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A RELAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE. POSSIBILIDADES E DESAFIOS ÀS TEORIAS SOCIOLÓGICAS HOJE, FRENTE AOS PROCESSOS EM TRANSIÇÃO. INTRODUÇÃO Objetivo geral: Analisar a relação entre Indivíduo e Sociedade nas teorias sociológicas contemporâneas. Para isto: vamos apresentar um panorama da construção do Indivíduo e Sociedade, dando ênfase na perspectiva atual. O que são os Indivíduos? O que é Sociedade? Qual a relação entre indivíduo e sociedade? Que possibilidades esta relação apresenta para a Sociologia hoje, face às mudanças? O que está em transição? Que processos estão em transição? A relação entre Indivíduo e Sociedade: QUESTÃO CENTRAL À

SOCIOLOGIA. INDIVÍDUO A Sociologia não trata o INDIVÍDUO como um dado da natureza (isolado, livre, absoluto): é um produto social, construção histórica. A ideia de Indivíduo surge com o fim da sociedade feudal e início da sociedade capitalista. Na Idade Média, segunda a Filosofia cristã, o indivíduo não possuía vontade própria, não representava nada em si – não possuía uma individualidade – a não ser no corpo místico, em Deus. Ou seja, o indivíduo tinha sua expressão apenas no coletivo.

Stuart Hall (2006) estabelece três concepções de identidade que retratam as visões sobre a identidade do sujeito moderno e pósmoderno e que são fundamentais para compreender o indivíduo atual. pp. totalmente centrado em si. portanto. é a marca indelével do início da era moderna. Hall também lembra que a Reforma e o Protestantismo tiveram papel relevante neste processo de autonomia individual ao liberar os fiéis do jugo da religião e de seu conseqüente anulamento como indivíduos e expôs-lo diretamente a Deus. consciência e ação. com sua máxima de autonomia “ sapere aude”. de certa forma. colocando Deus como o Primeiro Motor da criação e relegando o resto à matemática e à mecânica. vazio de identidade: a) Sujeito do Iluminismo que é o indivíduo uno (unificado). o indivíduo. colocando o Homem no centro do universo. individualista. Na sua distinção dualista entre corpo e espírito. a . que está consciente que o seu “ser”. Com o “cogito”. A sua essência é a sua identidade. o sujeito moderno nasce da ousadia humanista. A partir dessa forma incisiva de individualismo. 24-5). segundo Stuart Hall. torna-se sujeito e possui um querer. deslocando Deus desta posição. Com o Humanismo e a modernidade. [e vemos] o nascimento do indivíduo soberano” (2006. Descartes (1973) coloca o sujeito individual no centro da “mente” (espírito). da dúvida cartesiana e do racionalismo iluminista. dotado de razão. “uma nova concepção de sujeito individual e sua identidade. e a modernidade com Descartes. Fato este que representa uma ruptura irreparável com o passado.2 Com o advento do Humanismo. b) Sujeito sociológico é o indivíduo que reflete a complexidade do mundo contemporâneo. o sujeito cartesiano ficou conhecido como sujeito racional. pensante e consciente. surge a idéia de indivíduo e de individualidade que foi exacerbada pelo Iluminismo. De fato. uma vontade própria. na sua dualidade de corpo e alma cartesiana. Assim. possibilitou surgir.

Habermas acredita que o sujeito contemporâneo é o sujeito que acontece e se realiza como sujeito na ação.15).3 sua identidade se dá e acontece na interação com outras pessoas: “a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade” (ibidem. Pode-se apresentar os mesmos exemplos acima. 11) e dá estabilidade entre sujeito e a estrutura. tendo sua realização na interação com o outro. in HALL. com essas três concepções de sujeito. um ser político na concepção de Aristóteles. que está se fragmentando. 2006). aquele que está sujeitado a elas (FOUCAULT. sem identidade permanente definida. o sujeito pós-moderno é o sujeito da prática e é ao mesmo tempo aquele que sofre as conseqüências dessas práticas. A discussão da pós-modernidade iniciada em 1979 por Jean François Lyotard que com “a sua obra da A condição pós-moderna. corroborando com a idéia de ser identitário multifacetado. sendo mesmo contraditórias. ou seja. p. um ser. ele manifesta sua identidade não como um núcleo ontológico interior ou metafísico fazendo parte de sua natureza. Stuart Hall. Da mesma forma. afirma que passamos da concepção de homem com um núcleo definido. p. alguém é professor enquanto exerce sua atividade de professor. Para Foucault (1986). c) Sujeito pós-moderno é aquele indivíduo que não tem mais uma identidade unificada e estável. Ou seja. identidades que não são unificadas ao redor do ‘eu’ coerente” (ibidem. mas que assume a identidade do momento que vive ou do papel que vivencia naquele momento específico. mas na sua própria ação quotidiana. “O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos. tendo múltiplas identidades. para finalmente chegar a um ser multifacetado. Para mencionar apenas um. como era definido na filosofia clássica. através de sua práxis (sic). passando a ser um ser social. ligava-se que ao considerava chegada pós-modernidade surgimento de uma sociedade pós-industrial na qual o conhecimento tornara-se a principal força econômica de produção” .

Sociedade é um grupo organizado e interdependente que vive junto numa área geográfica específica que interage e coopera em vista de atingir fins comuns. valorizando a subjetividade do indivíduo). políticas e culturais. peculiar) que produz fenômenos específicos. A Sociedade é constituída pela consciência coletiva. DEFINIÇÕES DE SOCIEDADE NA TEORIA SOCIOLÓGICA CLÁSSICA 1.4 Finalizando esta discussão inicial sobre o Indivíduo. possuindo fenômenos normais e patológicos (Positivismo!). colocam as bases para discutir Sujeito e Sociedade hoje: possibilidades e desafios às teorias sociológicas hoje. a Sociedade age sobre o Indivíduo através da consciência coletiva (hábitos. exterior e está acima das consciências individuais. crenças) O indivíduo social é produto da Sociedade. compartilhando uma cultura comum. frente aos processos em transição. É um organismo em adaptação em busca da evolução. Sociedade é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos. do sujeito sociológico que se realiza nas interações sociais e do sujeito pósmoderno. e que interagem entre si constituindo uma comunidade. gostos. costumes. . Portanto. ÉMILE DURKHEIM: A Sociedade é uma síntese sui generis (de seu próprio gênero. que é coercitiva. sem se apoiar e ter raízes nas grandes narrativas. percebemos que o projeto de autonomia do sujeito moderno (separando ciência da moralidade e religião. SOCIEDADE Sociedade é o agrupamento de indivíduos entre os quais se estabelecem relações econômicas. multifacetado. sem identidade específica. preocupações e costumes.

um eterno movimento propiciado pela ação social dos indivíduos. MAX WEBER A sociedade não está submetida à leis imutáveis. Nela o consenso resulta de uma diferenciação.  Na solidariedade orgânica.  As regras e normas são resultados de um complexo jogo de ações individuais. Coletivo tem um papel central. Cada um exerce uma função e fazendo isso contribui para a coesão do todo. Para Durkheim: normas e valores coletivos estão acima do indivíduo! DICOTOMIA CENTRAL DA SOCIOLOGIA: Indivíduo x Sociedade. 2. Indivíduo tem um papel central.  A preocupação de weber é compreender o comportamento social ou a Ação Social. apesar do aumento de liberdade individual. .  A sociedade seria então um “eterno fluir”.  São os indivíduos que conferem sentido (intenção) e explicação a determinadas ações. Ex: Polis grega. mas é constituída pela contínua ação social dos indivíduos.  A sociedade não paira sobre os indivíduos e nem lhes é superior. Há uma forte consciência coletiva (partilham mesmos valores e crenças). Nesta forma de solidariedade os indivíduos diferem pouco uns dos outros. Solidariedade orgânica: Típica das sociedades modernas. Ator x Estrutura.5 Como uma coleção de indivíduos pode construir uma sociedade? (A Divisão do Trabalho Social (1893) Duas formas de solidariedade: Solidariedade mecânica: Típica das sociedades tradicionais ou sem escrita.  A solidariedade orgânica é fruto do novo tipo de organização social que tem por base a divisão do trabalho. a coesão social se enfraquece e o excesso de individualismo (diferenciação) pode levar a anomia (ausência de coesão).

De fato. Ele não vê a sociedade como uma estrutura. A RELAÇÃO ENTRE SUJEITO E SOCIEDADE NAS TEORIAS SOCIOLÓGICAS HOJE 1.  A ação social forma uma rede de sujeitos construtores da sociedade e não apenas cumpridores de papéis.6  Weber privilegia a ação social do indivíduo dotada de sentido e a toma como base para a compreensão da vida social. estabelecidos pelos grupos dominantes.  Seu interesse está em compreender como as ações sociais são produzidas e criadas. exploração e luta de classe. Esta muda a Sociedade e faz a história (Materialismo histórico). . A Sociedade é transitória e plena de antagonismos e contradições: divisão do trabalho (manual e intelectual). Touraine é um anti-estruturalista.  O sujeito surge a partir da noção de contestação: quando o indivíduo contesta os papéis da sociedade. KARL MARX A Sociedade surgiu da necessidade dos Indivíduos de cooperarem – trabalhando – para produzir os bens necessários à vida.  O sujeito realiza-se na ação. incluindo os movimentos sociais. Sociedade: palco das forças produtivas e luta de classe (proletariado e burguesia). na sua dimensão de ator.  Faz uma distinção muito nítida entre ator individual e ator coletivo e entende a sociedade como sendo dispersada e não mais como totalitária – como um todo. ALAIN TOURAINE (Um novo Paradigma: para compreender o mundo de hoje)  Sua análise parte do indivíduo e está voltado para as transformações que estão ocorrendo na sociedade. 3. Desigualdade – conflito – superação.

 O Sujeito se realiza na ação. movimento social. como uma pluralidade. construção do eu. tanto por interesse utilitarista ou como inserção social. o indivíduo se torna sujeito enquanto contestação.  Sociedades Democráticas são Multiculturais.  A realização do Sujeito está relacionada à sua subjetividade.  A visão de sociedade para Touraine é a de uma sociedade com (a) movimentos sociais fortes. Sociedade Democrática. ANTHONY GIDDENS (Conseqüências da Modernidade)  A Modernidade – a alta-modernidade – é definida como a possibilidade de estilos de vida: projetos.  O Ator-Indivíduo enquanto Sujeito contestador. na sua reflexividade.  Nas Sociedades democráticas o poder é difuso. regida pela informação. 2.. no pensar sobre si mesmo. como agente social.  O Indivíduo. (b) Estado mínimo que não intervém na produção. educação e papel regulador. intimidade. ma sua dimensão de ator... e (c) empreendedorismo forte refletindo a sociedade pós-industrial. participante de movimentos sociais é aquele que constrói a Sociedade. O mais importante para Touraine seria uma sociedade que preserva os movimentos sociais.7  Quando o sujeito contesta.  Sujeito é o Indivíduo agindo no sentido de transformar a ordem e o ambiente no qual ele vive. o sujeito torna-se ator social. Assim. desenvolve a ação dentro de um tempo e espaço: Indivíduo político.  É nos movimentos sociais que o sujeito se legitima como ator. . descentralizado (veio pós-moderno). como saúde. ele contesta o “eu produzido” pela sociedade. mas que mantém suas funções. Dessa forma. nas quais diferentes culturas são reconhecidas e acolhidas e onde a Mulher tem lugar central.

e.  A ideia de Sociedade de Risco (de Ulrich Beck) é central em sua reflexão.  A Sociedade não oprime mais tanto o Indivíduo. a Sociologia precisa avançar. Portanto. modificando as estatísticas. via (Nem Direita. O Indivíduo se refaz em suas práticas: reflexividade da vida moderna.  Encaixe: estilo de vida tradicional (conhecimento tradicional)  Desencaixe: sistema de peritos: experts que têm domínio do conhecimento abstrato. A Estatística com seu trabalho faz as pessoas mudarem de opinião e. . a Sociedade de hoje não se configura mais no tempo e no espaço e não está mais no binômio Ordem-Desordem (Funcionalismo Parsoniano). i. o casamento. fichas simbólicas.  A própria modernidade traz consigo a Sociedade de risco . As próprias ciências trazem riscos em seu bojo que não são perceptivos.8  Tempo e Espaço é importante para a noção de Encaixe e Desencaixe. por conseguinte. dinheiro simbólico > sistema abstrato e de confiança.  Reflexividade em Giddens: (i) consiste o Indivíduo ter mais liberdade dentro da estrutura (poder correr riscos). Sistema de confiança: fé em princípios abstratos.  “As Conseqüências da Modernidade”:  Na Modernidade Clássica > Ambivalência: público e o privado.  Na Modernidade Reflexiva: Sociedade de riscos: processo de individualização. Nem Esquerda/Bobbio): a ênfase está na Sociedade Civil com presença e intervenção do Estado e com Economia de Mercado.  Sociedade de Risco: noções de Encaixe e Desencaixe. (ii) consiste no Sujeito pensar a própria Ciência nos seus desdobramentos do mundo prático. Ex.  Assim. Ex.  Teórico da 3ª. a Ciência pensada pelo Indivíduo. ou seja. necessidade dos indivíduos se autoconstruírem.

incerto e volátil “O sujeito. 6. descartabilidade. NORBERT ELIAS (O Processo Civilizador e A Sociedade dos Indivíduos) Mostra como se operou essa transformação de um sujeito sociológico tradicional – aquele legado pelo pensamento clássico –. previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável. do Indivíduo contemporâneo. das formas de agir. identidades que não são unificadas ao redor do ‘eu’ coerente” 5. assim como a sociedade líquido-moderna. RICHARD SENNETT (O Declínio do Homem Público)  Chama para o equilíbrio entre as esferas pública e privada: necessidade do outro. STUART HALL (A identidade cultural na Pós-modernidade)  Identidade na pós-modernidade  Modelos de representação do Indivíduo. utilizados em épocas distintas:  o sujeito do Iluminismo (sujeito abstrato. 12) “O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos. A liquidez da vida e da sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente.  o sujeito Sociológico (resultado de um processo entre o “eu” e a sociedade. com um essência e imutável). de construção de relações sociais: flexibilidade. íntimo. fragmentação dos laços sociais e humanos. e  o sujeito pós-moderno: fragmentário. havendo articulação entre espaço interior: subjetivo. composto não de uma única. e espaço público: papeis sociais). Líquido: fugaz. 4. dotado de razão. algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. em hábitos e rotinas. não pode manter a forma ou permanecer em seu curso por muito tempo. transitório. . ZYGMUNT BAUMAN (Vida Líquida e Modernidade Líquida) “Líquido-moderna é uma sociedade em que as condições sob as quais agem os seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação.9 3. mas de várias identidades. para uma representação mais complexa e dinâmica.” (Zygmunt Bauman – Vida Líquida). está se tornando fragmentado.” (p. A vida líquida.

O que é felicidade?  Kant e Foucault: “O que é ser moderno?” Ou Latour: “Jamais fomos Modernos”. Boaventura de Souza Santos (“A Globalização e as Ciências Sociais”. 2005. com dimensões econômicas. pertinente esta Sociedade e a contemporânea/Pós-moderna. o qual se encontra também inflado pelo mesmo processo.A Sociedade global multifacetada e imbricada com a local. sociais. religiosas e jurídicas interligadas de modo complexo [diferente das ´outras´ globalizações. DESAFIOS E OPORTUNIDADES PARA A TEORIA SOCIOLÓGICA HOJE  Necessidade  Ser da à Sociologia não ficar presa aos clássicos e Ser sua rejuvenerce-se. esta] parece combinar a universalização e a eliminação das fronteiras nacionais. por um lado. MANUEL CASTELLS  Sociedade em rede e ausência de determinismo tecnológico. sendo global ao mesmo tempo. angústia do Indivíduo na pertinente ao local. culturais.  Refletir Sociedade complexidade. por outro”. enquanto indivíduos membros das sociedades contemporâneas. .10 ‘Tiranias da Intimidade’. perdemos cada vez mais a capacidade de agirmos desvinculados de nossos valores e processos formativos singulares e perdemos a capacidade de abarcar a singularidade do ‘outro’. a identidade étnica e o regresso ao comunitarismo. políticas. Estas tiranias se evidenciam no momento em nós. a diversidade local.  Compreender a complexidade dos processos em transição: . o particularismo. 7.  Refletir o global e o local. p. 26) define globalização como: “um fenômeno multifacetado. Refletir o mal estar da modernidade (da civilização).

Baumann.O indivíduo pós-moderno. Eis o grande desafio: SUPERAR A DICOTOMIA ENTRE INDIVÍDUO E SOCIEDADE.O lugar da Mulher e sua centralidade. . Concluindo: Indivíduo e Sociedade devem ser repensados em vista das rápidas mudanças estruturais pelas quais as sociedades e seus membros estão submetidos.11 . Modernidade Líquida: “A concepção recíproca’: a sociedade dando forma à individualidade de seus membros. e os indivíduos formando a sociedade a partir de suas ações na vida”. .Sociologia do não-lugar e da Sociedade em Rede. .