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Festa de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira dos Negros. Gravura de Johann Moritz Rugendas.

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FESTAS E TRADIÇÕES POPULARES DO BRASIL

Mesa Diretora
Biênio 2001/2002
Se na dor Ra mez Tebet Presidente Se na dor Edi son Lobão 1º Vice-Pre si den te Se na dor Car los Wil son 1º Se cre tá rio Se na dor Ro nal do Cu nha Lima 3º Se cre tá rio Se na dor Antonio Car los Valadares 2º Vice-Presidente Se na dor Ante ro Paes de Bar ros 2º Se cre tá rio Se na dor Mo za ril do Cavalcanti 4º Se cre tá rio

Su plen tes de Se cre tá rio Se na dor Alber to Sil va Se na do ra Ma ria do Car mo Alves Se na do ra Mar lu ce Pin to Se na dor Nilo Te i xe i ra Cam pos

Conselho Editorial
Se na dor Lú cio Alcân ta ra Presidente Conselheiros Car los Hen ri que Car dim Carl yle Cou ti nho Ma dru ga Jo a quim Cam pe lo Mar ques Vice-Presidente

Ra i mun do Pon tes Cu nha Neto

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Coleção Biblioteca Básica Brasileira

FESTAS E TRADIÇÕES POPULARES DO BRASIL
Melo Morais Filho
Diretor-Arquivista da Municipalidade do Rio de Janeiro Prefácio de Sílvio Romero

Desenhos de Flumen Junius

Brasília – 2002

BIBLIOTECA BÁSICA BRASILEIRA
O Conselho Editorial do Senado Federal, criado pela Mesa Diretora em 31 de janeiro de 1997, bus ca rá edi tar, sem pre, obras de va lor his tó ri co e cul tu ral e de im por tân cia re le van t e para a com pre en são da his tó ria po lí ti ca, eco nô mi ca e so ci al do Bra sil e re fle xão so bre os des ti nos do país. COLEÇÃO BIBLIOTECA BÁSICA BRASILEIRA A Qu e re la do Esta tis mo, de Antô nio Paim Mi nha For ma ção (2ª edi ção), de Jo a quim Na bu co A Po lí ti ca Exte ri or do Impé rio (3 vols.), de J. Pan diá Ca ló ge ras Ca pí tu los de His tó ria Co lo ni al, de Ca pis tra no de Abreu Insti tu i ções Po lí ti cas Bra si le i ras , de Oli ve i ra Vi a na De o do ro: Sub sí di os para a His tó ria, de Ernes to Sena Pre si den ci a lis mo ou Par la men ta ris mo?, de Afon so Ari nos de Melo Fran co e Raul Pila Rui – o Esta dis ta da Re pú bli ca, de João Man ga be i ra Ele i ção e Re pre sen ta ção, de Gil ber to Ama do Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros, organizado pelo Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro Obser va ções so bre a Fran que za da Indús tria, do Vis con de de Ca i ru A re nún cia de Jâ nio, de Car los Cas te lo Bran co Jo a quim Na bu co: revolucionárioconservador, de Va mi reh Cha con Oi tos Anos de Par la men to, de Afon so Cel so Pen sa men to e Ação de Rui Bar bo sa , se le ção de tex tos pela Fun da ção Casa de Rui Bar bo sa His tó ria das Idéi as Po lí ti cas no Bra sil , de Nel son No gue i ra Sal da nha A Evo lu ção do Sis te ma Ele i to ral Bra si le i ro , de Ma nu el Ro dri gues Fer re i ra Ro dri gues Alves: Apo geu e De clí nio do Pre si den ci a lis mo (2 vo lu mes), de Afon so Ari nos de Melo Franco O Esta do Na ci o nal, de Fran cis co Cam pos O Bra sil So ci al e ou tros Estu dos So ci o ló gi cos, de Sílvio Ro me ro Pro je to Grá fi co: Achil les Mi lan Neto © Se na do Fe de ral, 2002 Con gres so Na ci o nal Pra ça dos Três Po de res s/nº – CEP 70165-900 – Bra sí lia – DF CEDIT@ce graf.se na do.gov.br http://www.senado.gov.br/web/conselho/conselho.htm

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Mo ra es Fi lho, Mel lo, 1843-1919. Fes tas e Tra di ções Po pu la res do Bra sil / Melo Mo ra is Fi lho ; com um pre fá cio de Síl vio Ro me ro ; de se nhos de Flu men Juni us. – Bra sí lia : Se na do Fe de ral, Con se lho Edi to ri al, 2002. 386 p. : il. -- (Co le ção Bi bli o te ca bá si ca bra si le i ra) 1. Fes ta po pu lar, Bra sil. 2. Fes ta re li gi o sa, Bra sil. 3. Fol clo re, Bra sil. I. Tí tu lo. II. Sé rie. CDD 394.20981

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Sumário
PREFÁCIO pág. 15 FESTAS POPULARES Casamento na roça pág. 21 Ano-Bom pág. 31 Carnaval pág. 39 A Festa do Divino pág. 53 A Noite de Natal pág. 63 A Véspera de Reis pág. 73 A Procissão de S. Benedito no Lagarto pág. 87 A Véspera de S. João pág. 97 O 2 de Julho pág . 105

O Entrudo pág . 115 O 7 de Setembro pág. 123 A Festa da Penha pág. 131 Os Cucumbis pág . 141 A Festa do Divino pág. 151 FESTAS RELIGIOSAS As Santas Missões pág. 167 S. Sebastião pág. 175 A Festa da Glória pág. 183 As Encomendações das Almas pág. 191 Corpus Christi pág. 199 Quinta-Feira Santa pág. 207 Sexta-Feira da Paixão pág. 213

253 Nosso-Pai pág. 261 O Enforcado pág. 219 O Dia de Finados pág . 225 TRADIÇÕES A Festa da Moagem pág. 311 .Preces para Pedir Chuva pág. 299 Um Funeral Moçambique em 1830 pág. 285 O Valongo pág. 269 A Coroação de um Rei Negro em 1748 pág. 279 Na Terra e no Mar pág. 233 Um Casamento de Ciganos em 1830 pág. 305 Lucas da Feira pág. 243 A Festa dos Mortos pág.

317 TIPOS DA RUA Capoeiragem e Capoeiras Célebres pág. 371 . 335 O Estrada de Ferro pág.O Navio Negreiro pág. 351 O Miguelista pág. 355 O Bolenga pág. 367 A Maria Doida pág. 347 A Forte-Lida pág. 363 O Padre Kelé pág. 325 O Capitão Nabuco pág. 345 O Filósofo do Cais pág. 359 O Pica-Pau pág. 353 O Policarpo pág.

377 O “Não Há de Casar” pág. 381 O Tomás Cachaço pág.O Praia-Grande pág. 375 O Chico Cambraia pág. 373 Barreto Bastos pág. 383 .

Henrique Valadares Homenagem respeitosa do autor Aos doutores Cândido Barata Ribeiro e Moura Brasil Lembrança de particular estima e convencida admiração MELO MORAIS FILHO .À memória de meu pai As bênçãos do povo brasileiro por todos os séculos da História Ao ilustre cidadão Dr.

. . . O que tinha a dizer em tão elevado intuito já está escrito na História da Literatura Brasileira. . Não as descreverei neste momento e neste posto. N . neste lugar. . é bem de ver e admitir que tenha conhecido e praticado a mor parte dos escritores de meu país. . . e é conhecido pelo público. Em vinte e quatro anos de vida de publicidade. . . ali bem significativas. .. Prefácio ão se deve esperar de mim que venha. Mas. . e as condições de nossa pátria não terão mudado? Nada haverá a juntar ao que foi dito há cinco anos? Em uma e outra esfera. que tantos são os que me cabem até hoje nas lides literárias brasileiras. . . . . que devo à amizade. . . de então até hoje. Duas palavras de íntimo colóquio com o ilustre autor das Festas e Tradições Populares do Brasil. que me é cedido pela generosidade de Melo Morais Filho. . . no espírito do escritor e na vida do país. . de então para cá. aqui profundas. a situação do espírito do homem de letras. fazer ainda uma vez a característica deste escritor. . . a análise deste poeta. . eis quanto venho depor de leve nestas páginas. . operaram-se alterações.

feições distintas do gênio nacional. de mais original. tornaram-se a nosso respeito verdadeiros pessimistas. fortes. porque a pátria não era ainda o que ele queria que ela fosse. de sua infância popular. bondade de seus sentimentos. as fisionomias dos dois com quem mais convivi até hoje. tinham ambos mais de um ponto de contacto. à vida folgazã e despreocupada de nossas classes populares. ao divertimento. modalidades diversas d’alma humana. fazê-los agora nominativamente passar-me diante.16 Melo Morais Filho Inteligências elevadas. a graciosidade da pilhéria. atrações de seu espírito. em apagadas linhas. notar as impressões produzidas. alguma coisa que se pudera chamar a poesia do caráter nas almas boas. muitos passaram por mim e me deixaram a grata recordação de sua convivência amistosa. de pesar mais de um acontecimento da ordem mental. individualidades singulares. nativamente voltadas à alegria. Descrevê-los. o repente dos ditos. o bom humor do trato. na província. mais de um traço de semelhança nos recessos íntimos do gênio. perfeitamente distanciados no modo de ver e apreciar mais de um fato. a ironia despretensiosa da réplica. talentos cultos. Amantes do Brasil em grau extremo e achando-o desviado daquilo que sonhavam em seu patriotismo. em rápida silhouette . religiosa. caracteres seguros. de mais fundamentalmente puro. porque ela tinha deixado de ser o que ele queria que ela sempre ficasse sendo. os dois que mais estimei. já muito desiludido: mas exigiria tempo e espaço. que mais intimamente agasalhei na minha simpatia. não conseguiram jamais apagar as profundas impressões. pela franqueza de seu trato. naquilo que elas tinham de mais seleto. pelas semelhanças e pelas antíteses que revelam. Filhos da província. se ria doce. seria agradável ao meu coração. Naturezas sadias. ou tro. os meus dois amigos conservam sempre a espontaneidade da conversação. católica. um. Um atirou-se ao vórtice da ciência . de que não posso dispor. Completamente afastados os dois na direção da cultura e na índole das idéias. há uns trinta ou quarenta anos atrás. Baste-me neste momento destacar. integridade de seu caráter.

que vai esquecendo o seu passado. Do autor dos Dias e Noites. cuja história. não há muito. perdendo o seu caráter nativo. onde houver alguma alma amante . com os ouropéis de umas estrangeirices importunas. vivo ainda. pela ingratidão dos parvos. em umas poucas de tradições que já morreram. ao torvelinho da filosofia. na sinceridade das emoções. E eu os escutei. que fechou o ciclo do romantismo. outro escreveu as Festas e Tradições Populares. muitas vezes. olvidando as suas lendas. por mais que diferenciado do presente seja o nosso sentir vindouro. e esperando do futuro. um homem para quem o Brasil só tem atrativos nos tempos que já se foram. os seus costumes. quase desesperava da pátria. desestimados. eu os amei. Ambos. uma ressonância das velhas cordas maviosas do lirismo ingênito à nossa raça. da crítica. pelo qual também tenho procurado empenhar o meu desvaloroso esforço. morreu. sem uma certa dose de desalento. e. como poetas. são como dois sobreviventes que ficaram daquela grande geração. Compreendendo as duas posições. amando o passado. que não andava depressa. quase também desespera de sua terra. desconhecidos. concentrado na história. ouvindo os últimos cantos de Varela e Castro Alves. na profundeza dos afetos. porque os compreendi na diversidade das índoles. elegíacos. no seu sonhar pelo porvir. na tradição. que me recordo de haver visto. as suas festas. e em outro tão dessemelhantes. Um. não é sem melancolia. quer que o considerem o que sempre foi. como que indicando ao Brasil o caminho do futuro. Como críticos e analistas.Festas e Tradições Populares do Brasil 17 moderna. românticos. são fundamentalmente crentes. como que nos apontando a trilha do passado. diferenciam-se: um escreveu os Estudos Alemães. outro. E essas duas fisionomias em um ponto parecidas. tão singela e prazenteira na sua originalidade. uma revivescência. o que sempre quis ser. os labores desses dois operários conscienciosos e meritórios. cujas tradições também estudei e descrevi. um homem do passado. mascarando a fisionomia. e o outro.

18 Melo Morais Filho deste país gostará ela de recordar-lhe os cantos patrióticos. que todas podem receber o nome único de Cantos do Equador. germinativos da luz e do progresso. hão de ser chamados a depor. lá bem longe. de saudade e intrepidez. quando os sondadores do passado houverem de rastejar o fio de ouro de nossas tradições. anelante de progresso. desesperado por sacudir a poeira das convenções que asfixiam. para continuar a amar o sol de tua terra e enfeixar em tua palheta o brilho de seus raios! O teu amor te salvou! SÍLVIO ROMERO . onde houver algum espírito sedento de saber. como documentos autênticos. posso dizer que. que é o gênio lusitano transfigurado na América. quaisquer que tenham de ser as desilusões que os destinos históricos lhe reservem. ou geme e chora este misto de entusiasmo e melancolia. quando houverem de estudar o povo. suas descrições de costumes. onde seu coração palpita inteiro. procurará ele nas críticas do morto ilustre os estímulos aviventadores da luta. por mais que tenha de ser acidentado o caminho do Brasil através dos tempos. que desprezaste as lentejoulas da moda. os dois livros de Melo Morais Filho. suas poesias. a nossa raça há de sobreviver no futuro. Salve! poeta adorável. nas energias do sentimento. porque neles vive a grande alma deste país. Pelo que toca especialmente ao autor desta bela obra. mas sim nas efusões da alma. porque neles canta e folga. que todas podem ter o nome só de Festas e Tradições Populares do Brasil. não no ruído das batalhas e nas chicanas da política. e.

FESTAS POPULARES .

que verdadeiramente delicia o artista que se ocupa desses assuntos. . . . . . . . . . . . . N .. . de harmonia com os nossos meios. . o Brasil possui o cabedal distinto de usanças. só porque o pedantismo medra nos centros mais populosos. na convivência di reta com essa gen te que conser va os seus usos adequados. E nem se diga que somos um povo que não tem passado e nem tradições. Casamento na Roça (RIO DE JANEIRO) os costumes nativos de nossas populações campesinas há uma face tão amena e pitoresca. Em todos os atos de sua vida particular e pública. . alguns deles. pouco variáveis. Daí a diferenciação que nos separa de povos estranhos. notas discordantes de costumes. É na inti mi da de desse povo inculto. . à sombra da tolerância que tudo desvirtua e aniquila. o nosso cará ter na ci o nal. . . . de turpado nos gran des cen tros por uma pretendida e extem po râ nea civi li za ção que tudo nos leva. no Sul e no Norte. que me lhor se pode es tu dar a nossa ín do le. . . e o que dá a medida de nosso caráter. desde as no ites sem lá gri mas até os dias sem combate. . que não tivemos costumes próprios como qualquer outro. . .

Embora esses atos religiosos.. as encomendas do vestido da noiva. se o dia ficava determinado. recomendando ao marido a provisão necessária de vinhos. Desde logo. os vizinhos. de província em província. o tipo do segundo plano. da grinalda e do véu faziam-se com urgência e isso ao mesmo tempo que as primas... etc. a boa nova não tardava a ser espalhada por toda a localidade. essas festas nupciais apresentassem entre si pontos de contacto. isto é. as serpentinas e os castiçais ficavam gessados até a véspera. olhando para as suas roupas novas. fitas em profusão. nos parecem definir melhor os costumes roceiros. A primeira compreendia o de pessoas da classe rica e elevada. es pichavam o beiço.” . na lufa-lufa dos arranjos domésticos. os casamentos em que o noivo e a noiva saíam da camada intermediária. e mais extraordinários para o banquete. o da gente baixa. lombo de porco. Rio Bonito. murmurando ao passar: “Chi!. acompanhada habitualmente das participações e convites. A casa era varrida e vasculhada. os casamentos na roça ressaltam à descrição de nossa pena. o de indivíduos da mediana local. as moças conhecidas mandavam comprar na cidade ou nas lojas próximas cortes de chita ou de cassa para vestidos. a terceira. Na província do Rio de Janeiro. por toda a povoação. de cidade em cidade. ar regalavam as sobrancelhas. como quadros da vida brasileira no interior. sem um reflexo sequer na história nacional. em busca de nossas tradições que se extinguem. tão bonito!. as mangas de vidro desempoeiradas e cobertas com ramos de flores artificiais. os casamentos em geral dividiam-se em três categorias.22 Melo Morais Filho Errante de vila em vila. e imprimiam um cunho mais tradicional na constituição da família.. a segunda. queijos. e as mucamas e os molequinhos. Depois das preliminares do namoro e do pedido em casamento. das luvas. em lugares como Boa Esperança. por isso que exornavam com mais largueza o cenário daqueles noivados ruidosos. seguindo-se logo após o dos escravos de fazendas. de que mais tarde trataremos. os preparativos co meçavam. flores de pano e enfeites para a toalete a capricho e de acordo com a moda. A dona da casa e as escravas antecipavam-se na confecção dos doces saborosíssimos.. tão originais nos parecem as suas peripécias e os seus detalhes.

para que embarcassem a noiva e as madrinhas. que chegasse. O noivo. trajada também de branco. sustentando-lhe a comprida cauda do vestido branco dengosa mucama. lá vinham as madrinhas e os padrinhos. na manhã de um sábado a porta da noiva já se achava guarnecida de povo e da magna comitiva. à espera dos velhos que grazinavam lá dentro. rareava as suas visitas. no que era desculpável. convidar os amigos. enfim. se aproximavam. prevenir os tocadores de rabeca e de flauta.. assistia a tudo isso. em provocações ma liciosas.Festas e Tradições Populares do Brasil 23 A noiva. ao que o noivo e os cavaleiros saudavam tirando o chapéu. Nisso o noivo. que às vezes demorava a longa distância.. as damas do séquito. emprazar para o dia os violeiros de fama. sorrindo amarelo a alguma pilhéria importuna que lhe viesse roçar-lhe ao ouvido. e depois que corriam os proclamas. dando sinal aquele a um carro de bois com toldo de esteira coberto de chita. rangendo nos eixos. suspirando a instantes pelo delicado noivo que. e quando a noiva subia em um banco para entrar. sacudindo o fraque bonito. sendo vul gar um ou ou tro dos acompa nha do res levar al gum tombo na es tra da. Durante o trânsito. cor respondidas pela curiosidade das senhoras que botavam a cabeça de fora e aplaudiam por sua vez. . geralmente vexado. Concluídos os aprestos. o que desper ta va gargalhadas. que se achavam a seus postos. – Eh! boi!. a noiva. com véu e grinalda de flores de laranjeira. permanecendo todos alguns instantes na saída. das janelas abertas entornavam-lhe sobre a fronte salvas de flores. E o carro. entregue a outros afazeres. as primas e convidadas. empinando os cavalos e seguindo o carro. parava à porta. evitando destarte a demora do padre na igreja. que os aguardava à hora certa. que acompanharia os noivos à matriz da vila. penteada e risonha. bem como ao de entender-se com o alfaiate sobre a roupa do casório. alisava de quando em quando as crinas de seu ginete branco. sempre desconfiada. Do interior da casa. repleta de gente e de algazarra. a cavalo. os padrinhos e a comitiva de cavaleiros. as ro ce i ras do carro e o sé quito dos cavaleiros entretinham-se em conversas banais.

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entrando na igreja. Qu e i ra me tra zer um ca cho. que iam assistir ao ato e compartilhar do regozijo da família. mi nha ti ra na. Depois de casados. notando-se instantes mais tarde a ausência da mãe da noiva. A rabeca e a flauta tocavam. se não os acompanhavam. cantava: Ti ra na. antepondo-se aos noivos acanhados. o povaréu abria alas: os escravos que tinham partido adiante seguravam os cavalos. Imagine-se a fer vura da casa. Você vai cor tar ba na nas. as madrinhas e o mulherio apeavam-se. retorcendo-se em momices. os pais – os sogros e sogras –. Apenas vistos de longe. tocando nos bordões. Ai! ti ra na de Ira já! Aqui lo que nós fa la mos Tomara que fos se já. os padrinhos e a turba de convidados. e alteando a prima. a noiva ressabiada dava o braço ao noivo que a conduzia ao carro. de adornos silvestres. e aclamando-lhes a futura felicidade. para receber os recém-casados. Ti ra na. E um tocador de viola. que lhe levantava a cauda do vestido. sapateando na rua. com a sua mucama. ficavam às janelas. es pargindo-lhes à entrada per fumosas flores. formando o gru po da frente as madrinhas e a noiva. o reboliço era geral. A estas seguiam-se o noivo. que desaparecera no tumulto. regressava. E o quadrista inspirado não perdia o momento. Ti ra na de lá de ba i xo. mi nha ti ra na. como é comum. e o préstito. lá ia: . a recepção es trondosa do venturoso par na sala rescendente de flo res do campo. a noiva. aproveitando o intervalo da música. chegando a casa ao escurecer. os abençoavam e abraçavam.Festas e Tradições Populares do Brasil 25 Chegado o casamento à matriz. na ordem estabelecida.

za bum ba. dando sinal para a primeira quadrilha. O pai da noiva. E no salão a flauta e a rabeca tocavam. um trinchador poeta. ficando a maior parte. dos bois do carro. tão numerosos eram os convivas. cantava: Estes fran gui nhos as sa dos Foram bem recheadinhos. A lauta e extensa mesa apinhava-se de súbito. de senhoras e de homens. e depois de servida a sopa. entretanto. que mais livremente se entregaria à noite às comezainas e ao fado.. erguendo um copo de vinho acima da cabeça: Taplã. o banquete iniciava-se. nos seus repentes oportunos. São pre sen tes para os no i vos Que fi ze ram os pa dri nhos..26 Melo Morais Filho Ó se nho ra mãe da no i va. Saia fora da cozinha. e pedindo a todos a fineza de a acompanharem para o jantar. o violeiros do mato. cumprimentando novamente os seus convidados. ocupando as cabeceiras. E os “bravos” e as palmas coroavam o cantor. Os principais da festa.. Nisso as mucamas acendiam os candelabros. mandara cuidar da cavalhada. E entravam.. E um conviva. tomando de um trinchante. Nisso a dona da casa chegava radiante. Bravo a vida militar. as pessoas mais gradas e de distinção da localidade. Ve nha ver a sua fi lha Como está tão bonitinha.. . previdente em tudo. em seus lugares especiais. do pessoal escravo da comitiva. ouvindo-se de dentro o barulho dos pratos e as vozes dirigentes de pôr a mesa. ta plã. imprimindo um beijo na fronte pura de sua filha. as velas nas mangas de vidro.. Defender as mo ças be las E de po is rir e fol gar. para as subseqüentes.

transpondo a sala do banquete.. Eu avi so ao se nhor no i vo Que o coma com cuidado. Mas o complicado jantar demorava o baile roceiro e as danças tradicionais. empunhava a viola e improvisava gaiato: . te nham medo... erguendo-se e empunhando copos: Aze i to nas bem cur ti das Têm um sin gu lar sa bor.. e um outro convidado. E todos. ur rah!...... Pas sa a vida a na mo rar. Hip!. Desconfiem. E as saúdes aos noivos.Festas e Tradições Populares do Brasil 27 O sol da do... que é va len te. hip!. O sol da do.. O trin cha dor que a trin char Olhe que lhe mor de o dedo. aos pais do ditoso par. que é mo fi no. hip!. puxando para perto um peru assado. Hip!. Então o violeiro obscuro. Um segundo repentista: Da le i toa que aqui está. a alegria e a felicidade transpareciam do sorriso dos noivos e das meiguices da família. Só me lem bro dos ami gos Qu an do bebo este li cor. pedia a palavra... a todos e a cada um de per si estrondavam à porfia. Pas sa a vida a ba ta lhar. ur rah!. Ontem mor reu em pa pa do. o entusiasmo transbordava das expansões dos convivas como o vinho das taças cheias. entoando: Este peru que aqui está. Caloroso e animadíssimo corria o festim. desarticulava-o.

que preludiavam a quadrilha. buliçoso.. aos arpejos quentes dos menestréis pátrios. Si nhá no i va man da dá. Pois pela no i te adi an te Si nhá no i va pa ga rá.. ur rah!. lânguido. A boa cham pa nha Dá para dançar! Este é o gato. cada qual com seu botão de flor de laranjeira como distintivo na abotoadura do paletó e no corpinho. os convidados em chusma. Findas as primeiras quadrilhas. contratavam-se os pares. . Hip!. as primas e os primos tomavam parte.. a trova deslizava sonora. Que ma tou o rato Que roeu a cor da Que amar ra va a bota.. aos epitalâmios dos trovadores em suas cantigas a esmo: Si nhô no i vo. às toadas das violas. como a volúpia das nossas noites mornas e estreladas.. peneirado. dê-me um doce. as primeiras valsas. vira!. ao canto sonoro dos violeiros. encantando a noite do noivado e a sorte futura do nascente lar. requebravam na fieira. bradava um: É a última saúde! A saúde de honra! É de virar! Vivam os noivos!. hip!.. Bota vinho! Bota! Vira. Então a noiva e o noivo. a cantiga brotava plangente. E dos circunstantes. E aos tinidos das violas... que se levantavam em massa.. Deus lhes dê um bom es ta do: Que da qui a nove me ses Haja um rico ba ti za do.. os padrinhos e madrinhas. o elemento nacional e dominante – o chiba – campeava absoluto. caíam na chula. o noivo e a noiva figuravam.28 Melo Morais Filho Si nhá no i va e si nhô noivo. vira... E aos sons da música. Gato amar ra do Dá para miar.

Que uma no i te não é nada. na maior parte. não resistindo à tentação que lhes bulia na alma. Qu an do me vejo num fado Não me im por to com a ri que za. . para latir. E quando as danças estrangeiras paravam. levantando-se sorrateiras. o noivo e a noiva despencavam-se no rodopio. e do belo sexo duas ou três representantes. pulavam no meio. entravam no quarto dos noivos. fazendo desapontar os noivos. macio. que disparavam do quarto entre gargalhadas e alegre alarido dos que lhes armavam a peça. os escravos batucavam. mi nha gen te. ficando a mesa posta e constantemente renovada para os que quisessem servir-se. pegando nos cortinados. atar-se guizos e campainhas nas extremidades das colchas. sapateado. lavando as mãos no jarro. palmejado. esconder-se mesmo um indivíduo debaixo da cama. descansavam um pouco.Festas e Tradições Populares do Brasil 29 Dan ça o fado. ponteadas pelos tocadores da roça. Antigamente era de costume botar-se espinhos de roseira debaixo dos lençóis. iam tomar café e refrescos. Se eu não for dor mir ago ra. e o cantador trigueiro lavava o peito dos circunstantes com suas cantigas variadas: O fado veio no mun do Para am pa ro da po bre za. quebravam na chula e cantavam suas trovas. os que não dançavam conservavam-se de costas para as janelas. No terreiro. bisbilhotando adiantadas. ofegantes as bailarinas. Dormirei de madrugada. no salão que começava a aclarar-se das barras longínquas do amanhecer. E cansados os dançadores. miar. sentados nas cadeiras enfileiradas. E os convidados. Ao passo que o chiba recrudescia bamboleado. cantar como galo. De repente a desafinada rabeca anunciava fanhosa outra valsa e o bródio prosseguia ainda. o fado rompia nas violas. admirando o bom gosto.

O ho mem pela pa la vra Leva a mu lher pela mão. Um casamento na roça era. na plenitude da abastança e da felicidade. com poucas variantes. duravam por dias.30 Melo Morais Filho A vi o la pela pri ma. e essas festas. o que aí fica descrito. A pri ma pelo bor dão. que entravam sempre pela noite adiante. .

. tendo como objetivo as congratulações populares pela volta da primavera ou a glorificação da lavoura. o negro d’África e o caboclo da América. Tão alto quanto possam remontar os monumentos históricos. . que por sua vez já haviam recebido dos gregos a tradição. . . . como participantes desses regozijos religiosos e profanos. . . Entre as civilizações mais apuradas e as mais bárbaras. . os primitivos cristãos perpetuaram o legado pagão das celebrações do Ano-Novo. . . passando apenas pelas modificações próprias ao desenvolvimento de cada culto e à índole de novas raças. . Ano-Bom E ntre todos os povos. . . como dissemos. do mais civilizado ao mais selvagem. . . . . . . .. as festas de primeiro do ano celebravam-se. Dos romanos. . colorindo-os dos reflexos místicos dos vidros pintados de suas catedrais. . . as encontramos. . essas festas encontram-se nas mitologias nacionais. . não sendo excluídos.

que tudo via através de suas preocupa ções ascéticas. o que é certo é que as festas de Ano-Bom não pertencem a este ou àquele povo. as congratulações públicas do dia de Ano-Bom. João Crisóstomo. porém. os folguedos. para os povos modernos. as despedidas do ano velho e as entradas de Ano-Novo. do que percebendo palpitar debaixo das formas da arte as suas antigas legendas e os seus contos. isto é. da abundância e da colheita. o conchego da família. os sacrifícios. Durante as ruidosas festas da primavera.32 Melo Morais Filho Os primeiros sintomas de assimilação nos tempos modernos registram-nos as calendas de janeiro. vindo logo após a festa dos Loucos e a dos Inocentes ludibriar do anátema dos santos-padres. os presentes agrícolas trocavam-se. fulminadas por Santo Agostinho e S. constituindo a base das representações teatrais do Natal. as cerimônias propiciatórias tinham lugar. a família e depois as tribos reuniam-se. incluindo-as no calendário do Natal. com outras pompas e outros ideais. provindo daí. na França ou na Itália. as danças. as visitas. desviou-lhes as correntes astroláticas. os presentes de festas. . Juntai a isso os presentes. as abusões. mas à humanidade inteira. não há horas mais alegres naqueles lares. o nacionalismo pátrio transluz nessas manifestações alentando velhos costumes. com uma centena de cousas mais. Na Inglaterra ou na Alemanha. os festins. cujas fórmulas jamais se apagaram da lembrança popular. E não há festas mais belas em qualquer desses países. e tereis. as surpresas. esses festejos intercalam-se aos do Natal e de Reis. não há orgulho mais legitimamente sentido por aquelas turbas. A Idade Média. Em todos os países da Europa. Deste ou daquele modo. que se revoltaram contra as crenças romanas adotadas pelos cristãos. as felicitações. formando um todo a que os ingleses chamam de Christmas. o beijo improfanado sob a rama verde dos tetos. as visitas.

Nas intermináveis galerias de sacadas. em qualquer rua. homens vestidos de brim branco conversando com amigos trajados como para as recepções íntimas. No Rio de Janeiro a folia toda começava de véspera. de que damos testemunho. Mas o Brasil é um país adiantado. ainda perduram em toda a Europa. que pela maneira de apresentar-se. absolvendo os demais povos dessas futilidades que envergonham.Festas e Tradições Populares do Brasil 33 Pre sen tes de Ano-Bom Esses costumes seculares. caras novas. notaria fisionomias estranhas... apreciando o mesmo objeto. A cidade. Em qualquer praça. revelava o júbilo público. acha ridículas as tradições e desfaz-se delas. quem olhasse para as janelas. entretidas pelo mesmo assunto. crianças traquinas e arrenegadas . pela compostura. janelas de peitoril e postigos. trata de encobri-las e mostra-se sério. No outro tempo não era assim. velhas folgazãs e gritadeiras falando para as vizinhas de defronte. tornavam-se distintas de muitas que lá estavam. que se ostentava sem reserva. mais animada exteriormente pelo concurso de famílias e de indivíduos ambulantes. viam-se moças toucadas de flores naturais ao lado de algumas que não as tinham.

Então. no meio do prazer e das felicitações.. Aquelas cujas relações não iam além da corte. mais ou menos populosa. os parentes e amigos entre si. João em seus sítios e fazendas. até depois de Reis. das rascadas das senhoras com as negras. as irmãs aos irmãos. E as tradições consolidavam as bases da família. veria romper a aurora de anos seguintes. segundo os tempos em que esses costumes eram de rigor. reuniam-se igualmente. pois era da crença popular. no fim das pilhérias dos velhos matutos. convidando-os para a véspera de S. Com antecedência. de diálogos ex travagantes. Quando o relógio batia meia-noite. suspendendo dos espigões as maçanetas de chumbo das extremidades. beijando-se. ao diapasão do barulho dos pratos que se lavavam nas cozinhas. mas com os olhares fitos nas trevas que amortalhavam o ano velho. lhes escapando das mãos. passavam juntos. ninguém dormia antes da meia-noite. que quem se conservasse com os olhos abertos até depois daquela hora. que. machucavam-lhes os pés. . Vindo por vezes de grandes distâncias. concluídas as magníficas ceias. os molecotes. os inocentes namoros ferviam nas salas. as crias em fraldas de camisa.34 Melo Morais Filho trepando nas grades de ferro das sacadas. O dia de Ano-Bom era a época em que os membros de uma mesma família congregavam-se. E o que queria isso dizer? Eram as famílias que tinham chegado da roça para passar o Ano-Bom com os parentes. e a escravatura a fazer-se interessada nas felicidades de seus senhores. à espera do sinal do Ano-Novo. às vezes. completando o aspecto pitoresco dessa cena. – Boas saídas e melhores entradas! diziam os pais aos filhos. as cantorias ao Menino em seu presepe. saltando de contentamento. penduravam-se às sacadinhas da escada que deitava para o quintal. e o reinado das superstições iluminava-se da esperança. abraçando-se. pasmadas de nada descobrir. do ressonar dos meninos estirados nos sofás e nas cadeiras da sala da frente. ao passo que as mucamas. Para ver amanhecer o Ano-Novo. uma onda marulhosa de alegria espraiava-se pela assembléia.. já os presentes de festas principiavam a chover.

desfilavam numerosos os portadores de presentes. Isso. fazendo contraste com a crioula ou mulata de casa menos rica. Para contrapeso. os médicos e o fiscal. dos ministros.Festas e Tradições Populares do Brasil 35 Nas casas em que havia bailes. que seguia com um pão-de-ló. o ganhador não deixava de levar um galo ou um peru na mão livre. umas galinhas e um peru para mais um prato de seu jantar. porém. saíam umas após outras. e guinchando. pa tos e marrecos. com o focinho aper tado com um barbante grosso. riquíssimas bandejas de prata. entretendo os abelhudos que comentavam dos sobrados.Boas saídas e melhores entradas lhe desejo. conduzindo em cestos um leitão de barriga para cima. tais como colchas da Índia. Por toda a parte encontravam-se negros do ganho. caixas de figos e ameixas. criados de libré precedendo escravos enviados com dádivas principescas. das pessoas gradas. Enquanto nos armazéns de comestíveis o comércio encaixotava dúzias de garrafas de vinho. de camisa de algodão por fora da calça ar regaçada. aos sons da música. sendo de preferência contemplados... acercado de galinhas. concebida mais ou menos nestes termos: “. um . aparelhos da China. baixelas de prata. encontrará vossemecê um leitãozinho. nas freguesias. as visitas faziam-se. ar madas de doces. pre suntos. cavalos de montaria. Da manhã à tarde. aos risos que corriam límpidos de uns lábios de rosa. diversos gêneros destinados aos fre gueses do ano. As bandas militares tocavam às portas e nos saguões das casas dos generais. amarrado de pés e mãos. o mesmo costume coroava a tradição. Incluso. ao brilho das serpentinas faiscantes. também enfeitado de fitas estreitas verdes e azuis. Ao presente era costume acompanhar um cartão de visita ou uma carta. com a cabeça pendente das beiradas do cesto e enfeitados nas asas com lacinhos de fita. mudava completamente no dia primeiro. enquanto do convento da Ajuda. compensando-lhes a atenção alguma cédula avultada ou peças de dinheiro em ouro... dando as boas festas.” Aqui e além apareciam carregadores com caixões de vinho ou com caixas de açúcar. que prolongava a festa. era curioso de ver-se o que passava nas ruas. com a firma do indivíduo presenteado. o vigário. acondicionava queijos do reino.

acompanhando o portador de uma carta na qual se lia: “. O paço de S. Assim.” Ne gros de ca de i ra A isso não se limitavam os presentes. estava nos hábitos dar-se escravos no dia de Ano-Bom.. obsequiavam-se as meninas. Pessoas havia que ofer tavam casas e palácios. que o vendeu ao Estado. um casal de negros novos.. coberta com uma gaze cor-de-rosa. calça curta e um pau no ombro. onde as cadeirinhas estiveram constantemente em uso como meio de transporte. Cristóvão foi um presente de Ano-Bom.. um pastelão numa salva modesta. uma moleca. não causava espanto entrarem por uma casa dois negros de casaca de portinholas com vivos amarelos ou vermelhos. as moças ou os chefes de família. com um molequinho. atravessado por um cartão ou um escrito.36 Melo Morais Filho bolo-inglês. de chapéu de oleado com galão.. Na Bahia. João VI.Como lembrança de Ano-Bom ofereço-lhe essa parelha de negros de cadeira. feito pelo negociante Elias Antônio Lopes a D. além de todas essas ofertas. pedindo desculpa de não ser cousa suficiente. quando se retirou para Portugal. Naquela província. com um tope de flores artificiais no centro. .

os rapazes recitavam colcheias. e anda preocupado com um futuro que não lhe pertence. As visitas oficiais e as de amizade faziam-se imprescindíveis.. do dia de Ano-Bom. tocava. à família reunida. que nunca foram estranhos às alegrias ou des graças do nosso lar. quando o Brasil fez timbre em imi tar o estrangeiro no que ele tem de pior. cumpria desquitar-se das usanças tradicionais. entendeu que. os laços de família quase não existem. tinham folga. divertiam-se tam bém. cantava. as moças tímidas e vergonhosas abaixavam os olhos às palavras “amor”. ao calor dos brindes. se faria o ano inteiro. Não compreendendo este país que ninguém pode ter sorrisos nas terras para onde vai em busca de fortuna. que se brincava. quando eles as mantêm intactas. Das nossas festas ninguém mais se lembra. ganhavam festas. supôs que a cousa assim se passava lá por fora. Daí se depreende que cada um queria estar neste dia com os seus.. os presepes pernoitavam iluminados. e – boas entradas – boas festas – eram moeda cor rente de civilidade entre a população. de grandioso e expansivo que era. Ninguém relevava essa falta. Depois de certo período. a ausência dos parentes mais chegados no jantar da família. “meu bem”. os convivas entusiasmados proferiam longos discursos. Por ocasião dos banquetes fidalgos ou dos jantares menos opulentos. a fim de que o conceito popular se realizasse em sua plenitude pressagiosa. Os escravos.Festas e Tradições Populares do Brasil 37 Considerava-se uma grande falta. para parecer-lhe bem. Havia cortejo no paço. ao alarido da canção: Como canta o papagaio. um crime. que todos vestiam roupa nova. refervendo a animação nas saúdes em honra aos mais velhos. Como canta o periquito. pois acreditava o povo que o que se fazia no primeiro do ano. nem nos restam vestígios! E em troca de todo esse passado nos impinge a Europa cromos e folhinhas! .

. de Paris. de que falam as crônicas da Idade Média. mas ainda em certas festas os diáconos.. . de terra e de cabeça de animais. até os nossos tucanos. . João Crisóstomo condenava os deboches e as mascaradas nas igrejas. . . . de Roma. . . desfigurava o céu. das Bacanais gregas. da festa dos Inocentes e dos Loucos. . N . . . . e não somente introduzem nesses espetáculos e nesses divertimentos monstros mascarados. . As senha dos Querubins egípcios. Entre todos os povos encontram-se as mascaradas – desde o Indo – que. para as festas do Buianté. o metamorfoseava. Carnaval (RIO DE JANEIRO) ão é de hoje a história das vesânias humanas.. filia-se às mais altas civilizações. exibindo-se rudimentário entre os povos selvagens. . . . é a mesma do carnaval de Veneza. . . . os padres e subdiáconos permitem-se a liberdade de fazer toda a casta de loucuras e palhaçadas. como pensa Volney. das Saturnais romanas. . do Rio de Janeiro e das tribos amazônicas. . e o Papa Inocêncio III as verberava por meio de uma decretal – “Dão-se algumas vezes nas igrejas espetáculos e divertimentos de teatro. S.. . . . O carnaval. que tomavam máscaras de folhas e de cascas de árvores. que é uma frenopatia.

interiormente untuosa e pintada. A mascarada da Dança Macabra esteve muito em voga na Alemanha e na Suíça. A Morte. e usavam de sinais pretos no rosto para fazerem-se mais lindas.. uns para realizarem projetos de ambição. e a máscara era usada pelos trágicos gregos e romanos. citado pelo romancista dos Nouveaux romans de Paris. Acrescenta o historiador Lestoile que aquele soberano gostava tanto de fantasiar-se. . “uma singular mascarada teve lugar no reinado de Carlos VI. que concorriam para transformá-las. Em França. quando nascia o carnaval brasileiro. que impassível lhes ouvia as queixas. desde o século XIV. as máscaras foram adotadas: Filipe o Belo tinha o carnaval como o folguedo de sua predileção. muitas havia que sobre a alvura da face assentavam estrelas e meias-luas de tafetá.. Nas Bacanais e nos espetáculos havia máscaras que exprimiam o ódio. Pediam-lhe a prolongação da vida. reaparecendo elas mais tarde nas ruas e teatros.40 Melo Morais Filho “Eu vos conjuro a exterminar este costume. Uma coincidência: o carnaval francês agonizava. disfarçados em gente de todas as condições. o poeta encarece o carnaval de Veneza: Goethe no Fausto é menos entusiasta pelo carnaval de Roma. No tempo de Luís XIV as cortesãs e as mulheres da moda tatuavam-se exageradamente. os nobres e as senhoras do tom mascaravam-se. todos para alguma quimera.” O carnaval implica o uso da máscara e dos disfarces. indivíduos de ambos os sexos. outros para gozarem de sua nova fortuna. a lubricidade. desfilavam ante a Morte. chamada Dança Macabra. a sátira. que deitava-se de máscara. no cemitério dos Inocentes. Segundo o redator do Journal de Paris.. Henrique III dispensava calorosa animação a esse regozijo público. A revolução acabou com as mascaradas em França. depois de chasquear em verso com os suplicantes. No Beppo de Lorde Byron. À semelhança dos validos do rei. Em uma ação fantástica. descarregava-lhes a foice”.. diz o bibliófilo Jacó.

Lírico Fluminense. Mas a luz do dia tivera inveja da luz dos candelabros. Januário.. no seu despertar de . noticiando o fato. o que daria mais relevo ao festejo. Em 1854. inauguraram-se os bailes mascarados. um princez desgarrado. e os do Nicola. S. inundava-se da luz dos lustres e candelabros.. e requintava de gozo naqueles abrigos resguardados e ideais como as cismas voluptuosas dos crentes de Maomé. Estes bailes tiveram lugar onde é hoje o teatro da Fênix Dramática. que os moços de qualificação distinta dissipavam-se atraídos. Muito antes. e o Paraíso que aceitava a todos. num cismar vago. Pedro e Ginásio. já alguns carros com máscaras apareceram e das janelas atiraram-lhes flores. quanta perdição no langor morno da beleza aristocrata. Era à noite que naquelas Lupercais esplêndidas as mulheres coroavam-se de fascinações. aconselhou que para o ano futuro se reunissem. Ao crescente e inesperado favor do público corresponderam os teatros de S. acompanhando-os o Clube Fluminense. e assim por diante. Lagrange. a voz do jornalista é o fiat das sociedades. que compreendia a grande chácara da Floresta. mitigava a sede provocada pelas danças ardentes nas taças de champanha. que só admitia os sócios. no Largo do Rocio. especialmente.Festas e Tradições Populares do Brasil 41 O carnaval do Rio de Janeiro começou após a proibição do jogo do entrudo pelo desembargador Siqueira. e a Loucura. Sucederam-se a estes os do Ângelo. na Cidade Nova. no roçar de um corpo de neve. Em que consistia o nosso primitivo carnaval ao ar livre? É fácil de cogitar: em pequenos grupos de máscaras errantes. Até então a loucura descobria o prazer ao som da música escolhida. ao terraço ou à janela. na chácara da Rua do Conde. O Jornal do Comércio. que para o mesmo fim abriram as suas portas. que para aqui viera com a companhia lírica de Mme. devidos os primeiros à iniciativa da cantora Delmastro. tendo por testemunhas o olhar pestanejante das estrelas e o céu profundo e escuro como as marés incertas do destino!. único dos nossos chefes de polícia de quem a tradição repete o nome com segurança e respeito. No Clube.

emboca as fanfarras no meio das praças. Nos cenários. militares. a quem mais deslumbrantes erguesse as ar carias iluminadas. Jurisconsultos. jornalistas. . altos funcionários públicos. onde se liam epigramas e quadras chistosas. as espiguilhas e os bordados a ouro. cascatas artificiais. Antes do dia 23 de fevereiro. uma comissão composta do Dr. adereços finíssimos. Nos primitivos carnavais a influência era tamanha. que pode dizer-se que um terço da população mascarava-se. negociantes.42 Melo Morais Filho sonâmbula. médicos. Nas casas particulares viam-se o veludo e a seda. subindo até as bambolinas. as casas de vender e alugar vestimentas multiplicavam-se. Em 1855 fa zia a sua pri me i ra passe a ta o Con gres so das Sumidades Carnavalescas. Decoravam-se suntuosamente os teatros. Cá fora o comércio abria pesada bolsa ao artista mais hábil no enfeite das ruas. nos alfaiates. associavam-se à empresa do dia. flores e perfumes. a mocidade mais dinheirosa e ilustre. Joaquim Francisco Alves Branco Muniz Barreto. ao jardineiro mais zeloso no cultivo das palmeiras e arbustos de ornamentação. tudo quanto a sociedade fluminense possuía de seleto absorvia-se numa só idéia. E tanto é verdade. os costumes especiais. em que caíra o Entrudo. ao pintor de mais imaginação e espírito no acabado dos escudos implantados de troféus. com o seu séquito de cem escravas e de milhares de cativos. fazendeiros. faziam supor que naqueles salões enormes se iriam asilar as fadas dos contos das Mil e Uma Noites. os espelhos cintilavam como vagas descendo de fantásticas muralhas: palmeiras à entrada de grutas. num só pensamento. Em janeiro de 1855 já as folhas diárias anunciavam que o carnaval seria magnífico: as famílias mais consideradas. No Largo do Rocio e em muitíssimas ruas. nos ourives. Nos coretos em profusão pregavam-se bancos para a música e colocavam-se figuras que simbolizavam personagens e acontecimentos ridículos. que os diretores de teatros advertiam ao público que seria vedado o ingresso nos bailes a quem não se apresentasse fantasiado.

cujo talento impunha-se pelo brilho progressivo. No ano a que nos referimos. dirigiu-se a S. Palhares. os flambarás. Cristiano Stockmeyer. os estalos fulminantes imitavam as crepitações das fogueiras e a multidão acudia a vários lugares. Muitas pes so as ainda se recordam de um in di ví duo que. Manuel Antônio de Almeida. Firmino Rodrigues Silva e Paranhos regiam os moços. José Martiniano de Alencar. os dominós. um folhetim. os zés-pereiras. Os carros de mascarados não tinham conta. faziam parte da redação do Correio Mercantil e chamavam-se Henrique César Muzzio. F. porque eles viam a pena de ouro na mão do mestre e do amigo! Afastados desse grupo. os titis. que saudavam o futuro entre um artigo de fundo. no Provisório. trocando pilhérias. Cristóvão. trepado numa saia-balão de proporções colossais. Francisco Augusto de Sá. os chicards. mas conhecidos de bonito nome. Otaviano. Horácio Urpia e mais. os máscaras de espírito tornaram-se salientes. e o desabrochar das esperanças na alamedas sempre encantadoras da primeira mocidade.Festas e Tradições Populares do Brasil 43 Coronel Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão e do Dr. Estes leais companheiros de tantas glórias. que fortaleceram o empreendimento como forma e como idéia. distribuía pelas janelas poesias. de Alencar. intrigou a toda a gente. os D. . os dois Faros. Pinheiro Guimarães. J. uma poesia. a eles reuniam-se Joaquim de Melo. Um francês houve que. Desta sociedade tiveram a iniciativa notáveis homens de letras e jovens escritores. Nas tardes do domingo as bandas marciais tocavam. Augusto de Castro. pedindo a S. os pierrots . Nunos e os cavaleiros de capa e espada percorriam a cidade. Ramon de Azevedo e outros. o Imperador que viesse com as princesas ao paço da cidade honrar com a sua presença o carnaval do ano e assistir à passagem do Congresso. Dos sobrados desdobravam colchas de damasco e entornavam flores. curiosa e festiva. que resplandecem do passado. Felizes tempos aqueles em que Alves Branco. M. os débardeurs. Este máscara envergava um costume metade preto e metade branco.

suspendiam no ar as enormes máscaras de papelão. tendo em toda a exótica vestimenta escadas e lampiões de pano. a turba tomava as saídas de onde o clangor dos clarins e o tropel dos cavalos avizinhavam-se. Teixeira e Sousa. quanto desapontamento engraçado.44 Melo Morais Filho Consecutivo este carnaval à iluminação a gás desta capital. junto a um mineiro que montava num boi. quanta corrida de vencido! Uma vez Laurindo Rabelo estava na porta.. o bacharel Gonçalves. e os vivas e urras. a imperatriz. de muito perto. O imperador. enrolando à cinta a cauda vermelha. perturbado. e as princesas observavam do passadiço do palácio a animação dos festejos.. depois de divertir-se. por certo. come a roupa. O povo abria-se em fileiras defronte do paço. Laurindo Rabelo. José Antônio. aproxima-se. esperando um pouco retirados pelas Sumidades. Paulo Brito. Por volta das 5 horas da tarde. Zaluar. Na Petalógica do Largo do Rocio. corava-se à indiscrição de um máscara que se gredava (em voz alta) o que vira e o que não vira. torcendo o bigode: – Meu amigo: o senhor. os diabinhos barbudos reviravam a máscara. saracoteando. sacudia-se do chapéu rosas e jasmins. cuja tardança os impacientava. recortados e cosidos.. O poeta fá-lo parar e diz-lhe. como uma pirâmide sonora. não é assim? Ao que o interlocutor nada respondeu. conquistou gostosas gargalhadas um sujeito enfezadinho. Constantino Gomes de Sousa. Bracarense e Machado de Assis. A família imperial chegava às sacadas.. A expectativa era inexcedível! E os sons se escutavam de perto. escanchado numa jumenta branca. Pisava-se sobre folhas de canela e mangueira. Quanta lembrança original. atropelavam os princeses que entravam e os desenxabidos que passavam. tinham por base ondulante o pasmo de toda aquela população. vestido de capim. de envolta com a multidão os velhos cabeçudos. que enfiasse a grimpa na imensidade. Castro Lopes. . Um mascarado. de cajado e luneta.

Sobre cada carro desenrolava-se rica colcha de damasco coberta de rendas alvíssimas. Quixote. jogavam às senhoras. grãos-de-bico e feijões confeitados. o Almirante Duguay-Trouin. Carlos V. por quem morre de amores. ou aos pés dos personagens. Abdul-Metjid. o pendão admiravelmente trabalhado das Sumidades. nobres do Cáucaso. pregoeiros. ajaezadas com grandeza. caixinhas com estalos fulminantes. entrava vitoriosamente no grande carnaval. transpunha o Largo do Paço a banda marcial do Congresso das Sumidades Carnavalescas. Os clarins escoceses do regimento dos highlanders formavam-lhe a retaguarda. o primeiro grupo de cavaleiros foi de um sucesso maravilhoso. que tinha por fim declarar o nome dos personagens que representavam. às aclamações populares e às catadupas de flores e harmonias. o cavaleiro da Mancha. Todos os caleches – e deviam ser mais de doze – eram puxados a duas parelhas lindíssimas. um grego. ao dardejar das luzes que semelhavam abóbadas de fogo. Parando a instantes. Era um grupo histórico. cestas com pequenos buquês. Dulcamara. etc.” Caleches com bayaderas. antecedendo ao carro de D. . Marco Spada e um dragão prussiano da Morte. Fernando o Católico. em sua marcha triunfal por uma estrada de folhas verdes e aromáticas. refreando os ginetes ariscos. com a galhardia de um herói de Cervantes. faetones em que se repimpavam o Dr. grupos a cavalo. Esses cavaleiros eram Nicolau I. e. Tadeu Kosciusco. mandarins. vestida com o pitoresco costume dos cossacos da Ucrânia. Por exemplo: “Nicolau I cumprimenta a V. durante o trajeto. o Conde de Provença. Exª. o senhor de Istambul. que não há quem o tivesse visto que dele não se recorde deslumbrado.. ramos de flores. que fazia tremular. que cada um atirava aos espectadores das janelas e à gente aglomerada nas ruas. dentro dos quais metiam um cartão de visita. No meio de bravos e flores. o Duque de Guise. Imperador de todas as Rússias.Festas e Tradições Populares do Brasil 45 Logo após. Ben venuto Cellini. reproduzido com tanta propriedade e luxo no trajar. caracterizados como o Duque d’Alba. constituíam o pomposo préstito do Congresso que. em cima das almofadas.

À entrada do Lírico. da vozeria confusa e do bater dos pés de um louco em delírio – o Baile Mascarado! Destarte inaugurada a festa. ainda nenhum outro enlaçou com tanto brilho e formosura. do corpo diplomático. de onde saíram. As pom pas funerárias do deus Momo não podiam ser mais solenes. o baile das Sumidades marcava notável acontecimento. Durante o trajeto. alocuções burlescas na Petalógica. do Senado. adornado com o maior esplendor. membros do Ministério. era o palácio das representações fidalgas. ao teatro Provisório. O préstito seguiu a pé: carregado por dominós. As moças mais belas. Sem roteiro determinado. dos gritos estrídulos. o féretro simbólico foi deposto num catafalco erguido debaixo das arcarias iluminadas da Rua das Violas. as saudações da platéia e dos camarotes não foram menos significativas. iluminação das ruas e do edifício do clube. bandeiras e músicas. jornalistas. Quando o Con gresso das Sumidades Carnavalescas banqueteava-se nos salões. poesias. sufocados pelos sons dos guizos e das trompas. as quadrilhas e as valsas respiravam apenas. Na terça-feira fizeram o enterramento do carnaval. Vivas. terminado o quê. . O Clube Fluminense. escoltado pelo Congresso. A banda militar tocou a marcha fúnebre. como baile à fantasia. os galopes.46 Melo Morais Filho Impossível fora descrever o entusiasmo das multidões! Para caminhar no passado. generais. por isso que. foi transportado o ataúde. etc. e depois de percorrerem o Catete. assinalavam-lhe os tri un fos. aí se achavam dando mais realce à grandiosa festa.. voltaram à chácara da Floresta. um membro da comissão dos festejos recitou um discurso. poetas. a passeata daquele ano realizou-se ao acaso. literatos. as pol cas. dispersando-se afinal. fora debalde querer detê-la nas suas celebrações anuais. só a imaginação esclarece a treva! Na noite antecedente. funcionários públicos. a nobreza e o talento. as estrondosas demonstrações excediam do entusiasmo.

que. Os seus bailes e os seus préstitos ficaram únicos. músicas e rumores generalizados. E a União Veneziana. a fisionomia do carnaval era mais expansiva. apresentou-se nos teatros com estranho lu zimento. desde as duas horas. cada qual com mais elegância e acentuada característica. durante o seu reinado.Festas e Tradições Populares do Brasil 47 As Sumidades. dos salões. manoplas de verniz. calção de camurça . destacando-se pelo espírito. do Clube. O vestuário era o seguinte: blusa de seda. Enquanto um préstito desfilava e um ou outro grupo mais avultado exibia-se vistoso pela ruas principais. o Congresso e a União antecipam-se no requinte do prazer. A Boêmia. uma das mais palpitantes individualizações das bizarrias do espírito humano. dos teatros. Os teatros embandeirados. Sentia-se que a cidade saía fora de sua vida habitual. chama o Congresso de irmão. as ruas e praças decoravam-se com amplitude e profusão. * Até 1877. Entretanto. Muitos grupos organizaram-se. transforma-se em Zuavos e. que ferve de risos e de esquecimento. como as mulheres da Babilônia. e os máscaras isolados faziam rir pela originalidade das idéias. o carnaval adianta-se nas suas jornadas ruidosas. Todos os teatros davam bailes. preparavam o caminho até hoje trilhado pelo carnaval do Rio de Janeiro. Ambos têm nas mãos a taça dos três dias. ano por ano. em busca do templo do deus Momo. carros de máscaras percorriam as ruas. sociedade de música. que aparecera mais tarde. campeou absoluto. constituíam o clima do domingo. Durante os três dias havia o carnaval das ruas. o Congresso. erguendo arcos triunfais. mais popular. o comércio das vestimentas. e disputam-se a primazia. em quantidade prodigiosa. coretos. todas as atenções. e que seu aspecto exterior era um reflexo pálido da alegria pública. os grupos fantasiados eram inúmeros. precedendo os Cromáticos. franjada de ouro. A Euterpe Comercial. de mangas curtas. transmitia o contágio da loucura à população inteira. os máscaras de todas as categorias entretinham. Com a fronte engrinaldada das rosas pálidas da folia.

em que realçavam as cores da bandeira do país ao qual cada um aparentava pertencer. botas à Fernando. quimeras. compunha-se igualmente de riquíssimos e espirituosos chicards. iniciadores dos carros de idéias. ou con corria aos do Lírico. espada. que retirou-se das folias carnavalescas. argolões de metal nas orelhas. O Clube X. Não nos preocupando de grupos vulgares. de mais de um metro de altura. As famílias nos camarotes e os máscaras que flanavam nos intervalos da dança. punham-se em guarda para o riso e para o desapontamento. Esses boêmios anunciavam-se pelo grito especial. alguns empregados públicos. botas de montar. entravam em contribuição. E quem eram estes estudantes? Na primitiva. Ginásio e S. Pedro. a pi lhéria inofensiva. acompanhado de camelos. calção-camurça. a fina crítica. Recordamo-nos de um desses chicards. falemos de uma antiga sociedade. que sobre o capacete de couraceiro prussiano ostentava um penacho escarlate e branco. Da passeata que fez o clube.. O rei destoava. O distintivo dos sócios era um C e um X no alto do capacete e nos escudos. que com tanta vantagem foram apropriados pelas sociedades ulteriores. e poucos. cabeleira crespa. mas circulado por larga fita. do qual ainda se fala com saudades. de que fala Henri Murger. Pelo pessoal escolhido. porque substituía o boné pelo chapéu ar mado e vestia irrepreensível casaca. Eis o uniforme: sobrecasaca curta abotoada. cujo efeito era admirável.48 Melo Morais Filho e justo. Esta sociedade não fazia passeatas: dava seus bailes. mas de boa colocação. As damas do Clube X fantasiavam-se com esmero e primavam pelo conjunto das formas. rapazes do curso médico. boné sem aba. . a intriga espirituosa. percebe-se o sucesso de sua existência. há muito quem se lembre. distinguindo-se pelos capacetes encimados por pássaros. O seu trajar era especial. lanternas. Quando os Estudantes de Heidelberg transpunham os salões. do comércio. segundo o estilo universitário. porque já não tinha mais louros a colher – os Estudantes de Heidelberg. faixa de cores vivas. faixa. etc.

precedida de fogos de bengala e da multidão dando vivas.. No S. abrindo as asas. de um espírito surpreendente. abalroando-se no coretos. de campainha e foice. máscaras avulsos faziam-se célebres pela originalidade das lembranças. Estas festas foram mais ou menos assim até o ano de sessenta e tantos. os zés-pereiras. com que atroavam céu e terra. já pela pureza da pronúncia nas línguas em que se exprimia. e. alemão. tocavam-se marchas fúnebres. ajudavam-lhes a atravessar a noite. Pedro. cabeleira e nariz postiços. corretamente trajado. com rodelas de limão. inglês. conforme os tempos. em honra do carnaval e da comezaina. ao açoite das ban deiras suspensas. as galinhas e o fiambre para as ceias no teatro. Um vez apareceu um galo bastante vistoso. no meio das danças e das gargalhadas argentinas. já pelo chiste. à noite. Eram as Sumidades. Não houve quem não o admirasse. O féretro parava em determinados lugares. uma banda de música assomava. depois de ter debicado nas ruas a todo o mundo. os perus. os princeses de máscara de arame e de papelão. vestidas a capricho e interessantes. Por baixo dos arcos pintados e de luzes. dando a esses quadros um aspecto verdadeiramente encantado. guarnecidos de archotes. recitavam-se discursos cômicos. vestido à corte. italiano e português. poesias disparatadas. De súbito. Nos esquifes. no Provisório. Em qualquer das tardes.Festas e Tradições Populares do Brasil 49 Todos traziam porta-voz. As mulheres que os seguiam.. que cantava. em que a Paulicéia Vagabunda compareceu nos festejos. car regados ao ombro. ou qual quer outra sociedade. que na terça-feira enterrava o carnaval. os Zuavos. moviam-se. os ranchos com tocatas e os diabinhos de rabos e chifres. ao fogo dos archotes. . apresentou-se um indivíduo. ouriçados de palitos. os leitões assados. a União Veneziana. falando francês. de óculos. a Morte. que sobre o abdômen deixava ler o seguinte letreiro: Aqui dentro há alguma cousa. agitavam-se. como vulgarmente se diz. junto a um figurão. entoava-se um De profundis.

e. não é mais o que era. ao paço da ci da de. Os Fenianos. trazendo consigo novas idéi as. acumulando os cabedais de que presentemente dispõe. opinaram pela conveniência. apagaram seus lustres. Os teatros. na úl ti ma tar de. porque as cavernas e as casas pró prias locupletavam-se. exemplificam o que dizemos. no ano de 1861. absorvendo os máscaras. A partir de 1870. e não longe desse batismo de fogo. que ia em decadência: o incêndio de uma farmácia ou drogaria da Rua Direita. Novos sócios entraram. e os teatros e clubes eram paraísos artificias.50 Melo Morais Filho Foi este o último carnaval clássico. e os . Os Zuavos. como regozijo popular. Sem podermos firmar as datas da fundação das sociedades de hoje. Da altura de suas aspirações. grupo dissidente dos Tenentes do Diabo. Pequenos ranchos. foliões dispersos e de pontos distantes. veio ocupar o cenário pouco povoado do passado e assistir à agonia das derradeiras associações que faleciam. recolheu o que lhe pareceu útil. as mais sociedades existiam: parte da população mascarava-se. Extinto o incêndio. afluíam aos lugares indicados no itinerário. Os teatros estavam cheios e a notícia espalhou-se. que lhes consagrou o nome. ficando vazios. seu meio. auxiliando o corpo de bombeiros. receberam no crisma de Momo o de Tenentes do Diabo. Nos carnavais posteriores a 1869. com o seu uniforme carnavalesco. para verem o desfilar de um préstito suntuoso. Não sabemos se com isso ganhou ou perdeu o carnaval. o carnaval concentrou-se nas grande sociedades. e o máscara de ontem tornou-se o curioso de hoje. supondo que o fogo se havia declarado em casa de um dos sócios. o entusiasmo aviventou-se. O Imperador des ceu. recordamo-nos de um fato que determinou o renascimento do carnaval. seus centros. estrondoso. fecharam suas portas. mas como tanto gozavam fantasiados como sem disfarce. abandonando assim seus passeios. para lá correram. À exceção do Congresso e da União Veneziana. levantaram-se para eles as labaredas do prestígio. uma outra geração. portaram-se com a maior valentia.

empunhando o cetro da tradição. em que os Fenianos. porque. em que aparecia um célebre astrônomo armado de telescópio. os Tenentes e os Democráticos. pelas alegorias do porta-estandarte. alusão magnífica à escravidão. . os polichinelos e outros tipos. Democráticos e Tenentes têm-se coroado de lauréis. etc. cumpre confessar que os Democráticos. na realidade deslumbrantes. os carros de máscaras. uma ação. substituíram as cavalgadas numerosas. Margeando as correntes modernas. Aplaudidas muitas das suas críticas pela felicidade das reproduções. conhecendo o assunto. As barraquinhas. ficaram esmagados os arlequins. Braços à lavoura.. depois que as sociedades passam. A mancha de Júpiter . ou mais rico. a Questão dos bispos. seguem-se os car ros de idéias. Fenianos e Tenentes são justamente dignos da gloriosa reputação que lhes dispensa o público. a mascarada geral. os personagens disfarçados. O povo ri-se a bom rir. os acontecimentos mais ridículos e frisantes do ano são transportados para aqueles cenários ambulantes como para um baixo-relevo executado por mestre. conquistaram tão vivas manifestações que a impressão produzida restou inapagável na memória pública. como nos dias comuns. que outrora tanto nos divertiram. A passagem de Vênus. pode dar aos personagens os nomes autênticos. Depois das ruidosas Alegorias em que todas as sociedades se empenham por exceder-se. pelas suas custosas bandas de música. cada qual mais espirituoso e original. entretanto. reputação adquirida pelo espírito sutil de suas idéias. pelos carros de idéias. pelo aparato grandioso de seus préstitos. voltam aos seus lares. Entretanto. um fato.Festas e Tradições Populares do Brasil 51 curiosos. Debaixo das rodas destes carros. representam atualmente o carnaval do Rio de Janeiro. Os Fenianos. E a alusão deixou de ser pessoal para abranger um círculo.

. munidas de imprescindíveis licenças. . a cuja direção e car go ficariam a solenidade religiosa e os festejos externos. . A isso. por estradas e povoados. que faria convergir em um ponto determinado os habitantes de um termo qualquer.. . . . . . que se faziam outrora a rigoroso capricho dos festeiros e segundo os donativos das populações devotas. . . levando a todos os ares e a todos os lares o instrumentado anúncio da festividade anual. . garridos foliões dispersavam-se em bandos no interior da província do Rio de Janeiro. . quatro ou cinco bandeiras. . três. punham-se em marcha. . . meses antes da festa do Espírito Santo. . . de conformidade com a extensão das freguesias ou distritos. porém. dos municípios. . E de que se compunham as bandeiras? . A Festa do Divino (PROVÍNCIA DO RIO) P or vales e serras. que geralmente se antecipavam em suas piedosas oferendas à grandiosa festa do Espírito Santo. sempre esplêndida e concorridíssima. precedia a eleição das mesas das respectivas irmandades e a escolha dos liberais fes teiros. . . . angariando esmolas para as festas das capitais. . Desde então. . .

54 Melo Morais Filho Cada uma de um rancho de rapazolas. escarlates. brancos. cercando ou ladeando a bandeira. a bandeira do Divino. objetos de difícil transporte. etc. de acordo com as posses das irmandades. transpondo o terreiro das fa zendas. À notícia de que andavam bandeiras. para oferecer ao Divino. de tambores e de violas. as folias denunciavam-se longe fazendo vibrar a melodiosa orquestra. uns pombinhos. uma leitoa. A essas Folias acompanhava um ou mais animais de carga para conduzir dádivas e promessas. valendo-lhe a proeminência no grupo o estandarte por ele desfraldado. de pandeiros. Do rancho a figura mais saliente era o alferes da bandeira. tocando. em risonho convívio. espigado e pernóstico rapagão. não havia casa que não se julgasse honrada de receber-lhes a visita. não havia um pobre que em sua palhoça humilde deixasse de se prevenir para o favorável agasalho dos foliões. pulando. Engrossando a turma dos foliões. de pratos. responsabilizando-se pelo que desse e viesse durante o extenso e demorado trajeto. trazendo chapéus de palha com laços verdes.. que tomava conta das esmolas. franjada de ouro. . cantando: Dai es mo la ao Di vi no. que desdobravam-se em longas e flutuantes pontas sobre os ombros e as costas. um peru. de prata ou de lã. reservando. vinham os tocadores de ferrinhos. prendas para os leilões. onde uma pomba pintada sobre um fundo de raios solares destacava-se no campo de seda vermelha da referida bandeira. prateada ou dourada. A vestimenta do alferes da bandeira não diferia da de seus companheiros. Re pa rai que esta ban de i ra É da vos sa fre gue sia. subindo à crista das montanhas. Com pra zer e ale gria. crioulos e mestiços. uma galinha. encimada por uma pomba de pau. vestidos de branco. parlamentava diretamente com os devotos e ofertantes. E internando-se nas estradas. suspendendo o vôo de um monte de irisadas fitas. na falta de esmola pecuniária. cor-de-rosa. enchendo o espaço de sonâncias tradicionais em todo o País. com as jaquetas enfeitadas de laçarotes de fitas.

.

seguia. a um momento dado. beijava-a. O roceiro e a família. E os tambores rufavam. à beira do mato ou da estrada: Ó se nhor dono da casa. que não conhecia obstáculos no cumprimento de tradicionais deveres. cantava à porta de uma casinha de sapé. encontravam na liberalidade dos roceiros o indispensável para o sustento e para a viagem. mas ainda a generosidade hospitaleira daquela boa gente. os pratos e as violas. adiantava a sacola das esmolas. falando a linguagem da poesia. chocalhavam os pandeiros. que. já al voroçados pela música e pela cantoria. o aparato de que ela se revestia em outro tempo nos parece melhor desenhar os traços gerais das velhas usanças da colônia. . E o bando ruidoso lá ia. escravos. escutadas de há muito. As folias precursoras dos populares festejos do Espírito Santo possuíam na roça um conjunto de formalidades. recolhendo o óbolo da piedade individual. e mais vizinhos presentes. as bandeiras. punham em contribuição não só a espontaneidade religiosa. achava-se fora. onde imaginamos assistir à festa no dia de sua celebração litúrgica. Re ce bei esta ban de i ra. aceitando a bandeira do Divino. que acompanhavam: A ban de i ra aqui chegou Um fa vor quer me re cer: Uma xí ca ra de café Para os fo liões be ber. tendo no frente a radiante pomba do Divino. modificadas entre nós. desprovida de albergues. Faça fa vor de en tre gá-la A quem tem por companheira. conservaram o que era essência. parava. e com igual reverência a passava à mulher que o imitava e esta aos filhos. que é a felicidade da consciência e da vida.56 Melo Morais Filho No Rio Bonito. um repertório de qua dras de recurso. a partícula representativa da crença. retomando-a depois. Em jornada penosa. os ferrinhos batiam. O alferes. opulentando-se no pitoresco do cenário e pela variabilidade impersistência das raças. tão primitivos e completos. que.

acabando de jantar. entoavam quadrinhas especiais. quando hóspedes. chegando por vezes à freguesia a fim de fazer entrega das esmolas e outras ofertas. cujos milagres tanto o exalçavam na crença anônima das populações em peso. pe rus e ga li nhas. Canoas de voga. Sempre tocando e cantando. as bandeiras se recolhiam à matriz. Assim andavam eles. que se dignara de abençoar a morada de pecadores. as trovas sucediam-se. Mas quer fa zer sua fes ta Com es mo las da po bre za. indo levar as oferendas votivas ao Divino Espírito Santo. agradecendo ainda em verso as lautas comezainas que às vezes lhes proporcionavam. pedindo pousada aqui e ali. muitos dias antes das novenas. peregrinos com velas de cera enfeitadas – todos dirigiam-se às freguesias. as pessoas da família e estranhas concorriam com esmolas. E enquanto os foliões cantavam e tocavam. as folias da roça perfaziam seu itinerário. carregadas de aves e de várias mercadorias. condutores de ovelhas e garrotes. que eram vendidas para as despesas da festa.Festas e Tradições Populares do Brasil 57 E enquanto a dona da casa empenhava-se na satisfação imediata do pedido. Para isso. acondicionavam ofertas e os seguiam com o olhar até desaparecerem na distância ou entre os matagais. À semelhança do que em um lugar se passava. cargueiros em viagem noturna. viajavam por dias inteiros. No Rio Bonito. Toda a es mo la ele re ce be: Fran gos. ao som da música uniforme e monótona: O Di vi no en tra con ten te Nas ca sas mais po bre zi nhas. à cadência de passos balanceados. era o mais em toda a província. tomavam café e dispunham-se para a partida. onde prestavam as últimas contas ao festeiro. Tem bra sões e tem ri que za. ora pedindo pousada. que se . ora. em honra do Divino. O Di vi no é mu i to rico. benzendo com a bandeira os quatro cantos da mesa.

marrecos. conforme o valor das promessas. descobria-se o tablado para as danças de Velhos e Jardineiros. cobrindo com a festival bandeira as oferendas da fé. E o povo bradava: toca a música! O leiloeiro: . À igreja bordada de luzes e ao reflexo vivo das arandelas do coreto e do império. as fogueiras estavam acesas no largo. o pata-choca do leiloeiro. Apenas começavam as novenas. No Céu pes soa real. Ami go de mu i ta car ne. de prata ou de chumbo. o povaréu sentado ao acaso ou apreciando o leilão. aos primeiros repiques das novenas. Meu Di vi no Espí ri to San to. envolviam-se em suas fitas. dobravam o joelho di ante da bandeira. para eles se encaminhavam a fim de buscá-los. peregrinos livres e escravos caminhando a pé. galinhas e o mais que havia. Mu i to vi nho e mu i to pão. Di vi no e ce les ti al. que exageravam os preços. demandavam a matriz da vila. Vós na Ter ra sois pom bi nha. fazendo rir a multidão. que arrematava roscas. apregoava ofertas. aos piques às vezes convencionais. E a música e os cantares recomeçavam. logo que os foliões lobrigavam romeiros em marcha. que deliciavam em extremo aos espectadores entusiastas. segredos. beijavam o Divino e aproximavam-se da matriz. os carros de bois trazendo famílias. de ouro. Durante os nove dias que precediam a festa. E ao escurecer. que tiravam o chapéu. ao religioso fervor dos roceiros. cujo largo espaçoso e de moldura selvagem arrastava-se em suave elevação. de opa vermelha e salva de prata. O Di vi no Espí ri to San to É um gran de fo lião. que servia de um lado para o leilão das ofertas. pão-de-ló. indo abraçar a alva igrejinha que se levantava no alto. com pombinhas do Divino. romeiros a cavalo sulcando as estradas. que eram retribuídas com registros maiores ou menores.58 Melo Morais Filho ocupava desde logo em mandar levantar o coreto para a música e o esplendoroso império.

o circo para as cavalhadas delineado com esmero. que lhes aplaudiam o desgarre. despendendo-se grandes quantias na aquisição de prendas. . – Toca a música!.Festas e Tradições Populares do Brasil 59 – Dou-lhe uma. sendo ao terceiro dia assentadas as estacas para o fogo de artifício.. lá se achava no coreto. que seguiam para o tablado. Quanto dão pelos pombinhos? E os lances choviam. arqueava o braço. o povo perambulava em todas as direções. dou-lhe três. só se ouviam os repiques de sinos. as girândolas de dúzias de foguetes estouravam sem conta. Nisso apareciam os doze velhos cabeçudos. às risadas dos espectadores.. suas casacas de rabo de tesoura e de botões de papelão. arrastando os pés. andando curto. Para ben zer a mu lher Qu an do es ti ver de que bran to.. Scio! Scio!!? Todo o ho mem que é ca sa do Deve ter seu pau no can to. muito antes da missa cantada. com suas competentes lunetas. em louvor do Divino. repimpados em suas cavalgaduras magras.. Na manhã da festa. belos quartos de carneiro e finíssima farinha. e o festeiro mandava distribuir pelos pobres presentes de carne e de roscas. os roceiros buscavam as imediações. os sinos repicavam a miúdo. Eis senão quando. Antes. ar rulando. tomando de um casal de pombos com as asas amarradas de fitas. contratada para essas festas na época a que nos reportamos. que faziam vir da corte. apregoando: – Currupacos.. sentados nos carros à espera.. os namorados metiam-se em brios. papacos. adiantava-se para o batente. Entrando a solenidade religiosa e durante todo o ato. o jocoso leiloeiro.. os bandos mascarados percorriam a cavalo as ruas da vila. olhando embasbacado para os vistosos palanques e os embandeirados galhardetes. o largo regurgitava de povo.. – Bravo! Bravíssimo!. A música de barbeiros. dou-lhe duas.

escravos ou roceiros. as danças principiavam. Nesse instante duas extensas e volumosas alas se formavam da matriz ao império. Os ferrinhos. vestidos a caráter. meias de seda. além da coroa e cetro que descansavam. repimpado em sua bonita cadeira. cantarolavam. não havia família da cidade ou do lugar. empunhando tochas acesas. e diante de uma mesa coberta de uma colcha de damasco. que não se adiantassem no tumulto. trazendo cada devoto ou devota o seu registro e a sua pombinha do Divino. artisticamente adereçado para recebê-los. ao aspecto do adro do templo. os tambores rufavam. calção. vestido de casaca de veludo verde e manto escarlate. para ver o imperador do Divino com a sua comitiva que. via-se uma grande salva de prata para as esmolas. Dois mor do mos de casaca. assistindo à função o imperador. O movimento não podia ser mais ativo. sapatos afivelados. grandes maços de registros e pombas do Divino para serem distribuídos. chapéu de pasta. repleto do povo que saía. no império de sarrafos e de bambinelas de paninho. espadim e calção suspendiam-lhe o roçagante manto.60 Melo Morais Filho Pouco mais tarde as danças dos jardineiros e a dos alfaiates. cada qual com sua flecha de foguete estourado. A música tocava. na qual. os pandeiros e os pratos tiniam. E a festa. de opa encarnada com borlas de ouro. E a irmandade. E conjuntamente. as violas enfeitadas casavam-se às vozes dos foliões bem vestidos. inclusive os moleques traquinas. desde a porta da igreja. vinha o imperador. . com coroa e cetro. que. no centro de quatro varas pintadas de en carnado. pomposa. tinha de presidir aos exteriores festejos. um menino de dez a onze anos. transparecendo do quanto se via e observava. à subida dos últimos foguetes que sibilavam rebentando as bombas. opulenta. nem mais pitoresco e a alegria e a devoção maravilhavam. tendo ao peito o refulgente emblema do Espírito Santo. sendo este costume um prolongamento do que era de estilo nas grandiosas festas do tempo do Rei. precedia ufana o imperial séquito. e todos com a folia tomavam lugar no império. magnífica terminava na igreja.

desdobrando um leque luminoso e trêmulo. geralmente o dos Cristãos. – Dou-lhe uma. em prazenteiros bandos. a gente de mais longe movia-se..Festas e Tradições Populares do Brasil 61 Nesta ocasião corriam as cavalhadas.. assoviando. – Quanto dão pelo segredo? – O fogo tem fumaça! Fora o fogueteiro! Bradava o povo. Pelas quatro horas da tarde tudo ficava interrompido: o imperador retirava-se para voltar à noite. à semelhança de extensos colares. essas festas duravam mais de dois dias. o leilão rompia caloroso em uma banda do império. dou-lhe três. a gente dispersava-se na maior parte. executava-se o tradicional torneio de Cris tãos e Mouros. no Rio Bonito e nas demais paragens da província do Rio. Como antigamente na corte. Algumas famílias estendiam esteiras e jantavam no campo da igreja. A este sinal. e os roceiros de paragens longínquas acomodavam-se do melhor modo.. E caía a noite. comparecendo como figura obrigatória o leiloeiro que alegrava a multidão. que ia bater irradiando-se na porta da igreja. Honrados sempre com a assistência do imperador. apreciando o deslumbrante espetáculo das festas em sua simplicidade primitiva. destacava-se fantástico. Dou-lhe tudo desta vez!... E a primeira orda estrondava. reservando-se para a última noite o riquíssimo fogo que atacava-se cedo. dou-lhe duas. tomando seus carros e cavalos para a volta.. individualizada no artista . vaiando a arte pirotécnica da corte. interrompido por pilhérias do leiloeiro e gargalhadas do povo. fazendo suas refeições campestres. o império e os coretos refletiam o chão e no ar o fulgor de suas luzes radiantes e profusas. que findava por vencer um partido. devido à conveniência dos devotos que residiam distante. de preciosas gemas fundidas. As fogueiras do largo abriam clarões.. ceavam lautamente. que era vitoriado com palmas e clamores.. as famílias e o povo em tropa acampavam ao ar livre. Entrava o Te Deum e com ele os mais folguedos da manhã.. à exceção do curro. atropelava-se.. o frontispício da matriz ornado de copinhos de cores.

o tropel dos cavalos. esclarecendo o simbólico painel do Espírito Santo que despertava delirantes aplausos do povão admirado. quando um ou outro morrão aceso caía em lágrimas das rodas queimadas. atendendo ao mais leve incidente de ocasião. o barbeiro amolava a navalha. Na casa do festeiro roncava o baile!. ouvindo-se apenas nas estradas os guinchos dos carros de bois. terminando a festa pela – Glória do Divino – vistosa peça que queimava no fim. As fortalezas e a fragata salvavam. girando na roda. já tudo estava deserto. À meia-noite..62 Melo Morais Filho que corria tonto e atordoado.. . e o rumor de vozes dos romeiros que demandavam o lar deixado.

. os iam exibir nas lapinhas. . de sorte que o pensamento profano e o pen samento religioso nelas se alternam. . encontra-se todavia nesse gênero de composições. em visita ao Messias no presepe de Belém. o relevo ar tístico de seu tipo de origem. a adaptação de sentimentos profanos. época em que os natais – produções em verso destinadas a ce le brar o nascimento de Jesus. . . . . . . . seguindo as procissões solenes. . confundiam-se com as composições sagradas. . não há negar. desenvolveram-se em esfera mais ampla e com atitude mais autonômica. . . . A Noite de Natal (BAHIA) s canções populares. e em que os trovadores e menestréis. o seu valor é considerável como contribuição ao estudo de fases poéticas e do ideal religioso. . . de caráter religioso. porém. apropriadas às festas e cerimônias da Igreja. Distanciando-se dos cantos puramente litúrgicos. . Poesia de colaboração anônima. que. . A . Os autos e cheganças da noite de Natal remontam ao alvorecer da Idade Média. é a atmosfera fisiológica da razão popular. não apagando de todo. . . .. a começar do século XIII. . .

arquejam para morrer nas províncias do Norte. mas conservando o fundo da tradição. Domingos e de S. os cantadores acompanham os concertistas ambulantes. são os apris cos da que las ove lhas des per tas. o Terreiro alveja nos torsos de cassa das mulatas e crioulas chibantes. e os seus ecos. que o vulto das invasões estrangeiras. Francisco. que expandiam as suas alegrias pelo nascimento do Deus Menino. de S. dedilhando as cordas de seus instrumentos. apinhados de devotos. anunciando a missa. aldeias e cidades da metrópole.64 Melo Morais Filho Então esses personagens. vestidos de pastores e reis Magos. Em seus louvores. um sonho de quem adormece em sua pátria ao perfume inebriante e selvagem das mangueiras em flor!. o coro era uníssono. Os sinos da freguesia repicam. representavam os seus mistérios diante do berço de palhas do Messias das nações. ou nos céus da Bahia – o lar clássico das tradições nacionais. Tais costumes. variando a forma. descravando dos horizontes a derradeira estrela. apenas se fazem ouvir naqueles centros. No meio dessas cenas pitorescas. essas noites de Natal da nossa terra. Os tocadores de violão preludiam chulas e toadas. As janeiras dos campos. cantam quadras apropriadas. . a poesia imitativa tocava ao seu apogeu. os adros do Colégio. os tocadores de cítara partiam nos harpejos cordas vibrantes.. e os poetas entregavam-se ao fervor piedoso de suas inocentes inspirações. versos oportunos. essas usanças tão gatas aos nossos maiores. por isso que a grande nova emprestava no lirismo voz aos animais.. Aí a noite de Natal ainda é uma reminiscência que consola. entenebrecerá em breve. de gerais que eram. pas sando-se deste último país para o Brasil com as primitivas levas colonizadoras. até à primeira metade deste século. Mais tarde os bretões adotaram es ses usos. que se generalizaram na Europa. refletiram seu caráter antigo na musa popular da Espanha e de Portugal. desses dramas infantis. dançavam e cantavam as suas danças e canções. felizmente improfanados.

Festas e Tradições Populares do Brasil 65 Os escravos de bons senhores enchem espaços circunscritos das algazarras dos batuques, das matinadas dos canzás, das dissonâncias atroadoras de seus tabaques grosseiros. Aqui e ali, uma porta range nos gonzos e fecha-se: são as famílias que, precedidas do chefe, encaminham-se às igrejas, vagarosas, rusguentas, intermináveis... A cidade e os arrabaldes ostentam-se magníficos pelo movimento que os anima, pelas músicas que se executam de várias casas, pelos presepes floridos que se avistam de fora. Como uma cadeia de prata, cujos elos partidos encontram-se nos ares, assim são os tinidos trêmulos dos pandeiros; como as vibrações de uma gargalhada convulsiva, que cresce e decresce para recomeçar de novo, assim são os estalos gradativos das castanholas. Os bailes pastoris, que desenham com mais firmeza os traços fisionômicos da noite de Natal na Bahia, executam-se nas habitações remediadas e pobres, e nos palácios dourados da opulência. É que nesta noite a sorte difunde igualmente os seus risos pela trilha afanosa do proletariado e pelas alamedas em que a fortuna espalha os seus bens! Através das grades de pau dos postigos esburacados, os clarões que coam, parecem as crisálidas de ouro, de onde se desatam as melodias que voam... Os bordões argênteos dos violões, contrastando com os dedos negros dos tocadores crioulos; as pastoras bronzeadas e da cor do ébano, dançando, cantando e dialogando em frente de um presepe de galhos de pitanga; aquelas mulheres de turbantes vistosos, adornadas de colares, braceletes e pedrarias, deleitam e transportam me lhor a imaginação às regiões do Oriente, à pátria do sol. Dir-se-ia que aqueles bustos fundidos de trevas e de crepúsculos morenos, fizeram parte da comitiva dos reis de Sabá, da Pérsia e da Babilônia à mensagem de Belém; que aqueles clamores, erguidos por um povo de raças diversas, nada mais eram do que o eco enfraquecido, por quase dois mil anos, do rumor das caravanas dos Magos com o seu séquito de reis vencidos, odaliscas e cativos, com seus camelos que se ajoelhavam ao peso das resinas e do ouro, dos amuletos e dos diademas

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de cem dinastias, para ofertarem ao Deus nascido – Àquele que tinha de fazer desaparecer os brilhos das noites do Oriente e levantar em esplendores as manhãs frias e orvalhadas do Ocidente! Na noite de hoje, os bailados mais ou menos ricos, os presepes mais ou menos característicos, falam ao ideal das classe diferenciadas; as trovas incultas são descantadas, os autos inéditos desempenham-se à porfia, e a Missa do Galo constitui o objetivo de algumas famílias que se retraem e dos indivíduos que observam os ritos do Natal. A partir das 8 horas, nas casas de tratamento, as polcas e valsas estuam nos salões; as luzes profusas dardejam raios de âmbar; as encantadoras baianas deslumbram, girando nas danças elegantes, e os repentistas laureados glosam motes aos aplausos justíssimos. Em quadra mais remota, es ses grandes mestres de toda a poesia do improviso chamavam-se Moniz Barreto, Dr. Sinfrônio Álvares Coelho, Laurindo Rabelo, A. de Mendonça, João Freitas, Dr. Luís Álvares dos Santos e tantos outros, que eram os poetas da religião, da pátria e da família. Desses apenas existe o Dr. Sinfrônio, que, quase estranho à geração atual, aí vive ignorado, mas nunca na admiração expansiva de quem, como Franklin Dória e o obscuro escritor deste livro, inclina-se ante o prestígio glorioso de seu nome e a superioridade resplandecente de seu talento. No salão repleto de rosa se fantasias, alentado ao sopro dos cantos dos dias nacionais, o presepe alteia-se majestoso, com suas arcadas vegetais e aromáticas, seu horizonte largo e azul, sua lua transparente e sua estrela legendária. Adiante de uma paisagem sem arte, de arvoredos de pinho pintado, fileiras de casinhas brancas estendem-se, confinando com duas fortificações encimadas por tropas francesas, guarnecidas de peças de ar tilheria, tendo aos ângulos atiradores, que disparam es pingardas e calam baionetas. As ruas são na generalidade pouco populosas, a menos que algumas figuras, fornecidas pela quinquilharia francesa e alemã, não se lobriguem salteadas, mais vulgarmente zuavos e mouros.

Festas e Tradições Populares do Brasil 67 O chão é sulcado de pastagens e espelhos fingindo lagos; sobre es ses lagos patinhos e peixes de vidro, cordeirinhos e cabras, tudo sem nexo, disparatado. À direita estão S. José e a Virgem, que apresenta o Menino aos três reis Magos, seguidos de aldeões e lavadeiras com trouxas de roupa à cabeça, e de pastores tocando gaitas e sanfonas. Pequenos lampiões de gás, repuxos, faróis e moinhos de vento, completam a vista geral dessa cidade, onde a imaginação pouco exigente dos festeiros coloca o berço de Jesus. De instante a instante, os convidados que dançaram e os convidados que chegam, aproximam-se; dos que entram, alguns suspendem as folhagem, que se abraçam no ápice, formando o pórtico do presepe, flores nativas, frutos sazonados, ou depõem na superfície plana dádivas de primor. De repente, um arru far de pandeiros e adufos, um estalar ardente de castanholas, um planger de violões e guitarras, um respirar macio de frautas, caem como uma vaga no feérico recinto, envolvendo numa nuvem sonora o ânimo predisposto da assembléia. Os circunstantes, afastando-se para os lados, deixam um claro à passagem dos figurantes dos bailes pastoris – dramas que, apesar de não serem feitos por poetas de profissão, conservam-se, com a sua melodia musical, nos arquivos orais do povo baiano, por isso que exprimem crenças e sentimentos que primitivamente o embalaram. Sem aviso prévio, como saber-se quantos se representam e suas denominações? Será o Baile da Liberdade, o do Filho Pródigo, o de Um Marujo, o da Lavadeira , o de Cupido, o de Oito Pastores e um Guia?... Será um ou mais, visto como podem executar-se até três, elevando-se o seu número a cinqüenta, com certeza, todos com motivos diferentes, músicas especiais, protagonistas distintos?... E a frauta, preludiando acordes conhecidos, dá sinal de entrada ao Baile das Quatro Partes do Mundo.... Neste auto, como em todos os outros de que temos notícia, o ritmo assemelha-se ao dos salmos e cânticos da liturgia romana, pela

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maneira por que a expressão faz ressaltar as palavras, notando-se deveras a entoação e disposição melódicas apropriadas aos textos. E os pandeiros tinem... As moças, vestidas de branco, chegam-se mais perto; os que conversavam às janelas voltam-se rápidos, e, de costas para a ruas, encruzam os braços, traçam a per na, atentos, calados. Nas praças e nas ruas a multidão passeia tumultuária; nas asas daquele burburinho, daqueles tropéis nas calçadas, o grito imitativo do canto do galo sobe e esvai-se, no meio de algazarras insensatas, de tumultos efêmeros. E os pandeiros arrufam, e a orquestra ensaiada dos bailes é mais estridente... À guisa de prólogo, como preparo do drama, a Europa vai começar a peça. Fantasiada com esmero, sacudindo a poeira da alvorada de seus cabelos louros, parecendo não ter mais de onze anos, uma menina, em terceiro passo de dança, aparece quebrando alternativamente os flancos, inclina-se diante do Menino Deus, desviando-se após, bailando, parando, cantando:
Eu ve nho ado rar con ten te Ao Me ni no Deus nas ci do, Sa cri fi car o meu pe i to Aos seus amo res ren di do.

E virando-se para o presepe e para o auditório, declama graciosa a loa obrigatória.
Europa toda vos rende As grandezas que em si tem, Pois só a vós reconhece Ser um deus e sumo bem.

Respeitando as rubricas, tendo as vestiduras características, corretamente ensaiados os cantos que precedem a recitação das loas, apresentam-se sucessivamente a África, a Ásia e a América que, aos triunfos es pontâneos, cantam e declamam:

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África Como senhora do universo Vos tri bu to hu mi lha ção, As potências de minh’alma De todo o meu co ra ção. Loa África, ter ror do mun do, So ber ba e van glo ri o sa, Para ado rar o Mes si as É hu mil de, é amo ro sa. América Com pro fun da ado ra ção Ado rar ve nho ao Mes si as, Fi lho do Eter no Pa dre E da ben di ta Ma ria. Loa As belaspreciosidades Que em si a Amé ri ca cria, To das vos en tre go, Se nhor, Com gran de za e bi zar ria. Ásia Com hu mil de re ve rên cia Os pés te ve nho be i jar, A minh’alma e o meu cor po Nas tuas mãos en tre gar. Loa Ásia fiel te ofe re ce Todos os seus cabedais, E ma i or ofer ta fa ria Se pos su ís se inda mais.

Depois desta loa, empenha-se um debate entre as Quatro Partes do Mundo, que disputam entre si preferências de lugar, de força, de antiguidade, sabedoria e riqueza, no acolhimento de suas oblações à embaixada de Belém.

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Esse diálogo é de uma simplicidade tocante, de uma religiosidade que faz reviver as flores das crenças mortas da infância, que mirraram-se ao entardecer da vida. As luzes tremem nas vestimentas de penas e veludo, nas pulseiras e nas lentejoulas que faíscam... A melopéia inicia-se agradável, pouco variada, sem estilos corretos... Ao ouvir-se as notas dessa música mo nótona e um tanto solene, essa acentuação de quem tem na garganta o gorjeio de todas as aves, a modo que se sonha, ao balanço quieto da rede, às margens de algum rio das nossas florestas virgens! Os assistentes nem falam; compenetrados da cena que se desenrola esplêndida, parece que contemplam absortos o frontispício cromático da epopéia da Redenção. O dono da casa, com sua roupa de brim branco e gravata encarnada, e a senhora com seu vestido de musselina, lencinho de seda ao pescoço, obsequiosa, folgazã e boa, procuram a companhia das moças e das pessoas mais velhas com as quais distribuem finezas em abundância. As crias de estimação e as mucamas postam-se nos corredores; emoldurados nos caixilhos da alcova fechada, arregalando uns olhos pasmados, comprimindo o nariz chato e a boca vermelha contra o vidro que embaciam com o hálito, os moleques e as negrinhas espiam o espetáculo e somem-se, avistando o senhor. Quase meia-noite, os sinos repicam a miúdo, as igrejas abrem-se aos fiéis, a Missa do Galo não tarda no altar. O povo tumultua... Na varanda, o barulho dos pratos denuncia os pre pa ra ti vos da lauta ceia. O drama das Quatro Partes do Mundo tende à catástrofe. A Ásia, a África e a América, não se conciliando, intervém um árbitro para decidir do pleito. E um personagem de longa túnica cinzenta, decrépito, empunhando uma foice, encaminha-se lento e alquebrado para a cena: – É o Tempo. Seu gesto é grave e a sua palavra enérgica.

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O Tem po (fa lan do) Na que le pon to es con di do Esti ve ou vin do o vos so en fa do, Ásia tem mu i ta ra zão No seu fa lar apres sa do. Eu ro pa, Amé ri ca e África Quem és tu, meu ve lho hon ra do, Que tan to a Ásia de fen des? Tempo Sou o Tem po es tra ga dor. Creio que agora me entendes. Ásia O que for de vosso gosto Su je i to a vos sa von ta de; Pron to es ta mos, haja pois União e amizade. Todos Ago ra for me mos ba i le Das Qu a tro Par tes do Mun do Tempo Eu ala ca i an do a ele Se rei o Tem po ju cun do. Todos Com pra zer, com ale gria, Todos com voz sonora, Tri bu tem hi nos a Je sus, E à Vir gem Nos sa Se nho ra. O Tem po (can tan do) Eu, como o Tem po que sou, Me pros tro mais re ve ren te; Pois nas ces te nes te mun do Para sal va ção da gen te. To dos (can tan do e dan çan do) Re co nhe ço a vós Um Deus das al tu ras, Se nhor do uni ver so E das cri a tu ras.

ao tom dos violões transportados..... E os pastores e lavadeiras... a ouverture do Baile da Lavadeira convida os espectadores do auto anterior para esta segunda representação... uma nuvem de pássaros... nos arregaços da saia curta pequenos topes de flores vicejam mimosos........... modula suave... como um banho de perfumes..... o verso de introdução: Antes que o sol saia Hei de madrugar. emigrava. E nos braços dessas cantilenas adormecera por mais um ano a noite de Natal da minha terra – o lar clássico do individualismo pátrio e das tradições nacionais!........ ... ..... arriando uma gamelinha de roupa.... com as suas dádivas e seus louvores.. etc. que se transforma em um tapete iriado e de vaporosos aromas...... flutuam-lhes ao chapéu de palha fitas estreitas e de colorido vivíssimo.. As pastoras ajustam costumes bonitos e singelos.. descansando num cepo....... tocando em retirada. agitam nodosos cajados... Que belo Me ni no Na lapa cho ran do....... em que a sala esvazia-se.. E correm todos ao recinto deixado.... cantavam... porque a ceia estava servida. às opalescências do amanhecer.... a harmonias ritmadas. Terminando baile.. à voz da a primeira Lavadeira.72 Melo Morais Filho E um estrondo de palmas faz estremecer o salão... a horta de Benta................ como um bando de ciganos..... e uma chuva de flores.. desaparecendo: A bar ra do dia Já vem cla re an do..... Os pastores... que.... inundando o palco.. Nas mar gens do rio Onde eu vou lavar...... do braço de cada uma pende uma cestinha com as oferendas ao Menino..... com trajes no mesmo gosto.. ... que se modificara com acessórios múltiplos: montanhas.. desaba sobre os atores...... Esgotado o intervalo de uma hora.

. só a religião largamente proporciona. . não absorve esse gigante de cem faces. . . . grinaldas de primavera que lhe perfumam e ensombram a fronte nas calmarias da existência. . A política. horizontes que abrem-se em alas. que não morre porque é de uma complexidade que se regenera no tempo. . . esse esquecimento momentâneo das lutas pela vida. . desgraçado. a crença tem para o povo estrelas que o iluminam. . no clima e na ação. . Dos dias de que falamos são sucedâneos aqueles em que a pátria comemora os seus feitos. . que vive porque combate. . . A Véspera de Reis (BAHIA) H á dias no ano em que o povo precisa fazer-se criança. . . relembra as suas glórias. . nos acontecimentos decisivos. . . . Em qualquer dos estados. é ofício de vadios. Essa bem-aventurança popular. . que. Contrariar esta lei. visto como exclusivamente ela algema as dores que as sociedades desencadeiam nas contingências imediatas. . . . . não sendo exercida por individualidades cul minantes. . é torná-lo triste.

na ciência e nas artes. do caldeamento estético que dá o colorido local a costumes que se foram modificando desde a colônia. sopro de inverno prematuro despe-lhe as folhas e a impele para o aniquilamento. mais belas ou menos ridículas do que as que recebemos de Portugal. nem mais nos lembramos. e ficamos sem elas e sem outras que as supram! É que vamos sendo pacificamente reconquistados. que se passa nos templos e nos domicílios. assistamos a uma véspera de Reis em nossa província. desçamos às praças e ruas. diferindo na vida de relação. e o singular . desde os primeiros vagidos da Idade Média. São irmãs quanto à origem. o africano. ressalta o encantamento etnológico. da França e da Bélgica: nesses países. influindo-lhe no progresso. dos bailes pastoris – a poesia popular erudita – e dos salões soberbos. Do modo por que eles contribuíram e se consubstanciam... E a árvore das nossas tradições. que é o elemento nacional. nobilitando-se na antiguidade de seus costumes? Entretanto a Europa conserva e afaga o que possui. entre nós há três: o elemento branco ou português. na poesia.74 Melo Morais Filho Viajamos sete anos e fomos hóspede da Inglaterra. e a resultante de ambos – o mestiço. quanto amor à obra do passado. quanta felicidade às tradições seculares! E serão estas. o interesse de diferenciação entre as festas do Natal no Brasil e congêneres no estrangeiro é enorme. fecundando-lhe as legendas. A véspera de Reis na Bahia é um corolário da noite de Natal. Na Europa há um único fator.. Ainda um instante amparando-a na sua queda. porventura. a feição na cional. que associou-se com desgarre à evolução produzida pelo cristianismo. e observemos o povo que se diverte em ranchos nômadas. perdemos as nossas tradições e as nossas festas. cuja sombra alongava-se por todo o país. e nós nos envergonhamos do que nos honra e define! Dos acontecimentos ensangüentados de nossa história política e dos períodos brilhantes de nossa literatura. presenciemos as cheganças ao ar livre. Da noite de Natal. Para os homens que estudam..

pelo arredondado das formas lascivas. dirigem-se: ao presepe da Lapinha. castanholas que atroam.. Embora prevenidas. – É o tempo das mangas. Levando-lhes talvez vantagem pelas ondulações do andar. às casas conhecidas em que se festeja o Natal. . muitas flores em torno. das músicas e das mulatas! Dessa noite em diante. ao som das frautas e violões. Destoando do concerto magnífico. de negros e pardos que se extremam. que se repre sen ta mais vulgarmente nas humildes e francas habitações dos arrabaldes. Os ranchos. as casas que os têm de receber conservam a porta fechada.Festas e Tradições Populares do Brasil 75 espetáculo do Bumba-meu-boi . chapéu de palha ornado de fitas estreitas e compridas. etc. A partir das oito horas começam a desfilar os primeiros bandos. de vestidos bem feitos e alvos. as crioulas e mulatas acompanham os seus pares. meninos e meninas. nas mãos entreabertas e suspensas. tremendo-lhes o seio por baixo de um nevoeiro de rendas finíssimas. ao compasso da música. matizado e caríssimo. Na Bahia. ros nando toadas africanas. auto incul to. prolongam-se até o carnaval. e fazendo bárbaro rumor com seus instrumentos rudes. ao fogo dos archotes. lá cresce o rancho dos bucumbis. que são negros e ne gras vestidos de penas. os presepes. às vezes. pelos dentes de pérolas em bocas de ônix. leves pandeiros. batem. das cantorias e castanholas. as moças. atirando com negligência o pano da Costa. não obstante os dramas pastoris e as danças estarem em atividade. e se confundem comumente. Dos bucumbis não sabemos o rumo. de chapéus de pastoras. ou tiram Reis à aventura do acaso. Esses ranchos compõem-se de moças e rapazes de distinção. os bailes de pastoras e os descantes de Reis. estalando a chinelinha preta e lustrosa. os cantadores de Reis percorrem a cidade cantando versos de memória e de longa data. Os trajes são simples e iguais: calça. dos cavaquinhos e pandeiros. Mulheres e homens. paletó e colete branco. ou orvalhos matinais nas rosas do amanhecer. ou tocam. precedendo-os na excursão habilíssimos tocadores de serenatas.

no bre gen te. Lá das ban das do Ori en te São che ga dos os três Reis. Que dos céus es tão ca in do Pin gui nhos d’água de flor.. a música preludia o canto. As serranasenfeitadas. à casa em que deve entrar. Do le tar go em que ca ís tes. seguido de coros: Ó de casa. Os man ce bos e os ve lhi nhos. Nes ta no i te tão di to sa É bom que vós não durmais. faça fa vor. Acor dai. Se nho ra dona da casa. To dos.76 Melo Morais Filho Chegando um deles ao ponto convencionado. no bres se nho res. Quer que lhe diga quem é? É um cra vo de ama ran to Com sua açu ce na ao pé. De pra ze res vêm sal tan do.. Ó se nhor dono da casa. Há de vir! Que so mos de lon ge Qu e re mos nos ir. que rompe. . Mande en trar. Das al de i as con du zin do Cor de i ros e man sas re ses. to dos vêm che gan do. Vin de ou vir sim ples can ti gas De gros se i ros cam po ne ses. Inda bem. Vin de ou vir no tí ci as be las Que vos tra zem os pas to res. Por que tão alta ven tu ra Não é jus to que per ca is. Escu tai e ou vi re is.

no Norte. Junto à matriz há um palanque. O Ver bo Hu ma na do Deus de ma ra vi lha. bra vo. o rancho entra. É um largo espaçoso.Festas e Tradições Populares do Brasil 77 Depois destas e de muitas outras trovas clássicas. chulas. Depois que termina a ouverture e serenam as palmas com que o auditório acolhe os artistas. a porta abre-se. o espetáculo principia. as músicas distintamente variadas. são autos de número restrito. Os Marujos e os Mouros intitulam-se os de que temos notícia. com suas escravas e crias. fandangos. em que toma parte certa classe popular de pequena elevação. depois de comer e beber do que se lhes oferece. acompanhado de gestos. . o mestre-escola e as altas influências do lugar conversam sobre eleições. e. Pernambuco e Alagoas. os espectadores. no chão. Enquanto na cidade baila-se e tira-se Reis. sendo o entrecho da composição um combate de abordagem entre cristãos e turcos. E ficam ou seguem. que fumam. As cheganças. entoa novas canções e novos acompanhamentos: Bravo. realmente bonito. de danças bamboleadas. com muitas arandelas. de versos cantados. chegando ao presepe. fincadas aqui e ali. À luz das cabeças de alcatrão. uma espécie de coreto sanefado e agaloado. discutem política geral e local. em bancos e cadeiras. que começam a chegança. O vigário. bra vo! Hoje é quem brilha. em esteiras. tocando peças fáceis. de dimensões desafrontadas. A música entretém o povo em multidão. em remoto povoado executa-se uma chegança. Nesse ínterim o palanque adquire um aspecto atraente e encantador: da caixa desse teatro de improviso vêm ao proscênio Cristãos e Mouros. Na dos Mouros os interlocutores são muitos. o juiz de paz. algumas famílias mais modestas. constantemente reproduzidos por ocasião das festas de Reis na Bahia.

Vai de pres sa na bo ti ca. E logo. Qu an do pego es tou pe ga do. Que sou fi lho do pe ca do. Eu sou como chamechuga . vencido.78 Melo Morais Filho Destaquemos dos Mouros um trecho. e o Padre se aproxima. A essa nossa religião. Laurindo. Eu sou fi lho da Tur quia. fingindo desmaio. Dela não pos so es ca par. Que que ro me con fes sar. Tra ga lá a me di ci na E vê bem como se aplica. correndo em seu auxílio o Contramestre. Con tra mes tre Vide cá. Brigam os dois. me con fes se. Esta fe ri da é mor tal. Rei mou ro Entre gar-me não pre ten do Em meio de tan ta gen te. . vendo-o. rei mou ro. O Piloto dá neste sentido as suas ordens. O Rei mouro. e entoa com graça e malícia: Rei mou ro Se nhor pa dre. dá um tombo. Piloto Entre ga-te. põe-se de joelhos. Te nho fama de va len te. Aqui den tro des ta nau Há um pa dre ca pe lão. cai aos pés do Piloto e canta: Rei mou ro Mande-me cha mar um pa dre. e o Rei mouro.

terras de gado e vaqueiros. as peripécias são animadas. ao clarão dos fogaréus. como assimilação de produto elaborado. retirando-se: Gentes. .. o Rei. Enquanto os atores e o povo dispersam-se em lufa-lufa. Nazaré.. o Vaqueiro e o Amo.Festas e Tradições Populares do Brasil 79 As cenas sucedem-se in teressantes e ins trumentadas. Tirai da véspera de Reis o Bumba-meu-boi. o Tio Mateus. A que todos respondem em coro. Contaram-nos que no Ceará e Piauí. o cortejo do Boi é apropriado.. Se este bre je i ri nho Sabe co man dar. o Bumba-meu-boi e a Burrinha constituem as delícias de núcleos festivos. Este auto de caráter grotesco. a Tia Catarina. entremeado de chulas. No geral. etc. excepcionalmente. e estai certos de que roubareis à noite da festa o que ela tem de mais popular em todo o Norte do Brasil. é extraordinária. é tudo quanto há de mais curioso no tempo de Natal. que tem por protagonista um boi. o Padre. em duas cenas. ó nau fra ga ta. a originalidade desse drama. Rio Vermelho. em Itapajipe. e desempenhado por personagens extravagantes. o Boi dança nas praças públicas. Va mos ado rar Ma ria. da gente de pé rapado. con cluindo-se o auto com esta quadra do Piloto: Piloto Ó nau fra ga ta. Eu vou te perguntar. de diálogos patuscos. o Surjão. e Figuras que dançam. A distribuição da peça é a seguinte: o Boi. e em quase todas as localidades esses espetáculos são dados em casa. que ter ra é aque la. e de mais nosso. Ter ra de tan ta ale gria? É o Lar go de Bon fim. na Bahia e Alagoas. acrescem – o Secretário de Sala. o Doutor. jogam espada e fazem de Coro. O Bumba-meu-boi é o divertimento da canzoada.

tatuado de preto. durante a representação. deixando-a cair. implantada no pescoço curto e um tanto triangular a cabeça pintada. O Boi é um arcabouço feito de lâminas de pinho.. tocando.. partido da boca pintada de vermelho de um cabra. que. o pai de família julga-se feliz.. etc. três ou quatro. trazem na cabeça coroa e capacetes prateados.80 Melo Morais Filho Cada interlocutor tem o vestuário mais esquipático: é uma mascarada. acercado da mulher e da prole. com os competentes chifres. violas e raramente outros instrumentos. que.. que. já de pé no presepe. à flama do candeeiro. adiante do Bumba-meu-boi. Airoso! É o Tio Ma teus. coberto com uma colcha de chita. quebrando os descantes dos alegres pastores. ao balanço da rede.. escutam de uma velha escrava os contos da Madrasta... esconde-se debaixo. Nestas. do Pedro Malazartes. Os lampiões refletem luzes vivas nas ruas extensas.. da Moura Torta. dando com os olhos em um vulto que ergue um archote e descansa ao ombro uma vara de aguilhão. O Rei. como o da locomotiva em distância. as cantigas de Reis correm à porfia e sempre sonoras. parando com estrondo: – Eh!. o Secretário de Sala e as Figuras envergam capa e calção. mostra-se com sua camisinha de cambraia e cajadinho de ouro. De feito. boi!. Essa armação é levada às costas de um indivíduo. e as casas de humilde aparência conservam a porta escancarada até tarde. E. um grito estrídulo. E todos chegam às janelas e às portas. até muito tarde. ao granizo da chama. Outras há em que o Menino Deus. É para as bandas da Boa Viagem. seu Boi galhardamente arranjado. segundo grito fende o espaço. meneiam espadas de pau. de carapuça encarnada: – Eh!. . previne à redondeza da aproximação do rancho. e seu pessoal escolhido e completo. minutos depois passa ele com a sua música tradicional. De súbito. interrompendo as histórias do tempo antigo. prolonga-se nos ares. Na sala.

Se nho ra dona da casa. afinam as violas e cantam: Aqui es tou em vos sa por ta Com fi gu ra de ra po sa. à exceção do Mateus. A família e os vizinhos. fazem roda.Festas e Tradições Populares do Brasil 81 No fim da rua param a uma porta. que acodem pressurosos. Qu e re mos nos ir. Rei É preciso ver se não se acha aqui no nos so re i na do uma peça para alegrar o co ra ção des ta gen te. as violas tinem e o negócio principia: O Se cre tá rio de Sala (dan çan do e can tan do) Oi! Da pra ta e do ouro Se faz o metal! Oi! A sala dos Reis É pra nós fes te jar! Coro Oi! A sala dos Reis É pra nós fes te jar. Bote aze i te na can de ia. que aguardam ordens. vôla. Se que re is abrir.. Mas o dar é grande cousa. Me per doe a con fi an ça De man dar na casa aeia. .. e a casa é invadida pelos foliões. O Rei (sen tan do-se em uma ca de i ra) Ó meu se cre tá rio de sala! Secretário Sou hu mil de para aten der ao vos so cha ma do. A porta abre-se. Abri a por ta. Eu não ve nho pe dir nada. Se cre tá rio Vos sa. acendem-se mais velas.. Que so mos de lon ge. o Boi e o Vaqueiro.. como a man di o ca la va da em nove águas. que está pi au-piau.

ao coro das Figuras. Coro Olha bam ba... vindo sorrateiramente o Tio Mateus ocupar a cadeira do Rei.. Aí. bam bi rá! Se cre tá rio Olha a que rem mal tra tar. Be ne di to. lê. Coro Olha bam ba. bam bi rá! Secretário Na mo ran do o que não viu. Que do mar vi es te. cantam e esgrimem espadas. bam bi rá... em tons acelerados e fortes. Coro Olha bam ba. olha guerra.. e as Figuras entre si... Se cre tá rio Olha fogo. .. bam bi rá! Se cre tá rio Olha o fi lho que não pa re ce.. Se cre tá rio Moça que está na janela. lê. Se cre tá rio Oh! meu S. o Rei com o Secretário.. Coro O di a bo da ne gra Não sou be re mar...82 Melo Morais Filho E o Secretário canta e dança. Coro Lê.. Coro Olha bam ba.. Secretário A ca noa vi rou Lá no fun do do mar..

Coro É pra nos guer re ar. Secretário Olha fogo nas Fi gu ras.. vem cá. Se cre tá rio Olha fogo no mar. Pra com prar uma fita E la çar o meu boi? Guiando o Bumba-meu-boi. Secretário Fogo faz o Se cre tá rio.. que faz as evoluções mais gaiatas. Secretário Olha fogo em nos so Rei. Se cre tá rio Quem me em pres ta um vin tém Que ama nhã dou dois. o Secretário de Sala manda Mateus buscar o Boi. servindo-lhe de guarda de . Finda esta cena. entra o Vaqueiro. gritando: Eh!. a cuja voz obedece o Boi. Estre la! Secretário Está aí o boi.. Mateus dá um pinote.. meu sinhô. Coro Fo gos em ter ra. Coro Fo gos em ter ra. Mateus? Mateus Sim.Festas e Tradições Populares do Brasil 83 Coro Fo gos em ter ra. Coro Fo gos em ter ra.

. Ora. que. aqui no Ma te us. Mateus dá-lhe uma pancada. Va que i ro Se nhor dono da casa. Coro Eh! bum ba! Ma te us Não. Coro Eh! bum ba! Va que i ro Ora. faz cortesia! Coro Eh! bum ba! Va que i ro Ora. dá uma pon ta da. Coro Eh! bum ba! Va que i ro Ora. às gargalhadas e palmas dos circunstantes.. . Ai ro so. e recomeçam: Va que i ro O meu boi mor reu.. ao dono da casa E à se nho ra tam bém. Ora. se nhor. en tra. continuando no seu papel de coro.. Me pa gue o meu boi. Ora. esperneando. e ele revira.84 Melo Morais Filho honra as Figuras. Quem ma tou foi Ma te us. O Vaqueiro assusta-se. encoleriza-se. Va que i ro Ora. erguem e abaixam as espadas. ao compasso da música. quem ma tou foi o dono da casa. marcham. es tro va bonito. brin ca bo ni to! Coro Eh! bum ba! Nisso que o boi dança.

Depois de muito toque e de muito fado. receita e pede a Mateus uma viola. prognostica moléstia grave. terminando o auto pela cantiga de retirada: Oi! Da pra ta e do ouro Se faz o metal! Oi! A vesp’ra de Reis É pra nos fes te jar! . que levanta-se. conduzido por Mateus.Festas e Tradições Populares do Brasil 85 Coro Eh! bum ba! Va que i ro Vá cha mar o dou tor. em um lenço que atiram. examina o Boi. Coro Eh! bum ba! O Doutor chega. dando tempo a que. O Doutor toca e Mateus dança. o Mateus agarra em um menino para com ele dar uma ajuda no Boi. as Figuras recolham o dinheiro.

. veria que o povo tomava parte em todos os acontecimentos da vida nacional. . que. Pitoresco e interessante em suas usanças tradicionais. . . quem perlustrasse aquelas províncias. Benedito no Lagarto (SERGIPE) D e uma curiosidade verdadeiramente rara e deleitável são os costumes do Norte. antecipando-se a um futuro que supõe melhor. . . . A Procissão de S. . a sua fisionomia desenha-se de modo distinto e em relevo próprio o assinala. . . . seu viver o distancia da gente do Sul. quer em sua vida íntima ex terior. ora decadentes. marcando-lhe um lugar saliente e à parte. quem habitasse aquelas cidades e povoados. e ali trans formados segundo condições múltiplas. . . . desprendeu-se do passado. expansivo e inteligente em suas manifestações variadas. Quer se estude aquele povo em suas festas lo cais e religiosas. .. . . . . Assim. . . . . derivados de várias épocas da colônia. arrebatada por outras correntes. . . e aparecia como individualidade representativa no que o país possuía de original e autônomo.

esta festança preliminar era exclusivamente dos negros: vestidos como de costume. dançando e cantando. Esta folia. dançando nas casas. percorria as ruas. etc. consagrado ao Santo e que se achava fincado no Largo do Rosário. Benedito opulentava-se característica. que se fazia anualmente no La garto. em Sergipe. a retirada do mastro. descortinava uma nesga de tela moldurada à antiga. a tradicional festa de S. porém não era menos evidenciado que o entusiasmo geral preferia a devoção de S. Este mastro. Verdade era que um ou outro rancho de pastores. estranho e significativo. ali suspensos outrora como embelezamento e para prêmios. A magna festa tinha por prólogo. a restauração de uma dessas cenas em que se confundiam classes e castas. que ficara do ano antecedente. um ou outro terno da Burrinha. garrafas de vinho. caixas . ficando por conseguinte prejudicado o regozijo das natais e das lapinhas. distanciando-se das demais que conhecemos. fechava o ciclo das janeiras. Na plaga sergipana. no dia 6 de janeiro. ar rancavam do chão o enorme e pesado caibro. e o levavam carregado. constituindo um todo harmônico. naquelas paragens. em torno da igreja e em giro pelas ruas. mas o que é exato é que a festa em questão.. no dia 1º de janeiro. tal a sua pompa. representando a tradição do Natal. deixava flutuar no topo uma bandeira branca com a estampa de S. da Caiporinha.88 Melo Morais Filho A procis são de S. um rancho de mulatas Taieiras e muita gente perfaziam o solene cortejo do mastro. Benedito celebrava-se na graciosa e elegante matriz de Nossa Senhora da Piedade. tal o esplendor absorvente das do Natal e Reis. processionalmente. que recordavam os deliciosos ananases e estimadas frutas. ufanos de seu padroeiro. a procissão de S. dos Marujos. do Bumba-meu-boi. Como que para fazer compensação. Benedito. Benedito. mudar a bandeira e receber frutas. pelos personagens extravagantes que nela figuravam. não procuramos verificar. Qual a causa desse anacronismo no calendário romano da localidade. e logo abaixo meadas de cordéis. Negras trajadas de branco. Benedito para tocar ao seu apogeu. que ia para de novo ser enfeitado. em frente à igreja.

Na Praça da Matriz os preparativos tendiam a concluir-se terminando pela colocação dos copinhos de cores listrando a fachada do templo. à alegria dos foliões e ao canto dos Congos: Meu S. E ao estribilho plangente das Taieiras: Inde ré. Ele ron ca no pe i to!. as Rainhas estrelavam seus mantos roçagantes. Para enfeitar os andores havia mulatas prendadas. que realçava aos raios do sol... a pintura do palanque para o clássico leilão de prendas. Ai! Je sus de Na za ré!. As sagradas imagens passavam. E o festivo mastro no burburinho da multidão. já o povo afluía à igreja. etc.. Os fogueteiros aviavam as encomendas. Ao amanhecer do dia da festa. esquisitos e de colorido vivíssimo das sertanejas. como a verga de um navio nas ondas da tempestade. Ele bebe ga ra pa. que das alturas aguçariam o desejo do povo miúdo. * Até o dia da festa nenhum cuidado atraía mais as famílias do Lagarto do que o objetivo do culto.Festas e Tradições Populares do Brasil 89 de doces. vindo de léguas de distância muitas pessoas para assistir ao pomposo ato. suas cantigas. onde por devoção as adornavam com o maior luxo e riqueza. Na esplanada o olhar entretinha-se no pitoresco dos trajes vistosos.. Be ne di to É san to de pre to. à noite. ré. a disputar-lhes a posse. os Congos e Taieiras ensaiavam suas evoluções. cada qual com sua saia mais espantada. lenço de chita na cabeça. para casas particulares. mucamas escolhidas. . e belo xale azul ou encarnado. o fincamento de estacas para o fogo de artifício.. da molecada infrene. ré. à porfia das danças. se avançava ondulando. Isso durava até à véspera de Reis.

conversando entre si ou com algum habitante do lugar. dos reverentes devotos. que era sempre pregado por afamado orador.. Rompendo a marcha. equilibrado igualmente por qua tro in divíduos que sus ti nham as pontas das cordas. repleto o corpo da igreja. de chapéu de couro ou de palha. que tinha vindo cedo para a festa. apru mava o guião. o povo em penca no adro impacientava-se pelo sermão. S. encaminhava-se com os demais sacerdotes para o altar-mor. alongavam-se filas de cadeiras. No Largo do Rosário. Benedito. como nesta praça. fogueiras armadas que alumiariam a noite com sua chama brilhante. À tarde. começando a cerimônia. A vila em peso. que circulavam a Matriz. e o vigário. Movimento confuso alvoroçava a multidão. festejavam o seu santo. o por ta-estandarte da ir mandade. E num crescendo ia a solenidade.. trazendo cada um o seu registro enrolado e atado de fitas. havia galhardetes. os fiéis enchiam o templo. em amistosa confidência. os foguetes sibilavam flechando o espaço. e lá fora. achava-se presente.90 Melo Morais Filho Os tabaréus. aos encontrões. o deslumbramento religioso. o povaréu formigava nas estradas. ver ga do para trás e olhan do para cima.. negros escravos. A procissão saía. E o sineiro subia à torre. pode-se dizer. as bombas estouravam. descuidosos. paramentado. folhagens.. contentes. com a retirada. . Benedito. a festa da manhã. em que as famílias sentavam-se. para apreciar os festejos e esperar a procissão. desta mesma igreja saía a procissão de S. participava do folguedo: os senhores de engenho abalavam-se de léguas. terminando a missa cantada. felizes! E aos garridos repiques dos sinos. apenas a missa estava no altar. passeavam desconfiados. À porta das casas. dispensados do trabalho. véstia nova e calça de riscado. Ocupadas as tribunas.

com suas coroas douradas. que recolhia cultos e louvores. fantasiadas de rainhas. enlaçadas de fitas e recamadas de miçangas. conduzindo pela mão os anjos primorosamente vestidos. balançando em outro andor. de saiotes e corpinhos com lentejoulas. E as vozes soavam mais fortes. rindo. sucediam-se irmãos da confraria. ao choque surdo de pancadas sem eco. destacava-se em aparatoso andor a imagem de Santo Antônio.Festas e Tradições Populares do Brasil 91 A este grupo precursor. . com tochas acesas. de tamanho natural. à toada popular de conhecidas trovas. caminhavam após. ladeadas de Congos vestidos de branco e com enormes barretinas de linho. E ao som da música. arrastando compridos mantos. As três Ra i nhas A irmandade o seguia com seus anjinhos de asas de seda e escumilha. Logo depois. habilmente caracterizados. avultava aéreo o bonito S.. Benedito. à queda de passos que batiam no chão. E três negras. refletindo-lhes na pedraria dos diademas as luzes das tochas avermelhadas e baças. para o Menino Jesus que trazia deitado nos braços. com os dentinhos de fora..

seguindo o andor. Fo gos em ter ra.. cantando. Que nos sa ra i nha Nos há de ajudar!. repetia o seu canto.92 Melo Morais Filho Em trânsito. Nesta procissão havia andores de comparecimento obrigado. ao calor da peleja. Fo gos no mar. os Congos adiantavam-se no préstito.. infatigável na ação. no renhido combate: Fo gos em ter ra. bem assim o de Santa Ifigênia. E a congada. batendo-se. no manejo das espadas. uma luta travava-se entre as duas alas de negros. que a gente da terra assegurava ter sido parda . digladiando-se com espadas de ferro. que disputavam. e a quem chamavam a Rainha Perpétua. o que acreditamos ser um recurso dos padres para agradar à mestiçagem e encaminhá-la aos deveres do culto. Que nos sa ra i nha Nos há de ajudar!. dando viravoltas e cadenciando os flancos. em diapasão vibrante e bárbaro. Os Con gos E. .. a coroa da que ocupava o centro. Fo gos no mar..

vestidas de sai as brancas entremeadas de rendas. De Nossa Senhora do Rosário o formoso séquito eram as Taieiras. custoso de aparato e deslumbrante de riqueza. e gros sos cordões do mesmo me tal volteavam-lhes.Festas e Tradições Populares do Brasil 93 O efeito dessa luta. era geralmente apreciado. de camisas finíssimas e de elevado preço. ao colo viam-se-lhes trêmulos colares de ouro. compunha-se de faceiras e lindas mulatas. Os preciosos adereços da Virgem faiscavam aos revérberos do sol poente e a prataria brilhava como escudos reluzentes. com elegância e mimo. desde os punhos até ao terço superior. o pesado andor de Nossa Senhora do Rosário aproximava-se. enfeitado de argolões de ouro e lacinhos de fita. Este grupo. um prêmio. os dois antebraços. que nem sempre terminava pela vitória de um dos partidos contendores. uma dádiva em homenagem. . deixando transparecer os seios morenos. Continuando a desfilar o préstito. cabendo ao que conquistava pelas ar mas a régia coroa. regularmente precedido de irmãos de opa e anjinhos. ardentes e lascivos. AsTaieiras Um torço de cassa alvejava-lhes à fronte trigueira. encantador e original.

. . onde o elemento religioso confundia-se com o profano.. Dê-me um coco-d’água Se não vou ao pote!. rudes. Coro Inde ré. Eram os Congos: Fo gos em ter ra. Coro Inde ré. ré... ré. E todas. Be ne di to Não tem mais co roa. girando no ar a sua varinha enfeitada. Se nho ra do Nor te... ré. E adiantada seguia a procissão nas ruas da vila. em coro. quando as Taieiras emudeciam o canto. nas danças saracoteadas. De longe. sensivelmente incultas.. Ai! Je sus de Na za ré!.. Que nos sa ra i nha Nos há de ajudar. ré. Se nho ra do mun do. cantava: Vir gem do Ro sá rio. ao som da música e das canções populares.. nos requebros mais graciosos. respondiam. espalhavam-se outras vozes. Taieira Meu S. acompanhando o andor. Tem uma to a lha Vin da de Lis boa. Fo gos no mar. Ai! Je sus de Na za ré!. ré. cantando também: Inde ré.. Dê-me um coco-d’água Se não vou ao fun do!...94 Melo Morais Filho E uma das Taieiras. Ai! Je sus de Na za ré! Taieira Vir gem do Ro sá rio. vencendo o itinerário estabelecido. ré.

debaixo do qual o vigário da matriz e mais sacerdotes resguardavam a custódia passando por entre a turba genuflexa. está claro. um molecote. Enquanto esta cena movimentada e de tons cromáticos se desdobrava. A imitação. festa estrondosa de algazarra e turbulenta. subia até mais de meio. Atrás. precediam então o pálio. para ganhar um prêmio. e daí o maior entretenimento para aquela ordem de povo. que preferia este aos outros festejos. distintos: o mulherio na frente e em continuação os homens. O mastro. aos assobios. trepava a custo. com as pernas arreganhadas e disfarçando o tombo. indo dançar e cantar em algumas casas. vinham dois grandes grupos separados.Festas e Tradições Populares do Brasil 95 Os irmãos do Santíssimo. de capas vermelhas. o escritor que com tanto zelo cultiva esses assuntos.. às pateadas. e cujo nome resplende solitário no ápice da pirâmide de nossa literatura contemporânea. as matutas olhavam embasbacadas para as rodas de girassóis que ardiam. ao alarido geral. às vaias. no Largo do Rosário uma segunda festa se realizava. Ao anoitecer. no leilão as prendas se apregoavam sortes. a esplanada iluminava. O povo inteiro passeava na praça. e os ranchos de Congos e Taieiras dispersavam-se. cercado de pretos e de gente de pé rapado.. para a fragata que combatia com duas fortalezas. para o barbeiro que amolava a navalha. a procissão se recolhia. na pureza de seus costumes e à sombra de suas tradições religiosas. Disso nos informou Sílvio Romero. e. untado de sebo. escorregava lá de cima. gozava do espetáculo da noite. . durante todo o tempo que a procissão se achava na rua. havia Te Deum . lá estava. divertia-se. era contagiosa. Eis senão quando. a sentar-se no chão. fechando o préstito. Às 10 horas queimava-se esplêndido fogo de artifício.

. . Com o tempo. acrescentou-a . O mesmo não sucede no Brasil que. folheando páginas de uma erudição pedantesca. . elevam-se montanhas. . . foi-nos vedado descobrir. . . tendo para esclarecer-lhes a marcha os fachos de resina e o luzir incendiado da pólvora em detonações fulminantes. Retrogradando. que separam crenças e raças? Essas interrogações formulávamos nós. João P or que pedirmos aos mitos dos astros. . essas festas enriqueceram-se de superstições que desceram de suas religiosas origens. . ao luar que amarelece as crônicas do século XV. onde ainda perdura com suas fórmulas augurais e encantamentos. . . . e do calendário popular em Portugal e no Brasil. João nas ilhas dos Açores. Qual a gênese desse folguedo público nas terras de além-mar. . . . . . . que ajustava por fenômenos solares a comemoração do Precursor evangélico. aceitando o legado na sua castidade primitiva. aos fogos de artifício e rufos de tambores. . de que se tem ocupado a crítica moderna. . . vimos desfilar as primeiras cavalhadas de S. quando entre elas cava-se um abismo. . A Véspera de S. a corporização de lendas cristãs? Por que descobrimos analogias em celebrações divergentes por sua índole. festa litúrgica em toda a cristandade.. . . criou-lhe uma lenda. porém.

de galinhas. emoldurado dos espectros das rosas da nossa primeira mocidade. e do Marquês de Abrantes. do Barão de Meriti. O estrangeirismo. E quase nada nos resta! É. as princesas recomendavam às suas companheiras de in fância que comparecessem bem cedo. Recebiam-se convites dos grandes senhores. e o ampliou em relação ao concurso de novas raças e diversos meios. os pais de família dispunham da lenha para as fogueiras. vestiam de novo a escravatura. lugares havia em que se festejava o Batista do modo mais es trondoso e fidalgo. colocavam sobre a mesa os livros de sorte. o mastro plantado com a boneca. Cristóvão. na ilha do Governador. laranjas e mais frutas. com o mesmo sinal. abrindo uma janela às tradições e a porta à gente antiga. João eram múltiplos os costumados in tróitos.. as chácaras e palacetes. enfeitado com espigas de milho. Entre nós a revolução foi rápida e pertence toda ao passado. . as proximidades do dia. viam-se nas ruas pretos de ganho com cestos carregados de foguetes e fogos de todo gênero. etc. encordoavam-se os violões para os descantes. matavam reses em obséquio aos convidados da corte. preludiavam-se os regozijos da noite desejada.. Para as festas de S. Nos arrabaldes. que nos esmaga. pois. No Rio de Janeiro. de carás e milhos verdes. de tudo.. enfim. às vezes imaginária. Antecipadamente. em Campo Grande. indicava o festejo no sítio. Os fazendeiros despendiam largas somas. em Paquetá.. chamavam a atenção dos vizinhos que propalavam indiscretos os nomes dos donos.. ovos e perus. dos fazendeiros ri quíssimos.98 Melo Morais Filho na parte mítica. Em Inhaúma. que suspenderemos às ruínas da casa paterna mais este quadro que trouxemos da infância. dos convidados. que dizia respeito à folia da noite e aos lautos jantares e ceias que então se davam. Em casa da Baronesa de Sorocaba. comentando a lista. tudo que é nosso vai le vando consigo!. em vários pontos da cidade. no palácio de S. de canas e batatas-doces. da burguesia abastada e do proletário arranjado.

meus netinhos. acomodando as crianças. girassóis. não tardou em comunicar o milagre à Virgem. alastravam as mesas. que. rolando nos dedos as contas do rosário. partiu. indo visitar Santa Isabel. fazendo os deliciosos bolos de S. que trazia a Nosso Senhor Jesus Cristo.. . ar rumando as provisões. que isto sentira.Festas e Tradições Populares do Brasil 99 As rodinhas. esbugalhando os olhos. fitavam-na.. respondeu-lhe. – Conte.. acercavam-se da avó. que. ralando o milho verde e o coco para a canjica. o divino Batista. uma história do princípio do mundo. e os meninos. as moças reuniam-se à luz do candeeiro. buscapés. chuveiros. João. atravancavam as gavetas.. “é que se festeja o santo com mastros e fogueiras. vendo de sua morada uma fumacinha. De par com tudo isto. – Já agora escutem outra. vovó. Nas antevésperas. e as crianças. Santa Isabel. quando nascer vosso filho?’ ‘– Mandarei plantar nesta montanha um mastro com uma boneca e acender em torno uma grande fogueira’. interrompeu um dos ouvintes. rojões. e que a terra estava toda coberta d’água. e uma diversidade enfadonha de fogos. labaredas e o mastro. descendo aos pulos do sofá da sala. cartas de bichas. E as moças. João. meus filhinhos. João Batista. uma vez resolvida. que não tardava a nascer. tremendo com os lábios. foi visitar a sua prima Santa Isabel. se ajoelhara em adoração a Jesus.. Nossa Senhora. as pistolas. “Desde então”. a lenda do Batista e das fogueiras. que. “E de feito: na véspera de S. narrava. sentada numa esteira. as donas de casa atropelavam as escravas. concluiu a boa velha. conte! Tão bonito!!. assim começava: – Vou contar-vos. que também trazia em seu bendito seio a S. Que história tão bonita!. na intimidade do lar. entupiam as mangas de vidro.” – Oh!. bombas. os foguetes. Apenas as duas sagradas primas se avistaram. perguntou-lhe: ‘– Que sinal me dareis. a Mãe de Deus. tem o mesmo motivo e é da mesma data: é do tempo em que nem eu nem vocês sonhávamos de nascer. traques de sete estouros. “Um dia.. exultando.

que eu queria ir brincar na Terra. por que não me disse. acenando com lenços e em alegres vozerias. dando-lhes inteiro crédito gerações que se foram e gerações que ainda existem. Diariamente. um papagaio. Acordando. deixando pender os braços sobre as pernas cruzadas.’” – Sim. atacava-o. eu te direi. os carás e os milhos empilhados . Os que vinham pelo cais da Glória descortinavam o mar sul cado de botes e canoas entrados n’água ao peso dos passageiros. logo após as moças e os rapazes. este lhe perguntou: ‘– Minha mãe. às repercussões do eco. Adiante iam as crianças. e. se S. sorveu um pequeno ronco. tudo se achava ordenado e previsto: a população distribuída. mordia o papel de um foguete. as mucamas. iam os molequinhos com o chapéu-de-sol e a bengala do sinhô-velho. as canas. e. carregando latas de folha com roupa de uso. “Meses depois. acudiu-lhe ela. quando é o meu dia?’ ‘– Dorme. alisando os cachos de cabelos brancos. um escravo ou um rapagão riscava um fósforo.’ E S. Pendurado à proa dos barcos. um cachorrinho de estimação. na noite de S. insistiu: ‘– Minha mãe. por que não disse? retorquiram pesarosos os meninos. encontravam-se aqui e ali grupos de famílias constituindo pequenas tribos.100 Melo Morais Filho E a velhinha. ninando seu bendito filho. emigrando para fora da cidade ou para fora da corte. uma bugiganga qualquer. sentados e de pé. dorme. em gradação oposta. os pretos e pretas idosos. meus netinhos. João descesse do Céu. A estes acompanhavam. Ao amanhecer. quando é o meu dia?’ ‘– O teu dia já passou’. João dormiu. meu filhinho. prosseguindo: – É o resto da história. quando Santa Isabel cantava. – Santa Isabel teve razão. e ouvindo foguetes e vendo fogueiras acesas. leves cestos de junco e embrulhos com objetos pertencentes às sinhás-moças. logo que ele for. os cocos. abriu a boca desdentada. Pedro. depois os pais e os velhões. minha mãe. aprumando-o ao longo do corpo. estourando no alto. um sagüi. que os enchiam. ‘– Ora. as bandejas de fogos sobre os aparadores e cama do quarto de dormir. porém. na retaguarda. o mundo se arrasaria em fogo! Essas tradicionais histórias eram correntes em toda a parte.

na extremidade da flecha. de calça de algodão cortada ao joelho. adquiriam maravilhoso aspecto. e. de camisa branca do mesmo pano e aberta no peito. os combates a pistolas. que estalava minada pelas chamas. que. que estouravam em potes de barro e barricas cobertas. indefluxada rodinha. à proporção dos tiros de cores. João deslumbrava de luzes e viçosas flores. cabeças de alcatrão fumavam rubras nas ruas. e Os dados da Fortuna. e outros livros de sortes. Fazendo singular contraste com esta cena de apoteose teatral. livrando-se. uma mulher embiocada segurava na mão de uma criança. avultava acolá. e elevando-se de uma toalha da cor das neblinas. E uma preta. Os escravos. caíam em gemas fumegantes no chão dos lajedos. Na totalidade das habitações e nas fazendas. Na roça.Festas e Tradições Populares do Brasil 101 na cozinha. fornecidos pelas antigas livrarias Garnier. Apenas escurecia. Às badaladas do aragão. A roda do Destino. sacudindo. serpeando. perseguida. O Cigano. colocados à distância pelos habitantes do quarteirão. o ar mostrava-se marchetado das zonas luminosas das fogueiras que ardiam nos quintais e chácaras. ora o mastro. pregada aos cantos do altar com laços de fita e prateados alfinetes. em fúlgidos estouros. encostando-se a um muro. e os rapazes. ora uma árvore. escutavam-se descargas de cartas de bichas. à rótula de pau da casa térrea. a fogueira abraçava o mastro. ao mesmo tempo que formavam das janelas às calçadas cachoeiras de fogo. e os busca-pés largavam-se atrás dos passantes. as máquinas boiavam no éter úmido e transparente. o trono de S. riam-se a bom rir do expediente das vítimas e das descomposturas consecutivas. rolando. ornado de sanefas caríssimas. rabeando. corria daqui. dos sobrados. pulando. arriando-se com fragor. Ao logo dos caminhos. com estranho e equívoco ruído. batucavam com as escravas à . Fauchon e Laemmert ficavam à escolha dos consultantes de oráculos. e um indivíduo. pontuando iriados as paredes. no ardor do brinquedo. as fogueiras tinham no centro.

na elegante varanda. que faziam guerra a busca-pés facheados na mão calçada de luva de couro. Tatu no mato Com seu gi bão. que atacavam fogos à discrição. roletes de cana assada e bolos de S. craveiros de chuva de ouro. As moças da corte. Os fazendeiros. João. la va de i ra? – Vou la var. Um pé calçado. E eu vou apren der A nadar. mandava servir aos convidados pires de canjica. assando carás e batatas. atenciosa e distinta. e cujas bombas eram lançadas aos arraiais contrários. folgavam no terreiro. dança e canto popular daqueles sertões: Lá vai amor. tirando os do Norte os seus cocos. lá se vai! O amor lá se vai! Pe las pa re des ar ri ba Nin guém vai! À porteira das fazendas e esclarecendo a entrada. suspendiam acima da fronte pistolas de lágrimas. de rodaque de brim e de chapéu-do-chile. que iluminavam. obsequiando os hóspedes. Ou tro no chão. Este João é um? – Será ou não. Foi os olhos mais bo ni tos Que as on das do mar le vou. A fazendeira. as cabeças de alcatrão queimavam toda a noite.102 Melo Morais Filho roda do fogo. manjar. Lá vai amor. lá se vai! O amor lá se vai! Pe las pa re des ar ri ba Nin guém vai! Onde vai. ’Stava na praia escrevendo Qu an do o va por ati rou. .

essas crenças abrigavam-se sem constrangimento. e os moços e moleques. João!. É ocioso dizer que nessas ocasiões confraternizavam-se os coronéis e tenente-coronéis do lugar. grupadas à mesa de jantar. E as fogueiras do terreiro vomitavam grossas labaredas. Não acor do.Festas e Tradições Populares do Brasil 103 com os seus projetis e faíscas. pulando as fogueiras. resvalava. os tetos longínquos das senzalas vazias. todas as forças dos partidos. um pouco antes de meia-noite. aos clarões das fogueiras. verdes canas e tenras espigas. Os negros despejavam nos braseiros carros de milho e carás. as bombas. apareciam no alta daquela atmosfera ígnea. o movimento supersticioso iniciava suas práticas.. as roqueiras estrugiam aos – Viva S. ou de não importa que vila. João! – cujos ecos iam morrer na floresta. Fosse debaixo dos tetos de estuque ou da telha-vã da pobreza. prorrompiam em gargalhadas. as máquinas sumiam-se na noite ou desfaziam-se em gotas de fogo. e as girândolas. Assim. desde o mais influente chefe eleitoral da Formiga até o mestre-escola de Vassouras. sempre executado ao toque fatídico da meia-noite: . Há de ser o teu consorte Mui bre ve. ao brilho decrescente das enormes lavas. De na riz de pal mo e meio. deitavam dados. às predições do destino: Um ve lho tor to e pan çu do. o carro silencioso das superstições nacionais. dentro e fora das grandes cidades.. liam as quadrinhas da sorte. Ao que muitos festejantes respondiam cantando: S. exercendo poderosa influência sobre as mulheres e pessoas simples. ao estampido dos fogos. não! Dê-lhe cra vos e ro sas E man je ri cão! Nessa noite. João ’stá dor min do. abrindo a boca e gritando: – Acorda. se gun do cre io. cujos dogmas consistiam no seguinte. Outras.

com o mesmo aparato e lentejoulado de abusões. Um dos prejuízos mais arraigados entre o povo era que as brasas da fogueira ficavam bentas. não nos importando de ser acoimado de nativismo. e muitas pessoas as guardavam ou enviavam aos parentes ausentes. . João. devia-se ir ao quintal ou terreiro onde houvesse plantado um pé de arruda com flores. se a forma de uma igreja. até S. significava viagem. e quebrava-se dentro do líquido um ovo com a clara e a gema. que são as taças do bem e as fontes da vida. que gozava de propriedades preservativas e miraculosas. Estendia-se no chão uma toalha e acendia-se nas pontas duas velas de cera. obtinha-se o que se desejava. antes do nascer do sol. em louvor de S. João. Por agora fechamos a janela às tradições e nos despedimos saudosos da gente antiga. seria o daquele que lhes estava para marido. sementes essas que ninguém conseguia obter. Antes da meia-noite. às vezes. Esses brinquedos prolongavam-se. por isso que o Diabo era quem naquele momento as recolhia. em cruz. O fim deste sortilégio era aparar as sementes que cairiam à meia-noite. se um caixão. Passava-se. enterro. e ficavam atrás da porta da rua. João. se apareciam os lineamentos de um navio. Aos primeiros raios de sol – porque depois as águas perderiam de sua virtude – to mava-se o banho de S. um copo cheio d’água por sobre a fo gueira. tomavam-se as moças solteiras um bochecho. casamento. era sinal que não chegaria ao outro S. João. De manhã. O primeiro nome de homem que ouvissem pronunciar. e que bebi no seio materno. sentimento sublime que herdei de meu pai. Pedro. De um outro copo. Deixava-se ao sereno uma bacia d’água e ia-se.104 Melo Morais Filho Em louvor de S. acreditando que quem as possuísse viveria mais um ano. que também passava-se na fogueira. mirar o rosto: se o indivíduo não via a sua sombra. plantava-se um alho: se amanhecia grelado. assombrando o indivíduo que ousasse disputá-las.

. na animação feroz. O 2 de Julho (BAHIA) berdade. . . ao disparar da fuzilaria. ao marche-marche dos batalhões. de membros mutilados sob a roda pesada das carretas. . . . . de corcéis que pulam sem dono por sobre montões de cadáveres. . . . uma bandeira flutua em sinistra muralha ou negra fortificação. parecendo. . . . . agita aos quatro ventos o estandarte vitorioso. . quando os terríveis granadeiros do General Madeira já haviam entrechocado no recôncavo de suas armas com as dos exércitos de Labatut. . a quem deve a N ada existe de mais lúgubre do que o frontispício da Li- . lanças e baionetas reluzindo como o olhar do anjo do destino. a vista maravilha-se diante de resistências desesperadas. lá na extrema. . salvando das estâncias da morte o nome e a glória dos bravos. de corpos baleados que se erguem a meio e tombam no chão en sangüentado. tambores despedaçados. . . .. Eis mais ou menos o as pecto ge ral da Bahia. . tendo na mão a espada. até que. . ar vorada pelo vencedor que. . clarins partidos ao toque das investidas. levantar vivas à Pátria e à Liberdade. . Aqui e além. Ao fitá-lo.

No dia 2 de julho de 1823. outros. desenhava-se nas águas da baía. feriam-se lutas titânicas. as padiolas transportavam os sol dados feridos. si nistra como esses monstros que nos oprimem no clima asfixiante dos pesadelos. percebendo-se apenas das ribanceiras o ressono do mar. à uma hora da tarde. frutos e mais provisões.106 Melo Morais Filho campanha da Independência daquela província as fanfarras triunfantes com que entra na História. aos repiques de sinos. a profanação das sagradas imagens eram a senha das tropas vencidas. O saque. trazendo muitos dos soldados pedaços de carne enfiados nas ar mas. O momento chegara em que uma ou outra luz acesa nas bar racas extinguira-se. perseguidos pela esquadra imperial até ao Tejo. aves e caça morta batendo-lhes aos joelhos. em que os baianos conquistavam palmo a palmo o território pátrio ao poderio luso que o disputava. a pilhagem nos templos. Madeira e suas tropas faziam-se de vela. e a esquadra que levaria a seu bordo os lusitanos. em Pirajá. . As sentinelas perdidas atentavam o imprevisto. às aclamações do povo. o exército pacificador. fez a sua entrada na cidade. desceu a noite do 1º de julho sobre a cidade. enquanto os batalhões marchavam humilhados ao cais do embarque. tendo por chefe Lima e Silva. Aos archotes inflamados. ∗ Fúnebre. carregando tardo os vencidos com os seus despojos de destroços. Aproveitando a cinza da densa das trevas. no Cabrito. Às primeiras rutilações do crepúsculo. as carretas ba gagens escoltadas. errantes vultos cresciam va gando nas ruas desertas e saíam cautelosos das casas ermas. vestidos de folhas verdes. pelejas encarniçadas. ao som de hinos mar ciais. o silêncio amordaçara os ecos. porém. por isso que nada encontrariam na cidade faminta e devastada. E em Itaparica. Batalhões havia que marchavam quase nus.

formando o bando. O porta-estandarte ia no centro. ao Imperador.Festas e Tradições Populares do Brasil 107 Quando. Moços da mais alta nomeada. Lima e Silva foi coroado.. trazendo grinaldas para a fronte dos heróis. alteando nos ares profunda e verdejante abóbada. de vintém. só não o foi Labatut – porque se achava preso! Mas a intriga e a perfídia tiveram justa expiação. a Bahia reproduzia anualmente esse epílogo brilhante – a entrada do exército libertador – no dia 2 de julho. chocalhantes guizos. convicta de sua nova soberania. às aclamações que partiam dos sobrados com o per - . Da guerra da Independência apenas dois nomes a Bahia recomendou à memória e figuram nos seus cantos populares: – Labatut e Madeira! ∗ Como comemoração dos seus feitos bélicos. traziam folhas de fumo e café enlaçadas ao chapéu de palha. pendiam-lhes do ombro capelas de viçosas flores. oito dias antes o bando anunciador prevenia a população. ao povo baiano. sustentados nas extremidades pelos sucessivos pares. Para que as festas tivessem mais relevo. que o préstito simbólico aparelhava-se. constituída por arcos de folhas e flores. de cores brasileiras. saíam montados em lindos cavalos. a Labatut e seus generais. soando. Em duas longas filas marchavam dois a dois. aos peitorais de veludo e cabeçadas. todos os generais foram coroados. e as freiras da Soledade desceram. Os cavaleiros vestiam de branco. Aos vivas repetidos ao Dois de Julho. cumprindo aos habitantes da cidade a iluminação e adornos das fachadas de suas casas durante as três noites de pátrio regozijo. etc. que as arcarias triunfais e os palanques vistosos erguer-se-iam na praça do Palácio e no Terreiro com deslumbramentos indizíveis. à Independência. e ostentavam a tiracolo larga fita achamalotada. de crinas e cauda tramadas de fitas verdes e amarelas. por baixo de um arco-de-triunfo desfilava o exército.

cantando quadrinhas patrióticas e em serenatas locais. que tudo franqueava. e folhas das cores nacionais na abotoadura e nos vestidos. aos magotes. Vosso dia de gló ria sem par. tendo como distintivos do dia laços de fita. a qual se incorporava ao cortejo popular. contanto que o deixassem vivo. vindo da Lapinha. prelibando os prazeres da festança. os batalhões patrióticos cruzavam-se com bandas de música.108 Melo Morais Filho fume das flores que caíam. . Na véspera do Dois de Julho. e nos cantos das sacadas de pau ou de ferro. desfilava pelo Terreiro o colossal préstito. que davam salvas vitoriosas à passagem de uma fragata puxada por marinheiros. em tumultos calorosos.. aglomerava-se nas praças. nas esquinas. em razão dos ataques e violências das turbas. À uma hora da tarde. Já vem per to. à meia-noite. a lustrosa passeata distribuía proclamações e poesias. pendiam das janelas globos e lanternas acesas. em que armaram-se em diversos pontos fortalezas. segundo o testemunho de minha mãe. em festivos clamores. e numeroso povo. A crioulada e a mulataria. de que resultavam reprovadas correrias e freqüentes assassinatos. Desde às 6 horas. Nuvem d’ouro pa rou no ho ri zon te. onde a capadoçada infrene embriagava-se. as fortalezas salvavam. o comércio português fechava as portas. o povo. as ruas embandeiradas co axavam de folhas aromáticas. grandes mangas de vidro protegiam as chamas das velas. não escapando dos desvarios populares as tavernas. que ardiam desde o escurecer. ó ba i a nos. desfrutavam a noite. zombando dos direitos do taverneiro amedrontado. os mata-marotos. Nesses dias eram comuns os fecha-fecha.. A começar da véspera. não tar da a ra i ar. Um ano houve. aviventadas pela grande alma da pátria: Vai de novo sur gir. Pode-se assegurar que nesta noite toda a cidade ficava des perta. ao clarão de archotes. levava o carro para a Lapinha. nas ruas por onde passava o cortejo.

as janelas estrondavam de aplausos. tinha as rodas dourados e compreendia uma alegoria: – Paraguaçu calcando aos pés o Despotismo. as famílias debruçavam-se das janelas.. com cestas de flores. sem a mesma pompa. ar mado de galas para a ação de graças. . Quando o carro aparecia. de S. As moças. um pouco retiradas. Apenas as primeiras levas de povo transpunham o Terreiro. o carro triunfal assomava. nem o mesmo séquito. O arcebispo e o cabido. lá estavam no templo. aclamando o Dois de Julho. cantavam as suas trovas de improviso. entesando as cordas com que o rodavam. São mu ra lhas do Bra sil. de vivas. saturadas de ridículo e estrebilhadas de ódios recentes: Labatut ju rou a Pe dro.. os sinos do Colégio. e os patriotas. este carro conduzia uma cabocla com seus adornos selvagens. acercada de caboclinhos igualmente vestidos de penas. puxado por cidadãos vestidos de branco e com chapéus e enfeites característicos. aguardavam.Festas e Tradições Populares do Brasil 109 Ninguém imagina a efusão patriótica dos baianos no maior dia de sua província. De repente. Em épocas primitivas. em que a consciência anônima celebrava a glória dos heróis e a passada luta. de S. pendidos para a frente. E o tumulto crescia. E o préstito avançava. Era ele enorme e pesado. o ar enfumaçado retinia de hinos.. as flores inundavam-lhe o trânsito. Francisco. Nos sos bra ços.. pisando um dragão. de cantos populares. Mais tarde essa cabocla foi substituída por uma figura indígena. estourando prolongadas. as crianças. agitavam lenços. Domingos e da Sé repicavam garridos. é incalculável o grandioso espetáculo oferecido pela raça autêntica dos pelejadores da Liberdade no tablado imorredouro das consagrações pátrias. nos sos pe i tos. as ordens das senhoras. e centenas de girândolas disparavam. o presidente da província e a nobreza. Qu an do lhe be i jou a mão. e as escravas. Bo tar fora da Ba hia Esta mal di ta na ção! Embo ra da Eu ro pa ve nham Ba ta lhões aos mil e mil.

Supondo ser de vitela.. Como vivo simulacro da entrada do exército. o comandante das armas. Irra! Irra!. repetindo em chula: O Ma de i ra que ria Se co ro ar! Bo tou uma sor te. Saiu-lhe um azar! À Cabocla seguiam os batalhões com as feridas ainda não cicatrizadas recebidas nos combates da Independência. Era uma monstruosidade ambulante.. da Lapinha à praça do Palácio. coberta de folhas de café. O Ma de i ra que ria Se co ro ar! Bo tou uma sor te.. puxava uma brigada de patriotas. Só o Paulo foi quem pôde Ti rar do bur ro a ca ve i ra. Para man dar de me ren da Ao seu Ge ne ral Ma de i ra. Esfo lan do um pé de bur ro.110 Melo Morais Filho E mais adiante: O Pa u lo.. . em anos remotos. Irra! Irra!. Ru i vo me xeu o angu. vestido de branco e com chapéu de palha. Ru i vo e Ma de i ra. Todos três numa janela. Pa u lo. O Pa u lo deu a fa ri nha. trazendo mantimentos e frutas para as forças desprovidas. Saiu-lhe um azar! E a crioulada batia palmas. o batalhão Acadêmico dos estudantes de Medicina com os lentes da faculdade e. o carro da bagagem primava pela originalidade.. Ru i vo e Ma de i ra Foram fazer caruru..

A mu lher que não tem ho mem Vive sempre dan do ais. eis Moniz Barreto que ressurge neste dia. Rosendo Moniz no excelente livro em homenagem a seu pai. Foram eles que ajudados Por Deus. Qu an do os man ce bos ju ra ram O que esta le gen da diz. E o veterano. a procissão patriótica parava. assombrado de talento... acompanhando. ainda aquecidos do fogo das bombardas.Festas e Tradições Populares do Brasil 111 Aos tirantes deste ajustava-se gente de toda a casta. e os poetas recitavam os seus versos. ao alarido das vitórias. a cujos cantos as multidões embeveciam-se: Olhai. De distância em distância. engrandecido na brilhante apoteose que lhe preparou o Dr. agitando os chapéus de fitas. do qual foi ele um cantor. depois de ter sido um combatente.. as multidões. alucinadas de júbilo. Povo. Foram eles que na guerra Livraram a vos sa ter ra Do jugo fer re nho e vil. cantando e tirando versos em estilo fácil e gracioso: Vai o car ro da ba ga gem Car re ga do de ana nás. Estes ve lhos que em ba ta lhas Ga nha ram es tas me da lhas . levantando os braços. povo! Re su mi da Aqui vos sa gló ria está. os símbolos preciosos de suas lides e de suas glórias. Estes ve lhos que frus tra ram Tre men dos pla nos hos tis. fascinadas. – Viva o Dois de Julho! – Viva a Independência! – Viva a Bahia! – gritavam.. de ram de no da dos Inde pen dên cia ao Bra sil. Nos vôos de cem côvados de seu gênio de repentista. tangia a sua lira. da re is vos sa vida Aos ve lhos de Pi ra já. extasiado nos festins da pátria.

A estes associou-se. ao Dois de Julho. organizada após a guerra. de Labatut e dos bravos da Independência desvendavam-se. à Bahia. fita encarnada a tiracolo. Hoje mar cham tri un fan tes À fren te de um povo-ir mão. as cortinas rasgavam-se. . das portas e das janelas dos templos disseminados......... para Piedade.. retirando-se a quartéis quando findava a parada.. em seus pa lácios.... libertava míseros cativos – em nome da Liberdade. dos Caixeiros Nacionais. os retratos do Imperador.. Dois de Julho.. e ao batalhão Acadêmico... o palanque principal elevava-se magnificente.... Às oito horas. uma companhia de alemães.. que desfraldava. e a Sociedade da Independência.... com uniforme de grande gala.. como dan tes.. da Imperatriz. bordado a ouro fino..... a fidalguia. Minerva... muitas outras falanges patrióticas... suntuosos bailes. Quando a banda militar tocava o hino nacional. que cedia o lugar de honra ao dos Veteranos da Independência e Couraças Baianos. e o presidente. e o Terreiro regurgitava de gente. tornando-se saliente pelo riquíssimo estandarte.. em data que não nos referiram..... Estes ve lhos.112 Melo Morais Filho Que di zem – Res ta u ra ção –..... veteranos e grandes do Império adiantavam-se e soltavam vivas ao Imperador. etc.... tais como os batalhões dos Defensores da Liberdade. .. A esse solene cortejo. À frente da igreja de S.. a cidade era toda luzes. depois dos festejos. Concluindo o seu triunfante itinerário.. e dos quadros e triângulos ardentes das torres...... a essas pompas antigas. Domingos.. As pessoas abastadas davam jantares. os carro alegóricos fi cavam na praça do Palácio.... de paletó branco. Toda a tropa da guarnição ultimava o séquito. de onde seguiam. no meio de listras de luzes que sulcavam interrompidas a extensão das casas. etc. acrescentou-se posteriormente o carro do Caboclo. generais. logo que estes se apresentaram.

como Luís Gama e José do Patrocínio. Aqui dobremos o joelho diante do túmulo de Chico Santos. o silêncio restabelece-se. o libertador de escravos. e ele. declama nos arroubos do inspirado: . Do luminoso grupo que dominava naqueles tempos. Corretamente vestido. – O seu padrão glo ri o so – Num de va ne io de gozo Chorão de dor e prazer. e a imprensa levava a todo o Brasil as produções de seu estro. Esta cerimônia terminava em lágrimas. Laurindo Mendonça. que afinavam pelo patriotismo os seus cantos e as suas glosas instantâneas. Romualdo. Manuel Pessoa. Um deles. Distingamo-lo. feita pelo sábio e venerando D. para que as não vissem os poetas da liberdade. desatando a palavra vibrante. .Festas e Tradições Populares do Brasil 113 Findo esse ato. da cor dos califas. ninguém há que o desconheça. Luís Álvares dos Santos. Gualberto dos Passos.Sim: as nu vens lá tão cal mas. Sinfrônio. em torno de Moniz Barreto. Rodrigues da Costa e outros improvisadores. tocava a vez dos repentistas inspirados. que fundiam as algemas despedaçadas do cativeiro. todos o admiram. no palanque do Dois de Julho. compassando o auditório antes de começar. chegando-se ao avarandado. São dos guerreiros as almas.. Fortunato Freitas. E ven do o dia pom po so. O povo recebe-o com delírio. Bolívar. batia palmas. E quem eram eles? O povo sabia de cor os seus nomes. Luís Álvares dos Santos. outro mais importante ia ter lugar: a distribuição de cartas de liberdade.. de olhar penetrante e gesto distinto. Que en tre as lú ci das pal mas O Dois de Ju lho vêm ver. o presidente emérito da Sociedade Libertadora Dois de Julho. o presidente e sua comitiva. É o Dr. moviam-se. formando o zodíaco da poesia baiana. Descendo o arcebispo. o abolicionista de inabaláveis convicções.

......... enquanto a turbamulta estacionava nas duas praças e via as luminárias............. E mais poesias se recitavam... os poetas improvisavam entusiasmados..114 Melo Morais Filho Certo: os he róis que mor re ram Na bra va luta... Dos vi vos aos le dos bra vos... As espetáculos de grande gala e aos bailes concorriam a aristocracia e alguns repentistas.... ... ......... Ba nham prantos ma go a dos Lá de lon ge e o seu tro féu... pren de ram As al mas.... O povo dava motes... até horas adiantadas.... que eno bre ce ram..... prolongando-se es ses outeiros por três noites... E nes ta no i te acor da dos. Aos pés de Deus lá no Céu... Mas isso era quando este país tinha o ideal da pátria e combatia pela liberdade..

de quem a Europa assimilou tradições e ritos. parece-nos que a gênesis desse folguedo deve remontar-se às abluções. degenerado na sua índole e na sua feição histórica. e de cuja discussão não viria grande luz a destacar os planos do quadro de costumes. é um costume especial que recebemos da antiga metrópole. . . quando o reino de Pegu. . . constituía além-Ganges estado independente? Adiantando todavia uma reflexão. Do mesmo modo por que se encontram adaptados pelo cristianismo os velhos cerimoniais do Levítico. . . Seria ele importado da Índia nos Açores. . hoje província birmânica. . . . que intentamos descrever. . . . . é possível que daquelas fórmulas purificadoras nascesse o entrudo. . Como quer que seja. imersões e aspersões tão íntimas ao povo judeu. . Q . O Entrudo (BAHIA) ual a origem do entrudo? É esta uma questão de evidência dificultosa. . com toda a sua bagagem de desmandos nocivos e alegres. .. . . . . . pelos navegantes portugueses. .

apreciemos no complexo das cenas invariáveis o que existia de distinto em usanças locais. pelo amestiçamento brasileiro. isto é. grazinavam. faziam economias das mesadas. E em que consiste ele fora da corte. limões naturais de tamanho irregular. no lar doméstico a indústria dos limões-de-cheiro era florescente e prometedora de lucros compensadores. Nesse decurso. Enquanto o exterior da cidade almejava pelo domingo gordo. o anil e o verdete. aos passeios e aos teatros. os preparativos da folia começavam um a dois meses antes. vilas e sertões? Como se fazia na Bahia. Moças e velhas. Os rapazes. para o colorido da massa. as meninas fo lheavam livrinhos de pão-de-ouro. as famílias conhecidas e as pessoas da amizade preveniam-se mutuamente. entregues a descostumado labor. em ponteiros. e as raparigas arranjavam os ta bu le i ros e bandejas. e nas províncias do Sul onde o elemento estrangeiro tem pouco que ver. As fabricantes de laranjinhas espetavam. as moças tomavam de um canivetinho. no chão da sala. é ainda na Bahia que encontramos o tipo menos brutal. O jogo do entrudo. reservando para as laranjinhas o que disputavam ao luxo. em outras capitais. fumava num caburé meio d’água espessa camada de cera fundida. Uma das velhas dispunha o carmim. perdura no seu apogeu em quase todo o Norte. meninas e raparigas. . sobre brasas a miúdo ateadas. Na Bahia. sopravam achas de fogo.116 Melo Morais Filho Dando conta desse divertimento público. a ociosidade era ignorada e os arremessos comuns. quem entrasse. outrora generalizado no país. com que incisavam a delgada película das esferas translúcidas que esfriavam. que iriam em casa “brincar o entrudo”. especialmente os estudantes de medicina. Em volta de um fogareiro. há bons quinze anos? Deixando o trabalho de discriminação do que é geral ao leitor. Naqueles círculos. contavam de um até doze. notaria estranho movimento. que precede os três dias imediatos à quaresma. Em algumas casas.

para ser um enfeite de bom gosto. Uma outra especulação de família eram os sonhos. cravo. servindo de con duto ao líquido um pequeno funil de folha-de-flandres. As mulatas e crioulas importunavam as senhoras-moças. que sempre as exalçou com entusiasmo sentido e generosidade provada. exalava o perfume das flores de laranjeira na madrugada dos vergéis. com os quais as belas iaiás circulavam douradas sopeiras colocadas sobre toalhas de cambraia e de crivo. Um palito fincado em cada um dos sonhos e um pires em que os serviam aos compradores. Sobre uma cadeira havia uma tigela com cera morna. desenvolvia-se o trabalho sucessivo das operárias afanosas..Festas e Tradições Populares do Brasil 117 Logo que a cera estava no ponto. conquistas de seus reservados carinhos ao grosso comércio da terra. cantadeiras afinadas das trovas populares do entrudo. fazia-se mister que tudo fosse condigno – das senhoras e das escravas. a fim de abaixar a fervura. rosas. etc.. À proporção que as laranjinhas ficavam prontas. tirando-as de entre os dedos. que deixava de ser um recurso de arte. No centro destes. que servia para soldar as bandas separadas e embutir o orifício deixado pelo cabo por onde os seguravam. Vendedeiras de limões-de-cheiro. da Cidade Baixa traziam presentes de panos de alacá e cordões de ouro. que continha a calda. e as enfileirando por dúzias. Depois. corais e chinelas –. que forravam os tabuleiros envernizados das crioulas de beca e de pen cas de chaves. pedindo rendas e babados. metiam no lastro oleoso e colorido os limões previamente untados de sabão. trabalho por vezes distribuído com método pelas industriais. revelavam a boa ordem da quitanda e o . E as encomendas choviam. uma rapariga arrastava um tabuleiro para junto da sinhá-velha. encobrindo a saliência resultante com um pouco de pão-de-ouro ou de prata. uma garrafa branca de cristal. enchiam as delicadas cápsulas com águas aromatizadas de essências de canela. que as contava. tapavam-nas. Findo este processo. Retirado do fogo o caburé..

alguma coisa de semelhante a uma briga. iaiá. que batiam nas pedras como o estalo dos bilros nas rendas das almofadas. E os dois saíam.. Em os prelúdios de festa. O crioulo... e uma figura esbelta e graciosa descia uma ladeira cantando: Aí vai. desde muito cedo. uma algazarra infernal.. um crioulo ágil. uma negra risonha e patusca. é de ioiô. Compre. Para en tru dá seu amô. Nas vendas. a negra. E ao compasso acelerado ou tardio das chinelinhas. desviando a um lado uma bacia d’água. Vem com prá à sua negra Pra si nhá não se zangá . e os foliões da ralé formigavam aos balcões. É de iaiá. invadia uma casa. é de ioiô. Compre. os taverneiros recolhiam as amostras penduradas.. está sonhos Fe i tos por mão de si nhá. É de iaiá. Momentos depois. mercando faceira: So nhos.. E a vendedeira de sonhos. empurrando uma rótula. via-se correndo. ouvia-se o baque do líquido. Com suas mãos de li ca das Ba teu ovos e fa ri nha. . aí vai La ran ji nhas de primô .118 Melo Morais Filho gosto artístico das gentis doceiras. ioiô. No domingo de entrudo. cujo capricho retribuíam imediatos proventos. sustendo entre as duas mãos enorme seringa. uma voz feria o ar. Quem qué en tru dá seu amô!. Foi fe i tos por si nha zi nha. es ses so nhos... Quem qué so nhá com seu amô!. fazia pontaria. iaiá. laranjinhas. de uma para outra porta.

Bacias e quartinhas d’água inundavam os passantes. faziam-nas mais diligentes. com parte da cabeça e do rosto empastada de alvaiade e vermelhão. o entrudo tocava ao seu auge. um indivíduo. esvaziando tabuleiros e tabuleiros de acetinados limões. e o polvilho e o vermelhão mascaravam o escravo ou o homem da plebe. en tru de a ioiô. servindo à freguesia. É de iaiá. Depois as duas horas. e raros projetis. com chapéu de sol aberto. – Eram os pretos e pretas velhas. juntando as pernas e aos pulinhos. E a mulata cantava: Quem en tru da seu amô É si nal de in ti mi da de. que seguia seu caminho. entravam por uma janela. implorava aborrecido: – Não joguem!.. partiam um vidro.Festas e Tradições Populares do Brasil 119 E muitos psius! repetidos das janelas. choramingavam até obter o necessário para comprá-los. em que sentavam à força pessoas da convivência ou os in ca u tos que agar ra vam.. Surpreendido por turbulentos que o perseguiam às gargalhadas. é de ioiô. E os meninos. que os tornavam irrisórios. que travava-se depois do jantar. seduzidos pelas pregoeiras dos sonhos.. Descomposturas e vaias estrondavam em outros lugares. as gamelas transbordavam d’água límpida e cheirosa. Para lhe ter amizade. que o desconcertavam. das quatro para as cinco horas. Iaiá.. não posso me molhar. que estou doente! Era frase era correspondida por uma saraivada de laranjinhas e esguichos. Durante os três dias. E todos preveniam-se para o combate. vibrados à distância. . Quem qué en tru dá seu amô!. resvalavam numa porta. o folguedo crescia. protegendo-se dos limões e seringas. Nas casas de gente pobre. que se debatiam nas esquinas ou nos chafarizes. As moças mudavam de vestido.

desfolhavam-se matizadas como ramalhetes de flores e aromas úmidos. sobre o busto correto e faceiro das jogadeiras de entrudo. sucedia a quietação exigida pela fadiga e cuidados aos feridos. e ria a mais não poder. as imersões do estilo tornavam-se inevitáveis. a essa alarma. A essa bacanal asiática jamais faltaram desastres e acontecimentos fatais. recrutado de improviso para o banho. e o brinquedo rompia. no fervor da contenda. trocavam-se a furto idílios de amor. Um projetil. isto é. Então. nos chafarizes. quebrando-se na parede. Acompanhava-o a mulata das laranjinhas. barafustavam pelo salão. acossado por tiroteios incessantes. do povo baixo. que não as mercava. quebravam-se. despejava bacias d’água. ninguém as ofendia. porque ele as comprara todas. nas ruas. as vendedeiras de limões eram os embaixadores incólumes dos partidos beligerantes. os namorados encontravam-se. atropelando-se nas escadas com balainhos de laranjinhas. As hostilidades declaravam-se. sibilando nos ares. e a essa luta. Nesses dias. a sua alma. tatuava-se de vermelhão e polvilho. batendo no alto. um estandarte dirigia-se à casa onde morava o seu coração. o vizinho ou o desconhecido. as moças procuravam o peito engomado da camisa daqueles que as impressionavam. chegando às janelas. E – coisa singular! – nas guerras do entrudo. Ninguém as molhava. limões e águas cheirosas prodigalizavam-se em dilúvios. frente a frente. Ensopado d’água. esborrachava-se dentro do arraial contrário.120 Melo Morais Filho As famílias. Os rapazes atiravam para o seio das moças bonitas que lhes deslumbravam os sentidos. batiam-se. pediam licença. um rancho de moças e rapazes. E as laranjinhas. ou de um futuro noivo. . Os incidentes que realizavam a prevenção de “ir brincar o entrudo” não arrefeciam o frenesi das demais famílias que dos sobrados. No calor da ação. e alguns casamentos ajustavam-se. aos que se haviam machucado no conflito. vendo saltar da gamela que se entornava. que nas praças.

es pécie de mascarada africana. objetos estragados.Festas e Tradições Populares do Brasil 121 Ao anoitecer. Na manhã de quarta-feira. os Cacumbis. batendo com os punhos em rudes zabumbas. há longos anos. o olhar sonolento dos foliões contemplava fragmentos amontoados de cera. um hino das suas festas e o som de uma daquelas cantigas que outrora alvoroçaram a nossa alma infantil.. E a Razão. tocando marimbas.. marcava com uma cruz de cinzas as fontes em palidecidas pelos desvarios da véspera.. e brincava-se na Bahia. adiantando-se penitente por entre ruínas. E assim perdura o entrudo em várias províncias do Brasil.. agitando chocalhos. . dançavam e cantavam em bárbara passeata. de onde os ecos não nos trazem. destroços de móveis.

. desde o primeiro instante de nossa separação política. . e aquela frase tornou-se um ardente manifesto de patriotismo e de luta. . . foi um grito de amor e um grito de guerra. . seguindo eles o caminho das dissensões. a história daquele período não recolhe sem jaça a preciosa gema. é o que os fatos parecem negar. . . que impunham novos vexames à colônia. Na cristalização do pensamento pátrio. . do cárcere e da forca. por isso que a intriga e as ambições anuviam-lhe por instantes o brilho da superfície. às margens do Ipiranga. . Se o País. que logo após se vira deserto de seus persistentes obreiros. . . . . foi o facho que ateou o incêndio no edifício em construção da nossa nacionalidade nascente. . do exílio. . . achava-se em estado de ser livre. proferido na tarde de 7 de setembro de 1822. . alevantando o ânimo do fogoso príncipe. O 7 de Setembro O grito de “Independência ou Morte”. . que então começava a organizar-se. . . . O primeiro imperador havia recebido em viagem para Santos cartas e ofícios das Cortes lusitanas. .. . . . A violenta correspondência da metrópole.

mais tarde em três: liberais puros. os realistas. mas debaixo de suas rodas a árvore da liberdade devia fanar-se. na efervescência de ânimos que não fez disparar uma peça. isto é. A Bahia arma a sedição militar de 25 de outubro de 1824. entre uma comitiva e uma guarda de honra sem adversários. para se hostilizarem. que se haviam empenhado pela independência. o anarquizaram. inquietando por toda a parte o espírito público. como senha de combate. não correspondeu ao sentido imediato que lhe anunciavam as palavras. A proclamação do Ipiranga. ar vorando à uma o estandarte das perseguições e da intriga. que foi pequeno para conter o túmulo de um pelejador. É nessa época sobretudo que as idéias revolucionárias fazem ato de presença em nossa história. o que combatia pela união do Brasil com a metrópole. Os Andradas são de portados. que foram para o Sul. Por esse tempo de sucessos extraordinários. Os patriotas. e o país sente nos músculos o calefrio precursor das horas funestas. E os facciosos medravam sempre. A Assembléia Constituinte dissolve-se. e o que trabalhava em sentido contrário. e Pernambuco estortega-se nos braços de ferro da revolução que trazia como dístico do seu estandarte – a República do Equador. dois partidos sobretudo dividiam o País: o que queria a separação absoluta e definitiva de Portugal. à míngua do sangue que fecunda as tradições de valor. À beira de um riacho. realistas e republicanos. Depois do golpe de Estado da Constituinte. os que seguiram para o Norte. fez rolar o carro dos acon tecimentos fatais. que oscilava entre as forças que se debatiam. no mês de junho de 1822. o esboço de um herói. A anarquia entrega nas mãos dos dissidentes o archote aceso das rebeliões. Pedro I. liberais e republicanos. e figura como uma página a que emprestaram sombrio colorido as conflagrações políticas e o batismo dos mártires.124 Melo Morais Filho D. . dividem-se em dois partidos. promoveram a perda da Cisplatina. o brado da independência ressoa no primeiro Reinado como um eco afetivo de uma grande alma.

que equivalia a antecipado triunfo. que sofreu. Alfieri. os ódios concentrados. é verdade. Os separatistas. e os terceiros que se dividisse o Brasil em estados federados. mas os primeiros com uma monarquia absoluta. Todos queriam a independência. de que era laureado tradutor o engenheiro Dr. . formando um cisma. ∗ Há quase trinta anos. o gênio dramático de mais altura que nos tem sido dado admirar no Brasil e na Europa. etc. Entretanto. cujas manifestações expandiam-se sob as formas da arte. Daí as perturbações intempestivas. Subdividiram-se em absolutistas. com bandeiras diversas.Festas e Tradições Populares do Brasil 125 Aquele tinha o prestígio da opinião generalizada. que não era precedido do juiz. Ninguém havia dentre o povo que não se ensoberbecesse da idéia que regia o regozijo geral.. Dessas tragédias. os lagos de sangue atravessados pelo carrasco. a escolhida para a noite patriótica montava-se com aparato e rigor decorativo. porque compreendia o direito de liberdade!. Antô nio de Araújo. o grito de Independência ou Morte. que fizera desabar as muralhas seculares do Brasil colônia. E bem memorável foi aquela geração. Em certos dias. nem representava um instrumento da lei. sairão de seu primitivo grêmio. constitucionais e democráticos. Vicenzo Monti. João Caetano. as festas de um povo nada mais são do que a romaria da posteridade às tradições que ficaram no passado. que comparticipavam dos festejos. lutou e morreu. E o 7 de Setembro nos exemplifica o dizer. No teatro de S. nas pompas decorativas e no entusiasmo patriótico dos cidadãos. Racine. os segundos com uma constituição liberal. ensaiava tragédias de Shakespeare. é a mais bela inscrição la vrada por um príncipe no frontispício de uma nacionalidade. as festas do aniversário da independência e do império eram estrondosas e possuíam o relevo das consagrações populares.. isoladamente ou em coletividades. Pedro.

que. Bandos de meninas vestidas . associando-se às alegrias do dia da pátria. onde não era raro ver-se bandas de música de navios estrangeiros surtos no porto tocarem. ao Impe rador e a José Bonifácio. Laurindo. irrompiam das turbas. Nos largos do Rocio. em que João Caetano maravilhou o monarca e o escolhido auditório que concorria às suas récitas. e as janelas com arandelas. ou os declamavam ao som do hino nacional. os tradicionais coretos concluíam-se. às portas da Petalógica. e a alma nacional fervia jubilosa nas abstrações épicas. que nobilitam povos e raças. do Capim e de S. da Loja do Canto e em frente à tipografia de Paula Brito. José Antônio e Machado de Assis compunham cantos inspirado pelo amor da pátria. agitavam no ar o chapéu. Às primeiras salvas das fortalezas do mar. Foi assim que em 7 de setembro de 185. Os coros para o romper d’alva estavam habilmente ensaiados. Os mais notáveis poetas daquela quadra. e as girândolas estouravam intermitentes. os vivas à Independência. Dias. que o entusiasmo tornava-se uma conseqüência fácil e natural. pingando de fogo as trevas. Entre a população e os diretores dos patrióticos festejos havia tal correlação de simpatia. os publicavam em jornais e revistas. A partir da véspera.. as multidões seguiam em várias direções. G. Teixeira e Sousa. o que se tornava para ele poderoso incentivo e uma ordem a cumprir. descobertas. As sociedades de música. com seu pessoal seleto e alentado de nacionalismo. As sociedades Ipiranga e Sete de Setembro achavam-se a postos.126 Melo Morais Filho Por vezes o Imperador mostrava desejos de ver o célebre ar tista fluminense nesta ou naquela. o caminho que vai do Rocio Pequeno ao Paço da Cidade enfeitava-se todo: as ruas com arcarias e folhas de mangueira. representou-se o Aristodemo. Os salões dos bailes pareciam a morada dos sonhos. Porto Alegre. globos e castiçais acesos por dentro das vidraças. levantando os braços. logo que a madrugada espreguiçava-se no horizonte. Joaquim Norberto. Domingos. que se dissipavam. Constantino Gomes de Sousa. as bandas militares. tais como Magalhães. e os recitavam no teatro..

acompanhavam correndo o carro que seguia. subia ao altar. e por último. à varanda. cônegos e outros sacerdotes. sanefas e guarnições revestiam as portadas. depois por batalhões. estavam a família imperial e os nobres da corte. o reverendo bispo. Depois das evoluções e descargas da lei. que. com grinaldas e fitas de cores nacionais.Festas e Tradições Populares do Brasil 127 de branco. Cristóvão. as iluminações das praças e dos edifícios públicos. como para o funeral dos fantasmas da glória! Apenas Sua Majestade sentava-se no docel do templo. Das janelas então desdobravam-se colchas de damasco. e a festa das consagrações póstumas começava a celebrar-se. e os clarins reluzentes pendiam das colunas dessas praças d’armas. o seu coche de gala era ladeado de arqueiros. reuniam-se: primeiro os guardas por companhias. Nas arrecadações da Guarda Nacional as armas espelhavam. cada qual colocava em suas armas e barretinas folhas simbólicas do grande dia. acercado de monsenhores. sem quebra de disciplina. que oficiava. as tropas desfilavam em continência pela frente do paço. baionetas e bandeiras. tocando suas músicas admiráveis. grupos de paisanos as invadiam. de composição de Pedro I. que arregimentava toda a tropa de linha e a guarda nacional. desciam a ocupar o Largo do Paço. os bailes. onde. a pé. Avisados por toques de cornetas nas esquinas. os poetas da Petalógica tangiam as suas liras. o patriotismo transformava o soldado em cidadão. Concluído o Te Deum. havia cor tejo. vestida com seu fardamento novo. E as salvas ecoavam a intervalos no mar e em terra. incorporados em brigadas. e o brilhante Te Deum. e depois a parada. machadinhas e tambores. cantavam em coretos o hino de Pedro I. as músicas e os hinos . Do Rocio Pequeno até a Capela Imperial. Incandescentes no amor da nacionalidade. em que se viam em ordem espingardas e espadas. E a Guarda Nacional lá estava formada. que iam postar-se no Campo da Aclamação. Às 11 horas o Imperador vinha de S. À noite. das ruas e das casas particulares. executava-se sem demora.

na parte fronteira à estátua do fundador do império. em cena aberta. tra jando casaca e calça preta. nessas .. ao que a platéia erguia-se dando os vivas da ocasião. e João Caetano elevava os seus louros a regiões inacessíveis talvez ao alcance de um século. saudava com uma salva real o acontecimento mais definitivo da nossa história. Com o fim de igualmente celebrar este aniversário. até poucos anos. que ainda conservava o vestígio da fé antiga. Os poetas batiam palmas. a companhia do gás tomava à sua conta o dispêndio com os quatro grandes candelabros. Quando descerravam-se as cortinas de seu camarote. a or questra executava o hino nacional. para recitar as suas poesias congratulatórias. ao clarão da alvorada. sendo seu presidente o benemérito cidadão e notável arquiteto Bitencourt da Silva. o Imperador chegava ao teatro de S.. e. à uma hora da tarde e às seis da noite. que foi a liquidação final do patriotismo brasileiro.128 Melo Morais Filho patrióticos embeveciam esta população. os alunos e alunas do Conservatório de Música e do Liceu de Artes e Ofícios. Às 8 horas. onde bandas de música tocavam nas noites de 7 e 8. um parque de artilharia. nas idéias e no futuro. rica e caracteristicamente vestida. A seu convite e solicitude. A estátua pernoitava iluminada. Ainda muito depois da guerra do Paraguai. colete e gravata branca. o governo imperial determinava que estanciasse no morro de Santo Antônio. ao alvorecer. o alferes Américo Rodrigues Gamboa fundou. ostentando a tiracolo uma larga fita verde e amarela. a 12 de outubro de 1869. formavam o coro do hino da independência. cantar. que. e os artistas. os espetáculos comemorativos e as festas públicas realizavam-se como na primitiva. Em seguida. E o espetáculo começava. subia o pano. cantado por uma atriz. a Sociedade Comemorativa da Independência e do Império. que teve a sua sede no Liceu de Artes e Ofícios. as paradas. iam. Pedro para assistir ao espetáculo de grande gala. Esta sociedade mandava construir no Rocio dois simulacros de fortificações. o Te Deum.

precedidos da multidão que os aplaudia. tortura a consciência bastarda de seus filhos... . o hino da independência.. que. Porém.. no dia de hoje. que esquecem as suas traições e entregam ao estrangeiro as terras da pátria! Como é fria e implacável a vingança dos mortos!.Festas e Tradições Populares do Brasil 129 construções de mo mento. silêncio! Não ouvis aquela salva? É a voz dos patriotas mortos.

acima do nicho da excelsa padroeira. esse templo tem passado por modificações diversas. . . destacam-se N . como pre tendem al guns cronistas. sendo todavia respeitados os símbolos religiosos. . . pelo Padre Mi guel de Araújo. . . . que nos permitem cor rigir a história co tejando a lenda. . Posteriormente reedificada. . . . que. A Festa da Penha (RIO DE JANEIRO) a obscuridade mais densa dos tempos coloniais ani nha-se a fundação da primitiva ermida de Nossa Senhora da Penha. . . Por menos indagador que seja o peregrino ou devoto que transpuser o limiar daquela igreja. impressionar-se à vista de uma grande cobra e de um lagarto esculpidos. da cidade e dos subúrbios. . dominava parte da baía do Rio de Janeiro.. da altura de seus trezentos e sessenta e cinco degraus. . mas não fundada. . talhados no granito. erguendo o olhar ao altar-mor. . que. . . . . . . há de forçosamente. .

deixando livre do perigo o infeliz para quem a morte seria inevitável. que. em busca de caça. o caçador erigiu na crista do rochedo a ermida votiva a Nossa Senhora da Penha. foi surpreendido por uma cobra gigantesca. dobrando o joelho na terra. com um colorido de bronze e um relevo natural. roncando feroz e desenrolando-se no espaço.’ “No mesmo instante um lagarto indolente. por antonomásia João Cangulo.” . que se resume numa história simples e selvagem.. E assim recolhemos da tradição oral a lenda da fundação da ermida de Nossa Senhora da Penha. o afugenta.132 Melo Morais Filho no muro alvo da capela. “Desperto como de um pesadelo.. lívido de terror. interrogando a antigos habitantes do lugar sobre aquela estranha reprodução da arte. arrepiam-se-lhe os cabelos. de perfeito acordo com o cenário bárbaro que nos cercava e com os animais bizarros que figurou o artista. salta de uma pedra. referiu-nos o que de seus pais ouvira a respeito. E isso nos aconteceu: o que conduziu-nos a pesquisas diretas. erguendo as mãos súplices ao céu. a arma lhe cai e ele. e açoutando com a cauda de ferro o reptil medonho. ho mem de oitenta anos presumíveis. ameaçava de vorá-lo. que aquecia ao sol a cabeça chata. prestando apoio às suas palavras não só um negro de barbas e cabelos brancos com quem estava. vindo todos os anos em contrita romaria oferecer à sagrada imagem o tributo de suas dádivas e o eco de seus louvores. ousado caçador que batia aquelas matas. exclama num brado saído d’alma: ‘– Valha-me Nossa Senhora da Penha!. reconhecendo que fora salvo por estupendo milagre. tomado de espanto. porém outras pessoas da redondeza. suor viscoso poreja-lhe a fronte. O mais velho dentre eles. ali nascido e criado. Eis a lenda: “Em tempos que lá vão distantes.

A festa e a peregrinação tinham seus preâmbulos. formando-se muitas ve zes gru pos em se parado no arraial – já de portugueses entre si. de homens e mulheres destinados a trabalhos rudes. seus comemorativos.Festas e Tradições Populares do Brasil 133 Nas romarias da Penha o elemento pre do minante foi sempre o português. Com os repiques das novenas anunciavam-se os preparativos. Basta especificar a classe que fornecia os romeiros do primeiro plano para compreender-se que as profanações e os desvios não marcavam as intenções religiosas. Os brasileiros da localidade ou de pontos mais afastados associavam-se em parte aos folguedos. aparelhavam . cortavam longas varas. viam-se pelo mato lenhadores que. A romaria da Penha era estrepitosa e alegre. o aparato. a verdadeira característica (e por isso tem durado) não nos pertenciam. que ficavam intactas. dando margem a estabelecer-se semelhanças com as nossas ou palpitantes diferenciações. o entusiasmo. O que cumpre acentuar é que a iniciativa. A essas peregrinações anuais concorria apenas uma certa classe de portugueses incultos. Antes mesmo. o que não impedia de ser a festa popular da mais útil e opu Ro me i ros em mar cha lenta das nossas colônias. contribuíam para o culto. notando-se porém que os foliões aqui eram na generalidade filhos do continente. por mando dos festeiros. Desde o período colonial até hoje. despiam-lhes as folhas. a tradição tem sido mantida como uma re cordação das festas congêneres da antiga metrópole. já de nacionais.

trabalhava-se sem trégua. as velas e painéis votivos que a gente da redondeza trazia nas vésperas do dia solene. De nove dias.134 Melo Morais Filho para o fabrico das tendas e barracas. o garrido templo enfeitava-se com esplendor. No arraial. era lavado em toda a sua extensão para realizarem-se promessas. porém. que obtinham as chaves por valiosos empenhos. paus de bandeira e galhardetes. de ouro e de prata. Foliões Na sacristia da formosa igreja o sacristão andava numa roda viva. sem descanso. à esquerda da escadaria de pedra. Como por encanto o pitoresco ar raial transformava-se. cuja fama tradicional aumentava-lhe a influência. já colocando em seus devidos lugares os milagres de cera. com antecedência. habituais aos festejos. e as casas dos romeiros. co meçavam a receber trastes e objetos dos alugadores múltiplos. já atendendo aos portadores de promessas. Corria daqui para acolá. debaixo das copadas mangueiras do terreiro e ao longo . era que tudo se dispunha. se aprontava com a urgência precisa e o capricho reclamado pela pomposa romaria. As barracas de co midas e bebidas como que brotavam da terra. de sol a sol. surgiam umas após outras.

em Meriti. Bandeiras. crescia na estrada. abundantíssimas na localidade. os pequenos lavradores e os escravos suspiravam pela função. galhardetes. do teto balançavam escolhidas amostras dos gêneros em que negociavam. porta-girândolas.. De vez em quando. ao passo que outros preparativos para a romaria executavam-se na cidade e nas povoações circunvizinhas ou remotas. em Campo Grande.. Em Inhaúma. de deformados e infelizes. Unido ao espírito altamente religioso. indo render graças à Senhora da Penha. navios escapos ao naufrágio e centenas de outros prodígios lá estão para atestar que a ciência humana não vale uma sombra de confiança na misericórdia divina!. mulheres e crianças. Quantos quadros representando curas milagrosas. . do peri go e do infortúnio. cheios de fé subiam de joelhos a escada estreita e aspérrima da Penha. o elemento popular entrava em cena do modo mais franco e significativo. ocupando o lugar de honra as saborosas melancias. arandelas e copinhos de cores contornando as árvores. na Pavuna... magníficas frutas. estendendo-se ao alto da entrada vistosos dísticos. Adornadas de bambinelas. À missa do domingo que precedia a romaria. cobertas de aniagem. na ilha do Governador.. porque lhes trouxera a serenidade nos sofrimentos e o remédio a seus males. E eram tantos os que deixavam uma lembrança palpável de seu extraordinário poder!. cada um com a sua oferenda. os fazendeiros e suas famílias. vindo trazer às barracas vinhos e comestíveis.. A igreja demorava aberta dias inteiros. povoando por longos dias os degraus de pedra que conduziam à casa de Deus. em Irajá. um molecote ou um preto velho. troféus. dando ao espetáculo um aspecto magnífico e sem igual nas demais festas. era o que se via com profusão pasmosa. guiando um carro de bois. Era belo de ver-se a piedade daqueles tempos. escudos de papelão pintado. que serviam de réclame ao povo miúdo. cumprindo sagrados votos feitos à miraculosa Virgem nas horas aflitas da moléstia. comovia até às lágrimas aquela procissão de escravos e senhores. etc.Festas e Tradições Populares do Brasil 135 da estrada. enfeitadas de folhas verdes.. homens.

Na cidade. desembarcavam inúmeras pessoas da ci dade. iluminados a fachada e o gradil do mirante circular. os vivas e a fogueira feriam o éter sonoro de cantigas. trazer promessas. refletindo na calva da rocha borboletas de luz. em Maria Angu e Fa zenda Grande. tirando das arcas as arrecadas de ouro. cada qual mais original e interessante. que escovavam. lustrosas cavalgatas trotavam largo. Desde a véspera o movimento local fazia-se notar. ferrados e tratados. e à noite a igrejinha em bandeirada. só se via espectadores atentos ao desfilar dos ro meiros. na rede dos caminhos.. Viva a Penha!.136 Melo Morais Filho Os pescadores amarravam à praia as suas canoas e faluas. especialmente. Nas estradas de rodagem. gente enfim para assistir à festa. As Marias e os Manés esqueciam-se das tinas de roupa e das carroças. os lanchões e os barcos a vapor achavam-se designados e os lindos cavalos de sela. carros de bois rangiam.. em carroções e andorinhas tirados a duas parelhas. especialmente da portuguesada festiva que seguia a corte em carruagens enfeitadas. divertir-se. caminheiros sem conta marchavam fatigados. No Pedregulho e nas ruas mais próximas à passagem obrigada aos sítios da Penha. avultava a léguas. Da varanda aérea do templo o mais belo panorama desdobrava-se às vistas do espectador maravilhado. e os uniformes brancos. os fo guetes estouravam de instante a instante. suarentos e empoeirados. que estendiam sobre cadeiras ou penduravam nas cordas para arejar. pois a variedade das cenas não tinha termo. No mar as canoas e embarcações ligeiras desfloravam garbosas as ondas tranqüilas. as casas dos romeiros estavam repletas. logo ao amanhecer. . os remos espelhavam ao sol rompendo d’água. as vilas e cortiços andavam numa dobadoura.. ao alarido dos romeiros que sal tavam em terra. em cavalos magros e de aluguel. No almejado dia. Chegavam à Penha famílias da roça. – Viva a Penha!. Com uma abóbada de esteiras novas os carros de bois des cansavam nos terreiros o varal e a canga. aguardavam o momento da viagem à Penha. turbilhões de roceiros tafulos. e os lenços brancos agitavam-se de uma para outra banda.. conduzindo famílias. e os moleques e meninos brincavam ensaiando-se para a jornada. pousadas ou alígeras.

Ó meu san to de padrão. com os animais enfeitados de rosas de pano na cabeçada. verdejante de folhagens. e o fadinho ou a caninha verde faziam-se ouvir. Por amor de uma me ni na Fui cair no alçapão. crescendo de todo o corpo. davam o tom a descantes pátrios. violas e pandeiros acompanhando trovas populares. muitos outros carros. E os foliões. no braço enfiavam as clássicas roscas da romagem. Di zei-me. guarnecida de apanhados de fazenda de cores. e as suas companheiras igualmente. vestidos de branco. Fui-me ao Porto. arrebatadas pela velocidade e juntando as mãos à boca. mi nha me ni na. Ó mi nha ca ni nha berde. Cana ber de salteada. agitando os braços. conduzindo foliões de ambos os sexos.. molhando o Sor Zé ou o Sor Antônio a palavra vibrante com um gole da boa pinga..Festas e Tradições Populares do Brasil 137 Eram as vozes que enchiam desde as nove horas as ruas da cidade. de chapéu de palha desabado e flamejante de fitas. ao desconcerto de uma música importuna e continuada. adiantando-se. apesar de incultos. De ca mi nho para Bra ga. partiam na mesma direção.. Sal te a da é mais bo ni ta. Que que reis qu’eu de lá tra ga. três. secundados pelas rechonchudas e afogueadas Marias Rosas. quebrando a monotonia da romagem. Nisso aparecia uma andorinha a galope. Pra can tar a cana berde Não se quer fo lhos de chi ta. que. de pé. respondiam no mesmo diapasão: – Viva a Penha!. ou à ca dência de rabecas. sempre bonitos. tangidas por mãos afeitas. Mais de espaço. gritavam: – Viva a Penha!. fui-me ao Minho. Os rapazes ostentavam a tiracolo enorme e pesado chifre chapeado de prata e cheio de vinho. E a rabeca e a viola. um. Em meio da excursão o en tusiasmo atingia o seu auge. pendidas para fora.. dois. aqui e além. .

com o mesmo vestuário e acessórios. O mulherio saracoteava. as saúdes amistosas trocadas nos círculos de famílias e peregrinos que se divertiam de modo mais calmo. davam breu nas cordas da rabeca. os meninos e os moleques atiravam olhos desejosos para as roscas. Encostados às vendas e às barracas. o fadinho. à sombra das mangueiras. Solitário em seu pangaré . as suas aspirações eram unicamente apercebidas pelos “vivas à Penha”. enquanto que os patuscos. os ranchos acampados nas ondulações vastas. ga lhofando. Pelas duas horas da tarde. esfregavam as primas da viola. Quem quer bem tem ou tro je i to. E a cana-verde. um tanto chumbados. suas danças nacionais.. cochichavam. recomeçando trovas e dançados. levantando a perna. a festa estava em meio. pulando logo após no caminho. palheteavam os cavaquinhos. declamando.138 Melo Morais Filho Dos cercados as moças davam gostosas risadas. prolongando-se até mais tarde.. batia palmas a compasso. emendando a roda. aos solavancos do cavalo tardo e desobediente. Chamarrita do meu peito. Os carros tirados por juntas de bois avançavam nas estradas trazendo festivos matutos.. Os co mes-e-bebes em esteiras desdobradas sob os arvoredos. a chamarrita. difundiam-se pelo acampamento em regozijo. na relva e nas barracas. pinoteava com seus pares. o vai-de-roda ferviam sapateados. alguns dos quais. de quando em quando um romeiro atravessava a cena. foliões apeavam-se das andorinhas e muitos dos que lá se achavam preludiavam as suas toadas.. que voltavam enxutos. e os veículos de toda a espécie sulcavam as . Pacato e despretensioso. comentavam as toaletes. não sendo dispensados os desafios graciosos e brejeiros. ape gando-se com freqüência ao santo-antônio do selim. As crioulas baianas sambavam debaixo das mangueiras aromáticas e em bandeiradas dos panos da Costa que suspendiam aos galhos. embocavam os chifres. que soltava raros. es canchado. A romaria era esplêndida.

sumindo-se na treva... Trovadores dos sertões do Norte achavam-se. entre “vivas” e incrível alvoroço.. Viva tam bém La me gui nho... Que que ro cor tar-lhe as asas.Festas e Tradições Populares do Brasil 139 trilhas com os impagáveis e entusiásticos pro tagonistas da jornada da Penha. Com Ma nué Passarinho!. E viva a ter ra do Por to Onde se bebe o bom vi nho. Finda a cerimônia religiosa da manhã... No arraial da Penha. . as andorinhas. Mais longe..... Aqui... um debruçar d’alma no passado.. os tentando uma verônica pregada no peito do casaco branco.... era uma quadrinha improvisada à viola e alentada de ciúme: Eu to ma ra me encontrá.... Os acampamentos levantavam-se progressivamente... naquelas paragens.. um verso plangente e dolorido: Vou-me em bo ra.... zabumbando-lhe com os calcanhares na barriga... pela tarde adiante.. Levo pe nas de dexá Ma ro cas na ter ra aeia.. e. . o último Abencerrage .. os carros enfeitados e os cavaleiros caricatos faziam sua entrada na cidade.. principiava a debandada........ por ocasião do Te Deum.... Como se foi a baleia... muitos deles mulatos e crioulos escravos. To car-lhe fogo no ni nho.. uma despedida. montando num cavalo estafado e manco.... Cristóvão. a nossa gente cantava ao largo as suas tiranas. vou-me em bo ra...... E lá para as bandas de S...... ar rancando de dentro um – Viva a Penha! – mastigava para distrair-se quadrinha simples e ex pressiva: Di zes que viva La me go.... Cada romeiro em punhava o seu registo de Nossa Senhora da Penha....

Representa no ideal o tipo de certos costumes coloniais. quando o nativismo era uma virtude e este país o Brasil. a clássica romaria da Penha tem perdido parte de seu caráter devoto e de sua antiga influência. . no arriscado das matas. outrora. Como romaria popular é a única que ainda se conserva no Rio de Janeiro. Entretanto. fiéis à tradição. léguas e léguas de distância. muitíssimos são ainda os romeiros que afrontam.140 Melo Morais Filho Às cusparadas de fogo da locomotiva. modificados nas províncias. O úl ti mo Aben cer ra ge mesmo a pé.

que não se recorde de um grupo de negros. eram numerosíssimos. . . por ocasião do entrudo e das festas do Natal. . Em todos os tempos. . . de face lanhada e nariz deformado por uma crista de tubérculos. . indo dançar e cantar em casas determinadas. . . sendo as suas cantigas bárbaras unicamente na linguagem de suas terras natalícias. ranchos deles encontravam-se em lugares múltiplos. para as tradicionais cheganças dos Mouros e dos Marujos. constituídos por escravos d’África. . tangendo instrumentos rudes. .. . que. . Os Cucumbis (RIO DE JANEIRO) ão há quem tenha perlustrado as províncias do Norte. vestidos de penas. . o povo da Bahia denominou de Cucumbis. . ou nos tablados construídos ao lado das igrejas e nas praças. que descia do alto da fronte ao sulco mediano do lábio superior. A essas hordas de negros de várias tribos. . . . Na primitiva. . N . e o das demais províncias – de Congos. . . . esses bandos. associando-se destarte aos nossos folguedos nacionais. . dançando e cantando. percorre as ruas das gran des cidades e peque nos povo a dos. . . nos dias de festas populares.

com o seu enredo e evoluções guerreiras. os pobres cativos. servindo apenas. ao som do açoite nas surras da escada e do soluço da mãe escrava.142 Melo Morais Filho No Rio de Janeiro também os houve até 1830. para incorporar-se ao préstito fúnebre dos filhos dos reis africanos aqui falecidos –. despejados em nossas matas virgens. a quem tiravam para sempre dos braços o filhinho nu e misérrimo. acercada e seguida de centenas de escravos. representam ainda hoje uma das faces mais belas dessa raça afetiva por excelência. Os Cucumbis têm os seus dançados e cantorias especiais às passeatas. a quem deve o Brasil a maior parte de sua população. Às letras desses cantos. O argumento dessas composições musicais e de uma poesia de sabor acre é simples e rudimentar. de acordo constante com a natureza aspérrima daqueles homens afeitos a lutas cruentas e ao imprevisto dos desertos. tiveram necessidade de dar expansão à sua dor. cujo caráter se foi ligeiramente modificando com elementos novos. ao compasso acertado. ao tinir das correntes dos cepos e dos gemidos nas senzalas. com seus mametos (crianças). Essas danças coreográficas. Desembarcados dos navios negreiros. para o ar livre e casas particulares. com o coração cheio de saudades e os olhos cheios de pranto. pulando e levantando os braços. que nos conste. . arrancados das cabanas de seus pais e dos desertos de sua terra. relembrando os costumes dos seus maiores. seus reis e princesas de formas corretas e altivos. na terra do exílio e do cativeiro! E precedendo a rede funerária coberta com um pano preto. seus tamborins e ganzás. originariamente africanos. o seu baleto difícil e em extremo interessante. os Cucumbis marchavam chocalhando e cantando. não ouvindo mais o sibilo do vento e o rugido da fera que os acalentaram na infância. intercalaram-se versos em português. de cocares de plumas. E a dança dos Cu cum bis ressoou estrepitosa nas florestas. o que em nada altera a índole do baleto selvagem dos Congos. de sua riqueza e de seu progresso. que desenvolvem-lhes em torno uma atmosfera de sonoridade tempestuosa e imitativa.

levando entre alas festivas os mamelos circuncidados com lasca de taquara.Festas e Tradições Populares do Brasil 143 Resumindo uma ação que se pode prolongar por muitas horas. botinas de cordovão enfeitadas de fitas e galões. o Língua. o Quimboto (feiticeiro). etc. “Ou darás a vida a meu filho”. áugures e feiticeiros. à cintura. Na distribuição do dançado. ou não darás e te mandarei degolar. . impondo-lhe a ressurreição do príncipe morto. as danças não findam. recebendo a notícia do embaixador. comida que usavam os Con gos e os Munhambanas nos dias da circuncisão de seus filhos. embaixadores. porém no mesmo sentido. e ao pescoço das mulheres e homens. uma partida de Con gos põe-se a caminho. dentre os quais o Rei. o Caboclo. esplêndido e aparatoso. um ou mais mametos. na qual os Cucumbis cantam o Bendito e diversas quadras populares. o Rei e a Rainha ostentam vestimenta mais luxuosa e característica. calça e camisa de meia cor de carne. dando uma ou mais voltas.” E aos sortilégios do feiticeiro. O préstito. é acometido por uma tribo inimiga. corais e colares de dentes. mas não a ponto de desconhecer-se o que há de primitivo como costumes autênticos. ordena o soberano que venha à sua presença um afamado adivinho. Ao aproximar-se o cortejo. ultimando a função ruidosa retirada. rico cocar de testeira vermelha. diz ele. há personagens típicos. áugures e cinqüenta outros comparsas que dançam. miçangas. O vestuário geral consiste em círculos de vistosas e compridas penas aos joelhos. “e terás em recompensa um tesouro de miçanga e a mais linda das mulheres para com ela passares muitas noites. tocam e executam os coros.. príncipes. O Feiticeiro. caindo flechado o filho do rei. o Capataz. o feiticeiro mais célebre de seu reino. indo levar à rainha os novos vassalos que haviam passado por essa espécie de batismo selvagem. intérpretes de dialetos estrangeiros e inúmero povo. Como é natural. figuras importantes. a Rainha. o entrecho do referido baleto é o seguinte: Depois da refeição lauta do cucumbe. aos braços e aos punhos. o morto levanta-se. a tradição africana acha-se corrompida pelas gerações crioulas. princesas. formado por príncipes e princesas.

entre cantigas nossas. transpõem a porta que se abre para recebê-los. As sociedades saem a passeio nas três tardes e executam em domicílios os seus baletos de um colorido estranho. Iniciadores dos Cu cum bis e os Cucumbis Carnavalescos. armados alguns de arco e flecha. os tamborins. e a segunda. os chocalhos. reaparecendo os Cucumbis . os agogôs. ∗ O baleto divide-se em três partes: a saudação. de crioulas formosas. há alguns anos nesta corte. constituíram-se em sociedades carnavalescas. e a pluralidade dos cantos e danças. como em todas as épocas. o pessoal e a música ensaiados com esmero. distinguindo-se elas pelas legendas de ouro. os chequerês. a lealdade às tradições tem sido mantida. neste ou naquele grêmio. . salientando-se a primeira pela formosura da Rainha. Os descendentes diretos dos africanos têm conservado no Brasil a herança paterna. a matança e as recompensas. na maioria dos ranchos de Cucumbis. devido a influências de pretos baianos aqui residentes. executam marchas guerreiras e hinos triunfais. os ganzás. agilidade do Mameto e a maneira alta e artística pela qual o Feiticeiro desempenha o seu papel. bordadas na seda de seus estandartes. notando-se até ao presente. os adufos. dançados. do bando negro. tem a mesma idéia. O baleto congo. Triunfo dos Cucumbis Carnavalescos. à cadência dos movimentos típicos e suas danças primitivas. disciplinados com pasmosa habilidade pelo inteligentes contramestre baiano. Logo que os Cucumbis. Uma vez reunidos.144 Melo Morais Filho Enquanto aos instrumentos. mas resplandecente e agradável. aos sons de seus instrumentos bárbaros. a música e os dançarinos. Os Lanceiros e os Triunfos são as mais lustrosas pelo trajar. O epílogo é a retirada. as marimbas e os pianos de cuia. cantigas e instrumental. Conhecemos as sociedades dos Cucumbis Lanceiros Carnavalescos. pelo crescido número de figuras. diferindo unicamente pela maior variedade de figurantes.

auê! O Capataz. por instantes. e o silêncio é profundo. Com li cen ça do dono da casa.Festas e Tradições Populares do Brasil 145 Depois o Rei. adianta-se.. isto é o Cu cum bi que os dirige. os pandeiros.. sendo ao mesmo tempo dançarino e cantor. em alegres clamores.. e canta: Rei Sou rei do Con go.. Com li cen ça. Capataz Congaxá!. Qu e ro brin car. todos param.. com um frêmito de tempestade. ê. com os antebraços em doce flexão. Com li cen ça. os adufos.. com o seu manto de belbutina e sua co roa dourada.. . como de uma sentinela perdida nas solidões. e um grito de alerta. E os tamborins.. ao que. auê. Estacando. os chocalhos e os ago gôs rodam no ar como uma salva. porém. marca o ritmo do canto e da dança. distinguindo-se no meio da vozeria a calorosa saudação: Coro Com li cen ça.. on dulando o tronco. no centro do grupo. os ganzás. Então. continua. quebrando al ternadamente os flancos. por entre as alas do cortejo.. inseparável da dança. A cantoria.. é desferido por esse personagem bizarro.. Cheguei agora De Por tu gal. uma espécie de pasmo apodera-se das figuras. em cuja fronte os cocares não agitam plumas. fazendo imponente sinal. auê!. prorrompe o coro: Coro É. Sam ban go lá! Cheguei ago ra de Por tu gal. em tons fortes e acelerados. parando de súbito. a um momento dado.

à guarda do chefe dos Congos.. e o Mameto executa danças que imitam o cobrejar das serpentes. de movimento binário e ternário. causando esse acontecimento grande alarma.. Gira Ca lun ga. Capataz Mala qui lom bê. uma tribo inimiga o acomete nos regozijos do festim. e um caboclo. o balancear dos brigues negreiros nas calmarias do mar. e com elas uma dança e uns cantos guerreiros. O coro repete o estribilho. que faz parte do troço. E os instrumentos. . diante do sangue que escorre da ferida. fere de morte o referido Mameto. com animação crescente. deixam pender a cabeça.. há pouco emudecidos e suspensos. filho da Rainha. Confiado o Mameto. Oh! Ma me to uê! Mala qui lom bê. e o Capataz o verso. o salto flexível do jaguar. ó qui lom bá. este sente o peso da alta responsabilidade e compreende-se perdido.. Manu quem vem lá. e a matanga (velório africano) começa. Essas cantigas duram cerca de vinte minutos. enchendo o espaço de rumores lamentosos. oia con go do má. de efeito soberbo e característico. com danças iguais. enquanto que as danças funerárias exprimem a ação. tocando afinal ao desespero. Capataz Qu en gue rê.146 Melo Morais Filho Capataz Oh! mu quá!. Os Cucumbis. ó qui lom bá. recomeçam as suas harmonias. Manu quem vem lá. Coro Gira ca lun ga. Enquanto os Cucumbis entregam-se às suas festas.

Mamaô! Gan ga rum bá. Ma maô! E. cantando lúgubre: Feiticeiro E. garantindo-lhe ri cos presentes e a mais formosa de suas vassalas. ausculta-o. Feiticeiro Zum bi. até que o Língua. de joelhos. inclina a fronte.. a escuta consternado. e. cu cum bi-oiá. Oia pa pe to. embaixador dos negros. conta-lhe o motivo de sua missão. de rojo. palpa-o. Ma me to mu chi con go. a seu conselho.. oia Zum bi! Durante todas essas evocações. manda chamar o Língua. interroga-o.. faz comparecer o Feiticeiro que. o pobre fetichista parte. os cantos e os bailados harmonizam-se depois. Este interlocutor traz em volta do pescoço cobras e cadeias de ferro. ao ouvi-lo. víboras. expõe-lhe o ocorrido e o expede a comunicar à Rainha o infausto acontecimento. À vista da terminante resolução da soberana. o feiticeiro rodeia o corpo da criança. oia Zum bi! Oia.. dirige-se à Rainha.. resinas. A Rainha ordena-lhe que faça reviver o seu Mameto. como que desvaira de dor.. etc.Festas e Tradições Populares do Brasil 147 Nessa conjuntura. olhando inspirado para ao céu. As músicas. Zum bi. tais como raízes. e. Esta cena é deveras impressionista e desperta o mais vivo in teresse. E.. Con go. emprega misteriosos . Zum bi. faz passes mágicos.. Mamaô! E. implora. Coro Zum bi. chega-se para o cadáver. ou que lhe seria cortada a cabeça se os seus feitiços não conseguissem levantá-lo. Mamaô! Todos Zum bi. submisso e pesaroso. sin de rê iacô. A Rainha. abandonando a sua sorte ao acaso. com as mãos postas. ma te que rê. pende-lhe a tiracolo uma bolsa de búzios fornecida de objetos de efeito mágico.

148 Melo Morais Filho sortilégios, fá-lo aspirar plantas e resinas, es tendendo-lhe aos lados pequenas cobras e talismãs de virtudes sobrenaturais. Apercebendo o mágico e os Cucumbis que o morto pouco a pouco reanima-se, o rancho manifesta-se contente, e o Feiticeiro entoa, com a turba que tange seus instrumentos, o seguinte:
Feiticeiro Quimboto,quimboto, Qu im bo to ara ra... Coro Sa va tá, ó Lín gua, etc. Feiticeiro Quem pode mais? Coro É o Sol e a Lua. Feiticeiro San to ma i or? Coro É S. Be ne di to.

Terminando o diálogo, em que as crioulas e os crioulos dançam e des can tam com uma origi na li da de in crível, o Fei ti ce i ro coloca-se aos pés do príncipe, toma-lhes das mãos, ergue-o vagarosamente, e canta, como que acordan do len ta men te do seu êx ta se supersticioso:
Feiticeiro Ta ta ra na aí auê... Ta ta ra na, tuca, tuca, Tuca, aiuê...

Nisso que o Mameto ressuscita, e mais veloz, mas ágil, mais ardente executa prodigiosos dançados, o Feiticeiro fulmina com o olhar o Caboclo, que cai por terra. Devido a novos encantamentos, este torna a si, busca ainda matar o príncipe dos Congos e uma luta entre as duas tribos empenha-se renhida.

Festas e Tradições Populares do Brasil 149 Os contrários são vencidos, seguindo à vitória a apresentação do Mameto à Rainha, que o recebe nos braços, acumulando o Feiticeiro de dádivas opulentas. O Rei oferece-lhe a fi lha em casamento, o que aquele não aceita, por ser casado.
Fe i ti ce i ro (dan çan do e can tan do) A fi lha do rei É o nos so amor... Coro O fi lho do rei É o nos so pro te tor.

E a festa recomeça mais estridente, e os negros cantam:
Todos Em lou vor da pu re za Da Vir gem Ma ria, Ela está no Céu, Na Ter ra nos guia.

Marchas e contramarchas, danças e cantos, ao chocalhar dos pandeiros, às vibrações dos ganzás, ao arrufar dos tamborins, anunciam a terminação do baleto.
Coro Maria, ra bu la, auê... Catunga auê... Capataz Ade us, amor, Ade us, ben zi nho. Todos (retirando-se) Na Ba hia tem, Tem, tem, tem, Na Ba hia tem, Ó ba i a na! Água de vin tém...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A Festa do Divino
(CORTE)

té o ano de 1855, nenhuma festa popular no Rio de Janeiro foi mais atraente, mais alentada de satisfação geral. Referem antigos cronistas, que as festas do Divino foram instituídas em Portugal pela Rainha Santa Isabel, e escritores do século XVI as descrevem, bem como Heitor Mendes Pinto na sua Imagem da Vida Cristã. Não abandonando nunca as suas terras natalícias, mas viajando em nossos climas, esses folguedos impregnaram-se aqui de aromas sutis, expandiram-se em manifestações mais variadas, tendo como figurantes troncos primitivos ou seus descendentes imediatos, que deviam entrar por alguma coisa na metamorfose do molde metropolitano, sempre uniforme e monótono nos Açores, Coimbra, etc. É que não só a linguagem, porém os usos e costumes europeus, passando-se para a América, adquiriram mais suavidade e riqueza. Na época em que fazemos passar esta festa (1853-1855), em três freguesias desta capital armavam-se impérios e coretos: na do Espírito

A

152 Melo Morais Filho Santo, na de Mata-porcos, na de Santana, no campo do mesmo nome, e na Lapa do Desterro, que representava a freguesia da Glória. As músicas de barbeiros, que eram compostas de escravos negros, recebendo convites para as folias, ensaiavam dobrados, quadrilhas, fandangos. O povo, prelibando delícias infalíveis, passeava no campo, assistindo à edificação das barracas, à construção do império e dos coretos, à colocação das bandeiras e das arandelas, e ao orlamento de copinhos de cores, com que fantasticamente iluminava-se a frente da igreja de Santana, mais tarde demolida para fazer-se a estação da estrada de ferro de Pedro II. Quarenta dias antes do domingo do Espírito Santo, a banda dos pretinhos, precedendo ruidosa turma, parava no Largo da Lapa, defronte de um império de pedra e cal, que existia no lugar onde atualmente levanta-se um prédio de dois andares – e aí tocava escolhidas peças de seu resumido repertório. Ao passo que a música extasiava os circunstantes e reunia toda a gente, dois negros possantes perfuravam o chão com alavancas pesadas e pontudas. Findo esse trabalho, fincava-se o clássico mastro, encimado por uma pomba de madeira recentemente prateada, flutuando um pouco abaixo a bandeira do Divino, com as suas douraduras brilhantes e seus matizes vivíssimos. A foguetaria estourava, repicavam os sinos, os barbeiros feriam os seus instrumentos, e os foliões, que até então conservavam-se quietos, misturavam aos sons da instrumentação marcial o rufo acelerado dos tambores, os tinidos dos ferrinhos, o tropel das castanholas e o chocalhar dos pandeiros, com que acompanhavam as suas cantigas:
A pom bi nha vai vo an do, A lua a co briu de um véu, O Di vi no Espí ri to San to Pois as sim des ceu do Céu.

Os foliões eram rapazes de nove a dezoito anos, trajavam igualmente, cantavam quadrinhas ajustadas ao religioso motivo, pedindo pelas ruas da cidade esmolas para as despesas do culto.

Festas e Tradições Populares do Brasil 153 Dois irmãos da confraria os acompanhavam, vestidos de opa. Um conduzia pela mão o imperador, que era um menino de oito a doze anos, vestido de casaca vermelha, calção e chapéu armado; outro, com uma espécie de custódia, no centro da qual havia uma pomba esculpida, adiantava-se para as pessoas que a beijavam, e, apresentando uma sacola de belbutina encarnada, recolhia as esmolas dos devotos. Nos ranchos, um rapazola ia com a bandeira, sendo as vestimentas de todos casaca e calção escarlates com galões de ouro, colete de seda branca debruado de cores, sapatos baixos de fivelas, chapéu de feltro de copa afunilada e abas largas, ornado de fitas, distinguindo-se o por ta-estandarte por vestuário mais pomposo e pelo grande tope de flores, pregado no chapéu, de forma diferente. E a folia dobrada, pulando, brincando, dançando, cantava:
O Di vi no pede es mo las Mas não é por ca re cer, Pede para expr’rimentar Quem seu de vo to quer ser. Meu Di vi no Espí ri to San to, Di vi no ce les ti al, Vós na Ter ra sois pom bi nha, No Céu pes soa real.

A folia de Mata-porcos, reproduzindo cerimonial idêntico, tomava para outras bandas, aguçando a curiosidade dos habitantes do bairro, que chegavam à porta e às janelas para vê-los e ouvi-los:
Anda mos de por ta em por ta De to dos os mo ra do res, Pra fes te jar o Di vi no, Cobri-lo todo de flores. O Di vi no Esp’rito San to Hoje vem vos visitar, Vem pe dir uma es mo la Pra seu im pé rio en fe i tar.

Depois destes e de um sem-número de versos, o irmão de opa, erguendo a bolsa em que os devotos osculavam a imagem simbólica,

154 Melo Morais Filho a retirava, ao tinir das moedas de prata ou de cobre, que caíam, dos con tribuintes piedosos e francos. Diariamente saíam esses alegres e festivos grupos, visitando cada qual a sua paróquia. Os foliões de Santana eram mais avultados, descreviam mais amplo itinerário, recolhiam maiores donativos. Antecedidos sempre pela música de barbeiros, acompanhando com instrumentos múltiplos as suas tradicionais canções, a colheita das esmolas estabelecia relações diretas com as maravilhas dos festejos. E os foliões, contentes da lida, arrufavam, correndo com o dedo, os leves pandeiros, batiam ferrinhos, rufavam tambores, bailando em infantis descantes:
O Di vi no Esp’rito San to É po bre, não tem di nhe i ro, Quer for rar o seu im pé rio Com fo lhas de ca ju e i ro. Rua aba i xo, rua aci ma, Ruas de can to a can to, Rua que por ela passa O Di vi no Esp’rito San to.

Os impérios e coretos, fabricados de sarrafos e lona pintada, estavam a concluir-se; nas barracas do campo, os carpinteiros e pintores, trepados em escadas, pregavam tábuas, estendiam dísticos, miravam os painéis que reproduziam grosseiramente as representações do interior; e, por entre os galhardetes, as bambinelas, troféus e bandeiras, avistavam-se, em desenho flamante e incorreto, cenas acrobáticas, um bezerro de cinco pernas, trabalhos de equilíbrio, exercícios eqüestres, etc. O Campo de Santana sintetizava o grosso da função. Na direção da Rua de S. Pedro, em frente ao quartel, alongava-se uma linha de barracas com as suas cumeeiras, que semelhavam à noite pirâmides de fogo e tetos incendiados; e nos portais da rua e aos balcões, os vendedores de sortes, de entradas e de comidas, estendiam o braço, gesticulavam, gritavam como possessos, ensurdecendo os transeuntes. As músicas estrondavam de dentro, as famílias e o povo formigavam defronte, e como uma chuva de pirilampos que se abatesse dos

Festas e Tradições Populares do Brasil 155 ares, as lanterninhas de folha com vela de vintém, das quitandeiras sentadas, faiscavam ao largo, alumiando nos tabuleiros e bandejas os louros manauês , as cocadinhas brancas e os bolinhos de aipim, feitos com esmero e asseio pelas laboriosas e inestimáveis doceiras daquele tempo. Desde o escurecer, era realmente deslumbrante aquele cenário. Naquela praça enorme, a fileira de barracas parecia um muro alvo lavrado pelas chamas; a multidão com suas vestimentas pitorescas, api nhada no chafariz que aí existia, ou movendo-se em grupos, lembrava um quadro de mestre da escola veneziana; ao ombro das montanhas descansava a abóbada do firmamento, e a igreja de Santana, com a sua torre caiada, destacava-se ao fundo, num céu calmo e estrelado. O famoso império, o coreto e o palanque do leilão, ao lado do templo, cintilavam de luzes, agitavam os bambolins. Os espetáculos nas barracas constituíam o divertimento predileto de metade do público, que os freqüentava com assiduidade. A cavalgada de um dos circos de cavalinhos preludiava, ao mesmo tempo que as folias, a festa do Divino. Todas as manhãs, a partir das onze horas, a troupe exibia-se nas ruas, com seus cavalos de raça, seus artistas adestrados. O pessoal completo da companhia, em garbosos ginetes enfeitados de fitas, passeava pela cidade, anunciando o espetáculo da noite. Precedido por dois clarins, o bando entrava ordinariamente pela Rua de S. Pedro, caminhando a passo e avivando a atenção. Airosamente inclinadas em selins de banda, duas dançarinas de corda, fantasiadas com luxo, refreavam cavalos fogosos, fustigando-os oportunamente. A estas sucediam-se vários ar tistas vestidos como nos circos, tendo por selins o acolchoado especial adotado para os exercícios eqüestres. Dentre eles gozavam de merecida celebridade o português Jacinto, que pulava por dentro de arcos, e seu irmão, vulgarmente conhecido por Bem-te-vi, ginasta assombroso e incessantemente vitoriado nos saltos-mortais sobre sete e nove cavalos.

Não con te à mu lher ca sa da. E assim por diante. coió! Com o fim de manter a or dem. Que a mu lher con ta ao ma ri do. escancarando a boca pintada de vermelho. que moderavam os excessos de entusiasmo dos dilettantis em alarido. estabeleciam com ele extravagante diálogo e formavam coro.. e o palhaço Joaquim. vinham dois macacos banzando de um lado para outro em dois lindos pequiras. – Rapadura é coisa dura? – É sim sinhô. mu nidos de grossas chibatas. o diretor da companhia. improvisava versos patuscos. o gracioso palhaço arrastava após si uma ran chada de moleques. erguendo as mãos. batendo palmas compassadas.. ao soar dos guizos de suas mangas de bicos e de seu chapéu de pierrô. com a sua opa escarlate. .. dominando de toda a altura o seu numeroso séquito. bate. ceava nas barracas... Vestido de clown. moleque! Ora. – Sinhô! – A moça é bonita? – É. sim sinhô. tumultuosos. bate. caminhava ao acaso e recebia entradas. um ou mais pedestres. sim sinhô. por antonomásia – o Faceirice.... com a sua salva de prata: Quem ti ver o seu se gre do. E o Faceirice. que. terminando isto pelo invariável estribilho: – Ora. distribuindo às vezes perdidas lambadas. de costas para o pescoço de uma égua baia.. de pé e fazendo trejeitos. o Chico-Gostoso apregoava ofertas. guarneciam a onda. arregalando os olhos. o campo regurgitava de curiosos e de gente que comprava sortes. O ma ri do à ca ma ra da..156 Melo Morais Filho Fechando o préstito. Na sua tribuna aérea. Quando as luminárias acendiam-se. – Tem vestido de babado? – Tem. principiava: – Moleque!.

equilibravam-se em garrafas. não só pela originalidade das representações. É de boa fonte esta quadra. o aristocrata e o homem de letras. E quem a freqüentava? A plebe e a burguesia. iam deleitar-se a mais não poder. Na barraca de MM. dou-lhe tudo desta vez! – Eram as palavras que os ecos espalhavam pelo espaço. o escravo e a família. Serafina. depois de apreciarem as magistrais execuções da banda de fuzileiros. em presença dos proclamados quadros impressionistas. provocavam “bravos” e palmas dos espectadores em delírio. suas pirâmides humanas. que aplaudia-lhe as lembranças felizes e o logro dos – segredos. que lhes encarecia o mérito: A Jenny. onde os artistas Carlos Varin e Batista Foureaux executavam exercícios de bolas. aos gritos nos circos. a ginástica e os qua dros ao vivo. Foureaux. com as suas cenas mímicas. mas ainda apela variedade e distinção de seus fre qüentadores. tonavam-se tentação irresistível para as pessoas que. muito poeta inspirou-se no seu olhar encantador. dou-lhe três. a barraca das Três Cidras do Amor levava de vencida a todas as outras. dou-lhe duas. Não menos freqüentada era a barraca de M. sem pre apla u di da. . seus volteios eqüestres. so bre a cor da. Muitas coroas lhes foram atiradas aos pés. de reproduções históricas. que tocava na varanda. Bertheaux e Maurin. muitos amores adejaram tímidos por sobre as suas formas cinzeladas. Não obstante todos esses sucessos.Festas e Tradições Populares do Brasil 157 – Dou-lhe uma. Os saltimbancos. com as gargalhadas da multidão. Seus sal tos di fi cul to sos. Jenny e Serafina. desempenhando igualmente admiráveis evoluções em argolas volantes. Fará pas sos gra ci o sos. Essa companhia contava em seu grêmio duas estrelas de considerável grandeza – Mlles. As bandas de música faziam-se ouvir por toda a parte.

quase fronteira do império. e um triângulo de pequenas bandeiras. formava-lhe o frontão simples e alígero. A barraca das Três Cidras do Amor. Porto Alegre. ou barraca do Teles. . No salão regular e pouco confortável. cantorias de duetos. em longos bancos fixos e toscas varandas. Gozando dos favores públicos. enfiadas numa corda. das letras e da glória. entrando os espetáculos do Teles no número de suas pro curadas distrações. Paula Brito. José Antônio. Por ocasião dessa festa compreende-se que todos procuravam divertir-se. ávidos de emoções agradáveis. somente uma quarta parte destinava-se ao célebre teatrinho de bonecos. Na companhia não havia damas: para desempenhar tais pa péis. engraçado de fazer rir as pedras. O seu aspecto era modesto. A João Caetano chamava ele de colega. o bacharel Gonçalves. nas noites de récitas. dois ou três rapazolas imberbes vestiam-se de mulher. restando as demais para as representações de comédias. campeava em último lugar. O que é verdade. mágicas e ginástica. instalavam-se. a barraca do Teles ficará solitária no merecido renome. é que o galã Pimentel. pintadas a óleo nas duas extremidades. Muitas noites. cheio de corpo e de pernas inchadas. no debique o mais inofensivo. O cenário da barraca não era extenso: proporcionalmente di vidido. sobre os trajes dos personagens e interpretação das partes. salvando com habilidade a ilusão cênica. consultava a respeito da compreensão da arte. o letreiro que a entesteirava era ilustrado de três cidras monstruosas. Gonçalves Dias.158 Melo Morais Filho Nos anais das nossas festas populares. Magalhães. simpatizado geralmente. e quando de lá saíram foi para entrarem no caminho da arte. o Vasques e Pinheiro Júnior tiveram como seu primeiro mestre o empresário das Três Cidras do Amor. centenas de es pectadores. a Petalógica em peso iam apreciá-lo. acaboclado. o Monclar. os seu espetáculos ar rastavam a maior concorrência. coroá-lo em cena. O Teles era um homem de estatura regular.

disse-lhe no camarim. E nem lhe faltavam aplausos e muitos agrados. Pedro. músicas e divertimentos. Descendo o pano e subindo de novo. como vestir-me para disfarçar o defeito das pernas? – Colega. O estalo dos chicotes nos circos. além da orquestra para a grande divisão do cenário. pegava-se 500 réis de entrada. porém no dueto O Meirinho e a Pobre. as pachuchadas do Chico-Gostoso apre goando um pão-de-ló ou uma galinha. e a multidão em tropel que acompanhava ao império o imperador do Divino. representava-se O Judas em sábado de Aleluia. o repique dos sinos de Santana ao terminar o Te Deum. Como introdução à noite artística. comia fogo.Festas e Tradições Populares do Brasil 159 Uma vez o impagável Teles. flauta e cavaquinho. que tocava oculta. de botas e batina. por isso que era um homem totalmente inculto e gracioso. Mas. engolia espadas. em vozerias de pregoeiros. depois de felicitar o imortal ator que desempenhara o papel de D. O Teles nas comédias do sublime Pena tinha seu valor. incluindo neste preço o bilhete da rifa. como as esculturas arquitetônicas da Idade Média. O teatro do Teles era iluminado a velas e a azeite. quando dançavam os bonecos. tinha. A maior soma de seus triunfos não consistia propriamente nessas cenas de sobra originais do nosso teatro nacional. imprimiam a essa festa um cunho de relevo brilhante. a feira do campo excedia-se em marés de povo no fluxo e refluxo. Depois da ouverture – uma valsa ou uma polca – subia o pano. uma outra de violão. no intervalo de um dos atos: – O senhor agradou-me tanto. o Porta-estoque e os foliões no centro de quatro varas encarnadas.. que deu-me vontade de imi tá-lo. cantava-se a ária do Capitão Matamouros ou coisa semelhante. À noite. . de repentes petulantes. como os protagonistas das comédias de costumes do Molière cá da terra. o Teles esquipaticamente vestido. aparecia. respondeu-lhe João Caetano. por exemplo: havia ginástica. de sacacoteios inimitáveis. como conclusão da primeira parte da récita. assistindo à representação da Nova Castro. entremeada por ele de chulas lascivas. O Miudinho e na dança de bonecos. fazia mágicas. em luzes..

Isso deveras o animava. pois retribuindo com o seu esforço a generosidade pública.. e começava. a rapaziada aclamava o artista. a desaparecer nas bambolinas. . aos – Bravo do Teles! – Corta-jaca! – Mete tudo! – Bota abaixo! – da multidão calorosa. a representação dos bonecos. desde que retalhavam o ar. porém. Em um desses momentos. os cordões motores das saltitantes figuras. requebrando-se. desde que se erguia a cortina. O povo. de quem tão vivas recordações ainda persistem na lembrança de tantos contemporâneos que o conheceram e apreciaram. Era imutável. e ao som de plangente melodia. Levantava-se o pano. o Zuzu feria com a palheta as cordas do cavaquinho e o Ferreira soprava na sua flauta macia. e João Caetano batia palmas vitoriando-o.. precipitava-se na ocasião do sinal para o espetáculo dos bonecos. o Manezinho harpejava lá dentro no seu violão. despicava-se no fado do fim do ato. o auditório enchia com uma gargalhada ao recinto. É inútil descrever a impressão produzida entre os espectadores. ondulando as nádegas a extenuar-se. que ria-se.. ao avistar a pobre: Tanta po bre na ci da de Não ’stá má vadiação. Ras guem-se as nu vens! Apa re ça a cena Cheia de lu zes!. e com elas todo o espetáculo. gritava. que retirava-se nos intervalos. Justamente nisso brilhava o nosso Teles por seu espírito e mostrava real habilidade.160 Melo Morais Filho Quando o Teles transpunha o palco encasacado de meirinho. que constituía a segunda parte do espetáculo. desenrolando uma corda. cantava o Teles: Abra-se o céu. puxando a fieira. as peças na barraca variavam. coroou por pândega o gênio de nossa cena dramática ao saudoso histrião. cantando. batia com as mãos até os derradeiros rumores desse dançado tradicional e eletrizante do povo brasileiro.. bambaleando... Amainado o tumulto. Com a inconstância das bandeiras ao vento.

implorava por sinhá Rosa. vestido de calça branca. o Padre Eterno. Caim. e. As figuras bailavam desde o começo.. arreliava ele as suas donas. aos requebros da chula. traquinas e sempre disposto.. Com o imprescindível facão. cantando: Não bula com a roda Que ela é de fiar.. O Caboclo Não seja te i mo sa Que há de apa nhar. bradava ele. que nos ficou por causa dos versos. conforme as situações. personagem forçado a todas as representação. quando ela sumia-se nos bastidores: . drama de enredo complicado e riquíssimo em disparates. apenas arquivamos na memória um ou outro lance. Adão. nas investidas. perseguindo a interlocutora. Por esta distribuição pode-se calcular o ideal do autor. colete encarnado. que agitava continuamente. Eva.. recostado a uma árvore. que era o fiel reprodutor das pachuchadas do Teles. en! Minha dona!. o Sacristão e sinhá Rosa. que acabavam brigando e fazendo as pazes. O Caboclo. diálogo entretido pela Fiandeira e o Caboclo. que se punha de pé: – ’Stou todo arrispiado!! E muito dito chistoso e muito verso de sentido equívoco acudiam em turbi lhão ao Ca bo clo e à Fi andeira. Os protagonistas denominavam-se: o Caboclo. nas ameaças. – En. irritando a pequena boneca em seu trabalho: A Fi an de i ra. Apanhando reminiscências. nas danças. Na Roda de Fiar ele entrava. Em seguida à Roda de Fiar vinha A Criação do Mundo. crescia do tablado.Festas e Tradições Populares do Brasil 161 Iniciava quase sempre essas récitas A Roda de Fiar.. às ovações da platéia.. pulando-lhe à cinta uma cabacinha e munido de um facão. camisa ar regaçada. no paraíso. o diálogo corria pouco interrompido. Abel. o Caboclo entusiasmava com os seus repentes.

ao que ele atendia..162 Melo Morais Filho Ro si nha da saia cur ta. Bar ra de sal ta-ri a cho. Des co briu-se a la dro e i ra!. que. ao ferver de um batuque rasgado e licencioso.. bradava: – Quebra. Arriava-se o pano. havia desaguisado. Bota estes co cos aba i xo! Então. e.. Que dá pau para cuié. partiam ardentes. ∗ – Des ta vez não fiz pe chin cha. dando umbigadas. intervinha beneficamente no conflito finalizando o drama por um cateretê. Caim matava Abel. em que o Padre Eterno dançava com sinhá Rosa. Trepa aqui nes te co que i ro. bravos e risadas. sapateando. . minha Malmequeres!.. A história intrincava-se. reverentemente comovido. Rebola. cantavam o estribilho. meu povo. descia do Céu. aos peneirados do Caboclo... bulha incessante.. adantando-se e inclinando a cabeça: – Obrigado. numa apoteose de nuvens de pasta de algodão. murmurava. sendo surpreendido numa escamotagem de prendas. sinhá Rosa!. E palmas repetidas. Quem qui sé vê mexerico Vá na boca de muié . ao que este soltava: Gran de pi nhe i ro tão arto. e o Padre Eterno. vestidos de riscado e carapuça encarnada.. que ainda é popular: Dá de cumê ! Da de bebê ! San ta Casa é quem paga A você! – À cena o Teles! – Bravo do Teles! – À cena! – partiam da platéia.. obrigado.. sucedendo após minutos um jongo de autômatos negros. Assim exclamava o Chico-Gostoso da grade do seu tablado dos leilões. revelando-lhe a tentação da serpente. Eva queixava-se a Adão. que.

o imperador. e a rapaziada tinha como o melhor as vaias e os “foras” ao fogueteiro. quem dá mais? UM HOMEM – Dou mais meia pataca.. dou-lhe duas. se a fortaleza ou as fragatas: as moças gostavam dos girassóis e da lua. dominava no meio de sua corte.. com o seu manto verde e sua coroa dourada.. Scio! Scio!! O POVO – Bravo! Bravíssimo!.. CHICO-GOSTOSO – Toca a música! O POVO – Ainda não! ainda não!. sentadas em esteiras. trazidas de casa. quando lia-se no transparente em cifras cambiantes – Glória ao Divino – a turba saía das barracas.. CHICO-GOSTOSO – Tenho dois mil-réis pelo porquinho. os sinos ... e magníficas ceias. – Dou-lhe uma.. as famílias aguardavam... que andava em verdadeira roda viva. por essa radiante conclusão dos festejos. a afluência aumentava. Nas noites de fogo. os meninos da mulher que mija fogo e do barbeiro.Festas e Tradições Populares do Brasil 163 E uma trovoada de risos e uma pateada geral antepunham-se à imperturbabilidade do capadócio leiloeiro. Depois da meia-noite queimava-se a primeira roda: formavam-se partidos para saber-se quem venceria.. CHICO-GOSTOSO – Pois o coré é seu. dou-lhe três. as congregavam expansivas. Toca a música! O POVO – Bravo! Bravo do Gostoso! ∗ No império. Ao arder a derradeira peça..

o acampamento levantava-se. ao toque das serenatas. e a multidão pouco a pouco dispersava-se. os aplausos redobravam. aos últimos episódios da função. Não faltavam comentários divertidos. quando a nossa sociedade não tinha a pretensão de querer impor-se pela decadência de seus costumes e pelo enervamento de seu senso religioso.164 Melo Morais Filho repicavam. Eis o que era naquele tempo a festa popular do Divino. .

FESTAS RELIGIOSAS .

. de rios que se espadanam. . sem olhar para outro horizonte que não seja o de suas crenças. . . aquela gente altiva e inculta encontra quase sempre nessas fontes o segredo de suas lendas piedosas. e daí acentuada característica de sua psicologia especial. Ela marcha segura em seu caminho. o problema da fé. . de ser-se religioso. . . o simbolismo do culto exerce poderosa influência. de florestas virgens e de vozes misteriosas. . .. sem controvérsias. . . . e trilha indiferente sobre rosas e sobre espinhos. afagadas pelo sobrenatural. . Diante da natureza selvagem. fatalista por vezes e supersticiosa quase sempre. No espírito delicado das populações do Norte. Crente por índole. As Santas Missões C alma e solene como o sol poente é a alma religiosa que se embevece das maravilhas do Céu e que aceita. que tanto eleva e realça a religião cristã. de seus cantos e contos. . . . . . . . embaladas pelos cantares suavíssimos da Igreja. de sua ten dência ao entusiasmo e à devoção. . de cascatas que mugem. é impossível deixar-se de ser crente. . .

outro intérprete além do coração. em preendiam anualmente a salvadora cruzada.168 Melo Morais Filho Parece que se habita o país natal da grande poesia. Em uma freguesia. Em outros lugares. na falta de um templo qualquer. Nos povoados onde as igrejas eram demasiado pequenas. e nenhuma outra coisa a substituirá. devido às circunstâncias do acaso. A Santa Missão realizava-se pela quaresma.. ali se achava. e o povo em peso comparecia no templo para a expiação das culpas e remissões dos pecados. trazia dádivas espontâneas. quando havia Missão todo o mundo sabia. e a boa nova encontrava disposto o ânimo dos fiéis para os jejuns. um toldo acrescentava-se ao alpendre singelo – teto protetor de inúmeros crentes que vinham de longe para assisti-las. dentro do qual o santo missionário fazia erigir um altar. A notícia espalhava-se distante. acendia velas de cera antes de começar a doutrina. difundia-se como por encanto. de desenhar mais nitidamente o perfil daquela raça. armava-se. Esvaziai a flo resta e os sertões da sombra de Deus e os sé culos farão me dos pendurados das ramas dos arvoredos excelsos. geralmente às sextas-feiras e aos domingos. antecipava-se contrito à tradicional desobriga. Os homens da fé viva.. a um lado do altar. sem arte preparado. quando esta é seguida de uma jornada de penitência. os missionários capuchinhos que to mavam o rumo do Céu pela estrada que vai do sacrifício à morte. capaz de merecer um raio dos nossos crepúsculos dourados! Dentre os costumes populares do Norte. colocava a sagrada imagem de Cristo. dessa poe sia sempre nova e eterna. a prece em comum e outros deveres forçados à estação e ao ato. porém. tirai daquele povo a religião com todos os seus prejuízos. toscamente feito. que não pode ter outro ideal além da divindade. enorme barracão. O povo adornava de folhagens aromáticas e flores nativas o improvisado templo. O púlpito. e o confessionário via-se defronte. com todas as suas superstições. . do que uma Santa Missão. bem poucos exis tem mais na altura de enfrontar com a natureza amena e aspérrima da queles climas. em dias variáveis.

que sentava-se depois ao acaso. O luto da quaresma. para explicar a doutrina cristã. sucedia a ladainha.Festas e Tradições Populares do Brasil 169 Uma cruz. as famílias. O efeito que isso causava. humilhada. em que a quietação e o silêncio campeavam imperturbáveis. contemplava respeitosa e atenta ao missionário. o adro da igreja e a praça regurgitavam de povo. que descia do altar-mor e sentava-se em sua cadeira sacerdotal. À explicação da doutrina. quando as aves cantam nas selvas. os sertanejos começavam a abandonar suas habitações humildes. a pé ou em carros de bois. encaminhá-lo pelo batismo. traduzia o pensamento da construção e convidava os fiéis ao recolhimento da alma e à meditação na morte. E a igreja se abria. que os ecos repetiam rolando pelos despenhadeiros e tombando nas esplanadas. era o objetivo do sacerdote errante. compenetrada em extremo do martírio da Paixão. ganhando a estrada. ins truí-lo no catecismo. pouco a pouco... e ajoelhava-se. carregava o aspecto dessa cena ao ar livre. cantada pelo catequista. Ao entardecer. as mulheres e as crianças paravam um instante.. dominando ao alto da porta da entrada. aproximavam-se do arraial e. tornava-se compacta logo após. bipartia-se primeiro. a turba apinhada prolongava o acompanhamento. fazendo coro a multidão.. o escravo benzia-se e implorava misericórdia. no domínio pleno dos sertões bravios. quase simultânea ou oportuna. Pre pa rar o povo pela penitência. ce lebravam-se comumente as Santas Missões. . E de fora. passando. o religioso temor daquela gente. à semelhança do órgão das catedrais. do apóstolo impregnado das verdades eternas.. pela prática da virtude e do bem ao reino de Deus. Nas igrejas das freguesias. as desobrigas do ano. entretanto. de joelhos. Estanciada por último à gra de do presbitério.. para ensinar os man da men tos e as orações que serviam de preparo à confissão. era indescritível: o tabaréu descobria-se. Em um instante a turba invadia o recinto. persignando-se. e seguiam. à espera do catecismo e da prédica.

.. E seu fervor alentava-lhe intenso.. Mais tarde. porém inspirada. E começava: Vida bre ve. o choro. batendo nas faces: Misericórdia!Misericórdia!. abrigava desde logo. E erguia-se! Era o missionário. cuja palavra ardente de fé. que faz resplandecer as ações.. Neste momento. O povo. e a esperança do Céu. que avigora as lamas piedosas. Do mor rer a hora in cer ta. que redime as culpas. e.. ele. os soluços e os ais dolorosos asilavam-se no templo... empunhava a disciplina de pontas de ferro. voltado para a imagem de Cristo encerrado. descobria-se no púl pito mural. debaixo de suas .... saía a procissão de penitência. formando uma atmosfera sonoramente lúgubre e dolorosa. cada vez mais intenso. dirigia o povaréu.. era o capuchinho intrépido e sublime apregoando a lei de Deus nas solidões do Novo Mundo!. de um hospital.. orando. era o apóstolo do Evangelho que pregava a penitência. as lamentações. a frase incorreta. ti nha no braço a força de um exército! E depois de confundir os ví cios. e uma figura ajoelhada. de pés descalços e alçando uma cruz. preparava as almas para a bem-aventurança. nem mais uma voz.. açoitando-se convulso. Mor te cer ta. penitente e horrível bradava: Misericórdia!!Misericórdia!!. de exalçar as virtudes. repetia. e condenar à morte eterna aqueles que viviam em pecado.. suspenso à sua palavra. à direita e à esquerda. A crença.170 Melo Morais Filho Depois. se era necessário. refletindo.. nem mais um cântico sagrado! As luzes batiam pálidas no Crucifixo do presbitério deserto.. com a fronte entre as mãos. de um cemitério. para a construção de uma capela. com o crucificado na destra trêmula.. de bruços.. olhava-o pasmado. precedida do venerando missionário que. E o povo.

Os breves. rompendo a marcha. cantando: Piedade. transpondo vales. famílias inteiras deixavam as suas casas e incorporavam-se ao préstito. A cada versículo. respondia. e para lá se encaminhava com o seu rebanho de pecadores. ansiavam pela presença do missionário que os encaminharia através do sertão e florestas.. no final de cada oração. Alguns penitentes. alentavam-nos com as promessas de perdão dos pecados. onde elas existiam. revendo na consciência o negror de suas culpas. entoava a ladainha. aquelas mulheres negras ou trigueiras. os escravos que . pela extensão das estradas bárbaras. Por onde quer que passassem os penitentes. para a romagem compensadora das boas obras.Festas e Tradições Populares do Brasil 171 asas cândidas. os pontos mais conhecidos e próximos. lutando braço a braço contra a dificuldade das distâncias. pelos despenhadeiros vertiginosos e profundos. esperavam também.. anunciadas na palavra inspirada e austera do catequista intemerato.. Dir-se-ia os alaridos de um titã fulminado nos primeiros dias do caos! E a procissão seguia.. coroados de espinhos da mata. Pelas três horas da tarde. Sem as pedras necessárias para a edificação planejada. já os penitentes começavam a reunir-se nos largos das matrizes. as milagrosas relíquias. e o capuchinho. o fervoroso sacerdote buscava as margens dos rios. aqueles rumores tinham alguma coisa de sacrílego e monstruoso. com os sertanejos valentes e infatigáveis nas jornadas assombrosas. afrontando o imprevisto das selvas e o desconhecido dos caminhos.. o povo em tropa. Senhô!. De repente tocava o sinal da partida. E aqueles homens morenos e possantes. aquelas crianças aventurosas e obedientes. e serras. Pi e da de de nós pecadô. os pobres sertanejos. Entornados pelas matas soberanas e escuras.. as indulgências abundantes robusteciam aqueles espíritos. à porta de determinada igreja.

. O povo. E o suor gotejava da fronte e dos braços nervosos do matuto. e. os meninos e os tropeiros.. as crianças suspendiam nas mãos erguidas as que lhes couberam na partilha. que pudessem carregar. Chegando a procissão. A multidão era numerosa: de mais de seiscentas pessoas. E as mulheres cantavam: Quem é que esta pedra Me aju da a le var. os homens possantes e as crianças. na viagem sublime e obscura dos atos meritórios e do Evangelho! E de longe. umas harmonias brandas como o respirar da in fância. fugindo às tropas e aos povoados.. às vezes. punha-se em movimento. erguia-se solene: o sol dourava-lhe a barba grisalha e ondulante. as virações da tarde enchiam-lhe a manga do burel grosseiro e humilde. Eis senão quando. para fins piedosos. . as mulheres e as meninas descansavam aqui e ali. que habitualmente constituía-se em prolongamento da Santa Missão. suspendiam à cabeça e ao ombro as pedras da romagem. o peso das pedras enormes. a uma légua de caminho. passando de um ombro para outro. que via nele a figura de um santo. que conduziam às vezes. as mulheres aliviavam. que o adorava. o missionário. lá do além. compunha-se uma procissão de penitência.. Senhô! Pi e da de de nós pecadô. colonos da fé. choravam penalizados. enquanto os homens separavam e escolhiam as pedras mais ou menos volumosas. Que Nos sa Se nho ra Nos há de ajudar. o capuchinho suspendia as rezas.172 Melo Morais Filho não podiam segui-los. vinham ainda extinguir-se no soturno da igreja: Piedade. lá iam felizes na romaria de Deus. de bem longe. as mulheres e os velhos. É belo de imaginar-se o grandioso espetáculo que se desdobrava à vista. tomando a cruz. uma espécie de coro de anjos nas horas misteriosas e melancólicas do crepúsculo.

fazia seguir do pungitivo coro: Piedade... Sinhô!. como os ecos de Josafá nos funerais do mundo! Assim eram as Santas Missões .. Pi e da de de nós pecadô.. em marcha forçada. E essas toadas reboavam na floresta.Festas e Tradições Populares do Brasil 173 E quando as trovas populares e religiosas emudeciam. o apóstolo das selvas. recomeçava os cânticos sagrados. o missionário imponente e admirável. que o povo. assim a fé anti ga erigia seus santuários magníficos. hoje quase desertos de tradições e de Deus! .

San ta Mis são .

E para o poeta e o erudito. . envolvido no manto luminoso de suas asas. de onde os povos passam aos espaldares de bronze da História. o filósofo e o artista. . . . O dia de S. . . de Portugal. nos leva direto à pesquisa de fatos reais. S. embora desabrochados sob a influência do maravilhoso e rescendentes de odores místicos. sem a lenda. . Sebastião. nenhuma outra fonte se lhes depara de concepções mais grandiosas do que aqueles santuários silenciosos. . fora incorreto o desenho dos caracteres. e de lineamentos confusos a embriogenia das grandes empresas e das lutas sobre-humanas. Catarina. . encontramo-los encimados por tantos nevoeiros fabulosos. . Era no ano de 1563. Anchieta e Nóbrega fazem chegar notícias de pazes celebradas com os . . . a que se lançaram os primitivos colonizadores deste País. . . . . À Rainha D. . . . Remontando-nos aos nossos monumentos históricos. que.. . Sebastião (FUNDAÇÃO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO) É das solidões das crônicas que o pensamento das gerações mortas ressurge. . . que relembra o da fundação da cidade do Rio de Janeiro. . .

à míngua de embarcações pequenas. enquanto que o mar. apressou-se aquela soberana em fazer expedir para este porto Estácio de Sá. devendo aí receber ordens de seu tio e partir sem delongas a senhorear o Rio. ao entrar da barra em 1565.176 Melo Morais Filho tamoios. com guarnição de terra e mar. que se achava em guerra. entesando o arco no semicírculo das praias. era marchetado de canoas balouçantes. À noite. fez-se de vela e foi largar âncoras no porto de Santos. flechando-lhe soldados. Prevenindo sublevações futuras. à semelhança da pele mosqueada das onças. considerava a guerra. Sem recursos para corresponder às represálias do inimigo. Apesar de manterem-se relações amistosas com os tamoios de Iperig. seguindo ele viagem para este porto. espumavam epiléticas nas suas danças diabólicas. freqüentes sobressaltos aquebrantavam o ânimo esforçado de Estácio de Sá. não obstante algumas surtidas. A esquadra. frustradas pela disciplina dos franceses e seus aliados tamoios. que devera . Consolidar as pazes com os tamoios e rechaçar os franceses. Mem de Sá. Vicente. conservava-se fora da barra. desde Cabo Frio até à província de S. fá-lo acompanhar por uma frota. que lhe aprisionava alguns batéis. era o ideal do Governador e de Estácio de Sá. calculando que disso resultaria prover-se de mantimentos que lhe faltavam. sobrinho do Governador Mem de Sá. visto como. que foi ter à Bahia.. os pa jés consultavam os oráculos. de que os mesmos índios haviam violado o pacto e acometido os aldeamentos portugueses. Estácio de Sá resolve-se.. e as feiticeiras. missionados por Anchieta e Nóbrega. por circunstâncias de séria gravidade. não vacila. com duas galeras armadas. Paulo. Os guerreiros gentios. Nas montanhas estrugiam os búzios e buzinas de guerra. alterou este plano. evocando os gênios de suas cabanas. e de canoas ar madas que dessem desembarque à sua gente. ir a S. escureciam com a sombra a transparência azulada das águas. que. à vista das revelações que lhe fizeram em terra. as fogueiras acendiam-se fumantes. índios canibais e guerreiros que dominavam a costa do Brasil. antes de atacá-los. de posse de instruções escritas.

as canoas inúmeras dos adversários que subiam à tona d’água. levou palavras de consolação àquelas aldeias. com probabilidades irrecusáveis. Sebastião. E ele falava em nome de Deus aos soldados e flecheiros bárbaros. Anchieta. ao açoite das vagas empoladas e ventos contrários. seria vencido. entendendo Anchieta que era servido o Céu que desta vez se fundasse a cidade real do Rio de Janeiro.Festas e Tradições Populares do Brasil 177 declarar aos exércitos confederados. relembrando-lhes as glórias de seus pais. a abordagem dos navios e o aprisionamento de canoas. O sibilo das setas de parte a par te. os inimigos deixavam os ma res coalhados de cadáveres e as fileiras vito ri o sas dos por tugueses opu len tas de cativos. entretinham indecisa a sorte da guerra. incorpora-se à frota de Estácio de Sá. Fitando a imensidade. porém. tocando ao Espírito Santo. como o vômito negro do Inferno sobre aquela superfície que vozeava nos gritos selvagens dos íncolas ferocíssimos. acendendo-lhes o valor. a quem tomam por padroeiro da empresa. parte para S. a troca de projetis de arcabuzaria. e a 20 de janeiro. a decisão da contenda. porém. uma luta na qual. nos mares que o circundam. dia de S. o olhar penetrante de Anchieta destaca nas serras e nas praias os tamoios emplumados e aguerridos. junto ao Pão de Açúcar. reclamado pelo superior da Bahia. e providenciou com referência às forças militares existentes. Entretanto das pelejas. E o jesuíta das Canárias que. Nóbrega e Anchieta. preocupado com os sucessos do momento. a julgarmos pela frase citada de Simão de Vasconcelos. Nessa viagem. formam-se trincheiras. . amparando-lhe o espírito abatido. Vicente. no mês de março. teve de separar-se da ação e obedecer. assistiu ao enterramento do Padre Diogo Jácome. a infantaria desembarca. vaticinaram-lhe êxito feliz. cavam-se fossos estratégicos em Vila Velha. e as tradições de sua terra. representa o principal papel neste acontecimento. Chegados que foram. arriando ferros no Rio de Janeiro.

índio antropófago e senhor de Cabo Frio. légua e meia distante do acampamento inimigo. de ouvi-lo. manifesta-se propício nas aparições tangíveis e nas invocações irrevocáveis. a fé an ti ga ia co lher no mi la gre as pro mes sas de vi tó ria. Imaginando um ardil. ar mam eles cento e oitenta canoas de guerra e as ocultam num braço de mar. Pedro Leitão confere ordens sacras a Anchieta que. Por essa época o Bispo D. lutas titânicas e episódios lendários encenavam-se na deslumbrante e colossal baía do Rio de Janeiro. sem perda de tempo. adornando-lhe o peito amplos colares de dentes de cem . para tornar-se definitiva a vitória dos portugueses e construir as fortificações marítimas. perseguindo igualmente o seu objetivo – a fundação da cidade. O governador. Sebastião. que escudara com o dia de seu nome a iniciação da guerra. com os receios que geram persistentes azares. na mais ágil e guarnecida de quarenta remeiros por banda. À frente...178 Melo Morais Filho Aportando à Bahia. campeava como chefe. ao lado de Mem de Sá. Guixará. para o que determinou que aparelhassem os melhores navios. dispôs-se a vir pessoalmente comandar a esquadra em evoluções. Aos tiroteios sem trégua. batia-se com denodo: aquela alma de combatente era uma sentinela perdida nos arraiais da defesa e da lealdade. com as cautelas que inspiram os grandes desastres. às canoas metidas a pique. tornavam-se imprescindíveis mais reforços de embarcações e tropas. conferenciou com o Governador Mem de Sá. vinha compartilhar de suas pro vações. Enquanto a frota navegava e dramas ignorados desenrolavam-se no seio das naus e brigues veleiros. – São as trevas iluminadas que toucam as crônicas! ∗ Era em julho de 1565. aos gemidos dos selvagens acolados aos troncos das árvores pelas flechas que os tras pas sa vam. narrou-lhe os heróicos feitos de Estácio de Sá e dos seus soldados. bem tripulados e artilhados. Os franceses e tamoios o observavam. Estácio de Sá. ponderando-lhe que. S. firme no seu posto.

Estácio de Sá.. Entretanto. E uma floresta de remos afunda-se e relampeia nos mares. indo juntar-se às outras que lhes vêm ao encontro. Enquanto os índios e os portugueses. à detonação de uma roqueira que dispara e incendeia um punhado de pólvora. eis que recorta as ondas a jangada de Francisco Velho. três das referidas canoas dobram de uma ponta de pedra. chamá-los ao largo e.Festas e Tradições Populares do Brasil 179 tribos vencidas. Sebastião. os beligerantes são insensíveis a tudo que se passa em torno de si. aninha os alaridos bárbaros daquele povo que julgava antecipar-se à vi tória. dá pressa a que soltem quatro canoas com escolhida guarnição. que entoa um canto fúnebre. Apenas dispara alguns tiros.. mordomo de S. É que entre o céu e o mar é preciso escolher: vencer ou morrer. Assim combinados. caindo de joelhos e de mãos postas. E uma nuvem de setas. nunca mais isolados se sentirão de tudo que lhes tenta o viver. O fogo dos arcabuzes. entra em uma delas e corre a salvar o lenhador devoto. transportando no esquife ensangüentado de suas vagas os cadáveres que tombam. afluírem as da reserva. exclama: . descortinando o incidente. e o seu cocar é de plumas variadas e magníficas. que ia buscar madeira para a construção de uma igreja consagrada ao santo. combatem sem medida. No ardor que os anima. e os golpes pesados e surdos das maças dos selvagens inquietam a superfície do mar. formando no espaço uma asa escura e compacta.. alguém. o sibilo das flechas voadoras. os inimigos fingem retirada. sem disciplina. com a sua natural bravura. indo-lhe ao encalço. E o que significava isso? Uma cilada: mandarem pela madrugada quatro daquelas ligeiras embarcações oferecer combate aos portugueses. empenhando-se desde logo uma briga violenta e desesperada. Ao percebê-la.. caindo destarte prisioneiros ou mortos os que de improviso acudissem em socorro dos primeiros acometidos. quando eles viessem. O seu corpo é listrado de genipapo e urucu.

nada poderemos assinalar. é o que nos demonstram as crônicas. dirigiram-se ao templo. todo entregue às suas idéias místicas e aos prejuízos religiosos das raças antigas. Sebastião. o nosso padroeiro. Os tamoios. e o arco de ipê desobedecer-lhes ao braço outrora fortíssimo. Sebastião. conquistando em cada uma delas um laurel à sua apoteose. adornados de flores e no meio de hinos de festa. É da lenda que os aliados dos franceses. ou serão vencidos. amedrontados. e saltando em nossas canoas? Ao que eles respondiam. recordando-se da quela hora fatal. O segredo da lenda existe na sua própria natureza. que ele trouxera consigo o Bispo D.180 Melo Morais Filho – Valha-me o mártir S. porque as veredas entulhavam-se de selvagens alertas. Sebastião! E a mulher de um chefe tamoio. assombrada. de que dão notícia os cronistas de nota. Depois deste ataque. E em cada sertão as redes dormiam vazias. na convicção inabalável de suas crenças: – O gentil-homem que vistes. desertam com as suas canoas. perguntavam aos portugueses: – Quem era aquele gentil-homem que andava armado durante o conflito. a render graças a S. era S. vindo aqui fundear em 1576. enfiando os dedos nos cabelos hirtos. . E Estácio de Sá e seus soldados sustentavam refregas valorosas. porém. Das peripécias e ocorrências durante a travessia de Mem de Sá. Pedro Leitão. Anchieta e outros padres. era avultado como os grãos de areia de nossas plagas. instituída a célebre festa das canoas. A fadiga. Este quadro é a psicologia do intrépido marinheiro português. ficando. a escassez de víveres e a morte começavam a passar revista aos batalhões temerários. como lembrança do memorável feito. que sentiam já o arcabuz pesar-lhes no ombro. e que durou até os últimos tempos da colônia. os guerreiros vitoriosos. O inimigo. brada aos seus que fujam. deixando algumas aprisionadas e muitos cativos. como se pode verificar nos arquivos da nossa municipalidade.

A sua inumação foi simples e rápida como a dos heróis de Homero! O governador demarcava limites. confiando o comando da infantaria a Estácio de Sá. ao qual o Rei D. e de cujo ferimento veio a falecer um mês mais tarde. o convés da capitânia transmuda-se num escarpamento de luz. . a quem intercede e toma por patrono ao audaz cometimento. o silêncio e a tristeza rendiam as derradeiras homenagens ao cadáver de Estácio de Sá. escolhendo os jesuítas lugar para edificação de um colégio. Das crônicas religiosas do século XVI foi esta a superstição tradicional que produziu mais gloriosos efeitos. Terminada a guerra. Sebastião cedeu patrimônio. Vicente. resolve-se a assediar as aldeias e baluartes inimigos no dia de S. devido ao nome do rei de Portugal e à proteção do milagroso santo na trilha das vitórias alcançadas. Arrasados os redutos. E Anchieta assiste à fundação da cidade nascente que. aos 18 de janeiro. no amanhecer do dia 20 assalta a inexpugnável fortificação de Uruçumirá. homem de fé viva.Festas e Tradições Populares do Brasil 181 Nessa conjuntura. a quem o governador e os seus bravos atribuíram o sucesso da batalha. parte Anchieta para S. regressando oportunamente com o ilustre Nóbrega e mais padres da Companhia. por onde dois vultos gigantescos – Anchieta e o governador – sobem e devassam a imortalidade. Sebastião do Rio de Janeiro. Mem de Sá. incendiadas as aldeias e desbaratados os franceses. Desembarcando com armas e munições. estacionado na entrada da barra. Sebastião. novas graças foram dadas ao divino Mártir. sendo ali flechado Estácio de Sá. ativava a construção das muralhas e fortificações. as velas da esquadra de Mem de Sá alvejam no horizonte. Apenas à flor da terra branqueavam os muros da cidade. Aproximando-se. denominou-se – Cidade de S.

dando caça e abordagem aos pechilingues. consta da escritura que temos à vista. . . . a baía do Rio de Janeiro balançava em suas águas os navios dos piratas franceses e flamengos. . . . . . Sebastião do Rio de Janeiro. E aquela montanha que se agigantava coubera em partilha a José Rangel de Macedo. . . A colônia assim desacatada. . que transportavam para suas terras o ouro. . Ainda coalhada das flechas dos gentios mortos e dos destroços dos batalhões franceses. . . mais tarde ao Capitão Gabriel da Rocha Freire. ar mava o corso. . em seguida a seu filho Francisco Rangel. passara por compra ao Dr. . . A Festa da Glória verde cimeira do morro da Glória crescia dos mares espelhantes do sol. . que em 20 de julho de 1699 a cedeu em patrimônio a Nossa Senhora da Glória. . . . . Recentemente fundada a real Cidade de S. que respiravam a largo pulmão na atmosfera da rapina e da morte. . A . e deste terceiro possuidor. Salvador Correia de Sá a compassava em sesmarias. Cláudio Gurgel do Amaral.. as resinas e o pau-brasil. . como uma esmeralda polida na salva de ouro de uma odalisca. que doava aos pelejadores dos últimos combates contra os tamoios e seus aliados.

lhe foi apresentado no templo o Sr. Francisca. tornou-se-lhe o asilo de paz e uma escada mística por onde a sua esperança ia resplandecer no céu. que. mandava as Princesas D. que tinha lugar nos dias mencionados. tais como: lâmpadas de prata. ofereceu à igreja da Glória os paramentos sacerdotais para missa cantada.184 Melo Morais Filho Na vargem da cidade. orando no ato o sábio D. Em desenho de estatuário. os novos sesmeiros opulentavam-se de doações. Pedro II abandonado a tradição paterna. faz ressaltar o vulto imponente do anacoreta Antônio Caminha. em cumprimento de um voto. ao passo que o ideal de Deus e da Pátria alentava-lhes o braço e trabalhava-lhes fundo nos seios da alma. em data posterior à do seu casamento com o Príncipe de Joinvile. era tradicional na família reinante do Bra sil o fervoroso culto à Senhora da Glória. no dia de hoje a aurora encontrava sempre às suas portas a turma dos fiéis. aos lamentos do mar e à reza dos ventos nas palmeiras. a família imperial concorria para o culto com preciosíssimas dádivas. . e alumia as sombras errantes de tantos peregrinos. etc. fundara a primitiva ermida de Nossa Senhora da Glória. Reconstruída. em razão de ser doado o morro à Sagrada Virgem. no morro de S. Assim. mantos e túnicas de brocados. Romualdo. e que mesmo depois de haver o Sr. a Princesa D. cálices de ouro. Desde o velho Rei. em cuja eminência a lenda. erguendo nas trevas seu facho de estrelas. semanas depois de nascido. perto das nuvens. subindo ao púlpito o eloqüente Monsenhor Marinho. D. coroas de ouro e bri lhantes. projeta claridades serenas no campanário derrocado da antiga ermida. ardendo na noite dos séculos. D. e reproduziu-se igual cerimônia com Sua Alteza a Princesa Regente. Sebastião. E o archote dos mitos. Desde logo a igrejinha. em 1714. Contam os antigos que à missa dos sábados jamais o primeiro Imperador deixou de comparecer com seus filhos. Leopoldina assistir ao santo ofício. Pedro II. como se acha atualmente. Obedecendo ao sentimento altamente religioso que o prendia à miraculosa Senhora. que outrora a buscavam nas romarias da fé. Como recordação desses estilos. às oito horas. eis alguns traços dos tempos de corridos e a história patrimonial do outeiro da Glória. Isabel e D. em 1671.

Festas e Tradições Populares do Brasil 185 No tempo de Pedro I as festas da Glória eram ofuscantes de brilho pelo lado religioso. as casas e as ruas enfeitavam-se. vestiam na sacristia a Sagrada Imagem. o entusiasmo público transbordava pelo que a religião tem de mais poético e o coração de mais nobre. João VI fizera vir da Itália. os quarteirões do Catete e da Glória povoavam-se como nunca. As músicas tocavam nos coretos. como conclusão aristocrática. nem se engolfava no indiferentismo que asfixia. bem como as Baronesas de Sorocaba e de S. as missas eram de compositores da estatura de Pedro Teixeira. A crença popular não conhecia medida. toda armada e circulada exteriormente de luzes em globos e arandelas. de grandeza desusada como pompa exterior e de verdadeiro caráter principesco. naquela época moças da mais elevada classe. pregavam oradores célebres. os bailes da Baronesa de Sorocaba. iluminavam-se. Margarida Delfim Barroso e D. Oficiavam bispos. À semelhança de um pássaro abrigado sob a rama que cobre a terra de perfumada sombra. D. Nicolau. . e os sopranos pertenciam ainda ao grupo dos sete castrados. O prólogo da admirável festividade eram as novenas. A festa da Glória era um exemplo palpitante: foi um ser que existiu e de que hoje vemos apenas o fantasma que se esvaece coroado das rosas pálidas e fanadas das visões de Macbeth. No dia cinco. eram honrados pelo primeiro Imperador. Ao escurecer. Cantavam no coro as vozes mais afamadas. de manhã. Matilde Delfim Pereira. cuja presença representava a majestade da festa e a soberania do amor. o povo refugiava-se nas suas inocentes crendices e não se preocupava inutilmente com as ondas subterrâneas de uma falsa ciência que esteriliza. as aias de Nossa Senhora. afinado pelo diapasão das tendências devotas e nacionais. campeava nos ares como um farol à distância. a festa de que nos ocupamos tinha sentimento próprio. José Maurício e Marcos Portugal. À noite. que levavam para o altar. que estuavam nos dourados salões de seu palacete da subida do morro. que o ilustre e tão desfavoravelmente julgado D. Em anos mais felizes do Segundo Reinado. a igreja.

cabeças.186 Melo Morais Filho dando aviso aos devotos e aos mareantes das referidas novenas de que seria teatro. aproximavam-se contritos. seios e barrigas de cera branca ou colorida. e algum acessório que faltasse viria até à véspera da festa. e não Margarida. já que se achava com o armador. * Margarida Delfim Pereira. que servia de estante. que a ensaiava e fardava para as mais ruidosas funções. Todas as figuras eram negros escravos. as casas dos ro meiros atopetavam-se. promessas de mi la gres que nas horas aflitas fizeram fervorosos à Virgem de sua invocação. a principal. as ofertas à santa afluíam e tudo estava a caminho. grandes senhores e nobres damas. conduzindo a pluralidade dos romeiros velas de cera enfeitadas de desenhos. Belas mulatas. (Nota desta edição. braços. os sinos repicavam. indo postar-se na ba ixada da igreja. Os que não sabiam de cor a parte. A cabeleira da imagem. nem pela qualidade. era diretor um certo Dutra. mandada pentear por devoção por D. conduzindo devotos e curiosos. que entoava a quadra: ∗ Pouco acima o autor cita Matilde Delfim Pereira. mestre de barbeiros da Rua da Alfândega. velhos e crianças. lustrosas crioulas. entupiam a ladeira. deixando após si grossas massas de povo. Trajavam jaqueta de brim branco. liam-na pregada a alfinetes nas costas do companheiro da frente. Desde logo os aprestos gerais começavam. de flores de pano e vistosas fitas. em que vestia-se pela segunda vez a padroeira do templo. Antes das dez horas da manhã a música de barbeiros mar chava. Ainda na noite antecedente a banda havia acompanhado a procissão da Boa Morte. Dessa banda. calça preta. A procura desses artistas era extraordinária. chapéu branco alto. procissão obrigada a irmandades e a anjo cantor.) . e andavam descalços. o uniforme não pri mava pela elegância. Logo que amanhecia. homens e mulheres de toda casta. que saía da igreja do Hospício. os carros tirados a dois ou quatro cavalos desfilavam pelo cais da Glória. pernas.

deitava as pernas para a banda de fora.Festas e Tradições Populares do Brasil 187 Deus vos sal ve. . da nobreza enfim. As carruagens.. ó Vir gem. espichavam a cabeça preta. a cada momento. dia e noite. ao acompanhamento dos barbeiros. abrindo caminho. ar regalavam os olhos vermelhos. Bandeiras e galhardetes. e as crias. preenchendo es paços vagos. que os protegiam das verberações ardentes. surdindo por trás da muralha de granito. dos embaixadores. E os archeiros estendiam-se em alas. abriam os chapéus de sol. das grandes damas da corte.. descobriam-se à descida dos altos personagens do clero. maravilhava-se da original galeria. saltando da boléia. A Lapa. Ra i nha de cle mên cia. que. estourando prolongadas. Sentados sobre a muralha que circula o templo. o Catete e a ladeira formigavam de gente. salteados aqui e ali. assustava-se da saraivada de foguetes que troavam e.. Na praça da Glória um coreto magnífico recebia a banda militar. Quem subia a ladeira. bem vestidas. que realçavam o piedoso cortejo.. o eco da cisterna do pátio de pedra repetia o fim das palavras que pronunciavam-lhe à garganta escancarada. globos e outros preparos da esplêndida iluminação completavam o pitoresco do sítio. que se encaminhavam para o outeiro. tendo entre os joelhos as crianças. balançando-as. lastrada de folhas aromáticas e som breada pelos colchas que flutuavam das janelas. os criados de libré aproximavam-se da portinhola. Mãe Ima cu la da. paravam em baixo. O hino nacional executava-se nos coretos. colchas de damasco. animava-se nos suntuosos festejos. De repente inúmeras girândolas varavam o ar. um ou outro indivíduo cavalgava o muro. rodando intermitentes. oficiais e sol dados da Guarda Nacional e de tropa de linha destacavam-se dentre o povo. homens e mulheres. De es tre las co ro a da. e os dois batedores do piquete do Imperador relampeavam de perto as espadas.

representado por suas culminações. sem perder a sua característica de pompa verdadeiramente real. No coro a orquestra preludiava os intróitos da missa solene. interessava mais diretamente ao povo. queimado às dez horas. lá se achavam – famo sos sopra nos que iam casar suas vozes às dos celebrados cantores do Lírico e da Ópera Nacional. Facciotti. Rea le e Cico ni. fascinavam de riqueza e formosura as aias e as devotas de Nossa Senhora. Naqueles bons tempos. O Te Deum celebrava-se com a grandeza dos estilos admiráveis. deixava a sacristia ornada de emblemas votivos.188 Melo Morais Filho E Suas Majestades e Altezas. luzes sem conta. Terminada a festa. para quem a tribuna sagrada foi verdadeiro “carro de triunfo”. apeavam-se tomando a serpeante ladeira subindo os degraus de mármore do gracioso adro e desaparecendo em breve no profundo da igreja. Monsenhor Marinho. persistindo a lufa-lufa. junto do altar-mor. gemas preciosas. as tocatas de violão e os bailes modestos alegravam aquela gente. o Cônego Barbosa França. os barcos refletindo na água as luzes da proa. e doze outros oradores. e quando os sinos repicavam marcando o termo da solenidade. Mont’Alverne. os três cas tra dos que se pas sa ram do Primeiro Império. com o seu séquito opulento e distinto. O aspecto interior do templo era deslumbrante: ouro. flores. parecia o eco enfraquecido das salvas . Apenas entravam Suas Majestades e as Princesas ocupavam o docel. que tinha fé e divertia-se na felicidade comum. até depois do fogo de artifício. As luminárias no templo embandeirado. a igreja. a iluminação da frente de todas as casas do quarteirão. as famílias sentadas em cadeiras à porta das habitações. o prodigioso concurso. mesmo depois da retirada de Suas Majestades. com a assistência de Suas Majestades. À noite. Nas tribunas. quase sempre composição de José Maurício ou Marcos Portugal. damasco. pregavam ao Evangelho – Sampaio. dando começo à missa. E o alto clero. a festa da Glória. o largo pátio e a esplanada da ladeira demoravam-se repletos das multidões que se substituíam.

como o vôo transparente de uma fada das regiões dos sonhos e das fantasias. de D. as mesmas cenas tinham lugar em casa do Senador Cassiano. E Suas Majestades. o corpo diplomático. à espera da dança. dirigiam-se ao palacete em que presentemente funciona a Secretaria de Estrangeiros. Sousa Franco. descendo a montanha sonora das ondas do povo sob um teto listrado de bandeiras e radiante de luzes. e a soirée desdobrava-se rá pida e encantada. e à luz do fogo nas águas destacava na murada . corre na tradição. sulcado de globos acesos o jardim. caprichosos fogos de artifício queimavam-se em terra e no mar. Rita Pinto Magessi. e passeando nas salas. os membros do Parlamento e os altos funcionários do Estado. à queda das cascatas. adornadas de pérolas e brilhantes. ao perfume das flores! Como não se elevaria o ideal do artista e do amante naquele âmbito orientalmente fantástico!. as senhoras Jerônima de Aguiar. que algumas horas antes haviam anunciado o final da missa cantada e festiva de Nossa Senhora da Glória. As toaletes de remontado valor e fino gosto artístico. Mme. da Baronesa de Sorocaba.. Nos salões amplos e riquíssimos. Severino.Festas e Tradições Populares do Brasil 189 das fortalezas. a aristocracia trocava entre si galanteios escolhidos. que fascinavam ao brilho dos lustres de cristal e dos candelabros de prata e de ouro maciço. contornadas de copos de cores as duas pirâmides – ao som da música. Enquanto no palacete do Bahia iniciavam-se quadrilhas e valsas. adiantavam-se com as suas damas. iluminado por dentro e por fora. Às dez horas da noite.. a cujo lado resplandecia divina a Princesa de S. Ninguém imagina as riquezas decorativas daquele edifício. para tomar parte nos esplendorosos bailes do Bahia. os can tores do Lírico faziam-se ouvir ao estrépito dos aplausos. que por devoção a Nossa Senhora da Glória festejavam-lhe o dia com ruidosos bailes. que eram habitualmente a Senhora de Meriti. de Saint-George. tornavam mais encantador ainda o semblante das “estrelas da noite”. nobilíssima esposa do Ministro de Nápoles. Moller e Magarinos. E Suas Majestades inauguravam o baile honrando a primeira quadrilha. as Marquesas de Abrantes e de Monte Alegre.

.. que. rolando ao longo do muro como uma lágrima... E pouco a pouco as multidões dispersavam-se. pela madrugada. Os bailes entravam pela noite adiante. apagou-se. agrupando-se aqui e ali. que bruxuleava na torre da igreja..190 Melo Morais Filho do cais e na extensão da rua o povo em tropa. para melhor apreciar o surpreendente espetáculo. E a festa da Glória passou à tradição! . ∗ É da lenda. uma luz única. quando o último baile do Bahia acabou..

. As Encomendações das Almas E ntre o sentimento religioso das populações do Norte e o sentimento supersticioso. A religião. tão lúgubres e aterradoras nos foram as impressões deixadas. . revolvendo do passado lembranças que não se apagam como o traço de águia do mar ao regougo da tempestade. . . em que as ilusões nos embalavam em redes de ouro. as aproximações tão semelhantes. coloridas dos revérberos daqueles dias. a transição é tão fácil. . e a convicção popular avigorava-se. . . com todas as suas fantasias e esplendores. . . . . que muitas vezes se confundem no enlace mais branco e vaporoso. que acompanhava o homem do berço ao túmulo. .. . Dentre essas telas esfumadas e de beleza antiga. . . nas alegrias e nos pesadumes. dessas cenas de relevo bizarro. . foi o persistente ideal daquele povo. à sombra perfumada da tradição e do nacionalismo do lar. . . as encomendações das almas nos preocupam por vezes o espírito. com todas as consolações que dá a Fé e a Esperança no longo martírio da vida. encontrou naquelas paragens abrigo remansado. muitas e variadas são as cenas que ainda nos ferem a imaginação. . . Ninguém ignora que o catolicismo. ao tom das aragens frescas dos nossos climas natais. . Recordando quadros da nossa infância. . . bem feliz outrora do domínio pleno de suas abusões inocentes e de suas cismas improfanadas. . .

a piedosa lembrança dos vivos. fê-lo palpitar sob os revestimentos da arte. E o que representam elas? As almas do Purgatório que pedem sufrágios. . que sustentava a reencarnação dos espíritos para expiação de passadas culpas. a caixinha das almas. transformada facilmente em dogma. no conceito dos padres da Igreja. listradas de amarelo. materializando o pensamento. A idéia que os cristãos da Idade Média faziam do Inferno era a mesma que tinham do Purgatório. Ninguém há por aí que não tenha visto à porta de certas igrejas. que neste último. com figuras pintadas ao alto. as penas deixavam de ser eternas para serem por tempo limitado. em que as almas submergiam-se com as formas corporais da Terra. em que o ascetismo interrompia a leitura dos livros místicos para acabá-la no Céu. nas ex-províncias do Brasil.192 Melo Morais Filho Qual o gênese desses costumes seguidos em todas as províncias do Norte. brancas e negras. dentro de tabernas e. por isso que dissipava o terror dos sofrimentos perpétuos. e mestres notáveis acompanharam a evolução do dogma. À exceção de S. Gregório Magno. levantando os braços no meio de labaredas vermelhas. devemos assinalar que nossos incultos pintores não escaparam à tentação do progresso artístico. soltavam gemidos e vozes súplices. um lugar de torturas. procuremos no esquife de chumbo dos séculos mortos. para aliviar-lhes as penas. no inventário de épocas remotas. Especialmente a pintura. Esta concepção. de lagoas de fogo e de enxofre fumegante. dessas cerimônias lustrais que por lá ainda se encontram no seu verdor primitivo. de acordo com o sentir das coletividades no seio das quais abria passagem a sedutora doutrina. Localizando o fato. com olhos de brasa e boca de fogo. trouxe ao cristianismo aspirações novíssimas. foi sempre o Purgatório.. que imploram. por um ritual distinto e imponente. que mais acentuava o efeito da Dança Macabra. e desatavam gritos. as vítimas do pecado. onde havia torrentes caudais de betume fervente.. notando-se. dessa estética maravilhosa. em várias bo ticas. porém. que se foram cimentando com as práticas propiciatórias. às vezes escutadas neste mundo.

enriquecidas de transições mal sentidas. ao pingo da meia-noite. ao afinar derradeiro dos instrumentos. soava nos ares o troar da matraca e o badalar da campa sinistra. esclarecidos por pequenas lanternas de papel ou de folha-de-flandres. que eram comprados pelos fiéis. O que significavam eles no silêncio estrelado das noites. o ponto de partida das serenatas horríveis. do mi nan do mis te ri o sos na ma ra vi lha do vá cuo? Eram as cruzes das almas. de menos para maior.. via-se. deixavam cair pela abertura do cofre trancado a esmola escondida. deixando apenas ver a boca e os olhos. em pequenos grupos. . Invariavelmente pela quaresma celebrava-se o rito popular das encomendações. que semeava a esmola para desabrochar em responsos e missas pelas almas do Purgatório. ou lugar convencionado para a reunião – vultos amortalhados de branco. nas encruzilhadas dos caminhos à distância.Festas e Tradições Populares do Brasil 193 E os pobres escravos. nas estradas e ruas. com a luz voltada para o rosto. intercaladas de frases que imitavam soluços. à liberalidade cristã. não sendo raro colocarem sobre o mesmo frutas e ovos. como ainda hoje. cujo efeito não podia ser mais plangente e infernal. percebia-se bem longe – à porta das igrejas. acompanhadas de solos e coros. De repente. nas so li dões a de so ras. pintadas de preto no exterior de casas particulares e nas portarias de velhas igrejas. as mulheres e os devotos. ou então cruzeiros de granito ou de madeira. Como complemento da idéia. tomando parte direta no sagrado em penho da salvação. Dizem mesmo que para esses atos compositores afamados concorriam com produções geniais. que anunciavam o préstito em movimento. quando as cidades e povoados estavam ermos.. Isto enquanto ao simbolismo da arte. no centro das praças. o aprisco lúgubre dos penitentes da meia-noite. Nos lugares onde não havia oratórios de pedra. cujos ecos iriam minorar os suplícios do fogo purificador. quando os Lobisomens . as crianças e os velhos. as Caiporas e as Mulas-sem-cabeça corriam o fado. entrando desde logo o dinheiro para a caixinha votiva. o povo aparecia espontâneo. com a cabeça coberta. cruzes em alto-relevo ao longo dos muros. obrigadas à música. Às sextas-feiras.

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batida.... pois que além de cometer gravíssimo pecado. etc. a solidão estendia-se em seu trânsito e circulava o ambiente envolto em trevas medrosas e profundas. agitada com violência. . Depois vinha o resto – os devotos menestréis das almas. sucedia um outro que entoava com voz cavernosa. às mulheres e crianças. as Lamentações do estilo. Aos fantásticos personagens que iniciavam o préstito. a procissão desfilava. sendo proibido. as suas capelas cantadas. Sendo da crença popular que ninguém podia abrir as janelas e as portas para ver a tétrica passeata. sob pena de morrerem assombradas.. troava. vagaroso. tangendo-a compassadamente. Constava da tradição que só homens podiam tomar parte nessas romarias em favor dos condenados de além-túmulo.Festas e Tradições Populares do Brasil 195 Alguns. envergando idênticas vestiduras e amparando as luzes das velas metidas em cartuchos de papel: logo após o homem da campainha. a campa. o portador da cruz das almas seguia imperturbável. muitos mesmo tocadores de flauta. juntavam-se aos cantores. difundindo o pavor e o medo em seu trânsito incerto e cheio de assombro. E a matraca. A um momento dado.. rompendo a marcha. escoltada de superstições e de duendes. que recebia nas trevas o reflexo rubro das lanternas acesas. admiráveis trechos musicais dos compositores da terra. morria de medo. desenrolando músicas escritas.. lúgubre e como que saída de um túmulo. que os alumiavam. começava os seus noturnos. formava uma abóbada funebremente sonora. com buracos para os olhos e a boca. sacudia ao vento a manga ondulante de sua túnica de morim. fazendo estações aqui e ali... visto como as almas faziam parte da comitiva. entre dois indivíduos cabisbaixos. e. Adiante. prolongando-se até mais de uma hora. rabecas. envoltos em suas roupagens de neve. E a procissão passava!.. E a serenata da morte. pavorosa e de fazer ar repiar os cabelos. violoncelo. findos os preparos. cadenciado. a matraca batia. de cabeça erguida. passava!. afrontar o preceito lendário. tétrica. os encomendadores das almas desciam lentos de sua soturna estância. a campainha vibrava metálica.

o faziam também.. os Padre-Nossos. passava!. aquele indivíduo isolado dos seus companheiros – o baixo-profundo –. preces... despertavam: ouvia-se choro.. começando a capela noturna. e as lamentações . na persuasão de que os ouvintes.. os moradores das casas vizinhas e longínquas. encerrados em suas casas..196 Melo Morais Filho De escutá-las. penitentes que surdiam daqui e dacolá. tocavam à surdina. bradava um cantor: “Um Padre-Nosso com uma Ave-Maria por alma dos presos da cadeia!. no mesmo instante. o préstito fazia alto.. Depois os demas músicos acercavam-se da figura principal e. sucedia reunirem-se a estes... passava!. os instrumentos davam afinação. e o violoncelo. apenas terminava a reza. Eis senão quando a matraca e a sineta emudeciam. em tons fúnebres e pesados como o estouro das vagas nas praias desertas.. os tropéis aquietavam-se. entoava silábica e monotonamente a cruel e pavorosa Lamentação: “Pe-ca-dor-en-du-re-ci-do!!. e assim por diante... E a procissão passava!.. soluçava dolorosamente. coroados de espinhos e com as costas nuas. não se pode imaginar o efeito sobrenatural dessas composições especiais sobre espíritos fracos e de credulidade exagerada. Ave-Marias e Salve-Rainhas eram de novo cantados. vestidos de saias de mulher. gemia sob os dedos inspirados do artista.. prosseguia um outro. “Um Padre-Nosso com uma Ave-Maria por alma dos afogados!. rumores.. Um vulto tomava a frente. açoitando-se à sangue. seguindo...”.. E aquela espécie de alma penada.” A impressão que isto produzia era horrível. Junto a um oratório aceso ou cruzes de almas. espevitavam-se as velas das lanternas esbraseadas. .” E todos rezavam cantando. produzindo sons despedaçadores.. as crianças e as mulheres. e o silêncio crescia mais taciturno e misterioso. Em caminho.. por exemplo. sobre as quais faziam vibrar férreas disciplinas. E a procissão passava!.

ao escutá-las. que impedia de respirar livremente. que variava com as circunstâncias e os meios.. por que deviam ser invisíveis tais grupos de músicos ambulantes? Por que as encomendações de almas podiam ser unicamente ouvidas? Corria na tradição. E não a encontrava!! Dizem alguns que o frade encantado era uma alma penada. só via um rebanho de ovelhas (eram as almas) e um frade sem cabeça que entregava-lhe uma vela de cera. de pedir a Deus por si e por elas.. deixasse. e outros que era do Demônio disfarçado para assombrar e tentar as criaturas. que o imprudente que tentasse profanar o mistério. findava sempre aos primeiros cantos do galo..Festas e Tradições Populares do Brasil 197 Este espetáculo terrível. que povoava de sobressaltos e terrores os sonhos infantis e a crendice popular. Mas. e no Norte ninguém havia que. vindo-a buscá-la na manhã seguinte. Seja como for. Eis a descrição pálida de um costume nosso. . embora tremendo de medo. aviventada por testemunhas autênticas. as encomendações das almas tinham um ideal elevado..

João II a mais antiga notícia histórica das festas públicas. . A procissão de Corpus Christi. Braga. . . resplandece. . que celebravam em Portugal a instituição da Eucaristia. . De 1412 em diante é que a tradição. . . Corpus Christi (A PROCISSÃO DE S. que no dia do Corpo de Deus percorriam enfileirados as ruas lendárias da metrópole lusa. . com o seu cortejo de três reis Magos. . é do ritual romano: em todos os países católicos ela existiu e existe. . que os tem estudado e divulgado com lúcido critério e alevantado saber. Miguel. S. limitando o seu giro às circunvizinhanças dos templos. espalhados por sopros seculares sobre a mesa de trabalho do erudito T. ou aos próprios templos. . JORGE) D ata do reinado de D. . uma Donzela. amortalhada nas cartas régias. . . o Dragão. Jorge. Sebastião. .. . . . . tendo como testemunhas de igual valor os documentos das municipalidades insulanas e coimbrã. . S. Santa Clara e mais uma infinidade de personagens do martirológio e do simbolismo cristão. . . festas às quais aquele soberano permitiu que se acrescentasse a procissão de S. . . isoladamente. . a Serpente.

que fora abatida anos depois e em seu lugar elevado um prostíbulo. nos ângulos do adro. ou uma parte cuja ligação ideal é o fio delgado de uma lenda. há mais de vinte e cinco anos. Daí a base do religioso cortejo e o que naturalmente determinou a sua primitiva e singular organização. como um tapete. Jorge. o comércio com os narradores do tempo facilita-nos o per lustrar veredas deixadas. em seus troncos capitais e em alguns de seus costumes. é ao turbilhão enfraquecido das nascentes históricas que passaremos a descrever essa procissão no Rio de Janeiro. Jorge. e os irmãos. Em 1850 via-se ainda na Rua de S. a voz garrida do sino anunciava a festa do padroeiro do templo. encontrara-se em caminho com o sagrado Viático e o acompanhara com as suas tropas. desconhecedor de sua evolução até o período atual do velho reino. a modesta capelinha de S. é mais particularmente da procissão de S. globos e col chas. Lê-se nas crônicas medievais que S. como legado dos tempos coloniais. ouvia-se o bater dos martelos pregando nas janelas e sacadas de pau arandelas. e que destoa da de Corpus Chris ti da liturgia cristã. murando a um lado a Rua da Lampadosa. e a que com mais largueza apresentava em painel vigoroso o povo brasileiro. começavam no seu labor anual. Jorge que vamos tratar. em que dia por dia o esquecimento enche de sombras. escorvavam foguetes e os arremessavam ao ar. Ao amanhecer. constituindo um todo independente. Apesar de não a havermos assistido senão no declínio de seu esplendor. . sibilando já e estourando após. sopravam morrões. estendiam-se areias e flores. quando ela não havia perdido a sua realeza hereditária e seu aparato magnífico. Jorge era a que melhor concretizava elementos nossos. indo ferir uma batalha. Passava-se sob um teto de bandeiras.200 Melo Morais Filho Como tradição pátria. nas eras crédulas em que acima vimo-lo aparecer. e os sacristães. Jorge. aos seus degra us ba ixinhos. definido em sua religião. Pouco adiantado em relação às suas pompas remotíssimas. em seu regímen político. com a opa da irmandade. De todas as procissões do ano. a de S.

mostrando em todos os dedos anéis de ouro com pedras falsas. e de muitos outros que a seguiriam com os seus tesouros. os moleques corriam em bando até o Largo do Rocio. desciam à rua. em que sairia montada. diziam: É vem! É vem!. cordões de ouro e pesados brincos. a qualquer movimento súbito. que surdiam de improviso dispersando-os a juncadas. o cavalo e a comitiva oficial de S. Às nove horas o concurso avolumava-se. de semblantes vulgaríssimos e às vezes macilentos. o préstito preliminar aprontava-se e. Às janelas enfeitadas instalavam-se mulheres de má vida formando uma galeria de faces afogueadas e inchadas. andando no adro.Festas e Tradições Populares do Brasil 201 A imagem de S. o rodar de carretas de artilharia. os toques de clarins. Jorge passavam. que tombavam-lhes no ombro. fazendo lembrar uma cidade invadida por exércitos triunfadores. Jorge lá estava no corpo da capela. Eis senão quando o povo atropelava-se. olhavam ariscos para o Homem de Ferro. E a multidão recuava. . agrupavam-se no caminho. com a criadagem em grande uniforme. gingando. apontando. Jorge deixava a sua capelinha para ir no Largo do Paço reunir-se ao Corpo de Deus. os negros de ganho. Esparramadas fora dos batentes. com as mãos gordas e cruzadas. o movimento de tropas. as vendedeiras de quitanda sentiam-se como que chumbadas ao solo. exposta à adoração do público.. Cristóvão. reluzindo. os irmãos de S.. como cesto enfiado na cabeça. à espera do cavalo branco. descalços e em mangas de camisa. ensombradas por negras pas tas de cabelos untuosos. Enquanto isso se passava. os sons de músicas marciais propagavam-se em direções múltiplas. assobiando. e para os pedestres. as dissolutas Madalenas da ralé estiravam o pescoço. e os moleques. Desde muito cedo. Os transeuntes e os espectadores curiosos tomavam as saídas. S. desesperados da tardança da música e do acompanhamento do santo. ao colo nu e às orelhas daqueles bustos estúpidos. vindo um e outros da Quinta de S. e na embocadura da Rua dos Ciganos. debruçavam-se. em procissão soleníssima. às dez horas marcadas. paravam boquiabertos. Jorge chegavam à porta.

Depois desta. As fortalezas salvavam. encaminhava-se a procissão.. à queda de um dilúvio de flores e ao estrugir da foguetaria. Galo sem Crista. à expansão das famílias que de lá assistiam. espraiada mais longe a espuma da onda popular. a banda de escravos da Quinta avultava. Pescadores. por entre o cintilar de baionetas. eram os batalhões dos subúrbios que compareciam a tomar posição na lustrosa revista. Precedida de uma coluna de povo. Caranguejos. José. a gente de todas as classes perfilava-se.. Jorge chegava à Rua da Misericórdia. Quitanda. entre muralhas de tropa e de gente postada nas calçadas. ao rufo de tambores. de S. E S. de Santana. fértil em detalhes e completa. iniciava ela o seu percurso. por trás dos soldados em alas. vestidas de sedas e veludos. Estendidos em linha pelas Ruas Direita.. Tainhas. Estes artistas – e dentre eles alguns havia afamados. a curtos intervalos. Assembléia e Largo do Paço. da Candelária. e os corpos da roça esperavam o chefe militar para fazerem-lhe as honras no seu trânsito. Era além da Rua Direita que se podia melhor apreciar o efeito dessa cena ambulante e pitoresca. os batalhões da freguesia do Sacramento. Jorge. como o célebre mestre Joaquim Maria – trajavam calção azul com galões brancos. o 1º de artilharia.. Carroceiros. de Santa Rita. Samburá sem Fundo. passada pelo General no seu dia glorioso. a fim de verem à vontade o Ferreiro de S. Nas calçadas. E a irmandade do Santo General rompia a marcha do religioso e militar cortejo. ao espelhante das colchas de damasco das janelas e sacadas. de capoeiras de diversos bairros e de soldados de polícia a cavalo. toucadas de pérolas e brilhantes. Serenado o tumulto. Gaturamos. por alcunha Chinelo Velho. na Capela Imperial os ofícios religiosos tocavam ao termo..202 Melo Morais Filho Era a Guarda Nacional que marchava toda. suspendia acima da fronte as crianças. a procissão seguia o seu itinerário habitual. o 6º de Engenho Velho.. A um sinal de dezenas de girândolas. . e da igreja e imediações o cortejo ordenava-se. executando soberbos passos dobrados e trechos escolhidos.

cor de flor de alecrim. De casaca e calção vermelhos. pegando nos estribos e fixando-lhe os joelhos. os olhos e as orelhas. Jorge. envergando polida cota de malhas. meias de algodão e sapatos de fivela. as narinas. vinte e quatro cavalos fornecidos pelas cavalariças da Quinta levavam os tesouros de S. peito de aço. Em seguida. que prendia um copo do mesmo metal. capacete com bordaduras douradas. prendia-se um lindo tope verde e amarelo. agaloadas de amarelo e guarnecidas nos cantos com as armas imperiais. Meneando vistosos penachos. quase arrastantes. Atrás da música dos pretos aparecia o Ferreiro ou o Homem de Ferro. montado num cavalo negro. que consistiam em grandes charneiras de prata sobre as mantas de pano verde. com um criado do paço a cada lado da brida. capacete bronzeado e viseira descida. Este figurão trazia a barba rapada. a cavalgada caminhava a passo. de colete branco de seda. A cor de ferro de todo o seu uniforme guerreiro bem explicava a denominação que lhe dava o povo. À pequena distância vinha o Escudeiro em fogoso ginete. aberta para as pernas. peito de aço. coberto de vasta manda de camurça. com as crinas trançadas de fitas e lindos laços de extensas dobras à cauda agitante.Festas e Tradições Populares do Brasil 203 paletó cinzento e comprido. e caía-lhe às costas o rabicho de uma cabeleira branca. aprumada num cavalo branco. frisada. secundava a banda. Dois outros criados o acompanhavam. de botas e esporas. raiava-lhe o escudo ao pino do sol e um estandarte tremia-lhe na destra. personagem estranho. vinha a imagem de S. conduzida pelos criados da casa imperial. vestido de malhas. . Jorge. tinia-lhe à cinta grossa corrente de prata. À proporção que a imagem adiantava-se. e capa de veludo car mesim bordada a ouro. de três pontas. Este personagem. empunhando com a manopla de escamas enorme lança. e na larga aba revirada na frente. e tendo no braço esquerdo pesado escudo. O chapéu era de feltro. sobraçando um chapéu de pasta. de libré e calção. tremulando ao vento. Fazendo parte do séquito. o rosto polvilhado e pintado de carmim.

Os grandes do Império. a nobreza e os archeiros ultimavam o cortejo. de calção e capa romana. tendo as varas o Imperador com o manto de Cristo. Compareciam os escrivães do corpo eclesiástico. luxuosas equipagens. Os anjinhos eram em número prodigioso. e os ministros fardados em grande gala. tomando para a tesouraria do Paço. até ao escurecer. Aos guiões sucediam-se todas as irmandades. e a música do 1º da Guarda Nacional já se fazia ouvir. Quando a procissão entrava. formava a retaguarda um piquete de cavalaria de linha. depois da passagem do Viático. suavam em bica. entre as ordens terceiras e o clero. e. Isto sucedia por volta das duas horas. os cavaleiros do Cruzeiro e de Cristo com os distintivos da ordem. o Escudeiro e o Ferreiro demoravam-se ainda um pouco. os batalhões for mavam no largo e debandavam. lá recebia o Escudeiro no copo de prata 1:000$000. de espadas desembainhadas. incorporando-se um a um ao préstito. o Estado de S. Jorge. e quebravam-se ao longe os ecos das descargas: eram os batalhões em alas que faziam as honras ao Santo General. olhavam para cima equilibrando os pendões. rodando nas ruas. com a cabeça ao sol. Jorge. seguida de toda a tropa. S. as fortalezas davam as derradeiras sal vas. e.204 Melo Morais Filho Fechando o séquito. representada pelos vereadores. o soldo de S. Então o ar escurecia-se de uma floresta de guiões das irmandades. monsenhores. Às ordens terceiras precedia o clero regular: o cura da Capela aos padres da diocese. a cruz do cabido e o pessoal da capela. As fortalezas salvavam. que abrigava o bispo com o Santíssimo. Jorge. Nisso passava o pálio. os confrades de tochas acesas bufavam de calor e protegiam-se da insolação. suspendendo à calva lenços de tabaco. em moedas de ouro. . que reconduziam as pessoas da corte e as famílias importantes. Os irmãos sentiam-se embaraçados na roda dos hábitos. reunidos em grupo. a câmara municipal. cônegos e sacristas.

. onde os devotos iam em romaria tributar-lhe adorações e oferecer-lhe esmolas. não obstante S.. Jorge ser o único dos nossos generais que ja mais se envolveu em questão militar. o governo suprimiu-lhe o soldo. em sua capelinha da Rua de S. José. Mas tudo se foi! O santo perdeu a sua igreja.Festas e Tradições Populares do Brasil 205 A imagem ficava exposta. até às onze horas ou meia-noite. .

e as Endoenças como que colocavam a população na presença de um Deus agonizante. “Porque Nosso A começar da véspera. Em épocas que a nossa lembrança descobre. . . . . A pirâmide ardente do altar-mor em dias de festa havia desaparecido. nos seus nichos dourados. e os santos. O que se passava na quinta e na sexta-feira santa no seio das famílias era de uma simplicidade primitiva e tocante. . . convidava os fiéis à penitência e à contrição. E quanto fervor! De quanto poesia a imaginação popular exornava esses atos. . . . . e a fisionomia consternada dos templos. ocultavam-se por trás das cortinas roxas. Quinta-Feira Santa das igrejas. . As superstições sucediam-se às práticas religiosas. o recolhimento da consciência serenava as paixões. esses deveres!. . .. . dia exclusivamente consagrado à expiação das faltas. em que luzes isoladas bruxuleavam fúnebres. apenas o sacerdote levantava a antífona das Trevas. . aos sacrifícios propiciatórios... . . . . . a quinta-feira santa era um dos maiores dias do povo. o luto obscurecia o esplendor . a voz eloqüente do orador sagrado retumbava nas naves como um paroxismo profético da eternidade. . . . Durante a semana os templos regurgitavam de devotos que iam desobrigar-se. .

O ofício da Paixão. cuja metafísica limitava-se a crer e orar. rezava-se. até o homem obscuro e o cativo hu milde. o comparecimento do Imperador e dos seus ministros. os velhos e as mulheres que amamentavam. as senhoras grávidas e as crianças. adquiriam mais deslumbramento ao faiscar das gemas brilhantes sobre o reflexo negro dos veludos e sedas das ricas damas que. diante da toalha imaculada. a casa não se varria. não obstante ser obrigatório. e. a música a vozes executava ar rebatadoras composições de José . acompanhado dos acólitos.. desde o sábio e o alto funcionário público. o mundo oficial enfim. a hóstia era depositada no cofre ou túmulo. da sagração dos óleos místicos e de desnudados os altares. constituíam uma lei. O jejum. era con corrido não só pela multidão anônima. arriavam-se os sinos. O padre adiantava-se no silêncio glacial das igrejas. das tri bunas e do interior das grades laterais. em qualquer condição. Não se cantava. de joelhos.208 Melo Morais Filho Senhor estava doente”. Durante a semana final comungava-se. nas sacristias e nos claustros. Especialmente na primeira destas igrejas o pontifical do bispo. gente de toda a classe buscava os confessionários. aguardavam. os meninos não faziam bulha. jejuava-se. um cálix de prata repleto d’água circulava na destra de um irmão da confraria. As correções corporais eram abolidas: falava-se baixinho. os fiéis. não se tocava. Depois da missa. não se dançava. No corpo das igrejas e nos corredores. A abstinência de toda a casta de jogo e divertimentos e a continência. os escravos não trabalhavam. porém ainda pelo que havia de mais elevado e distinto entre a nobreza e o povo. absolvidos dos erros dos dias implacáveis. na Capela Imperial e no Carmo. piedosas e belas. a cerimônia da Paixão e do Lava-Pés. sofria restrições: eram excluídos os doentes e enfermos. bebendo um gole cada um dos penitentes.. recebiam a partícula sagrada. As donas de casa emprazavam para quando rompesse a Aleluia certo ajuste de contas com as escravas delinqüentes e os filhos traquinas. E ao brilho do cibório magnífico e dos círios acesos.

o beijo frio e viscoso da traição de Judas. tão inspiradas. indicavam o complemento do rito. guardado por sentinelas com armas em funeral. A arquibancada para o Lava-Pés aí estava sobre o mármore sagrado da igreja. O venerando imitador do Cristo. quanto aos oficiantes. que enlaçavam em sua sublimidade maravilhosa. O altar do sacramento. . lavara os pés aos seus discípulos. a multidão como que via. identificado com o seu papel. pressentindo já na face pálida como as nuvens do inverno. No santuário. na majestade do seu porte. respondendo às argüições soleníssimas. interrompendo a ceia. os profetas da antiga lei ressurgirem nas suas pro porções incomensuráveis. no meio das apóstrofes. a reunião dos fiéis tornava-se respeitosa e sentida.Festas e Tradições Populares do Brasil 209 Maurício e outros mestres. ocupava o centro . avultava com os seus sacerdotes e comitiva. entornando a segurança e a fé nos corações desolados. que desde a véspera substituíra nas Trevas o sino. E a matraca.. seguindo-se após as Lamentações – tudo o que há de mais inspirado na poética sonora do cristianismo. na série de plangentes antífonas. atroava a sacristia. e. o grandioso. A estética daquele tempo tinha como forma de arte a beatitude d’alma e a cristalização eucarística das lágrimas! Absorvida no lutuoso ideal. mas. ficava iluminado como uma montanha de fogo. E o coro. sentados nos lugares determinados. E aos reflexos lívidos do santuário. patenteava toda a humildade do Divino Mestre quando. alinhando-se. aquela espécie de viajantes das terras austrais descobria o aspecto calmo e sereno do céu.no resto da igreja rolavam as trevas. dividindo os quar tos da no i te. Ali estava a luz. O bispo. O efeito conveniente dos acessórios destacava todo o Intermédio de tristeza que ia desempenhar-se. parecia ao eco de uma ruína que desabava. o coro da Capela entoava umas harmonias de José Maurício. os ir mãos ve la vam a hós tia con sa gra da. celebravam-se as Trevas. Às notas repassadas de imprecações e angústias do doloroso e patético drama das Lamentações. Durante a loção. para o mandato comemorativo.. o amor e a prece! Quando esta cerimônia findava. e doze padres. o mistério.

com quinze velas de cera amarela. aí o escondia. . E o conto das visões proféticas. mais se adiantava a negridão que se peneirava no templo. ecoavam lugubremente no recinto e nos altares despidos dos adereços de outrora. a modo que a morte. Entre Deus e o Sol há um ponto de contato: não é necessário que eles se mostrem. um acólito as apagava. até que o círio do ápice do referido triângulo ficava único como um pensamento que não morre. À medida que findavam os salmos.. que queimavam crepitando e fundiam-se em grossos fios. como uma legião de sombras resvalando no caos. aninhada em algum turbante de sombras. O candeeiro das trevas tinha essa expressão e esse caráter. alongava a asa sobre cada uma daquelas luzes. e a exemplo dos papas. murmuravam o Miserere. dos mais imperadores.210 Melo Morais Filho um candeeiro triangular. O simbolismo é o transcendente dos cultos. Este ato era concluído pelas esmolas de moedas de ouro aos pobres. dos reis. rasgando com ondas esplendorosas o ar noturno do sepulcro! E os padres. porém. o círio misterioso reaparecia. – Aquela vela simbolizava o Cristo morto. o retirava. levando-o para trás do altar-mor. na cerimônia do Lava-Pés. os lamentos e as orações. Semelhando à Vítima divina. dos arcebispos e bispos. Um corista. Sua Majestade mantinha esses estilos. Adiantando-se o Ofício. empanados presentemente por hálitos heréticos. Enquanto a Capela Imperial retinia dos últimos rumores das Trevas. para que sua luz ilumine os horizontes e o mundo. dos abades e provinciais. como um santelmo de náufrago aos frêmitos da tempestade. e. pelo bater de livros nos bancos e o estalar ensurdecedor das matracas. e a oferta de um ramo de flores ao padre que os acompanhava. no Paço o Imperador humilhava a sua fronte coroada diante de onze pobres e um sacerdote. o silêncio era substituído pelo alvoroço. Então..

ficando sobre o altar a Virgem das Dores. a exposição. palavras ao acaso. e a exposição do Senhor Morto se haviam preparado e disposto segundo a letra da tradição. na pluralidade das igrejas. deparava-se.. ∗ Da multidão silenciosa ouvia-se nas ruas o burburinho confuso e cadenciado.Festas e Tradições Populares do Brasil 211 Desde o meio-dia o exército cingia de crepe as bandeiras.. os Passos do Rosário e os Hortos eram pouco comuns. Simplificando o aparato. Na quinta-feira santa. vestida de luto. As igrejas soturnas atraíam nesta noite todas as classes populares. as armas ficavam em funeral. do qual retiravam a face esculpida. a população. o ruído da turba em caminho. tendo a um lado uma grande salva de prata. comprava amêndoas e visitava as igrejas. armavam com folhagens um Horto verdadeiramente tétrico. de opa vermelha. envolvido no lençol do jazigo. cena comovente e destinada a impressionar os espíritos piedosos. as músicas calavam-se. o santuário quase ermo de luzes e coberto de panejamentos negros. Na Lampadosa. era guardada por irmãos do Santíssimo. no meio do qual a imagem do Cristo morto. O farfalhar das sedas. . tornava-se como que um respiradouro àquela gente. À tarde. nas solidões intermináveis de sua agonia sem termo. com tochas acesas. onde cada visitante depunha o seu óbolo. por isso que os painéis da Paixão ou os Passos. depois da desobriga. Habituando-se à escuridão. enlevada no misticismo dos crepúsculos cristãos. por exemplo. quem se aproximasse descortinava a cena mortuária preparada no fundo. resumia-se em colocar o Senhor Morto embaixo do altar-mor. condensavam-se em certa altura. Na generalidade. a partir de seis horas. esclarecido com escassez. Ao transpor-se o limiar de um templo. mas larga e igual. A visitação. ao olhar. as consoadas nos conventos e domicílios privados. numa ondulação única.

canela. e do Neves do Largo do Capim. Os estabelecimentos especiais.212 Melo Morais Filho Os irmãos da confraria – e mais ortodoxamente os do Santíssimo Sacramento – velavam alternativamente com as suas tochas ardentes o simulacro do túmulo do cadáver de um deus. Ninguém havia que resistisse à ten tação de comprar um presente de festas. do Filipe do Largo da Carioca. e o luxo ofuscava. Os fiéis. abrangia os derradeiros temores de uma alma purificada pela religião e pela penitência. O comércio de amêndoas estava no seu auge. como as confeitarias do Deroche. entre as pessoas mais chegadas. magotes de povo empreteciam as ruas. Castanino. deliciosas empadas. era própria do dia. beijando de preferência os dedos do pé ou o dorso da mão ensangüentada da imagem estendida. sacudindo a poeira dos vestidos. saindo em seguida. pelo menos. deixavam na salva a esmola espontânea. a frase: – “me perdoe alguns agravos” –. Por entre as soberbas jarras com flores das escadarias. erguendo-se compungidos. que durava a visitação. e com seus candelabros e arandelas de gosto e preço. em que os gelados. um objeto qualquer para uma oferta. enfeitadas com fitas e papéis. A exposição das baixelas de prata e de ouro. Ao movimento generalizado e incessante presidia a boa ordem das nossas festas populares. O povo formigava nessas casas. com suas galerias feitas em colunas e forradas de seda. João Guimarães. as confeitarias repletas de compradores. cravo. Até à meia-noite. . cestinhas com asas. Felizes tempos aqueles em que o povo tinha crenças e expansões íntimas! Mas esses tempos passaram!. E. entre o povo finalmente. dobravam o joelho no topo dos degraus. Castelões. Entre famílias. E este dizer tão simples. que deviam visitar. abaixavam a fronte. disputava a concorrência com as mais esplêndidas igrejas. a classe fina da sociedade.. sete igrejas. os doces saborosíssimos e os sorvetes eram servidos por empregados luzidos e atenciosos. as famílias importantes e ricas chegavam aos salões luxuosos do João Guimarães. com as suas cortinas de cassa nas portas da entrada. do Paço da cidade. inclinavam o corpo. que au tenticava a deso bri ga da quaresma. ostentavam-se caprichosos.. etc. Carceler. escolhendo à vontade caixinhas e cartuchos de amêndoas. confeitos de amêndoas.

. . . . Sexta-Feira da Paixão A PROCISSÃO DO ENTERRO O perdão das injúrias. . . . o Imperador perdoava a criminosos. nesse dia. os orvalhos que reverdeciam as flores que se fanavam da fé. . . . . as correntes do cepo não mordiam o pé do cativo nas torturas das senzalas. . e o escravo fugido comparecia indultado perante o senhor. . Era o reinado da paz e do perdão. . . . . as gargalheiras não maceravam as vítimas. . A morte do Cristo dissipava o horror da imortalidade e fazia cintilar a esperança nas plagas nebulosas da vida eterna. o eito e o tronco não gotejavam sangue. . A crença pública imobilizava-se nas raias contemplativas. as famílias reatavam relações partidas. . Nas fazendas.. . . eram. . Inimigos vinham de longe reconciliar-se. onde as ações boas conferenciavam entre si. o bem pelo mal. o filho rebelde inclinava diante do pai a fronte obediente. Como uma repercussão das palavras que o filho de Deus deixara cair dos lábios no alto do Gólgota. . o único dia talvez em que se consideravam bem-aventurados aqueles que choravam! .

Escolhendo como tipo a do Carmo. A Paixão iniciava-se por uma profecia. o interior era sombrio. para se encarregarem de diversos papéis. resistindo severa a confrontos remotos. e os sacerdotes. abriam-se as cortinas de damasco do coro. Esgotadas as práticas de sexta-feira. o Cristo. aparecendo da sacristia. Francisco de Paula. era o Evangelho dialogado em canto gregoriano. dava a conhecer os principais caracteres.. A Paixão concluía-se pelo ofício de Trevas. a comunhão derradeira da semana celebrava-se solene. precedia de pouco a saída da procissão do Enterro. entretinham a ação. tendo por intérpretes o coro e três padres. Na Capela Imperial. a sua descrição é curiosa. A um sinal convencionado. por volta das quatro horas da tarde. alteavam a voz. Os judeus. porém uma espécie de prólogo. No desempenho da tragédia divina. que..214 Melo Morais Filho E a penitência e a devoção encaminhavam à casa de Deus a turba pacífica. as velas gastas na vigília ao Santíssimo fumavam. cantores e músicos do ofício de Trevas. A adoração da cruz. de intermédio dramático. que. deitada ao longo no chão do presbitério. numa encenação de efeito. os padres. o bispo e o cabido faziam prosternados. tomavam o altar-mor: o ofício da Paixão começava abrupto. avivando o lume dos morrões esbraseados e longos. findo o que. ∗ Em 1831. elevando os braços. sendo utilizados. Das oito para as nove horas da noite. duas dessas procissões percorriam as ruas da cidade: a do Carmo e a de S. o Carmo enchia-se de povo para observar uma verdadeira cena de teatro. – Eram os bradados. e . a procissão do Enterro estava na rua. em tempos afastados. de dois púlpitos e da laje do templo. Pilatos e os apóstolos exibiam-se na cena sagrada. Na primitiva. os personagens do cortejo eram menos numerosos. A igreja conservava as portas cerradas em sinal de dó. na Capela Imperial. combinando trechos bíblicos com as cadências sublimes de antiguidade remota.

súbito clarão golfejava da porta principal da igreja que se abria. alinhavam o povo. como se fazia mais recentemente. falemos do préstito. o que deveras convinha à apreciação do aparatoso ato. de onde centenas de famílias debruçavam-se sôfregas. os sineiros. As pessoas mais sisudas e discretas colocavam-se a maior distância. um batalhão da Guarda Nacional postava-se a um lado da praça. aqui e ali. A multidão. As luminárias douravam das janelas e sacadas. A procissão do Enterro. serpeada pelas luzes das tochas em profusão. para as honras fúnebres do saimento. seis soldados de cavalaria de polícia. A procissão havia saído. e todos voltavam o rosto. A gente que ocupava o adro. cortado por dois galões de fogo. como uma onda de asfalto fervente. o povo separava-se em alas na Rua Direita. as colchas flutuanteas ao vento. despencavam o corpo. descia.. Com os tambores forrados de preto. Rompendo a marcha e levando adiante de si a multidão que se atropelava. defronte da igreja e da Rua Direita. e as armas em funeral. produzindo os reflexos iriados uma perspectiva brilhante. para o alpendre do templo. Bem como enorme pedaço de veludo negro. negra e espelhante.Festas e Tradições Populares do Brasil 215 as figuras que tinham de formar o préstito fúnebre apareciam agrupadas. como compensação. acrescentando. apinhada no Largo do Paço. A um momento inesperado. A procissão do Carmo saía às oito horas da noite. e aqueles personagens incorporavam-se nas ruas populosas ao cortejo admirável. suprimira esta cena histórica. De há tantos anos passados. causando grande sensação. revivendo recordações. movia-se em massa. no alto da torre. estirando o pescoço.. O luar batia ao longe no mar e polia as paredes brancas e as sacadas dos edifícios. abraçando a cabeça dos sinos. assim era aquela trilha. Minutos depois cerrava-se o pano. a bandeira enlaçada de crepe. novas figuras e mais avultados acessórios. . com espadas desembainhadas.

Com este personagem bizarro começavam a passar os Ter ceiros da confraria. E a matraca. A este. e nas portas escuras. P. O préstito parava a miúdo. azuladamente transparentes pelos brilhos da lua cheia. os intervalos prolongados. segundo a idade e o tamanho. de que a instantes sacudia os pingos. troava. Equilibrado por um irmão do Car mo. trepados em mochos. perfilando ao ombro escadinhas de pinho. um anjinho. empunhando grossas e pesadas tochas. os filhos e as senhoras. . para que bem vissem. o Farricoco perdera-se de vista. os comerciantes portugueses. com seu séquito de ir mãos da Misericórdia. fatigados. Nesta procissão. pela mão. cravejadas de finíssimas pedras e de brilhantes de raro valor. com seus hábitos próprios. E nem mais se ouvia a matraca. porém. em costumes de mouros. batida por um indivíduo vestido de balandrau. À sua sombra. Pode-se dizer que a confraria do Carmo comparecia toda.216 Melo Morais Filho As mulheres suspendiam nos braços as criancinhas sonolentas. da melhor forma. com castiçais de pau e velas acesas. entre a aparição dos personagens que a crença daquelas épocas supunha haverem acompanhado o enterro do Cristo. como nas demais. tocava uma trombeta. o chefe de família dispunha. conduzindo alguns. R. o Lábaro romano campeava nas alturas com a vistosa inscrição em letras de ouro: S. como se pode deduzir. simbolizando os Novíssimos do Homem. O reboliço e os arremessos eram infalíveis.. e o guião. que representavam as riquíssimas irmandades. seguiam-se os quatro Profetas maiores. adornavam-se de suas condecorações nacionais.. cada qual com um instrumento da Paixão. envergando uma túnica escura. obscurecia os ares. o Farricoco. iam quase de rastos. espiar o que se passava. Q. com capuz sobre a cabeça e máscara aberta para os olhos e boca. vinte minutos mais tarde. os escravos procuravam. preenchendo os irmãos os grandes claros. marchando imperturbáveis. sustendo na mão esquerda uma comprida e fina vela de cera. os anjinhos.

o esquife do Senhor aparecia. com alabardas. e murmurando lugubremente: – Behú! Behú! A estes figurantes. a antífona – Ó vos omnes qui transitis per viam – sentia-se que por ali ia passar alguma coisa de divino. vinha o andor de Nossa senhora. da cana e da coroa de espinhos. capitaneado por um Centurião.Festas e Tradições Populares do Brasil 217 Este grupo barbado e de cabelos cacheados não passava isento de motejos. carregado por irmãos do Carmo. indicavam que o sarcófago do Senhor passaria em breve. lanças e escudos raiantes. e pela marcha fúnebre que se executava longínqua.. forravam-lhe o caminho. deixando assentar a pesada e enorme alabarda nas pedras. este andor era todo de prata esculpida. desenrolando o sudário ensangüentado. O religioso silêncio que dominava as multidões era apenas quebrado pelos rufos abafados de tambores. portadores da coluna. sucedia o coro dos músicos da Capela e o Anjo cantor. E os irmãos prosseguiam. Como o esquife. com sua banda de seda franjada de ouro. homem colossal e resoluto. ricamente vestida e cingindo um diadema de ouro e brilhantes. As flores. Os rapazes gostavam desta figura e aplaudiam o desgarre. balançando a perninha. atiradas das janelas. coroados de espinhos.. Em seguida. Então as três Marias. com as suas auréolas em volta da cabeça. quando entoava. Os anjinhos. assomava após. De viseira e capacete de couraceiro. . Um destacamento da guarda romana. e os Profetas lá iam. que tornavam-se às vezes ridículos a espíritos imprudentes e pouco refletidos. levantava o passo graduado. que estrondavam à pancada. fazendo leves mesuras. À semelhança de um lago de estrelas frias. o sarcófago de prata maciça oscilava ao ombro de frades do Carmo. O Anjo cantor era uma beleza de dezesseis a dezoito anos. avizinhavam-se. que eram músicos vestidos de dominós pretos e de máscara. Subindo numa escada de degraus largos. de alva e estola atravessada. os anjinhos mais desenvolvidos marchavam.

cujo livro de costumes o nacionalismo brasileiro atirou no olvido. seus devotos. salve-se ao menos esta lauda da tradição. Igual procissão. Da Semana Santa. tinha seus partidários. Pouco depois o sermão de lágrimas. ficava estacionada nos adros das igrejas expostas ao público. que terminavam em ricas franjas de ouro. era declamado pelo orador mais célebre aos fiéis reunidos naquele sacrário de dor. dentro dos quais uma lanterninha de flandres. durante o trajeto. À distância. com as suas moitas cheias de luz e suas campinas chuviscadas de vaga-lumes. Francisco de Paula. alumiava os mostradores ambulantes. ficando por mais algum tempo as imagens expostas à adoração do público. como virgem e como mãe! Este cortejo era fechado pelo batalhão. Sentadas nas calçadas. A sagrada imagem. ao longo das ruas. Muita gente do povo percorria os Passos.218 Melo Morais Filho mas guarnecido nas quatro faces por estreitas cortinas cor de violeta e douradas. mas itinerário diverso. cuja música tocava. visitava os Hortos. outrora verdadeiro primor de eloqüência. as vendedeiras de doces e confeitos arriavam os tabuleiros. marchas fúnebres. essa miríade de luzes movediças dava a idéia de uma noite clara dos trópicos. com uma vela acesa. que saía de S. . Só depois das onze horas a procissão recolhia-se à igreja de onde saíra. nos degraus das igrejas. impunha-se como santa. no seu pedestal rodeado de ciprestes.

circunscritas. as sagradas orações à Virgem. a penitência serviam de intermediárias entre o Criador e a criatura. que assolam. . . . . . é um dos mais líricos e religiosamente belos em sua simpleza as procissões de preces. . os sacerdotes e o povo refugiavam-se em Deus. é de ordinário vibrada nos templos pelos respectivos vigários. Nos tempos de seca. . quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas de cobre candente que abrasam as estradas e os campos. . essas romarias propiciatórias empreendidas por famílias e habitantes de uma localidade. . derivados das primitivas idades da Igreja. . . e daí repercute sonora e desoladora por toda uma vila. quando o sol. . A nota desses costumes. mais generalizados e ainda existentes no Brasil. no pleno domínio da desesperança dos dias funestos. Desde pela manhã. . . Preces para Pedir Chuva D entre os nossos costumes populares. . e a fome e a morte levantam-se das plantações que torram. . do fumo que ondula em espirais fantásticas das matas que se incendeiam. . . uma cidade. . os vigários das freguesias da roça exortavam os fiéis. . e as ladainhas. a terra e o homem. mata a planta e os viventes. . . das fontes sem água como órbitas vazadas. .. que reanima a natureza. . um termo. . com o fim de obter do Céu intervenção benéfica contra calamidades públicas.

compenetrada de suas culpas e atribuindo a intensidade inextinguível da seca a verdadeiro e provado castigo. procurando atenuar tantos males com a devoção mais íntima e profundamente sincera. a leitura de proclamas. no remanso do lar. que acudia espontâneo a aplacar o castigo do Céu por meio de demonstrações humildes. quando uma atmosfera de forno prenunciava a destruição. isto é. todas as condições se nivelavam diante de uma idéia que pedia perdão. nas súplicas fecundas ao Altíssimo para a extinção do flagelo. além do relevo propriamente religioso. seguidas de grande multidão. que se abatia sobre a terra como um pirata que rouba e assassina à meia-noite! Na província do Rio de Janeiro. que ciliciava-se penitente em presença de aniquilamento progressivo. do que se passava na igreja. que alguns dias mais tarde se faziam ouvir lamentosas no recinto dos templos e na extensão quase deserta das estradas. onde localizamos esta cena. recolhia-se em si mesma. E os agricultores contritos associavam-se a esses deveres. muitos deles aconselhavam ao povo que saísse em procissão com as suas imagens privativas. os vigários. Os penitentes açoitavam-se. preparavam o espírito de seus paroquianos para a iniciação das preces. A manifestação externa desse sentimento. Do púlpito. as ima gens trocavam-se nos templos permanecendo ausentes de seus altares até à queda da primeira chuva. auxiliando-os destarte nos deveres da fé. apresentavam saliências de característica popular. em cuja superfície polida refletiam-se os tons quentes e pitorescos das pinturas de gênero. de rezas específicas. as mulheres caminhavam descalças e de cabelos soltos. anun ciados depois da leitura de pregões pelo pároco da freguesia. terminada a celebração do domingo ou acabada. No começo das secas. de sacrifícios dolorosos. à tarde as procissões encontravam-se. as preces de que falamos. essas rogações para pedir chuva. a forma clássica debaixo da qual palpitava esse pensamento perfumado de incenso do . Esse atos religiosos. Então a consciência cristã. eram na pluralidade das vezes realizados exclusivamente pelo povo. no fim da missa e em breves prédicas. como dissemos.220 Melo Morais Filho Se no lugar devastado havia mais igrejas.

preparavam seus andores para as preces ambulantes. sufocando nos guinchos estrídulos as vozes do religioso concerto. pelo fantástico da visão. rodeados de velas... nas furnas das pedras ao relento.. da multidão campesina em suas orações populares.Festas e Tradições Populares do Brasil 221 santuário. de lamparinas acesas. à beira das estradas ou no escuro das matas. vistosos de panejamentos bizarramente coloridos. um carro de bois sulcava a estrada. Por essas horas. adiantadas em seu percurso. as exalações dos pauis apegavam-se às vestiduras da noite. semeado de estrelinhas douradas. punham-se em marcha. em uma nuvem branca toldava o esplendor das estrelas que brilhavam na imensidade. No centro das referidas salas amanheciam os pequenos andores (excepcionalmente um).. ao escurecer. em frente à entrada. os sapos. subdividindo-se após e tomando direções variadas. descobriam-se luzes que se moviam. com apanhados de fofos de paninho enlaçados de fitas. que paravam por instantes. apercebiam-se ao longe em núcleos luminosos. de portas abertas. os vizinhos e convidados enchiam as casas. dos benditos entoados pelos penitentes em trânsito. entremeados de rendas e orlados de trancelins de vários matizes. e um ou outro figurante capital do corteja vinha lá de dentro para se incorporar aos préstitos que. vultos que circulavam nas salas. apartavam-se. da piedosa serenata.. Continuadamente. era caprichosa e original. pregando colchas. E o céu era puro e límpido. sobressaindo pelo maravilhoso do espetáculo. No quarto. De repente um grande foco concentrava-se. as procissões de preces. Aqui e ali ouvia-se o grito do bacurau que estrebuchava nas garras de ferro da coruja. parecendo soltas no éter azul e cristalino. inchavam o papo amarelento. em cadeiras. sobressaíam de um fundo agaloado. martelavam nas forjas dos brejais. pulando nos caminhos. . ao coro das rezas. nas elipses de fogo avermelhado que planavam no além. De quando em quando. os oratórios. Desde logo. O ar abafava.. Eram as procissões que se encontravam em uma curva. sombras que trepavam em bancos. Eram as famílias que armavam as suas casas de taipa. suspendendo arcadas de flores acima das portadas. sem delongas.

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Dai-nos água que nos mo lhe. Os leves andores. Senhora. que acentuavam com mais vigor o arrependimento de suas culpas. E pelos vales e serras. as súplicas incultas. Nós que so mos pe ca do res Cada vez pe ca mos mais. Se nho ra. De nos sos pran tos e do res. Dona da ter ra e do mar. Gra ça para vos amar. E o canto. adiantavam-se na noite. os ecos – órgãos das florestas – acompanhavam as preces. um daqueles grupos remotos desdobrava-se em luzes isoladas. levados geralmente por moças ou meninas. escoltados de pessoas descalças por penitência. mas uma pragmática estabelecida. reboando na imensidade! A procissão. seguidos de velhos e crianças. Mor re mos to dos à sede Por que so mos pe ca do res. desfilando nos caminhos.Festas e Tradições Populares do Brasil 223 Depois. não tinha pompas solenes. carregando ainda mais o terror daquelas almas em sua peregrinação lustral: Vir gem San ta dos re mé di os. tradicional em certas paragens à oportunidade do momento. . interpretando o voto comum. de senhoras de cabelos esparsos sobre as espáduas. Ra i nha de eter na gló ria. motivadoras também do providencial castigo. vencia a extensão. em que as vozes mais ásperas contrastavam com as melodias suaves e as dissonâncias agradáveis das vozes infantis: Com pa de cei-vos. ecoava pungitivo e prolongado. Re fri gé rio para o cor po. E das pequenas ve las de cera que ardiam – flores de fogo daquela procissão espectral – aclarava-se o cortejo e a senda. prosseguindo as rogações cantadas. de indivíduos votivamente maltrapilhos. doce e clemente. aproximava-se. Que a to dos re me di a is. Dai-nos pão que nos sustente. Pedimos a vós. Mãe de Deus. de escravos e livres. uma daquelas auréolas luzentes.

. chegando à porta e estendendo a mão. e aspirava a terra farejando chuva. trocavam às vezes os santos. Entretanto. apontando para uma nuvenzinha solitária e perdida.. alguma coisa de extraordinário se dava por aquelas ocasiões. E a procissão passava. De volta. as saracuras despertavam quebros nos mangues borbulhantes e os insetos zumbiam em fanfarra lôbrega na obscuridade iluminada das capoeiras densas.. . que pernoitavam em casas diferentes. recolhendo-se bem tarde. apenas a turba de acompanhadores dispersava-se e os graciosos andores ocupavam determinados lugares nas salas iluminadas.224 Melo Morais Filho A esses ru mores as aves acordavam tontas nos matagais silentes. antes e depois da qual o desejo e a impaciência transpareciam nos semblantes e materializavam-se nas ações. porém.. sem que uma leve aragem.. traçando escadarias candentes nos horizontes forrados de negro da tormenta! E a enormidade estourava!. um sinal obscuro apenas os houvesse prenunciado. com a primeira procissão de preces. Testemunhas autênticas e insuspeitas confirmam que não era estranho que. ali um roceiro que olhava para o céu. seguia. e lá iam seu destino pulverizando de luzes pequenas zonas de trevas. acolá um indivíduo qualquer que afirmava achar-se ela iminente. dizia que já chuviscava. E era belo de ver-se aqueles penitentes. cada família fazia servir modesta ceia. sumia-se. abrir caminho ao marulho das enxurradas. Chegando os penitentes a domicílio. ao soprar rijo da ventania.. Aqui era uma moça que. resguardando as suas imagens e deslumbrados pelos relâmpagos que fuzilavam. descobrindo estrelas que não estavam antes. aquele povo robustecido em sua fé. verdadeiros dilúvios desabavam inesperadamente.

. . . . . a religião conduzia o homem. . . o senhor e o escravo. . nunca se afigurou o cadáver boiando podre nas maremas lívidas do Nada. . . . até cair como um ébrio nas portas da eternidade. numa existência póstuma. Às desigualdades da vida. onde a missão do homem é rir e chorar como um louco.. e a alma popular mirava-se na serenidade azulada do céu. . o rico e o pobre. . os piedosos deveres para com os que haviam deixado este mundo. . para os nossos maiores. Daí. . Dir-se-ia que o dia de finados destinava-se à representação da célebre dança macabra. porém a continuação da vida. O Dia de Finados (RIO DE JANEIRO) E ra no tempo em que este país revelava o espírito tradicional da velha metrópole. . . . . que na compreensão antiga nada mais era do que um vale esguio e tenebroso. entre cantares e flores. do berço ao túmulo. . em que se acreditava nas virtudes maternas e na existência de Deus. . . saindo da sombria . harmonias e lamentações. a comemoração dos fiéis defuntos traçava um nível que continha o rei e o vassalo. A morte. . o despertar da individualidade persistente. Naqueles dias de outrora. em que a Morte. .

e a outros armadores. e a verdade não travada de erro! Nesta festa lúgubre do ano. aquela figura medonha parecia o espectro de um abutre de Josafá. era o pai de família que orava em pranto pela esposa que fora dormir o sono dos túmulos. circuladas de castiçais e serpentinas do mesmo metal. ao Raimundo de Andrade Leite. com bastante antecedência. acolá. mas para conciliá-los pelo perdão e a prece. com grinaldas e emblemas. que tão cedo lhe caíra dos braços. o número dos que sucumbiam pelejando a seu lado na grande batalha da vida. a jovem mãe que soluçava pendida sobre um berço vazio. rezar responsos e mementos à sepultura dos seus. em climas melhores. que preparava a oferenda fúnebre para o marido. enchiam-se ao vento.. em que a rainha coroada era um esqueleto com panejamentos negros. da Rua do Hospício. à luz do qual as almas remoinham em bandos na beatitude dos eleitos – lá onde o dia é sem noite. Aqui. e na outra a ampulheta simbólica. da Rua da Vala. com velas de cera. passava revista às legiões de fantasmas refugiados em seus glaciais domínios. mandar falar a um padre para dizer a missa pelo defunto. Isto feito. cada um constatava as perdas que havia sofrido. colocando sobre estas as urnas funerárias.226 Melo Morais Filho noite da Idade Média. No meio das igrejas. E os convidados da Morte seguiam em procissão fúnebre.. com inscrições e fechos de prata. com ramos de saudades e amores-perfeitos. enviavam-se emissários ao Mamede da Silva Passos. a vida sem morte. de sempre-vivas e ciprestes. para que fossem armar à frente das catacumbas murais e as banquetas. levantando o archote que fuma sob o pé do Gênio funerário da arte grega. a viúva desolada e sem pão.. da Rua da Carioca. ali. O primeiro cuidado das famílias era. À porta dos templos. ao Joaquim Teixeira de Castro. desde a véspera . tendo em uma das mãos descarnadas uma foice. É que o cristianismo. peneirando de suas asas esgarradas e héticas a cinza dos mundos! ∗ O dia de finados subordinava-se a estilos preambulares. no solene cortejo. sanefas pretas de largos apanhados. transformou-se num facho sideral. agaloadas de branco ou de amarelo.. e.

de acordo com o caráter decorativo do recinto sagrado. que lhe descia abaixo da curva das pernas. que depositavam sobre o crepe das banquetas e nos ângulos dos ossários. do Rosário e de S. o cemitério das alimárias. os velhos e os rapazes. e os sinos dobravam lúgubres como o pensamento da vida eterna. em que haviam desaparecido. que nem um sorriso dourava-lhe o semblante severo. onde o culto dos mortos revestia-se de todo o aparato litúrgico.. de Santa Ifigênia. desfilava tão pesaroso.. – Amém. de opa verde. o pobre filho da África do cão que se sacia e morre na lama das ruas! E o vácuo abria-se no lar. antes de depor sobre a bacia reluzente um ovo.. ao passo que imenso povo. E todos os sinos dobravam. As mães conduziam pela mão os tristes filhinhos. E os meninos e as moças. pedindo sufrágios pelos mortos. Miguel e Almas.. no desabrigo e no solo. com grinaldas de ciprestes e de flores. o escravo procurava de preferência a igreja da Lampadosa. de barba rapada ou à inglesa. onde chorava os seus companheiros de infortúnio. entrava pelos corredores. o carrilhão dos mortos soava o lamentoso aniversário. e a vala de Santa Luzia não distinguiam. porque descansavam na casa de Deus!. nas covas sem letreiro e sem luzes.. implorando. de calça curta e estreita. De véspera. benzendo-se. as pompas fúnebres do rito executavam-se majestosas. compenetrados de sua ação meritória. em Catumbi. Em épocas anteriores. ou uma moeda de dez réis. vestido de luto. enquanto que o escravo de quitanda ou do ganho fazia diante do irmão das almas leve genuflexão. vara e pequena bacia de prata. respondiam. prosseguindo. uma banana. com acentuação pausada e reverente: – Pra missa das almas!. dizia o figurão da irmandade de S... davam esmolas de dinheiro. com a sua opa de seda. – As almas santas lhe ajudem. Nos conventos e nas ordens terceiras. um povo estranho.Festas e Tradições Populares do Brasil 227 às três horas. .. Domingos. afrontava os transeuntes. que levavam à memória paterna goivos enlaçados de ciprestes. os pobres cativos. até às seis da tarde seguinte. batia nas rótulas. as famílias encaminhavam-se às igrejas. igualmente. uma laranja. E eram eles bem felizes.

com uma cruz prateada ao longo. Homo natus de muliere. com a fronte pendida e as mãos ocultas na . Miguel e Almas. E os frades. ladeado de ciprestes e seis tocheiros de prata. inscrições diversas. destacando-se ao fundo a sacrossanta imagem do Cristo. Parava-se diante de cada uma. um irmão das Almas e uma chusma de mendigos pediam esmolas a quem entrava – o que não lhes era recusado –. coberto de veludo preto. refluindo no coração dos fiéis. tendo na frente. os ofícios. os me men tos e as mis sas par ti cu la res em to dos os al ta res. etc. et in pulverem reverteris.228 Melo Morais Filho No altar-mor fechava-se o trono com um véu preto e docel da mesma cor. e estes e os mais penduravam às maçanetas e à cruz inclinada das urnas as grinaldas que iriam fanar-se ao contato frio da morte. Sic transit gloria mundi. atravessando lentos aquelas vastidões consagradas. brevi vivens tempore. Sobre as sepulturas do corpo da igreja e dos claustros viam-se aqui e ali panos pretos com cruzes de galão. por intenção de algum parente morto. murmuravam o memento. E as flores serviam de lágrimas à morte. – Pra missa das almas!. Depois as estações cantadas no claustro. com o corpo cheio de sangue e os olhos cheios de perdão. multis miseriis. os velhos ru minavam uma prece úmida de pranto. E a missa estava no altar. À porta de cada igreja. adiantando a bacia.. e às quatro extremidades ricos castiçais com velas acesas. elevava-se custoso catafalco. como as lágrimas de flores à vida! Nas catacumbas ar madas de veludo negro. repetiam a instantes os prepostos da irmandade. sobressaía o nome do morto que encerravam dísticos. o canto gregoriano batia as suas ondas de sagrada har monia. Memento mori. que deitava para o vestíbulo. uma caveira assentada sobre duas tíbias cruzadas. No plano abaixo do cruzeiro.. e a cada canto inscrições tiradas da Bíblia: Pulvis es. emblemas. e dando a beijar a vara de prata com a imagem esculpida de S. que reboavam no espaço e nas naves. pelo qual se comprometiam a rezar um Padre-Nosso e uma Ave-Maria... os meninos soletravam assombrados as legendas fúnebres. de tamanho natural.

para os responsos nos cemitérios. dispersava-se sem tumulto. quando a veneração pelos restos dos que nos foram caros ainda era legítima. porém. assistindo às missas em sufrágios. necessidade esta reclamada pelo crescido obituário. até que a noite aninhava-lhes de novo o túmulo no silêncio e no mistério. como se acompanhassem solenes uma procissão de além-túmulo. lá permaneciam todo o dia. pela madrugada. e mais tarde estúpidos abusos. o cidadão pouco avultado. De véspera. os personagens ilustres. que se foi apagando pouco a pou co. As grandes senhoras. confusa. na insolação do descampado. o escravo. . ornamentos que a saudade ofertava em lembrança dos que haviam purificado na campa a vestidura terrena. encomendando os seus mortos. guardando a prataria. etc. Com a febre amarela. Os negros.Festas e Tradições Populares do Brasil 229 manga do burel. E outro. a herança desses costumes manifestava-se pelas pompas exteriores do momento. as famílias preparavam-se. partiam escravos com grandes tabuleiros à cabeça.. a mudança de lugar determinara ligeiras variantes. Daqui e dali. e um coro de vozes rompia em tons pungitivos: – Pelas almas santas benditas!. enfim. mudando as velas que se gastavam. que diziam-se até as três horas. ficaram abolidos os enterramentos nas igrejas. reverberando sobre a população claridades suaves e patrióticas. De pé a tradição. percorriam os templos. e de que apenas subsiste uma idéia vaga. Então o povo saía. a família obscura. contratando sacerdotes para as missas. Como no passado. serpentinas e medalhões com emblemas adequados. mais forte: – Pra missa das almas! E os sinos dobravam pelos fiéis defuntos. cônscio de haver desempenhado religiosos deveres. inaugurando-se a abertura dos cemitérios públicos em 1851.. no adro das igrejas.. Desde logo. em que iam castiçais com mangas de vidro. o dia de finados tomou outra feição. cestos. rezando as suas orações. a mão de um pobre estendia-se ao passante. Na primitiva. profanada. samburás.

embalado pela brisa que soluçava entre os arvoredos isolados das longas avenidas. o coração confrangia-se. E as luzes estão quase extintas. para depositar nos jazigos sun tuosos e na cova rasa. celebravam missas. com o braço enfiado em coroas de ciprestes. Francisco de Paula.. lavravam os epitáfios espontâneos de amarguras que se calam. trajado de luto. os ricos. como se a sua prece sacrílega pudesse aliviar das penas a seres mais puros! Raras são as pessoas respeitáveis e sérias que atualmente ainda visitam os cemitérios. Ao avistar-se a cidade da Morte. os ministros de Deus rezavam mementos. No mármore dos carneiros. o sentimento religioso dominava da altura celeste. nas quais o amor. em presença das famílias.230 Melo Morais Filho Devido à distância. carregados de flores e coroas fúnebres. Como era edificante aquele lúgubre espetáculo! Como deviam exultar no Senhor os ossos daqueles mortos! Depois. a vaidade foi cuspir no esqueleto de hoje – ela que será o esqueleto de amanhã.. preferem as horas mais próximas da madrugada ou as mais distantes do entardecer. e nas capelas do Caju. um pai ou uma mãe. o desalento. caminhando em devotas romarias. é que a treva não cairá somente sobre o culto dos mortos. mas sobre o culto da Pátria! . o sacerdote agride pelas preferências.. com as pálpebras inchadas de pranto. João Batista e de S. depositava. Junto aos templos. tudo se foi! O mármore dos túmulos manchou-se das nódoas do vinho e das obradas refeições. um parente ou um amigo. aspergiam as lousas. distribuía-se em direções diferentes. conduzindo as suas lembranças funerárias. a saudade. e a gente mais modesta em omnibus fluminenses seguiam o mesmo itinerário. Sulcando os quadros populosos dos cemitérios. conforme os cemitérios. onde uma cruz de pau pintada de preto dava prantos de orvalho às memórias ignoradas. nas suas belas equipagens. Destas. no chão do fosso fechado. O povo. algumas que o fazem. Quando elas se apagarem de todo.. os padres. paramentados de capas e casulas pretas. de S. mas contrito.. cantavam os ofícios. as suas oferendas enlaçadas com largas fitas..

TRADIÇÕES .

alguns senhores. . . Abandonando por toda a duração da moagem as suas mag ní ficas e confortáveis moradias. enramadas ao gosto dos estilos selvagens. em Capivari. ao rumor sacrílego que acordava os ermos. . alguma coisa de estranho se passava nas fazendas. . . as festas do trabalho. . Aos harpejos bárbaros da floresta. faziam os cálculos sobre os proventos de suas plantações e consideravam no dia da inauguração da moagem. . os jubileus da lavoura tinham sobre a fronte grinaldas frescas e odoríferas. a começar de abril. fiscalizando diretamente o trabalho. A gente da redondeza. época em que todos os en ge nhos prin ci pi a vam a fun ci o nar. acompanhados por vezes da família. desusada atividade punha em alvoroço foreiros e escravos. . . convidada ou não. em Macacu e em toda a província do Rio de Janeiro. . . . dispunha-se a comparecer à festa anual agrícola do mês de maio. vinham residir nos engenhos.. . os fazendeiros. . . . A Festa da Moagem (PROVÍNCIA DO RIO) o Norte e no Sul do Brasil. procedendo-se à capina geral do terreiro e de suas N . em suas casas de vivenda. . as en xadas e as foices dos escravos lampejavam ao sol. No Rio Bonito. . . porém. traçando planos alegres e realizáveis. . na Boa Esperança. . . Desde maio. . .

pelo espadanar das cascatas. da altura de dois andares comumente. À curta distância. casinhas de sapé. os paióis e depósitos. Aninhada debaixo de um céu sem névoas e quente de esplendores. procedia-se ao corte das canas. os carreiros seguiam à frente dos tardos bois. a do engenho. encantava-se diante de uma paisagem larga e pitoresca. saudados pelo cântico das aves. rebanhos e bois nas pastagens. em planos variáveis. Quem passava então pela estrada desfrutava um espetáculo aprazível. acentuavam o tom característico desses núcleos agrícolas. que chegavam em carros de bois e ficavam sob os alpendres ou em depósitos especiais. Os paióis e as senzalas. própria do nosso clima e do nosso meio. pelo murmúrio dos rios. ao guincho dos carros. outrora tão florescentes e hoje quase infecundos. A casa de vivenda. que abrangiam o inteiro perímetro. ranchos dispersos. elegante e avarandada. Pontes atravessando córregos. especialmente no tempo da moagem e da safra. monótonas até ao enfado. à força de serem semelhantes. surpreendiam as auroras do sol que os encontravam no eito. e uma ou outra senzala de cujo teto um esteio rompente se abria em ramas e flores – eis mais ou menos um quadro das nossas antigas fazendas... o quadrilátero extenso ocupado pelas construções principais e rústicas da grande propriedade. entretanto. . a bela casa de vivenda do fazendeiro opulento dominava em uma eminência. a escravatura recebia timões de baeta azul e roupa de algodão para o gasto do ano. e os cantos dos negros em turmas eram acompanhados em surdina pelo cicio dos canaviais às virações do amanhecer: ’Stava na praia escrevendo Qu an do o vapô api tou: Foi os olhos mais bonitos Que as on di as do mar levou!. Os escravos. com seus alpendres contornantes. e de acordo com o desenvolvimento relativo dos nossos proprietários rurais. sobre um terreno amplo. de oito a quinze dias antes da moagem. com suas varandas compridas.234 Melo Morais Filho proximidades. e. a vida nelas se reanimava. Desde escura madrugada. arborizado e varrido. as senzalas extensas eram caiadas e limpas. a fábrica do açúcar levantava-se vasta.

para a ocasião oportuna. De véspera. colocadas de distância em distância. galinhas. impressionáveis e meigas. enchiam o recanto de um aposento. De po is não ve nha di zen do Qu’eu fugi do ca ti ve i ro. apenas a luz da manhã estava em casa de Cristo. Eram os pobres escravos do Norte que carpiam as suas saudades! Era um pensamento talvez de suicídio. interna e externamente. da direção das escravas doceiras. . No dia da moagem. Mas o dia da festa estava marcado. olhando espantados. no terreiro. indivíduos de toda a casta. já se achavam na fazenda os compadres e os amigos do estimado senhor e que tinham vindo de longe com suas famílias. saltando e brincando. muitos dos quais descalços. e aqui e ali os moleques e negrinhas. Os foreiros ajudavam os escravos nos preparativos. um bentinho ou um rosário de devoção materna.. comprados na cidade. de troféus. e os foguetes. me ven da. Apro ve i te seu di nhe i ro. de ramagens e palmas. os coronéis da Guarda Nacional conversariam sobre eleições. a família do agricultor. a casa do engenho e as mais construções adornavam-se. a música se achava avisada.. e com antecedência ultimavam-se os aprestos. As moças românticas.Festas e Tradições Populares do Brasil 235 Minha se nho ra. das que arranjavam o necessário para os convidados e hóspedes. de pendões vegetais entremeados de flores selvagens. lá vinham convidados a cavalo. sonhavam com os primos bacharéis. as bandeiras. chusmavam em algazarra.. de festões e arcadas de folhagens. trazendo às costas sapatos enfiados no ipé. uma idéia de morte tarjando de luto a esplêndida aquarela da natureza!. para apresentar o seu candidato ao futuro pleito eleitoral. incumbindo-se a dona da casa. mostrando ao colo uma figurinha suspensa. carneiros. Matava-se um boi para o banquete dos senhores e ração dos escravos. etc. De véspera também. e as influências locais não perderiam a vasa para a cabala. famílias em carros de bois com toldos de esteiras ou de chitão lavrado. flutuavam na extremidade dos bambus flexíveis e verdes. aqueles com a camisa aberta no peito.

..No dia da mo a gem..

que com as harmonias. em oferecimentos aos convidados. O prazer. E os primeiros chegavam. O bando de moças. entre gracejos e abraços. desde muito cedo. O fazendeiro e os seus os recebiam. desfazia-se em delicadezas. riso franco. os escravos estavam a postos.. para melhor distinguir os vultos. lobrigavam os convidados que se aproximavam. os caldeirões areados e espelhantes. estendia a mão sobre a testa. pondo ao lado a xícara de café. apalermadas. a alegria mais sincera. as gentis roceiras. A um momento inesperado. a música da vila tocava ao longe. Macedo. conservando-se mudas. era indizível: todos corriam às varandas. os escravos tomavam os animais. alongavam o pescoço. a sem-cerimônia mais cordial. a mulher e as meninas.. assomando em um carro de bois. mesmo longínquas. A fazendeira. os deveres obsequiosos mais distintos. o forno provido de lenha. e lencinho ao pescoço. As moças da corte e as mais interessantes e inteligentes e da freguesia falavam em namoro com os rapazes. com seu vestido de musselina. procurando-lhes o conforto. fazendo contraste com as que não se levantavam das cadeiras. O fazendeiro. recordando apelidos.Festas e Tradições Populares do Brasil 237 Na varanda de sua habitação. se espalhava na fazenda. tinha de cor as poesias sentimentais dos poetas do tempo. riam de qualquer coisa. Neste ínterim a casa da moenda acabava-se de armar. as mucamas e . tagarelavam. aventurando nomes. seu chapéu-de-chile ou manilha. Até alto dia era a mesma lufa-lufa: progressivo concurso de povo. penteadas e prontas. trepa-moleque. cresciam da ponta dos pés. trazendo o guia o chapéu circulado de flores do mato. o fazendeiro e a família. lindas e vistosas. com seu rodaque e calça de brim pardo. todo enfeitado de flores e ramagens. as famílias apeavam-se. proporcionando-lhes hospitalidade proverbial e antiga. recitavam a balada da Moreninha do Dr.

238 Melo Morais Filho as crias desciam à porta. pediam a todos os santos para que nada lhe tivesse . que acreditamos uma verdade. os foreiros sa íam de suas casas de sapé. uma nota discordante se apercebia. para ressentimentos da parte daquele: o que cumpria evitar. da parentela sem fim dos donos da casa. concorrendo esse expediente. um acontecimento fatal punha em atraso a vida do fazendeiro. do povo que se reunia em festivo convívio. chegando-se ao terreiro. acendiam a Nossa Senhora. as moças faziam promessas. causando geral inquietação e sensível impaciência: a ausência do vigário! Era da tradição que. embora autorizado. tudo corria mal: os escravos morriam ou decepavam as mãos nas moendas. que nem sempre era fácil. Fa zen de i ro na varanda Apesar do prodigioso número de convidados. No pleno domínio desta superstição. Como é de prever. ou a procura de outro sacerdote. não se benzendo o engenho em cada safra do ano. o não comparecimento do vigário importava a transferência da festa. um desastre qualquer perturbava a paz da família.

as caldeiras. apeava-se o fol gazão e nédio vigário. os alambiques. em expansivas manifestações. e o velho fazendeiro e sua mulher. trazendo consigo a esparramada comadre e a récua de afilhados. dirigiam-se a ele. A recepção. assistiam igualmente ao ato vestidas à moda. abria o livro sagrado. os cochos. na grande área ocupada pela almanjarra. etc. As mo ças e as matronas. o vigário o juiz do termo. formando um derradeiro grupo o fazendeiro. aos abraços. indispensáveis ao fabrico de açúcar e da aguar dente. tornava-se estrepitosa. O vigário. sobressaindo em suas vestimentas e nos cabelos lacinhos de fitas verdes e amarelas. passava-se da celebração religiosa para a festa .. finda a qual fechava o livro e afastava-se. as pessoas mais gradas e os primeiros personagens políticos da localidade batiam palmas. com seu séquito de belas mucamas. o juiz de paz.. E a música descia. em fi O vigário leiras sucessivas. A música.. tendo ao lado o sacristão. o vigário e seu sa cristão tiravam de uma caixa de folha-de-flandres os seus paramentos. e suas competentes famílias. E de um dos carros cobertos de colchas de chita. aos apertos de mão. sobrepeliz e estola. ao passo que muitos dos circunstantes recebiam tochas enfeitadas e acesas. o orno.. sendo logo enviados pagens a cavalo à freguesia. E o vigário começava a bênção do engenho. de batina. a gente toda seguia para a missa e depois para a casa da moenda.Festas e Tradições Populares do Brasil 239 acontecido. debaixo de vivas. atroadora a fazer despertar um cataléptico. flores nativas. que se encaminhavam após. em desafinação constante. cedendo espaço à cerimônia da inauguração.. a gente toda ficava embaixo. a fim de indagar do motivo da tardança. Pouco depois. Uma vez na casa do engenho.

A mucama trocando-se brindes calorosos. seguindo todos em ruidosa folia para a casa de vivenda. E as moças aos cochichos. adiantavam-se para a almanjarra. homens. senhoras e crianças. geralmente apreciado. E o engenho moía ativíssimo. trepava na boléia fixa a uma das hastes do triângulo da almanjarra. lavados os condutores. cada qual para seu mister especial. de roupa bonita e chapéu entremeado de folhas e flores. nos requebros desconfiados. muitos dos circunstantes. passando a cada uma delas sua vistosa mucama um feixinho de canas raspadas. entusiásticos. o madamismo e mais circunstantes. ao estouro dos foguetes que se atacavam lá fora. Nesta ocasião. em riquíssimos bules de prata..240 Melo Morais Filho profana. onde lauta refeição. às risadinhas. propriamente dita. das girândolas que sibilavam intermitentes até a conclusão da cerimônia. Em seguida. da inauguração anual dos trabalhos da fábrica. Então o vigário. e dali gozavam da festa da moagem. reuniam-se aos convidados. . sobretudo por ser o da primeira moagem. as palmas choviam. esgotado o primeiro caldo. que se achavam nas varandas. Os escravos empregados nesse trabalho debandavam. que eram delicada e cuidadosamente colocadas por suas senhoras dentro dos cilindros da moenda. tocava a parelha de burros. subiam para as varandas interiores. e um molequinho. segundo o ritual observado por nossos lavradores. que presidiam a inauguração.. fazendo girar todo o maquinismo. levavam as escravas saboroso caldo de cana. aparatosamente ornadas. A música atordoava ainda mais. o fazendeiro. presas por laços de fitas. com grandes escumadeiras e outros utensílios da indústria. opípara merenda era servida.

. A fazenda.. etc.. enquanto a sorte coroava de bens a opulência. E enquanto o baile estuava nos salões dos senhores. o caldo que se distribuía a granel.. E um morador. Eu já fui mes tre d’açúcar.. os escravos dançavam as suas danças..... Hoje sou oficial.. Desde o anoitecer a música preludiava o baile.. cana ver de. no terreiro e na fábrica.. Cana ver de. dos urucungos e das marimbas. .. pesado como uma mortalha. sapateando na chula animada e fervente: A ca cha ça é moça bran ca Fi lha de par do tri gue i ro: Quem bebe mu i ta ca cha ça Não pode ajun tar di nhe i ro..... ninguém mais trabalhava: os escravos batucavam depois do jantar. em cuias de cabaço amargoso. cantavam as suas toadas. brincos de ouro...... adormecida à meia-noite...... fios de corais.Festas e Tradições Populares do Brasil 241 Toda a escravatura.. Uma semana mais tarde tudo estava mudado.. aos tinidos das violas. Nesse dia.. tangidas na solidão: A vida do pre to es cra vo É um pen dão de pe nar: Trabalhando todo dia Sem no i te pra des can sar.... que começava às nove horas e findava de manhã. os foreiros dançavam e cantavam. caía sobre a planície e a colina. golfejava chamas nas trevas que fugiam espavoridas... tomava um aspecto sinistro e aterrador... Cana do ca na vi al.. a fornalha do engenho.. como lembrança da festa... .... como o olho esbraseado de um demônio.. os senhores moços presenteavam as crioulas e as mulatas de estimação com belos cortes de vestidos de chita e de cassa. Aos que haviam assistido à inauguração era de costume mandar-se potes de melado e rapaduras..... os foreiros em tropa e os conhecidos destes... ao fogo de pequenas fo gueiras que ardiam tímidas.. ao uso da roça.. à exceção da gente do engenho.. à luz fumarenta dos candeeiros do muro externo das senzalas.. apreciavam. Os vaga-lumes faiscavam no campo e nos tetos das senzalas. e o silêncio......

. mas sem parar. ari rá. monótona e cadenciada como o coaxar dos remos na travessia das canoas. tocava os animais que a rodeavam lerdos e fatigados: Eh-bango! Bango-eh! Caxinguelê. que.. ari rá. O tempo da safra durava por meses. completando a onomatopéia desta toada que terminava silábica.. em turmas alternadas.. admirativa e estacando de súbito: Eh – ah!.. sentado na almanjarra... sonolento e alquebrado. Era um velho africano... uma melodia em voz rouca. O pri me i ro caldo .. feria o ar. Tan go. despertando os ecos dos ermos. E o chicote estalava... Tan go. pausada. os escravos trabalhavam dia e noite. Uma vez inaugurada a moagem.242 Melo Morais Filho De espaço a espaço. porém. Come coco no cocá .

. o incesto. irrealizável. . empregados no foro e em vários misteres. o seu lar primava por estilos particulares e antigos. abastado. . o certo é que os ciganos alteavam-se à perfectibilidade sociológica. . Pobre. podia excluir-se de seu meio a poligamias. . pela inviolabilidade de seu regímen privativo. viviam extremadas. Pelo viço de suas legendas. que a confusão tornava-se inadmissível. . . Nessa época muitíssimos eram os ciganos aqui residentes. no tocante à instituição da família. As castas. .. . . . . . .. sendo unicamente E . Surgindo dos nevoeiros pré-históricos ou não. a promiscuidade. . por conseguinte. . . . todos porém constituídos em sociedade à parte. entregando-se ao comércio de escravos e cavalos. . Um Casamento de Ciganos em 1830 m 1830 as classes sociais no Rio de Janeiro achavam-se por tal forma discriminadas. . ou opulento. . com suas tradições especiais e antagonistas. pelo simbolismo de suas manifestações. obedecendo a esta lei. onde mantinham. . sem a menor quebra de lealdade. com suas usanças e costumes próprios. . etc. Habitavam geralmente o Valongo e a Cidade Nova. . as suas tradições e os seus prejuízos de raça.

e a sorverem resignados a última gota de amargura que lhes envenenava os dias. Não era necessário. Entre ciganos o escrúpulo de corpo estranho (pessoa de raça diversa) determinava alianças entre parentes próximos. A intervenção paterna como medianeira nos contratos. Em geral o amor não tomava parte nesses atos. a lealdade da revelação que infamava. Pinto Noites. e daí a pluralidade de casos patológicos. o que muitas vezes observamos. até 1830. o casamento dos ciganos. imprimiam nesses pactos uma característica sem analogias nas nossas camadas populares. . abrangia toda uma série de particularidades típicas da raça. porém a individualidade moral que varia como aspecto. que arma a sua barraca ao vento lúgubre das nossas florestas e dos velhos ciganos que conhecemos. o mais alto representante dos instintos nômades de seu povo.244 Melo Morais Filho adotada entre eles a monogamia como união sexual. podemos afirmar que tudo se passava como na primitiva. que se manifestavam pelo enfado e desprazer de uma vida inteira. completamente dessemelhantes das que se notavam nas outras. ca racteres redutíveis e ir redutíveis. Como conjunto étnico. mas que não se evapora como essência. Referindo-nos aos casamentos dos ciganos no Rio de Janeiro em 1830. que mais influíram na nossa formação nacional. no dizer insuspeito do Sr. a prova sacramental do gade (camisa). que são tanto mais exatas quanto foram eles personagens autênticos. estremecimento. passemos às informações. que assentava sobre a virgindade as bases da família nascente. No concurso dos sexos não transmitiam apenas heranças fisiológicas e mórbidas. afeto. constrangidos pelo dever a risos fingidos. estado este que assinala o pleno desenvolvimento das coletividades humanas. para que as alianças se realizassem. da mulher e do homem. Dele. bem como três ou quatro indivíduos surdos-mudos em uma só família. os usos excêntricos entre os noivos e parentes. Daí insucessos freqüentes. simpatia comum.

Se a filha não estava pura. soluçando.. de pé e afastado. que por instantes acariciara uma ilusão. desvendava o mistério da dor que o pungia. Conhecido o dilema. cobria o rosto de vergonha. Ao ver dos ciganos. alongava o olhar de soslaio.. entregava ao homem de sua casta um tesouro de virtudes para a riqueza de sua prole. arrebatado de entusiasmo.Festas e Tradições Populares do Brasil 245 Essas núpcias realizavam-se fatalmente. este os recebia fa voravelmente. alvitre aceito sem exame e posto em prática em seguida. em que o provocador teria de ser vencido pelas acusações. e as cenas desdobravam-se naturalmente. dava-se. e. maior de dezessete anos. E esta lealdade não o aviltava diante dos seus. como por desfastio dos pais. expondo a murmúrios malévolos e à calúnia uma reputação às vezes imaculada. a menos que a rapariga não houvesse tropeçado na desonra. estirava o pescoço. Negar uma moça pedida em casamento. suspendia a respiração.. que se lembravam de que um filho estava em idade de tomar estado. apanhando no ar frases desconexas. não assistindo aos da noiva o direito de recusa. chamava a filha e. dirigia-se com ele à casa de outro bato. trêmulo de contentamento. modos expansivos. Os trâmites a seguir eram vulgares. lamentava-se. que tivesse uma filha núbil. implicava estabelecer uma luta de preconceitos. O contrário. vendo afundar-se no túmulo. ditos chistosos. mais tarde sabedores do ocorrido. O avelhantado bato. quando a mãe de amanhã fosse virgem hoje. porém. E os dois conferenciavam em segredo. Assim. o sim constituía a regra. radiante de júbilo e felicidade. À distância. desconfiado e tímido. com agrados declamatórios. mas ressurgir no futuro. o domínio da igualdade era absoluto. nem no ânimo do progenitor do malogrado noivo. oficial de justiça ou com um emprego qualquer. Então o pai do pretendente dirigia-se a este: . escorando uma aportada. que o aconselhava de casá-la com um querdapanim (estrangeiro). O rapaz. o pobre pai.. por algum tempo. quando um bato (pai) tinha um filho. percebidas as intenções.

inclinava-se diante de sua noiva. O filho. meu filho. pulando de satisfeita. certo de que enquanto eu ti ver um prato de feijão e uma pitanga. pai do noivo. Olha que teu tio aceita a tua mão e se compraz de que faças parte de sua família. com uma chusma de filhos. endireitando o xale vermelho. obedecendo: – Agradeço. Nesta ocasião aparecia a sogra. rindo e gritando. com os abraços abertos. cor ria para ela. chega-te. trocando-se protestos cordiais e amistosos. a honra que me dá.246 Melo Morais Filho – Aproxima-te. empertigava-se. saberei repartir com sua filha e minha futura consorte. e um pequeno diálogo se entabulava: . parentes e escravos. meu tio. e depois. O noivo beijava-lhe respeitosamente a destra. tomava a bênção ao sogro. enfiava as mãos nas algibeiras do colete. O pe di do de casamento O primo.

a sorte é que é tudo. o soalho co berto de areia. Duas ou três violas. que principiavam na noite imediata à do pedido. e é bastante para sermos todos felizes. porque o menino tem baque (felicidade) para dinheiro e não é coconão (mentiroso). quando ela precisar. mimoseava a noiva com um enorme ramalhete de cravos brancos e encarnados. peças de fita cor-de-rosa. Dê-lhe seu filho um vestidinho de chita. terá ela. o casamento e a morte. na que os velhos ciganos chamavam dar a barroada. acrescentava a avó. A casa era lavada de ponta a ponta. Meu filho – não é porque o seja! – é muito ganhador da vida: tem queda para as barganhas. é só dela que carecemos. com outras dádivas espontâneas. eram para eles os acontecimentos mais solenes da vida. pressuroso. porquanto. compadres. É ver dade. que sua filha nunca se arrependerá. eu sei o quanto ele é bom. começavam logo a entrar os tios. respondia o pai do noivo. interrompia a re fletida so gra. não tem vícios. – Isto. não se excetuando mesmo os inimigos. o noivo. e enfeitavam a talha de ramagens floridas. e se prolongavam até a do noivado. prosseguia o pai orgulhoso – é o que se vê: muito laxinzinha (boa). Em todas as direções par tiam emissários. graças a Deus. meu primo. Na manhã seguinte. cortes . é humilde e. por tadores de participações e convites. é mesmo uma alma de Deus. que vinham dar os parabéns. meu primo. devi am ficar à espera dos tocadores dos bródios. primos e mais parentela. ao levantar do sol. minha filha. – Dizes bem. Esta formalidade era de rigor. enfim – é bom à boca cheia! Quanto ao ser pobre. e foram sempre estes os meus desejos: o que se quer é fortuna. consecutivamente.Festas e Tradições Populares do Brasil 247 – Só lhe posso ga rantir. encordoadas de novo. e. amarela. bem como sabonetes finos. – Sim. uns tamancos e banha para os cabelos. todos o são. Terminados os incidentes da negociação. – Quanto à menina. escarlate.

248 Melo Morais Filho de vestidos encarnados. afastavam-se. barrigudo e trigueiro. bebia-se com entusiasmo à saúde do ditoso par. que levantava-se.. as danças.. quebrava ao corpo. E lô. – Ó menino.. dizia um velho cigano. abaixava-se. E o bródio começava. Para o de amor só a mor te. cor de cravo.. amarelos e azuis. lê. faz babar as raparigas! E ágil. lê. Rodavam duas vezes. ao tocador que ponteava: bate no pinho! (viola). os chorados de viola.. etc. depois de sorver uma pitada de amostrinha. . tudo isto acompanhado de jasmins-do-cabo.. saltando.. Ê lê. aos brilhos das luzes nas mangas de vidro e nas serpentinas. vianda sobremodo estimada apelos ciga nos. rasgavam-se cumprimentos. para quantos chegavam. puxava a fieira diante de uma moça. cravinas. um rapagão pulava no meio da sala e cantava: Sobre mim ra i os des pe je O céu que nos ouve ago ra. paravam defronte um do outro.. Para os d’el-Rei há a lima.. dançando... Se so bre a mi nha von ta de Não tens man do a toda hora!. alecrim. Mas o de amor é mais forte. ê lá. abundância de assados e grandes lombos de carne de porco. cantando: Os fer ros d’el-Rei são du ros. lenços bordados de vários matizes.... ao aroma encantado das flores nativas exornando as portadas e os aparadores magníficos. Erguiam-se brindes. aproximavam-se. estendiam-se es teiras re pletas de iguarias esquisitas: ensopados. Terminada a quadra... com seu calção de ganga amarela. Diariamente. grilhão de ouro. os fandangos. Ao anoitecer..

cascatas de flores caíam-lhes so bre a fronte. que caía sempre em um sábado. e. porque o cavaleiro sentava-se. dupli cava. de volta do templo. E a viola dava afinação mais alta. irisadas e odoríferas. No fervor do bailado a dama ficava só. Os menestréis preludiavam nas vi olas as suas to adas.. dacolá. No dia do noivado.Festas e Tradições Populares do Brasil 249 As danças ferviam no rodopio. encaminhavam-se à freguesia. a maior glorificação. Às três para as quatro horas da tarde a habitação enchia-se de gente. saía um – bota abaixo! – corta-jaca! – bravos da letra! – que exprimiam o supremo do júbilo. Para os atos a que nos referimos. Às suas seduções outros não resistiam e dançavam. atacavam-se girândolas. os improvisadores improvisavam novas quadras.. os padrinhos. O bró dio À por ta fincavam be los troncos de mangueira. pela mistura das essências acres com o fumo do benjoim e da alfazema que ardiam. a família. e os velhos animavam os dançantes: – Bota por baixo. crescia o entusiasmo. daqui dali. menino! tudo por baixo!. No meio da lufa-lufa. havia quatro madrinhas: duas iam à igreja e duas ficavam. apenas os esposos transpunham o lar. enfeitavam a casa com aparato e gosto.. e doces cantigas corriam à porfia. os vizinhos abelhudos estavam atentos. Recebidos em matrimônio. os improvisadores improvisavam os seus epitalâmios ins pirados. o sapateado era mais célere.. e a atmosfera que se respirava lá dentro trescalava de odores in distintos. e os transeuntes paravam na rua. e. as ma tro nas que acompanhavam os no i vos. e os . Aos clamores destes.

As castanholas estalavam como beijos no ar. Desde este instante a animação era mais viva. As violas.. cinco lençóis. Sobre um móvel.. com seus costumes bonitos e pitorescos.... aromatizados com alfazema e salpicados de flores..... Ai! Se re no!... mais estridente. E o bródio principiava. adiantando-se os noivos e as duas madrinhas. Ai! Se re no!. achavam-se superpostos. com suas danças quentes e originais. alvos como uma hóstia. As janelas fechavam-se. a inquietação transparecia em todos os semblantes: o Quatro to chas e cin co len çóis rito sagrado do gade (camisa) ia cumprir-se. vencendo-se apenas no brilho os olhares negros e úmidos das formosas ciganas. oitavadas pelos menestréis habilíssimos.. . com suas sonâncias agradáveis e de tradicional poesia: Nas ci da des do Re i no Não se anda de no i te. por onde passavam os recém-casados.. Ai! Se re no!. ideais e encantadoras como as mulheres da Bíblia.. de tochas acesas. Sapato de seda.. sentados em seus poltronas... enfeitadas de fitas vistosas e estreitas tiniam. formavam alas. a pedraria e o ouro tremiam na sala. E todos repetiam em coro: Ai! Se re no!. derramavam sobre o linho raios de âmbar e ouro... encostadas a uma mesa...250 Melo Morais Filho convidados. Quatro tochas acesas. Pro mode o se re no. As violas e as canções vibravam mais fortes. À meia-noite re tiravam-se todos para um lado da sala.. Os velhos e as senhoras mais idosas ali se achavam.. Pêlo de al go dão. As luzes.

que suspendiam aci ma da ca beça.. o no i vo re ci ta va um discurso. Uma das madrinhas despia a noiva e deitava-a sobre um leito. a um sinal convencionado. das palmas e das flo res.. Depois da música e dos cantos. Pinto Noites é textualmente este: . aos alaridos do festim.Festas e Tradições Populares do Brasil 251 E os pa dri nhos. alongando o braço oposto. que tam bém eram qua tro. E oficiava. e o marido mostrava no gade as lá grimas de sangue da virgindade. passando um ao outro os círios que sustinham. Vestida novamente. des do bra vam os len çóis. juntando as ex tre midades. como para abafar qualquer gemido de dor. O final do que pro nunciara o Sr. os pa drinhos largavam os lençóis. O quar to de cin co lençóis Então nele entravam os desposados e duas sacerdotizas... Os instrumentos tangiam mais vigorosos. e formavam o quarto onde o sacrifício in cruento ia celebrar-se.

trovas. felicitações!. embebido de aromas suaves e coberto de folhas de alecrim.. ficava per tencendo ao esposo. meu tesouro! O gade Bravos.. E o bródio recomeçava. solenemente acondicionado.. o tinido das violas e as cantilenas meigas e plangentes: Sapato de seda.252 Melo Morais Filho – Senhores! Os meus louvores e a minha embaixada estão descritos no quadro da formosura de Luísa.. Pêlo de al go dão. acordando a noite com o sapateado dos fandangos. Ai! se re no! Ai! se re no! . O gade. que o guardava para sempre como penhor de sua aliança.

o candeeiro de bronze da Morte despede raios lívidos sobre as legiões espectrais que torvelinham.. . . . Daí os ritos funerários entre todos os povos. . Subordinada a leis evolutivas. isto é. . É que a humanidade primitiva encarava a morte como a con tinuação da vida. estabelecendo como que um A . .. A Festa dos Mortos (ALAGOAS) lém.. E suspenso às arcarias tenebrosas. que se fazem por aqueles que de nós se foram para sempre. em romagem piedosa e fúnebre. .. .. . nebuloso e sombrio. . . como um pouco de jornada que recomeçava. procurava unir a terra da luta à terra do sono. . lá no espaço que não tem fim. . iludir as tristezas da morte com os emblemas risonhos da vida. o culto dos mor tos. o túmulo. o pórtico noturno da vida eterna. muito além. . .. . e sobre as caravanas dos vivos que se estanciam no limiar. a idéia de imortalidade do espírito ou deste vinculado à matéria criou fórmulas tangíveis. . . . .. ritos especiais. . . . . ao grau de apuro mental das sociedades. eleva-se. as cerimônias lustrais e propiciatórias da generalidade das religiões. as comemorações individuais e coletivas.

com referência ao assunto. que tinham lugar duas vezes por ano. vindo embora de civilizações rudimentárias. já pelo imaculado dos sacrifícios. No Rio de Janeiro. salientando-se por uma fisionomia distinta e ideal. E aquela luz suspensa. Ao que nos consta. conservaram as tradições de suas terras. que somente nas límpidas origens do hebraísmo se po diam refletir. essas manifestações. dos príncipes e personagens ilustres de suas nações. e a Morte. celebravam suas festas dos mortos. E eram elas por tempo de lua cheia. os fizessem ressoar na Terra. era uma aurora que surgia e não uma estrela que se apagava. em algumas províncias do Brasil. os costumes de seus maiores. batendo com a asa refulgente nos horizontes do Céu. O tom purificador dos co memorativos. quando este astro melancólico envolve o cadáver do dia em véus de ouro e de poesia. fitando o quadrante da Eternidade. segundo observação própria.. passando-se . de uma ou de mais nações. os africanos. à exceção dos velórios e banquetes funerários. no que se refere à compreensão de religiosos deveres para com os mortos. encerram todas as delicadezas d’alma.. grupos desses homens. Até 1888. todas as harmonias de um vôo de anjo que. o túmulo. aquela lâmpada eterna ondula fantástica nos nevoeiros azulados. Abrigados sob a cúpula dessa alegoria. As próprias danças que precediam as redes mortuárias dos reis e rainhas. consoladora como a felicidade a esperança de uma existência melhor. para muitos deles. pelos revestimentos clássicos dos ritos antigos. não importa. já pelo relevo dos estilos. nada mais possuem digno de reflexões. aponta com o dedo a hora extrema do mundo!. nas Alagoas. encostando como que uma escada misteriosa à tétrica muralha. Fetichistas. as cerimônias do momento religioso remontavam-se por tal forma.254 Melo Morais Filho prolongamento. por meio dos quais se comunicassem a morte e a vida. umedecidas de pranto como o linho das mortalhas. unicamente no Penedo as festas dos mortos eram assim celebradas. Cruel a mais não ser a idéia do aniquilamento. onde possamos tornar a ver aqueles que nos foram caros. os negros da África.

e bem assim das viandas e cereais. essas orações lúgubres antes do segundo dia da festa funerária. ao som de seus rudes instrumentos. mira o rosto pálido nos rios e nas fontes. esses africanos passavam a primeira noite velada.Festas e Tradições Populares do Brasil 255 da colônia para o império. e tendo à cabeça bonés brancos. consultando aos seus usos. trinta ou mais africanos. seguidos . em monótonas melopéias. recolhidos em casa humilde e espaçosa. desvirtuavam o rito. em expiação de culpas das almas. finando essas preces. confundindo-se com as toadas soturnas dos negros acocorados em ronda. Retirando-se para sítios afastados. às cismas de além-mundo. uns toros de azeviche enrolados de neve apareciam na noite. Nesse grupo de penitentes. que destarte se iniciavam para consagrar aos mortos uma conduta de abnegações propícias. quando as estrelas choram e a lua. como uma fada perdida. E na véspera do amanhecer propriamente festivo. desapareceram com a extinção do tráfico e a transformação do meio. entregavam-se à contemplação mais aturada. de pequena quantidade de leite e água. que. e suas famílias que mais tarde entregavam-se às lides do preparo do banquete. à meia-noite. por um barrete de molde diferente. porém. a festa dos mortos dividia-se em três partes: o jejum e as rezas. ao calor das danças de analogias macabras. A esta iniciação propiciatória não eram estranhas mulheres africanas. dignidades subalternas e gradativas. fazia-se o silêncio. No Penedo. de bebidas alcoolizadas lhes era de rigor. a abstinência de licores fortes. um balido de ovelhas ouvia-se lamentoso. De raros legumes. pela vestimenta listrada. os banquetes e as danças. carpindo os seus mortos. os sacrifícios. Muitos dias antes da festa. Mais tarde. se compunham as refeições desses bárbaros. uma prática de virtudes admiráveis. Vestidos todos de uma espécie de alva. internando-se no obscuro das matas. umas formas corretas. havia chefes e subchefes. Constituindo uma feição do sacerdócio. unicamente o chefe distinguia-se dos demais.

Ao sangue que jorrava nas escavações do campo. por famílias africanas que não podiam comparecer. Em crescido ou pequeno número. nos misteriosos de suas tradições. de machadinha suspensa. Asilados na reserva de suas crenças. enquanto a distribuição da carne se fazia pelos conhecidos ausentes. O che fe sa cri fi ca dor . a cuja vibração caía a lâmina afiada sobre a cabeça dos cordeirinhos mansos. não manchando po rém as mãos no san gue das víti mas ofe re ci das em holocausto. encaminhando as oferendas vivas. chegavam a terra aljofrada de orvalhos.256 Melo Morais Filho de alguma coisa que se assemelhava a um rebanho de brumas cintilantes e erradias. iam orar ainda. para serem imolados aos fogos da aurora. mas conterrâneos na mesma fé e no mesmo rito. nem uma suspeita importuna. que se tornava então impenetrável como os sepulcros improfanados. E depois recolhiam-se. esperavam a hora da matina. Eram os sacrificadores negros que levavam os cordeirinhos alvos para junto dos buracos recentemente cavados. e sem nodoar a destra no líquido da vida. nem um indivíduo estranho devassavam-lhes o lar consagrado pelo culto. os sacrificadores. que se ajoelhavam e morriam. E à borda das covas abertas. os sacrificadores passavam as vítimas ainda quentes aos que estavam reservados para outros misteres. impunha o ritual o pre ceito de cada um dos convivas da morte concorrer com o seu.

E o ban quete funerário. por cima da ter ra e por baixo das pedras. com o aparato externo. deliciavam o paladar. os ca rurus. começava a servir-se. entor na vam aqui e ali. os acarajés. que supunham virem nas horas caladas da noite partilhar das oferendas comemorativas. . o arroz-de-açuá. vestidos com suas vestes brancas como os desertos do Saara e as are ias de Omã. com a assistência permitida. opulentando o festim. E acauteladas no andar. pessoas de todas as classes reuniam-se. a da terceira parte da comemoração dos mortos. cobrindo com o pano de Angola cui as A co mi da das al mas bordadas contendo comidas. se guido de danças que iriam encantar os Manes na viagem glacial da morte. receosas nos movimentos. Na extensão do terreiro. perdendo-se das vistas curiosas. os aberéns. mas ainda o povo da circunvizinhança e da cidade. tinha de suceder-se. matronas de África. recomeçando imediatamente após. De turbantes e panos da Costa. participando dele não só os celebrantes do africano rito. o funerário alimento para o banquete das almas. que acudia em tropa àquelas paragens.Festas e Tradições Populares do Brasil 257 Depois uma outra cena. as mu lheres negras prodigalizavam aos convivas do estranho festim comidas à moda de seu país. africanamente condimentados e repartidos por todos os assistentes. voltando-se com o olhar. lá seguiam às ocul tas. de saias rendadas e pequenas chinelas. E os guisados esquisitos. e um arruído de instrumentos fremia esvaindo-se no ar. de face lanhada e gestos magníficos. entravam e saíam da casa em festa. Depois. sendo as principais refeições dos dois dias últimos presididas pelo sumo-sacerdote e seus sequazes.

como distintas plainavam as suas intenções. entremeados de qua drinhas ardentes. até o instante em que o chefe da religiosa festa ordenasse o intróito. porém. os solenes batuques. o bando negro. Às danças populares da multidão mestiça. E os tambores. estuavam no descampado. afluindo. E. os pandeiros. o definitivo começo. os dançados ori ginais davam a nota característica e primitiva do rito tradicional. ostentando seus adereços primitivos. . batendo palmas. a um aceno do maioral negro. da turba indiferente ao pensamento que se alongava por sobre os penitentes como as asas sonolentas de um abutre de Josafá.258 Melo Morais Filho Isso traduzia o sinal para as danças dos negros. as contas de ouro e os corais de Bailadeiranegra suas pulseiras magníficas. os vus. os dançadores da África isolavam-se perfazendo um grupo distinto. os co cos atroadores. de chulas las civas. E em um rodopio. em afinação progressiva. condensando-se aos poucos. aparecia para as danças. sem mais tardança. as macumbas. corridos no dedo. agitavam as plumas de suas vestimentas. que faziam desabrochar nos lábios de roxos lírios das africanas as canções aladas e selvagens. arrufavam. onde os batuques bárbaros. sa pateando. chocalhavam os búzios de seus colares de miçangas. a cadenciar-lhes os flan cos ar re don da dos nos re que bros da cin ta fle xí vel e es guia. separando-se o bando religioso do que comparecia alheio ao sentimento dominante do propiciatório festejo. dançando e cantando. os cocos. a gente escolhida para a extensa roda. os africanos e africanas. em algazarra confusa. as caixas batiam. Pitorescamente vestido. os pandeiros e outros instrumentos faziam-se ouvir intermitentes. os demais instrumentos vibravam. Não obstante ao povo inteiro serem facultativas as danças dos seus usos. os canzás.

às cadências do batuques. imprimia-lhe na fronte o beijo de sua luz. Como é calmo e profundo o sono dos mortos!. À semelhança das danças esculpidas no mármore dos sarcófagos. os cantos e as danças emudeciam de todo. . tirando-o para as danças.. faziam mais ressaltar o fantástico daquele quadro. A recusa.. pendentes do cabo de uma varinha de prata de 60 centímetros de comprido e em cuja extremidade tiniam moedas de ouro...Festas e Tradições Populares do Brasil 259 A tarde ia distante e vinha a noite. ao passo que uma das baiadeiras negras. se acontecia dar mais. A este ofereciam as baiadeiras da Morte ramos de flores enlaçados de fitas. no estrépito das danças. A lua cheia. Então os archotes multiplicavam-se em torno do círculo festivo. chegava-se para os assistentes profanos que circulavam os bailados. libertando-se da roda. os archotes apagavam-se na escuridão. ainda mais outros. E eles não acordavam. a satisfação era geral. E seguia-se outro. tumultuavam em ronda funerária para dispersar e distrair os Manes. os vivas e as palmas coroavam-lhe a generosidade. entregava-lhe ela a sua varinha de fada.. dançando sempre. e filhos d’África. e. guarneciam a ronda com os clarões acesos. de encontro às voltas de miçangas e búzios que a adornavam de um palmo. na província das Alagoas. para a festa.. acendendo ar chotes de resinas. em aclamações prolongadas e vivíssimas. a alegria plena. os negros d’África.. levantando a face pálida do dia moribundo. Em frente do espectador escolhido. Os batuques e as danças funerárias chegavam a seu termo em horas adiantadas da terceira noite. como as de um incêndio. E os batuques e as cantigas. ficava compensada. os dançados e os clamores avi ventavam-se mais e mais. Mas as rezas e os festins passavam. e as chamas vermelhas. entretanto. espontânea e animadora. contribuindo o indivíduo com mil a dois mil-réis.. Aceito o convite. Graciosa e vistosamente trajada. recobria-lhe a mão suspensa uma chuva de fitas de todas as cores.

. Atirado no oceano do destino. . .. . eles tinham o túmulo como um portão por onde se passa para a eternidade. . . À semelhança do pescador que aplicando ao ouvido o búzio que encontrara na praia escuta os rumores das vagas longínquas. não pressentindo na hora extrema o vulto infecundo do aniquilamento encher-lhes o sepulcro de asfixia e de vermes! Na pureza de suas intenções. fez a esperança para as alturas da razão. . . . . no seio da religião e da família. os arrecifes em que as vagas da sorte quebram-se lamentosas surgem aqui e ali. . . Mas Deus. . Felizes entes! Viviam como morriam. . Pensar deste modo é traduzir o sentimento dos nossos maiores. . no idealismo de sua compreensão do outro mundo. isto é. . . que viviam e morriam na convicção de suas piedosas superstições. o homem tem necessidade de estrelas fixas que dirijam-lhe o rumo ao porto noturno do além-mundo. . . . . com o leme partido e os panos rotos. e sem os astros da fé que iluminem-lhe a noite d’alma. A bússola da ciência é variável. o mísero viajor veria a sua nau soçobrar. tão simples e consoladoras de uma existência melhor. . Nosso-Pai vida é uma viagem. que fez o santelmo para o topo dos mastros. . os nossos A . .

como o aproximar lento e resplandecente de um anjo na vigília de um santo.. o andador vibrava a campainha que anunciava a saída do Santíssimo. batendo as ruas. E na pluralidade dos casos uma agonia serena prenunciava-lhes a morte plácida. À porta da matriz. pelo sombrio do caráter. e palavras confusas rolavam no ambiente de um quarto que em breve se empaledeceria aos reflexos lívidos de círios ardentes. . badalando uma vez. Lá dentro. a família reunida decidia sobre as ad ministrações místicas. para o que rápido expediente e singelos aprestos tornavam-se de estilo. soltando um grito fúnebre e prolongado. e o derradeiro suspiro daquele que ia entrar na paz dos Céus parecia querer exalar-se.. e alva toalha cobrindo uma banqueta. e sumiam-se em direções opostas. nos aposentos mais retirados. descia. a um pedaço de ogiva. e o outro às chácaras das cercanias buscar folhas de canela. quatro castiçais com velas de cera alumiando a ima gem do Cristo cominavam no recinto do leito mortuário. predispunha o doente para receber o Sacramento. andava de lá para cá. um grande cálix de prata cheio d’água. Mas onde iam eles. abria no crepúsculo as pálpebras de ouro. E dois escravos. ou a mais considerada. enxugando na manga arregaçada da camisa lágrimas insensatas? Um. dobravam esquinas. para estendê-las na calçada da rua e na escada da casa de seus bons senhores. ∗ Antigamente.. seguiam apressados. trepada na asa da morte que planava por sobre aqueles tetos.262 Melo Morais Filho pais apercebiam a eternidade pela consciência de suas boas obras e de seus deveres lealmente cumpridos para com a Igreja. quando à cabeceira do enfermo o padre devia substituir ao médico. a pessoa mais velha. De antemão. E as badaladas da agonia caíam da torre pedindo orações pelo moribundo. E a coruja. que naquele instante se afigurava. muitas vezes. o choro e as evocações – a angústia de quem sofre e a dor que não finda. de cravo e de laranjeira. à freguesia mais próxima dar aviso ao vigário.... de altares acesos.

as mucamas prendiam aos batentes e às sacadas colchas de seda-da-índia. sobre pilastras ou ir rompendo dos muros. batendo nos peitos. Os passantes. com os cotovelos apoiados à beirada dessa espécie de cômoda de entalhe. o vigário ou o coadjutor. Um coro verdadeiramente harmônico e religioso enchia o espaço e avizinhava-se volumoso. auxiliado pelo sacrista. não sendo preciso que viessem soldados preencher número. de costas para os gavetões dos paramentos. e o toque da campainha feria isolado o silêncio iluminado.Festas e Tradições Populares do Brasil 263 Na sacristia. encolhiam-se circulando os umbrais das portas. Às janelas. tomando tochas. os vizinhos e amigos acudiam trajados de preto. escorrendo ao longo das paredes e no além. calculando distâncias. Ao ouvi-la. pregava pregos nas portadas. enquanto o padre.. o homem da campa voltava.. magras de vigília e pesadumes. consternados sensivelmente. os lampiões balançavam levemente em braços de ferro. Na igreja. deitavam flores na banqueta. luares avermelhados. um molecote ou uma cabra velha. aos cantos das grades de pau ou de ferro as serpentinas e as mangas de vidro cintilavam profusas. a família. De pé. observava paciente os acompanhadores do Viático que chegavam. as crias. . ordenado o préstito. que escancaravam o armário fronteiro escolhendo opas. uma calma aparente sucedia às lágrimas ardentes. as pretas idosas. e curto repique palhetava os ares de tinidos metálicos: – Nosso-Pai saía. À casa do enfermo. por trás das rótulas e às janelas os castiçais com velas apareciam súbitos. que guardavam chapéus e bengalas. revestia-se. o confortava. E a campa soava.. A tarde. rodeando o enfermo. botava lanternas ou globos. que escurecera de todo. amparavam com a mão trêmula o galhinho de arruda detrás da orelha. o sineiro subia à torre. as mães acordavam os filhinhos tomando-os ao ombro. colocava o pálio em seu lugar. entristecidas. serviam em salvas de prata copos d’água. Completo o pessoal. ajoelhavam-se. Depois.. Na casa onde esperavam o Viático. chegava o fogo de um rolo de cera encardida às velas das lan ternas de vara. pedira à noite o véu mais carregado para envolver o cadáver do dia. tendo-a pendente pelo martelo. descobrindo-se. que reverberavam suas luzes na rua alastrada de folhas odoríferas e verde-negras. o coro calava-se.

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o badalar da campa era mais forte e as lumi ná ri as que se alongavam es condiam a cauda na treva. vestido de opa. os sentavam na cama. ao mesmo tempo que lhes afulvava a barba e o semblante. e abriam. Então. o povo em tropa. várias figuras precediam o pálio: a primeira trazia uma toalha presa com alfinetes nas costas da opa. Aos lados. a negraria ajoelhada nas cozinhas e portas de cocheira batia nos peitos. e. Uma atmosfera sagrada fazia-se em torno do docel de brocados que abrigava o Senhor do universo.. que resguardava a âmbula ou o relicário. guarnecida de círios. entoavam o Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento da Eucaristia . a boca que recebia de chapa o clarão das luzernas. Até a primeira metade das salas. A procissão. . de opas encarnadas. a segunda a umbela fechada. Depois deste personagem. e Nosso-Pai seguia à morada tranqüila e santificada do pecador contrito. de sobrepeliz e estola branca. marchavam lentos. chegava-se mais perto. E Nosso-Pai. dois acólitos de sobrepeliz e batina. ajustava o véu de ombros. quando possível.. um a caldeirinha d’água benta e o outro o vaso da extrema-unção. e soldados destacados na ocasião dos corpos de guarda. O vigário. das tochas acesas entornavam abundantes gotas de cera fundida. precedida do tocador de campainha. levavam. cujos sons prolongavam lúgubres os ecos da noite. atravessava a cidade. com a chave do sacrário pendente do galão de ouro. majestosa e completa. Por entre alas de irmãos do Santíssimo. espécie de nicho em forma de livro com a âmbula ou cibório. e nas casas onde havia doentes. depois os oito portadores do pálio ladeado por lanternas de vara e na retaguarda pedestres com chibatas.Festas e Tradições Populares do Brasil 265 E por aqueles lábios da cor dos lírios roxos as rezas pelo moribundo subiam às alturas – lá onde Deus acolhe como pássaros a prece do escravo e o soluço do desgraçado. a terceira o baldachino. com tochas acesas. O Viático passava. As crianças choramingavam despertas. levava a cruz alçada. Os acompanhadores. ao passo que se avivavam adiantando-se. a ranchada de moleques que fechavam o cortejo. as pessoas da família ajoelhavam-se. o crucífero. alguém suspendia-os do travesseiro. que vinha a distância. cantando.

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. Quanta poesia tem a religião nos momentos extremos da vida! Como é sublime o ritmo que nos faz preludiar como Davi e cantar como o cisne nas agonias da morte!. as luzes brilhavam e a casa do doente conhecia-se de pronto. mandavam o seu carro para conduzir Nosso-Pai. Imediatamente que o préstito parava.Festas e Tradições Populares do Brasil 267 Chegando ao seu destino. o pálio encostavam-no à parede defronte e os soldados guardavam a porta..... as janelas estavam atopetadas de gente... .... As famílias mais ricas... aspergia a hóstia.. dominava a multidão ajoelhada desde o leito do agonizante até os últimos degraus da casa.. as pompas eram as mesmas. voltando sempre por itinerário diferente... depositava o Santíssimo sobre a banqueta........ não dispensando a freguesia de colocar na boléia um negro sem chapéu e descalço.. os cantos dos salmos eram repetidos baixinho... o pa dre descia.... que absolvia aquele espírito alentado de fé. À exceção das lu mi ná ri as e do Ben di to cantado.... quando o Sacramento saía de dia... e às vezes a voz quase extinta do moribundo acompanhava o Confiteor.. No meio do recolhimento geral..... postada ao acaso.. a multidão curiosa e movente aguardava. Quando a extrema-unção havia premunido a esse novo viajante dos pólos para a derradeira viagem. o Santíssimo........ se chovia.. ... as lanternas e a cruz e o pessoal de aparato ficavam de fora. que batia a campa.... Apenas o padre entrava e pronunciava Pax huic domi.. o cortejo incorporava-se.......

. . Na extensa e tortuosa Rua do Aljube. e – “Quem vem lá?” – perguntavam. ouvia-se o respirar penível. E aqueles tropéis ressoavam a intervalos grandes. O Enforcado A s trevas abatiam-se nas ruas tranqüilas e o silêncio alongava-se profundo. . . depois quase imperceptíveis. . . Às vezes. já como os respiradouros em lavas das fábricas em trabalho. . . . à luz fumarenta do candeeiro suspenso por uma corda à roldana do teto. distinguindo um vulto nas sombras. . as sentinelas da cadeia bradavam “Alerta!”. apercebendo um rumor. aqui e ali. . Das grades das prisões. . um ressonar estertoroso.. . .. depois mais afastados. . . . apenas interrompido. como de quem lhe cavalga o peito a horrenda figura dos pesadelos. . ao espreguiçamento de um condenado por toda a vida. . . um ai de dor escapava-se dos lábios gretados de febre de um escravo retalhado na surra. . . os lampiões de azeite de peixe descreviam nos reflexos círculos vermelhos. por algum caminhante em busca do lar. . Da subida da ladeira da Conceição a cadeia do Aljube descia voltando a rua. Marcando as horas. um tinido de correntes feria o ar. já como rastros de sangue de um corpo baleado. . à semelhança de um bandido a desoras. . .

que varava lúgubre o ar noturno do desabrigo. num altar modestíssimo. perfilada na guarita. Ao fundo da cena. confortava o infeliz com a esperança. E a sentinela. interceptando vistas importunas..270 Melo Morais Filho Nas paredes brancas do edifício. que resplandece dos nevoeiros dalém-túmulo. tinha sempre à cabeceira um frade de Santo Antônio. ao passo que. um quadro de aspecto aterrador e edificante desdobrava-se indeciso nos raios e sombras da fatalidade e do mistério. enquanto os gonzos das portas do in te ri or rangiam. consoladora e divina. lançava olhares demorados em direções fixas.. a sacrossanta imagem do Crucificado. que deixava a alma numa aridez de deserto e o coração num oceano de agonias. no lívido e glacial recinto. que deitava para a rua. O venerando religioso falava em arrependimento. dava passagem à claridade sinistra. não há ânimo bastante robusto que se revolte. ou do muchingueiro esquálido que espevitava os morrões das torcidas em brasa. rezava piedosas orações de que velava-lhe como o anjo do bem as modorras da derradeira jornada. e . Diante da religião como diante da morte. descobriria contristado um espetáculo.. E o condenado à morte. de baioneta calada e com as mãos abraçando a arma. deixando escapar pelo buraco da fechadura uma flecha de fogo. nas vésperas de ser justiçado. sentado em sua barra ou dormindo os últimos sonos. à espreita do imprevisto e do oficial da ronda. observando movimentos. A alguns côvados do chão. Com a barretina fora da cabeça. avultava. à entrada do carcereiro que passava revista aos grilhetas. E aquele farol dominava de boa altura. a sentinela. Quem penetrasse naquele asilo dos derradeiros dias. conservava-se apreensiva e silenciosa.. nem espírito por mais altivo que não sinta-se humilhado e pequeno. iluminada por dois círios. junto da banqueta. surpreendendo desígnios. as telhas desenhavam sombras oblíquas ao fogo dos lampiões de ferro. o oratório dos condenados à morte assentava-se na entrada. com o qual dialogava. denunciando que um desgraçado ali se achava. Ao lado esquerdo do portão que deitava para a ladeira. a janelinha em forma de nicho de pedra.

à recepção do Sagrado Viático e à penitência d’alma do malfeitor irrevocável. ao luar ensangüentado de archotes. Apenas o condenado entrava para o oratório. a Santa Casa da Misericórdia expedia um próprio. eram consagrados à prece e à confissão. Se o padecente tinha desejos a realizar. ao toque de meia-noite. comunicava ao mensageiro. alguns negros fincavam três estacas. Aos supliciandos pobres a Santa Casa fornecia o alimento e o pão-de-ló com vinho antes da execução. . no Largo do Capim. que lhes banhavam o dorso nu e reluzente. do Moura ou em outro qualquer. Refere-nos a tradição oral que houve no oratório casamentos. disposições a tomar. ao chocalhar das correntes.Festas e Tradições Populares do Brasil 271 mostrava-lhe os braços abertos do Cristo morto para acolher o pecador contrito. Ne gro de li bam bo Enquanto o sacerdote exortava o delinqüente. oferecendo-lhe igualmente os seus serviços em cumprimento de últimas vontades. martelavam. que só recebeu o Santíssimo depois das bênçãos nupciais. no intuito de opor os embarguinhos. da Prainha. seguindo-se ao pedido satisfação completa. Os três dias e as três noites que precediam aos deveres do carrasco. levantavam a forca. dando-lhe preces que lavavam-lhe a culpa. que sopesavam a instantes. bem como o de um mulato escravo.

1 Corda de negros sen ten ci a dos e presos um ao outro por uma corrente.. E quando os primeiros libambos1 saíam das enxovias. as mulheres e os meninos. e de ferro ao pes co ço. Não se imagina o prazer da população.. dacolá. ensopar as plantas da besta-fera no líquido que alenta o facho da vida. um irmão da Misericórdia. a buscar. Tripudiar por sobre mil cadáveres. lento e cheio de gravidade: – Orai por nosso irmão padecente! O dia clareava. que viajava para Santos. dali. Daqui. sig ni fi ca corrente. diziam se encontrando. em lín gua bunda . os brancos e os negros. perpetrado por um indivíduo que confessou o seu crime em artigo de morte. a dos três marinheiros do patacho Santa Clara. e a do preto cego Domingos Moçambique. badalando uma campa. . o sangue tinha para ele as excitações das orgias brutais. o irmão da Misericórdia se havia recolhido e a forca estava de pé. ∗ Dentre as execuções célebres dos anos mais chegados. Era um facínora como o Lucas da Feira e Pedro Espanhol. em barris afunilados. Feroz até à crueldade.. Libambo. estão no primeiro plano a de Guimarães sapateiro. vestido de balandrau. percorria as ruas por onde teria de passar o cortejo.. numa ansiedade convidativa: – Amanhã há enforcado!. resumiam para o perverso sapateiro da Rua do Cano a atração irresistível de todos os abismos. água para as obras públicas e as prisões. que foi expiar no patíbulo o assassinato de seu senhor.272 Melo Morais Filho Simultaneamente. O Guimarães era uma natureza refratária a todo o bem. todos enfim. que desde a véspera das execuções dispunha-se a assisti-las. a essa mesma hora. a do escravo que assassinou a Filipe Néri. isto é. mas sem as qualidades boas que distinguiam-se nos dois salteadores.

o de não poder assassiná-lo. olhando para baixo. de há muito que os fez esquecer! Cedo começava o povo a desfilar nas ruas. talvez tivesse um remorso. o sino da freguesia batia nove pancadas. meninos e moleques. ondulante de gente que subia. que cresciam da ponta dos pés. trepados em cadeiras e em mochos. levando na frente a bandeira constituída por uma vara pintada de preto e um painel de Nossa Senhora da Piedade. porque Deus. emoldurado de amarelo. e a certeza de que o rugido da vaga abafaria o grito das vítimas. Multidões compactas moviam-se igualmente no Largo do Moura. no centro do qual a forca isolava-se torva. fitando a imagem de Cristo supliciado. ninguém vos responderia. Eis senão quando. De machos aos pés no profundo oratório. negras e negrinhas. . e pelas dez horas. Dos marinheiros do patacho. nada perdendo do que se passava até avistarem o préstito. o coadjutor paramentado esperava na porta da sacristia. amontoando-se no Largo de Santa Rita e na embocadura da Rua dos Ourives. para poupar à inocência mais uma súplica de perdão. mostrava no alto uma espécie de anfiteatro eriçado de cabeças.Festas e Tradições Populares do Brasil 273 Vencer-se a si próprio. porém. O seu crime teve naturalmente origem na noite das senzalas e da escravidão. viam-se rompendo de de trás. que se debruçavam sôfregas do sanguinário espetáculo. que dava para a cadeia. Nas janelas apinhadas de famílias. estirando o pescoço. recalcar dentro do peito instintos inatos. se vivesse de novo! O escravo de Filipe Néri foi um louco. que assassinaram na travessia os negociantes de Santos. quando o padecente já se havia confessado e sacramentado. Os figurantes dessa procissão lúgubre assomavam reunidos. tomando lugar por fora do quadrado da tropa. invadindo o Largo de Santa Rita a irmandade da Misericórdia. quais foram os jurados que votaram pela pena de morte do preto cego da Rua do Rosário. Se quisésseis saber. fora o mesmo que pedir ao punhal o segredo da vítima e perguntar a Satã pelo que fizera da glória. o móvel foi o roubo em pleno mar. A ladeira do Castelo.

que no portão da cadeia pedissem esmolas velhos forçados. parava em frente da igreja de Santa Rita. que acercavam a vítima. os executores da alta justiça o erguiam de súbito. refluindo antecipadamente. equilibrada nos ares. de balandrau e sacola: – Para a missa de nosso irmão padecente!.274 Melo Morais Filho e que o pão-de-ló com vinho lhe tinha sido servido. ao passo dos cavalos. o quadrante da Eternidade ia marcar-lhe da vida os instantes finais. Com especialidade nesses dias.. porém. aos meirinhos. e o préstito seguia.. o enforcado ajoelhava-se e ouvia – da porta – a missa em começo. o pregoeiro relia. lento como a agonia.” – as meias-portas do oratório abriam-se. Antes de levantar-se a Deus.” E lia a sentença. O carrasco aproximava-se. atentava para a ladeira.. que por sua vez as repartiam com os seus companheiros de calabouço.. dois cavalos. dando ingresso ao juiz das execuções.. inclinando-se diante do altar-mor. aguardando o juiz das execuções e o escrivão. E o préstito. consentia o Silvino. maniatava-o. ao carrasco e seu ajudante.. donde. deitando-lhe um dos sacerdotes entre os braços uma imagem do Crucificado. ajudado pelos carrascos e acompanhado dos frades. ladeada de dois frades.. Apenas descansava o cálix sobre a toalha alvíssima. lançava-lhe ao pescoço um baraço de cordas novas. A bandeira da Misericórdia.. sisudo e com a acentuação vibrante. a sentença. que acabava na seguinte frase: – Orai por ele! E o irmão da Misericórdia. A multidão. ao escrivão do júri. que os montariam no demarcado trânsito. ao porteiro dos auditórios. e nesse momento o padre. principiava a missa. Na curva da ladeira. adiantava-se no largo.. E à voz do comandante da escolta que bradava: “Desembainhar espadas!. relinchavam escarvando a terra. . carcereiro do Aljube... O pregoeiro bradava: “Vai-se executar a sentença de morte natural na forca proferida contra o réu. etc. que lia a sentença. seguros por pagens.

marchava. taciturno e pesado. de casaca e chapéu ar mado. o juiz das execuções. vinha logo após. com os pulsos ligados por uma corda fina. Escravo co me dor de terra Em seguida. distinguindo-se alguns com latas de folha penduradas ao peito e dentro das quais a polícia encontrava o certificado de africano livre. antecedia grave o corteja da morte. de bara ço ao pes coço. E o fúnebre cortejo. notavam-se negros seminus... de gargalheira ao pescoço. montado a cavalo. . A irmandade da Misericórdia. e os car rascos – réus de morte com comutação de pena – seguiam com os meirinhos.Festas e Tradições Populares do Brasil 275 – Para a missa do nosso ir mão pade cen te!.. trajando ge ralmente ja queta. apresentando a sacola. preenchia o seu itinerário. seguido da população curiosa e satisfeita. calça de cor e com os pés descalços. Nos sobrados não faltavam espectadores de toda a casta. Junto ao enforcado achavam-se os dois franciscanos. de máscaras de folha-de-flandres. descansando-lhe nos antebraços. a imagem de Cristo. tendo a seu lado o escrivão do júri e o pregoeiro. – parados nas ruas. formando a retaguarda desse grupo sinistro. como dissemos. cla mava o homem do balandrau. O padecente. que os impediam de embriagar-se. com suas vestes solenes.

que se avolumava a perder de vista pelo séquito de mulheres. ao proferir – na vida eterna. . e. para melhor gozarem da cena do enforcamento. As varandas não podiam conter mais pessoas. colocava-se-lhe por trás. crescia no estrado da forca. assegurando que morria inocente. De lá o malfeitor fazia às vezes uma fala ao público. de olhos rasos de lágrimas. nos bra ços dos lampiões.276 Melo Morais Filho Uma pequena escolta de polícia fechava o cortejo. dando uma viravolta. até à quietação. cavalgando-lhe os ombros. aquela figura medonha esperneava-se. debatia-se. que se destacava no além como os lineamentos das sinas fatais. balançando-se no vácuo. a cruz da Santa Casa rompia o quadrado de cavalaria e infanteria. a epiderme do infeliz. não faltando no acompanhamento moleques e capoeiras de todos os bairros. o pregoeiro lia pela última vez a sen tença. o carrasco empurrava o desgraçado. tapando-lhe a boca. de gargalhadas. Da segunda metade da reza para o fim. e. etc. subiam com o outro ao alto da forca.. pedindo que lhe rezassem por alma um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. auxiliando o padecente. E. tomando da ponta oscilante. e o delinqüente. Um dos frades ficava no largo junto do juiz. de língua para fora.. como uma onda. ouvindo-se o baque do corpo morto. abatendo-se após na escada por onde desaparecia. era conduzido à forca. No meio da lufa-lufa. enquanto que o carrasco e seu ajudante. Vencendo a angustiosa excursão. o padre vinha descendo os degraus da escada funesta. ao mesmo tempo que o frade começava o Creio-em-Deus-Padre. marinhava ágil. de olhos sal tando-lhe das órbitas. especialmente capoeiras e negros escravos. Em seguida a corda era cortada. os te lhados coroavam-se de gente que aparecia nas águas-furtadas. a turba movia-se. E o carrasco. de palavras indiscretas. homens e crianças. e o calafrio da morte arrepiava. que o padecente repetia com fervor delirante. mal podendo ter-se nas pernas trêmulas. amarrando a ponta do laço a uma trave do cadafalso. Chegados ao patíbulo. trepavam em cima de um barracão que existia no Largo do Moura. O carrasco. já de costas para o topo. do escrivão e demais comitiva. e muitos indivíduos da plebe. estribando-se fortemente nos pulsos ligados.

.. para que melhor se recordassem de uma lição que lhes devia aproveitar.. como ainda há bem pouco na França e na Inglaterra. causando no Brasil. resultando do conflito muitas cabeças e pernas quebradas... clamores. que. eu não estaria aqui!” Fragmentos da corda do enforcado eram posteriormente distribuídos como presentes de rara estimativa. sem o aparato clássico dos antigos dias. É possível que o seja!.. se tiveres a mesma sina: “Se não fosse minha mãe. com a irmandade que seguia o morto. Era de costume quando a corda quebrava-se. As multidões debandavam com a tropa que se recolhia a quartéis. pois. .. nos parece uma lição e um exemplo. diziam as mães.. A essa usança opôs-se o reenforcamento de um dos marinheiros do patacho Santa Clara. Assim. preservavam de males e – davam fortuna .. Instante depois a padiola da Santa Casa transportava o corpo do justiçado. e no mesmo dia ou no imediato. e com os carrascos que voltavam escoltados às suas enxovias. manifestações de alegria. os mestres de oficina os aprendizes.. as mães de famílias mandavam os filhos. sovando os filhos: – Anda! Toma!... a bandeira da Misericórdia cobrir o paciente. por ordem do então ministro da Justiça. os patrões os caixeiros. Para que não digas na forca. infligiam-lhes severos castigos.Festas e Tradições Populares do Brasil 277 Findo o ato. interrogando-os sobre as impressões recebidas. que ia enterrar-se. Lembram-se os velhos de que por essa ocasião houve protestos. Os mestres de escola davam férias para que os discípulos assistissem à cena. entretanto.. um dos religiosos fazia ao povo uma eloqüente e moralizadora prática. A cerimônia terminava habitualmente ao meio-dia. segundo a crença po pular. A pena de morte. que deixava por isso de ser justiçado. foi arrastado e moribundo sofrer a pena capital. tumultos..

. a do Santo Rei Baltasar. no pouco que existe do seu arquivo – que nos foi franqueado pelo inteligente. . teve seus dias cor-de-rosa. . . . . Do primitivo templo. . . obra-prima da arte antiga. o Sr. Como preciosidades históricas há a imagem da excelsa padroeira. . . . A lendária capela. Não obstante serem as irmandades possuidoras do velho templo compostas de negros da África e crioulos. sendo bispo do Rio de Janeiro D. Domingos a capela de Nossa Senhora da Lampadosa. O mais o vandalismo destruiu. suas glórias no apogeu.. . . . José Rodrigues da Costa Soares. . por funcionar no Rosário. . . . Antônio do Desterro. . quase que não existe pedra sobre pedra. como todo o Brasil nos felizes tempos da colônia. bem raras são as relíquias. Fr. O terreno para a fundação foi cedido pelo Senado da Câmara à irmandade da mesma Senhora. o ledor de traçadas crônicas ainda pode descobrir. . . e um ad mirável retrato a óleo do Marquês de Pombal.. A Coroação de um Rei Negro em 1748 E m 1742 fundou-se no campo de S. que o salvou e . zeloso e atual ecônomo. . . que.. isso requereu e obteve. . um Apóstolo do mestre Valentim. na maior parte escravos.

que levantaremos para caminhas na escuridão do passado. Conde Vice-Rei. recebendo esmolas profusas. acompanhava favorável despacho. Domingos e na cidade. al gu mas referentes ao nosso motivo. seguida das assinaturas em cruz dos requerentes. fâmulo do mesmo Ilmo. e como querem também a concessão de V. vejamos desfilar a turba negra que se extravasava no tem plo e fremia no Campo de S. levas de pretos. o Rei. a Rainha e mais adeptos da nação do Santo Rei Baltasar. nos li mites da autorização concedida. antecipando-se à festa e celebrando-a condigna. Sr. Sr. do Engenho Novo. . em os domingos e dias-santos festivos. ei-lo: “Ilmo.280 Melo Morais Filho conserva –. Vice-Rei.” Datada de 3 de dezembro de 1748. por conta da qual corria a despesa da festa. Desembargador Ouvidor-Geral do Crime: – Dizem o Imperador. vestígios de seu esplendor de ou trora. internando-se nas fazendas do Engenho Velho. e que nesse dia pretendem sair com seus instrumentos e danças da mesma nação para ser feito com o maior obséquio e dançar – pelo que pedem. depara-se a seguinte que. o que fazem com todo o recato e sossego. O documento. Aos seus lares tépidos e ao respirar agonizante da tradição oral. que eles costumam. Sr. pela cidade. e Exmo. Exª para o mesmo fim acima descrito e assim também querem no dia dos Reis próximo coroar para rei da nação Rebolo a Antônio. de uma grandeza extinta. e Exmo. do Macaco. nos serviram de facho sideral. tangiam instrumentos músicos de seus climas natalícios. como se vê no documento junto. a esta petição. sem inquietação e perturbação alguma como é notório. tirar as suas esmolas por meio de danças e brinquedos que fazem com as demais nações. etc. dançando e cantando. com as demais. E pelas ruas. e a irmandade do Santo Rei Baltasar entregava-se ao gozo preparativo da licença do magistrado. que entravam para o cofre da irmandade. Dentre as petições existentes em manuscritos originais. dádivas valiosas. cujas esmolas são aplicadas com o necessário às festividades do Santo Rei: e porque do mesmo modo têm alcançado do Exmo. rufavam caixas de guerra. de Santa Cruz.

Festas e Tradições Populares do Brasil 281 A esses bandos tumultuários, a esses homens esculturais, nus da cintura para cima, de rosto deformado ou tatuado, segundo os estilos de suas nações, sucediam-se avultadas turmas de outros negros, de mu lheres e crianças de diversas tribos, que se associavam a alheios prazeres. E os foliões africanos, de calça e suspensórios, de faixas en carnadas e azuis, a tiracolo, com a cabeça adornada de penas e o peito listrado de tiras vistosas, tamborilavam em seus tamborins de dança, fa ziam evoluções com a perna no ar, cantavam suas cantigas bárbaras, que repercutiam avolumadas ou esvaecidas, na proporção das distâncias. Enquanto esses ranchos ambulantes amontoavam o cabedal para o régio festejo de seus maiorais, na capela da Lampadosa erigia-se o trono para a coroação, ar mava-se o altar do Santo Rei Mago, assentava-se uma pequena varanda para o séquito real ficando para a véspera de Reis o cuidado da capinagem do terreno fronteiro à igreja, que amanhecia limpo, coberto de areia finíssima, esmaltado de folhas e flores, para os ba i la dos e co me mo ra ções ex ter nas da mo nar quia ele i ta. Apenas amanhecia o dia de Reis, o Campo de S. Domingos, nas proximidades da capela, opulentava-se de um espetáculo variado e estranho, em que moçambiques, cabundás, banguelas, rebolos, congos, caçanges, minas, a pluralidade finalmente dos representantes de nações d’África, escravos no Brasil, exibiam-se autênticos, cada qual com seu característico diferencial, seu tipo próprio, sua estética privativa. Homens, mulheres, e crianças, em largo regozijo da liberdade de um dia, esqueciam por instantes as palmeiras de sua terra, os fetiches de seu país, aguardando a cerimônia da coroação do soberano, e rendendo culto ao Santo Rei Baltasar, que lhes recordava pela cor que tinha a cor de sua pele e de seu destino. E o capelão da Lampadosa, percorrendo com a vista a igreja pomposamente adereçada, dirigia-se à sacristia, tomava o Compromisso da Irmandade, lavrando os termos que deviam ser autenticados pelo Rei e pela Rainha na terminação do ato. Quase às 10 horas, acendia-se a capela, o capelão revestia-se, os sinos repicavam, e os irmãos do Santo Rei Baltasar, com suas opas de seda, esperavam no corpo da igreja, dobrando língua, ba tendo boca entre si.

282 Melo Morais Filho Em breve, a vozeria confusa que se escutava lá fora, calava-se; os sinos repicavam mais vibrantes e rápidos, produzindo esta mudança de efeito o rolar surdo das caixas de guerra, o som de rapa das macumbas em grande número, a queda sonoramente uniforme dos chocalhos enfeitados, de bárbara marcha precedendo o préstito. De braços no ar, pulando e revirando sobre as mãos, vestidos de penas e estofos co loridos, quatro muanas (negrinhos) serviam de batedores ágeis, fazendo negaças, cantando, gritando... Atrás da música caminhavam majestosamente o Neuvangue (rei), a Nembanda (rainha), os Manafundos (príncipes), o Endoque (feiticeiro), os Uan tu a fu nos (escravos, vassalos e vassalos do rei), luzido e vigoroso grupo daquelas festas tradicionais e genuinamente africanas, celebradas no Rio de Janeiro no século passado. O Rei e a Rainha, com seus mantos de belbutina escarlate recamados de estrelas, com suas vestiduras cintilantes de lentejoulas e agaloadas, aquele com seu cetro dourado, e esta com seu diadema resplandecente, pisavam garbosos à frente de sua corte, levando dois vassalos as duas coroas, vestidos de capa e espada, ostentando na cabeleira carapinhada e no pontudo topete fios de corais e miçangas, que lhes desciam em voltas como um casco de capacete. O Feiticeiro, desenrolando e enrolando em torno do pescoço enorme cobra, envergando vestimenta de peles e rubro cocar, olhando misteriosamente, volteavam-lhe os antebraços e o colo fieiras de miçangas e de pequenos búzios, entremeados de figas e talismãs, de rosários e bentinhos. A turbamulta que os acompanhava fechava o régio cortejo, do qual somente o Rei, a Rainha, os príncipes e os vassalos entravam, sendo aqueles para serem coroados na igreja. Uma vez entronizados pelo capelão, que os recebia à porta do templo, coroava-os ritualmente, conduzindo-os à sacristia, onde ouviam ler, marcavam em cruz e faziam assinar o documento oficial da coroação. Do mesmo arquivo da Lampadosa, no citado Compromisso da Irmandade do Santo Rei Baltasar, encontra-se, entre muitos, este termo que

Festas e Tradições Populares do Brasil 283 reproduzimos, e que demonstra que na referida capela esses costumes conservaram-se até muito mais tarde, como pode ser verificado: “Termo de coroação do Rei e Rainha de nação Cabundá. – Aos seis dias do mês de outubro de 1811, nesta capela de Nossa Senhora da Lampadosa, tiveram posse e se coroaram de Rei, Caetano Lopes dos Santos, e de Rainha, Maria Joaquina, ambos de nação Cabundá, por estarem eleitos pela sua nação e por terem licença do Ilmo. Sr. Inten dente-Geral de Polícia, e para constar se lhe mandou passar este termo, no dia, mês e ano acima declarado. – Padre Tomás Joaquim de Melo, capelão da irmandade.” Seguiam-se sinais ou assinaturas dos reis coroados e de outras diversas nações que testemunharam o ato. Reatando a descrição interrompida por este curioso autógrafo, tratando dos tradicionais festejos de 1748, asseguramos que o quadro era completo, a cena pitoresca e nativamente instrumentada. Concluída a solenidade religiosa, o Rei, a Rainha e os demais figurantes vinham incorporar-se ao séquito deixado; e perdendo-se no dilatado Campo de S. Domingos, ar rastavam após si a massa popular, atraída pela música estridente, pelo balancear aéreo e variado de surpresas dos muanas, que tanto realce davam nas avançadas do majestático préstito. À tarde, com a assistência dos régios personagens da manhã, havia as festas públicas comemorativas, os clássicos batuques realizados por negros de diferentes tribos, tendo como teatro o areal de improviso preparado na frente do templo, formando um quadrilátero guarnecido por semicírculos de folhagens, que pendiam do alto de bambus fincados. Esta segunda festa era mais concorrida e popular; os negros das fazendas dos jesuítas, os escravos das casas fidalgas, alcançando para isso consentimento, avultavam em tropa no Campo de S. Domingos, em alegre algazarra, postando-se nas imediações do magno quadrado, aos rufos das caixas de guerra batidas ao longe. Esquisitos no trajar, no semblante, nos gestos, negras e negros novos irrompiam de cada lado, entregues à obediência de seus chefes, à vigilância nunca iludida da polícia, que os espreitava.

284 Melo Morais Filho E os pandeiros, os tambores, as macumbas, os canzás, as marimbas, precedendo à multidão, anunciavam es trugindo a entrada triunfal dos Congos nos festejos profanos da coroação de um Rei negro. Da capelinha, de portas fechadas, o capelão à janela recreava-se do selvagem espetáculo, e os negros de nação, em pleno dia de Reis, julgavam-se venturosos de sua sorte, esquecendo-se dos desertos de sua terra e das travessias do mar.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Na Terra e no Mar

E

I

stranho movimento, singulares espetáculos tinham como teatro as praias da costa da África, quando o Rio de Janeiro armava os navios do tráfico para as viagens da morte e da escravidão. Os mercados de Serra Leoa, de S. Luís, da Gâmbia, de Angola, de Luanda e de Benguela regurgitavam da multidão inumerável de vítimas, protegidos por tantos fortes que a Inglaterra, a França, a Dinamarca, a Holanda, a Espanha e Portugal sustentavam naqueles sítios, com o fim de garantir-lhes o torpe comércio. E aqueles mercados retiniam de cantos e danças dos prisioneiros de guer ra, chocalhavam nas cadeias sopesadas pelos escravos que marchavam à frente dos condutores de caravanas, tornavam-se admiráveis ao estrondo das revoltas heróicas e inglórias dos pobres selvagens contra as cobardias dos algozes e da civilização. Para reprimir as sublevações que se iniciavam nos desertos, os piratas punham em prática meios de segurança e de defesa, cada qual mais desumano e feroz. Não bastavam aos negros os longos dias de caminho à insolação e à sede, ao desabrigo e à fome. A tirania dos traficantes, visando apenas o

286 Melo Morais Filho lucro dos carregamentos, desde bem longe matirizava os infelizes, atan do-lhes aos pulsos pesadas correntes e ao pescoço gargalheiras de ferro. Ao gancho rompente dos colares malditos não era raro ver-se ligado o braço do escravo que, durante a vigília e o sono, lamentava-se e gemia na dor do suplício. Mais comumente à beira do mar e dos rios estabeleciam-se os populosos mercados negreiros, os grandes centros onde vinham reunir-se o que o roubo, o incêndio, as devastações e as deslealdades haviam colhido para cativeiro. Ao lado da mercadoria negra, o fumo e a aguardente, velhas roupas de teatro e cacos de espelho, fieiras de miçangas e trapos vermelhos expunham-se a todas as vistas, convidando os régulos e chefes bárbaros, a mãe e o filho, o parente e o amigo à traição e à infâmia, isto é, à entrega de seus súditos ou das pessoas mais caras, em troca da embriaguez ou de adornos fatais. E os to cadores de flauta, executando suas músicas à entrada dos bazares e distantes, provocavam as famílias negras que afluíam para escutá-los, se guindo-se a isso o cerco, o aprisionamento e o cativeiro. De que estratégias não se valiam os bran cos para realizar o crime que flagelava a África!... De tudo quanto a imaginação pode com preender de mais pérfido e a tirania de mais horroroso lan çava-se mão a todo o instante... Às vezes, quem atravessava os desertos, via nas sombras umas flamas mal extintas que se avi vavam isoladas. Sobre elas um silêncio de sepulcro estendia-se como uma mortalha envolvendo um corpo sem vida. Aqui e ali, porém, cadáveres de velhos africanos e de crianças pretas jaziam es parsos, vol teados por aves de rapina que os devoravam e feras Chi co te e pal ma tó ria que latiam.

Festas e Tradições Populares do Brasil 287 E aquelas tochas fumegantes ardiam fúnebres à cabeceira das vilas e aldeias que, espavoridas pelos incêndios, lançavam-se na escravidão. Dos comboios em viagem era a morte uma companheira serena e amiga. A quem havia perdido a pátria e a liberdade, que mais esperar do destino senão o último lance? Os tratos cruéis, a fadiga e a saudade, atuando como fatores desse epílogo suspirado pelo escravo, diminuíam os lucros da empresa, o que não perturbava a cobiça dos negreiros, que se desenvolvia sem medida. Aos que não sucumbiam no trânsito, lá estavam os depostos que os aguardam e os porões das galeras que os transportariam à América. Que importava aos condutores dos rebanhos de homens os gritos dos mártires, o pranto da criança aterrorizada ao seio materno, a blasfêmia do sacerdote fetichista descrendo de seus ídolos? Os tambores e os instrumentos músicos, à frente dos bandos, tocavam com frenesi abafando-lhes as vozes e os encorajando na jornada; as promessas dos línguas, comissionados para intérpretes, os cal mariam nas sublevações em projeto; e à chegada aos mercados a esperança os alentaria porque mais alguns dias poderiam adormecer e sonhar nas terras da pátria. Se assim não fosse, o selvagem vitimaria ao selvagem, o negro ao branco, a pobre mãe esmigalharia com as algemas o crânio do filhinho mamando-lhe à teta o leite e o sangue. Era durante a noite que ao longo da Costa do Ouro os fachos de resina, os lampiões multicores, as bandeiras, as sinfonias sem arte preludiavam às portas dos bazares, que se opulentavam na mesma linha dos vastíssimos mercados. Capitães de navios, corretores, marinheiros, negociantes, luxuosas famílias sulcavam as praias, oferecendo às dessemelhanças um espetáculo jamais visto, de tanta gente diferente pelos costumes, tipo, modos, raça e linguagem, que vinham de terras longínquas interessadas pelo tráfico.

as freqüentavam assíduos. . cuja tra dição conserva ainda um resto de homens que empreenderam viagem à Costa no tráfico dos negros. avigorando o escândalo e a depravação com os licores fortes. nas solenidades ásperas de suas festas e de suas orgias noturnas. apresentavam-se para a dança. de acordo perfeito com o revoltante comércio da escravatura. os negociantes e suas amásias. nas vésperas da partida para o exílio de onde não voltariam mais. ostentando formas lascivas. na contigüidade da dor e das lágrimas. de mulheres sem brio e de velhos devassos. com os vi nhos abundantes que aí se vendiam por fabulosas somas. as imprecações dos escravos que tumultuavam nos horrendos depósitos. Em cada uma o império da dissolução e do impudor planava incomensurável. o que despertava dos traficantes e do comércio em geral clamores alegres e gracejos sacrílegos. descarregando mercadorias e turbas de salteadores dissolutos e interesseiros. Justamente ao escurecer principiavam aqueles bailes. Do interior. a rapina e a corrupção animavam os mercados em miríades. os capitães e as meretrizes.288 Melo Morais Filho As frotas da escravidão aprumando a quilha. uma classe havia em que unicamente se executava o que os traficantes chamavam dança negra. Dos diferentes gêneros de barracas que se levantavam para os divertimentos públicos. abicavam nos desembarques. exibindo-se nas barracas aos aplausos dos mer cadores e da maruja infrene. de pescoço enfiado aos buracos de compridas tábuas ou acorrentadas. de menestréis ambulantes. à porta dos bazares. A embriaguez e a luxúria. as caravanas nuas e tatuadas. sons desconcertados de músicas importunas misturavam-se com o pranto. Aqui e além. negras de diversas tribos. Os pilotos de brigues e os guias de caravanas. Era ao escurecer que a dança negra anunciava-se por uma orquestra desafinada. os adeuses. No meio do concurso do povo que circulava curioso as feiras dos cativos. chegavam deste ou daquele ponto.

os ferros tiniam. assistiam à saída dos escravos inscrevendo-os nos registros de bordo... escapando à vigilância dos guardas. atiravam com as pontas dos dedos estúpidos beijos e retiravam-se tremendo com as ancas. Aos balcões dos depósitos os capitães negreiros. de rubis. acompanhados de uma parte da tripulação.. Toucadas de conchas. estirado no chão. e de longe em longe. momento por momento. abraçando pela última vez a terra da pátria. E o chicote estalava. À força de ser concentrado. soltavam gritos em paroxismos histéricos.. madrugavam enforcados nas palmeiras dos areais. escasseava como por encanto. tre mendo-lhes o seio ao tumulto das vagas agitadas daquelas paixões lúbricas.Festas e Tradições Populares do Brasil 289 Ao som de uma rabeca e de um pandeiro. outros. Alguns matavam-se temendo o exílio. cantando cantigas monótonas. de uma flauta e do tambor. um selvagem da África estendia os braços. Nos depósitos dos cativos. a crápula desenfreada e louca ultimavam a dança negra. transluzindo somente na expressão. de pérolas. os murmúrios pungitivos. acordavam desejos amortecidos durante temporadas de mar e ao gelo dos anos.. sapateando. silenciosa. os ge midos despedaçadores. E o deboche. dando lugar a mutações de cenários e de espectadores. as baiadeiras afri canas mostravam os alvos dentes transparecendo através de sorrisos convidativos. o sofrimento aparentava indiferença e calma. Por ocasião do embarque a população flutuante desaparecia aos poucos. os despenseiros faziam o restante das provisões para os navios. no olhar. profunda. o soluço do infortúnio velavam hora por hora. e para retribuírem as palmas dos espectadores corruptos. E imitavam os animais imundos. . as bailarinas bárbaras executavam dançados voluptuosos. requebravam os flancos acendendo a volúpia. os botes avizinhavam-se da praia e os miseráveis escravos transpunham a porta de entrada. Entre algumas tribos esse caráter do sofrimento não se manifestava: a dor era surda.. encaminhando-se para fora. que entrava pela meia-noite e pela madrugada. nos gestos.

que se atiravam às vagas procurando a morte. lá se achavam a postos.. o adeus bárbaro do selvagem às terras de seu berço. a gargalhada satânica da loucura retinindo fúnebre como uma salva nos funerais de um povo. que rolavam na areia mordendo-se em fúrias. crescendo nos tombadilhos sinistros das galeras. Os mercadores brutais dirigindo o embarque de centenas de desgraçados. os sacerdotes do mesmo rito. Taciturnos até então. sombrios e resignados no prólogo do seu infortúnio.. rompiam com tumulto o silêncio guardado. E a segunda leva escurecia a transparência calma das ondas. a esposa do marido. ao mesmo tempo que o chicote separava a mãe do filho. a mutilação de uma mesma família distribuída ao Sul e ao Norte. grupos havia que imploravam a compaixão de seus fetiches. . aqui e além. Era no instante em que as lanchas encostavam às pontes para recebê-los. a desesperação e o gemido fa ziam-se ouvir atroadores. deixando a pátria. o velho da criança. protegidos pela marinhagem que escoltava os cativos e pelas correntes que os supliciavam dia e noite. E a primeira leva abatia-se nos mares como uma nuvem para reaparecer a bordo dos brigues que desatavam as velas. um marinheiro que mergulha surgindo do profundo com um escravo disputado à morte. Depois. e. os míseros africanos. os conterrâneos da mesma aldeia. as florestas da Liberdade! II O painel de todas as agonias que se desdobrava naquelas praias povoadas de negros de diversas tribos não podia ser mais horroroso e revoltante. no mar e em terra. com os pulsos ensangüentados das cordas que os retinham.290 Melo Morais Filho E a frota negreira recebia a escravidão para povoar a América dos livres. Então gritos agudos feriam o espaço. em que o primeiro deles descia para ser transportado aos porões dos navios estanciados em curva. Mais longe. que se abraçavam às árvores de onde eram arrancados feridos.

presidiam à chamada da equipagem.. Apenas subiam. enquanto que os despenseiros. os capitães assistiam ao embarque da carga. seguindo a essa manobra a descida dos escravos aos porões. junto à escada de proa. acorrentados aos mastros. acorrentavam-nos de pés e mãos. a expressão transformava-se. divididos em obscuros cárceres. toda a tripulação alinhava-se nas amuradas. amimando-os.Festas e Tradições Populares do Brasil 291 Percorrendo o convés. mortalha grosseira e última do pudor. . E dentro em pouco os ecos acordavam aos latidos dos cães afeitos à guarda dos porões. Desde logo a face de azeviche do africano perdia a sua cor primitiva. açulando-os contra um negro que passava. conferiam a nota dos remetidos para bordo. destinados a homens. rações abundantes. empunhava espadas e foices. Suplício dos anjinhos Os gajeiros deste ou daquele brigue.. os infelizes negros tinham de submeter-se à disciplina estabelecida no tráfico. a arrastarem pelo pé o escravo que tentasse fugir ou lançar-se n’água. uma criança que cambaleava chorando. que só se achavam juntos nas danças do convés. Os marinheiros despiam-nos. mulheres e crianças. levavam aos cães de fila. tocando a sineta do rancho. consentindo que conservassem uma tanga. Então o apito dava o sinal da forma. e seu olhar vivo e selvagem.

descendo uma hora depois. atopetando os porões. em gradação crescente eram comuns as divisões e subdivisões. ao . Na construção dos navios para a Costa. o desespero e o choro. havia compartimentos para homens. grades de ferro xadrezadas e espessas fechavam as enxovias flutuantes. cobria-se de um véu de sangue que lhe amortecia a luz. Deixando o porto. as preces e as maldições esbarravam nas paredes infectas daqueles cárceres agitados. que à desoras atirava-se ao oceano ou era arrebatada pelas vagas que varriam os tombadilhos. devorados pelo calor e a febre. Com mais largueza em um túmulo. acontecendo neste caso a perda de quase metade da carga. de onde uma vez por dia vinham os escravos acima a fim de respirar o ar livre. isto é. Assim. os oficiais. levando em consideração relativamente a estas a idade e por conseguinte os tamanhos. os escravos mansos ocupavam a proa e a popa. desaparecidos para melhor dizer naquelas sepulturas movediças. Quando os carregamentos excediam a lotação dos brigues. mulheres e crianças. Portas com enormes ferrolhos. Amontoados no fundo dos navios. E os escravos. atendendo-se unicamente ao maior número possível de mercadoria que pudessem conter. o médico e os capitães do tráfico repimpavam-se sob a tolda. feridos com as correntes ao bulício do mar. os supliciados da liberdade atravessavam o oceano empestando as trevas. os marinheiros.292 Melo Morais Filho acostumado como as águias a fitar o sol dos desertos. começavam a viagem em que novos horrores iam alargar ainda mais o círculo pavoroso de seus sofrimentos e de seus martírios. tinha-se sempre em vista a economia das proporções. o aproveitamento das insignificâncias do lugar. enquanto que lá embaixo a sufocação e os soluços. acorrentados dois a dois. aqueles deserdados da sorte vinham por tal modo oprimidos que os tetos de suas prisões curvavam-lhes o corpo e a estreiteza dos pavimentos forçava-os à imobilidade dos emparedados. expostos aos ventos e às tempestades.

E a aragem marinha. Os gonzos rangiam nas portas de ferro. a vingança do oprimido contra o opressor. aqui e mais longe. ressuscitavam do abismo para as danças ao estalar do chicote. a vozearias confusas e tinidos de correntes. Esta cena. Entre os povos bárbaros os cantos e as danças têm tais fascinações. um ar fétido girava no ambiente de bordo. desflorando com a ponta da asa a narina incendida e negra dos cativos. Quando os carregamentos iam além da capacidade dos bri gues. como de sepulturas que se abrissem. distante dos seus e da pátria. as escotilhas eram muitas vezes fechadas. a um momento dado. que vinham respirar mais livremente. subindo e descendo. espadas e chicotes. . e os prisioneiros fantasmas da escuridão. Para que as ondas em turbilhão não inundassem o interior dos navios. evocados dos infernos negreiros. temendo a revolta contra os marinheiros. abrindo maior espaço à circulação aérea nos compartimentos internos. na frase do tráfico. não demovia sequer o capitão a ordenar que viessem para o convés. um marinheiro dirigia-se à ré. interceptando a passagem do ar às vítimas que abafavam. a música tocava na proa e a oficialidade precisava desaborrecer-se da viagem. fazendo-os conduzir à tolda aos dez e aos vinte. armados de facas. chegava o morrão a uma peça. encontrando-se os marujos. cadenciado e próprio. a ronda chegava até cem. que. vulgaríssima durante as tormentas. Por tardes alternadas. Os negreiros avezados às navegações da Costas socorriam-se deste meio para alegrar os negros que sucumbiam nostálgicos. a tripulação punha-se em atividade. alentava-lhes pouco a pouco a chama da vida. que uma das manifestações sensíveis do seu mais alto regozijo consiste no balanço da alma ao ritmo das toadas nativas acompanhadas do movimento do corpo. De repente. Nos dias bonançosos. expandiam as mágoas do africano. porém.Festas e Tradições Populares do Brasil 293 estouro da vaga que se repartia em lamentos e à serenidade do céu que não ouvia das alturas os gritos dos desgraçados. considerando igualmente como medida higiênica.

à vista da oficialidade sentada em um banco que circulava o mastro grande. esperando o aviso definitivo do piloto. tendo ao colo os filhinhos. A flauta. garantia a sua autoridade. olhando para o mar entristeciam-se ainda mais com saudades de seus desertos. das dores que não eram suas. dispunham os negros para a festa e a morte. preludiando juntos uns sons discordantes. o tambor e a rabeca. severo e em palavras breves. que es tava repim pa do ao lado do mé dico.294 Melo Morais Filho III O tombadilho guarnecido de escravos. presidindo à ordem dos pares acorrentados. porque a dor também alenta o infeliz para maiores torturas. que. O chicote vibrado pelos marinheiros. projetava o escuro daquelas sombras nas ondas crespas que fulgiam em rebanhos da trilha do brigue. cantarolando. dava ânimo aos misérrimos africanos. que entrariam no baile negreiro. endurecidos e insensíveis aos sofrimentos. rindo às gar ga lhadas dos males que lhe não pertencia. De ma chos aos pés As negras. sentavam-se nuas em volta do camarote do comandante. . A dança tinha de começar. e entornava nas asas da viração o primeiro sinal da música para a dança. que. para o que a escravatura batia cadenciando as primeiras palmas.

do porão e da tolda eram mais pungitivos os lamentos. miseráveis! Dançai! Batei palmas! Exclamava o con tramestre. lançavam-se delirantes às danças horríveis. seguido dos marinheiros. entre as baforadas do cachimbo e o tocar de copos cheios de vinho. mandava que dois da ronda saltassem à frente. . Enquanto a ronda fervia tumultuária. E a música tocava mais estridente. ao tom das vagas e das cantilenas. avivavam-lhe mais a saudade do passado e o infortúnio do presente. doutor. outrora o bem supremo do lar selvagem. acostumado às depravações e às orgias de bordo.Festas e Tradições Populares do Brasil 295 Então. como uma procissão de loucos que tripudiassem por sobre ruínas fumegantes. menos profundo do que os seus pesares. – Se o carregamento chegar são e salvo ao Rio de Janeiro. em alegres saúdes. – É a nossa boa estrela. seiscentos e vinte e quatro negros na barriga de um navio é carne bastante para produzir uma indigestão. tangente rijo o açoite nas nádegas ensangüentadas dos bailadores em tropel. a certeza será maior. em algazarra. menos longo do que a sua agonia. – Batam palmas! Abram roda! Bradava o capitão e os oficiais do brigue. nem a nostalgia. nem a peste tomaram a seu cargo dizimar-nos a mercadoria. por enquanto. em gritos selvagens. Apesar das precauções e do trato. E um olhar dos negros desdobra-se melancólico por sobre o oceano. nem a sublevação. não há dúvida que está será uma das nossas melhores viagens! – Depois de passarmos a linha. Ao comércio de escravos a perversidade ligava-se de tal modo que a música e as danças. – Cantai. chocalhando as correntes. dos brindes e da embriaguez. e os casais de cativos. os meneios lúbricos despertavam os aplausos da equipagem. longe de requintar-lhes o gozo. como que sonhando com a cabana de seus desertos e os climas sempre meigos de suas palmeiras natais. adianta o capitão enxugando de todo a segunda garrafa. este personagem. rindo satânicos. grupos havia que estacavam a instantes.

um rastro de espuma era vermelho de sangue. companheiros inseparáveis da navegação da Costa. aos dez. cresciam aos flancos do brigue. e os oficiais. e seus membros tremiam em um calafrio horroroso. os suicidas escarneciam da escravidão. ao fresco dos ventos e ao calor dos licores. naquele transe que vai da vida ao último instante. uma criança preta. Na luta desesperada. coroados de tubarões vorazes que roíam-lhes o crânio e despedaçavam-lhes os membros. O sol.. Os marinheiros que os tinham visto continuaram marcando a dança. Nisso dois escravos. durante algum tempo.Depressa! Adiante! Repetiam os marujos chicoteando a turba. vertiginosa.. aos cem. as negras são lascivas. que ia no crepúsculo. dois corpos rolavam no oceano. Os tubarões. sonhos febris vinham à mente dos que estavam nos cárceres dos porões.. As vagas atropelavam-se furiosas.. ligados pela mesma corrente. ao ranger do navio embalado pelas ondas. que tributaremos ao mar! Era a voz do capitão. en quanto os seus . cismavam apenas nas odaliscas da noite. descobria no mar um espetáculo es tranho e sinistro. e esse divertimento pátrio os reanimará durante a vigem. os dois cadáveres rolavam no torvelinho. que a música não cesse. – Diz bem.. como que espreitando o ho rizonte. embaraçada pelo álcool em doses progressivas. Seus olhos acenderam-se como chamas. embora se percam algumas gotas de sangue. comandante. al teando nas vagas o facho da liberdade.. abraçados com a morte. que dançava alegre. Momentos havia em que o bando fantástico rodopiava tão veloz como um tufão de demônios à beira de um abismo. farejavam o ar. onde o sangue coagulado ou correndo em fios parecia roto colar de rubis. aos mil. e surgindo do profundo e mergulhando após. Dentro em pouco. os negros ardentes. À amurada da proa. palhetava de clarões rubros o convés. –. Visões noturnas. nas calmarias de fogo. pararam ofegantes. que o chicote estale. descansando em raros intervalos.296 Melo Morais Filho – Que a dança referva. aparições aéreas.

O brigue navegava calmo e nem uma vela atada aos mastros fazia-o jogar à queda dos ventos. Cepo e corrente E os sapateados. as toadas bárbaras. que se esbofavam no baile dos negros. acostumados às refeições de carne humana que lhes prodigalizavam os negreiros. caminhavam no rastro do navio. Como se a vida não lhes fosse mais do que uma sombra entre dois abismos. os roncos. que fazia estremecer o soalho escorregadio de sangue e da poeira das águas. arreganhando os dentes. e o re ti nir dos fer ros acompa nham os mo vimentos dos es cra vos na ronda fantástica. e o comandante agarrava-se com os santos de sua devoção para que o carregamento chegasse sem avarias. tocava a seu auge.. O entusiasmo da oficialidade. ao lado do suplício e da escravidão. Os monstros do mar. dirigindo-se aos menestréis navais. De repente um trilar do apito despertou os nautas negreiros da doce ilusão de suas cismas. as palmas a compasso.. por isso que a sua comissão o compensaria largamente dos labores da travessia. – Música! Mais música! Bradava o capitão. fazendo-os crer em uma insurreição a bordo.Festas e Tradições Populares do Brasil 297 companheiros de destino prolongavam em cima a vida respirando o ar puro. fitando a escravatura luzidia. os afri canos muitas ve zes cantavam e riam contentes dominando o horror de seus dias. .

É possível que o motim fosse o resultante do delírio. suicidando-se. E os três cadáveres. os ecos. chamando o intérprete. seguida do comandante. iluminavam com clarões de fogo aquela cena fúnebre. que carpiam. penduradas de há pouco nas vergas. acocoraram-se trêmulos. erguidos à altura da fronte pelos marinheiros possantes. acendiam o desespero e a febre em parte da mercadoria. a decomposição cadavérica. haviam na noite antecedente revirado a língua contra a epiglote. que fechou-se sobre eles como um abraço materno. . As luzernas. unida ao bafio das dejeções e dos vômitos. soube que três dos escravos. para se libertarem do cativeiro. os marinheiros tiraram da cinta a faca pontiaguda. Metidos em forma. enquanto que a marinhagem disponível desceu ao porão. notando igual mente a vozearia de negros que apontavam para a escuridão. desflorando o cabeço das ondas. espavoridos e chorando. os gemidos e o choro das crianças eram compungidores. A podridão era insuportável. que esbravejava pensando nos prejuízos prováveis. ao mando do capitão. À passagem destes.298 Melo Morais Filho Os marcantes de baile fizeram parar as danças. e uma salva de artilharia atroou os ares. Como de um túmulo.. sentiu que se escapava de dentro um odor infecto e característico. levaram para bem longe os lamentos dos africanos. retirados aqueles mortos. Aproximando-se das grades de ferro da enxovia. a escravidão da vida e a liberdade da morte. Nesse momento.. os escravos afastaram-se em grupo para o centro do convés. os marinheiros os carregaram à tolda. Os negros amedrontados baixaram-se. os marujos transpuseram o infernal recinto guiados pelo contramestre que suspendia na frente uma lanterna de azeite de peixe. O capitão. acorrentados no tombadilho e ao pranto das estrelas. foram lançados ao mar.

crueldades próprias do gênero nefando do negócio. nada faltava para completar o arcabouço das cenas próprias daqueles mercados e que tanto debilitavam o senso moral naqueles tempos. . contratando-se para as viagens. a qualquer hora. . era o Valongo o grande bairro do Rio de Janeiro em que os armazéns de escravos novos ostentavam-se profusos. capitães negreiros comprando bugigangas para o comércio das permutas – tudo enfim destinava-se a produzir sobre espectadores estranhos o efeito mais vivo e impressionador. A . . povoados por ci ganos e mineiros que realizavam altas especulações. . . . O Valongo té à abolição do tráfico. . As línguas bárbaras pronunciadas com a acentuação nativa. espalhada aqui e ali. . Imagine-se o aspecto nauseabundo daqueles sítios habitados constantemente por levas africanas que se renovavam. . a qualquer momento do dia e da noite. pela marinhagem dos navios negreiros. O movimento comercial do Valongo harmonizava-se pleno com as crueldades absolutas que se praticavam. . . acompanhando os em pregados dos depósitos e os fazendeiros do interior. . . . Devia ser curiosíssimo o que se observava naquelas ruas imundas. . embriagando-se nas vendas atopetadas da canalha e dos negros. . . pontas de escravos acorrentados e seminus. . . . .. Ajuntando a isso os gritos de dor das vítimas recebendo sobre as espáduas ou outras regiões do corpo as marcas de ferro em brasa. . . .

como. Em toda a Prainha. ajustando a mercadoria negra. o caminho imediato a seguir era a dos mencionados depósitos. As tatuagens bizarras distinguiam evidentemente as nações de sua procedência. por isso que. crescido número de interessados percorria aquelas ruas. essas casas existiam a tal ponto agremiadas. porém. com as preferências de tribos ou de raças. De pó sito de es cra vos no Valongo Desde que os negros novos desembarcavam.300 Melo Morais Filho Em sua atividade laboriosa. exposta nos bazares. amadores mais ou menos apaixonados. desafiava o cobiça dos pretendentes de diversas categorias e condições. . o luxuoso penteado em diadema dos negros vendidos na costa de Moçambique. As famílias escolhiam as do Congo por serem mais alegres e dóceis. indagando. apesar de feias. que. examinando. as incisões verticais do monjolo. que se podia assegurar que metade das lojas ou pavimentos térreos da localidade eram ocupados por armazéns de escravos. Para certa classe de indivíduos as monjolas valiam alto preço. os tubérculos cicatriciais e em forma de crista de galo dos escravos minas. que aceitavam unicamente encomendas de carregamentos. que em relação às diversas tribos que abasteciam o Valongo. por exemplo. havia gostos distintos. falavam melhor aos instintos sensuais do que as do Congo e as de Benguela. Cumpre notar. incluindo nessa estatística os es critórios dos corretores.

de instrumentos de suplício. Não é necessário encher fo lhas de papel fazendo-se-lhes o inventário dos móveis. Acima da ca beça do cor retor. e para que se conhecesse a quem pertenciam. magros e doentes. dos acessórios. em recinto de baile para os negros. as casas de que tratamos compreendiam à primeira vista a sala da frente. pois a imaginação do leitor poderá suprir o que nos escapar à pena. coçando as sarnas. a parte descritiva desses antros limita-se a pouco. que. cobertos de feridas. de expedientes múltiplos. estendiam-se duas filas de negros que aí estavam para ser vendidos. aqueles esqueletos sentados ou de cócoras apresentavam-se com a pele lustrosa e impregnada de óleo de rícino. onde sentados em dois bancos de pau de dimensões variáveis. as tangas eram de cor diferente. tropas de escravos chegavam ao seu destino. os ciganos usavam. opi lados. uma mesa ocupava o centro e uma moringa cheia de água descansava no batente de uma janela. com permissão dos donos.Festas e Tradições Populares do Brasil 301 Acompanhados por praças de polícia e marinheiros dos respectivos navios. acor rentados muitos e al gemados outros. com o odor das secreções especiais à raça. misturava-se no ar. viam-se em turmas. . de cin co per nas Do mesmo modo que com os cavalos. no seu comércio. Famintos. via-se um grosso chicote dependurado no muro. aos armazéns do Valongo. isto é. Quanto à disposição geral. repotreado em sua cadeira de braços. espiando através de grades de ferro. tornando-o dificilmente Bacalhau respirável. moleques e negros nus. Em amplos lineamentos. Na sala. os escravos conservavam-se em grupos separados. héticos. à noite transformada. as mais das vezes cigano. De dentro. sacudindo a lepra.

Aqui era um pretendente que revistava o corpo e os dentes de uma pobre escrava. aviltando os nossos sentimentos e os nossos costumes. a fim de atrair as moscas e depreciar o gênero. cada um com a sua tarima. depois de tatear a mercadoria mais apetecida. Ne gro no tronco Na lufa-lufa do povo quando chegavam os brigues e as galeras da Costa da África. as cenas mais estranhas passavam-se no Valongo. além da sala e de outros compartimentos gerais.302 Melo Morais Filho Para iludirem os compradores. que pediam aos pais para os comprar. permaneciam na imundície moral até que fossem vendidos. acolá um fazendeiro que escolhia um lote. ali um indivíduo exigente que fazia dançar um negro para certificar-se de sua agilidade. os cativos de África. bordando as calçadas. Dia e noite em comum. . despertavam os desejos dos meninos e das meninas. Nos bons armazéns. amontoados como animais. o que em regra sucedia. avultando em tais espeluncas o contágio da peste e da sífilis a pauta mortuária. punham todos os artifícios em contribuição: uma fruta fechada na mão para ocultar um defeito físico. havia dormitórios vastos. um punhado de açúcar atirado às costas de uma boa peça. Os moleques e as negrinhas. levando à conta o sexo e a idade. em que a promiscuidade só ditava severa lei.

as redondezas dos armazéns. aumentavam-lhe o horror. de ciganos roubadores de escravos. circulavam naquelas paragens redes e bangüês que transportavam os mortos arrancados às sepulturas dos cárceres privados e do profundo dos armazéns. retiniam de cantigas bárbaras e de danças convulsionárias. Eram os pobres escravos que carpiam no delírio do pango saudades da cabana de seus pais e dos rios de sua terra. como um dever do regulamento negreiro.. às vezes. criando um ciclo ignorado no inferno dantesco. das tripulações que desembarcavam. as danças e os contos . nem sempre bastavam para con ju rar o es corbuto. a disenteria e a cegueira que acometiam os africanos. Ao fumo das candeias de azeite de peixe. onde a atmosfera asfixiava e as agonias não encontravam um seio amigo. E por que não morreram em suas areias? Por que não se amortalharam em seus desertos. A cal atira da nos po rões.. A algazarra e os lamentos.Festas e Tradições Populares do Brasil 303 Enquanto isso se passava no Valongo. os brigues. e a estrela uma lágrima de luz para os que sucumbiram na travessia da vida?. os sen ti men tos mais de si gua is e as in cer te zas mal di tas. precisavam chegar a salvo ao Rio de Janeiro. instrumentando o espetáculo da escravidão. Como epílogo da tragédia negra. À meia-noite. exalando odores podres. e o Valongo não podia ser entorpecido na sua marcha ascensional e proveitosa. sem regulamento. o choro e as chicotadas. que. onde o céu tem sempre uma estrela. às exalações da gangrena corroendo os membros ulcerados. flagelos para os quais – carga ao mar – impunha-se. constituía um elemento de lucros e de progresso. sem condições. à sombra do pavilhão nacional. girando entre todos a desconfiança. devastavam os de ser tos de seus fi lhos e po vo a vam o oce a no de ca dá ve res. passando a linha. Mas os tubarões erguiam a testa chata na ardentia dos mares. sem leis. a gangrena. e os riscos de comércio urgiam que fossem dissipados. a Costa do Ouro coalhava-se de negreiros. O tráfico. os pre ventivos gros se i ros que em pre gavam os capitães negreiros. de negros em trânsito. A Prainha e o cais da Imperatriz regurgitavam de compradores de serra acima.

304 Melo Morais Filho selvagens dos escravos novos atordoavam a redondeza. em que avultadíssimos carregamentos afundavam-se no oceano ou eram lançados às vagas a fim de impedir a transmissão do contágio à equipagem. o tráfico dominava impune nos mares. o roubo e as devastações constituíam a senha da pirataria audaz. acordando os ecos noturnos. Por vezes a mer cadoria ra reava e a procu ra dos mine i ros levantava crises: isso se dava em certas épocas do ano assoladas pelos naufrágios. . pelas calamidades de bordo. e o Valongo desafiava com os seus horrores as maldições do futuro. Não obstante. pelas epidemias. que repetiam lúgubres os tons finais do concerto.

. os negros no Brasil aparecem por um lado tão simpático que fora uma injustiça da História não recolher-lhes as tradições admiráveis. os escravos dominaram às vezes de tão alto que a eles devemos ensino e exemplos. . . . Um Funeral Moçambique em 1830 a terra do exílio. porém jamais conseguiram tolher-lhes o vôo da alma no sen timento comum. . . . . e esse pensar. gemer em um só gemido era a sina dos míseros escravos de África chegados a estas plagas. . . que na primitiva honraram a raça de seus pais aprisionados em longes terras. Povo essencialmente afetivo. . na união estreita da desgraça. . . .. O navio negreiro e o Valongo podiam cativar-lhes a liberdade do corpo. na luta empenhada através do cativeiro e da civilização. Vivendo conosco no tempo e na ação. . na praia do cativeiro. . Chorar no mesmo pranto. . . os pobres escravos re uniam-se para enterrar os seus mortos. . essa dor eterna que lhes brotava do seio como das cachoeiras as águas que se espadanam. . . segundo costumes próprios e usos privativos. N . eles as transmitiam aos seus descendentes crioulos. . . .

. Chamados para juiz nesta causa. foram estas que sustentaram. para quem o único Deus é o ouro. necessariamente o nosso voto não pertenceria ao primeiro. o pórtico das nossas instituições sociais. de que este país é a resultante constituída. Reservando alguns capítulos desta obra a essa pobre gente que tanto amou e sofreu. de aviltados pela condição.306 Melo Morais Filho Em sua existência ignorada e na pureza dos seus costumes. segundo as exigências dos meios. Entretanto o esquecimento se tem feito sobre o seu passado impoluto. é verdade. acompanhando-nos em nossas alegrias e em nossos pesares. antes de pararmos horrorizados em presença dos quadros de seus martírios. e o ideal nosso aniquilamento?. Percorrendo a História. quanto não teriam de aprender duas partes da imigração atual. Nativista convicto e por herança de família. Desde o crepúsculo matinal da colônia. não sabemos ao certo quem maior influência exerceu na formação nacional desta terra. lineamentos étnicos de sua vida de relação. mes mo porque descendentes bastardos repudiam torpes a sagrada origem de que procederam. derrubando florestas. se o português ou o negro. Apesar de bárbaros. não seremos nós quem sacrifique pelo café as tradições históricas de três raças poderosas. os moçambiques e os rebolos colocaram-se em plano mais distinto. aqui modificados. Das diferentes tribos que abasteciam os mercados do Rio de Janeiro. ameaçado a todo o instante por nacionalidades que nos invadem sem obstáculos. à semelhança de cariátides. contribuindo largamente para o nosso presente. com referência à característica de seus costumes nacionais. Como pesquisa etnográfica. . deixando iluminar-nos a fronte a luz amarelenta das crônicas. os nossos escravos possuíam costumes cheios de poesia e de graça.. nenhuma das levas colonizadoras merece-nos mais atenção que as importadas da costa da África e sua prole. de certa tristeza que enleva e encanta. fundando cidades.

possuindo bens ou dinheiro. Os en terramentos dos escravos faziam-se an tigamente no cemitério da Misericórdia. os parentes e parceiros o conduziam em uma rede que ficava desde o amanhecer junto ao muro de uma igreja ou à porta de qualquer venda. tais como reis. que esperava o morto com as portas encostadas e círios guarnecendo a ‘eça’. o mestre de cerimônias e o tambor-mor. sempre atraentes pela originalidade. O de pessoas reais congregava ambos e mais ainda as crianças. Diversificado conforme as tribos. conforme o sexo do cadáver. conservavam-se com duas velas acesas junto à rede funerária. pagando os interessados três patacas ao hospício da Santa Casa. . quando falecia um pobre de sua nação. os negros do Rio de Janeiro enterravam os seus de um modo completamente particular. o préstito compunha-se de mulheres ou de homens.Festas e Tradições Populares do Brasil 307 Como acima dissemos. de face pesarosa e vestidas de luto. os infelizes africanos manifestavam a seu modo a dor profunda que os acabava de ferir. que desfilavam com estrépito pelas ruas até à igreja. e por exceção nos templos. Assim. Nessas ce rimônias. e tanto mais ruidosas quando se tratava de algum personagem ilustre entre eles. quanto ao cerimonial que antecedia ao ato da inumação. rainhas e príncipes de raça. que se incumbia de mandar buscar o corpo e do mais. por falta da quantia exigida. a desolação da tribo vendo-se separada de um dos seus membros. os moçambiques salientavam-se no aparato fúnebre. completando a soma os compatrícios do defunto que apareciam no momento. isto é. deixou de ser sepultado com decência. Segundo o que sabemos. Não sendo o finado totalmente miserável. a que faziam preceder por vezes de outros deveres. recolhendo dos passantes o óbolo da caridade para o enterro. nenhum indigente moçambique. as pompas fúnebres tornavam-se regulamentares. Excluindo os carregadores da rede mortuária. Duas negras. dependentes dos recursos pecuniários do compatriota morto.

executando o seu ritual lúgubre. desde um pouco adiante avolumava-se considerável. Apenas estes dobravam. ao estron do do tambor. que ao longe era anunciado por dois sinos. que a cada pas so fa zia-se ouvir ecoando lúgubre. De portas fechadas. Segurando dos lados a cortina mortuária. os filhos e os íntimos caminhavam vaga ro sos. que batiam palmas cadenciadas e cantavam os seus lamentos. . com os cestos e tabuleiros à cabeça. até à saída do corpo. ensaiavam os seus lamentos. constituiu-se a necrópole fidalga dos africanos desta cidade. que. e defronte. O acompanhamento era o mais atroador e rude. por isso que os negros da mesma terra. que em 1830 era servida pelo clero negro e pertencia a uma irmandade de mulatos. a família. Por volta das 5 horas da tarde chegava habitualmente o cortejo à Lampadosa. os curiosos tomavam-lhe os degraus. A igreja da Lampadosa. estendidos em alas. os ganhadores e as quitandeiras etíopes. rodeada de moçambiques. e ladeando a rede coberta com um pano preto sulcado de uma cruz branca. Dentro em pouco a igre ja se abria e os padres vinham ao pequeno adro para receber o cadáver.308 Melo Morais Filho E nem se diga que o abandono interpunha-se à vida e à morte. esperavam o préstito. À frente ia o mestre de cerimônias. A procissão. limitar-se-ia a meia dúzia de parentes e raros amigos do defunto. com a boca fechada a todos os risos e os olhos arrasados das mais quentes lágrimas. em razão de ajuntamentos. um pouco mais atrás o tambor-mor. não deixando por isso de revelar uma fisionomia especial de costumes autênticos e primitivos. os contristados pretos arriavam no chão as suas cargas. no meio de alaridos selvagens e danças funerárias. e dian te do adro vinham pa rar os fúnebres préstitos. os conterrâneos da mesma pátria o seguiam às despedidas do cativeiro e do túmulo. que os escravos não se desembaraçavam do cativeiro para debruçar-se livres à beira dos sepulcros.

o tambor atroava. e a rede. os cânticos fúnebres em honra do morto reanimavam-se. escanchado em seu bombo.Festas e Tradições Populares do Brasil 309 E perto. e de rodilha verde na cabeça. E a treva. Com dois lenços vermelhos cobrindo-lhe o peito.. descendo silente nos braços da noite. na observância de seus ritos solenes. a calma era profunda. bem perto. rompendo a marcha. aproveitando o silêncio que sucedia ao seguimento da rede para o recinto da igreja. velava o último sono do cativo. Os convidados da morte. batucava com os punhos cerrados.. penetrava no templo. o rufar bárbaro do tambor era mais veloz. . lenta como a agonia. as palmas reproduziam-se mais aceleradas. e uma melopéia áspera e selvagem ouvia-se próxima. fazia evoluções com uma vara à cadência das palmas que batiam os negros nas calçadas e os acompanhadores. Depois. Nisso os sinos tangiam pela última vez. o mestre de cerimônias. Apenas esse féretro aéreo encaminhava-se balançando. pesada como o infortúnio. e o negro do tambor. transpunham o Largo do Rocio e entravam na Rua do Sacramento. que se libertara da vida e da escravidão. de calça curta.

até que. matando a quantos lhe resistiam. que recebera. . . . um dos pontos mais culminantes. . rica proprietária na Feira de Santana. o padre seu senhor mandou-o aprender o ofício de carapina. . deixou de procurar padrinho. . . . a ele se foram associando vários escravos fugidos. Por morte desta senhora. com os avultados cabedais da terra. . Nasceu Lucas na fazenda do Saco do Limão. . voltava apa drinhado. de que fazia parte o molecote Lucas. . . . na província da Bahia. Assentando destarte a sua tenda de salteador na Feira de San tana. e era escravo de uma D. N . . . . Antônia. . e começou a assaltar e roubar no mato e nas estradas. escolhida escravatura. passaram os seus bens a seu sobrinho o padre João Alves Franco. Os dias prediletos para as suas violências e assassinatos eram as terças-feiras e depois as segundas – dias de feira no lugar – por isso que nessas ocasiões o povo que vinha à cidade tratar de negócios crescia muitíssimo de número. . . perdendo o medo. . .. ocupa esse facínora. Na idade de 20 anos. e nessa aprendizagem fugia a miúdo. Lucas da Feira a galeria dos criminosos célebres. . . . que formaram a assombrosa quadrilha de que Lucas era o chefe horrendo e pavoroso. no Brasil.

e em um poste. todos escravos de senhores-de-engenho e de pequenos lavradores. lançou-o em uma enorme fogueira. seguiam e voltavam sem nada conseguir. al gumas praças de cavalaria. foi morto a tiro. e com ele uma preta sua companheira no crime. por ter consentido em tamanha selvageria. Repetidas vezes. prendiam e açoitavam. supondo-se existir correspondência entre ambos.312 Melo Morais Filho O Dr. salteadores da referida quadrilha. que. por essas diligências frustradas. que o reduziu a cinzas. assaltando um grupo que voltava da Feira para casa. A guarda negra de Lucas arregimentava cerca de trinta indivíduos. baluartes resistentes aos embates da luta e do imprevisto. participando a ocor rência ao Governo. salgou-a. ao reclamo dos assaltados ou a qualquer notícia. O Dr. e na manhã seguinte entraram com ela fincada em um pau pelas ruas da cidade. sucedendo-se ao corpo de delito dar-se sepultura à negra e entregar-se o corpo de Nicolau à populaça in frene. depois de arrastá-lo pelas ruas. fez o mais que pôde para prender Lucas. Nessa tarde entraram na povoação os dois cadáveres às costas de um animal. e daí secreto aviso. Vicente Ferreira Alves dos Santos. que. na estrada da Lagoa Salgada. ficou exposta ao público. tendo destacado. durante o seu exercício. . um primo e parceiro de Lucas. Por ordem da autoridade. o cirurgião José Maria Soares de Melo extraiu-lhe o encéfalo. em uma noite de terça-feira. com Lucas. embora auxiliados por caboclos da Pedra Branca. O delegado suplente que então servia. foi severamente repreendido pelo chefe de polícia. no Campo do Gado. rasteadores habituados e de ouvidos exercitados. primeiro juiz letrado do termo. O negro salteador contava em seu grêmio foragidos resolutos. Vicente Ferreira Alves assistiu à execução das sentenças de morte na for ca a que foram conde na dos os es cravos Fla viano e Januário. além da força de polícia. no lugar onde se levantara a forca. nas grades da cadeia. negros e mulatos. Nicolau. Os as saltados cortaram a ca beça do malfeitor.

Às vezes. de devastação e de assassinatos. satisfeitos os seus brutais desejos. até que morriam de fome e de mordeduras de insetos. os defloramentos por ele praticados foram inúmeros. a oeste. e dispostas aos riscos da aventura. e a algumas destas depois de aviltá-las com as suas torpezas. ao norte. que su bia à for ca sem remissão nem agravo. desenrolava-se uma rede de cipós em várias direções. untadas de mel do tanque. Diariamente marchavam contra os facínoras pessoas armadas.Festas e Tradições Populares do Brasil 313 Da árvore. mais o chefe de polícia Dr. amarradas a um tronco de árvore. Francisco Gonçalves Martins (depois Barão de S. o salteador da Feira distribuía o que roubava com alguns negociantes da cidade e altas influências políticas. avisos e notícias. Lourenço) teve de seguir para o local do crime a fim de sindicar o fato e instaurar processo. roubou com mais afoiteza. Canavieiras e S. motivo por que escapava às tocaias e esperava certeiro os comerciantes em trânsito. Registro e Lagoa Salgada. que transmitia. A terrível quadrilha infestava muitíssimas estradas – ao sul. De uma feita sendo mortos na vila do Tucano o juiz municipal Dr. Procópio e oito pessoas daí. conduzindo por mais de vinte anos uma vida de roubo. Lagoa do Furno. Na estrada e nos assaltos às fazendas ele e os seus matavam homens. Vicente. a cuja sombra erguia a sua tenda. José. sabendo de véspera o iti nerário dos indivíduos e de quanto levavam consigo. . Jacuípe. a de S. A acreditar-se em boatos. crianças e mulheres. cometeu mais de cento e cinqüenta assassinatos. a leste. a da Cachoeira e Santo Amaro. Flaviano e Januário assim acabaram. Lucas era um bandido de maior estatura que Pedro Espanhol. as deixavam nuas. por meio de convenção prévia. uma espécie de telégrafo. Lucas e os seus sequazes assassinavam autoridades. viajantes. portadores de diamantes e dinheiro. Em algumas entradas no mato a polícia e a força de linha conseguiam prender um ou outro do ban do. Catumbi e Pedra do Descanso. cargueiros. caindo morto por bala o salteador que resistia isolado ou que não as tinha pressentido.

capitães-do-mato. dando providências sobre uma outra morte – a de Firmino Ferreira Sarmento. O pobre homem. Neste sentido mandou afixar editais e publicar pela imprensa que o Governo daria quatro contos de réis a quem o fizesse. Contam-se dele tantos casos. a quem desvirginara e. saqueia-o e. enfrontando no sertão com o padre seu senhor. seguiam-lhe no encalço. franqueando-lhe as algibeiras. que encheriam volumes. viu levantar-se da cova uma nuvem de pássaros. Lucas era a figura do Diabo. dentro da gravata e pequena quantia no bolso. Lucas sai-lhe ao encontro e obriga-o a entregar o que trazia. Por vezes. E os assaltos aos engenhos e aos viajantes. narram-se a seu resepeito tantas legendas. O negro e a sua quadrilha. como ele dizia. rasteadores. aconteceu que passando por perto na manhã seguinte. apenas o manda embora. ao que o viandante sem réplica acedeu. apesar de espionado e perseguido. pedia-lhe rapé e deixava-o ir seu caminho. que supunha-se es capo com a vida e a fortuna. senão morre. por onde passou. enterrando-a na floresta. o roubo de gado e de bagagens. não hesitou um instante. os cadáveres apodrecidos nas árvores reproduziam-se sem . assustado. meteu por prevenção o dinheiro.314 Melo Morais Filho Na Feira de Santana. que foram cantando perder-se no além. – Meu ioiô. e sobre o meio prático de se prender Lucas. mirando-o de cima abaixo. disse Lucas. depois do prêmio oferecido. desatou-a e entregou desconfiado. soldados. gente do povo. enfim. Uma ocasião. desafiando mais as represálias do bando. tomava-lhe a bênção. demorou-se poucos dias. que era para Lucas. E Lucas. prosseguia temeroso e indômito em sua carreira. dê a seu negro essa gravata. um negociante. Dizem os velhos que Lucas tivera um remorso: – o de haver assassinado uma rapariga de 15 anos. não contavam com um momento de trégua. Na estrada. O salteador. fá-lo voltar. que ia para a Feira. que levava.

Benedito comprometeu-se a indicar o pouso. garantia dar cabo do salteador da Feira. Frustrada a diligência. puseram-se em marcha autoridades . para dar conta dele. a quem se associou. baús. alfaiais da igreja de Brotas. lhe fosse oferecida a absolvição dos delitos. acompanhado de Marcelino. embarcava em diferentes lugares. na tarde de segunda-feira. Na sua existência errante e sobressaltada. quando já se ha viam perdido muitas jornadas em busca do salteador baleado. Cazumbá. e. in divíduos amar rados e seviciados. ativando esses crimes a vigilância e sagacidade do chefe de polícia e das autoridades locais. e objetos roubados. incontinenti. ficou o ajuste assentado sob a palavra do Governo e a resolução do bandido. partiram todos. que não se poupavam a todas as diligências. fraturando-lhe o braço direito. amigo de Lucas e salvo-conduto dos viajantes da Cachoeira à Feira de Santana. transpunha vales e serras. Depois de ameaças e promessas. Do Aljube da cidade. Atravessava florestas. com os quatro contos prometidos. Daí por diante a estrela de Lucas começou a ser-lhe funesta. juízes de paz e inspetores de quarteirão. Cazumbá. evadira-se e batia as matas. Em caminho. não o impediu de escapar. em busca do esconderijo de Lucas. uma vez que. percebeu o facínora armado de clavinote. seguindo à frente. emboscado em uma das picadas da Pedra do Descanso. até que. Avisados. deixando após si um rastro de sangue. subdelegados.. E Cazumbá disparou-lhe um tiro.Festas e Tradições Populares do Brasil 315 termo. delegados. pondo-se-lhe à pista. levando dias e noites à tocaia de Lucas. A bala. 24 de janeiro de 1848. meteu mãos à obra. no declínio das esperanças. compadre de Lucas e réu inafiançável. nas clareiras do mato. que passava ao longe. uma moça branca enleada contra os espinhos de um pé de mandacaru. porém inutilmente. acudiu a alguém a idéia de mandar chamar o negro Benedito.. viram cadáveres putrefatos. as autoridades da província tomaram conhecimento do fato e fazendo vir à sua presença Cazumbá. de embrenhar-se nas selvas. seguidos de tropa. Esta notícia espalhando-se.

o ABC do Lucas é a mais original e característica. No alto do patíbulo fez uma fala ao povo. que o prenderam em uma furna onde era pensado por uma rapariga. E às sete horas da manhã. em uma rede gotejante de sangue. apesar de ferido e pilhado. e era o socorro ignorado de muitas famílias pobres que viviam de suas esmolas. amputaramlhe o braço. chegou Lucas aos Olhos-d’Água. etc. Note-se que. onde a população o teria linchado se não fosse a numerosa guarda de baioneta calada.316 Melo Morais Filho e tropas. Na cadeia da capital. repiques de sino. afluindo para vê-lo inúmero povo. como dissemos. Além do prêmio da traição. . e respondendo ao júri que o condenou à pena última. Cazumbá recebeu presentes de dinheiro do comércio da Cachoeira. Lucas não roubava para si. de Santo Amaro e da Bahia. passeatas. embandeiramento das ruas. luminárias à noite. tocatas de violão. Na que le mal feitor. Do muito que produziu a poesia anônima do tempo. dois sentimentos bons conservaram-se – a gratidão e a caridade. en tretanto. Às oito horas entrou na ci dade. tornando-se para isso necessário que lhe dessem outro tiro. É estilo no Norte os acontecimentos notáveis serem cantados pelos Homeros populares: as façanhas do Lucas estavam neste caso. Lucas tinha mais de 45 anos de idade. subiu à forca em setembro ou outubro de 1849. pediu perdão e – na forca ou na prisão – jamais comprometeu pessoa alguma. era inaudita. O cruel salteador da Feira nunca ofendeu a quem lhe fizera ao bem. na que la mons tru o si da de humana. que o protegia. para cuja prisão foi removido. Por três dias o prazer e as festas tornaram-se indescritíveis: girândolas de foguetes. E a esse respeito possuímos documentos de grande valor. A ferocidade do negro. da Feira de Santana. O fato passou-se pela madrugada. Cazumbá e Marcelino.

. enquanto que no porão. . . . vozes de desespero e de aflição. Naquele mar morto cada brigue parecia uma ilha de fantasmas que tinham por asas os panos brancos ao longo dos mastros oscilantes e sinistros. . . . . . os marinheiros dormindo nos escaleres suspensos. de escravos roubados pela pirataria à costa da África. Na imobilidade pavorosa. . . . . léguas e léguas se distendem onde o céu é uma fornalha. . No tempo do tráfico essa extensão enor me era o caminho fúnebre da frota negreira. N . e as virações não sopram agitando macias as velas dos navios. que abastecia os mercados de Liverpool e do Rio de Janeiro. com as vigias abertas. . . . desde o golfo da Guiné até ao Brasil. . O Navio Negreiro o centro do oceano. Parados no mar – o confidente do crime negreiro – os bri gues ressoavam com os estertores dos agonizantes. a peste e o contágio visitavam a desoras a escravatura que se sufocava à podridão e ao calor. Naquelas paragens a calmaria en contrava à noite o capitão estendido à sombra da verga.. . deixavam escapar gemidos dolorosos. a única manifestação da vida era a morte. . . debaixo da Linha. . . .

à nostalgia. Com freqüência a mortalidade abrangia as tripulações. outro. Aqui via-se um negro moribundo abraçado a um cadáver. às aglomerações. a equipagem começava a lide. à fome. não encontrava me dida: se havia qualquer sinal de levante. seguindo o rumo da navegação. os supostos chefes da insurreição acabavam na surra e nos dentes dos cães que . acocorado e nu. a febre amarela.. fechava um pouco as escotilhas. indiferente pela cegueira.. e os cadáveres e os doentes mais graves eram lançados às ondas e aos tubarões vorazes. o tifo e a disenteria causavam grandes destroços ao comércio de carne humana. aproveitando a aragem.. expondo-o completamente ao alcance das moléstias infecto-contagiosas. ali uma criança que mamava no seio da mãe morta. Ao amanhecer.. desfraldava as velas. destacava um escravo deitado sobre o ventre. mordendo os punhos cerrados. A crueldade dos oficiais e da maruja para com os miseráveis escravos não tinha nome. E a lanterna do rodante. sobretudo. o comandante estava no seu posto. mais outro ainda. Devido à sede. a cal virgem peneirava-se por horas inteiras no âmbito das prisões.318 Melo Morais Filho Penetrar nas enxovias quando qualquer epidemia declarava-se a bordo era um espetáculo cujo horror só podia ser comparado ao da própria escravidão. projetando um clarão de fogo no chão dos porões. respirando o pus e as dejeções. não sendo limitados os casos de brigues abandonados a equipagens de cadáveres. acolá ouvia-se o velório bárbaro do selvagem à cabeceira do insepulto da véspera. ao escorbuto. a tirania dos traficantes para maiores tiranias. E o navio. pestanejando moribundo à luz que o feria com seus raios. as mais horrorosas punições flagelavam os cativos. Por todos os lados o contágio epidêmico achava abertas nos navios do tráfico. coberto de sarnas. a lepra. à alimentação e às decomposições. O alarma produzido pelos primeiros sintomas epidêmicos predispunha o crime para novos crimes.

Festas e Tradições Populares do Brasil 319 atroavam com latidos os navios, ou eram atirados às vagas que os abraçavam de morte. Os canhões disparavam amedrontando os negros, trilos de apitos e gritos do capitão acordavam os ecos noturnos das enxovias, a correria dos marinheiros no convés e nas escadas íngremes enchiam de espanto os sediciosos, que buscavam no suicídio e no assassinato uma trégua à escravidão. Não há dúvida que não se pode acorrentar sem se sentir o peso da corrente: era justamente o que acontecia quando a revolta insinuava-se torva nos porões, ou surgia furiosa daqueles antros – cidadelas flutuantes do cativeiro e do aniquilamento. Esses fatos, porém, um tanto vulgares nos anais do tráfico, distantes ficavam do pânico que se apoderava das equipagens ao aparecimento de uma epidemia, e da ferocidade exercida nos brigues a fim de impedir-se a transmissão do contágio. Qualquer que seja a condição ou a diferença do estado social, a sensibilidade do coração pode vingar a custo, pode encontrar um lugar onde medre como uma flor sobre uma corola de rochedos. No tráfico, entretanto, na navegação negreira essa lei era violada, essa regra imposta pela natureza sofria um golpe profundo. A ambição, que dirigia a empresa, e o crime que se constituiu desde o primeiro instante a mola real do negócio, tornavam o homem de uma ferocidade tal, que em sua alma a comiseração e a caridade, a dor e os remorsos ficavam cá fora desalentados diante do impossível. Uma vez, uma galera que trazia um carregamento de mais de quinhentos escravos para o Rio de Janeiro foi presa, no alto-mar, de uma epi demia im placável, cujas avari as ou prejuízo to tal da carga erguiam-se inevitáveis. O contágio do mal inficionando alguns tripulantes, o egoísmo do traficante, superior ainda à salvação própria, planejou uma tragédia monstruosa, tendo como teatro os compartimentos obscuros e imundos dos cárceres e o tombadilho já salpicado de sangue como um assassino. À calamidade de uma epidemia de conjuntivite purulenta que cegava os negros e propagava-se aos marinheiros, urgia um paradeiro de

320 Melo Morais Filho bronze, a distensão de um cordão sanitário que pusesse a resguardo os não atacados. O desespero causado pelo dano ao negócio e a desumanidade absoluta do capitão encontraram de pronto um recurso tirânico, supremo, inaudito... E o que fazer? O ar era ardente, o pus inundava a face de azeviche dos afri canos sentados, gotejando em fios ao amplo do peito e do tronco. A peste, viajando no navio, opunha-se a tentativas inúteis e afastava os outros que negariam hospitalidade à marinhagem infectada. E o marulho dos vagas, transportando para o além o eco de um tiro de canhão, formou uma abóbada sonora que envolveu a galera, que balançou entre o céu e as águas como um esquife descendo em um túmulo. A este sinal de alarma os oficiais e a maruja subiram à tolda, tocou à forma, escancararam-se as escotilhas, e os cães de fila, acostumados a estrangular os negros, foram soltos, arriando os flancos junto às escadas de desembarque. Ao mando do capitão, os marinheiros desceram rápido aos porões, e quando reapareceram os primeiros, uma fileira de cegos, nus e cambaleantes, escanifrados e tateando as trevas, crescia vagarosa do fundo da galera, conduzindo às mães os filhos ao colo e pelo braço magro de esqueletos. Estendidos em linha, à direita e à esquerda, com o rosto voltado para o oceano, os olhos dos escravos, acostumados às torrentes de fogo do sol de seus desertos, permaneciam parados e cobertos de um véu opaco e ensangüentado. E o capitão dirigia as manobras, aos gemidos das vítimas na ignorância de seu destino... À semelhança de um punhado de pedras preciosas, os olhares dos negros cintilavam à luz do crepúsculo nos incêndios do ocidente... E a oficialidade e os tripulantes, esperando a voz de “carga ao mar”, dispunham-se a assistir ao epílogo da tragédia negreira no apogeu de sua crueldade e seus horrores.

Festas e Tradições Populares do Brasil 321 As correntes chocalhavam tiradas do pescoço e dos pés ulcerados dos escravos, imprecações bárbaras desfloravam os lábios da falange da morte, e os cães latiam mais forte apavorando os desgraçados nos seus últimos momentos. A celeuma dos cativos, chicoteados sem interrupção, enchia o navio de alarido e povoava o espaço de lamentos sem fim. Traiçoeiramente habituados à penosa marcha que os preparava para a der ra de ira investida, o capitão ordenou que formassem “dois a dois” e seguissem para a amurada aberta. Nesse momento o tumulto cresceu, os que podiam ainda ver horrorizavam-se fugindo, e enquanto rolavam aqueles caminhando para as ondas, os marinheiros lutavam com estes, agarrando-os pela goela e afogando-os no mar. Os cães, perseguindo as vítimas, latiam enfurecidos... A imensidade retumbava do alarido dos cegos no balanço das vagas, dos gritos de misericórdia e de blasfêmia que escalavam o céu, do desespero da mãe escrava, que suspendia nadando o filhinho nos braços... E para contrastar com esta cena aterradora e maldita, o navio negreiro, como um ban dido, es gueirava-se silencioso, per dendo-se fúnebre no oceano e na noite.

TIPOS

DA

RUA

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Capoeiragem e Capoeiras Célebres
(RIO DE JANEIRO)

E

I

ntre as classes populares a dos capoeiras avultou sempre neste País, assinalando nos primeiros tempos costumes de uma torrente de imigração africana, e depois uma herança da mestiçagem no conflito das raças. Como a febre amarela, que não sabemos por que espanta a tanta gente e quer-se a todo o transe debelar, a capoeiragem, que é uma luta nacional, degenerando em assassinatos, tem merecido perseguição sem descanso, guerra sem condições. Entretanto na Europa o tifo, a difteria, o cólera e mais epidemias produzem anualmente grandes destroços e a ciência não cogitou nunca do seu extermínio, mas de preveni-las; os jogos de destreza e de força são regulados em seu exercício, disciplinados pela arte, não havendo quem se oponha senão aos abusos. Na Inglaterra há famílias de remadores, de jogadores de soco; de indivíduos que se distinguem por atividades motoras, que desenvolvem, que exercitam desde a infância, e que os tornam notáveis pela força muscular.

326 Melo Morais Filho Esses jogos, es ses exercícios sobem da derradeira ca mada popular à mais antiga aristocracia, e são para o inglês o que os jogos olímpicos eram para os gregos, a luta para os romanos – um meio de aperfeiçoamento de formas, um recurso de combate. Nas Memórias de Lorde Byron , conta Th. Moor que, no dia do falecimento da mãe do ilustre poeta, o cantor da Parisina jogara o soco com seu criado. Lorde Palmerston, muitas vezes depois de calorosas discussões no Parlamento, vestia-se de marinheiro e remava no seu batel ao longo do Tâmisa. Os portugueses têm o jogo do pau, os franceses a savate, etc. Essas lutas, essas aptidões, que variam de povo para povo, mas com o fim que acima indicamos, concorrem para reunir mais um traço à fisionomia nacional, e têm merecido de espíritos eminentes sérias reflexões. Darwin e Ribot socorreram-se desses elementos no estudo da generalização das leis da hereditariedade. No Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, há uma espécie de casta que reclama um lugar entre as suas congêneres e que tem todo o direito a uma nesga de tela no quadro da história dos nossos costumes – a dos capoeiras. O capo e i ra não é nada mais, nem nada menos do que o ho mem que entre dez e doze anos começou a educar-se nesse jogo (a capoeiragem), que põe em contribuição a força muscular, a flexibilidade das articulações e a rapidez dos movimentos – uma ginástica degenerada em poderosos recursos de agressão e pasmosos auxílios de desafronta. O capoeira, colocado em frente a seu contendor, investe, salta, esgueira-se, pinoteia, simula, deita-se, levanta-se e, em um só instante, serve-se dos pés, da cabeça, das mãos, da faca, da navalha, e não é raro que um apenas leve de vencida dez ou vinte homens. A navalha e um cacete, que nunca excede de cinqüenta centímetros, preso ao pulso por uma fina corda de linha, são-lhe as armas prediletas, nunca fazendo uso das de fogo. À se melhança dos boxers na Inglaterra, tivemos excelentes capoeiras nas eminências da política.

Festas e Tradições Populares do Brasil 327 Os arsenais, o exército, a marinha, as classes menos abastadas fornecem contigentes avultados, e são na máxima parte mulatos e crioulos. A polícia também os possui, porém desligados da comunhão, detestados, e nos conflitos com os trânsfugas são estes quase sempre cortados, o que, segundo a gíria, quer dizer marcados. Os capoeiras formam maltas, isto é, grupos de vinte a cem, que, à frente dos batalhões, dos préstitos carnavalescos, nos dias de festas nacionais, etc., fazem desordem, esbordoam, ferem... Cada malta tem sua denominação: a Cadeira da Senhora é da fre guesia de Santana; Três Cachos, freguesia de Santa Rita; Franciscanos, de S. Francisco de Paula; Flor da Gente, freguesia da Glória; Espada, do Largo da Lapa; Guaiamu, da Cidade Nova; Monturo, da Praia de Santa Luzia, etc. O ca po e i ra gosta da oci osidade, e en tre tan to trabalha; a segunda-feira é para ele um prolongamento do domingo. Quan do se dedica a alguém é incapaz de uma traição, de uma deslealdade... No seu ombro tisnado escorou-se até há pouco o Senado e a Câmara, para onde, à luz da navalha, muitos dos que nos governam subiram. O seu trajar é característico: usa de calças largas, paletó-saco desabotoado, camisa de cor, gravata de manta e anel corrediço, colete sem gola, botinas de bico estreito e revirado e chapéu de feltro. Seu andar é oscilante, gingado; e na conversa com os companheiros ou estranhos, guarda distância, como em posição de defesa. Esguio e ágil, o capoeira demonstra na compleição de aço uma atividade circulatória verdadeiramente tropical; e o seu olhar como que mergulha no ânimo do adversário, surpreendendo-lhe as emoções mais súbitas, as lembranças mais rápidas. Se acontece ser acometido, quando desarmado, machuca o chapéu ao comprido, e nas evoluções costumadas desvia com ele golpes certeiros. Este tipo, entretanto, não é o capoeira transpondo as barreiras coloniais, dessas falanges que elevaram a arte à altura de uma instituição. O capoeira antigo tinha igualmente seus bairros, o ponto de reunião das maltas; suas escolas eram as praças, as ruas, os corredores. A malta de Santa Luzia chamava-se a dos lusitanos; a do Castelo, de Santo Inácio; a de S. Jorge, da lança; dos ossos, a do Senhor Bom Jesus do Calvário; flor da uva, a de Santa Rita, etc.

O passo a dois (gíria moderna) é um sapateado rápido que antecede à cabeçada e à rasteira. Para darmos uma pálida idéia da gíria e do jogo. A capoeiragem an tiga e a moderna têm a sua gíria. porém o mais refletido e prudente. do qual o acometido se livra ar mando o clube X . As questões de freguesia ou de bairro não os desligavam. ou de mestiços (alfaiates e charuteiros). No tempo em que os enterramentos faziam-se nas igrejas e que as festas religiosas amiudavam-se. difíceis. vendia para as fazendas um escravo filiado a qualquer malta. com o pé de encontro ao ventre. e dependendo da rapidez e hábito. Um dos preparativos mais rudimentares do capoeira é o rabo-de-arraia. e o lugar escolhido para isso eram as torres das igrejas. o que é um subterfúgio. que tinham como distintivos as cores e o modo de botar a carapuça. mas deixando à destreza tempo de varrê-lo.328 Melo Morais Filho Qual o seu pessoal? Geralmente eram compostas de africanos. o adversário. Deveras arriscados. que montados na cabeça dos sinos acompanhavam toda a impulsão dos dobres. Por escorão entendem eles amparar inesperadamente. abençoando das alturas o povo que os admirava. seguindo-se. que difere do pé de panzina . após a cabeçada ou a rasteira. apinhado na praça ou na rua. prestavam juramento solene. que quer dizer o afastamento completo das tíbias e união dos . cujas abas reviravam. segundo convenção. quando as circunstâncias exigiam desagravo comum. por motivo de capoeiragem. por exemplo: um senhor. famosos sineiros. infalíveis corolários da iniciação do combate. pela qual são compreendidos os lances do jogo. eles reuniam-se e designavam o que havia de vingá-lo. Consiste ele na firmeza de um pé sobre o solo e na rotação instantânea da perna livre. varrendo a horizontal. À categoria de chefe de malta só atingia aquele cuja valentia o tornava inexcedível. e de chefe dos chefes o mais afoito de entre estes. as torres enchiam-se de capoeiras. ajustemos por aquelas algumas evoluções deste. a sua maneira de expressão. que é o mesmo no resultado. de sorte que a parte dorsal do pé vá bater no flanco do contendor. até há vinte anos passados. que se davam a conhecer entre si pelos chapéus de palha ou de feltro. Os capoeiras. não é sem longa prática que conseguem tais lutadores fazer-se notáveis. porém que o fazem não como um recurso do jogo.

sendo os mais freqüentados o da praia do Flamengo. que ainda ofende o adversário. os capoeiras exerciam poderosa influência nos pleitos eleitorais. O tronco. e assim tolhido. enlaçando imprevisto com o braço direito os membros superiores e o tórax do outro. não falando nas torres das igrejas – ninhos atroadores dos capoeiras de profissão. ao mesmo tempo que firmam-se nas mãos. Desde a dos caxinguelês. O tombo de ladeira é tocar no ar. imprimindo-lhe com o pé violenta pancada na articulação tíbio-tarsiana. caindo-lhe por trás. formando larga base. que. Alistados nos batalhões da Guarda Nacional. decidiam das votações. Ondulando em movimento serpentiginoso. revira-o do alto. meninos que iam à frente das maltas provocar bairros inimigos. indivíduo que pula. de ameaça. inerte como a morte. Um deles. frio como um cadáver. II Figuremos uma arena: os contendores aproximam-se. os olhos cintilam. une-o. visto depender de uma agilidade incrível e considerável solidez muscular. . derrubarem o contrário. com o pé. com a velocidade do raio. talvez o lance mais feliz do jogo. conservando a cabeça e o pescoço na imobilidade. balançam os braços. deixando-se cair sobre as costas. porque ninguém melhor do que eles arregimentava fósforos. escora-lhe na perna os membros inferiores. emprenhava urnas. esses cursos regulares funcionavam conhecidos. estabelecem equilíbrio. o do morro da Conceição. pois a arte oferece ainda neste caso expedientes admiráveis.Festas e Tradições Populares do Brasil 329 joelhos. com a presteza do relâmpago. o da praia de Santa Luzia. recebendo no embate o salto da botina. As escolas de capoeiragem multiplicavam-se nesta cidade. a rasteira a caçador é o meio ginástico de que servem-se para. flanco sobre flanco. até à dos mestres que serviam para exercícios preparatórios. raiz e fedegoso. forma a síntese dos arriscados estudos da capoeiragem. Não é sempre fatal este lance. afugentava votantes. os lábios murmuram frases de desdém. pertencendo cada turma de discípulos a esta ou àquela freguesia.

que não acabou somente com os capoeiras. na Câmara dos Deputados. Nas garrafadas de mar ço. que. no funcionalismo público. livrando-se de seus agressores. das negras levando os senhores moços ao colo. o desfi lar de um cor tejo. que respondia a processo. seguindo-se ao distúrbio cabeças quebradas. in terrompendo a mar cha de uma procissão. Os assaltos. essas cenas tiveram lugar durante a administração policial de Eusébio de Queirós e de seus sucessores. por ocasião de uma procissão do enterro. como capoeira. acontecendo raríssimas vezes ser preso este ou aquele. ouvia-se. porém assinalou o termo do patriotismo brasileiro. nas ruas. Quando estudávamos no Colégio de Pedro II.330 Melo Morais Filho Muitos dos comandantes de corpos e grande parte da oficialidade entendiam do jogo. e acreditai que a popularidade precisaria subir muito para atingir-lhe o pedestal.. lampiões ape drejados. dos pais de família pondo a abrigo a mulher e os filhos. bom professor e melhor capoeira. ou eram habilíssimos na arte. facadas. desaparecendo totalmente com a Guerra do Paraguai. debandou a cabeçadas e a rasteiras um grupo de indivíduos imprudentes que o provocaram. recordamo-nos ainda de um frade do Carmo. Os desafios entre as freguesias transmitiam-se por meio de pancadas de sino convencionais e em horas determinadas. um dos nos sos mais eloqüen tes oradores sagrados fez prodígios nesse jogo. Pertencendo à segunda fase da capoeiragem no Rio de Janeiro. A polícia. fazia constar que perseguia os desordeiros. É geralmente sabido pela tradição que no Senado. amedrontada e sem força. . aos gri tos das senhoras cor rendo espavoridas. mortes. a ca poeiragem disparava indômita. os combates se davam nas praças. Às vezes. no Exército. o horroroso Fecha! Fecha! Os caxinguelês voavam na frente. na cena dramática e mesmo nos claustros havia capoeiras de fama. Pergunte-se por aí qual o ator cuja valentia ou destreza. em sítios mais ou menos distantes e desertos. na Marinha. cujos nomes nos são conhecidos. foi nosso professor de francês o bacharel Gonçalves. eram respeitadas..

Hoje que tudo se acha mudado. que brigavam freguesia com freguesia. o jogo nacional da capoeiragem é apenas visto pelo que tem de mau e bárbaro. servindo igualmente para as campanhas eleitorais. portugueses haviam de se aliar às maltas avulsas. deixar-se prender por dois ou três soldados e espancar a um pobre velho ou a uma criança. cultivou em sua mocidade essa luta nacional. como se fosse menos mau e menos bárbaro do que as lutas da mesma natureza usadas por outros povos. A prova de que a capoeiragem entrava nos nossos costumes está em que não havia menino que não botasse boné de banda e soubesse gingar. em que a bobagem dos duelos arma a popularidade ao desfrute. veio daquele tempo em que a capoeiragem tinha disciplina e dirigia-se a seus fins. que se di zem capo e i ras ga tunos e assassinos. Navalhar à traição. sendo de data recente as lutas entre os famosos Colégios Sabino. M. constituía família. afrontava a força pública e só se entregava morto ou quase morto. expressão nítida de capoeiragem da rua. a vadiagem lhe era proibida. de que tinham orgulhos os briosos comandantes. Não sendo estranhos ao jogo. ser vagabundo e ratoneiro. Como fizemos ver em princípio. jurisconsulto eminente e deslumbrante glória da tribuna criminal. trabalhava.. O capoeira isolado.Festas e Tradições Populares do Brasil 331 O Dr. Pardal e Vitório. verdadeiramente digno desse nome pela lealdade antiga. reuniam magnífica rapaziada. em correrias reprovadas. entusiasticamente levada a excessos pelo povo baixo. distinguindo-se entre eles homens de inaudita coragem e espantosa agilidade. . em homicídios horrorosos. Luzidas companhias de batalhões da Guarda Nacional. D. nunca constituíram os espantosos feitos das maltas do passado. não era gatuno. disputavam eleições arriscadas. naqueles tempos. de onde eram tiradas praças para diligências perigosas. que a afogou nas desordens. as turmas militares condensavam as classes operárias e os escravos. pela confiança própria e pelo conhecimento da arte que resta por aí. Pode-se dizer que de 1870 para cá os capoeiras não existem: se um ou outro. nem escolas que se não desafiassem para brigar. levavam à distância cavalaria e soldados de permanentes quando intervinham em conflitos de suscetibilidade comum.

Sobrenadando ao esquecimento que envolve os seus mais esforçados companheiros. o Fradinho. outros pelos nomes autênticos. registramos apenas os nomes daqueles que a tradição tem perpetuado na lembrança popular.332 Melo Morais Filho De entre os chefes de malta. um Hércules. apenas respondeu a 27 processos por ferimentos leves e graves. o Bem-te-vi. José. temido como capoeira célebre. ainda absolvido em todos eles pela sua influência pessoal e dos seus amigos. o Maneta. etc. considerado como homem de negócio. uns eram conhecidos por alcunhas. . estiveram nos galarins do prestígio. dos campeões que mais lustre deram à arte na capoeiragem pública. eleitor crônico da freguesia de S. o Natividade. o Quebra-Coco. Sendo-nos difícil citar a extensa lista nominal desses valentes. o Chico Carne-Seca. nas eminências da reputação justa e merecida. – para não falarmos no Capitão Nabuco. o Manduca da Praia jamais foi condenado à mesma pena. Ca pan ga ele i to ral Conhecido por toda a população fluminense. o Pedro Cobra. o Aleixo Açougueiro. o Leandro. o Bonaparte. pois o povo repete ainda as façanhas que motivaram-lhe a nomeada. o homem de mais força que tem tido o Rio de Janeiro – . O Mamede.

acontecendo àquele saltar nos ares ao primeiro canelo do nosso capoeira. e continuaram amigos. dotado de uma força muscular prodigiosa. ninguém lhe disputava a competência. livrando-se. O fato que mais o celebrizou nesta cidade remonta à chegada do Deputado português Santana. fazendo vida à parte. tendo notícia do Manduca. grande corrente de ouro que prendia o relógio. José dava cartas. que gostava de brigas. ganhava bastante e tratava-se com regalo. sapatos de bico revirado. houve desafio. depois do que beberam champanhe ambos.Festas e Tradições Populares do Brasil 333 O Manduca da Praia era um pardo claro. sendo capoeira por sua conta e risco. alto. era liso em seus negócios. grisalha e cor de cobre. não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias. Nas eleições de S. canto da do Senado. reforçado. gibento. gravata de cor com um anel corrediço. Trajando com decência. que ele iniciou a sua carreira de rapaz destemido e valentão. e quando o vimos usava barba crescida em ponta. pintava o diabo com as cédulas. de olhos injetados e grandes. agredindo touros bravios sobre os quais saltava. na festa da Penha. onde é hoje uma cocheira de andorinhas. Destro como uma sombra. a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança. Nos esfaqueamentos e nos sarilhos próprios do momento. como instrumento de defesa. que alguns ficaram estendidos e os mais inutilizados na luta. Encontrando-se os dois. cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau. trazendo somente como arma uma bengala fina de cana-da-índia. como arte. De chapéu de castor branco ou de palha ao alto da cabeça. Santana. de andar compassado e resoluto. A capoeiragem. O Manduca tinha banca de peixe na Praça do Mercado. o Manduca da Praia bateu-se com tanta vantagem contra um grupo de romeiros armados de pau. Um dia. que não recuava diante de quem quer que fosse. nunca dispensava o casaco grosso e comprido. foi no curro da Rua do Lavradio. procurou-o. . Constante morador da Cidade Nova. é a luta própria do Brasil.

. . . nas formas e na força – o Capitão Nabuco. . espingolados e míopes.. . . ao mesmo tempo que em desproveito do próprio corpo entulha o cérebro de asneiras. de pernas finas. mais do terço desta população faz maldizer o sol que deixara de ser escultor para constituir-se fabricante de caricaturas. . de indivíduos amarelos. . . verdadeiros símbolos da degeneração da mestiçagem brasileira. Essas considerações que podem ser contrastadas a qualquer momento. . de fetos que se desenvolveram fora da vida uterina. de uma ciência indigesta. . . . . . . . . . . nos surpreenderam de improviso. . . tão correta e distinta nos seus troncos primitivos. ao recordarmos um Hércules de Puget. não se lembrando que a grande parte da atrofia de que se ressente o povo da capital fluminense é devida a um trabalho incompleto de civilização. . cor de lobisomem. entre a qual se podem escolher livremente esqueletos ambulantes. À semelhança de abortos. O Capitão Nabuco O I pedantismo raquítico de nossa sociedade atual não cessa de apregoar o trecho latino mens sana in corpore sano. que se verificam em presença de nossa mocidade. . .

fazendo parte da comitiva que foi buscar Sua Majestade a Imperatriz. dos coetâneo do caos e das salamandras dos abismos. nascera antes para mover montanhas do que derrubar homens. Se por acaso o empurrassem no caminho. se lhe atiravam com o chapéu por atroamento ou descuido. Sem discrepância. acompanhado de rapazes destemidos e valentes. o Capitão Nabuco atirou-se ao tumulto e aos desregramentos. bem como os dos heróis de Homero. apanhava-o e não tirava o mínimo desforço. conterrâneos seus.336 Melo Morais Filho Descendente de uma família ilustre. para malhar cade i as do que apri si o nar vencidos. filho de um desembargador e membro do Supremo Tribunal de Justiça. Como Tubal-Cã. o Nabuco conviveu a princípio com a melhor gente do tempo e o seu nome e o seu pulso. que ainda existem. tinha alguma coisa dos primogênitos da Terra. burilando-lhe o torso um modelado de jogador de disco de estatuária grega. Ali. ele abaixava-se. ao que se diz. Lento nos movimentos. imperturbável diante do perigo. . Perguntai aos habitantes desta cidade. o cadete Nabuco teve de seguir para Nápoles. em cuja ossada inseriam-se músculos de ferro. Esse homem. nem provocador de lutas e de desordens. cuja idade exceda dos trinta anos. Sentando praça no exército. Desde que chegou ao Rio de Janeiro. entronizado na sua força descomunal. quem foi ele. são aclamados pela voz pública envolvidos em uma atmosfera de legenda. não havendo a menor divergência sobre o prodígio de sua força e as histórias de seu valor. não consta que fosse uma única vez agressor. discreto em suas resoluções de forte. Calmo quase sempre. mas seguia. ele não se abalava. porém a sorte foi-lhe adversa nesse ponto. esteve para casar-se com uma princesa. era de estatura mediana. de sua dinâmica de bronze. champrudo e tinha o braço e o antebraço for necidos por musculatura de ciclope. conservam-se fiéis à tradição. e de noventa por cento ouvireis casos assombrosos de suas lutas atléticas.

Apenas encarou-o. O exímio jogador de pau. almejava o instante que se apresentava de medir forças com o Capitão Nabuco. arrastou uma cadeira para junto da mesa onde estava o capitão. dirigindo-lhe a palavra: . ao embate das vagas e aos rumores das tempestades. o que não impedia que o rochedo ficasse firme e de pé. arrancar uma sacada de ferro e varejá-la à rua. No meio de seus sonhos. do Ataliba e. onde é hoje o hotel do Globo. e o seu peito estalava da impulsão súbita. fazendo estremecer de assombro os espectadores que o admiravam. Partir uma mesa com um soco. pois é do povo render verdadeiro culto ao que é forte.Festas e Tradições Populares do Brasil 337 Quando retraía o braço. prevenido de que lá se achava a celebridade com que devia lutar. que toda a população jurava tê-los testemunhado. às imoderações báquicas alguns episódios de sua vida coloriam-se de reflexos característicos. o Hércules lusitano. veio a conhecer a este último no café Troyon da Rua Direita. Eram nove horas da noite quando Santana entrou no café. o suor caía-lhe em gotas como os orvalhos primitivos. sentou-se. o Nabuco. a sua retirada das fileiras. sem ostentação. embora fosse estimado como cavalheiro e um exemplo como amigo. eram fatos tão presenciados por muitos. Arrojado aos excessos. asseverando-os. Na carreira militar o Capitão Nabuco salientou-se bem pouco. Daí. qual mola fletida. depois. do Deputado português Santana. o nosso campeão homérico excedia-os de distância incomensurável na valentia do pulso e do braço. Companheiro do Manduca da Praia. de suas fantasias loucas. exercia oportunamente a ação de seu bíceps gigante. Amigo dos primeiros. visto como a sua fama o tentava e a seu punho não encontrara rival. talvez. o seu gênio deixava-se ar rastar na torrente dos caprichos que o tornavam delinqüente. sem exterioridades. suspender nos ares um bilhar. Respeitado pelo povo. à obediência passiva a um labirinto de leis. mesmo porque tinha negação à atividade disciplinar do soldado.

. como quiser! Os assistentes prorrompiam em exclamações ao esforçado oficial.. continua frio e compassado o Hércules fluminense: eu para o senhor nem mudo de posição. – Aposto que não me conhece. empenhou-se em novo pugilato. replicou Santana. – Ora. Sendo ainda uma vez derrotado na queda do pulso.. colocou-se outra vez em posição. cruzando o punho com o do seu adversário.. restava ao capitão provocá-lo para a última luta. trata-se de medirmos forças e o cavalheiro não pode recusar. – Não aposto. Vamos! E aquele cotovelo monstruoso ecoou pesado na tábua. imperturbável e logo que quis. Santana..338 Melo Morais Filho – Creio que falo com o Capitão Nabuco. quando Santana. – É em frente um do outro. os circunstantes admiravam os lutadores terríveis. para lhe dar pancada não preciso escolher armas. ordenando-lhe tranqüilo e sobranceiro: – Agora bote dois: debruce-se sobre a mesa. arriou-lhe o braço sobre a mesa. aceitando o alvitre oferecido. – Perdão. afluindo a vê-los todos os grupos do salão. braço contra braço que combateremos. ao longo do qual as veias desenhavam-se como cordas nodosas e os músculos . porém Nabuco. nem me chego para a mesa. não me aborreça. recoste-se. – Pois fique sabendo que sou o Santana. Erguendo então o antebraço. nem levantar-me. até que o mais fraco se abata vencido. o suor corria-lhe gota a gota da fronte. deixe-se cair pendurado. empregava o maior esforço apegado àquela barra de bronze que nem de leve se movia. – Pois olhe. porque em nada me interessa. e o ronco do tórax percebia-se distinto. – Pois seja. – Aqui mesmo? – Aqui mesmo. – E o que me quer? – Que escolha as armas para bater-se comigo.. – Sou um seu criado.

saltava de um sobrado de dois andares. Admirador apaixonado de João Caetano. De uma agilidade pasmosa. Interrogai a tradição. uma série de fatos justapõe-se comprovando a sua energia muscular.Festas e Tradições Populares do Brasil 339 com a rijeza do bronze. e vos convencereis. e os episódios que se narram de suas lutas não destoam absolutamente de seus créditos espantosos. O Capitão Nabuco. E com a presteza de um pestanejar. – Aceito. pela uniformidade das informações. que os boatos aqui passados pela letra de fôrma exprimem a verdade na sua pureza primitiva. – Entretanto. como uma organização privilegiada e estupenda. conversai com os velhos soldados e oficiais seus companheiros de armas. . seu contendor. II A fama deste acontecimento foi tão estrondosa que muita gente ainda repete o que vira ou ouvira. executava maravilhas de ginástica. do mesmo modo. sendo terrível se o acaso o colocava diante de um povo de adversários. sem a menor discrepância. levantou o dedo indicador e desafiou o campeão estrangeiro: – Para você não preciso de mais. beberam champanhe. convencido do desastre que o aguardava. avultava como um prodígio. Na vida desse homem extraordinário. respondeu-lhe o fidalgo. na existência mais ou menos acidentada que sempre conduzia. mas querendo assim elevar a quem o humilhava. conheci um homem! Os dois abraçaram-se. à voz do Capitão Nabuco. filiava-se a partidos. freqüentador assíduo do teatro lírico. restando do pugilato titânico amizade que só um pulso conseguiu separar – o da morte. aquele malho de ferro caiu sobre a mesa e o punho alvo do forçoso deputado. os aplausos couberam a ambos. que desdenhava sereno e de bom humor: – Já vês que não prestas para nada.

. Felizmente a arquibancada é vasta e não falamos a por tas fechadas. e na atual Rua do Guanabara. pedindo aos companheiros que lhe indicassem onde a devia colocar. ao que o nosso Hércules. suspendendo nos braços a coluna de granito. de mais de metade da população desta cidade. não estivessem aí para confirmar o que vamos expender. orgulhoso do respeito das turbas que o festejavam por suas proezas. A esse pequeno obstáculo sucedeu irritado murmúrio. segundo o seu capricho ou a oportunidade do momento. meus amigos. os seus dias escoavam-se em noites veladas nos salões dos hotéis. no domínio pleno de suas energias. o jovem capitão sentia-se desfalecer. andou com ela de um lado para outro.340 Melo Morais Filho Compendiando. porque se eu der. dizia ele desalentado: – Olhem. afogando-se no torvelinho da vida. o esforçado fluminense exibia-se nas praças públicas. acompanhado do Santana. como que se antecipando à morte. o Capitão Nabuco seria um personagem fantástico. Descuidoso de seu futuro. Na noite seguinte. Uma ocasião rodava pelo Largo de S. Em uma noite clara e estrelada. Francisco de Paula uma gôndola tirada por quatro bestas novas e ariscas. Na majestade de seu vigor. Às vezes. nos atropelos de toda a casta. ainda pouco habitado. eu sou tão desgraçado que só posso apanhar. por onde transitavam os três valentões. mato. Alvo das vistas populares. nas casas de bilhar. Naquele tempo. do Manduca da Praia e do Ataliba. algumas notícias com relação à sua força. o calçamento começava a ser assentado. no quartel de cavalaria – contou-nos um dos nossos mais ilustres generais – arrebentou com um soco uma porta de madeira rija e chapeada de ferro. se o testemunho de generais de terra e de mar. existia no chão um frade de pedra que lhes embaraçava o caminho. di rigira-se a passeio ao pitoresco bairro das Laranjeiras. embora fragmentadas. o Capitão Nabuco.

e o povo e as famílias. músicos notáveis. este não o obedeceu. vinham entre nós conquistar mais louros à sua fama. para o que mandava fazer luxuosa vestimenta de meia. pedindo a bênção a seu venerando pai e um suprimento de dinheiro. sentou-se. e comprara nesta ou naquela loja a máscara para bater-se incógnito. Em tais casos. pregados às portas dos teatros e nas paredes dos edifícios. respondendo-lhe que a lotação estava completa. hércules de teatro e de barracas. Charles. o desembargador seu pai passava de carro.Festas e Tradições Populares do Brasil 341 O capitão fazendo sinal ao cocheiro para que parasse. ouvindo-se uma voz que bradava: – Se não me der lugar. sábios. À vista dessa resolução. fustigando as bestas em disparada. a gôndola estacou. aqui aportara um lutador de renome. Aborrecendo-se Nabuco com o que lhe dissera esse homem. com quem tivera ligeira desavença. ao que chicote estalara repetido da boléia. No maior segredo dizia-se aqui e ali que este ou aquele negociante. ansiavam pela festiva noite verdadeiramente romana. cantores. galgando o estribo. um dos passageiros subiu para as imperiais e o Capitão Nabuco. No Largo do Rocio. Ao avistar o filho. a impedia de mover-se. este ou aquele in divíduo al tamente colocado tomaria parte no espetáculo. prevenindo-se de bilhetes e entradas. não segue! Era o nosso Hércules que. que tocasse sempre. Nisso o forçoso oficial abandona os amigos. deu alguns passos. e apenas se lhe põe ao alcance. segurando com a mão direita o eixo da roda e com a esquerda um dos raios. estando ele na Petalógica. quando escritores. espera a carruagem. que não havia lugar. ordenou ao cocheiro que tocasse os cavalos. De repente as parelhas empinaram. o que fazer? Quando esta cidade era visitada anualmente por celebridades européias. com retrato. chamado Mr. os jornais publicavam a notícia dos espetáculos e as condições da luta. trava-a de súbito. artistas dramáticos. . Os anúncios de desafio choviam em cartazes. ginastas.

medindo o seu terrível competidor. à proporção que o nome do lutador francês crescia na imaginação pública como ideal da força e da arte. o Hércules formidável. e a orquestra ter minava a ouvertu re. o pano subiu e algum tempo depois apareceu em cena Mr. que vinha ajustar forças no Rio de Janeiro. escolheu a posição de luta. o que equivalia pronta derrota ao esforço do primeiro. inclina-se diante do público e. recebendo desde logo enchente real. transpondo os bastidores. as arandelas jor ra vam fios de âmbar nos ra i os da luz. Na noite marcada o teatro de S. Naquele corpo untuoso como o dos seus antecessores romanos. . Charles. Na re a li da de es tava-se em pre sen ça de um co losso: alto. quase sem luta. quando um novo máscara. aproxima-se majestoso.342 Melo Morais Filho Os boatos espalhavam-se em todos os círculos. robusto. O contra-regra. saindo-lhe o primeiro mascarado ao encontro. atlético. os pre ceitos estabelecidos. chega-se para a boca da cena. as palmas foram estrepitosas e os aplausos sem fim. – Era o Capitão Nabuco! O encontro dos dois Hércules dir-se-ia o entrechoque de duas montanhas. colocou-se no meio do tablado. A luz bri lhava no gran de lustre do centro. Por alguns minutos a luta correu segundo as regras. Este e outro e ainda mais outro morderam a arena. deixando de encontrar apoio firme. Nos camarotes as famílias colocavam sobre cadeiras belos ramos de flores com que juncariam a estrada do palco trilhada pelo vencedor. a mão do contendor. Pedro abriu mais cedo as suas portas. tocando o apito. Chegando-se mais. o francês possante orgulhava-se da musculatura correta e titânica. Adiantando-se na cena. escorregava.

O francês cuspia sangue. porém. entretanto. Quando essa criança tinha apenas seis anos – refere quem a conheceu – suspendia um peso de arrobas.. que não aparentava a mais leva fadiga. se é vivo ou morto. A platéia. as torrinhas aclamaram e atiraram flores sobre o triunfador. ∗ O Capitão Nabu co fa leceu em 1863 ou 1864. não pudemos indagar. Que destino teve.. está viva como outrora na lembrança do povo. deixando um filho que lhe herdara a mesma energia muscular. os camarotes. Mr. como que preso entre duas tenazes de ferro.Festas e Tradições Populares do Brasil 343 Num momento. A memória de seu pai. Neste país já é alguma coisa! . Charles arquejou opresso e caiu redondo como um corpo morto.

porém. Antes. . tornando-se singular pela ausência completa e natural de qualquer projeto de barba. vulgarmente conhecido pelo Estrada de Ferro. . imitava um instrumento sonoro. . batendo com os dedos nas bochechas. ostenta grande beiçola. onde. O Estrada de Ferro ão é um trânsfuga dos hospícios de alienados o crioulo Emiliano. A sua fisionomia é franca. chapéu baixo de pêlo de lebre. . Pedro II. . Emiliano exibia-se admiravelmente na execução de peças inteiras. que a todo o instante soava aos ouvidos. . .. fiel. foi morar com seus senhores à Rua do Príncipe. reproduzindo com a maior expressão polcas e valsas. Filho da escrava Rosa. . N . . . de ali residir. . . . . . sem discrepância de uma nota. não havendo a seu respeito coisa que o desabone. é torto de uma perna. . seus olhos são vivos. nas vizinhanças da estação da estrada de ferro D. . . por algum tempo fez sério estudo procurando imitar o sibilo da locomotiva. pertencente à distinta e antiga família França Leite. . anda vestido de calça e jaqueta de brim de cor. . É um preto inteligente. . deve ter perto de 45 anos. . conservando a boca aberta. . . Soprando no côncavo das mãos unidas.

com tal propriedade desfere ele o grito estrídulo.346 Melo Morais Filho Essas prendas entretanto. bem longe estavam de conferir-lhe a celebridade de que justamente goza nas ruas. a moradores de arrabaldes longínquos. que são vozes do trem de ferro. Nessa dúvida estivemos nós. nem mais perfeita. trazidas pelos ecos da estação central. O Estrada de Ferro não sabe ler. na pla ta for ma ou nos es tribos dos caras-duras atravessa esta cidade. quando por acaso o ouvíamos a certas horas da noite. produzindo o curioso efeito das locomotivas em trânsito. o assobio agudo do trem de ferro à distância ou chegando à estação. ao ouvi-lo à distância. mas conhece e escreve todos os nú me ros. que o que escutam. espontânea e liberalmente. E o Estra da de Fer ro. Em 1887. afirma-se. Parece incrível a habilidade imitativa de que é dotado esse negro. que o excluíam das raias comuns. com a verdade da imitação. jura-se que uma locomotiva vence o espaço. o Major França Leite. o som das baforadas do vapor. quando põem em cena a Viagem à roda do Mundo e outros dramas. Dando conveniente emprego a tão rara aptidão. por isso que a sua ma nia é com prar bi lhe tes de lo te ria. a fim de executar o seu pa pel de Estrada de Ferro. Passageiro constante dos caras-duras. segundo as exigências da rubricas. os empresários de teatros o convidam. A ilusão não pode ser mais persuasiva. chegando a convencer. . o borbulho da máquina. e este não os aceitou. o Estrada de Ferro lá vai guinchando a intervalos. depois que conquistou o apelido de Estrada de Ferro. levou-os a seu senhor. concedendo-a desde logo. que moramos no Catete. em troca de sua liberdade. tirando num vigésimo a sor te de dois contos e quinhentos mil-réis.

O Filósofo do Cais (Dr. “Restabelecido o Barão Schindler. pediu ao velho Conde Mockwitz a mão da princesa Ermelinda para sua esposa. . após os desastres da campanha da Rússia. . e o conde pai ‘lha’ negou. e nele pensado pela jovem e formosa Condessa Ermelinda. o qual. da antiga nobreza da Alemanha. Barão de Schindler. .. . . era João Adalberto Matias. e foi com o seu ba ta lhão reunir-se às forças de Napoleão Bonaparte. . . . . . assen tou praça na milí cia da Ba viera. chegando aos 17 anos. geraram neles simpatia e mais logo paixão veemente de um para o outro. Pai) “E sse personagem conhecido no Rio de Janeiro pelo título de Filósofo do Cais ou do Largo do Paço. . . Melo Morais. . filho único do Barão Anselmo Schindler. nascido em 1795. . e filha do Conde Mockwitz-Katzinellubogen. . Os cuidados desta formosa jovem ao doente Barão Schindler e o contato freqüente. combater a Santa Aliança. . . porque sendo riquíssimo a destinava para esposa de um . . pertencente a uma antiga e nobilíssima família da Saxônia. foi transportado para o caste lo dos senhores de Mockwitz-Katzinellubogen. Sendo ferido gravemente na ba ta lha de Leip zig. . . . . . .

Passando por Munique. “Em 1820 partiu para a Grécia. e que a cerimônia do casamento se faria no dia seguinte. encontrou-se com um estrangeiro misterioso. viu que a cerimônia nupcial estava terminada. No hospício entregou-se aos livros e pôde desvanecer seu malogrado amor. ofereceu-se também o Barão de Schindler e chegou ao Rio de Janeiro em 1824 com os primeiros alemães. mas não desamparou a for mosa filha de seu amigo. onde foi curado pelo Dr. e. e as suas recordações o fizeram cair em profunda melancolia. e antes de expirar lhe pediu que tomasse por esposa sua linda e en cantadora filha Penélope. sabendo que o conde e Ermelinda. natural de Perpignan. Adalberto caiu por terra sem sentidos. e o mandou curar pela formosa filha de nome Alice. metendo-se pelos matos. Schwarzer. este lhe morreu nos braços em Missolonghi. caminhando sem descanso até que.348 Melo Morais Filho príncipe russo. resolvendo-se ir acabar entre os selvagens. e partiu com a tropa para o Rio Grande do Sul. Deixou a Gré cia e voltou para a Alemanha. soube que o velho conde tinha partido com a Condessa Ermelinda para Dresde. obteve licença e correu a Mockwitz. e já eram mortos. foi ao castelo de seus pais. e. indo Ermelinda banhada em lágrimas. e foi levado louco para o hotel vizinho. Adalberto era estremecidamente amado de Ermelinda. penetrou no templo gritando que nada fizessem porque o verdadeiro noivo era ele. e as intrigas de seus camaradas. bem como o prín cipe russo tinham se encaminhado para a catedral. foi salvo pelo velho chefe indígena. A ferida do coração ainda não estava cicatrizada. e. da qual milagrosamente tinha escapado com vida. ali chegando. como nesse tempo se estava engajando soldados para o Brasil. Chegando a Paris. se aproximando ao altar. Saindo do hospício restabelecido. que se su põe ser um descendente de Teofrasto Paracelso. . e em 1821 dando-se intimamente de amizade com o chefe grego Marcos Bozzaris. já sendo tenente. e daí para o hospício dos alienados. com o fim de a casar com o príncipe russo. que o levou para sua cabana. fora elevado ao posto de capitão pelas bravuras que manifestou na sanguinolenta batalha de Waterloo. Para ali correu e. e. chamado Preux. Adalberto tinha o coração ainda cheio de seu primeiro amor. e a casou com o célebre Capitão Colocotroni. e se separou da tropa alemã. que era francês. sendo agarrado por um bando de selvagens.

que ansiosa o chamara.Festas e Tradições Populares do Brasil 349 “Preux lhe pediu que se casasse com sua filha. Impaciente quer ir ao correio no mesmo traje em que estava. toma-a por Ermelinda. em diversos países. ele se des concertava. levanta-se. . e fazia a conta dos juros da fabulosa riqueza que possuía na Alemanha. e se encontra com um seu compatriota. e caindo em sono. se lhe apresenta a figura de Ermelinda já viúva. e a notícia de existir no correio duas cartas para ele. e recebidas as cartas uma era da princesa Ermelinda. A segunda carta. para casar-se com ela. e mesmo com a carta na mão dançava. era a notícia da morte de Ermelinda. e fazendo-o vestir-se melhor. pede a uma velha índia feiticeira para lhe preparar um filtro que inspire amor em Adalberto para ela: a velha o prepara e ele bebe. Morrendo o chefe Preux. que lhe dá agasalho. mas Alice que o amava loucamente. foi escolhido para o substituir Adalberto. que embora nascida nas selvas. e saltando pela janela desapareceu. e os tra zia den tro do len ço que con ti nha a rou pa. Logo às primeiras linhas. sentindo-lhe a indiferença. e como alguns índios aspiravam à posse de Alice. de nome Frederico. “Esmolava em certas casas. e era nes se pe río do que es crevia os acontecimentos de sua vida. Seguiu-se febre com delírio. deu um grito horrível. cantava e soluçava. e sai precipitadamente da cabana e embrenha-se pelas mata. e como Alice se conservasse sempre a seu lado. Barão de Schindler. e a estreita nos braços absorvido na mais violenta paixão. “Vagava dia e noite. mas o seu compatriota o conteve. mas Adalberto era insensível. anunciando-lhe que a princesa Ermelinda no seu testamento lhe deixava toda a sua grande fortuna. tendo na cabeça um disforme bonetão de couro. e narrava a correspondência que havia tido com as muitas pessoas de suas relações. trajando um vestuário verde. e anos depois chegou o Barão Schindler ao Rio de Janeiro. e depois o substituiu por outro de veludo. sempre marchando pelo Largo do Paço. já viúva do príncipe russo. lhe desejavam a morte. deixou cair a carta. onde andou vagan do até que apareceu em um cafezal no Rio Grande do Sul. que depois trocava por bilhetes do Tesouro. foi com ele ao correio. ele a havia educado à moda da Europa. e ralada de saudades por ele. De repente. e jamais aceitava outro dinheiro que não fosse de cobre. No cres cente da lua.

que o queria curar pelo magnetismo. sendo esses mesmos indivíduos dignos de verdadeira compaixão. foi recolhido à Santa Casa da Misericórdia. onde.” . E dormia no arco do Teles ou nos adros da Capela Imperial e igreja de S. dentro de oito dias. sendo sepultado na vala o Barão de Schindler. e creio que foi pelo pressentimento natural no povo. magro. O que comia das quitandeiras não pagava. sendo acometido de uma febre perniciosa. guardas municipais e garotos. “Muitas vezes paixões deprimentes ou um amor excessivo arrastam os indivíduos a excessos descomunais e à loucura.350 Melo Morais Filho “Escrevia nos cadernos os diálogos esquisitos que tinha tido com os moleques. que o Filósofo do Cais não foi perseguido pelos moleques e garotos das ruas. onde esteve alguns dias. “Em abril de 1855. faleceu. O Fi ló so fo do Cais “Era alto. quitandeiras. José. “As notas que aqui enumero as extraí de um livro que. sem razão de ser. A polícia o manda. Deixou notas cômicas que teve com um homeopata. ou o Filósofo do Cais. Fazia a comida mesmo no cais. em Porto Alegre. e andava com os pés descalços. meter na casa de correção. se imprimiu a respeito da vida desse fidalgo alemão.

Era viúva e tinha alguma coisa de seu e andava sempre acompanhada de uma escrava. A . de cabelos grisalhos. A Forte-Lida residia em Mata-Cavalos. atiravam-lhe pedras. revelava um estado mental em desordem. . parecia não ter mais de quarenta e poucos anos. ou antes a perda absoluta da razão. . os bandos de ociosos tomavam-lhe a frente. De estatura acima de mediana. Por mais que tentássemos. às provocações da vadiagem. magra. . . . . . nunca conseguimos descobrir o segredo daquela existência voltada aos assobios dos moleques. . ainda mais que sua fisionomia. . bexigosa. . . trigueira. . A Forte-Lida história desta mulher talvez fosse um desses dramas ignorados que conduzem o protagonista ao suplício da loucura. em uma algazarra seguida e infernal. . O seu trajar. que anunciavam-lhe a entrada nas ruas. . . quando a conhecemos. . . .. Batedores turbulentos da alienada irascível. . . . . às apupadas dos meninos. . .

impreterivelmente ao meio-dia. pendia-lhe da cinta uma enorme rosca e uma grande chave. a fim de saber de uma demanda na qual se achava envolvida. queixando-se repetidas vezes aos pedestres. aos inspetores de quarteirão e até aos ministros de Estado. O mais do tempo gastava ela em percorrer os cartórios. tangia a vara.352 Melo Morais Filho Vestia saia de cores vivas. . desdobrava um xale encarnado. A Forte-Lida. E a pobre louca esbravejava. ao que supomos. como as pretas baianas.. descompunha. A For te-Lida A tiracolo. correndo. a Forte-Lida apresentava-se no Tesouro. morreu muito depois da guerra do Paraguai. camisa entremeada de rendas. saltando. onde recebia uma pensão que lhe deixara o marido. Nessas ocasiões a molecada a precedia e seguia. Todos os meses. do qual lhe proveio o segundo apelido de Manta de Fogo.. gritando: – Ó Forte-Lida! Ó Manta de Fogo!. jamais esquecendo a vara de marmelo com que se defendia dos moleques.

musculoso. chapéu redondo encapelado. . . Este indivíduo era um ferreiro português. usava botas e calça curta. . Sujeito danado. . . N . . . Joaquim. . jaqueta. . quando estava na chuva metia-se em casa. O Miguelista era um tipo de rua. . .. punha-se nu como para tomar banho. morava o Miguelista . ouvindo-se daqui e dali: – “Ó Miguelista! Ó Miguelista!. . que jamais o deixava seguir em paz seu caminho. arriando-os. tendo o costume de embriagar-se muitíssimas vezes. . esquina da Rua do Regente. completo e conhecidíssimo. levantando os braços. . .” E ele disparava atrás. barbado. gritava a ensurdecer: – “Vizinhas! Estou na área!” Os moleques. batendo com as mãos nas nádegas. pregavam-lhe pedras. e. . encontrando-o na rua. . que sabiam da história. alto. corria em ziguezagues. um dos tipos prediletos da canzoada. atirando-lhes às pernas um grande cacete de castão de ferro com que andava. desencadeava o vocabulário da pornografia. . . . O Miguelista a Rua Larga de S. . . ia para o quintal. .. ..

notou-se-lhe diferença nos modos. . . . . . . no gesto. . Na capela os companheiros o tratavam com amenidade e o distinguiam com louvor. . alguns dos quais retratam com a maior fidelidade certo lado especial da época em que viveram. . Da maneira por que esse fenômeno se havia operado. . .. . . . . com a sua mania. M . . estimado músico da capela imperial. porém o que é fora de dúvida é que o Policarpo dá a medida da importância que se ligava aos alienados. . no semblante. no tempo em que ele viveu livremente com a sua enfermidade. . . expansivo e jovial. O Policarpo era um homem alegre. . . . O Policarpo uita gente existe que se lembra ainda do célebre Policarpo. digno certamente de figurar nesta pequena galeria de monomaníacos. De um momento para outro. Não é precisamente este o caso do músico acima. Quando nos contaram sua vesânia. . achamos interesse no tipo. nunca pudemos evidenciar. . em bo ra o nos so em penho fos se se gui do e pertinaz.

pegava na rabeca. Das cinco horas da tarde. que o viram cumprindo o seu fadário de louco. Até aí fora injustiça qualquer acusação. Mas onde ia o Policarpo com o seu sonho insensato? Com tal assiduidade. por diante. empregado no correio e residente à Rua das Marrecas.. e lhe davam entrada no palácio aéreo dos tipos da rua? Do modo mais simples e original. o negócio complicava-se: o Policarpo tomava um largo paletó de padrão escocês. não des com pu nha a nin guém. não provocava os tran se un tes. e nem por isso mais adiantados ficamos. qualquer censura. metia-a debaixo do braço e saía. sob forma palpitantemente nova e característica. a mínima desconfiança a respeito de sua integridade moral. a que castelo feudal se dirigia aquele menestrel de carapuça e chambrão? À casa do meu amigo Paiva.. enfiava a cabeça em uma carapuça de baeta vermelha. O Policarpo não implicava com os vizinhos. O Po li car po E como se revelaram as perturbações mentais que o constituíam alvo das atenções populares. .356 Melo Morais Filho Procuramos diversas pessoas que o conheceram.

.Festas e Tradições Populares do Brasil 357 Apenas entrava. desde o escurecer até à meia-noite. o Policarpo e o Paiva andavam em amoladora serenata. . e do chafariz das Marrecas à porta do Passeio Público. concertava a prima. executando apenas duas peças de música. afinava-o. percorria a escala.. e ambos vinham para a rua. o Paiva agarrava o violão. Imagine-se um instante o suplício da vizinhança!. aborrecidas e desconchavadas. E da porta do Passeio Público ao chafariz das Marrecas.

trazia cabelo rente. Trajado de preto. por baixo do colete e da sobrecasaca ensebada assentava o cabeção de padre. . de diversas igrejas e finalmente da capela imperial. grande e vermelho. . .. de olhos verdes. A . . Formigão crônico. . . chegou a receber a primeira das ordens menores. a volta guarnecida de uma renda estreita e suja. durante cerca de dez anos que cursou as aulas de latim. . andava quase sempre de chapéu na mão e limpando o suor com um lenço de rapé. . claro. . . nunca conseguindo passar do Mundus a Domino constitutus est. . . Não lhe convindo o emprego. . . foi ser sacristão de S. O Bolenga ntônio Francisco de Paula. . do Carmo. interrompendo a sua bri lhan te carreira para entrar como donato no convento de Santo Antônio. o amável e simplório Bolenga pretendeu ser nomeado bispo para a diocese que mais de pronto vagasse. . . . . . Pedro. . porém persistindo na mania religiosa de ordenar-se. . por antonomásia – o Bolenga – nasceu em Itaboraí. Constantemente burlado em sua primitiva vocação. semblante oval. freqüentou o seminário de S. . . O Bolenga era baixote. José. dificilmente conciliáveis com a atual teoria dos micróbios.

. seguia para o paço de S.. Algumas vezes. pouco depois.. . por não o despacharem com urgência. enviavam-lhe decretos de nomeação redigidos em latim macarrônico e autenticados com seles extravagantes.. ah! E mostrava os papéis. ah!. ah!. ah!.. – Ah!.. a ajuda de custo da viagem. E o Bolenga não faltou.. ah!. fui nomeado bispo de Maranhão. julgando-se feliz. procurava os ministros em audiência e queixava-se amargamente dos empregados da secretaria do Império e da recebedoria da Corte. Estou cansado de tamanha lida.. que.. que riam-se ou procuravam desiludi-lo. – Ah! Senhor ministro.360 Melo Morais Filho Os capotes. – Ah!. ah!. debicavam ou desculpavam o pobre velho. e os navios do estado estão preparados para me conduzirem à diocese.. seus empregados são tão descansados. cartas de parabéns pela acertada escolha. Que tanta demora nas secretarias. partindo ele. autores ou implicados no negócio. supondo propositais as delongas. onde receberia um caixão de libras esterlinas. tomaram o padre Paulo para seu divertimento e.. Imperial Senhor.. vestia a batina.. ao que o tonsurado idiota prestava fé. levando a Sua Majestade o Imperador os seus motivos de agravo contra o expediente da repartição do Império. desconfiando da gaita. isto é. já na capela. o desfrutável Bolenga girava numa roda-viva. Os padres e os funcionários públicos. que não dormiam. ah!.. Venho agradecer a Vossa Majestade a minha nomeação de bispo.. Cristóvão.. como último recurso. Uma vez recebeu um ofício que o emprazava a comparecer no Tesouro... a mostrar esses documentos aos monsenhores... levantando para um lado o rosto e arregaçando uma das extremidades do lábio superior – ah!. dizia o Bolenga. tenho perdido tanto tempo. ah!. Mandavam-lhe presentes de mitras compradas nos belchiores. E choviam os ofícios relativos ao cargo que ia exercer. cônegos e mais padres do coro da capela. já nas secretarias.

Faleceu este homem. que era honesto. leal e agradecido. tratava-o com favor e bondade. na avançada idade de 74 anos. e das surriadas dos vadios. talvez. o Bolenga foi o único. .Festas e Tradições Populares do Brasil 361 O Imperador que sabia-lhe a maluquice e que o conhecia da capela. No seu caráter de tipo de rua. que passou incólume das pedradas dos moleques. em 1879.

. Em sua alma. cuja ponta ultrapassava o lábio inferior. . separando pelo meio a vistosa prenda. O Pica-Pau ão há muitos anos. as manifestações do seu sentir não significavam mais do que um devaneio de idiota. porém. . . . . . . o pobre idiota poderia figurar em um museu de anatomia. usava de carapuça e. . . . quando fumava. . . o charuto saía-lhe do crescente formado pelo queixo e o lóbulo nasal. . e com o desenvolvimento retardatário do cérebro: era um amor sincero. . um indivíduo magro. ridiculamente aquilino. . conhecido geralmente pelo Pica-pau. alguma coisa existia que contrastava-lhe com a fealdade do corpo. fanadinho. . . uma dedicação pertinaz a uma moça com que pretendia casar-se. uma preocupação imbecil. . A razão da alcunha estava em ter ele enorme nariz. Estimadíssimo no seio da família que o abrigava. imberbe. O Pica-pau trajava com decência. . . pálido. de andar velocíssimo. .. N . não sendo de pequena importância o estudo do caso. morava em uma casa nobre da Rua de Mata-Cavalos. Como produto teratológico. . .

a madrinha esperava a noiva. dizia ele em casa e aos conhecidos: “Sinhá é tão boa! Eu quero tanto bem a sinhá!” Um dia. foi de encontro ao carro dos noivos. encarou resignado o anjo que lhe sustentara com a luz do olhar a razão amortecida e exclamou pesaroso e fulminado: “Meus olhos viram! Agora eu creio. tornou a seu posto. – Vou me casá cum sinhá.. Quando a noiva desceu.. voava. a inquietação brilhava-lhe no olhar. acompanhando-o: “Ó Pica-pau! Ó Pica-pau!.. a intervalos. que gritavam. são os do seu casamento com o Sr. o ligeiro Pica-pau era seguido pelos moleques e os meninos de escola. para aquele deformado. Estanciadas ao longo da rua. a piedade. – Mas os papéis que levaste ontem à Conceição. Tentando um esforço sobre si mesmo.. puxou nevoso a portinhola. e os escravos e criados o interpelavam. talvez. Pica-pau? Sinhá vai casar? – Não é possível! respondia. E no portão. foi pedida em casamento. sinhá!” .364 Melo Morais Filho Na rua. os convidados comparticipavam da felicidade do novo par e da família. Uma tarde o salão estava cheio de flores. o monstrozinho esperava alguém ou alguma co isa.. o Pica-pau havia perdido a última crença e a última es perança. saltava.. firme e convencido. Quando o préstito chegou da igreja. como a derradeira saudade à cabeceira dos supliciados.” E ele corria. – Não é possível! não é possível! – e retirava-se zangado. uma agonia íntima e profunda gemia-lhe no coração. apelando para a sua rudimentária razão. o ideal de suas adorações. as carruagens rodavam intermitentes.. murmurou consigo ainda uma vez: “Não é possível!” Abriu a portinhola do carro. ele a fitou um instante e. vestido como para o noivado. deu-lhe passagem. rindo e zombando: – Então.. O seu semblante tor nava-se lívido. que puxavam-lhe o paletó. que davam-lhe trotes.

As bênçãos do Céu e da Terra cantavam em torno dos cônjuges. O Pica-pau se havia enforcado! . bem tarde já. E amanhecia. As estrelas pareciam flores de ouro. como as asas do anjo-da-guarda.. pendurado a uma corda presa à rama de um tamarineiro. A no ite não podia ser mais alegre: har monias. um cadáver. o santuário misterioso da nascente família. a quietação fez-se nas salas e no banquete. E a essa hora em que as preces e os pássaros voam para Deus. Tarde. ilusões que não mentem. cerrando-se. protegiam. e os alvos cortinados do leito nupcial. balançava aos tons indecisos da luz e do nevoeiro. vestido de preto e com a língua de fora.. Uma janela que deitava para a chácara abria-se.. sonhos que não findam.Festas e Tradições Populares do Brasil 365 E desapareceu.. e as flores as estrelas do vergel. perfumes.. em que os escravos buscavam o trabalho..

.. . . . o pardo Claudino manifestou-se publicamente maníaco. . O Padre Kelé ra um pardo já velho. suspendia o passo como quem caminha na lama ou na areia. . . Andava sempre de batina. . . . . a religiosidades exageradas. Claudino. . Idiota de nascimento. Desde a sua iniciação no sacerdócio. de rosto comprido. . sapato de fivela e meia preta. E . pelo que usava barba rapada e coroa de minorista. objetos esses que filava de monsenhor Narciso. . . ficou em prima tonsura. andava apressado. barrete fechado na mão e capa magna traçada. o nosso aprendiz de padre chamava-se o Sr. essas três qualidades juntavam-se a tendências hipócritas. Antes de sua extensa popularidade. que tão maravilhosamente concorreram para a sua justa celebridade como tipo da rua. cambaio. . . . excêntrico em seus hábitos e erótico às ocultas. a costumes bizarros. corcunda. . . magro. . . . Não chegando a receber as quatro ordens menores. .

368 Melo Morais Filho De baixo do braço – costume que conservou até a morte – trazia inseparável um maço de jornais. junto a quem resvalava: – Me dá um vintém. meia de seda. Desde então os moleques formavam-lhe na rua um estado-maior saltitante. gostava de falar mal da vida alheia. porém sendo tatibitate. A reforma não podia ser mais radical: no dia seguinte o Kelé fez a sua entrada na cidade e nas ruas vestido de casaca. atroador e festivo.. sentado no último degrau da escada de algum corredor.. roçava nos transeuntes. Condoído do pobre homem por ver a batina do sacerdote assim desacatada. conservando unicamente sapatos baixos. respondia. Aqui e ali. no começo de sua vida de clérigo. as pedradas... e entretinha rela- . descompunha. a esta ou aquela pessoa. as tempestades dos moleques pacholas e vadios: – Ó Kelé! Ó Camaradinha!. coroa aberta e o maço de jornais sobraçado. Sempre de chapéu na mão. era infalível às ladainhas dos sábados na igreja do Carmo. calça curta e muitíssimo larga. em vez de pronun ci ar kyrieleizon . assombrado... estendia sorrateiro a mão livre. era avarento. o Kelé ou o Camaradinha afrontava as vaias. me dá um vintenzinho?” Imbecil e carola. – Camaradinha. e dizia também.. Ó padre Kelé!. – Ó Kelé! Ó Kelé!. soltava palavradas. mas sem parar. o delegado de polícia Dr. acontecia que. camaradinha? – Ó Kelé! Ó Camaradinha!. que lia quando cansava de andar. me dá um vintém? O padre Kelé tocava violão e cantava lundus em casas conhecidas. não deixando de pedinchar amedrontado. E o Kelé corria. rápido e baixinho: – “Camaradinha. acompanhando a reza – Kelé –. ficando por isso conhecido pelo Padre Kelé . jamais relaxando o rigor desse figurino.. Cunha determinou-lhe que não trouxesse mais as vestes que usava. ao que Kelé acedeu sem recalcitrância.

O Pa dre Kelé Em várias ocasiões era surpreendido nos corredores e atrás das portas. inclusive o Jornal do Comércio.Festas e Tradições Populares do Brasil 369 ções de amizade com um distinto médico residente no Largo do Rocio. a quem dava a guardar o que recebia de esmolas. Todos os jornais anunciaram-lhe a morte. . O Camaradinha faleceu em 1876. aumentando-lhe a demora nesse lugares o enfraquecimento progressivo das faculdades cerebrais. que lhe consagrou um esplêndido folhetim escrito por Ferreira de Meneses.

. trajava de preto. Seja como for. visitando esta ou aquela família. . a Maria Do ida vestia três ou quatro saias. Esta mulher era uma parda viúva.. por tê-la conhecido de vista ou mesmo gozado de sua privança. comendo. Dizem que a pobre da velha perdera a razão em conseqüência de lhe haverem roubado algum dinheiro que lhe deixara o marido. . e nas pitadas a sua liberalidade não conhecia limites. . . visto que o seu pouso era incerto. . Fechado na mão. . A Maria Doida esta imensa e populosa cidade muita gente existe que dá notícias exatas da Maria Doida. trazia um embrulho de papel contendo rapé. nunca dispensando uma trouxinha com mais roupa de uso. . . . . . passando dias aqui e ali. . que contrastavam sensivelmente com a sua cabeleira dura e incorrigível. . regulava ter uns 50 anos. . de verdadeira mestiça. . . N . . . . Andarilha e vesânica. usando constantemente de dois longos cachos de cabelos finos e grisalhos. . . duas camisas e igual número de pares de meias. . bebendo e dormindo onde a levava o acaso. essa infeliz andava de casa em casa. .

que passava a semana com a família F. lavando os meus paninhos.. portanto. aproxima-se da Srª D. Quando as negras e as negrinhas apanhavam.. de albergar-se em casas alheias. A meninada. nos corredores. abria a trouxa. que seu peru me galou! Como este são inúmeros os casos que se contam da Maria Doida. nas áreas. de sua bagagem portátil. eu estava agachada... as moças divertiam-se à sua custa. servia de madrinha.. e lavando o enxoval o estendia em cordas.. ela intercedia. zelada. de almoçar ou jantar. deixe-se de inconveniências. L. Um dia. fez toc! A mãe e as filhas não puderam conter as gargalhadas. Não obstante. cercava-a. arrastou a asa. – Já vê. – Cale a boca... Abstração feita de sua vida errante.. Senhora Dona Maria. o lado mais característico de sua alienação eram os repentes chistosos. investe pela escada do quintal... desapontando o sexo frágil que a escutava. senhora...372 Melo Morais Filho Apenas chegava a uma casa conhecida. No meio dos desarrazoados. a parda Maria encaminhava-se para o quintal. as frases equívocas que lhe brotavam de improviso. acatada.. a Maria Doida era estimada. a Maria Doida. trepou no meu ombro. retorquiu ela. já se sabe. saía-se com pilhérias que faziam rir as pedras. afirma ela. sempre tomando rapé. que se achava na varanda com suas filhas. sempre falando.. pedia sabão. esbravejava. nas janelas. e as donas de casa ficavam de sobreaviso com as suas levadas.. e lhe diz arrepiando-se toda: – Sinhá dona.. sabe de uma coisa? – Ora. – Escute. – O seu peru me galou! – Pelo amor de Deus. que não sabemos se já fez sua última visita – ao domicílio onde se entra com os olhos fechados para não se abrirem jamais! . – E veio o seu peru. e batendo com o bico na minha cabeça.. mudava a roupa suja. depois dos cumprimentos e maçadas do estilo..

. porém. não se exaltava. e repetia contente e em tom afirmativo: – “Sou chefe! Sou chefe!” Em outros momentos. cartola machucada e velha. . . De olhar vivo e inquieto. A população e os moleques incorrigíveis o conheciam pelo Praia Grande. não o poupando estes das habituais provocâncias. . . . entretanto. dormia ao relento no adro do Carmo ou debaixo do Arco do Teles. . secundando a palavra com a expressão e o gesto. Excepcionalmente. . . . . magro. e o Praia Grande andava em uma roda-viva. . por isso que a sua ma nia limitava-se a um círculo restrito de idéias. imaginava-se um personagem ilustre. estremecia no meio de pertinaz preocupação. . esfregava as . . . de pouca barba. . acaboclado. durante certas fases da lua. alto. . O Praia Grande. quem passava pelo Largo do Paço via um indivíduo de 45 anos.. errante sempre no largo e no cais. . trajando constantemente sobrecasaca abotoada. a qual quer hora do dia. . O Praia Grande E m 1850. sem manifestações ativas e violentas. . . isto é. volteando o mercado e as quitandas das pretas. . agredindo e sendo agredido. No mais. . . e de gravata justa ao pescoço. o seu sistema nervoso tornava-se mais irritável.

sob o título O Filósofo do Cais e o Praia Grande. que belos!” O Praia Grande vivia de esmolas e da caridade das quitandeiras.374 Melo Morais Filho mãos. Pedro. . estalava o beiço. pronunciando a miúdo: – “Que belos. que belos. sempre figurou no Largo do Paço. e alguns epi sódios de vidos à sua vesânia ser viram de mo tivo a uma far sa representada no Teatro de S.

antes das oito horas. . . trajava chapéu de couro de pêlo de lebre. proprietário do referido jornal. Rafael J. relacionando-se com os jornalistas do Mercantil . e ei-lo dominado por uma segunda vesânia que o celebrizou. em forma de bordão. . usava barba cerrada e bigode rapado. calça e colete de brim branco. . a sua primeira mania revelava-se em todas as manhãs. de alpaca. apresentar-se na Rua Direita. De estatura regular. . franqueava-lhe as . . fisionomia serena e modos tranqüilos. Mais tarde. . . . . . tirar o relógio e acertá-lo pelo indicador do observatório do Castelo. . . estimado corretor da praça do Rio de Janeiro. . . que adiantava um pouco para a frente. . Os redatores da folha tomavam largo pagode à sua conta. tinha o costume de andar com uma das mãos no bolso da calça e a outra empunhando um chapéu de sol.. bom e honestíssimo era o Barreto Bastos. cheio de corpo. da Costa. e o Sr. Português de origem. . paletó preto. . entendeu que devia ser poeta. . . . . de copa alta. . Conservando a plena consciência de seus atos. Barreto Bastos I nofensivo. .

bem como esta ao Ministério. do original impresso: RÉCITA São. onde Barreto Bastos publicava as suas poesias políticas. conquistaram renome as intituladas Altas Congonhas na mão e vá ri as Sátiras e Récitas. O Bar re to Bas tos Entre as inúmeras produções estapafúrdias de sua lavra. car ne. . mun do. e di a bo To dos três têm mu i to rabo É pre ci so po lhe os qui a bo Ata do nos seus mui rabo. deveras apreciadas pelos assinantes e o povo. Lon gos e lar gos ar ti gos têm rabo Mas to dos eles não de se jam o cabo Por que lhe fa zem a con ta no fi a bo Não de se jam que tudo fi que no cabo.376 Melo Morais Filho colunas. que fielmente reproduzimos. Re mé dio na me di ci na é qui a bo Sou ces de sete fa zem mu i to rabo Ape li ca mos al gu ma pi as sa bo A ver se lhe atran ca mos o rabo.

. . meu bem. marchetava de certa graça os fadinhos que executava. per dão! Pan ca di nhas as sim Não me dê mais. . . ... . . corpulento. não. . . . . . que dava a beijar aos devotos. . se você vis se Meu co ra ção como está Ve ria que seu des pre zo Pra cas ti go bas ta já. ninguém como ele modulava: Ai.. . . Propenso às ternuras. . . . O Chico Cambraia ão é moderno este tipo: é bem antigo. N O seu emprego consistia em pedir esmolas para as Almas. . com a imagem de S. Por Deus. A sua opa e a sua bacia de prata reluziam espelhantes. bem como a vara de prata. .. especialmente em tons menores. um pouco aflautada. . . tocava violão e cantava modinhas e lundus. cor de formiga. no que religiosamente gastava todas as segundas-feiras. . . O Chico Cambraia era um pardo de 50 anos. A sua voz. eu suplico So cor ro. alto. Miguel e Almas. ..

Com o produto de sua clientela escolhida. Ordinariamente. seguindo o seu fado. implorando solene: – Pra missa das almas!. onde por vezes reuniam-se irmãos das Almas e de outras confrarias. senhoras Almas. isto é. jogando o pacau: – Ora. Tomem lá duas cartas. De quando em quando. o Chico recolhia-se aos seus penates. e possuía lista das boas casas onde costumava pedir. a sua e a das Almas.378 Melo Morais Filho O Chico Cambraia residia em uma casa térrea na Rua do Hospício. a cara-metade despia-lhe a opa. e pedia para a missa do nosso irmão padecente. separando as moedas: – Senhora. uma resinga. que vinham conferenciar sobre os proventos do ofício. ou ouvir tocar e cantar o amável colega.. imitando o jogador duas vozes distintas. e. Quando havia enforcado. acrescentando: – Não se assustem. é de maninha-maninha o nosso jogo. Chegando à porta. o nosso Chico acompanhava o préstito. pedia esmolas aos tran seuntes.. e eu fico com as que me couberam por sorte. vamos lá. dizia. deitando a salva sobre a mesa redonda. espiava pelo xadrez da rótula. as bananas são para as meninas e os ovos para uma fritada. a cada pessoa que entrava para os ofícios fúnebres. escutava-se uma reclamação. desde o alvorecer. e. fazia plantão à porta das principais igrejas. em frente da salva e adiante de si. batia três pancadas.. o impagável tipo acendia a vela de carnaúba da manga de vidro. fechava as janelas da sala. Apenas entrava.. . o meu é emprestado.. empilhava moedas de cobre e de prata. Por volta do escurecer. colocava sobre o aparador o dinheiro das Almas e começava. que os pobres negros deitavam-lhe na bandeja. No dia de Finados. E o Chico Cambraia deitava o baralho partido à direita. apresentava a salva. e o Cambraia.. ao que corriam a mulher e os filhos para recebê-lo. notando-se que nem sempre aceitava esmolas de frutas e de ovos. com uma entoação sentida e grave. que tirava do repositório das esmolas.

ganhei! E o tinido do dinheiro arrecadado coroava ao final da partida. sendo distribuídas novas cartas do mesmo ou outro baralho.. . no clandestino pacau e nas modinhas. à vista do resultado quase negativo da salva.. oito. sempre atencioso e correto: – Pra missa das Almas!. Voltando à casa. caía na boa peixada. nove! Ganhei de boca!. No ajuste de contas com a confraria. o Chico Cambraia abanava com a cabeça. nove. peço uma! – Seis e três. o negócio não pinga porque os tempos estão bicudos.. minhas Alminhas..Festas e Tradições Populares do Brasil 379 – Cinco e três. carregando com todo o dinheiro e o metendo na arca do quarto de dormir... encolhia os ombros e retorquia paciente: – Meu amigo.. no excelente vinho. à espera da próxima segunda-feira.. exclamava ele.. em que visitava os seus fregueses e percorria a cidade. de opa verde e bacia de prata. Não pode! – Mostre o jogo! – Não mostro! – Nada! Desta vez vocês me enganaram. pedindo aqui e ali.. – Quero uma. – Quatro e cinco. a qualquer observação do tesoureiro.

o nosso brigadeiro envergava correto o seu uniforme militar. percebendo o negócio. desembarcara nesta cidade o brigadeiro Montenegro. . a caixeirada era implacável. . ia sobre eles. sorria meigo. . quando descobria à janela de algum sobrado uma rapariga linda e faceira.. . tanto assim que. . e dizia-lhe: “Que bela moça para casar com um general!” Se a moça achava gra ça. e dizia: “Cuspa aqui!” Os moleques. e para segui-la. . . enveredavam para o brigadeiro. .. em todos os lugares o atropelavam. . nunca mais o largavam.” O Montenegro enfurecia-se. Esta idéia. tornou-se-lhe mórbida. ele aproximava-se.. . Em todas as ruas. distribuindo pranchadas a torto e a direito. . assobiando e gritando: “Não há de casar!. vergava para trás. . se não lhe fazia qualquer desfeita. perfeitamente fisiológica em outros. . desembainhava a espada. . parava. Na Rua do Rosário. . passeava garboso nas ruas e. . . . foi-lhe proibido andar armado. abria a boca. . . portador da mania de casar no Brasil com moça rica e bonita. . . . . para evitar um crime. . O “Não Há de Casar” V indo de Moçambique.

” O “Não há de casar” Na segunda fase de sua alienação. o “Não há de casar” saía-se com este estribilho que antecedia a novas e mais estrepitosas surriadas: “Cambada de colonos. Reza a tradição que o motivo de seu transtorno mental fora uma repreensão em ordem do dia. os moleques e os caixeiros o desesperavam. ao mesmo tempo que conservava a esquerda na algibeira. e então agüentem-se. do clássico acionado indecente.382 Melo Morais Filho Independente disso e da intervenção da polícia. . chapéu de pêlo. trazendo uma bengala de cana-da-índia na mão direita. isto há de ser de Portugal. e depois de muita corrida e de muita palavrada. calça e colete branco. o brigadeiro Montenegro trajava sobrecasaca azul com a fita vermelha da Ordem de Cristo na abotoadura.

. . . De mais perto. . Pedro. E o que fazia ele? Em que se ocupava esse cetáceo que. Apenas o Tomás Cachaço avolumava-se ao longe. . . . alourado. . de palmatória no bolso. . . O Tomás Cachaço E m 1844. e fazia a sua entrada na escola dos negros brabos. e o sinal-da-cruz começava a ser ensaiado de baixo para cima.. o pançudo mestre de reza sacava da palmatória. . . época florescente do contrabando e do Valongo. . tirava o chapéu. . meio calvo. . . tão perturbados ficavam os bo ça is dis cí pu los. do ombro para a testa. . . de olhos azuis esbugalhados. Rua da Saúde? Ensinava doutrina cristã aos negros novos. errava para as bandas da Prainha. . barbado e barrigudo. . a doutrina aprendida de cor apagava-se-lhes da memória. existia nesta cidade um português de altura mediana. . . . os negros tornavam-se fulos de terror. conhecido geralmente pelo Tomás Cachaço. freqüentava o Valongo e as casas particulares onde havia escravos. limpava com um lenço de Alcobaça o toutiço nédio. . . Rua de S. gordo. de trás para diante. recebendo mil ou dois mil-réis mensais pelas lições de reza.

interrompendo a reza: – Não! Esta não engulo eu! O Tomás Cachaço faleceu em 1852. acompanhados de palavras bárbaras e semibárbaras. preparava-se para sair. Se algum. instrumentada de gritos. de pé atrás. fazia-o repetir o termo com a frase. o ofegante e obeso mestre empunhava outra vez a palmatória. – Hei de ganhar o Céu ensinando a esses pagãos! Dizia Tomás rachando bolos na negrada. do tempo e da rua. tirava uma pitada e. entre o alarido e o estrondo das palmatoadas. porém.” Terminada a aula. com o que mais o alentavam na faina. dobravam rapidamente o joelho. o seguinte tópico do encolerizado e terrível preceptor: – “Coragem não me falta! As forças me sobram! Se não fosse a miséria em que vivo. e a cada erro no Padre-Nosso ou na Ave-Maria.. soprando as mãos. . Pedro I!. ouvindo-se aos berros. Os caixeiros e os senhores assistiam habitualmente às lições. D. implorando atemorizado qualquer explicação. adiantava-se. de choro. entupindo as ventas. e retiravam-se. esfregando-as entre os joelhos. Nisso os negros aproximavam-se. que era.. roncava por mais de uma hora. teria sido ministro do Sr.384 Melo Morais Filho E a bolaria. estendia a mão pedindo a bênção. que se torcia vergando o corpo. de súplicas. o Tomás Cachaço puxava a caixa da amostrinha. deixando um nome célebre como doutrinador e tipo.

do Senado Federal. cor po 12. e im pres so em pa pel Ver gê Areia 85g/m2 nas oficinas da SEEP (Secretaria Especial de Editoração e Publicações). foi com pos to em Ga ra mond. . de acordo com o programa editorial e projeto gráfico do Conselho Editorial do SenadoFederal. em Brasília. de Melo Morais Filho.Festas e Tradições Populares do Brasil. Acabou-se de imprimir em março de 2002.