A DISPERSÃO E AS RESISTÊNCIAS NA (DA) AMÉRICA LATINA: A MIMESE CALIBAN1

GEY ESPINHEIRA* ÁLVARO GOMES**

“Não necessitamos da promessa de um final feliz para justificar a nossa rejeição a um mundo que sentimos estar equivocado” (John Holloway) 1. INTRODUÇÃO

Nesses últimos anos temos trazido as reflexões do Instituto de Estudo e Ação pela Paz com Justiça Social (Iapaz) ao Fórum Social Mundial (FSM) e aos encontros locais e regionais que o preparam a cada ano, sob o nosso lema “Paz só com Justiça Social”. A ênfase na paz não é só um desejo e uma esperança, é a busca de um antídoto para a violência do mundo contemporâneo — já que é somente neste que podemos intervir — em estado de guerra, sobretudo depois da implementação da estratégia de guerra permanente proposta pelos Estados Unidos (que, aliás, não é de agora!) em nome do “choque de civilizações” (Huntington, 1997), da tirania do Ocidente sobre o mundo, particularmente o Oriente islâmico, em que o estrategista de Washington declara abertamente em relação aos muçulmanos:

1. Esse texto foi apresentado na Oficina promovida pelo Instituto de Estudo e Ação pela Paz com Justiça Social (Iapaz) no Fórum Social Mundial 2006, realizado em Caracas (Venezuela), entre 24 e 29 de janeiro de 2006. Uma versão em cartilha, publicado pelo Iapaz, foi distribuída no próprio FSM.

Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221

81

CEAS 221_Miolo.p65

81

03.05.06, 13:03

sobretudo. Por isso: paz só com justiça social. na Civilização Ocidental. 2. enfim. e isso justificaria a “guerra justa” e o “estado de guerra permanente” em nome do combate ao terrorismo. da exploração sexual. Mas é importante ver a observação de Weber (1983: 1) no início da “Introdução” ao seu estudo sobre a ética protestante. apoiada no desejo e na ação das multidões e na rebeldia da gente comum. no embate da criminalidade com as forças de segurança. urbana e rural. nossa preocupação se volta para a violência. pretexto extraordinário para justificar relações de comércio e exploração. da criminalidade da segurança institucional contra a sociedade. justiça social como condição para a paz e a paz como um pacto social civilizado. das Cruzadas à expansão marítima dos impérios europeus. 2003). efervescência da heterogeneidade social e cultural de seu povo. a mais excluída. e sob a bandeira do cristianismo. Folha de S. haverem aparecido fenômenos culturais dotados (como queremos crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado”. como tal. O Ocidente se quis universal e. configurando uma realidade mortal que faz do país o mais violento do mundo sem estar em guerra ideológica declarada. a maior vítima de homicídios e outras formas de violações dos direitos humanos. a mais negra. Lima. a situação é posta como “choque de civilizações”. 5-8. p. 82 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. Por isso.06. Internamente ao Brasil. Cf.Gey Espinheira e Álvaro Gomes Parece-me altamente prioritário que europeus e americanos reconheçam o que têm em comum e tentem elaborar uma estratégia para lidar de forma compartilhada com a ameaça que o islamismo militante representa para suas sociedade e para sua segurança2 A ideologia do Ocidente há muito foi elaborada e pôs suas estratégias em prática. Na versão contemporânea.05. destacando a combinação de fatores “a que se pode atribuir o fato de. e justiça social como prioridade e razão de todas as lutas de emancipação das classes subalternas e uma nova visão de mundo cosmopolita. 13:03 . mas de inquietude e criatividade. submeter o resto do mundo. É. 7 de março de 2004. de tudo o que decorre da corrupção que corta transversalmente o país. São Paulo. Paulo. nas disputas de territórios do tráfico de drogas e do jogo de azar. não de harmonia e quietude. Caderno Mais!.p65 82 03. na universalidade das classes sociais e de seus espaços geográficos. a juventude brasileira. e somente na Civilização Ocidental. a mais pobre. como foram os casos dos impérios português e espanhol (cf.

A segunda metade do século XX foi para esse continente a sombra das ditaduras que o Império Norte-Americano financiou e estimulou. Aceitamos o tempo e o lugar. é um botar de lenha na fogueira para aquecer nossos corações e fazer aflorar a não-identidade sob a identidade que nos vela. sem as tradicionais fronteiras dos métodos e dos departamentos que as abrigam. portanto.p65 83 03. trabalhamos em dois campos da realidade: o da teoria das ciências sociais (sociológica. A liberdade é o que aclarando. como diria Heidegger (2001: 28) ao falar do desencobrimento. dispomos o mundo. a ficção converte em volume e descontinuidade o linear com que. Somos gente comum. encobre e cobre. tampouco a pretensão de ter ido ao fundo das discussões dos autores abordados. Na concepção de Lima (2003: 18). sendo que esta última totaliza as demais. E vale citá-lo mais propriamente a respeito da liberdade: A liberdade do livre não está na licença do arbitrário nem na submissão a simples leis. não da quietude da razão”. a dramatiza e metamorfoseia. E mais: “Não necessitamos da promessa de um final feliz para justificar a nossa rejeição a um mundo que sentimos estar equivocado”. o mundo. histórica e política) e o da ficção. na vida cotidiana. somos rebeldes! 2. como o retirar o véu que vela.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban Fazemos esta Oficina sem a presunção científica. as limitações de uma oficina de reflexão sobre a América Latina. quando se observava o declínio da Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 83 CEAS 221_Miolo. lembrando o que nos disse John Holloway (2003: 9-11): “O pensamento nasce da ira. em vez de pôr o mundo entre parênteses Sem sermos conclusivos nem almejar um fim. o texto ficcional. em vez de dar as costas à realidade. 13:03 . a não ser aquela explorada no passado: a do subdesenvolvimento. À SOMBRA DO CONDOR SINISTRO A América Latina apresenta uma diversidade de situações muito acentuada para encontrar entre os países uma base comum de identidade. Por isso mesmo.05.06. a ficção transtorna as dimensões do mundo. isso que está aí. em cuja clareira tremula o véu que vela o vigor de toda a verdade e faz aparecer o véu como o véu que vela. A liberdade é o reino do destino que põe o desencobrimento em seu próprio caminho É isso aí! Vamos ao trabalho de desencobrimento. confessando que o nosso principal objetivo é jogar com antagonismos e inquietações e não com verdades e certezas.

no Paraguai (1954-1989). em que a nação “protetora”. Sustentando ditadores e ditaduras por décadas a fio. sem a necessidade de uma intervenção externa direta. na mais ostensiva política de exploração dos países subdesenvolvidos através das empresas e do apoio direto do governo estadunidense. O império norte-americano quer dominar o mundo com suas tropas compostas por cerca de um milhão e duzentos mil homens e gastos militares da ordem de US$ 300 milhões. da República Dominicana. de Juan Domingo Perón. a população não tem a dimensão da “maldade de seus governos” contra os povos do mundo inteiro. desde o Panamá até o Irã. com intervenção. como se verificou com Rafael Trujillo. O documento A estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos. O processo de descolonização coincidia com o de totalitarismo na “América para os americanos”. A ingerência dos EUA nos negócios dos países da América Latina foi ostensiva e militarmente apoiada. Mas o mesmo não se pode dizer dos sucessivos ditadores que ocuparam a “presidência” do governo brasileiro ao longo de vinte anos de regime de exceção. na República Dominicana. A listagem não inclui o Chile. na Argentina (1945-1955) e Getúlio Vargas (1930-1945). 13:03 . sem falar nas sucessivas tentativas frustradas de eliminar Fidel Castro em Cuba.05. que não hesita em anunciar a política unilateral dos EUA. da Nicarágua e do Haiti. São mais de 250 incursões militares desde 1947-1948. prevê a denominada “Doutrina Bush”. algumas de grandes proporções.06. de Alfredo Stroessner. em que ficou marcada a famosa declaração do embaixador brasileiro em Washington (EUA). como se pode verificar nos casos de Cuba. no uso de suas possibilidades de alianças nacionais. que foi uma operação da Central de Inteligência Americana (CIA) e não um ataque militar. tal como acontecera em alguns países. em 11 de setembro de 2001. Ao se referir ao ataque às Torres Gêmeas nos EUA. onde não se pode excluir a presença militar norte-americana direta. o ex-governador do Estado da Bahia. a exemplo do Panamá. o escritor norte-americano Gore Vidal (2003: 160) afirma que os estadunidenses não merecem os governos dos últimos quarenta anos. Panamá e tantos outros países. desenvolveu formas eficazes de intervenção através das próprias forças armadas nacionais. Nicarágua. Segundo ele. mesmo quando o personalismo dos ditadores criava embaraços para a diplomacia americana. inclusive militar. que se tornou público em setembro de 2002. no Brasil.p65 84 03. general Juracy Magalhães: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.Gey Espinheira e Álvaro Gomes Europa no imperialismo colonial na África e na Ásia. em qualquer país do 84 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. ao fim de uma tirania de trinta anos (19301961).

agora. em nome da moralidade de honrar compromissos com empréstimos ou pagar royalties e coisas tais. as culturas e se consolidam como realidades estranhas. representado pelos EUA. sem contar que 46% de sua população sofre de algum tipo de distúrbio mental ao longo da vida.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban mundo para “evitar atos hostis de seus adversários. estes tenham rostos: basta que tenham contas para as quais vão as riquezas coletivamente produzidas. dos juros e dos capitais financeiros arrasta as riquezas das nações pela drenagem gulosa e permanente dos países centrais. agora tornados devedores.p65 85 03. na opinião do presidente norte-americano. impedindo a concorrência dos países pobres e emergentes. provocando sucessivos e monstruosos endividamentos que escravizam povos inteiros.06. além de não resolver os problemas internos dos EUA. Viver: mente & cérebro. que. agindo preventivamente”. Ediouro. portanto.05. 3. E tudo isso diante dos subsídios internos que os governos dos países ricos propiciam aos seus produtores. como exclusão social. descoladas das causas. qual seja.. XIV (155). Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 85 CEAS 221_Miolo. 2005. violência. A Doutrina Bush prevê a divisão do mundo em dois blocos: o eixo do “bem”. das dívidas. Essa política de dominação dos povos do mundo inteiro tem trazido sérios prejuízos à humanidade. difíceis. São Paulo. persistam os efeitos? E que os efeitos ocultem as causas?”. quando interroga: “Não é extraordinário que. mas cumprindo a mesma função. trabalhar para a acumulação dos senhores sem que. dez. desemprego e desigualdades sociais. seria formado pelos países que contrariam os interesses estadunidenses. e o eixo do “mal”. 13:03 . desaparecidas as causas. Assim é quando se pensa que os fatos posteriores ou atuais são um necessário encadeamento de efeitos de causas localizadas num outro tempo. de ser compreendidas. A UNIÃO DESFAZ A FORÇA É importante registrar as teses desenvolvidas por Immanuel Wallerstein (2004) e analisar o momento atual em que esperanças são depositadas nas lideranças 3. Cf. com um considerável aumento no número de pessoas com doenças mentais nos últimos vinte anos3. A complicada teia econômico-financeira da moderna economia cambial. É importante acompanhar o desvelamento feito por Octavio Paz (1992: 69). sem se dar conta das inflexões e refrações que certos fatos sofrem quando atravessam o tempo.

sendo que os dois últimos expressam um enfrentamento à política externa norteamericana. dentre os quais Antonio Negri e Giuseppe Cocco (2005: 19). o Brasil é o país mais desigual da América Latina e manteve-se nessa triste posição ao longo de todo o século XX”. com ênfase: “Se o continente latino-americano é o mais desigual do mundo. fechando as possibilidades de participação democrática em seus países (e no Brasil. E devemos notar que. sobretudo dos grupos étnicos e das classes subalternas. 13:03 .05. nos 80 México e Brasil desapareceram destas listas. ao lado da Coréia e de Taiwan. contudo. os anos de chumbo das ditaduras militares (2004: 11. se nos anos 70 a lista dos NICs [Novos Países Industrializados] principais incluía normalmente o México e o Brasil. destacando-se Luiz Inácio Lula da Silva (operário sindicalista brasileiro). as teses de Wallerstein não se apresentam nada animadoras diante do entusiasmo. Ante essa situação constrangedora que alimenta e reproduz a miséria de milhões de pessoas.06. respectivamente). “a América Latina foi a única região do mundo que não conseguiu diminuir as desigualdades e manteve-se como o continente mais desigual”. também de milhões. Antes de anunciá-las. particularmente Chávez. Sem dúvida. Hugo Chávez e Evo Morales (descendentes indígenas da Venezuela e da Bolívia. em virtude do crescimento da popularidade e do acesso de líderes populares aos mais elevados postos de comando político de diversos países. Porém. E concluem. Com esta democratização parcial (incluídas as anistias para os torturadores) vieram os ajustes ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a necessidade para os pobres de apertarem os cintos ainda mais. a derrota do guevarismo e a debandada dos intelectuais latino-americanos. tradução da Equipe Editorial): Com a estagnação mundial. vale o comentário que este pensador faz sobre o momento que se segue à sombra do condor. em particular). para quem. os “vivas” à democratização na América Latina foram um pouco exagerados.Gey Espinheira e Álvaro Gomes populares que chegam ao poder. em todo o século XX. chega a democratização. viver num país pós-ditadura militar era imensamente mais agradável que viver nos cárceres ou no exílio. em todo caso. que estreita as relações com Cuba e age 86 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. visto com mais cuidado. Olé!. os poderosos não necessitavam mais das ditaduras militares.p65 86 03. para frear os entusiasmos esquerdistas. não muito mais. deixando somente os quatro dragões da Ásia Oriental Soma-se a esse diagnóstico realista a constatação de outros autores.

sem superá-lo. que Negri atribui ser o marxismo depois de Marx ou para além de Marx. por conseguinte. como bem formula Wallerstein. homeopaticamente. esclarece a forma e força de Multitude: Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 87 CEAS 221_Miolo. tradução da Equipe Editorial): (1) É absolutamente impossível que a América Latina se desenvolva. sem que se nos ofereçam nenhuma garantia de melhoria de nossa existência social Assim posto. essa cumplicidade de muitos. Parece elementar que esse querer estar junto-com. para uma vitória política. analisado especificamente por Michael Hardt e Antonio Negri (2001. Contudo. (2) A economia-mundo capitalista se desenvolve com tanto êxito que está se destruindo. os países. ainda que Wallerstein traga em sua análise das teses uma mensagem de esperança. Para ele.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban em prol da implantação da doutrina bolivariana. Mas vejamos as teses de Wallerstein (2004. a exemplo do fenômeno de multidão. aplicar políticas assistencialistas para reduzir o sofrimento. fazer de conta. da maioria. provaram que as minorias foram as responsáveis pelos poderes e pelos eventos mais turbulentos da história humana. o sistema-mundo e. O foco da questão é a crise do sistema capitalista. a América Latina atravessará o século XXI preservando as cruéis características que vigoraram na dinâmica do século passado. e não outro. para além do capitalismo! A busca de união sempre foi o princípio da idéia de que “a união faz a força” e a de que “o povo unido jamais será vencido”. e. Não é essa. O desafio está posto no enunciado do FSM: “Um outro mundo é possível”. não importa quais sejam as políticas governamentais. de milhões de pessoas que precisam do básico e do além do básico para fazer valer sua existência. não podem ser pensados isoladamente. daí porque nos encontramos frente a uma bifurcação histórica que assinala a desintegração deste sistema-mundo. O que se desenvolve é unicamente a economia-mundo capitalista e esta é de natureza polarizadora. a lição das experiências históricas que. contudo. ao contrário do domínio da maioria. absolutamente necessária.06. se assim for. 2004).p65 87 03.05. a questão que está subjacente é a de mudar o mundo e não fazer ajustamentos ou. Uma nova concepção política emerge de novos fenômenos e valores que se cristalizaram nos últimos anos do século XX e inauguraram o XXI. e seus colaboradores. em suas lições sobre o Império (2003: 43). porque o que se desenvolve não são os países. poder-se-ia dizer. 13:03 . é condição necessária e. compondo um novo capítulo da teoria política contemporânea. qualquer outro seria desviar-se do inimigo real e dissimular.

como uma continuidade. ao contrário. mas não se enquadram como os atores históricos da revolução. Do ponto de vista da sociologia do trabalho renovada. somos a história que somos condenados a lembrar porque fomos barrados de um papel ativo no presente O segundo. de fato. Promover a união sempre foi tarefa extremamente difícil no panorama múltiplo. os homens são singularidades. E somos tam- 88 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. desigual e diverso da humanidade. 13:03 .p65 88 03. mas aqui representada como se fora uma cena de teatro em dois atos.05. No trabalho produtivo imaterial. sua condição diante da impotência em mudá-la. as imagens com que invalidamos os estereótipos. Para nós. como um desdobramento dialético do primeiro: Mas somos também a língua em que questionamos essas pressuposições. seja naquela socialista de gestão do capital). ao contrário. Um segundo significado de multidão deriva do fato de que a contrapomos a “classe”.Gey Espinheira e Álvaro Gomes Multidão é uma multiplicidade de singularidades que não pode encontrar unidade representativa em nenhum sentido. por algum tempo. é uma unidade artificial que o Estado moderno exige como base da ficção de legitimação. o instrumento é o cérebro e assim termina também a dialética hegeliana do instrumento. fazendo com que as vítimas do preconceito se aceitem tal como são vistas e tratadas. massa é um conceito que a sociologia realista assume na base do mundo capitalista de produção (seja na figura liberal. em que as diferenças se transformam em preconceitos e estes acionam mecanismos que estigmatizam e excluem. somos as imagens em que somos reconhecidos. por outro lado. uma situação que pode ser interpretada a partir da perspectiva de Manguel (2000: 35). todavia. uma multidão de singularidades. O trabalhador se reapropria do instrumento/utensílio do trabalho. em todo caso. ou melhor. o trabalhador se apresenta.06. sendo o primeiro a situação que segue: Todo grupo que é objeto de preconceito tem isto a dizer: somos a língua em que somos falados. cada vez mais como portador de capacidades imateriais de produção. Essa capacidade singular do trabalho constitui os trabalhadores em multidão em vez de classe A convocação para a união dos operários de todo o mundo tornou-se o grito revolucionário por excelência desde o século XIX. naturalizando. aos poucos a proporção de operários produtores de bens materiais foi decrescendo no conjunto daqueles que trabalham por salários e que se julgam trabalhadores. uma unidade indiferenciada. povo. o operário industrial.

como o mar: Foi para evitar a repetição de tantos males que lhes concedi o direito de desfrutar de nossos mares territoriais na forma que o considerem conveniente aos interesses da humanidade e da paz entre os povos. mas a que é enigmática no Brasil do governo Lula. Seria o exemplo brasileiro um paradigma político de governos de esquerda da pós-modernidade que chegaram e estão chegando ao poder? Estaria. mas algo de novo se manifesta depois de um longo perigo sob as asas do sinistro Condor dos militares das nações pactuadas. nunca pude imaginar Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 89 CEAS 221_Miolo. que também é uma provocação a toda prova: “O que está em discussão na transformação revolucionária do mundo não é de quem é o poder. através de sua hipérbole da venda do mar territorial como pagamento da dívida externa do país. no Oriente. seu regime de ventos. há muito. mas como criar um mundo baseado no mútuo reconhecimento da dignidade humana. e nos guiemos pela imaginação de Gabriel García Márquez. então. que caminha para concluir-se em 2006 revelando uma extraordinária impotência do Partido dos Trabalhadores (PT). certo Holloway ao considerar o Poder como o grande problema? Vale abrir aqui um parêntese e citá-lo em sua proposição. a fauna e a flora próprias de ditas águas. mas também a já experimentada na Venezuela e a consolidada. e não estamos mais dispostos a permanecer imaginários Parece ser esta a situação que se vivencia agora na Bolívia. 4. ou seja. agora! —. UM DIA. tudo. em seu O outono do patriarca (1975: 249). sob a ameaça do desembarque dos fuzileiros navais. um tempo de que não podemos nos ausentar. teleguiados de Washington.05. em Cuba. e para fazer drenar as riquezas. O MAR! LA GRAN SOPA DE MARISCOS DEL UNIVERSO Antes de analisar as questões propostas. de fazer cumprir os programas partidários e as promessas de campanha. fazendo todos os países latino-americanos se curvarem para satisfazer a voracidade das empresas norte-americanas neles instaladas. como tantas vezes outras fizeram em vários países da América Latina — e alhures.p65 89 03. 13:03 . no entanto. e de toda a esquerda pactuada. a veleidade de seus milibares.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban bém o tempo em que vivemos. na formação de relações sociais que não sejam relações de poder”. saqueada há séculos.06. vamos ver um pouco o perfil de “nuestra América”. Temos uma existência própria. no entendimento de que tão concessão compreendia não apenas as águas físicas visíveis desde a janela do quarto até o horizonte como também tudo quanto se concebe por mar no sentido mais amplo.

foi arrancado pela raiz —. que propôs a recebê-lo em lugar do pagamento da dívida externa (cf. comenta a passagem em que o ditador arrependido fala de seu último recurso à memória da mãe Bendición Alvarado. absolutamente tudo. Eis. na seqüência. que serão transferidos. como se fosse um gigantesco quebra-cabeça —. do cubano Alejo Carpentier.06. Márcia Navarro (1989: 28) analisa romances de três diferentes autores.Gey Espinheira e Álvaro Gomes que eram capazes de fazer o que fizeram. de levar com gigantescas dragas de sucção as eclusas numeradas do meu velho mar de xadrez (…). Esta última instância do processo é protelada pelo Patriarca. que uma proposta semelhante já tivesse sido feita ao governo brasileiro. do paraguaio Augusto Roa Bastos. córregos e rios e ventos. 90 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. O Eu supremo. para que paguemos a nossa grande — também descomunal — dívida com a venda da Amazônia. que tantas vezes o assediava e lhe trazia caramelos de Baltimore e revistas com fotos de mulheres nuas e lhe pedia o mar territorial. em futuro muito breve. Através da imagem hiperbólica — o mar sendo levado em peças numeradas.p65 90 03. — pois tudo. Márquez. com todos os seus rios. os comentários da autora: O episódio da venda do mar aos norte-americanos nos serve para demonstrar cabalmente a opressão colonialista mencionada acima. e a já citada obra de García Márquez. verdadeiramente. inclusive o Amazonas. em que o personagem central é o ditador: O recurso do método. e uma grande cratera. e toda a biodiversidade: toda flora e toda fauna. e deixaram apenas a planície deserta do áspero pó lunar que via passar pelas janelas com o coração oprimido (…) Em seu estudo do ditador latino-americano através da literatura. em seu remorso. da entrega do mar aos norte-americanos ante a ameaça do desembarque dos fuzileiros navais a ocupar o país. ainda que em sigilo. como é possível que só pensem no mar para comê-lo” É com essa extraordinária metáfora da venda do mar que García Márquez consegue representar a avidez do capitalismo e a estupidez das ditaduras e do Patriarca. 13:03 . este alheado e alheio – que sofre em suas recordações. Nesta última. levaram tudo quanto havia sido a razão de minhas guerras e o motivo de seu poder. configurase o auge da espoliação a que foram submetidos os povos latinoamericanos durante séculos. idem: 201). Ele não podia entender os “gringos tão bárbaros. como se poderá supor. pois o mar representava sua grande paixão. ou que tal proposta ainda será feita. em seu senso de realismo diante da proposta do embaixador norteamericano.05.

E mais: “Era diáfano e suculento e haveria bastado meter-lhe uma vela por baixo para cozinhar em sua própria cratera a grande sopa de mariscos do universo”. a nossa herança. quando da descoberta da América. Eberhart. assim sendo. Em algum lugar secreto. em sentido amplo. 5. que. como se os Andes se invertessem em profundidade abismal. Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 91 CEAS 221_Miolo.06. a exaltação do alto e do baixo. ficarão abertas as veias da Americana Latina4. em seu avesso como profundidade.05. Mas voltemos ao Patriarca em sua profunda nostalgia do mar. aí sim. tal como formula Tzvetan Todorov (1992). era mais que uma massa d’água. ao dizer ao Patriarca “que este país não vale um rabanete5. mais que uma metáfora. transfigurada. Amputados todos e logo mais. esta profecia está registrada e. 13:03 . lhe presenteara. então. de que o mar é uma enorme fonte de riqueza e alimentos para o seu povo. de modo que o Patriarca foi agraciado com uma máquina de fazer vento que o embaixador dos EUA. Jogo de palavras com referência ao livro de Eduardo Galeano (1977). Navarro (1989): É necessário enfatizar que sua relutância deve-se mais ao prazer estético que o mar lhe proporciona do que qualquer comiseração de outra ordem. Porém. assinando o contrato de venda do mar García Márquez toma a narrativa e fala pelo embaixador Roxbury. as profecias se confirmarão: será uma cratera monumental como o milagre da altitude andina. não será espantoso que tenhamos o avesso dos Andes onde outrora fora a Amazônia e. Diz-nos. ele se rende à contingência de seu poder ameaçado.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban como a dentada de um monstro gigantesco a provocar uma ferida no mapa da América Latina. o Patriarca desconversou ainda esta vez e 4. Conseqüentemente. assim como todos os demais que detêm partes da Amazônia. e até os ventos se foram. as dimensões infernais. mais um grande enigma para os latino-americanos. um outro Machu Picchu do mais absoluto vazio. Expressão que significa “Não vale nada” (Nota da Redação). segundo esse prognóstico. porque toda ecologia fora abalada.p65 91 03. a exceção do mar”. Consta que nos mapas escolares dos Estados Unidos a configuração política do Brasil não inclui o território da Amazônia. ou seja. o país já foi amputado. como nos presságios de Montezuma. A proposta consistia “na boa conta dos serviços dessa dívida atrasada que não hão de redimir nem cem gerações de próceres tão diligentes como sua excelência”. para que fosse concebível o entendimento por parte dos astecas do aparecimento dos espanhóis.

Os gringos eram verdadeiramente tão bárbaros como aparentavam ser! A América Latina tornou-se a preferida da agiotagem internacional que acompanha lado a lado a exploração dos recursos naturais e do trabalho de seu povo por empresas transnacionais implantadas em seus países. como uma vitória de Caliban a resgatar o roubado. com os esqueletos dos navios naufragados e dos ossos dos afogados. o despediu. de assombros e de escombros. também é uma elaboração estranha. SOMOS NÓS. deciframos 92 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. de uma retomada do mar esvaziado. e. e todos os demais seres encantados. pensando na mãe.p65 92 03. grifos no original). vende. senão Próspero” (apud Retamar. quando da guerra de independência. idem: 243). O QUE QUEREMOS SER. citando inicialmente Fidel Castro. o convenceram. as espumas para que Afrodite e as Ondinas. Porém. mas também na subordinação. com a autoridade para fazer ouvido de mercador. me dou conta de que tampouco é inteiramente nosso. com os habituais tapinhas nas costas. desde o outro protagonista. e toda a fauna. E. precisa ser reinterpretada e nela encontrar os presságios que falam de um novo tempo. os alísios. Era só uma questão de tempo! Outros argumentos mais fortes. e novamente repor sobre a areia lunar e espectral da grande cratera. ainda que desta vez o seja a partir de nossas concretas realidades.06. as sereias todas.Gey Espinheira e Álvaro Gomes murmurou. Dentro da lei e da ordem. que somos condenados a lembrar. como o desembarque dos marines. O outro protagonista de La tempestade não é Ariel. podemos melhor explicitar este significado. 13:03 . mais precisos. Uma velha e contínua forma de espoliação. 5. tudo se passa como se todos fossem iguais em um teatro de sombras. Com Roberto Retamar (2004). como é possível que só pensem no mar para comê-lo” (Márquez. a maciez das águas. com as regras ditadas por quem compra. agora regida pela Organização Mundial do Comércio (OMC). 2004: 37. como descartar inteiramente essa estranheza? A palavra mais venerada em Cuba — mambí — nos foi imposta pejorativamente por nossos inimigos. e Ariel. É Retamar (idem: 36) quem explica: Ao propor Caliban como nosso símbolo. A MIMESE CALIBAN A história. que nos tirou de um papel ativo no presente. de que nos fala Manguel. todavia. e toda a flora. de uma resistência. Bendición Alvarado: “que gringos tão bárbaros. A HISTÓRIA REVISITADA: SOMOS EL OTRO. paga e recebe.05. num discurso proferido a 19 de abril de 1971: “Assumir nossa condição de Caliban implica repensar nossa história desde o outro lado.

A imagem invertida é a resposta do colonizado quando rejeita ser o que o outro quer que ele seja. mas nós reclamamos como timbre de glória a honra de considerar-nos descendentes do negro rebelde. como bem destaca Fidel Castro no discurso acima referido: “Para os imperialistas não somos mais do que povos desvalorizados e desprezíveis. idem: 37). Contudo.05. Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 93 CEAS 221_Miolo. no original em espanhol (Nota da Redação). Parece que possui uma evidente raiz africana. e. de maneira honrosa. por crenças e por antigos desenten6. sem dissimulações. tornaram seu. Nos chamam mambí. Uma síntese humana excepcional. a fantástica mestiçagem da América Latina. sem disfarces. independentista.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban todo o seu sentido. Os independentistas. brancos e negros. é também indígena. Caliban se multiplica para unir o povo mambí.p65 93 03. nesta. fugitivo6. o cocalero Evo Morales. da emancipação. na boca dos colonizadores espanhóis. e implicava. ainda que em pequena escala. 7. mas separados pela procedência.06. ser negro. a entrevista com o antropólogo peruano Rodrigo Montoya: “Mandar obedecendo: a outra forma de poder”. 13:03 . começaram a pensar um pouco diferente. Foi com a manipulação das diferenças e das diferenciações que a escravidão portuguesa e brasileira durou tanto tempo. como bem sabemos. este grande encontro de povos a compor um povo múltiplo e uno em suas singularidades. o presidente venezuelano. O zapatismo. Hugo Chávez. que acaba de ser eleito presidente da Bolívia. Ao menos o éramos. Ser crioulo. Cimarrón. impossível de ser disfarçada. mestiço. Unificados pela mesma condição. é o começo e o fim da resistência. simplesmente. trouxe grandes ensinamentos na preservação da identidade indígena e na autonomia política7. ser. nesta mesma edição. já que racialmente determinada. Essa é a dialética de Caliban. Desde Girón. latino-americano. a idéia de que todos os independentistas equivaliam aos negros escravos — emancipados pela própria guerra de independência —. ostensiva na cor das pessoas. é descendente indígena e tem cara de índio. Próspero ensinou a língua a Caliban. lhe deu o nome. e sente-se honrado em sê-lo. Desprezo racial. é para eles desprezo” (apud Retamar. ver. aqueles que constituíam o grosso do Exército Libertador. Mas seria esse seu verdadeiro nome? Desqualificar povos e culturas é a primeira tarefa do colonizador. em todos os instantes e em todo lugar. Sobre a experiência zapatista. nos chamam negro para ofender-nos. que não pode ser decomposto em seus elementos constituintes. Escravidão total. conseqüentemente. e nunca descendentes de escravistas. o que o colonialismo quis que fosse uma injúria.

para ser livre. rompendo o velho paradigma vigente desde o século XIX. não se rebelaram maciçamente. no inacessível. permanecendo subalternos por séculos e até o presente.Gey Espinheira e Álvaro Gomes dimentos. A colonização estabeleceu pactos misteriosos com os colonizados. com freqüência. Por isto mesmo. ainda que sem ascender ao papel principal. como tais.06. constantes. 13:03 . Em cada país não vale o sentimento de pertença a uma pátria. quando o Estado moderno é instituído no mundo Ocidental. “Nuestra América” não é de todos. dissolvidos pelo dinheiro e nele metamorfoseados. e dinheiro é também a sua linguagem e o seu discurso. então. sem espaços alternativos para a maioria.05. exilar-se. As estratégias de resistência foram mais homeopáticas mas. não têm outra pátria que a posição de classe. apenas poucos os que podiam refugiar-se. 6. Os opressores sempre foram globais. O ANTIPODER DAS PESSOAS COMUNS E A INQUIETAÇÃO DAS MULTIDÕES Eis que Holloway (2003: 27) propõe ir além do Estado. As classes hegemônicas pactuam com as elites do mundo. Mais que isso: tomar o poder do Estado e manter o Estado como instância suprema do poder: Os movimentos revolucionários inspirados no marxismo sempre tiveram consciência da natureza capitalista do Estado. (…) O erro dos movimentos marxistas revolucionários não foi negar a natureza do Estado. tal como veio a ocorrer na experiência do Haiti. só dos oprimidos. mas compreender de maneira equivocada o seu grau de integração na rede de relações sociais capitalistas 94 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. Todo receituário revolucionário tem por base a tomada do poder. “tão bárbaros como eles”. no distante. “cidadãos do mundo”. os africanos não se uniram. e esta significa dinheiro. PARA ALÉM DO ESTADO. o seu método e a sua religião: é já estar no paraíso. numa bem armada teia que os aprisionava de múltiplas formas e os faziam prisioneiros. Por que então se concentraram no objetivo de conquistar o poder do Estado como o meio para mudar a sociedade? Uma resposta é que. assim como com os escravizados. permanentes. esses movimentos tiveram uma visão instrumental da natureza capitalista do Estado. mas a posição das classes sociais. a nacionalidade. porque são também colonizadores os naturais que exploram a população e o fazem com a mesma voracidade dos gringos. acima de suas nacionalidades. não é a questão da nacionalidade que está em jogo.p65 94 03.

em parte. justamente por não se levar em consideração — daí a cegueira de seus críticos — de que a crise do capitalismo daqueles anos foi também uma crise das formas de luta anticapitalista. 13:03 .05.p65 95 03. ao ver a metafísica da revolução. Não é nosso objetivo fazer uma resenha dos autores em pauta na atualização da teoria revolucionária. nem o dinheiro. Não há deuses de nenhum tipo. Hardt. mas procurar ver que há uma notável convergência de todos eles: superar o determinismo dialético e enfatizar o contrapoder. Holloway e Negri. Em outras palavras. como destaca Holloway (2004: 161). alcançando pela primeira vez os altos postos do poder formal institucional das administrações nacionais: “O que o Estado faz e pode fazer está limitado e condicionado pela necessidade de manter o sistema de organização capitalista do qual é parte” (idem: 26). em que pese as contradições e conflitos que lhe são intrínsecos. para ficar naqueles que estão em constantes debates nos livros aqui aludidos e ligeiramente confrontados. Sem poder ir além do próprio sistema. da luta por classificar e contra ser classificado). nem o capital. algo transcendental. o Estado produz o Estado e este a forma de governar para a sua preservação. E segue com sua crítica: “Para Boron. nem a história: nós somos os únicos Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 95 CEAS 221_Miolo. as questões relacionadas com o governo Lula. Uma discussão que. no Brasil. nem as forças produtivas. 2003: 263. cuja finalidade maior é a manutenção do próprio Estado.06. como Atilio Boron. grifos no original). Holloway recusa a idéia de refluxo das lutas sociais revolucionárias nos anos 70 e sustenta que elas são vistas sem a percepção da historicidade dos argumentos. além dos já citados Cocco. mas também os ranços teóricos do cânon marxista tradicional e. por vezes. mesmo quando este pensador insiste em fazê-la imanente.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban A conclusão a que havia chegado explicaria. citando Marx: “As relações sociais são historicamente específicas”. ao decompor a dualidade eles e nós e a negação das contradições objetivas do capitalismo: “Não há contradições objetivas: nós e só nós somos a contradição do capitalismo” (Holloway. contra Boron. qualquer que seja o governante é condicionado pela forma do Estado que opera como forma. E vai mais longe: A história não é a história do desenvolvimento capitalista. mas a história da luta de classes (isto é. a questão da forma não joga nenhum papel”. assume uma perspectiva quase teológica. Joachim Hirsch e José Seoane. o poder criativo frente ao poder funcional. bem como o enigma de Chávez e Morales na Venezuela e na Bolívia. apenas para ficar com representantes políticos que emergiram da identidade étnica e social das classes populares.

como propõem os zapatistas. A crise não pode ser entendida. que a relação eles e nós é a de “mostrar que eles dependem de nós porque nós continuamente criamos a eles. índios. crimes monstruosos estão sendo cometidos. justiça e felicidade. Sem entrar em maiores considerações sobre os demais autores. então. as paixões. somos todo-poderosos” (idem. os únicos salvadores possíveis. no desvelamento da identidade pela revelação da não-identidade subjacente. na unidade do que não pode ser decomposto: “Eles não são externos a nós. os sem poder. assim como africanos. À nossa volta. ainda que “fogo-amigo”. núcleo da política zapatista”. gente que nega qualquer definição ou identificação. o capital não é externo ao trabalho. asiáticos. os únicos culpados. fica o sentimento de que uma humanização do projeto revolucionário emerge nesses dois autores. afirma Holloway (2004: 55): Os rebeldes não estão submetidos a estas características. e mais. na posição de dois tempos: o não esgotamento da temática e o tempo histórico em que o lemos e quando o finalizamos.Gey Espinheira e Álvaro Gomes criadores. que não há externalidade. mas como o desenvolvimento do antipoder que já existe como a substância da crise Sob fogo cruzado. são sujeitos que desbordam. Assim. temos que romper com a forma positivista e identitária de pensar que conduz a resultados positivistas e identitários Trata-se do reconhecimento da força do antipoder e da unidade da relação poder/antipoder. [daí que] podemos compreender a vulnerabilidade da dominação capitalista”. europeus dos Bálcãs. Eis que se recupera a vontade humana. principalmente. 13:03 . latino-americanos são discriminados nos países centrais para os quais migraram. gente comum se torna homem e mulher-bomba. que transpassam os limites. 2003: 260). e isso torna possível conceber a revolução não como uma tomada do poder. Se queremos pensar nas pessoas comuns como rebeldes. mas deve ser entendida como a expressão de nossa própria força. como uma oportunidade que nos é apresentada graças ao desenvolvimento objetivo das contradições do capitalismo.06. o humanismo.05. Holloway encerra seu livro sobre como Mudar o mundo sem tomar o poder dizendo que “este é um livro que não tem final”. “que não tem um final feliz”. Nós.p65 96 03. Holloway e Negri encontram uma notável energia no ser humano em seu desejo de liberdade. negros e mestiços são desqualificados pelo racismo e submetidos às piores condições de vida em países multiétnicos. “gente comum é rebelde. todos os diferen- 96 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo.

p65 97 03. como visto por Hardt e Negri. sob a inspiração dos movimentos de multidão. Mas o povo. Negri estiver com a razão. porque a força está em nós e nós somos os todo-poderosos. explicitada em Império (2001: 13). multidão etc. do encantamento fabuloso do mundo. maravilhosa. desperta esperança. É a multidão. Que não sejam estas as condições dramáticas da história sem fim. que o antipoder é força viva. Chávez e Morales. Voltemos ao início. 13:03 . biopoder e biopolítica. simplesmente. esta encantada multiplicidade de singularidades que traz em si energias vulcânicas extraordinárias que farão as erupções ao longo do século XXI. são uma nova orientação política dos tempos atuais: “Democracia. é indistinto.05. como nada tem fim.06. novas formas de governar emergem: “Por exemplo. assim como Lula. uma criação abstrata do Estado burguês. como aquela outra. ou uma dentre as muitas discordâncias que os animam em debates: a questão do Estado e dos governos.”. de que este século não será de nenhuma potência hegemônica. que Negri e Cocco (2005: 15) vêem avançando na América Latina e em outras partes do mundo. escrita por Michel Ende. não devemos apostar muito na chegada ao poder de líderes populares e. delinearão uma nova configuração planetária. como foram o XIX para a Grã-Bretanha e o XX para os Estados Unidos. de democracia radical. a vitória da fantasia. que faz com que um povo não seja vencido: o povo unido. globalização e império. Pactos internacionais. novas figuras de democracia participativa ou. como disse Hirsch (2004: 152). dentre eles. Se for correta a análise de Holloway. Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 97 CEAS 221_Miolo. revolucionários sem Revolução. Essas novas formas. pelo contrário. nova composição técnica e política de classe.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban tes do Terceiro Mundo. que gostaríamos que jamais acabasse. Sob fogos cruzados (inimigo e fogo-amigo). que não há externalidade e que não se deve esperar a chegada de messias. Holloway nos convida a pensar que uma outra forma de luta é possível. que guarda a promessa. chegamos a um termo e a um ponto polêmico entre Negri e Holloway. Bem. figuras institucionalizadas. os representantes étnicos. O livro que ainda não tem um fim e que nunca terá é. Se. representação. que as pessoas comuns são rebeldes. além da gasta representação constitucional (tão venerada pela corrupção capitalista do poder)”. ou quase nada. mas não fica só aí: tece uma crítica extraordinária do papel e das práticas das esquerdas em suas lutas sociais. à consideração sobre a união que desfaz a força.

Trad. _____ e _____. Romance de um ditador: poder e história na América Latina. de todos. São Paulo. de Galeno de Freitas. mas há também divergências profundas. Rio de Janeiro. es decir. Buenos Aires. São Paulo. Holloway. 2003. Negri. As morais da história. Paz e Terra. O labirinto da solidão e Post Scriptum. Record. Mudar o mundo sem tomar o poder. As veias abertas da América Latina. John. Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso). 2001. “um outro mundo é possível”. Gabriel García. Huntington. na história sem fim contra o fim da fantasia. A participação é fundamental. Antonio. Multitude: war and democracy in the age of empire. 2004. Todo Caliban. Tzvetan. Octavio. de Eliana Aguiar. Paz e Terra. Com contribuição de Michael Hardt e Danilo Zolo. Roberto Fernández. Paz. In No bosque do espelho. 2001. Michael e Negri. Europa-América. 2003. Rio de Janeiro. de Emir Sader. 1992.05. Sudamerica. Rio de Janeiro. algumas verdadeiramente infernais. Campus. Joachim. Cinco lições sobre Império. 2ª ed. Trad. 2003. 2004. de Alba Olmi. O choque de civilizações. Giuseppe Mario. El otoño del patriarca. Trad. Sonhando a guerra por petróleo e a Junta Cheney-Bush.p65 98 03. Petrópolis. Antonio. Apesar de tudo. de Emmanuel Carneiro Leão et al. 3ª ed. Samuel P. Viramundo. Império. Márcia Hoppe. Nova York. _______. Eduardo. “Sobre ser judeu”. Hirsch. 13:03 . Retamar. São Paulo. O redemunho do horror: as margens do Ocidente. Hardt. ainda que não seja um fim. Buenos Aires. 1975 Navarro. Planeta do Brasil. 1977. Luiz Costa. 2005. “Gente común. Márquez. México. Trad. Era. DP&A. Heidegger.Gey Espinheira e Álvaro Gomes Negri e Cocco reafirmam sua confiança na democracia radical: “a democracia representativa é uma limitação da democracia” (idem: 24). Rio de Janeiro. Era. Chiapas. “A questão da técnica”. 1997. de Berilo Vargas. Vidal. Chiapas. Record. Há lutas e há razões para lutar. das representações de todas as singularidades. In Ensaios e conferências. Ícone. The Peguin Press. Companhia das Letras. 1992. 2000. 16. Manguel. Trad. Nova Fronteira. México. 98 Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 CEAS 221_Miolo. São Paulo. Vozes.06. Trad. de Pedro Maia Soares. de Helena Ramos. Trad. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Galeano. Portugal. Rio de Janeiro. Martin. 16. Trad. 1989. Todorov. _____ e Cocco. de Eliane Zagury. Lima. rebelde: mucho más que una respuesta a Atilio Boron”. Rio de Janeiro/São Paulo. Alberto. “Poder y antipoder: a cerca del libro de John Holloway”. 2003. Gore. Rio de Janeiro. 2004. Glob(AL): biopoder e lutas em uma América Latina globalizada? Trad. 2004. embora todas eivadas de boas intenções.

jul. Pioneira. Do mesmo Autor. pesquisador associado ao Centro de Recursos Humanos (CRH-UFBA) e diretor de Estudos e Pesquisas do Instituto de Estudo e Ação pela Paz com Justiça Social (Iapaz).br. [alvarofgomes@uol.br] Salvador Janeiro/Março 2006 nº 221 99 CEAS 221_Miolo. 218: 11-28. 1983.com.A dispersão e as resistências na (da) América Latina: a Mimese Caliban Wallerstein. Salvador. Immanuel. Lima. Max.p65 99 03. ver “Paz se aprende no colégio: o capitalismo. doutor em sociologia (Universidade de São Paulo). 2005). Movimiento Raiz. os limites dos direitos individuais e a morte do social” (Cadernos do CEAS. São Paulo.br] ** Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do Iapaz. Weber. Trad..-ago. de Irene e Tamás Szmrecsányi. gey.05. Centro de Estudos e Ação Social. 13:03 . [geyespin@ufba. professor dos Programas de Graduação e Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 3ª ed. A ética protestante e o espírito do capitalismo. La esperanza venció al miedo: alternativas al nuevo orden capitalista. 2004.com.06.e@terra. *Carlos Geraldo (Gey) D’Andrea Espinheira é sociólogo.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful