alguma esquina, algum
prédio, alguma praça de seu centro histórico. Em São Paulo o centro histórico foi castigado por muitos anos
de descaso com seu patrimônio arquitetônico e cultural. A maioria dos prédios antigos foi derrubada, a
elegância que emanava das ruas, praças e avenidas do centrão até meados do século XX foi substituída por
mendigos, catadores de lixo, prostitutas baratas, travestis, viciados e outros personagens da ralé urbana. O
comércio elegante, as empresas, os serviços, foram migrando para outros bairros. Mas o centrão, maltratado,
resistiu como o lugar da cidade onde se encontra o que não consegue se encontrar em qualquer outro lugar.
Locais como a Galeria do Rock e demais galerias da região da República, os calçadões, os viadutos do Chá e
Santa Efigênia, o Vale do Anhangabaú...

Como eu gosto de caminhar pelo centrão, observando a fauna diversa que por lá passa. As meninas que
certamente devem ser operadoras de telemarketing que trabalham num daqueles prédios com insulfilm nas
janelas. Os hippies que vendem artesanato na praça da República. Os operadores da Bovespa que engraxam o
sapato na pracinha em frente ao prédio da Bolsa. Os muitos camelôs, que vendem de tudo. Os roqueiros
cabeludos e vestidos de preto que entram e saem da galeria do rock. Os bêbados que se encharcam de cachaça
nos milhares de botecos que se espalham pela região. Os negões nigerianos que com suas camisas chamativas
sobem e descem a São João, a Duque de Caxias, a Rio Branco, falando dialetos incompreensíveis no celular,
com certeza eles estão armando alguma coisa, se encontrando nos botecos mais fuleiros que existem por lá.
Os coreanos, chineses, bolivianos, peruanos, cearenses, pernambucanos, e até alguns paulistanos, todos
andando pra cima e pra baixo, indo e voltando de seja lá onde for, entrando no metrô, esperando o ônibus.

Durante o dia é relativamente seguro perambular pelo centro. Mas quando o sol se põe e as lojas fecham as
portas, cenas dignas de um filme de zumbis podem ser vistas nas marquises povoadas pelo povo subterrâneo
que vive das migalhas da metrópole, se entorpecendo de crack, cola de sapateiro e cachaça para amortecer
seja lá qual for a dor que está sentindo. O bom senso recomenda evitar a região à noite, embora talvez ela seja
mais segura do que outros pedaços da cidade, afinal é de longe o lugar mais policiado de São Paulo.

Não duvido que haja gente nascida em São Paulo, que viveu aqui a vida toda e nunca tenha tido o prazer de

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passear pelas ruas iluminadas pelos belos postes antigos de luz alaranjada do centrão, descobrindo os
segredos noturnos da cidade. Bem, mas para estes uma iniciativa veio lhes devolver essa experiência
paulistana. Sim, a Virada Cultural, talvez a melhor idéia da vida do governador e ex-prefeito José Serra, que
importou a idéia das “nuits blanches” (noites brancas) de Paris. Sua antecessora Marta Suplicy, tão íntima da
capital francesa, não teve essa idéia antes. Bem, pior para ela.

Desde a primeira edição, em 2005, a Virada Cultural teve sucesso indiscutível e entrou para o calendário da
cidade, atraindo inclusive turistas de outras cidades, apesar de problemas persistentes, como o lixo, a falta de
banheiros suficientes, os eventuais e inevitáveis furtos e roubos, e a chapação generalizada de vinho barato
que se espalha pelas ruas. Episódios lamentáveis como o tumulto durante o show dos Racionais MC's na
Praça da Sé em 2006 felizmente não se repetiram. E em 2009, apesar de ter o orçamento cortado em um terço
pela gestão Kassab e com menos palcos e atrações de peso do que nos anos anteriores, eu pude testemunhar
de um ponto de vista privilegiado belas 24 horas de música, cultura, arte, interação urbana, encontros e
desencontros, cerveja, diversão e desafio aos limites do corpo em minha cobertura gonzológica da quinta
Virada Cultural.

Como disse anteriormente, a idéia de escrever sobre a Virada para este trabalho ocorreu naturalmente, e o
desafio era encarar as 24 horas de balada sem um roteiro pré-definido, flanando conforme o vento soprava no
centrão de São Paulo. E como esta edição da Virada ocorreu em um feriado prolongado, a aventura começou
antes do sábado. Já na quinta-feira comecei os trabalhos em mais uma edição especial “corujão” da Quinta i
Breja na ECA, com a tradicional apresentação da Banda do Canil na calada da madrugada. Se queria me
poupar para a maratona do fim-de-semana, os incansáveis músicos caninos tinham outra idéia, e me fizeram
balançar o esqueleto até as 4 e meia da manhã da madrugada fria. Na sexta-feira, primeiro de maio, acordei
tarde, muito tarde, levemente ressacado, e passei o dia morgando em casa. No fim da tarde fui fazer uma
visitinha na casa das amigas Bia e Denise, ali perto da USP, onde degustei um belo peixe assado de jantar,
tomamos algumas brejas, ouvimos um som, brincamos com o Iggy, gato da casa, que arranhou minha mão, e
entorpecido, capotei no confortabilíssimo sofá da casa, o que não deve ter agradado o Iggy, residente habitual
daquele espaço.

Acordei no sábado fatídico lá pelo meio-dia, liguei a TV na Globo e no SPTV já falavam sobre os
preparativos para a Virada. Fui pra casa e dei aquela bodeada necessária durante a tarde para encarar a
maratona. Lá pelas cinco horas comecei a me preparar para a epopéia. Peguei o ônibus na avenida Santo
Amaro e desci no Terminal Bandeira. Comecei a primeira de muitas caminhadas pelo centro naquele dia,

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atravessando o Vale do Anhangabaú, belo como sempre, e virando à esquerda na São João, rumo ao palco
principal, onde o ex-tecladista do Deep Purple John Lord começava o primeiro show da Virada, em
companhia da Orquestra Sinfônica Municipal, para executar o “Concerto para grupo e orquestra” composto
por ele no distante 1969. Passando na frente da Galeria do Rock, não pude deixar de sorrir com a variada
fauna que estava por ali, já começando a calibrar com o grande hit da virada, o vinho vagabundo em garrafa
de plástico. Cheguei perto do palco do John Lord e já tive um mau presságio quando, na primeira vez em que
ele botou pra foder no teclado, o sistema de som falhou. “Mau sinal”, pensei.

Resolvi rumar em direção à casa do Tristinho, no largo Santa Cecília, atravessando o Largo do Arouche, onde
prometia estar o melhor palco da Virada, com grandes nomes da música brega brasileira: Bartô Galeno, Odair
José, Wando, Reginaldo Rossi, Beto Barbosa e outros feras da raça estavam escalados para animar o
Arouche, mas quando passei por lá ainda estavam passando o som. Comprei uma caixa de Antarcticas no
mercado ao lado do prédio do Tristinho e subi lá pra começar o esquenta.

Fig. 12 – O prefeito Gilberto Kassab dá um rolê na


Virada

A família Tristão apareceu meio baqueada pelo churrasco familiar com a família mineira do Sherlon durante
a tarde. Fizemos um café pra espantar o bode, enchemos a caixa térmica com cerveja e gelo e partimos rumo
ao fervo. A primeira parada foi o palco Rock na Praça da República. Tava rolando a lendária banda
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progressiva Som Nosso de Cada Dia. Sonzera, e ficamos lá por algum tempo apreciando a multidão roqueira
que tomava a praça. Foi chegando uma galera e a bagunça aumentando. Resolvemos dar um rolê até o palco
instrumental na rua Conselheiro Crispiniano, que deveria estar menos entupido de gente. Realmente estava
mais sossegado lá, e o sonzito era de primeira qualidade. Ficamos um bom tempo ali, reabastacendo o
estoque de breja numa loja de doces que vendia Bavária a módicos R$ 1,25. Em certo momento uma certa
agitação traz o rumor de que ninguém menos que o KASSAB estaria passando por ali. Empunhei a câmera
para fazer o registro fotográfico da aparição.

A essa altura do campeonato chega meu velho amigo João e sua namorada Vivi, obstinados em ir ao palco
brega do Largo do Arouche ver o cara das calcinhas, o mítico WANDO. A galera uspiana, do alto de sua
intelectualidade, torceu o nariz a princípio, mas insistimos e convencemos o pessoal a rumar para o Arouche.
O show do Wando em si foi meio qualquer nota, e era claro que em muitos momentos rolou aquele playback
mequetrefe. Mas o folclore das calcinhas sendo atiradas ao palco foi o suficiente para nos entreter, até o
momento em que o melhor show da noite, na minha opinião, começasse. Senhoras e senhoras, com vocês, o
rei Reginaldo Rossi!

Entre os shows de Wando e Reginaldo um inenarrável personagem de peruca loira cantou algumas canções
do rei Roberto Carlos e preparou o clima para a chegada do rei do brega, um dos músicos mais injustiçados
do Brasil, dono de uma extensa cultura musical, admirador de Frank Sinatra, Elvis Presley e Beatles, herdeiro
da grande tradição dos cantores românticos. Reginaldo Rossi é gênio. E além de botar pra quebrar nas
músicas, é um verdadeiro showman. Interage com desenvoltura com o público, conta piadas, dá lição de
moral. E leva a galera ao delírio.

E faz a lição de casa direitinho. Reginaldo sabia que estava no Largo do Arouche, tradicional point GLBT da
cidade. E jogou para o público, exaltando a alegria dos gays e dando um sutil tapa na cara da hipocrisia
homofóbica. Foi ovacionado. Ao defender o brega, falou uma grande verdade. “Se eu cantasse em inglês
ninguém ia falar que eu era brega. Mas o Sinatra era brega, o Elvis era brega. MOZART era brega!” E
completou: “I'm the king of the brega!”. E ainda mandou a clássica epígrafe que abre este capítulo, o melhor
conselho contra as drogas para a juventude que se pode conceber...

Além dos sucessos da carreira, como “Mon amour, meu bem, ma femme”, “ A raposa e as uvas”, “Leviana” e
o grande clássico “Garçom”, entoada em coro pela galera em catarse coletiva e com citação ao Ronaldo
Fenômeno; Reginaldo botou pra quebrar com versões de músicas como “Have you ever seen the rain” do

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Creedence e “Something” dos Beatles, além de citar os outros reis, Elvis e Robertão, e chegando à apoteose
com nada menos que o hino gay “I will survive”. Como ele bem disse, “música de amor não tem diferença se
é em inglês ou português. É tudo música de corno, e corno tem em qualquer lugar”.

Fig. 11 - Reginaldo Rossi quebrando tudo

Depois da avassaladora apresentação do Reginaldo e com a cerveja já dominando a mente, as minhas


lembranças da Virada ficam mais embaçadas. Sei que a maioria da galera debandou do Arouche para assistir
o tributo ao Tim Maia Racional no palco da São João, mas eu fiquei lá com o João e a Vivi para acompanhar
o show do velho “rei da lambada” Beto Barbosa. Apesar dos flashbacks daquele tempo mágico que foi o
começo dos anos 90 desencadeados por sucessos como “Adocica” e “Preta”, começou a perder a graça a
breguice reinante no largo do Arouche. O João e a Vivi foram embora e, como tradicionalmente acontece nas
Viradas, me vi sozinho e perdido em meio a multidão espalhada pelo centrão. Esta é a deixa para poder
observar a fauna humana com o devido distanciamento antropológico.

Fiquei um bom tempo andando pra cima e pra baixo vendo a galera chapando com o grande hit da noite, o
vinho vagabundo de garrafa de plástico, que tecnicamente nem pode ser chamado de vinho. Depois li que o
Serra ficou horrorizado com o consumo desenfreado do veneno. Se fosse um bom Cabernet Sauvignon a
história seria outra...

Quando já estava perdendo as esperanças de encontrar alguém, o Thomaz me liga no celular e fala pra gente

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se encontrar no palco dedicado ao Raul Seixas, na Estação da Luz. Aí sim! Era obrigatório dar uma olhada no
palco Raul. Fãs do Raul Seixas formam uma classe muito especial, e o lema “toca Raul” ecoa como mantra
em shows e festas Brasil afora. Mas Raul foi gênio. Ao ouvir seus discos gravados na década de 70, antes do
álcool lhe corroer os miolos, percebe-se estar diante de um grande autor. Raul é daqueles artistas
fundamentais, mas que tem fãs que depõem contra. Das letras das músicas cantadas ali, que não sei de qual
disco eram, um verso me chamou a atenção, e anotei no meu bloquinho: “A cidade de cabeça para baixo”.
Era exatamente assim que São Paulo me parecia estar naquela noite. De cabeça para baixo.

A essa altura a noite já estava se transformando em dia, e prometia um belo domingo de sol e céu azul.
Banhado pela luz do sol, o centro trazia novas cores, e dava pra ver melhor a imensa quantidade de lixo
produzida pelas cerca de três milhões de pessoas que passaram por lá. É, ainda falta um tanto pra
CIVILIZAÇÃO propriamente dita chegar por aqui, mas tenhamos fé...

A essas alturas, após mais de doze horas de pé, andando pra cima e para baixo, era de se esperar que o
cansaço batesse. Mas ainda estava na metade da minha empreitada, e o nível de energia se mantinha
surpreendentemente alto. A esta altura, Crovis, Zílio e Coala faziam heróica companhia a mim, Thomaz e sua
Isa não agüentaram muito e vazaram. Voltamos ao palco instrumental, com fé de que seríamos surpreendidos
por alguma sonzera da boa. E não nos decepcionamos. Quando chegamos lá, estava para começar o show da
ROTO ROOTS. Quem?, você pergunta. Trata-se de uma reunião de bambas para tocar um Ska-Jazz de
primeira, com direito a naipe de metais mandando ver, botando a galera que estava por ali a dançar como se
não houvesse amanhã.

A diminuta platéia ali se deliciava com o som e muitos consumiam seus baseados tranqüilamente, mesmo
estando na cara dos policiais, que claramente estavam orientados a não gastar energia reprimindo os
maconheiros. Ainda assim, com a mente já meio dando “tilt”, achei que era muita pala ficar por ali e falei
pros meus companheiros pra gente dar um rolê. Passamos na frente do Municipal e percebemos que estava
sem fila. Nos informamos e soubemos que estava para começar um show, e ainda tinha lugar nas galerias.
Não titubeamos e adentramos o belíssimo teatro inspirado na Ópera de Paris e projetado por Ramos da
Azevedo.

Nunca tinha ouvido falar de quem iria se apresentar. O guia falava: “Arthur Maia, com o disco Cama de Gato
(1978)”. Tratava-se de um baixista carioca frito de tudo que mandou, acompanhado de bateria e um
saxofonista apenas, um som viajandão, psicodélico-progressivo que me fez dormir gostoso na poltrona

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forrada em veludo da galeria do Municipal. Quando o show acabou, o cansaço já havia sido parcialmente
aplacado, mas a fome bateu forte. Sugeri ao Cróvis para a gente ir na Padaria Santa Tereza, a mais antiga
padaria paulistana em funcionamento, fundada em 1872 e que desde 1947 fica na praça João Mendes, bem
atrás da Catedral da Sé. A ocasião pedia uma das lendárias canjas de galinha da casa, que assim como a coxa-
creme, que estava em falta, é servida desde o século XIX, mas a essa altura do campeonato o que me restava
de dinheiro não permitia muita coisa além de uma empadinha e um pão na chapa. Ficamos ali contemplando
o ambiente elegante da padoca recém-reformada, onde chamam a atenção as diversas fotografias antigas do
centro dispostas nas paredes.

Saímos e foi irresistível a vontade de entrar na Catedral da Sé. Até então nenhum de nós tinha estado dentro
da catedral, e na hora estava no meio da missa de domingo. Entramos e fiquei impressionado com a beleza
dos vitrais vistos do interior da catedral, mas não conseguimos ficar muito tempo lá dentro. Demos ainda
mais uma perambulada pelo centro, passando pela rua Quinze de Novembro, onde tradicionalmente rola o
palco de música eletrônica. Lá, o cheiro de sovaco persistente indicava que a noite tinha sido longa, mas
muitos fritos continuavam dançando alucinadamente com as batidas eletrônicas. Passando no Largo São
Bento, o hip hop continuava comendo solto, com uma galera dançando um break. Com certeza neste dia não
haveria canto gregoriano na missa do Mosteiro São Bento, logo ali.

Descemos até o Anhangabaú, onde o clima era mais família. Numa tenda, uma tia tentava ensinar os
requebrados da dança do ventre pruma meia dúzia de gatos pingados não muito interessados. A poucos
passos, uma cena impressionante: um ÍNDIO peruano com traje completo de inca mandava um som deveras
cósmico na tradicional flautinha peruana, com umas índias dançando em volta. Atordoados com tantos
choques culturais consecutivos, Cróvis e Coala pediram arrego e queriam rumar para o metrô, e dali para
casa. Era meio-dia. Eu estava exausto, mas não queria desistir sem cumprir as 24 horas de maratona. Decidi ir
para a casa do Coala dar uma descansada e tentar voltar para o show dos Novos Baianos, que seria às 15h.

Depois de um banho e uma troca de roupas muito bem-vinda na casa do Coala, dei uma deitada no sofá e
achei que não conseguiria levantar dali tão cedo, mas acionei as últimas reservas estratégicas de energia e
consegui voltar para o centro, dando mais uma caminhada da Consolação até a São João. Consegui achar o
Tristão e a Marion, e neste momento os Novos Baianos, uma das bandas mais cultuadas da mundrungagem e
que neste 2009 comemora 40 anos de existência, já estavam no palco. Da formação original, faltou Moraes
Moreira. Mas Pepeu Gomes, Baby do Brasil (ex-Consuelo), Galvão, Paulinho Boca de Cantor e Dadi estavam
lá, mostrando estar muito felizes com a nova geração de fãs jovens que lotava a São João e cantava as

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músicas em uníssono. Pepeu continua mandando brasa e garantindo seu posto de um dos mais importantes
guitarristas do Brasil. Baby, na fase Jesus Freak, ainda possui boa parte da sua belíssima voz. Galvão
mandou uns poemas new age de sarau de Centro Acadêmico que deixaram a platéia com pontos de
interrogação acima da cabeça, mas de resto, um belo show, distante, porém, da catarse proporcionada pelos
Mutantes na edição anterior da Virada.

Show acabado, 17h15, não conseguia mais fazer nada, nem a cerveja descia mais, o dinheiro tinha acabado de
vez, e decidi rumar para casa antes do término do jogo do Corinthians na final do Campeonato Paulista, e a
subseqüente invasão das ruas pela massa corintiana em delírio. Cheguei em casa as 18h, com o joelho e as
costas doendo, bolhas nos pés e não querendo mais nada além da minha cama. Sem dúvida a Virada é um
evento de tirar o chapéu, mas como exige do preparo físico... Talvez seja o caso de fazer algo menos
concentrado, duas ou três Viradas anuais, com menos atrações. Afinal, mesmo andando para cima e para
baixo alucinadamente, perdi vários shows que queria ver, e são pouquíssimos os que conseguem encarar a
Virada do começo ao fim, sendo quase impossível fazer isso sem algum aditivo químico.

De qualquer forma, como é legal ver o povo, com toda sua diversidade, na rua, curtindo a noite ao ar livre,
podendo escolher entre atrações para todos os gostos e estilos, sentindo a cidade. A mistura de mendigos,
molecada adolescente de todas as tribos, famílias, casais mais velhos, hippies, patricinhas, manos do hip hop,
peruanos incas, turistas que vieram de todo o país para ver a Virada, enfim... Em nenhum dos outros 364 dias
do ano São Paulo é tão legal, e tão São Paulo, quanto nas 24 horas de Virada Cultural. Espero que nunca
acabe...

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2.6– A Barra Funda e a nova Geopolítica da balada

São Paulo é uma cidade urbanisticamente estranha, a primeira vista até caótica. Isso porque começou como
uma aldeiazinha e assim permaneceu por quase três séculos, e foi crescendo de maneira totalmente
desordenada. Com a explosão da economia do café e da imigração, principalmente de italianos, portugueses e
espanhóis, mas também de sírio-libaneses, japoneses, judeus, armênios e muitas outras nacionalidades, São
Paulo começou a tomar a forma que tem hoje, essa colcha de retalhos. Os loteamentos seguiam os caprichos
do cara que os loteou, geralmente o dono da chácara ou sítio que ali existia antes. A abertura das estradas de
ferro Sorocabana, Santos-Jundiaí e Central do Brasil adicionaram mais acidentes geográficos no planalto
cortado pelos rios Tietê e Jurubatuba (hoje Pinheiros) e inúmeros ribeirões e córregos. As linhas de trem
basicamente dividiram socialmente a cidade: do lado de dentro (do centro), os mais ricos, do lado de lá o
povão, principalmente os imigrantes.

Com a industrialização, as novas indústrias se instalaram próximas às ferrovias, principalmente nos bairros
do Brás, Mooca, Lapa, Água Branca e Barra Funda. As vilas que surgiram nas imediações viraram enclaves
das colônias de imigrantes, principalmente a italiana. Quem leu o clássico “Brás, Bexiga e Barra Funda” de
Camilo Castello Branco para o Vestibular sabe do que estou falando.

A Barra Funda se tornou um típico distrito industrial. Grandes galpões foram construídos, transportadoras se
instalaram lá, aproveitando, além da proximidade com a ferrovia e facilidade de acesso, o terreno plano, na
várzea do Tietê. Mas o tempo foi passando e a vocação industrial paulistana foi diminuindo. A cidade e o país
se transformaram, e a vocação de São Paulo passou de pólo industrial para uma cidade global, centro
econômico, financeiro, de comércio e serviços. Uma metrópole moderna, porém com muitos problemas de
infra-estrutura e planejamento urbano. A população mais pobre foi sendo empurrada para as periferias, e as
regiões mais centrais foram se despovoando.

A Barra Funda é sintomática deste processo. Com a grande maioria de seus galpões e indústrias desocupados,
se tornou quase um bairro fantasma, principalmente à noite. Os preços dos aluguéis despencaram. Moradores
de rua se espalhavam pelas calçadas. Então algo aconteceu. Um grupo de jovens empreendedores e amantes
da noite e da boa música começaram a pensar em instalar seus novos bares e clubes noturnos em áreas
diferentes das tradicionais, como a Vila Madalena, Jardins e Vila Olímpia. Um lugar com charme urbano,
aluguéis baixos, fácil acesso e sem problemas com os vizinhos. Então descobriram a Barra Funda.

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Talvez os primeiros desbravadores da região foram os sócios da Casa Belfiore, botequinho rock and roll com
bons sons saindo dos discos de vinil, decoração criativa, ótimos rangos e excelentes cervejas importadas e
artesanais, que abriu na rua Souza Lima, bem próximo da linha do trem. O sucesso do botequinho fez com
que o ambiente aconchegante ficasse muito caótico, e a galera desencanava de comer os excelentes
hambúrgueres e porções da casa. Então os sócios abriram o CB Bar, num galpão da rua Brigadeiro Galvão, a
poucas quadras dali, que também faz muito sucesso com a proposta mais balada, com clima de bar americano
dos anos 50, shows de bandas de rock independente e boas discotecagens. Com a abertura do CB, os
hambúrgueres que deram fama à Belfiore migraram pra lá, e o botequinho se transformou num bistrô rock
com ótimos pratos do dia. Agora acontece o inverso, o CB parou de servir comida e os burguers voltaram à
Casa Belfiore24. Enfim, ambos os lugares valem uma visita, pra quem gosta de boa comida, boa música e boa
cerveja.

Mas o meu lugar preferido na Barra Funda é sem dúvida o Berlin. O pequeno clube, com decoração estilosa
onde se sobressai o papel de parede psicodélico, poderia fazer parte da cena noturna de qualquer uma das
principais cidades do mundo, como a capital alemã de quem empresta o nome. O climinha underground é
garantido pelos sofás e abajures na “salinha” de entrada, as mesas e cadeiras antigas, o balcão de madeira
envernizada, o palco quase na altura da pista, com paredes de madeira para isolar o som, e pelo quintalzinho
dos fundos, com paredes grafitadas. O Berlin abre as terças, sextas e sábados, sempre com shows ao vivo e
bons DJ's. Nos outros dias rolam festas fechadas e o lugar também funciona como estúdio de gravação, além
de ter sido cenário de curta-metragens e do clipe “Doidão”, da boa banda paulistana Rock Rocket. As terças-
feiras rola o projeto mais legal na minha opinião, o Jazz Nights.

Da primeira vez que fui lá, o projeto ainda estava no começo e não pagava nada pra entrar, e a cerveja de
garrafa tem preços módicos. Hoje cobra 5 reais de couvert, muito justo. Fomos lá fazer a cerca-frango, apesar
do Berlin fugir do perfil boteco pé-sujo que caracteriza a cerca, mas não é nada mal variar um pouco e
conhecer um lugar novo e interessante, certo? É o que eu acho, embora alguns “fundamentalistas” cerca-
franguenses aleguem o contrário.

Mas o fato é que balada às terças-feiras realmente são coisa pra profissional. Essas primeiras vezes em que
fui lá nas Jazz Nights ainda tava trabalhando no clipping, o que fez com que aproveitasse o conforto dos
sofazinhos do Berlin pra dormir gostoso. A freqüência do Berlin nestas noites é uma galera claramente
formada por jornalistas, produtores culturais, designers e outros jovens profissionais de Comunicação e Artes

24 http://vip.abril.com.br/comida-e-bebida/2009/05/cardapio-novo-na-casa-belfiore.shtml
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que certamente não precisam acordar cedo para trabalhar no dia seguinte. As bandas que se apresentam
costumam surpreender, mandando um jazz moderno e dançante.

Outro lugar interessante aberto nos últimos anos na Barra Funda é a Livraria da Esquina, localizada na rua do
Bosque. Apesar do nome e de ter livros para vender, a vocação do lugar é a balada e a música mesmo. Aberta
por Heitor Costamilam e Denise Andriole, tem a proposta de mostrar música boa, independente do estilo. E,
com preços módicos, cerveja de garrafa e boas porções e sanduíches saindo a noite toda, tem lotado de gente
com festas como a já famosa Festa Mágica, criação dos DJ's Fabs Grassi e Cláudo Szynkier, que acontece
mensalmente, e a Bendita, comandada pelo veterano DJ Theo Werneck. Enquanto escrevia este capítulo me
dei conta que ainda não conhecia a Livraria da Esquina, falta que corrigi ao prestigiar uma edição especial da
Bendita que anunciava um “São João Cigano”, com discotecagens de André Abujamra e Tom B trazendo o
que há de mais dançante na música do leste europeu, no mesmo esquema da já citada Carnivale Balkan.
Comuniquei a intenção de ir lá para o comparsa Zílio que prontamente aceitou, e rumamos para a Barra
Funda numa noite fria de um sábado junino.

Mostrando a este DJ amador que vos fala com quantos pauzinhos se faz uma discotecagem PROFISSA, os
três caballeros Theo Werneck, André Abujamra e Tom B puseram a pista pra tremer com uma seleta sonora
que aqueceu a Livraria e espantou a friaca, reforçada pela dose de cachaça mineira que tomei pra encarar a
noitada. E dancei como não dançava fazia tempo. Mesmo assim cansei umas duas horas antes do Zílio, este
“coelho da Duracell” das baladas, ser vencido, ou melhor, vencer o tarimbado Théo, que parou de tocar antes
do Zílio parar de dançar. Cheguei em casa as 7 da manhã, com dia claro e disposição para escrever estes
parágrafos.

Mas talvez o projeto mais ambicioso a abrir na Barra Funda recentemente é o Clash Club. Batizado em
homenagem à grande banda punk inglesa The Clash, o clube é um dos mais profissionais e bem
administrados da cidade. Foi aberto pelos sócios do núcleo de festas de música eletrônica Circuito, que já
atuava trazendo para o Brasil alguns dos mais importantes nomes do Techno no mundo, em festas ao ar livre.
Os problemas burocráticos e logísticos de fazer estas festas ao ar livre, principalmente após o início de uma
“cruzada” contra as festas Rave no estado de São Paulo, fez com que o pessoal da Circuito abrisse o Clash.

Um dos sócios é o jornalista e produtor cultural carioca André Barcinski, velho conhecido da galera que curte
o melhor do rock and roll alternativo. Barcinski começou a produzir shows de bandas independentes
internacionais e nacionais ainda nos anos 80, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Na década de 90 trabalhou

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no saudoso Notícias Populares, um dos principais celeiros de bons jornalistas do Brasil, que infelizmente
fechou as portas em 2001. Criou o antológico programa de rádio Garagem, inicialmente na rádio Gazeta FM
e que teve sua segunda encarnação na Brasil 2000, com os colegas de NP Paulo Cesar Martin e Álvaro
Pereira Jr. É ainda autor dos livros Barulho, sobre a cena da música grunge de Seattle, no noroeste dos
Estados Unidos, que explodiu no início dos anos 90 e ele acompanhou de perto, como correspondente da
revista Bizz, e de Maldito: A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, biografia do lendário cineasta de terror
paulistano criador do personagem Zé do Caixão. Barcinski também co-dirigiu o documentário de mesmo
nome sobre Mojica, premiado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos, e é co-autor do livro Sepultura:
Toda a História, sobre a banda brasileira de Heavy Metal.

Como ouvinte do Garagem, conheci o Barcinski nas saudosas festas do programa. Sempre antenado ao que
de melhor acontecia na música mundial, ele começou a ver a força da música eletrônica, principalmente da
variante Hard Techno, talvez a mais “rock and roll” do gênero. Jornalista com bom trânsito pelas editorias
culturais de jornais, revistas e internet, resolveu mudar de vida e se dedicar principalmente à produção de
festas e shows. “Em 2001, depois do fim de um site para o qual eu trabalhava, eu decidi montar uma empresa
– a Circuito – para organizar shows e festas de música eletrônica” explica Barcinski em entrevista
gentilmente cedida para este trabalho.

A Circuito fez sucesso, graças principalmente à atenciosa curadoria de Barcinski, que trouxe alguns dos
melhores DJ's e artistas do Techno mundial em eventos excepcionalmente bem organizados, num meio em
que o amadorismo ainda prevalece. Mas os problemas eram constantes, principalmente devido à dificuldade
para obtenção de alvarás para a realização das festas, que piorou depois do início da difusão pela imprensa da
percepção de que as Raves eram um antro de tráfico de drogas e nada mais. “Tirar alvará para festas é um
mistério. Cada cidade tem suas leis, e muitas leis são draconianas, feitas para que ninguém consiga cumpri-
las. Falta uma política reguladora para o setor”, afirma Barcinski.

Em 2006 a Circuito tomou a decisão de abrir um clube em local fixo, e daí nasceu o Clash. “O Clash foi uma
extensão natural do trabalho da Circuito. Quando percebemos que as festas ao ar livre estavam fadadas a
desaparecer, por causa de políticas públicas contrárias a elas, vimos que a única saída para o nosso negócio
seria ter uma casa noturna em local fixo. Economicamente, ter um local seu é muito mais seguro e barato que
fazer festas esporádicas”, explica. A escolha da Barra Funda foi natural, segundo Barcinski. “A Barra Funda
foi escolhida por diversos fatores; proximidade, facilidade de acesso, aluguéis baratos, muita oferta de
imóveis e poucos problemas com vizinhos, por ser uma área ainda industrial. Estamos muito felizes com a

98
escolha.”

O imóvel onde funciona o Clash é um antigo galpão construído nos anos 30, bem próximo à linha do trem, e
a reforma feita pelos novos inquilinos manteve algumas características originais do prédio, como a fachada e
as estruturas de madeira do teto, mas oferecendo o necessário conforto aos freqüentadores. O sistema de som
e de iluminação e o atendimento são de primeira qualidade, assim como as atrações musicais, que priorizam a
música eletrônica, mas abrem espaço para Hip Hop, Ska, Rock e Música Brasileira, com shows de grandes
bandas como a grunge Mudhoney, os decanos do Ska Skatalites, a sensação indie Little Joy e os grandes
representantes do manguebeat Mundo Livre S/A, entre muitos outros.

Fig. 13 - Fred Zero-Quatro, vocalista do Mundo Livre S/A, em


show no Clash em junho de 2008

Credenciado como um dos mais importantes clubes noturnos de São Paulo na atualidade, e vencedor por dois
anos consecutivos do prêmio de melhor clube de São Paulo pelo jornal Folha de S. Paulo, o Clash e Barcisnki
são ponta-de-lança de um movimento das casas noturnas paulistanas para obter maior reconhecimento por
parte do Poder Público, o projeto Noite Viva25. “O Noite Viva surgiu da necessidade de os clubes terem um
contato mais direto e rápido com o Poder Público. Eu acredito que o Poder Público e a sociedade em geral
ainda têm uma idéia errada sobre a “noite”. Eu acho que a noite de São Paulo é uma das principais forças
econômicas da cidade, e precisa ser tratada como tal. São Paulo não tem praia, tem poucos parques, poucas
opções de lazer. Os clubes são a nossa praia...”, explica Barcinski.

Realizado no aniversário de 454 anos de São Paulo, em 25 de Janeiro de 2008, a primeira edição do Noite

25 http://rraurl.com/cena/4876/Nasce_o_projeto_Noite_Viva
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Viva juntou alguns dos principais clubes da cidade, como o Clash, Vegas, Studio SP, Berlin, Funhouse,
Glória, Lov.e, entre outros, em uma programação conjunta para mostrar a força cultural e econômica da vida
noturna em São Paulo. Barcisnki bate na tecla de que o profissionalismo e a boa qualidade musical das casas
são fatores que levam ao maior respeito em relação à cena noturna. “Todas as casas noturnas que tiveram
uma vida longa foram as que investiram em boa música, independentemente do gênero. Muitas casas fazem
uma bela decoração, Mas não se preocupam tanto com a música. Só que o público, a meu ver, cansa de ver
uma decoração bonita. Se não tiver boa música, o clube não dura”, diz.

A complicada relação das casas noturnas com o Poder Público é amplamente considerada um dos principais
empecilhos para a evolução da vocação noturna de São Paulo, que tem uma cena considerada de alto nível
mas que ainda é vista com maus olhos por grande parcela da população, que vê as casas noturnas como “antro
de drogados e hedonistas desvairados”, segundo a matéria do site especializado Rraurl. Eu bem sei a quase
impossibilidade de se obter um alvará de funcionamento, pelas minhas desagradáveis experiências com a
Subprefeitura de Pinheiros quando tentava abrir meu bar. Na gestão de Gilberto Kassab houve uma impressão
generalizada de que houve um aumento exagerado da fiscalização, que já fechou diversos bares e casas, entre
eles o “acima de qualquer suspeita” Studio SP.

A questão do barulho e transtorno para os vizinhos das casas noturnas é um dos nós que travam essa
discussão. Eu mesmo tenho que lidar com uma casa noturna que abriu na frente do prédio onde moro, na Vila
Olimpia, onde é quase certo rolar alguma briga, gritaria, carros cantando o pneu e uma baderna generalizada
nas noites de sexta e sábado. Numa destas noites, o porteiro da noite do prédio foi agredido por uns animais
durante uma briga que começou na rua e acabou no hall de entrada do prédio. Certamente esta casa em
específico não deve ter alvará, e repetidas vezes a polícia foi chamada para autuar o estabelecimento, que
contudo continua aberto e causando transtornos aos vizinhos.

Aí entra a questão da divisão geográfica da cidade. Em bairros residenciais certamente não se deve permitir a
abertura de casas noturnas, mas outras regiões da cidade, como as já citadas Barra Funda, Augusta e região
central, tem uma vocação clara para a boemia, e geralmente sem vizinhos para atrapalhar. Além disso, temos
as polêmicas recentes como a proibição do fumo em locais fechados e a chamada Lei Seca para conter os
acidentes de trânsito provocados por motoristas embriagados. Ambas inciativas que se baseiam pela Saúde
Pública, mas deixam os trabalhadores e empresários da noite de cabelo em pé com a possibilidade de queda
do número de freqüentadores. Mas como desatar este nó?

100
Para André Barcinski, só com políticas claras e pragmáticas: “Falta uma política pública para a noite. Se o
governo quer reduzir o número de pessoas dirigindo embriagadas porque, em vez de apenas multar as
pessoas, não se estende o horário de metrô e ônibus, por exemplo? Por que não há uma linha de ônibus 24
horas que circule pelos bairros mais boêmios?”, pergunta.

Enquanto isso, a noite paulistana vai resistindo e aumentando sua participação no PIB da cidade, e é hoje um
dos principais fatores de atração turística para a cidade. “Não conheço nenhuma outra cidade do mundo, nem
Berlim, que tem tantas opções de lazer noturno. Se você gosta de música eletrônica, rock, samba, forró ou
tango, sempre vai ter algo para fazer em São Paulo”, resume Barcinski. Apesar de tudo, São Paulo é uma
cidade noturna.

Talvez a questão que mais emperre esse reconhecimento da importância da vida noturna em São Paulo é a
incessante controvérsia sobre o uso de drogas nas baladas. No próximo capítulo gostaria de “viajar” um
pouco neste assunto que tanto me fascina, as substâncias alteradoras de consciência, e mostrarei porque acho
que as drogas nunca vão acabar, e a maneira mais sensata de se lidar com elas é pela legalização de seu
consumo, regulamentação da venda e políticas de redução de danos.

101
Capítulo 3 – Você tem que lutar pelo direito de fazer festa: A questão das drogas ilícitas na noite

“O ácido não é para qualquer cérebro. Apenas os saudáveis, felizes,


completos, belos, esperançosos, bem-humorados, velozes, deveriam buscar
essas experiências. Este elitismo é totalmente auto-determinado. A não ser
que você seja auto-confiante, auto-dirigido, auto-selecionado, por favor,
abstenha-se” (Timothy Leary)

Mesmo na Rolling Stone, que era jornalística em sua abordagem, a maneira


aceita de falar sobre drogas psicodélicas era a maneira de Timothy Leary,
que era essencialmente uma experiência espiritual. Hunter escreveu sobre o
fato de que, às vezes, quando você toma ácido simplesmente fica totalmente
fodido. Aquilo foi uma lufada de ar fresco.” (Charles Perry, chefe de
revisão da Rolling Stone quando da publicação de Fear and Loathing in
Las Vegas)

Sim amigos, finalmente vamos falar de verdade sobre as drogas aqui. Vocês que agüentaram todo este papo
furado até agora terão sua recompensa. Afinal, o fascínio da humanidade em relação à estas substâncias
alteradoras de consciência confunde-se com o próprio início da humanidade como a entendemos. Alguns
autores mais radicais, como o escritor e filósofo norte-americano Terrence McKenna, um dos mais
importantes gurus psicodélicos do século XX, chegam a afirmar, como na teoria do “Macaco Doidão”, que o
ser humano evoluiu em sua capacidade cerebral pelo consumo de cogumelos alucinógenos pelos primatas
hominídeos ancestrais do Homem.

Bem, essa teoria é no mínimo controversa, mas há indícios arqueológicos claros de que a humanidade utiliza
uma variada gama de substâncias alteradoras de consciência desde o início da civilização. E a humanidade se
relacionou de forma razoavelmente harmoniosa com estas substâncias através dos séculos, apesar de um ou
outro probleminha aqui e ali. A Cannabis Sativa é conhecida desde ao menos o segundo milênio antes de
Cristo, quando era utilizada como remédio na medicina tradicional da China Antiga, e há indícios que seu uso
remonte até 10 mil anos antes de Cristo. A Cannabis era amplamente utilizada pelos antigos Hindus da
civilização Védica nas regiões onde atualmente ficam a Índia e o Nepal. A planta foi se espalhando pelo
continente asiático e chegou à África e à Europa.

102
A folha de coca, matéria-prima da cocaína, é utilizada pelas populações indígenas da região dos Andes, na
América do Sul, também desde tempos imemoriais. Outras populações indígenas das Américas utilizam
substâncias como a Ayahuasca, composto de duas plantas que contém um dos mais potentes enteógenos
conhecidos, o DMT, o Peyote, cacto de onde é extraída a Mescalina, e cogumelos “mágicos”, que contém a
substância Psilocibina. O ópio, extraído das flores de papoula, de onde são sintetizadas a morfina e a heroína,
também tem seu uso conhecido desde a antiguidade, principalmente como anestésico.

Até o final do século XIX estas substâncias eram utilizadas de forma tradicional, principalmente como
remédios ou acessórios em cerimônias religiosas e espirituais, embora seu uso recreativo também ocorresse,
assim como ocorre com o álcool, utilizado pela humanidade desde o início da civilização, e o tabaco, nativo
das Américas, que ganhou grande popularidade em todo mundo.

A moderna “guerra às drogas” pode ter sua origem traçada à proibição do ópio na China, no século XVIII,
fato que não impediu o crescimento constante de seu consumo. Em meados do século XIX a China tinha um
superávit comercial em relação ao Império Britânico, diminuindo as reservas financeiras britânicas. Isso
levou a Inglaterra a incentivar o uso do ópio, produzido em suas colônias na Índia, entre os chineses. A
recusa do Imperador chinês a permitir a entrada deste ópio no país levou às duas Guerras do Ópio, em 1839 e
1858, pelas quais o Império Britânico expandiu sua influência na China. O consumo e o vício entre os
chineses continuou crescendo até atingir o nível de epidemia, e as migrações de chineses para outros países
levou o ópio, consumido nos famosos “antros de ópio”, para o Ocidente. Entre o final do século XIX e início
do século XX diversos países proibiram o ópio.

Na mesma época a cocaína, que tinha entre seus entusiastas o pai da psicanálise Sigmund Freud, e era
vendida de forma legal, produzida pelos laboratórios Parke Davis nos Estados Unidos, e utilizada em bebidas
como o vinho Mariani e a primeira fórmula da Coca-Cola, também foi considerada ilegal. Os efeitos do vício
em cocaína começaram a ficar claros, e uma campanha que mostrava os negros americanos como viciados em
cocaína levou à sua proibição no país em 1914, através do Harrison Narcotics Tax Act.

A Cannabis, ou Marijuana, como ficou conhecida nos Estados Unidos, era amplamente utilizada pela
população negra e pelos imigrantes mexicanos. Músicos de Jazz, como Louis Armstrong, eram entusiastas da
erva. Na década de 30 uma forte campanha contra a marijuana varreu os Estados Unidos, que vinham da
fracassada tentativa da proibição das bebidas alcoólicas com a Lei Seca. O uso da marijuana era bem menor e
mais restrito às populações negras e hispânicas, e a estigmatização do seu uso, disseminada por publicações

103
sensacionalistas, levou à proibição da maconha nos Estados Unidos em 1937. Em poucos anos estas drogas
foram proibidas na maioria dos países do mundo.

As drogas psicodélicas, especificamente os cogumelos que contém a psilocibina, a Ayahuasca e o Peyote,


continuavam sendo usadas de forma restrita pelas comunidades indígenas que restavam, após o quase colapso
de suas civilizações pela colonização das Américas. Em 1938 o químico suíço Albert Hoffman, então
pesquisador dos laboratórios Sandoz, baseado na cidade da Basiléia, sintetizou pela primeira vez a
Dietilamida de Ácido Lisérgico-25, ou LSD-25, a partir de fungos denominados Ergot, que cresciam em
sementes de centeio. Por séculos contaminações esporádicas do centeio, usado para fazer pão, produziu casos
de convulsão, histeria e alucinações em populações afetadas.

Hoffman pesquisava novos medicamentos para estimulação respiratória e circulatória. A princípio pensou
que o LSD-25 não tinha utilidade prática e o deixou de lado. Mas em 16 de abril de 1943, guiado por uma
“forte intuição”, voltou a trabalhar com a substância e acidentalmente absorveu uma pequena quantidade
através da pele, sentindo efeitos “de uma intoxicação prazerosa, imaginação estimulada e estado parecido
com sonho, alucinações visuais caleidoscópicas com os olhos fechados, uma torrente de imagens fantásticas,
formas extraordinárias com cores intensas”.

Três dias depois, Hoffman decidiu experimentar uma pequena quantidade da substância por via oral.
Consumiu 250 microgramas de LSD e mudou o curso da História, no que ficou conhecido como “Dia da
Bicicleta”. Após primeiros momentos aterrorizantes sob efeito do LSD, Hoffman conseguiu raciocinar que a
substância não era tóxica e ele não ia morrer, e aproveitou a forte “viagem”, que contou com um dos passeios
de bicicleta mais fantásticos de todos os tempos. Hoffman considerou a experiência “um renascimento
espiritual”, e começou a fazer experimentos com colegas. Para ele o LSD era um “remédio para a alma”.

Hoffman concentrou seu trabalho na pesquisa com alucinógenos, e sintetizou a psilocibina a partir de
cogumelos encontrados no México. Em 1957 um artigo da revista Life, assinado por R. Gordon Wasson,
mostrava para o grande público o poder místico dos cogumelos mágicos mexicanos e da Psilocibina. A
descrição dos efeitos da substância causou curiosidade em um grupo variado de psiquiatras, dos quais
constavam os professores de Harvard Timothy Leary e Richard Alpert, que foram convidados pelo colega
Anthony Russo para ir ao México experimentar os tais cogumelos.

Leary afirma que as cinco horas após ter tomado os cogumelos foram mais úteis para sua compreensão da

104
Psicologia do que os quinze anos de estudos dedicados que as precederam. Ele e Alpert iniciaram um projeto
de estudo da Psilocibina em Harvard em 1960. Entre alguns dos primeiros “cobaias” da experiência estavam
o escritor britânico Aldous Huxley, autor de As Portas da Percepção e Admirável Mundo Novo, e os
expoentes da Geração Beat Allan Ginsberg, Neal Cassady e Jack Kerouac, que com seu comportamento de
“marinheiro bêbado” provocou em Leary a primeira “bad trip” de sua vida.

Em contato com Albert Hoffman e os laboratórios Sandoz, que sintetizavam a Psilocibina para estas
experiências, Leary e seus colaboradores descobriram o LSD-25, que por ser a mais potente e pura substância
psicodélica conhecida logo ganhou a preferência para os estudos. Leary afirma em sua autobiografia
Flashbacks que nesta época administrou LSD-25 a pelo menos 300 professores e estudantes de Harvard,
artistas, filósofos e escritores, até que o projeto foi cancelado pela administração da Universidade em 1963.
Segundo Leary, as pesquisas mostravam que 75 por cento dos que experimentaram a substância declararam
ter “tido uma revelação” e que “foi uma das experiências mais enriquecedoras de suas vidas”. Também
realizou experiências em prisões e com religiosos, que relataram as mesmas reações de profunda mudança no
modo de pensar e ver o mundo.

Em 1966, com a profusão de casos controversos em que pessoas que supostamente haviam tomado LSD
tentaram se suicidar ou ficaram psicóticas, o governo americano decidiu proibir a venda do LSD, que havia se
tornado o remédio da moda na receita de psicólogos, psiquiatras e psicoanalistas, e ordenou a interrupção de
todas as pesquisas acadêmicas sobre a substância.

Mas o programa do próprio do governo de pesquisa com o LSD e outras drogas psicodélicas, que era focado
no controle mental através da droga e era operado pela CIA, Agência de Inteligência norte-americana, que
existia desde 1953, continuou em andamento. Entre as milhares de cobaias voluntárias deste programa,
batizado de MK-ULTRA, estava o escritor Ken Kesey, que após as experiências sentiu a necessidade de
espalhar as maravilhas do ácido ao mundo, dando origem aos Merry Pranksters e em última análise ao
movimento hippie.

O timing da proibição do LSD foi quase perfeito para que uma grande rede clandestina de produção e
distribuição se formasse para atender aos milhões de cérebros pedindo para ser expandidos durante a
explosão hippie no “verão do amor” de 1967. A partir de 1964, Leary e Alpert, expulsos de Harvard,
contavam com o auxílio financeiro dos herdeiros da fortuna da família Mellon, Peggy, Billy e Tommy
Hitchcock, e seguiu realizando suas experiências com o LSD em uma mansão no estado de Nova York, até

105
ser preso, por porte de maconha, em 1966.

A prisão fez de Leary o primeiro “mártir” da contracultura, e ele foi comparado à Sócrates, preso e
condenado por “degenerar as mentes jovens”. Após ser solto, Leary lançou sua candidatura para o governo da
Califórnia, mas foi preso novamente. Fugiu e se exilou na Argélia, e depois na Suíça. Foi recapturado e
condenado a 95 anos de prisão. Ficou preso na infame prisão californiana de Folsom, onde por algum tempo
foi vizinho de cela de Charles Manson. O presidente Richard Nixon chamou Leary de “o homem mais
perigoso da América”. Na cadeia, Leary fez um jogo com os agentes do FBI que o interrogavam,
aparentemente revelando informações sobre grupos radicais, mas ele alegou que as informações eram de
pouco valor. Ainda assim, o FBI espalhou a notícia de que Leary havia se tornado um informante, o que
arranhou sua imagem pública. Ele foi libertado da prisão em 1976.

Mas o estrago já estava feito. Milhões de jovens mundo a fora seguiram o conselho de Leary para “Turn on,
tune in, drop out”26. E o mundo não seria mais o mesmo depois da turbulenta década de 1960. Essa geração
de jovens nascidos na prosperidade do pós-Segunda Guerra, classificados pelo próprio Leary de “geração dos
pais permissivos”, resolveu botar pra quebrar. Mas não contavam com a reação das forças retrógradas, como
a “maioria silenciosa” conservadora que elegeu Richard Nixon para a presidência dos Estados Unidos em
1968, e as forças que instalaram ditaduras militares em diversos países latino-americanos, além da própria
fragmentação e divergências internas entre os diversos grupos que formavam esta contracultura.

Em 1971, quando Hunter S. Thompson escreveu Fear and Loathing in Las Vegas, a contracultura já se
encontrava em uma certa decadência, com seus membros cada vez mais se afundando na auto-indulgência e
usando drogas cada vez mais pesadas. No livro, Thompson critica a postura de Leary.

“Todos aqueles patéticos e ansiosos fritos de ácido que pensaram que


poderiam comprar Paz e Entendimento a três dólares a dose. Mas sua
perda e fracasso são nossos, também. O que Leary levou pro buraco
consigo foi a ilusão central de todo o estilo de vida que ele ajudou a criar...
uma geração de aleijados permanentes, exploradores fracassados, que
nunca entenderam a essencial velha falácia mística da Cultura do Ácido: a
presunção desesperada de que alguém – ou ao menos alguma força, está
cuidando da luz no fim do túnel.” (Thompson, 2007)

26 “Se virar, sintonizar-se e cair fora”, em tradução livre


106
O ácido, os cogumelos, a maconha, começaram a ser cada vez mais substituídos pelas anfetaminas, heroína,
cocaína... As cenas hippies urbanas entraram numa espiral de degradação, alguns resolveram ir pro meio do
mato montar comunidades alternativas e viver mais de acordo com as regras da natureza, e muitos, após
alguns anos de “desbunde” voltaram a seguir suas vidas normais. Mas a influência da contracultura se
manteve no espírito dessa geração, que criou, entre outras coisas, o movimento ambientalista, novas formas
de relacionamentos amorosos e sexuais, e a geração que criou a computação pessoal e a Internet (Steve Jobs,
o guru da Apple, por exemplo, era um hippie que teve a idéia para o computador pessoal após uma viagem da
ácido).

Mas a partir dos anos 70, a relação da sociedade com as drogas mudou de forma irreversível. É clara, baseada
em diversas pesquisas, a percepção de que o proibicionismo não ajudou a diminuir o número de usuários
destas substâncias, aliás muito pelo contrário. Em relação à maconha, números mostrados em livros e no
excelente documentário Grass, entre outros, mostram que o número pessoas que experimentaram maconha
nos Estados Unidos subiu de 1 milhão em 1965 para 24 milhões em 197227. O presidente democrata Jimmy
Carter chegou a considerar a descriminalização da erva, mas seu sucessor, o republicano conservador Ronald
Reagan recomeçou a “guerra às drogas” com força total, alocando bilhões de dólares em recursos para
combater os entorpecentes, o que não impediu que o consumo seguisse crescendo. Nos anos 80 o tráfico da
cocaína gerou verdadeiros impérios do crime, como o colombiano Cartel de Medellín, liderado por Pablo
Escobar. Toneladas do pó chegavam aos Estados Unidos, principalmente por Miami, e eram amplamente
utilizados pela geração “yuppie”, de jovens profissionais ambiciosos e cheios da grana, simbolizados pelos
corretores da Bolsa de Valores de Nova York, com seus ternos Armani, carros possantes e sempre prontos
para dar umazinha. Entre a população mais pobre, principalmente negra, se disseminou o uso do crack,
derivado mais barato da cocaína.

No Brasil o roteiro é parecido. A maconha era usada principalmente pelos negros descendentes dos escravos
africanos que trouxeram sementes da danada para o Novo Mundo, e a planta crescia muito bem ao sol do
nordeste brasileiro. No final do século XIX maconha, ópio e cocaína eram vendidos na farmácia. Mas as
autoridades brasileiras não hesitaram em seguir à risca a política proibicionista norte-americana a partir da
década de 30, estigmatizando os usuários como “maconheiros”, marginais, bandidos, malandros... O que não
impediu que nomes importantes da cultura nacional se drogassem. Nelson Gonçalves, talvez o mais popular
cantor no Brasil, se viciou em cocaína e chegou a ser preso por tráfico. O criador da Bossa Nova João
Gilberto é um grande e notório apreciador da maconha.

27 http://www.youtube.com/watch?v=zfiaC-2K1LM&feature=player_embedded
107
E, na década de 60, a geração riponga brasileira caiu de cabeça no “desbunde” tropicalista, do qual fazia parte
o baseadinho nos fins de tarde nas “dunas da Gal” no Posto 9 de Ipanema, as jam sessions movidas à LSD
organizadas pelos Mutantes na Serra da Cantareira, as expedições hippies às praias isoladas do litoral da
Bahia, como Trancoso e Arembepe... E a ditadura militar foi responsável indireta pela criação do principal
grupo organizado de tráfico de drogas no Brasil, o Comando Vermelho carioca, que nasceu da união de
presos políticos e bandidos mantidos juntos no famoso presídio da Ilha Grande, este inferno construído num
paraíso tropical do litoral fluminense.

A partir da década de 80, a força do Comando Vermelho e o surgimento de outras facções criminosas, e a
violência de seus métodos, cresceu de forma assustadora nas favelas cariocas, se utilizando da farta mão de
obra de jovens sem educação e perspectiva de vida, e abaixo das vistas das autoridades, que a princípio
deixavam a coisa rolar. A elite carioca, artistas, profissionais liberais e da comunicação, passou a usar
amplamente a cocaína, apelidada de “brizola” em homenagem ao então governador do estado do Rio.
Histórias como a de João Guilherme Estrella, jovem bem-nascido da zona sul carioca que se tornou um dos
maiores distribuidores do pó de boa qualidade da cidade, contada no livro e filme Meu nome não é Johnny,
são sintomáticas. Na década de 90 explodiu o consumo do crack, principalmente entre a população mais
pobre de São Paulo. Hoje o crack é disseminado no estado de São Paulo, inclusive no interior, utilizado por
exemplo entre cortadores de cana e agricultores.

E hoje é este o paradigma. Depois de quase um século de proibicionismo, o número de usuários aumenta, o
poder econômico, político e o terror do crime organizado se espalham, a corrupção e violência policial
viraram lugar-comum, e ainda assim, com tantas discussões e consenso geral de que esta política
proibicionista não funcionou, a hipótese da legalização avança lentamente, embora nos anos recentes ela
tenha ganho alguma força.

É muito usado o exemplo da Holanda, onde a posse de pequenas quantidades de maconha não é crime e sua
venda é autorizada nos famosos coffee-shops. Outros países europeus já adotam esta postura, e diversos
estados norte-americanos já aprovaram propostas para a descriminalização da maconha para fins medicinais,
embora a lei federal dos EUA ainda considere a erva ilegal.

No Brasil, a versão mais recente da lei anti-drogas prevê penas mais pesadas para o Tráfico e o fim de prisão
por posse de drogas. No entanto, embora estas iniciativas sejam um indício de uma mudança de mentalidade,
enquanto toda a cadeia produtiva de todas as drogas não for tornada legal, regulamentada, taxada e

108
fiscalizada, o cerne do problema não irá acabar. E investidas obscurantistas como a proibição em várias
cidades da marcha em favor da descriminalização da maconha, e corte de verbas para o interessante projeto
de redução de danos focada no consumo de Ecstasy nas casas noturnas, o Baladaboa, mostram o quanto uma
parcela do Poder Público ainda é míope em relação a essa questão.

A partir do fim da década de 1980, com o boom de consumo nos anos 90, o Ecstasy passou a ser a droga
sintética mais consumida no mundo depois da cocaína. A relação do consumo do Ecstasy com a cultura das
Raves e da música eletrônica ganhou as páginas dos jornais, revistas e as telas da televisão, alarmando pais
com histórias de jovens alucinados utilizando uma substância perigosíssima. Volta e meia nos deparamos
com notícias de jovens bem-nascidos, de classe média e alta, que se envolvem com o tráfico do Ecstasy,
geralmente trazido da Europa, onde é barato e abundante nas ruas das principais cidades européias, como
Londres, Berlim e Amsterdã.

Hoje, é possível achar as “balinhas” de Ecstasy e as cartelas de “doce”, LSD, nas “bocas de fumo” mais
“bacaninhas” de São Paulo, localizadas em favelas e cortiços encrustados nos bairros nobres, além das
habituais maconha e cocaína. O crime organizado, no caso de São Paulo representado pelo PCC – Primeiro
Comando da Capital, montou um eficiente esquema que manda a cocaína para a Europa e de lá traz as drogas
sintéticas. Não deixo de pensar na ironia destes jovens excluídos, sem acesso à educação e cidadania, que
formam a mão de obra do tráfico, em contato com as drogas psicodélicas. Como será que reage a mente de
um destes “vida lokas” ao “dropar” um docinho?

Paralelamente a isso, houve um caso em que uma política consistente fez com que o consumo de uma das
drogas mais utilizadas e com maior potencial aditivo, o tabaco, caísse de forma contínua nas últimas décadas.
Esta política não prevê a proibição de tal produto, mas a regulamentação da sua venda, com taxação pesada e
proibição de sua propaganda, e campanhas contundentes de esclarecimento sobre os malefícios trazidos pelo
fumo. Não é preciso ser um gênio para ligar os pontos e perceber que a melhor solução para a questão das
drogas ainda ilícitas é a adoção deste tipo de política.

Enquanto isso, nas baladas paulistanas, a lei que proíbe o fumo em ambientes fechados por enquanto segue
praticamente ignorada, e nos banheiros o consumo camuflado da cocaína rola solto, voltando a ser
amplamente difundido após um período de queda no consumo. Nas festas de música eletrônica, apesar da
crescente pressão da polícia, as balinhas continuam embalando os festeiros que dançam sem parar. E o aroma
da maconha, muitas vezes misturado com o cheiro químico do amoníaco que é usado pelos traficantes para

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conservar, disfarçar o cheiro e fins menos nobres, é presente nos mais diversos ambientes, em shows ao ar
livre, nas pracinhas, ruas, casas, apartamentos e outros lugares acima de qualquer suspeita. Todo dia, por
volta do meio-dia, dois motoboys, esta tão representativa espécie urbana, se sentam na ruazinha detrás do
meu prédio e acendem seu baseadinho de “almoço”, com o aroma invadindo minha cozinha.

E, escrevendo estas linhas, penso em pessoas como meus pais e meus avós, para os quais a percepção sobre
as drogas é a pior possível. Conheço amigos cujos pais, mais sintonizados com a geração riponga, já fumaram
seus bequinhos, e alguns continuam fumando esporadicamente, mas não são poucos os que, como minha
família, só conhece essas coisas pela mídia, e não fazem idéia do que são realmente estas substâncias. O que
será que eles vão pensar quando (e se) lerem estas páginas? Bem, agora é tarde para pensar nisso.

Mas a grande pergunta continua: porque a humanidade usa estas substâncias? Algumas realmente são
altamente nocivas para o organismo e para a mente, outras podem ser de alguma forma muito benéficas para
o indivíduo. Algumas são ilegais e você compra de um criminoso armado, outras, muito mais nocivas, você
pode comprar na farmácia, ou no bar da esquina. Donas de casa entediadas que tomam Lexotan para dormir,
gordinhas que usam anfetaminas para controlar o apetite, senhores distintos que enxugam uma garrafa de
scotch sem perder a classe, moleques cabeludos que fumam um fininho e viajam ouvindo Pink Floyd no iPod,
jornalistas workaholics que dão seus tirinhos para se manter acordados e alertas, aquela gatinha hippie que
dança graciosamente com uma “balinha” na cabeça, o estudante curioso que vai no Santo Daime buscar uma
experiência místico-espiritual, enfim, mudam a substância e o jeito de ser, mas esses componentes químicos
continuam de mãos dadas com as pessoas, como têm sido desde o início da civilização.

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Epílogo: Aqui e agora, a simultaneidade, a sincronia, e tudo o mais...

I celebrate myself, and sing myself,


And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.
(Walt Whitman, Song of Myself) 28

Bem, é domingo, seis de junho de 2009, e eu pretendo ainda hoje finalizar este trabalho, pouco menos de 11
meses depois de ter escrito as primeiras linhas. Foi uma jornada interessante, que começou com a idéia de
mostrar um recorte da vida na maior cidade da América Latina e terceira maior do mundo no final da
primeira década do século XXI. Creio que, apesar de algumas limitações e dificuldades de percurso normais,
consegui cumprir razoavelmente bem esta tarefa.

Mas o mais importante, ao menos para mim, foi a verdadeira auto-psicoanálise que este trabalho me
possibilitou fazer. Todo mundo que escreve sofre no processo de passar para a palavra escrita tudo aquilo que
ele carrega dentro de si, mas no final deste processo o autor se “purifica”, por assim dizer. Ao repassar estas
mais de cem páginas de texto, com mais de 32 mil palavras e mais de 230 mil caracteres digitados, me sinto
infinitamente mais leve, e não apenas porque depois de sete anos e meio de muita emoção, finalmente vou me
graduar na faculdade. Repassando estes últimos sete anos, lembrei de bons e maus momentos, escolhas
acertadas e erradas, e o quanto eu cresci e aprendi neste período.

Creio que o aspecto mais interessante deste trabalho é sua atualidade. Ele está literalmente sendo produzido
em tempo real, em diversas vezes o momento em que escrevi sobre determinada festa, local, situação, o fiz no
“calor dos acontecimentos”. Assim sendo, acho que este epílogo não pode ser outro senão o relato sobre
como, no aperto do final do prazo para a entrega do trabalho, fiz com que este dialogasse com situações que
surgiram nestas últimas semanas.

A primeira destas situações diz respeito à atual greve da USP, que enquanto escrevo estas linhas chega em
sua fase mais aguda. Neste momento faz um mês que os funcionários da Universidade entrarem em greve,
como é de praxe nos meses de maio já há algum tempo, reivindicando reajuste salarial e tendo como bandeira
a demissão por justa casa de um dos diretores do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), o já famoso

28 - “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim mesmo, e o que acredito você deve acreditar, que cada átomo pertencente a mim,
pertence também a você” (Tradução livre)
111
Claudionor Brandão, pela sua participação em greves passadas. Agora, após o fracasso das negociações, do
bloqueio de prédios da Universidade pelos grevistas e muitos ânimos acirrados, a entrada da Força Tática da
Polícia Militar no campus da Cidade Universitária, fato inédito desde a redemocratização do Brasil, acirrou
ainda mais os ânimos e deu motivo para que estudantes e professores da USP decidissem também entrar em
greve. Na terça-feira, 9 de Julho, a tentativa dos manifestantes de bloquear a portaria 1 do campus e
provocações de alguns mais exaltados fizeram explodir um confronto entre os estudantes e a Polícia, com
direito a balas de borracha e bombas de “efeito moral”, fato lamentável e também inédito desde o Regime
Militar.

No íntimo tenho fortes divergências sobre este tipo de ação e como ela é realizada na USP. Creio que muitas
vezes, apesar de reivindicações legítimas, as entidades dos funcionários e estudantes agem de forma a
reforçar o estereótipo da opinião pública de que estes atos são simples baderna de segmentos que são
privilegiados dentro da sociedade, e querem ainda mais privilégios, enquanto no mundo fora da “Bélgica”,
como é apelidada a “ilha” USP, a vida é bem mais dura. O mesmo modelo utilizado desde a década de 60 e já
desgastado é usado, e a maioria tanto da comunidade universitária quanto da sociedade em geral acaba não
apoiando esses movimentos. O “balaio de gatos” de pautas de reivindicação também atrapalha a compreensão
dos motivos dos grevistas, e a dificuldade de comunicação das lideranças destes movimentos não ajuda nem
um pouco.

Mas desta vez torci para que a greve pegasse, e por um motivo dos menos nobres e mais egoístas possíveis:
assim teria mais tempo para acabar este trabalho do jeito que eu gostaria que fosse. E deu certo! Não me
orgulho disto, mas funcionou...

Dentro da ECA a principal discussão dentro deste atual movimento grevista é a já citada reforma na estrutura
física da Escola, que pode acabar com o espaço de convívio tão querido e tão extensivamente narrado aqui,
que é a “prainha”, área verde localizada atrás do prédio principal da ECA, onde fica o Canil, o Espaço de
Vivência, Centro Acadêmico, Atlética, e coincidência ou não, também a sede do Sintusp. Espero que este
espaço tão querido por mim e por tantos outros personagens deste trabalho seja preservado, mas seja como
for, creio que este texto serve como um registro histórico tanto deste espaço quanto de outros cantos da
cidade onde a cultura alternativa floresce. Sempre gostei de História e creio que o trabalho do jornalista e do
historiador tem muito em comum. Já se falou que jornalismo é “História Instantânea”, e creio que este
trabalho cumpre exatamente este papel, como o documentário que ajudei a fazer sobre o Largo da Batata
cumpre a função de registro histórico de como era esta região de São Paulo antes das transformações trazidas

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pelas obras do metrô.

Este trabalho teve ainda outro aspecto importante para mim: ajudou a reafirmar minha crença, abalada por
diversos desgostos, de que o jornalismo é realmente minha vocação. Poucas coisas no mundo me satisfazem
tanto quanto este ato de contar e registrar uma história, e este é o cerne do trabalho do jornalista, apesar de
todos os problemas da profissão que nós tão bem conhecemos. Talvez só minha ocupação paralela como DJ e
produtor de festas me traz a mesma satisfação, e pretendo continuar conciliando estas duas atividades.

Creio que este trabalho configurou-se numa extensa crônica sobre esse recorte da vida na metrópole, e dentro
de um país com tão forte tradição da grandes cronistas, como João do Rio, Nelson Rodrigues, Sérgio Porto,
Rubem Braga, Otto Lara Resende, Joel Silveira, Ivan Lessa, entre tantos outros, a crônica continua bem
representada, principalmente na Internet, com os blogs, que parecem ter sido feitos para este gênero.
Enquanto escrevia este trabalho reli A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, com a precisa descrição
de Joel Siveira sobre a elite econômica e intelectual paulistana na década de 40. Procurei, guardadas as
devidas proporções, também mostrar como vive uma certa elite econômica e intelectual da São Paulo dos
anos 00, claro que longe do brilhantismo de Silveira.

Embora não tenha procurado neste trabalho fazer uma pesquisa rigorosa, acadêmica, sobre a importância
econômica e cultural da vida noturna na cidade de São Paulo, creio que ele mostra de maneira bem clara que
esta importância é maior do que pode-se imaginar à primeira vista, e essa vida noturna deveria ser olhada
com maior respeito e carinho pelo Poder Público e pela sociedade.

Também me satisfaz, olhando em retrospecto estes sete anos e meio de vida universitária, que ajudei a manter
ativa uma certa cultura, que considero ser mais importante do que parece, que podemos chamar de “cultura
ecana”. Como mostrei neste trabalho, a Escola de Comunicações e Artes da USP, apesar de todos os seus
problemas e limitações, foi, é e continuará sendo um dos principais pólos geradores e de discussão da cultura
do Brasil. Ainda bem, não é o único, provavelmente nem é o mais importante ou o mais relevante, mas tem
sua importância incontestável. E, meio sem querer, buscando principalmente nos divertir e aproveitar nossos
anos de juventude, eu e meus colegas conseguimos continuar a manter esta cultura produzindo. Ao ver os
alunos mais novos, principalmente os das Artes, produzindo coisas tão legais, fico duplamente feliz.

Para concluir, sinto que cumpri minha proposta de mostrar o que acho ser o melhor aspecto da cidade onde
nasci e vivi estes primeiros vinte e seis anos da minha vida. São Paulo impregna o corpo de quem aqui vive.

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Exige muito da saúde física e mental. Muitos não agüentam. Mas muitos, milhões, vieram e continuam vindo
para cá fazer a vida. Conheci nestes anos de faculdade muitas pessoas oriundas de outras partes do Brasil que
escolheram São Paulo para estudar e viver. Alguns reclamam, e quando o fazem para mim, sinto uma certa
raiva. Afinal, eu não escolhi nascer aqui, mas aqui vivi e aprendi a amar esta cidade do fundo do meu
coração. Porque estas pessoas que escolheram viver aqui não conseguem ter este sentimento? Bem, talvez
esta seja a natureza mesmo da cidade. Esta relação de amor e ódio. Afinal, em vários momentos eu também
odeio esta cidade. E no presente momento, sinto já estar saturado. Minha própria saúde pede que eu dê um
tempo de São Paulo. E pretendo, agora formado, morar por alguns anos em algum outro lugar do mundo. Não
sei ainda aonde exatamente, só que queria que fosse uma cidade de praia...

Ah, sim... Nesta última semana de feitura deste trabalho outro fato marcante ajudou a moldar os retoques
finais desta narrativa. Na última sexta-feira, 29 de maio, nosso grande grupo de amigos realizamos mais uma
edição da Festa do Vamoaê, que teve uma ótima repercussão e me deixou ainda mais feliz, apesar da canseira
de conciliar esta produção da festa, onde “ralei” para fazer a discotecagem rolar e recebi feliz vários elogios
por ela, com a finalização deste trabalho e o outro trabalho, aquele pra ganhar dinheiro, mais um “frila” desta
vida bandida de jornalista free-lancer. Bem, eu sobrevivi. E, na festa em questão, conheci alguém que talvez
seja o que me faltou nestes últimos sete anos. Tenho sérias dificuldades de manter um relacionamento
amoroso estável, e sempre achei que foi porque ainda não tinha achado “a pessoa certa”. Pois bem, nesta festa
talvez eu tenha encontrado esta pessoa. Pelo menos é o que meu coração me diz. Pode ser que não dê em
nada, mas no momento acho que o destino me reservou este presente nesse momento decisivo da minha vida.

Bem, acho que é isso... Espero que este final não tenha ficado sentimentalóide demais... Muito obrigado a
todos que leram isto até aqui. E muito obrigado a todos que me ajudam nesta jornada. Valeu cambada!

FIM

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