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Dos Descobrimentos ao Fundo dos Mares

Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!

Na famosa evocação do "Mar Português" de Fernando Pessoa (Mensagem, 1934), o poeta recorda o verdadeiro preço da expansão marítima. Três séculos antes, os episódios rocambolescos da História TrágicoMarítima (1735) [tomos I e II], a primeira grande compilação deste "triste assumpto" de "horrorosos naufrágios" e acidentes marítimos, já mostravam a face mais dramática e menos conhecida da Era dos Descobrimentos, no início da globalização das navegações de conquista e comércio.

Dois naufrágios, entre mais de uma centena, de navios da Carreira da Índia na época da Expansão. Em cima, encalhe da nau São Paulo na ilha de Sumatra (1561) e, em baixo, nau afundada da armada de 1549. Livro de Lisuarte de Abreu (c. 1565). The Morgan Library & Museum (antiga Pierpont Morgan Library), Nova Iorque. A literatura portuguesa foi particularmente familiar a este tema, ou não tivesse Fernão Mendes Pinto burlado a morte 14 vezes em outros tantos naufrágios e encalhes entre o Oceano Índico e o Mar da China e Luís Camões sobrevivido a um "naufragio triste e miserando" algures na Indochina. “... os navios que de manhã brincavam, à tarde são engolidos. Tanto a guerra como o mar equiparam-se a um homem poderoso e cruel”, lembrou o jurisconsulto e diplomata Pedro de Santarém - citando o autor romano Séneca, sobre os

infortúnios do acaso -, na sua obra pioneira dedicada aos contratos de seguro marítimo Tractatus de Assecurationibus et Sponsionibus Mercatorum (1552) publicada em Veneza (online na Biblioteca Digital, Fundação Mansutti, Milão).

Com a passagem dos séculos, os mares percorridos pelos portugueses parecem ter não apenas engolido incontáveis embarcações, como também a memória dos seus aventurosos resgates.

O Silencioso Mundo da Penumbra Subaquática .

Filipe I (Filipe II de Espanha) no ano de 1582 e foi protagonizada pelo fidalgo siciliano Giuseppe Bono (naturalizado espanhol sob o nome de José Bono). era no entanto apontado como “astutísimo. O sino construído em madeira de sua autoria. no início da década de 1570. originalmente concebido em 1570 e testado com sucesso em águas mediterrânicas.Sino de mergulho concebido por Giuseppe Bono e experimentado com sucesso no rio Tejo em 1583. bom falador e faz profissão de saber coisas raras” e não faltou quem lhe atribuísse pretensiosismo descabido quanto às suas propostas de engenhos bélicos quando mais tarde entrou ao serviço de Filipe II de Espanha em 1580 (Archivio Mediceo del Principato. Revelou-se um hábil fundidor versado na construção de armas e explosivos. Justamente nesse ano. Bono viajou para Lisboa acompanhado de 8 carruagens transportando protótipos de “engenhos” e máquinas na expectativa de aliciar o monarca espanhol para a sua utilização. Filipe I (Filipe II de Espanha). Florença). Reconhecido como “fabricante de armas”. Já na capital portuguesa. valeu-lhe o privilégio exclusivo de utilização por 10 anos no Estado de Florença . a experiência foi de facto organizada e o seu resultado prático foi amplamente satisfatório. Trata-se do primeiro engenho de mergulho conhecido em Portugal. concluída a conquista de Portugal (1580). o que lhe garantiu a nomeação de comissário-geral para o armamento da Toscana. Este curioso personagem esteve envolvido no comércio de coral no Mediterrâneo italiano. oriundo de Palermo. onde foi agraciado pelos seus fogos de artifício espectaculares quando da entrada triunfal de D. foi autor de diversas propostas de engenhos bélicos como “carros de guerra” e peças de artilharia de sua invenção ao serviço dos Grão-Duques da Toscana Cosimo I e Francisco I de Médici (resumo de alguns destes documentos do Arquivo Médici aqui e aqui). Archivo General de Indias (Sevilha) A primeira experiência de que há conhecimento em Portugal ocorreu em Lisboa sob o reinado de D.

A validade do sino de madeira destinado à recuperação de cargas preciosas afundadas no Novo Mundo.concedido pelo Grão-Duque. foi novamente testada em imersões sucessivas no rio Tejo sob o olhar das autoridades régias no ano de 1582. no Mar Tirreno. devidamente calafetado e equilibrado com lastro. na primeira experiência com engenho subaquático de que há registo em Portugal (artigo de Alessandro dell'Aira (2000) citado na bibliografia mais abaixo) Este sino possuía uma novidade de especial utilidade prática: no seu interior tinha-se colocado um pequeno tambor com manivela para que os mergulhadores controlassem a subida e descida através do cabo que o ligava à superfície. conseguindo-se com o seu trabalho retirar algumas âncoras do leito do rio. . O“engenho” serviu os mergulhadores na pesca do coral praticada nas costas do Grão-Ducado. agora com um novo modelo de base octagonal. durante pouco mais de um quarto de hora. Reconstituição do sino de Giuseppe Bono utilizado em 1583 no Tejo próximo a Lisboa. Dois mergulhadores permaneceram no interior do sino.

o regresso do rei a Madrid e a prolongada demora na resposta dos conselheiros significaram para o inventor um ponto final nas suas pretensões. A tentativa seguinte. Para o efeito. Porém. mas também nas preciosas pescarias de pérolas. pois o seu objectivo eram as Índias Ocidentais.apenas surgiu no séulo seguinte. por serviços contratados entre particulares e a Coroa. regressando também ele a Espanha. Não apenas na "pesca" de naufrágios e resgate de cargas valiosas. uma inovação tecnológica ensaiada em território português ficou sepultada nos arquivos. a troco da décima parte dos seus achados reverter para a Coroa. concebeu e experimentou na presença do Vice-Rei de Portugal um novo sino em bronze. O sino conhecia aqui o início do seu uso para fins comerciais. . Mais uma vez. onde se acumulavam naufrágios espanhóis com espólios de valor incalculável.O êxito obtido com a experiência deste novo sino de mergulho em Lisboa representou para o engenheiro um cobiçado privilégio real emitido em Fevereiro desse ano para emprego do mesmo no resgate de cargas preciosas e quaisquer objectos afundados na costa atlântica. Apenas a documentação dos arquivos da Casa de Habsburgo em Espanha nos desvelam um pouco da experiência fascinante. Inexplicavelmente. Em 1584 a Junta de la Contaduría Mayor recomendou a concessão da licença solicitada para passar ao Novo Mundo e aí desenvolver o seu "engenho" com privilégio por dez anos. da qual não há sequer indícios de ter chegado à prática. cuja recuperação ambicionava. Mas Bono não se deu por satisfeito. as crónicas da época são omissas quanto a este episódio pioneiro em Portugal.

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entre outros. “Discurso de Leonardo Turriano sobre limpiar la barra del Taxo (…)”. Biblioteca Nacional de Portugal.. 12892. [pós-1608]. nomeado engenheiromor do reino e aqui falecido em 1629). a “Descrittione et Historia del regno de l’Isole Canarie giá Dette Fortunate com il parere delle loro fortificationi” (1592) (tradução setecentista na Biblioteca Nacional de Portugal). atingido por fortes assoreamentos desde o final de Quinhentos.)”.d. contam-se no seu vasto currículo na Península Ibérica. entrado ao serviço de Filipe II em 1583. Entre as suas obras mais conhecidas avultam os estudos para o abastecimento de água da cidade de Lisboa. Oriundo da Corte do imperador Rodolfo II de Áustria. s. provavelmente inspirado naqueles construídos pelo italiano Bono na década de 1580 em Lisboa. sendo o todo lastrado com um aro de chumbo ao seu redor.Sino de mergulho para dragar o leito assoreado da desembocadura do rio Tejo. s. também para utilização no leito do rio.d. a direcção da construção da fortaleza de Viana do Castelo.. na Lombardia. radicado em Portugal na década de 1590. Outro sino de mergulho. O sino de Turriano possuía o pormenor original de . (pós-1608)] uma embarcação equipada com um braço de madeira à ré por onde corria o cabo de suporte a um cabrestante para manobra de um sino de mergulho de grandes dimensões capaz de albergar 4 homens. pela mão do engenheiro-mor do reino Leonardo Turriano (nascido em Cremona. com espaço suficiente para guardar as respectivas provisões e apetrechos. servindo também como um dos responsáveis pela construção do forte de São Lourenço da Cabeça Seca (Bugio) na barra do Tejo e responsável técnico pela modernização da fábrica da Barcarena. Turriano incluiu no seu tratado manuscrito conservado na Biblioteca Nacional de Portugal [Cód. perto de 1608. O dispositivo funcionaria como complemento de outros trabalhos de dragagem no estuário do Tejo. Turriano foi um talentoso técnico especializado em estruturas hidráulicas e arquitectura militar. data dos primórdios do século seguinte. “Discurso de Leonardo Turriano sobre limpiar la barra del Taxo (.

de acordo com o autor. um “Discurso sobre a ponte de Coimbra” hoje perdido.poder apoiar-se no leito do rio sobre 3 pé articulados. Contudo. as suas características já se encontravam descritas num outro manuscrito seu. a descrição também aqui é muito sumária pois. .

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os sinos estão ausentes dos relatos das navegações nas principais rotas oceânicas da Coroa portuguesa. Lembo trouxe. mas residente em Lisboa.durante quase dois séculos) do afamado Colégio de Santo Antão em Lisboa (cujo edifício original se encontra no local do actual Hospital de São José) entre 1615 e 1617. apenas cinco anos após a primeira demonstração da teoria heliocêntrica de Galileu (de quem foi amigo pessoal). O personagem seguinte na breve saga dos sinos foi o Jesuíta Giovanni Paolo Lembo. os primeiros sinos de mergulho concebidos ou construídos e utilizados em Portugal. dado que os três primeiros proponentes foram todos técnicos ou científicos italianos numa época em que a cultura dos tratados técnicos e militares era dominada pela miríade de potências da Península Itálica do Risorgimento . os ensinamentos revolucionários para a Aula da Esfera. Estes foram. Biblioteca Nacional de Portugal. a continuidade da sua proveniência estrangeira. ainda assim. em 1615.de que foram principais expoentes Taccola. Antes pelo contrário.Alguns exemplos de dispositivos de dragagem do rio Tejo propostos por Leonardo Turriano no seu "Discurso" manuscrito ond também se inclui o modelo de sino para trabalhos fluviais apresentado mais acima. surgem sucessivamente no plano mais teórico. tanto quanto é possível saber. Não obstante. foi um eminente professor de matemáticas na prestigiada Aula da Esfera (principal instituição de ensino e de prática científica em Portugal. . Ainda hoje quase desconhecido entre nós. Giorgio Martini e Leonardo da Vinci. Constata-se.o Renascimento . Natural de Nápoles. sem que se conheça qualquer utilização prática após o final do século XVI.

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Assim. apresenta um outro desenho que tem passado despercebido. do foro militar. mas também cinturão militar dos legionários romanos (alguns exemplos aqui)]. A curiosidade anfíbia é novidade. 1712). Vocabulario Portuguez e Latino. Um bom exemplo do intercâmbio de Lisboa com os mais avançados centros científicos da Europa. o Capítulo 1. de uma bóia militar [“cingulo militar”. mas no local onde descreveu as mesmas. datável de circa 1616. guarda um raro compêndio de cosmografia. sen embarcaçoins.º. mas também a casos práticos.Fotos do antigo local de ensino científico do Colégio de Santo Antão aqui A secção dos Manuscritos da Livraria da Torre do Tombo. Trata-se do primeiro manuscrito que menciona telescópios e observação com telescópios em Portugal. cíngulo provém de cingulum. em Lisboa. ainda pellejando”. . cinto sacerdotal. servindo-se de uma espécie de híbrido de colete de flutuação/bóia individual. sendo o Colégio porta de entrada em Portugal dos mais importantes descobrimentos da nova ciência. (Rafael Bluteau. “De que maneira poderá alguém passar os rios. Uma parte do compêndio inédito de Lembo intitula-se "Tractado breve das Machinas Hydraulicas" e contém um desenho até agora desconhecido de um dos primeiros sinos de mergulho descritos em território português. O alvo da atenção do erudito autor é múltiplo: efeitos cénicos destinados a ocasiões de recreio. para atravessar os rios. não num autor italiano como Lembo. como recurso para o soldado sofisticado envolvido em operações anfíbias. de sua autoria.

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tanto per mare. na verdade. de um tipo de dispositivo anfíbio recorrente nos cadernos de inventores e em manuais de máquinas desde o final da Idade Média. c. 1616. ou bóia de uso militar. quanto per terra um modelo de cinto flutuador.O "cingulo". constitui. citando o protótipo original de Mestre Leonardo da Vinci que este lhe terá mostrado. Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa) . Ilustração do "cingulo militar" no compêndio do professor Jesuíta Giovanni Paolo Lembo. "Tractado breve das Machinas Hydraulicas". Em 1568 o alquimista e cartógrafo Girolamo Ruscelli incluiu na sua obra póstuma Precetti della militia moderna.

1620).O sucesso das invenções e engenhos de Ruscelli (pseudónimo de Alessio Piemontese) alcançou o século seguinte e na edição alemã (Kriegs und Archeley Kunst. o mesmo cinto de flutuação foi novamente representado num conjunto de gravuras da autoria de Jakob de Zetter reunindo equipamentos de mergulho de diversos .

este último semelhante ao de Leonardo da Vinci. a bóia e a máscara com tubo de respiração de Battista della Valle.autores quinhentistas . . Também se incui uma jangada salva-vidas que Ruscelli propôs para equipar os navios.entre eles.

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A moda não desapareceu e foi apresentada recorrentemente por militares inventores nas décadas e séculos posteriores. .

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. incluindo umas "sofisticadas" aletas ou barbatanas metálicas. Biblioteca da Universidade Martin Luther. Embora a invenção não tenha ulteriormente vingado. permaneceu o nome do escafandro . Todas estas propostas culminaram na experiência bem sucedida do Padre matemático Jean-Baptiste de la Chapelle no rio Sena em 1765. Archivo General de Simancas (Valladolid) Modelo tardio de bóia militar. Franz Kessler. de Halle-Wittenberg (Saxónia-Anhalt. Alemanha). O conceito foi ampliado e desenvolvido sob a forma de um fato de flutuação em cortiça no seu Traité de la construction théorique et pratique du scaphandre. ou du bateau de l’homme publicado em 1775.literalmente "barco do homem"."Inbencion de passar el agua" do matemático da Corte de Espanha Miguel Florencia van Langren (1634). Sonderbahre und bißher verborgen-gewesene Geheime Künste (1722).

Via e-rara (ETH Bibliothek. Zürich) . Swiss Federal Institute of Technology. que referimos no post anterior e que terá sido a primeira em toda a Península Ibérica. Refere-se à experiência ocorrida em Toledo no ano de 1538 na presença do imperador Carlos V.Mas. o Capítulo 2. Escafandro de Jean-Baptiste de la Chapelle (1775). Como recorda Lembo: "Já se fez disto experiençia diante de Carlos 5.º em Toledo por dous gregos que o fizerão estando à vista muitos mil homens”.º do seu compêndio é único na sua exposição de “Como se poderá hir ao fundo de qualquer agoa sem se molhar”. regressando ao manuscrito inédito do Jesuíta italiano em Lisboa.

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"Tractado breve das Machinas Hydraulicas". aqui manifesta.Desenho esquemático de sino de mergulho no compêndio do professor Jesuíta Giovanni Paolo Lembo. numa forte tradição originada em Quatrocentos.Arquivo Nacional da Torre do Tom Deste modo. 1616. a influência dos livros de “máquinas” italianos. c. deixou-nos .

Fora da realidade fugidia dos sinos de mergulho. das quais se destaca pela sua singularidade um equipamento específico para exploração do meio subaquático. aparentemente redigido por uma outra pessoa. As novidades prosseguem neste documento de raro interesse. XVI. Nela se mencionam uma série de “engenhos” para merecer a atenção e o dinheiro régios.uma das mais antigas referências em português a um sino de mergulho. Roiz previne o rei contra o cepticismo previsível provocado por esse prévio fracasso: “Acerqua disto dirã(o) a Vossa Alteza que será isto como foy ho homem d’Alcouchete (sic) que dis(s)e que avia . O documento mais antigo referente a tais experiências põe em destaque um João Roiz . de onde era natural o proponente. escassísimas referências mais difusas a experiências subaquáticas ocorreram na época moderna.embora não datada. Datam aproximadamente do segundo quartel do século XVI os primeiros relatos conhecidos em Portugal. Para corrigir esta situação. Por isso. pois ficamos a saber de uma proposta anterior no mesmo sentido que não surtiu efeito. Esta indicação sugere que aquele ensaio consistiria na tentativa de travessia subaquática do estuário do Tejo entre a povoação de Alcochete. e a cidade de Lisboa. outros elmentos indiciam seguramente ter sido redigida no segundo quartel do séc. João Roiz pretendia proceder a uma experiência. fazendo com que “vá hum homem abaixo a ter(r)a (sic) e estê lá espaço que pos(s)a fazer o que for neces(s)ário”. De acordo com o documento anónimo. Roiz terá dito “que muitas vezes acontece em porto de mar ou de rio cair alguma cousa em que as vezes se perde muita fazenda e por falta de nom poderem andar debaixo d’agoa se perde muita cousa”.

)”. o rasto de Roiz e das suas propostas submarinas perdeu-se no agitado século de Ouro das navegações portuguesas. desconhece-se a existência da respectiva resposta régia. e foi publicada por Sousa Viterbo. 1902)] Este documento alude a uma versatilidade tipicamente renascentista de conhecimentos no campo bélico e náutico. Porém. A travessia do “homem de Alcochete” e o “engenho” de João Roiz para resgate de objectos submersos mostramse aqui como as primeiras referências expressamente alusivas a propostas de mergulho com recurso a equipamentos especialmente concebidos para o meio subaquático de que há conhecimento em Portugal. o rendimento das bombas dos navios aperfeiçoando modelos anteriores. João III). tal como sucedeu a tantos outros empreendedores subaquáticos. se bem que na ausência de qualquer referência ao emprego de tais inventos na costa portuguesa no reinado em que foi proposto (D. duplicando. pois as suas propostas ao rei incluem “engenhos” para fundir artilharia “por menos preço e menos metal” e avaliação da qualidade da pólvora produzida. Percebe-se que Roiz estivera previamente envolvido na produção de artilharia e noutras iniciativas afins em Inglaterra ao serviço de Henrique VIII. [a carta de proposta encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.. se possa sugerir que não terão surtido efeito. Porém. Apresentou também um novo sistema hidráulico a bordo dos navios da Carreira da Índia concebida para optimizar. Inventores Portuguezes (Coimbra.de vir por baixo d’agoa a Lixboa digo que isto que eu dito tenho se pode fazer e se faz em algumas partes fora destes Regnos e acerqua deste engenho creyo que darey outro milhor que ho que eu vy e que o que se usa fora daquy eu ho direy a Vossa Alteza e creya Vossa Alteza o que digo poder ser asy que em estas cousas posso servir a Vossa Alteza se dellas se quiser servir (. se é certo que Roiz solicitou o uso exclusivo na utilização dos seus “engenhos” (provavelmente variantes do sino de mergulho). Cartas Missivas. ..

O navio de guerra Mary Rose. jóia da armada de Henrique VIII. retratado pouco antes do seu trágico afundamento. "Anthony Roll" (1546) Se a experiência de João Roiz teve efectivamente lugar supomos que terá sido realizada muito provavelmente .

por um lado Roiz invoca ter servido um rei inglês. Sendo certo que. poderá ter sido com estes que o português aprendeu a “vir por baixo d’agoa”. justamente no reinado de Henrique VIII vários mergulhadores venezianos trabalharam em Inglaterra na tentativa de resgate do navio de guerra da Coroa inglesa Mary Rose afundado em 1545. e por outro. natural de Veneza. as derradeiras notícias relativas ao salvamento deste célebre navio ainda em meados de Quinhentos mencionam a artilharia recuperada entre 1545 e 1549 sobretudo pelo mergulhador Piero Paolo. . cuja utilização moderna se iniciou ainda no séc.utilizando um sino de mergulho. XVI. De facto.

Detalhe do afundamento do Mary Rose perto de Portsmouth na gravura de Cowdray. de seu nome de baptismo Jacques Francis. foi nada mais que um dos principais mergulhadores da numerosa equipa de resgate subaquático reunida para tentar salvar o Mary Rose. O caso do mergulhador africano em águas europeias foi um dos primeiros de uma longa história de actividade subaquática por parte de escravos negros . 255-271). que se estendeu entre a América. Poderá ainda ter havido outro eventual elemento de ligação com o mundo português. . Graças ao depoimento que o mesmo prestou perante o Alto Tribunal do Almirantado inglês foi possível reconstituir alguns pormenores deste percurso singular ainda hoje surpreendente (veja-se a interessante narrativa deste episódio num estudo recente. a pp. XVII e XVIII. as Caraíbas e África entre os séculos XVI. 1778 (cópia de original quinhentista desaparecido). Num episódio digno de Shakespeare. sabe-se que um escravo guineense ao serviço de um mercador italiano em Londres.

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onde os naturais são muito fortes e vivem muitos anos. PDF] e Relação sumária das cousas do Maranhão (1624) [edição fac-similada. "Pequeno atlas do Maranhão e Grão-Pará" (1629). “Canau pour Pecher les Perles” (canoa para pesca de pérolas). Ardente defensor do potencial económico das terras do Nordeste brasileiro. em 1626. que demorava até dez meses. 104-127 e texto transcrito no Boletim do Instituto Histórico. a melhor é o Brasil e o Maranhão é Brasil melhor. e mais perto de Portugal que todos os outros portos daquele estado. lisboeta na época dos reis Filipes. concluindo categoricamente: "Eu me resolvo que esta é a melhor terra do mundo. The Morgan Library & Museum. evitando nesse percurso ventos contrários. Nas suas duas obras de divulgação Intentos da Jornada do Pará (1618) [reeditada in Annaes da Bibliotheca Nacional.Desenho de um artista francês Protestante que acompanhou Sir Francis Drake às Caraíbas e América Central no final do século XVI. ambos dirigiram as suas propostas de utilização de engenhos na época da União Ibérica. Histoire Naturelle des Indes. Estácio da Silveira foi um dos primeiros exploradores do Amazonas (liderou a primeira expedição de colonização da "Conquista do Maranhão" em 1619. 1586. São Luis do Maranhão. das que correram os portugueses. pp. ilustrando a pesca de pérolas na ilha de Margarita. vol. separata de Anais da Biblioteca Nacional. Em ambos as suas publicações descreve a variedade de recursos naturais indispensáveis à prosperidade dos futuros colonos. visando tanto a exploração de recursos naturais como a navegação perdida na época das grandes frotas da prata e ouro sul-americanas. Na verdade. Mapa de João Teixeira Albernaz. Geográfico e Antroplógico do Ceará (1905)]. em derrota muito fácil à navegação donde se há de ir em vinte dias ordinariamente". pp. ao la escravos mergulhadores. vol. sugeriu que os rios maranhenses poderiam reduzir para quatro meses a duração da viagem entre o Peru e a Espanha. e consta-nos que. Nova Iorque A etapa tropical dos engenhos de mergulho obteve especial atenção do capitão Simão Estácio da Silveira. Tal como Giuseppe Bono. 26 (1904). a exploração comercial subaquática do capitão integrava-se na sua ambiciosa visão para as terras brasileiras. o português Estácio da Silveira percebeu o vasto "nicho de mercado" constituído pela pescaria de pérolas e resgates subaquáticos. correntes marinhas e ataques corsários que atrasavam os navios do ouro e da prata. O Rio Amazonas funcionaria como corredor de ligação entre o Atlântico e o Mar do Caribe. 94 (1974). c. 361-366. A obra Intentos da Jornada do Pará (1618) foi "Dirigida aos pobres do Reino de Portugal". Não por acaso. no mesmo ano em que foi empossado primeiro presidente do Senado da Câmara de São Luís). Rio de Janeiro. Estácio da Silveira tornou-se Procurador-geral da Conquista do Maranhão e. Rio de Janeiro. o capitão faz a propaganda preparando o terreno para uma desejada vaga de emigração lusitana. Arquivo digital da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro) .

Presidente de Flandes y General de la Artillería de España. cobre y otras cosas.Mas a verdadeira novidade prática emanada do capitão visionário prende-se com a primeira notícia segura de acordo contratual de um súbdito português para recuperações subaquáticas. Esta singularidade fez de Silveira o particular mais bem pago na sua actividade ao serviço dos reis espanhóis durante a primeira metade do séc. Silveira beneficiou da atribuição de nada menos que 50% do valor total dos objectos recolhidos.. con el Capitán Simón Estacio de Silveira. oro. M. XVII. para que este procedesse à recuperação de metais preciosos e artilharia afundados. (Biblioteca Nacional de España e na Colecção Navarrete. Madrid. plata. M. Neste seu contrato. Foi em 1628 que a Coroa de Espanha firmou um contrato com Estácio da Silveira. se tomó por el Señor Marqués de Leganés. raríssimos. su Gentilhombre de la Cámara... sobre sacar del fondo del agua artillería. exemplares do contrato de Estácio da Silveira (Asiento que de mandado de S. no Arquivo do Museu Naval de Madrid ) . esquecidos pela historiografia dos reis de Habsburgo. 17 noviembre 1628) guardam-se hoje em Espanha. Alguns. de entre o conjunto de 6 contratadores de resgates subaquáticos que serviram a Coroa de Espanha entre 1604 e 1650. del Consejo de Estado de S. atingindo uma fatia generosa de 68% no primeiro ano de serviço.

Mas foi necessário chegar o século XVIII para surgir o maior protagonista de todos os exploradores do mundo .

para fixação de cabos e âncoras aos bens recuperáveis. Foi em 1715 que Lethbridge apresentou a primeira versão da sua "máquina de mergulho". utilizada com bastante sucesso desde o Oceano Atlântico ao Oceano Índico. John Lethbridge. XVIII. que saíam através de vedantes em cabedal. Deitado face ao fundo marinho. O seu engenho de mergulho. este “engenho” provou a sua eficácia nas diversas operações em que foi utilizado. antes do ar se tornar irrespirável. A autonomia também não ultrapassava a meia hora. porém.subaquático até à época contemporânea. conhecida simplesmente por "diving machine" ou popularmente por barril de mergulho. Ainda assim. . viu uma oportunidade de negócio no mundo dos resgates subaquáticos através de uma audaciosa inovação. desaparecendo no final de Setecentos. Do primeiro. Lethbridge utilizou o seu “barril” para o salvamento dos aprestos. Este improvável mercador de lã. confinado numa estrutura reduzida que possuía à justa as dimensões suficientes para uma pessoa. a recuperação de mais de 33 toneladas de metal precioso em apenas 6 meses de trabalho num navio holandês afundado na ilha de Maio. o operador podia executar manobras de pequena amplitude com os braços. O barril de mergulho era operado a partir da superfície suspenso por um cabo ou corrente. Este“engenho” de provas dadas foi utilizado em seguida por outros mergulhadores mas não conheceu vida longa. Lethbridge garantiu assim uma maior protecção ao mergulhador. artilharia e carga preciosa do naufrágio de diversos navios da Companhia das Índias Orientais holandesa. capaz de atingir os 22 metros de profundidade. na década de 1720. natural de uma discreta vila do Sul de Inglaterra. Mas a posição desconfortável em que se encontrava o operador revelou-se debilitante em imersões sucessivas. consistia numa estrutura cilíndrica estanque em madeira que dispunha de uma pequena escotilha. num híbrido entre o sino primordial e o escafandro que apenas surgiria com a Revolução Industrial. A carta patente outorgada pela Coroa britânica permitiu a Rowe “pescar em naufrágios” na recolha de tesouros e canhões afundados nas Caraíbas e na Escócia até meados do séc. entre as quais se celebrizou. em Cabo Verde. mantinha a estrita dependência na reduzida capacidade de ar respirável e do segundo antecipou a manobrabilidade de um equipamento individual com capacidade de visão e manipulação de objectos.

e o equipamento . Jacob Rowe que também se aventurou nos resgates subaquáticos com algum sucesso na mesma época.foi partilhado pelo seu sócio e conterrâneo. . foi por este experimentado sem grande sucesso.O sucesso . O barril de Lethbridge. reconstituído por Sténuit na década de 1970.

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Devon (Inglaterra) Mas foi no arquipélago da Madeira que a inovadora“diving machine” ganhou notoriedade. O seu alvo: um . Museu Newton-Abbott.Reconstituição do barril de mergulho de John Lethbridge.

naufrágio particularmente valioso. da Companhia Holandesa das Índias Orientais Vereenigde Oostindische Compagnie. Dos 254 passageiros a bordo. naufragou na ilha do Porto Santo. um autêntico navio do tesouro. Foi em 19 de Novembro de 1724 que o navio Slot ter Hooge. apenas 33 se salvaram. O navio Slot ter Hooge. na actual Indonésia. retratado por Engel Hoogerheyden. com destino a Amesterdão. Em poucos minutos o navio desapareceu na a enseada do Porto do Guilherme. no arquipélago da Madeira. . regressado de Batavia.

(Foto: Bill Curtsinger. ilha de Porto Santo. National Geographic Society) . local do naufrágio do Slot ter Hooge em 1724.Baía de Porto do Guilherme.

Ilustrações a partir de gravuras numa caneca gravada. com mapa do sítio de naufrágio e o barril de mergulho utilizado nos resga . contemporânea de Lethbridge.

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Lethbridge foi contratado pelo cônsul holandês em Lisboa. Tendo em conta que a Holanda tinha transferido para o seu Governo todos os direitos da extinta Companhia Holandesa das Índias Orientais. recuperou muitas centenas de barras de prata e dois canhões. no Funchal. Alertado. aproveitando o caos pósrevolucionário em Portugal. material cirúrgico de bordo e outros objectos utilitários da vida a bordo. instrumentos de navegação.Interpretação do resgate de Lethbridge na ilha do Porto Santo em 1724. National Geographic Society) . A maior parte do espólio terá saído clandestinamente da região. Retomados alguns mergulhos na década de 1980. mais de metade do tesouro A história do naufrágio conheceu o derradeiro capítulo apenas no século XX. Em 1974. (Foto: Bill Curtsinger. os Países-Baixos viram validado o contrato celebrado com Robert Sténuit. em que este se comprometia a ceder ao Governo holandês 25% do valor recuperado. Porém. em 1974. Recuperação de um canhão de bronze do naufrágio do Slot ter Hooge na Baía do Guilherme. Uma pequena parte do espólio do Sloot ter Hooge recuperado em 1974 permaneceu na Casa Colombo – Museu de Porto Santo. Porto Santo. (Desenho de Pierre Mion. fragmentos de cerâmica. hoje conservados na ala de reservas do Museu Quinta das Cruzes. Sténuit recorreu ao Tribunal Internacional de Haia. o caçador de tesouro Robert Sténuit mergulhou no Porto Santo e recuperou bastantes peças do naufrágio num resgate muitio polémico. National Geographic Society) Entre 1725 e 1733. foram recuperados mais artefactos. o Governo português confiscou várias barras de prata. no sentido de recuperar o material confiscado.

O incidente de Porto Santo. continuam a ser vendidas ainda hoje em leilões ocasionais. e ainda na Casa da Moeda holandesa. Muitas barras e moedas de prata. revelou-se fundamental para a proibição posterior de outras actividades de caça ao tesouro nos mares portugueses.Várias peças recuperadas também se conservaram no Museu Newton-Abbott. em 1974. . no Devon. porém.

Lingotes de prata recuperados em 1974 no naufrágio do Slot ter Hooge. Casa da Moeda da Holanda. .

  . National Geographic Society.A memória dos engenhos e máquinas de mergulho. continua tão arredada da vista como os naufrágios escondidos pelos sete mares. Parte do espólio recuperado pelo mergulhador belga Robert Sténuit em 1974. essa.