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Muitos foram os fãs da série norte-ame-
ricana Lost que, inconformados com o desfe-
cho oficial da atração, ousaram criar versões
próprias para o fim das aventuras de Jack,
Hurley etc. Resultado? Milhares de vídeos,
HQs, jogos interativos e outras tantas pro-
duções capazes não apenas de recontar os
últimos momentos dos personagens, mas,
principalmente, de gerar relatos complexos,
em função de sua natureza compartilhada
e colaborativa. Eis, de modo sucinto, um
exemplo de como nascem – neste caso, no
“território” da ficção – as chamadas narrati-
vas transmedia (ou NTs).
“Lost expandiu seu universo narrati-
vo em muitos meios e, ao mesmo tempo,
gerou um fenômeno mundial impossível
de se pensar sem as redes sociais”, es-
clarece Carlos A. Scolari, professor da
Universitat Pompeu Fabra, de Barcelona,
e um dos mais importantes pesquisadores
do tema no mundo. Doutor em Linguística
Aplicada e Linguagens da Comunicação, o
pesquisador comenta, nesta entrevista, as
potencialidades das redes transmidiáticas,
os novos processos de ensino-aprendiza-
gem e os futuros desafios do jornalismo.
Maurício Guilherme Silva Jr.
(Trans)
notícias da era
colaborativa
Renomado especialista em narrativas transmedia, Carlos Scolari, da
UnìversìLaL Pompeu Fabra, íala sobre novas Lecnologìas, educação,
cìêncìa, ʐcção e jornalìsmo
Como o senhor definiria o termo
transmedia? O que o distingue de outras
designações contemporâneas, como mul-
timedia e hipermedia?
Por narrativa transmedia (NT) se
entende um tipo de relato que, em primei-
ro lugar, se expande por meio de muitos
meios. Uma NT pode nascer numa His-
tória em Quadrinhos e expandir-se a um
videojogo, ao cinema, a um romance (ou
vice-versa). Por sua vez, participa ativa-
mente dessa expansão parte importante
dos consumidores, os quais terminam por
converter-se em “prosumidores”: consu-
midores e produtores textuais ao mesmo
tempo. Multimedia é conceito típico dos
anos 1990, que fazia referência à confluên-
cia, ou convergência, de linguagens num
mesmo meio. Como exemplo, cito o CD-
-ROM. Já Hipermedia é uma extensão do
velho conceito de hipertexto: trata-se de
uma rede de textos unidos por enlaces. No
caso de hipermedia, os textos que formam
a rede podem ser escritos, sonoros, audio-
visuais etc. Todos estes são conceitos pró-
ximos, mas nomeiam experiências textuais
diferentes entre si.
Como nasceu seu interesse pela
investigação do fenômeno transmedia?
Qual seu histórico – acadêmico e pessoal
– com o tema?
Desde 1992, dedico-me a estudar
os novos meios digitais e interativos. Há
cerca de oito anos, contudo, descobri que
não podemos compreender os new media
se não os relacionarmos com os old media
(rádio, cinema, televisão etc.). Dessa ma-
neira, fui-me cercando da chamada Media
Ecology, enfoque holístico que abarca to-
das as experiências e tecnologias midiáti-
cas. Neste contexto, as narrativas transme-
dia são os fenômenos mais interessantes
a emergir de tal ecologia: nelas, os velhos
e novos meios convivem e se articulam ao
redor de um relato.
No que diz respeito à construção de
narrativas, uma questão se afirma: para
certos pesquisadores, a chamada transme-
dia storytelling diria respeito, tão somente,
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às atuais possibilidades de “alongamento”
das “histórias” que contamos, a partir,
principalmente, de um cânone, mas – sem-
pre – por meio das novas tecnologias. Em
suas aulas, porém, o senhor cita o caso da
Bíblia, documento que, ao longo do tempo,
transmutou-se numa série (infinita, ao que
parece) de narrativas. Neste sentido, per-
gunto-lhe: seria realmente possível dizer
que o livro sagrado dos cristãos seja uma
espécie de experiência milenar de narrativa
transmedia? A tecnologia – e, principal-
mente, a presença da internet – não seria
vital à definição de tal processo?
O relato cristão cumpre os critérios
para ser considerado uma narrativa transme-
dia: é uma história que se contou por meio de
diferentes meios ao longo da história (livro,
iconografia popular, vitrais das igrejas etc).
Além disso, aparecerão novos per-
sonagens (santos, mártires etc.) e os usu-
ários darão suas contribuições (ex-votos,
relatos de milagres e aparições etc.).
Agora, as redes digitais permitem que as
narrativas transmedia se expandam a mui-
tos outros espaços de comunicação, como
páginas web, redes sociais, mas, sobretu-
do, são um lugar privilegiado para que os
usuários compartilhem e distribuam seus
conteúdos. Sites como YouTube ou Fan-
fiction.net são espaços fundamentais para
que os usuários se expressem e expandam
seus relatos preferidos.
O senhor também investiga o uso de
recursos transmedia como iniciativa auxi-
liar aos processos pedagógicos e educa-
cionais. Neste sentido, poderia, por favor,
comentar resultados de suas pesquisas na
área? Arrisco-me, inclusive, a lhe pergun-
tar de modo direto: de que modo enxerga o
futuro da educação no mundo?
A educação segue sendo, em grande
parte, monomidiática. A escola, em muitos
lugares, segue girando em torno do livro:
é uma educação livro-cêntrica. Por outro
lado, as produções textuais dos alunos
servem apenas para avaliá-los, e não se
reutilizam dentro do sistema. Uma educa-
ção transmedia deveria abarcar diferentes
meios e linguagens. Não é à-toa que mui-
tos intelectuais defendam os chamados
polialfabetismos: não basta saber ler e
escrever! É preciso aprender a expressar-
-se em outras linguagens como a audiovi-
sual! Ademais, uma educação transmedia
deveria recuperar os conteúdos gerados
pelos estudantes e utilizá-los nos proces-
sos de ensino-aprendizagem. A educação
transmedia deveria ser mais polifônica e
participativa.
Ainda em relação aos processos
educacionais, seria possível afirmar que as
novas tecnologias tendem a facilitar o pro-
cesso de aprendizado e/ou de aprimora-
mento linguístico e intelectual de crianças
e adolescentes? De que modo, hoje, tais
recursos (plataformas, dispositivos, servi-
ços etc.) influenciam – do ponto de vista
cognitivo, principalmente – a forma como
estudantes “consomem” e/ou “absorvem”
conteúdo simbólico?
Cada momento da história da huma-
nidade tem sua própria tecnologia educa-
tiva: a tabuleta de cera, a ardósia, o livro.
Hoje, estamos na era das telas interativas
e das redes digitais. Isto, evidentemente,
muda os atores que participam do proces-
so de ensino-aprendizagem (não é o mes-
mo numa geração que cresceu lendo livros
e outra que cresceu com a Wikipedia e The
Sims) e afeta as dinâmicas educativas. As
instituições educativas, como sempre, tar-
dam em adaptar-se a estas transformações.
A atitude natural da escola é rechaçar as
novas tecnologias. Até que consiga do-
mesticá-las e incorporá-las ao dispositivo
educativo. Nisso estamos.
Que dados quantitativos, acerca do
uso de novas tecnologias, o senhor ressal-
“Uma narrativa transmedia
pode nascer numa História
em Quadrinhos e expandir-
se a um videojogo, ao
cinema, a um romance (ou
vice-versa). Por sua vez,
participa ativamente dessa
expansão parte importante
dos consumidores, os quais
terminam por converter-
se em “prosumidores”:
consumidores e produtores
textuais ao mesmo tempo”
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taria? Tais números estariam diretamente
relacionados ao progresso da narrativas
transmedia no mundo?
Eu creio que o dado demolidor é que,
em maio de 2013, existiam no planeta 6,8
bilhões de contratos de comunicação com
dispositivos móveis. Isto é, uma penetra-
ção de 96,2%. Cerca de 2 bilhões desses
contratos são de banda larga. Ou seja, por
meio deles, as pessoas terão acesso rápido
aos conteúdos audiovisuais da rede. Em
poucos anos, a maioria dos contratos será
de banda larga. As consequências sociais,
políticas, econômicas e culturais desta di-
fusão capilar da tecnologia móvel – que
permite ingressar a qualquer momento, e
quase de qualquer lugar, às redes digitais
– são difíceis de prever. É uma combinação
tecnológica potencialmente disruptiva.
O senhor escreveu inúmeros artigos
e livros sobre o fenômeno Lost, série de TV
ampliada pela ação das NTs. Para comen-
tar a evolução transmedia dos produtos de
ficção, seria possível comparar a trajetória
do programa ao desenvolvimento de séries
de televisão em outros períodos? De que
modo a construção da narrativa é hoje po-
tencializada?
Seria interessante comparar Lost
com The Prisoner, série inglesa dos anos
1960 que tinha elementos fantásticos,
muito parecidos à produção de J.J. Abra-
ms. Mas, para além das similitudes nar-
rativas – em The Prisoner, o personagem
estava numa ilha onde se passavam coisas
extraordinárias –, Lost expandiu seu uni-
verso narrativo em muitos meios (livros,
videojogos, jogos de realidade alternativa,
páginas web etc.) e, ao mesmo tempo, ge-
rou um fenômeno mundial impossível de
se pensar sem as redes sociais. O debate
interpretativo de cada capítulo de Lost nas
redes, em escala planetária é um fenômeno
que não deixa de fascinar-me!
No que tange à não-ficção, de que
maneira, a seu ver, o jornalismo poderia
se alimentar dos recursos das narrativas
transmedia?
O jornalismo já é uma narrativa trans-
media. As informações são um relato, uma
forma de storytelling que se conta por meio
de muitos meios e plataformas. Uma notí-
cia pode começar no Twitter, continuar em
um portal informativo na web, seguir na rá-
dio ou na televisão e terminar em um jornal
impresso, no dia seguinte. De outro lado,
os usuários participam, cada vez mais,
do relato informativo. Ou seja, o discurso
jornalístico cumpre com os requisitos para
ser considerado uma narrativa transmedia.
De que modo o próprio discurso da
ciência – atividade humana marcada por
criteriosos procedimentos metodológicos
e paradigmáticos – poderá se transformar
a partir das possibilidades das NTs?
Assim como a educação, a ciência é,
em grande parte, monomidiática. Os inves-
tigadores devemos publicar papers e livros
para poder mostrar e compartilhar nossos
estudos. Todavia, ainda há um vasto cami-
nho a percorrer. Por que o conhecimento
científico deve ser monomidiático? Por que
não difundir e compartilhar nossas inves-
tigações por meio de formatos audiovisu-
ais ou interativos? Por outro lado, fala-se
cada vez mais da Ciência 2.0, um espaço
democrático de produção científica, aberto
à participação dos cidadãos. Já nos anos
1960-70, investigadores, como Marshall
McLuhan, assumiram que o conhecimento
científico deveria ser transmedia. McLuhan
editou seus livros junto a designers grá-
ficos, registrou um disco com sua obra,
The Medium is the Massage, e não perdia
a ocasião de ser entrevistado na televisão.
Apareceu, inclusive, num filme de Woody
Allen: Annie Hall. Sem lugar para dúvi-
das, podemos dizer que McLuhan era um
intelectual que se expressou de maneira
transmedia.
“A ciência é, em grande
parte, monomidiática. E os
investigadores publicam
papers e livros para mostrar
e compartilhar seus estudos.
Todavia, ainda há um vasto
caminho a percorrer. Por que
o conhecimento científico
deve ser assim? Por que não
difundir e compartilhar as
investigações por meio de
formatos audiovisuais ou
interativos?”