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Título A cueca bibelô

Autoria Anabela Natário, 1992

Edição Online
1.ª Edição - Abril de 2007

Fotografia da capa Hermann Danzmayr


Grafismo Rui Justiniano

Todos os direitos reservados

SINAPSES Editora
Urbanização Quinta das Lágrimas, lote 1, 1º Esq. Frente, 3000 Coimbra
www.sinapses.net
sinapseseditora@gmail.com
A cueca bibelô
Anabela Natário
Para vós

que vasculhais perturbações


recriais ambições
confundis interpretações
com desejos próprios
que julgais conhecer-me

Maria Branca

P.S.
A propósito
Não vos deixo um diário ou uma autobiografia! Algo inventado?
Deixo-vos um registo temporário! Arquivem-no!
Não preciso que me reinventem!
Não sei se o descobriram cedo ou tarde, pouco importa, fui famosa, serei famosa
em qualquer data.
Ambição desmedida? Presunção? Tracei a vida assim, para ser o que fui, fruto de
uma geração herdeira de muitas outras.
Lembrem-se de mim que eu não me esquecerei.
A Baixa está num bulício. Bulício? Bu-lí-cio, Lembra-me algo, essa... paixão?
Nunca me aconteceu amar perdidamente. Que coisa!
Mas se coisa há mais agradável à vista é esta baixa enlouquecida, entre montras,
mitos, quente de gente. E se há coisa mais desagradável, perturbadora, é uma cueca
suja tanto mais de corrimento emprestado. Alucino? O globo alucina ou talvez se res-
trinja a loucura a esta federação europeia; desconheço quem decidiu made in (como
gostam de dizer os literatos) destas cuecas. A loucura desabrocha e prontifica-se a
dominar, sabe-se, é um direito do indivíduo deixar-se dominar! E a Lei protege o con-
sumidor, mas considera o fabricante o filho querido. De quem terá partido este delí-
rio, digamos, este delírio cuequeiro que até a mim me surpreende?
Há quem queira beatificar-me, eu mereço porque me confesso neste registo hoje
encetado, e merecerei, com certeza, a crucificação. A razão de romper o sagrado sigi-
lo, publicitando a minha verdade, surge apenas para me redimir... Surge para intimi-
dar os devaneadores que esgatanham mortos revelando intimidades alheias; dizem-
se admiradores, amigos, choram elogios e recordações, inventam simpatias, almas
puras, génios, espíritos elevados... Quem fala à porta dos crematórios? Recolhidas
as cinzas continuam a inventar verdades à medida da concorrência. Suportamos
melhor a condenação à morte se acreditarmos no abrangência da dádiva, na benes-
se para mortos e vivos.
Não peço perdão pelo devaneio, ninguém está obrigado a saber quem sou ou,
melhor, quem fui, e quem quiser conhecer a personagem terá de descobri-la: narra-
rei as divagações que entendo necessárias à compreensão dos factos. A dúvida exci-
ta-me! Você está morto? Acompanhe-me! Como é evidente, serei parcial.
Que vejo eu com estes lindos olhos azuis, que um dia serão transplantados por
uma fortuna? (quando esta espécie de confissão póstuma estiver a ser lida, já eles
moram noutras órbitas.) A resposta é uma montra! Simples, até aqui a normalidade
acompanha-me, só o olhar vai além comprovando-me a demência. Será mesmo
minha aquela cueca suja como alvitra aquele cartão escrito por mão desleixada? Ah!
Diz em letra curta que Não É Mas Pode SER. Meu Deus! (Gosto sempre de O evo-
car nas alturas em que, na certa, é um choque também para Ele) Como é que eu não
tinha reparado no outro cartão, menos cartaz, ali, do lado esquerdo?

COMPRE-AS JÁ SUJAS E NÃO TEMA O CORRIMENTO!


GRANDE MODA EM ITÁLIA!

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Não quero acreditar: grande moda em Itália. Itália? Não será coisa de nipónicos?
Sou a única a interrogar-se enfrentando a montra. Serei curiosa? Já houve quem
abrandasse, quem nem sequer olhasse. Os especialistas chamam stresse a este
desapego pelas montras, os especialistas também chamam Ansiedade Erotizada ao
prazer de regressar à própria ansiedade. E depois?
Encontro-me nesta pequena loja que só vende roupa interior (não resisti ao apelo
da cueca) e o empregado brasileiro responde-me que é ótima esta calcinha, tem um
elástico tão perfeito que quase não si dá por ele e não envergonha mesmo caindo de
suja, além do mais é moda em Itália, e também há estampadas... tudo por apenas
algum dinheirinho. Si vendem muito bem, é o que ele diz. Atendendo aos desvarios
sugeridos pelo comissionista, será sensacional ter, e ver, pendurada no candeeiro ou
exposta no chão do quarto, esta cueca-bibelô!
Um brasileiro vendedor de moda italiana em Portugal? Talvez não seja mesmo de
admirar, aliás, nem entendo o porquê desta minha interrogação. Comprei umas
cueca-bibelô. Sou incapaz de abandonar cuecas sujas, de dar pistas para se desven-
dar mistérios; comprei a peça para oferecer - registe-se. E a quem irei ofertar esta
nunca-dantes-usada-linda-cueca com uma porca alada de cores ténues e um amare-
lo provocador no lugar onde tudo assenta?
Penso: verifica-se um desvio acentuado no típico, mas sem implicações patológi-
cas.
Saio da loja - um dado importante dada a firmeza dos passos. Estão quatro pes-
soas a observar a montra, estão de queixos descaídos e braços sobrecarregados por
sacos biodegradáveis cheios de necessidades prioritárias. Olham-se de soslaio e eu
observo-as com a satisfação da consumidora entusiástica acabadinha de assaltar um
super-hiper. Falo alto.
- São giras. Comprei uns pares.
Ouço-me a dar gargalhadinhas. As quatro mulheres miram-me incrédulas porque
(julgo) anunciei com palmas a minha fala. Digo-vos: às vezes a boca não é minha e
as mãos ganham independência, são efémeras as situações, mas sucedem-se.
Tentarei evitar a divulgação de outro lapso. Faço este aviso, porque, como sou
humana, tentarei evitá-los, descobri-los antes que os dedos me traiam.
Continuo a passear por esta augusta rua, ansiando por música. O dito bulício inco-
moda-me, perturba o intermediário de sensações. Perturbar intermediários?
Intolerável!
Entro numa loja com uma montra cheia de aparelhómetros; cá dentro cercam-nos

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empilhados, todavia, se não fosse a algaraviada de gentes conseguiria satisfazer-me
sem impaciência. Há momentos exigentes como este: é uma urgência, quero um por-
tátil, preciso de algo antigo para encarar melhor a minha realidade! Sinto-me uma
dependente em privação. As mãos vão parar de tremer ao tocar no desejado objec-
to.
Transpiro. Tenho suado muito neste Inverno.
A minha melodiosa voz sai desentoada e perco a vez a favor dos excursionistas.
Russos (para mim soviéticos, que não distingo línguas) perguntam se os preços eti-
quetados representam dólares. Momentos antes, o bando de espanhóis arrematara à
dúzia as baratezas empoeiradas, de fabrico em série. E eu fui ficando para trás nesta
confusão de turistas por direito próprio. Atenção: vem aí uma lestista, vem fixada no
meu portátil, parece pronta a arrebatá-lo. Rosno-lhe, rosno também à empregada.
Pago com cartão Devisa e saio em passo de corrida. Friso a mundaneidade - não me
apeteceu mostrar o European Express e é imprescindível entender o facto, nem sem-
pre sou vaidosa. Ou receio denunciar-me?
Na réplica da frente, lojinha antiga com banca na rua, compro três cêdês, à toa,
para me surpreender. Pago em dinheiro, não me apetece ditar códigos. E que surpre-
sa! Um deles é do cançonetista da modinha e os outros de habilidosos artistas do
ruído! Vou oferecer estas antiguidades compactadas: não colecciono músicas, abo-
mino a intenção; há mais de uma década que os artistas do ruído me consomem.
Dispenso mais bulício. Bu-lí-ci-o, ah! como gosto desta palavra. Sim! O gosto...
Preciso de diminuir a intensidade do pensamento. Sinto alguém a saborear tudo o
que vejo, tudo o que penso. Irão pensar que enlouqueci?
E eu penso: É preciso tomar decisões, sorvê-las para tranquilizar.
Estou na Praça da Fogueira, piso a homenagem à pedra terrena que cumpre a fun-
ção de inibir o sobreaquecimento. Lá está Adalberto à espreita. Vem na minha direc-
ção, aproxima-se o meu manequim privado. Correcto, moro em Lisboa, num aparta-
mento inteligente e tenho um motorista lindo, tenho quem me conduza. De outra
maneira, como voltaria a casa depois das noitecas, dos regressos do cosmo ao caos?
Com quem dormiria quando há falhas no câmbio de estímulos? A quem no imediato
ofereceria coisas, existências?
- Adalberto, não imagina o que vi na Baixa. Uns lestistas convencidos de que o
dólar destronou o euro. A empregada disse que eram russos e eu acredito, a vida dela
é o balcão. E comprei umas cuecas-bibelô.
- Para onde vamos?

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- Adalberto! Tanto materialismo! Comprei-lhe uma prenda, um disco, daqueles anti-
gos, compactos... Mas se quer saber, vamos para casa que ainda é tarde.
Este Adalberto não conduz muito bem, mas é lindo! Um belo cabide que convidei
a partilhar um Jaguar sem paralelo, feito de encomenda, o dinheiro é para isso
mesmo, para gastar em mimos. Fica bem na viatura; e move-se como se estivesse a
desfilar, continuamente. É tudo uma questão de embalagem e ele diz que continua a
ser manequim, diz-se fascinado por poder servir Branca, Maria.

Sinta Seu! Diga Meu! Oh! Jaguar...

A frase é uma das minhas filhas, razão porque não poderia deixar de aqui figurar.
Criei-a para o último modelo da Jaguar concebido para o deleite, o selôgane caiu no
goto. Adalberto convenceu-se e, como não tem talento financeiro mas reconhece a
arte, há três meses que oferece préstimos em troca de conduções. Parece satisfeito;
alimenta-me o ego, nunca responde a provocações. Experimentemos:
- Lembra-se dos selôganes? Se-lô-ga-nes de Jaguar...
Reacção? Circulamos silenciosos. Gosto de apreciar este trânsito engarrafado:
gente encurralada em viaturas económicas, que se coça, bisbilhota as narinas com a
cabeça do dedo, enquanto atira um olhar ao semáforo e outro à vizinhança, acaban-
do o gesto na maneta das mudanças já aterro sanitário. Também preciso de retirar
esses obstáculos ao deslizar da coca, todavia sou incapaz de colocá-los onde quer
que seja a não ser em lenços de papel mentolado. E há quem, de mãos suadas no
volante, se mantenha sério, incomodado por timidez, quem seja capaz de distribuir
sorrisos e quem queira devorar a mulheraça do jaguar. O tipo olha-me (para mim ou
para o carro, não se percebe), parece enfeitiçado.
- Quero oferecer umas cuecas àquele tipo. Adalberto, não arranque! Deixe-me ofe-
recê-las ao devorador de jaguares. Esse do bêvê cinzento. Não desligar motores!
Transmito a necessidade de manter o motor ligado e nada mais. Eu própria abro a
janela, já de cabelo ao vento aproximo o embrulho do rosto interrogativo a transbor-
dar de obediência. Deixo o homem de cuecas na mão, sem tempo para entender o
estímulo.
- Amarelo, acelera! O homem esperará o verde. É da espécie habituada a receber,
mas a educação obriga-o a balbuciar desculpas.
- Sim.
- Sim?! O Adalberto apenas sorri sabendo que aquele seu semelhante está em

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ponto morto e não conseguirá engatar à primeira? A surpresa é afectante. Vai gostar
do cêdê que lhe comprei.
O tempo de adaptação compensa. Fecho a janela. Não gosto de compartilhar fal-
sas emoções. Tudo é télico, torna-se necessário exercitar capacidades para obter
prazeres. Acabei de dar a cueca suja que podia ser minha, aliás, ser era... verdadei-
ramente, o par ainda pertence ao European Express, portanto, acabei de ofertar umas
cuecas sujas que o European me ofereceu temporariamente. A temporalidade mere-
ce certos sacrifícios, por exemplo, despenteei a minha cabeleira branca para me sur-
preender com um sorriso ingénuo. Maravilha! Um acender de faróis e o estaciona-
mento abre-se ao residente – habito uma casa inteligente e, para contrabalançar,
arranjei um adorno: Adalberto, ex-jogador de basquete e amante do corpo, não bebe
não fuma... mas fornica, como costuma dizer num sorriso, abanando as mãos. Tem
um carácter genital, tem menos quinze anos do que eu. Dou-lhe o braço, afirmo que
pertence ao meu rol de bens.
- Adalberto, vamos voltear no Centro?
- Sim Marianinha!
- Sabe bem que não gosto desse trato. Marianinha... O meu nome é Maria! Maria
Branca quando a ocasião assim o exige.
Desfilamos entre gente, fria, nada sorridente. São da espécie obcecada. Uns com-
pram, outros olham outros a comprar. Mirem! está ali um gordo, na companhia de
outro, de olhar roubado por uma montra de chocolates: baba-se e é o pai do filho que
puxa o braço ao pai sem conseguir demover a mão paterna da algibeira da gabardi-
na, sem ganhar a ficha que produz um poderoso efeito quando penetra na ranhura de
uma atracção.
Ai, como eles adoram usar gabardinas neste protegido terreno seco!
- Adalberto, será capaz de pôr uma moeda na ranhura para me satisfazer? A crian-
ça ofende os tímpanos, que tome a sua dose.
- Claro, Maria.
Que mais poderia dizer? Quem concebeu estas diversões tem uma deficiência
congénita no pavilhão auditivo. Abafam-se vontades para impor outras e, claro, há
sons que escapam ao controlo. Apesar de tudo, a controladora nacional de sons não
os considera prevaricadores. Os negociantes estão sempre atentos. As crianças
pelam-se por fichas, as crianças são um exército poderoso, felizmente que cada vez
há menos crianças, felizmente que há muitos adultos ainda crianças senão eu teria
demorado o dobro do tempo a enriquecer. As estatísticas dizem que são eles quem

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compra os meus livros...
Entramos, então, no Imprensário. Quedamo-nos junto às canetas, aperto-lhe a
mão esquerda. Ei-los! os menos analfabetos, a vasculhar revistas, a folhear jornais.
Eis um ruído agradável! Eis o prazer da raridade. São raros estes espaços desinfor-
matizados, porém, hoje, não me apetece ouvir e o que necessito de saber está em
casa. Adalberto? adivinho-lhe o desejo de acompanhar a dama.
- Vamos embora! Baixe a cabeça! Não me obrigue a falar alto. Ponha esta caneta
na orelha. Sairemos sem despertar o detector. Quem dorme não merece ser pertur-
bado.
Para casa! Temos de transpor as portas com rapidez. Sair do centro, entrar no
apartamento. Talvez o elevador surja vazio. O psicólogo disse-me tudo sobre a clep-
tolagnia, mas será mesmo uma doença satisfazer o desejo depois de furtar uma
caneta de tinta permanente? É a lei do tudo ou nada. É o vigésimo quarto piso e o
elevador é um senhor ascensor: a lentidão embala os corpos, humedece a pele, cata-
lisa o gozo. Suamos satisfazendo o desejo acelerado, rodopiamos, unidos prolonga-
mos a excitação. Rimo-nos, os dois, Adalberto é um sábio, merece um beijo.
- Estamos a descer. Adalberto...
Só agora reparo na luz que se reacendera. Alguém chama o elevador e nós des-
cemos quase nus. O comando de voz não funciona, regressamos ao ponto de parti-
da: décimo, nono, oitavo... e é sempre nos momentos pertinentes que não se conse-
gue atinar casas com botões. Desisto. Terceiro piso: Adalberto está vermelho, faz-me
lembrar algo. Claro, o painel de comando! Pressiono o botão vermelho e o elevador
imobiliza-se. Ambos respiramos fundo. Ao meu motorista só falta o chapéu; se não lhe
tivesse pedido moderação ele tê-lo-ia como peça querida do seu uniforme, Adalberto
encara a profissão com seriedade, tão profissionalmente que no caso das luvas fui
obrigada a proibir o uso.
É tão bonito vestido como nu. A luz apaga-se. Adalberto acende o isqueiro, em vez
de ordenar ao elevador que suba ao vigésimo-quarto, e eu aproveito a oportunidade
para acender um cigarro. Escusado será dizer que estamos num sobe-e-desce pano-
râmico, igualzinho a tantos outros concebidos em nome da transparência.
- Abotoe a blusa Maria.
- A blusa Maria! A blusa! Quem é que me disse isso uma vez? Não me lembro e
não vou abotoar nada, nem a sua braguilha. Estamos aqui, estamos em casa.
Adalberto, o ingénuo, olha de imediato para a fazenda vincada e ri-se aproveitan-
do para aconchegar o conjunto orgânico que tão bem manobra. Estamos chegando,

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entrando no apartamento. Tenho uma imensidão para fazer. Vou estender o corpo,
exercitar os neurónios para enfrentar o encontro de negócios que me espera.
Mais uma vez Adalberto transporta o pensamento nas cuecas, ou cueca e nunca
calcinhas, como fez questão de me avisar o comissionista da baixa: cueca é pra
homem, calcinha pra sinhora, disse-me. Sou obrigada a ordenar que abra a porta,
depressinha, me deixe de driblar, de tentar encestar.
- Adalberto! Vá, vá lá abaixo devolver a caneta, tenho muito que fazer...
Finalmente só. Viva Domingo! Vou tomar o duche de porta aberta. A Adalberto
ainda recuso essa visão. Desabotoar roupa, arrancá-la ao corpo é um prazer mesmo
quando o feito tem por destino o banho. E a água cheira tão bem que me tenta bebê-
la.
Estou na semana do vernáculo da lavandula stoechas, da família das labíadas. É
assim: todas as segundas-feiras mudo o cheiro da água, só de uma das torneiras, por
vezes gosto dela com a dose maciça de desinfectante oferecida pelo Estado; quando
quero o líquido inodoro lavo-me com água mineral, mas para isso é preciso que a cria-
tividade esteja a escapar-me, por completo, fazendo com que qualquer cheiro me per-
turbe. Mas este cheiro a rosmaninho!... Noutras eras, sabia-se sair da terra perfuma-
da a melhor sementeira. Os velhos sabem e eu, rainha do Sabá, apressar-me-ei a
encontrar Salomão. E se assim for... de que hei-de falar hoje, pela noite fora, rainha?
Belo duche, ainda escorre.
Dominarei o jantar, claro. Temos sempre um objectivo a alcançar: mente-se since-
ramente para gozar algo que gostaríamos de sentir, eu assim minto, ou nunca sinto
se se entender ser essa a verdade. Como actuar, então? Satisfazer um curioso sobre
a mania de roubar pequenas coisas, de possui-las temporariamente? Nada é defini-
tivo, repito: nada é télico! Contar à amiga a escapadela com o seu amigo, seu matri-
mónio? ou vice-versa como a vida? Porquê marcar actos de importância momentâ-
nea, com que objectivo? Por que não coleccionar momentos, momentinhos, verda-
des, mentiras?
Aspiro o corpo no secador de banho. Afinal atravessamos um sábado, ainda não
me tinha apercebido; é sábado, pois. O mundo não pára, são vinte-e-quatro-horas-
por-dia e eu perco (talvez nem por isso) a noção do tempo tal qual a minha vizinha
social-tecnocrata, ex-capitalista que adora perguntar em que ano caiu o muro - o muro
do seu jardim de família, naquele longínquo ano de cheias da margem sul, porque
Berlim sempre foi una, ao contrário do que a levaram a pensar sobre a Soviética. Não!
A conversa da vizinha não me serve, são politiquices de condómino, sem fundamen-

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tação histórica. Talvez seja aconselhável abrir o jogo, ir directa ao assunto e... des-
mistificar o selôgane da pasta dentífrica!

Três Dias Por Semana! TDPS!

Foi uma boa frase. Na verdade, a qualidade do produto não atingia essa amplitu-
de, a sua eficácia ficava-se pela lavagem quatro vezes por semana, mas um estudo
de mercado revelara a tendência três... Os especialistas foram chamados a actuar,
apenas conseguiram atingir uma garantia de três dias e meio de escovadela por
semana. Avançámos com os três, conscientes de que o meio é um mal menor. Nunca
tantos dentes foram lavados por uma só marca de pasta. E os trocadilhos que o povo
teceu à voltada frase...
Que estou eu a ensaiar? Nunca fui de me perder em considerações. Assim, dificil-
mente conseguirei vestir o que distrairá os homens. Terei de arranjar um ouvidor? Ter-
me-ão convencido, esses apelos de vozes doces que por aí proliferam oferecendo
serviços? Detectam-me alguma predisposição para ligar aos ouvintes dos egos, aos
lenitivos da intimidade? Afectar-me-á uma espécie rara de crise existencial?
Encontrar-me-ei psicologicamente comprometida? Estarei dependente do acto de
duvidar?
- Adalberto, é você?
Não podia ser outra pessoa, a entrada de Adalberto, seja a que hora for, faz-se
sempre acompanhar pelos mesmos ruídos: diz que abre a porta de mansinho, para
não me importunar, mas não resiste a fechá-la de forma brusca; avança de calcanha-
res, pousa as chaves a meio da sala, na coluna de alabastro. Sempre. Não quer pri-
var-me de sair de Jaguar, não quer inibir o pensamento da patroa. Invariavelmente,
consegue impedir uma mudança de condutor. Terá medo de me deixar conduzir? por
mim ou pelo Jaguar?
É um verdadeiro motorista. Foi a correr para o quarto. Adalberto desvaira com o
meu cheiro a banho, em qualquer semana, e tenta-me a qualquer hora, sempre com
discrição. Faz-se surdo para me obrigar a espreitá-lo no leito, faz-se esquecido de
que tem à cabeceira um comunicador, embora sem ecrã para evitar trocas suplemen-
tares de privacidades. Também raramente uso essa via, confesso preferir o impacto
visual ou, melhor ainda, o impacte gestual. Mas tenho um compromisso agendado
para o jantar. Ligo a Adalberto anunciando a próxima saída, se quiser mudar de farda
ainda poderá fazê-lo. Gosto aparecer um pouco atrasada.

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Ao aparecer, depois do empregado me despir o casaco, os gémeos Miguel Celsus
e o primo Fernando Cassandra levantam-se em sintonia. Estão os três iguais, de fato
cinzento, corte eclesiástico, camisa branca de colarinhos abotoados e gravata verme-
lha. Constato: André rapou o bigode, ficou a cara chapada do mano Jorge; todos
bebem Porto seco. Dou um beijo a cada um e sento-me, desculpando-me pelo atra-
so, sem necessidade de o fazer. Eles sorriem, murmurando interjeições. Tiro da mala
a minha cigarreira prateada, mal pouso o cigarro nos lábios e já os três homens se
estendem flamejantes. Trocando risos, discutimos a próxima campanha publicitária.
Explico-lhes a ideia, uma ideia que acabou de me assaltar. Exponho os traços gerais.
Noto alguma surpresa, estranho, entendemo-nos bem tratando de negócios. Têm
confiado no meu indiscutível talento. Conhece-los bem, André está triste, mostra-se
convencido à partida, o seu gémeo convence-se, Cassandra demora, ganha tempo,
gosta de fazer esperar outras espécies de animais. Explico a necessidade de chegar
a uma conclusão, aliás, que eles cheguem a alguma conclusão. A campanha na altu-
ra da última privatização resultara num êxito, devo lembrá-lo.

O Pai a seus Filhos!

Anos de entrega a uma táctica de recuperação do banco renacionalizado num


período revolucionário. Há anos, a família concretizou o objectivo, há anos saboreia
a reconquista da confiança dos deuses. E depois surgiu a frase de relançamento, a
aposta num valor. Fidelizar clientes, aliciar outros.

O Pai Protege-nos!

Gosto de criar sem limitações, não propriamente sem prazos ou moralidades,


desde que seja eu a definir o paraíso e o inferno. Gosto de espaço para o poder dis-
pensar. Não me importo se crio se recrio, gozo. E que gozo me dá.
Penso: exceptuar é parte integrante de qualquer regulamento.
- Então acabaram-se as dúvidas... Avançamos, Pai e Branca?!
- Não desperdiçará o seu precioso tempo.
Responde-me o mano Jorge, o negociante, o mano André, o erótico, bamboleia a
cabeça, e Cassandra mantém-se mudo, o marialva! Todos querem manter o império.
O negociante, o erótico e o marialva: a combinação perfeita que aniquilará o império.
Silêncio à mesa. Aproxima-se a proprietária do restaurante com um pequeno ecrã

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na mão, mostra-nos o resultado de nos ter filmado, já com os cortes imprescindíveis
a um excelente anúncio. Garante-nos: se manifestarmos desacordo, destruirá, ali
mesmo, as imagens. Acredita, por nos conhecer a fama, que não recusaremos tão
importante valorização do restaurante, onde preferimos jantar. Merece, é verdade.
Iríamos negar aquela prática esporádica do Pape-a-Louca? Beneficiemos também da
oportunidade. A vida alimenta-se de contrapartidas.

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Quando a mulher aparece, depois de deixar que o empregado lhe dispa o casaco
e leve o marta sem se chegar a ver para onde, os três homens levantam-se em sin-
tonia.
Média de idades: trinta e cinco anos. Estão iguais, de fato cinzento, camisa bran-
ca de colarinhos abotoados e gravata vermelho-sangue; de cabelo castanho e olhos
verdes.
A mulher chegara ligeiramente atrasada e eles não resistiram a um aperitivo.
Colada ao corpo traz a cor das gravatas; é um vestido aveludado, franzido nos
ombros descaídos.
Dá um beijo fugidio a cada um e senta-se.
Os homens riem-se, abanando a cabeça. Com a mão direita afasta da fonte uma
madeixa loura, com a esquerda tira da mala a cigarreira, pequena, prateada. Ainda
não colocou nos lábios carnudos, o cigarro sem filtro e já os homens flamejantes
estendem isqueiros baços.
Jantam num ápice. Os pratos apresentam-se, apetitosos, bem decorados. São as
cores quentes a marcar o ritmo.
Entre troca de risos, não interessa o que comem, não interessa o que dizem, ape-
nas trocam monossílabos.
Gozam o manjar, numa sala de ar renovado, decorada aos cantos com plantas e
quadros de estampas imitando cartazes de espectáculos de anos idos - são árvores
da borracha a crescer por de trás de molduras de madeira, molduras amarelas.
Raridades.

Pape-a-Louca e deslumbre-se ao jantar!

O filme vai passar na fachada do restaurante, substituiremos outros afamados

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quaisquer. Nada nos importa a não ser um outro negócio que terá de ficar concluído
durante o jantar. Só André retorquiu algo, tipo: não me parece muito correcto...
Regressamos ao que interessa, conversamos mais um pouco. É importante que o B
do P mantenha o carisma. Banco do Pai, um bom nome! Eles, os Miguel Celsus,
jamais tinham pensado em mudá-lo. Sempre fora do Pai, o banco - assim reza a his-
tória da família. Eu sei ter sido de outros quando PAI significava Prontos A Investir e
mais tarde Património Alternativo Internacional (a última mudança, já com o pai dos
manos, foi para Património Alternativo Intermundial). Agora evitam-se as maiúsculas,
quer-se transmitir apenas o peso do patriarca.
Os homens explanam palpites sem interesse. Demonstrei saber os pormenores da
próxima campanha publicitária e os sócios estão disso convencidos, os sócios julgam
saber que eu sei, só não sabem o que sei de facto e a família é conservadora, como
convém a qualquer agregado. Eles entenderam a estrutura linear, nada mais se dis-
cutirá para não agravar discordâncias latentes, confiam em mim, não precisavam de
dizer, mas fazem questão de repetir o voto de confiança. Seria indelicadeza da sua
parte perguntar já os pormenores, conhecendo tão bem o modo de criar da minha
ilustre figura. Saberão tudo quando a campanha estiver pronta, obviamente, estão
tranquilos, respeitam os hábitos.
Fernando não gosta de esperar sentado e aguarda ao balcão o registo da factura.
Jorge e André acompanham-me em direcção à porta. André consegue roubar ao
empregado o privilégio de me vestir o casaco, envolvendo-se, envolvendo-me. Jorge
é menos excitante, mais tradicional, posicionaria o marta conforme fazem os cavalhei-
ros. Ambos me cortejam, chegam a desorientar-me o ego. Faço-me desentendida,
dando simpatia, lançando boquinhas.
O Fernandinho chegou, podemos partir. Adalberto espera-me junto à porta do carro
já aberta.
- Boa noite, meus senhores! Darei notícias.
- Boaa noitee!
- Boa noite, Maria...
André adora saborear cada letra do meu nome, o Jorge não. São pormenores que
me ajudam a distinguir bem os irmãos, mesmo sem o bigode de André. André seduz,
Jorge só raciocina. Tão iguais e tão diferentes, ricas biografias, uma história de coe-
lhinhos da mesma ninhada - dinheiro, acção, sexo! Corta! Nada é tão simples assim,
mas tudo faz parte. De que falo? Da vida... O Jaguar arranca. Estou farta destes
pegajosos manos catitas que arranjam cassandras para se controlar. Quero lá saber!

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Irei pensar na próxima campanha do Pai? Desafiaram-me.... eu disse que já sabia.
Ainda nada vislumbrei. Preciso de mergulhar no sonho! Sem dúvida! A solicitação
é infernal, para pensarmos em percentagens, ordens, prazos... na facilidade de tudo
possuir com dinheiro temporário, de dispormos daquilo que não possuímos. Todos
adoramos ser aliciados, bom, alguns adoram, há quem resista. A realidade está na
cadeia dos factos, apalpemos os elos! Trabalhemos em rede.
Registo: interessar as elites, atraindo os verdadeiros endinheirados, por conse-
quência, toda a mediania, onde são raros os desligados do hábito de ter aquilo que
não conseguem manter.
Estou deprimida. Que pensará Adalberto?
- Quer ir ao Livre Arbítrio, Maria?
- Não sei. Espreitemos o cais.
Entristeço, estou a ser atacada por uma forte nostalgia sem base científica. Com
Adalberto dispenso as aparências, sou irascível, não disfarço ódios nem extremas
paixões. Ele nada diz, claro. Deslizamos por luzes, entre banalidades. Sinto-me amo-
lecer. É um grande dispêndio de energia, isto de albergar uma personalidade múlti-
pla... Estou a enlouquecer e nunca me senti tão lúcida. E o rio que passa na minha
Lisboa encanta-me, sinto-me uma alfacinha desenraizada, adoro o rio que lambe a
minha cidade, como adoram apregoar. Raramente (gosto desta também palavra, defi-
ne-me) disponibilizo tempo para a apreciar, mas sei que a adoro e pra mim é a capi-
tal.
Passamos o cais, sem nos impressionarmos com o fervilhar do desfruto proibido,
igual na sua essência, solução alcoólica concentrada no óleo essencial a um bom
porto. A pretextos infundados, quiseram mudar a área, retirar-lhe a protecção conce-
dida aos bairros antigos. Cada bar no seu lugar! Reconhecem-se em qualquer filma-
gem, e continua tudo igual graças aos destemidos marinheiros de outros mundos que
resolvem enfrentar estes nossos mares saturados e nos sustentam o cais. Os espa-
ços interiores renovaram-se, renovaram-se e regressaram à velha receita, abrindo a
porta a um novo ciclo.
Gritaria. Oiço berros.
Quem pergunta quem sou eu? Veio do lado de fora ou de Adalberto que me guia
pelo cais? Também se soubesse, também não quereria saber. Tento discernir os dis-
túrbios da minha personalidade com a ajuda da narcoterapia, utilizando as passagens
nasais. Sou, simplesmente, uma pessoa de sucesso, apreciando a possessão do
êxito. São efémeras as situações em que penso o contrário.

16
Adalberto sabe do meu gosto pela beira-rio. Parar o carro de frente, apagar faróis,
enfrentar a solidão...
- Pára ali. Onde está ninguém. Quero cheirar!
A narina direita sente dificuldade em aspirar, preparo-a tapando a esquerda, e
Adalberto - um bem precioso - prepara as linhas, brilhantes carris para percorrer a
acelerar. E controla, controla o desenvolvimento da excitação... Nunca esquecerei
Adalberto, não mais esquecerei o melhor motorista que possui, até ontem.
Mas que vejo eu? Um golfinho no Tejo? Um mamífero no Tagus? Mas a-coca-não-
ína-assim, se atendermos à normalidade... Quero perguntar a Adalberto se vê o que
vejo e desisto. Ele nunca me contrariará. E poderá ser uma alucinação, às vezes alu-
cino. Em caso de estrita necessidade, o Adalberto responderá? Antecipa-se!?
- Há gente no Tejo.
- Que diz Adalberto?
- Digo que está alguém nas águas...
- Ora! É um golfinho!
- Pode ser... daqui parece uma pessoa.
- Muito bem! Vamos embora. Chega de cansaços por hoje.
Adalberto fica-se pela repetição do Vamos. Eu completo com um Para-casa-sim!
Adalberto, sereno, manobra o volante. Rectifico:
- Mas vamos pelo sobe-e-desce do Rato.
Com este desejo do Rato, o homem tem obrigação de ficar a saber que quero
ir ao Livre Arbítrio! Quando passarmos à porta vai abrandar e eu vou ordenar que pare
e me chame passadas duas horas bem medidas. Adoro ruas sobe-e-desce. Quando
se entra no Livre Arbítrio é difícil seguir o racionalismo, atravessamo-nos no caminho
da racionalização. O espaço está enevoado, preenchido por corpos femininos, mas-
culinos, híbridos. Algo no ar atordoa. O som é ácido! O cheiro é adocicado, os corpos
salgados e a bebida amarga. Logo à entrada, um belo jovem de traje branco vigia a
continuidade da queima de incenso. Os perfumes misturam-se. Tudo se concentra
nos corpos. É obrigatório deixarmos os casacos no menino do bengaleiro sob pena
de nos serem retirados, a qualquer instante, pelos funcionários dos serviços adminis-
trativos da Autoridade que à noite zelam pela segurança local. Hoje em dia, há ordem
na desordem.
Não quero acreditar! Nunca quero acreditar e acabo por consentir.
É de André a primeira cara no meu olhar. Belo André, mas a Maria não lhe apete-
cia vê-lo, para já. Pretendia desfilar, sorver fragrâncias, deixar o nariz arrebatar odo-

17
res, destrinçá-los. André cheirava a violeta, ao jantar...
- Viva Maria.
- Oh André, surpreendeste-me!
Aproximamos os rostos, fingimos beijar as faces, cumprindo o estabelecido por
estudiosos dos bons costumes. Preferíamos ter surpreendido as bocas. André, o eró-
tico, continua excitante, mesmo cheirando a bebida. Pergunta se quero beber.
Apetece-me, sim, e logo ele tenta infiltrar-se entre as dezenas de bebedores disfar-
çados de dançarinos, que mal deixam vislumbrar a saída dos copos. Raramente me
desloco ao balcão para satisfazer um gosto, aproximo-me de André para labiar:
- Vol-to-já-já!
Aceno (até parece que vou a um lugar previamente determinado), invisto o corpo
em busca de um choque de emoções, dou a volta ao interior, espreito o jardim: caras
conhecidas, nada apetitosas, embrenhadas em metafísicas pouco convincentes.
Sempre as mesmas personagens de papéis decorados... pelo menos André diverte-
me, com as suas extravagâncias, e deve esperar-me com duas bebidas.
Regresso ao ponto de partida.
- Sou bom de mais para existir...
De voz firme, André balança o meu copo. A neurose do ego assalta-o, ao jantar
detectara-lhe algum transtorno... Digo-lhe que me parece confuso, algo cansado, que
mesmo um bom conhaque desfaz o fígado.
- Apetecia-me deitar tudo pela janela e... Fora! Não ligar, ir! Nada a prender-me a
esta terra traiçoeira. Não parar, seguir! Transpor margens, desfazer todas as pontes
e... prosseguir. Não chorar, sorrir!
- André, isso é patético...
- Então, longe, nas profundezas do meu ser, pegava numa flor e... ESQUECIA-A!
- André, engasgas-me. Não ficaria pior se me dissesses que sofres de uma doen-
ça incurável.
- Se eu quisesse partir, deixavas-me ir? Esquecer-te, assim, como quem atira uma
flor ao rio?
Apanha-me desprevenida, nem sei se brinca se me atormenta. Confesso: nunca vi
um Miguel Celsus tão debilitado. Palavras enganosas? Desconheço se a apresenta-
ção de um ego confundido faz parte da sua actual estratégia de engate, penso que
não, apesar de conhecer alguns casos de rendibilidade, casos raros. Ninguém quer
um ego amolecido. E a nós, os inteligentes, irrita-nos a mentira fácil.
Digo: Os hábitos são difíceis de abandonar, os vícios, esses, não nos largam.

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- Rico chavão!
André, o libidinoso, assim me habituou a aceitá-lo, quase a amá-lo... desilude-me.
- É verdade, digo-te. Sabes? Desde que acordei contigo, nunca mais fui capaz de
me entreter... com as mulheres que me atraem, que atraio. E soubeste de muitas. Não
as evito e envergonho-me quando me desculpam a impotência. Transformaste-me
numa obsessão, impossível de saciar.
- Eu? Maria? Ouves o que digo?
- Conclui afinal não te amar. Por ti julguei-me apaixonado. Teu namorado... Tudo
mentira! Destruíste a minha confiança no erotismo, destruíste a minha dama.
Castraste-me, sem me impedires de prosseguir com leviandade. Nunca fui nada, nem
por ti, nem por ninguém.
- André, estás bêbado...
- Farto! Cansado de me verem bonito, menino rico e extravagante. Resolvi-me e
sinto-me descontraído, repousado. Não interessa o que irei encontrar. Farto, estou de
saber o que me espera. Não te odeio, apenas te descobri. Sei quem és, quem sou...
Amo outro, afinal!
- Outro? Pára André! O assunto assume-se demasiado sério. Tens a certeza de
quereres... falar-me dele? Como deverei entender esse teu... desabafo?
Tenho frio. Devo gritar, no Livre Arbítrio, que gosto dele porque me diverte? que jul-
gava a sua leviandade um pacto assumido e que ele fosse o verdadeiro dono daque-
le peculiar vozeirão? que me lembro de com ele ter-me deitado? que todos deseja-
mos atenções mesmo sem nos esperarem grandes divagações? que adoro ser um
génio imbecil?
Penso: Nem sempre o registo se assume, mas a sistematização corrompe-nos.
- Maria-Maria! Vem comigo!
- Mas... já? Talvez um dia...
- Só esta noite.
André aperta-me o braço e os lábios cerram-se. O ritmo entontece-nos.
Desconheço como ainda aguento esta disforia. Duvido da probabilidade de envelhe-
cermos juntos. Dúvidas. Quarenta anos. Qua-ren-ta! Eia! E há um homem que me
aperta o braço sem eu querer. Tento evitar aquilo que me tenta.. Pura lógica de auto-
censura.
- André, ainda bebo!
- Traz o copo. Vamos!
Puxa-me pelo braço, a mim, inimiga figadal dos arrastadores de humanos.

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Desprendo-me com um ANDRÉÉÉ!!!!!. Passo-lhe a mão pela cara, suavemente, digo-
lhe ir à casa de banho, voltar-já-já. O trajecto até ao extremo contrário é conturbado,
o Livre Arbítrio enche-se de corpos descoordenados. O Livre Arbítrio descoordena-
nos por uma questão de sobrevivência. Vem-se uma vez e é-se fiel (coisa estranha e
doce) impossível passar de outra maneira certas horas da noite – esta é uma realida-
de. Empenho-me no reencontro. Apenas quero observar André, de mansinho. Talvez
vá com ele, talvez não, deste André guardo encantamentos. Perdi-o. Onde se encon-
trará? À entrada, no menineiro? Mexo-me bem. Estou de copo na mão, no bengalei-
ro, e André não. Dou o código ao menino, recebo o casaco. Encubro, com a falsa
pele, o copo prateado do Livre Arbítrio.
Saio.
André também não está na rua. Adalberto não falha. O Jaguar espera-me à porta.
É único este Adalberto.
- Vamos embora. Viu algum Miguel Celsus? Viu alguém?
- Não Maria, vi ninguém.
- Hum... responde-me à letra, imita-me? Então, irei sentada a seu lado.
- Como queira, Maria.
- Roubei um copo do Livre Arbítrio. Guie, para casa à velocidade do som!
- Sim Maria... Desculpe, Maria, mas terei de devolver esse Livre Arbítrio? Ainda
hoje?
- Adalberto! Beija-me!
Cumpridor, sabe bem desenvolver as ordens recebidas, sem exacerbar.
Classificação: Excelente; óptimo funcionário, muito dedicado. O copo foge pelo chão,
os corpos lançam-se pelos bancos, algures entre o Livre Arbítrio e a minha cama, tal-
vez estejamos no largo do cauteleiro, parece-me ver o chapéu do homem de bronze.
Quanto mais evoluo mais me seduz o acaso matemático, basquetebolistas dinâmicos
com a noção exacta dos movimentos precisos a uma boa jogada. Cesto!
Em casa dormirei, estou perto.
Acordo, esquecida de como encetei o dia. Reconheço estar em casa, na minha
cama... desconheço o paradeiro da minha almofada. Sento-me a custo, maldita dor
de cabeça, descubro uma nódoa negra na perna esquerda. Estou despida. Deito-me
nua, de pele perfumada, até aqui nada difere do habitual, mas tanta confusão na
minha cabeça... Necessito de um revigorante, sei que nem a efervescência de duas
pastilhas vai conseguir pôr fim à ressaca das conveniências nocturnas.
Odeio acordar com o dinamismo fabricado via rádio, odeio ouvir besouros. Odeio

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acordar, portanto, começo por avivar o espírito, desperto-me inspirando! Vou recor-
dando a noite: vi um golfinho no Tagus e perdi o André no Livre Arbítrio. Afinal que fiz
desta madrugada? Não acredito! A rádio fala sobre um corpo a boiar no rio, fala dos
gémeos Miguel Celsus...
- Adalberto!!!
Onde é que andará o basquetebolista? logo desaparece quando preciso de uma
confirmação. Desperta, julgo o golfinho um milagre. As promessas são ofertas de pro-
babilidades, as probabilidades são verosimilhanças: parecem realidades, parecem...
Talvez um dia, o rio volte a permitir ver os saltos dos mamíferos, já outros nisso acre-
ditaram, talvez tenha visto um golfinho. Calar-me-ei, nada de trunfos gratuitos para os
ecopolíticos.
Adalberto bate à porta, sussurrando marias, entra de bandeja. Nunca o despedirei,
sabe satisfazer-me ao despertar: sussurros, torradas e café.
- Bom dia! Já ouviu as notícias?
Adalberto falou ao pousar o tabuleiro?
- Acabei de ouvir a rádio Aélisboa. Foi finalmente constituída a comunidade econó-
mica soviética; foi inaugurada uma exposição para relembrar Berlim, milhares de pes-
soas participaram com pedaços; o oriente continua fascinante, enraivecido; o euro flu-
tua; há guerrinhas por aí. Nada de novo...
- E disseram que apareceu um corpo no Tejo, e disseram que poderá ser um dos
gémeos Miguel Celsus. Não escutou?
- Escutei, sim. Não seja indelicado. É preciso confirmar. Ontem, insistiu ter tido uma
visão diferente da minha...
- Pareceu-me uma pessoa, a nadar, a meio do rio.
- A nadar naquelas águas? Não podia ser André. Estive com ele no Livre Arbítrio.
- Coincidências, Maria.
Adalberto o protótipo, pensa que o acaso tudo explica. Vive feliz, sem necessida-
des exuberantes. Entende de tudo. Deliciosamente empírico, portanto, raro.
Acende-se a luz vermelha do comunicador! Uma urgência. Peço a Adalberto que
atenda a urgência na sala-escritório - não é um escritório, não é uma sala, é um espa-
ço à medida da minha personalidade.
Gosto de me levantar enquanto dura a última torrada. Uma da tarde, ainda é cedo.
Hoje o escritório será sala, não trabalharei. Mas não desligarei o sistema, a inteligên-
cia caseira que controla ligações, comunicadores, intercomunicadores, portas, máqui-
nas, brrr! Irei espairecer à beira-rio, desprovida de qualquer comunicador, sem o

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Adalberto que já está à espreita na porta do quarto.
- É o senhor Miguel Celsus. Atende aqui?
- Pensaste, por acaso, estar eu disponível para quem quer que fosse?
- A urgência do senhor convenceu-me. Não sei se é André se Jorge...
São todos senhores para Adalberto. Desculpa-se com a notícia da manhã, obriga-
me a falar, a escutar a voz grossa, desprovida de qualquer entoação sentimental,
falando sobre o corpo de André. A voz grossa lembra-me André, são quase iguais.
Fala-me neste momento quem reconheceu o morto e conseguiu anular a autópsia. O
funeral é às seis da tarde. A moda dos horários vespertinos impõe-se. Mas ele não
me contactou apenas para demonstrar saber de cor a cartilha, quer informar-me
sobre o funeral, assegurar que o negócio continua, perguntar-me se tinha visto o
irmão, algures, de madrugada, no Livre Arbítrio, ao pé do rio... Disse-me: não mais vi
André desde a hora do jantar, desde que o ouvi murmurar ao seu ouvido o convite
para o Livre Arbítrio; talvez a Maria o tenha encontrado ao longo da noite. Ele sabe
do meu apetite por noitecas, agitações... Talvez me tivesse cruzado com ele, sabe...
Avisa-me de que o corpo foi descoberto pelas quatro da manhã, disso não existem
dúvidas.
- Impossível! A essas horas eu estava com André a coberto do Livre Arbítrio. Não
sei bem a hora, mas palpita-me que fossem essas. Quatro.
Não pode ser! Disso não existem dúvidas, não há que criá-las. Repete-se três
vezes para me aconselhar a pensar: PENSE BEM, quando o pessoal do porto desco-
briu o cadáver o meu irmão estava morto há algumas horas! E relembra serem as
quatro da manhã, uma garantia médica registada na certidão de óbito. Não consigo
interrompê-lo, também nem sequer tentei. O alerta partira de uma voz masculina, um
denunciante anónimo utilizara as telecomunicações, como se fosse possível manter
o anonimato... Como se tudo isto fizesse parte da realidade. Preciso de repensar
como passo as horas de lazer.
- Se eu tenho a certeza do que digo? André? Jorge, ainda estou a acordar. Deixe-
se de ironias, claro que estava ébria.
Jorge pede desculpa, pede mais um favor: se me importo de ir esclarecer a
Autoridade, devo ter sido a última pessoa a vê-lo; providenciou para não me incomo-
darem muito, conforta-me com a palavra pró-forma.
Decido-me: vou à polícia, quem lá não vai uma vez, pelo menos?
Apareço nos Restauradores. Olham-me surpresos, tão admirados que ninguém
pergunta ao que venho. Desço às profundezas da super-esquadra. Dirijo-me a uma

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porosidade na vedação transparente que guincha um Queira Aguardar. Levanta-se
um rapaz fardado à Citadino – a polícia mais próxima do cidadão -, abre a porta do
cubículo e esgueira-se por um imenso corredor de paredes nuas, com um banco cor-
rido, bem centrado, encoberto por miudagem mal cheirosa. Pensava que fossem mais
evoluída esta classe de citadinos, são parentes pobres.
- Foi chamar o comandante.
Oiço murmurar um raso, entre o arrastar das botas enlameadas pela sala de espe-
ra, onde só eu destoo vestida de amarelo, a cor que eu entendo que uma pessoa
deve vestir quando se apresenta à Autoridade.
O Queira Aguardar regressa com um sorriso duvidoso, abre-me uma porta na
vedação transparente, leva-me por outro corredor de paredes nuas até à porta fecha-
da do seu superior. No gabinete, uma pequena janela, na penumbra uma farda a
rebentar de gordura. Repito onde vi André, quando, onde, que o meu motorista sabe,
pode testemunhar, deitar-me o fogo (oh! escapou-me esta frase bélica! o corpo de
Adalberto...). O polícia de preto não raciocina, não se mostra muito indelicado, abana
a cabeça, acha pouco credível Toda a História (Todinha) e Não Vale a Pena ocultar-
lhe qualquer pormenor, diz-me ele. Acredita que nada tenho a esconder, reconhece
vagamente o que a senhora doutorada representa, conhece o nome Miguel Celsus, e
pergunta-me pela carta de condução, com o mesmo despropósito com que gargalhou
ao achar estranha a história de ter um motorista/mordomo/amparo. Não espera pela
carta, aconselha-me a pensar melhor naquilo que pretendo impingir: a Autoridade
Especializada há-de querer ouvir-me, com toda a certeza, e a Autoridade
Especializada não se interessa por histórias infantis; só por si, claro, não se levanta-
riam quaisquer problemas, conhece bem Jorge Miguel Celsus...
Os Citadinos são conselheiros delicados, bem humorados - assim os vendi a pedi-
do do Estado, uma campanha como qualquer outra.
Penso: somos uns vendilhões. Desdenho templos.
Farto-me do ar enfadado deste graduado superior, comandante de esquadra com
aspecto de taxista nas horas vagas.
- Boa-tarde, citadino-chefe.
- Boa-tarde, escritora Maria... publicitária.
E fica à procura do apelido nos papéis que se confundem com o tampo da secre-
tária. É tudo tão transparente... Tonto do Citadino. Tonto! A minha história... aconse-
lhar-me a fabricar uma história por achar a verdadeira pouco credível. Acusa-me, de
forma velada, de ter concebido uma lengalenga, de propósito, tal como julga que crio

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uma história infantil ou um anúncio... Vi André, sim! Terei sido a última pessoa a vê-
lo, talvez. Para mim, André não morreu, pelo menos à hora que parece dar jeito a
todos. Alguém nadava de madrugada, sem medos, aí pelas... Não sei, o problema é
que não sei. Foi quando estava à beira-rio a manobrar a tensão. Não podia ser André,
mas a Autoridade diz que sim. Adalberto sabe, claro, se for caso disso, o meu moto-
rista virá depor. Todos esperamos que não se atinja esse extremo, na certa, um incó-
modo desnecessário. Estamos de acordo, e eu ao dispor da Autoridade, sem dúvida.
Saio da esquadra sem receber continências. Adalberto deve estar algures por aí.
- Adalberto! Leve-me daqui...
- É pra já!
O temor de Adalberto à Autoridade, faz-me desconfiar do mundo do desporto e do
mundo da moda. Interessa-me pouco o passado de Adalberto, este homem habita no
meu presente.
Circulamos, silenciosos.
O meu nome é Maria. Sou virgem nascida a 28. De que ano sou? Em que ano
estou? Importam as datas quando a obra nos imortaliza? Petulância? Apenas a con-
cretização de uma vontade infantil.
- Naaaaão! Naaaaaão!
Acabo de gritar à janela do Jaguar. O semáforo avariou. Aparentemente as reac-
ções contêm-se. O semáforo afinal funciona, nunca deixou de controlar, se calhar
está apenas mais lento, com a óptica cansada. Muito calmo permanece este mar de
veículos. A imobilidade permite concluir que nenhum condutor, nem sequer um, me
desculpou o grito, sou alvo de muitos olhares. Continuamos encurralados. É proibido
gritar? Há quem me olhe interrogativo, há quem atire ares de zangado. A inveja sub-
verte os valores e alimenta-os. Um condutor queixou-se do grito e o Citadino aproxi-
ma-se. Adalberto não espera pelo agente da Autoridade, aproveita a deslocação dos
chicos-espertos e zarpa avenida acima. A ida e a fuga à polícia não conseguem abor-
recer-me, André sim.
Contornamos o Marquês, subimos três pisos de rua e atingimos o Moreiredo, a
acelerar, tudo se processa aceleradamente. Já em casa visto-me para a Basílica
Principal, para a cremação no cemitério Parque-jardim, para os funestadores que
nunca distinguiram os gémeos e sempre hão-de confundi-los. Enterrarão André,
como enterrariam o mano Jorge ou mesmo outro qualquer, é-lhes igual, é-lhes impos-
ta esta movimentação e a moralidade decalcada, a obrigação de conviver impõe há
séculos a manifestação do sofrimento, na essência a teatralização.

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Penso: Trata-se de uma fixação tradicional. Libertar Barrabaz para não privar
Cristo da ressurreição.
Haverá quem sofra, aqui no templo católico em que André nunca admitiria pene-
trar. Eu (amava?) gostava de André, não me atraia somente aquele físico esbelto,
senão teria aceite as ofertas do gémeo; não sentia somente uma atracção, achava
graça à globalização da personagem. Nem sempre tinha paciência para o aturar,
quando em presença de ambos os Celsus, pior. Mas André entoava de maneira pecu-
liar a palavra Maria e comungávamos, sobretudo, do asco ao aborrecível.
E estas duas aqui pertinho, a meu lado na fila do templo. Benzem-se às ordens
do sacerdote, aproveitando a missa, apreciando o gémeo sobrevivente à luz do
morto. Somos fatos adequados ao momento solene que assinala a ida da terra para
a terra. Somos muitos, compenetrados na nossa missão de carpideiras. E oiço as
duas mulheres imaginando como arranjar substituto para o rebuliço, uma menos dis-
creta que a outra quase impõe as vozes à leitura da cartilha: a morena de chapéu de
renda preta bichana ao ouvido da outra, no momento preciso, quando o mano amea-
ça recitar em memória do irmão.
Oh ironia, rainha das figuras! O tempo é real. Ouçam o que oiço.
O Mano Jorge, a Morena de Chapéu e a Outra.
A morena de chapéu – Era linda aquela membrana, aquele corpo másculo e titâni-
co, como é o de...
O mano – Sabemos bem que o corpo é como uma habitação onde vivemos, que
nos reveste. E que quando estiver destruído e morrer, teremos no céu...
A morena de chapéu – A sua beleza, de tal forma apetitosa, que não nos cansa-
mos de olhar, voltar a saboreá-la quando? Resta-nos um para...
A outra – Sim. Cale-se.
O mano – ...que viverá eternamente, preparado por Deus e...
A morena de chapéu – ...até os dedos dos pés são bem feitos, de cabeças redon-
dinhas e unhas bem cortadas, gostosos...
A outra – Já chega! Oh!
O mano – ...e é justamente por isso que ficamos cada vez mais cansados do corpo,
de...
A morena de chapéu – ...ficar louca, desvairada! Ao olhar perde-se a visão, ao ouvir
aquela voz perde-se a razão. Fala com as mãos, aquelas delícias perfeitas, escultu-
rais condizentes com o todo o resto, com a excitação de...
A outra – Atão!?

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O mano – ...enquanto vivemos neste corpo terreno sentimo-nos oprimidos e carre-
gados com...
A morena de chapéu – ...saltar-lhe para os braços, cada membro lindo, esbelto,
confortável...
A outra – Basta!
O mano – ...que quer que façamos ou sejamos é o resultado do amor de Cristo,
que pressiona...
A morena de chapéu - ...dos braços, fixávamos-lhes os olhos, olhos verdes, infla-
mados, convidativos, espelhados, tristes.
O mano - ...e se ele morreu por todos...
A outra - Basta! Basta! Então?
A morena de chapéu - Não. A tristeza é quente. Nos braços, importam os olhos? e
o nariz? ser ou não aquilino?
O mano – ...agora não avaliamos mais as pessoas por aquilo que elas possam
parecer...
A outra – Será preciso implorar que pares?
A morena de chapéu – O apêndice é um factor secundário. Depende. Sim! Mas
nos braços, eis aos olhos o inevitável: preto e farfalhudo, difícil não se notar.
A outra – Tinha-o rapado, há muito...
A morena de chapéu – Teve-o! De bom corte, charmoso. Um encanto secreto a tor-
near o lábio superior, de morder e chorar. Mais rubro, era, notava-se o inferior, mesmo
quando escondia os dentes selectos, sempre...
O mano – ...é obra de Deus...
A outra – Chega! Cala-te! Domina...
A morena de chapéu – A boca ainda mais rubra e apetitosa... Não fora às vezes o
álcool... Uma boa cama, até...
O mano – ...confiou-nos a missão de anunciar essa reconciliação com...
A outra – ...a ultrapassar os limites do bom senso.
A morena de chapéu – Ora, tu própria me despertaste o apetite ao descrevê-lo.
Que digo agora? O que relataste e o que eu provei. O Jorge será igual? Pelo menos
parece...
O mano – ...exortamos a que não deixem que a sua bondade vos seja anunciada
em vão!
- Acabou a missa!
Digo eu! Finalmente o silêncio. As morenas obrigaram-me a um esforço suplemen-

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tar. Queria apreciar o Jorge, descobrir-lhe o sofrimento, desvendar o futuro, ver André.
Pura curiosidade, a mesma culpada do esforço feito em prol da audição do bichanar.
Prol! Também gosto desta, não vou prosseguir, recuso-me a acompanhar-lhe as cin-
zas até à casa da família. Tenho um compromisso com outra espécie de Miguel
Celsus, se bem o conheço não irá adiar o nosso jantar, as emoções não devem inter-
ferir nos negócios.
- Adeus, até prá semana.
Entrei na semana da odorata, da família das violáceas. Uma linha mais e escapa-
va à omissão dos últimos dias – uma semana a lavar o meu físico com água mineral
e nada de problemas profissionais. Sete dias para ignorar. Lembrarei apenas
Adalberto, o seu nome. Assalta-me, o meu lado ternurento?
São zero horas e descubro-me dois pisos abaixo do meu. Estou na casa dos
Zacarias Albuquerque. Abandonamos a majestosa mesa de pé-de-galo. Sentamo-nos
nos sofás moles, brancos de pele. Sentimo-nos instalados, confortáveis. Quantos
somos? Quem somos? Importará saber? Jantámos, sim. Manjámos é a palavra mais
adequada. Dantes, sentávamo-nos em bancos de cozinha, quatro pés ligados por
uma tábua, amparávamos os braços no balcão frio; confrontávamos teorias, cruzáva-
mos experiências; chegávamos mesmo à irreverência, à violência, e os bancos caiam
ao erguermo-nos exaltando a utopia.
Eu explico, somos os mesmos quatro: eu, Maria Branca, o Jacinto Silva Crista, o
Onofre Zacarias Albuquerque e a Constança Zacarias Albuquerque. Hoje, por tradi-
ção, trocamos banalidades. Ba-na-li-da-des. Ba-nal-ida-des. Velha mania a minha de
silabar. São engraçadas, as sílabas, mesmo sendo difícil combiná-las.
Penso: Temos conhecimento da tendência para a acção, praticamos a tendência
para a aquiescência.
Dirigem-me palavras. Àquelas que oiço respondo por impulso da memória. Oiço o
meu apelido. Sou obrigada a prestar mais atenção. Provocam-me o discurso na ten-
tativa de saborear o gozo da minha atracção pelo alheio e aliciam-me com revelações
comportamentais. Querem explorar a superficialidade. Explorar é um esforço que a
moleza da pele do sofá não permite. Estamos bebidos, enterrados... que não se
entenda o contrário: gosto desta pose cómoda, enformada, não dispenso o jogo do
psicanalista, não gosto de ditos populares, na generalidade, na especialidade aprovo
aquele de quem desdenha. E estou consciente de que abusei do povo na última cam-
panha legislativa.

27
Quem Desdenha Quer Votar! QDQV!

A abstenção diminuiu. É um facto que coincidiu com o lançamento do Votonet, com


absoluta garantia de anonimato. Não mais trabalharei para governo do Estado.
Jamais contarei o episódio das cuecas estampadas aos meus amigos de condomínio,
castigo-os por nunca terem cultivado o passeio pela Baixa, por terem cedido o bulício
aos suburbanos. Prometem calar-se em troca de (sempre em troca de) histórias publi-
citárias. Esta noite nada direi! Provocai-me até à exaustão, não cederei.
Todos conhecemos os Miguel Celsus. Encontrámo-nos na Basílica. Desconheço
se o trio acompanhou até ao fim o acto fúnebre, já bebemos dois cafés, sorvemos a
terceira bebida e nem um som acerca do acto e dos Miguel Celsus. Nada digo, por-
tanto. Jacinto livra-me de embaraços.
- Fumemos primeiro para alterar o discurso vindouro.
Jacinto propõe, carregando no botão da sua cigarreira preta. Tira um charro de
mortalha verde. Onofre e Constança abandonaram o haxe desde a troca da vivenda
no Estoril por este apartamento no Moreiredo. Só dão uma fumaça por mês. Eu pró-
pria deixei de sorver, com a assiduidade adolescente, esse tipo de induzidor. Tomada
pela gula haxeana, devorando bombons e bolinhos de areia, recriei as infantilidades
de Maria Branca, escritora respeitada pelo grupo dos reinantes, convertida às linhas
publicitárias, inteiramente publicista. Discordo das condecorações, acabo por aceitar
as imposições, sou educada, sou uma cidadã cumpridora da lei, mas tenho o cuida-
do de enviar outrem a recebê-las em nome de Maria Branca, a renitente agradecida,
a louca enraivecida.
Afinal, qual o motivo da troca dos Zacarias? Mudar a casa da costa rica para o cen-
tro capital? Por que mudamos? Talvez seja normal. Os irmãos Zacarias adoram pare-
cer normais.
Espirro! duas vezes. É geral a satisfação. Onofre aproveita para congratular o meu
húmido discurso.
- Finalmente diz algo com nexo, Mariazinha. Perdão, Maria...
Goza-me, a mim, Mariazinha... Onofre está recuperando o bom humor, devagar
mas está. Ele próprio volta a dizer num sotaque brasileiro apanhado ninguém sabe
onde:
- Estou recuperando... Estou recuperando!
Rimo-nos. Os quatro reunidos pontualmente para um jantar mensal, social, desde

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que habitamos o Moreiredo.
- Pensas tu...
Desdiz Jacinto, acendendo um charro cor-de-rosa, dedicando-o Às Ausentes e Às
Presentes. Todos anuímos. Este grupo não se reúne para sobrecarregar a consciên-
cia. Os quatro, impensáveis mosqueteiros, apenas desejamos divagar na penumbra
aproveitando a inspiração do fumo. Uma vez por mês.
- Pensar exige um esforço nem sempre reembolsável. Um duplo esforço. É! É-se
obrigado a pensar para obter esse esforço...
Onofre balbucia, julgando-se eloquente. Onofre é um ilhéu, dos que jamais perdem
uma vaga, assim como o atraso na reacção e o embargo na voz. Eis a minha oportu-
nidade de baralhar o jogo:
- Pensamos enquanto pensamos. Existirão enquantos fora do pensamento?
A Constancinha não perde tempo e afirma que há muitos em pensamento... Onofre
acentua as rugas da testa, coça o nariz. Insisto:
- São todos os enquantos...
- Penso que não é assim. É uma verdadeira tontaria...
Onofre perdeu o rumo ao pensamento. Nada de novo, Jacinto irrita Onofre:
- Pensas... o teu pensamento atraiçoa-te. Lembraste?
- Os enquantos não me preocupam. Passam. Passam-me pelo pensamento, pas-
sam!
Onofre fala erguendo o indicador deformado pelo tiro ao alvo, uma das suas gran-
des paixões. Do meu sofá, riu-me recitando uma máxima:
- Enquanto acontece já passou!
Constança, pronta a confundir, aproveita a deixa:
- O esforço é uma obrigação. Não, não pretendo dizer que devemos fazê-lo...
- Esforçarmo-nos? Com que finalidade? Qual é o fim? Qual é o princípio? Só de
pensar nesse duplo esforço que é pensar para e usufruir de. Claro que eu não penso
assim, mas se eu não penso quem pensa por mim?
Antecipo-me à fala de Jacinto, passando-lhe a beata cor-de-rosa. Passo a Jacinto,
administrador bancário, reformado aos quarenta anos por deficiência mental; se não
tivesse incendiado o gabinete do presidente da instituição, não mais se teria liberta-
do do quotidiano na Torre das Necessidades, dignificante sede do Pai. E Jacinto
acena-me com mais um induzidor fresquinho, desta vez, azul. Os irmãos Zacarias
Albuquerque, peritos em investimentos, julgam-se filósofos, prosseguem a saga do
pensamento. Já raramente se filosofa, eles são um péssimo exemplo.

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- Eh! Eh! Não a entendo, mana Constancinha, quando se põe com essa filosofia de
beco...
- Diz antes Onofrinho, alto e bom som: não ouso responder-te, não quero baralhar-
te!
- Tremo, só de pensar como tu Consta, sofista, podes sufocar com tanto cepticis-
mo.
- Não entendes nada Onó. A prioridade é a procura...
- Diz. Não te inibas! Sou Onofre Zacarias Albuquerque, gestor, grande atirador.
- E eu vou ascender ao vigésimo-quarto. Não achas Jacinto? Chegou a hora de
deixarmos os manos.
- Talvez Maria. Depois de fumarmos este verdinho ainda pela metade.
Fumamos envolvidos por uma musicalidade apaziguadora que interrompe as diva-
gações. Um Franzqualquer a interpretar Clássica; Constança disse o nome ao sinto-
nizar a música. Já esqueci. Ouvimos em silêncio. Fumamos. Jacinto passa a
Constança, Constança passa a Onofre, Onofre passa-me a mim – a alucinante suces-
são passa-se em ritmo lento, a passas profundas. E eu mato a beata, sem...
- Apelo nem agravo! Caminhemos Maria.
Jacinto lê-me o pensamento, quero dizer, capta a ideia. Raramente penso em ter-
mos proverbiais. Os meus clientes sabem disso!
Levantamo-nos dos sofás com algum sacrifício, saímos da sala. Beijo dois manos
e Jacinto um, dou dois beijos e sinto um. Saímos os dois, permitimos aos manos bate-
rem com a porta antes da chegada do elevador. Rumo à saída, Jacinto desafiara-me
para roubar uma das duzentos e sessenta e seis minúsculas fotografias dos
Albuquerque, algumas provas únicas que os Zacarias Albuquerque (talvez apenas
Onofre) insistem ostentar em molduras circulares à direita de quem entra no aparta-
mento. Por quê? Para que me interrogo?
- Deves-me um beijo malandrim!
Imponho a minha voz melodiosa, mostro a fotografia de um Albuquerque a um
Jacinto surpreendido, de mãos nos bolsos. O riso aproxima-nos, carrego no botão 22,
beijamo-nos. Tropeçamos várias vezes um no outro, abre-se a porta e enrolo-me no
meu bom amigo pelos dois lances de escadas, até à minha porta, até ao meu quar-
to.
- Pssst! Não acordemos Adalberto.
- Tu e esse teu motorista... E o que fazemos à foto?
Jacinto questiona o destino da fotografia desviada, aconselho-o a guardá-la para

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uma noite qualquer a devolver à parede dos manos. Entrego-lhe o meu frasquinho de
cristal, proponho a partilha de um trilho mágico.
- Maria, somos quarentões, conhecemo-nos há décadas, partilha algo mais comi-
go...
- Tu és um quarentão, eu conto apenas quarenta anos.
Desculpo-me, abro a porta do roupeiro e entro na sala de banho. Jacinto escolheu
a mesa parisiense de aço retorcido, de tampo transparente viciado em alcalóides.
Traça trilhos com o seu European Express. É justo! Ao fim dos jantares mensais do
Moreiredo, Jacinto acompanha-me a casa, beija-me, entra no meu quarto e cheira-
mos para estoirar a madrugada. Adalberto, sempre atento, irá buscar-nos ao Livre
Arbítrio, cumprindo o ritual. À luz do dia, eu e o meu amigo Jacinto entraremos no
Jaguar e seremos depositados no M3, cada um em seu apartamento.
Não reservei esta madrugada para tal diversão, apetece-me variar. Pôr fim a
dependências.
Refresco a cara com o cheiro das violetas diluídas.
- Jacinto, que pensas tu sobre a morte do Miguel Celsus?
Interrogo-o sem convicção, enquanto compenso a mucosa inspirando o perfume
de André, deixado na toalha, na noite passada. O magana responde-me com outra
interrogação:
- Por que não falámos do assunto lá em baixo, em casa dos Zacarias?
Não pretendo dar este rumo à conversa. Várias vezes prometi a André, reflectir, a
sós, sobre ele.
- Tu achas que o aroma a violeta é excitante? Posso?
E aspiro boa parte do milagre em pó destinada a esgotar-se amanhã. Permito a
partilha do meu tubinho de platina, Jacinto mostra alguma surpresa, hesita alguns
segundos, e aceita. Ruidosamente, aspira o branco restante e agradece com sons
incertos de garganta adormecida. Eu volto à casa de banho para retocar a pintura. É
rápido, um pouco de batom é o suficiente para renovar a maquilhagem. Já o disse e
consagrei em público.

Bouche É Batom! Batom Bouche! BB!

- Vamosprárua. Jácinto!
- Bóra, Maria. Como naquele teu anúncio. Goze A Imensidão De Um Refúgio. Viva
A Noite Capital!

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Maldita conjugação de palavras. Jacinto venera-me. Eufórico, ensaia vénias, resta-
me levá-lo daqui. Tremem, as minhas mãos.
- Chiuuu! Poupemos Adalberto. Chamemos um táxi.
Indico-lhe o número junto ao comunicador. Jacinto marca-o. Nenhum sinal, nin-
guém responde. Jacinto impacienta-se. Pede um táxi ao emetrês. À torre três do
Moreiredo. Sopra. Diz que sim, que sabe da existência de uma praça, ali, no próprio
condomínio. Sopra. Diz que sim, sabe da praça e do centro comercial e isso é-lhe
indiferente. Sopra. Quer um táxi à eme-tê-três e basta!
Olha para mim e chama-me gaja chata. Eu?
Chata é a do lado de lá, a quem Jacinto agradece de voz cândida e diz bai-bai.
Verdadeiramente a acção desenrolou-se quase de um fôlego: disse-lhe que encon-
trava o número junto ao telefone Jacinto marcou-o e nenhum sinal ouviu ninguém res-
pondeu Jacinto impacientou-se pediu um táxi ao Moreiredo soprou disse que sabia da
praça e por ele até podia ser um mercado era-lhe igual soprou porque queria um táxi
na emetrês soprou e olhou para mim e chamou gaja chata à do outro lado a quem
agradeceu de voz mansa.
Penso: a primeira versão é a mais fiel. A infidelidade é um impulso do pensamen-
to.
- É o duzentos e sessenta e cinco!
- Vamos. Eu fecho as portas.
Entramos no elevador anti-stresse, no senhor ascensor. Estamos apressados, apa-
rentamos apreensão e apenas pretendemos entrar num táxi, seguir caminho. Não
sem antes atravessar as avenidas, até ao Limiar, pelos viadutos e túneis. A acelerar
pela noite!
Está fria, a entrada da torre.
Saímos, voltamos a entrar. Sem parar. Rimo-nos. O porteiro ri-se connosco, sem
fundamento. Contamos-lhe que julgávamos esperar-nos um táxi, o homenzinho sim-
pático indica-nos a praça, ali, por baixo, no próprio condomínio. Jacinto sopra, julga-
se um cartão no raiado de uma bicicleta e não pára de agitar os lábios com o indica-
dor. As bicicletas são moda; o verde é moda, o branco também. E outras mais cores
e coisas, tudo é moda neste século.
Jacinto está um desassossego, não pára quieto. Sou obrigada a pôr cobro ao
andamento. Oiço as batidas...
- Chegou o vosso táxi. Vem de fora.
O homenzinho simpático acaba de entrar e eu nem reparara na sua ausência

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momentânea. Quis agradar a dois proprietários ou quis ser o primeiro a ver um táxi
de fora do parque habitual do Moreiredo. O homenzinho simpático é novo naquela
farda azul.
Entramos na viatura bege pela porta traseira. Usando o intercomunicador, Jacinto
avisa o taxista: não quer saber mais de praças, nem está disposto a manter qualquer
conversa. O jovem faz descer o vidro que nos separa e pergunta qual o destino a dar-
nos, porque ainda não percebera. Queremos o Livre Arbítrio! À primeira explicação, o
jovem de cabeça rapada não entende a razão que nos leva ao Limiar quando o objec-
tivo é o Livre Arbítrio, lugares opostos. Interrompo para lhe explicar quanto adoramos
percorrer túneis, viadutos, e quanto mais rápido melhor.
Alucinante corrida em contramão. Uma corrente de luz...
São cinco horas. São seis e meia. Ainda é noite. Não me perguntem nada.
Estamos na capital do Norte. Loucos, somos loucos!
Penso: os vidros fumados encurtam o horizonte visual, logo estimulam a imagina-
ção. Quando se não vê, inventa-se.
Desconheço os pormenores da viagem. Tenho a sensação de que um túnel une o
Marquês à Circunvalação. A velocidade emparedou-nos. Nada vi, a não ser o espan-
to de Jacinto desfazer-se em gozo. O condutor nunca moveu a cabeça no nosso sen-
tido, fiquei a conhecer-lhe a careca sem descobrir qualquer defeito, constatei a cinti-
lação das carecas. Também não me perguntem a razão por que me sinto excitada.
Para onde vamos, por onde iremos? A viatura desliza. Palpita-me que rolamos na via
rápida, rolamos em sentido contrário. Oiço buzinadelas, em segundos de luz. Pode
ter sido um efeito alucinatório da velocidade crescente. Talvez.
Penso: ...
É-me difícil pensar, é-me impossível verificar quantos quilómetros galgamos por
hora. Voamos! Seguramente a trezentos. Da capital do Norte, já nem um vislumbre.
Na sua aparição fugaz, pela manutenção da velocidade, percebi uma inimizade laten-
te do taxista para com a velha rainha que se afirma Invicta, senão ter-lhe-ia sugerido
uma paragem no Sinqueabaute para ajudar a desfazer em copos a energia acumula-
da. Mas não! Não trocámos palavra. Não tocámos naquele solo. Uma situação hipnó-
tica, esta de ver passar a vida a alta velocidade.
Pergunto a Jacinto se não quer questionar aquele que para nós é um taxista, sobre
este equívoco no nosso destino. O meu bom amigo atira-me com risadinhas. Explico-
lhe que me satisfaz ter ido à capital da Zona Norte, reconheço-lhe um lugar cimeiro
na conquista de Ceuta, todavia detesto andar à procura de D. Sebastiões. Mas é

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estranho o motorista. E... Oh meu Deus! (assustemo-nos), acabei de ver uma apari-
ção fugaz de outro passageiro. No banco da frente, uma cabecinha mirou-nos.
- Jacinto, viste?
Quando aponto nada indico. Será que só eu vejo aquilo que indico, ou indico o que
não vejo? Não vou desistir de apontar o indicador à minha miragem.
- Agora, Jacinto!
Abano o seu braço para que siga o meu dedo. Jacinto está obcecado, com a cabe-
ça de lado, de olhar fixo na janela. A velocidade espanta-o, tudo o que não vislumbra
o espanta. Diz-me, enquanto insisto comandar o seu olhar, que não invente mais
nada. A realidade basta. Que saberá realmente? A realidade o que será? Pedir o táxi
não foi fácil – burocracias; quando pensávamos o contrário, fomos nós que esperá-
mos – teorias. Também não perguntámos ao taxista se estava à nossa espera... Não
chega a ser vingança. De novo confusa, eu? Que lhes parece?
Ei-la de novo! O quadrilátero escamado espreita. Jacinto vê a cabeça e aconselha-
me a não me preocupar com aquilo que se encontra para lá do vidro tipo preservati-
vo. Conta-me que conhece vários casos de motoristas de táxis que se fazem acom-
panhar pelos mais diversos símbolos de ferocidade, pelos mais estranhos compa-
nheiros. Animais, sempre animais. Tudo se vulgarizou neste século individualista.
Francamente, pouco me incomoda a presença do réptil no lugar do morto. Mas onde
guardará o taxímetro, este taxista peculiar?
Estamos na Circular Orientadora dos Subúrbios a Lisboa. Na COSL, retornamos à
capital.
Vuuum! Porta do LA.
- Chegámos senhores!
O taxista engana-se, pensa que acelerar é ir ao futuro sem largar o presente. A
hora do Livre Arbítrio já passou. Experimento explicar, para evitar uma desnecessária
troca de palavras, que detestamos transpor o Livre Arbítrio quando a artificialidade da
luz é imperceptível. Sair e ser iluminado acaba por revelar-se inevitável, entrar não. A
cabeça rapada vira-se, mostra as íris negras, os lábios de traço fino, e oferece meta-
de da corrida. Aponta para o taxímetro escondido no porta-luvas. Não entende que o
preço marcado é para nós indiscutível. Recusa-se a aceitar a falta de uma reclama-
ção quanto aos quilómetros cobrados extra. E revela-nos nunca ter tencionado cobrar
a experiência.
Tenciono ir para casa. Lá impedirei o sol de atravessar as janelas. O mesmo dese-
jo ataca Jacinto. O careca enerva-me, conheço-o de algum lado.

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- Leve-nos ao ponto de partida, sem atalhos, sem brindes extra.
- Ao Moreiredo?
Jacinto corrige-o:
- À torre três.
Anoto: vê-se melhor através dos vidros fumados, as questões de hábito impõem-
se. Mesmo assim, só adivinho o Tejo aqui ao lado. E por lá fica. Somos obrigados a
forçar a abordagem quando queremos sentir o rio, acomodámo-nos, o envolvimento
esfriou, o rio tornou-nos indiferentes, basta que nos envolva, imutável, alimentando a
dependência. Culpamos as águas pelas nossas limitações, contêm corpos, pedaços
da cidade. E o povo vingou-se, migrando por diversas vezes, acreditando ser o dono
da vingança. Protegemo-nos, seguindo as vozes de comando, as mesmas que hoje
apregoam de novo as suas razões pegando pela saturação do cais.
Eu e Jacinto, de novo. Olhamo-nos sem pejo. Abraçamo-nos, movimentamos as
mãos com despudor... e são elas a desabotoar-nos ciosas de pele. Apaixonei-me, por
instantes. Um calor pelo corpo, esse mesmo! Vê-se? Nota-se? Talvez seja o brilho
nos olhos, o trejeito de lábios, os gestos... Há sempre uma denúncia. Sim, claro: exis-
te uma maneira de desacreditar a denúncia, não é fácil… as reflexões ficam para os
idilistas. Riu-me, Jacinto mordisca-me a orelha. O careca tornou a divisória opaca,
não sei como nem quando. É como se viajássemos de comboio, num compartimento
reservado. As emoções brilham no escuro, tacteamos os corpos, descobrimo-nos,
recompomo-nos. A opacidade torna-se transparente, reaparece o crânio lustroso, alvo
de cuidadosa limpeza diária. Vejo-o, todos os dias, antes de pegar ao trabalho, mos-
trando ao espelho da sua casa de banho que as esponjas de lustrar sapatos abrilhan-
tam muito bem a pele sem pelo. E se foi o próprio quem contou tudo? naquelas escas-
sas horas de via rápida confessou-se, mostrando a nuca, e eu decidiria nada registar
deste momento inverosímil? Eu disse que não falámos? E se falou? Esta é a minha
verdade, talvez a imaginação se sobreponha, talvez não. Ele contou muito mais:
quando fazia o turno da noite, por vezes, enfurecia-se e acelerava estrada fora, fosse
ou não do agrado do cliente; gabava-se de ter alguma consciência e poupar ao des-
norte quem transmitia a pressa em atingir um objectivo; o nosso vagueava entre a
emoção e o delírio, julgou presentear-nos com a aceleração desabrida, reconheceu-
me e sabia quem eram os Miguel Celsus, muitas vezes os transportara àquela mesma
torre três, gabava-se de os distingir. Voltaremos a ver-nos, avisou. Bem pode ter dito
isto tudo com aquele ar delicado, comprometedor.
Jacinto tira uma nota do bolso do paletó, como gosta de classificar os casacos de

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bandas arredondadas. O rapaz rapado move os lábios finos e nada oiço. Dou as cos-
tas à criatura, saio. Surpreendentemente alguém me apalpa o cu – Cu é uma palavra
de entoação desagradável mas, dada a natureza do apalpão, é a única que se adap-
ta ao estilo. Com ternura disfarçada de repressão, encosto os meus dedos na face
bronzeada de Jacinto. Conheço-o? já lá vão diversos invernos e desconheço a sua
verdadeira raça, estive perto de desvendar a verdadeira tonalidade da pele, não fosse
o tacto daltónico e... estou convicta, descende de árabes.
Viajamos neste ascensor, quietinhos, encostados aos nossos cantos. Concluo
nunca me ter esforçado por entendê-lo. Ainda sinto o apalpão, não resisto, ataco com
a minha boca a sua, com as mãos as nádegas, ele avança retaliando... As portas
abrem-se: prosseguimos entrelaçados pelo corredor, caminhamos em passos trôpe-
gos, atingimos a porta D, despeço-me de Jacinto desviando o beijo. Ele não entende,
balbucia incompreensões. Abro a porta, empurro-o docemente, fico a salvo de alcan-
ce.
- Mas Maria...
- Até...
- É esse teu motorista que te inibe?
- Jacinto, tem termos, já é dia!
Viro-lhe as costas, estou em casa. Hoje, pela primeira vez, fui ultrapassada, nem
dei pelo Limiar.
- Bom dia, Adalberto. Ainda à lareira?!
Na minha casa não há qualquer lareira. Adalberto levanta-se num rompante, esta-
va sentado no chão, de fato castanho e lenço bege ao pescoço, desculpa-se, diz que
ainda não se deitou, gagueja, quando pretende acrescentar justificações embaraça-
se-lhe a voz.
- Conversamos mais tarde, estou derreada.
Reparo na cara entristecida, tomo-lhe a mão convidando a seguir-me rumo ao
quarto. Vamos para o dele, evito acostumar quem quer que seja à minha cama. Que
começo de dia! Vale-me agora percorrermos o entardecer. Tenho de trabalhar um
pedacinho, tenho de pensar, pensar... Vou tomar banho. Opto pela água mineral e se
a cabeça continuar oca, como neste preciso momento a sinto, passarei os próximos
oito dias a lavar o corpo com água gaseificada. A criatividade necessita de estímulo.
Vou à agência. Vou à zona do terciário, meter-me num parque-escritório na hora
da superlotação. Adalberto não passará dificuldades para estacionar o automóvel,
isso satisfaz-me, todos os dias nascem desempregados e os lugares passam de

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mãos, temos sempre lugar no parque. Quando terminar a festa, reaparecerá o deser-
to, como todas as noites, uma após outra! Rotinas, como a fuga dos trabalhadores
mal dispara a sirene do final do dia. A realidade induz-nos, recordemo-nos desta rea-
lidade inspiradora.
Abro a porta: olhai-os entre as secretárias e os computadores! Parecem divertir-se.
Nos corredores anda Sebastião João, perdido insinua-se entre os convivas, na busca.
É dia de festa na agência, eu não sabia. Ou não me lembrava? Sebastião João ri-se
para quem passa, toca nos corpos com o copo. Ri, sorri, sussurra interjeições simpá-
ticas. Clássica é a música ambiente e o tom das conversas crescente. E há homens
e mulheres que se beijam. Sebastião cumprimenta-os, procurando-me. E eu cada vez
mais desejada, desejosa, e só por uma vez encostei o copo aos lábios. Os seus olhos
nervosos detectaram-me, são verdes, durante a criação da campanha usou-os azuis
para não destoar das cores escolhidas.
Eis-me num grupo de homens! Ei-lo tão só Adónis! Sebastião demora, aproxima-
se dançando. Os que me rodeiam sugam as bebidas e fogem para outros pares, fica-
mos os dois a brindar à nossa última filha. Toque de copos, toques de corpos e lábios.
À memória das nossas campanhas, em especial da última! Sebastião João andava
perdido, serpenteava e não me via, trata-se de uma situação inevitável nestas festas
rotineiras. Normalmente, adora descobrir-me e desfazer-se em espanto ao ver Maria,
sabendo de antemão que iria encontrar: sabe por onde ando, percorremos os mes-
mos caminhos, só o tempo da paragem diverge.
- Maria Maria! Virgem Mãe!
- Sebastião, assustas-me! Sou virgem, mas não mãe.
- Oh Maria, que bom ver-te!
Nada mais diz. Sorri, não com os olhos. Canso-me ao vê-lo? Gosto de o ver bam-
bolear-se entre corpos, sem me detectar, gosto de vê-lo ao longe, em festas, quando
estamos a recriar, gosto de saber que me procura... se ele não me cumprimentasse,
talvez sentisse falta das exclamações habituais; ao falar arrasa-me, fico como se
tivesse suado quilómetros na passadeira do quarto. Resta-me arfar. A sua feminilida-
de enerva-me, é desleal, joga rasteiro, talvez lhe rosne. É melhor guardar o rosnar
para uma outra ocasião, Amílcar Cartinha vem na nossa direcção, traz um ar de sal-
vador da pátria, cumprimenta-me com três beijos. Sebastião João foge de apertar
aquela mão pegajosa, odeia o homem, detesta este tipo de macho. Em matéria de
mulheres, Amílcar Cartinha dá mesmo cartas, adepto convicto da heterossexualidade
não admite a existência de sebastiões, e o meu amigo sabe disso, o machão nada

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esconde, nem a sua versatilidade em matéria de clubes desportivos. Um bom nego-
ciante este Cartinha, sócio de todos os clubes.
Não preciso de me mexer nesta lareira de fogo apetecível, vem aí mais um. António
José de Casinha vem direito a mim. Amílcar fica a defender a dama conquistada a um
maricas qualquer, disse ele. Casinha não perde tempo - olá está boa, como tem pas-
sado, e vice-versa - para disparar as perguntas que sabemos de cor.
- E que livro anda a ler?
- Ad Artem Dialectiam Introductio brevis et perspicua, salibus et facetiis undique
aspersa, pro tyronibus et novitiis elaborata.
- Ah sim? De quem é?
- De um João qualquer, não lhe interessa.
- É giro?
Casinha não desarma e eu não pretendo justificar-me.
- Giro? É a alegria da lógica!
- Mas o que é que pensa...
Ataca-me de novo, este ladrão de ideias. O que é que eu quero? O que é que
andas a ler, o que é que pensas sobre isto, aquilo e aqueloutro? E porque te salvei
do paneleiro, murmura Amílcar... Caramba! Cartinha é um traste, mas Casinha mas-
sacra qualquer um com as mesmas perguntas, dando ares de entendedor, o profis-
sionaleco da intelectualidade, ladrão de vários sonhos, chantagista. Mas está rico e
atingiu a terceira condecoração, já aparece na décima quinta fila na cerimónia anual.
Aquilo que eu quero só a mim diz respeito, a mim principal interessada em entender
uma mente atormentadora do seu corpo; estou farta de argumentar. Nas conversas
trocam-se ideias, respondem-me os meus pares, que ideias? As assimiladas através
dos mecanismos de indução de imagem e som? E a forma primitiva da poesia dra-
mática não conta?
Penso: A signografia faz parte de qualquer currículo.
Perco o senso, resta-me sair porta fora, mesmo correndo o risco de alguém edu-
cado querer acompanhar-me ao carro, acompanhar-me até avistar o Adalberto… Já
não os suporto, são sempre os mesmos, os mesmos fatos cinzentos de gravatas des-
maiadas, sempre delicados, sempre servis. Sempre inhas!
- Olá Maria.
De fato antracite e gravata castanha, eis um ilustre cliente assíduo das festas da
agência: Jorge Miguel Celsus. Encontramo-nos mais cedo do que o previsto, embora
no dia combinado. Bonito como André, este mano.

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- Jorge que surpresa!
- Oh Maria! Como vai? Não se esqueceu do jantar?
- Não, evidentemente, estava de partida para me ir arranjar. Jantar consigo mere-
ce uma preparação cuidada.
- Ainda há tempo, não me importo de esperar por si, Maria. Há anos que espero
por si.
Corro para Adalberto, não me reconheço, foi Jorge quem suavizou a minha ansie-
dade. Atrai-me esta família de Celsus, os primos nem tanto, chamam-se Cassandra,
vestem fatos verdes e cantam o fado, dominam as desgarradas. Tínhamos combina-
do encontrar-nos para adiantar trabalho, como evito as reuniões matinais marcámos
um jantar. Talvez fosse mais acertado escolher o dia, talvez, mas prefiro o entardecer
ou a noite: pela manhã, em encontros de trabalho (cedinho, melhor dizendo, porque
quando a subjectividade reina destrunfa-se a verdade) existe o risco de se cheirar ao
mesmo banho, de o perfume nos denunciar ou inibir, enquanto à noite ou de madru-
gada, misturar fragrâncias é um desejo; de olhos franzidos pelo sol, o mundo muda
de aparência, há demasiado brilho e confundir cheiros é atrapalhar o cérebro.
Trapalhar. Trabalhar, tra-ba-lhar, traba agora que a função é renascer. Ih! Ih! Iludamo-
nos com as fragrâncias quando a lua nos vigia, o sol orgulha-se de nunca nos vigiar,
fomenta odores para nos confundir... Estou louca, desvairada… Abismada, eu, comi-
go! Penso que não penso e penso, ou melhor, pensei... Estou a sentir-me afectada,
em consciência, julgo conhecer-me. Julgava! A evolução é uma função contínua?
Sinto o formigueiro da ressaca da mudança. Mandai-me parar, tenho de partir! Já são
quarenta anos e o mundo não percebe.
- Dispense a preocupação Adalberto, desobrigue-se. Siga, para casa.
O desejo saiu-me num grito. Preciso de escrever, nem que espante a família com
uma mensagem manuscrita. Não sairei até a hora-jorge. Adalberto receberá a ideia
com agrado mesmo percebendo que só o papel será o meu amante. Não perde a
esperança, nunca. Enerva-me. E eu não sou de me enervar com facilidade, prová-lo-
ei. Ter-se-ão os neurónios exaltado? Julgo enfrentar a amarrotada folha e... reajo com
interrogações. Sucede. Questiono desejando responder por exclamações. Só sei que
nada sei? Por vezes julgo-me dona do saber e sinto obrigação de lembrar o outro, o
primeiro a nascer cheio de razão, sortudo por ter sido o primeiro a admitir em público
nada saber. Nada saber? Parece-me bem, por estas e por outras, a antiguidade é um
posto. A sabedoria refina-se ao longo dos tempos, ganha-se, conquista-se usando os
também banalizados sacrifícios: sacrifica-se o eu em prol de nós, sacrificam-se ternu-

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ras; não quero admitir o sacrifício da alma porque a única versão conhecida é uma
efémera troca de interesses! Eis a exclamação quando nem sequer me interroguei
para a justificar, eis-me a divagar quando pretendia ser concreta. Sei nada me obri-
gar a tanto ou terei alguma dificuldade? Sinais da tal crise da existência? Confesso
que algo se desligou, entre mim e a cor branca, na folha faz-se silêncio. Não acredi-
to que saiba o que digo, creio saber quando começo a divagar, depois, perco-me
como neste momento, pensava escrever uma história, uma historinha infantil, ser
mais forte a vontade de exorcizar fadas e encantamentos, nem armada de caneta.
São possessivos estes meus tormentos, são exigentes, são eles que há longa data
me impedem de recriar infantilidades.
Aviso: A consciência atraiçoa, posso começar a mentir.
Reparo nos meus tês por cortar, fechados em cima, ter-se-á mudado o meu carác-
ter? Raramente, mui raramente, uso o aparo, só em casos extremos. A história da
folha em branco só serve para me enervar. Se não corto os tês como registarei os
emes e os enes? Ao contrário, virados? Vou escrever Mui. Mui, palavra a saborear,
emes virados, bolas!. Perguntam se sinto falta deste mecanismo de manivela que me
absorve o ego? O computador encanta-me: eu comando e ele serve, simplesmente
facilita, dito e ele escreve. Acredita em mim, não me deturpa a escrita. Mui! Este mimo
bocal ainda existe. Apetece-me parar, e não. Estarei ansiosa ou angustiada? Será um
sentimento misto de receio e apreensão, um medo sem causa especifica? Ou deixei
de ter uma relação normal com o psíquico? O intimo em fúria apaga-me o cigarro,
pura exaustão, não consigo pensar sem pôr em dúvida. A dúvida é o benefício da ver-
dade. Eis-me julgando ter criado mais uma máxima para várias vezes ser evocada.
Talvez um dia a oiça, talvez.
Tenho frio!
Tenho frio porque estou de tronco nu, porque estou de mamas ao léu - a primeira
expressão é demasiado masculina, embora bastante elucidativa, revela o segredo,
enquanto a palavra mamas... Leia-se reticências: uma estava a desviar-se do essen-
cial, duas os mistérios apenas se desvendam parcialmente.
Aviso: Repetir-me-ei sempre que ache necessário, não preciso de mentir.
Urge guardar segredos para sentirmos o prazer de tentar desvendá-los ou não
fosse o ser humano uma engrenagem misteriosa. E a vida? Levamo-la, a pensar que
há quem não pense. E há os generosos que pensam por todos. Somos nós, os ilumi-
nados, os orientados por algo que se encontra para além do mais irresistível, que me
comanda a páginas tantas. O que poderá ser? Quem? Força? Poder? Desconheço a

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razão porque me ocorrem processos obscuros quando o pensamento corre célere e
transparente, talvez sejam apenas meros processos, talvez seja mais forte a neces-
sidade de evocar conhecimentos adquiridos, de falar em processo alheio para justifi-
car o próprio. Quiçá... (eheh, também gostamos desta palavrinha). Imprópria a verda-
de, é-o muitas vezes! Desconheço a força desta frase, a razão de tê-la escrito mal me
ocorreu. Soa bem, como me soa esta língua inibidora por excesso de compromissos.
Compromete-me, quando penso que a domino ela esquiva-se, reinventa-se, brinca,
brinco... O meu brinco? Perdi-o porque a minha orelha emagreceu repentinamente.
Foi de manhã, de madrugada quando ele chegou e disse toma lá nada, dá cá... Se
quisesse, poderia não mais parar de escrever frases sem nexo aparente ou de nexo
aparente. Por vezes sinto-me dona do saber. E nada escrevo ou escrevo aquilo que
nem eu entendo. As minhas fraquezas só eu as conheço. Mas não comprei um paco-
te de discos para vos entreter, meramente, não se precipitam, resolvi registar algum
tempo da vida, não desperdiçá-lo em divagações, resolvi deixar-vos uma parte da
minha vida. E quem sou eu? Por que vos atormento? Porque já ouviram falar de mim,
com certeza.
- Adalberto!
Não aguento mais esta reclusão, preciso de ar, vou sair. Rua, a noite clama!
Caminho. Boa, esta cidade devolvida aos peões. Adalberto não pode seguir-me, as
viaturas motorizadas rumam por caminhos impróprios para pedestres. O sol deixou
de nos aquecer nestas passagens pedonais que nos protegem dos astros, mas de
outros seres nem por isso. Surpreendo-me, gravo com os olhos e os ouvidos:
- Quéquele fez, qué quele fez?!
- O que é que ele fez? Sei lá!
Não sou eu a dirigir-me a este matulão ignorante, o próprio tomou a iniciativa de
me atirar palavrões. Especifico: a pergunta atirou-a o cavalheiro de roupa leve encos-
tada às minhas belas nádegas, a resposta dei-lha seca. Encontro-me retida pela
observação de uma cena quotidiana, mergulhada num mar de gentes, numa turba
surgida de repente para presenciar, apenas. Dificilmente me safarei como convinha,
impossível retroceder. Avançar? Para quê? Passeava eu, com toda a tranquilidade,
por este pátio jardinado... nas minhas reflexões ambientais, num raro momento de
lazer, agora teoricamente estragado... Que excitação!
De lenço amarelo, um outro matulão provoca barulhos com a boca reprovando a
cena em observação. Está a meu lado. O roupa leve, encostado às minhas nádegas,
torce-se e liberta os pulmões da farfalheira. Mexo-me para não sentir a convulsão, o

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culturista do lenço amarelo, de olhar viés, por três vezes bafeja-me a sua incredulida-
de:
- Isto é incrível! Isto é incrível! Isto é incrível!
Observam-se aqui representantes de aberrações de todas as espécies. Garanto-
vos, e quando garanto certifico. A encapuzada suburbana, do lado esquerdo, assoa-
se a um papel esfarelado de gripe; aperta o blusão impermeável e espreita o centro
do círculo humano, por cima do ombro do de fato castanho, esticadinho, a impedir-
me a visão. Cedo à espreitadela: vejo um homem sentado no chão, de cabelo desa-
linhado e suor no rosto. O homem escorregou, confessa várias vezes, ao cair, os
botões da braguilha rebentaram. Não o possuíra qualquer intenção de estragar o fato
amarelo nitidamente amarrotado de fresco, nem de atrapalhar alguém. A mulher
Citadina, vigilante do passeio preferido para exibições públicas, já informou que ser-
se arguido num processo de atentado à moral pública dá-nos o direito de permane-
cer calados.
- Não é culpado? Mesmo se tivesse escorregado, não ficaria um quarto de hora de
barriga para cima a ostentar o desprotegido instrumento.
Instrumento, classificou a menina toda de preto até nos olhos vidrados que infor-
mou os presentes ter decidido não algemar o arguido de amarelo por acreditar que
ele a acompanharia direitinho à esquadra. Aqui existe uma esquadra mesmo ao virar
da esquina, mas a Citadina quer brilhar na sua própria esquadra, a dois quarteirões
a pé. Diz-nos ser a do virar da esquina destinada à recolha de informações. Ninguém
pode levar a mal - equívocos acontecem nas ruas, todos os dias; ninguém abre alas,
os presentes, eu inclusive, estão insatisfeitos quanto ao sucedido que continua a sur-
preender centenas de passeantes, sobretudo a partir da terceira fila, onde a deturpa-
ção da mensagem já provoca burburinho. Há quem venda pormenores aos posicio-
nados na pioria, quem trespasse a sua posição dianteira, quem recolha dinheiro de
apostas.
Eu faço-vos o relato.
Estamos cá todos, não escapa um. Até eu aqui me encontro desejosa de sorver
um episódio do quotidiano do qual raramente desfruto. Tive alternativa? Reconheço
ter-me deixado encantar pelo passado do entretanto recolhido instrumento. E como
pode a Citadina provar a existência de um despropósito durante um quarto de hora?
Onde estão as testemunhas? Deve haver testemunhas. Ah, parece não ser necessá-
rio em casos idênticos, casos testemunhados por Citadinos... Adalberto? O que é que
este homem anda aqui a fazer?

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- Adalberto! O Jaguar está perto? Vamos. Há outro Celsus a esperar-me. Lembrei-
me ainda a tempo? Por que não me avisou?
Atrasei-me e não sei que inventar para minorar responsabilidades. Apresso-me a
andar de um lado para outro.
Penso: quando a pressa aperta não se pode sentar o corpo.
- O quê? Não pode ser. Que dizes Adalberto?
Adalberto grita-me o aviso do recepcionista sobre a chegada do senhor Miguel
Celsus. Nada assim se combinou. Vir em vez de esperar no restaurante acordado?
Temos relações especiais mas não passamos de duas variáveis nem sempre implica-
das. Terei cometido indecoro à saída da festa? Se fosse André... Com André em casa
nem sairia, muito menos para jantar negócios. O encontro com Jorge fora combinado
para mais tarde, quase para amanhã. E ele vem subindo. Lembra-me aquela porta
aberta, o meu anúncio preferido.

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Porta aberta e o homem entra. Veste um sobretudo verde. A mulher aparece ves-
tida de rosa e prata, de vestido comprido a marcar a cintura, quadrado nos ombros.
Cumprimenta-o como se o não visse há longo tempo. Ajuda-o a despir o abafo, fica-
lhe com o sobretudo por um instante, passa o volumoso casaco ao empregado - mor-
domo vestido a rigor, aguarda o desenrolar da cena, quieto.
Homem e mulher trocam sorrisos e deslocam-se como se bailassem, sem verda-
deiramente o fazerem. Dançam em círculo, entre o mobiliário francês, como se tudo
fosse normal. Ela diz-lhe para estar à-vontade, precisa de uns minutos para terminar
a tualete. Ele agradece e descansa-a: está sem pressa.

A mulher avança, o homem vai atrás, de mansinho, e já na casa de banho sur-


preende-a:

- Posso tomar um banho?


A mulher reage com naturalidade, indica-lhe a banheira redonda, toalhas limpas
nas prateleiras da estante, diz-lhe, novamente, que esteja à-vontade. E quando se
prepara para sair e fechar a porta, o homem pergunta:
- Posso usar o seu gel? Quero esse cheiro.
- Não é do gel, é da água.

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A mulher abre a torneira de banho. O homem começa a despir-se.
Canalize o seu aroma, diz ela.

Arõmatikós pelas torneiras!

Miguel Celsus entra. Adalberto abriu a porta e abandonou-nos. Vem de sobretudo


verde, o mano. Hum...
- Olá! Mais uma surpresa!?
Cumprimento-o com saudades de André. Ajudo-o a despir o abafo, pego no sobre-
tudo por um instante, Adalberto não aparece, atiro-o para cima do sofá. Trocamos sor-
risos e movemo-nos em círculos entre o mobiliário da sala, como se fosse um ritual
nosso, desejado. Digo-lhe que fique à-vontade, que preciso de uns minutos para ter-
minar a tualete. Agradece a atenção e descansa-me: está sem pressa.
Evidentemente!
Entro na sala de banho e apercebo-me de uma presença masculina, segue-me de
mansinho.
- Tens coca?
Surpreendeu-me, marca pontos. Jorge nunca me fez tal pergunta. Quando o senti
pensei que iria elogiar o perfume. Ao despir-lhe o casaco estranhei os gestos, lem-
brou-me André. Mas este Celsus não sabe dizer Maria. Há coisas que nunca se
aprendem.
Penso: O irracional é a tentação maior.
Estranho, Miguel Celsus não pára de falar. Conta que foram descobertos já a dor-
mir, serenos, num descanso merecido. Alguém os acordara, aos dois, comprometidos
num sono profundo?
- Que aconteceu então?
Inquiri no meu direito de confidente involuntária. O Jorge dormindo com a namora-
da quase noiva de André? Ou seria André com a namorada quase noiva de Jorge?
Desde quando existia uma namorada quase noiva? Desde quando não era André
quem comia as meninas do Jorge? Rodeavam-no muitas. Naquela noite, André disse-
me que encontrara o amor, se não fora isso, sentia-se apaixonado. Esquecera-me por
troca, mas percebi mal as suas palavras, não me revelou a troca, cheguei a duvidar.
Jorge é famoso por nunca ter praticado qualquer adultério classificado. As sereias
confundiam-no com o irmão, ele achava piada, participava nas aventuras inventadas
pelo seu outro eu nascido minutos depois. Jorge nunca fora de confidências, por que

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me contava esta história esquisita? Para afirmar a sua virilidade? uma indicação
sobre o seu outro eu? uma questão de partilhas? Reviveria a crise existencial que
consumia André? Porque se encontra este homem na minha sala de banho? Mais
uma vez o irracional me tenta. Continuamos à porta. Ganho consciência da possibili-
dade de me apaixonar por este irresistível perfume de homem. Corro sérios riscos.
Estamos próximos, quase trocando respirações, não desejo evitá-lo, também não
quero desvendar segredos. Tão parecido com André, céus!
- Toma um banho?
O subconsciente comanda. Desconheço a razão desta experiência sensorial, recu-
so a origem da pergunta. Fi-la eu e ele reage naturalmente, sem vincar o rosto. Aceita
com a condição de usar o meu gel. Estranho ouvi-lo dizer gel, como se não resistis-
se a chamar-lhe gelo.
- Desconhece o Arõmatikós? Bom, é apenas um novo produto, ainda em fase de
lançamento.
Resolvo não insistir. Outros do género circulam no mercado, nas listagens dis-
cretas. Ao contrário daquilo que achara impossível, nem todas as casas Celsus pos-
suem equipamento normalizado. Jorge salvaguardara o esconderijo que habitava
com mais assiduidade. Nada tinha contra o sistema mas adorava referências ao pas-
sado. Quase duvido das palavras ouvidas. Oiço e lembro-me de André. Se calhar são
ainda mais parecidos, eram... Sempre olhei Jorge como sendo um malabarista do
marketing, mais um. Conhecido por acções bastante insatisfatórias, algumas, outras
penetrantes, sempre em benefício das instituições do Pai. André não recusava mala-
bares, todavia, outros meios lhe concederam o bem-estar, provavelmente a seme-
lhança desvirtua. Cansada?
Entra e eu saio com um Esteja-à-vontade.
Não sei o que fazer. Tudo o que preciso deixei na sala de banho. Vendam-nos algo
se querem atrair-nos, vendam-nos qualquer coisa, uma guerra mesmo, mas vendam-
na bem. Arómatikós! Esqueci-me que ando a água mineral. É tempo de mudar.
- Posso entrar?
Só um momento e abre a porta, sem gravata, de camisa meia desabotoada.
Exponho-lhe a necessidade de escolher um perfume, ele pergunta se pode escolhê-
lo, alerto-o para o meu direito de veto. Afinal, prefere a minha escolha, admira a minha
selecção. Regresso ao armário e a minha mão retira um pacote de violáceas. Eis de
novo o subconsciente, não o contrario. E coloco aquela espécie de erva criada em
laboratório na caixa de parede que obriga a água a perfumar-se. Deixo-o sem pala-

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vras, sem lhe mostrar o rótulo apesar da sua insistência.
Estou de novo fora, a salvo de mim própria, sem saber o que fazer. Abandonar esta
porta antes que ceda ao sub? Fumarei um cigarro. Onde estará Adalberto? Talvez
tenha saído, comportamento nada original. Tenho cigarros na sala, cá estão eles. Não
posso ir fumar para o quarto, fragilizaria o consciente. Vou concentrar-me na peque-
na tocha, na sala, o Jorge ainda não teve tempo para completar o banho, vou ligar o
ecrã, saltar canais, apanhar outros mundos, esquecer por onde escorre a água, as
gotas de violetas cheirando a André.
Não basta o mundo para apagar antecedentes à criação - o desejo, o desediu, lati-
no saboroso.
- Maria!
O banhista reclama-me. E lá vou a correr ao quarto, atender à sua última chama-
da. Esqueci-me de lhe deixar um toalhão, que maquinação... Digo-lhe que deve pro-
curar no armário ao fundo, desculpo-me. Ri-se, rimo-nos, com as gargalhadas surge
a recordação. Ao escutarmos sem ver os trejeitos próprios, confundimos as vozes, a
taquicardia ataca-me. Tenho saudades de André e ele ali dentro, André fisicamente.
São espíritos diferentes em corpos iguais. E em André não admirava apenas o corpo.
Mas está morto, já não tenho de o amar. Estará? A memória é traiçoeira. Abandono-
a. De novo na sala do ecrã: mantive-o ligado para não perder as comemorações; são
comemorações, não consigo perceber nem onde nem de quê, mas são, e oficiais, são
fardas e medalhas, filas e filas. Somos todos traidores, seja do que for, por uma vez
todos somos, por isso, todos somos traídos.
- Já pronto?
- Sinto-me bem melhor, agradeço-lhe este banho.
Voltamos ao princípio, peço para aguardar o tempo de terminar a tualete.
Aconselho-o a distrair-se com as festaloras no comunicador, assim tenho a garantia
de ficar a saber a origem de mais umas comemorações, um bom começo de conver-
sa para a refeição, e fico sossegada na sala de banho, por ora. Olho-me ao espelho
e não me reconheço. Envelhecida? Eu? Cheira a Jorge, o aroma passou a ser deste
mano, bolas!
Penso: é aborrecida a personificação do cheiro.
Chamo Adalberto pelo intercomunicador, ouvirá em qualquer lugar, a não ser que
esteja fora de casa. Às vezes tomo-o por ciumento, imagino-o a deambular por mim
- um conforto para o ego. Mas é o que me parece quando lhe detecto birras, Adalberto
só sai sem avisar quando a companhia é masculina. Obriga-me a ir à sala apontar a

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Jorge o lugar das bebidas, a desculpar a sua fuga. Aproveito para assegurar que mais
dez minutos e estarei de casaco. Quando o sobrevivente Celsus termina a bebida, vê-
me a seu lado, no braço sustento o casaco que me ajudará a pôr nos ombros. Nunca
minto numa questão de minutos.
Saímos.
Suponho uma reserva para dois, desconheço onde, desconheço a alteração do
plano. Não pretendi sabê-lo. Descemos de elevador (no rápido) para o estacionamen-
to dos residentes, Jorge começa a explicar ter ficado com o apartamento de André,
no MT4. Estão longe de resolver as partilhas, mas não se adivinham os conflitos.
André era solteiro, não deixa filhos, e para a mãe qualquer confusão é desgosto, mais
quando ligada ao dinheiro da família, tudo se resolverá sem exaltações, a fortuna da
família está registado em apenas dois nomes: Miguel Celsus. Ultrapasso o assunto,
comentando os muitos outros seres que também procuram viaturas para largar este
edifício eleito pelos críticos dos parques-habitacionais, um edifício habitado por per-
sonagens do contra-senso. E este conjunto de torres está repleto de ofertas, é um
adorável gueto, Não se pode ceder à comodidade e outras formas de bem-estar que
a critica cai-nos em cima, é? Jorge olha-me interrogativo, ansioso. Dizemos banalida-
des, há exemplos na História de que o mistério se desvenda à medida da descober-
ta, não me sinto disponível para descascar negócios. Sem disponibilidade... e pesa-
me o facto de ainda nem sequer ter delineado a campanha que ele julga arquitecta-
da.
Dirigimo-nos à Marginal, iremos jantar a Cascais, aos Estoris? Não me apetece
perguntar para onde vamos, não quero saber. Fala de um episódio qualquer, quando
jovem: Jorge e André cavalgando motos, ludibriando radares, ultrapassavam a velo-
cidade do som, da luz... juntavam Lisboa a Cascais, várias idas e vindas numa só
noite; loucuras sempre bem sucedidas em noites encantadas por copos e deslumbres
de meninas. Muitas vezes mentiam sobre as corridas na Grande Capital, muitas
vezes enganaram os engates com a semelhança. Um permanecia na zona de Lisboa,
o outro nunca sairia da de Cascais, deslocavam-se em motos gémeas com capace-
tes e vestes idênticas às ocasiões. A encenação divertia-os. Levantaram-se suspeitas
– brincadeiras, trocadilhos em momentos de prazer –, jamais foram descobertos; deli-
ravam ao assumir o papel predestinado, a atitude tomavam-na por bom humor.
Divertiam-se muito os maninhos. Rio-me por simpatia e interrogo-me se terei dança-
do sempre com o mesmo mano. André nunca tentou enganar-me, divertíamo-nos jun-
tos, não precisava de me partilhar com o mano. Ter-me-ia dito.

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Fala:
- Não sei quem é que fazia esta comparação, onde é que li, devo tê-la lido em qual-
quer lugar... mas é verdade que tudo depende do clima criado, do enredo. Repare-se
num filme, por exemplo, um homem e uma mulher falam à porta de uma casa antiga,
numa pequena escadaria; falam baixo, não se sabe se de amor se de ódio, se de
medo apenas. A mulher despede-se com uma simples palavra e a câmara esquece o
homem para nos dar a mulher a abrir a porta de casa. Nada se detecta do exterior,
do que ali habita ou está de passagem. O momento da abertura da porta (isto, até,
partindo do princípio de que ninguém tocou à campainha) não nos prenderá se não
tiver sido criado um certo clima de tensão. Se for um encontro ligeiro, sem história, ou
mesmo de boa história nem repararemos como é que ela entra, nem pensaremos o
que estará por de trás daquela porta... De contrário, será a nossa surpresa. Abrimos
a porta?
E eu, apanhada de surpresa mais uma vez, a segunda pela mesma família.
Quererá dizer alguma coisa ou tenho a obsessão de interpretar? Valerá o esforço, a
análise detalhada da tese? Ocorre-me uma remota imagem cinéfila... quererá Jorge
discutir, debater histórias antigas? Bem sei que marcaram uma época, mas é isso
mesmo: marcaram! bom, será preferível levar o assunto para a cultura. Teremos ocu-
pação para todo o jantar? A experiência motiva-me:
- Tem razão.
- Admira-me, se me permite, essa anuência tardia. Para a rapidez a que nos habi-
tuou... Errarei ao pensar?
- Adora cruzar erros. Não é Jorge?
- Cruzar erros?
Terei um momento de sossego enquanto tenta decifrar o cruzamento. Depois ire-
mos batalhar um pouco no Está a Ver Como Acontece, apesar de haver situações em
que o sentido é simples, referendável, e outras que se destinam a atingir fins singu-
lares baralhando os meios. Uma possibilidade infinita? E um Celsus a argumentar que
não tem uma coisa a ver com a outra. Declamaria André: uma coisa é uma coisa,
outra coisa já nem coisa é. Não farei qualquer esforço para tentar descortinar quais-
quer efeitos secundários. Há actores que nunca serão actores, não têm garra, pensei
responder-lhe; não me peçam razões, optei por alongar o silêncio. Trocadilhos na
família só com o André, ele conhecia-me, compreendia-me. Desconheço por onde
anda o humor do homem a meu lado, apesar de conseguir prever os movimentos do
corpo... De novo me repito, Para me confundir, confundir-vos.

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André está a transformar-se num fantasma. Será? Terá o comerciante engendrado
esta partida? Nunca percorri a marginal sem pensar em algum mistério, lembranças
ténues de literatura antiga. Como é que era aquela... É difícil controlar as estradas,
os nomes, os números, as siglas, livros escritos há muito tempo. Confirmarei no depó-
sito de dados, mais tarde, ou talvez num resumo dos arquivos centrais, mais cedo.
Sigo em frente. Quero perder-me. Jantarei! E que vejo eu que me desperta? Na mesa
ao lado, comem com as mãos, são muito morenos, mesmo castanhos, são antepas-
sados; na do outro lado, são quatro brancos e não falam; na nossa Miguel Celsus
desdobra-se em banalidades. Os que não falam ouvem os outros três da diagonal:
comentam o mundo, dizem e desdizem; brincam deixando-nos, a nós, os mais che-
gados, a mexermo-nos nas cadeiras. Brincar só em privado ou na idade própria. São
negros de olhos verdes, misturam os seus usos com os nossos costumes.
Jorge fala de induções. Recordo a realidade que me inspirou para fabricar uma
indução! No caso, previsivelmente, resultou um escândalo – gerou-se um protesto
contagiante pelo seu contexto conservador; a marca chegou ao topo, digo previsivel-
mente porque recriei a realidade (como sempre) optando por uma situação mais sere-
na. Ninguém criticou o produto, mas sim a utilização de um local onde somente se
deve pensar em trabalho, para promover o lazer. Argumentaram que poderia surgir da
desculpabilização do assédio sexual; os excitantes são produtos necessários, fazem
parte dos hábitos, todavia, não devem ser usados no local destinado ao trabalho, nem
mesmo em dia de festa. Antigamente é que se misturavam conceitos, vulgarizou-se o
quanto basta, o q.b. que anda na boca do mundo. O Eros foi propagandeado em abai-
xo-assinados, recolhidos, na sua maioria, em empresas. As vendas subiram a pique.
Penso: Dei o meu contributo, recriando a cena, a vida é um somatório de cenas.

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Olhai-os! Entre as secretárias e os computadores.


Nos corredores, anda uma Afrodite perdida. Insinua-se entre os muitos convivas à
procura de um Adónis.
É dia de festa na empresa. Afrodite ri-se por quem passa, troca copos que salpica
com um líquido amarelado de um frasquinho transparente. Sorri, ri. Profere monossí-
labos.
O som de Clássica vai diminuindo. O tom das conversas cresce à medida do bam-
boleio de Afrodite.

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Há homens e mulheres que se abraçam, ficando no horizonte de uma Afrodite que
ainda não encontrou Adónis. Ninguém sabe quem é esse filho de Mirra. Afrodite exis-
te, sente-se cada vez mais desejada, desejosa, e só por uma vez encostou o copo
aos lábios.
Os olhos azuis daquela mulher dominam o ambiente.
Ei-lo num grupo de homens! Ei-lo tão só Adónis!
Afrodite não perde tempo e salpica os copos do grupo com o frasquinho hexago-
nal - pairando entre eles, quase dançando sem nunca o fazer. Adónis reage como se
preferisse Perséfona. Os outros esvaziam os copos ao passarem por outros pares.
Afrodite escolheu aquele homem delicado.
Só os dois existem, no ecrã. E Afrodite brinda com Adónis, que nada bebera.
- Ao nosso filho!
Toque de copos, toques de copos em lábios, de corpos. Brilham os olhos verdes
do belo descoberto.
Cai a garrafinha Ero Eros no soalho de madeira envelhecida.
- Afrodite!
- Adónis...
Corta!

Ero Eros! Que Excitante!...

- Maria quem não se lembra desse anúncio?! Que me quer dizer? Sou um admira-
dor das suas criações. Retomemos a conversa anterior.
- Fala, então, de uma campanha política? Colocar um político à frente de ene?
Quem?
- Saberá a seu tempo. Agora quero saber se está ou não interessada.
- Interessada? Interesso-me por tudo, mas isso não significa nada, evidentemente.
- Mas é um desafio interessante, tem de admitir. Vencer de novo a maioria.
- Não nos precipitemos...
- É como pô-los a lavar os dentes com a mesma pasta. É fazê-los acreditar num
produto, nem que seja por um dia, nem que seja pela via contrária.
- É quanto basta! Posso ponderar, posso até esquecer o nome em causa e aferir
as possibilidades, admitir a atracção de uma campanha ambiciosa.
- É quanto basta.
- Mas nunca decidirei sem conhecer a personagem.

50
- Sempre reconheci em si uma postura profissional em qualquer situação.
Atrapalha-me. O esforço, o profissionalismo serão bem recompensados...
Já não o oiço, pôs o carro a trabalhar. Não posso encantar-me com o som do desa-
fio. Jurei nada mais fazer para governo do Estado. Só poderei ceder em causa de
crença. Querença tê-la em quem? Em quem se quer no mais alto patamar? Querença
em equipas. Quando resolvi renegar? Imagine-se, colocar no topo alguém que nunca
valeria qualquer percentagem, fabricar uma imagem, vender obrigando a comprar...
Isso pratica-se há anos, porque será que me surpreendo, me armo em pudica, se é
tudo aquilo que tenho praticado? Querença em quê? No produto?
Aproxima-se a têtrês. Jorge guia enquanto fala da táctica a longo prazo. Mais
cativadora, portanto, esta proposta. Querem tomar o poder pelo voto. Não são inova-
dores: apresentar durante o tempo suficiente, mesmo alguns anos, um candidato
defensor de direitos, liberdades e garantias para se sentar numa cadeira e ser tirano
até alguém da mesma equipa querer ocupar o assento. Quando lhe perguntei, ao jan-
tar, qual a diferença entre esta vontade e a História, ficou nervoso, pediu a conta e,
antes de voltar ao assunto, tentou convencer-me a ficar na sua casa de Cascais, a
regressar de manhã ao centro capital, para poder explicar-me tudo, tintim por tintim.
Decidiu-se, afinal:
- Bom, o que nós queremos é mudar o boneco. Passar de mãos as marionetas.
Quer dizer que estão disponíveis para golpear o Estado, fazendo-se legitimar pela
maioria acéfala que acéfala se assume nas ocasiões decisivas.
- Entendo senhor Miguel Celsus. E o tal ser tem capacidade para isso? Está esco-
lhida a espécie? Existe na categoria das marionetas conhecidas?
- Não está a perceber Maria. Nós queremos que o fabrique, que invente, crie um
Messias, o tal que (tantos acreditam) regressará um dia para salvar o mundo. Preciso
que esses fiquem convencidos e que os outros, antes descrentes, pensem não haver
alternativa senão acreditar no Enviado. Temos a certeza que este trabalho se adequa
à sua pessoa, excelente profissional, de categoria qualificada, competentíssima.
- Nós, nós... mas quem são vocês?
Tem falado em nome de um conjunto, excepto quando se referiu a forma agradá-
vel como poderíamos ambos acabar a noite. Massaja-me o ego, repetidas vezes,
para me levar à certa. Mas quem faz as campanhas sou eu. Não sei se devo conti-
nuar a agir em função de desafios, de tarefas, se devo comprometer a existência de
uma série de gente que não deveria ser manobrada, que há outra gente que não deve
aprender a fazê-lo; há mais quem o faça e com toda a perícia, escolham outra. Alguns

51
chamam-lhe profissionalismo. Talvez seja necessário reflectir e começar a condenar
o que parecemos defender: o orgasmo pelo orgasmo. Outro chavão!? Tesão?
- Nós? Quem somos? Pergunta-me o quê Maria?
Decididamente, não ficarei em casa dos Miguel Celsus, não fabricarei qualquer
Messias por interesse de um grupo obscuro de personalidades anónimas. Eu também
sou egoísta. Não me custa nada admitir na cara de um Celsus a criação de um mons-
tro, não serei a primeira, certamente que posso fazê-lo. Atendendo a outros exem-
plos, talvez perca o domínio: também não penso ficar neste Estado, nesta federação.
Irei para África, o futuro do mundo, cheguei aos quarenta.
- Será preciso dinheiro. Muito dinheiro...
- Não daremos importância a gastos.
- Será preciso dar-lhe lições de tudo, de modo a que não aprenda. Segue-me?
- Claro! Para inteligentes bastamos nós.
- Habituá-lo ao luxo...
- Tudo o que quiser.
- Dando-lho de repente, tirando-o ao mesmo ritmo. Mostrar-lhe que se poderá pro-
ceder no inverso ainda em maior velocidade...
- Tudo o que disser. Confiamos inteiramente na sua experiência. Estamos nas suas
mãos. Nunca o esqueceremos.
- Mas, diga-me só, porquê?
- Recompensá-la-emos.
- Não foi a minha pergunta. Isso eu sei. Nunca faria nada do género senão fosse
recompensada, nem vocês me convidariam, pensando em poupanças. Não. Quero
saber o porquê dessa ambição!
- Pela nação.
Quer dizer que apenas é movido pelo bem-estar individual? Percebo, provavel-
mente todo o seu bando pensará na nação. Há poucas cadeiras para tantos bandos,
estes integram o mesmo bando que pretende, simplesmente, ter a cadeira. Há ani-
mais que sobrevivem porque desenvolvem as estratégias mais indicadas. Não tenho
nada contra, mas não me incomodem. Nunca provocarei Demos. A não ser... desejo
de poderio? Desediu? Latinos!
- E amanhã, Maria, jantamos?
- Amanhã? Não terá a resposta amanhã.
Quer convencer-me de que ninguém recusa o melhor contrato da sua vida. E pode-
rá?

52
- Quando jantamos, nem sempre procuramos respostas. Não é?
Jorge não aguarda a resposta e recorda-me ter apenas perguntado se eu queria
jantar amanhã. Não resisti ao estimulo e soprei-lhe um Venha buscar-me às nove.
Agradeci-lhe o belíssimo jantar. Despedimo-nos com um beijo fugidio e uma desajei-
tada troca de acenos.
Vou para casa!
O elevador é lento mas ascende! Não é o que todos deveriam querer? Cada vez
mais longe não só no pensamento, esquecendo o empenhamento anterior, interior. O
que é isto? O poder, o máximo da soberania saboreado em vagas lentas. Respondi
isso, exactamente, e resultou. Calou-se, nada mais disse, nem um murmuro. Mas foi
tão firme quando nos despedimos, tão poderoso. Jorge e André, que parelha...
Quererá distrair-me da campanha do Pai? Por quê? Para quê? Não é fácil fabricar
duas campanhas em simultâneo e tão direccionadas. Talvez seja de ponderar razões.
Todas as hipóteses são viáveis, não podemos limitarmo-nos a excluir as partes. É
exemplo a polémica levantada há dias por um grupo de cidadãos desconfiados, ocio-
sos. Resolveram pôr em causa a moralidade de alguns anúncios. Assim falaram para
os média. Escolheram um anúncio a pensos higiénicos e exigiram saber se as rapa-
rigas vestidas de branco estavam ou não menstruadas, se usavam ou não um penso
daquela marca. Foram duros, tiveram eco. Eram inofensivos, aparentemente. Mais
uma vez a marca obteve uma publicidade inesperada. Ainda ninguém provou o que
alguns defenderam sem convicção, por piada. Os interessados é que levantaram a
polémica? Seria uma manobra arriscada, fazer uma campanha do género, mas o
risco implica réplica imediata e nada é impossível quando as regras económicas que
nos regem. O produto está exposto, é tão bom que não se nota. E se as mulheres
não acreditam? Ainda não acabaram os confrontos. Estão a realizar-se debates por
todas as zonas. As videoconferências são já notícias de segunda ordem. No último
debate que deu notícia, discutiu-se qual o futuro do mundo se as mulheres perdes-
sem a menstruação. Faltou-me tempo para ler todas as notícias. Acho que não é pre-
ciso ir tão longe, como alguém o disse publicamente, repare-se no resultado que deu
discutir o sexo dos anjos, agora não se pode falar em anjos sem imediatamente asso-
ciar-lhes um sexo.
Voltaremos todos a falar no assunto. Ver-nos-emos todos os dias, durante aqueles
que estarei no meu gabinete na agência, aquele que raramente ocupo com o meu físi-
co. Irei lá durante os próximos 30 dias e não prolongarei a estada. Festejar?
Festejarei no final da campanha com quem me apetecer. Quase não resisti. Ainda

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pensei no peixe Palhaço, na substância que o reveste e lhe garante a sobrevivência
no meio das anémonas, elas não o reconhecem quando anda por ali a pôr ovos, por
isso, não o atacam... ainda escrevi o primeiro discurso destinado ao pré-candidato. Li-
o a um Jorge entusiasmado. Decidiu expô-lo ao Conselho. Não havia pressa. A per-
sonagem estava a ser preparada com requinte e um dia seria lançada com um dis-
curso inflamatório. Não resisto a inscrevê-lo neste meu epitáfio, faz parte integrante
desta minha vivência temporária.
Atenção, máquinas em manobras!

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Chamem-lhe cretinices, hipocrisias, egoísmos desmesurados...


A experiência, a minha vivência enquanto ser único entre outros únicos milhões
demonstrou-me que, na procura do conhecimento específico, o individualismo é uma
resultante do cansaço colectivo!
Todos somos diferentes, todos somos iguais.
(palmas)
Conforme as épocas!
(palmas)
Só um conjunto de indivíduos poderá marcar a devida diferença. O nosso será,
portanto, um movimento a desenvolver em diversos sentidos! Desenvolver-se-á não
tendo um único objectivo final, obrigando-nos a assumir – constantemente – impor-
tantes tarefas!
(palmas)
Missões!
(palmas)
Com o nosso movimento aniquilaremos muitos dos problemas emergentes que nos
afectam.
(palmas)
Resolver-se-ão urgências, pontualmente, sem necessidade de impor teorias cujo
prazo de validade se desconhece. Sem ser preciso impor teorias que quando se apli-
cam revelam-se caducas!
Que quero dizer com isto?
Talvez alguns de vós se interroguem neste preciso momento sobre o que digo, o
que quero dizer. Outros, com certeza, reconhecerão nas minhas as suas palavras

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muitas vezes proferidas numa intimidade que suaviza a contra-argumentação.
Por mais que se invente, já não nos restam dúvidas quanto à veracidade da ima-
ginação. Já não há quem acredite na razão!
(palmas)
Entenda-se: quem tem soluções deve, como cidadão federal, proporcionar a sua
aplicação, sem se vincular a movimentos de massas insensíveis ao significado das
palavras tarefa e missão. Assim estas devem ser entendidas: com graus de respon-
sabilidade diferenciados, sem prazos de conclusão definidos, com regras de evolução
continuas.
(palmas)
Hoje penso assim, amanhã pensarei o contrário?
Hoje penso de uma forma à qual terei de me vincular até à morte?
Interroguemo-nos sobre os valores aplicados ao longo dos milénios e entretenha-
mo-nos com a descoberta das diferenças. Detenhamo-nos sobre o seu modelo de
aplicabilidade!
(palmas)
Querem um modelo?
(palmas)
As conclusões serão, mais uma vez, individuais. Mas há quem as transforme em
leis argumentando posições maioritárias ou minoritárias, de acordo com a justificação
necessária.
(assobios reprovadores)
Não defendo a completa ausência de regulamentos de conduta.
Entenda-se: o excesso origina comportamentos contrários! Cria, entre os próprios
legisladores, uma desorientação progressiva de difícil reparação!
(gritos concordantes)
Recomeçar poderá implicar destruir e, se assim tiver de ser, deverá sê-lo sem pejo
algum!
(gritos eufóricos e palmas)
A bem de uma única Nação, a bem da comunidade individual que insiste na vivên-
cia em comum sem a interiorização do pensamento educacional indispensável!
(palmas)
De contrário, matemo-nos uns aos outros para dissolver as minorias-maiorias e as
maiorias-minorias. Para que deixe de haver pretextos burocráticos!
(palmas)

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Recomecemos a criação ou atribuamos um novo significado à palavra paraíso.
(palmas crescentes)
Quem é por mim, é por si!
(demorada salva de palmas)

Batem-se muitas palmas, ouvem-se apoios. Confundo-me. Nada aconteceu. Vou


deitar-me sem despertar Adalberto, irei com pezinhos de lã, de modo a induzir o seu
comportamento. Um Celsus espera Maria às nove. Adalberto nunca adormece antes
de eu chegar, não me recordo se já tinha registado este ponto paternal do seu carác-
ter.
Penso: a necessidade de repetir aquilo que já foi dito significará uma tentativa de
fugir à verdade?
Estou em casa. Quero pôr a mente a funcionar com discrição. Sonhar. E subi a rua,
por entre o trânsito. Subi-a devagar, saboreando os passos em terra firme. A luz inten-
sifica-se e eu sigo-a lentamente, não tenho pressa. Levei quarenta anos a descobrir
que a lentidão intensifica o prazer, será difícil convencer-me do contrário.
Escorrego numa casca de laranja e rio-me, levanto-me apoiada apenas numa
mão, sinto o físico a atingir o expoente máximo: é o domínio do conhecimento.
Escorregar numa casca de banana ainda se aceita, acontece aos melhores, mas num
pedaço de laranja nem sequer significa ter caído numa armadilha, mentira: nesta era,
as armadilhas perderam a sua característica tradicional, é bem possível atirar para o
chão outros tipos de cascas para quem passa escorregar. Tudo montado, prestes as
filmagens. E os actores? Percorro apenas meia rua, começam a chegar alguns con-
vivas, são tagarelas observadores. Não sei se é da maneira como falam se do assun-
to, certo é que nada entendo. Desconheço o tipo de conversa e estranho estes seres
tagarelas, embora já tenha ouvido falar deles. Começo a aperceber-me de que não
comunicam na mesma língua, não entendo os seus sons, apesar de a musicalidade
me agradar. São todos belos e morenos, mas não são de cá, são africanos. Africanos
ou árabes? Tentam falar-me, mas o português atrapalha-se-lhes na fala.
Vou ter de acordar, apresenta-se-me essa consciência, assaltam-me outros com-
promissos. Sonho esquisito para um dia destinado a dar uma entrevista. A inseguran-
ça é uma sensação curiosa. Uma alucinação? Que vi eu então, nesta viagem de rua
que me ocupará o pensamento nas próximas semanas? Deslumbrei-me, sensação
que este entrevistador parece incapaz de me provocar. Cansativo de tão banal.

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Estarei desiludida? Falamos de teses, dialogamos em tese. Apetece-me pouco a con-
versa com este entrevistadorzeco, respondo por exigência de quem gere a minha
imagem. Armo-me em política praticante, digo-lhe que quando se percebe que é
melhor defender uma tese é bom que se a defenda, não é preciso que nos obriguem
a fazê-lo; adianto-lhe que os ilusionistas não divulgam truques. Um escritor nunca dirá
a verdade sobre como escreve, o que descreve, vocês sabem fazer a verdade pare-
cer mentira, disse-me ele satisfeito com a sua própria conclusão.
- E não é preciso combinar previamente, nem promover encontros, onde nunca
seriam debatidas intimidades. Impropérios para o público em geral. Parece haver um
acordo tácito. Nunca dizemos quem somos.
- Não pode responder assim, sendo quem é!
- Mas quem é que eu sou? Diga-me! Quem somos nós?
Ele espera sentado. Interrogo-o para me distrair, abordo questões que não me
importam decifrar, não pretendo saber nada que me perturbe a singeleza; nem as
minhas interrogações quero debater, seria avançar num sentido adverso aos meus
interesses. Somos todos egoístas, todos aplicamos o oportunismo para satisfazer
interesses. Para quê isolar esta premissa? Ele responde-me com teorias estoiradas
por épocas, não aprofunda, prefere mudar de assunto, tentar saber o que premeditou
ajudado pela tabela de audiências.
- Como é que se sente, sendo quem é?
- Quem sou?
Diz que sofre de ataques de pânico, que posso evitar-lhe um ataque respondendo
às suas perguntas. Fala no chefe, implora-me uma mentira, a que mais me agradar.
Nada direi!
- Diz-se que...
- Diz-se que, o quê?
Que conversa esta! Deixo-o a falar sozinho. Sendo quem sou... como se soubes-
se quem sou, como se quisesse saber, como se soubesse querer. Adora ler, fez pes-
quisas, cita títulos de inúmeras obras sobre obras de alguém. Garantiu-me ter ouvido
o meu nome em bocas de crianças a quem os pais lavam os dentes com a minha
pasta, sentindo-se gratos com o meu empenho conciliador, o meu exemplo trabalha-
dor, os meus ensinamentos. Já estou nas enciclopédias... Em breve, a minha exposi-
ção será inaugurada no Museu Central. Todos sabem quem sou, todos menos eu.
Quando lhes pergunto nunca respondem, resvalam em teorias. A única coisa boa
destes energúmenos das entrevistas é aceitarem entrevistar-me no meu jardim pre-

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ferido. Poderei passear antes de regressar ao controlo de Adalberto. Está a fechar?
Não pode ser. Sou... sou uma passeante de jardins, mas também gosto de me sen-
tar em bancos metálicos às tiras; sou obrigada a saber que pouco nos resta para
esgotarmos a camada protectora. Tenho receio de que o mundo acabe, confesso, por
isso, visito galerias; tenho medo de andar, a pé, por ruas sombrias; tenho medo de
inspirar este ar de escapes; tenho medo de nada ser, nada representar; tenho medo
dos vírus, das bactérias, do ar. Serei superficial? Tudo será uma questão de sangue?
Recriemos a seiva!
Sou deslumbrante! Choco-vos? Choquei-vos sem intenção? Eu gosto de me ver.
Apreciem-me, é essa a minha intenção. Confio no meu talento! Sou mesmo deslum-
brante e se o não fosse nunca perderia tempo a registar momentos para a posteriori-
dade! É a minha história, uma parte integrante da nossa História, que vos deixo. É a
minha versão para poderdes distinguir as verdades! Cada cabeça sua verdade, diz-
se. Dantes falava-se de sentenças. O que se dirá quando o tempo já não for meu?
Terei saudades?
- Adalberto!
Tenho de voltar a deitar-me. Descansar. Tratar de mim. Estou cansada de outros
que não eu: apagam-me, isolam-me, marginalizam-me para meu bem.
Penso: uma recaída nunca vem só.
Deixem-me contactar o povo, falar de coisas simples, viver enquanto a natureza o
permite. Não se deve contrariar a natureza. Não se deve, passei a acreditar. Libertem-
me! Sinto-me sufocar. Sei que é uma frase feita, tipo Triste sabe-se que assim é,
toma, leva-a e embrulha-a no melhor papel enfeitado que descobrires. Mas sinto-me
só. Terrivelmente só ou será desesperadamente só? Ou nada disso? Tenho sempre
a companhia da dúvida. Constato! Sou humana, embora haja quem pense o contrá-
rio e me mime tendo na mira a sua própria imortalidade.
Deitar-me! Imperativo, absolutamente necessário à manutenção da minha parca
sanidade mental.
- Adalberto!
Impossível viver sem me desconcentrar todas as noites e quando se dá uma
ausência são as horas de sol as sacrificadas. Estou a envelhecer, descobri isso há
algum tempo ao ver escassear a vontade de me perder na multidão, de me deixar
transportar de vátio em vátio. Estou desencontrada, desconcentrada, não durmo há
três noites, ainda aguento estas tiradas demoníacas cobradoras ao retardador. Mas
não estou a participar em qualquer prova, porque me atormento. Ou se calhar estou,

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batalho comigo. Só. A tentar fabricar selôganes que já me custam a criar. Hoje, ontem,
amanhã, esgotei-me. Sinto a dor de não sentir os pés, de ausência de pernas e bra-
ços. Sou materialista? É cansativo suportar membros inertes. Quando o cérebro nos
atraiçoa desgastamo-nos. Não uso comparações, não há nada comparável. Ainda
estamos a descobrirmo-nos. Uma vez André respondeu-me: tu, como eu, conhece-
mo-nos, mas todos somos bons exemplos.
Adalberto surge no horizonte. Quero ir para casa, o meu condutor não acredita,
tenta acalmar-me, leu algures em mim uma inquietação. Estou do contra? sou contra
tudo e contra todos? Fui alimentando esta inquietação na presença de Adalberto e ele
confessa-me, a caminho de casa, que se sente impotente para me devolver ao lar que
também chama de seu. Talvez (adoro este termo) tenha razão, estou disposta a sabo-
reá-lo melhor, mais tarde, quero ir para casa, preciso de repouso, talvez jogue xadrez
e aprenda a defrontar Adalberto de uma vez por todas. Nunca me apeteceu aprender
mais do que o teórico movimento das peças, sempre achei o jogo das Damas mais
próximo do quotidiano, mais rápido, preciso, efémero. E agora o que é que eu quero?
O que é que quero? Irei à festa de aniversário do outro? Adalberto desafia a minha
paciência, mascara-se de Jacinto, tenta ganhar noutro campo, outro encanto, mas ele
já tem tanto. Não é tonto, tonto-tonto como tonto eu pensava. É um tanto ao quanto...
- Afinal, quero ir jantar à Zona Sul.
- Que rumo prefere?
Viadutos até à velha ponte sobre o Tejo. Direcção costa sul! Ocorreu-me de repen-
te esta ideia. Viajamos. Viajo e não me descubro. Não sei onde pertenço, porque cir-
culo, quanto mais descubro mais me confundo. Ou desentendo? Confusão, faço-a,
fabrico-a com tudo o que se encontra ao meu alcance. Ter quarenta anos não é o
mesmo que ter trinta, pode ser uma frase feita, de gargalhar para quem tem menos
dez, a mim, custa-me entender este avanço da idade que não se faz sentir no físico.
Como será quando o corpo me ultrapassar? Restarão as memórias?

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Quando a manequim aparece estão os quatro à proa, esperam-na. O motorista


abre-lhe a porta. É a última a chegar. Acena-lhes. Sobe a escada apoiada por vários
homens.
O barco navega por entre pantanais. Num ápice, acosta.
Inúmeros carrinhos solares esperam os passageiros para os levar aos aposentos.

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Os carrinhos são azuis como ali é o mar, de um tom gritante. Jovens belos de
ambos os sexos acolhem os seus passageiros, acenando-lhes. E arrancam à vez,
parecendo desprezar a formatura, rumo ao Grande Hotel da Ilha da Língua.
Dando uma demorada volta, acabam por estacionar na recepção do Grande Hotel
que se estende rasteiro pelo areal, por entre palmeiras. E vêem-se as piscinas natu-
rais, enormes para os escassos banhistas nus.
Ecoa então uma voz sensual apregoando que a Ilha da Língua está no topo da
tabela federativa dos destinos turísticos por eleição de associações e utilizadores.
Já os condutores conduzem os afilhados aos predestinados aposentos, quando se
ouve um sussurro rápido:
- Enche-me a boca de uma maneira louca.

Ilha da Língua, Europa, Portugal!


No domínio das orgias!

Apareço, vejo-os na proa à minha espera, sou a última a chegar, não sabem, mas
a minha presença esteve por um fio. Adalberto estaciona, olha-me admirado, mudo
como fez o caminho. Os outros pulam, gritam, acenam, eu retribuo-lhes os gestos e
mando o basquetebolista regressar a Lisboa sem quaisquer satisfações. O barco
parte à hora marcada, navegamos em propriedade de Zacarias Albuquerque – dez
minutos a contornar pantanais esgotados pelas automariscadoras europeias.
Condutores esperam-nos em carrinhos de três e cinco lugares, protegidos por toldos
transparentes, carrinhos feitos de tubos da cor do mar, aqui azul gota a gota. Os lin-
guareiros escolhem os visitantes que querem servir durante a estada; mal nos senta-
mos, desprezam a formatura e arrancam rumo ao Grande Hotel da Língua, uma via-
gem curta se directa ao aposento, um pouco mais longa se o desejo for obter uma
panorâmica geral da pequena ilha e sentir, desde logo, o domínio das orgias, seguin-
do o conselho dos rapazes que vão manejando o diminuto volante e falando no patro-
no da Língua. Patronos são todos os servidores, basta pedir e o nosso desejo é satis-
feito, de imediato, pelo linguareiro mais próximo.
À chegada, informámos o jovem sobre as nossas pretensões (ele tem obrigação
de as conhecer, aqui sabem sempre quem é quem, quem quer o quê), fomos condu-
zidos directamente aos aposentos, propriedades temporárias de Personagens
Especiais, vulgo PES. Possuo um espaço, evidentemente, troquei a concepção da
primeira campanha do Grande Hotel da Língua de Areia pelo gozo de 60 dias vitalí-

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cios numa das tendas da ponta nascente. Reclamo pouco esse direito, sei que quan-
do apareço, mesmo de surpresa, sou bem-vinda; o proprietário, continua meu clien-
te, adora as estadas de marias brancas, seja um dia ou dois meses, diz que o bene-
ficio é da Língua. Nesta permanência à beira de água, partilho com Jacinto um espa-
ço amplo, numa das tendas que me está destinada, há espaço para os dois, não me
perturbará demasiado. Os Zacarias Albuquerque são nossos vizinhos, há uma passa-
gem entre os aposentos, se a quisermos abrir...
- Jacinto, vou tomar um banho. Irás fazer o mesmo?
- Sim-sim. Jantamos na boda, é?
- Combinámos com os Zacarias.
Jacinto mostra-se aborrecido, teria gostado de escolher o restaurante para ir ao
lugar do costume, no centro, à única tenda fechada ao mar. Acha que andamos todos
na prática da influência, influenciamos e saímos influenciados. Porque será que
temos de ir comer todos ao mesmo sítio? pergunta o meu amigo sem obter uma res-
posta, não me apetece alimentar esta conversa, Jacinto atravessa uma fase de
obsessão por influências, detecta-as onde ninguém consegue vê-las, apanha-as em
todo o lado; é um neurótico obsessivo, diagnosticado, para mim, o problema dele é
uma neurose de carácter, insuportável, nesta fase, para si, qualquer iniciativa ou
gesto lê-se no dicionário do lado obscuro do mundo, qualquer pessoa é uma amea-
ça ao bem-estar comum, qualquer palavra tem um significado duplo, pelo menos. O
meu amigo entrou numa fase de palilalia, repete-se sem se fazer entender, diz abo-
minar o sentir universal, critica a falta de transparência nas atitudes tomadas por
quem decide em nome de um NÓS. Mas nós viemos à Língua com o propósito de fes-
tejar, sem restrições, a passagem dos quarenta anos de um amigo de adolescência
que resolveu reunir uns bandos para comemorar a entrada nos enta. Jantaremos na
boda sem a presença do aniversariante, será respeitada a moda, mais logo ele apa-
recerá.
- O que é certo é que já todos os norte-americanos comem com garfo e faca, e os
europeus gozam agora o prazer do garfo em mão de faca.
Esta conversa indica que Jacinto se conforma com a ideia, já sabe o que ves-
tir ao jantar, ele adora esta comparação entre americanos e europeus recolhida na
tele-informadora que inquire e debita percentagens nas ruas da Grande Capital.
Estamos convencidos, Jacinto oferece-me um cálice de Vermê, brindamos a pensar
que temos pouco tempo para nos enfeitar. Resta-nos uma hora, restam-nos, afinal,
horas infindas, do jantar até à Surpresa da Prima-dona serão horas infindas, não que

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seja desagradável refastelarmo-nos na boda, porém, o nosso interesse é sermos sur-
preendidos e já não é fácil isso acontecer com uma refeição, o nosso objectivo é o clí-
max, há casos...
- Aparentemente tudo se resolve com uma interacção de esforços.
Quem disse? Não sei. Silêncio! Também o vejo entrar no salão e como todos emu-
deço na apreciação involuntária, também olho deslumbrada para Lino Glória, que vejo
depois de ter saboreado um repasto bem ensopado? Algo surpreendente que reduz
o período anterior a um jantareco, apesar da concepção nos ter causado alguma sur-
presa. Não vou especular sobre o seu olhar, não pretendo divulgar facetas de outra
figura pública que não a minha pessoa. Glória é deslumbrante de feio, eternamente
encantador, quando quer impressionar encanta serpentes ao toque de flauta. E assim
ele entrou: sentado num tapete voador, arrancando sons encantados a um estranho
instrumento de onde saia um réptil ondulando. O tapete aterra suavemente, o meu
amigo quarentinhas levanta-se e recita qualquer coisa numa linguagem estranha à
maioria dos espectadores.
- ... E mandoulhe cortar aquelles menbros, que os homeens em moor preço tem;
de guisa que nom ficou carne os ossos que todo nom fosse corto; e pensarom
Dafonso e guareçeo e engrossou em pernas e corpo, e viveo alguuns annos emjalha-
do do rosto e sem barvas, e morreo depois de sua natural door!
O salão quedou-se estupefacto. E cuidou-se alguém de inquirir o artista sobre tal
representação? Glória, na sua extravagância, quedou-se silencioso, junto ao tapete,
aguardando reacções, e nada; proporcionou alguns minutos à plateia e nada ouviu,
então, aproximou-se do meu lugar, murmurou ter vindo num antigo tapete persa e lan-
çou-me as folhas acabadas de ler. Passeia agora de turbante e tanga, cumprimentan-
do os convidados que circulam pelo salão, acena a cabeça, estende as mãos. É puro
acaso reconhecer quem nos cumprimenta. São muitos os convidados neste ambien-
te nublado, tudo se enquadra neste cenário das arábias, todos vestidos para a oca-
sião, pretende-se comemorar os anos de Lino Glória e os feitos de antepassados
remotos, com interpretações ao gosto de cada conviva. Observo-os: envergando
fatiotas extemporâneas, acenam com as cabeças, concordantes. E num rompante os
homens puxam de leques, há muitos leques no ar, ninguém pega em copos e nas
mãos das mulheres vêem-se bengalas. Elas, ora fixam o olhar nos homens ora bicha-
nam, encobrindo com as mãos os sorrisos marotos, saboreando o movimento vigoro-
sos dos machos. Todos têm um papel nesta cena, mostram-se agradados; todos
entenderam que acabou de ser lançada uma mensagem qualquer, confidenciam, em

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tom baixo, terem agarrado as pétalas soltas por Glória, não adiantam pormenores,
ficam-se como se algo desfeito merecesse mor castigo (MOR?) ou será que se traem
em consciência. Mor, registe-se que este termo sobrevive e eu gosto do paladar.
Nós ficámos pra lá da Surpresa Prima-dona, eu, Jacinto, os Zacarias e um núme-
ro incerto de convivas dependentes de embarcação, os demais recolheram-se por aí,
aos tombos, outros foram levados pelos linguareiros. Os barcos privados só aportam
mediante autorização, à noite o movimento é restrito, os linguareiros preferem ir pôr
ou buscar os forasteiros ao largo, uma dezena de cada vez, para não se perder o con-
trolo, não pode haver excesso de clientes, é o único excesso verdadeiramente proi-
bido. Estamos numa língua com direito reservado a admissão, não há residentes que
ultrapassem os dois meses no complexo hoteleiro deste areal perdido no mar, só os
empregados podem aqui residir. A Língua não é um sistema abstracto, aqui, qualquer
acaso está previamente combinado.
A manhã já tem algumas horas, e estamos estendidos, agrupados, alguns acasa-
lados. Cada um no mais diverso entretenimento. Nós, os do meu bando, divagamos
sobre o regresso a bom porto: como atingir terra firme quando nem firmeza possuí-
mos nos passos? É melhor prosseguir a conversa, continuar a beber o verdadeiro
néctar desta era. Néctar, sim! Bebida benévola que extasia sem efeitos secundários,
diz-se, até, que beneficia o funcionamento do organismo. Não se serve em qualquer
lugar, embora a sua venda apenas seja controlada nas zonas do terciário e nas subur-
banas, a certas horas do dia, uma decisão tomada para criar apetência à sua volta.
Nas festas servem-na, a Vermê e muitas outras coisas, ir a uma festa é melhor do que
nos expormos na farmácia. Guardo em casa um lote desta Branca da marca
Vermelha, não vá alguma vez esgotar-se. Os portugueses chamam a esta bebida
Vermê, o nome Bebida Branca não pegou, em outro idioma que não o nosso as pala-
vras parecem soar melhor. Nas garrafas e nos copos é um líquido lácteo, se não a
baptizássemos de Vermelha podia confundir-se e a cor branca apenas se vende bem
quando se trata de roupa, a publicidade dita a moda. Os ingleses chamam-lhe White
Drink, dizem o nome deixam a marca, cá tentou-se chamar-lhe Branca mas o publico
ganhou dizendo Vermê, a bebida é branca como tudo o que é puro, é lácteo porque
é uma via para as estrelas, não existe qualquer contradição em referenciá-la com a
palavra Vermelha. Os fabricantes ainda pensaram misturar-lhe um pigmento verme-
lho para igualar nome e cor, no próprio instante compreenderam que sairia outra bebi-
da distinta; a razão pertence ao público e seria mais fácil comercializar o revigorante
rendibilizando os diversos significados da cor vermelha e a aparente contradição. Cá,

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pelo nosso Estado, os representantes do consórcio ainda ponderaram se adoptar o
Red Drink ou baptizar a bebida de Encarnada, esquecendo a marca, todavia, alguém
descobriu uma eventual ligação do adjectivo à ideia de carne e o estudo de mercado
reforçou a ideia: o público gosta de estrangeirismos. Branca é que não, logo Vermê.
Confusos? Melhor, mais consumem.
- Ficou vermelha, por consenso dos publicitários. Foi assim mesmo, Jacinto.
Acredita!
Jacinto nunca me perdoa, já contei duzentas e cinquenta e sete vezes a indiferen-
ça de 48 por cento dos inquiridos; não concorda com aquilo que classifica de mano-
bra das mentes, reafirma-se um rebelde nas palavras, lambe-se ao pensar na Vermê,
adora embebê-la em álcool. Não nega a existência de um contra-senso curioso no
baptismo desta bebida natural inventada por portugueses. Quanto ao progresso,
Jacinto fica-se pela negação de teorias e práticas impróprias, aliás, todos sabemos
que ele tanto diz sim como diz não.
- Bom, se a bebida ficou vermelha é porque de facto tomou a cor. Ou não?
Respondo para manter a conversa. Os Zacarias mostram-se diferentes dos janta-
res do Moreiredo, preferem beber a intervir. A bebida mantém-nos vivos, satisfeitos, e
não nos corrói o corpo, desagrava o cansaço acumulativo, não trata a origem, não
dispensa a terapia. Rimo-nos de quem tem compromissos esta tarde, não os há no
nosso bando, em outros serão poucos, com certeza, poucos são os que se compro-
metem à quarta-feira, em privado, talvez, até porque é essa a razão da folga a meio
da semana consagrada aos criativos: dia destinado a compromissos particulares.
Eis o anfitrião que abandona o sorriso complacente e nos leva gargalhando pela
beira de uma das piscinas publicitadas como sendo naturais. Lino Glória convida-nos
a nadar nas águas límpidas, constantemente renovadas por um sofisticado sistema.
Estamos numa língua de areia sem conseguirmos detectar um verdadeiro grão; exis-
tem compensações mais preciosas do que um extenso areal, esta língua não deixa
de ser o paraíso, e há uma estreita faixa de areal pela costa da língua. Espantoso,
todos envergamos um fato de banho; espantoso pela rapidez dos gestos na substitui-
ção da indumentária, apesar de nestas deslocações se substituir, à partida, a roupa
interior por uma outra semelhante mas impermeável. Ninguém se atreve a desnudar-
se, não existe razão plausível entre gente tida por responsável, se fosse no mar...
Dantes, aqui, neste lugar, não se corria qualquer risco, agora recomenda-se a liber-
tação em privado. Alguns do bando ainda se lembram da Língua ser um privilégio
mais restrito, quando nem tudo representava um acontecimento social, o problema é

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que há sempre quem arranje dinheiro para obter uma entrada – uma passagem para
outro mundo, onde só passará um dia da sua vida. O que lhes digo é que conceitos
imutáveis só enquanto dura o período da descoberta que é a mãe de toda a esperan-
ça... costumava proclamar na minha adolescência ser o meu pai o pensamento e a
minha mãe a descoberta...
- Sou uma megera!
Brinca o anfitrião Glória, meu companheiro de diabruras inocentes.
- Aquilo que se diz nesse tempo em que se sente possuir o mundo...
Intervém Jacinto, calando-me. Decididamente, a telepatia pode tornar-se irritante.
- Água connosco, estamos quase na hora de almoço.
Compreendemos o Mundo. Aproveitaremos a água. De novo o anfitrião nos arras-
ta e todos lhe imitamos o acto corajoso de mergulhar de cabeça, no lado mais profun-
do. Mergulhamos em grande alarido, damos braçadas para atingir a escadaria de
mármore. Eu e o anfitrião alcançamos os copos e mandamos os empregados levar
os outros aos donos que ainda se banham prazenteiros.
- Já provaste este líquido? é salgado.
Respondo que não, claro que nunca bebera daquela água.
- Está bem. Eu também nunca precisei de beber água do jarrão das flores...
- Que queres que faça?
- Calhou-te uma vez...
Ri-se e não termina a frase. Entendeu nas minhas palavras uma censura. Explico-
me:
- Não me percebeste. Não estou a censurar-te, nem a culpar-te do que quer que
seja. É um outro tipo de experiência. A água para manter as flores é revigorante, por
uma vez tentou-me...
Rimo-nos, encostando os ombros, cumplicidades. A vida tornou-nos cúmplices.
Merece um registo vago a razão por que naquela noite bebi a água da jarra: estava
muito longe de casa, sem Adalberto que na altura era um tal Velino, a quem raramen-
te chamava Lino, também não chamo Berto ao... se, nesse preciso momento, fosse
Adalberto o meu contratado... se tivesse que beber do jarrão tê-lo-ia feito em minha
casa, segura por me saber bem acompanhada. A água soube-me docemente como,
suponho, me aconteceria em qualquer outro lugar desde que em idênticas circunstân-
cias. Reconheço que voltei a baralhar os factos, acontece sempre que tento justificar
aberrações. E, então, com...
E estou salva de justificações. Há um grupo recém-chegado à piscina, são seis que

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gritam dentro de água clamando a salvação divina. É o efeito do álcool combinado
com o Vermê – uma tentação que garanto não acontecer no dia-a-dia, com a propor-
ção verificada em ocasiões festivas ou, em menor grau, aos fins-de-semana.
Seguimos os povos do frio em usos e costumes saudavelmente cómodos, apesar de
mantermos o sul intocável. Há bandos da noite e bandos do dia, os diurnos acham a
palavra bando um disparate, recusam qualquer qualificação julgando-se os únicos
detentores da diversidade. Verdadeiramente, o que me irrita nestes seis aprumados
é só conseguirem actuar em língua alheia, nos seus lugarinhos de residência a nada
se atrevem. Discordam de quem pensa o contrário, evidentemente... apenas acentuo
esse facto porque conheço quem não discorde de quem pensa o contrário. Reino, de
reinar aos reis e rainhas? Estou ébria... a propósito de brincar, ainda ontem me apre-
sentaram mais um assessor do Estado, um tal Costinha Silveira, um amigo de um
meu amigo que meu amigo não é. Disse-me que era o Toné, para os amigos, espe-
cificou sem ter tido de mim qualquer sinal para trocar intimidades, garanto-vos. É esse
Toné quem comanda o bando dos nus que não pára de se obrigar a mergulhos e
satisfações gritadas. O nosso bando ri-se. Nada mais podemos fazer, diga-se em con-
fidência. O bando do anfitrião não pode, nunca, impedir os outros convivas de dispa-
ratar, mesmo sabendo daí advirem problemas a precisar de muita energia para os dis-
sipar; eles, extasiados, desperdiçam Vermê atirando-a à piscina e, de seguida, mer-
gulham em busca do néctar, fazendo de peixes.
- Vês? Eles bebem a água.
- Ter-nos-ão ouvido?
Facilmente se desvaira nestas confraternizações linguinformes, representam
zonas exclusivas do grande lazer, mantidas para a libertação do gozo, sustentadas
para diminuir as perturbações ao quotidiano. Muitos só agora compreendem a razão
da dura peleja para se manter aquilo que afinal se pretende destruir em nome de
moralidades estranhas. Veja-se o tratamento dado ao corpo, há quem nunca reconhe-
ça os períodos de tréguas; desfazemos corpos sem apelo nem agravo. Tenho náu-
seas.
- Vamos para casa Adalberto.
Despeço-me à francesa. Adalberto apareceu, assim, como num gesto de magia;
abraço o meu príncipe encantado que nunca será esquecido. Que faço eu? Adalberto
leva-me num carrinho amarelo, ele estava na Língua, não regressara sozinho, por aí
fora, não se fizera notar. De novo sós. Está ali um homem a fazer gestos estranhos.
Fala em inglês. Quer ir para a praia? Mando-o entrar. E prego-lhe uma lição de lin-

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guística, explicando com ênfase a diferença entre uma língua permitir o tratamento
diferenciado e outra negá-lo. Os ingleses entendem que são auto-suficientes sendo
ilhéus... Ainda sentado no carrinho, balbucia não ser egoísta, bastarem-lhe os proble-
mas de consciência do reino, acreditar em lendas, reconhecer a Irlanda... Que dizer
a um ente que não aprecia porque ignora? chamar-lhe atrasado, mal educado? con-
vencido? Os franceses dizem que pagaram um preço demasiado elevado para serem
franceses, os portugueses continuam a pagar um balúrdio por o serem, mas por que
estou a dizer isto a um inglês, ainda por cima em português? Paramos. O britânico
abandona o carrinho a meio percurso, suponho que intimidado. Ainda bem, sufocava-
me a excitação de roubar um momento de sossego a um inglês, meu concidadão, já
fiz o mesmo a um alemão e não é porque rima que registo esta atitude; se sinto o
dever de realçar o meu lado nacionalista é porque admito que alguém possa confun-
dir atitudes, há quem diga por aí que quem desdenha quer comprar e que eu escon-
do um desejo de internacionalização, uma ambição desmedida, que defendo o país
mas detesto o Estado, defendo a produção nacional apenas para me proteger.
Nacionalismo barato? Justifico-me demasiado? Maneiras, como direi, fórmulas de
dizer? Não significa que minto, antes sim o que entendo. Tretas!? não deixa de saber
bem dizê-las e ouvi-las. Não?
Nunca escondi ser pus o que trago na garganta e me provoca convulsões matinais.
Nunca o tinha dito? São escarros - matéria viscosa para atirar a quem brama despro-
vido da verdadeira expectoração! Odeio para conseguir amar. A idade quer matar-me,
todos me querem matar, há quem desconfie do meu cabelo. Nunca lhes entregarei a
certeza sobre a minha personalidade, neste registo julgo contar o que pretendo, tenho
consciência de dar a entender o que não quero. De vez em quando ultrapasso-me,
acho que são influências do Jacinto. Acreditem que não me impressiono facilmente:
hoje ao reler as criticas aos meus êxitos... fiquei apenas nostálgica. Tão somente!
Bom, indigna-me ainda a desfaçatez de outros quererem apenas querer sem enten-
der uma palavra escrita, daquelas palavras que se escrevem para dar a entender e
não para proporcionar entendimentos longínquos, porque os desprezo. A razão não
me assiste quando assim vocifero? A razão atormenta e a lógica só baralha. Sinto-me
ligeiramente diferente. E não venham dizer que faziam de mim outra ideia. É tudo
mentira! O que dizem, o que digo... Só se não existíssemos seríamos verdadeiramen-
te solidários. Quantos seres represento?
Continuo a gostar de acasos.
Acreditem que não me impressiono, as criticas aos meus êxitos deixam-me ape-

67
nas nostálgica. Tão somente? Bom, indigna-me a desfaçatez de outros quererem
apenas o seu querer sem entender uma palavra escrita, daquelas palavras que se
escrevem para dar a entender; para proporcionar outros entendimentos. Por que os
desprezo? A razão não me assiste quando assim vocifero? A razão atormenta e a lógi-
ca só baralha. E não venham dizer que faziam de mim outra ideia. É tudo mentira!
Repito! O que dizem, o que digo... Só se não existíssemos seríamos solidários.
Quantos seres represento?
Continuo a gostar de acasos.
Não quero que me entendam! Calma, também não sou apenas uma personagem
inventada, também posso apelar ao vosso entendimento. Enlouqueci? Talvez, dirão.
Estou cansada de falsas noções, saturada de ter que perceber tudo para concluir que
nada entendo. Amargurada? De modo algum! Ah! Engano-vos? Evidentemente, como
gosto de dizer. Só eu conheço a verdade: os anos passam por mim, e ficam.
Renasço e sei não estar longe o dia de todos os meus pertences irem parar ao
Museu Central; vão todos ali parar, todos não, os dos iluminados eleitos pelos pares.
Um dia todos os meus pertences estarão no Museu Central, foi para isso que vivi.
Eia! é preciso elucidar-vos. Nestes dias que deixei em branco, nesta semana liberta
de campanhas e durante a qual nada escrevi, irritei-me ao compreender que tentam
matar Maria Branca. Só agora desabafo. Julgo a propósito frisar que nunca esquece-
rei André, ainda não desvendei o mistério da morte. Terá morrido? Em mim vive. Gozo
férias sem prazo, nada sei do outro gémeo; não despedi Adalberto e Adalberto nunca
pretendeu deixar-me; deixei de ir aos jantares mensais do Moreiredo. Quem me terá
descoberto, destemperado? Tentam reinventar-me. Terei morrido? A primeira exposi-
ção das minhas obras está prestes a ser inaugurada no Museu Central.
Penso: terei passado de uma motivação disjuntiva para uma motivação conjuntiva?
Abandonado a temporalidade, adoptando as satisfações permanentes encontradas
na realidade?
Esta semana, recebi uma carta anónima, transformou-me; suo quando penso que
decidiram anular a minha actual existência. Persistência, quer queira quer não, rima
com permanência, por isso, me refugio há algum tempo no Museu Central. Antecipo
o fim? A mensagem não determinava datas, apenas impunha que aparecesse no
Museu Central. Espero há três dias esse recontro, a casualidade é uma questão de
fé, espero à porta principal do museu. Ontem, julgo ter visto quem me quer ver. tro-
cámos olhares, nem sequer nos aproximámos. Estranha esta sensação de angústia,
é novo para mim este sentimento. Sigo por corredores que terminam em corredores,

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sigo correndo nas galerias. Busca! Nisso a carta era explícita, dizia: busca com ponto
de exclamação.
Vejo umas pernas junto àquela obra envidraçada, é impossível descortinar-se da
porta o dono do corpo. Passei por aqui ontem e ninguém vi, agora assaltam-me a
vista umas calças folgadas. Não chega para adivinhar se se trata de algo humano.
Pode ser uma obra de arte. Avanço? Tenta-me espreitar o encoberto, noutra ocasião
já o teria feito. Neste momento, espero encontrar o homem por aqui, é de certeza um
homem quem me escreve. Vou explorar o corredor principal. Acredito em cartas anó-
nimas. Julgaram-me assustada? Nunca tinha recebido mensagem tão tentadora e tão
tímida. Medo de quê? Não corras!, diz. Porquê? Interroguei-me várias vezes ao ler as
cinco exclamações: No Museu Central! Busca! Não corras! É tudo paus! Evita o pri-
meiro encontro!
Regresso à entrada da galeria das calças. Terão desaparecido? Lá estão as ditas
de pano folgadas, no mesmo lugar. O pano fará parte da obra plástica? Talvez seja
melhor verificar, de novo, onde acaba o corredor, entreter-me, atirar um olhar a mais
três ou quatro galerias. Curiosamente respiram gente – passeantes que julgo indife-
rentes ao que vêem. Miram os cantos num frenesim. Observo. O Museu Central abre
as zonas interiores conforme os dias da semana, conforme o número de bilhetes
reservados; a entrada é gratuita, o dinheiro que se paga pelos bilhetes destina-se a
financiar uma associação qualquer ligeiramente devota da benemerência. Alguns
comentários quebram o silêncio, são de rumorejantes. O museu ficou cheio deles,
num repente. Pode ser que saibam o que dizem, parecem divagar; diz-se que rumo-
rejam para iludir ouvidos, que os murmúrios mais valiosos saem por entre lábios dou-
tos, que não se deve murmurar em lugar algum.
Regresso à pintura envidraçada, não acredito na possibilidade de desperdiçar
tempo numa observação, não entendo as criticas à contemplação, dizem que as
horas são-nos fornecidas para que sejam utilizadas de uma forma racional. O museu
é uma surpresa diária, dá-nos sempre algo de novo, faz-nos regressar. Lá estão as
calças, na mesma posição de esforço. Calças largas de bonitas, em tons laranja, ple-
nas de vincos. Aproximo-me desconfiada. São reais.
- É tudo paus...
Não reconheço a voz, estranho o tom do comentário, sinto um tremor, uma ansie-
dade, demorarei a responder, avançarei com cautela. Vou deitando olhares a outras
obras. Até aprecio arte – como querem que vos diga? - praticamente todas as formas
e gosto de conhecer objectos estimados por gente famosa, como qualquer cidadão.

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Mas como neste momento tudo me dispersa, aceito quaisquer comentários. Tudo
poderá ser paus, começo a acreditar, já aqui estive, práqui virei. É ele, o autor da
carta! Quero fugir. Releio a pequena folha amarelada: evita o primeiro encontro!
Quero segui-lo à letra, aceitar o destino. O ser move-se. Traz ao colo uma criança de
óculos e fala como se tentasse surpreender um adulto, disfarçando o nexo.
Impossível desviar o olhar, tento disfarçar a obsessão com um sorriso, viro-me, ele
sai, espreito-o da porta: move os vincos pelo corredor, continua a falar para o ser de
colo, talvez educando, talvez educanda.
Coincidências? A carta alerta para a possibilidade de um primeiro encontro frustra-
do. Saio na direcção contrária. Não foi nesta galeria das exposições temporárias que
três vezes vi quem busco, três vezes à mesma hora! A exclamação assalta-me. A
ânsia adiantou-me, faltam cinco minutos para a hora habitual. Terei mudado o rumo
do destino? Se assim fiz, não mais poderei voltar. Terão acabado os encontros na
galeria? Rasgo a folha mensageira e como é folha como-a para que faça parte de
mim. Procuro as campânulas ajardinadas, um lugar assinalado - jardins, por ali à
direita - é por onde vou. Algo no ar me atormenta, devo fazer uma jogada para repes-
car a meada? Ei-lo! Fixa-me a curta distância. Pela primeira vez diz-me Olá Bom Dia.
A voz intranquiliza-me, os olhos nada me dizem, mudamos, temos de mudar. É pre-
ciso delirar. Resta pouco tempo. A idade mata-me, é ele! Este é o homem da carta.
- Vamos para casa.
Agarra-me no braço e eu aceito dar-lho. Tomé, assim se chama, disse-mo sem que
lho tivesse perguntado. Só em casa me apercebo do significado da aparição. E vejo-
o envelhecido no espelho, a barba por fazer, o brilho nos olhos. Apetece-me chamar-
lhe André...
Tomamos um banho? Entro no chuveiro. Há atitudes de consequências irremediá-
veis. Puxa-me para fora, suga as gotas violáceas percorrendo o meu peito, no chão,
rendo-me ao tactear eréctil, um golpe de ancas e julgo evitar que tudo expluda num
só solavanco. Ele sabe, e envolve-me, envolve-se. Age seguindo o desejo do meu
corpo. Inventamos uma praia, molhamo-nos na chuveirada, e uma onda empurra-nos
para a areia. Embrulhados arrastamo-nos para o quarto. O prazer agita-nos, liberta-
mo-nos. Molhados somos eternos. Agarrada a André voei, abandonei-me ao prazer;
tantos anos de sedução ardente a esvaírem-se num só encontro, não tenho medo de
os perder. Quem me dera poder esquecer para não comparar! Separamo-nos doce-
mente e amarinhamos para a cama. Dois extenuados sorrindo, como foi bom entre-
garmo-nos ao destino. Olho-o e não me surpreendo, tenho dificuldade em entender

70
esta sensação que me atira para o passado. Arrisco, pergunto se pertenço às suas
recordações. O homem pergunta o que entendo por recordações, lamenta-se, a sua
memória encontra-se inacessível. Paciência (digo eu incrédula), readapto o discurso,
sei ser compreensiva.
- Não é necessário ter memória, quando o destino deixa de ser uma preocupação.
Até se fazem cirurgias de limpeza... certas incapacidades são dádivas dos céus.
- Os meus recursos são escassos. Absorvo o que existe tal como existe e as com-
parações? somente as faço com aquilo que me dão do passado, vivo o presente.
Sinto-me tão banal, há uns anos juraria conhecê-lo. Tomé é um anjo. Ouvi-lo-ei um
pouco mais para poder acreditar ser-me estranho.
- Tem o privilégio de nunca se lembrar, é certo?
- Entendo como se constroem os factos. Para mim, és uma visão.
Ele desconhece esta Maria Branca, como lhe dizer que não sou tão diferente quan-
to pode pensar, sou quem sou vivendo do presente, deixando o passado entregue a
outros.
- Tenho da memória uma memória... Acho preferível acreditar num rumo previa-
mente definido, pouco se pode fazer. Nada de rasuras ou se acerta ou se rompe?
Será mais fácil viver quando viver se transforma na peça de um jogo? Admito o
esquecimento intencional...
- Não me interrogue sobre essas coisas. Estou impedido de responder. Mas uma
coisa bastante agradável eu sei: quando estou consigo amo-a.
Não sei que dizer. Estou encantada, só me apetece escutá-lo.
- Gostaria tanto de voltar a rir contigo... Maria, nome invulgar. Há personagens,
assim, com o poder dos deuses. São agradáveis lembranças: o riso, a voz, este chei-
ro. Lembranças ténues que me povoam, que quero fortalecer e só tu...
Entoou o meu nome docemente. Lembrar-se-á das últimas vinte e quatro horas?
Acompanhar-me-á para sempre a angústia de ouvir perguntar como foi ontem? Mas
sabe tão bem sorver palavras de amor servidas quentes, sabe tão bem refazer recor-
dações. Assumo a minha posição solitária, mas tenho recaídas. E se acontece encon-
trarmos, mesmo quando nada procuramos? Mando Adalberto levá-lo a casa. O sol já
nasceu. Mais uma vez me confundo, perdi o poder de. Beijamo-nos na sala até
Adalberto chegar, fico ansiosa porque ele promete ligar-me mais logo. Leva escrito
num papel mentolado: impossível esquecer ligar a Maria. Aperta o pedaço com as
mãos, cheio de medo de perder a lembrança. Talvez um dia falemos sobre a outra
carta.

71
Saem os homens. Com certeza esmiuçar-me-ão a aparência. Calculo, como sem-
pre o faço.
Deito-me até Adalberto regressar. Tomé está em casa, seguro. Adalberto conta-me
ter lutado por mim, falado de Luísa ao senhor Tomé; falado do seu fiel comportamen-
to ao mais leviano dos homens; das suas qualidades de mãe; dos seus excelentes
cozinhados resultantes das receitas recolhidas pelos séculos da família. Adalberto é
tramado. Conheço a famosa Luísa, excelente anfitriã de um lar à antiga que faz ques-
tão de manter para lá das aparências. Julguei-a fraca, ao conhecer aquela residência
de três andares com piscina conversível no terraço. Conversámos pouco nessa noite
de festa. Acho, ao fim destes anos, que ela não quis distrair as atenções dos homens
presentes para me ouvir falar sobre mais uma promoção, certamente polémica. Podia
tê-los encantado, mas Luísa cedeu de bom grado o papel. Dias depois, convidou-me
para uma partida de bilhar, no salão do seu condomínio - um pretexto para juntar à
mesma mesa as mais diversas personalidades femininas. Só eu não sabia o que
fazer com aquele pedaço da vida que nunca me interessara. Fiquei a saber que impor
a perícia a corpos roliços, estáticos mas esquivos, pode ser confrangedor. E a con-
versa entre cada tacada: concisa troca de palavras de um só significado, jogamos
com a cumplicidade própria dos homens quando falam de sexo. Ajuízo por mim.
Fabriquei cálculos a vida inteira, desperdicei a essência matemática, uma só tacada
arrasou a minha convicção na ciência das mentes. Bola preta. Estarei mais vulnerá-
vel? Ter-me-ei confrontado com algo inesperado, com algo a que nunca dera tempo...
perdi a razão ao manipular as noções. Tenho obrigação de conhecer os destinatários
das mensagens encantadas, fiz vencer os mais variados produtos. Padronizar com-
portamentos, uma ideia vital a ofuscar-nos os anos. Nós aproveitamos as oportunida-
des, apenas isso. Vivo numa desmedida virtualidade. Foi assim, recentemente des-
cobri de onde vinha, para onde vou, provavelmente.
Amanhã regresso ao Museu Central, lá estará Tomé adorando obras que irá esque-
cer. Esperarei à porta. Há-de ligar, prometeu. Esperei até a luz do comunicador se
acender. Meu Deus, a campainha tocou! Falamos.
- Ligas-me para falar do tempo? És mesmo tu, Tomé esquecido?
- Oh! canta-me lá esse olá derretido... por ontem. Quero dizer... gosto de ouvir-te...
- Comprometes-me o olá... Fazes ruídos com a boca! Afinal tu existes...
- Mesmo! ou será que me inventaste?
- Não sei. Já lá vão vários dias...
- Ouvindo-te, norteio a minha vida. A tua voz encanta, diz-me olá.

72
- Queres com isso dizer que tenho pressa? Uma velocidade acrescida por pura
intenção, uma atracção por vertigens?
- Ainda bem que não estou a entender-te. Assim, somos obrigados a encontra-nos
amanhã. Amanhã na galeria?
- Queres conhecer-me melhor? Adoro esses teus ruídos ternurentos... Olha que
não és único. Não sei se vou entender essa tua vontade de não memorizar.
- Vontade? Amanhã na galeria. Adoro-te, Maria...
- Até então, no museu....
Escorreguei. Passaram-se séculos sem sentir o solo a derrapar. Solo. Descansem:
nunca pensei incluir neste registo que se pretende curto, uma história de amor. As pai-
xões invadem-nos sem aviso prévio, mas eu não deixo. Vou para a sala, hoje será
escritório, aqui trabalharei. Apetecia-me reencontrá-lo, mas o Museu Central enerva-
me. Todos os dias aquele espaço isento de humidade embalsama algo de meu.
Reforcei a consciência: tudo o que escrevo é para a posterioridade! Está lá uma das
minhas camas... Deixei no passado que me integrassem numa exposição temporária,
participei com frases feitas para esculturas em casca de amendoim. E agora, quando
escrevo, sinto a insegurança da primeira vez, uma virgem a falar de amantes.
Prometi, durante estes meses predestinados não mentir, prometi, até, não omitir por-
menores irrelevantes; mas nada que considere relevante omitirei para a História. Nem
sempre sou de confiança... A selecção foi uma naturalidade desmentida. Minto-vos?
Baralho-vos? Também muitas vezes me confundo. Sou publicista galardoada. Sou
(fui?) escritora condecorada. E prometi, prometi a mim mesma, ser nascido de gera-
ção espontânea, inventado, muitas vezes reinventado... Nem sabem onde nasci,
associam-me à capital, parece que só nas capitais nascem os iluminados.
Nunca consegui assumir ter surgido na margem sul. Os meus pais, naturalmente,
registaram-me nos serviços capitais! Pertenciam à espécie culta, nunca iriam correr
riscos devido a meros incidentes de percurso. A minha mãe ainda tentou reter-me,
mas eu queria sair, cair fora desse caldo onde permaneci o prazo normal.
Inexplicavelmente fiquei com uma tendência suburbana, de que nunca me libertei,
apesar do esforço em afastá-la de mim; apesar dos cheiros com que inundo o corpo.
Prometi renegá-la. Promessas, quando a compensação nos desilude muito antes? É
em momentos vacilantes, como este, que me ocorrem pensamentos idos, a custo
ultrapassados. A minha determinação vacila. Lembro-me de Adalberto, sempre fiel na
condução pelos mais diversos circuitos. Adalberto faz parte da minha vida, quando
penso nela como um todo; totalidade de uma existência repartida que se interrompe-

73
rá para ser repensada. Alimentamo-nos com modelos remodelados até à exaustão,
temos a ciência dos antepassados; que se aprenda quando se papagueia exemplos,
que se resista à experiência alheia o suficiente para usufruirmos desta dádiva que é
experimentar. É preciso refrear a apetência devoradora de impor os ensinamentos da
idade. Estarei a converter-me? Envelheço?
Mas não estávamos a falar de equilíbrio, estávamos... estava eu a falar de
Adalberto. Sabemos, os dois, quanto é forte esta ligação estabelecida por contrato de
trabalho – faço questão de cumprir as imposições fiscais para nunca sofrer o vexame
de ficar inibida de qualquer acto ou actividade, tendo o Estado a desculpa de ser eu
a prevaricadora. Nunca! Sei não ser essa a razão deste singular contrato. pelo menos
não foi por isso que se firmou o documento. Trespassarei Adalberto?
Esta noite não ficarei em casa sustentando o cansaço. Vou levar o Adalberto a jan-
tar, transformá-lo em parte activa; agradecer-lhe-ei ter-me deixado caminhar pelas
ruas, junto às montras, quando passeamos agradeço-lhe a concessão desse direito
baixando o rosto, quero que se sinta o meu romano, cavalheiro e marialva. Com faci-
lidade assume o papel do macho e aceita tudo, condescende, foi concebido para ser-
vir. Abandonou o basquete porque se desentendeu com a equipa. Ele assim conta
mas (desconfio por natureza) julgo o abandono uma opção fácil. Bem sei que corto
as oportunidades de se dar a conhecer, penso conhecê-lo o suficiente e não me ape-
tece descobrir o contrário. E adoro Tomé, parece que n os conhecemos há muito.
Fascina-me a ausência da repressão consciente e irrita-me não suportar memórias.
Se se entender este pensamento como uma contradição, congratular-me-ei pela exis-
tência de um Deus que permite o livre arbítrio.
Vou jantar com André. Ligo-lhe. Oh! Chamei-lhe André...
- Interrompi-te o sono?
- De forma alguma! A tua voz encanta-me, já to devo ter dito.
- Lembras-te ou calculas que sim?
- Devo-te uma confidência...
- Trata-se então de um esquecimento a longo prazo?
- E disseram-me especialistas que só um amor eterno me faria subtrair ao incons-
ciente a parte roubada à consciência.
- Isso é um convite? A esta hora?
- Vens cá?
Tomé repete a conversa telefónica. Diz o que disse, diz como respondi. Repete o
diálogo, satisfeito por se lembrar; desconhece qualquer motivo para dramatizar. Diz

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que repetiu as frases até eu chegar. Brinca, com certeza. Há talvez uma ou duas
horas que se estende o monólogo, que André traduz essa insólita sensação de mor-
talidade prematura. E Maria Branca em vez de se irritar, ouve fascinada.
Penso: trata-se de uma fuga ao convite dos impulsos, sem dúvida. Um mecanismo
de defesa como outro qualquer.
Tomé poderá restabelecer-se, mas à custa de quê? egoísta? eu? Confesso que tal-
vez tenha pensado que à minha custa será difícil, mas não foi o primeiro registo, como
tal, como palavra pronta a ser lida. Estou deveras surpreendida, eu que resolvi afas-
tar-me do mundo para viver mais tranquila, sem obrigações de criar, procriar...
- Tenho de regressar a casa. É uma obrigação moral. A agenda sobrecarregada...
Falas bonito, que mais dizer-te? que me atordoas?
- Atordoo-te?
- Que me dizes? ...se isto é amor? paixão?
Deixo André na cama. Deixo-o atordoado, o sol entra pelo quarto. Encontrar-nos-
emos na galeria. De acordo? Responde um sim, nada sóbrio. Duvido. Penso nele,
acho que nos conhecemos mesmo há muitas luas, talvez noutra vida. Reparo agora
no lapso da noite. André, Tomé... Troquei os nomes, quantas vezes? Tenta-me o jus-
tificativo da terminação, mas espanta-me a facilidade com que o pensamento impõe
o registo. Foi sem dúvida um registo do pensamento. Terei de interpretá-lo, mais logo.
Tenho uma agenda demasiado preenchida, gozo o lazer, preciso de variar. Ter-lhe-ei
chamado André, por acaso? Tomé não se lembrará. Lembrar-se-á de mim?
Chego à pesada porta do museu de aço, cinco minutos antes do fecho.

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Ao olhar o relógio leva um encontrão. O homem desculpa-se apertando-lhe os


antebraços. De repente, abraçam-se largando exclamações inteligíveis.
O homem está envelhecido, gordo, de cabelo completamente branco, como a
roupa que tem vestida.
Ela, de verde, olha-o, fresca, sorridente, de pele macia. O homem fita-a com as
olheiras. Olham-se agora como velhos companheiros num reencontro. O homem
tenta esboçar um sorriso, em vão. A mulher pergunta com voz doce:
- Que tens?
O homem balbucia algo, de novo inteligível. A mulher põe a mão no bolso do casa-
co curto e justo. Tira um pequeno vaporizador amarelo. Vaporiza o nariz do homem.

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O homem abana a cabeça e olha-o surpreso, feliz!
A mulher grita:

- Água pura, de mistura! Refresca até a alma!


- Vivex!

Diz o homem eufórico.

Ao olhar o relógio levo um encontrão. Também há irrealidades que se repetem,


designam-se correntemente antevisões, cientificamente paramnésias. O homem des-
culpa-se apertando os meus antebraços. Reconheço-o ao fim de cinco anos de
esquecimento, desde que trocou a informática por tudo o que tinha na vida. Está
envelhecido, gordo, de cabelo branco, como a roupa que traz vestida. Miro-o, sorrio-
lhe, impressionam-me a pele pardacenta, as pesadas olheiras.
- Antão, que tens?
A pergunta é um trovão: entrega-me a mala cilíndrica, fala percorrendo o enorme
átrio em passadas longas, revela-se uma máquina humanizada; vira o rosto arrepen-
dido, pisca os olhos brilhantes, sussurra duas ou três vezes:
- Ando desesperado.
Diz-se cansado, ultrapassado pelo que ele próprio ajudou a erguer forçando von-
tades, e delira à velocidade do som, da luz... O desespero atacou-o quando começou
a escapar-lhe a realidade da repetição. Concluo, ele já só acredita em premonições.
Esconde-se nas redes, pelos ecrãs, a fonte do seu tormento, bem assim na vertigem
que os origina. Tudo se repete como se fosse o dia da criação e não há qualquer
aviso do contrário. Não são imitações, são reposições sem prévia denúncia. E entre
estas surgem outras adaptadas, obras sem fim. Nada de novo. Não que seja pessi-
mista, limito-me a registar preocupações de Antão. Interessam outras épocas se vivo
a minha? Se temos tão pouco tempo para a denuncia... Escassas horas acordados.
- Tu julgas que estou louco? Que enlouqueci para o mundo? Que não estou pre-
parado? Acredita no que te digo, lá chegarás.
E largou-me o braço. Não duvido de uma palavra, o conjunto é que me parece des-
conjuntado. Apago a razão que se opunha ao pensamento e sofro com Antão porque,
diz ele, a lua é pisada por tantos quantos pretendem alunar e são muitos. Novamente
confusa esta minha declaração de princípio? Entenda-se a minha paixão, recorde-se

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o resultado de outras, mas permita-se a sua actividade! Sei que prometi evitar a tea-
tralização e tenho tido momentos de cedência, que fazer quando a Natureza se impõe
quando julgamos controlá-la?
Ainda estou do lado de fora. Tomé deve permanecer para lá da pesada porta. Terá
saído mais cedo, ter-se-á cansado antes do fecho do museu? Esquecido?
Antão rodopia no jardim sem o casaco de lã e a camisola de mousse, cantando
suavemente:
- Este é o mundo que eu sempre quis, este é o mundo que eu sempre quis...
Hesito entre a entrada no conforto da História e o clamor da experiência. Passam-
se segundos e não consigo optar. Estou confiante de que André me espera. Também
não sei lidar com este Antão. Não preciso de saber mais, agarram-no, os da seguran-
ça do Museu Central, edifício a condizer com o aço da porta, antiga fortificação sobre-
vivente à contemporaneidade. Não voltarei a vê-lo. Ainda tenho na mão a mala cilín-
drica que Antão transportava agarrada ao braço esquerdo. Pouso-a a um canto e
avanço para a campainha. Procuro um senhor, Tomé... O funcionário boceja um vou
verificar. Agradeço e preparo-me para esperar a meio do átrio. Antão desaparecerá.
Levaram-no, evaporou-se. A mala ainda se encontra a enfeitar o canto, vai causar
pânico. Ninguém mais por aqui passou, os citadinos membros da Autoridade surgiram
do exterior, não sei de onde, desapareceram não vi por onde, levaram-no. Deve haver
guaritas disfarçadas, hei-de perguntar. Dispenso a mala, recuso outras recordações...
- Tomé! Temi por nós.
- Volto a apaixonar-me por uma mulher surpreendente. Já a conheço? Para onde
me levas hoje?
Temo vir a cansar-me de pilotar tão robusta carroçaria. Eu, patroa de motorista...
Experimento André:
- Quem ama até em sonhos adivinha!
- Que dizes?
- Eu não digo, já foi dito e eu repito: quem ama até em sonhos adivinha.
- Sonhar? É tudo o que eu posso fazer, além da terapia através da arte...
- E o sonho o que é senão a esperança retida, muitas vezes perdida, dispersa em
fragmentos? Será pouco?
Pergunto, querendo provar ser a exteriorização da voz a posterioridade. Tomé
apenas sonha... Como giraria o mundo se não ele não existisse?
Opto pelo clamor da experiência. Estamos os dois a entrar para o carro. Mais uma
vez Adalberto surge do nada oferecendo conforto. Aonde vamos?

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- Vamos amanhecer no melhor lugar.
Adalberto escuta-me atento, vejo pelo retrovisor no seu rosto o gosto por adivinhar
o meu desejo – por vezes penso terem criado este homem para me desconcentrar.
Não me interrogo. Deslizamos a mando de Adalberto. Tomé beija-me o pescoço e eu
esqueço outros lugares, outros beijos. Ainda me consigo espantar!
- Se jantamos? Foi o que perguntou, Adalberto?
Afirmativa, a minha resposta, evidentemente! Interromper-nos para tão grande evi-
dência. Pediu desculpa, mas... Por que lhe hei-de perdoar o desaforo. Que me inte-
ressa o que me rodeia se me sinto completa? Saboreio devagar este sentimento
egoísta, vulgarizado pela Terra. Tantos anos passados... Perco de novo a memória, é
contagiante esta doença de Tomé, o encantador de gestos misteriosos, inesperados.
- Como podemos recordar outros momentos quando o presente é tão forte, tão
desejado?
Tomé sussurra-me ao ouvido como real herdeiro de uma técnica há séculos em
apuramento. Rio-me e congratulo-o por ter optado pela arteterapia. Recolhe as mãos
e fita-me zangado, assim o parece ao questionar-me sobre o amor. Então? Indigno-
me por não atingir de imediato o significado da expressão. Estou lenta. Não entendo
a linguagem da ira num momento de doçura. Ou será necessária para não desfazer
o encanto? Os seus olhos recuperam o sorriso, o meu encanto, julgo eu. É-me peno-
so imaginar a falta de retenção daquele brilho. Não se consegue lembrar, de que se
lembrará então? Já me explicou teorias, rebuscou frases instantâneas, rebuscadas lá
onde a noção se perde para dar lugar ao esquecimento. Nele nada se reduz a meta-
de, não existe meio termo. Desconhecerá Tomé ter alguma vez aprendido? Enganar-
me-á?
Um ligeiro toque telefónico acorda-me deste melodioso estado de espírito em que
afundo comigo Tomé. Adalberto diz que saí por momentos e pergunta quem fala.
Repete um pouco mais alto o nome, olha para mim, quer seguir a técnica do costu-
me temendo interferir em algo que não domina, além de não querer irritar-me. Mas eu
não estou disponível nem para os raros seres que detêm o número secreto. E quem
era só poderia ser para incomodar - noutras circunstâncias, ponderarei sobre este
desabafo. Poucos podem completar este meu número restrito, a poucos forneço a
chave completa.
- Não atendeste, entendemo-nos. Beijo... dá-me um beijo dos teus!
O carro pára, a realidade lança o apelo. Adalberto resolveu bem: estamos à porta
do melhor sítio para jantar, o restaurante panorâmico compartimentado, envidraçado,

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obviamente rotativo, a rotação e a ementa variam todos os dias: a favor ou contra o
sentido da evolução horária, conforme as notícias. Entramos naquele lugar que todos
frequentam raramente cruzando-se nos túneis, labirintos espelhados.
Para Tomé será sempre a primeira vez, para mim é como se fosse.
E a cueca? Qual cueca?

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Quando comecei a escrever «A Cueca Bibelô», em Novembro de 1991, estava de
partida para uma nova experiência, a abertura de uma delegação do jornal «Público»
em Faro. Já somava dez anos de jornalismo, mas sempre me sentara em redacções
lisboetas: no «Correio da Manhã», onde comecei, e na Agência Lusa, de onde saí
para me juntar ao grupo de fundadores do «Público». Tenho muitos textos espalha-
dos pela imprensa, todavia, «A Cueca Bibelô», terminada em 1992, é o primeiro livro
que publico.
Ah, pois, nasci no dia 27 de Janeiro de 1960, na única freguesia lisboeta que tem dois
santos no nome, S. Cristóvão e S. Lourenço, mas não sou crente. Entretanto, ganhei
muitas outras experiências, por ora, sou editora do semanário «Courrier
Internacional».
Maria Branca, publicitária, escritora de literatura infantil, boémia, psicóloga amadora,
viveu na cidade de Lisboa, em Portugal, não se sabe bem quando, mas marcou o seu
tempo.
Para a posterioridade deixou este registo temporário agora feito livro. «Lembrem-se
de mim que eu não me esquecerei», diz na dedicatória.
Quis ficar na História e conseguiu conquistar um canto no Museu Central, onde até
uma das suas camas se encontra exposta. Amante dos prazeres da vida, conta o que
lhe apetece sobre si e essa época louca em que se vendem cuecas bibelôs…