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AA HHiissttÛÛrriiaa ddaa TTrriiggoonnoommeettrriiaa

Nielce M. Lobo da Costa PUCSP

Neste artigo nosso interesse È analisar a gÍnese e o desenvolvimento da trigonometria, o aparecimento do conceito de funÁ„o trigonomÈtrica e, em particular, o das funÁıes seno e cosseno [1] . Nossa motivaÁ„o para escreve-lo est· na crenÁa da import‚ncia que tem para quem ensina Matem·tica o conhecimento do como e do porquÍ do surgimento de um novo conceito e quais as transformaÁıes e evoluÁıes por ele sofridas. AlÈm disso, acreditamos que o estudo histÛrico do surgimento de um conceito È importante, pois evidencia os obst·culos epistemolÛgicos [2] do processo de construÁ„o do saber matem·tico. A an·lise desses obst·culos, vividos pelos matem·ticos no passado, nos ajuda a compreender as dificuldades dos alunos de hoje e, por outro lado, o nosso entendimento da prÛpria HistÛria e evoluÁ„o da Matem·tica pode ser ampliado a partir da an·lise dos erros e embaraÁos dos estudantes. (Arsac, 1987; Sierpinska, 1985; Vergnaud, 1994). Para considerar a gÍnese, devemos discutir qual o significado que daremos ao termo Trigonometria. Se o tomarmos como a ciÍncia analÌtica estudada atualmente, teremos a origem no sÈculo XVII, apÛs o desenvolvimento do simbolismo algÈbrico. Mas, se o considerarmos para significar a geometria acoplada ‡ Astronomia, as origens remontar„o aos trabalhos de Hiparco, no sÈculo II a.C., embora existam traÁos anteriores de seu uso. Se o considerarmos, ainda, para significar literalmente ìmedidas do tri‚nguloî, a origem ser· no segundo ou terceiro milÍnio antes de Cristo. Limitaremos este nosso trabalho ao desenvolvimento da idÈia de funÁıes trigonomÈtricas em R dando, porÈm, um esboÁo das raÌzes desta ciÍncia, desde as tabelas de sombras (sÈculo XV a.C.) atÈ a expans„o das funÁıes trigonomÈtricas em sÈries (sÈculo XVIII). Estudar a histÛria da trigonometria tambÈm permite observar o surgimento e o progresso da An·lise e da £lgebra, campos da Matem·tica nela contidos de forma embrion·ria. A

  • 1. As observaÁıes aqui apresentadas s„o parte de um estudo feito para nossa dissertaÁ„o de mestrado (1997).

trigonometria, mais que qualquer ramo da matem·tica, desenvolveu-se no mundo antigo a partir de necessidades pr·ticas, principalmente ligadas ‡ Astronomia, Agrimensura e NavegaÁ„o. Dividiremos esse artigo em sete partes: As raÌzes da Trigonometria; A Trigonometria na GrÈcia; A contribuiÁ„o dos Hindus; A Trigonometria dos £rabes e dos Persas; A InfluÍncia do Conhecimento £rabe sobre os Europeus; A Trigonometria na Europa a partir do sÈculo XIV e A Trigonometria Incorporada pela An·lise Matem·tica.

1. As raÌzes da Trigonometria

Os primeiros indÌcios de rudimentos de trigonometria surgiram tanto no Egito quanto na BabilÙnia, a partir do c·lculo de razıes entre n˙meros e entre lados de tri‚ngulos semelhantes. No Egito, isto pode ser observado no Papiro Ahmes, conhecido como Papiro Rhind [3] , que data de aproximadamente 1650 a.C., e contÈm 84 problemas, dos quais quatro fazem menÁ„o ao seqt de um ‚ngulo. Ahmes n„o foi claro ao expressar o significado desta palavra mas, pelo contexto, pensa-se que o seqt de uma pir‚mide regular seja equivalente, hoje, ‡ cotangente do ‚ngulo OMV .

Exemplo:

Seja

OV = 40

e OM = 80,

80

ent„o o seqt =

40

,

isto È:

seqt = 2

trigonometria, mais que qualquer ramo da matem·tica, desenvolveu-se no mundo antigo a partir de necessidades pr·ticas,

Figura 1 - O Seqt EgÌpcio

Na construÁ„o das pir‚mides era essencial manter uma inclinaÁ„o constante das faces, o que levou os egÌpcios a introduzirem o conceito de seqt, que representava a raz„o entre afastamento horizontal e elevaÁ„o vertical. AlÈm da utiliz aÁ„o da trigonometria nas mediÁıes das pir‚mides, apareceu no Egito (1500 a.C. aproximadamente) a idÈia de associar sombras projetadas por uma vara vertical a

  • 3. O Papiro Ahmes È o mais extenso documento egÌpcio em matem·tica que chegou aos nossos dias. Ele È

uma cÛpia de um antigo papiro do sec XIX a.C. que esteve em poder do escriba Ahmes. Foi adquirido no

Egito por H. Rhind e por isso È usualmente conhecido como Papiro Rhind (Chace, 1986).

seq¸Íncias numÈricas, relacionando seus comprimentos com horas do dia (relÛgios de sol). PoderÌamos dizer ent„o que essas idÈias estavam anunciando a chegada, sÈculos depois, das funÁıes tangente e cotangente. Os predecessores da tangente e da cotangente, no entanto, surgiram de modestas necessidades de mediÁ„o de alturas e dist‚ncias. Como j· mencionamos, os primeiros vestÌgios de trigonometria surgiram n„o sÛ no Egito, mas tambÈm na BabilÙnia. Os babilÙnios tinham grande interesse pela Astronomia, tanto por razıes religiosas, quanto pelas conexıes com o calend·rio e as Èpocas de plantio. … impossÌvel estudar as fases da Lua, os pontos cardeais e as estaÁıes do ano sem usar tri‚ngulos, um sistema de unidades de medidas e uma escala. Os babilÙnios foram excelentes astrÙnomos e influenciaram os povos posteriores. Eles construÌram no sÈculo 28 a.C., durante o reinado de Sargon, um calend·rio astrolÛgico e elaboraram, a partir do ano 747 a.C, uma t·bua de eclipses lunares. Este calend·rio e estas t·buas chegaram atÈ os nossos dias (Smith, 1958). Parece ter existido uma relaÁ„o entre o conhecimento matem·tico dos egÌpcios e dos babilÙnios. Ambos, por exemplo, usavam as fraÁıes de numerador 1. TambÈm È plausÌvel supor que os povos posteriores tivessem conhecimento da trigonometria primitiva egÌpcia. Um importante conceito no desenvolvimento da Trigonometria È o conceito de ‚ngulo e de como efetuar sua medida, uma vez que ele È fundamental em diversas situaÁıes, como na compreens„o das razıes trigonomÈtricas em um tri‚ngulo ret‚ngulo (n˙meros que dependem dos ‚ngulos agudos do tri‚ngulo e n„o da particular medida dos lados). Existem evidÍncias de tentativas de medi-los, em datas muito remotas, pois chegaram atÈ nossos dias fragmentos de cÌrculos que parecem ter feito parte de astrol·bios primitivos, provavelmente usados com propÛsito de mediÁıes (Smith, 1958). Uma trigonometria primitiva tambÈm foi encontrada no Oriente. Na China, no reinado de ChÛu-pei Suan-king, aproximadamente 1110 a.C., os tri‚ngulos ret‚ngulos eram freq¸entemente usados para medir dist‚ncias, comprimentos e profundidades. Existem evidÍncias tanto do conhecimento das relaÁıes trigonomÈtricas quanto do conceito de ‚ngulo e a forma de medi-lo mas, infelizmente n„o temos registro de como eram feitas as mediÁıes e quais as unidades de medida usadas.

Na literatura chinesa encontramos uma certa passagem que podemos traduzir por: ìO conhecimento vem da sombra, e a sombra vem do gnÙmonî, o que mostra que a trigonometria plana primitiva j· era conhecida na China no segundo milÍnio a.C .. No mundo Ocidental, o saber dos egÌpcios foi seguido pelo dos gregos. … reconhecido que, se os egÌpcios foram seus mestres, n„o tardou para que estes fossem superados pelos discÌpulos. Na GrÈcia a Matem·tica teve um grande desenvolvimento, e a civilizaÁ„o grega passou a servir de preceptora a todas as outras naÁıes.

2. A trigonometria na GrÈcia

Segundo o historiador HerÛdoto (490 - 420 a.C.), foram os gregos que deram o nome gnÙmon ao relÛgio de sol que chegou atÈ eles atravÈs dos babilÙnios, embora j· tivesse sido utilizado pelos egÌpcios antes de 1500 a.C .. O mais antigo gnÙmon de que temos conhecimento e que chegou atÈ nossos dias, est· no museu de Berlim (Eves, 1995). Ele evidencia e reforÁa a hipÛtese de que a trigonometria foi uma ferramenta essencial para observaÁ„o dos fenÙmenos astronÙmicos pelos povos antigos, uma vez que a documentaÁ„o relativa a esse perÌodo È praticamente inexistente.

O gnÙmon era uma vareta (GN na figura 2) que se espetava no ch„o, formando com ele um ‚ngulo de 90 , e o comprimento de sua sombra (AN) era observado, num hor·rio determinado: meio dia. Uma observaÁ„o dos limites da sombra permitia medir a duraÁ„o do ano e o movimento lateral di·rio do ponto A permitia medir a duraÁ„o do dia.

Na literatura chinesa encontramos uma certa passagem que podemos traduzir por : ìO conhecimento vem da

Figura 2 : O GnÙmon

Como o tamanho do gnÙmon era constante, ou seja, usava-se sempre a mesma vareta, na mesma posiÁ„o, o comprimento de AN ao meio dia variava com o ‚ngulo A. Para nÛs isto

significa uma colocaÁ„o de AN, ou

AN

GN

como

uma ìfunÁ„oî do

‚ngulo

A,

nos dias

de

hoje

denominada cotangente. PorÈm, n„o temos nenhum vestÌgio do nome no perÌodo. Sabemos que os diversos ramos da Matem·tica n„o se formaram nem evoluÌram da mesma maneira e ao mesmo tempo, mas sim gradualmente. O desenvolvimento da trigonometria est· intimamente ligado ao da geometria. Neste campo, a GrÈcia produziu grandes s·bios; entre eles Thales (625 - 546 a.C.), com seus estudos de semelhanÁa que embasam a trigonometria, e seu discÌpulo Pit·goras (570 - 495 a.C.). Conjectura-se que este ˙ltimo tenha feito a primeira demonstraÁ„o do teorema que leva seu nome: ìEm todo tri‚ngulo ret‚ngulo a ·rea do quadrado construÌdo sobre a hipotenusa È igual ‡ soma das ·reas dos quadrados construÌdos sobre os catetosî. Deste teorema deriva a relaÁ„o fundamental da trigonometria. A Escola PitagÛrica, fundada no sÈculo V a.C., foi respons·vel por descobertas na ac˙stica, elaborando uma lei de intervalos musicais. Essa lei relacionava os diapasıes de notas emitidas por cordas distendidas, sob tensıes iguais, aos comprimentos das cordas. Podemos tomar a lei dos intervalos musicais como um pren˙ncio do aparecimento das funÁıes seno e cosseno no osciloscÛpio do futuro, para se estudar o som (Bell, 1945). A primeira amostra documentada de contribuiÁ„o grega para o estudo da trigonometria apareceu por volta de 180 a.C. quando HipsÌcles, influenciado pela cultura babilÙnica, dividiu o zodÌaco em 360 partes. Essa idÈia foi posteriormente generalizada por Hiparco para qualquer cÌrculo (Eves, 1995). Por volta do ano 200 a.C. os astrÙnomos gregos estavam muito interessados em calcular a dist‚ncia entre dois pontos da superfÌcie terrestre e tambÈm o raio da Terra. Foi EratÛstenes de Cirene (276 -196 a.C.), contempor‚neo de Arquimedes (287-212 a. C.) e Aristarco (310-230 a. C.) que produziu a mais not·vel medida da Antiguidade para a circunferÍncia da Terra, usando semelhanÁa de tri‚ngulos e razıes trigonomÈtricas, o que o levou a perceber a necessidade de relaÁıes mais sistem·ticas entre ‚ngulos e cordas. Salientamos que, para tornar possÌvel o trabalho de EratÛstenes, foi determinante na Època o conhecimento do conceito de ‚ngulo e de como medi-lo. O tratado ìSobre a medida da Terraî resume as conclusıes a que ele chegou mas, infelizmente, esses escritos se perderam e tudo o que conhecemos sobre o assunto chegou atÈ nÛs pelos relatos de Ptolomeu e Heron.

ConcluÌmos que na GrÈcia, durante os dois sÈculos e meio compreendidos entre HipÛcrates e EratÛstenes, a trigonometria esteve ìengatinhandoî, o que nos leva a concordar com a afirmativa de Boyer (1974), ìde HipÛcrates a EratÛstenes os gregos estudaram as relaÁıes entre retas e cÌrculos e as aplicaram na Astronomia mas disso n„o resultou uma trigonometria sistem·ticaî (p·g. 118). Surgiu ent„o, na segunda metade do sÈculo dois a.C., um marco na histÛria da trigonometria: Hiparco de NicÈia (180-125 a.C.). Fortemente influenciado pela matem·tica da BabilÙnia, ele acreditava que a melhor base de contagem era a 60. N„o se sabe exatamente quando se tornou comum dividir a circunferÍncia em 360 partes, mas isto parece dever-se a Hiparco, assim como a atribuiÁ„o do nome arco de 1 grau a cada parte em que a circunferÍncia ficou dividida. Ele dividiu cada arco de 1 o em 60 partes obtendo o arco de 1 minuto. Sua trigonometria baseava-se em uma ˙nica ìfunÁ„oî, na qual a cada arco de circunferÍncia de raio arbitr·rio, era associada a respectiva corda. Hiparco construiu o que foi presumivelmente a primeira tabela trigonomÈtrica com os valores das cordas de uma sÈrie de ‚ngulos de 0 o a 180 o , em cuja montagem utilizou interpolaÁ„o linear. Ele observou que num dado cÌrculo a raz„o do arco para a corda diminui quando o arco diminui de 180 o para 0 . Resolveu ent„o associar a cada corda de um arco o angulo central correspondente, o que representou um grande avanÁo na Astronomia e por isso ele recebeu o tÌtulo de ìPai da Trigonometriaî.

Em linguagem moderna, esse resultado seria:

lim

sen x

x

=

1

x 0 Hiparco foi uma figura de transiÁ„o entre a astronomia babilÙnica e o grande Cl·udio Ptolomeu, (Klaudius Ptolemaios) autor da mais importante obra da trigonometria da Antiguidade, surgida no sÈculo dois de nossa era, em Alexandria, a ìSyntaxis Mathem·ticaî, composta de treze volumes. Ela ficou conhecida como Almagesto, que significa em ·rabe ìA maiorî = Al magest, pois os tradutores ·rabes a consideravam a maior obra existente na Època, em Astronomia. ìAs obras de Autolico, Euclides, Ipsicle e AristÛteles em Astronomia, juntas formavam a ColeÁ„o Menor de Astronomiaî. A obra de Ptolomeu era a ColeÁ„o Maior: ìµ ε γ ι σ τ η ì, e as duas eram indispens·veis para se entender o legado astronÙmico da Antiguidade grega (Loria,1982, p·g. 85).

O Almagesto È um marco, um modelo de Astronomia que perdurou atÈ CopÈrnico, no sÈculo XVI. Ptolomeu, na verdade, sistematizou e compilou no Almagesto uma sÈrie de conhecimentos bastante difundidos em sua Època e que a maior parte da obra È baseada no trabalho do astrÙnomo e matem·tico grego Hiparco, cujos livros se perderam. Isto aparece num coment·rio sobre trabalhos mais antigos, de Teon de Alexandria, que viveu dois sÈculos apÛs e foi um dos matem·ticos que pesquisaram sobre as descobertas dos gregos anteriores. Ele menciona que Hiparco escreveu doze livros sobre c·lculo de cordas, incluindo uma t·bua de cordas.

O Almagesto sobreviveu e por isso temos suas tabelas trigonomÈtricas e tambÈm uma exposiÁ„o dos mÈtodos usados nas construÁıes, o que È de grande import‚ncia para nÛs, visto que tanto daquela Època se perdeu. Como disse Kennedy (1992):ìPara os matem·ticos o Almagesto tem interesse devido ‡s identidades trigonomÈtricas que Ptolomeu divisou para auxili·-lo a

reunir dados para sua tabela de cordasî (p·g.28). Dos treze livros que compıem o Almagesto, o primeiro contÈm as informaÁıes matem·ticas preliminares, indispens·veis na Època, para uma investigaÁ„o dos fenÙmenos celestes, tais como proposiÁıes sobre geometria esfÈrica, mÈtodos de c·lculo, uma t·bua de cordas e explicaÁıes gerais sobre os diferentes corpos celestes. Os demais livros s„o dedicados ‡ Astronomia. Ptolomeu desenvolveu o estudo da trigonometria nos capÌtulos dez e onze do primeiro livro do Almagesto. O capÌtulo 11 consiste numa tabela de cordas e o capÌtulo 10 explica como tal tabela pode ser calculada. Na verdade, n„o existe no Almagesto nenhuma tabela contendo as ìfunÁıesî seno e cosseno, mas sim a funÁ„o corda do arco x, ou crd x, embora naturalmente estes termos n„o apareÁam. A ìfunÁ„oî corda do arco x era definida como sendo o comprimento da corda que corresponde a um arco de x graus em um cÌrculo cujo raio È 60. Assim, na tabela de cordas de Ptolomeu existiam trÍs colunas: a primeira listando os arcos, a segunda, o comprimento da corda correspondente a cada arco e a terceira que dava o aumento mÈdio de crd x correspondente a um acrÈscimo de um minuto em x. Esta coluna era usada para interpolaÁıes, isto È, para achar o valor de crd x se x estivesse entre duas entradas na coluna de arcos.

No Almagesto temos: (a) Uma tabela mais completa que a de Hiparco, com ‚ngulos de meio em meio grau, de 0 o a 180 o ; (b) O uso da base 60, com a circunferÍncia dividida em 360 graus e o raio em 60 partes e fraÁıes sexagesimais, n„o sÛ para expressar ‚ngulos e sim para qualquer tipo de c·lculo, com exceÁ„o dos de medida de tempo. (c) O resultado que passou a ser conhecido como Teorema de Ptolomeu: Se ABCD È um quadril·tero convexo inscrito num cÌrculo, ent„o a soma dos produtos dos lados opostos È igual ao produto das diagonais.

A partir desse resultado, operando com as cordas dos arcos, Ptolomeu chegou a um equivalente das fÛrmulas de seno da soma e da diferenÁa de dois arcos, isto È sen(a+b) e sen(a-b). Especialmente a fÛrmula para a corda da diferenÁa foi usada por ele para a construÁ„o da tabela trigonomÈtrica. (d) O uso, tambÈm usando cordas, do seno do arco metade:

A

D C B
D
C
B

AB.CD + BC.DA = AC.BD

Figura 3: Teorema de Ptolomeu

sen 2   π =

1

2

2

(

1

cos

π )

Em nosso entender, a mais importante contribuiÁ„o do Almagesto foi tornar evidente a possibilidade de uma descriÁ„o quantitativa dos fenÙmenos naturais, pela Matem·tica, j· que ele desenvolveu, como muito bem escreveu Aaboe (1984):

ìÖn„o somente seus modelos astronÙmicos, mas tambÈm as ferramentas matem·ticas, alÈm da geometria elementar, necess·rias para a Astronomia, entre elas a trigonometria.(p·g. 128). Mais do que qualquer outro livro, o Almagesto contribuiu para a idÈia t„o b·sica nas atividades cientÌficas, de que uma descriÁ„o quantitativa matem·tica dos fenÙmenos naturais, capaz de

fornecer prediÁıes confi·veis, È possÌvel e desej·velî (p·g. 129). Como o centro de nossas atenÁıes È a trigonometria, propomo-nos a investigar aqui apenas a gÍnese das funÁıes trigonomÈtricas. Isso significa que o desenvolvimento do conceito de funÁ„o ser· mencionado rapidamente. Um estudo histÛrico mais detalhado de funÁıes pode ser encontrado nos trabalhos de Mendes (1994), Schwarz (1995) e Oliveira (1997). Na GrÈcia Antiga o conceito de funÁ„o propriamente dito n„o foi desenvolvido, mas nos estudos de AristÛteles aparecem idÈias sobre quantidades vari·veis e nos trabalhos de cÙnicas de Arquimedes e ApolÙnio È introduzido o ìSymptomî de uma curva, que È definido por eles como

a condiÁ„o para que um ponto pertencesse ‡ cÙnica, isto È, uma espÈcie de dependÍncia funcional. (Kennedy,1994). A Matem·tica da Antiguidade Cl·ssica n„o estabeleceu a noÁ„o geral de quantidade vari·vel ou de funÁ„o e concluÌmos com Youschkevtch (1981) que os mÈtodos quantitativos de pesquisa, usados em Astronomia, tinham como objetivo representar, em tabelas, relaÁıes entre conjuntos discretos de quantidades dadas, mas sem a preocupaÁ„o de generalizaÁ„o.

3. A contribuiÁ„o dos hindus

No sÈculo IV da nossa era, a Europa Ocidental entrou em crise com as invasıes dos b·rbaros germ‚nicos e com a queda do ImpÈrio Romano. O centro da cultura comeÁou a se

deslocar para a Õndia, que revolucionou a trigonometria com um conjunto de textos denominados Siddhanta, que significa sistemas de Astronomia. O que chegou atÈ nÛs foi o Surya Siddhanta, que quer dizer Sistemas do Sol e È um texto Èpico, de aproximadamente 400 d.C, escrito em versos e em s‚nscrito. Os hindus diziam que o autor do texto foi Surya, o deus do Sol. Esta obra contÈm poucas explicaÁıes e nenhuma prova pois, afinal, tendo sido escrita por um Deus, seria muita pretens„o exigir provas. (Boyer, 1974). A import‚ncia do Surya, para nÛs, È que ele abriu novas perspectivas para a Trigonometria por n„o seguir o mesmo caminho de Ptolomeu, que relacionava as cordas de um cÌrculo com os ‚ngulos centrais correspondentes. Nas aplicaÁıes da ìfunÁ„oî corda, na Astronomia, era necess·rio dobrar o arco antes de us·-lo na t·bua de cordas. Naturalmente, era mais conveniente ter uma t·bua na qual o prÛprio arco fosse a vari·vel independente. No Surya, a relaÁ„o usada era entre a metade da corda e a metade do ‚ngulo central correspondente, chamada por eles de jiva. Isto possibilitou a vis„o de um tri‚ngulo ret‚ngulo na circunferÍncia, como na Figura 4. Definiam o jiva como sendo a raz„o entre o cateto oposto e a hipotenusa.

a condiÁ„o para que um ponto pertencesse ‡ cÙnica, isto È, uma espÈcie de dependÍncia funcional.

jiva

θ

2

= cateto oposto

hipotenusa

Sen

θ

c / 2

c

1

=

=

=

2

r

2 r

2

r

. crd

θ

A metade da corda dividida pelo raio do cÌrculo È o seno da metade do arco (ou da metade do ‚ngulo central correspondente a todo o arco).

Figura 4: O ìJivaî Hindu

Com os hindus, as principais ìfunÁıesî trigonomÈtricas foram introduzidas e os mÈtodos de tabulaÁ„o se aperfeiÁoaram, particularmente os de interpolaÁ„o quadr·tica e linear. Por volta de 500 d.C., o matem·tico hindu Aryabhata j· calculava semi cordas e usava tambÈm o sistema decimal, desenvolvido aproximadamente em 600 d.C. Ao surgirem, os numerais hindus continham nove sÌmbolos e n„o havia sÌmbolo para o zero. Quando os hindus introduziram os conceitos de semi corda e de seno, demostraram algumas identidades, e encontramos em Varahamihira, no ano 505 d.C., o equivalente verbal de

sen

2

θ + cos

2

θ = 1

ApÛs os hindus, foram os ·rabes e os persas a dar sua contribuiÁ„o ‡ trigonometria.

4. A Trigonometria dos £rabes e Persas O ImpÈrio MuÁulmano ou £rabe, alÈm da expans„o econÙmica, viveu extraordin·rio avanÁo nos diversos campos das artes e da ciÍncia do fim do sÈculo VIII atÈ o sÈculo XI, com destaque ao sÈculo IX. A expans„o do saber muÁulmano deveu-se, sobretudo, ‡ difus„o da lÌngua ·rabe, que substituiu o grego na condiÁ„o de lÌngua internacional. O emprego do ·rabe permitiu a fixaÁ„o e a preservaÁ„o de obras antigas, que foram traduzidas e assim difundidas entre os intelectuais muÁulmanos. Podemos dizer que a influÍncia ·rabe comeÁou com a fundaÁ„o da Escola de Bagdad, no sÈculo IX, e um dos seus maiores expoentes foi o prÌncipe da SÌria Mohamed-ben-Geber, conhecido como AL Battani (aproximadamente 850 a 929 d.C.), ou Albategnius, nas traduÁıes latinas, chamado o Ptolomeu de Bagdad. Os estudos de AL Battani ficaram entre o Almagesto e Siddhanta e foi por sua influÍncia que a trigonometria hindu foi adotada pelos ·rabes, principalmente a partir de sua genial idÈia de introduzir o cÌrculo de raio unit·rio e com isso demonstrar que a raz„o jiva È v·lida para qualquer tri‚ngulo ret‚ngulo, independentemente do valor da medida da hipotenusa.

jiva =

cateto oposto

BC

=

1

1

Sen

θ

BC

=

2

1

Com os hindus, as principais ìfunÁıesî trigonomÈtricas foram introduzidas e os mÈtodos de tabulaÁ„o se aperfeiÁoaram,

Figura 5: A IdÈia do Raio 1 de AL Battani

Se um tri‚ngulo ret‚ngulo tem um ‚ngulo agudo

θ

ent„o, quaisquer que sejam as
2

medidas do cateto oposto e da hipotenusa, podemos afirmar que: ABC AB 1 C 1

No ABC temos sen

θ

2

=

jiva

1

Pelo Teorema de Tales, temos:

logo sen

θ

1

B C

1

=

2

AB

1

=

jiva

1

jiva

BC

1

B C

1

=

=

1

AB

AB

1

r A 1 θ/2 B 1 C 1 B C
r
A
1
θ/2
B 1
C 1
B
C

Figura 6: FÛrmula Usada para Construir a Tabela de Al Battani

Com esta fÛrmula pÙde-se construir uma t·bua, de º a 90 graus, variando de º em º de graus, ou seja, uma tabela de senos, apesar deste nome n„o ter sido usado para design·-la. Al- Battani estava interessado em calcular a altitude do sol, para isso foi necess·rio usar as razıes trigonomÈtricas e construir t·buas mais precisas que as existentes na Època. Depois de Al-Battani, digno de nota entre os matem·ticos ·rabes foi Ab˚íl WÍfa que, em 980, iniciou uma organizaÁ„o, uma sistematizaÁ„o de provas e teoremas de trigonometria. Destacamos tambÈm o astrÙnomo Persa NasÓr ed-dÍn al-T˚sÓ autor, em 1250, do primeiro trabalho no qual a trigonometria plana apareceu como uma ciÍncia por ela prÛpria, desvinculada da Astronomia. Isto seria retomado na Europa, no sÈculo XV, quando Regiomontanus estabeleceu a trigonometria como um ramo da Matem·tica. Quando a Escola de Bagdad entrou em declÌnio, o centro das atividades intelectuais deslocou-se para o sul da Europa, na PenÌnsula IbÈrica, e com ele o estudo da trigonometria, particularmente nos tri‚ngulos esfÈricos necess·rios aos estudos astronÙmicos. A cidade de Toledo tornou-se o mais importante centro da cultura, a partir de 1085, quando foi libertada pelos crist„os do domÌnio mouro. Isto ocorreu porque para ela afluÌram os estudiosos ocidentais, visando a adquirir o saber muÁulmano. O sÈculo XII na HistÛria da Matem·tica foi, ent„o, um sÈculo de tradutores dos quais citamos Plat„o de Tivoli, Gerardo de Cremona, Adelardo de Bath e Robert de Chester . Com isso, a Europa teve acesso ‡ matem·tica ·rabe e ‡ heranÁa grega que havia sido conservada, na medida do possÌvel, por eles. (Struik, 1992).

  • 5. A InfluÍncia do Conhecimento £rabe sobre os Europeus

Diversos dos astrÙnomos ·rabes se deslocaram para a Espanha para trabalhar e passaram a difundir o saber. Os mais importantes escritores foram os astrÙnomos Ibr‚hÓm ibn Yahy‚ al Naqq‚sh, (conhecido como Ab˚ Ish‚q ou Ibn al-Zarq‚la ou, nas traduÁıes latinas como Arzachel, e que viveu em CÛrdoba) autor de um conjunto de t·buas trigonomÈtricas em 1050, e Jabir ibn Aflah (conhecido como Jeber ibn Aphla, tendo vivido em Sevilha), cujos estudos astronÙmicos de 1145 se mostraram t„o interessantes que, sÈculos mais tarde (1543), foram publicados em Nuremberg. O matem·tico europeu mais habilidoso do sÈculo XIII foi Fibonacci (1170-1250). Ele estudou no norte da £frica e depois viajou pelo Oriente como mercador, com isso sofreu grande influÍncia dos ·rabes. Sua obra ìPractica Geometriaeî, de 1220, È uma aplicaÁ„o da trigonometria ·rabe na Agrimensura. O rei Alfonso X de Castela ordenou, no ano 1250, a estudiosos (crist„os, mouros e judeus) de Toledo que traduzissem os livros de Astronomia e modernizassem as t·buas trigonomÈtricas ·rabes. Em 1254 foram concluÌdas as T·buas Afonsinas, que junto com Os Libros del Saber de Astronomia foram considerados de grande valia, uma vez que ìa cultura astronÙmica preservada na PenÌnsula IbÈrica foi o esteio da arte portuguesa de navegar, no sÈculo XVî (Serr„o, p·g. 49,1971).

  • 6. A Trigonometria na Europa a partir do sÈculo XIV

Na Europa do sÈculo XIV alguns importantes passos foram dados para o desenvolvimento da Matem·tica. Pela primeira vez, as noÁıes de quantidades vari·veis e de funÁ„o s„o expressas e, tanto na Escola de Filosofia Natural do Merton College de Oxford quanto na Escola de Paris, chega-se ‡ conclus„o de que a Matem·tica È o principal instrumento para o estudo dos fenÙmenos naturais. Com o inÌcio do estudo da velocidade instant‚nea ou pontual e a atenÁ„o especial dada ao movimento, tornou-se necess·rio desenvolver um suporte matem·tico. Paralelamente ao desenvolvimento da trigonometria, que j· vinha ocorrendo na Europa desde o sÈculo XI com a retomada do conhecimento ·rabe, ocorreu o desenvolvimento das

funÁıes. Neste campo surgiu Nicole Oresme (1323 -1382) com seu ìTreatise on the configuration of Qualities and Motionsî, no qual introduziu a representaÁ„o gr·fica que explicita a noÁ„o de funcionalidade entre vari·veis (no caso velocidade por tempo). Seu trabalho influenciou Galileu (1564-1642) e Descartes (1596-1650) nos sÈculos XVI e XVII. Com os estudos de Oresme, comeÁou a se consolidar o conceito de funÁ„o. No sÈculo XIV, Purbach, na Inglaterra, retomou a obra de Ptolomeu e computou uma nova t·bua de senos, muito difundida entre os estudiosos europeus. Purbach foi o mestre de Regiomontanus (1436-1475), um dos maiores matem·ticos do sÈculo XV, cujo trabalho teve grande import‚ncia, estabelecendo a Trigonometria como uma ciÍncia independente da Astronomia. Regiomontanus escreveu um ìTratado sobre tri‚ngulosî, em cinco livros, contendo uma trigonometria completa. A invenÁ„o posterior dos logaritmos e alguns dos teoremas demonstrados por Napier (1550-1617) mostram que a Trigonometria de Regiomontanus n„o diferia basicamente da que se faz hoje em dia. No ìTratadoî ele calculou novas t·buas trigonomÈtricas, aperfeiÁoando a de senos de Purbach, e introduziu na trigonometria europÈia o uso das tangentes, incluindo-as em suas t·buas. Podemos dizer que foi ele quem lanÁou as fundaÁıes para os futuros trabalhos na trigonometria plana e esfÈrica. CopÈrnico (1473-1543) tambÈm contribuiu ao completar, em 1520, alguns trabalhos de Regiomontanus, que incluiu em um capÌtulo de seu ìDe Lateribus et Angulis Triangulorumî, publicado separadamente por seu discÌpulo Rhaeticus em 1542. Com o advento da imprensa, a cultura se difunde e, a partir daÌ, nenhum grupo nacional conserva a lideranÁa. Na Antiguidade foi a GrÈcia a sobrepujar os outros povos do Ocidente, na Idade MÈdia o Mundo £rabe mas, do sÈculo XV em diante, com o desenvolvimento do Racionalismo, a atividade matem·tica desloca-se repetidamente para diversos paÌses. O primeiro trabalho impresso em trigonometria provavelmente foi a ìTabula Directionumî de Regiomontanus, publicado em Nuremberg certamente antes de 1485, pois a segunda ediÁ„o data deste ano, em Veneza. As seis funÁıes trigonomÈtricas foram definidas como funÁıes do ‚ngulo, em vez de funÁıes do arco, e subentendidas como razıes, pela primeira vez, no ìCanon

DoctrinaeTtriangulorumî de Joachim Rhaeticus em Leipzig, 1551, embora ele n„o tenha dado

nomes para seno, cosseno ou cossecante, exceto perpendiculum, basis e hypotenusa.

Rhaeticus (1514-1576) retomou, um sÈculo depois, as t·buas de Regiomontanus de

1464, com maior rigor nos c·lculos. Aumentou a precis„o para onze casas decimais e os senos,

cossenos, tangentes e secantes foram calculados de minuto em minuto para os arcos do primeiro

quadrante e de dez em dez segundos para o arco de 1 . Ele foi o primeiro a adotar a organizaÁ„o

das t·buas em semiquadrantes, dando os valores dos senos, cossenos e tangentes de ‚ngulos atÈ

45 e completando a tabela com o uso da igualdade sen x = cos (π/2-x). Deve-se tambÈm a

Rhaeticus a introduÁ„o das secantes na trigonometria europÈia e os c·lculos do sen n θ em

termos de sen θ , que foram retomados e aprimorados por Jacques Bernoulli, em 1702.

Neste relato histÛrico n„o poderÌamos deixar de mencionar ViËte (1540-1603), pois foi

ele quem adicionou um tratamento analÌtico ‡ trigonometria, em 1580. Foi o primeiro

matem·tico a usar letras para representar coeficientes gerais, o que representou grande progresso

no campo da £lgebra. TambÈm construiu t·buas trigonomÈtricas e calculou o sen 1í com treze

casas decimais.

ViËte iniciou o desenvolvimento sistem·tico de c·lculo de medidas de lados e ‚ngulos

nos tri‚ngulos planos e esfÈricos, aproximados atÈ minutos, e com a ajuda de todas as seis

funÁıes trigonomÈtricas. AlÈm disso, foi ele que introduziu mÈtodos gerais de resoluÁ„o em

matem·tica. … dele a idÈia de decompor em tri‚ngulos ret‚ngulos os tri‚ngulos oblÌquos, para

determinar todas as medidas dos seus lados e ‚ngulos. Isto est· em sua obra ìCanon

Mathematicusî. No livro ìVariorum

de rebus mathematicisî aparece um equivalente da nossa

lei das tangentes:

tg ( A tg (A

+

B)

a

+

b

com A

B ‚ngulos e a e b os arcos respectivos. Na

B)

a

b

=

e

verdade, esta relaÁ„o sÛ foi publicada pelo matem·tico dinamarquÍs Thomas Fincke, no seu

ìGeometria Rotundiî, em Basel 1583, apesar de ser devida a ViËte.

A prÛxima figura not·vel na trigonometria foi Pitiscus que publicou um tratado, em

1595, no qual corrigiu as t·buas de Rhaeticus e modernizou o tratamento do assunto. A palavra

trigonometria aparece pela primeira vez, como tÌtulo de um livro seu.

Seguindo Pitiscus, destacamos o brit‚nico Napier, que estabeleceu regras para

tri‚ngulos esfÈricos, que foram amplamente aceitas, enquanto sua maior contribuiÁ„o, os

logaritmos, ainda estavam sendo analisados e n„o eram reconhecidos como v·lidos por todos.

Suas consideraÁıes sobre os tri‚ngulos esfÈricos foram publicadas postumamente no ìNapier

Analogiesî, do ìConstructioî no ano de 1619, em Edinburgh.

Outro grande expoente em trigonometria foi Oughtred. Em seu trabalho, de 1657,

preocupou-se em desenvolvÍ-la do ponto de vista simbÛlico. No entanto, como o simbolismo

algÈbrico estava pouco avanÁado para tornar isto possÌvel, a idÈia n„o foi aceita atÈ que Euler

exercesse sua influÍncia neste sentido no sÈculo XVIII.

John Newton (1622-1678) publicou em 1658 o tratado ìTrigonometria Britannicaî

que, embora baseado nos trabalhos de Gellibrand e outros escritores, era o mais completo livro

do tipo que havia surgido em seu tempo. Newton e Gellibrand anteciparam a tendÍncia atual de

introduzir divisıes centesimais do ‚ngulo nas t·buas trigonomÈtricas.

O prÛximo importante passo em trigonometria foi dado por John Wallis (1616-1703) ao

expressar fÛrmulas usando equaÁıes em vez de proporÁıes, e por trabalhar com sÈries infinitas.

Sir Isaac Newton (1642-1727) tambÈm deu sua contribuiÁ„o ‡ trigonometria pois,

paralelamente aos seus estudos de c·lculo infinitesimal apoiados fortemente na geometria do

movimento, trabalhou com sÈries infinitas, tendo expandido arcsen x em sÈries e, por revers„o,

deduzido a sÈrie para sen x. AlÈm disso, comunicou a Leibniz a fÛrmula geral para sen (nx) e

cos(nx) tendo, com isso, aberto a perspectiva para o sen x e o cos x surgirem como n˙meros e

n„o como grandezas, sendo Kastner, em 1759, o primeiro matem·tico a definir as funÁıes

trigonomÈtricas de n˙meros puros.

Finalizando, vale mencionar que Thomas-Fanten de Lagny foi o primeiro matem·tico a

evidenciar a periodicidade das funÁıes trigonomÈtricas, em 1710, e a usar a palavra

ìgoniometryî, em 1724, embora mais num sentido etimolÛgico do que como medida de ‚ngulo,

como agora È o caso.

7. A Trigonometria Incorporada pela An·lise Matem·tica

A trigonometria toma a sua forma atual quando Euler (1707-1783) adota a medida do

raio de um cÌrculo como unidade e define funÁıes aplicadas a um n˙mero e n„o mais a um

‚ngulo como era feito atÈ ent„o, em 1748. A transiÁ„o das razıes trigonomÈtricas para as funÁıes

periÛdicas comeÁou com ViËte no sÈculo XVI, teve novo impulso com o aparecimento do

C·lculo Infinitesimal no sÈculo XVII e culminou com a figura de Euler.

Uma idÈia genial de Euler foi criar a funÁ„o E, que denominaremos funÁ„o de Euler. Ela

Uma idÈia genial de Euler foi criar a funÁ„o E, que denominaremos funÁ„o de Euler. Ela

associa a cada n˙mero um ponto de um cÌrculo C 1 unit·rio e centrado na origem do plano

cartesiano. Seu domÌnio È o conjunto [4] e o contra domÌnio È C 1 A funÁ„o E: C 1

associa a cada x , um ponto P C 1 , P = (a, b) pertence a C 1 se e somente se a 2 +b 2 =1

Como essa funÁ„o faz a correspondÍncia entre cada n˙mero x e os pontos do cÌrculo C 1 ,

ao n˙mero zero corresponde o ponto A = (1,0) e, dado x , x > 0, mede-se, a partir desse

ponto A, um arco de comprimento x, no sentido anti - hor·rio. A extremidade do arco È um

ponto P = E(x). Se x<0, mede-se, a partir de A, um arco de comprimento x, no sentido hor·rio, e

se obtem o ponto P = E(x) correspondente. A funÁ„o E: C 1 consiste em envolver a reta

como se fosse um fio inextensÌvel sobre o cÌrculo C 1 que, por sua vez, È imaginado como um

carretel.

Definindo-se as funÁıes: h 1 :C 1 por h 1 ( P(a,b))=a

e

h 2 :C 1

por h 2 (P(a,b))=b,

e tomando-se as compostas: f = h 1 o E e g = h 2 o E, podem-se definir as funÁıes seno e cosseno

de um n˙mero real x e n„o mais de um ‚ngulo, como era anteriormente necess·rio.

Dado x , a ele se associa um ponto P, do cÌrculo, sendo: P=E(x)=(a,b). Considerando

a = cos x

e

b = sen x

definimos:

f : ℜ → ℜ

f

(

x

)

=

sen

e

x

g : ℜ → ℜ

(

g x

)

=

cos

x

Vide figura abaixo.

. Sendo cosx a abscissa e senx a ordenada de P = E(x).

Uma idÈia genial de Euler foi criar a funÁ„o E, que denominaremos funÁ„o de Euler. Ela

Figura 7: AssociaÁ„o entre um N˙mero Real e seu Seno atravÈs do Ponto Correspondente no Ciclo

4.Na Època o conjunto dos n˙meros reais n„o estava ainda bem definido (isto sÛ ocorreu no sÈculo XIX) porÈm, neste texto, estamos dando uma interpretaÁ„o moderna do trabalho de Euler; para tanto tomamos por base o artigo de Lima, 1991.

Como muito bem falou Lima (1991):ìA funÁ„o de Euler E: RC 1, que possibilita

encontrar senx e cosx, como funÁ„o de uma vari·vel real x, abriu para a trigonometria as portas

da An·lise Matem·tica e de in˙meras aplicaÁıes ‡s CiÍncias FÌsicasî (p·g. 35).

O tratamento analÌtico das funÁıes trigonomÈtricas est· no livro ìIntroductio in Analysin

Infinitorumî, de 1748, considerado a obra chave da An·lise Matem·tica. Nele, o seno deixou de

ser uma grandeza e adquiriu o status de n˙mero obtido pela ordenada de um ponto de um cÌrculo

unit·rio, ou o n˙mero definido pela sÈrie:

senx= x

357

xxx

−+−+

...

!!!

357

E ele mostrou que:

sen

x

=

e

ix

e

ix

2i

 

e

ix

+

e

ix

e

cos

x

=

2

,

onde i È a unidade imagin·ria, possibilitando definir as funÁıes seno e cosseno a partir dessas

relaÁıes, inserindo-as no campo dos n˙meros complexos.

Enfim a trigonometria, no inÌcio uma auxiliar da Agrimensura e da Astronomia, tornou-

se primeiramente autÙnoma e por fim transformou-se em uma parte da An·lise Matem·tica,

expressando relaÁıes entre n˙meros complexos, sem necessidade de recorrer a arcos ou ‚ngulos.

Foi um longo caminho da Humanidade para chegar atÈ a trigonometria que hoje

ensinamos aos nossos alunos. Nesse texto n„o tratamos da evoluÁ„o do conceito de ‚ngulo que È

subjacente e essencial ao desenvolvimento da trigonometria, nem da construÁ„o das t·buas

trigonomÈtricas ou da trigonometria esfÈrica, indispens·vel na Astronomia. Nos propusemos

apenas a descortinar parte dessa trajetÛria. Fica a nossa mensagem ao professor para que, ao

ensinar trigonometria, de alguma forma se discuta com os alunos questıes que os levem a

perceber que o conhecimento matem·tico n„o "caiu do cÈu" ou surgiu pronto e acabado e que de

alguma forma a evoluÁ„o possa ser acompanhada e alguma parte do caminho feita com eles.

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