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Universidade Federal do Rio de Janeiro Instituto de Filosofia e Ciências Sociais Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia

DAS CONSEQUÊNCIAS DA “ARTE” MACABRA DE FAZER DESAPARECER CORPOS:
violência, sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado

Fábio Alves Araújo

Rio de Janeiro 2012

DAS CONSEQUÊNCIAS DA “ARTE” MACABRA DE FAZER DESAPARECER CORPOS:
violência, sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado

Fábio Alves Araújo

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciências Humanas (Sociologia).

Orientador: Prof. Dr. Luiz Antonio Machado da Silva

Rio de Janeiro 2012

ARAÚJO, Fábio Alves. Das consequências da “arte” macabra de fazer desaparecer corpos: violência, sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado / Fábio Alves Araújo. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS, 2012. xvi, 268f.:il.; 31 cm. Orientador: Luiz Antonio Machado da Silva. Tese (doutorado) – UFRJ / Instituto de Filosofia e Ciências Sociais / Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, 2012. Referências Bibliográficas: f. 285-293. 1. Sociologia e Antropologia da Violência. 2. Desaparecimento Forçado de Pessoas. 3. Familiares de Vítima de Violência. 4. Política. I. Machado da Silva, Luiz Antonio. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. III. Das consequências da “arte” macabra de fazer desaparecer corpos: violência, sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado.

Para Vera Flores, que partiu, sem desaparecer de nossas lembranças.

AGRADECIMENTOS

Ao longo do processo de pesquisa que resultou nesta tese, muitas pessoas contribuíram de diferentes maneiras, é hora de agradecê-las. Embora correndo sempre o risco do esquecimento, gostaria de registrar algumas lembranças fundamentais. Primeiramente a todos os familiares entrevistados que aceitaram compartilhar comigo suas histórias de dor e luta. Entre as instituições agradeço a acolhida do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS/UFRJ, ao seu corpo docente, pelos cursos que fiz e pelo incentivo, e seus funcionários, especialmente Cláudia e Denise, que facilitaram sempre as questões burocráticas. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) agradeço pela bolsa de doutorado que proporcionou o apoio financeiro para a realização da pesquisa. A recepção que tive no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e o convívio com profissionais e estudantes de diferentes áreas disciplinares tem sido um

aprendizado e um diálogo interdisciplinar intenso. Sou muitíssimo grato a meu orientador Luiz Antonio Machado da Silva pelo acolhimento desde os tempos do mestrado. A liberdade de pensamento, mesmo quando discordava, foi uma marca do diálogo e das trocas acadêmicas, por outro lado, liberdade não significou abrir mão do rigor do pensamento, servindo-me de estímulo a elaborar com maior precisão meus argumentos. Agradeço também a Machado a oportunidade enriquecedora, pelo aprendizado e amadurecimento intelectual que me tem proporcionado, de participar do grupo de pesquisa por ele coordenado, atualmente registrado no cadastro do CNPq como CEVIS – Coletivo de Estudos sobre Violência e Sociabilidade. No CEVIS encontrei um espaço intenso e estimulante de discussão e realização de pesquisas. Aprendi muito com Machado, Márcia Leite, Luis Carlos Fridman, Jussara Freire, Wânia Mesquita, Lia Rocha, Christina Vital, César Pinheiro Teixeira, Carla Mattos, Dinaldo Almendra, Palloma Meneses e Juliana Farias. Beneficiei-me da boa amizade e discussão de Jussara Freire e César Teixeira, que foram interlocutores diretos de muitas das questões desta tese. Agradeço as leituras atentas e rigorosas de César sobre alguns capítulos da tese e as sugestões e comentários preciosos de Jussara que muito contribuíram no desenho da pesquisa. Com eles também compartilhei prazeres e angústias da vida acadêmica. Agradeço aos professores Michel Misse e Márcia Leite as contribuições, durante o exame de qualificação. Agradecimento que se estende aos professores Luis Carlos Fridman,

além de uma das primeiras familiares de vítima com quem tive contato. A Thimoteo e Luíza. Maria Luiza Rodrigues. Thiago Carminatti. . Tive a oportunidade de apresentar partes do trabalho em eventos acadêmicos e receber os comentários de Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer. que sempre me serviram de estímulo. participaram e contribuíram em diferentes momentos da pesquisa como bolsistas ou voluntários em um projeto de iniciação científica. arquivos.Elina Pessanha e Adriana Vianna por terem aceitado o convite para participar da banca examinadora da tese e pelas contribuições. Camilla Lobino. Hildebrando Saraiva e Déborah Martins de Souza. A Céline Spinelli agradeço pela tradução. Márcio Filgueiras. e Isabel Mansur e Rafael Dias da Justiça Global deram dicas e pistas para a pesquisa. Patrícia Guimarães. Agradeço a Dalva Souza por ter propiciado o encontro. Com eles e através deles me aproximei do mundo dos familiares de vítimas de violência. documentos e entrevistou familiares. Hernán Armando Mamani. Um agradecimento especial a Patrícia Oliveira e Ana Lúcia pelas mediações e pelos contatos que me possibilitaram realizar algumas entrevistas com familiares. É admirável a coragem de todos em lutar contra a violência policial e por justiça. Igor Vitorino. Ronaldo Soares. Sempre admirei sua luta. assim como a Leonardo Marona. Helena. advogada do Centro pela Justiça e Direito Internacional (Cejil). Fernanda Caroline. Hugo Araújo auxiliou com transcrições de entrevistas e organização do material. Rosa. que além de traduzir o resumo fez a revisão da tese. Valéria Aquino acompanhou cada momento da pesquisa e continua compartilhando a vida e me dando força para seguir adiante. pelo apoio e incentivo. A meus irmãos Hugo. Telma Camargo da Silva. e à minha mãe. Jefferson Gonçalves. Zé Luis. me auxiliou como assistente de pesquisa e percorreu juntamente comigo instituições. a quem registro meus agradecimentos. Sandro Juliati. Luciane Soares. Dijaci David de Oliveira gentilmente me enviou sua tese de doutorado sobre os “desaparecidos civis” logo que ficou pronta e ainda disponibilizou materiais e uma boa conversa durante uma visita minha a Goiânia para participar de um seminário. Marilene Lima. pela amizade. Aos companheiros da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência agradeço pelo convívio e pela confiança. coragem e perseverança. Avana e Avanísio.

dentro da problemática geral dos desaparecimentos. Rio de Janeiro Agosto de 2012 . É da dimensão moral da vida e da morte. As histórias tratam de experiências desenraizadoras. a um “caso particular do possível”. não para de crescer a “família dos familiares de vítima” Palavras-chave: Desaparecimento Forçado de Pessoas. Morte violenta. Ele é tomado como um evento crítico e uma prática do repertório da linguagem da violência urbana. Familiar de Vítima. de tensão entre voz e silêncio. Estas experiências. enquanto a justiça não se realiza. Orientador: Luiz Antonio Machado da Silva. 2012. a partir da experiência e do protagonismo de familiares de vítima de violência. terror. violência e política. e dos significados elaborados para estes acontecimentos a partir da maternidade. particularmente através do estudo de uma modalidade de casos abarcados pela categoria desaparecimento forçado. as práticas de luto transformam-se em práticas reivindicativas de justiça e. que os familiares de vítima se constroem enquanto sujeitos da dor e agentes da dignidade. São experiências que se situam entre a resignação e a esperança. Sofrimento. da religião. várias categorias vão se construindo. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS. de passagem de um tempo do choque para um tempo da política. se por um lado. A partir das histórias de desaparecimento forçado são construídos pequenos mapas da dor que contam as trajetórias dos familiares diante do evento. Esta tese aborda as relações entre sofrimento. e também amor e justiça compõem o repertório temático desenvolvido ao longo da tese. sofrimento. destroem ou impõem obstáculos à capacidade de comunicar. também criam comunidades morais. por outro. Estas comunidades morais alentam a recuperação das pessoas enquanto sujeitos e se convertem em um veículo de recomposição cultural e política. Política. Das consequências da “arte” macabra de fazer desaparecer corpos: violência. na expressão de Bachelard. Ao percorrer essas histórias. O tempo é um agente que “trabalha” nas relações. cujo limite é a percepção e o sentimento de não pertencer a uma humanidade comum. familiar de vítima e desaparecimento forçado. Vítima. O desaparecimento forçado corresponde. que se constituem as gramáticas morais e políticas e os modos de fazer política dos familiares. É neste contexto de liminaridade. transformando sentidos e significados para as experiências de violência e dor vividas pelos familiares. Para apreendê-las descrevo e analiso o que denomino narrativas sobre o terror e o sofrimento. Diante do desaparecimento. luto. Tese de Doutorado (Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia). a partir das quais é possível acessar as gramáticas morais e políticas dos familiares de vítima.RESUMO ARAÚJO. entre um tempo do choque e um tempo da política. entre elas as de vítima. de percepções de justiça e injustiça. dor. Fábio Alves. sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado. emocionais e políticas a partir de quem padece o sofrimento.

Academic Advisor: Luiz Antonio Machado da Silva. pain. the victim’s relatives build themselves as pain individuals and dignity agents. From the consequences of the sinister “art” of making bodies disappear: violence. The time is an agent that “works” in relations. It is from the life and death moral. inside the disappearances general problematic. suffering and politics between families victims of forced disappearing. on the other. whose limit is the perception and feeling of not belonging to a common humanity. and also love and justice arrange a thematic repertoire developed through the thesis. many categories builds themselves up. In this context of liminarity. Following these stories. and while justice does not happen. between them the victim. terror. parting from the victim’s relatives violence experience and leading role. Victim. These moral communities encourage the recovering of people as individuals and convert themselves into a vehicle of cultural and political recomposing. from which it is possible to access the victim’s relatives’ moral and political grammars. religion. . Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS. These experiences. the mourning practices transform themselves into revendicative practice of justice. Key-words: People’s Forced Disappearing. of tension between voice and silence. mourning. justice and injustice perception. Doctoral degree thesis (postgraduate degree in Sociology and Anthropology). the “family of victim’s relatives” does not stop increasing. between a choc period and one political period. using a Bachelard’s expression. transforming senses and meanings to the experiences of violence and pain lived by the relatives. particularly through the study of a modality of cases approached enclosed by the category forced disappearing. Violent death. Rio de Janeiro Agosto de 2012 ∗ Versão de Leonardo Marona. the victim relative and forced disappearing. The stories approach uprooted experiences. and from the meanings elaborated to these happenings through maternity.ABSTRACT∗ ARAÚJO. . Politics. From the forced disappearing stories. emotional and political communities through the ones who feel the suffering. To apprehend them I describe and analyse what I denominate narratives about terror and suffering. The forced disappearing correspond. Victim’s Relative. to a “particular case of possible”. 2012. suffering. that the moral and political grammars and the ways of doing the relatives’ politics are constituted. Fábio Alves. little maps of pain are built up which tell the relatives paths before the event. Suffering. Experiences localized between resignation and hope. it also creates moral. of passage from a chock period to a political period. It is taken as a critical event and a practice of urban violence language repertoire. if on the one hand destroy or impose obstacles to the capacity of communicate. Before the disappearing. violence and politics. This thesis broaches the relationship between suffering.

....................................... 120 Foto 3: Jogadores do Fluminense entraram em campo no Maracanã com uma faixa de protesto .... em 2007................................. 62 Capítulo 2 Foto 2: Manifestação da ONG Rio de Paz – “Desaparecidos – Onde estão nossos mortos?”................ e utilizada nos protestos políticos dos movimentos sociais. bandeiras e instrumentos musicais: objetos do protesto ........................................ favela é cidade”............ 276 Foto 10: Maicon X Justiça....................................... 92 Reportagem 1: Corpos achados na Baía de Guanabara podem ser indício de desova ...................... 275 Foto 9: Luto e protesto: fotos de mortos e desaparecidos de ontem e de hoje ................................. 274 Foto 7: Faixas de protesto.................... 276 .... 100 Reportagem 2: Polícia encontra ossadas em campos de execuções da milícia na Zona Oeste ........................................... .......................................................................................... no Largo São Francisco............................ cartazes.......................... 164 Capítulo 6 Figura 2: Logo do Tribunal Popular – O Estado brasileiro no banco dos réus – Charge de Diego Novaes .................................................. 102 Capitulo 3 Figura 1: Carta de Izildete ao então presidente Lula: a mobilização do sofrimento em busca de ajuda ....................................................................................... 101 Reportagem 3: Policiais do Bope escavam Piscinão de Ramos a procura de corpos................................. 254 Figura 4: Mãe com filho baleado por policial no colo e o caveirão ao fundo..............20/05/2009 .................................................................................................................... ......................... cidade de São Paulo........... 239 Figura 3: Cauê armado – charge do cartunista Latuff criticando a militarização da segurança pública durante o período de realização dos jogos PanAmericanos no Rio de Janeiro........ 274 Foto 6: Faixa da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência/RJ.............................................. 256 Foto 5: Concentração do ato em memória das vítimas da violência estatal em frente à Faculdade de Direito da USP............................................... Charge do cartunista Latuff utilizada por movimentos sociais em campanhas contra o uso do caveirão pela polícia do estado do Rio de Janeiro.......................................................................................Lista de imagens e reportagens inseridas no texto Capítulo 1 Foto 1: Mães da Cinelândia – Manifestação na escadaria da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro ............... 275 Foto 8: Fotografias...................................................................................................................... com os dizeres: “Nem caveirão nem remoção.............................................................................................................................. Faixas e murais com fotografias das vítimas de ontem e de hoje................ 276 Foto 11: O cenário do protesto .......................................................................................................................................................... 164 Foto 4: Manifestação no Cristo Redentor.....................................................................................

...................................................................................................................................................................................... 307 Reportagem 14: Uma nova esperança para achar desaparecidos .................................................................................................. 278 Foto 19: Vela e foto – símbolos do protesto ....................................................................................................... 277 Foto 13: Colocando uma foto no mural........ 305 Reportagem 8: Menores somem na Baixada ...........................................Foto 12: Criança observa e participa da vigília . 315 Foto 34: Flores e jornais com notícias sobre a chacina .......................................................................................................................................... ..................... 309 Foto 23: Painel com imagem de Edméia....... uma das Mães de Acari................................... 314 Foto 32: Manifestação em memória dos 4 anos da chacina da Baixada Fluminense...................................................................................................................................... 305 Reportagem 7: Milícia acusada de sumiço de jovens na Praia de Ramos.......................................................................................................................................................... 306 Reportagem 11: Jovem some após acidente ...................... 278 Foto 21: A chama da esperança .......................................... 307 Reportagem 13: Mais PMs suspeitos ...................................... 313 Foto 30: Mãe da engenheira desaparecida com fotos de recordação ................... assassinada em 1993 quando saía de uma visita em um presídio . 309 Foto 24: Bonecos no chão representando os jovens desaparecidos de Acari e faixas com consígnias de protesto............................................................. 278 Foto 20: A cobertura midiática do ato .. 278 Foto 18: Mural com fotos dos mortos e desaparecidos de hoje ..................... 316 .......................................... 306 Reportagem 10: Corpos fatiados em Manguinhos ........................................................... 307 Reportagem 12: PMs suspeitos de matar engenheira ...................................... 277 Foto 16: Mural com fotos de presos políticos da ditadura ..................................................................... 315 Foto 33: Cenário do ato – faixas e banners ..... 278 Anexo 4 – Caderno de Imagens Reportagem 4: Mães de Acari: um parto que já dura 15 anos............................ 306 Reportagem 9: Seis corpos achados no Juramento...................... 277 Foto 14: Ajeitando a foto ............. 310 Foto 25: Faixas......................................................................... 308 Foto 22: Manifestação em memória dos 20 anos do Caso Acari........................................................................................ 311 Foto 27: Os objetos do protesto.......................................................................................................... 311 Foto 26: Faixa das Mães de Maio: grupo de mães e familiares de mortos e desaparecidos durante os ataques do PCC em São Paulo e a represália da polícia........................................... 313 Foto 31: Cláudia Helena com reportagem de jornal sobre o caso do filho desaparecido................. 303 Reportagem 5: Polícia procura ossadas e acha leões em Magé............................... 277 Foto 15: Uma ajuda da mãe e o interesse do fotógrafo ......................... As Mães de Maio estiveram presentes em Acari para participar do ato em memória dos 20 anos do caso....................................................... 312 Foto 29: A memória afetiva – objeto de lembrança de Patrícia....................................................... 316 Foto 35: Manchete do jornal – Ele queria voltar para a nossa terra ................................................................... 312 Foto 28: Concentração para o ato em frente ao Hospital de Acari ......... cartazes e fotos................. 278 Foto 17: Moradora de rua se junta à vigília..... 304 Reportagem 6: Milícia é acusada de seqüestrar dois jovens em Ramos ................................................................................................................ ......................

...........4................................ 59 1...................4.............. 72 2. 17 Violência........................4...... 17 Catarse da dor: a morte violenta e o luto como protesto público . operações críticas e competências políticas..... O Estatuto de Roma....... 97 2........................... O Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçado da ONU e a Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado ............... 49 1................. 87 2..........4..1.............................. evento crítico e sofrimento social . Das formas de engajamento face ao sofrimento .......................................................... O DRAMA DO DESAPARECIMENTO NARRADO DESDE OS FAMILIARES: PEQUENOS MAPAS DA DOR ....... O DESAPARECIMENTO FORÇADO DE PESSOAS COMO PRÁTICA DO REPERTÓRIO DA LINGUAGEM DA VIOLÊNCIA URBANA .. voz e silêncio no horizonte de ação .................... 81 2...............3............................................. Rumores de desaparecimento forçado............... 41 1...... O trabalho do tempo e a questão da comunicabilidade da dor .3....1.......4......................1............... 54 1..............3.......................2.........................1.............. Disputas. PRÁTICAS E POLÍTICAS DO SOFRIMENTO........3.........6......................... A relação entre desaparecimentos e homicídios: ligações perigosas......... situações............................................. 80 2..... fontes e procedimentos .................. 35 1.........2........ 112 . Saída........................ LINGUAGENS.. 45 1..... 83 2..................... 70 2.......................7....... 70 2.......... O sofrimento entre a política da piedade e a política da justiça ...................... sofrimento e política: a experiência dos familiares de vítima ................ 76 2............. SOFRIMENTO E POLÍTICA 1... A Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas .................... 35 1............ Da indignação à acusação: o tópico da denúncia e a forma caso ............................5......8................. 24 Estrutura e organização da tese ................ cemitérios clandestinos e encontro de ossadas........................... Figurações das categorias desaparecido e desaparecimento . 91 2..................................................................3........................3.................................................SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............ A construção do desaparecimento como problema social hoje: embates e disputas .... Desaparecimentos e desaparecidos: a pluralidade semântica e os dilemas jurídicos ....4........ 104 PARTE II: A MEMÓRIA DAS TRAGÉDIAS 3...............5..................... A polícia que mata e oculta os corpos e a perícia que não consegue identificar .. 62 2................ Falar a partir de uma condição subalterna ..................................... Desaparecimentos............. 22 A pesquisa: estratégias de trabalho de campo................................ Desaparecimento..2.. Do desaparecimento forçado como método de repressão da ditadura........4...................... 99 2....... 56 1..........3......2........................ A construção normativa do desaparecimento forçado como crime e o direito internacional .......................... 75 2.. 31 PARTE I – VIOLÊNCIA.......................................................................

...............................................................3........... As histórias que narram os familiares: memórias da dor e do luto...............5...... Contar ao neto sobre o pai desaparecido ....... Um acidente que se transformou em crime praticado por policiais ..........................4........ 133 3... 160 3.3.......................................1...... A peregrinação pelas instituições estatais: com exame de DNA................................ 180 4......... 156 3........... O “sumiço” do filho: tomando conhecimento da notícia e dos fatos ........2................... Policiais também desaparecem............6...................................2.......................................6...... 169 4....... Uma ossada no portão de casa... 140 3..................................................3...... 151 3.....2...............2.. 153 3.............3.....................1....................................................... Crítica ao tratamento policial .. Milícia. Maria Cecília e Laura ..2....................... O engajamento religioso: entre “familiar de vítima” e “pastora evangélica”.................................................... Humilhação......... “A vida para mim parou...7.......... 193 ...................................................... 148 3...2..................................... Do batalhão ao hospital: a presença ostensiva da polícia......6.1.................................................2...................................... O filho saiu com a namorada e “sumiu”............3............ 172 4... queixas e os obstáculos na construção de provas........................... Izildete .................... Práticas de luto reivindicativas de justiça....................................................4....2................ 158 3.............5......................................... 154 3....................... Sobre a situação de entrevista e a circulação de relatos de terror ...............................................................................1...1........................... “Muita terra pra uma pessoa criar bicho”: a milícia e a expropriação da terra ............. 117 3..... O testemunho como via de sensibilização: o vocabulário dos sentimentos e o poder de comoção das emoções................................... Restituir a dignidade e a humanidade: um atestado de óbito e um enterro digno ............................ a favela e o baile funk: a presença do perigo e do mal ........................2...............2.......2..2................................9......... 139 3........................................... 150 3..................................................................7.................1....... 130 3. 144 3............................................. 129 3...... 114 3........... Aproximação ao campo do terror ..... Esperança e desespero ...................... 136 3....................................2... Preocupações adicionais: a filha usuária de crack............... Áureo ...2............................ O jogo de denúncias e a manipulação das provas ...1.............6.. desrespeito. Da delegacia ao batalhão: a conversa com o comandante............ 128 3........ mas sem atestado de óbito .............. A linguagem das emoções......... O pai............................ Adoecimento e medicalização na trajetória de uma “familiar de vítima” ..............................4..1.... 181 4..................... o caveirão..... Da favela à delegacia.......................3...........................................6.. 126 3............. NARRATIVA SOBRE O TERROR E O SOFRIMENTO: UM CASO EXEMPLAR DE DESAPARECIMENTO FORÇADO...1............................. 112 3........6...5..............................................2.......................... 118 3............................................................ Filho e nora desaparecidos .....1. Tânia e Celso ...5................. Maria das Dores ........6......................... o aprendizado da dor e o sofrimento como competência política .........3.................. 165 4............... O “sumiço” do filho.. 152 3........................... 190 4.............................8.............................................................. 169 4. 156 3........ Maria Auxiliadora ...3................ Em busca de um exame de DNA para identificar o filho ....3...............................6... 184 4............................. 126 3........... 188 4........4...................3....8....... 148 3... 178 4. Desaparecidos após uma abordagem policial.2........ O açougueiro..... Corrupção policial e a denúncia fora do horizonte de ação da mãe ................ 176 4......6.............6.............................7.......................2.......... 182 4..............................4.......3..1...............8...................................4..... 130 3........... Maria do Retiro ........... os traficantes com farda e a corrupção policial ................... não vejo mais graça em nada” ........ tráfico e desaparecimento............................. 124 3....................7.8........5................................... 137 3..5......................................... A mobilização dos familiares dos policiais ...........1..2......................................2................. 154 3.......................................................... 162 3........................................

....... 270 6.................1......7................................................2....................1....................... 271 NOTAS FINAIS ..............9........................................................................................................ 235 6.........3................ 295 Anexo 2 – Parecer e projeto substitutivo de lei do Senado sobre desaparecimento forçado ....2..............................................................4............... 200 5.................... A forma caso como dispositivo de denúncia ....................... 249 6......... A construção da categoria familiar de vítima: tensões entre ser familiar de vítima e ser familiar de bandido ...................... A figura da vítima ........... 232 6......................5.....................9....1. Crítica externa: crime de Estado ou crime dos agentes do Estado ..........................2.................3... GRAMÁTICAS MORAIS E POLÍTICAS DOS FAMILIARES DE VÍTIMA DE VIOLÊNCIA ..........1.......... Mudanças na figura do bandido e o impacto no trabalho policial nas UPPs.......................................................................................... 258 6.................................... Caminhada e vigília: ato em memória das vítimas da violência estatal ........................................... 249 6..... 198 5.......... 208 5..................... A sessão final de acusação e defesa do Tribunal Popular .... 216 5................. 238 6...................................................... 245 6...........8.............................................. 204 5...................1.....6........................................ 279 BIBLIOGRAFIA ................. 255 6.................................................. A metáfora da guerra e as tensões na definição das humanidades ....6.......7.. Mais humanos e menos humanos: agir diante de modalidades de desumanização............2................. 261 6........... corpos incircunscritos e formas de matar e morrer ... O mandado de busca e apreensão genérico ..1................................................. As críticas dos familiares a um Estado que não reconhece seus sofrimentos ............................ Premiação por bravura: a “gratificação faroeste”........ 245 6........... 213 5............................................................... 246 6......1....................... ENGAJAMENTO POLÍTICO E MOVIMENTO CRÍTICO: A CONSTRUÇÃO DA CRÍTICA E DA DENÚNCIA..............................1........... 247 6........................................................ 197 5........ DENÚNCIAS E PROTESTOS 5.....................6............. 297 Anexo 3 – Nota de esclarecimento e solicitação de retificação da Rede contra a ...................... As críticas dos familiares de vítima à polícia ... Os corpos sofredores e a capacidade suscitar compaixão ........ Crítica interna: questionando o uso da linguagem jurídica .....1......7. A criminalização de ativistas e defensores de direitos humanos ........................ Formas de morte que desumanizam .........PARTE III – CRÍTICAS...... 226 5........................ O Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus .... aprendizado político e denúncia.............................. 285 ANEXOS Anexo 1 – Relação de entrevistados.. 236 6............................................ Circulação e atualização da metáfora da guerra ...............................1....... A política do caveirão: o blindado da polícia que diz que vai levar a alma das pessoas ............. 218 5......................................................4.......... A dimensão pedagógica do evento: espaço de troca.........5..... movimento crítico e engajamento político.................... 267 6................................ As megaoperações policiais e o excesso de uso da força .............................1................................. Morte violenta.......... 224 5......6............ Direitos civis.................... A megaoperação policial no Complexo do Alemão ...............4.......3................................................ 253 6....................................1.........................

Violência ao jornal O Dia .............................................Caderno de Imagens ..... 303 ............................................ 301 Anexo 4 ......................................................................................

Me llaman el desaparecido Que cuando llega ya se ha ido Volando vengo. “Desaparecido” . volando voy Deprisa deprisa a rumbo perdido Cuando me buscan nunca estoy Cuando me encuentran yo no soy El que está enfrente porque ya Me fui corriendo más allá Me dicen el desaparecido Fantasma que nunca está Me dicen el desagradecido Pero esa no es la verdad Yo llevo en el cuerpo un dolor Que no me deja respirar Llevo en el cuerpo una condena Que siempre me echa a caminar Manu Chão.

ficou logo apreensiva porque. Todas as vezes que a irmã voltou à delegacia. O convênio entre o IML e os laboratórios que faziam os exames de DNA estavam suspensos e a mãe do jovem morto não tinha condições financeiras para pagar um exame por conta própria. Os familiares. estudante e auxiliar de pedreiro. Thiago. O alívio da irmã ao não conseguir identificar o corpo do irmão. 18 anos. No dia seguinte à prisão. Segundo a irmã. Foi a partir do encontro com outras mães que também haviam passado por experiências similares – a perda dos filhos em situações violentas. Município de Vila Velha.INTRODUÇÃO Catarse da dor: a morte violenta e o luto como protesto público Cinco de dezembro de 2003. mas quando lá chegaram receberam a notícia de que Thiago não se encontrava mais lá. os policiais diziam-lhe que Thiago fora liberado no mesmo dia e que ela deveria procurar no Instituto Médico Legal ou em hospitais. sem documentos. Um dos apoios fundamentais veio de Maria das Graças Narcot. não houve mais retorno à delegacia e ele nunca mais foi visto com vida. foram à delegacia de polícia. foi liberado. a irmã esteve no IML. ao receber a notícia. A mãe. encontrou apoio para construir a morte como um caso e levá-lo adiante. Uma das primeiras tarefas foi providenciar que fosse realizado o . A mãe reconheceu o filho pela arcada dentária e teve que se esforçar muito para que o filho não fosse enterrado como indigente. não se repetiu com a mãe de Thiago quando esta decidiu ir ao IML fazer o reconhecimento. uma mãe que também havia perdido um filho assassinado pela polícia no centro de Vitória e que teve a iniciativa de fundar a Associação de Mães e Familiares de Vítimas de Violência do Espírito Santo (AMAFAVV). preocupados com o desaparecimento de Thiago e informados de que ele havia sido preso. estado do Espírito Santo. uma inspetora de polícia há tempos vinha fazendo ameaças contra o filho. Thiago era suspeito de ter participado de um assalto em um bairro da periferia de Vila Velha e. Thiago Oliveira e Fernando Teixeira de Oliveira são presos e levados ao Departamento de Polícia Judiciária sob a acusação de porte ilegal de armas. onde disse ter visto vários corpos carbonizados. entretanto. da delegacia. segundo ela. assassinados pela polícia – que Raimunda de Oliveira. Fernando assumiu ser o dono da arma e. ficou detido. dirigiramse até a casa dele para apanhar seus documentos a fim de realizar a identificação. Para os policiais. sem conseguir porém identificar entre eles o corpo do irmão. a mãe de Thiago. como tinha documentos. após o trajeto da delegacia à casa.

Para extravasar tamanha revolta e desespero. Com a articulação da AMAFAVV. tamanha a emoção. com o apoio e solidariedade de outros familiares e simpatizantes. O escândalo estava formado. os intestinos pendurados e o pé ao lado da cabeça. Depois a procissão seguiu até o Tribunal de Justiça do Estado e a Secretaria de Segurança Pública. outros familiares de vítimas de violência e alguns poucos apoiadores concentraram-se em frente ao Instituto Médico Legal. A mãe do jovem conta que não conseguia falar com ninguém. É um ser humano. no dia 13 de fevereiro de 2004. faixas. Com o caixão aberto exalando o odor dos restos mortais carbonizados e em decomposição. o cortejo seguiu do IML. Pelo caminho ouviam-se choros. dirigindo-se principalmente aos policiais. dirigindo-se até o Palácio Domingos Martins. Com cartazes. indignação e raiva. gritos e palavras de ordem. Segundo os relatos que circularam sobre o caso. camisas com a foto de Thiago e um caixão com seus despojos carbonizados. 18 . Segundo Raimunda. Uma chuva impediu que o corpo fosse completamente carbonizado. teve um dos pés arrancados e. por fim. a mãe de Thiago. auxiliada pelos apoiadores. onde o corpo foi velado simbolicamente nas escadarias da Assembleia Legislativa. não é um animal. a mãe. restando um corpo com a barriga estourada. de lá foi para o Palácio Anchieta (sede do governo do Estado) e. Ela. como pretendia fazer um delegado de polícia. Após o cadáver ficar dois meses e meio no IML. Jamais esquecerei a imagem do meu filho queimado”. antes de morrer Thiago fora torturado. carro de som. através da atuação de Maria das Graças Narcot. seguiu-se para o cemitério onde o corpo seria enterrado. Em seu entendimento. fez plantão no IML para impedir que o cadáver fosse enterrado como indigente.exame de DNA para identificar o corpo. gritava: “O que vocês estão vendo. aguardando o resultado do exame. A imprensa foi convocada pela AMAFAVV para acompanhar o ato. de onde saíram em cortejo. finalmente. Na porta do IML. Uma morte macabra. A pele não existia mais e o rosto estava contorcido como que expressando dor. conseguiu-se a doação de um exame de DNA. decidiu realizar uma manifestação de protesto antes do enterro. por diversas vezes policiais e funcionários do IML tentaram convencê-la de que o corpo não era do seu filho. em Vila Velha. era mais uma estratégia para encobrir o crime. A manifestação protagonizada pela mãe foi tão macabra quanto a morte do filho. a mãe. o resultado finalmente ficou pronto e deu positivo. fazendo uma parada na sede do Ministério Público Estadual e. enquanto o cadáver esteve no IML. para assim podê-lo enterrar como indigente. Ela decidiu fazer um cortejo fúnebre com os restos mortais do filho pelas ruas de Vitória. foi queimado com pneus.

ó. Assembleia Legislativa e Palácio Guanabara. No dia seguinte ao protesto. Após a manifestação catártica da dor. As reações dos espectadores. alegando que este teria participado de um assalto. através da concretude de suas instituições. Raimunda. assim levantando suspeitas contra a figura da vítima. os jornais publicavam algumas reações de pessoas que passavam pelo local no momento da manifestação. frente ao sofrimento da mãe. a mãe foi recebida no mesmo dia pelo Secretário de Segurança Pública. tomou novamente o microfone. em certo momento do cortejo fúnebre. Havia ainda os críticos que não concordavam com o que chamavam de “espetacularização do sofrimento”. A cada parada na frente dos prédios públicos um pano branco que cobria o cadáver carbonizado era retirado e a mãe convidava a todos para que vissem o que a impunidade era capaz de permitir. foi a vez do sindicato dos policiais manifestar sua indignação e sua solidariedade aos policiais afastados. Ministério Público. Após a identificação do corpo. que consideravam que a mãe deveria ter buscado justiça por outras formas. Tribunal de Justiça. foram as mais diversas possíveis. voltou-se para os policiais presentes que escoltavam a manifestação e para os que trabalhavam na Secretaria de Segurança e esbravejou: “Vocês não gostam de churrasco com cerveja? Tá aqui. Em frente à Secretaria de Segurança Pública. afrontando o princípio de presunção da inocência. a mãe do jovem assassinado.O velório. sede do governo estadual. Diante da decisão do Secretário de Segurança de afastar os policiais. o Secretário de Segurança Pública afastou 2 delegados e 32 policiais. mas as pessoas pareciam ficar mais escandalizadas com o ato da mãe do que com a forma macabra como seu filho fora morto. que expunha publicamente o corpo do filho carbonizado. que se comprometeu a coordenar pessoalmente o trabalho de investigação do caso. A estratégia do sindicato dos policiais era construir a inocência dos policiais com base na incriminação de Thiago. O sindicato entrou com uma ação de inconstitucionalidade contra o ato do Secretário. argumentando que o afastamento pressupunha uma condenação antes do processo legal. argumentando que “toda forma de buscar justiça é válida”. com paradas na porta do Instituto Médico Legal. Algumas achavam legítimo e justo a forma do protesto. **** 19 . Outras pessoas manifestavam nojo e repugnância diante da exposição pública do corpo em decomposição. sob a forma de cortejo público. o corpo do meu filho!”. com o objetivo de interpelar a figura abstrata e política do Estado. tornou-se um ato de protesto e denúncia contra os grupos de extermínio no Espírito Santo.

cujo resultado foi o desaparecimento forçado de onze jovens. o caso provocou em mim um estado de perplexidade. a era das chacinas. intitulada Do luto à luta: a experiências das Mães de Acari (Araújo. Como se verá adiante nesta tese. mas este se tornou um marco na memória da cidade. no Rio de Janeiro. juntamente com as chacinas da Candelária (1993) e de Vigário Geral (1993). Eu mesmo não cheguei a presenciar o protesto da mãe. 2007). eu tinha interesse em estudar o tema da violência urbana. Em temos gerais. novas categorias. através de relatos de amigos que lá estiveram e da cobertura midiática. Naquele momento. mas agora já morando no Rio de Janeiro. nem acompanhei de perto os desdobramentos do caso. sociabilidade e modos de se fazer 20 . figuras de vítimas e familiares de vítimas da violência. cheguei a pensar na possibilidade de realizar um estudo de caso desta situação. Para usar a expressão cunhada por Boltanski (2007). tentando compreender a morte macabra do jovem em Vila Velha e o sofrimento escandaloso da mãe e sua repercussão pública. faz sentido até falar em relativização da humanidade Neste sentido.O caso que acabo de descrever jamais saiu de minha memória. formado por policiais. A chacina de Acari ocorreu em 1990. mantive uma relação com o sofrimento à distância. eu estava preparando minha mudança para a o Rio de Janeiro. para pensar o regime da violência urbana. a fim de cursar o mestrado. associadas ao tráfico de drogas que assolava e ainda assola a cidade. na época do caso. vivos ou mortos. Mas em pouco tempo a cidade do Rio de Janeiro mostrou que o que não falta por aqui são casos igualmente macabros e escandalosos de violência. que jamais reapareceram ou foram encontrados. Embora não tenha estado lá. como chacina e massacre. passam a ser utilizadas para nomear e qualificar a escala e a proporção da violência. isso não significa afirmar que outras chacinas não tivessem ocorrido antes deste episódio de violência. um dos episódios que inaugurou. No entanto. investiguei as relações entre luto. Após o estado de perplexidade. Segundo as denúncias que circularam. optei durante o mestrado por trabalhar com um caso que também teve uma grande repercussão e cujas narrativas do terror e do sofrimento recolocavam com intensidade todas as questões que eu desejava estudar: tratava-se da chacina de Acari. o impacto na vida e na sociabilidade. ela foi cometida por um grupo de extermínio. O vocabulário e a linguagem da violência urbana se complexifica a cada dia. Na dissertação de mestrado. em certo sentido. passou a fazer parte do calendário de lutas dos movimentos de direitos humanos. a partir de um enfoque que buscasse investigar as formas como as pessoas afetadas lidam com esse tipo de evento. e há tempos a imagem da cidade maravilhosa havia sido manchada de sangue em razão da violência policial e da violência criminal.

entre uma política da piedade e uma política da justiça (Boltanski. Em várias ocasiões em que pude falar sobre a tese. fazendo o trabalho analítico de interpretação. O que constatei no decorrer da pesquisa foi uma coleção de casos semelhantes. associando empiria e teoria. a partir da experiência das “Mães de Acari”. nesse contexto. sobretudo. Sempre alimentei um interesse em estudar o desaparecimento forçado de pessoas. mas só em parte. Desde então passei a acompanhar e partilhar o mundo dos familiares de vítimas de violência na região metropolitana do Rio de Janeiro. do cadáver. procurando ampliar o horizonte empírico e o conjunto de questões teóricas e analíticas a ser investigado. ou em textos que escrevi. eu dizia que a tese tratava do desaparecimento forçado de pessoas. Durante boa parte do período de realização da pesquisa não soube definir com precisão sobre o que exatamente tratava minha tese. O sofrimento é a matéria-prima por excelência da experiência desses familiares. o uso político das emoções nas gramáticas morais e políticas. sem muita clareza disso no começo. Esta comparação consistia numa espécie de hierarquização dos sofrimentos. em algum momento. O familiar do desaparecido. analisando documentos. Embora o “Caso Acari” seja emblemático. Muito me chamou atenção as formas da morte e do desaparecimento. Encontrei nos familiares de vítimas de desaparecimento forçado um campo empírico adequado para realizar minha pesquisa. A questão ainda estava mal formulada. ele não é único. circula dentro de uma economia política das emoções. ou formulada de maneira incompleta. 2007). cujo critério era a ausência do corpo. O sofrimento. principalmente em razão da grande quantidade de vítimas e do desaparecimento dos corpos. Isso era verdade.política. descobri implícita uma questão central. mas. Ao me debruçar sobre o material de campo. mas não sabia exatamente qual era o fio condutor que alinhavava as várias camadas de questões que emergiram no decorrer do trabalho de campo e das elaborações teóricas. revendo fotos de manifestações. ou melhor. como ficaram internacionalmente conhecidas as mães dos jovens. Lembro-me que nos relatos de familiares de pessoas desaparecidas que registrei havia sempre uma comparação entre desaparecimento e execução. a partir da qual é possível apreender as dinâmicas de destruição e sofrimento social. O desaparecimento forçado de pessoas aparece aqui como uma forma social. fui aos poucos tecendo os fios condutores para narrar a pesquisa realizada. dizia: “No caso da execução 21 . repassando a memória dos eventos e. Neste sentido. a pesquisa de doutorado teve como objetivo dar continuidade às questões inicialmente formuladas durante o mestrado. Muitos temas surgiam. lendo e relendo os relatos dos familiares. que girava em torno do sofrimento e da política.

no Rio de Janeiro. mas não qualquer sofrimento. conceitos e categorias com forte conotação moral e política. 1 1 22 . ou do gatillo fácil. e sobre os familiares do período democrático. em: Birman e Leite (2004). Os trabalhos de Veena Das. chora. citados ao longo da tese. como: desaparecimento forçado. entre outros. Soares. a partir da experiência de familiares de vítimas de violência . fazem Alguns trabalhos sobre a experiência e o protagonismo dos familiares de vítimas de violência podem ser encontrados. sofrimento e política: a experiência dos familiares de vítima Esta tese trata das relações entre violência. Para isso. que performam a experiência da dor. tráfico e traficantes de droga. Você sofre. segundo meu ponto de vista. passou a fazer parte do repertório da linguagem da violência urbana na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. (2004). Sabe que morreu e pronto. ao estudar o silenciamento do sofrer e também as linguagens da resistência e seus usos. conferir (Pitta. Quais são os obstáculos para se reconhecer a dor dos familiares de vítima de violência? Quais são os modos como as vítimas (diretas e indiretas) e os familiares de vítima padecem. Esta tese revisita algumas das questões e dos temas de trabalho de Veena Das a partir de outro contexto histórico e sociológico: a experiência dos familiares de vítimas no contexto da chamada violência urbana. favela. denúncia. milícia. Araújo (2007. Para uma discussão sobre experiências de violência na Colômbia pode-se consultar Uribe ( 2004. sofrimento e política. 2010). Tratava-se de um sofrimento que precisava ser qualificado sociologicamente e antropologicamente. principalmente suas reflexões sobre as relações e tensionamentos entre violência e sofrimento. Sobre o contexto argentino relacionado aos familiares da violência política durante a ditadura conferir Catela (2001). Moura e Afonso (2009). familiar de vítima. foi uma inspiração central. experimentam e resistem à violência? Como recordam as perdas. 2008). O tema central era o sofrimento. e também de outros lugares: o desaparecimento forçado de pessoas. buscando sempre jamais perder de vista que a vítima é definida pelo contexto e pode gerar novos contextos. vítima. Era preciso demarcar e apresentar a dimensão moral e política em que este sofrimento se situa. percebem. Violência. E no caso do desaparecimento que nem isso a gente pode fazer?”. enterra e acabou.você ainda tem o corpo para enterrar. protesto. Freire (2011)Vianna e Farias (2011). começo argumentando que se trata de um sofrimento que está diretamente associado a uma variedade de temas. Detenho-me sobre uma modalidade particular de violência que. crime violento. comunidades morais. Leite. polícia. 2008) e Jimeno (2008). Interrogo-me sobre o repertório de ações possíveis para os atores sociais diante de eventos críticos e que falam (quando falam) a partir de uma condição de subordinação social.

que novos vínculos sociais pode o sofrimento criar? Que respostas podem ser dadas à experiência de violência e como os diversos atores sociais se engajam politicamente na apropriação do sofrimento para usos políticos? Como o Estado. Pelo contrário. Veena Das defende uma imagem do conhecimento antropológico em relação ao sofrimento “como algo que está atento à violência onde quer que ocorra no tecido da vida. por outro lado. como o descrito anteriormente. O argumento de Veena Das é o de que a reconstrução do eu. de intentar redimir a vida através do cotidiano. age em benefício ou prejuízo das vítimas. pesquisadores. do ato de mostrar. como falar do sofrimento provocado pela violência e usálo em benefício próprio? Como elaborar o trauma e o sofrimento? Como reabitar o mundo após a degradação da violência extrema? De que forma eventos extraordinários. se dá não pelo retorno a uma sombra de algum passado fantasmagórico. Assim. consequentemente. No caso das experiências dos familiares de vítimas. em oposição ao potencial dramático dos relatos que aparecem na mídia. Neste sentido. 2008d: 153). mas sim pela via do gesto. deva se contentar com uma ideia simplista das vítimas. Das descreve que o potencial da antropologia.o luto e absorvem os acontecimentos violentos na ordem do cotidiano? Do ponto de vista das vítimas e dos familiares de vítimas. passam a habitar o cotidiano e a subjetividade daqueles que foram afetados por tamanha desgraça? Que repertório de ações se apresenta ou é criado no agir daqueles que passam por experiências traumáticas? Quais as possibilidades de engajamento possíveis para aqueles que são alcançados diretamente pelos eventos críticos e. ao ser interpelado. e. abrirse para a dor do outro significa acompanhar os tensionamentos nas relações entre sofrimento e violência. de uma história escrita. a partir de práticas e ações diárias e não a partir de um passado. não é o de centrar a atenção em um acontecimento catastrófico. mas sim mostrar “como é que algo pode converter-se numa crise” e como se pode levar os acontecimentos atrás e adiante no tempo (Das. a necessidade de uma ação urgente para fazê-lo cessar? E como nós mesmos. no entanto. do dizer. mas no contexto de habitar a cotidianidade. é que a vítima de violência pode se auto reconstruir em seu cotidiano. não significa que o antropólogo. a vítima expressa suas reivindicações não através da fala. o que se tem é o acionamento da 23 . nos engajamos nesses tipos de acontecimento? Um dos argumentos centrais de Veena Das. diante de eventos críticos. conforme os contextos? Como se dão os jogos de disputa que vão definir a legitimidade ou não de um sofrimento. 2008d). como argumenta ainda Veena Das. evitando o dualismo entre “vítima” e “agressor”. Isso. e do corpo de textos antropológicos como algo que rechaça a cumplicidade ao abrir-se à dor do outro” (Das. expresso nas relações desenvolvidas no cotidiano.

em termos de trabalho de campo.ou seja. englobam uma diversidade semântica e situações empíricas variadas. As estratégias e possibilidades de trabalho de campo sobre o tema do desaparecimento de pessoas são tão diversas quanto as possibilidades de enquadramento do problema a ser investigado. fontes e procedimentos A pesquisa que deu origem a esta tese foi realizada entre 2008 e 2012. Neste sentido. também amplificou-se o medo do crime. Meu interesse. As opções metodológicas e estratégias de trabalho de campo dependem diretamente da questão que se deseja investigar. todos os tipos de conversas. e me possibilitassem analisar as relações entre violência. A vida cotidiana e a cidade mudaram por causa do crime violento.autoridade moral da maternidade e dos laços primordiais para falar das relações entre sofrimento e direito.. comentários. sofrimento e política. debates e brincadeiras que têm o crime e o medo como tema – é contagiante” (p. nem sempre é viável para estudar a violência e o crime. O crime tornou-se um tema central e “a fala do crime . desde o início. 2004). O segundo obstáculo. A maternidade e os laços de parentesco constituem o lugar onde se busca significar a perda e o luto. Tive que percorrer certas trajetórias destas categorias. foi a não disponibilidade ou o caráter fragmentário dos dados. A pesquisa: estratégias de trabalho de campo. 2010: 14). narrativas. casos que se enquadrassem dentro de uma modalidade particular de desaparecimentos. protesto e política. para reabitar o cotidiano e a vida. Para explicar melhor minha perspectiva e meu enquadramento do problema sugiro acompanharmos o desdobramento da argumentação de Teresa Caldeira quando se refere à fala do crime. mas sim na análise etnográfica de experiências de violência e segregação. Caldeira. ela escreve que a observação participante. método por excelência de um estudo etnográfico. foi realizar um estudo sobre “desaparecimento forçado de pessoas”. minha perspectiva tornou-se. Ela argumenta que assim como aumentou o crime violento. ao falar sobre a realização de sua pesquisa. 27). próxima ao enquadramento que a antropóloga Teresa Caldeira adotou para estudar o que ela denomina de a fala do crime. para tentar encontrar o que eu procurava. ou seja. Com o passar do tempo. O primeiro problema enfrentado foi o de que as categorias “desaparecido” ou “pessoa desaparecida”. era registrar histórias de desaparecimento forçado. “boas para pensar”. piadas. relata que “não estava especialmente interessada na etnografia de diferentes áreas da cidade. em algum sentido.. A fala do crime alimenta um circuito em que o medo é trabalhado e 24 . Meu objetivo inicial. Em seu livro Cidade de muros (Caldeira.” (Caldeira. formas de luto.

diz De Certeau. manifestações públicas e políticas. ou seja. multiplicam regras de exclusão e de evitação. acesso às interações entre familiares e outros atores políticos. As narrativas de crime são um tipo específico de narrativa que engendram um tipo específico de conhecimento. “Não tem corpo não tem crime”. do acesso a um tipo de palavra dos familiares: a palavra pública. Mais do que falas sobre o crime. delineiam e encerram espaços. 2000: 28) De maneira similar. A narração. elas simplificam e encerram o mundo. (Caldeira. Ao contrário da experiência do crime. Elas tentam estabelecer ordem num universo que parece ter perdido o sentido. e a violência “é a um só tempo combatida e ampliada”. percorri os espaços institucionais e estatais que de forma recorrente fazem parte da trajetória dos familiares após o desaparecimento: delegacias de polícia. essas narrativas representam esforços de restabelecer ordem e significado. Em resumo. organizam e dão novo significado às experiências individuais e ao contexto social no qual ocorrem. defensoria pública e ministério público. que se apóiam na elaboração de pares de oposição óbvios oferecidos pelo universo do crime. Essa reorganização simbólica é expressa em termos muito simplistas. que não deixam de ser também uma “fala sobre o crime”. na medida em que não é classificado como um crime. diferenciam. Essas narrativas e práticas impõem separações. Busquei combinar um conjunto de métodos e estratégias de trabalho de campo para conseguir reunir uma documentação rica para a análise: acompanhamento de eventos. Busquei registrar as várias falas sobre o desaparecimento e. ao fazer isso. um delegado que 25 . é uma arte do falar que é “ela própria uma arte do agir e uma arte do pensar”. e restringem movimentos. institutos médicos legais (IML’s). o mais comum deles sendo o do bem contra o mal. Tratava-se.reproduzido. constroem muros. homenagens. onde foi possível acessar o mundo moral e político dos familiares de vítimas. segregam. no decorrer da pesquisa. é um problema familiar e não policial. neste caso. que rompe o significado e desorganiza o mundo. como estratégia de trabalho de campo percorri um conjunto de espaços. as histórias de crime tentam recriar um mapa estável para um mundo que foi abalado. impõem proibições. meu interesse durante o trabalho de campo foi o de registrar histórias sobre o desaparecimento forçado de pessoas. As narrativas de crime elaboram preconceitos e tentam eliminar ambiguidades. para isso. hospitais. esta é uma frase que os familiares geralmente ouvem quando procuram uma delegacia. E. além disso. estabelecem distâncias. as histórias que registrei podem ser interpretadas também como narrativas sobre o terror e o sofrimento. Para exemplificar a desimportância do desaparecimento. A exemplo de outras práticas cotidianas para lidar com a violência (…). Em meio aos sentimentos caóticos associados à difusão da violência no espaço da cidade. A fala da polícia era basicamente a de que o desaparecimento. a fala do crime simbolicamente o reorganiza ao tentar restabelecer um quadro estático do mundo. O argumento de Caldeira é o de que as narrativas de crimes recontam experiências de violência e. atos.

Diante da reivindicação insistente dos pais. moradores de favelas e militantes populares e de direitos humanos. optei por direcionar esta pesquisa para a perspectiva dos familiares. A primeira atitude policial. Segundo este mesmo delegado. geralmente o desaparecimento é investigado apenas quando há indícios claros de que há um crime por trás da situação. nos contou o seguinte caso: os pais de uma garota compareceram à delegacia para registrar o desaparecimento da filha e pressionaram o delegado para que acionasse uma equipe para realizar a busca. vem do estigma que associa favela. com alguns familiares. Nas palavras do delegado. geralmente. que os casos em que o desaparecido for tido como “bandido” ou for simplesmente suspeito de participação no mundo do crime provavelmente não serão investigados. Meus contatos estabelecidos. e Ferreira (2011). isto quando o medo deixa de ser uma barreira. sem dúvida. mas os pais não deixavam” (sic). 2011) que argumentavam. Ferreira. umas das Mães de Acari. durante minha pesquisa de mestrado e minha colaboração junto à Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. foi. o delegado relatou ter montado uma megaoperação policial para entrar numa favela e procurar a jovem desaparecida. seu principal objetivo é 26 . o que havia acontecido era que “a filha queria dá para um traficante. Como resultado da operação encontraram a jovem na casa de um traficante com quem ela namorava. uma das primeiras situações experimentadas por um familiar é enfrentar a suspeita lançada pela polícia sobre a integridade moral da pessoa desaparecida. Ao chegar a uma delegacia para comunicar um desaparecimento. é lançar suspeita sobre o envolvimento do desaparecido com o mundo do crime. um fator facilitador do trânsito em campo. pois são eles os maiores interessados em falar sobre o assunto. A figura do “bandido” e a poluição moral que ela carrega indica que tal identificação implica. na prática. neste mesmo sentido (o de que a polícia compreende o fenômeno do desaparecimento como um problema familiar e não policial). Foi suficiente uma única entrevista com o referido delegado e o acesso a dois estudos (Oliveira. para me levar a desistir de prolongar o trabalho de campo na instituição policial.entrevistei juntamente com Marilene. tráfico de drogas e crime. anteriormente. que estavam desesperados. 2007. Essa história expressa o entendimento predominante entre policiais de que o desaparecimento de pessoas é uma ocorrência desimportante dentro das prioridades a serem investigadas. Outra moralidade que orienta o tratamento policial sobre a questão das pessoas desaparecidas. A Rede é um movimento social que reúne sobreviventes e familiares de vítimas de violência policial. daí o motivo de ter fugido de casa. em algum aspecto. Com esta única entrevista e com os relatos policiais que constam nos trabalhos de Oliveira (2007).

que muitos familiares procuram a Defensoria Pública em busca de ajuda. Disse que eles existem. o problema é que os familiares não se sentem protegidos para fazer a denúncia. logo desistem. e também nos arredores de hospitais e IML’s. a defensora me disse que eu estava querendo pesquisar a parte “invisível” dos desaparecimentos. optam por não registrar os casos e buscam soluções por outras vias. Algumas das entrevistas que realizei foram conseguidas tendo o cartaz como fonte. devem antes comparecer a uma delegacia de polícia e registrar uma ocorrência. como a Defensoria Pública e o Ministério Público.lutar contra a violência estatal. Para encontrar os familiares também percorri outros lugares. No Ministério Público. foi a de que o tipo de caso que eu estava procurando existe. na Defensoria Pública. Inicialmente. numa outra fase. decidimos incluir no escopo da pesquisa os registros de ocorrência de ocultação de cadáver e encontro de 27 . Nestas duas instituições. Ficam com medo da polícia. em alguns casos com informações sobre a última vez que foi visto. com quem conversei. O fato de muitos familiares optarem por não registrar a ocorrência policial do desaparecimento aponta para a imprecisão dos registros oficiais na medida em que os casos são subnotificados. Outra fonte de pesquisa importante foram os boletins de ocorrência. Alguns dos familiares de desaparecidos que entrevistei participam da Rede. ou nos murais de recado de delegacias de polícia. Dentro de um ônibus ou ao circular a pé pelas ruas da cidade. enquanto que. outros não. geralmente com uma foto do desaparecido. principalmente quando o relato do familiar traz uma denúncia envolvendo a participação de policiais. para dar andamento a um processo. Quando desistem do registro policial. ele selecionou os registros de desaparecimento do ano de 2008 e. Durante a realização da pesquisa desenvolvi um olhar clínico para os cartazes. fixados em postes e muros. São encontrados geralmente nas proximidades de favelas. e que os relatos que chegam à Defensoria cada vez mais dão conta de desaparecimentos envolvendo a participação de milícias. quando os familiares são informados de que. através do acesso que tinha ao banco de dados de uma delegacia legal. O cartaz comunicando um desaparecimento tornou-se uma imagem comum nas grandes cidades. aos quais tive acesso através de um contato com um colega que trabalhava numa delegacia de polícia. uma opção possível passa a ser a confecção de cartazes. a postura dos operadores do direito. há também os casos daqueles que procuram uma delegacia de polícia para fazer a ocorrência mas os próprios policiais se negam a fazê-la. Por outro lado. recebi a informação de que há uma dificuldade grande para se fazer uma denúncia dos tipos de desaparecimento que eu procurava em razão da falta de provas. Porém. um número telefônico e um pedido de contato para quem tiver informações. meu olhar esteve atento aos cartazes.

Leonardo Chaves. mas o acesso que tivemos a ela se deu quando fomos pesquisar os registros de encontro de ossada. As experiências e os relatos dos familiares – principalmente das mães – sobre o terror e o sofrimento constituem o material empírico central das reflexões e análises apresentadas nesta tese. o desaparecido pode estar morto e a pessoa morta pode ter sido classificada como “não identificada”. outros materiais. A sugestão de cruzar vários tipos de registros já havia sido dada pelo Subprocurador Geral de Justiça do Ministério Público. De fato. A primeira dessas pessoas foi Marilene Lima. como. Segundo ele. Durante os encontros para as entrevistas. como cartas. documentos judiciais. a de uma mãe cujo filho havia desaparecido e ela chegou a fazer um registro de ocorrência de desaparecimento. e achava que histórias piores. 2007). na situação de entrevista o relato era mais intimista. sobre suas vidas e seus locais de moradia. principalmente na empreitada de identificar familiares a serem entrevistados. ao enterro dos filhos e a um atestado de ausência ou de óbito que documente a morte são negados a esses familiares. No total foram realizadas 25 entrevistas. morte e tortura. Ou seja. objetos de análise nesta tese. Se nos eventos públicos era possível acessar uma palavra pública dos familiares. eu ouvia histórias de desaparecimento. mas transformou-se numa relação de amizade 28 . os casos relatados pelos familiares tratam de execuções e desaparecimentos de pessoas e os acusados dos crimes são policiais. muitos casos de desaparecimento poderiam ser elucidados ao se cruzar os registros de ocultação de cadáver e encontro de ossadas. algumas coisas sendo contadas em tom de segredo. Algo que me impressionou durante a pesquisa foi que. por exemplo. são provenientes de entrevistas com pessoas que tiveram parentes vitimados pela violência policial e/ou criminal. encontramos histórias surpreendentes. além do relato. reportagens de jornal. mais trágicas e absurdas não poderiam aparecer. Ao longo da pesquisa contei com o auxílio valoroso de algumas pessoas. quando pesquisei exatamente a experiência das Mães de Acari (Araújo. Quando relatam suas histórias estes familiares falam da violência que se abate sobre os filhos (as vítimas diretas) e sobre si mesmas (vítimas indiretas). etc.ossadas. O que havia ocorrido era que o filho ficou desaparecido por um tempo. algumas vezes. Alguns dos direitos mais elementares como o direito à denúncia. quando o entrevistamos no início da pesquisa. descrevem a forma violenta das mortes e também falam do não acesso a direitos. realizadas entre 2007 e 2012. traficantes e milicianos. eram geralmente disponibilizados pelos familiares. Os relatos. mas apareciam. Marilene é uma das Mães de Acari e minha aproximação com ela se deu a partir de minha pesquisa de mestrado. depois seus restos mortais apareceram depositados em frente ao portão da casa da mãe.

pagando-lhe uma bolsa durante seis meses. As duas participavam de um projeto do Hospital Geral – Santa Casa de Misericórdia e Marilene fez o contato convidando-a para uma entrevista. Marilene já estava inserida dentro de uma rede de contatos formada por familiares de vítimas de violência. em outras situações. foi uma mãe que surgiu para a pesquisa através de um convite de Marilene. que reúne moradores de favelas e comunidades pobres em geral. uma única entrevista. ter um familiar fazendo os contatos com outros familiares certamente poderia significar uma possibilidade maior de aceitação e disposição para a conversa. obterem informações sobre o paradeiro dos filhos e reivindicar justiça. Maria do Rosário. após ouvirmos a história de Maria do Rosário. portanto. que pode ser entendida também como um método. de empresas. teve sua eficácia. inclusive muitas entrevistas com mães e com autoridades públicas. 29 . segundo ela. Essa estratégia. período em que ela atuou como colaboradora na realização do trabalho de campo. Além disso. Com o passar do tempo o desgaste era natural e também vieram as ameaças. e resolveram se juntar e se encontrar toda semana nas escadarias da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. indicasse outra pessoa para ser entrevistada. partidos políticos e igrejas. Ela fez contatos com vários familiares que haviam participado com ela das Mães da Cinelândia. um contato que eu trazia de um momento anterior. porque nesse grupo.e partilha na militância e na luta contra a violência e por justiça. Convidei Marilene para trabalhar como minha assistente de pesquisa. o que fazia muitas abandonarem o movimento. se possível. A participação de Marilene foi muito proveitosa porque ela conseguiu providenciar vários contatos interessantes para a pesquisa. tendo ela mesma sido uma das pioneiras nesse campo de protesto que se configurou a partir das várias chacinas da década de 1990 no Rio de Janeiro. Durante a realização das entrevistas adotei a estratégia de sempre solicitar ao entrevistado que. Era. A relação com os familiares entrevistados consistiu em alguns casos em uma aproximação mais duradoura. Maria do Rosário passou a 2 2 “A Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência é um movimento social independente do Estado. apenas por um encontro. Silenciosamente levavam seus cartazes com as fotos dos filhos e os expunham com o objetivo de publicizar os casos. havia muitos casos de desaparecimento. Ela também ajudou no trabalho de acompanhamento e registro da cobertura que a mídia fazia sobre o fenômeno do desaparecimento de pessoas. Desde então. falamos a ela da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência . um grupo de mães cujos filhos estavam desaparecidos ou haviam sido mortos. A entrevista foi realizada e. Uma das coisas que Marilene fez foi tentar retomar alguns desses contatos. marcada por vários encontros e. Diante da desconfiança e do medo que cercam um familiar de vítima (e nos casos de desaparecimento parecia que a desconfiança e o medo tendiam a aumentar). por exemplo.

Eu mesmo. nesses casos. o caso (as circunstâncias. a quem recorreu. como ficou sabendo. atribuídos à milícia. A construção do desaparecimento como um problema social se dá através da polifonia de vozes que falam sobre o assunto. (Cf. seja participando de programas de televisão e reportagens jornalísticas sobre o assunto.participar das atividades da Rede e providenciou vários contatos com familiares para serem entrevistados. impactos na saúde e nos projetos familiares. de audiência pública na Assembléia Legislativa. Segundo Maria do Rosário. Em outras ocasiões – como a descrita no capítulo 4 – o relato é tão detalhado que parece até que o familiar assistiu a tudo. http://www. as interações dos familiares com outros atores (poder público. as primeiras providências. de grupos de comunidades. as buscas). A Rede se constrói pela soma. seja através da produção de relatos para os próprios familiares. praticamente se limitava a contar que a pessoa havia saído para trabalhar ou para fazer qualquer outra coisa e não voltara mais. e engajamento religioso e político). As entrevistas foram estruturadas a partir dos seguintes eixos: apresentação do familiar e da vítima (quem eram. mídia e outros familiares). Uma parte do material não chegou sequer a ser explorada. em diversas ocasiões. ela conseguiu fazer com que alguns desses familiares aceitassem o convite para uma entrevista. O que tinham para dizer. religião e política (o estigma da favela. movimentos sociais e indivíduos. suas vizinhas. relação entre território e crime violento. e militantes populares e de direitos humanos. Quando comecei a pesquisa eu sabia que seria difícil reunir o material que eu desejava. participei diretamente desta construção na medida em que fui demandado a falar e a escrever sobre o assunto. apesar do medo. Em alguns casos a entrevista não durou muito porque o familiar praticamente não tinha informações mais detalhadas sobre o acontecimento. mas ao final da pesquisa eu havia coletado um material satisfatório e suficiente para escrever a tese.redecontraviolencia. ou ainda. território. com preservação da autonomia. A qualidade dos relatos variou muito conforme as informações que o próprio familiar tinha sobre o caso. cujos filhos estavam desaparecidos. São as várias formas de falar sobre o desaparecimento de pessoas que vão construindo as várias possibilidades semânticas do termo e o enquadramento da questão. que lutam contra a violência do Estado e as violações de direitos humanos praticadas por agentes estatais nas comunidades pobres”. Ainda assim. na verdade mortos pela milícia local. a reação dos pais).org) 30 . o impacto do acontecimento no ambiente familiar (mudanças nas rotinas. onde ela mora há muitos e muitos casos de desaparecimento. o que faziam). durante o período de realização da pesquisa. atores políticos. ficando para sobreviventes e familiares de vítimas da violência policial ou militar. mas as pessoas têm medo de falar. Essas próprias ocasiões iam abrindo possibilidades para o trabalho de campo. Todas as suas indicações eram de mães.

sobretudo. apresentar o objeto. milicianos. porque o que tento fazer é reconstituir pequenas sequências de situações e ações dos familiares diante do caso. o trabalho e as estratégias de campo e as fontes.incursões futuras. Cada uma das partes contém dois capítulos. A Parte II. O capítulo “Linguagens. No capítulo “O drama do desaparecimento narrado desde os familiares: pequenos mapas da dor”. “Violência. um diálogo com o pensamento da antropóloga indiana Veena Das e a sociologia pragmática do sociólogo francês Luc Boltanski e seus parceiros de pesquisa. práticas e políticas do sofrimento” é. Inicio a Introdução com a descrição de um “caso” para. De repente pessoas desaparecem nas mãos de policiais. reúne em dois capítulos histórias de desaparecimento. Esse capítulo também discute as dificuldades jurídicas e as possibilidades semânticas das categorias desaparecido e desaparecimento. são abordadas as relações entre a violência e as linguagens. “A memória das tragédias”. traficantes de droga. muito utilizado durante a repressão das ditaduras latino-americanas. principalmente nas grandes cidades. Na Parte I. acima de tudo no que diz respeito ao tema do sofrimento e das possibilidades ou não de engajamento diante dele. sofrimento e política”. A discussão apresentada nesse capítulo também trata do “trabalho do tempo” (Veena Das) diante do sofrimento e da questão da comunicabilidade da dor e as formas de engajamento face ao sofrimento (Boltanski). Nesta seção também discorro sobre a realização da pesquisa. práticas e políticas do sofrimento. ora como problema policial. o tema e as questões que mobilizam esta tese: as relações entre violência. conclusão. Estas “narrativas 31 . a partir dele. tornou-se uma prática da linguagem da violência urbana. Os relatos dos familiares são tomados aqui como “narrativas sobre o terror e o sofrimento”. ora o desaparecimento é compreendido como um problema familiar. além de introdução. referências bibliográficas e anexos. O desaparecimento de pessoas vem cada vez mais sendo discutido e construído como um problema social e. o argumento central é o de que o método de “desaparecer pessoas”. conto histórias dos familiares sobre o desaparecimento dos filhos. No capítulo “O desaparecimento forçado de pessoas como repertório da linguagem da violência urbana”. Chamo essas histórias de “pequenos mapas da dor”. neste processo de construção. Estrutura e organização da tese Esta tese é composta de três partes. sofrimento e política a partir da experiência dos “familiares de vítimas de violência”.

sequestram treze pessoas. nesse capítulo o que se tem é o encontro dos familiares de vítimas com outros atores políticos do campo dos direitos humanos. O capítulo “Gramáticas morais e políticas dos familiares de vítimas de violência” aborda um conjunto de categorias como “vítima”. esse evento-ação 32 . com a conivência da polícia. Na Parte III. o foco da análise concentra-se nas gramáticas morais e políticas sobre as quais se apoiam as críticas. especialmente à violência policial. entre outros locais. “metáfora da guerra” e “desumanização”. denúncias e protestos dos familiares. apresentou uma descrição densa de um caso exemplar de desaparecimento. hospitais. Esse encontro entre familiares e atores políticos do campo de protesto dos direitos humanos possibilita aos atores envolvidos a troca de experiências e constitui-se em um espaço de circulação de gramáticas políticas. Os relatos dos familiares de vítima que registrei têm uma estrutura parecida e deles emergem como protagonistas do ato de desaparecer policiais. suas relações com o poder público. Em relação aos familiares de vítimas. que vive em pé de guerra para “tomar” os pontos de venda de droga de uma favela vizinha. Os relatos também descrevem a interação entre os familiares de vítima e o Estado. bocas de fumo em favelas. através dos relatos dos familiares. O capítulo “Narrativa sobre o terror e o sofrimento: um caso exemplar de desaparecimento forçado”. que ajudam a traduzir e expressar o universo moral e político no qual se insere a experiência dos familiares. de onde é possível extrair os argumentos centrais da crítica dos movimentos de direitos humanos à política de segurança pública fundamentada na metáfora da guerra. O sofrimento dos “familiares de vítima” aparece nesse evento como a matériaprima sobre a qual se apoia a crítica dos movimentos de direitos humanos à violência estatal. No último capítulo da Parte III. milicianos e traficantes. Esta experiência situa-se na fronteira entre a linguagem da violência e a linguagem do direito. que é também o capítulo final da tese. denúncias e protestos”. Institutos Médicos Legais. “Engajamento político e movimento crítico: a construção da crítica e da denúncia”. entre outras. aluga o “caveirão” (carro blindado da polícia usado para incursões militares em favelas) e. descrevo um evento-ação político. “Críticas. O enredo da história conta que um bando de traficantes de uma favela. O relato da mãe retrata um verdadeiro “teatro dos horrores”. Se em outros momentos da tese é possível acompanhar. “familiar de vítima”.do terror e do sofrimento” talvez sejam uma outra forma de falar daquilo que Teresa Caldeira chamou de “a fala do crime”. sempre em busca de informações acerca do paradeiro dos filhos e parentes. Muitos familiares tornam-se habitués de lugares como delegacias de polícia. através da peregrinação que passam a fazer pelas instituições estatais buscando solucionar o caso.

corresponde a uma dimensão do terror que faz parte de um mecanismo produtivo de poder. Nas “Notas finais” indico algumas questões gerais que as histórias e casos trabalhados ao longo da tese parecem apontar. Nesse sentido. a experiência dos familiares de vítima situa-se entre uma política da piedade (orientada face à compaixão diante do sofrimento do outro) e uma política da justiça (orientada face à justiça). que advém sobretudo da pretensão e interesse político dos movimentos de direitos humanos em atuar no sentido de politizar a dor dos familiares. 33 .tem uma dimensão pedagógica. em torno da idéia de que o desaparecimento forçado de pessoas corresponde a um dispositivo de governo-gestão onde a corporalidade que não está materializada mas se constitui nos rumores.

PARTE I VIOLÊNCIA. SOFRIMENTO E POLÍTICA .

“paciência”. LINGUAGENS. a que se refere a antropóloga indiana. diante dela. entre o factual e o eventual. podemos também falar do envolvimento no dia a dia como um envolvimento com a criação de fronteiras em diversas regiões do self e da sociabilidade. “Os atos de violência são transparentes?”. dor e humilhação. e uma de suas preocupações. como dizê-lo. causados por situações de violência que destroem e aniquilam o corpo e abalam a linguagem e a comunicação. central nesta tese. É o caso. Como se pode expressar a relação entre a possibilidade e a ocorrência. em tão grande escala. nos remete exatamente a essa “criação de fronteiras em diversas regiões do self e da sociabilidade”. encerra uma relação com o que está acontecendo de forma repetida e nãomelodramática. por exemplo. Pode-se. pergunta-se Veena Das. quando acontece de modo dramático. se a violência. e mais ainda. 2012). 1999: 31-32) A categoria “familiar de vítima”. atinge-se “uma espécie de limite da capacidade de representar”.1. Esta autora observa que muitos dos trabalhos recentes sobre a violência sugerem que. mas não se contenta com tal interpretação e coloca a questão em outros termos. como em Ruanda ou na ex-Iugoslávia”. 2008c). “reação”. pensar no texto não como algo acabado. revisto e acrescido de comentários. no sentido que a antropóloga Veena Das dá à expressão: “Com a expressão 'trabalho do tempo'. mas em processo de produção. sofrimento. A expressão trabalho do tempo vincula-se a ideias sobre “espera”. etc. que demandam necessariamente um trabalho do tempo. faço alusão ao fato de que vidas humanas se movem entre polos de agência e paciência e que o tempo também tem uma qualidade impessoal” (Das. E Das argumenta ainda que a Partição da Índia. Esses trabalhos são geralmente apresentados sob o “signo do horror” e “nos fazem pensar como seres humanos podem ter sido capazes de atos tão hediondos. em 1947. O trabalho do tempo e a questão da comunicabilidade da dor Há certos tipos de pesquisa e trabalho de campo. Além da imagem do texto. foi avaliar o significado do testemunho em relação à violência e à formação do sujeito (Das. então. não numa narrativa única. mas na forma de um texto que é constantemente revisado. entre outras. (Das. A primeira fronteira que se estabelece nesse caso se conforma partir da . PRÁTICAS E POLÍTICAS DO SOFRIMENTO 1. fornece um “tropo de horror comparável”. de situações que lidam com morte. A reflexão de Das sobre o trabalho do tempo surge de seu trabalho etnográfico com mulheres que foram raptadas e violadas durante o processo de Partição da Índia.1.

das formas de vida. de uma mãe de vítima.diferenciação entre aqueles que tiveram parentes mortos. A este conhecimento ela dá o nome de conhecimento venenoso. A violência é atualizada nas várias esferas da vida social: na familiar. é um agente que “trabalha” nas relações. O relato a seguir. na sociabilidade local. você vai pro seu dia-a-dia. a mãe trata de duas formas de conhecer a dor. Uma seria através do “sofrimento à distância” (Boltanski. mas eu acredito que se antes de eu morrer eu vir a saber eu vou ficar chocada com alguns participantes. no trabalho. Por outro lado. expressa exatamente a argumentação de Veena Das a respeito do conhecimento venenoso: O que aconteceu num primeiro momento pra gente tomar uma atitude? Bom. então você num tá nem aí. no embate entre vários autores pela autoria das histórias nas quais coletividades são criadas ou recriadas” (Das. você tá lá cuidando dos seus filhos. vamos para as ruas! Ou a gente ficava dentro de casa chorando ou a gente tinha que ir para as ruas. Consequentemente. eu nem sabia que [podia entrar lá]. vitimados pela violência. ao se falar de experiência. a violência enquanto evento/acontecimento é construída através da experimentação de diversas vozes e.. em torno dos eventos críticos pode também surgir laços de solidariedade a partir da dor e do sofrimento. A gente fica vendo televisão. na religião. Em relação à experiência dos familiares de vítimas a violência provoca rupturas e reorganizações das rotinas. está-se falando necessariamente de subjetividade e da produção de sujeitos. mas passa. Ainda não caiu esse dado claro. há uma forma de conhecimento que se constitui pelo sofrimento. etc. eu não sei porque. das relações no interior da família. nos meios de comunicação. sente a dor.. levamos cartazes. se a violência desorganiza o tecido social. “permitindo que sejam reinterpretadas. produzindo novos vínculos sociais e circuitos de sociabilidade. No meu entendimento. 1999: 37). A experiência do sofrimento engendra não só a destruição do corpo e da linguagem. porque nós estamos assim. da relação com o trabalho. se emociona no momento. você vê televisão e não é contigo. eu achava que alguma coisa saía de dentro da comunidade. e outra seria através do 36 . Segundo Veena Das. e também gera adoecimento e mais mortes. reescritas. modificadas. a categoria demarca uma distinção entre aqueles que sofrem diretamente a perda de um ente querido e aqueles que não sofrem. assistindo televisão. 2007). Neste relato. O sofrimento decorrente da violência impacta a sociabilidade daqueles que estão imersos direta e indiretamente no acontecimento. que se conformam e se transformam com o “trabalho” do tempo. Neste sentido. no meu sentimento. e aqueles que não têm. fomos pra frente da Secretaria de Segurança. obviamente de modos e intensidades diferenciadas. e aí nós fomos para as ruas. Trata-se de um “conhecer pelo sofrimento” em que o tempo “não é algo meramente representado”. mas também a produção de sujeitos da dor e comunidades morais. Bom. você vê.

O conhecimento venenoso. 2006: 55) Se a situação-limite é o que muitas vezes faz falar aqueles que sofreram a experiência 37 . que fala através do relato acima. esse tal conhecimento venenoso. é possível aproximar o pensamento de Veena Das das interpretações de Michael Pollak e Natalie Heinick (Pollak e Heinick. O tempo. ou seja. Distância entre aqueles que acessaram. Seu argumento é que uma coisa é assistir o sofrimento do outro na televisão. É esse risco de fragmentação do próprio self que impede vítimas e sobreviventes – e. 2006) no que diz respeito à reflexão sobre o significado e as condições de testemunhar diante de eventos críticos e situações extremas. nos coloca diante de uma questão que é a da distância. a própria identidade. os familiares de vítimas – de narrar os traumas vividos. por exemplo. aquele que se dá pela via do sofrimento. (Pollak e Heinick. mientras que el esfuerzo por olvidar o no evocar públicamente puede ser una condición para superar ese pasado. y por lo tanto. e um abismo então se estabelece entre aquele que viveu a experiência e aqueles que não (lembrando que a experiência pode ser vivida direta ou indiretamente. Foi através do conhecimento venenoso. No pueden así hablar de modo creíble sino aquellos que lo han sufrido. Tanto numa interpretação como na outra a questão da distância tem a ver com a dificuldade de compartilhar uma experiência traumática que coloca em risco a integridade física e moral daqueles que estão imersos no acontecimento.conhecimento venenoso (Das. que essa mãe. Como afirmam Pollak e Heinick em relação à experiência concentracionária: El silencio deliberado. no caso desta tese. descobriu. o ato de testemunhar experiências traumáticas implica sempre lidar com o problema do silêncio. en el límite de lo decible. 2008c). nesse sentido. es sin duvida el indicador más sobresaliente del carácter doblemente límite de la experiencia concentracionaria: en el límite de lo posible. portanto. obstáculo para toda investigación tendiente a reconstruir la lógica de las adaptaciones sucesivas ante rupturas radicales en el desarrolo de una vida. de encontrar escuta. e aqueles que não sofreram. através da experiência direta do sofrimento da perda. Por isso. quando “sentiu na pele”. mas também uma reflexão sobre si mesmo. Neste aspecto. Pollak e Heinick (2006) chamam atenção para a dificuldade de se manter intacto o sentimento de identidade diante de situações limite e para o fato de que o testemunho põe em jogo não só a memória. e essa reflexão é dolorosa. com alcances diferenciados). que podia entrar no prédio da Secretaria de Segurança Pública. outra coisa é “sentir na pele”. E cada tipo propicia possibilidades de engajamento diferentes. exatamente porque coloca em risco a própria imagem de si. que “atua” no encontro entre a disposição de falar e expressar o conhecimento venenoso e a possibilidade desta fala ser acolhida. aparece como um agente que “trabalha” essa distância.

quando refletem sobre o testemunho. que resultam incompatíveis com a imagem que eles têm de si mesmos ou com seu sentimento de identidade”. como muitos têm argumentado. longe de 'engrandecê-los'. a dor não é uma experiência estritamente pessoal (Das. Em relação à comunicabilidade da dor. Pollak e Heinick. mas as questões que colocam servem para pensar de modo mais amplo a produção da memória traumática em outros contextos. segundo a qual. portanto. como se interrogam Pollak e Heinick (2006: 56). a pergunta a ser feita é se é possível comunicar a experiência em torno da dor de um indivíduo a outro indivíduo. é possível apenas para o 3 Outro autor de referência para Veena Das é o também filósofo Stanley Cavell. das reflexões de Veena Das ao analisar os conflitos ocorridos durante a Partição da Índia. como a dor. consequentemente. Afinal. com a dimensão ética que se coloca no trabalho em contextos de violência. 2008b: 432). ou se cria uma comunidade moral a partir de quem tem padecido do sofrimento? Se a dor destrói a capacidade de comunicar-se. “como pode alguma vez transladar-se à esfera da articulação pública”? A hipótese de Das é que “a expressão da dor é um convite a compartilhá-la”. é possível distinguir dois aspectos da dor: sua comunicabilidade e seu caráter inalienável. por outro lado. “como descrever com pudor e dignidade atos que tem degradado e humilhado a pessoa?”. 2008). Das dialoga com a análise de Wittgenstein sobre a linguagem privada. E se a dor não é uma experiência apenas pessoal. corre o risco de reativar as experiências traumáticas dos acontecimentos desse passado. uma de suas principais fontes inspiradoras3. o fazem a partir da experiência dos sobreviventes dos campos de concentração nazista. o filósofo “considerou a dor como um exemplo privilegiado de objeto privado e se perguntou se era possível falar da existência de uma linguagem privada para descrever essa classe de objetos” (Das. Segundo a análise de Das sobre Wittgenstein. “O conhecimento dos objetos privados. 1995. Em vários momentos e ocasiões de seu trabalho. “não é menos certo que sua tomada de palavra. Veena Das tem colocado o problema: A dor destrói a capacidade de comunicar. Neste sentido. por exemplo. Das se preocupa com a dignidade daqueles que sofrem e. como é o caso de outros grandes testemunhos históricos. Tal como Pollak e Heinick. Questões similares às levantadas por esses autores também fazem parte.traumática e “em princípio dá a sua história particular um interesse mais geral e justifica uma atenção especial”. a questão que se apresenta é: “Como pode minha dor residir no corpo do outro?” Para Veena Das quem melhor formulou este argumento foi o filósofo Wittgenstein. (Pollak e Heinick. principalmente no que diz respeito à sua leitura da obra de Wittgenstein. 2006: 56). 38 .

senão a deficiências do espírito”. Veena Das destaca que Wittgenstein se pergunta sobre o que significa “ter uma dor”. a questão da dor coloca-nos diante de uma situação radical de alteridade. sino su comienzo. No es un enunciado descriptivo porque la palabra “dolor” termina refiriendo-se a la sensación de dolor solo por medio de una expresión articulada y apreendida de expresiones inarticuladas no apreendidas.sujeito individual ou é comunicável?”. Alguien me pide que me toque el punto doloroso con mi mano derecha. etc. 1953: 43 apud Das. “o que está em jogo é o futuro entre nós” e daí derivam duas consequências. (Das. e é valendo-se de um jogo de linguagem que constrói a seguinte imagem: Con el fin de ver que es concebible que una persona pueda experimentar dolor en el cuerpo de otra. Ello no hace el dolor incomunicable. retomado por Das. mas sim uma queixa. A primeira é que se não se responde ao pedido de reconhecimento da dor do outro quando esta 39 . ello no hace la relación entre la expressión del dolor y la sensación del dolor una relación contingente. Portanto. “São minhas dores aquelas unicamente experimentadas em meu corpo?”. Wittgenstein dá vários exemplos de como é possível apreender a dor do outro através dos jogos de linguagem. (Wittgenstein. relativa ao caráter inalienável da dor é: “O que significa 'ter' dor?” O argumento de Wittgenstein. E a segunda pergunta. como quejidos. 2008b: 432). 2008b: 432) Sobre o caráter inalienável da dor. decir “me duele” no es el final de un juego de lenguaje. portanto. em que é possível através dos jogos de linguagem nos aproximarmos ou nos afastarmos do outro. 2008b: 433) É possível apreender a dor do outro através dos jogos de linguagem. Como escreve o filósofo Stanley Cavell. é o de que a afirmação “tenho dor” não é um enunciado declarativo que pretenda descrever um estado mental. o que también podría ocultar el hecho de que padezco dolor. Lo hago. deve examinar-se qué clase de hechos llamamos criterios para que un dolor se encuentre en un lugar determinado… Supongamos que siento un dolor que basándome solo en la prueba de ese dolor (es decir. Aunque es cierto que yo podría decir “me duele” o emitir sonidos que expresaran queja o desassossiego y que indicaran que mi comportamiento está condicionado por el dolor sin que efectivamente estuviera padeciendo dolor alguno. con los ojos cerrados) debería denominar como um dolor en mi mano izquierda. E a resposta que ele oferece é: “Minhas dores são aquelas as quais lhes dou uma expressão” (Das. Como lo expresa Wittgenstein. gruñidos. não é algo estritamente individual e incomunicável. afirma Das. y al abrir los ojos percibo que estoy tocando la mano de mi vecino… Eso sería sentir el dolor en otro cuerpo. A dor. aunque la outra persona está em una posición em la cual solo puede intuir su existencia. de modo que “negar a dor do outro não é algo atribuível a deficiências do intelecto. em um comentário a um texto de Das.

Este argumento. um elo através do qual se constitui uma “comunidade emocional”. Ele escreve que “assim como a dor é uma barragem. em que ele fala do poder do fluxo da narração de levar consigo a dor até sua foz. A segunda consequência é que “se o estudo de uma sociedade requer um estudo de sua dor. Recomposição política no sentido de reconstrução dos laços políticos que tornam aqueles que foram submetidos a experiências de subjugação partícipes de uma comunidade política e sujeitos de direito. na medida em que exista uma ausência de linguagens da dor nas ciências sociais. aumentam a violência que estudam”. circulação na mídia. portanto. desenvolvido por Jimeno (2008). 40 . e o termo que Das utiliza é “testemunhar” . A falta de resposta é um silêncio que perpetua a violência da dor em si. no qual ela diz que as “linguagens da dor são as linguagens pelas quais se reconhece a dor. por conseguinte. Walter Benjamin possui um aforismo. no contexto colombiano. No caso dos familiares de vítimas de violência o testemunho configura uma das modalidades principais de comunicação e politização do sofrimento. intitulado “Narração e Cura”. O processo que permite ultrapassar a condição de vítima passa. subjetividade e experiências de violência. O testemunho dos familiares e sua presentificação pública através de atos e manifestações de protesto. 2002). A comunicação das experiências de sofrimento – entre elas a morte violenta dos filhos e as humilhações sociais a que são submetidos os familiares – permite criar uma comunidade emocional capaz de alentar a recuperação do sujeito e sua recomposição cultural e política. expressa o entendimento de que um dos efeitos da violência – seja ela de qualquer ordem – é que ela afeta a confiança da pessoa ou de um grupo social em si mesmo e provoca rupturas nas redes sociais.vem dirigida à nossa pessoa. um ato de violência (sem importar sua fugacidade e que seja em grande medida imperceptível). então. estas participam do silêncio e. pela recomposição do sujeito como ser emocional e ser político. é uma das principais fontes de comunicação desse sofrimento. que resiste ao fluxo da narrativa. Cavell (2008: 377) lembra o texto de Das. do mesmo modo é claro que ela é rompida onde a correnteza se torna forte o suficiente para levar consigo tudo o que encontra para o mar do esquecimento feliz” (Benjamin. se nega sua existência e é. como afirma Cavell. as linguagens pelas quais se vem a saber de sua existência”. eventos comemorativos. por conseguinte. ao analisar as relações entre linguagem.

e o aplica a um período que transcende a conjuntura”. 1997. Das toma a noção de acontecimento (critical event). A problemática do sofrimento social vem sendo discutida por estes autores tendo como referência o campo da Antropologia Médica. Ortega (2008). 41 . 1997). por mi parte. 2008: 28). Barrero (2008). 2008). Mais recentemente Jeffrey Alexander propôs a noção de trauma social para uma “investigação em sociologia cultural com a preocupação pelos efeitos institucionais e do poder. Desaparecimento. encontra-se em Furet (1998). A respeito de Alexander. Em relação a contextos e autores brasileiros. el colectivo y la espiritualidad) e imaginarias (autoridad. E complementa a discussão sobre trauma social introduzindo seu próprio ponto de vista: Yo. (Ortega. A discussão do historiador François Furet sobre a noção de acontecimento (em francês événement). trauma e distúrbios 4 Algumas resenhas e recepções do trabalho de Veena Das no contexto colombiano. ao analisar a obra de Veena Das4. Ramphele e Reynolds. podem ser encontradas em Bolívar e Flórez (2004). Kleinman. O sofrimento social engloba uma variedade de experiências de dor. Ortega (2008: 27-28). os quais por sua vez são suscetíveis de mudança substancial de acordo com as circunstâncias sociais”. 1995 apud Ortega. 2010) e Carvalho (2008). evento crítico e sofrimento social Veena Das e outros pesquisadores vêm produzindo estudos etnográficos sobre experiências de conflito. chama atenção para a centralidade do conceito de trauma social implícito em outro conceito utilizado por Das que é o de “eventos críticos”. que. Ortega retoma duas definições de trauma social. religión) que le dan sustento a la vida social. nación. traumas e sofrimento social que têm sido conceituadas como eventos críticos (Das. Jimeno (2008) e Uribe (2004. Ortega escreve que “para Alexander estes eventos só podem ser entendidos dentro de matrizes sociais constituídas por narrativas sociais e códigos simbólicos. Este autor chama a atenção para o fato de que a ausência de uma noção clara de trauma social pode dar margem a uma grande confusão e ao uso indiscriminado do termo para designar uma variedade de convulsões sociais. entre outros. Das. ou por pesquisadores colombianos. 2000). 2008: 28)5.2. pode-se consultar. 1995. Pereira (2004. desenvolvida pelo historiador François Furet para designar aqueles eventos que “instituem uma nova modalidade de ação histórica que não estava inscrita no inventário dessa situação” (Das. 5 Ortega destaca ainda. Kleinman. Das e Lock. he insistido en otras partes en que el concepto puede ser útil para concebir los modos en que el sufrimiento social trastorna las redes simbólicas (en especial aquellas asociadas con la ley. ao descrever as experiências traumáticas ou de violências desoladoras. em sua genealogia dos conceitos. (Peirano. e é mais que estas”. Erikson propôs o conceito de trauma social para definir o “ethos – ou cultura grupal – que é diferente da soma das feridas pessoais que o constitui. entre outros. e aparece articulado a outros conceitos como os de trauma social e evento crítico.1. uma do sociólogo Kai Erikson e outra de Jeffrey Alexander.

mas constituem-se a partir do sentido que Benedict Anderson (Anderson. são vividas experiências sociais marcadas pela humilhação social. “honra”. estresse póstraumático. a Partição da Índia. “tradição”. etc. portanto. se constituem como agentes políticos.– por exemplo. violência política. mas como uma experiência social. seja pela violência direta e aberta do Estado. violência doméstica e familiar. 1995) dá à expressão “comunidades imaginadas”. moralidade e religião. Esses agentes sociais não estão ligados exclusivamente a um território local. mutilações corporais. trata-se da constituição de agentes sociais e políticos que passam a interpelar o Estado em razão do sofrimento provocado. A seleção destes eventos visa mostrar como a irrupção da violência no cotidiano da sociedade indiana provoca o aparecimento na esfera pública de agentes sociais que até então levavam uma vida anônima e que passam a interpelar o Estado pelas consequências de um sofrimento percebido como “repentino”. “inexplicável” e “injusto”. quando as “comunidades”. estes eventos permitem explicitar as transformações ocorridas nas práticas da política contemporânea. situações de saúde. especialmente no Rio de Janeiro. De maneira análoga à análise de Das (1995). Esta abordagem tem enfatizado a dimensão moral envolvida no sofrimento social. “sacrifício” e “pureza”. o sofrimento é compreendido não como um problema médico ou psicológico. Como momentos de “quebra do cotidiano”. no que diz respeito aos territórios sócio-espacialmente segregados. A autora seleciona um conjunto heterogêneo de eventos críticos como o desastre industrial de Bhopal. doenças sexualmente transmissíveis. seja pela incapacidade deste Estado de promover a segurança pública. a fome. a partir de situações históricas determinadas. –. “memória”. pode-se pensar no caso dos familiares de vítimas de violência. simultaneamente. bemestar. O desaparecimento de pessoas é tomado nesta tese como um evento crítico. um conjunto de experiências disruptivas e uma complexa dimensão moral. tal como este conceito é trabalhado por Veena Das (Das. a prática do sacrifício feminino entre os hindus e o apelo ao exercício da violência entre os militantes Sikh. justiça. em que. Sobretudo. que vem se constituindo no Brasil. e como o Estado. O conceito de sofrimento social abrange. para compreender algumas das categorias nativas que hoje são centrais na política indiana como as de “vítima”. ao reconhecer essas “comunidades” como “vítimas”. assume a responsabilidade de atuar “em favor” de seus interesses. que passam a sofrer com o exercício da força protagonizado pelas facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas ou por milícias. 1995). Neste sentido. experiências que envolvem. pela vergonha e pela ofensa moral. apud Das. ao se confrontarem com o Estado. 42 . tortura e tratamentos degradantes. Ou seja. 1991.

Das e Lock. (Leite. assim as descreve: Desamparadas pelas instituições do Estado. Neste sentido. ao analisar a obra de Veena Das. batalhar por audiências nos órgãos públicos. Das e Look (1997). Nos trabalhos reunidos no livro organizado por Kleinman. tais comunidades são deslocadas do mundo privado e "criadas" como comunidades políticas. Das e Lock. os 43 . passando a questionar a legitimidade de um Estado incapaz de monopolizar a violência e garantir a segurança de todos. Tudo isso na tentativa de incriminar os culpados e pressionar as autoridades públicas pela abertura. registrar queixas em delegacias policiais.O sofrimento e a dor têm seu papel na criação de "comunidades morais". a economia e o poder institucional faz às pessoas e. Neste sentido. examinar as certidões de óbito buscando indícios de execução. andamento e conclusão de inquérito policial e/ou processo criminal. contratar peritos. “cavar” espaço para suas denúncias na mídia. violência não é só destruição. Retomando o diálogo com Veena Das e os pesquisadores que vêm partilhando o interesse em estudar a temática do sofrimento social. 1997: ix). recolher provas e depoimentos. de como estas formas de poder influenciam respostas aos problemas sociais” (Kleinman. os conceitos de eventos críticos e sofrimento social apontam para um conjunto de experiências que provocam um ponto de inflexão e de ruptura. reciprocamente. ela influi na construção de novos engajamentos políticos. meu objetivo. quanto na daqueles que são histórica e imaginariamente alcançados por ela. na Ouvidoria de Polícia e na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. ao analisar as experiências de mães de vítimas de violência. ao exigirem justiça e ao se relacionarem com o sistema burocrático e jurídico do Estado. 2004: 176) Leite observa ainda que as mães – especialmente aquelas moradoras de favelas e periferias – compreendem o sofrimento originário da perda dos filhos como consequência de os filhos terem sido classificados como bandidos e traficantes para justificar a violência e os abusos policiais. Leite. 1997). Sofrimento social “resulta daquilo que a política. fruto do exercício do poder econômico. político e repressivo (Kleinman. no que diz respeito aos familiares de vítimas. é compreender como são produzidos sentidos e resistências diante de situações críticas que se encontram na fronteira entre problemas pessoais e sociais e que desestabilizam categorias estabelecidas. as mães tomam a iniciativa de – algumas vezes sozinhas. por exemplo. na Corregedoria de Polícia. organizar protestos. outras com apoio de ONGs e grupos de direitos humanos – percorrer delegacias. buscar apoio de ONGs e comissões de direitos humanos. Como nota Carvalho (2008). tanto na vida daqueles que sofrem a dor diretamente. a questão que se coloca é compreender como as formas de sofrimento humano podem ser ao mesmo tempo coletivas e individuais. procurar os corpos de seus filhos desaparecidos.

por exemplo. críticas e resistências para situações-limite que se encontram na fronteira entre problemas pessoais e problemas sociais. faz uma crítica à forma de pensar a violência sempre ou apenas como algo extraordinário e através de oposições rígidas como “agressor-vítima”. ele está incorporado à vida ordinária. não apenas como algo eventual. que suscita entre aqueles que são alcançados pelo acontecimento (os familiares e amigos do desaparecido) uma experiência marcada pela dor e pelo sofrimento. fruto do exercício do poder econômico. observa-se uma preocupação em apresentar uma forma diferente de pensar a violência. Muitos dos trabalhos formulam questões de sofrimento social em relação ao problema da linguagem. moldando a partir do sofrimento a subjetividade das pessoas. sofrimento individual e os códigos de expressão social. O objetivo foi analisar como os familiares produzem sentido. desestabiliza o 44 . em relação aos relatos dos “familiares de vítima”. a afetação corporal e os processos sociais. político e repressivo. permite pensar o desaparecimento como um evento crítico. pois tem íntimas consequências sobre as rotinas cotidianas. o que eles fazem revelar é exatamente o fato de que a violência à qual estão imersos é da ordem do ordinário. O sofrimento provocado pela violência molda as experiências cotidianas. Um dos desafios colocados para esta pesquisa foi o de compreender como as formas de sofrimento humano podem ser ao mesmo tempo coletivas e individuais. A ocorrência de eventos críticos é parte da rotina. fazendo com que certas experiências de dor e angústia sejam expressivas e outras envoltas em silêncio. Essa abordagem. Neste ponto. Das. portanto. e não apenas do extraordinário. O extraordinário não é aquilo que está fora da rotina.autores mostram a permeabilidade das fronteiras entre a imaginação moral. Como se estabelecem as relações sociais diante e a partir de eventos críticos? Quais gramáticas são acionadas para o agir social diante de eventos críticos? Que tipo de linguagem é acionada para falar de eventos críticos? Qual o papel desempenhado pelo Estado? Qual o status das vítimas e o repertório de ação? Em que condições ocorrem os testemunhos das experiências traumáticas e o que podem revelar? Como os eventos críticos “descem” ao cotidiano e que lugar ocupam os rumores nessas situações em que há muita produção de silêncio? Ao apontar tais questões. Pensar a violência como algo esporádico e casual não possibilitaria um “descenso ao cotidiano” e ao trabalho diário de resistência a ela. Esta é uma das formas como a violência “desce ao cotidiano”. Os autores se interrogam sobre os aspectos performativos da linguagem e sobre o papel de um gênero de discurso na sociedade que molda a experiência do sofrimento. “opressão-agência”.

com o trabalho do tempo. principalmente nos casos em que a vítima possuía alguma ligação com o chamado mundo crime. Passou a narrar explicitamente os fatos com o objetivo de chocar. Saída. implica uma vivência silenciosa. morto por milicianos em uma favela do Rio de Janeiro.3. e teve como uma das práticas recorrentes o rapto e a violação de mulheres. Noutros casos. Das percebeu como as mulheres violentadas narravam suas experiências sempre usando o recurso de uma linguagem metafórica que se valia de figuras de linguagem para não ter que narrar diretamente a violação. quando as palavras falham e o próprio corpo torna-se o único meio de 45 . Passou a adotar uma narração na qual coloca toda sua dor para tentar penetrar no outro. Ainda tinha muita dificuldade para narrar o acontecimento com o filho. aprendeu a competência política de usar o drama e a dor a seu favor na construção do filho como vítima. acabou por desalojar 14 milhões de pessoas. por exemplo. os atores sociais assumem novas formas. A riqueza dos detalhes no relato tem a função de valorizar seu sofrimento. e vitimar pelo menos um milhão. 2008). Penso. despertando o sentimento de compaixão. 1. O processo de partição territorial entre a Índia e o Paquistão. Depois de submetidos a eventos críticos. inclusive de expressão. Em alguns casos tal sofrimento tende a ganhar uma expressão maior. voz e silêncio no horizonte de ação A morte violenta.curso da vida e das trajetórias. no caso de dona Madalena. de engrandecê-la como vítima. As histórias apresentadas na parte II da tese mostram bem o impacto do evento na rotina e na vida destas pessoas. Posteriormente. com o contato com outros familiares e com militantes de movimentos sociais e direitos humanos. sendo vivido de maneira pública. pesquisado por Das (1995). enquanto evento crítico que é. chegando a constituir aquilo que em outro trabalho chamei de práticas de luto reivindicativas de justiça (Araújo. suscita entre aqueles que são alcançados pelo acontecimento (os familiares e amigos das vítimas) uma experiência marcada pela dor e pelo sofrimento. que comecei a acompanhar quando tinha aproximadamente um ano que ela havia perdido o filho. inscrevendo nos seus próprios corpos aqueles acontecimentos. Essa negação em falar diretamente sobre os atos de violência em si e o recurso à linguagem metafórica também se faz presente nos relatos dos “familiares de vítimas”. Evitava sempre dizer que o filho teve a cabeça degolada. tem sempre o poder de produzir silêncio e coloca o desafio de como produzir resistências.

“através de protestos gerais. é descobrir como é possível identificar as falhas e os desvios de um sistema antes que ele entre em colapso total e seja ainda capaz de reagir. que se dê publicidade aos fatos e que se dispute o significado político dos acontecimentos. de fazer circular uma versão de um acontecimento exige que se fale. Há várias formas de lidar com a perda de um filho e com o luto que ela provoca. Pessoas e grupos sociais afetados por eventos críticos. Decorre daí que o autor se dedica a uma análise comparativa entre as opções saída e voz. vivenciam tempos de silêncio e tempos de voz. se silenciar para esconjurar o sofrimento e evitar o mal entendido e o constrangimento moral. Tempos de silêncio e tempos de voz se alternam na experiência dos familiares de vítimas de violência. Dois conceitos que integram um modelo analítico elaborado por Albert Hirschman. dirigidos a quem estiver interessado em ouvi-los: é a opção de voz”. Em todas as entrevistas realizadas os entrevistados choraram.expressão. Em muitas das entrevistas notava-se nos familiares certo “engasgo” para falar de suas histórias. transpostos e ajustados para o contexto desta pesquisa. de como uma exclui a outra. O choro geralmente acontecia no momento em que rememoravam as boas qualidades dos filhos e a saudade batia. A outra maneira é a expressão da insatisfação diretamente à direção ou a alguma autoridade. a partir da qual Hirschman elabora seu modelo de análise. como é o caso dos familiares de vítimas de violência. E estas formas de lidar com o acontecimento e os sentimentos diferenciados que produzem também geram variações na produção dos relatos. uma violência sofrida. social ou político e sua possibilidade de reação a partir do comportamento dos agentes envolvidos. Hirschman parte de uma perspectiva que analisa como mecanismos de mercado e não mercado interagem ou se excluem. existem duas maneiras através das quais é possível tomar conhecimentos das falhas. Noutros momentos. são muito úteis para se pensar a atitude dos “familiares de vítimas” diante dos eventos críticos marcados pela morte violenta dos entes queridos: são os conceitos de saída e voz. Desde a indiferença. “Os clientes de uma empresa param de comprar um produto ou os membros de uma organização deixam a organização: é a opção de saída”. que se proteste. se recolher. Segundo este modelo. de como uma prevalece 46 . Há momentos em que é preciso se fazer calar. a necessidade e o imperativo do ato de denunciar uma injustiça. passando pela superação até a imersão numa dor profunda a ponto de ela se tornar uma linguagem através da qual suas vidas vão sendo reconstruídas ou que pode levar até à morte. Para o autor. uma humilhação social. de como uma influencia a outra. é possível pensar as falhas e os desvios que ocorrem em qualquer sistema econômico. A questão principal.

mesmo que ela fosse bandida: “Eu tenho essa raiva. Na primeira situação a mãe que perde o filho não vê o fato sob o olhar da gramática da justiça. São duas maneiras diferentes de lidar com a dor. o desaparecimento do corpo do filho é visto como um gasto a menos. Boltanski argumenta que. protesto. Na segunda situação uma mãe questiona a autoridade que um grupo de extermínio tem para desaparecer com sua filha. Enquanto a opção saída. A violência engendra tensionamento entre silêncio e voz. por isso não se engaja e escolhe a opção saída. significa silenciamento e isolamento. Duas situações de como duas mães lidam com o desaparecimento de um filho servem como exemplos extremos de como a opção saída e a opção voz são acionadas: a primeira mãe dá graças a Deus pelo fato de o corpo do filho. No primeiro caso não há nenhuma manifestação de indignação. No caso desta pesquisa. porque ela não teria dinheiro para pagar os custos do enterro. Embora a análise de Hirschman focalize o âmbito da economia. a ideia geral que a noção de saída transmite talvez pudesse ser pensada através de uma associação com a questão do silêncio. vivendo o drama no âmbito privado. eu quero ela presa. Ninguém julga ninguém aleatoriamente. Saída aqui significa silêncio. o sofrimento e a indignação. Diante da vida dura e precária que leva. visibilidade. “mas também a uma grande variedade de organizações e sistemas não econômicos”. experimentada no espaço público. “é ação política por excelência”. neste contexto. Com 47 . mas ajustando-as ao “objeto empírico” desta pesquisa. como escreve Hirschman. diante do espetáculo do sofrimento de um infeliz. o espectador se vê diante de um dilema que pode ser qualificado de moral: se engajar ou não ao sofrimento do outro. porque era minha filha. Neste caso a opção voz entra em ação. depois de assassinado. marcada pela pobreza e pela miséria material. Enquanto no segundo caso a mãe compreende a perda do filho como fruto de uma injustiça grave e se engaja na luta por justiça. inspirado pelas noções de saída e voz . Neste sentido. de como as duas entram em jogo simultaneamente. Enquanto voz significa publicização. Porque você além de ser injustiçada. essa indignação. não quero ela morta. A partir da distinção introduzida por Albert Hirschman entre saída e voz. quem é esse grupo de extermínio pra julgar esses jovens e condená-los?”.sobre a outra. é possível pensar as formas de engajamento ou não engajamento dos familiares em situações e processos de denúncia de mortes violentas relacionadas à violência policial e à violência criminal. problema se era bandida. o próprio autor reconhece e destaca que os conceitos desenvolvidos são aplicáveis não apenas a agentes econômicos. a opção voz. e silêncio significa saída. ter “desaparecido”. mas sim de conformismo e resignação.

Saber do sofrimento do outro aponta em direção à obrigação de assistência. mas performativamente. O silêncio aparece para os familiares como uma competência. está bem mais perto de um conflito no “regime de violência”. O que pretendo argumentar aqui é que no curso de suas ações os familiares podem lançar mão de argumentos de diferentes ordens. (Araújo.efeito. não levá-lo adiante. o que envolve muitas vezes a 48 . A opção que se coloca àquele que deseja se engajar. que consiste em denunciar a violência sofrida mostrando o silêncio. Esse “dar voz” é uma forma de aproximação à dor do outro. pode ser transformado em uma forma de estar no mundo após um evento violento e um protesto. e que corresponde a uma maneira de olhar desinteressada e altruísta. mas também a um “trabalho do tempo” de reconstrução das maneiras de habitar o mundo após as tragédias pessoais e/ou coletivas e de falar não apenas discursivamente. É nesta passagem do tempo do choque ao tempo da política que ocorre a politização da dor. principalmente quando o outro encontra-se em situação subalterna e tem o direito de falar cerceado. Nesse sentido. apoiadores. embora se mantenha na fronteira com o “regime de paz”. por exemplo. com o “trabalho do tempo. ou seja. Exatamente porque a disputa se mantém na fronteira entre um “regime de violência” e um “regime de paz” é que os familiares ora operam com a opção silêncio. simplesmente sair do “caso”. o espectador pode escolher a opção fácil de deserção. mas como não está voltada para o acordo. Por que não atrair a atenção de pessoas não concernidas no espetáculo de seres humanos que sofrem com uma cobrança para que se orientem no sentido de uma ação que cesse o sofrimento de quem sofre. além de poderem simplesmente se ajustar a opção saída. mas então correria o risco de ser acusado de indiferença. e consiste em uma palavra pública que visa um número ilimitado de parceiros. o sofrimento passa por um processo de politização. ora com a opção voz. No caso dos familiares de vítimas de violência a tensão entre voz e silêncio corresponde a uma disputa “atípica” nos termos do modelo de Boltanski: é disputa.” suas práticas passam a inscrever-se no tempo da política. “Dar voz” é uma forma de agir no sentido de dar visibilidade ao ato de sofrer. ele não está associado apenas a destruição e apagamento. 2007: 59). Boltanski qualifica a palavra pública como sendo aquela que se distingue de um modo de olhar orientado face à exterioridade e animado pela intenção de ver cessar o sofrimento. ou seja. marcado pela dor e pela destruição. 2007: 50-51). segundo a distinção de Hirschman apropriada por Boltanski. A experiência do desaparecimento tal como vivida pelos familiares os insere inicialmente em um tempo do choque. face ao sofrimento do outro. não é apenas repertório de um regime de violência (Boltanski). e. é a de “dar voz” (Boltanski. deste modo condenado ao cerceamento da palavra e ao silêncio. O silêncio.

principalmente nos casos de desaparecimento. Então. da mobilização de apoios. porque eu sou aquela que gosta de ver pra crer. 1. com fotografias dos filhos. o tempo de aparecer nos jornais. operações críticas e competências políticas são conceitos que fazem parte do vocabulário da sociologia pragmatista de Luc Boltanski (sociólogo) e Laurent Thévenot (economista e estatístico) e são úteis para se fazer uma sociologia moral e política da experiência dos familiares de vítimas. da denúncia. mas há também o tempo das ameaças. situações. Disputas. eu achava que o tempo ia ser completamente desfavorável a nós. de absorver a ideia da morte do parente. Eu te digo. há o tempo de ocupar as praças. que pretendem vincular os eventos particulares à busca de uma entidade metafísica. entre outros. 49 . situações. do abatimento e da falta de esperança que leva ao desespero. as ruas. para poderem efetivamente ser postas à prova de forma legítima 6 6 Para uma apresentação e análise mais detalhada e bastante esclarecedora do pensamento de Boltanski conferir (Castro. eu num primeiro momento eu queria saber porque que ia. como entidades e movimentos de direitos humanos e a mídia. O relato a seguir é exemplar nesse sentido: Eu tenho uma dificuldade muito grande comigo mesma. [Relato de uma mãe de desaparecido] A relação com o caso é uma relação de angústia que se prolonga no tempo. porque com o passar do tempo fica mais difícil reunir provas para levar o caso adiante. operações críticas e competências políticas Disputas. Eles tomam como ponto de partida as ações em regime de justificação. Então viver com a possibilidade é terrível. que hoje eu me vejo obrigada a viver com a possibilidade. 2009). assim como também há o tempo do cansaço. através da relação dos familiares com outros atores políticos. A noção de tempo é muito importante para os familiares de vítimas. Em De la justification estes dois autores apresentam um modelo analítico para se pensar as modalidades de ação a partir de ordens de legitimidade moral (ordres de grandeur).4. A sociologia pragmática desses autores abre uma perspectiva analítica para a compreensão dos fenômenos coletivos e de seus fundamentos políticos a partir de ordens de legitimidade moral. o bem comum. Cada caso tem uma temporalidade: o tempo da dor.construção de redes de solidariedade para lutar em torno de uma causa. não se expor. que faz como que seja preciso se recolher. de tentar esquecer ou buscar explicações para as formas desumanas das mortes. como foi. o tempo da maturação das ações.

conflitos em torno de regras jurídicas e normas de qualidade e segurança. examinar a lógica situada na passagem do particular ao geral. inaugura. litígios profissionais. Cada um refere-se 50 . O tema genérico da obra são as relações e os jogos de disputa que levam a produção de acordos e desacordos e. é generalizável. os autores constroem um quadro que permite analisar com a ajuda de instrumentos teóricos as diferentes lógicas de ação através das quais os atores se movimentam. Dentre as principais questões colocadas por Boltanski e Thévenot estão: Quais são as operações críticas das quais os atores buscam lançar mão quando desejam manifestar seu desacordo sem recorrer à violência? Quais são as operações por meio das quais eles conseguem construir. para realizar este estudo. O quadro analítico proposto pelos autores visa. por assim dizer. Exemplos de situações com tal processo argumentativo são: denúncias jornalísticas. É justo aquilo que se refere ao bem comum e. a tensão entre o juízo moral e o contexto prático no qual se dá o curso da ação. 1991: 187). Os autores definem/identificam seis princípios de justiça legítimos. suas formas de denúncia das injustiças das quais se acham vítimas e a capacidade que possuem de se abstrairem de seus casos particulares e chagarem a formas gerais. A proposta dos dois autores é de uma sociologia que permita considerar as pretensões de justiça dos atores. Segundo estes comentaristas. escândalos. dentro de uma tradição de pensamento da filosofia política e da noção clássica de prudência (Boltanski e Thévenot. dentro de uma perspectiva pragmatista francesa. debates institucionais. assembléias políticas. Um ponto importante para Boltanski e Thévenot e interessante para esta pesquisa é a afirmação de que a legitimidade pública dos argumentos utilizados nas disputas é função de suas capacidades para se referir a formas de bem comum. de Luc Boltanski e Laurent Thévenot.por aquelas ações desenvolvidas em regime de crítica. deste modo. de conflitos e de controvérsias públicas em que as pessoas realizam críticas ou justificações pretendendo uma validade geral. a obra apresentou um modelo capaz de considerar tanto a gênese como a pluralidade de ferramentas convencionais que servem de base às atividades humanas. Estas formas de bem comum garantem a generalização dos argumentos e dos julgamentos. “o gesto pragmático da sociologia francesa”. manifestar e selar acordos mais ou menos duráveis? Todo desenvolvimento das ciências sociais deve necessariamente se inscrever numa alternativa de determinação coletiva ou escolha individual? Breviglieri e Stavo-Debauge (1999) consideram que a obra “De la justification”. Este modelo pragmatista de Boltanski e Thévenot visa os momentos de disputa. isto é.

Cité mercado: a grandeza está relacionada com a aquisição de riquezas constituídas de bens raros e desejáveis. A noção de cité é utilizada em um sentido político. Neste sentido. 2009). com seus princípios de equivalência. Boltanski e Thevénot usaram de repertório obras de autores como Rousseau. Cité cívica: uma cidade cívica onde a grandeza supõe o esquecimento dos estados particulares em nome da vontade geral e da igualdade. formularam um novo modelo de cidade. Não encontraram suas referências em objetos empíricos. construiram seu modelo teórico a partir de obras clássicas.. é muito diferente do imaginário republicano brasileiro. As seis cites. 2009: 7-8). e é a partir delas que retiram os registros léxicos e semânticos específicos do que se entende ser justo e bom na cidade (p. que é a cité por projetos (cf. quais seriam. as obras da filosofia ou do pensamento social e político brasileiro que ofereceriam um bom repertório para se inventariar registros de “justo” e “bom”? 8 Em desdobramentos futuros de sua obra. Boltanski e Chiapello. 3). ou seja.7 Estes princípios de justiça são os elementos suscetíveis de fundar as “ordens de grandeza”. mas também dos mundos feitos de objetos e de dispositivos convencionais. Cité inspirada: aquela onde a grandeza é adquirida através do acesso a um estado de graça. para elaborar os princípios que organizam o “bem comum” e construir suas cites. são derivadas da tradição filosófica política francesa.23). A preparação do julgamento envolve É preciso neste ponto ponderar que o modelo teórico de Boltanski e Thevénot foi pensado a partir do imaginário de república francês. Eles podem figurar como elementos de prova e apoiar as críticas e justificativas. Os objetos podem assim ancorar o modelo de justificativa na realidade. por exemplo. Cité industrial: onde a grandeza se baseia na eficácia e competência profissional. que como se sabe.a uma concepção de justiça em uma cidade (cité). na qual apoiaram suas justificações ou suas críticas. Cité doméstica: onde a grandeza corresponde a um lugar na ordem hierárquica. Os seis princípios de justiça são os seguintes8. As cidades visam modelar os gêneros de operações aos quais os atores se entregam no curso de uma ação. Os registros de justificação de cada cité não dependem apenas dos princípios de justiça. fazendo referência a uma forma de convivência política. juntamente com Ève Chiapello. Boltanski. Cité de opinião: na qual a grandeza é baseada no reconhecimento e no crédito de opinião acordado pelos autores. Boltanski e Thévenot “propõem a ideia de cidade para pensar o tipo de metafísica comum que os atores mobilizam na prática para fundamentar o vínculo social em torno de uma mesma noção de justiça e bem comum” (Castro. Voltaire e Adam Smith. de estabelecer uma hierarquia entre os seres presentes e fornecer padrões de mediação durante as disputas e os conflitos sociais (p. 7 51 .

Os objetos não determinam a ação. Ora perseguem. A denúncia e a crítica buscam a mudança. ora se defendem. A questão que está colocada aqui é a de como combinar dois ou mais princípios de justiça diferentes. Através deles. no entanto. A crítica. ao apresentar e analisar a teoria de Boltanski: A noção de prova é fundamental no modelo de Boltanski e Thévenot para dar conta da tensão entre a incerteza da vida social e a necessidade de estabilizar os acordos. O compromisso busca a manutenção das relações sociais. A denúncia é o momento em que a crítica se manifesta e instaura um desacordo. que coloca à prova a ordem das coisas. os atores sociais literalmente colocam o vínculo social à prova (Boltanski. É o 52 . A prova é o elemento fundamental para pensar em como os atores buscam construir a estabilidade do mundo social. sem. Thévenot. com a eliminação de forças estranhas: “assegurar a justiça de uma prova é formalizá-la e controlar sua execução com o objetivo de impedir que seja parasitada por forças exteriores” (idem: 74). Ora fazem críticas. Estabelecer uma ordem que se pretenda justa e legítima repousa sobre o compromisso entre dois ou mais princípios de justiça diferentes. As provas se constituem de objetos e dispositivos capazes de mensurar a grandeza das pessoas. mas também o caráter justo da ordem revelado pela prova” (idem: 74).um trabalho de qualificação das coisas e dos seres. engessá-lo. ora são pequenos. enquanto todo compromisso tem a pretensão inversa de estabilizar as relações entre os atores. As provas de grandeza distinguem-se das provas de força por incluírem um espaço para o juízo moral: “Enquanto a atribuição de uma força define um estado de coisas sem nenhuma coloração moral. Cada denúncia visa questionar as convenções estabelecidas. Chiapello. Um dos aportes fundamentais da obra de Boltanski e Thevenot é o de pensar a complexidade. Neste sentido. 2009: 8). A introdução dos objetos na problemática do vínculo social permite interpretar qual o estatuto da realidade aos olhos dos próprios atores. ora são acusados. 1999:73). (Castro. ora são perseguidos. A prova de grandeza pressupõe um trabalho de identificação e qualificação dos diferentes tipos de força e a especificação do que se quer provar. formadas anteriormente. as contradições e a dinâmica das sociedades contemporâneas sobre a base da combinação possível dos mundos e dos princípios plurais de justiça. mas funcionam como estabilizadores do mundo social. como esclarece Castro (2009). Coisas e seres que estão sempre em posições intercambiáveis no processo de qualificação. Mas todo compromisso estabelecido permanece questionável e suscetível de ser minado por críticas de outros princípios que denunciam/questionam seus méritos. Ora acusam. a atribuição de uma grandeza pressupõe um juízo que não só tange à força respectiva dos seres presentes. 1991:30). Ora são grandes. além de permitir pensar num mesmo marco teórico tanto as relações de força quanto as ordens legítimas (Boltanski. busca precisamente se construir enquanto um princípio alternativo para denunciar aqueles que estão em uso. transformando os fortes em grandes. e como os objetos são mobilizados no discurso e na ação.

em que a denúncia é a expressão da crítica. além de organizar suas orientações subjetivas segundo esta compreensão. o sociólogo francês Bruno Lautier formulou um conceito que contribui analiticamente para pensar tal realidade: o conceito de cidadania de geometria variável (Lautier. dos regimes de engajamento e das competências.momento em que os princípios de justiça entram em conflito. Ao analisar como se constitui uma gramática da denúncia. os regimes de engajamento e os processos de justificação foi elaborada a partir da tradição republicana francesa em que existe um espaço público baseado em um “princípio superior comum”. no “bem comum”. certas gramáticas de engajamento e de julgamento público são necessárias para a coordenação das ações dos atores. As formulações teóricas da sociologia pragmatista de Boltanski e Thévenot (1991). Tal modelo analítico permite refletir sobre as críticas. que podem ser entendidas como a capacidade de discernimento que permite apreender e avaliá-las moral e emocionalmente. Deve-se levar em conta que a teoria de Boltanski sobre os modelos de justiça. 1997). Ao refletir sobre o caso brasileiro. a própria idéia de “bem comum” não chegou a se institucionalizar e as experiências de colonização. O “bem comum” seria um componente do dispositivo de justificação visando a “humanidade comum”. segundo a qual haveria uma igualdade de direitos entre indivíduos pertencentes a um mesmo Estado nacional. baseada no postulado da universalidade. Para isso. Neste contexto. ou seja. Na passagem de uma situação para outra é possível compreender as competências mobilizadas para a ação. Enquanto em grande parte da Europa vigoraria uma cidadania plena. escravidão. Os objetos e os dispositivos são os recursos para a crítica e para a constituição do acordo ou do caso (affaire). Em relação à realidade brasileira. levam em conta a capacidade de os atores (individuais ou coletivos) produzirem críticas e repertórios para agir. é importante considerar também os objetos e os dispositivos mobilizados na ação. Para não ficar só na crítica. Boltanski (2000) constrói um modelo analítico para interpretar como os atores se ajustam às situações sociais e performam o mundo através da crítica. A crítica possui um caráter eminentemente discursivo da justificação. no caso 53 . uma situação de desaparecimento forçado –. desenvolvem competências diante de situações concretas – como. e revelam como a grandeza ou a pequenez de cada um é acionada para justificar suas ações e interesses. competências e ajustamentos elaborados por familiares de vítimas de desaparecimento. por exemplo. ditaduras e outros processos políticos relacionados à formação da nação são alguns elementos históricos cuja herança ainda hoje pesa na construção da cidadania e do espaço púbico brasileiro. ao proporem uma sociologia da justificação.

em benefício de uma política da piedade. Em seu entendimento. está na ordem do dia há pelo menos dois séculos. É neste contexto de “cidadania de geometria variável” que os familiares dos desaparecidos travam suas lutas e buscam recompor equivalências que distribuem grandes e pequenos em um continuum de posições intercambiáveis (Boltanski. O livro tem como objeto a questão humanitária que. 1. constituindo-se aqui uma cidadania de geometria variável. Hannah Arendt constrói alguns traços específicos que caracterizam a política da piedade e são retomados por Boltanski. Thévenot.brasileiro a institucionalização dos direitos não seguiu o mesmo postulado da universalidade. No segundo capítulo de Ensaio sobre a revolução. particularmente na obra de Rousseau. Arendt desenvolve a ideia segundo a qual a Revolução Francesa – diferentemente da Revolução Americana – abandonou a questão da liberdade e da forma de governo capaz de garantir a liberdade. (1) os homens se distinguem entre aqueles que sofrem e aqueles que não sofrem. É através do sofrimento que se constroem as causas.5. intitulado “A questão social”. que se associam ou disputam. Ao elaborar um quadro analítico para interpretar o debate atual sobre a representação do sofrimento na mídia e na política. que as pessoas tomam partido. estaria em gestação desde meados do século XVIII. O sofrimento entre a política da piedade e a política da justiça Em La souffrance à distance. Boltanski argumenta que é preciso reconstituir o contexto histórico no qual este debate se inscreve. de modo que a legitimidade e circulação de suas reivindicações e críticas são limitadas. (2) a política da piedade centra-se antes na observação do 54 . No mais. o contexto mais relevante é posto por Hannah Arendt em seu ensaio sobre a revolução. Boltanski (2007) desenvolveu a ideia de que o sofrimento e a forma como ele é expresso e socializado desempenharam papéis centrais no estabelecimento de vínculos sociais e políticos. segundo seu argumento. 1991). E se as manifestações típicas de uma política da piedade não aparecem ainda em Robespierre e Sant-Just. o horizonte político daqueles que se encontram em situação de subalternidade é mais estreito e reduzido. A observação anterior é importante porque dentro deste quadro da cidadania de geometria variável as condições de formalidade e informalidade seriam um importante aspecto definidor da forma pela qual o cidadão se inscreveria em um sistema de direitosdeveres.

2007: 22 – tradução minha). “Uma política da justiça se apoia. Neste modelo. consequência da não ligação das pessoas às qualidades. mas entre grandes e pequenos. a ação exemplar dos magistrados que administram a cité é colocar fim às disputas. Esta ação poderia ser qualificada. segundo seus tamanhos e seus valores. A segunda diferença reside no fato de que em um modelo de cité orientando na direção da justiça. uma “Une politique de la justice s´appuie donc. As disputas que convêm pacificar recaem precisamente sobre a questão de saber se o modo pelo qual as pessoas estão ordenadas. é justo ou não. sur une théorie de la justice qui tient compte elle-même d`un sens commun de la justice” (Boltanski. visando promover a justiça. neste sentido. de outro os felizes. A ação teria êxito se eles conseguissem restaurar a paz e oferecer às disputas um resultado que seja justo. sobre uma teoria da justiça que considera ela mesma um senso comum de justiça”9 (Boltanski. primeiramente é preciso dispor de uma convenção de equivalências. Uma cité orientada face à justiça não opõe as pessoas entre felizes e infelizes. portanto. de meritocrática. Por último.espetáculo do sofrimento do que não ação – observação dos infelizes por parte daqueles que não compartilham de seus sofrimentos. pelos dirigentes. de modelo de cidade (mòdele de la cité). não existe classes de grandes e pequenos. 3. Ao menos formalmente. Para dispor de uma resposta satisfatória sobre esta questão. O que distinguiria um quadro de uma política da justiça de um quadro de uma política da piedade? Segundo Boltanski. independente de quais sejam os critérios para se definir e avaliar os respectivos méritos dos cidadãos. Para exemplificar a distinção Boltanski dá um exemplo de uma ação conduzida do alto. Tal política da justiça se apoiaria no que Boltanski chamou. numa primeira aproximação. Ao contrário da política da justiça. mesmo se o objetivo é inspirar piedade. que não têm a experiência direta do sofrimento e. no quadro de um Estado. de façon plus ou moins explicite. Uma política da piedade se distingue claramente de uma política da justiça. mas ser grande ou pequeno não define uma condição. podem ser considerados pessoas felizes. A política da piedade considera. As pessoas são qualificadas segundo sua grandeza. as qualidades de grande e pequeno não estão definitivamente atadas às pessoas. 2007: 22). de modo mais ou menos explícito. 9 55 . como apresentado anteriormente. na política da piedade a felicidade e a infelicidade são as condições que definem conjuntos separados. pelo menos três aspectos: 1. Grandes e pequenos não estão unidos pelo tamanho. 2. de um lado os infelizes em massa.

Das formas de engajamento face ao sofrimento A miséria dos infelizes pode não inspirar piedade. 2007: 18). ou seja. à sua justificação. direta ou indiretamente. Engajar-se a uma ação visando o fim do sofrimento pode significar o fim da política da piedade. 2003). Felizes e infelizes podem habitar a mesma terra sem que os primeiros vejam os segundos (Arendt. pois qualquer que seja seu estado de felicidade. pela classe dos felizes. formular tal questão corresponde a sempre fornecer uma resposta negativa. 1967 apud Boltanski. Para a política da piedade não importa se a infelicidade e o sofrimento são justos. Por esta perspectiva. É porque suas pretensões são afrontadas pela realidade que a ordem revelada pela prova pode ser qualificada de justa. mas sim a adequação das provas à convenção das equivalências. numa política da piedade o merecimento do sofrimento fica na retórica. Não é porque as pessoas no curso de um conflito são levadas a fazer valer objetos de um mundo comum. que seu estado de grandeza está revelado. divide os homens não sob o prisma do mérito como na política da justiça. Mas – diz Hannah Arendt recuperada por Boltanski – o espetáculo da miséria não conduz necessariamente a uma política da piedade.política da justiça apazigua as disputas ativando a convenção de equivalências numa prova (èpreuve). não é colocado à prova. 2007: 26). Ao contrário de uma política da justiça. seria apenas em um mundo onde o sofrimento tivesse sido banido que a justiça faria valer seus direitos (Boltanski. Se por um lado é possível que haja um fosso separando os que sofrem dos que não sofrem. em que o sofrimento reporta-se ao merecimento ou não. entre infelizes e felizes. O desenvolvimento de uma política da piedade. que o pequeno seja feliz ou infeliz não é o que importa. para que a miséria dos infelizes possa ser observada. 1. 56 .6. unicamente sob o aspecto da felicidade. existe a possibilidade de que as pessoas felizes manifestem atenção e benevolência diante da dor do outro – agora para usar a expressão de Susan Sontag (Sontag. na medida em que é o sofrimento que serve como mediação entre os que sofrem e os que não sofrem. ele tem o que merece. como já referido anteriormente. Nesta lógica da justiça. mas entre aqueles que sofrem e aqueles que não sofrem. Na política da justiça não é a consideração do infortúnio que importa. por outro lado. Estas duas classes devem permanecer suficientemente em contato. ainda que à distância.

. pour généraliser. colocando ênfase sobre os traços que destacam uma análise da noção de ágape em oposição à justiça.É neste sentido que dois casos de figura se apresentam na análise de Hannah Arendt para pensar como a atenção benevolente ao sofrimento do outro pode se manifestar no “quadro das tradições ocidentais”. Réponse directe à l`expression de la souffrance. 2007: 26). a piedade que. generaliza e. a compaixão não é “loquaz” e não incide grande interesse nas emoções. em oposição à eloquência da piedade. mas sua linguagem “consiste em gestos e expressões do corpo mais que em palavras” : “(. se torna “eloquente”. a compaixão. 2007: 2610 27– Revisão da Tradução: Jussara Freire) Boltanski não perde de vista a sugestão que a análise de Arendt faz de que a oposição “Plus exactement.126). la compassion n´est pas muette. il ne lui reste aucune place pour se déployer en tant que telle. a compaixão não é “faladora” e é pelo mesmo motivo que a emoção ocupa pouco espaço. a compaixão não é muda. A compaixão possui um caráter prático. mas na medida em que ela faça imediatamente se mover aquele do qual ela se apodera. de Dostoievski) para descrever a compaixão. 126). Au contraire la pitié. Pode ser necessário postular a existência de uma emoção da compaixão. aos seres singulares. e O Grande Inquisidor. 2007: 26-27 – os trechos entre aspas e as páginas indicadas referem-se a citações do texto de Hannah Arendt feitas por Boltanski).. se “reconhece” e se “descobre” enquanto emoção. que sentiment'” (p. que promovam o encontro e a presença entre os que sofrem e os que não sofrem. qui. 123-124). pour faire face à la distance. neste caso particular. de Melville. segundo Arendt. Arendt recorre à análise.) la compassion ne parle que dans la mesure où il lui faut répondre directement aux sons et gestes expressifs par lesquels la souffrance se fait audible et visible au monde' (pp. Assim como Boltanski percorre as obras de filosofia política para construir as metafísicas de suas cités. como piedade e compaixão. enquanto sentimento (p. (Boltanski. 10 57 . la compassion n´est pas "bavarde" et c´est pour la même raison que l´émotion y tient peu de place Peut-être faut-il postuler l´existence d´une émotion de compassion. Na medida em que não visa a generalização. Boltanski chama atenção para a fixação de Hannah Arendt na relação entre compaixão e presença. não lhe sobra nenhum lugar para se desdobrar enquanto o que é/ ou enquanto tal. Ao contrário. se 'reconnaît' et se 'découvre' 'en tant qu´émotion. particularmente no cristianismo primitivo.. para poder encarar a distância.. Resposta direta à expressão do sofrimento. de duas obras romanescas (Billy Budd. se fait 'éloquente'. Arendt desenvolve a oposição entre as duas figuras. mais dans la mesure où elle fait immédiatement se mouvoir celui dont elle s´empare. Mais exatamente. no sentido de que ela pode se realizar em situações práticas. se satisfaz com uma “curiosa mudez”. 123-124).) a 'compaixão' só fala na medida em que ela precisa responder diretamente aos sons e gestos expressivos pelos quais o sofrimento torna-se audível e visível diante e no mundo (pp. para generalizar. généralise et. Em seu modo de ver. (Boltanski. A característica principal da compaixão seria que esta se endereça ao singular. Arendt tem razão em sua insistência porque ela tem duas consequências importantes na distinção com relação à piedade: diferentemente da piedade. mais son langage 'consiste en gestes et expressions du corps plutôt qu´en mots' : '(. sem buscar desenvolver a “capacidade de generalização” (Boltanski.

porque a compaixão. Seguindo Louis Dumont. a fim de envolvê-los em uma ação. como para um “clamor de vingança”. Edmund Burke. (As desgraças da guerra constituem. Boltanski a define como sendo a operação de generalização que permite um movimento do local ao global e vice-versa. Sontag retoma vários autores como o Sócrates de Platão. É apenas em um mundo onde o operador principal da generalidade é político que tal distinção faz sentido. A maioria das imagens de corpos torturados e mutilados. os corpos estão cobertos por roupas pesadas e grossas. Sontag adverte que. (Sontag. Mas o fato de se tomar consciência de que fatos terríveis acontecem não diz muita coisa sobre as possibilidades dos usos políticos da dor à distância de outras pessoas. Mas imagens do repugnante também podem seduzir. é apontar para a introdução do argumento da piedade na política. nesse sentido ultrapassando os limites de tempo e espaço. deveríamos igualmente nos sentir estimulados a refletir sobre a capacidade de assimilar efetivamente o que elas mostram: Podemos nos sentir obrigados a olhar fotos que recordam graves crimes e crueldades. de modo que os indivíduos díspares possam ser reunidos em torno de uma causa comum. Deveríamos nos sentir obrigados a refletir sobre o que significa olhar tais fotos. pornográficas. sobre a capacidade de assimilar efetivamente aquilo que elas mostram. Chamar tal desejo de “mórbido” sugere uma aberração rara. uma exceção: as imagens de Goya não podem ser vistas com um ânimo lascivo. Susan Sontag. portanto. sobretudo a fotografia e as obras de arte. em sua definição de política. Nem todas as reações a tais fotos estão sob a supervisão da razão e da consciência. em sua compreensão teológica. Todos sabem que não é a mera curiosidade que faz o trânsito de uma estrada ficar mais lento na passagem pelo local onde houve um acidente horrível. um interesse lascivo. William Hazlitt e Georges Bataille. ao recuperar a distinção de Hannah Arendt. em seu ensaio Diante da dor dos outros. mas a atração por essas imagens não é rara e constitui uma fonte permanente de tormento interior. de forma notável. O interesse de Boltanski. para insistir numa dimensão de seu argumento que 58 . Elas não se alicerçam na beleza do corpo. As imagens da dor e do sofrimento podem ser usadas tanto para um “apelo em favor da paz”. além de nos sentirmos obrigados a olhar as imagens dos crimes e crueldades. se apoia sobre um princípio de generalidade que é diferente: esse princípio é a união dos batizados. 2003: 16). É verdade que as “informações fotográficas” são capazes de suscitar nas pessoas “a atordoada consciência de que coisas terríveis acontecem” (Sontag.entre compaixão (pressupondo presença e sendo local) e piedade (pressupondo ausência e distância) é analiticamente operativa sob a condição de não se perder de vista a posição a partir da qual ela é obtida. na verdade. suscita. 2003: 80) Em seu belo ensaio. Sua preocupação está centrada principalmente na recepção que podem ter as imagens da dor e do sofrimento. em certa medida. se interroga sobre questões similares às colocadas por Boltanski.) Todas as imagens que exibem a violação de um corpo atraente são.

pois. E. mas diz que pode “imaginar o sofrimento extremo como algo mais do que o mero sofrimento. Da indignação à acusação: o tópico da denúncia e a forma caso Segundo o argumento de Boltanski (2007: 113). Como objetos de contemplação. por que seria preciso se indignar se não houvesse piedade? A revolta daquele que se julga ofendido passa pela piedade de si mesmo. Sontag cita Bataille. Para finalizar a apresentação do argumento de Sontag: a compaixão é uma emoção instável. tirada em 1910. que podia olhar todos os dias. 2003: 83-85). um Mársias real. pela piedade. no estágio terminal do esfolamento – uma foto. a imagem é simplesmente insuportável: já sem braços. e não mítico -. como uma espécie de transfiguração”. deve ser traduzida em ação. diante do espetáculo de um infeliz que sofre à distância. Para a maioria. em 1961. Segundo Bataille.eles ajudam a reforçar: o de que “o amor à crueldade é tão natural aos seres humanos como a solidariedade”. 1. um dos principais teóricos do erótico. as exigências morais frente ao sofrimento convergem a um só imperativo: a ação. Sontag conta uma história de Bataille. na China. a vítima sacrificial de diversas facas em movimento contínuo. 2003: 83) Sontag destaca ainda que Bataille não chega a dizer que tem prazer com a visão desse martírio. na imagem. são estados repletos de sentimentos como raiva e frustração. contemplar essa imagem constitui tanto uma mortificação dos sentimentos como uma libertação do conhecimento erótico assinalado como tabu – uma reação complexa que muitos devem julgar difícil de acreditar. com uma expressão tão extática em seu rosto voltado para cima quanto a de qualquer são Sebastião do Renascimento italiano. imagens de atrocidades podem atender a diversas necessidades. Afinal. o que o leva a explicar aos outros os 59 . Nunca deixei de me sentir obcecado por essa imagem de dor. As lágrimas de Eros. E não é que as pessoas se insensibilizam com aquilo que lhes é mostrado. não uma pintura. a um só tempo extasiante e intolerável”. em que um prisioneiro padecia a “morte dos cem cortes”. Podem nos enrijecer contra a fraqueza. A foto aparece no último livro de Bataille publicado em vida. o que pode fazer um espectador moralmente bem disposto – ao menos de imediato – em relação à inação é se indignar. Anestesia moral ou emocional.7. segundo a qual consta que ele tinha sobre sua escrivaninha uma foto. A entrada na indignação passa. como afirma Boltanski. Levar-nos a reconhecer a existência do incorrigível. Tornar-nos mais insensíveis. do contrário definha. ainda está viva. O sentimentalismo pode ser perfeitamente compatível com a brutalidade ou coisas piores. (Sontag. assim como apatia. “É a passividade que embota o sentimento” (Sontag. que afirma sobre a foto: “Essa fotografia teve um papel decisivo na minha vida.

O estudo de casos é também um sistema privilegiado para entender a formação e a mudança do espaço público. para se fazer isso. A transformação da piedade em indignação supõe uma reorientação da atenção. é necessário dispor de um infeliz cuja defesa constitui a causa pela qual as pessoas se engajam e. um regime de ação que ora consegue provocar a compaixão de si mesmo. também para compreender o significado que os atores procuram dar ao tempo histórico em que estão imersos. Boltanski encontrou. A indignação põe em ação as armas da cólera. os familiares de vítimas situam-se entre uma política da piedade e uma política da justiça. ora é capaz de suscitar a indignação contra. seu testemunho. que os leva a transformar suas palavras. No caso dos familiares de vítimas é a indignação advinda da morte de parentes. igualmente. deixando esta de ter como foco o infeliz e seus sofrimentos. no estudo que Claverie (1998) consagrou ao caso do cavaleiro La Barre. que resulta no engajamento de um número maior ou menor de atores e atingem muitos setores da vida social como. Os casos constituem momentos-chave para analisar as tensões sociais e as mudanças ideológicas próprias de uma época e. a imprensa. o sofrimento dos familiares de vítimas pode significar para eles um lugar de onde emitir uma crítica contra a violência policial. a violência policial. ela aponta a ação. mas também se transforma em revolta e indignação contra o responsável pelo sofrimento. o mundo da política. a academia. depois do século XVIII. Neste sentido. consequentemente. o financeiro. o mundo literário. a piedade é transformada”. particularmente com o desenvolvimento. Estes autores consideram o caso como uma forma social que desempenhou um papel central nas sociedades ocidentais modernas. em uma acusação. Boltanski observa que “na indignação. por exemplo. Estas disputas correspondem às ocasiões em que se colocam sob análise as diferentes dimensões de justiça e os diferentes princípios de justiça nos quais as disputas se baseiam. Trata-se de transformar o evento em um caso e. o exército. Pelo termo caso Boltanski (1990) e Claverie (1998) designam as disputas públicas que se estabelecem muitas vezes em torno de um processo. Quando a piedade é capaz de suscitar não só a compaixão por aquele que sofre (a vítima). os elementos essenciais para descrever os modos como uma indignação e uma acusação devem ser fornecidas para serem recebidas no espaço público para causar impacto e demandar reconhecimento e ação.constrangimentos que pesam sobre sua expressão pública. classificada como desumana e injusta. naturalmente. e. em razão da qual se ligam e se desligam os laços sociais. para se centrar sobre o perseguidor da vítima. a ordem dos advogados. judicial e intelectual. bem como 60 . por exemplo. de um espaço público político. Portanto.

ele foi o mecanismo que revelou a disjunção entre dois mundos. era por todos imediatamente identificável. A causa se encontra transformada e os lugares de acusação e defesa se alteram. nos dois campos de ação. antes. Agindo desse modo. de contra julgamento. a demonstração eminentemente crítica desnudou posições divididas. o Estado e suas responsabilidades. mas um bem comum. 61 .os métodos e instrumentos de mobilização social em torno de uma causa. alcançando tamanha amplitude que edificou e opôs entidades como a Coroa e a Opinião. condenado e executado. mostrar que não está só na crítica e na denúncia. Um crime é descoberto e quase imediatamente um suspeito é designado por rumores. e podia apresentar. encontrassem argumentos para aderirem à nova ética social. em sua armadilha crítica. Tecnicamente. A segunda forma. o combate. a denúncia pública supõe a designação de um culpado ou de um responsável contra quem o denunciante busque mobilizar o máximo de apoio: convencer outras pessoas. sendo necessário um julgamento institucional prévio. 1998: 193 Tradução livre: Céline Spinelli) O caso (affaire) tornou-se a fórmula política para a denúncia pública de uma injustiça. ou seja. provar que o que diz é verdade. o caso consistiu em uma operação polêmica de revelação: era a revelação de um não-acordo e de uma separação. Apoiando-se numa crítica social que aponta uma injustiça no que ela tem de geral. A construção de um evento como caso consiste em uma estratégia de confrontação entre duas formas de defesa e acusação. Com efeito. Um novo processo. Voltaire construiu a noção de caso como uma réplica do processo judiciário. melhor. 2000: 237-238). Esse foi um sinal de gênio político: ele tratava o inimigo com suas próprias armas. Com isso. ele integrava virtualmente. diante de tamanho poderio. culpado. o caso é propriamente essa configuração que torna visível um não-consenso entre duas partes que. O denunciante deve mostrar que a causa que defende encerra uma universalidade. O caso permitiu que muitas pessoas. A primeira se vale da tradição e se inscreve nas formas judiciárias do Antigo Regime. se diziam unas e idênticas. um apelo em nome do interesse geral. ele se beneficiava sem ônus de uma economia e de uma configuração já existentes. Voltaire concebeu esse embate como uma operação de julgamento ou. o que levou ao isolamento da acusação no registro secreto do Estado. sob a forma de processo. e instruído pela opinião esclarecida. E a prova moral do denunciante passa por mostrar que a denúncia não visa um interesse particularista. arquitetada por Voltaire faz apelo ao engajamento dos espectadores imparciais. (Claverie. sem legitimidade institucional é criado. Aquele que exercita a acusação passa a ser acusado e a vítima passa a ser defendida. perseguidor e vítima têm o lugar invertido. sempre prontas a reativarem conflitos. O risco de fracasso da denúncia reside na possibilidade de o denunciante não ser seguido por outras pessoas em sua acusação (Boltanski. No momento em questão.

entre elas a novela Explode Coração. reivindicando informações e apoio com o objetivo de esclarecer as mortes e os desaparecimentos dos mesmos. o silêncio pode ser ressignificado e transformado em protesto. Em certas situações pode significar o silenciamento forçado. diante das barreiras que encontraram para falar publicamente sobre os casos. A segunda alternativa foi o caso. reuniram-se durante cinco anos. por exemplo. cujos filhos foram assassinados ou encontram-se desaparecidos e que. Encontrar-se numa posição subalterna significa dispor de meios restritos para tornar uma injustiça sofrida pública. das Mães da Cinelândia. Chegaram a ser convidadas para mostrar suas dores em novelas da Rede Globo de televisão. imposto àqueles que encontram-se em condições de subalternidade. Falar a partir de uma condição subalterna O silêncio possui várias modalidades de sentido (Le Breton.8. resolveram se reunir semanalmente nas escadarias da Câmara Municipal do Rio de Janeiro para mostrar o silêncio a que foram submetidas.1. de autoria de Glória Perez. ostentando cartazes com as fotos dos filhos. que dizia ter sido sensibilizada pelas 62 . um grupo de mães. toda segunda-feira à tarde. 2007). Foto 1: Mães da Cinelândia Manifestação na escadaria da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro Fonte: Acervo do Grupo Tortura Nunca Mais – Data não identificada Silenciosamente. Em outras.

é possível identificar uma questão que aproxima estes dois autores e é importante para se pensar o desafio da fala em contextos de subalternidade. a partir da década de 90. Enquanto Veena Das se pergunta sobre o processo de silenciamento do sofrer e sobre as formas possíveis de o sofrimento humano ganhar visibilidade. A diferença é que a maior parte das Mães da Cinelândia era pobre.histórias de dor dessas mães em razão de ter vivido experiência similar com o assassinato da filha. de certo modo. tornava-se uma barreira à ação dessas mães. qualquer esforço para apreender e compreender as relações entre violência. sofrimento e política . dominaram o debate público no Rio de 63 . Qual a possibilidade de acessar o espaço público a partir de uma condição subalterna? Um dos obstáculos que se colocam para aqueles que se encontram em uma condição subalterna é a ausência de um mundo comum sobre o qual apoiar-se para fazer uma crítica e dar seguimento às suas denúncias. principalmente policiais. Essa tripla condição.a partir da experiência dos familiares de vítimas . Luc Boltanski se interroga sobre as condições de uma denúncia pública para que seja aceita como legítima. as possibilidades do acesso ao espaço público quando se fala de uma condição de inferioridade ou subalternidade. enquanto Boltanski defende a necessidade de se levar a sério a capacidade dos atores produzirem críticas e se engajarem na denúncia das injustiças sociais. de falar a partir de um lugar de despossuído. está vinculada de maneiras importantes a experiências de subjugação. Das reflete sobre a invisibilidade de certos tipos de sofrimento e a agência dos sujeitos em busca de visibilidade. Pela discussão apresentada até aqui. argumenta Veena Das. A questão aparece em termos diferentes para cada um deles. tratava-se de uma fala que tinha tudo para ser desacreditada no espaço público. portanto. A experiência de converter-se em sujeito. e cujas denúncias apontavam o envolvimento de policiais nos crimes. composta por moradoras de favelas ou outros territórios da pobreza. através de um diálogo principalmente com o pensamento de Veena Das e Luc Boltanski. de um território criminalizado e denunciar a participação de agentes estatais. mas próximos no que diz respeito à preocupação com a possibilidade de ação que se apresenta aos sujeitos ou atores (conforme a preferência terminológica) diante de situações específicas. marcado pelo estigma e pela criminalização e. Neste sentido.e os obstáculos para se reconhecer suas dores exige uma compreensão do processo histórico de subordinação da favela na cidade e a influência das interpretações que. Ambos autores tratam. Implicava falar de um lugar subalterno.

neste exato momento. eu já te avisei. deixando para trás sua moradia e seu comércio. ajudou a denunciar grupos de extermínio nesta mesma região. sua vida passaria por uma modificação profunda. um perseguidor e um denunciante. uma pessoa que se encontrava. os agentes da segurança pública os perseguidores (policiais principalmente) e os 11 Sobre a associação entre violência e favelas. Esta nota é assinada pela Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e apresenta uma denúncia pública de ameaças sofridas por uma militante de direitos humanos. Márcia Honorato. numa tentativa frustrada por quem deveria lhe dar uma satisfação.Janeiro. Márcia foi obrigada. No caso da nota acima os favelados aparecem como vítimas. atirou para o alto e. Márcia estava em casa. entre outros: Machado da Silva (2008. Isto se dá. não somente ela ficou vulnerável. Rocha (2009). Em junho de 2008. Para exemplificar melhor o argumento. A partir de então. esfregava uma arma de fogo sobre o rosto de Márcia e esta respondeu. foi impedida de relatar sua situação à ministra Maria do Rosário. neste momento. um sistema de denúncia é formado por uma vítima. ela foi inserida no Programa Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Governo Federal. Em seguida. Farias (2007). em 2005. da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. [Nota pública da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência – 26 de setembro de 2011] 11 Segundo Boltanski. Todos eles perambularam por diversos locais e hoje correm o risco de morar na rua. e falou: “você é um anjo. a situação dos militantes de direitos humanos no Estado do Rio de Janeiro é de extrema vulnerabilidade. quando policiais militares assassinaram 29 pessoas entre Nova Iguaçu e Queimados. vem acarretando algum tipo de represália e ameaças. juntamente com outra. Zaluar (1985). dizendo: “você está maluco?! quer complicar ainda mais a nossa vida?!”. 2004b. em uma moto parada na rua. vinculando de formas diversas a violência às favelas . tomemos um caso concreto de denúncia. publicizado através da nota pública de um movimento social que luta contra a violência policial no Rio de Janeiro. Além disso. chamou pelo seu nome. então. além de atuar em outros casos de violação do direito à vida cometida por agentes públicos no Estado do Rio de Janeiro. de onde obtinha a renda que a sustentava e aos seus filhos. então. você quer morrer?”. quando observou que o portão de entrada estava aberto. o outro indivíduo que estava na moto aproximou-se. A militante de direitos humanos em questão sofreria um atentado. Seus filhos. Recentemente. a abandonar sua casa às pressas. O homem. Assim. segurou o pescoço daquele que atirou. ex-marido e sogra também tiveram que sair de onde moravam. foi até o portão para fechá-lo. 2002). Um dos exemplos recentes disso é a situação enfrentada pela militante da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. o que achou muito estranho. principalmente aquela provocada por agentes da segurança pública. Ela participou ativamente das mobilizações que se originaram a partir da Chacina da Baixada. 64 . especialmente por sua atuação no sentido da denúncia de inúmeras violações cometidas por policiais militares contra moradores de favelas e periferias cariocas e fluminenses. Infelizmente. Araújo (2007). e diversas ameaças após isso. Valladares (2005). pegando-a pelo pescoço. desceu da moto e foi até Márcia. pois toda denúncia feita de alguma violação de direitos. pois este costuma ficar sempre fechado. mas toda a sua família. então: “vai se ferrar!”. entretanto. Um trecho da nota traz o seguinte texto: Como é de conhecimento comum. Enquanto dizia isso. Leite (2001). Uma das mais graves ocorreu em abril do referido ano. Márcia é uma reconhecida militante no Estado do Rio de Janeiro. conferir. em 2007. e.

atraente chamariz de vagabundos. 2008: 77). da qualificação das pessoas. em uma política da justiça. ela cita um trecho dos escritos de Augusto Mattos Pimenta. libertadas de todos os impostos. Desde seu surgimento. jornalistas. 2005) argumenta que desde seu surgimento as favelas foram lidas por médicos. A representação negativa das favelas estendia-se aos seus moradores. 2005: 42). Porém. engenheiros e políticos como significado de “doença. enquanto local de moradia dos pobres. 12 65 . foi vista como lugar de pobreza e miséria. o sonho de uma cidade a salvo transfigura-se em uma mentalidade que é leniente com a permissão 'permissão para matar' exercida pelos organismos de repressão ao crime. precariedade institucional e desagregação do tecido social no Brasil. valhacoito de larápios que levam a insegurança e a intranqüilidade aos quatro cantos da cidade pela multiplicação dos assaltos e dos furtos” (Pimenta. uma patologia social”. conta com a tolerância de grandes parcelas da população e não é repelida de forma enérgica pela justiça. como se esta fosse a única forma possível de combater o problema da violência. impedindo-os de participar de um mundo cívico comum. pelos meios de comunicação de massa ou por uma parte dos formadores de opinião” (Fridman. consagrada na prática do combate à delinquência. no final do século XIX. 1926. A favela. apud Valladares. e os moradores de favela têm de enfrentar o preconceito e o estigma que historicamente foram constituindo a favela e seus moradores como um “problema”. Ao analisar escritos e documentos que retratavam a favela como um “problema”. reducto de capoeiras. Essa pena de morte. A grandeza ou a pequenez de cada um depende. Valladares (2000. principalmente a polícia. 12 “Nas atuais condições de desigualdade econômica. O reverso dessa moeda é a “permissão para matar” concedida aos aparatos repressivos. em razão das habitações precárias e insalubres. Valladares reconstrói em seu livro “A invenção das favelas” as formas pelas quais a favela foi sendo construída como um “problema”. moléstia contagiosa. alheias a toda ação fiscal. as favelas são vistas pela percepção social dominante como local “infestado de vagabundos e criminosos que são o sobressalto das famílias” e “cidadelas de miséria”. até que. marcado pela promiscuidade e pela vadiagem dos moradores. a favela é reconhecida oficialmente e “passa gradativamente a ser vista como um problema a ser administrado”.militantes/entidades/movimentos de defesa dos direitos humanos são os acusadores. uma das figuras responsáveis pela “primeira grande campanha contra as favelas” em que as características negativas da favela são associadas aos moradores: “Desprovidas de qualquer policiamento. construídas livremente de latas e frangalhos em terrenos gratuitos do Patrimônio Nacional. a construção da favela como um problema vem de longa data. A perspectiva médico-higienista que orientou a política do governo Pereira Passos apontava a favela como uma ameaça à saúde da cidade. em 1930. são excelente estímulo à indolência.

uma alternativa de intervenção pública que visava afastar para longe do centro da cidade a pobreza urbana. artigo 349. para que a condição de pobreza e precariedade habitacional não tornasse o trabalhador revoltado ou preguiçoso. de “ajustamento moral”. por sua vez. 2005). fora do mundo do trabalho e da política. O Código de Obras classificava a favela como uma “aberração” e defendia a necessidade de eliminá-la do mapa da cidade. Machado da Silva (2002: 223). que escolheu o alto dos morros. apud Valladares. mas vistos como marginais à sociedade. e que se recusava ao assalariamento (Valladares. da Diretoria de Engenharia e por todos os meios ao seu alcance para impedir a formação de novas favelas ou para a ampliação e execução de qualquer obra nas existentes. Era o aparecimento da política de remoções de favelas. Apesar de todas as investidas contra as favelas. A preocupação era também de controle social dos pobres. 2005:47). os parques proletários constituíram uma “pedagogia civilizatória” que buscava transformar os hábitos pessoais dos favelados. na década de 1940 apareceram os parques proletários. Esta é a conclusão geral apresentada em uma coletânea organizada por Alba Zaluar e Marcos Alvito em 1998 e intitulada Um século de favela. elas resistiram e venceram. 2005: 52). de formação espontânea. “A Prefeitura providenciará por intermédio das Delegacias Fiscais. Os moradores de favelas não eram considerados cidadãos. O pobre era caracterizado como aquele que não se aproximava dos valores burgueses partilhados pelo poder público e pela sociedade carioca em geral. mesmo antes de ver as favelas declarava que a favela era uma espécie de cidade satélite. Como alternativa às favelas e solução para o disciplinamento das classes trabalhadoras.O urbanista francês Alfred Agache. capítulo XV do Código de Obras de 1937. que até os dias atuais não sumiu totalmente do repertório das políticas direcionadas às favelas. contratado para elaborar o Plano Diretor do Rio de Janeiro. O objetivo das remoções de favelas não era apenas eliminar do mapa um espaço físico marcado pela falta de higiene e pelas habitações insalubres. mandando proceder sumariamente a demolição dos novos casebres. trata-se de uma tentativa de rejeitar as 66 . e cuja população era avessa a qualquer regra de higiene (Valladares. Como afirma Burgos (1998). referese a esta coletânea dizendo que “No conjunto. de modo a torná-la ao mesmo tempo administrada pelo poder público e invisível aos olhos da sociedade. daqueles em que for realizada qualquer obra e de qualquer construção que seja feita nas favelas” (Parágrafo 2º. fundamentado em uma concepção higienista e de embelezamento da cidade. Em 1937.

“a favela venceu”. simbólicas. (Machado da Silva. hierarquizada e fragmentada. cuja intervenção na cena pública. políticas. etc.. Em suma. e por isso tem tido pouco efeito na mudança do padrão de integração urbana. e que transformações ela provocou na sociabilidade urbana? Segundo penso. em grande parte. Recente pesquisa coletiva. e articula suas ideias a partir de um “diálogo implícito” com essa tese geral. criaturas da reprodução da desigualdade fundamental da sociedade brasileira e da forma de Estado que lhe corresponde: expressão e mecanismo de continuidade de uma cidadania restrita. cuja confiança mútua fica abalada (Machado da Silva. desde sua gênese como categoria social. e entendida como um problema de integração das classes subalternas ao sistema jurídicoinstitucional. não mexeu no padrão básico de sociabilidade urbana. com o assédio violento da polícia e das milícias e com a profunda desconfiança que essa proximidade provoca”. duramente conquistada. Em suma. com sua capacidade de organizar-se e expressar-se das mais variadas formas e de conquistar direitos e reconhecimento simbólico. buscou mostrar como os moradores das favelas da cidade do Rio de Janeiro têm de lidar “com a contiguidade territorial inescapável com os bandos armados ligados ao comércio de drogas ilegais. eles sempre foram. e poucas vezes considerada como problema de desigualdade. Mas e os favelados? O que significa a vitória da favela para os moradores dessas áreas. sua capacidade de ação e suas conquistas políticas e simbólicas”. 2008b: 13). encontrando-se em condição de clandestinidade e ilegalidade. 2002: 223-4 – grifos do autor no original). Nas últimas décadas a metamorfose do “problema da favela” tem girado em torno da problemática da violência urbana. Essa desconfiança vem principalmente dos segmentos que não moram em favelas. responsável pela própria heterogeneidade das favelas). A inegável criatividade dos favelados (que é. funcionando antes como um imprevisto e indesejado mecanismo de reprodução de um modo fragmentado e fortemente hierarquizado de integração urbana. mas que não se sentiria “confortável adotando-a em bloco”.concepções que definem as favelas e seus moradores pelas carências materiais. Toda a população moradora de favelas passou a ser vista como composta por 67 . pensada na maioria das abordagens pela associação com a antiga questão da insalubridade e do caos moral atribuído às áreas de moradia popular. sempre esteve “encapsulada”. mas também dos próprios favelados. Note-se que. no argumento de Machado da Silva. favelado é uma categoria social subalterna. mas buscando qualificá-la. a “vitória da favela” ocorreu à custa da constituição de uma categoria social subalterna. coordenada por Machado da Silva. construída de fora. Machado da Silva complementa seu raciocínio dizendo que o argumento de que “a favela venceu” é uma “posição séria e defensável”. realçando sua criatividade. pouco alterando sua posição relativa na estratificação social e seu papel como força social. e continuam sendo.

2008b:14-15). como se verá. apresentados na Parte II desta tese. que. De outro lado. a parcela da população que ali está instalada tornou-se “matável” por agentes de segurança. Como tem demonstrado toda uma linha de pesquisa e estudo. antes mesmo que possam apresentar no espaço público suas demandas como interlocutores legítimos.bandidos ou quase bandidos. como Fridman (2008) e Farias (2007). Entretanto. o medo e a desconfiança generalizados das camadas mais abastadas da cidade obrigam os moradores de favelas a um esforço prévio de “limpeza simbólica” . afetando o andamento das rotinas cotidianas dos moradores dessas localidades. a partir de leituras do filósofo italiano Giorgio Agamben sobre o conceito de vida nua (Agamben. Viabiliza-se a fúria contra o “inimigo próximo”. A agregação em movimentos de base local escasseia. a história das favelas 68 . A mentalidade e o imaginário que sempre definiram os territórios da pobreza e as manifestações dali provenientes como perigosas ganhou uma nova atualização com o aumento da violência criminal. De um lado. O confinamento geográfico cerceia-lhes também a palavra (Machado da Silva. para muitos) e dificulta o prosseguimento regular das interações nas diferentes localidades. Este circuito mimético da violência é alimentado pelos confrontos entre bandos armados e pela atuação truculenta do aparato policial. sob o olhar complacente daqueles que se sentem “aliviados” ou “vingados” pelo uso da força nas localidades onde prolifera a organização dos bandos armados que operam a economia da droga. “cujo caso exemplar na representação social são as favelas. Segundo o ponto de vista de Fridman (2008: 83): Na atual vigência da mentalidade que destina à favela o lugar do “outro” da cidade (e no limite da sociedade). na descrição dos relatos dos familiares de vítimas. a fim de ganhar a confiança do Outro -. torna-se problemático articular coletivamente uma compreensão orgânica e proativa das condições de vida compartilhadas. chegam a sugerir que o grupo social compreendido pelos favelados tornou-se uma população matável. limitando a capacidade de influência nas arenas públicas. Afetada a confiança interpessoal que se fundamenta na estabilidade de suas rotinas. em razão da contiguidade territorial inescapável com a minoria que integra os bandos armados. 1998). sem que isso seja percebido ou repudiado como delito inaceitável. 2008b: 14). Emparedada. Alarga-se assim o campo da aceitação social da arbitrariedade sem fim: a segurança pública torna-se concebível pela aniquilação do “outro”. por exemplo. Os episódios de violência se repetem e reproduzem uma espécie de circuito mimético da violência que atinge o conjunto da população da cidade. O fantasma das classes perigosas se renovou com a visão dos territórios da pobreza. vistas como lugares prenhes de uma violência descontrolada” (Machado da Silva. a necessidade de demonstrar ser “pessoa (ou grupo) de bem”. pela violência criminal e policial que desestabiliza a sociabilidade em seus territórios de moradia (e de trabalho. poucas vezes bem-sucedido.isto é. os moradores de favelas são atingidos em grau e intensidade muito maiores do que o restante dos moradores da cidade. Tornou-se uma “gente sacrificável”. Há autores. vive uma vida sob cerco.

A concentração da maior parte das mortes violentas nas favelas ou em lugares próximas a favelas (Rivero e Rodrigues. 2005. logo. 69 . no imaginário da cidade. está relacionada às mortes violentas e experiências traumáticas decorrentes da violência criminal e policial. meu argumento é que. de “segurança”. Nesse sentido. o avesso da figura do cidadão. Favela converte-se em um dispositivo do repertório de poder que impede a “transformação da força em grandeza”. Para concluir este capítulo. é importante chamar atenção para a necessidade de realização de estudos sobre outros “pedaços da cidade”. mudando a ênfase na dimensão do problema conforme o período histórico e o contexto político: problema “sanitário”. Acho mais últi pensar o desaparecimento forçado como dispositivo de governo-gestão de certos territórios. 2009).cariocas está fortemente associada à sua identificação enquanto “problema”. A representação da favela como um espaço da morte reforça o imaginário da favela como lugar-trauma e. a favela foi historicamente sendo fixada como um lugar-trauma e seus moradores como o outro da cidade. 2002. 1993). diante do histórico que descrevi da constituição da favela como um lugar-trauma e do favelado como uma categoria social subalterna. problema “social” (Machado da Silva. reforça o preconceito e o estigma que impedem a tomada de voz de seus moradores. deixando de haver um “equivalente” que distribua grandes e pequenos em um continuum de posições intercambiáveis . sobretudo os locais de moradia populares. desejo apenas dizer que. gostaria desde já de indicar que não estou querendo indicar uma exclusividade da relação entre desaparecimento e favela. A atualização mais recente dessa marca-trauma. 13 13 Embora eu tenha me referito a questão da favela. Valladares. “habitacional”. 2009) as transformaram na representação social dominante em um espaço da morte (Taussig. enfim. como argumentado acima. Rocha. de “ordem pública”. Diante do exposto até aqui. a “favela” introduz uma barreira à generalização da denúncia e à participação dos moradores em um “mundo comum” em condições de igualdade.

não tem fronteiras definidas. assim como são variados os circuitos e as trajetórias que se pode percorrer para pesquisar este assunto. uma representação que interroga basicamente o crime comum. Ademais. e sim a força nelas incrustada. dependendo do contexto. que é interpretada como responsável pelo rompimento da 'normalidade' das rotinas cotidianas. mais especificamente. construída coletivamente. o olhar. a violência urbana configura um campo semântico particular – e. pode incorporar todo tipo de atitudes e condutas que simplesmente 'incomodam'. responsável por sua articulação e relativa permanência ao longo tempo. decisivo – que. é útil começarmos logo tentando delimitar o objeto. e com isso sua extensividade. E. O ator típico tem sido identificado com os traficantes de drogas. Existem vários tipos e modalidades de desaparecimento e. A categoria. a representação da 'violência urbana' indica um complexo de práticas legal e administrativamente definidas como crime. Deste modo. 'Violência urbana' é. reconhece a presença de uma ordem social”. Figurações das categorias desaparecido e desaparecimento A perspectiva desenvolvida nesta tese orienta-se sobretudo por uma interrogação sobre as relações entre desaparecimento forçado14 e violência urbana. instrumental e moral. A discussão sobre o desaparecimento pode levar a reflexão a vários temas e cada perspectiva analítica pode considerar problemas diferentes. por um lado. mas o foco de atenção não é o estatuto legal das práticas consideradas. a própria categoria desaparecimento é fugidia.2. portanto.1. em que medida o Utilizo a noção de desaparecimento forçado tal como esta aparece nas normatizações internacionais apresentadas adiante. 15 Nesse ponto. apresentando as questões centrais e as categorias de análise. de difícil definição. “identifica um ator. não impede a polissemia da noção. da certeza sobre o fluxo regular das rotinas em todos os aspectos: cognitivo. De fato. que ameaça duas condições básicas do sentimento de segurança existencial que costumava acompanhar a vida cotidiana rotineira – integridade física e garantia patrimonial. ou seja. mais ou menos consensual. Meu interesse central é investigar em que medida o desaparecimento forçado de pessoas corresponde a uma prática do repertório da linguagem da violência urbana15. é de se considerar que este núcleo. ou seja. Machado da Silva chama a atenção ainda para o que considera uma novidade na representação da “violência urbana”: ela reconhece a presença de uma ordem social. afetando apenas superficialmente a continuidade das rotinas diárias”. o foco. Esta é a razão pela qual 'violência urbana' não é simples sinônimo de crime comum nem de violência em geral. acompanho a definição de Machado da Silva sobre violência urbana (2008c: 36-37): “Considerada em seus conteúdos de sentido mais essenciais. O DESAPARECIMENTO FORÇADO DE PESSOAS COMO PRÁTICA DO REPERTÓRIO DA LINGUAGEM DA VIOLÊNCIA URBANA As possibilidades de abordagem do fenômeno do desaparecimento de pessoas são tão vastas quanto a pluralidade semântica e as figurações das categorias desaparecimento e desaparecido. eles seriam uma espécie de “portadores” da violência 14 . exatamente pela ampla gama de situações que engloba. designa “um complexo de práticas do qual a força é um princípio de coordenação. selecionadas pelo aspecto da força física presente em todas elas. na atualidade. 2. além disso. Além de atitudes e condutas.

mas é possível afirmar que parte dos casos é composta por desaparecimentos forçados. eles ocorrem. como festa junina – sendo os jovens do sexo masculino as principais vítimas. em momentos de lazer – especialmente durante saídas de bailes funk. Onze militares do Exército foram presos na ocasião. em Duque de Caxias. 2008c). expressões como “não tem corpo não tem crime”. 2004b. pode-se consultar entre outros. como justificativa ou desculpa para não investigarem os casos. julgamentos. situações e circunstâncias. é comum os familiares se queixarem de que ouvem muitas vezes das autoridades policiais. Pode-se também dizer que há uma espacialização dos desaparecimentos forçados. por um motivo até certo ponto óbvio. O desaparecimento de pessoas compreende uma variedade de tipos. milicianos e traficantes em casos de desaparecimento. exerceria sobre ela uma ação centrípeta”. 16 Um exemplo disso que estou chamado de espécie de divisão do trabalho foi o caso. E não havendo crime. Foi a partir desse enquadramento que busquei conduzir o trabalho de campo e registrar histórias. 71 . situações. que se encarregaram de matar e desaparecer com os corpos. Embora compreendam que há uma diversidade de situações de desaparecimento as autoridades policiais tendem a generalizar os casos afirmando que geralmente são ocasiões de briga familiar ou que o desaparecido era doente mental e por isso desapareceu. ou seja. entre outros. no ato de desaparecer com corpos16. de três jovens moradores do Morro da Providência detidos por soldados do Exército e entregues a traficantes de drogas de uma favela rival. Os dados coletados para esta pesquisa indicam (como se verá nas histórias relatadas na Parte III desta tese) a participação de policiais. em junho de 2008. Posteriormente os cadáveres dos três jovens foram encontrados no lixão de Gramacho. Para maiores detalhamentos do ponto de vista desse autor. ou ainda durante situações de confronto armado. milicianos e traficantes de drogas. Machado da Silva (1993. Não sendo o desaparecimento em si um crime. são eles os mais interessados em falar sobre o assunto.desaparecimento corresponde a práticas de extermínio e a situações em que o desaparecido provavelmente foi morto. majoritariamente. muitos inclusive envolvendo as forças policiais. são muito comuns reclamações de familiares de pessoas desaparecidas em relação ao atendimento feito pelos órgãos policiais. os jovens teriam sido detidos porque teriam desacatados os soldados. entre policiais. É verdade que essas circunstâncias correspondem a uma parte considerável de casos. em denunciar. Há desaparecimentos forçados que ocorrem durante operações policiais oficiais e outros em situações extraoficiais. eventos. entrevistas. 2004. ou de outros tipos de festa. Por outro lado. Segundo informações do Comando Militar do Leste. em dar visibilidade a seus casos. Os principais protagonistas são os familiares dos desaparecidos. protestos. manifestações. em alguns casos. nos territórios da pobreza (favelas e periferias). Podese inclusive sugerir que há uma espécie de divisão do trabalho. mais ou menos estável e duradoura do que as outras modalidades de crime. mas não à sua totalidade. 2008b. em reivindicar e lutar por justiça. não há urbana “porque sua atitude.

estatísticas. Para alcançar tal propósito. O desaparecimento forçado se inicia com a captura violenta e arbitrária da pessoa. bem como analiso leis. relatórios e reportagens jornalísticas. convenções. mapeando a pluralidade de construções do fenômeno enquanto um problema social e sociológico. As categorias desaparecido e desaparecimento são categorias em disputa. no Brasil. acreditavam ter encontrado a chave para um crime perfeito: dentro da sua lógica inumana. Mais recentemente. na maioria dos casos. envolvendo familiares. entre outros tipos de organização. portanto. 2007). Do desaparecimento forçado como método de repressão da ditadura Uma das imagens mais marcantes que ficaram das ditaduras latinoamericanas foi a figura do desaparecido. pesquisadores. o segundo engloba modalidades diversas e remete-se ao período pós-ditadura. não haveria perseguidos e. dialogar com dois tipos de literatura. o assunto tem despertado o interesse crescente de acadêmicos que vêm produzindo diferentes olhares e perspectivas. poderia ser enquadrada em dois contextos históricos: o primeiro refere-se ao desaparecimento político e o segundo diz respeito à forma contemporânea marcada por uma pluralidade de percepções sobre o assunto. 2. Neste capítulo apresento um quadro panorâmico com o objetivo de contextualizar as figurações das categorias desaparecido e desaparecimento. Enquanto o desaparecimento político é compreendido a partir da noção de desaparecimento forçado e reporta-se ao período da ditadura civil-militar. é torturada e 72 . partindo do desaparecimento político às figurações contemporâneas dessas duas categorias. também não haveria crime (Molina Theissen. Eu diria que a trajetória do debate sobre o tema.2. Durante os regimes militares latino-americanos o desaparecimento forçado tornou-se instrumento de repressão e dominação política da ditadura (Padrós. neste capítulo. Quando os militares latino-americanos começaram a utilizar a prática de desaparecimento forçado de pessoas como um método repressivo. mídia. é acompanhar algumas trajetórias das categorias desaparecido e desaparecimento. onde. movimentos sociais. uma que trata do desaparecimento político e outra que trata dos desaparecimentos contemporâneos. não havendo vítimas. a partir de uma perspectiva histórica e sócio-antropológica.motivos para a realização de investigações. Minha proposta. e seus significados estão diretamente associados à pluralidade de vozes que falam ou deixam de falar sobre o assunto. autoridades. portanto. tratados. busco. 1998). que em seguida é levada para lugares desconhecidos.

Trata-se. o paradeiro da vítima ou a motivação da ação a quem de direito. ainda com o objetivo de se desfazerem do cadáver. As indagações pelos canais regulares. um homem. A mulher é viúva de um marido que pode ser vivo. os responsáveis podem enterrar os corpos em cemitérios clandestinos ou jogá-los em rios. Em muitos casos os corpos são mutilados para dificultar sua identificação ou as características da morte. De acordo com a primeira manifestação da ONU. já que os ofensores (diretos ou indiretos) aos direitos fundamentais implicados são justamente os encarregados de garanti-los na entidade estatal (Jardim. publicado pelo Comitê Brasileiro de Anistia/RJ e pela Edições Opção. num determinado momento. cunhada nesse momento histórico. nem dos lugares onde esteve detida.. são arrancados de suas casas e de seus locais de trabalho e ninguém sabe mais informar. O livro traz alguns artigos sobre a temática dos desaparecimentos e pequenos artigos recuperando a história dos desaparecidos políticos brasileiros com pequenas biografias. Ou as esposas de militares punidos que recebem pensão como viúvas de maridos vivos.assassinada. que as circunstâncias do desaparecimento causam. Como os filhos dos banidos que não conseguem registro. desse modo. É órfão ou o pai está vivo? E todas as repercussões jurídicas e econômicas disto criaram figuras jurídicas inteiramente novas. pelos meios judiciais. de forma arbitrária.. em que. O grito das famílias não tem eco. dos parentes e dos amigos. encarceram e. E. ou até crianças. seja em relação à angústia e à dor intermitente do cônjuge. 1999: 33-34). em 1978. composto mediante tortura ou tratamento. ou os reclames da opinião pública não têm eco. lêse: 73 . seja na insegurança coletiva gerada por esses crimes. não informando os fatos. desaparecimento forçado é a violação complexa de direitos fundamentais. E os filhos de militares que para se matricularem num colégio militar figuram como órfãos de pais vivos. uma mulher. detêm. sem que se deixem vestígios ou rastros do corpo. (. do meio da rua. E ninguém sabe exatamente o que aconteceu. à liberdade e à segurança pessoais. As pessoas podem ser levadas a prisões clandestinas onde podem ser objeto de agressões físicas. e apartado do devido processo legal. (Silva. O filho é filho e órfão de um pai que pode estar vivo. pena ou castigo cruéis. Um dos primeiros livros lançados no Brasil sobre os desaparecidos políticos foi organizado por Cabral e Lapa (1979). assassinam pessoas. São arrancados.) Criou-se essa figura misteriosa que some como se tivesse sido levada por um disco voador. desaparecem. praticada por agentes públicos (geralmente os encarregados da segurança e/ou cumprimento das normas jurídicas). de um crime injustificável contra o direito à vida. 1979: 26-27) Em outro artigo deste mesmo livro. Em um dos artigos desse livro. o historiador Hélio Silva escreve: Então. em qualquer situação ou circunstância. nem de quem perpetrou o crime. desta vez de autoria de Barbosa Lima Sobrinho. alguns inderrogáveis. dos filhos. tem suas consequências extrapoladas além da vítima principal. não raras vezes. Acima da normalidade. violenta e à margem da lei. Como as viúvas que não podem receber a pensão porque os militares não assumem a morte do desaparecido.

as mudanças. Há que apagar tudo que possa recordar sua memória ou sua vida. Esse processo levou tempo e passou por muitas etapas de ajustes. responde pelo maior dos crimes possíveis. (Catela. 1979: 29) Uma abordagem antropológica sobre os desaparecidos políticos foi dada por Ludmila da Silva Catela. tanto como forma de enunciação de um drama privado quanto na arena pública. Que significa ter um familiar desaparecido? Que fronteiras impõe? Como estes familiares. provenientes da intolerância política? Que características sociais. na crônica dos povos que se supunham civilizados. que realizou uma pesquisa sobre a reconstrução do mundo dos familiares dos desaparecidos argentinos (Catela. ainda menos do que isso. o direito a um atestado de óbito. representam e explicam a si mesmos estes desaparecimentos violentos.O desaparecido não deixa esposa. eficaz para as pessoas que se posicionavam em torno desta figura. Ariel Dorfman. o desaparecimento pode ser pensando como uma morte inconclusa (Catela. num regime em que todas as práticas tenham o direito de cobrir-se com a bandeira sagrada da Segurança Nacional. o crime de haver nascido. foram acionando a criação de identidades diferenciadas que tornaram os laços primordiais os referenciais mais fortes de identificação. pois que. O terror produzido pelos regimes militares deixou marcas em praticamente todos os países da América Latina. 2001: 141-142). Foi em nome dela que veio a surgir. Em torno desta figura emergiu todo um novo sistema simbólico: A figura do desaparecido interessa. nem filhos. a quem se nega até mesmo o direito a uma lápide funerária ou. O trabalho de Catela toma como uma de suas fontes de análise os relatos dos familiares para refletir sobre a forma como estes familiares reagiram diante da situação limite do desaparecimento. conta que existe no campo chileno uma história sobre o que acontece quando uma criança é raptada por uma 74 . disputas. nem amigos. o rosto sem feições e a figura sem nome dos desaparecidos. idas e vindas em torno de um mesmo tema: a constituição. assim. não há sepultura e não há um momento específico de realização do luto. na medida em que não há corpo. a partir de suas diferenças de gênero e de geração. aceitação e uso da palavra desaparecido. (Sobrinho. As modificações na vida das pessoas. 2001: 143) Uma nova categoria classificatória surgia então: o desaparecido. para o qual não existe perdão. que fornece material específico para a conformação de um sistema simbólico em que predominam elementos tradicionalmente associados aos rituais de morte. nem piedade. Como sustenta Catela. políticas e culturais indicam estes “mortos” sem corpos e sem sepulturas? (Catela. 2001). A categoria desaparecido acarretou um sistema classificatório diferente. na verdade. como elemento central. citado por Taussig (1993: 26). 2001: 140).

Essa tática remonta ao decreto “Noite e Neblina”. 75 . no século XIX. realizada em 1925. Tratava-se do desaparecimento de civis por meio da política nazista de extermínio. chama atenção para a ocorrência desta prática em situações de guerra.” Ainda que os ossos de cada chileno não tenham sido quebrados. Outro contexto histórico destacado por Perruso é exatamente o dos desaparecimentos forçados por motivações de repressão política e de maneira sistematizada durante os regimes ditatoriais latino-americanos17. 2. durante a guerra civil norteamericana os soldados recebiam uma placa que era levada junto ao corpo.bruxa. 17 Para uma discussão dos aspectos normativos do desaparecimento forçado como crime. Após a Primeira Guerra Mundial essas placas tornaram-se obrigatórias. A construção normativa do desaparecimento forçado como crime e o direito internacional O desaparecimento forçado não é um fenômeno recente na história da humanidade. ao analisar a construção histórica e normativa do crime de desaparecimento forçado. que evidenciava o uso deste método não apenas com soldados em campos de batalha. As orelhas. cada chileno se sente como um Imbunche. Perruso (2010: 17-18). de 17 de dezembro de 1941. nos séculos passados. regimento e divisão a que faziam parte no exército. A ação não podia ser visível e os agentes envolvidos não podiam disponibilizar informações sobre o paradeiro das pessoas. de um tal modo que a criança tem de andar de ré. “A cabeça é virada para trás. os corpos dos soldados mortos em guerra não eram encontrados e. A fim de quebrar a vontade da criança. como forma de identificação em caso de morte em batalhas. Essa criatura recebe o nome de Imbunche. contendo nome. ver Jardim (1999) e Perruso (2010). as bruxas quebram os ossos e costuram as partes do corpo de maneira anormal. conforme as determinações estabelecidas durante a Conferência Internacional da Cruz Vermelha. por esta razão. os olhos e a boca são costurados. Esta autora destaca que.3. cujo conteúdo tratava da retirada de pessoas acusadas de ameaçarem os territórios alemães ocupados e de seu encaminhamento à Alemanha para serem executadas. Perruso aponta também uma nova forma de desaparecimento forçado praticada durante a Segunda Guerra Mundial. e Dorfman sente que a junta militar sob Pinochet fez cada chileno e o próprio Chile em um Imbunche.

levando-se em conta a representatividade das cinco grandes áreas geográficas do mundo. Composto por cinco representantes na qualidade de peritos de países membros da Comissão de Direitos Humanos da ONU. intitulada “A Arquitetura Internacional dos Direitos Humanos”. o atual Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais. da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. serviu de precedente e modelo para os demais mecanismos congêneres hoje existentes nas Nações Unidas. com base em projeto apresentado pela França. de dezembro de 1978. Para descrever rapidamente a criação do Grupo. de 19 de fevereiro de 1980. o projeto recebeu o copatrocínio adicional da Costa Rica. Irã. Participou. o Grupo de Trabalho. Iraque. Nessa pequena parte o autor descreve o surgimento do Grupo de Trabalho Sobre os Desaparecimentos Forçados.2. 1997). promove uma exposição cronológica de como foi se construindo uma disciplina jurídica dos direitos humanos em nível internacional.3. Criado pela Comissão dos Direitos Humanos. O Grupo de Trabalho sobre Desaparecimentos Forçados da ONU e a Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado A questão dos “desaparecimentos” de pessoas como prática política de regimes ditatoriais. Um dos documentos apresentados no livro é a Declaração Sobre a Proteção de Todas as Pessoas Contra Desaparecimentos Forçados.1. O livro é composto por pequenos textos em forma de comentários aos documentos internacionais que se seguiram à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Estados Unidos e Venezuela. Uma vez emendado. emendado por proposta conjunta de Chipre. como delegado do Brasil. utilizo as informações sistematizadas e contidas no trabalho de José Augusto Lindgren Alves (Alves. intimamente associada à tortura. de 1948. O Grupo de Trabalho Sobre os Desaparecimentos Forçados ou Involuntários foi criado na Comissão dos Direitos Humanos pela Resolução 20 (XXXVI). É a partir desse texto que traço um pequeno histórico de surgimento do Grupo. que o criou. Senegal e Iugoslávia. além dos próprios documentos. O autor é diplomata e foi o responsável pela criação de um departamento específico para os direitos humanos no Itamaraty. tinha a incumbência de “examinar questões 76 . ocasionou a criação do primeiro mecanismo “temático” para o monitoramento de fenômenos violadores dos “direitos humanos” em qualquer parte do planeta – o Grupo de Trabalho Sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários. de acordo com a Resolução 33/173. A obra.

Segundo Alves (1997). de maneiras diversas. positiva para o Grupo. O esclarecimento de casos antigos também é buscado através de contatos com os governos e com os familiares ou representantes das vítimas. quando para isto são autorizados. organizações intergovernamentais. As missões in loco podem decorrer de iniciativa do Grupo. por delegação dos demais membros. a imprecisão da linguagem da resolução revelou-se. No mesmo ano. era autorizado a “buscar e receber informações de governos. de resoluções da Comissão dos Direitos Humanos. aceitando o convite para 1996. no sentido de não manifestar juízo de valor sobre os governos contatados. Em relação a este tipo de ocorrência.concernentes ao desaparecimento forçado ou involuntário de pessoas” (parágrafo operativo 1º). Em atuação denominada procedimento urgente. ainda que a mudança da ordem política tenha sido profunda. Estes. Alves (1997) considera apolítica a atuação do Grupo de Trabalho. desejavam que o Grupo de Trabalho apenas realizasse estudos. incluindo visitas in loco. Em 1995. real ou potencialmente. com anuência do respectivo governo. Para isso. o Grupo era convidado a “ter em mente a necessidade de ser capaz de reagir de maneira efetiva diante das informações” que lhe chegassem e a realizar seu trabalho “com discrição” (parágrafo operativo 6º). não há necessidade de reunir-se para deliberar caso a caso sobre a maneira de agir. organizações humanitárias e outras fontes confiáveis” (parágrafo operativo 3º). entra em contato imediatamente (por telex. ou a convite do próprio país. sobretudo do Leste europeu e da América Latina. Também não dá por encerrados casos registrados sob governos e regimes anteriores. um representante do Grupo visitou o Sri Lanka. a redação um tanto vaga da Resolução 33/173 foi o resultado da tentativa de conciliação de posições entre as delegações que desejavam atribuir ao mecanismo meios concretos de ação em defesa de pessoas desaparecidas e os representantes de países que se consideravam. procura esclarecer casos antigos e buscar proteção para as vítimas em casos de desaparecimentos recentes. em muitos não obtendo resposta. o Grupo de Trabalho foi convidado para visitar a Colômbia. cujo governo deseja demonstrar sua boa-fé. Segundo o autor. O Grupo de Trabalho Sobre Desaparecimento Forçado ou Involuntário se reúne regularmente três vezes por ano. tão logo o Presidente do Grupo obtém informação sobre um novo caso de desaparecimento. Pedidos de autorização foram endereçados pelo Grupo a outros países. pois propiciou ampla margem de autonomia para a definição dos métodos de trabalho. Para definir seus métodos de trabalho. fax ou qualquer outro veículo de comunicação) com o respectivo governo. solicitando ações e esclarecimentos em defesa da(s) vítima(s). mais vulneráveis. posteriormente. Os casos são dados como finalizados apenas quando os familiares ou 77 .

respaldadas pelas experiências de doze anos de atuação na questão dos desaparecimentos forçados. período em que muitos países latino-americanos viviam a transição de regimes 78 . a criação do Grupo de Trabalho Sobre Desaparecimento Forçado ou Involuntário para monitorar casos concretos de desaparecimento de pessoas. Antes da Comissão de Direitos Humanos da ONU estabelecer. Refeito em 1987 e acolhido em 1991. o assunto já vinha sendo estudado havia anos pela Subcomissão Para a Prevenção da Discriminação e Proteção das Minorias. Em 18 de dezembro de 1992. O Grupo de Trabalho foi inicialmente estabelecido para o exercício de um ano. pela identificação do cadáver. Segundo Alves (1997). transformado em projeto de declaração. em 1980. a Declaração Sobre a Proteção de Todas as Pessoas Contra Desaparecimentos Forçados. Importante lembrar que a Declaração foi aprovada no início dos anos 1990. A partir dos casos examinados o Grupo tem a tarefa de identificar elementos e situações que costumam levar à prática dos desaparecimentos nos diversos países. o Grupo tinha tratado. como por exemplo.representantes das vítimas consideram que o objetivo chegou ao fim. porque gostariam de ver os ocupantes do poder acusados internacionalmente. os governos sucessores de regimes de força. o anteprojeto foi discutido e modificado até que. a suposta atuação apolítica do Grupo de Trabalho Sobre Desaparecimento Forçado ou Involuntário da ONU muitas vezes irrita oposições e governos legítimos: as oposições. da Assembléia Geral da ONU. foi proclamada pela Resolução 47/133. Isto se dá com o reaparecimento da pessoa. porque têm que arcar com a responsabilidade pelo esclarecimento de casos de desaparecimentos praticados por seus antigos adversários. o texto foi aprovado pela Comissão em 1992 e adotado pela Assembleia Geral da ONU no mesmo ano. até 1993. ou por outro tipo de satisfação aceito pelos interessados. Foi dessa Subcomissão que resultou um primeiro anteprojeto de declaração sobre a questão dos desaparecimentos forçados. Com base nesses dados formula recomendações gerais de natureza preventiva. consolidando pela primeira vez em documento normativo internacional as referências e recomendações do Grupo de Trabalho Sobre Desaparecimento Forçado ou Involuntário. mas acabou tornando-se permanente. como base para as negociações de um Grupo de Trabalho da própria Comissão de Direitos Humanos da ONU. a serem adotadas nacional e internacionalmente. Segundo a interpretação do autor que estou tratando. certidão de óbito ou indenização financeira fornecida pelo Estado. punitiva e compensatória à Comissão dos Direitos Humanos. de cerca de trinta e cinco mil casos distintos em cinquenta e oito países.

seguido por uma recusa em revelar a sorte ou o paradeiro dessas pessoas ou reconhecer que estão privadas de liberdade. subtraindo-as. em 1992.ditatoriais para regimes democráticos. no sentido de que as pessoas são presas. sendo privadas de sua liberdade por agentes governamentais. os três novos casos “teriam sido executados no Rio de Janeiro por membros da Polícia Militar. Segundo o relatório submetido à Comissão dos Direitos Humanos. Uma das principais atribuições atuais do Grupo consiste em acompanhar a implementação da Declaração. a Declaração Sobre a Proteção de Todas as Pessoas Contra Desaparecimentos Forçados ou Involuntários é o principal documento normativo a orientar o Grupo de Trabalho. e citadas no livro de Alves (1997: 226). No texto da Declaração. trezentos e cinquenta e nove ocorridos nesse mesmo ano. p. 18 79 . em seguida. 4/1996/38. de todas as regiões. Os outros dois casos dizem respeito a pessoas alegadamente detidas por membros uniformizados da Polícia Militar e conduzidas num veículo para destino ignorado”. naquela ocasião.508. de casos mantidos sob sua consideração em 1995 era de 43. o número total. Os casos descritos são os de Jorge Antônio Carelli. desaparecido. detidos em Belford Roxo. envolvendo casos recentes e antigos em sessenta e três países. 22-23. em 11/03/199518. à proteção da lei. detido no Morro da Varginha em 10/08/1993 e. detidas ou trasladadas contra sua vontade. 15 de Janeiro de 1996. documento E/CN. em 1996. pelo Grupo de Trabalho. a definição de desaparecimento forçado aparece ao se manifestar a preocupação de que o desaparecimento ocorre de maneira sistemática em muitos países: […] geralmente de modo persistente. consentimento ou aquiescência. três novos casos (um ocorrido em 1994 e dois em 1995) e um total de cinquenta e sete casos. Desde a sua adoção pela Assembleia Geral da ONU. de qualquer setor ou nível. que circulou em janeiro de 1996. assim. ou com seu apoio direto ou indireto. ou grupos organizados que atuam em nome do governo. Uma das pessoas desaparecidas seria um advogado e líder do sindicato de funcionários da Biblioteca Nacional. Conforme o registro no relatório. A respeito do Brasil. o Grupo de Trabalho registrava no relatório. sendo a maioria referente ao período de 1969 a 1975. O relatório registrava também uma observação em louvor à iniciativa do Governo Federal brasileiro de submeter ao Congresso Nacional projeto de Lei “relativo ao Estas informações estão contidas no Report of the Working Group on Enforced or Involuntary Disappearances. e também os de Alexandre Santos Cunha e José Francisco do Rosário Filho. ocorrem os desaparecimentos forçados. Somente em 1995 o Grupo registrou e comunicou a ocorrência de oitocentos e vinte e quatro casos novos.

em Roma. como um crime contra a humanidade. d) crime de agressão. 3°). que “reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação ou acusação de participação em atividades políticas no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979”. Os conflitos entre familiares dos desaparecidos e o Estado brasileiro continuam latentes. 4º).140. 5º. com jurisdição sobre as pessoas responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance internacional” e “complementar das jurisdições penais nacionais”. mas não “resolveu” definitivamente a questão. Possui personalidade jurídica internacional (art. Holanda (art. Segundo os elementos usados pelo Tribunal Penal Internacional na definição do desaparecimento forçado.140 certamente representou algum avanço. apoio ou aquiescência. O Tribunal é definido no artigo 1º do estatuto como “uma instituição permanente. Sua sede é em Haia. sobretudo em razão da não identificação e localização ainda hoje dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia.procedimento de declaração de morte presumida das pessoas sujeitas a desaparecimento forçado por motivos políticos no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979”. O Estatuto de Roma Outro documento internacional que visa normatizar e definir o desaparecimento forçado é o Estatuto de Roma. 2. c) crimes de guerra. adotado em 17 de julho de 1998. da não abertura de todos os arquivos da ditadura e principalmente em razão do ônus da prova ter ficado com os familiares dos desaparecidos. de 18 de janeiro de 2002 e o desaparecimento forçado é definido no artigo 7.3. a autoria do crime é atribuída àquele que tenha apreendido. detido 80 . 11º ainda estabelece que só tem competência relativamente aos crimes cometidos após a entrada em vigor do Estatuto. a detenção ou o sequestro de pessoas por um Estado ou uma organização política. de 4 dezembro de 1995. ou com a sua autorização. Segundo o art. com a intenção de deixá-las fora do amparo da lei por um período prolongado.2. é competente para julgar: a) genocídio. i. E o art. 2. O Estatuto de Roma foi aprovado no Brasil pelo Decreto nº 02. seguido da recusa a admitir tal privação de liberdade ou a dar informação sobre a sorte ou o paradeiro dessas pessoas. b) crimes contra a humanidade. na Itália. O relatório foi preparado antes da promulgação da Lei 9. nos seguintes termos: Por “desaparecimento forçado de pessoas” entende-se a prisão. A Lei 9. um tratado que estabeleceu a criação do Tribunal Penal Internacional.

Outro fator de caracterização de desaparecimento forçado é “que a conduta tenha sido parte de um ataque generalizado ou sistemático. que passou a ser utilizada partir de 28 de março de 1996.3. 2010: 34). em 1992. negado a reconhecer tal ato e prestar informações sobre o paradeiro e destino do desaparecido. uma primeira proposta de projeto foi apresentada no ano seguinte. 2. seja de que forma for. dirigido contra a população civil. apoio ou consentimento do Estado. As críticas centravam-se sobretudo no fato de as propostas não garantirem efetiva proteção de pessoas contra o desaparecimento forçado. em 1997. praticada por agentes do Estado ou por pessoas ou grupos de pessoas que atuem com autorização. à Comissão Interamericana de Direitos Humanos um projeto de Convenção sobre o desaparecimento forçado de pessoas. Segundo a observação de Perruso (2010: 32). impedindo assim o exercício dos recursos legais e das garantias processuais 81 . apresentou uma versão que foi muito criticada por países como Argentina. a Resolução da Assembleia Geral da OEA 1256(XXIV-0/94). seguida de falta de informação ou da recusa a reconhecer a privação de liberdade ou a informar sobre o paradeiro da pessoa. a Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado de Pessoas. Após discussões com organizações não governamentais.3.ou sequestrado uma ou mais pessoas. Estipula ainda que o desaparecimento tenha ocorrido com a autorização ou aquiescência do Estado ou organização política. além de organizações não governamentais. A Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas A Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) solicitou. daí em diante o Conselho passou a considerar as críticas das organizações não governamentais e a seguir postura mais progressista da Declaração de 1992 da ONU. além de aceitarem as leis de obediência devida “como justificativa para escusa de responsabilidade criminal”. Chile e Canadá. adotou em Belém do Pará. Brasil. Já em seu preâmbulo a Convenção apontava a prática do desaparecimento forçado como crime contra a humanidade e em seu artigo 2º. Em 9 de junho de 1994. e o agente saiba desse fato” (Perruso. o caracterizava nos seguintes termos: Para os efeitos desta Convenção. com a intenção de manter o desaparecido fora do amparo da lei. entende-se por desaparecimento forçado a privação de liberdade de uma pessoa ou mais pessoas. Um Grupo de Trabalho foi estabelecido pelo Comitê do Conselho Permanente sobre Negócios Jurídicos e Políticos da OEA – que durante anos apreciou o projeto – quando.

“nem mesmo em estado de emergência. advogados. instabilidade política interna ou qualquer outra emergência pública. “no âmbito de sua jurisdição. Também se comprometem em “cooperar entre si a fim de contribuir para a prevenção. de conformidade com sua legislação interna. Os EstadosMembros que adotaram a Convenção se comprometem a punir. não 82 . os colocarão à disposição dos familiares dos detidos. cúmplices e encobridores do delito do desaparecimento forçado de pessoas. para justificar o desaparecimento forçado de pessoas. será mantido o direito a procedimentos ou recursos judiciais rápidos e eficazes. Nesses casos. Estes dois artigos tratam de situações muito comuns de violações com as quais os familiares dos desaparecidos têm de confrontar-se nos processos de busca: ausência de procedimentos judiciais. inclusive lugares sujeitos à jurisdição militar. e “tomar as medidas de caráter legislativo. exceção ou suspensão de garantias individuais” (art. as autoridades judiciárias competentes terão livre e imediato acesso a todo centro de detenção e a cada uma de suas dependências. judicial ou de qualquer outra natureza que sejam necessárias para cumprir os compromissos assumidos nesta Convenção” (Artigo 1º). à autoridade judiciária competente.pertinentes. bem como tentativa de prática do mesmo”. Na tramitação desses procedimentos ou recursos e de conformidade com o direito interno respectivo. tais como estado de guerra ou ameaça de guerra. nem permitirem a prática do desaparecimento forçado”. como meio de determinar o paradeiro das pessoas privadas de liberdade ou seu estado de saúde. ou de identificar a autoridade que ordenou a privação de liberdade ou a tornou efetiva. ausência de registros e informações sobre os desaparecidos. Artigo 11º Toda pessoa privada de liberdade deve ser mantida em lugares de detenção oficialmente reconhecidos e apresentada. bem como a todo lugar onde houver motivo para crer que se possa encontrar a pessoa desaparecida. punição e erradicação do desaparecimento forçado de pessoas”. Em relação à Convenção Interamericana. sem demora e de acordo com a legislação interna respectiva. 1º). O desaparecimento forçado é compreendido como “violação dos múltiplos direitos essenciais da pessoa humana. bem como dos juízes. administrativo. os autores. qualquer pessoa com interesse legítimo e outras autoridades. nem tolerarem. Os termos da Convenção Interamericana focalizam a cobrança aos Estados-Membros para “não praticarem. Os Estados Membros estabelecerão e manterão registros oficiais atualizados sobre seus detidos e. gostaria apenas de destacar mais dois artigos: Artigo 10º Em nenhum caso poderão ser invocadas circunstâncias excepcionais. de caráter irrevogável”.

A preocupação crescente com o desaparecimento de pessoas levou à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. hoje. como a Carta de Brasília.acesso a lugares suspeitos para realização de buscas etc. delegados. gestores de segurança pública. ora o desaparecimento aparece construído como um “problema de família”. por exemplo. sendo que. Oliveira. Araújo. A questão central que reúne o conjunto de questões que mobiliza esta autora é: “Como é construído e gerido o desaparecimento de pessoas no Brasil 83 . 2. além dessa problemática não ter sido definitivamente resolvida. 2010. 2008. São comuns tanto nos relatos de familiares de presos e desaparecidos políticos como nos relatos de familiares de presos e desaparecidos dos dias atuais. 2008. 2002). Ferreira (2011). Como já disse anteriormente. nos embates e disputas pelos usos destas categorias. 2007. o que se tem é uma nova figuração do debate. escrita por ocasião da realização do I Encontro da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (realizado entre 23 a 26 de novembro de 2005). 1999. Neumann. Ainda são raros os estudos acadêmicos sobre o tema. ao realizar o que ela denominou de “uma etnografia para muitas ausências”. Documentos. em 2007. as possibilidades de tematização e enquadramento do tema são múltiplas. para investigar particularmente o desaparecimento de crianças e adolescentes. nas delegacias os registros de ocorrência não param de crescer e os familiares dos desaparecidos vivenciam seus dramas em busca de alguma informação. Ferreira. os pesquisadores começam a se interessar de modo mais sistemático pelo assunto (cf. ora como “problema de segurança pública”. Na mídia o tema tem sido recorrente. a figura do desaparecido e a questão dos desaparecimentos políticos corresponderam a um capítulo da história do Brasil. Cotidianamente milhares de pessoas desaparecem nas cidades brasileiras. Oliveira e Geraldes. finalmente. por um lado. A construção do desaparecimento como problema social hoje: embates e disputas Se. também expressam o empenho de reflexão e intervenção de pesquisadores. particularmente da repressão política. Oliveira. organizações não governamentais e familiares no problema do desaparecimento de pessoas. Uma nova forma de tematizar a questão tem dado novos contornos ao problema dos desaparecidos e dos desaparecimentos. adotou uma perspectiva antropológica inspirada na problemática do “gestar e gerir” (Souza Lima. por outro. 2007. profissionais da área de assistência social. 2011). 2011. mas.4. outras vezes ainda como “problema de assistência social”.

meu interesse também é menos sobre o desaparecimento em si. ainda. A autora acrescenta ainda que não obstante esse embate em conferir ou não importância ao fenômeno do desaparecimento. procurando compreender o processo por meio do qual se dá tal construção19. que reúne órgãos governamentais e não governamentais que lidam com o desaparecimento de pessoas. investigação e arquivamento de casos de desaparecimento em delegacias produzem cotidianamente a irrelevância desse tipo de ocorrência. aqui. em outro plano. 2011: 8-9). e mais sobre as relações entre violência. “polícia” e “Estado” são termos constantemente evocados nos referidos casos e debates. repartição policial destinada exclusivamente a investigar casos de desaparecimento de pessoas. 84 . Em termos empíricos. daí minha opção por me perguntar. Tais indagações desdobram-se. ao colocar a pergunta do “gestar e gerir”. Outro pesquisador que se dedicou ao tema do desaparecimento foi Marcelo Neumann. e como o desaparecimento de pessoas é construído. para outros agentes engajados no tema. “Família”. em duas indagações principais: como casos particulares de desaparecimento são construídos como ocorrências policiais. 2011: 8). o objeto que está em foco não é por princípio o desaparecimento e sim os embates que se dão entre os vários atores na construção daquilo que se entende como tal. Ferreira centrou seu trabalho de campo numa etnografia do Setor de Descoberta de Paradeiros (SPD) da antiga Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro (Centro/Capital). quanto em eventos públicos são igualmente empreendidas classificações que implicam processos de (des)responsabilização”. Ao apresentar sua perspectiva analítica. como são construídas unidades e atribuídas responsabilidades diante de desaparecimento de pessoas (Ferreira. significa admitir por princípio que o objeto em foco não é o desaparecimento de pessoas. Ferreira constatou em sua pesquisa que “o registro. também.contemporâneo” (Ferreira. como “problema social”. em uma terceira: a pergunta acerca das unidades e responsabilidades construídas e atribuídas em casos particulares de desaparecimento e em debates públicos em torno do fenômeno. 19 Da mesma forma que Ferreira (2011) assume que. A partir dos casos investigados. “tanto em repartições policiais. portanto. Para policiais desaparecimentos são “problemas de família”. sofrimento e política que se expressam a partir das histórias e experiências dos familiares dos desaparecidos. e sim aquilo que é construído como desaparecimento de pessoas. ao passo que eventos sobre o tema esforçam-se para conferir-lhe visibilidade e inseri-lo na agenda pública”. Posteriormente seu trabalho estendeu-se para o acompanhamento dos eventos da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (REDESAP). A interrogação sobre a constituição e gestão do desaparecimento de pessoas desdobra-se. Ferreira chama atenção para o fato de que estabelecer a pergunta do “gestar e gerir” como pilar de um trabalho sobre o desaparecimento de pessoas. desaparecimentos são “problemas de segurança pública” ou “problemas de assistência social”.

o entendimento policial e o próprio volume de trabalho nas delegacias ainda fazem com que a prática seja outra.e seu interesse partiu de sua experiência trabalhando no Projeto Caminho de Volta. que acompanhou durante seu trabalho de campo a REDESAP e apresenta as seguintes ponderações: 85 . durante o governo Lula. há uma subnotificação dos casos. Neumman chama atenção para o fato de que. Sobre o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas vale a pena retornar ao trabalho de Ferreira (2011). Medicina Social. quando este tinha aproximadamente três anos de idade. Não há uma política global que trate do tema a partir de seus vários ângulos. Ética Médica. tenha sido promulgada uma lei indicando que a busca deve ser imediata. dentre as quais se destaca a criação da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (REDESAP). Embora em 2005. mas não consideram que se trate de um caso de desaparecimento e. não o encaminham para uma delegacia de polícia. dessa forma. O objetivo desta Rede é criar e articular serviços de atendimento ao público e coordenar em âmbito nacional o esforço coletivo para a busca e localização de desaparecidos. Muitos casos chegam aos serviços de proteção social. segundo Neumann (2010). como um problema estritamente familiar. que o levou ao tema foi o desaparecimento de seu avô da vida de seu pai. A fuga é tratada. o que se tem são iniciativas pontuais e fragmentadas. Neumann destaca que a falta de políticas públicas é um problema a ser enfrentando no que diz respeito aos desaparecimentos de crianças e adolescentes. A perspectiva de Neumann vem do campo da assistência social e preocupa-se principalmente com o desaparecimento de crianças e adolescentes. 2010. além de disponibilizar em seu site fotos de crianças e adolescentes desaparecidos. Ferreira. Neumann integrou desde o início a equipe e vem colaborando na articulação junto ao Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente. Este autor cita como exemplo o caso dos Conselhos Tutelares. Outro fator que contribui para a subnotificação é a cultura policial de considerar que os registros só devem ser feitos quarenta e oitos horas após o desaparecimento (Oliveira. Neumann. embora os registros de desaparecimentos de pessoas sejam altos. Uma das frentes de trabalho da REDESAP foi a criação do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. mas não são encaminhados aos sistemas formais de notificação. 2007. Outra motivação. do Departamento de Medicina Legal. por esta razão. Assim como outros autores e outros atores sociais envolvidos nessa problemática. e do Trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. que muitas vezes atendem um caso de fuga. 2011).

indiferenciadamente. em torno do Cadastro as unidades às quais são associadas obrigações em relação ao desaparecimento correspondem a recortes de áreas temáticas da administração pública: as searas da segurança pública. como se desaparecimento fosse um gênero de acontecimento. delas se diferenciam. Se nas repartições policiais os casos são intitulados. mas. ou instituições de assistência social. Voltada para localizar crianças desaparecidas. entre os agentes dedicados ao Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas paira a seguinte pergunta: o desaparecimento. Nesse sentido. em conjunto. que utiliza a tecnologia para desenvolver o envelhecimento de imagens de crianças que permanecem em situação de desaparecimento com o objetivo de facilitar o reconhecimento. Contudo. instituições que devem responsabilizar-se por cada caso: ou instituições de segurança pública. Antes mesmo que fosse lançado e até o presente momento. no heterogêneo universo de desaparecimento. programa coordenado pela Fundação para a Infância e Adolescência do Rio de Janeiro (FIA). pelo comitê gestor da REDESAP e uma equipe da SENASP. sua principal forma de atuação é a divulgação de fotos na mídia em geral. iniciativa que congrega agentes envolvidos com desaparecimento de pessoas e foi formulada. quando ainda não está em pleno funcionamento. a resposta da equipe dedicada ao Cadastro para tal indagação. é questão de segurança pública ou de assistência social? (Ferreira. Além do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. em linhas gerais. por um lado. Ambos os tipos são ao mesmo tempo casos de segurança e assistência e o essencial seria discernir quais se encaixam no primeiro caso e quais no segundo. o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas apresenta um leque de possibilidades de especificação desse título comum. Todos os casos são registrados como desaparecimentos. a produção de cartazes com fotografias dos desaparecidos e a pesquisa em abrigos. remetem a reflexões de policiais do SDP. Enquanto no SDP evoca-se a oposição “problemas de família” versus “problemas de polícia”. da assistência social e dos direitos humanos. o Cadastro é alvo de duas dúvidas centrais: A quem deve caber sua gestão? Que instituições poderão preenchê-lo e consultá-lo? Tais interrogações suscitam debates sobre a natureza do desaparecimento de pessoas que. 2011: 236). Há também a experiência elaborada pelo Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas de Curitiba (SICRIDE). “Fato atípico – Desaparecimento (Outros)”. Segundo Ferreira. de modo excludente. sustenta que é possível e necessário distinguir. Esse serviço está alocado na estrutura da 86 . também coloca em cena processos de atribuição e isenção de responsabilidades. a plataforma de dados em que consiste o Cadastro demanda que todo desaparecimento nele registrado seja classificado no próprio ato do registro. Atualmente a FIA é vinculada à Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos – SEASDH. outra ação articulada à REDESAP é a experiência governamental do SOS – Crianças Desaparecidas. Às espécies constitutivas desse leque são associadas. por outro. afinal.O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas. mas é necessário determinar a espécie de desaparecimento em que cada caso consiste. casos que são “questão de segurança pública” e casos que são “questão de assistência social”.

relacionado a problemas familiares. rapidamente estendeu seu campo de atuação para a busca de qualquer pessoa desaparecida. até 1991. e projeto de lei no congresso. portanto.4. se referiam ao “ausente” e ao “desaparecido”. posteriormente. Nesse sentido. o termo “ausente” é utilizado para referir-se a uma pessoa quando não se Uma proposta recorrente no debate sobre a questão dos desaparecimentos tem sido a necessidade de se fazer um banco nacional de DNA dos familiares de desaparecidos como forma de facilitar o processo de identificação. sendo considerado um “problema menor”. a inovação do projeto é a integração sistemática de dados por meio de entrevistas psicossociais. Outras experiências no enfrentamento e prevenção do problema do desaparecimento têm sido elaboradas a partir da experiência dos familiares dos desaparecidos. Inicialmente criada para tratar do desaparecimento de crianças e adolescentes. Ainda segundo Neumann. 2. que as definições legais vigentes no Brasil. originalmente. o projeto “faz uma junção da biologia molecular. passou a ser utilizado também nesses casos. mas com a preocupação voltada para a administração e transferência de bens. da bioinformática e do atendimento psicossocial para construir sua intervenção”. existem algumas experiências isoladas em andamento. em setembro de 2004. institucionais e segurança pública”. não constitui crime. em termos jurídicos. 20 87 . era utilizado no setor de retrato falado que trabalhava com a alteração de fotografias de indivíduos procurados pela polícia e. uma ação de enfrentamento do desaparecimento de crianças e adolescentes denominada “Projeto Caminho de Volta”. da criação da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas. não figura entre as prioridades investigativas da polícia. com o aumento do número de crianças desaparecidos.Secretaria de Segurança Pública do Paraná e. Segundo Neumann (2010: 6). Desaparecimentos e desaparecidos: a pluralidade semântica e os dilemas jurídicos O desaparecimento de uma pessoa. A Faculdade de Medicina da USP criou. Oliveira (2007: 19-20) esclarece. diante da intensa procura de familiares cujos parentes desapareceram em diversos contextos. em sua tese de doutorado intitulada “Desaparecidos civis: conflitos familiares. A distinção entre a figura do “ausente” e a figura do “desaparecido” reside no fato de que.1. como na Uerj. de modo que não exigia uma ação rápida a fim de esclarecer o paradeiro de uma pessoa. juridicamente. como foi o caso em São Paulo. encaminhamentos de famílias para acompanhamento especializado e coleta de material biológico para a determinação do DNA20. popularmente conhecida como “Mães da Sé”.

enquanto “desaparecido”. Perseguido: o termo. segundo os autores. mesmo quando o gesto para 88 . o perseguido pode ser considerado desaparecido. Fugitivo: para Oliveira e Geraldes. Oliveira e Geraldes (1999) afirmam que a forte confusão entre o fenômeno do desaparecimento e outras ocorrências seja uma das suas dificuldades conceituais. Outro termo da linguagem policial é o “procurado”. como referência aos perseguidos políticos da ditadura. cidades. pessoas que desaparecem cotidianamente de suas residências. seria conceituar e distinguir os termos considerados próximos ou sinônimos: desaparecido. mas que se encontra fora do alcance policial. O conceito de desaparecido possui fronteiras muito frágeis. sem que haja informações a seu respeito. do fugitivo e do foragido. Os autores propõem ampliar o uso do termo desaparecido para incluir os casos que eles denominam de desaparecidos civis. no sistema jurídico. perseguido. 2. 3. O procurado torna-se desaparecido quando é reclamado publicamente por alguém. quando após uma situação de fuga não se obtiverem mais notícias sobre sua vida ou morte.tem certeza de sua morte e supostamente está viva. o fugitivo só poderá ser considerado um desaparecido quando seu paradeiro for completamente desconhecido. 4. o perseguido muitas vezes esconde-se em local desconhecido e fica incomunicável. Foragido: o termo faz parte da linguagem policial. trabalho. mas não representa o universo total dos casos de desaparecimentos. o primeiro passo. 1. 5. o sequestrado não age por sua própria vontade. Diferentemente do perseguido. A perseguição poderia motivar um desaparecimento. Desse modo. segundo estes autores. foragido. fugitivo. sequestrado. não se deduzindo a priori qualquer motivação política para o desaparecimento. raptado. em algumas circunstâncias. Desaparecido: a palavra desaparecido é utilizada geralmente como referência aos desaparecimentos políticos. refere-se àquele cuja morte é certa. Desde o momento em que não houver mais informações do paradeiro do fugitivo ele pode ser considerado um desaparecido. para referir-se a uma pessoa condenada pela justiça. Ao tentar escapar. Sequestrado: “O sequestrado representa uma parcela de pessoas tomadas à força por outra ou por um grupo organizado. indigente e migrante. usado para designar os acusados que escaparam da prisão ou de alguma ordem judicial. Para diminuir tal fragilidade. ou seja. foi elaborado pela Arquidiocese de São Paulo.

Há desaparecimento quando o paradeiro é desconhecido e os contatos com os sequestradores suspensos. Conflitos de guarda – subtração de incapaz: situações de desacordo entre pais e mães 89 . A diferença do indigente para o desaparecido é que o desaparecido tem quem o procure enquanto o indigente não. No sequestro. No site do Ministério da Justiça existe uma seção para o cadastro de pessoas desaparecidas. Após tentar delimitar as diferenciações das situações. 1999: 21) .aquelas situações é induzido por fatores externos” (Oliveira e Geraldes. expulsão do lar pelos pais. “A identificação dos indigentes poderia solucionar vários casos de desaparecimento. sendo seu paradeiro desconhecido. mas não identificado” (Oliveira e Geraldes. 7. 6. enquanto que. Raptado: o rapto e o sequestro muitas vezes são confundidos entre si porque em ambas situações uma pessoa é levada. uma pessoa é levada para ser objeto de algum tipo de troca. Indigente: juridicamente o termo indica o indivíduo pobre que não possui condições físicas para manter sua subsistência. 1999: 32). No sequestro está em jogo alguma forma de pagamento ou troca. abuso sexual. 2. no rapto. Fuga do lar – conflitos familiares: situações em que a criança ou o adolescente sai voluntariamente de casa em razão de conflitos familiares que podem envolver problemas relacionados ao uso de drogas. Oliveira e Geraldes elaboraram uma definição preliminar para a categoria desaparecido nos seguintes termos: “uma pessoa será considerada desaparecida quando sua ausência for comunicada publicamente. Migrante: o migrante é aquele que saiu de um espaço para outro. Nele os desaparecimentos podem ser classificados através da seguinte tipologia: 1. conflitos com padrasto/madrasta. pois muitas vezes o indigente é o desaparecido encontrado. inacessível e/ou sem notícia da sua situação de vida ou morte” (Oliveira e Geraldes. O termo indigente é usado também pelo Estado para designar pessoas que morreram ou foram encontradas mortas sem ter sido possível identificá-las. 1999: 21). O destino do sequestrado pode ser totalmente desconhecido ou conhecido precisamente. desde uma troca de pessoas até bens financeiros. ou de localização inexata. destina-se a ser objeto de satisfação. 8. violência física. hostilidade entre os membros da família.

12. 5. Vítima de incidente. enchentes. as categorias desaparecimento e desaparecido dão conta de uma pluralidade semântica de situações que são construídas conforme as múltiplas vozes que intervêm nesse campo de atuação. 90 . Como se pode notar. intempérie. calamidade: situações nas quais a pessoa desaparece em razão de desabamentos. entre outras causas. 9. negligência.sobre a guarda dos filhos quando há separação de casal. Fuga de instituição: situações nas quais houve fuga da instituição e o paradeiro é desconhecido. acidentes de trânsito. Outros tipos: quaisquer outras situações que não se encaixem nas anteriores. Sequestro: situações nas quais crianças ou adolescentes são retirados involuntariamente de suas famílias e exige-se alguma forma de recompensa ou troca. ameaças de rivais. 10. 6. 3. desorientação: situações nas quais crianças se perdem em razão do descuido momentâneo dos responsáveis. Tráfico para fins de exploração sexual: situações nas quais crianças ou adolescentes abandonam a família e mudam de cidade atraídas por promessas de trabalho e ganhos financeiros e acabam exploradas sexualmente. apreensões irregulares por policiais e milícias. Não identificado: situações nas quais não há pistas do desaparecimento ou hipóteses plausíveis levantadas pelos responsáveis. Perda por descuido. Situação de abandono – situações de rua: situações nas quais crianças ou adolescentes encontram-se em situação de negligência e aderem a grupos de crianças que optam por viver na rua ou em abrigos. 8. 4. conflitos entre gangues e traficantes de drogas. muitas vezes vivendo em cárcere privado. 7. Suspeita de homicídio e extermínio: situações nas quais há fortes indícios de crime contra a vida. 11. Rapto consensual – fuga com namorado (a): situações em que há o convencimento da criança ou adolescente a seguir outra pessoa pela qual teria sido seduzida.

encontro de ossadas e cadáveres continuam em tendência de crescimento desde 2000. essa controvérsia ganhou espaço com alguns episódios ocorridos durante o governo Sérgio Cabral. No Rio de Janeiro. Uma das ocasiões em que essas críticas foram feitas foi durante a realização do 2º Fórum Violência. mas os questionamentos da 91 . com a presença do novo presidente do ISP. com um alto índice de mortes. estão sendo registrados como encontro de cadáveres e ossadas”. encontro de cadáver e ossada. A estratégia do governo estadual para reduzir as taxas de homicídios teria sido redistribuí-los em outras categorias como autos de resistência. após divulgar um número recorde de mortos pela polícia. O ISP por sua vez. órgão vinculado à Secretaria de Segurança Pública. o coronel Mário Sérgio. excomandante do Bope e conhecido como integrante da linha dura da polícia. Ana Paula afirmou que “o governo não contabiliza os autos de resistência na soma final de homicídios dolosos” e complementou dizendo que “alguns casos que são claramente homicídios. que acusou o governo estadual de “fabricar” dados. através de sua assessoria. entre outras coisas. por trás dessa situação. os dados de homicídio tiveram uma queda brusca e isso foi motivo de grande comemoração por parte do governo. A relação entre desaparecimentos e homicídios: ligações perigosas Uma das polêmicas envolvendo a questão dos desaparecimentos diz respeito à possibilidade de. vieram as duras críticas de Ana Paula Miranda. As críticas da antropóloga repercutiram rapidamente na mídia. Diante da publicização e das comemorações por parte do governo da queda do índice de homicídios. A antropóloga foi exonerada em fevereiro de 2008. desaparecimento. A demissão de Ana Paula ocorreu em fevereiro de 2008. desaparecimento. Com a entrada do coronel Mário Sérgio à frente do ISP. um dos fatos que marcou a conjuntura do ano de 2008 foi a demissão da antropóloga Ana Paula Miranda da presidência do Instituto de Segurança Pública (ISP). informou que a postura de Ana Paula era muito acadêmica e a ele interessaria um perfil mais técnico.4. ocorrido em 18 de setembro de 2008. como os corpos carbonizados encontrados.2. Em seu lugar assumiu o coronel da Polícia Militar Mário Sérgio Duarte. Em suas declarações. Após sua saída. a ex-presidente do ISP sugeriu que os números começariam a ser camuflados porque não agradavam às autoridades. Participação Popular e Direitos Humanos. encontrar-se um homicídio. na PUC do Rio. os registros de autos de resistência. responsável por pesquisas e análises criminais.2. Segundo a expresidente do ISP. Duramente criticado por alguns segmentos da sociedade por desenvolver e praticar uma política de segurança baseada no confronto. publicadas na Agência Estado no mesmo dia.

e em certo momento se lia: 92 . um protesto na orla da praia de Copacabana em que manequins representavam corpos de pessoas enterradas em valas comuns e cemitérios clandestinos e envolvidas por pneus.br No dia 29 de junho de 2009 foi a vez do teólogo Antônio Carlos Costa. Foto 2: Manifestação da ONG Rio de Paz – “Desaparecidos – Onde estão nossos mortos?” Fonte: www.riodepaz. O número crescente dos casos de desaparecimento também passou a ser alvo de dúvidas. A ong Rio de Paz chegou a organizar. presidente da ong Rio de Paz.org. publicar um artigo no jornal O Globo colando a questão dos desaparecimentos aos homicídios.política de segurança pública do governador Sérgio Cabral já vinham ocorrendo há tempos. no dia 09 de dezembro de 2008. críticas e contestações. O título do artigo era a pergunta “E os desaparecidos?”. fazendo referência a uma forma de matar praticada principalmente por traficantes de drogas e conhecida como “micro-ondas”em que as pessoas são incineradas vivas.

473 2. por exemplo. jacarés e caranguejos que habitam lagoas e manguezais no entorno das favelas. os milhares de desaparecidos registrados e não registrados que foram assassinados. entre outras instâncias.559 4. foram registrados mais de 85. de pesquisadores e de parte da mídia. devoradas por animais como porcos.151 202 200 250 233 286 259 237 281 283 328 419 417 382 384 336 342 321 401 403 452 222 201 224 215 240 240 217 253 257 288 376 386 321 339 349 415 415 451 402 498 185 220 199 253 281 251 237 261 270 305 428 335 365 312 356 356 436 450 439 438 178 204 264 316 318 245 277 292 315 380 430 384 353 372 385 386 465 392 436 465 232 197 206 254 267 282 223 299 319 343 427 428 382 322 390 397 463 442 472 414 201 186 250 234 317 285 294 300 325 361 444 384 375 415 413 395 488 427 494 427 226 199 205 215 296 260 282 284 299 327 438 435 347 334 366 360 506 455 462 425 232 217 238 259 275 265 277 340 297 340 437 389 396 373 399 346 436 546 527 440 Diante das críticas e questionamentos de ongs e movimentos de direitos humanos.633 5.483 3.768 3. Pessoas estão sendo incineradas vivas.095 5.193 3.No registro oficial de assassinatos não aparecem. Série Histórica de Pessoas Desaparecidas no Estado do Rio de Janeiro Valores Absolutos Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez 213 223 224 214 224 219 200 176 238 228 222 239 199 217 222 254 279 274 299 311 292 361 425 396 317 392 375 361 414 473 451 483 261 216 235 317 294 286 320 294 312 397 416 462 396 423 381 474 396 553 447 521 482 216 220 244 219 295 280 245 271 285 343 409 346 409 393 359 390 392 429 437 469 460 Total Geral Fonte: Instituto de Segurança Pública (ISP) Ano 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Jan 235 252 214 236 302 239 303 310 309 347 351 396 409 437 413 436 397 416 465 481 488 508 Total 2.646 2. o Secretário Estadual de Segurança Pública José Mariano Beltrame encomendou ao ISP uma 93 . até abril de 2012.620 4.397 3.425 5.473 5. (Antônio Carlos Costa) Segundo dados estatísticos do Instituto de Segurança Pública de janeiro de 1991.933 85.235 3.488 1.616 2. quando se começou a fazer este tipo de registro.039 3.800 4. de familiares de vítimas.362 3.055 4. gente dissolvida em ácido ou enterrada nos cemitérios clandestinos que estão espalhados pela Região Metropolitana do Rio.981 4.000 desaparecimentos.877 4.

pesquisa sobre desaparecimento. A pesquisa foi realizada e a principal conclusão a que se chegou era a de que não havia uma relação direta entre desaparecimentos e homicídios. No dia 13 de novembro de 2009 foi a vez do consultor da pesquisa, o professor e sociólogo Gláucio Soares, publicar um longo artigo também no jornal O Globo, apresentando alguns resultados da pesquisa e defendendo que “desaparecimentos e homicídios não são farinha do mesmo”. Em um trecho do artigo lia-se:
A notícia de que havia uma pesquisa sobre desaparecidos, realizada pelo ISP, gerou muitas especulações. As mais radicais afirmavam que muitos, talvez a maioria, eram vítimas de homicídios, cujos corpos não tinham sido encontrados. Essa hipótese, baseada em chute, é errada. Desaparecimentos e homicídios não são farinha do mesmo saco. A análise de perfis não deixa dúvida: a predominância dos homens é muito maior entre as vítimas de homicídios: 92%, contra 62% entre os desaparecidos. As mulheres representam menos de 10% das vítimas de homicídios, mas representam quatro de cada dez desaparecimentos registrados. (Gláucio Soares)

Do ponto de vista político, esta conclusão teve como principal objetivo desqualificar as críticas que buscavam apontar o desaparecimento como uma forma de encobrimento de homicídios. A seguir, no quadro abaixo, apresento alguns dados e algumas problematizações da pesquisa do ISP:

Alguns dados e problematizações da pesquisa do ISP sobre desaparecimento

A partir do material da pesquisa realizada pelo ISP foi organizada uma publicação que integra a coleção Instituto de Segurança Pública, Série Análise Criminal. Segundo o texto de apresentação esta pesquisa buscou responder ao “desafio de estudar os casos das pessoas desaparecidas no Estado, pois muito tem sido dito sobre o tema sem uma análise mais aprofundada”. E esclarece ainda que: “Na época em que o projeto foi elaborado havia uma forte demanda por informações por parte da opinião pública, em virtude de diversas notícias que associavam o aumento dos desaparecimentos a um problema atual e ligado a dinâmicas de crimes, como os homicídios dolosos”.

A publicação tem como título “Desaparecimentos: o papel do policial como conscientizador da sociedade” e, como se nota pelo título, visa orientar o policial a como lidar com casos de desaparecimento. A publicação defende que “a palavra-chave para evitar o desaparecimento é comunicação” e chama atenção para a necessidade do policial

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preencher o Registro de Ocorrência de forma completa. A pesquisa constatou que, mesmo possuindo campos específicos que consideram os contatos dos comunicantes, as características elementares da vítima (sexo, idade, nome completo) e a descrição da dinâmica do desaparecimento, estes dados muitas vezes não são preenchidos de maneira adequada. • Na publicação, os policiais são orientados a tentar extrair o máximo de informações relevantes do comunicante do desaparecimento e transferilas para o Registro de Ocorrência com o objetivo de facilitar o reconhecimento da vítima e as buscas por seu paradeiro. Ressalta ainda que é importante que sejam mencionadas marcas de nascença, cicatrizes, tatuagens, cor e corte de cabelo, se a pessoa usava óculos, a roupa com a qual a pessoa foi vista pela última vez, se houve uma briga, se a pessoa estava deprimida, se tomava algum remédio e qual era essa medicação, se fazia uso de substâncias ilícitas ou de álcool. • Os policiais também são orientados a evitar julgamentos pessoais “na medida do possível” e a não esperar para registrar o desaparecimento. A Lei Federal nº 11.259, de 30 de dezembro de 2005, acrescenta dispositivo à Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), para determinar a investigação imediata em caso de desaparecimento de criança ou adolescente. • Os dados da pesquisa foram provenientes das ocorrências registradas pela Polícia Civil, referente ao ano de 2007: 4.423 casos. • Com base nas entrevistas realizadas foi selecionada uma amostra de 456 casos (10% do banco de dados) de desaparecidos de 2007. • A distribuição das vítimas na cidade do Rio de Janeiro ocorreu da seguinte forma: Zona Norte: 46,2%; Zona Oeste: 37,4%; Centro: 8,7%; e, Zona Sul: 7,6%. • 71,3% dos desaparecidos haviam reaparecido vivos; 14,7% não reapareceram; 6,8% reapareceram mortos; 4,4% sem informação; e 2,9% a família informou não ter havido desaparecimento (mesmo constando um Registro de Ocorrência). Cabe ressaltar que, dos 6,8% (31 casos) que reapareceram e estavam mortos, 18 foram casos de homicídios dolosos. Destes casos, 9 homicídios foram verificados nos registros de ocorrência da polícia civil do Estado do Rio de Janeiro (ROweb). Outros 5 foram verificados através do banco de dados de mortalidade fornecido pela Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro. Os demais (4) não possuem registros, sendo baseados na fala dos comunicantes durante as entrevistas.

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Segundo os dados apresentados pelo ISP, 6,8% dos desaparecidos reapareceram mortos. De 31 desaparecidos que reapareceram mortos, 18 foram vítimas de homicídio doloso. Acrescente-se que 14,7% não reapareceram. O que aconteceu com esta fração de desaparecidos que não reapareceu? Os desaparecidos que apareceram mortos mas não foram vítimas de homicídio doloso foram vítimas de quê? Quais as circunstâncias destas mortes?

O universo amostral pesquisado leva em consideração apenas o ano de 2007 e aponta que 6,8% apareceram mortos. Por comparação e considerando mais ou menos estas mesmas taxas para os outros anos (lembrando que a comparação pode não corresponder à realidade na medida em que há uma subnotificação de casos), poderíamos, de forma hipotética, aplicar esta mesma taxa de 6,8% ao número total de registros correspondente ao período de janeiro de 1991 a abril de 2012. De maneira estimativa 6,8% equivaleria ao número absoluto de aproximadamente 5.790 casos de desaparecimentos equivalentes a desaparecidos-mortos ou não encontrados, de um total de 85.151. Ou seja, ainda assim um número altíssimo.

Se a violência policial aparece questionada e denunciada pelos altos índices de autos de resistência, com relação aos desaparecimentos de pessoas a dificuldade para comprovar a participação policial em muitos desses casos pode ser mais difícil em razão do “sumiço” dos corpos, mas não significa que tal participação não exista. Vez ou outra um caso ganha publicização e repercussão, levantando dúvidas a respeito do envolvimento de policiais. Um dos casos mais antigos, nesse sentido, foi a chacina de Acari (1990), que resultou no desaparecimento de onze jovens que jamais foram encontrados e que denúncias apontavam relações com um grupo de extermínio apelidado de “Cavalos Corredores”, formado por policiais militares, do 9º Batalhão de Rocha Miranda, assim denominados em razão da forma aterrorizante como entravam em favelas. Dois casos mais recentes que mobilizaram a opinião pública, envolvendo a participação de policiais, foram os desaparecimentos da engenheira Patrícia Amieiro, moradora da Barra (2008), e o do menino Juan (2011), numa favela em Nova Iguaçu. Trabalhei detalhadamente o caso Acari em Araújo (2007); o caso da engenheira da Barra desaparecida será relatado no capítulo seguinte. A seguir, apresento em linhas gerais o “caso Juan”, a partir da cobertura jornalística.

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2.4.3. A polícia que mata e oculta os corpos e a perícia que não consegue identificar

Em junho de 2011, um caso envolvendo o desaparecimento de uma criança – posteriormente caracterizado como homicídio – circulou na mídia, mobilizou vários atores sociais e gerou críticas e protestos contra a atuação desastrosa das instituições estatais, especialmente aquelas ligadas à área de segurança pública. No dia vinte do referido mês e ano, durante uma operação policial na favela Danon, em Nova Iguaçu, o menino Juan Moraes, de onze anos, desapareceu e, após dezesseis dias, seu corpo foi encontrado na beira do Rio Botas, em Belford Roxo. Os policiais que participaram da operação relataram que houve uma troca de tiros próxima a um beco da favela Danon. Durante o confronto, um rapaz de dezessete anos foi morto e outro de dezenove foi reconhecido por policiais na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Cabuaçu como sendo um dos envolvidos no tiroteio, e o acusaram de tráfico de drogas e tentativa de homicídio. O jovem que foi baleado no tiroteio foi preso em flagrante e, segundo a PM, teria atirado nos policiais, mas, em 24 de junho, o tenente-coronel Sérgio Mendes reconheceu que a arma encontrada era de outra pessoa. O rapaz ficou preso até o dia 29 de junho, quando a Justiça mandou soltá-lo. O irmão de Juan (o garoto desaparecido), de nome Wesley Moraes, foi baleado nas costas e na perna. Os policiais também chegaram a acusar Juan e Wesley de serem traficantes de drogas e as mortes foram registradas pelos policiais como auto de resistência. Entretanto, o caso tornou-se um escândalo público quando, com a realização da perícia, descobriu-se que todas as cápsulas de bala eram das armas dos policiais. No dia seguinte ao suposto tiroteio, os pais de Juan registraram o desaparecimento na 56ª Delegacia de Polícia (Comendador Soares) e, em 23 de junho, a pedido da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, A Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil (Core) passou a dar proteção a Wesley, que estava internado no Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracuruna. No dia 27 de junho, a Delegacia de Homicídios assumiu o caso e peritos do Instituto Carlos Éboli fizeram perícia em cinco viaturas do 20º Batalhão. Em todos os carros os peritos encontraram sangue e os dados de todos os GPS não confirmaram o trajeto de 18 quilômetros entre o local do crime e o Rio Botas, onde o corpo foi encontrado. A possibilidade de um carro particular ter sido utilizado para fazer a “desova” do corpo também foi investigada. No dia seguinte, peritos vão pela primeira vez ao local do crime e encontram o chinelo de Juan com sangue. Todo o desdobramento das investigações do caso foi marcado por erros e pelo 97

desencontro das informações por partes das autoridades responsáveis. O maior dos erros provavelmente foi o laudo, elaborado por uma perita do Posto Regional de Polícia Técnico Científica de Nova Iguaçu, atestando que os restos mortais encontrados à beira do Rio Botas, em Belford Roxo, era de uma menina e não de Juan, fazendo com que as investigações continuassem. Uma nota à imprensa foi divulgada, no dia 30 de junho, com o seguinte teor:
O corpo de uma criança encontrado, nesta quinta-feira, na localidade Rio Botas, em Recantos, Belford Roxo, foi encaminhado pelo Corpo de Bombeiros para o Posto Regional de Polícia Técnico Científica (PRPTC – Nova Iguaçu)... Os peritos entraram em contato com o diretor do Departamento Geral de Polícia Técnico Científica (DGPTC), Sérgio Henriques, que determinou que preliminarmente, a partir de análise do esqueleto, fossem realizados exames para identificar o sexo da criança. Confirmado se tratar do corpo de uma menina, o diretor do DGPTC entrou em contato com a chefe de Polícia, delegada Martha Rocha. A delegada determinou que o mesmo tratamento que seria dado ao corpo do menino Juan de Moraes fosse dado ao corpo da menina, ainda não identificado. A chefe de Polícia determinou ainda que seja colocada à disposição da criança toda a tecnologia existente no IMLAP. Serão realizados exames de DNA, pailoscopia, da arcada dentária, antropológico, entre outros. [Nota à imprensa: Corpo encontrado em Belford Roxo (Caso Juan). In: O Globo, Caderno Rio, p. 21]

O erro da perícia foi muito criticado por especialistas e pelos veículos de comunicação21. A perita e o delegado responsável pelo início da investigação foram afastados
O trabalho de recuperar a identidade de despojos humanos anônimos deu origem, em 1984, a uma organização hoje mundialmente famosa de peritos, a Equipe Antropológica Forense da Argentina (EAFA), que tem atuado desenterrando e identificando os restos mortais de argentinos “desaparecidos” durante a ditadura militar dos anos de 1970 e 80. A partir da experiência argentina, a equipe, ou membros dela, tem sido convidada para atuar em vários cenários de guerra e violência política. Um registro muito interessante desse tipo de trabalho foi feito pela antropóloga forense inglesa Clea Koff, que integrou a EAFA e participou como técnica forense de várias missões para o Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas em Ruanda e na antiga Iugoslávia. Eis um trecho do relato de Koff sobre seu trabalho: “Tornara-me antropóloga forense por dois motivos: um, porque fazer os ossos falar era o que mais queria; o outro, porque a primeira vez que me encontrei confrontada com um corpo morto para análise antropológica senti muitas emoções, mas angústia não. Quando analiso despojos humanos, estou interessada, não sinto repulsa. Os ferimentos excitam uma curiosidade em mim a respeito dos instrumentos que os terão provocado – não me assustam. Até as larvas – embora não sejam a minha forma de vida preferida – num corpo morto têm para mim significado, apesar do meu conhecimento mínimo de entomologia forense (de facto, a ciência de fazer com que os 'insetos' falem sobre o tempo desde a morte à localização do corpo). Não se perturbar com os ossos, corpos e ferimentos é uma espécie de exigência básica da tarefa. Ao trabalhar no terreno, perturbam-me as escavações infrutíferas, mas assim que desenterramos despojos humanos, sinto-me revitalizada e até feliz. Pensava que estes sentimentos positivos surgiam naturalmente; não tinha tido consciência de envolver activamente o meu espírito num manto de distância antes de analisar restos mortais humanos ou de exumar cadáveres de valas comuns. É certo, por vezes sentira-me perturbada depois do trabalho porque começava a ruminar assuntos de dor ou medo ou do que quer que fosse que marcasse os últimos momentos de alguém antes de o conhecer como corpo morto. Mas ter assuntos da vida a imiscuírem-se tão dolorosamente nos meus pensamentos enquanto estava a trabalhar preocupava-me profundamente. A dupla visão era perigosa, fazia com que olhasse para um esqueleto como sendo o parente desaparecido de alguém com quem me poderia cruzar na rua: iria pôr em causa a minha resistência para o trabalho que tínhamos de fazer, especialmente se em qualquer altura baixasse um véu sobre os meus olhos. Sabia que a minha perturbação era característica dos antropólogos forenses a executarem o volume de trabalho de assistência social que eu estava a fazer e a exumar na cena dos assassínios em massa que deram azo ao trabalho de assistência. Era a combinação destes factores que me levava a sentir que os ossos quase me estavam a gritar e era o cansaço baseado no stress sob que estava a trabalhar que
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e dois procedimentos foram abertos, um para analisar o laudo da perita e outro para avaliar a atuação policial no caso. Após a chefe da Polícia Civil receber o primeiro laudo e afirmar publicamente que não se tratava do garoto Juan, ela teve que voltar atrás e admitir os erros. Segundo o deputado Marcelo Freixo (PSOL), integrante da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, ainda faltava explicar se Juan havia sido torturado, já que a perícia havia identificado pancadas na cabeça do corpo encontrado à beira do rio. Outro problema era que a perícia não havia encontrado marcas de tiros no corpo, mas duas testemunhas ouvidas pelo deputado afirmaram categoricamente terem visto Juan baleado. Após tantos desencontros, a família de Juan só veio a ter conhecimento da confirmação de que os restos mortais encontrados realmente eram de Juan através de telefonemas de jornalistas. Ao confirmar a morte de Juan, a chefe de Polícia Civil lamentou informar à imprensa antes que a família: “Eu queria ter dado essa notícia pessoalmente à família. Mas como ela ingressou em um programa de proteção a Secretaria de Direitos Humanos ficou responsável pela comunicação”. A mãe e o irmão de Juan, Wesley, voltariam ao Rio para acompanhar o sepultamento.

2.4.4. Desaparecimentos, cemitérios clandestinos e encontro de ossadas O caso Juan poderia ter sido mais um a figurar nas estatísticas de desaparecimento e permanecer escondido em um dos muitos cemitérios clandestinos da cidade, como ocorre em diversas outras situações. No dia 09 de outubro de 2007, o jornal O Dia, por exemplo, publicou uma reportagem em que noticiava que investigadores da 62ª Delegacia de Polícia haviam localizado um cemitério clandestino em um terreno na esquina das ruas Roberto Silveira e Ataulfo Alves, na Favela Santa Lúcia, em Imbariê, Duque de Caxias, Baixada Fluminense. A notícia informava ainda que dois corpos haviam sido desenterrados e os policiais consideravam a possibilidade de um dos corpos ser de um adolescente desaparecido há três semanas. Cogitava-se ainda a possibilidade de que outros seis corpos estivessem enterrados no mesmo cemitério clandestino22. Notícias como esta não são raras e incomuns. Selecionei três delas que apontam a relação entre desaparecimento/cemitérios

clandestinos/encontro de ossadas:

fazia com que os gritos fossem perturbadores” (Koff, 2006: 161-162). 22 Alex Martins, Jornal O dia, 09/10/2007.

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com. não apenas vítimas das guerras entre facções criminosas. começou há um mês e é uma das exigências ambientais do Comitê Olímpico Internacional para a realização das Olimpíadas de 2016 na capital fluminense. uma das coordenadoras do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. o extermínio de pessoas. 100 . fogões." Fonte:http://odia. Afinal. "As pessoas que vivem naquela região já são estigmatizadas. móveis e até carcaças de automóveis.terra. bem como de outros que possam aparecer durante a dragagem dos canais. vão encontrar mais corpos. afirma a cientista social Sílvia Ramos. quem sabe até de pessoas que entraram de carro sem querer numa área de conflito e desapareceram. dizem que moram na Penha ou em outro bairro. "Eles nasceram da ideia de que a execução. escondem seu endereço.html Data de acesso: 23/11/2009. assim como a policiais e entidades da sociedade civil voltadas ao combate à violência no Rio de Janeiro. Sílvia tem a mesma opinião da delegada Renata Teixeira. A polícia acredita que os crimes foram cometidos em outros pontos e os cadáveres foram atirados da Linha Vermelha no canal. em 2000. porque se contarem que moram no Complexo da Maré não arrumam emprego. que coordena os trabalhos. causou espanto a operários. há tempos fonte do mau cheiro enfrentado por quem chega ao Rio de Janeiro em vôos para o Aeroporto Internacional Galeão . segundo o engenheiro Antônio da Hora. por meio do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea)." Os responsáveis pelas obras de despoluição do Canal do Cunha e do Canal do Fundão. "É preciso acionar o que for possível para identificar esses corpos. Supervisionados pela Secretaria do Ambiente. Os R$ 194 milhões para a obra de despoluição vêm da Petrobras. multada pelo vazamento de pelo menos 800 t de óleo da Refinaria Duque de Caxias (Reduc) na Baía de Guanabara. com 20 anos de atuação na cidade. no Rio de Janeiro. os trabalhos têm assessoria tecnocientífica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). resolve o problema. deve ser "questão de honra para a Secretaria de Segurança". na Baía de Guanabara. técnicos e engenheiros que atuam no local.Antonio Carlos Jobim. Se continuar a dragagem.br/portal/rio/html/2009/11/corpos_achados_na_baia_de_ guanabara_podem_ser_indicio_de_desova_48066. da 37ª Delegacia de Polícia (Ilha do Governador). responsável pelo inquérito para apurar o caso. A despoluição dos dois canais.Reportagem 1: Corpos achados na Baía de Guanabara podem ser indício de desova Corpos achados na Baía de Guanabara podem ser indício de desova Jornal O Dia Rio . são pessoas. A cientista social Sílvia Ramos diz que a identificação dos sete corpos encontrados. quando diz que se trata de uma área de desova usada pelos assassinos. como também podem estar ali corpos de pessoas sequestradas que nunca foram encontradas e de outros desaparecidos". A coordenadora do centro explica que os grupos de extermínio são antigos. como resultado do acordo entre a empresa. acostumados a recolher geladeiras. tomaram um susto ao deparar com os corpos.A descoberta de sete corpos em meio ao material dragado no começo dos trabalhos de despoluição do Canal do Cunha.

Se fosse um período de chuvas. Segundo delegado titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco-IE). Fonte:http://odia. O policial também disse ter certeza de que algumas das vítimas seriam bandidos ligados ao Comando Vermelho. na Zona Oeste do Rio. O delegado disse que. Policiais da Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado) encontraram um cemitério clandestino em Sulacap. A polícia ainda não sabe há quanto tempo o terreno vinha sendo usado para desova de corpos. Cláudio Ferraz.Reportagem 2: Polícia encontra ossadas em campo de execuções da milícia na Zona Oeste Polícia encontra ossadas em campo de execuções da milícia na Zona Oeste Por Marco Antonio Canosa – O Dia Rio . Cinco ossadas foram encontradas no alto do Morro Cosme e Damião. Pelas roupas e calçados das vítimas a polícia acredita que todos eram homens. eles nem tinham o trabalho de enterrar. Foto de Alessandro Costa / Agência O Dia A ação envolveu pelo menos 60 agentes das polícias Civil e Militar e do Corpo de Bombeiros. "Como o local é muito ermo.br/portal/rio/html/2010/7/policia_encontra_ossadas_em_ campo_de_execucoes_da_milicia_na_zona_oeste_92915. revelou o delegado. O delegado disse que as investigações apontaram que o local era usado por milicianos e traficantes ligados à facção Amigos dos Amigos (ADA). com certeza não encontraríamos". todas apresentavam sinais de execução por tiros.html Data de acesso: 01/07/2010. As ossadas estavam espalhadas por uma grande extensão do terreno.A Polícia Civil fez uma grande operação para localizar um campo de execuções e cemitério clandestino. em local de difícil acesso. em Sulacap. "Estamos trabalhando agora para descobrir a identidade das vítimas. sequestradas por milicianos sob encomenda de traficantes da ADA.terra. garantiu. na Zona Oeste. nesta quarta-feira. 101 . mas acredita que não seja há muito e que as vítimas tenham sido executadas no local e seus corpos abandonados em diferentes ocasiões. Os corpos ficaram expostos à ação do tempo e de animais. mas já temos algumas pistas importantes e em breve vamos desvendar os casos". com auxílio de cães farejadores. poderá determinar o período de uso do local pelos assassinos.com. As ossadas foram encontradas no alto do morro da favela Minha Deusa. com a identificação das vítimas.

Entre os procurados pela operação. como ocorrido na recente ocupação do Complexo do Alemão. para uma conversa com o subprocurador de 102 . que é ex-subchefe da Polícia Civil. sendo 16 PMs e seis civis. A ação fez parte da Operação Guilhotina. De acordo com a polícia. disse que durante os trabalhos dos agentes a delegada "exerceu uma conduta que as autoridades entenderam por bem levá-la para prestar esclarecimentos".com. O delegado Ângelo Fernando Gióia.foi detida. duas investigações paralelas foram iniciadas. utilizariam o local como cemitério clandestino de traficantes rivais assassinados. as 17ª (São Cristóvão) e 22ª (Penha) DPs ficaram momentaneamente fechadas para que policiais pudessem cumprir mandados de busca e apreensão nas distritais. com o apoio de 200 agentes da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) e do Ministério Público Estadual (MPRJ).titular da delegacia da Penha e que já havia trabalhado na DP de São Cristóvão . 28 pessoas foram presas. os criminosos utilizariam o Iate Clube de Ramos. desencadeada na manhã desta sexta-feira. a procura de corpos e armas que estariam enterrados no local. Até o momento. Zona Oeste da cidade. A partir daí. O objetivo é cumprir 45 mandados de prisão preventiva . que tinha como principal objetivo prender o traficante Rupinol. que atuava na Favela da Rocinha junto a Nem. superintendente da PF. apontado como o chefe do tráfico na comunidade. nada foi encontrado. Ele é considerado foragido da Polícia Civil.br/portal/rio/html/2011/2/policiais_do_bope_escavam_pi scinao_de_ramos_a_procura_de_corpos_143691. Na manhã desta sexta-feira.html Data de acesso: 11/02/2011 Numa visita ao Ministério Público. no entanto. De acordo com a Polícia. a partir de informações de que milicianos atuantes na Favela Roquete Pinto.Reportagem 3: Policiais do Bope escavam Piscinão de Ramos a procura de corpos Policiais do Bope escavam Piscinão de Ramos a procura de corpos Rio .e 48 mandados de busca e apreensão. Policiais federais cumprem 45 mandados de prisão nesta sexta-feira. no bairro. sendo que 21 deles são relativos a membros desta quadrilha. que ainda investiga a ligação dos policiais com venda de armas e informações e o chamado "espólio de guerra".Policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) escavaram o Piscinão de Ramos. Cerca de 380 homens da PF participam da ação. até mesmo por ela ser a responsável por aquela distrital. Os policiais utilizaram uma retroescavadeira na operação mas. Os agentes contam com o apoio de lanchas e helicópteros na operação. na Zona Norte do Rio. A milícia da Roquete Pinto é um dos principais alvos da Operação Guilhotina.sendo 11 contra policiais civis e 21 contra policiais militares . A delegada Márcia Beck . e não o encontraram. As investigações iniciaram a partir do vazamento de informações numa operação conduzida pela PF em 2009.terra. enterrando os corpos na areia do Piscinão. Ação mobiliza 580 homens A Operação Guilhotina foi deflagrada pela PF na manhã desta sexta-feira. que é a subtração de produtos de crime encontrados em operações policiais. Fonte:http://odia. localizado nos arredores da região. uma vez que PFs chegaram nesta manhã com um mandado de prisão à sua casa em Campo Grande. está o delegado Carlos Antônio Luiz Oliveira. um grupo de policiais é suspeito de receber até R$ 100 mil por mês para proteger Nem e o avisar sobre operações no local. uma da Corregedoria Geral Unificada da SSP e outra da Superintendência da PF. A troca de informações entre os serviços de inteligência das duas instituições deu origem ao trabalho conjunto desta manhã. para torturar e matar seus algozes.

direitos humanos Leonado Chaves, o mesmo me afirmou que era muito difícil fazer uma denúncia de desaparecimento forçado em razão da falta de provas. Para ilustrar a dificuldade ele me contou um caso que ouvi outras vezes durante o trabalho de campo, que consistia, mais ou menos, na história de um homem rico que foi visitar os primos numa cidade do interior e, após a visita, repentinamente sumiu sem deixar vestígios e sem que ninguém soubesse de seu paradeiro. Diante de sua riqueza e da condição de pobreza dos primos que foi visitar logo se iniciaram as suspeitas de que os primos pobres o teriam matado e desaparecido com o corpo. Os primos pobres chegaram a ser presos, porém, posteriormente, o primo rico reapareceu vivo, desfazendo a suspeita. Por outro lado, o subprocurador Leonardo Chaves chamou atenção para o fato de que os dados sobre desaparecimento devem ser cruzados com outros, como encontro de ossadas e encontro de cadáveres, argumentando que, apesar das dificuldades para construção de provas legais, não se pode afirmar que os desaparecimentos forçados não existam. Uma pesquisa recente conduzida por Patrícia Rivero e Ruth Rodrigues, no âmbito do Ipea, também sugere a relação entre desaparecimentos e cemitérios clandestinos: “Uma
categoria que não tipifica crime mas que vem em aumento e tem sido vinculada à aparição de cemitérios clandestinos é a de desaparição”. E ainda:

A distribuição das ameaças e desaparições deve ser levada em consideração, já que significam possíveis perigos à integridade das pessoas e podem estar relacionadas em alguns casos com os crimes. Chamam atenção as altas taxas de ameaças nas áreas do centro da cidade, que podem estar relacionadas com tráfico como também com outro tipo de delito. No caso das altas taxas de ameaça na Zona Oeste pode estar denunciando a presença de um fenômeno que é mais recente do que o tráfico. Trata-se da ocupação de certos territórios pelas milícias (grupos de paramilitares, exfuncionários de segurança pública que controlam territórios em troca de pagamento das populações pobres por serviços ilegais como gás, luz, etc.). Algumas pesquisas aprofundadas mostram que a ação das milícias parte do exercício da força da ameaça, força que aparece como simbólica mas que pode ser acionada através das armas (os milicianos não andam armados ostensivamente como os traficantes, mas está implícito entre os moradores que portam armas). As desaparições têm uma distribuição similar às ameaças, e podem estar relacionadas com diferentes formas de criminalidade: com as mortes em enfrentamentos entre facções do tráfico, com a ação letal de polícia e/ou com o domínio das milícias em alguns territórios. Não é por acaso que onde há um número expressivo de desaparecidos também há registros de ameaças e freqüentemente denúncias da aparição de cemitérios clandestinos. (Rivero e Rodrigues, 2009: s/n)

A hipótese de trabalho das autoras foi a de que as favelas e outros locais de moradia precária seriam áreas especialmente vulneráveis como lócus de concentração das vítimas da violência. A pesquisa buscou identificar as condições que poderiam facilitar a vitimização, as atividades ilegais e/ou criminais em espaços territoriais de favelas, comparando estes espaços 103

com as características da cidade. Os dados da pesquisa apontaram uma correspondência entre a disposição das áreas com maior número de vítimas e a disposição das favelas na cidade. Neste sentido, já argumentei no início desta tese e volto a lembrar que a favela, pelo seu histórico de constituição como “problema” e atualmente pela concentração da maior parte das mortes violentas em seu entorno, tornou-se um lugar-trauma. Numa visita à Defensoria Pública, à procura de dados para esta pesquisa, a defensora que me recebeu se disse muito entusiasmada com minha pesquisa, porque, segundo ela, o tipo de desaparecimento que eu desejava estudar vinha se tornando uma prática cada vez mais crescente, mas ainda correspondia ao lado “invisível” dos casos de desaparecimento. Segundo ela, a Defensoria Pública tem sido muito procurada por familiares em busca de ajuda, e os casos que têm aparecido apontavam o envolvimento de milicianos nos desaparecimentos. Os familiares, ao serem informados de que, para que a Defensoria Pública possa fazer alguma coisa, eles precisam primeiro fazer um registro de ocorrência na polícia, desistem de levar o caso adiante, por medo.

2.5. Rumores de desaparecimento forçado

Há vários indícios da prática do desaparecimento forçado, entretanto, eles permanecem na zona dos rumores. Alguns desses rumores podem ser encontrados nos registros de desaparecimento que fiz a partir do site do Ministério da Justiça e nos Registros de Ocorrência Policial, relativos ao ano de 2008, aos quais tive acesso. O formato, tanto dos registros no site do Ministério da Justiça como nos Registros de Ocorrência, inclui dados sobre identificação, descrição física, localização, informações para contato e circunstâncias do desaparecimento. Organizei, na tabela abaixo, uma pequena lista com alguns relatos de caso, sem identificação e apenas com as circunstâncias de alguns desaparecimentos, como aparecem no site do Ministério da Justiça e nos Registros de Ocorrência:

Alguns casos registrados no site do Ministério da Justiça Caso 1 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “O adolescente estava numa casa em Jardim Bom Pastor, em Vilar dos Teles, quando ele e mais 4 adolescentes foram levados pela polícia. Até hoje não teve nenhuma notícia dele”. Caso 2 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “Saiu de moto com 2 amigos.

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Segundo informações, eles passaram por um grupo de extermínio e desapareceram”. Caso 3 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “Se encontrava na Avenida Paulo de Frontin quando foi levado por homens a paisana que se diziam policiais”. Caso 4 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “O adolescente estava perto de casa quando houve uma operação policial e troca de tiros. A vizinhança viu quando um carro vermelho parou e algumas pessoas armadas algemaram o adolescente e o fizeram entrar no carro”. Caso 5 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “O rapaz estava conversando com mais dois amigos no bairro Miguel Couto quando a polícia pegou os três. Nunca mais a família teve notícias”. Caso 6 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “O adolescente foi pego com outro rapaz por PM em Barros Filho”. Caso 7 Relato das circunstâncias do desaparecimento: “Foi pego por um carro de polícia e não apareceu mais”.

Alguns casos registrados em Boletins de Ocorrências (Ano 2008) Caso 1 Declaração do comunicante: “A declarante comparece para fins de atender intimação desta DP, aduzindo que soube que o seu filho tinha sido morto, mas que não tem a certeza absoluta, sendo que soube de tal por ‘papos’ falados na comunidade onde morava, visto que reside em outro lugar, cujo endereço já está registrado neste RO; que não pode nomear nomes dos amigos que estavam com seu filho quando ele foi para o baile em Duque de Caixas, nem mesmo sabe informar qual era o clube onde tal baile se realizava; que a declarante soube que a provável morte de seu filho ter-seia dado no dia 04 de novembro, na circunscrição da 59a DP, mas não sabe nada além disso; que foi ao IMLAP de quase todos os municípios, menos o de Niterói, mas não encontrou o corpo do seu filho, como também foi a diversos hospitais, ficando sem sucesso na procura; que soube que seu filho, ao chegar ao baile, foi agarrado por outras pessoas, estranhas ao grupo em que ele estava, e foi levado alhures para ser morto, mas que, se isso aconteceu, não sabe o motivo; que, se souber de algo que seja de interesse à investigação, virá comunicar à AP. Nada mais disse.” Caso 2 Declaração do comunicante, que comparece nesta delegacia para comunicar o desaparecimento de seu irmão [nome]: “Que [nome do irmão] morava sozinho, próximo ao Piraquê, na Estrada da Matriz, em Pedra de Guaratiba; que no momento não sabe informar o endereço completo de [nome do irmão]; que ele foi visto pela última vez pelo dono de um bar localizado próximo à residência dele, em companhia de uma senhora conhecida como [nome]; que não sabe dar maiores informações sobre essa mulher; que na localidade e no local onde ele trabalha comenta-se que ele foi morto; que no entanto não sabe informar como o fato teria ocorrido; que [nome do irmão] trabalha como guardador de veículos na praia do Pepê; que ele é usuário de drogas; que [nome do irmão] não tinha dívida de drogas; que [nome do irmão] comentou que estava recebendo ameaças de morte, mas não disse de quem e nem o porquê; que esteve na casa de [nome do irmão]; que a porta da casa estava arrombada; que no entanto todos os objetos estavam dentro da casa; que [nome do irmão] nunca desapareceu antes; que [nome do irmão] não se consultava regularmente com um

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dentista; que não sabe informar se [nome do irmão] tinha algum inimigo; que [nome do irmão] compra a droga que usa na favela da Rocinha e vai para casa; que os amigos de [nome do irmão] são da praia do Pepê; que [nome do irmão] não tem cicatrizes ou tatuagens; que seus olhos são verdes; que ele está sem os dentes da arcada dentária superior; que eles foram arrancados por milicianos no início do ano; que não sabe informar os nomes nem dizer de onde são esses milicianos; que acha que isso deve ter ocorrido por causa das drogas; que apresenta uma fotografia recente para ser juntada ao procedimento. E mais não disse”. Caso 3 Declaração da comunicante: “Diz que a ultima vez que esteve com o seu filho vitimado foi no último sábado retrasado, aproximadamente às 13h, à Avenida Guilherme Maxwell (no conjunto do Fogo Cruzado), até hoje não apareceu em lugar nenhum. Essa comunicante informa que o vitimado é viciado, não sabendo a procedência do vitimado, razão de ter comparecido a essa UPJ, a fim de fazer esse RO. De acordo com todas as alegações acima e nada mais a relatar”.

Tentei, neste capítulo, apresentar um quadro panorâmico sobre o fenômeno do desaparecimento de pessoas. Para isso considerei dois períodos históricos que representam formas diferentes do enquadramento da questão. Argumentei que, durante as ditaduras civismilitares, o desaparecimento forçado deu origem à figura do desaparecido político e que, no período pós-ditatorial, no Brasil, um novo debate sobre o desaparecimento de pessoas tem ganhado forma. Em oposição aos desaparecidos políticos, Oliveira (2007), por exemplo, sugeriu o uso do termo “desaparecidos civis”. Também chamei a atenção para o fato de que as circunstâncias dos desaparecimentos são diversas e podem referir-se a um conjunto bastante heterogêneo de situações (fuga do lar, rapto, sequestro, extermínio etc.), podendo inclusive ser voluntárias ou involuntárias. Entretanto, apesar da pluralidade semântica que a categoria desaparecimento abarca, a questão do desaparecimento forçado tem tido pouca visibilidade nesse debate. Na maior parte das vezes, a referência à prática do desaparecimento forçado é feita apenas para falar dos desaparecimentos políticos. Nesse sentido, gostaria de concluir este capítulo, retomando o argumento apresentado inicialmente de que, se o desaparecimento forçado constituiu-se como forma de repressão política durante as ditaduras latino-americanas, hoje o desaparecimento forçado perdura e corresponde a uma prática do repertório da linguagem da violência urbana. A figura do desaparecido pode ser inclusive uma imagem, ou um ponto de partida, para se pensar a transição da ditadura à democracia, seus dilemas e desafios. Se o desaparecimento foi uma política institucionalizada, de modalidade repressiva, durante a ditadura, atualmente é uma prática extraoficial mas que continua a ser cometida por agentes oficiais e não oficiais, sendo seus principais protagonistas hoje, no caso do Rio de Janeiro, três personagens principais 106

presentes no imaginário da violência urbana: traficantes de drogas, policiais e milicianos. Cabe ainda ressaltar a difícil definição das fronteiras entre policiais e milicianos, na medida em que os milicianos são policiais, ou ex-policiais, sem fardas, que utilizam dos recursos políticos que sua condição de agente do Estado ou seus vínculos com estes proporcionam, para vender “mercadorias políticas”23 (Misse, 1999). Quando esta tese encontrava-se em fase final de redação tomei conhecimento de um Projeto de Lei que se encontra em tramitação no Senado Federal que só reforça a pertinência e a validade de meu argumento de que o desaparecimento forçado persiste como uma prática da linguagem da violência urbana nos dias atuais. Trata-se do Projeto de Lei do Senado n.º 245, de 2011, apresentado pelo senador Vital do Rêgo (PMDB), que objetiva acrescentar o artigo 149-A ao Código Penal brasileiro, para tipificar o crime de desaparecimento forçado de pessoa, conforme recomendação das normatizações internacionais já existentes. Na justificativa do projeto, destaca-se a permanência da prática do desaparecimento forçado e a recomendação do direito internacional para que cada país elabore leis internais sobre o assunto:
O desaparecimento forçado de pessoas é espécie de crime que provocou profundas marcas na sociedade latino-americana e na brasileira em especial, pois foi instrumento de assassinato de muitos cidadãos mediante política de repressão e, mesmo décadas depois, fomenta angústia em familiares e amigos diante da impossibilidade de acesso aos restos mortais das vítimas. Entretanto, equivocada é a percepção de pensar esse crime somente quando revestido de aspectos políticos, já que notamos com frequência o desaparecimento forçado de pessoas por outra motivação, como queima de arquivo, discriminação social, etc. Complexo, esse crime envolve várias condutas e agentes e, não raras vezes, culmina em tortura e morte, com ocultação de cadáver. Diante dessa realidade, sua definição tem sido delineada em tratados internacionais aprovados nesta Casa em dois sentidos: o da definição de uma figura típica comum e a de crime contra a humanidade. Neste último caso, tal qual está no Estatuto do Tribunal Penal Internacional, o crime é considerado como parte de ataque generalizado ou sistemático contra população civil. (Trecho da Justificação constante no Projeto de Lei 245, de 2011, do Senador Vital do Rêgo).

Após análise da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, em caráter
O conceito de “mercadoria política” é utilizado por Michel Misse, a partir de uma leitura da noção weberiana de “capitalismo político” e, de outro lado, com as questões teóricas implicadas por noções como “clientelismo”, “corrupção” e “extorsão”. Segundo Misse (1999: 299-300): “Mercadoria política é toda mercadoria cuja produção ou reprodução depende fundamentalmente da combinação de custos e recursos políticos, para produzir um valor-de-troca político ou econômico. O emprego de uso da força (ou a sua ameaça) para a realização de fins econômicos privados é a sua modalidade historicamente mais abrangente. Caberia falar em 'capitalismo político', como propôs Weber, quando essa atividade é exercida no interior de uma mesma formação social hegemônica, regulada estatalmente pelo monopólio do uso legítimo da violência e caracterizada pela mercantilização regulada e pacífica da propriedade privada dos meios de produção? Caberia também falar em 'dominação não-legítima', como propôs Weber para outro contexto histórico?”.
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terminativo, foi apresentado pelo relator do projeto, senador Pedro Taques, um substitutivo considerando as contribuições encaminhadas por Luis Carlos dos Santos Gonçalves e Marlon Alberto Weichert, membros do Ministério Público Federal. O substitutivo trazia duas mudanças em relação ao projeto original. A primeira alteração propunha o aumento da pena “para o tipo principal” de dois a seis anos de reclusão para seis a doze anos de reclusão e multa e a segunda previa dois tipos qualificados de desaparecimento forçado: “o primeiro, pelo emprego de tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou se do fato resultar aborto ou lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, com penas de reclusão de doze a vinte anos e multa, e o segundo, qualificado pelo resultado morte, com penas de reclusão de vinte a trinta anos”24. O texto final ficou com a seguinte redação:

Art. 1º O Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, passa a vigorar acrescido do seguinte art. 149-A: “Desaparecimento forçado de pessoa Art. 149-A. Apreender, deter, sequestrar, arrebatar, manter em cárcere privado, impedir a livre circulação ou de qualquer outro modo privar alguém de sua liberdade, em nome de organização política, ou de grupo armado ou paramilitar, do Estado, suas instituições e agentes ou com a autorização, apoio ou aquiescência de qualquer destes, ocultando ou negando a privação de liberdade ou deixando de prestar informação sobre a condição, sorte ou paradeiro da pessoa a quem deva ser informado ou tenha o direito de sabê-lo: Pena – reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, e multa. § 1º Na mesma pena incorre quem ordena, autoriza, consente ou de qualquer forma atua para encobrir, ocultar ou manter ocultos os atos definidos neste artigo, inclusive deixando de prestar informações ou entregar documentos que permitam a localização da vítima ou de seus restos mortais ou mantém a pessoa desaparecida sob sua guarda, custódia ou vigilância. § 2º Para efeitos do presente artigo, considera-se manifestamente ilegal qualquer ordem, decisão ou determinação de praticar o desaparecimento forçado de uma pessoa ou ocultar documentos ou informações que permitam a sua localização ou a de seus restos mortais. § 3º Ainda que a privação de liberdade tenha sido realizada de acordo com as hipóteses legais, sua posterior ocultação ou negação da privação da liberdade, ou ausência de informação sobre o paradeiro da pessoa, é suficiente para caracterizar o crime. Desaparecimento forçado qualificado §4º Se houver emprego de tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou se do fato resulta aborto ou lesão corporal de natureza grave ou gravíssima: Pena – reclusão, de 12 (doze) a 24 (vinte e quatro) anos, e multa. § 5º Se resulta morte: Pena – reclusão, de 20 (vinte) a 40 (quarenta) anos, e multa. § 6º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) até 1/2 (metade): I – se o desaparecimento durar mais de 30 (trinta) dias; II – se o agente for funcionário público; III – se a vítima for criança ou adolescente, idosa, portadora de necessidades especiais, gestante ou tiver diminuída, por qualquer causa, sua capacidade de resistência. Colaboração premiada
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Parecer ao Projeto de Lei do Senado Nº 245, de 2011. Comissão de Constituição e Justiça (Substitutivo).

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E o desaparecimento forçado corresponde a uma prática de terror e a uma política do medo. captar tais histórias implica percorrer ruínas. Em sua crítica da história burguesa dizia que não havia um único documento de cultura que não fosse também um documento de barbárie e se posicionava contrariamente à ideia de que a tarefa do historiador seria simplesmente representar o passado “tal como propriamente foi”. O rumor situa-se numa região da linguagem cuja animação de uma memória social é composta de relatos sociais incompletos ou interrompidos. ao acusado que. só pode se manifestar como uma voz que não se atribui a ninguém e que ninguém reclama como própria. silêncios. sendo primário. no entanto. condição e paradeiro. § 8º Os delitos previstos neste artigo são imprescritíveis. Walter Benjamin. enquanto tal. lugares inusitados. extinção da punibilidade ou absolvição efetuadas no estrangeiro. ainda que ela já tenha falecido. § 9º A lei brasileira será aplicada nas hipóteses da Parte Geral deste Código. de ofício ou a requerimento das partes.” Este Projeto de Lei recoloca na agenda pública e política a persistência da prática de desaparecimento forçado. “imagens dialéticas”. se reconhecer que tiveram por objetivo subtrair o acusado à investigação ou responsabilização por seus atos ou tiverem sido conduzidas de forma dependente e parcial. “montagem”. raramente temos acesso a essas histórias. mas que ao não-falar insinua. como escreve Veena Das. ao elaborar suas famosas “teses sobre o conceito de história”. de um a dois terços. escrever a história dos vencidos deveria.§ 7º Poderá o juiz. desde que dessa colaboração contribua fortemente para a produção dos seguintes resultados: I – a localização da vítima com a sua integridade física preservada ou. a partir de uma perspectiva do materialismo histórico. tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e o processo criminal. conceder a redução da pena. que se revele incompatível com a intenção de submeter a pessoa à ação da justiça. é a expressão de uma ruptura da comunicação social e. sugere. Nesse sentido. portanto. Não existe história neutra. em sua concepção. levar em conta também a ruína e a destruição. Palavras como “ruína”. Diante do terror e da política do medo a linguagem se manifesta através do rumor. Consumação do desaparecimento § 10 A consumação dos delitos previstos nesse artigo não ocorre enquanto a pessoa não for libertada ou não for esclarecida sua sorte. podendo o juiz desconsiderar eventual perdão. da fala fragmentada ou do não-falar. E a fenomenologia do rumor. II – a identificação dos demais coautores ou partícipes da ação criminosa e das circunstâncias do desaparecimento. 109 . porque essas histórias situam-se na região do rumor (Das. 2008e). rejeitava a concepção historicista/positivista da história como “progresso” ininterrupto.

Este livro de Löwy inclui também uma publicação das teses de Benjamin traduzidas por Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller. fazer contatos. fazem parte do vocabulário benjaminiano25 e me foram muito sugestivas para pensar uma concepção de trabalho para lidar com a questão dos desaparecimentos forçados. delegacias. circular em eventos. para levar meu objetivo de registrar as histórias de desaparecimento forçado dos dias atuais adiante. 110 . São algumas dessas histórias. lidar com fragmentos e. ruínas. o que desejei fazer foi apenas registrar um outro lado. que incluía visitar arquivos e documentos. conferir Löwy (2005). hospitais. a partir daí. da questão dos desaparecimentos. compor minhas constelações. Registrar essas histórias de desaparecimento forçado foi um trabalho antropológico e quase arqueológico. Sem qualquer intenção de amostragem estatística ou de totalidade. IMLs. percorrer favelas. Afinal.“constelação”. realizar minhas montagens. relatadas nos dois capítulos seguintes. que compõem a parte II desta tese. pouco visível. 25 Para uma leitura das teses “Sobre o conceito de história” de Walter Benjamin. o que tive que fazer foi exatamente percorrer rumores.

PARTE II A MEMÓRIA DAS TRAGÉDIAS .

chamado no texto pelo nome de José. Relatam experiências e percepções que os fazem sentirem-se como não cidadãos. Embora a morte seja uma constante na trajetória de vida de José e Maria. embora sirva para comprovar a morte. Essas interpretações e categorias advêm. principalmente das mães. Afinal. Quando narram suas histórias estes familiares falam da violência que se abate sobre suas vidas. que comprove a morte. As histórias que narram os familiares: memórias da dor e do luto As histórias e os relatos apresentados a seguir são testemunhos do luto e configuram pequenos mapas da dor. os relatos denunciam também a morte moral do grupo familiar. incluindo o falecimento de dois filhos. Para além da morte física de um ente querido. Em outros casos. sobretudo. do não acesso a direitos e à justiça.3. As histórias apresentadas neste capítulo e no próximo expressam e denunciam a forma como o desaparecimento de um filho ou de um parente afeta o sentimento de injustiça. em alguns casos. Os relatos fazem emergir moralidades e categorias de entendimento com as quais os familiares interpretam e dão sentido aos dramas que se abatem sobre eles. sofrimento. seus locais de moradia. ele relata o impacto que a morte de Maria. sobre família. ao refazerem algumas trajetórias dos familiares diante dos casos. violência e justiça. sofrimento e ausência de cidadania entre pessoas que viviam de mendicância. há partes do corpo ou restos mortais. por exemplo. pobreza e representações da morte. companheira de um morador de rua. foi como se já esperassem. as . Em um pequeno texto intitulado Luto. Quando os dois filhos morreram. são negados a estes familiares. do universo moral que envolve as representações. provocou nele. Koury (1993) analisa as relações entre luto. numa espécie de luto antecipado. ela raramente representa tristeza. morte. Direitos mais elementares como direito à denúncia. entre outras. 3. Nesse artigo. ao enterro dos filhos e a um atestado de óbito ou de ausência. gênero. e não serve muito para aliviar a dor. a vida de mendicância. constituem verdadeiras narrativas sobre o terror e o sofrimento. é desprovido de um dos elementos fundamentais nos rituais de morte: o corpo. O DRAMA DO DESAPARECIMENTO NARRADO DESDE OS FAMILIARES: PEQUENOS MAPAS DA DOR Os relatos dos familiares. o que só testemunha uma morte violenta. Trata-se de um luto peculiar porque.1.

como ele e Maria. 1993: 290). Seu não cumprimento é sentido e vivido como uma exclusão do mundo cívico. aprofundando suas dificuldades de integração social. A ausência do corpo. 113 . à espera do Instituto Médico Legal (IML). Maria morreu atropelada. “os corpos eram acompanhados e as obrigações com mortos cumpridas. aprofundam um sentimento de perda associado a atos e práticas de injustiça. Maria foi enterrada numa vala comum. realizando um ritual de passagem para a outra vida e garantindo aos que ficavam todo um simbolismo que acalmava a ansiedade da dor e permitia a sua integração ao corpo social. a desimportância de sua dor para os outros. e reforça sua condição de estar à margem do “social”. a saia levantada. perto do local onde estavam acampados. a desimportância com que a morte da companheira foi tratada publicamente expressa. Em relação aos familiares. a fome. essa foi a informação passada a José quando este procurou saber que fim teria levado o cadáver de Maria. Como se seu sofrimento estivesse fora das preocupações e do interesse social. tudo já indicava que o futuro seria a morte. no asfalto. “Eram 'anjinhos' que já nasciam doentes e não tinham muito o que fazer”. alguém arranjou uma vela” (Koury. O que os relatos dos familiares apontam é que nem mesmo o sofrimento e o luto são reconhecidos. juntamente com o tratamento indiferente e desprezível recebido das instituições estatais que deveriam agir para resolver o caso. que nunca mais devolveram. enrolava em um pano e saía em procissão até o campo santo”. do qual foi afastado pelo desajuste causado pela perda” (Koury. o carro do IML apareceu e levou o corpo. 1993: 289-290). como pessoa. Pelos cantos onde perambulavam era comum o enterro de dois. O processo de luto de José foi marcado pela tensão resultante da perda abrupta de referenciais simbólicos relacionais que o construíram. Mas a morte de Maria foi diferente. o anonimato da morte de Maria e a banalidade com que foi tratada publicamente provocaram um esfacelamento da pessoa de José. rasgada. José arranjou um jornal e cobriu seu rosto. aguçando a percepção e o sentimento de ausência de cidadania. três “anjinhos”: “Quem podia fazia um caixão branco. ao longo da vida. O anonimato de sua morte foi motivo de humilhação para José. com outros corpos não reclamados. ou a presença de um corpo destruído pela violência. Para que o luto possa se concretizar e se completar é preciso que a justiça se cumpra. ocorre algo similar ao descrito por Koury: a impossibilidade de realização do trabalho de luto. para José. Não bastasse a condição de pobreza.andanças. e esse não reconhecimento significa a continuidade da violência e da injustiça. Segundo Koury. quem não tinha nada. Embora a morte fosse uma constante. No fim da tarde. “Passou parte do dia no chão.

ora em um registro mais da denúncia pública. A presença da morte e a dor provocada pelo corpo morto estimula a recorrência de lembranças. falar do desaparecimento significa tocar em recordações dolorosas e. enquanto uma prática do repertório da linguagem da violência urbana. conduz ao caminho da memória. na tópica dos sentimentos. Esta prova é descrita na linguagem da sensibilidade e. esteve muito claro que estudar um evento crítico como o desaparecimento forçado ou a execução de uma pessoa. as memórias são compartilhadas em circuitos restritos.Como escreve Boltanski. A confiança é construída através dos laços de solidariedade que se estabelecem a partir do compartilhamento da dor e do sofrimento da experiência traumática.] contribuem para definir o campo do memorável. 2007: 185). memória da desgraça que é sempre “a ocasião de levantar as verdadeiras perguntas”. um recurso identitário: A memória das tragédias pertence ao registro dos acontecimentos que [. Afinal. a ausência do corpo.1..1. Entretanto. mas sempre nessa fronteira e tensão entre particularização e generalização. uma das expressões mais plenas da prova de humanidade dos seres humanos se manifesta na piedade. como escreve David Le Breton: 114 . É uma interpretação. 2001. é um ponto de interrogação a partir do qual se compõe um quadro social da memória. a memória das tragédias deixa marcas compartilhadas durante muito tempo por aqueles que as padeceram ou cujos seres queridos a padeceram. (Candau. com a questão do silêncio. implicaria lidar a todo instante. assim. modificando profundamente suas personalidades. É também uma memória forte. 147-148). 3. A linguagem das emoções. Memória das dores e memória dolorosa. uma leitura da história das tragédias. No caso do desaparecimento. quando as condições não são propícias ao reconhecimento da dor daquele que sofre. p. mais particularmente. Pode-se dizer que há um circuito restrito onde as memórias da tragédia são compartilhadas e socializadas. o aprendizado da dor e o sofrimento como competência política Desde o início da pesquisa.. da emoção” (Boltanski. durante toda a pesquisa. A circulação dos relatos em um nível mais privado ou mais público vai situar os casos ora em um registro mais da emoção. A lembrança da tragédia torna-se. “O espetáculo do sofrimento é a prova a qual os indivíduos devem ser afrontados para poder provar sua humanidade. como escreve Candau.

. (Le Breton. 1997: 235-36) A linguagem das emoções constitui para os familiares o dispositivo. recebe-se lágrimas no seu seio. em que ela elabora uma história das lágrimas e mostra como a leitura de romances no século XVIII influenciou a emergência de uma nova economia dos signos corporais. que escapa a qualquer medida. A uma dor visível responde-se com lágrimas. existe uma 115 . arrasta consigo a palavra. Raros são aqueles que não ficam emocionados com as lágrimas de um outro. recolhe-se lágrimas. A emoção é situada pelos familiares no campo da prática política. face às lágrimas. perdem o seu peso de conteúdo. por excelência. modificando os gestos da emoção: Face às lágrimas de um ser humano é preciso participar ou compadecer-se. (. eis a citação seguinte de um texto de Anne Vincent-Buffault. É o embaraço de viver à margem de si próprio sem conseguir encontrar-se.. inclusive os homens entrevistados. todos são vendidos pelas lágrimas. tanto por insuficiências da fala como do pensamento. sendo transformada e impregnada de significados políticos.. em algum momento ou situação da entrevista o familiar chorou (ou choramos juntos). a morte não encontram palavras para se exprimir com intensidade suficiente. Esta tendência a emocionar-se com a dor alheia provoca curiosos fenômenos de contágio. a não ser pelo lento retorno ao prazer de viver. A língua fragmenta-se por momentos perante os conteúdos afectivos. antes de exprimir a sua solidariedade através do seu comportamento. No romance existe uma obrigação de compadecer-se e de consolar. uma palavra. a calar-se por sua vez durante um momento. sendo difícil reter as lágrimas diante daquelas que são derramadas. A dor quebra a voz e torna-a irreconhecível. que varrem tudo à sua passagem. ou quando falavam da forma brutal como se deu a morte. As emoções dão forma ao protesto.. Há um indizível que esconde a linguagem. corta o fôlego e obriga a uma recomposição ou a deixar caminho livre a um momento de emoção. A frequência dessa situação indica que. as lágrimas escorriam e um clima de muita emoção tomava conta do ambiente e da situação. Há então uma regra implícita que obriga o interlocutor a não insistir. para comunicar o sofrimento e buscar envolver os outros em suas dores. a qualquer tentativa de a limitar ou descrever. por um olhar.O aparecimento de uma recordação dolorosa. íntimo. suscita o grito. Pouco a pouco. Desta forma é possível arrancar lágrimas até aos mais insensíveis. testemunhando sobre seu lado humano e buscando humanizá-lo. as lágrimas ou o silêncio. O sentimento dela é um factor pessoal. o lamento. Fechada na obscuridade do corpo. o gemido. De repente. no decorrer de uma conversa. a dor fica reservada à deliberação íntima do indivíduo.) O grito nunca está longe do silêncio. Em todas as entrevistas que realizei com familiares. Nos enunciados romanescos frequentemente consola-se alguém. seus protestos e suas reivindicações. Esses familiares – as mães principalmente – fazem das emoções uma forma de expressar a denúncia das mortes e desaparecimentos dos filhos e acusar os responsáveis. Os olhos se enchiam de lágrimas geralmente em dois momentos: quando falavam das boas qualidades do filho. a separação. demasiado poderosos. Sobre o poder comovedor e contagiante das lágrimas. que prejudica a facilidade da palavra: o sofrimento. criando uma solidão difícil de romper. A dor é um luto provisório ou durável do próprio eu. duas formas próximas de assumir o luto da linguagem quando o sofrimento persiste. em relação aos outros. As palavras. pelo tom da sua voz. A dor interrompe a ligação social.

resposta adequada. mas também traz decepção. junto com a dor. o choro e as lágrimas. queixas e protestos.. Os familiares. Como se fosse impossível deixar alguém chorar sem agir. a transformá-la em moeda política em seu favor. produzem situações catárticas por onde passam. A mesma análise que Pita faz da figura do familiar na 116 .11). 11). entre silêncio. que a experiência de sofrimento dos familiares é vivida. Há uma dimensão performativa na forma como o corpo da mãe. Lidar com a dor torna-se uma competência política e lidar com o tempo. A imagem da mãe segurando uma foto ou com uma reportagem de jornal noticiando a morte do filho. encenada. como escreve Vincent-Buffault (op. mas nem por isso é possível negar que. sem se aproximar e levar suas lágrimas em consideração. fala e se expressa diante da ausência do corpo dos filhos. o morto. correm as lágrimas”. um dilema existencial. aprendem a lidar com a dor. Vários familiares relataram que um dos primeiros sentimentos que tiveram quando ocorreu o caso. as fotografias dos filhos. O corpo dos familiares sente. com o tempo. cit. “Quando os termos da troca não são a reciprocidade. o desabafo e a indignação. O sentimento de injustiça e de impotência diante da injustiça mata o sentimento de esperança e deixa os familiares céticos em relação à justiça. emerge também certo sentimento de vingança. tece-se o drama. a raiva e certo sentimento de vingança. A luta é por justiça. praticamente operando como imperativo que obriga aquele com quem se interage a compartilhar a experiência. A partir da noção de familiar de vítima constituiu-se um campo de protesto onde o vínculo – principalmente o vínculo de parentesco – com a vítima. trabalhado com o tempo. As lágrimas são signos que circulam e mais do que convidar a uma troca. Cada relato ou cada entrevista é um desabafo indignado e emocionado. gestos apropriados. frustração. quando entram em cena para denunciar as mortes violentas dos filhos por policiais. pública e privadamente. resignação e desencanto. (Vincent-Buffault. O tempo é um fator que transforma as emoções e os sentimentos. testemunhos. tornou-se símbolo. diante da ausência do corpo do filho. 1988: 33-34) “Entre silêncio e linguagem. é o que organiza o engajamento. cit. É nessa zona cinzenta. exorcizada. transforma-se em um recurso para expressão de uma linguagem do sofrimento.. expressam um ideal de encontro. e a inumanidade aparece” (op. linguagem e lágrimas. ou seja. algumas vezes. foi o desejo de vingança. Os familiares. Transforma o sentimento de vingança em luta por justiça. buscando espaços para falar de seu caso e realizar sua denúncia. O sofrimento dos familiares expressa-se através de um repertório de ação permeado pela linguagem das emoções e cujos recursos incluem atos em memória dos filhos.

Transformam as emoções numa via de expressão do protesto.2. visa mobilizar o apoio e o engajamento de outros atores sociais. principalmente quando não se tratavam de casos envolvendo denúncias públicas. “hasta que se haga justicia”. serve para pensar os familiares daqui: Los muertos – que ni muertos han perdido su nombre – operan en este sentido como una llave para la entrada al mundo moral de los familiares. principalmente o circuito que os familiares fizeram. descrevendo pequenas sequências de ação. porque entendiam que era mais uma forma de denunciar os casos. A dramaticidade é um fator que influi na sensibilização e ampliação da circulação do caso Através da comoção que produz. Os familiares expõem publicamente suas dores físicas e morais como forma de despertar piedade e compaixão. O imperativo ético de se engajar em uma ação para fazer cessar o sofrimento daqueles que sofrem ganha força diante de estados emocionais. Eles buscam engajar em seus sofrimentos aqueles que não estão diretamente afetados pelo caso. Y ello sucede porque las formas de presentación de los muertos y las narraciones de las circunstancias en que han sido muertos por la policía hablan. ou quando solicitado ou permitido pelos familiares. além de reivindicar solidariedade. particularmente. Em outras situações. Los muertos se constituyen en un territorio de resistencia. señalaba más arriba. Izildete Conheci Izildete26 numa manifestação em defesa do Estatuto da Criança e do 26 Alguns familiares pediram que seus nomes verdadeiros fossem mantidos no relato. aos relatos de meus encontros com os familiares e do que denominei pequenos mapas da dor. Passemos então. A ideia foi percorrer. os familiares solicitaram que fosse preservado o anonimato.argentina. sobre aquellas trazadas entre la sociedad civil y la policía. los muertos bajo estas circunstancias dan lugar al surgimiento del familiar (Pita. com especial atenção para os estados emocionais e para as experiências de sofrimento. e a via das emoções é uma das formas bem sucedidas para isso. agora. sus nombres enarbolados son la prueba de una denuncia que no cesa. quando se tratar de casos públicos. sus muertos funcionan como demarcadores morales y son también generadores de nuevos actores sociales. fundamentalmente. 3. Os resultados positivos principais geralmente são entendidos como sendo condenações de policias e indenizações financeiras. Así. Como observa Leite: “A categoria de 'mães de vítimas de violência’ também se constrói por 117 . através dos relatos. também quando solicitados por meus informantes. Portanto. no tanto de las relaciones sociales entre individuos vivos y muertos sino. os nomes verdadeiros serão mantidos. A exposição do sofrimento e o clamor por ajuda e solidariedade através da exploração de uma linguagem das emoções são recursos que se apresentam aos familiares. sobre las relaciones entre los vivos y. Por outro lado. A través de los muertos los vivos protestan y reclaman. nomes de pessoas e lugares foram alterados. 2010: 17).

Peguei seus contatos e fiquei de ligar para marcar uma entrevista. Trata-se de uma data simbólica. Contou com a presença de “familiares de vítimas de violência”. Nesse dia. nomeá-las por Maria e algum complemento. aproveitando o simbolismo religioso presente na categoria “mães de vítimas de violência”. mãe de Jesus. por conta das denúncias que ela vem fazendo. naquele momento. formando um nome composto. pois compreendeu que era necessário que um inocente morresse para a redenção de todos. mas também sofredora. Nesse sentido. Maria. Segundo ela. e que a locatária da casa havia entrado na justiça para exigir a reintegração de posse do imóvel. no bairro São Roque. Ela me contou que sua água havia sido cortada por falta de pagamento. pesquisadores e militantes de partidos políticos. nem odiou seus algozes. aproxima cada uma e todas as mães de Maria. No dia 15 de outubro de 2008. que nesse movimento.Adolescente. Por isso mesmo. fui a Queimados realizar a entrevista com Izildete. Manifestação que foi simbolicamente programada para o dia 23 de julho de 2008: dia de aniversário da chacina da Candelária. Nesse sentido. Desaparecidos após uma abordagem policial Seu filho Fábio e um amigo. ao voltarem de uma festa junina realizada em um bar. estudantes universitários. 118 . estão desaparecidos desde 2003. a primeira coisa que Izildete me disse foi para não reparar na casa. em razão de ser o dia em que os jovens foram exterminados numa chacina. a polícia afirma que intermédio de uma alusão religiosa. o sacrifício de Jesus representa também parcialmente o sacrifício de sua mãe em aceitar essa perda e experimentar a dor de sua morte como uma doação à humanidade pecadora. Quando entrei na rua em que Izildete morava. O evento foi organizado por entidades e organizações ligadas ao campo dos direitos humanos. No imaginário católico. vivendo em condições bastante precárias. adotei como estratégia. ONGs de direitos humanos. Maria desempenha na religião católica um certo lugar de mediadora. Ela e os filhos estavam. Logo que cheguei. Perdoou-os. caso os policiais resolvam “fazer alguma coisa” com ela e os filhos. O desaparecimento ocorreu em um contexto de abordagem policial. esperando por mim. ela já se encontrava do lado de fora do portão de sua casa. tornou-se um lugar de memória (Nora. que estava com o filho cadeirante participando da manifestação. Essa data foi incorporada ao calendário de luta dos movimentos de direitos humanos. mesmo sofrendo por seu martírio e morte na cruz. O vínculo afetivo.2. na tarde de uma quarta-feira quente e ensolarada. Segundo Izildete. que envolve intenso sofrimento com a perda do filho e fundamenta a credibilidade da mãe tanto para reclamá-lo quanto para doá-lo em prol de uma causa. Segundo Izildete. 1993) da luta contra a violência policial. associada ao luto transfigurado em protesto. participantes de projetos sociais ligados à infância e à juventude. é acolhida na condição de filha. conversei rapidamente com Izildete. que se traduz na crença de que pedindo à Mãe o Filho atenderá” (2004: 159). a locatária está com medo de que aconteça alguma tragédia naquela casa. 3.1. os jovens foram abordados por quatro policiais que estavam numa viatura Blazer. de nome Rodrigo. não se revoltou. para preservar o anonimato daquelas mães que assim o desejaram.

Izildete cedeu-me vários documentos. referindo-se ao caso da mãe que perdera os quatro filhos. segundo Izildete. que é “portador de deficiência física”. ainda hoje alimenta a esperança de encontrar o filho vivo. cartas que ela enviou e recebeu da governadora Rosinha Garotinho. “onde deixam as pessoas presas”. que era quem a ajudava com as despesas.apenas “deu dura nos meninos” e os liberou. Queixa-se. Ela disse que tomou conhecimento da história de uma mãe. Impossibilitada de trabalhar. vizinha sua. incluindo reportagens de jornais. carta enviada ao presidente Lula. Na entrevista Izildete disse que entrou para uma igreja após o desaparecimento do filho. denúncia internacional do caso realizada pela ONG Projeto Legal. No lugar onde mora. É um lugar. de algum modo. relata que as dificuldades só se agravaram com o desaparecimento do filho. peregrinando para todos os lados em busca de informações sobre o paradeiro de Fábio. tampouco voltaram os jovens vivos para contar o que se passou. ameaças dos policiais e a burocracia das delegacias e demais instâncias estatais por onde tem peregrinado em busca de solução para o caso. o registro de ocorrência do caso. Essa “irmã” da igreja. Fato é que os corpos dos dois jovens jamais apareceram. ofícios e documentos diversos redigidos e encaminhados por entidades de direitos humanos que. Izildete conta que tem enfrentado grandes dificuldades para levar o caso adiante em razão da falta de informações. citou o nome de um lugar onde eles talvez pudessem estar. segundo elas. de que todo seu reclame não deu em nada. se apresentou. Esse caso foi contado a ela e à pastora da igreja que ela frequenta por outra “irmã”. Buscando despertar o sentimento de piedade e compaixão. por sua vez. enquanto andávamos pelas ruas do bairro à procura de uma copiadora. ela comentou de uma passagem pela Assembleia de Deus. ela contou a história do caso. acompanharam ou instruíram Izildete. falta de provas. A vida de Izildete tornou-se um verdadeiro calvário em busca do filho. como uma “mãe desesperada”. porque dedica seu tempo a cuidar de um dos filhos. Disse que na Assembleia de Deus apareciam revelações relacionadas ao destino de seu filho desaparecido. na carta. Na carta enviada ao então presidente Lula. o filho de Izildete estaria morto. 119 . no entanto. correndo o risco de ser despejada porque não tem condições de pagar aluguel. Ela. Quando a entrevista foi realizada ela frequentava a Igreja Mundial. Acredita que o filho deva estar preso “em algum lugar de onde não pode se comunicar”. que teve quatro filhos “desaparecidos”. segundo Izildete. mas. em conversas posteriores. sendo que o pouco que tem mal dá para ela e os quatro filhos se alimentarem. rumores de casos de desaparecimento são constantes. que vive em condições precárias de moradia. Essas revelações a incomodavam porque.

Figura 1: Carta de Izildete ao então presidente Lula: a mobilização do sofrimento para em busca de ajuda 120 .

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quando saísse da prisão. Enquanto as cópias eram tiradas. Enquanto esperávamos pelas cópias. disse que da rua onde mora foi possível ver quando os carros dos “chacinadores” estavam passando próximos a um lava-jato. ficavam lendo. A mãe do policial disse que se seu filho fosse preso. porque as pessoas ficavam olhando o conteúdo do material. dizendo que Izildete “pagaria” caso qualquer coisa viesse a acontecer com seu filho. Izildete me contava um ou outro caso. sempre um policial ameaçando sumir com o outro filho. Ela fez vários pedidos para entrar para o serviço de proteção a testemunhas. Enquanto andávamos ela me apontava os lugares e narrava os acontecimentos violentos e traumáticos ocorridos em cada local. há sempre um carro rondando. costumavam se encontrar e a casa de vários deles. que ela acusa de terem levado seu filho. Os filhos deixaram de estudar em Queimados. e muitas pessoas ali tinham conhecimento do desaparecimento de seu filho. Mostrou-me também os lugares por onde os carros passaram no dia da Chacina da Baixada. mas diz que não foi atendida. vários recados lhe foram enviados pelos policiais. foram folhas e mais folhas. sempre uma experiência traumática nova. Hoje. mudaram de escola. O clima que Izildete relatou foi de muito medo e tensão em sua vida cotidiana e na dos moradores da localidade. Segundo Izildete. dos hábitos que mudaram e das medidas de segurança que tomou. No relato de Izildete. ela e os filhos evitam andar tarde da noite pelas ruas de Queimados com medo de que algo venha a acontecer a eles. no alto de um morro que fica em frente à sua casa. E eu me lembrava de que. Izildete expressou um comentário cético: “Se cada papel desse fosse uma palavra certa!”. Em uma ocasião. passando estudar no Rio de Janeiro. quando estávamos nos preparando para sair da casa de Izildete. eles passam de carro em frente à sua casa e verbalizam ameaças. até achar um lugar onde as pessoas não a conheciam e nem o caso do filho. Apontou-me o botequim onde os policiais. Providenciar as cópias levou muito tempo. Izildete chegou a prestar depoimento numa delegacia registrando as ameaças que vinha sofrendo dos policiais e da mãe de um deles: 122 .Após a entrevista dei uma volta com Izildete pelo bairro em busca de uma copiadora para fotocopiar os documentos. Ela também fala dos impactos da violência em sua rotina. ela me havia dito que não gostava de fazer as cópias perto de onde morava. sempre um clima de suspense e morte rondando. Ela ficava receosa de que as pessoas pudessem ler o conteúdo dos documentos dos quais ela fazia cópia. Segundo ela. por isso andamos bastante. ele “acabaria com a raça” de Izildete. a mãe de um dos policiais mandou um recado para Izildete. expressa-se aquilo que Teresa Caldeira chamou de “a fala do crime”.

dizendo para que comparecesse na casa dela [da mãe do policial] pois desejaria que o mesmo fosse arrolado como testemunha de seu filho. que temem morrer ou sofrer algum outro tipo de represália. ao sair. sendo um deles. que em razão das suas buscas vem sendo pressionada pelo policial [nome] que vinha lhe ameaçando. bem como de seu sobrinho de consideração Rodrigo Abílio. iria acabar por desarquivar. o primo de Rodrigo e dois outros. produzindo um clima de medo paralisante nas pessoas. Caso continuasse a levar à frente as denúncias poderia “ser pior” para ela. Alguns dos policiais acusados de serem os responsáveis pelo desaparecimento do filho de Izildete e de 123 . 21 de abril de 2005). [nome do dono]. teria telefonado algumas vezes para ele. que tomou conhecimento de que no dia do desaparecimento ambos foram abordados pelo policial militar [nome do policial]. cujo imóvel é de propriedade da família do policial. Izildete sempre fala da dificuldade que é viver muito próximo aos policiais acusados de terem “sumido” com seu filho e o amigo. que desde então vem buscando informações no sentido de esclarecer todo o episódio. dito que iria testemunhar a favor de [nome do policial] e que era para a declarante pensar bem e que tinha muita gente do lado dele. chegaram na sua residência três pessoas. Através da imunidade parlamentar. que revelou à declarante ter realmente abordado o seu filho e seu sobrinho Rodrigo e os liberado a seguir. ingressando no bar existente no número [x]. e ainda segundo [nome do policial]. que sabe chamar-se [nome]. Muitos conseguem se eleger e isso significa a desmedida do poder. passam a gozar de imunidade parlamentar. tendo a referida senhora dito a [nome] que ainda tinha muita gente solta e que quando seu filho saísse da cadeia. por volta das 23 horas. no centro do Rio de Janeiro. tendo o nacional [nome] dito à declarante que a mãe de [do policial]. tendo [nome] logo após sair do portão de sua residência atravessado a rua [nome da rua]. dizendo ainda que iria processá-la. Izildete recebeu vários “avisos” para não continuar denunciando os policiais. tendo ainda [nome]. sendo que até a presente data não tem notícias do paradeiro de seu filho Fábio Eduardo Soares Santos de Souza. permanecendo conversando com o dono do bar Sr. fato este confirmado pelo próprio policial militar. ou seja. (Termo de Depoimento de Izildete Santos da Silva. vez que o fato já estava arquivado e com as suas andanças. Eles continuam soltos. tornam-se cada vez mais intocáveis e imunes à aplicação da lei. a declarante deveria pensar bem no Flavinho (seu filho especial). tendo notícias de que efetivamente o policial [nome do policial] deu início a uma notícia-crime em face da declarante. cujo nome desconhece. oportunidade em que deseja acrescentar que jamais acusou qualquer pessoa pelo desaparecimento de seu filho. tornando ainda mais difícil a investigação sobre seus crimes. a primeira que ele iria acertar as contas seria com a própria declarante.A depoente tem conhecimento de que seu filho saiu de casa na companhia de três parentes. mandando parar de andar (lá embaixo). Ela conta também que muitos dos policiais envolvidos em grupos de extermínio se candidatam nas eleições. eles continuam ameaçando e nada os detém. A eleição é uma estratégia para adquirirem uma espécie de “blindagem” ainda maior do que já possuem na condição de policial. a fazer ameaças e a intimidar as pessoas. que dois outros que chegaram com [nome] ficaram apenas olhando para a declarante prestando atenção na conversa. cobrando apenas esclarecimento quanto ao sumiço deles: (Fábio e Rodrigo). Que no dia de ontem. 20 de abril de 2005. Ela se depara na rua com os policiais. pois ele já acreditava que iria perder a “farda”.

2005: 106). o trauma. Os policiais a orientam a desistir de procurar o filho. Sobre a humilhação. na altura em que o caso se encontra é a justiça divina. Entretanto. porque retiramos dela a intencionalidade e a responsabilidade social que ela deveria ter se fosse tratada como uma conduta ou uma ação passível de punição e condenação (Decca. 124 . não seria sequer um sentimento. estamos acostumados a tratar a humilhação como um sentimento. Izildete luta. Humilhação. conduta. A humilhação aparece nos relatos como uma prática sofrida cotidianamente. repassando a responsabilidade para a própria denunciante. a humilhação foi enfocada como um sentimento próprio de coletividades sujeitas a traumas psíquicos profundos. nos municípios de Queimados e Nova Iguaçu. Neste texto ele discute se a humilhação seria um sentimento ou uma ação. Talvez seja um engano de nossa parte tratá-la dessa maneira. Por esse motivo. Apesar disso. de um modo geral. Edgar de Decca escreveu um texto em que propõe uma discussão muito pertinente para se pensar a relação dos familiares de vítima com o tema.2. dão informações erradas e se negam a fazer o serviço que caberia a eles fazer. desrespeito.seu amigo mais tarde seriam acusados de participação na Chacina da Baixada . por nos sentirmos ofendidos em nosso amor próprio.2. Contudo. conta que os policiais ficam “fazendo hora” com ela. diante de um ato de alguém que nos coloque para baixo ou nos rebaixe. somem com seus documentos. Izildete. uma ação na qual envolvem-se tanto o ator como a vítima. da não punição dos responsáveis e de que jamais encontrará os corpos. por exemplo. a experiência do nazismo fez com que as ciências sociais passassem a distinguir modalidades diferentes de sentimentos. Por exemplo. diante da humilhação a vítima pode desenvolver sentimentos de ódio. cria o sentimento de rebaixamento e de inferioridade. são repletos de referências a situações de humilhação. Segundo o autor. Além disso. O ato ou a conduta de humilhar alguém. O que seria então a humilhação? Segundo as observações de Decca: Para muitos. Tudo isso produz um sentimento de impotência e quase certeza da impossibilidade da justiça. 27 3. A chacina estaria ligada à prisão de policiais militares acusados de jogar uma cabeça dentro do 15º Batalhão de Polícia Militar (Duque de Caxias). Sua fala oscila entre a esperança e a 27 A Chacina da Baixada ocorreu em 31 de março de 2005. mas atitude. abordando de modo distinto. de revolta ou de vingança. queixas e os obstáculos na construção de provas A relação com os órgãos do sistema de justiça criminal é marcada pela humilhação. na Baixada Fluminense. mas a única justiça que ela diz acreditar ser possível. a vergonha e a humilhação. Os relatos dos familiares. e deixou 29 pessoas mortas. podemos sentir vergonha. nas primeiras abordagens das ciências sociais. a humilhação assemelha-se mais a um ato de ofensa do que a um sentimento vivenciado pela vítima à qual é imposta uma conduta de rebaixamento. enfim.

Geralmente o ônus da prova é repassado aos familiares da vítima. em certos momentos acha que o filho pode estar vivo. Tendo os familiares iniciado uma denúncia pública acusando policiais de assassinato ou desaparecimento forçado de uma pessoa e não conseguido provar as denúncias. Segundo o relato de Izildete. três meses antes do desaparecimento de Fábio. cogita a possibilidade de ele estar morto. quando esta não chegou a ser morta. em outros. pode ocorrer um processo de inversão. quando o caso completou sete anos.resignação. com o apoio da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. Izildete também manifestou. é a dificuldade de produção de provas que incriminem os acusados. acompanhei Izildete. onde o policial acusado de matar é quem produz o documento que dá origem aos procedimentos policiais e jurídicos de investigação do caso. mesmo que fora de serviço. mas isso não chegou a acontecer . onde a vítima passa a ser acusada. Quando se trata do crime de policiais a situação é ainda mais complicada. Uma das principais dificuldades para que se faça justiça e promova-se a reparação de danos causados a familiares de vítimas de violência policial. por questões de segurança. em sua fala. a racionalidade da burocracia jurídico-policial consiste em impedir e/ou destruir a construção de provas por parte dos familiares de vítimas. segundo ela. em uma manifestação que ela 28 28 Em junho de 2012 fui informado por Izildete que ela havia ganhado uma casa de algum programa de assistência social que não me foi possível identificar. lá. a investigação tem início a partir da versão do acusado e não da vítima que está fazendo a denúncia e a acusação. que ele não soube identificar porque estava bêbado. Não havendo o corpo da vítima para provar a materialidade do crime. pedem documentos e mais documentos que “nunca dão em nada”. 125 . lhe deu uma surra. um grupo de pessoas. tirou-lhe a roupa e o colocou para andar nu pelas ruas. A tarefa de investigação dos crimes é repassada para a família ou para a própria vítima. O caso do desaparecimento forçado é paradigmático nesse sentido. exatamente porque as provas são destruídas ou forjadas pelos próprios acusados. torna-se quase impossível esclarecer a verdade dos casos. nesse sentido. Outro relato de humilhação descrito por Izildete refere-se a uma situação vivenciada por outro filho. Ela conta também que uma entidade de direitos humanos que está acompanhando o caso prometeu que a tiraria da casa onde está morando. fazer justiça e reparar as vítimas. certa queixa em relação às ONGs de direitos humanos que. Em 2010. dando maior margem para a impunidade e não responsabilização criminal do acusado. tornando-se réu no processo. Desse modo. Outro exemplo. Esse filho foi a uma festa no bairro e. é o auto de resistência.

a mesma não poderia ser realizada em sua casa. entretanto. vez ou outra uma conversa se iniciava com moradores locais. como ela diz. na Pavuna.3. ele estava “com a consciência limpa”. Entre quinze e dezessete anos esse filho “foi envolvido no tráfico”. e lamenta que “não estava trabalhando de carteira assinada porque não teve oportunidade”. Marilene participou como assistente de pesquisa durante parte do trabalho de campo. porque temiam que “alguma coisa” pudesse lhe acontecer. também do local.1. Éramos poucos. por outros bairro. Muitas pessoas orientaram seu filho a retirar-se. Uma encontrou o corpo sem a cabeça e a outra encontrou a cabeça sem o corpo. Em 2007. e afixando cartazes em postes e bares. A mediação para a realização da entrevista foi feita por outra mãe. Era o responsável pela marcação dos jogos de futebol numa quadra construída pelo Viva Rio. por motivo de segurança.organizou em Queimados. O protesto foi também uma cobrança por justiça e consistiu em uma caminhada refazendo o trajeto que os jovens teriam feito pela última vez. 29 126 . por milicianos. sendo que um dos filhos foi vitimado na “comunidade”.3. Enquanto parávamos para pregar os cartazes. a milícia entrou na localidade e passou a controlar o território. Eram vizinhas e tinham histórias similares. 3. davam uma desculpa e acabavam por não fornecer. e contou com a participação de Marilene29. por alguns considerada favela. Milícia. mas ponderou que. Maria do Retiro faz questão de enfatizar que o filho “mudou de vida”. em memória do filho. sob um sol quente. é moradora de uma área popular na zona Norte do Rio de Janeiro. a ir embora da “comunidade”. terminando com uma visita à delegacia. segundo elas. A entrevista foi então realizada em minha casa. Maria do Retiro aceitou o convite para a entrevista. caminhando e segurando uma faixa. e ouvimos várias histórias de desaparecimento envolvendo policiais naquela área. Quando tentávamos pegar os contatos dos familiares. mas trabalhava. como já havia quase quatro anos que o filho encontrava-se afastado do tráfico. Maria do Retiro conta que. Maria do Retiro Maria do Retiro tem por volta de quarenta anos. 3. as pessoas ficavam medo. Maria do Retiro tinha cinco filhos e dois netos. e que eu já havia entrevistado. cujo filho também havia sido morto. realizando juntamente comigo algumas das entrevistas desta tese. tráfico e desaparecimento Os filhos de ambas foram mortos.

Eu fui em casa tomar banho. E ela. o pessoal estava dizendo que eles levavam a pessoa lá para a [Baixada Fluminense]. porque eles moravam na [nome da localidade]. Aí. E não tiver envolvimento com ninguém.. se você quiser ficar assim. matando. porque é viciada em crack. E eles continuaram lá. algumas pessoas que eles mataram. acompanhado da mãe. os milicianos atuavam em parceria com traficantes. Eles falaram: “Aconteceu um problema com o Válter. dizendo que tinha acontecido um problema com ele. Aí. segundo as quais a milícia entra no território para expulsar os traficantes e gerir o funcionamento de vários mercados ilícitos. Fábio: Ele morava com a senhora? Maria do Retiro: Não. Aí. vou voltar para o hospital. para a senhora”. começou a matança em série. comi uma coisinha lá e voltei para o hospital. estava com biscoito. você pode continuar aqui. não sei se vocês souberam. Aí teve uns tiros lá. E mataram. E ela ficou usando uma bolsa de colonoscopia. o pessoal falou que foi um dos filhos desse policial. E cada um recorrendo às “Gestão” é uma palavra que aparece na própria fala de Maria do Retiro. Então os policiais se afastaram da comunidade. Então. que eram inimigos da facção que meu filho frequentou. milicianos e traficantes locais de droga. E eu querendo sair de lá. Ia completar três anos.Confiante de que nada lhe aconteceria. houve um assassinato de dois jovens militares em um baile funk lá dentro mesmo da comunidade. junto com uns outros que mataram os dois rapazes. Eu falei: “Aconteceu alguma coisa”. O que se nota nessa história são “ligações perigosas” entre policiais. Eles matando. Lá. ele explicou que não tinha mais nada a ver. Passou na televisão. Ficou quem? Os agregados deles lá.. ela teve que ficar internada para fazer a reversão. Ele foi degolado. o filho. meu irmão e minha irmã foram lá me buscar. Chegando lá. levou um tiro de bala perdida.. Aí. Aí. Eu já esperava. está legal. O pessoal falava. para explicar sua situação. está tudo bem”. que a Kelly já foi operada”. para ver ela ser operada. Quando foi uma e pouca da manhã eu não conseguia dormir. sabe. eu falei para ele: “Válter. o delegado [nome] esteve lá. E ele chegou com uma sapateira que eu estava precisando lá em casa. sozinhos. Fábio: Qual era facção? Maria do Retiro: É o Terceiro Comando. cada um querendo seu “pedaço” na gestão dos mercados ilegais30. Aí me deu a sapateira. Já era antes de matarem meu filho. procurou os milicianos da área. Essa história difere-se das versões que muitas vezes circulam sobre as milícias no Rio de Janeiro. com um coração inquieto. Lá na praça mesmo.. sabe! Uma respiração ofegante. Vamos lá e tal”. de manhã. E os policiais ficaram um período lá na comunidade. trocar de roupa. Eles sumiram com o corpo dele. com uma latinha de coca-cola. que na época estava com três anos de idade. à prestação. me ofereceu. Então. E justamente eu estava no hospital com ela. E ele: “Mãe. teve uma repercussão danada. que ele queria criar o filho dele. ex-policiais e bombeiros. em uma ocasião. Aí. Fábio: Ele procurou esses policiais para conversar com eles? Maria do Retiro: É. eu cheguei no hospital e de madrugada teve um tiroteio lá para o lado da [nome da localidade]. ele morava com a namorada. que são policiais. a partir do momento que esses policiais saíram da comunidade. foi a última vez que eu o vi. Pelo relato de Maria do Retiro. Eu fui com ele. que tinha um sítio que tinha um jacaré. Aí. eu tenho uma filha que até hoje está em situação de rua. que ele estava trabalhando. Chegando lá. eles matavam a pessoa ou jogavam 30 127 . um negócio. E os traficantes que estavam dominando a área nessa época eram de facção rival à que havia pertencido o filho de Maria do Retiro. Aí tomei banho. me deu um nervoso assim. eles falaram: “Não.. os rapazes que eram da facção criminal da ADA. Então. matando. desse Miranda. eu peguei essa sapateira com um rapaz. “No início da gestão dessa milícia lá. Quer dizer.

o que se tem não é necessariamente o recurso às “mercadorias políticas”. E ele: “Mãe.. que era uma mulher envolvida na época com os rapazes lá do Terceiro Comando. Aí se envolveu. vai para a casa”. 128 . eles saíram de onde eles estavam lá escondidos com eles. A ousadia deles. que é uma psicóloga. mas simplesmente a extorsão. Fábio: A senhora conhecia essa Elisa? Maria do Retiro: De vista. eu falei: “Vocês querem dinheiro. até mesmo a possibilidade de denúncia sai do a pessoa viva”. o que a chateia mais é o fato de o filho não ter tido oportunidade de mudança e. assim. Foi aí que eles levaram os dois para a 21 DP.. polícia e milícia se confundem. Dessa vez o “desenrolo” não foi com os milicianos. mas com a polícia. ele “Vai chamar a Elisa”. Segundo Maria do Retiro. Aí eu procurando. Aí. Eles estavam de carro. Aí eu falei: “Afastar por quê? Meu filho está aí”. O cerne da crítica é que aqueles deveriam proteger.. E ele disse: “Vai chamar a Elisa que a gente quer conversar”. O Válter com seis dias saiu. Aí se envolveu. torturar. E eu disse: “Vou chamar Elisa por quê?”. Ia toda semana fazer palestra com ela.. No decorrer de sua fala. E vocês não vão levar eles na delegacia. Não sabia nem que eu era mãe dele. Que era essa mulher que.3. Mas.. E ele: “Que filho?”. pela frestinha e falei: “Válter”. Começou a ficar rebelde dentro de casa com droga. para a calçada do posto policial. procurando uma tal de Elisa. Então. Falei assim: “Vocês pegaram ele que é de menor e está esse tempo todo dentro da caçapa do camburão. envolvendo seu filho. Porque ele sabia que eles queriam dinheiro para soltar os dois. não é”. Aí. Fábio: Isso era o quê. ela refere-se à corrupção policial. afasta”. um careca que eu não lembro o nome veio e disse: “Tia. valem-se do poder para vender proteção a alguns. porque para lá todo mundo pensava que eu era irmã dele. o que é que você está fazendo aqui. afasta. Ficou depois com a Doutora Ângela. Corrupção policial e a denúncia fora do horizonte de ação da mãe Outras vezes. matar e desaparecer com os corpos de outros mais. coisa que é errada. Ele disse “Tia. Vai embora”. Aí ele “Vai embora mãe.“mercadorias políticas” (Misse. Diz que entende que é preciso lutar pelos direitos. sua crítica é dirigida aos dois. eu falei: “Válter. Querendo o quê? Dinheiro. como querendo apontar a conexão que existe entre estes dois atores. Aí. tia”. Aí os dois ficaram. como na situação a seguir relatada por Maria do Retiro. porque ainda não foi para a delegacia?”. Aí ele: “Vai chamar a Elisa”. aqueles que legalmente têm essa função. Maria do Retiro: Um policial prendeu ele e mais um menor na comunidade.. 1999) acessíveis para garantir seu poder local. nesse caso específico. não ficou nem três meses envolvido. não é. Aí. assim. ele é de menor. Aí. E eles dois dentro da viatura. eu cheguei perto. com os dois dentro. Nesse contexto.2. permitir práticas ilegais de outros. voltaram para a rua principal. vocês vão pegar o dinheiro e eu vou na delegacia fazer uma queixa de vocês”. um policial falando? Maria do Retiro: Um policial. andando tudo. mãe. Eu soube que ele se envolveu mesmo de vez depois disso. mas a corrupção policial “corta” as chances das pessoas. Quando uma certa hora eles foram. 3. ficou a tarde toda rodando na D20.

. Aí fui no IML. Essa reclamação sobre a forma como as instituições estatais. então não tinha essa preocupação de correr atrás de pensão para o meu neto. você teve que esperar para fazer o DNA? Você conseguiu enterrá-lo com o nome dele? Maria do Retiro: Não. colher o sangue.. mas sem atestado de óbito O sofrimento de Maria do Retiro estende-se em cada passo que dá para tentar resolver a morte do filho. Até hoje só tenho o DNA. No dia. O pessoal falava.”. Eu demorei para fazer o DNA. lidam com a dor dos familiares.horizonte. Todas as pessoas que eles mataram. jogavam a pessoa viva. Aí eu fui lá na Defensoria Pública.Agora deixa eu te fazer uma pergunta. Ele não trabalhava de carteira assinada. lá na DP. Aí ela disse: “Eu fui na Defensoria Pública e lá eles me indicaram”. Eu fui fazer o exame. Aí eles falaram que não. Falaram: “Mas a senhora não tem que. Depois. Mas aí eu achei que aquele DNA ali. Então. Maria do Retiro segue de um lado para outro tentando resolver as 129 . a senhora vai ter que ir à Defensoria Pública. minha irmã disse que foi lá para pedir para eles dizerem onde estava o corpo. Fábio: A senhora chegou a denunciar o caso? Maria do Retiro: Não. demorou mais uns meses para pegar o [resultado]. 3.. outra instância. eu achava que com aquele DNA ali. deu positivo. Não.3. A peregrinação pelas instituições estatais: com exame de DNA. aparece de modo geral nas falas de todos os parentes de vítimas que passam pelo assassinato e desaparecimento dos filhos. em março do ano seguinte. Aí a doutora falou: “Quem mandou a senhora vir aqui?”. Esse fato do encontro foi por volta de setembro. através de seus agentes. Desorientada. primeiro eu fui no IML e eles disseram: “Não. algumas pessoas que eles mataram. A luta para conseguir fazer um exame de DNA para identificar o filho é sempre um desses momentos em que os familiares são enviados de um lugar para outro. Que até então. de maneira humilhante e desrespeitosa. eu ficava ligando. Aí peguei o resultado. Que eu conhecia o filho dela desde pequeno.3. Aí a moça falou assim. fosse um documento que constasse que ele estava morto. sem que ninguém resolva nada. Marilene . que tinha um sítio que tinha um jacaré. sem que suas necessidades e seus direitos sejam garantidos. Até a Helena que uma vez falou assim: “Eu fiz o óbito do falecido Caio”. Aí eu fui na Defensoria e os eles falaram que não. eles matavam a pessoa. Eles disseram: “Não tem corpo. o pessoal estava dizendo que eles levavam a pessoa lá para [nome do lugar]. Quando você achou a cabeça do seu filho. para fazer o enterro. Em cada visita a uma instituição ela é reencaminhada para outra repartição. E toda vez no telefone. Fábio: Eles matam e somem com os corpos? Maria do Retiro: No início da gestão dessa milícia lá. não tem corpo”. E ela: “Não sei”.. ligando e nada. E eu falei: “O que eu tenho que fazer?”. porque o juiz é que vai autorizar fazer o óbito dele.

mas como a janela de cima 130 . Maria do Retiro conta que sua casa tem dois andares e. Não falo a realidade. está lá com papai do céu”. todo mundo. desde quando sua filha começou a usar maconha. a filha também passava por uma situação difícil com o crack. sua avó. Aí eu falo: Você lembra da tia Madalena? Ela ficou aqui na terra. Quer dizer. Embora tenha conseguido identificar os restos mortais do filho. né: “Para ficar parado lá em cima.pendências legais que a morte do filho deixou. A irmã de Maria do Retiro chegou a ser atacada com uma faca pela sobrinha. com o coração assim e ele vem. com o vício da filha. Contar ao neto sobre o pai desaparecido Pergunto a Maria do Retiro o que ela conta. todo mundo que vai com papai do céu. meu pai está agora lá em cima”. vai lá para o céu virar estrelinha”. Segundo Maria do Retiro. Aí ele: “Olha lá vó. passou a trancar a porta debaixo para que ela não fugisse. aos quinze anos. a abstinência da droga a deixava irritada. virou estrelinha. brilhando pra caramba. a gente sofrendo. Quer dizer. é o que eu falo com a [nome de uma familiar amiga]. viveu. que é da igreja católica. “A droga é o inimigo número um”. viciada em crack e vivendo em situação de rua. através do exame de DNA. Ela tem a netinha dela. ou como ela fala. Todo mundo. olhando para o céu. Preocupações adicionais: a filha usuária de crack Além de correr atrás da Justiça para resolver a morte do filho e cuidar do neto. não quero não”. às vezes comentando com minha patroa que o sofrimento me fez rir muitas vezes. Aí eu falei: “É. Quando ficava dentro de casa. o que fazer. aonde ir.. vai ser pela boca de outra pessoa. está vendo. o céu está cheio de estrela. 3. vai viver um tempão e depois vai também”. aí o céu estava cheio de estrela. Na mesma época em que o filho morreu. eu vou. A mãe do coleguinha dele ficou doente e faleceu. não é? A gente vai ficar com os netos muito tempo. uma hora vai chegar e a gente vai. 3. não é? Eles não vão substituir. Aí ele falou: “Mas para ficar parado lá em cima.5. “Até você mesmo. Ele ficou andando. Aí minha irmã. diz Maria do Retiro. Se ele souber. sabe..3. Não falei. Teve uma vez que indo para a casa da minha irmã com ele. Porque ele é elétrico. Aí ele viu uma maiorzinha. agora ela foi lá para o céu. com muita estrela. não conseguiu obter o atestado ou certidão de óbito.”. sobre o desaparecimento do filho ao neto: Eu falo que todo mundo que vive aqui na terra uma hora tem que ir embora. cumpriu o tempo dela aqui. Que ele já teve outras pessoas lá... seu comportamento foi mudando dentro de casa. falou: “É. Aí chegou na casa da minha irmã.4. Mas pelo menos uma alegria eles dão para a gente. é preciso também administrar as relações perigosas da filha. Aquela grande lá é o meu pai. mas peregrina de instituição à instituição sem que ninguém lhe dê sequer uma informação correta de como deve proceder. Aí. ele falou: “Todo mundo que vai com papai do céu vira estrelinha.3.

E eu fui na casa dessa menina. para retirá-la da rua e protegê-la das ameaças que estava sofrendo de milicianos. Aí. Aí. Mas as coisas não são tão 131 . Tempos depois fugia novamente. semanalmente. ela falou assim: “Mãe. a Kelly teve uma recaída. Porém. por que você fez isso sem minha autorização? Errou você e erraram eles. a gente está aqui. E foi lá para casa. depois voltava. me deram um encaminhamento para ela fazer um tratamento. Aí. eu vou para lá”.. Para preservar a segurança e a vida da filha. Aí eu falei: “Que dia?”. porque na área de milícia não tem. Como a casa tinha muitos problemas decidiu vender. Eles confiscaram o aluguel porque ela saiu de lá e veio para esse lugar. Maria. Só para você ter uma idéia da. após vários “derrames” onde morava. a gente vai e tal”. que é inimigo deles. não quero usar droga mais não”. na certa atrás de droga. E vai fazer um tratamento. então eu confiei nela. Eu estava doida para sair de lá. até que. Confortável porque tinha que levar as pessoas lá para ver. alugou a casa para esse casal. Estava uma maravilha. Aí eu falei: “Kelly. em Manguinhos.” Ela estava no [nome do lugar]. sei lá. Aí aconteceu isso. duzentos reais. porque eles confiscaram o aluguel. A pessoa vai periodicamente. mas enquanto não vendia resolveu colocar a filha para morar nessa casa. Aí Kelly sumiu de lá uns dias. porque o pessoal lá do mercado mudou o dia do pagamento deles”. e eu vou ter que dar lá na Associação. mãe. Eles disseram: “Não. porque eles sabem que você é menor de idade”. E ela: “Ah. porque pretendia se mudar de onde mora atualmente. Ela não pode ir lá porque eles querem pegar ela também. Quitanda. Fui lá. é para essa casa não ficar vazia”. você fica na casa vazia até vender. eu vou ter que pegar o aluguel. era uma senhora de idade. Aí. Ela: “Ah. Sumiu. conversei com o casal e tal. O circuito por onde circula a filha de Maria do Retiro é demarcado. da Simone. o chefe daqui estava preocupado com ela”. entra refluxo do esgoto nos ralos. Quer dizer. Quer dizer. Já esteve na cracolândia. E ela: “Ah. Mostrei a documentação da casa. Aí eu fui lá para conversar com os dois [o casal que alugou a casa].. pela milícia e polícia. comandada pelos milicianos. A casa deu problema. aí mudou o dia. E eu vou levando as coisas para você lá”. Maria do Retiro chegou a comprar uma casa em outra localidade. falta água para caramba. perto da Via Light. Eu falei: “Kelly. eles mudaram o dia.. de repente. Porque eles pagavam no final do mês. eu quero sair daqui. teve que se mudar da área. a filha pulava e fugia pelos telhados dos vizinhos. cheguei no Juizado de Menores. São trabalhadores. procurando e nada. Ela falou: “Ah. com uma senhora lá que é vizinha. se você quiser. de um lado. Aí. Aí não tive como porque eu que tenho o controle do horário dela.. foi registrada em cartório e tal. Veio e tal. eu quero dar um tempo dessas drogas. entro lá e cadê Kelly. mãe. Comprei uma casa lá. eles vão passar”. tia. Aí eu fui lá. de outro. Sabe o que ela fez? Ela veio para uma tal de Quitandinha. né? Quantas vezes eu marquei com ela para tirar a identidade e ela não aparecia. Eu cheguei a comprar uma casa naquele lugar que eu falei. A milícia está aqui agora”. vou morar na casa da Simone. Aí. E eu confiei. pelas drogas e pelos traficantes de drogas. o rapaz foi me falar: “Olha. Entra água de esgoto. A casa é toda maquiada. não é? Em comunidade você sabe como é. Só que não é um lugar onde fica internado. em uma época.não tinha tranca. E eu falei: “Kelly. vendem peixe. Ela: “Mãe. Engordou. Ela alugou a casa para um casal. Está fora de casa desde os quinze anos. aqui para o lado da Pavuna. essa minha filha é usuária de drogas. fez amizade com as meninas. “Mãe. eu vou ligar para eles e vou falar com a senhora”. a filha alugou a casa para pessoas desconhecidas e a milícia local passou a exigir que o aluguel da casa fosse repassado para a Associação de Moradores. mas na hora que tiver que sair. Ficava dois ou três dias fora de casa. Ficou uma maravilha.

E eu: “Fala. porque lá em casa não podia. mas ela estava aqui na cracolândia”.. E eu falando: “Kelly. vai me dar”. correndo. E eu: “Kelly. para uma rua deserta e tentou me agarrar. ela mora onde?”. estava com medo. Para a casa de um conhecido. Ela. E ela: “Mãe. eu vou para a casa de uma amiga minha. eu fui pegar um táxi e. porque ela sabia que a pessoa que estava atrás dela estava ali fora. viu e não ofereceu uma ajuda. Aí. mãe. E ela: “Mãe. no estado que estava e ninguém se manifestou. Aí. como da última vez que eu tinha visto. meio desconfiada. Ao contar as histórias da filha. uns cinco minutos depois. Ela perguntou: “Ah. E eu: “Que delegacia?” E ela: “[Número da delegacia]”. termina aqui que eu vou lá correndo para a DP. Eu entrei lá dentro e ela estava sentada.. Ela falou: “Não. eu estava em casa. Vamos lá que eu vou comprar um chinelo para você”. sozinha. Eu fui no balcão. Eu não acreditei na história dela. Atendeu e eu ouvi a voz dela assim. passou no cabelo”.. eu vou para a delegacia”. com mau cheiro. mãe. E eu falei: “Kelly. pelo tempo que ela me ligou e eu cheguei na delegacia. ele tentou me agarrar. Quando precisou recorrer a uma delegacia de polícia para registrar uma ameaça que a filha vinha sofrendo. O meu netinho estava meio doentinho. Falei com taxista se ele podia me deixar na Escola Bahia. Vou sair daqui e tal”. não queria me falar. E para ela sair de lá da delegacia!? Não queria sair. A pessoa nem conseguia ficar perto dela com o cheiro. Comprei o chinelo lá perto da Estação de Bonsucesso. ela falou: “Mãe!”. tem alguém aqui? Você está com problema com alguém que está aqui perto?”. Não conseguia ficar perto dela. mãe. não posso ir”. a gente vai embora”. Eu falei: “Carla. o que aconteceu?”. 132 . Falei: “Minha filha está com um problema. Eu olhei assim e falei: “Vou abrir BO aqui sem saber o que contar?”. No relato de Maria do Retiro. e eu estava fazendo uma sopinha para ele. falei com a menina que atende. Eu fiquei tão indignada com o olhar da garota para ela. Eu falei: “Vamos embora. mãe”. nervosa e uma voz de homem no fundo.. Aí. falei: “Então. Ai. Peguei um táxi para ir para Bonsucesso. Kelly. é sua mãe?”. Aí a menina olhou para ela. dentro da delegacia. Então. ela foi ao banheiro. Aí. Aí ele: “Vai me dar. Nas delegacias é a Polícia Civil que atua. mãe. E ela: “Eu não peguei nada não”. O que se tem são disputas. Aí minha filha ficou. me contou uma história. E ela: “Não. aí eu só tinha três reais. eu tentava levar ela para casa. Com aquela indiferença. na Brasil. mas eu não estou acreditando. Voltei com o chinelo. Ela estava sofrendo ameaça ali em frente. eu falei: “Kelly.. Ela estava descalça. ora resultam em mortes e desaparecimentos. novamente aparecem as críticas à polícia. olhando para fora. que ora resultam em acordos sempre provisórios. Aí ela não queria sair. Até mau cheiro ela tinha. com quem a gente vai falar aqui”. Segundo o relato de Maria do Retiro. Ela falou assim: “Que problema?”. descalça. Assim. Ela falava: “Não. Maria do Retiro sentiu na pele o desprezo da funcionária que a atendeu. ela ligou de novo.”. à forma humilhante como são tratados os moradores de favelas quando precisam recorrer ao serviço policial. E ela: “Não. E ela: “Não. me levou para outro lugar. Quer dizer. toca meu celular. Ela estava [fedendo] mesmo. ele: “Cadê. dentro das delegacias.Começou a chorar e desligou o telefone. E entrou na delegacia.separadas assim. toda suja. Kelly”. o olhar da atendente foi tão ofensivo que na mesma hora ela desistiu de fazer o Registro de Ocorrência. procurando alguém.. molhou a mão. que eu não quis nem fazer Boletim de Ocorrência. Sentada e nervosa. Quando foi um belo dia. Olhando para o vidro. eu tentando ver [o número do] orelhão. fiquei tão indignada. E chorando. Eu disse: “Ela mora em [nome do lugar]. Para você ver a indiferença da instituição policial. nesse tempo que ela ficou em Manguinhos. Aí. Aí. eu acredito que ela estava em frente à delegacia. pegou a filha e foi embora. né. milícia e polícia aparecem várias vezes como se fossem sinônimos. espere aqui que eu vou lá fora comprar um chinelo para você”. na cracolândia. Aí. você está onde?”. eles muito menos vão acreditar. cadê.

[. estava armado o cenário para a desconfiança.] de modo geral. é em si uma ocorrência vista dentro do trabalho policial como sem importância. levar comida para ela. vivendo na cracolândia. A condição de usuário desautoriza e descredibiliza qualquer denúncia de um usuário de crack na condição de vítima. a minha filha tinha que levar lá. constrói suas hipóteses sobre o que poderia ter acontecido em cada situação. além de dizer que a filha morava numa favela. a primeira pergunta que a atendente na delegacia fez foi: “Ela mora onde?”. Na casa das minhas irmãs. dizendo o nome do lugar onde a filha morava. entrevistei Áureo.vamos embora”. Aí. dentro da hierarquia das ocorrências policiais. Ao responder. Associado ao local de moradia e à reputação da pessoa desaparecida. No cenário de desconfiança em que os casos são registrados.4. e ressalvar que ela encontrava em situação de rua. policiais trabalham com as hipóteses de morte. Nesse caso específico.. 2012). Ao procurar o serviço policial. porque você fica levando comida para ela”.. (Rui. muitas vezes policiais expressam suspeitas de que as desaparecidas estariam se prostituindo ou teriam sumido com seus namorados”. 'só de olhar' policiais levantam parcos conjuntos de hipóteses sobre o que pode ter passado a certos desaparecidos. correspondem a uma categoria que goza de uma reputação muito negativa. prisão e internação. minha irmã: “Assim ela nunca vai largar o vício. Conforme nota-se no relato. todo dia eu deixava a marmita pronta. conferir a etnografia de Rui (2012). da favela e de seus moradores anuncia um segundo artefato do trabalho policial em torno de casos de desaparecimento. o policial geralmente elabora seu “olhar”. Eu já tinha ouvido falar do caso do Áureo. a informação veio complementada pelo “estava na cracolândia”. Ferreira (2011: 148-149).. apenas enunciar que mora em favela já é motivo suficiente para desconfiança e para que o policial atendente construa hipóteses para o que provavelmente tenha ocorrido.. casos de homens jovens registrados como tendo ocorrido em favelas são frequentemente encarados a partir de um leque de hipóteses ainda mais restrito que o característico da rotina burocrática percorrida por desaparecimentos. Usuários de crack são antes de qualquer coisa vistos como corpos abjetos32. porque ele é recorrentemente citado e usado O desaparecimento. 3. dei sinal. em sua etnografia sobre uma delegacia especializada em investigar casos de desaparecimento. Os usuários de crack. que destaco a seguir: a construção de reputações. não podia levar ela lá para casa. Quando ela estava no apartamento. Áureo No dia 20 de novembro de 2008. Aí. dia da consciência negra. A esse respeito. diante de muitos casos esses mesmos agentes afirmam ter certeza do que se passou: os jovens estariam envolvidos com uso ou tráfico de drogas e teriam sido mortos em consequência disso. 31 133 . chamados pejorativamente de cracudos. faz a seguinte observação: “A inferioridade do desaparecimento. Aí veio o ônibus 576. São mal vistos pela sociedade e pela polícia. Já diante de casos protagonizados por mulheres jovens e meninas. Aí minhas irmãs não querem mais ajudar. Ele teve dois filhos assassinados pela polícia e um terceiro filho e a nora encontram-se desaparecidos. por causa do problema dela com vício. Se [. Perto da Escola. A reputação do reclamante ou denunciante é um artefato central na orientação do trabalho policial31.]. ela ficou uns tempos. 32 Sobre o uso e comércio de crack. Acham até que eu tenho que abrir mão dela.

Enquanto conversávamos. No dia da consciência negra. Áureo tinha 62 anos. Enquanto esperávamos alguém chegar para abrir a porta da sala. uma pesquisadora argentina e eu. 20 de novembro. em razão do grande número de pessoas assassinadas e desaparecidas numa mesma família. Notou que conversávamos sobre o desaparecimento de pessoas e quis participar da conversa. Alguns meses depois. A primeira vez que o vi foi na sala da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. de vez em quando dava uma risada tímida. Teve 9 filhos. sua mãe e seu pai. conversávamos no corredor Áureo. A entrevista foi realizada na casa do pai e da mãe dele. Foi nessa ocasião que combinei com ele de fazer a entrevista. quando um senhor que trabalhava em um escritório na sala vizinha à da Rede aproximou-se de nós. Falaram da vida de feirante. Desta vez foi no enterro de Vera Flores. encontrei Áureo novamente. E complementou. dos netos e bisnetos de dona Carlota. quando este senhor se aproximou e parou perto de nós para esperar o elevador. São todos lavradores e feirantes e Áureo se dedica a cuidar da roça do sítio. O segundo momento foi a entrevista propriamente dita. Há duas casas no sítio. Enquanto eu tomava um café. Numa delas mora seu pai e sua mãe. Nesse momento nos dirigimos para a sala da casa. com o desaparecimento do corpo. Seu pai ficava sempre calado. numa ocasião em que alguns familiares de vítimas de violência foram convidados pela Rede a gravarem depoimentos sobre os casos de violência que os haviam atingido. Quando o entrevistei. o lado bom era que a família não precisaria gastar dinheiro para fazer o enterro. Áureo nos contava sobre o caso de desaparecimento do filho e da nora. há vários governos. lá estava ele me esperando. Começou dizendo que. é implementada no Rio de Janeiro. das filhas gêmeas de Áureo. Os depoimentos seriam apresentados em um evento organizado pelo Ministério da Justiça e realizado em Brasília. antes de entrar no elevador. É sempre relatado como um caso exemplar da política de segurança pública repressiva que. dizendo que se seus filhos sumissem ele não se incomodaria e não perderia tempo procurando. dona Carlota. um momento de conversas informais na cozinha da casa onde estavam presentes. porém apenas 6 estavam vivos. eles foram me contando um pouco da história da família. Ele mora na outra.politicamente por militantes da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. a mãe de Áureo preparava o 134 . uma das Mães de Acari. Quando desci do ônibus. Áureo combinou de encontrar comigo numa estrada próxima de sua casa. Andamos alguns metros até chegarmos no sítio onde ele mora. além de mim e de Áureo. O encontro com Áureo pode ser dividido em três momentos: primeiro. lá estava eu me dirigindo à casa de Áureo para entrevistá-lo.

limitei-me a perguntar se ele se incomodava de ficar falando sobre esses casos. no caso da entrevista com Áureo. Ele serviu o Exército e. mas. porque tudo já estava se encaminhando para um desfecho. No decorrer da entrevista ele fez comentários sobre os casos dos filhos assassinados. no caso de Áureo não havia limpeza moral alguma. Prossegui retomando uma história que ele já havia brevemente comentado comigo. não era incômodo algum. com medo de produzir um mal estar em meu entrevistado. sobre suas relações conflituosas com o Exército. A entrevista é finalizada com Áureo relatando sua experiência como militar. apenas um ou outro pedido de esclarecimento de algum ponto que havia ficado obscuro. com o objetivo de romper a associação da vítima com o envolvimento no crime. a pesquisa que eu estava fazendo. Diante da minha falta de coragem para prosseguir perguntando sobre o terceiro caso do filho assassinado. quanto a este. Eu fazia poucas intervenções. a possibilidade de continuar a conversa se abriu novamente quando ele disse que. de repente. Embora minha experiência de entrevistar familiares de vítimas de violência me dissesse que geralmente essas pessoas não se incomodavam em dar entrevistas porque tinham necessidade de falar sobre o assunto para denunciar o caso e que esse tipo de entrevista tem sempre algo de terapêutico e quase catártico quando os familiares relatam suas dores. Sua mãe e seu pai já haviam almoçado enquanto conversávamos.almoço. depois de um tempo. Ele aceitou que a entrevista fosse gravada e conversamos por quase duas horas. Em um primeiro momento. sendo inclusive preso e torturado. Um dos assuntos foram os conflitos que ele teve com a “moçada do tráfico”. Deixei a entrevista correr o mais espontaneamente possível. Enquanto almoçávamos continuamos a conversa. Recorrentemente ele se referiu a envolvimentos dos filhos com a criminalidade. tentei explorar o caso de um dos filhos assassinados. para ele. já fora. Mas ainda havia outro filho assassinado e. Um terceiro e último momento foi o almoço. Expliquei rapidamente a Áureo os motivos da entrevista. Enquanto que geralmente há um esforço de “limpeza moral” por parte dos familiares de vítimas. Fiquei constrangido. uma questão me apareceu mais nitidamente: até que ponto vai o nosso direito de ficar remoendo e revirando com perguntas e mais perguntas as dores de nossos entrevistados? Digo isso porque a estrutura narrativa da entrevista se iniciou com o caso do desaparecimento do filho e da nora. Essa pergunta foi fundamental para continuar a entrevista. não tive coragem de prosseguir com mais perguntas. Disse que uma vez a “moçada do 135 . particularmente com assaltos e roubos de carros. veio a ter alguns problemas. O motivo de meu constrangimento era que a fala de Áureo se diferenciava dos relatos de outros familiares de vítimas de violência. seus sofrimentos e suas experiências traumáticas.

depois voltou de novo. Ele chega aqui. de direitos humanos.Delegacia de Polícia -. O filho ficara de levar um mecânico para consertar um carro para Áureo e a informação era que não precisava mais. eles deixaram uma filha. fiquei sabendo disso por intermédio da própria polícia. Ainda mais eu sabendo do agarramento que ela tinha e meu próprio filho. Ficou falado que ele tinha feito um assalto e o negócio pegou. e vai abandonar o filho. que o cara vem pra rua devendo. Passemos. quando chegou no outro dia. E ele foi perseguido pela polícia. Bom.vamos dizer assim. Ela acabou indo e também sumiu. porém não sabia dizer se era algo grave. ligaram para mim. Depois disso mudou dali por um tempo. pois ele mesmo já havia arrumado alguém para fazer o serviço. não? Aí eu fui procurar o pessoal da.1. Como é que um casal vai abandonar o filho. que não estava há muito tempo na rua. que a gente não sabia de nada disso. que trabalhava em uma creche.. Áureo disse ter trocado tiro com os bandidos e “botado eles pra correr”. foi morar no Lins. uma das coisas também que eu estou querendo entender é essa parte nossa jurídica. Eles não estavam querendo fazer o registro. que ele não tinha retornado. A nora.tráfico” tentou entrar em seu sítio para pegar um porco e fazer um churrasco. agora. Aí as minhas filhas indo nessa 24ª DP . Quer dizer. Áureo perguntou se ela não queria que ele fosse junto. né. Áureo pergunta à nora o que aconteceu. que ele tinha desaparecido. deixaram uma filha para mim com seis anos de idade. tinha puxado uma cadeia e estava com a lei. Não vou na delegacia sozinho. Sua reposta foi que: Não ficou esclarecido. Veio para rua. para mim e outras pessoas que estavam junto comigo no quartel. não querem falar para ninguém. Se fosse um casal até sozinho. né. não vou especificar. Quer dizer. Falando que meu filho tinha assaltado com um trinta e oito.4.. mas ele próprio falou para a gente. ele veio para a rua. Insisto e pergunto a Áureo o que teria acontecido ao filho. dizendo que Quintino é uma área de milícia. vai passear. nosso pessoal da rede. ao relato do caso em si. ela disse que não precisava. Danielle aproveita a ligação e informa a Áureo que seu filho ligara dizendo que estava na casa de um amigo em Quintino. 3. pegaria um moto-táxi e iria para Quintino. mas ainda estava devendo cadeia. vai fazer isso e aquilo. né. a gente está cansado de ver isso 136 . porque até um. e que havia se machucado. porque o cara é bem graduado dentro da polícia. mas ela não sabe dar detalhes da história. Filho e nora desaparecidos 28 de novembro de 2006. a gente até poderia [supor] que de repente eles estão num lugar. Mas um casal com filho jamais ia fazer isso. que versões teriam circulado.. garantia o direito dele. desapareceu. ah eles não estão querendo fazer o registro. pô? Não tem cabimento. “Pô. mas ele foi fazer assalto com um trinta e oito”. Ele então manifesta sua preocupação a Danielle. era a 24ª DP lá em Quintino e eles não estavam querendo registrar. Quer dizer. Aí eu falei.. ele arruma é mais cadeia. Áureo liga para a nora Danielle para passar uma informação ao filho Leandro. que é a Delegacia de registro. disse que acabaria de dar banho nas crianças.

quem comete crime no Brasil não fica preso.. o que aconteceu? Aparece um casal. né? Tem que estar preparado.aí. que não deram em nada: Fizeram um registro em nome da minha filha como desaparecimento e eu fiz um R. incendiaram o carro com as pessoas dentro. a gente estava mais próximo realmente. ele conta. dizendo que poderia ser o casal que Áureo procurava. indignado. Segundo ele. mas não tem nada a ver uma coisa com a outra. ele conta que foram feitos dois Registros de Ocorrências. por exemplo. sem que este esteja preparado para retornar ao convívio social. Dois corpos carbonizados e tal e tal e tal. mas aí. que era aqui em Quintino para Engenho da Rainha. (Registro de Ocorrência) como homicídio que não foi investigado. Aí o que eles fizeram? É a ordem. cara. desapareceu o casal. No trecho da entrevista acima. Aí eles não me deram o telefone deles. vai para dois anos. Ele vai fazer as mesmas besteiras que ele fez anteriormente. exame de DNA. Crítica ao tratamento policial O tratamento policial dispensado ao caso também é criticado por Áureo. que policiais armados de fuzis entraram em sua casa procurando o filho e dizendo que. se o filho estivesse preso. Áureo lamenta o não funcionamento do sistema prisional brasileiro.O. Eu acho que um cara desde o momento em que ele pratica um delito. o meu filho [e a nora]. uma parente de umas pessoas. Entendeu? Quer dizer. mas eles não me deram o deles para mim. talvez não tivesse morrido. porque já está aqui o casal”. o Complexo do Alemão também não está tão longe da rua do fato onde tinha achado os corpos carbonizados. quando. aí a polícia descartou. vamos ficar 137 . como se fosse o suposto casal. Aí quando nós fomos fazer o registro na sexta-feira. descartavam a possibilidade de ser o filho de Áureo sem que fossem feitos procedimentos para identificação do corpo. Você vê que tem as duas opções. Entendeu. quiseram resolver o caso empurrando cadáveres encontrados pela polícia para a família. segundo o qual. ele não vem preparado para a rua. Direito tem. eu dei o meu pra eles e falei. e nenhuma das duas até hoje. Quer dizer. Colocaram aquilo na mão da gente.4.2. mas o que adianta o direito sem a pessoa estar preparada para botar o pé aqui do lado de fora. Ele acredita que. Ele não se comporta. para ele vir para a rua ele tem que estar no direito. e um cara. quando aparecia apenas um corpo. “teriam o maior prazer em matá-lo”. Além disso. embora o sistema penitenciário não pare de crescer. dei meu telefone para eles. Mas isso não poupa a polícia de críticas. No relato abaixo. pagando pelos delitos que cometeu. 3. que rapidamente coloca o preso na rua. praticamente não houve investigação do caso. O carro pegou fogo. como. Aí aparecem algumas pessoas de lá do Complexo do Alemão procurando também por esses cadáveres. “era um abraço”. Outras vezes. Áureo expressa um entendimento amplamente compartilhado na sociedade brasileira em geral. que tinha desaparecido uma prima. dois cadáveres que foram encontrados no Engenho da Rainha.. quer dizer. por exemplo. não deu em nada. se o pegassem. né. quando está ali aquela discussão para eu fazer o depoimento. e foi o que aconteceu. a responsabilidade foi repassada à família. ela estava morando e namorando o cara. Quer dizer. “não cara. Carbonizados. não.

né. mas ela trabalhava aqui no Hospital da Marinha e ela conhecia a Danielle. Nas várias visitas a delegacias. a minha prima. entendeu. A minha nora não. que eu saiba não. Na verdade. O fato é que ela viu os dois presos pela polícia. está me entendendo. por este fato aí. quase que enterrados como indigentes lá. hoje em dia. Outra imperícia da polícia. Ele chamou atenção do policial. segundo Áureo. Não sei se ela foi. Eu fui uma vez lá e não tive coragem de parar. Eles pelo menos tinham um [cadáver]. nunca mais nem passei nessa rua. ficou a cargo de Áureo. Quer dizer. quase assim como daqui para ali perto. Tinha uma outra testemunha. O trabalho de investigação. eu tenho que ver lá. Se fosse meu filho e minha nora. Mas. Essa menina eles não intimaram. porque os dois cadáveres foram colocados no cemitério de Campo Grande. fazer o enterro.. aí tem um. então o que o promotor mandou é eu cobrar isso aí. Mas você também não pode falar nada. não está querendo saber se o filho dele está sendo procurado”. que diz que é uma vila. depois quando os corpos foram para a necropsia. era uma gravidez precoce. Ele conta que foi ao Ministério Público. É o que eu sei. três meses de gravidez. que ela realmente estava. a pessoa que eles estavam procurando estava grávida.. para fazer o exame. Ela viu. O promotor substituto orientou Áureo a cobrar da polícia uma investigação da casa onde supostamente seu filho teria ficado em Quintino. a minha nora. Mas eu tive esse grande 138 . falou com o policial: “Ele está aqui procurando o filho dele desaparecido.. né.. ele não tinha certeza se essa testemunha chegou ou não a prestar depoimento. depois quando foi feito o DNA. Ela não conhece meu filho. ai foi descoberto que a menina estava realmente grávida. número 74. Na segunda vez. de pouco tempo. Depois quando intimaram ela não compareceu. E realmente falou a roupa que ela estava. mas de qualquer forma eu voltei à estaca zero. pô.. Os policiais que estavam me ouvindo na delegacia falaram para mim: “Seu filho é bandido. eu fui lá cara. a menina estava com dois. O que não aconteceu. que eu saltei no ponto de ônibus para ir lá. a gente ia lá para realmente consumar. teria resolvido.juntos. conforme relatado por sua nora. Eu ficava no que eu estou. mas. eu. que deu uma assistência. ficaram lá num lugar paupérrimo nesse cemitério. tão esquisita.. não sei o que houve. que foi na rua. um delegado. Sem saber nada praticamente.. alguma coisa assim. ou desinteresse. eu não consegui. porque não houve uma investigação. eles já vieram com essa hipótese.. a parente que nós estamos procurando está grávida de três meses. Seu filho está sendo procurado pela polícia”. foi deixar de intimar uma testemunha que dizia ter visto o filho e a nora serem presos pela polícia... um dos delegados que mais contribuiu. hoje eu tenho quase certeza de que se a gente faz o DNA junto ali ia. como geralmente ocorre com os familiares. e a promotora responsável pelo caso estava de férias. mas me deu uma coisa tão estranha. ela viu os dois presos com a polícia. A delegacia mandou uma intimação para a Rua da República. Quer dizer. quer dizer. mas não demorou nada na delegacia. porque a menina estava grávida. que talvez de repente. eu peguei o ônibus e fui embora. tenho quase certeza que era a pessoa que eles estavam procurando. pelo menos. Isso era o que mais o incomodava. Áureo teve que ouvir diversas vezes dos policiais que o filho era bandido e estava sendo procurado pela polícia.

tinha o objetivo de analisar as formas como os moradores de espaços de classe média tematizam e problematizam a violência urbana. o envolvimento do filho de Áureo com o crime não permite manter tal expectativa. o que pesquisamos etc. Então como é que eles vêm falar isso comigo. o desaparecimento é tido como certeza de morte. A acusação de bandido que pesa sobre o filho e a trajetória de envolvimento com o crime. dia vinte e oito de novembro. Não quero saber. Diferente das mães que. não estão desaparecidos. “O juiz fulano de tal também está procurando. Sem esclarecimento nenhum. Disse que não poderia passar imediatamente o contato dessa mãe sem 139 . mas eles estão mortos. Foram várias situações como esta. supostamente em razão da ação de uma milícia. Quer dizer. o que fazemos. lá estava Áureo novamente investigando se eram de seu filho e da nora. leva Áureo a uma quase certeza de que o filho está morto. Eu falei: “Quero ver é achar!”. praticamente retira o direito do pai de fazer um registro de ocorrência e ter seu caso investigado. em Copacabana. conhecida pelo pai.5. Não tem corpo. Essa psicóloga foi entrevistada por mim para uma pesquisa que. A psicóloga ficou muito interessada no tema e foi nesta circunstância que me disse que atendia em seu consultório uma mãe. Quero ver achar ele. em termos gerais. e estou nessa situação que eu estou falando. 3. Quer dizer. como é que vai falar para mim que ele está sendo procurado. muitas vezes somos interpelados a falar de nós mesmos. Eu também estou procurando. neste caso. Apesar de não haver a materialidade do corpo.constrangimento de na minha cara. cujo filho estava desaparecido. Quero ver achar. onde moramos. eu estou procurando meu filho. A cada encontro de ossadas ou de cadáveres divulgado nos jornais ou comunicado pela polícia. Foi numa dessas situações que falei a esta psicóloga sobre a pesquisa que eu estava fazendo sobre desaparecimento de pessoas/pessoas desaparecidas. eu também estou procurando. Maria Cecília e Laura O contato com Maria Cecília seu deu por meio de uma psicóloga que conheci quando realizava um trabalho de campo no Bairro Peixoto. mesmo após anos e mais anos do desaparecimento dos filhos. lá em Jacarepaguá o juiz beltrano também está procurando”. o que eu tenho para falar para você? Já vai fazer dois anos agora. Neste caso. praticamente eu tenho essa noção concreta que eles realmente estão mortos. Além de fazermos uma porção de perguntas para nossos entrevistados. alimentam a esperança de reencontrá-los vivos. o fato de o filho estar sendo procurado pela polícia.

que não ia. quando meu interesse ali era também pesquisar como os moradores de classe média lidam com a temática da violência urbana. porque era o aniversário da mãe e eles iam. dois dentes em baixo. mas iria conversar com ela e provavelmente ela aceitaria me conceder uma entrevista. A entrevista foi realizada no local de moradia de Maria Cecília. Falar para um público não acadêmico. ele se arrumou. armada pela namorada.1. 140 . Era o aniversário da mãe de Kátia e aconteceria uma festa em Duque de Caxias. falei para ela: “Vai porque a mãe é sua. O namoro iniciara há aproximadamente um mês e a namorada frequentava o local de moradia de Ramon porque tinha uma avó que também morava ali. porque segundo ela. Aí ele ficou naquela enrolação. à qual Kátia desejava que Ramon comparecesse. no fim. me passou os contatos para que pudéssemos nos comunicar. moradora de Duque de Caxias. enfim. moradora de uma área popular na Zona Sul. como nesse caso.5. o filho caiu numa “cilada”. basicamente sobre o desaparecimentos de pessoas pobres. Em muitos relatos de familiares. Aí eu cheguei. estava um tempo frio e na sexta-feira ele tinha arrancado dois dentes em cima. a figura da namorada. Todos ficaram muito sensibilizados e chocadas com as histórias que ouviram. Segundo Maria Cecília. e dela também participou sua filha Laura. o filho Ramon. O desaparecimento começou com a história de uma festa. uma menina de 18 anos. e também porque não via com bons olhos essa namorada. acabou. e a irmã [da namorada] ligando. Maria Cecília não queria que o filho fosse. Foi uma situação bem diferente das que eu estava acostumado a participar. O filho saiu com a namorada e “sumiu” Maria Cecília é gari. Quando foi no dia 22 de novembro [de 2008]. Aí. após esta aceitar me conceder a entrevista. que não ia. que não ia. Ele ia conhecer os pais [da namorada]. Deixa ele. A psicóloga. Estava chovendo. Segundo seu relato. estava namorando Kátia. embora muitos tivessem passado pela universidade ou tivessem algum vínculo com ela. ela veio aqui em casa buscar ele. conversou com a mãe do jovem desaparecido e. ele não conhecia o “subúrbio”. 3.que fosse autorizada. Também recebi convites dessa psicóloga para falar em eventos por ela organizados no Bairro Peixoto. é apontada pelas mães dos jovens desaparecidos como responsável por levar o filho para alguma “emboscada”. ligando: “Você não vai vir ? Você não vai vir? Vai ficar aí por causa do seu namorado e não vai vir para o aniversário da sua mãe?”. porque o Ramon não conhece o subúrbio”. de 20 anos. ou alguma mulher com outro tipo de vínculo.

primeira vez. Como é que chegam seis pessoas. e quem estava do outro lado da linha era Kátia. os dois ficaram de aparecer para almoçar com Maria Cecília. Eles almoçaram. quis falar com Ramon. enrolando. mãe. para piorar a situação.” Eu falei: “Não.” “Tia. sou eu a Kátia”. ela: “Laura.. passaram [o dia] juntos. porque Ramon não tinha o hábito de sair de casa para lugar nenhum e ela conseguiu retirá-lo de casa e levá-lo para um lugar que ele nem conhecia. ela resolveu almoçar.Só que o Ramon não tinha juízo e o Ramon não conhecia o subúrbio. sequestraram o Ramon e levaram. Kátia. Maria Cecília e a filha Laura comentam que essa namorada do filho é “poderosa”. aqui é milícia. Eu estava sentada aqui. “Ele foi para o campo jogar bola com o irmão da Kátia e chegou lá. Quem atende é a irmã de Ramon. Eu falei: “Não. Depois de muito esperar. Eu falei: “O que aconteceu com o meu irmão?” [em tom apreensivo]... um rapaz vai num local que nunca foi. eu não vou não. o Ramon”. não denunciaram. enquanto isso procuravam perplexos explicações para o que estava acontecendo. Ligaram para toda a família comunicando o ocorrido. o telefone toca. Maria Cecília pegou o telefone e ouviu a mesma história. Ela conta que preparou o almoço. Nesse momento. Aí ele falou: “Não.” Aí ele estava com muita dor de dente. porque a voz era masculina e disse assim: “É que aconteceu uma coisa assim. Aí já entrei em desespero. eu pedi para ela fazer a minha unha. você está bêbada?”. não tinham o telefone da casa da namorada de Ramon. mas nesse momento a ligação caiu. deu sete horas. Atiraram dentro do carro e levaram. Aí nisso. alguém tomou o telefone da mão dela. não. E falei para ela: “Você vai e deixa ele aqui. não precisa ficar com medo não porque aqui não tem negócio de facção não. E fazendo. né? Ela: “Não. enrolando. um beijo muito quente. isso era seis horas da noite. já chegamos está tudo bem. chega lá e simplesmente seis pessoas sequestram ele. e eles não viram o carro. aí eu vim atender era ela. porque eu acho que não vem mais ninguém”. quando Kátia ligou. tipo uma tragédia com o Ramon. Começava o drama e. minha irmã chegou e estava sentada ali.. Aí deu sete horas. [Laura] Após ouvir a notícia Laura desmaiou. Aí ele veio me deu um abraço muito quente. porque isso está me cheirando a uma cilada”.” Eu falei: “Chegamos aonde?”. Vou fazer o que lá? Porque eu não conheço nada lá. Laura. Aí eu falei para ele: “Meu filho. então eu pedi que ela [fosse]. fez “um monte de coisa”. você não vai. mas eu disse para ele não ir... do dia vinte e dois. simplesmente chegaram seis caras. não fizeram nada”. Quando foi quase nove horas da noite o telefone tocou. deu oito horas. Minha irmã sentou ali e eu aqui. “Na minha casa”.”. se questiona Laura. “Isso não pode estar acontecendo. Eu atendi o telefone. Maria Cecília diz que. Porque eu pensei que ela estava no aniversário e para mim a festa tinha continuado. e nada dos dois aparecerem. “Vou almoçar porque eu estou com fome. Entre a perplexidade e a urgência de correr em busca de informações do paradeiro de 141 . a menina: “Ô tia. não pode ser”.” Eu falei: “O que aconteceu com meu irmão?”. Ele tomou banho e se arrumou. No dia seguinte à festa.” Após o telefonema de Kátia. Eu falei: “Ué.

Aí nós saímos daqui fomos lá para a Cinquenta e Nove. segunda de manhã.. Porque se está dentro do carro tinha que aparecer o carro velho. Aí a gente começou a fazer contato com eles [os familiares da namorada de Ramon] de novo. porque aqui não registrava queixa.. na delegacia mais próxima. Na época ele era menor. Fábio: Quando ele era menor? Laura: É. a avó dela? Laura: Que mora aqui. oito e pouca da noite. Fábio: Tinha que fazer a ocorrência lá? Maria Cecília: Lá. Conseguimos entrar em contato com a avó. ele usava drogas. Nós fomos para a Meia Dois. menos um. então você vai. Fui eu. porque a jurisdição é de lá. aí a moça disse que a gente teria que ir em Caxias.. mas assim tipo um descaso. é assassinato. Entramos em desespero. Já eram sete horas da noite e a gente não tinha ainda fundamento nenhum. não conhecia nada. ela. A menina. tinham trazido para o morro daqui. Laura: Espera aí mãe.. nós saímos. Fábio: Que mora aqui. que tinha [tacado fogo nele]. minha 142 . A gente tem que saber o que realmente aconteceu”. eu não vi onde está. já seria numa segunda-feira. Eu não vi corpo. Aí chegou lá. Porque até então. né. como se fosse assim tanto faz. Maria Cecília: É. [A delegada] foi ligou para a Cinquenta e Nove e tinham dito que tinham encontrado um corpo com as características do meu irmão. que era vizinha. já é sete. Só para não. a tia dela veio. né. como a gente vai fazer?”. eu falei: “Não. Maria Cecília: Quando ele era menor. Aí fomos. Fábio: Morro daqui? Laura: É. ficamos desesperadas. Até falei: “Vamos para Nova Campina. para eles. porque ele não estava lá.Ramon. só interromper um pouquinho. meu irmão. Não é? Com as ossadas dentro. aí eu falei. Fábio: Não sabia de nada. Os caras disseram que tinha trazido ele vivo para o morro. Não temos nada a falar. Eles cada hora contavam uma história. Aí todo mundo: “Vamos pegar o telefone. Aí ela falou. Ela foi na 14ª. Aí fomos. aí eu conversei com ela. É pobre não tem dinheiro. porque desde quando eles falam que ouviram dizer que tacaram fogo é porque mataram. a gente tem que chegar lá. a peregrinação. Ouviu dizer.” Aí fomos [andando] na casa da avó dela. Entendeu? É menos um. Aí quando foi no dia vinte e quatro. Porque de qualquer forma a ocorrência tem que ser feita lá. lembraram de entrar em contato com a avó de Kátia. ele não ficou preso. meu genro. Não é? Porque eles sabem melhor do que ninguém o que realmente aconteceu. e eles tinham falado que ouviram dizer que tinham tacado fogo nele. porque de qualquer forma você vai lá e vê. Aí eu fui até a Décima Quarta registrar um registro de desaparecimento. Aí uma hora eles diziam que tinham mandado o corpo. como ele era usuário de drogas. nisso eu falei: “Mãe. A gente não conhecia Caxias. Pior. Maria Cecília: A família que falou por telefone que ouviu dizer. só isso. Laura: A família [da namorada de Ramon] que falou.. que tinham trazido ele vivo. eu conversei com a delegada. Aí fomos.. No domingo mesmo nós ligamos para a tia dele e fomos para Nova Campina. Aí voltamos. E nós ficamos procurando e não ficamos sabendo de nada.. entendeu.. tinha 17 anos. nada disso. Aí eu fui na Décima Quarta. Aí minha prima foi ligou para lá. Laura: Não sabia de nada. cada hora diziam uma coisa. morava ao lado. Aí nós fomos na Cinquenta e Nove. Laura: Aí nós entramos em contato. fomos bem recebidos. Aí recebemos um telefonema dentro do ônibus que não era para nós irmos. E começou a roda-viva. E nós ficamos rodando. agora a gente tem que resolver alguma coisa”. mas não teve nada assim. Mora aqui. pegar o telefone da casa dela. Fábio: Tacado fogo nele? Maria Cecília: É.. Mas nós não vimos. porque aqui não fazia parte para lá. que é em Imbariê. Fábio: Vocês duas que foram lá? Laura: Segunda-feira de manhã. aí ele teve uma [ocorrência] aí puxou.

. Explicamos tudo. no dia 31 de dezembro de 2008.. e outra coisa. pelo investigador. não tem história”. e ainda assim. mas quando chegou lá não era ele. desculpa. faz uma limpeza moral do filho para. Já era outro investigador. contamos toda a história que nós sabíamos. é menos um. em razão dos preparativos para o festejo de ano novo. Passei e perguntei ao pai dela: “Você sabe me dizer o que vocês resolveram? Vocês sabem alguma coisa? Alguém comentou?” “Não. essa história está mal contada e essa família tem que dar conta. Você vai para a Cinquenta e Nove. Não encontraram o corpo. Meu filho viu. se você tem dinheiro. a senhora pode olhar dentro da minha cara porque nós conhecemos todos os três. Só que hoje já se passaram seis meses. conversamos com os policiais do posto que falaram que não tinha havido nenhum registro. Não tinham ouvido nenhum caso e que na verdade a gente tinha que voltar para a Meia Dois e fazer o registro na Meia Dois.. O investigador falou: “Não. Aí quer dizer que a polícia não vai. porque lá é a jurisdição deles para fazer o registro. voltamos para casa. lançar suspeitas sobre a família da namorada.. chegamos na Cinquenta e Nove explicamos de novo ao investigador. muito grande. Chegamos a ir até Nova Campina. nenhuma queixa. Expliquei tudo de novo para o investigador da Décima Quarta. Laura: Aí fomos para o IML. porque eles têm que registrar e ver o que eles vão resolver”. eu 143 . fazer o reconhecimento do tal do corpo. Aí voltei. “Não tem história.. como lá é uma favela. Segundo os relatos de Maria Cecília e da filha Laura. Fomos na Cinquenta e Nove. né. Porque. fomos muito bem atendidos. você pode tudo. Fomos procurando nos IMLs. ia intimá-los a depor. porque eu vi. porque é um qualquer. o que foi passado para a gente por telefone. os caras voltaram lá e falaram que vão matar a família inteira”. Eu falei para ele: “É menos um”. mas meu filho não pode falar porque se meu filho falar. Ele falou: “Minha filha. voltamos de novo na Décima Quarta. foi liberada mais cedo do trabalho. Maria Cecília assume que o filho era usuário de droga. eu falei.. aquela coisa toda. falei para o pai. resolveu aproveitar que saíra mais cedo do trabalho para se encontrar com o pai de Kátia: Aí eu fui lá e conversei com o pai dela. infelizmente. é como é a realidade do mundo. Aí o rapaz falou: “Então vocês tem que ir para o IML no Hospital de Saracuruna”. com duas facções enormes. por eles morarem em favela. Aí não. nós não sabemos nada. é lá na Meia Dois”. a gente conseguiu fazer o registro. fomos procurando. o Hospital antes de Caxias. aí no dia vinte e quatro. no Imbariê. Aí voltamos para a Meia Dois de novo. até que a gente chegou na Meia Dois [Delegacia]. Ele falou: “Mas olha.. Nós vimos pouco interesse da polícia. mas nós não podemos falar. Chegamos lá. com certeza. se você não tem. porque você não vai dizer para mim que não é. Ele falou que o que precisasse ia ajudar e ia chamar. Isso já era na terça-feira. Fábio: Meia Dois é lá em Caxias? Laura: Lá em Caxias.irmã. mas não é aqui. não sabemos. Como em sua casa não havia clima para festa diante do drama que a família vivia com o “sumiço” do irmão. até o posto. “Nós estamos falando o que a gente sabe. Laura conta que. os pais da namorada de Ramon a proibiram de falar sobre o assunto e disseram que estão sendo ameaçados. E explicamos a situação para o investigador. com meus olhos. né. No trecho a seguir.. Aí fomos e começamos a procurar o Hospital de Saracuruna. Aí continuamos procurando. em seguida. essa história aí está mal contada”. Agora. Foi passado para a gente por telefone”. E eu falei para ele: “E o que eu estou falando para você.

recebem a informação. falei: “Olha. Ao contar sua história. Então eu nunca deixei nada faltar. não há registro algum. aparece repetidamente em seu relato. Eu disse: ’Todos os assassinos voltam no lugar do crime.. parou de trabalhar e conta que não vê mais sentido na vida. pra mim ter sossego. Ele andava muito bem vestido. Diz que ele ficou muito tempo sem frequentar a localidade e. no entanto. falava para ele: “Olha. ele usava droga. Só que lá. só quem pode dar essa resposta para a família. e por outro lado. Eu fiquei três meses de licença. Maria Cecília se orgulha de ser trabalhadora e de ter conseguido criar os filhos. lança suspeitas sobre o pai de Kátia. por falta de provas. E não menti.disse para o delegado”. ele usava droga. eu via. mas eu voltei a trabalhar. passou a reaparecer com frequência. Olha. ele tinha um metro e oitenta. Em outros momentos da entrevista.. porque é 144 . Relatam também que os policiais disseram que mandariam uma intimação convocando os familiares para prestarem depoimento. não vejo mais graça em nada” A situação de desaparecimento do filho produziu um impacto tão grande na vida de Maria Cecília que ela chegou a entrar em um estado de prostração. A sensação de frustração e vazio de quem dedicou toda a vida a cuidar sozinha dos filhos. “Aí ele sempre está aqui na casa da mãe. não tinha andar de malandro. sempre conversava com ele: “Olha muito cuidado. muito cuidado. quando chegam à outra repartição. se fosse aqui nós saberíamos se foi vagabundo e saberia se era polícia. porque vagabundo mata. mas esbarram sempre em um jogo de empurra-empurra. era uma pessoa tranquila. e eles não falam. o que também não chegou a acontecer. ele sempre vem na casa da mãe. então eu com o meu salário e o salário que o pai deixou é que eu mantenho a casa.2. eu parei de trabalhar. Aí o médico tinha pedido que eu voltasse a ficar de licença de novo. 3. Só que eu disse. e de repente vê o direito à maternidade violado. mas a polícia também mata. ela relativiza a participação dele. Maria Cecília e a filha Laura contam ainda que vivem ligando e indo à delegacia. Em sua fala. abrindo mão da juventude para viver a maternidade. Maria Cecília expressa todo o zelo e cuidado que teve em relação à educação e à segurança do filho. porque ele era uma pessoa. chega a dizer explicitamente que em sua opinião ele está envolvido no desaparecimento do filho. paz.” Uma vez ele estava na patota.”. botar minha cabeça no travesseiro e dormir são eles. de que o caso foi enviado para outra repartição e.5. não falava gíria. não é?’”. Em cada delegacia à qual se dirigem. não é? A resposta é essa. mas ninguém dizia que ele fumava maconha. após o “sumiço” do filho. ou a desculpa. ele fumava maconha. “A vida para mim parou. porque o pai deixou uma pensão do INSS.

trabalha porque precisa de dinheiro. então nós ficamos assim sem saber o que fazer. Mas infelizmente eu não sei porque aconteceu. Como é que é o nome? Félix Pacheco. 1996: 347). vai ali. a vida parou. eu falava... Do trabalho tomando conta. O relato de Maria Cecília..um problema muito sério. De tão desmotivada e desencantada. a causa do desenraizamento é o desaparecimento do filho e sua provável morte. Porque ele era aquele filho assim. eu ia na escola. eu tomava conta. eu fiquei inútil. Eu não dormia enquanto não desse onze horas. Porque ele tinha um metro e oitenta. Quando Simone Weil escreveu este texto. No caso de Maria Cecília. 2003: 177). tornou-se uma “inútil”. não havendo o cadáver que comprove a morte. Então a vida para mim parou. na humilhação. para procurar corpos. onze e meia. vai para o Instituto Médico Legal. Tinha medo de os caras entrarem aqui dentro dando tiro e ele receber. aquilo está acabando comigo. porque eu fiquei vai aqui. chega a dizer que. ainda falava para ele: “Você não tem vergonha? Você já homem. mas. Então eu estou com dois ossos daqui da perna que estourou. Sempre tive muito medo. A vida para mim parou. eu estou mentindo. vai ali.. que não tive. nas formas de adaptação desenraizadas que a própria modalidade da produção em série criava (Bosi. não tem identificação de ossada.. Porque falta de tomar conta não foi. quando chega lá. é necessário antes apresentar o que a autora entende por enraizamento. fiz o que pude e faria mais.. E volta e aquilo está só me roendo. vai aqui. Às vezes parecia que tinha quinze. Andei tudo. Para pensar o que é o desenraizamento. podem ser lidos a partir da ideia de “desenraizamento”. vem aqui.. não tem nada. estava pensando na condição dos operários. Vira e mexe estou fazendo... mas não via.. assim como praticamente todos os relatos dos familiares que entrevistei. dezesseis anos. não tem corpo nenhum. de estar ali embaixo. eu não vejo mais graça em nada. eu conversava. ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro” (Weil. porque se eu falar que não tenho. Simone Weil escreve que “O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir. Em “A condição operária e outros estudos sobre a opressão”. da polícia vir dando tiro e ele receber um tiro. Eu consegui pelo juizado de menores uma bolsa para ele fazer curso de bombeiro. Tudo eu ficava ali. tal como esse conceito foi concebido por Simone Weil. O ser humano tem uma raiz por sua participação real. e eu tomar conta de você?”. Nós não esperávamos. ainda paira a dúvida eterna que a faz perecer com o tempo. na opressão. porque de acontecer. Eu não vejo mais sentido em nada. né? Nós não esperávamos. O abatimento que o evento crítico do desaparecimento provocou foi capaz de alterar a relação de Maria Cecília com o trabalho e com sua autoimagem. com vinte anos. Assim. enfim. enquanto ele não chegasse em casa. A relação com o trabalho passa a ser uma relação meramente instrumental. né. porque parou de trabalhar. rapaz. porque ele era a alegria da casa. ele escutava. Fiquei com problema emocional. aí os 145 . Aí vai para. Cheguei e fiquei numa depressão de quarenta e seis quilos. Eu chamava ele.

não aguento fazer mais nada. Tenho medo de tomar anestesia e morrer. Sempre dei duro. para ele fazer uma avaliação. “Ué. Eu sentei. loja. Quando eu estou na rua varrendo. para ver o que ele pode me ajudar.médicos querem operar. eu só estou indo trabalhar porque infelizmente eu preciso ir trabalhar. de vencer a fatalidade e o aniquilamento. eles mataram fui eu. tudo. sempre tomei conta. mas eu preciso de trabalhar para ter o dinheiro. Eu falei: “Olha. por que está me olhando?” É exatamente a participação em um mundo compartilhado que aparece abalada. agora. A catástrofe para Maria Cecília já aconteceu (o desaparecimento do filho) e ela se encontra imersa dentro da catástrofre. o próprio devir da vida parece não existir mais. de esgotamento de qualquer “vontade de potência”. não é? Aí vou agora semana que vem no outro médico para ele avaliar. os responsáveis pelo seu desaparecimento e pela sua morte presumida mataram-na. foi a mim que eles tacaram fogo. Mais nada. ao dizer que. não aguento entrar dentro de uma loja. porque por mim eu acho que só ficava deitada. Então eu preciso ter dinheiro. Quer dizer me complicou toda. Fico dependendo de ter o dinheiro. dia e noite. de falta de energia. Porque foi o que eu falei. de desenraizamento. para usar a palavra dela. tornam-se processos de morrer lentos e 146 . Perdi o resto da minha mocidade todinha para cuidar dos filhos e depois um vem e me dá um abraço. foi o que eu estava falando com a Doutora. Não aguento ficar dentro do supermercado. ela “que está viva”. viver tornou-se uma espera pelo passar das horas e dos dias. mas eu pedi que não operasse agora. acabou. por outro lado. E a “vontade de potência” nietzscheana pode ser entendida como a vontade de triunfar sobre o nada. prédio.. O passado e o futuro na vida de Maria Cecília aparecem “roídos”. você sabe que eu não tenho mais. O fio que conduz o passado ao futuro era o filho. Tudo que está [lá fora]. e falecer. representou a perda da mocidade e a experiência da maternidade que. que estou viva. eu sou pai e mãe. e não fazia mais nada. Esse filho. independentemente do que tenha sido feito com o filho. Olha. Maria Cecília chega a se autodefinir como uma “viva morta”. Tipo assim. eu tenho que comer. é violada.. Dos três filhos. sem pai? Só eu sou mãe e pai. Eu fico com medo dela. eu fico com medo daquela pessoa. Sempre fui. é a busca da superação da catástrofe. eles não mataram ele. diante do drama e da tragédia que se abatem sobre sua vida. Com isso. da morte (Nietzsche. sempre trabalhei. no sentido nietzscheano. 2011). Foi a mim que eles deram o tiro no peito. O desaparecimento produz uma sensação nos familiares de ter que lidar com a morte permanentemente e em duplo sentido: por um lado. um pertencimento a uma humanidade comum que não existe mais. suas próprias vidas. e gera um estado de abatimento. Sabe por quê? Seja qual for o tipo da morte ele descansou. Eu preciso trabalhar porque eu tenho que pagar o apartamento. se não eu não tenho dinheiro para comprar. eu tenho que vestir. em alguns casos. que eu acho que a pessoa está me olhando. para mim não tem mais graça para nada. eu tenho que calçar. eu estou sentada.” Porque sabe o que é criar um filho sozinho. junto com os outros. Eu tenho os remédios para comprar. a morte não solucionada do desaparecido. porque eu estou com um problema emocional muito grande.

trabalhando chorando. né? Eu tinha sonhado com ele que eu estava assim num terreno baldio. O mesmo sentimento é compartilhado por Maria Cecília. E era cheio de capim verde miudinho.. nisso meu relógio. que tem até mãe que sabe. Aí eu acordei em desespero. 147 . Ah. porque tem pessoas que não. eu não sei se tu acredita em sonho. Estando certo. esse relógio meu caiu. o que se tem parece ser uma associação entre medo/dor/terror e uma angústia permanente sobre o fim que teria levado o filho. porque eu estou todo quebrado”. A sensação de pequenez. Você não viu o corpo. errado ou não. que não está no nosso conhecimento. porque a gente não tem condições de pagar advogado. Teria tido pelo menos o direito elementar de ter um enterro digno ou teria tido sua humanidade negada até mesmo pela forma como morreu? Teria sido mais um corpo abjeto jogado nos rios ou nas valas comuns do Rio de Janeiro? Uma das dimensões do terror é a incerteza. de morrer e ter registro do óbito. O impacto desse terror aparece até mesmo nos sonhos dos familiares. É triste. Todo mundo tem direito de nascer. Esse lidar constante com a morte pode ser considerado uma das formas como o terror se manifesta neste tipo de experiência dos familiares.. Não é só o meu.. Você não sabe. o direito ao menos a uma morte digna para o irmão. Eu vi direitinho e até hoje eu sei contar o sonho. que não acredita. reivindica no relato a seguir. Entendeu? E convive sabendo que fizeram vários tipos de covardias com seu filho e você tem que passar e olhar. Mesmo se ele fez alguma coisa. Laura. diz que morreu. é doloroso”. Porque eu sei que tem vários casos de. porque eles mesmo agora matam e enterram”.. Eu falei: “Meu filho. Eu acho também que isso não dá direito de ninguém pegar e tacar fogo ou fazer coisas. A irmã de Ramon. você não viu nada. essa dúvida que corrói aos poucos. e o direito da família de enterrar o ente querido. infelizmente. Olha. Quando eu fui para pegar o meu relógio aí eu vi ele de bruços. porque é tão ruim você saber assim. como esse relatado por Maria Cecília: Nós ficamos sem saber se jogaram dentro do rio.” Aí ele mexia com a boca: “Não posso. de humilhação e de que teve a própria humanidade reduzida. diz que não. mas eu estava varrendo.contínuos. Em relação ao relato de Maria Cecília. é aquela dúvida. ter registro de nascimento e viver. Porque eu no começo sonhei com ele. A gente só quer ter uma resposta. nós ficamos sem saber se enterrou ele. que vê e não pode nem dizer. Varrendo trabalhando. aparece na comparação que Laura faz de sua condição com a de um verme: “Nós somos diminuídos como se fôssemos vermes. que nós não estamos sabendo. só quem está passando é que realmente sabe o que é a dor. A gente foi no Fórum para poder saber como é que a gente podia fazer para poder dar andamento no processo para ter um advogado. mas eu estava chorando muito. O que houve e o porquê. É uma coisa. não existe isso. o fato de se lidar apenas com rumores. Agora os coveiros estão desempregados. não põe a mão em mim. essa incerteza. tem outros casos até piores. que completa: “Não tem nem trabalho mais para os coveiros. A gente quer saber o que realmente aconteceu. o que você está fazendo aqui? Você veio encontrar comigo? Levanta. o direito à informação.

3. Maria das Dores O caso de Maria das Dores. Após a descoberta.. Ele saiu no dia 27 de abril [de 2010]. Após uma ligação. que disse que a última vez que havia visto Wesley fora em um churrasco. consegue-se comprovar a morte. Saiu normalmente. o passo seguinte foi falar com a namorada. na região de Campo Grande.1. só que ele trabalhava dentro de uma terceirizada da Michelin. Zona Oeste do Rio de Janeiro.6. através do encontro de ossadas ou de partes do corpo.tava com uma namorada. depois disso não foi possível encontrá-lo novamente porque ela estava trabalhando.6. ou seja. permite pensar em escalas de desaparecimento. são casos em que a pessoa desaparece por algum tempo mas. né? E ele saiu para trabalhar na Michelin. O contato com Maria das Dores foi feito através de seu número telefônico. os policiais pediram que ela fosse primeiro ao local de trabalho do filho para averiguar se 148 . Esperei a quarta-feira de novo. tornando possível a identificação através do exame de DNA. depois de certo período. né!? Só que ele não tinha o costume de dormir fora ou de não me avisar. então ele tava com a namorada. então ele dormiu lá e foi para o trabalho. Mas o filho não voltara e começaram as buscas. Maria das Dores começou a ficar agitada e procurou uma delegacia de polícia. Na delegacia.3. área com forte presença de milícias. O “sumiço” do filho Maria das Dores conta que o filho saiu para trabalhar e não voltou mais: O caso foi assim. Diante dessa informação da namorada. ela aceitou conceder uma entrevista. que foi realizada em sua casa. ele não retornou e eu já comecei a ficar preocupada. como ele fazia todos os dias e eu notei que quando chegou na terça-feira ele não retornou. diante do nervosismo. dizendo não admitir que ele dormisse fora de casa sem que a comunicasse. Ela conta que. meu filho na época estava com 28 anos. Esse caso foi registrado quando decidi cruzar os registros policiais de desaparecimento com os registros de encontro de ossada e encontro de cadáver. já pensava na cobrança que ia fazer ao filho quando o encontrasse. assim como outros registrados nesta pesquisa.. mas pode acontecer e como se deu na quarta-feira já. obtido através de informações disponíveis no Registro de Ocorrência do desaparecimento. mas como ele. no domingo anterior. A primeira atitude foi procurar saber entre os amigos do filho quem era a namorada que ele havia arrumado.

Na delegacia. por outro. a não ser para trabalhar. vizinhos. mas pode também significar uma espetacularização desse sofrimento e um obstáculo a mais para os familiares. No dia do “sumiço” do filho. abri meu coração pra eles. os policiais perguntaram sobre as últimas pessoas que haviam tido contato com Wesley. ainda agora querem manchar a moral do meu filho. há a necessidade de dar visibilidade ao caso na mídia. o filho não tinha o hábito de sair para outros lugares. Relata que começou a recorrer a todas as pessoas que estivessem ao seu alcance para pedir ajuda. Chegou a ir até a Rede Record procurar por Wagner Montes. que entrou dentro da minha casa. que investigaram e descobriram que essas pessoas alegaram que o estavam procurando para saírem para comer pizza. montaram uma reportagem e acusaram meu filho de miliciano. tudo direitinho aqui comigo. Maria das Dores voltou então à delegacia para fazer o Registro de Ocorrência e aproveitou para deixar fotos do filho com os policiais. colega dele. 149 . Nota-se neste relato que a relação dos familiares com a imprensa passa por um dilema: por um lado. fizeram a reportagem. Fora esse trajeto. Eu conversei. além do meu filho estar desaparecido. No local de trabalho. Maria das Dores conta que estranhou essa informação. o único lugar para onde costumava ir era uma terra que ele tinha. Maria das Dores conseguiu que o jornal fizesse uma retratação pública. Eles entraram aqui dentro. O apresentador chegou a enviar uma equipe de reportagem à sua casa: Mandou a reportagem até aqui. pessoa conhecida. a incerteza sobre o que e como será publicado. carreatas dentro e fora do bairro. Pegaram a reportagem. Chegaram a realizar várias manifestações fechando a Avenida Brasil. Conta que estranhou que por dias seguidos apareceu uma pessoa em sua casa procurando por seu filho. Pastora de uma igreja evangélica.conseguia alguma informação. Nesse caso particular. porque depois a Record pegou meu número e passou para um outro repórter do Extra. meu pediu para conversar tudo que tinha acontecido. depois foi atrás de amigos. A atuação do jornalista e a política editorial do jornal podem ser traduzidas em um engajamento ao sofrimento do outro. Aí no meio disso tudo ainda teve um outro problema. A circulação do caso na mídia pode tanto ajudar como pode igualmente atrapalhar e gerar decepções. que apresenta um programa policial nesse canal de televisão. porque o filho não tinha o hábito de sair de casa. “o povo da Igreja”. espalhou cartazes. estuprador e que tinha poucos dias que ele estava fora da cadeia. disse que primeiramente buscou força em Deus e em si mesma. E quando retornava do trabalho. segundo ela. onde gostava de criar animais. E o desespero de Maria das Dores só aumentava. Ela passou os nomes das pessoas aos policiais. os funcionários da empresa disseram que na quarta-feira ele não retornou para trabalhar. Então naquela hora. a mesma pessoa apareceu novamente perguntando se Wesley havia chegado.

E no outro dia eu parti para a delegacia. chegaram 3 homens aqui. O filho estava desaparecido e agora havia uma ossada diante o portão de casa. Eram as fotos da ossada colocada em sua porta. Eu peguei tudo com a mão. botei do lado. Até que. nem mexer com o emocional da minha família nisso tudo. a polícia. caiu o Beltrano”. quando. dizendo ser da P2. Maria das Dores interrompe a entrevista por um instante. a perícia veio com as pessoas. quem manda agora sou eu”. até que começou a ligar para os vizinhos que moram perto e pediu para que estes olhassem de suas janelas para seu portão. ela não sabia. alguma coisa assim. voltou para dentro de casa assustada e não sabia o que fazer. entreguei pra polícia. mais uma situação desoladora aconteceu. Duas horas depois eles chegaram. Como é pastora de uma igreja evangélica e as pessoas tinham o hábito de procurá-la para pedir orações. Estes conseguiram. por volta de duas e meia. e ali dei meu depoimento do 150 . o estado emocional de todos da casa já estava muito abalado.. Naquele dia ali eles pediram pra eu ir até a Delegacia de Homicídios.. quatro meses após o desaparecimento. que. valões de esgoto. duas horas depois. rios. né?”. conversou com “alguns coordenadores” e eles pediram ao jornal fosse feita a retratação. lá estava essa mãe atrás dele. Aí eu falei para o senhor: “Eu não vou deixar ninguém fazer chacota. um jornaleiro que tinha aqui que mataram. para pedir ao filho que buscasse umas fotos para nos mostrar. até a policia chegar. pensou que pudesse ser alguém precisando de ajuda. Ai dizia assim: “Cicrano não manda mais. Fulano era um moço. Correu e abriu o portão. Ela diz que foi até uma delegacia. lugares de desova. Eu falei que eu não tinha nem condições. bateram forte em seu portão e ela acordou assustada. e pediram que fosse enviada uma viatura da polícia ao local. Os vizinhos olharam e disseram que havia uma ossada em seu portão. Deu um grito e fechou o portão. Onde quer que aparecesse uma denúncia indicando onde o filho poderia estar. finalmente. mas que não havia nenhuma pessoa por perto.. Maria das Dores relata que estava dormindo. 3. coloquei num saco. quando chegou de noite. Ai falaram pra mim que eu não poderia ter colocado a mão. vai ter o mesmo fim”. Uma ossada no portão de casa Maria continuou as buscas percorrendo lixeiras. nem me lembro o nome deles. hospitais. E disse assim: “Caiu o Beltrano e quem tentar se levantar contra mim. Levou um susto ao se deparar com uma ossada espalhada em seu portão. na hora estava escrito isso: “Fulano já foi.limpando moralmente o nome do filho. Aí.2. segurei o bilhete. E tinha um bilhete né. três horas da madrugada.6. tiraram as fotos. e quando deu mais ou menos quase 12 horas. Disse que bateu umas fotos. para ver o que estava acontecendo em frente à sua casa. vai ter o mesmo fim. se identificaram rapidamente. Aí eu peguei o bilhete. começou a ligar para a polícia e ninguém atendia o telefone. Quando a viatura chegou. ligar e falar na delegacia. Também buscou ajuda ligando para alguns amigos policiais. porque eu precisava contar à mãe da minha neta o que tinha acontecido.

por sua vez. certo dia. começou a via crucis para conseguir fazer o exame de DNA.3. 3. Mas. essas pessoas que foram até sua casa e se identificaram como policiais da P2 disseram que ficaram sabendo do ocorrido e queriam saber se alguém tinha visto quem colocou as ossadas em seu portão. ao verem seu desespero. Ao ligar. disseram que em poucos dias seria requerido que ela e o esposo fossem ao Instituto Médico Legal para fazer o exame de DNA. a experiência pela qual estava passando era absurda. Maria das Dores conta que tentou sensibilizar os funcionários do IML com sua história. ao que o funcionário respondeu que então aguardaria mais alguns dias. Ela perguntou como ficaria se a ossada fosse de seu filho. eles falaram que não sabiam informar que a P2 tivesse ordem para vir aqui. Eles. Até que. Para ela. inexplicável e injusta. maconheiro. finalmente. lembrando que ele trabalhava há 10 anos em uma mesma empresa e era conhecido por todos no bairro. se ela sequer sabia se realmente se tratava de seu filho? O funcionário. a angústia só aumentava. envolvido [com a criminalidade]”. por sua vez. porque ela estava ocupando espaço no IML e eles teriam que se desfazer dela em breve para liberar espaço.que tinha acontecido. 151 . até que os funcionários do IML. finalmente alguém ligou do IML perguntando se ela tinha interesse naquela ossada. talvez “o coração fique esperando uma situação semelhante”. Ela faz questão de enfatizar a identidade de trabalhador de seu filho. E falei que essas pessoas tinham aparecido aqui. a bomba acabara de ser consertada e os exames de DNA voltaram a ser feitos. porque a bomba de água estava há meses com problema. a pessoa que atendeu disse que ela estava com sorte. 33 Todos os nomes que aparecem no bilhete foram retirados para preservar o anonimato.6. começaram a ficar com pena dela e lhe passaram o nome e o número de alguém da polícia técnica que fazia perícia. Desde então. impedindo a realização de exames de DNA e o Estado não fazia nada. mas este não era o caso de seu filho. miliciano. disse a eles que quando se tem um filho “marginal.33 Segundo Maria das Dores. Pergunta para um e pergunta para outro. Maria das Dores questionou ao funcionário do IML: Como eles poderiam se desfazer da ossada. Ela disse aos supostos policiais que não tinha visto nada e não possuía qualquer informação sobre quem teria colocado as ossadas em seu portão. segundo ela. Em busca de um exame de DNA para identificar o filho O tempo foi passando e nada. lhe respondeu que morre muita gente no Rio de Janeiro e aquela ossada estava ocupando o lugar.

“Mas o que fizeram! Tacaram ele no micro-ondas pra ele não ser reconhecido”. chegando lá. e depois ele foi enviado para a Delegacia de Homicídios: Vi. Eu fui pra lá e ele me pediu desculpas pelo modo como a investigadora me tratou. quem tem que descobrir não sou eu. a senhora. segundo ela. que eu tinha que dar nomes. que começou a me oprimir. no IML mesmo. [Fulano de tal] pediu pra eu retornar ao gabinete dele. a morte do seu filho foi terrível”.6. fazer uma declaração de próprio punho atestando que a ossada era de seu filho. Só a investigadora lá. Eu acho que não é tão difícil de descobrir se num lugar tá tendo ocupação de milícia. Aí um policial veio e me deu umas palavras. eles me trataram com muita sensibilidade. a numeração e ainda fala pra mim: “Nossa. Eu fui pra lá. praticamente teve fechamento sexta feira de carnaval desse ano.4. Fui lá no IML. porque agora eu tinha outra missão. se eu souber de alguma coisa e conto pra policia. eu saí de lá quase 6 horas da tarde. comecei a passar mal. Restituir a dignidade e a humanidade: um atestado de óbito e um enterro digno O atestado de óbito ficou pronto na sexta-feira de carnaval. qual é a cobertura que a policia vai me dar? O que o Estado vai poder fazer por mim? Pagar mais um sepultamento pra um dos meus filhos. nesse meio tempo veio o outro policial e disse que o Doutor. Paguei por isso. Eu falei: “Como?”. fui chamada ao cartório pra receber lá o óbito. Ele falou. Porque essa história começou em abril. 3. dentro de pouco tempo. ou alguém. me disseram que estava lá. como muita educação. E ela começou a gritar comigo. É só botar investigador aqui dentro que vão saber se tem milícia no bairro ou não. naquele estado lamentável. Maria das Dores foi chamada ao cartório para tratar da documentação final do óbito. a moça lá do cemitério ainda me erra o nome. saiu o resultado positivo: realmente a ossada era de seu filho. se eu abro a boca. Depois de sair do cartório com o atestado de óbito. E eu falei. quando me chamaram e falaram pra mim que agora poderia ter a hipótese de um óbito. a gritar comigo e eu sai chorando de dentro da DH. Pergunto se ela chegou a ver o resultado do exame. se eu conto. Eu tinha que procurar qual cova teriam enterrado meu filho e fui para o cemitério de Santa Cruz. eu que tive que gastar tudinho. por que como a gente vai agir se a gente não sabe quem foi? Só as famílias. paguei. nem isso ele pagou. ao que ela diz que sim. poderá dar as informações para que a gente possa pegar o caminho da investigação”. Fábio: E eles enterraram à revelia assim. Tive na sextafeira de carnaval o óbito final do meu filho. eu acabei de pagar o resto da documentação. lá mesmo eles me mostraram e foram direto para a DH [Delegacia de Homicídios] e lá na DH também. que eu sabia o nome de quem tinha feito aquilo ali e se tem milícia aqui. se tem milícia ou não tem milícia. E eu falei: “Doutor. veio ainda outra situação dolorosa: Maria das Dores: Aí foi. relata que ainda teve que pagar várias taxas no cartório. Eu fui. na hora que estava sendo procurado. foram meus amigos. me explicou: “Olha. a gente fica de mãos atadas. sem informar nada? Maria das Dores: Sem informar nada. Meu filho foi sepultado como indigente e eu que tive que pagar o túmulo.Conseguiu fazer o exame e. vi. Eu falei: “Mais como? Não foi isso que a Justiça falou pra mim!” Eu 152 . E quando chegou na sexta feira de carnaval. Em principio eu não tenho o que falar da DH. Em tom de indignação. querendo me recuperar. meu marido ou até a mim mesmo? É isso que o Estado vai poder pagar? Porque nem isso o Estado pagou para o meu filho.

estava fazendo 1 ano de morto e eu tinha que. porque talvez eu via que era alguma formação de milícia. Terminou como? Naquele dia. Então a data de 27 de abril era pra mim duas coisas. vivo a base de rivotril. por incrível que pareça. e fui ver. procurando um fantasma.. sejam destruídos. vivo a base de remédio de pressão.. que já não aguentavam mais ver meu sofrimento. aparece todo mundo. é ossada (voz chorosa)”. querendo a sua parte. no dia 27 de abril fui fazer o túmulo dele e. então eles se aproveitaram pra colocar terror aqui dentro. 153 . alguém implorou para que as pessoas que fizeram isso devolvessem alguma coisa. pra cima. sobretudo através de sua atuação religiosa como pastora. Luta para ajudar outras Marias e outros Wesleys.. desenvolveu problemas cardíacos.6. a numeração 1999 apagada. a ossada dele. acabaram com ele e colocaram um bilhete. naquele dia. Terminou agora. Desde o dia 27 de abril de 2007 acabou. [para evitar] que elas passem [o que passei]. botar um pauzinho e umas florzinhas na cruz. o adoecimento e o processo de medicalização. Ali eu mesma fiz o papel de coveiro. pra lá. porque alguém pediu. não aguentavam me ver ficar pra lá. jardineiro. passou a tomar remédios tarja preta e vive com dores. cheio de mato que tava lá. com a numeração apagada.. que outros Wesleys morram. procurando. olha aqui. E ali na mesma hora. porque meu filho estava fazendo aniversário no mesmo dia. Um fantasma porque meu filho já não existia mais. que estejam passando por processos semelhantes ou iguais. como diz. porque todo dia minha pressão sobe..estava com uma amiga minha e ela falou: “Moça. isso foi na segunda-feira. pra cá. como é que se diz. olha direito. na segunda-feira de carnaval que eu achei meu filho. 3. Não é morte de micro-ondas. Aí eu peguei.5. ter um coração pra chorar 1 ano de morto dele. outras Marias. após o desgaste emocional e físico. E me cobraram 260 reais se eu quisesse fazer pelo menos um murinho. Aí eu achei a sepultura do meu filho.. cada um querendo. Em sua fala lamenta ter ficado com a saúde abalada. como diz. Adoecimento e medicalização na trajetória de uma familiar de vítima Ao final de toda essa história ocorreu a Maria das Dores o que é comum a muitos familiares. limpei a cruz e ali eu fiquei (chorando) de um jeito assim. ela me deu o número da sepultura. Ficou hipertensa. os amigos entre aspas dos parentes dos mortos. ela está sofrendo demais. Tinha que me alegrar. eu sou uma pessoa que agora eu tenho dor muscular. fiquei com problemas cardíacos né. E tudo terminou. Terminou e hoje eu sou uma pessoa super hipertensa. Tento levar a vida ajudando outros Wesleys. Fábio: E depois disso ninguém falou mais nada? Maria das Dores: A única coisa que as pessoas comentam no meu bairro foi essa. que a ossada foi colocada no meu portão. porque é uma pessoa que precisa da saúde para ajudar outras pessoas. devido eu ter segurado uma carga que acabou com a minha saúde. Como é que se diz? Agora terminou isso aqui! Uma cruz quebrada. procurar com o coveiro no meio do mato.

E exatamente por se auto perceber como uma pessoa que trabalha em prol dos outros. e o restante da entrevista consistiu em um relato do trabalho como pastora. da circulação por várias favelas. não consegue entender porque tamanha tragédia foi acontecer logo com ela. além de mãe e esposa. Eu passei 15 anos da minha vida tirando da rua traficantes.6. me ajuda porque vão matar meu filho.6. drogados. ela assim se expressou: 154 . Sobre o “chamado de Deus”. que é aquilo ali que vocês estão vendo. leva pro centro de recuperação. que dedica a vida a “ajudar as pessoas”. pastora. porque diversas pessoas vêm bater na minha porta. Segundo Maria das Dores “as pessoas” achavam que “era muita terra pra uma pessoa criar bicho”. porque. quando invadiram “aquilo ali”. nos contou a história do desaparecimento e morte do filho. tempos depois. A entrevista com Maria das Dores dividiu-se em torno de dois temas e em duas partes: na primeira. que considera que o trabalho na igreja é uma forma que encontrou de ajudar as pessoas. Por que o que as pessoas falam que mataram meu filho? Por que mataram meu filho? Só porque meu filho tem um pedaço de terra debaixo de uma Rede de Furnas. pastora. Ela conta que “está tendo invasões” na área. Dizendo. diz ela. pastora. ainda tem que ser pastora. sabiam que era de seu filho. “Muita terra pra uma pessoa criar bicho”: a milícia e a expropriação da terra Em relação ao caso do filho. “Tenho uma igreja com 200 metros quadrados”. Disse que. E parece até brincadeira que. mas as pessoas. onde cultivava alguns animais. eu faço esse papel dentro do meu bairro.6. pessoas que tinham muitos problemas. tira meu filho do trafico. Falou do trabalho no bairro. meu coração sempre foi esse ajudar moços. contou vários casos de traficantes jurados de morte que conseguiu salvar e transformar em “pessoas do bem”.3. ajuda meu filho. Diz que precisa ter força. desde que eu fui denominada pastora. No meio disso tudo eu não posso parar. E eu tenho que fazer esse papel. 3. me ajuda. ela dá uma ênfase no trabalho religioso que desenvolve numa igreja evangélica. prostitutas.7. chorando. ficou sabendo que o filho vinha sofrendo ameaças de morte. acha que o motivo do conflito que levou ao seu desaparecimento e assassinato possa ser uma terra que ele possuía. O engajamento religioso: entre “familiar de vítima” e “pastora evangélica” Ao narrar sua história e sua trajetória.

levar ajuda nos bailes. quando disse que a viatura da polícia só apareceu em sua casa quando seus amigos policiais entraram em cena. todos são iguais. se ele é safado vocês também são. no decorrer dessa espera dessa libertação deles. “Vocês honram a calça que vocês vestem? Me dá um mês. por exemplo. todo dia eu ensinava ele. e dizem. até fazia ameaça pra mim. Ele só quer uma chance”. Maria das Dores relatou várias histórias de conversão de traficantes e contou de suas incursões no mundo do crime. “Eu quero esse homem na minha história”. né?”. e ele veio para querer até me matar. alguém queria a cabeça dele. quando eu comecei com isso tudo. e a voz de Deus. conversar com eles e mostrar a expectativa de vida. Eu gosto muito de conversar com as pessoas. E eu conversei com eles e brinquei com eles. “a senhora pediu. Eles falaram: “Não dou um dia pra ele sair da igreja”.. Ele falou: “Ele tá se escondendo”. falei pra ele e ele do outro lado não falava nada. eu não sei se vocês vão entender. no princípio. Eu falei: “Ele não tá se escondendo. e comecei a entrar dentro das bocas de fumo. para levar a palavra de Deus. pode botar o [Fulano] pra fora”. em parceria com policiais evangélicos do Bope. teoricamente. Eu pedi pessoas trabalhosas. se dentro de um mês esse homem não mudar a história dele. me procura na minha casa. muitas vezes. Dizendo que ia cortar minha cabeça e eu esperei e um dia e a coisa virou. As pessoas brincam até hoje. se der chance eles vão. Eu falei: “Vocês chegaram tarde demais. E comecei a conversar com ele chorou ali. no reino de Deus. né. essa relação aparece pela via religiosa. E quando foi no outro dia ele veio. dentro da minha igreja. falou assim: “O que a senhora pode fazer pra me ajudar?” Talvez na mente dele eu tinha um lugar pra esconder ele das pessoas que tinham ameaçado ele. E ali. Ele: “Não pegou porque nós vimos a senhora colocar ele dentro da sua casa”. de safado. né. Eu: “Jesus!”. a religião a faz conviver com figuras. dessa vida. ao falar do caso do filho. “Um homem pegou e não vai abrir mão dele”. Ele começou a olhar pra lá e xingar ele de pilantra. Ao contrário de muitos outros familiares. Afinal.. Em outro momento.eles vão. como traficantes. eu ensinei ele a até andar de novo. Falei pra ele. Segundo ela. pessoas assim que as outras pessoas não tinha muita paciência. Se ele é pilantra vocês também são. olha eu só conheço uma pessoa que muda a história de um homem. E os homens falaram: “Pastora. E ali eu comecei a entrar dentro de bailes funk. então agora tem que ser dada uma chance. se você quiser ajuda eu vou te ajudar. Se você deixar esse homem entrar na tua vida você vai ver a tua história mudar. 155 . Ele resolveu mudar. Isso ficou claro. querer mudar e permanecer no erro. Quando eu senti o chamado de Deus na minha vida. quando disse que estava organizando um culto em um assentamento rural. eu perguntei pra Deus o que ele queria comigo. Um que ele sabe que eu também ganhei a esposa dele. policiais e milicianos. ir pra porta de bailes funk. pra eu zelar por essas pessoas. E foi aqui na minha calçada e quando eu olhei pra ele eu vi um carro chegando perto e aqueles homens vinham pra entrar dentro da minha casa e ele disse: “Esses homens vão me matar”. Sentar com eles. e também histórias de sua relação com policiais. um atrás do outro. Todo dia ele vinha na minha casa. Maria das Dores tem muitos amigos policiais e se orgulha muito dessas relações e desses contatos. um mês. muito opostas.. que eles têm chances. Mas tem uma diferença. que eles têm chances. alguém pegou ele primeiro”. Eu fui atrás dele.Olha. E eu falei. “Posso falar uma coisa pra vocês. pessoas impacientes. ele queria dar pessoas pra eu cuidar e Deus falou no meu coração: “O que tu quiser eu dou pra você cuidar”. Pode me procurar. Eles: “Quem?”. o nome dele é Jesus..

Aí nós demos entrada no quartel. Não. Fábio: Você chegou a ouvir alguma história do que talvez teria acontecido? Maria Auxiliadora: Não. mataram um rapaz por ali”.1. Fábio: Mas vocês nunca chegaram a receber alguma denúncia. quando a minha sogra foi lá. outros diziam que tinham jogado no rio. A entrevista foi curta. E aí começou minha trajetória né. 34 3. assim. fomos ver o coronel. levou retro-escavadeira. As duas moram juntas e. Maria Auxiliadora: Foi assim. teve um pessoal lá que falou: “Ah. de que poderia estar em algum lugar? Maria Auxiliadora: Nunca. não há muito o que falar. Chegamos lá no quartel. Maria Auxiliadora Tomei conhecimento do caso de Maria Auxiliadora quando sua irmã foi minha aluna. uma que eu não era casada com ele. Até hoje. porque ele tinha saído para ir trabalhar. levou corpo de bombeiros. ninguém sabe. todo fim de ano a repartição policial que trata das pensões ameaça cortar o Nessa época ouvi vários casos de desaparecimento forçado. mas não obteve nenhuma informação ou resposta concreta sobre seu desaparecimento. Aí ela foi. A pessoa desaparece assim.. Fábio: Ele era policial. e não voltou mais.7. Na favela. fui à residência delas para entrevistar Maria Auxiliadora. Corpo de Bombeiros. Eu não ouvi falar o que possa ter acontecido. O capitão queria dar ele como desertor. no entanto. sabe.3. não acharam nada. Uma das preocupações de Auxiliadora é que “eles querem tirar a pensão” que ela recebe. ela foi em favela. E aí minha sogra tomou a frente. Maria Auxiliadora conta que sua sogra morreu procurando o filho. mas pelo jeito não sabia nada. no período em que lecionava numa escola pública na Pavuna. apenas diz que ele saiu para ir trabalhar e não mais voltou. não sabe dar muitos detalhes do que aconteceu. uns diziam que estava enterrado. portanto.. de pegar pensão por causa do menino. mas que não me foram possíveis documentar. Ela. e falaram que tinham jogado naquele rio ali. 34 156 . que ocorreu em 1993. escavaram tudo lá. circulavam como rumores. em Caxias. Policiais também desaparecem Seu companheiro era policial e desapareceu. Aí prenderam um rapaz dizendo que este rapaz sabia. Zona Norte do Rio de Janeiro . aí nós começamos a procurar. Ela ficara sabendo da pesquisa que eu estava realizando sobre pessoas desaparecidas e se disponibilizou a conversar com a irmã para que me concedesse uma entrevista. porque as informações sobre o caso são parcas. no dia 13 de janeiro de 2010.7. ele saiu para trabalhar e não retornou. Fábio: Ele foi trabalhar e não voltou mais? Maria Auxiliadora: É. mexeram e não viram nada. Segundo ela. Num tem um rio que tem um lamaçal preto? Aí falaram que jogaram ali. E aí ele ficou desaparecido. mas não podia dar como desertor. parece que. né? Maria Auxiliadora: Policial.

Segundo conta. Como não tem o atestado de óbito ou qualquer outro documento que comprove a “ausência”. o filho “vai juntando os pedacinhos”. mas não foi junto”. Pergunto se mais alguém havia desaparecido junto com seu companheiro. “Foi no mesmo dia. posteriormente. Enquanto seu companheiro teria “sumido na Washington Luiz”. Tem uma outra que tem quatorze anos que o marido dela sumiu também. Fábio: Vinte anos? Maria Auxiliadora: Vinte anos. vive com medo de perder o direito à pensão. porque nesse caso sabiam que estava tudo tranquilo. Auxiliadora relata que o fato de o companheiro ser policial a deixava. nessa repartição que frequenta há vários familiares que passam por situação semelhante à sua: Fábio: A senhora chegou a frequentar os batalhões para tentar resolver? Conheceu outras mães ou esposas com o mesmo problema? Maria Auxiliadora: Já. tem uma que é uma sofredora coitada. assim como à sua sogra. ao que ela responde que houve o caso de uma mãe que disse que o filho. diz ela. Ela também conta que. o outro policial “desapareceu” nas proximidades de um viaduto dentro de Caxias. ouviam um barulho o tempo todo e davam “graças a Deus” quando ele retornava. era porque eu precisava”. Mas ouvindo uma coisa e outra. vieram a saber que os dois haviam “sumido em locais diferentes”. Maria Auxiliadora teve que arrumar um trabalho para sustentar o filho pequeno. com medo de a história despertar algum sentimento de vingança que o leve a fazer “um monte de besteira”. Ela conta que. abandonam o trabalho. Tem uma que vai sempre comigo. diz ela. sumiram com meu pai”. Tem vinte anos que o marido dela sumiu e ela não tem notícias nem nada. diferentemente de outros familiares que. O momento mais tranquilo era quando o companheiro estava dormindo. sempre em um estado de apreensão quando ele saía para trabalhar. engordou muito e não consegue mais emagrecer. teria “sumido junto com ele”. Maria Auxiliadora conta que. frequentemente tem que comparecer a um setor da polícia para resolver pendências e questões jurídicas que a ausência do companheiro gerou. após o desaparecimento do filho ou do companheiro. mãe.benefício. 157 . também policial. certa vez. “Agora tudo me dói”. Segundo Auxiliadora. Mataram meu pai. ela evita falar do “sumiço” do pai para o filho. Porém. o filho virou-se para ela e disse: “Eu nunca vou ser policial. E. desde que o companheiro desapareceu. Passou a trabalhar como costureira e faz questão de enfatizar que “não é porque eu queria não. que ele não corria perigo. após o desaparecimento do companheiro. Conta que certa vez ele saiu para trabalhar e ela e a sogra não conseguiram mais dormir. com medo de que algo lhe acontecesse.

conhecido como Cavalos Corredores. Passei muito tempo sem passar em Irajá. provocou o desaparecimento de onze jovens moradores de Acari e redondezas. eu tive um problema sério de passar em Irajá. Em 2011 as mães dos jovens desaparecidos começaram a receber as primeiras certidões de óbito. nesta cidade. uma inspetora de polícia ligou comunicando o acontecimento: A chacina de Acari aconteceu em 1990. na Baixada Fluminense”. Eu olhava para o outro lado. Celso conta que o acidente que provocou o desaparecimento da filha. os jovens teriam sido assassinados por um grupo de extermínio. eles se acham o tal.htm) 35 35 158 . né? Eu não podia passar em Irajá. porque “cismava” que seu companheiro estava lá.716318. Segundo denúncias. Pergunto a Maria Auxiliadora se ela já chegou a sonhar com o companheiro. sentado. a certidão da dor das Mães de Acari”. uma reportagem assinada por Luciana Nunes Leal. É muita coisa triste. o documento deixa em branco os espaços do local de sepultamento e nome do médico que atestou o óbito. Como declarante da morte.Fábio: Todos policiais? Maria Auxiliadora: É. Entendeu? A gente vê pessoas até piores que a gente. quando finalmente conseguiu a certidão de óbito da filha Rosana de Souza Santos. sofre. em 14 de junho de 2008." Ela foi surpreendida com o que foi escrito no espaço reservado para o local do falecimento: 'Chacina de Acari. Fábio: Por quê? Lembrava dele? Maria.' Além da causa da morte 'ignorada'. conta que por muito tempo evitou circular por Irajá. porque eu cismava que ele estava sentado lá em Irajá. não dá não. ocorreu exatamente no dia de seu aniversário. Patrícia. que jamais foram encontrados. Aí eu passava em Irajá e nem olhava para o lado da praça. intitulada “20 anos depois. espera. em seu site.br/noticias/impresso. 3. Fábio: Você chegou a ter algum sonho assim com ele? Maria Auxiliadora: Ah eu cheguei. em julho de 1990. O Estado de São Paulo chegou a publicar. que posteriormente teriam se desfeito dos corpos. porque tem gente que não sabe atender ninguém. Marilene Lima de Souza fez um desabafo que repetiu na sexta-feira: "Continuo sem as respostas que procuro há mais de 20 anos. Ela narra uma história semelhante a que ouvi de outros familiares. porque eu passava em Irajá e parecia que eu via ele sentado lá. que não querem ajudar a gente nem pra levar uma palavrinha de consolo. Tânia e Celso Tânia e Celso são os pais da engenheira da Barra desaparecida após um acidente de carro. É o resumo dos esforços de 11 famílias pelo reconhecimento formal da morte de oito jovens e três adultos que passavam o fim de semana em um sítio em Magé. Eu torço para eles não passarem por isso.0. muita.20-anos-depois-a-certidao-da-dor-das-maes-deacari. Foi um dos casos recentes de desaparecimento forçado que mais repercussão teve desde a chacina de Acari . Fábio: Ah é!? Maria Auxiliadora: É. Por volta de sete e meia da manhã. (Fonte: http://www.com. Aonde eu vou é justamente. aparece 'sentença judicial'. tem pessoas boas e pessoas ruins. formado por policiais. desaparecida aos 19 anos com outros dez moradores das imediações da favela de Acari.estadao. eles acham que a mulher deles nunca vão passar por isso. onde dá o lugar dos policiais extraviados. Auxiliadora: Não. E aí a gente fica lá.8. Os primeiros parágrafos do texto diziam: “No mês passado. Aí eu vou pra lá e é lá nessa parte que a gente vê o caso do pessoal.

Só nós 2. Chegando lá. quem ajudou foi um pedreiro que trabalhava em um condomínio próximo.. [Tânia] Sem saber como desceriam até o local onde estava o carro. A inspetora respondeu que não. não perguntaram.. 7 e meia da manhã. não tinha ninguém ali pra ir com a gente até o local pra mostrar. né? Aí meu outro filho. entendeu. porque eu já tinha acordado e falei ”Cadê a Patrícia?”... Aí eu falei assim. nós não podemos fazer mais nada. tava caindo em caixa postal. vendo a cena da gente desesperado. Tem umas pedras antes de chegar ali na água e ficamos olhando como que a gente ia descer ali. e chegou um pessoal pra ajudar. Tânia conta que estava tão desesperada que não quis descer. estacionou lá como.. a inspetora que lhes havia ligado se dirigiu aos dois dizendo ter encontrado uma bolsa no porta-luvas do carro e perguntou se a bolsa era de Patrícia. encostado no carro e ficaram olhando os palhaços. na guarita. ”A sua filha sofreu um acidente. ”Mas não. depois que meu primo chegou com todo mundo. os parentes. mas aí a gente esperou mais um pouco aí ela recebeu esse telefonema. Não tinha um policial guardando a área. entramos no carro e fomos pra lá. e disse que as buscas eram feitas apenas por uma hora. né. da minha filha e falei ‘O celular também é dela?”. descendo junto com Celso. Eu liguei pra ela. começou a chegar bombeiro com meu primo. no carro. mas ainda não voltou”. em torno de 7 e vinte. Aí ficou lá uns 2 soldadinhos de chumbo lá parado. Ao saber dessa informação Tânia e Celso ficaram duplamente indignados: em relação à demora em entrar em contato e em relação ao término das buscas. quando foi tipo umas 9 e pouquinho. e não fizeram nada. Aí nisso chegou. que a inspetora Cláudia da 16° ligou pra ela e perguntou ”A senhora é a mãe da Patrícia?”. Aí nisso apareceu. porque a gente não sabia como ia descer ali. apareceu uma patrulhinha lá e ficou lá parada. Aí eu falei ”Como não se faz mais nada? Impossível isso! Vocês tem que procurar minha filha”. É o bombeiro que dá busca. Querendo guardar o quê? Ajudar no quê? Porque na hora de ajudar mesmo. [Celso] Quando Celso e Tânia chegaram à delegacia. Ela falou: ”Sou”. e ela me deu o celular. Este pedreiro explicou que tinha um caminho para se chegar lá e se ofereceu para ajudar. Aí a gente se arrumou e foi correndo pra lá. Ninguém foi com a gente. preferiu ficar fazendo os contatos. chegou um monte de gente.. a busca é só isso”'. Tânia afirmou que era e perguntou se a polícia estava procurando o corpo. arranquei a bolsa dela. e não se faz mais nada. Não fizeram nada. da mão dela. eu acordei minha esposa. Mas antes disso em torno de umas 6 e pouca da manhã. Aí a gente foi correndo pra lá. eu peguei. numa hora só. os amigos. mas ela não atendeu o telefone. Aí começaram a chegar outras pessoas. em cima de umas pedras. Estava lá. Aí eu peguei e fui pra lá aí ela falou assim: “A senhora sabe onde é?”. vou lá”. ”Ah ela foi à festa. Como o acidente havia ocorrido por volta de cinco e meia da manhã. seis e meia as buscas já haviam sido interrompidas. chegou jet-ski. via telefone. não foi um policial pra orientar a gente onde seria.. ficamos procurando o carro.Eu falei: ”Vou achar né. caiu num canal de Marapendi e sumiu o corpo dela”. Só parado lá na guarita. só eu e ele. Logo parentes e curiosos foram se juntado no local onde o carro encontrava-se.A minha esposa teve notícia. que tinha chegado 159 .

sem camisa. aí começaram a olhar o carro. desesperado. A perita. estava todo reclinado para trás. por insistência de uma irmã de Tânia.1. não tá acostumado com isso você não sabe. Enquanto os dias passavam. Entrou ali por baixo.. aí ele atendeu. que nunca andou de Jet-Ski. Após terem descoberto que realmente se 160 . ligou pra cá. eu acho que alguém ligou. Aí ele foi e ligou para o [nome do delegado]. decidiu ir até a oficina para verificar novamente a situação do carro. porque quando eu saí ele não tinha chegado em casa. constatou que o banco do motorista. como diz Tânia. As pedras têm uma lâmina. quando o caso saiu na imprensa. ele e um amigo olhando.. porque foi um acidente e Patrícia provavelmente estaria na água. ao analisar o carro. a polícia simplesmente não se importou. havia uma pedra grande.8. Celso relata que. onde Patrícia encontrava-se.praticamente de manhã em casa. mas não avançava em nada. com quem tinham contato.. parece que alguém ligou aqui pra casa. mas as coisas “não andaram”. algum amigo dele. Um acidente que se transformou em crime praticado por policiais Um dia após o acidente o carro foi retirado por um reboque e foram feitas fotos. Aí começou a procurar desesperado. E a indignação com a polícia só aumentou quando o irmão de Patrícia. um outro amigo veio de lancha e começou também a vasculhar tudo ali com os bombeiros também e não acharam nada.. aí ele viu no capô tinham 2 furos. a peregrinação pelas delegacias continuava. o [nome do delegado] já estava no caso. Tânia conta que perguntou à perita se não iria coletar as impressões digitais de dentro do carro. Cortou até o pé todo descendo nas pedras. [Tânia] Com a ajuda de pessoas influentes. 3. desesperado. e o vidro estava todo quebrado. Aí meu filho foi com um amigo lá na oficina. pegou um Jet-Ski começou a andar de Jet-Ski pra lá e pra cá e foi pra baixo do viaduto que tem ali na São Conrado. Celso e Tânia criticavam os policiais por não terem tido uma ação eficiente que buscasse resolver o caso. Daqui a pouco eu vejo ele. dentro do carro. eu não tinha encontrado com meu filho ainda. numa delas pediam 600 mil reais. cortou o pé todo. conseguiram fazer com que as buscas se estendessem por volta de duas semanas. pesando em torno de dez quilos. [Tânia] O delegado que estava acompanhando o caso determinou que os peritos fossem à oficina averiguar se os furos seriam mesmo de bala. só que ele não reconhece furo de bala.”. e a resposta da perita foi que não precisava. Depois ligaram outras vezes. Ele soube e apareceu lá descalço. né. será que isso é furo de bala? Não sei o quê. alguém chegou a ligar pedindo resgate. O lamento e a indignação em relação ao serviço policial mais uma vez se faz presente. Aí ele falou assim: “Caramba isso aqui tá estranho.

A estratégia de defesa dos policiais.. Um morador de rua que. encontrava-se mal disposto. Por que ia ter tanta gente lá e tanto carro da polícia lá? Entendeu? Já achou isso estranho e aí. Eles deram um tempo e sumiram. A coisa mais estranha. ele afirmou que. é claro. que quase acertou o carro dele. segundo Celso. apenas por volta de cinco. todos que tiveram lá no dia. [Celso] Celso relata. No entendimento de Celso.. [Celso] Celso suspeita que o vigia tenha sido ameaçado pelos policiais e diz achar estranho que muitas pessoas tenham ido ao local e ninguém soubesse de nada. A resposta do policial. Com o tempo descobriu-se que vários policiais tinham comparecido ao hospital. Celso conta que os policiais e o advogado de defesa forjaram testemunhas com o objetivo de criar uma versão que associasse Patrícia a condutas ilícitas: 161 . o depoimento de um dos policiais envolvidos em que este afirma que estava dormindo quando passou um carro em alta velocidade. falou com o vigia também. quando estes compareceram ao local. foi que no hospital eles já tinham seu histórico. segundo Celso. Aí os policiais continuaram soltos. [o delegado] começou a pedir a escuta dos rádios. os policiais passaram lá no outro dia falando “ninguém viu nada né. onde é que fica as barracas abertas ali. aí começou essa investigação. também ninguém viu nada. Aí mudou. sumiu e não foi encontrado para depor. começou a pedir o GPS. passou por uma reviravolta. Aí fez essas investigações todas. para medir sua pressão. se deslocou pra lá. o vigia tava se tremendo todo. outros tinham ido a uma oficina de carros. foi lançar suspeitas sobre a vítima. tem mais de meia dúzia envolvidos entendeu? E. ele interrogou todos os policiais né. ninguém falou a verdade né... aí começou a investigação. foi até com advogado. pelo que ele passou mal e foi parar no hospital. Mas depois foi até dito que. e por que não pediu aos bombeiros. é. entendeu. seis horas. O pessoal do outro lado. já que era um simples acidente. o carro foi levado para delegacia para novas perícias.. O advogado da família de Patrícia perguntou a este policial por que. como geralmente ocorre. tudo indicando que os policiais se movimentaram para tentar encobrir o crime.. onde pegam peixes. em tom de deboche. decidiu ir ao hospital. inclusive.. foi até estranho. Outra situação que gerou indignação nos pais de Patrícia foi a decisão do advogado dos policiais de arrolar Tânia como testemunha de defesa dos policiais acusados de envolvimento no caso.. se ele estava passando mal desde que chegou ao trabalho. Daí em diante o caso mudou completamente. presenciou os fatos.”. conversou com cada policial e achou o negócio tão esquisito que todo o grupamento da 31° estava no acidente.tratava de furo provocado por bala. No depoimento deste policial. desde quando chegou ao trabalho nesse dia. foi uma estratégia de “jogar com o emocional” deles.

. afinal. e ele era conhecido de um primo de Tânia. e seu filho conhecia Patrícia.2. provando que minha filha não era alcoólatra. segundo Tânia. Entendeu? Falaram mil coisas que a minha filha também usa droga. que é cozinheiro. Só que eles quebraram a cara. atravessou a lagoa pra ver se ia socorrer a vítima. [Celso] Segundo o relato de Celso e Tânia. Aí o [nome] pediu para o primo dele pegar o carro dela e sumir com o carro. então a gente sabe que eles fizeram isso. né? Como [eles compraram] umas testemunhas. eles começaram a falar. foi que ele não se lembrava dela. né. aí eu mostrei o papel.. A mobilização dos familiares dos policiais No dia 09 de setembro de 2009. aí viu minha filha. aí o ônibus deixou ele lá perto. incluindo jornalistas. Quando vi a aglomeração de pessoas no corredor. Nesse mesmo dia. um flanelinha e outro rapaz.. eu tenho um papel aqui. Aí nisso ele veio de ônibus no Lagoinha. porque a mãe sempre acha que a filha está viva. 3. ele voltou. Esse flanelinha falou que viu o acidente. sua esposa ficava na praia conversando com Tânia. Ele pegou uma prancha junto com um amigo dele. [A testemunha dos policiais disse que] viu ela subindo. a versão que a defesa dos policiais adotou foi a de dizer que Patrícia era usuária de droga e o filho seria traficante. que inclusive foi amiga da esposa dele e que não entendia como ele pôde ter pegado esse caso. A resposta do advogado. Um tal de [nome] pegou ela. os familiares das vítimas geralmente comparecem vestidos com camisas estampadas com a 162 .O que eles quiseram fazer foi jogar com a mãe. no dia que fui lá falar. o corredor estava repleto de pessoas. Meu filho nem fuma. porque ela foi pegar droga lá. ali. porque ela estava comprando droga e falou que meu filho é traficante. eu tenho um documento que ela trabalhou na época numa multinacional. todos acompanhando e aguardando por informações sobre os depoimentos. viu que tinha um rapaz dentro do carro. o advogado de defesa dos policiais foi vizinho deles durante um tempo.8. um tal de [nome].. compareci ao fórum para tentar acompanhar uma das audiências do caso. pegou o baseado. não era nada”. que ficava querendo droga. Segundo ela. [Tânia] Tânia conta que ficaram decepcionados quando compareceram às primeiras audiências e souberam quem era o advogado dos policiais. Do lado de fora. logo pensei que se tratava da mobilização dos familiares de Patrícia. ele foi na Rocinha. Quando cheguei próximo à sala onde ocorreria a audiência. alguns poucos parentes e amigos de Patrícia seguravam uma faixa. eu falei assim: “Seu Juiz. Segundo Tânia. viu ela parada lá. disse que o conhecia. no dia de uma audiência ela chegou a conversar com ele. né. como é de costume nas ocasiões de julgamento. eles mexem com o emocional e com meu filho. ficou fumando perto da lagoa e viu o acidente. É isso que eles queriam. o rapaz saiu correndo.

E a indignação aumentou ainda mais quando os policiais acusados foram inocentados no inquérito militar. e organizaram um site (www. O simbolismo geralmente adotado pelos familiares de vítimas. mas sim dos familiares dos policiais. dois ou três ônibus teriam sido alugados para levar os familiares. aquela mobilização não era dos familiares de Patrícia. que compareceram. As esposas dos policiais estavam de branco e os demais familiares e amigos vestiam camisas azuis (cor de identificação da polícia).foto dos parentes assassinados. estava sendo usado pelos familiares dos policiais acusados. dessa vez. A esperança dos pais de Patrícia é que os policiais sejam condenados no Tribunal de Júri. Faixas e banners foram espalhados pela cidade clamando por informações. Cadê Patrícia”.br) que contém todo o material referente ao caso. 163 .cadepatricia. Os familiares e amigos de Patrícia. Segundo informações que circularam pelos corredores. Para minha surpresa. como forma de pressionar. Até mesmo em um jogo do Fluminense. um ato no Cristo Redentor. Os familiares e amigos de Patrícia também organizaram várias manifestações de protesto e cobrança. os jogadores empunharam um cartaz divulgando o caso. incluindo carreatas. amigos e apoiadores dos policiais para a audiência.org. com os seguintes dizeres: “Policiais inocentes. se sentiram constrangidos com a situação. no Maracanã. viam aquilo como uma afronta.

Foto 3: Jogadores do Fluminense entraram em campo no Maracanã com uma faixa de protesto – 20/05/2009 Fonte: www.gabrielasoudapaz.br – Acessado em: 17/06/2012 164 .org.br – Acessado em: 17/06/2012 Foto 4: Manifestação no Cristo Redentor Fonte: www.cadepatricia.com.

segue a via dos sentimentos. dignos de serem elevados à categoria das causas” (Boltanski. Sobre a possibilidade que se apresenta ao espectador à distância. radicalmente diferentes daqueles que se abrem a ele desde a indignação. O espectador que se sensibiliza com o sofrimento daquele que sofre é intimado a se implicar nesse sofrimento. pode direcionar a ação face àquele que sofre como face ao acusado de promover o sofrimento da vítima. que supera o mutismo da emoção bruta apontando em direção à manifestação da ameaça e da força. neste sentido. Busca-se. Seja o testemunho dado em situações públicas.9. a emoção ganha contornos diferentes em relação a uma situação de co-presença. Boltanski observa ainda que os meios de que dispõe o espectador para desenvolver um discurso desde o enternecimento são. O recurso de prosseguir rumo a uma acusação ou a uma denúncia não se apresenta. implicar o espectador no sofrimento a partir dos sentimentos daquele que sofre. portanto. Segundo a descrição detalhista de Boltanski. uma das figuras principais nas quais se manifesta a indignação é a urgência. atuar como um multiplicador. no tópico do sentimento eles são mobilizados para provocar piedade e são controlados pela velocidade do modo de se 165 . mas com os sentimentos de gratidão face aos sofredores. “fixar a linha da partilha que separa os sofrimentos genéricos – inerentes a qualquer tipo de condição humana – dos sofrimentos escandalosos. 2007: 152). engajando-se na via da indignação. O testemunho dos familiares ocupa um lugar importante tanto numa política da piedade como numa política da justiça. à distância. A mobilização do sofrimento nos testemunhos pode levar o espectador tanto a um sentimento de piedade como a um sentimento de compaixão. seja o testemunho colhido no âmbito privado. ele deve falar aos outros do sofrimento daqueles que sofrem. quase como um segredo. quando este não mais simpatiza com o ressentimento dos infelizes contra seus perseguidores. Uma primeira consequência – que. nesse caso. Enquanto que na indignação os recursos corporais são reunidos para expressão da cólera. A descrição dos sofrimentos que aparece nos relatos dos familiares pode trabalhar as emoções e transformar o sofrimento tanto em piedade como em compaixão. Boltanski argumenta que a piedade. O testemunho como via de sensibilização: o vocabulário dos sentimentos e o poder de comoção das emoções O detalhe do sofrimento opera como um elo de sensibilização entre quem sofre e quem observa aquele que sofre. poderia parecer um obstáculo a uma politização do sofrimento no quadro deste tópico dos sentimentos – é que ele não pode tão facilmente.3. Porém. e não da transformação da indignação em acusação. da denúncia e da acusação. segundo Boltanski. como no tópico da indignação.

o testemunho dos familiares correspondem a uma forma de expressão a partir da qual essas interioridades e emoções que vêm do coração podem se comunicar. Numa tópica do sentimento. onde a necessidade de fundar a crítica desvelando aquilo que faz do infeliz uma vítima conduz a remontar o nível lógico ocupado pelas pessoas e pelos objetos face ao nível das convenções de equivalência que estabelecem suas relações e cuja ativação permite controlar o caráter justo ou injusto” (Boltanski. é concebida como a via de exteriorização da interioridade. A emoção. No caso dos familiares. o mais central. Por outro lado. Ainda segundo Boltanski. não atribui grande importância aos objetos. 2007: 153). este nível é o do coração.expressar. na qual os estados interiores não são objetos de verdade. Diante dos relatos dos familiares que apresentei os espectadores são convidados. E para se sensibilizar com os sofrimentos dos infelizes. mas pelo desenvolvimento da interioridade na exterioridade. intimados a se implicar nesses sofrimentos. comover. o espectador deve não apenas lhes fazer face. fazê-los retornarem sobre si mesmo. a tópica do sentimento “não se desenvolve numa metafísica da justiça. mas de coração a coração. A verdade. pela contração da expressão e do corpo inteiro. em um mesmo movimento. o acesso à verdade. a tópica do sentimento faz economia da denúncia e da acusação e. dirigir-se à interioridade. ao qual cada um pode aceder centrando a atenção ao interior de si mesmo. quando é estabelecida não superficialmente. E. nem pela aproximação com os objetos que sustentam uma generalização. abrir-se à escuta de seu próprio coração. À diferença da indignação. A metafísica na qual a tópica do sentimento se apoia é a metafísica da interioridade. aqui. a expressar suas 166 . não passa nem pela exploração argumentativa de princípios convencionais. afirma Boltanski (2007: 156). Nesta tópica. A força dos relatos tem o poder de chocar. capaz de desenvolver um aparelho de provas materiais. uma metafísica da interioridade comporta dois níveis: um nível de superfície onde se estabelecem as relações superficiais entre pessoas entregues à artificialidade. na tópica do sentimento. E o relato. o testemunho e toda a dimensão performativa através da qual se expressa a emoção são os elos que ligam interioridade e exterioridade. objetivas. à mundanidade das convenções e à separação é a indiferença. outro nível profundo. ela não é estranha a toda metafísica. a relação entre o espectador e o infeliz é real e autêntica. mas das emoções. a menos que se construa uma instância exterior às pessoas. sensível. é índice de verdade. de interioridade a interioridade. ao nível das aparências. A referência a estes estados não pode ser levada em conta em um julgamento. não vem das provas. se a tópica do sentimento não se desenvolve numa metafísica da justiça. ele deve também. A emoção. emocionar. diferente da tópica da justiça. por conseguinte. vê-los do exterior.

a constituição e fixação de um vocabulário que permita descrever com precisão quase técnica os fatos físicos e os diferentes estados que afetam um coração sensível ao espetáculo do sofrimento. As lágrimas ocupam um papel central no dispositivo do sentimento. enternecimento e lágrimas. por exemplo. a opinião de Rousseau. seja 167 . A força dos relatos aproxima aquele que narra o sofrimento daquele que ouve. “uma 'doce emoção' que tende a se opor à indignação que aumenta a visão da injustiça. e é associado principalmente à piedade 'diante da simples humanidade sofrida'” (Boltanski. o 'interesse comum' que liga o ser que ele toca ao outro. percorri pequenos mapas da dor que expressam aquilo que Boltanski denominou de “metafísica da interioridade”. em reconhecer. neste capítulo. A colocação dos sentimentos em movimento. ternas. “o jogo das lágrimas é sempre o mais íntimo da relação do ser humano com o outro e com si mesmo”. são fundamentais para nossa reflexão sobre as relações entre violência. Na medida em que são marcados pela emoção. sofrimento e política na experiência dos familiares: comoção/emoção. As lágrimas expressam emoções que têm por assento o coração e. como duas respostas diferentes ao espetáculo das 'misérias humanas'. Boltanski seleciona três termos que considera centrais para descrever o vocabulário dos sentimentos e que. sobre os relatos dos familiares. Boltanski percorre algumas obras e alguns autores para mostrar como a nova estrutura narrativa e o vocabulário dos sentimentos foram se fixando. segundo a qual a emoção é um fato da interioridade. Ele destaca. elas designam a operação pela qual a interioridade se transforma em exterioridade.comoções e suas emoções. os gritos. Boltanski destaca que Rousseau associa a emoção ao universo das paixões e desenvolve principalmente a análise das emoções doces. A emoção principal que interessa Rousseau é o enternecimento. porque juntamente com outras manifestações corporais como os suspiros. em um movimento de 'humanidade'. uma “agitação interna”. o enternecimento consiste 'em sentir-se em seus companheiros'. além de uma estrutura discursiva própria. a sensibilidade em relação ao pesar do outro. além de estabelecer uma comunicação com o mundo que se manifesta próximo. que é a emoção simpática por excelência. igualmente. 2007: 173). já para Condillac. estas que engendram a piedade. ela é “um movimento dos sentidos que vem de um sentimento excitado interiormente”. Ao me dedicar. esses testemunhos significam uma via para a sensibilização dos espectadores e possuem grande poder de comoção. exige. o reconhecimento. nesse caso. os gemidos. 'Imaginação do coração'. altruístas. Aquilo que é interior se manifesta ao exterior a partir dos relatos e das performances do ato de falar. numa história.

168 .presencialmente ou à distância. E as emoções são estrategicamente trabalhadas para causar comoção.

susto.4. receio. 17). No desenvolvimento de seu raciocínio. convivem cotidianamente com o terror. o sentido de uma antropologia do terror estaria ligado. apresentando vasto campo semântico. o que não significa dizer que toda situação de sofrimento seja engendrada desde o terror. começarmos com uma reflexão sobre o terror. a presença constante da morte rondando. Medo. entre outras coisas. portanto. supostamente. Walter Benjamin 4. Afinal. assim como na minha. Essa instituição. como as de apreensão. formam a teia que interliga determinados sentimentos e . Será útil. Ela é repleta de imagens sobre terror e sofrimento. uma etnografia sobre determinada instituição que abriga portadores de Aids. NARRATIVA SOBRE O TERROR E O SOFRIMENTO: UM CASO EXEMPLAR DE DESAPARECIMENTO FORÇADO Se pensamos a dor como uma barragem que se opõe à corrente da narrativa. uma das primeiras palavras que nos vêm à mente quando se fala em terror. Em relação aos casos de desaparecimento forçado analisados por mim. buscando elaborar o que seria o sentido de uma antropologia do terror. principalmente no campo da filosofia e da antropologia. “o terror é categoria arredia às investidas teóricas” (2004: 18). estabelecerei um diálogo com o interessantíssimo trabalho de Pereira (2004). Em sua pesquisa. então vemos claramente que ela romperá onde a inclinação tornar-se suficientemente forte para levar tudo aquilo que a corrente encontra nesse caminho ao mar do feliz esquecimento. Aproximação ao campo do terror A história que será apresentada neste capítulo pode ser interpretada como uma narrativa sobre o terror e o sofrimento. seria o sentimento de inquietação ante a noção de perigo real ou imaginário. medo.1. os relatos dos familiares permitiriam fazer um inventário de castigos corporais aos quais as vítimas teriam sido submetidas. procura dar condições para que estes “sobrevivam”. Um dos argumentos defendidos pelo autor é que os portadores de HIV abrigados nessa instituição. como adverte Pereira. susto. Pereira incursiona pela obra de diversos autores. apreensão. nesses relatos. à proximidade da morte e à submissão a castigos corporais. o que seria o terror? Seria possível uma aproximação sociológica e antropológica desta categoria? Para esboçar uma breve reflexão sobre tais questões. O termo terror tem como equivalentes os vocábulos pavor. “enquanto esperam a sua morte iminente” (p. temor. Mas. Assim como também é possível observar. pavor. Outras noções.

Já o medo pressupõe a existência de objeto definido e conhecido. a dor. 2004: 18). mas apenas pontuar alguns aspectos da discussão. a qualidade do terrível. conceituando e distinguindo pavor. Freud enfrentou as dificuldades no campo semântico envolvendo alguns dos vocábulos equivalentes ao termo terror. mas sugestiva. assim. ali aonde as análises não foram – não puderam ir ou não quiseram ir (Pereira. que assumem configurações imprevisíveis. “Ao embaralhar e confundir medo. mas o têm como objeto privilegiado de pesquisa. “A angústia seria o estado caracterizado pela perspectiva iminente do perigo e pelas consequentes reações de defesa. 170 . Nestas definições notam-se as diferenças entre as relações dos sujeitos com o perigo. A partir destas incorporações surgiram áreas como antropologia das emoções. cit. se pudéssemos nos aproximar sem nos emaranhar nessa teia. daquilo que aterroriza. O objetivo aqui não é reproduzir toda a discussão formulada por Pereira. o terror permanece sociologicamente invisível. 2004: 69).69). Roger Dadoun. Afinal. Hannah Arendt. Pereira considera a definição apresentada por Freud imprecisa. Outros tratam de assuntos semelhantes. O pavor acentua-se com o fator surpresa e denota o estado em que se cai em situação perigosa de modo inadvertido” (Pereira. medo e angústia.. Pereira estabelece um diálogo com a obra de vários pensadores da área das Humanidades. nublando as análises. as emoções. como Foucault. o sofrimento e o medo. Entretanto. Ao contrário de outros temas. as fantasias. o terror brinca com aquilo que faz sentido. Pouquíssimos autores trabalham com a categoria e os que o fazem quase sempre desvanecem o conceito. Freud. deixaria de estar presente. antropologia da dor e do sofrimento. angústia e pavor. mas precisa do sentido para poder zombar e. Ele cita o exemplo de temas antes considerados “sociologicamente invisíveis” como o imaginário. o desejo.sensibilidades. intensificar o sentido e a sensação” (op. 70). Freud foi um dos autores que Pereira considerou em seu inventário de abordagens sobre o terror. Para tentar avançar na reflexão sobre o terror. Quem sabe sejam as próprias características do tema que lhe conferem invisibilidade sociológica. sem nos deixar contaminar. que contribuem para pensar as imagens do terror e do sofrimento que aparecem. pavor e angústia. Heidegger. o terror permanece sociologicamente invisível. Michel Taussig e Veena Das. a seguir. 2004: . já não estaríamos no campo do terror (Pereira. Tratase de um campo não demarcado e impreciso. no relato da mãe de um jovem desaparecido. O autor observa que áreas antes desprezadas pelas Ciências Humanas foram sendo incorporadas ao pensamento das humanidades. que nos enreda e faz com que a definição precisa seja adiada. na medida em que o terror pode ser imaginado como o embaralhamento das ideias de medo.

Nas palavras de Hannah Arendt. em lugar dos canais de comunicação entre os homens. Hannah Arendt se concentra na “representação hiperbólica do autoritarismo nos estados totalitários” (Pereira. Pereira encontrou uma definição do terror muito pertinente para pensarmos os relatos sobre desaparecimento. o terror – base dos governos totalitários – é a execução da lei do movimento. em vez de quatro. a sujeição dos corpos seria sutil. a modernidade estabelece um novo regime de verdade. Para os governos tirânicos ou nãotirânicos a presença ou a ausência da legalidade estabelece o princípio de sua própria 171 . existe a diferença entre a tirania.Em Foucault. óleo fervente. mas. Observe-se que. mas deve ser entendido como a tentativa de anular a comunicação entre os homens. aquela que torna possível que a lei da natureza ou da história se propague por toda a humanidade. O terror objetiva fabricar essa humanidade. e suas cinzas lançadas ao vento” . em que a punição se fundamenta na divisão de papéis no exercício da “justiça criminal” e na suavidade dos castigos. cria-se um “cinturão de ferro” que comprime as experiências de tal maneira que reduz a pluralidade a “um-só-homem de dimensões gigantescas”. Diferente da Era Clássica. baseada no terror e na punição da carne e do corpo. não conseguiram desmembrar as coxas do infeliz. de camisola. foi preciso colocar seis cavalos. mas a própria possibilidade de “começar de novo”. Pressionando homens contra homens. o terror corrói e destrói os espaços entre eles. eliminando não só a liberdade do homem. de modo que. num processo em que os indivíduos são eliminados “pelo bem da espécie ou da história”. para Arendt. Damiens recebeu sua punição em praça pública. Para Foucault. essa descrição é menos uma definição direta do que uma construção de imagens para se aproximar do terror. braços. Na modernidade. Para ela. cera e enxofre derretidos conjuntamente. O terror não pode então ser caracterizado como a busca do poder despótico de um homem contra todos. 2004). não afeitos à tração. Conforme Hannah Arendt. foi necessário “cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas.. piche em fogo.” (Foucault. reduzidos a cinza. Por meio do caso de Damiens. Enquanto Foucault faz uso das imagens do suplício para construir o terror. sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio. o governo não-tirânico e o governo totalitário. 1987: 9). Ainda assim. “o terror é a essência do domínio do totalitarismo”. Sobre um patíbulo foi “atenazado nos mamilos. como no caso da tirania. o terror é a exacerbação dos suplícios e a tortura física era o fundamento do terror na Era Clássica.. queimada com fogo de enxofre. ao suprimir a pluralidade e a comunicação. Nu. Foucault descreve as características do terror. mas imerso em campo político. sem necessidade de fazer uso do “terror”. coxas e barrigas das pernas. e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo. como nota Pereira. O corpo continua sendo alvo de disputa. e às partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido. Os cavalos utilizados no esquartejamento.

destruição da capacidade humana de sentir. Nas leituras de Taussig e Veena Das. pavor e angústia. e compartilhemos. (Pereira. Ele é um “dispositivo”. Para Taussig a inefabilidade é o traço marcante do “espaço da morte e do terror”. tive a oportunidade de ouvir pela primeira vez o depoimento emocionado e emocionante da mãe de um dos jovens desaparecidos. a seguir. tortura. que. 2004: 76) Segundo Pereira (2004: 76). Para o governo totalitário as leis positivas não têm valor. “nada melhor do que apresentar narrativas que possam fazer o leitor compartilhar do campo terror”. Sigamos. Segundo o autor. o terror tem a ver com a mutilação da linguagem que produz silêncio e emudecimento.2. enquanto que. É possível ainda incluir nesta lista as compreensões antropológicas de Michel Taussig e Veena Das. Pereira observa ainda que Arendt está longe de localizar o terror apenas na esfera política. o desaparecimento. 4. Sobre a situação de entrevista e a circulação de relatos de terror No final do ano de 2005. ou seja. exacerbação dos suplícios. 1989: 527). a sugestão de Pereira. mais um evento traumático chocou a cidade do Rio de Janeiro. para dizer o indizível. ela aponta que o terror “destrói a capacidade humana de sentir e pensar tão seguramente como destrói a capacidade de agir” (Arendt. do não acesso à justiça e de sua 172 . instituições. O primeiro registro que fiz desse caso foi através do material jornalístico que circulou. 2004: 72). além da saudade do filho. (Pereira. visto que a “legalidade é a essência do governo não-tirânico e a ilegalidade é a essência da tirania”. ao indicar as características do terror nos contatos pessoais. o que importa são as leis da natureza ou da história. Foucault e Arendt temos identificados alguns traços característicos do terror: embaralhamento das ideias de medo. uma malha de discursos. de forma diferenciada. rumores. o caso de Maria. Seu relato falava de situações de terror envolvendo violência policial e violência dos traficantes. no dia 23 de setembro de 2006. inicialmente. o terror não está vinculado de maneira exclusiva nem ao discursivo nem ao extradiscursivo. Durante um evento na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). de treze jovens da Favela Samambaia. pensar e agir. organizado pelo Fórum de Reparação do Estado do Rio de Janeiro. para Das. Percorrendo as abordagens de Freud. então. responde ao exercício de poder em dado momento histórico. todos esses autores conseguem nos fazer sentir o terror e todos parecem afirmar que.definição.

Condenou os policiais o traficante. como dizem os três que foram libertados. de frente para o DPO. Quando eu cheguei na comunidade Samambaia para procurar o meu filho. O exame de DNA deu confirmado. Eu quero o meu filho. na casa da minha mãe. gritando: “Não foi esse o trato que nós fizemos. O rapaz foi falando: “esse é traficante. eu estava já dormindo. principalmente os policiais corruptos. As vítimas foram escolhidas aleatoriamente. foram os que receberam os cinquenta mil reais. mas que também sai em certos momentos. E o menino disse que ele perguntou para o meu filho: “Teu documento!?”. Eu não sabia que meu filho estava passando por aquilo. eu naquele desespero. Na última sexta-feira. Eu fui saber no dia seguinte. Eu não quero outro. ele reconheceu todos os policiais. 36 Uma versão deste capítulo foi publicada em Araújo (2011). que realmente as vítimas foram torturadas na casa onde eles comeram. chamado caveirão. 173 . Meu filho estava vindo da casa da namorada. mas está com a minha mãe”. e aquele não é”. porque eram marinheiros. porque muitas das vezes ligavam para ele ir pra lá. Os policiais estavam armando de levá-los para o DPO: “Se vocês não deverem nada vocês vão voltar”. entala o peito. Mas foi confirmado. O juiz falou que colocou ele na rua porque não tem denúncia. Só que o juiz não aceitou a denúncia. em um campo de futebol. várias repórteres tirando foto dele. ele disse “Eu tenho o protocolo da identidade. E realmente. ligaram para mim. eu acordei de manhã. Meu nome é Maria. Hoje faz nove meses que eu estou sem o meu filho e hoje de manhã eu ouvi uma pessoa dizer para mim assim: “É. três estão confirmados. Os traficantes da favela vizinha pagaram cinquenta mil reais para os policiais do batalhão colocarem o carro blindado. Vocês ganharam muito. Sou mãe de um rapaz de 16 anos que desapareceu no dia 13 de dezembro de 2005. na comunidade Samambaia. Eu estou feliz por estar aqui. colocaram eles nus. aí eu fechei a minha boca e fui procurar. mas foram dez. porque dormia na maioria das vezes na casa da minha mãe. Eu fui saber no meu trabalho.dor36. esse aqui é. e vi um rapaz sem camisa. Um mês depois eles prenderam um traficante e o outro traficante estava preparado para matar as mães. E eu estou nove meses lutando e os três policiais estão desviados. Memória dolorosa. Ele disse “Vou levar para o DPO. naquele dia. Alguns estavam na rua. estou desde o dia treze de dezembro sem deitar numa cama em casa (fala chorando). que dói no coração. A reportagem diz oito. Na divisa da comunidade. e outros dentro de casa dormindo. se você não dever nada você volta”. viu alguns rapazes. é o homem que levou os nossos filhos”. Os outros dez foram condenados porque não tinham documento. nove meses. eu fui até a divisa. Os quatro policiais que receberam os cinquenta mil ele apontou. colocaram dentro do carro blindado e “Vamos levar pro DPO”. A dor expressa no relato é o meio através do qual se cria a memória do evento. amarraram eles. Que os policiais tomassem a fita dela. Foi tempo suficiente de você fazer outro”. O relato impressiona pelas imagens de terror e sofrimento. entregaram na mão do traficante da favela rival. os policiais que estavam de serviço no DPO. porque ele disse que não há corpo não há crime. E aí eu perguntei para as outras pessoas que estavam ao meu lado “Quem é esse homem?”. para agora a imprensa toda estar aqui e estar acontecendo o que está acontecendo”. pela contundência e pela dimensão catártica. Eu catei todas as minhas coisas e tornei a fugir novamente. porque eu não posso. E aí. às duas horas da manhã. Foram treze sequestrados. O rapaz – um dos rapazes – que era traficante junto com esse que pegou o meu filho. Eles tomaram o filme dela e de lá para cá eu venho sofrendo ameaças. e os policiais. Como ele gostava de baile funk e cantava rap. Ele ordenou os policiais do DPO que tomassem a fita. Maria. dentro da comunidade Samambaia. eu fui lá na antiga Avenida Rio Branco. em um clima de muita emoção e comoção. três foram liberados. Ele [o traficante] está nas ruas. no meu trabalho. junto às outras mães. dono da boca. “Esse o dono da boca aqui do lado. ele vivia dentro dessa comunidade. o filme dela. do lado.

no Rio de Janeiro. memória dolorosa.torturanuncamais-rj. o GTNM se apresenta da seguinte forma: “O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ (GTNM/RJ) foi fundado em 1985 por iniciativa de ex-presos políticos que viveram situações de tortura durante o regime militar e por familiares de mortos e desaparecidos políticos e tornou-se. Toda vez que uma pessoa se aproximava de onde estávamos. meio-dia. Ela havia esquecido da entrevista e. contendo lojas e até uma praça de alimentação. 37 174 . Por isso é contada quase como um segredo. onde se sentiria mais à vontade.Então. a segunda foi no enterro de Vera Flores. 38 Para uma discussão sobre a produção social da identidade frente a situações limites. Tratava-se de uma memória da dor. deveria ser em um lugar seguro. mas quando cheguei no local não a encontrei. mas decidiu voltar para que conversássemos. agonística. reencontrando essa mesma mãe para realizar uma entrevista. numa cerimônia organizada pelo Grupo Tortura Nunca Mais37.org. ela já se encontrava no ônibus retornando para casa. uma referência importante no cenário nacional”. O lugar que ela considerou mais seguro. Durante todo o processo de negociação da entrevista.br). unidas pela mesma dor do desaparecimento dos filhos. (Fonte: http://www. os traficantes pendurados com a blusa da PM e de bermuda. Em seu site. A entrevista foi realizada em vários locais da igreja. conferir Pollak (2006). encontrei Maria em duas outras ocasiões: a primeira foi na entrega da Medalha Chico Mendes. o que quem mora numa comunidade ia fazer na outra duas horas da manhã? Uma comunidade que tem uma ocupação que chega seis horas da noite para sair seis horas da manhã. quando liguei para fazer contato. o templo da Igreja Universal do Reino de Deus em Del Castilho. através das lutas em defesa dos direitos humanos de que tem participado e desenvolvido. entrando na comunidade e pegando o pessoal no meio da rua.. e a primeira impressão que tive foi que parecia um shopping center. o cuidado que devíamos ter exigiu que conversássemos sempre em um local onde ninguém nos ouvisse. com um grande cuidado. Passados exatamente dois anos e onze meses. desentendimentos e estigmatização. Antes de tudo. Eu nunca havia entrado lá. porque sua publicização pode gerar incompreensões. uma das Mães de Acari. que também havia perdido uma filha e de quem Maria se tornara grande companheira. A entrevista funcionou como uma via de transmissão e externalização de uma memória traumática. para um pequeno círculo de interessados. Maria havia marcado comigo após o culto. E os moradores de dentro da comunidade viram o caveirão entrando. conhecida popularmente como Catedral Mundial da Fé.. A entrevista foi uma forma de Maria narrar e compartilhar sua dor38. Nesse intervalo de tempo. Maria manifestou preocupação com as condições do local para a conversa. levantávamos e íamos para outro lugar em que não houvesse outras pessoas por perto. apenas aqueles que inspiram um mínimo de interesse e confiança. foi a igreja que ela costuma frequentar. Hoje estou sem o meu filho e a comunidade não fala nada. lá estava eu.

ela me disse que chegou a pensar em desistir. e não há uma sepultura onde são depositados os restos 175 . o desaparecimento pode ser pensado como uma “morte inconclusa” (Catela. militante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência.Após terminarmos a entrevista. a decisão de levar a entrevista adiante se deu em razão de ter ligado para Patrícia. sobre ela e sobre a família. Luto que se estende pelo tempo. Outro traço marcante foi a emoção. porque. A lembrança provoca um sentimento de saudade e os efeitos traumáticos do acontecimento são tão fortes que chegam a transformar a saudade em angústia. Há momentos em que as lágrimas escorrem pelo rosto de Maria. ou seja. ficou muito emocionada e chorou em vários momentos. em que não há um momento específico para o luto. avistou uma pessoa do lado de fora que parecia ser seu filho. Os rituais de morte e de despedida são rompidos. familiar de vítima. 2001). Diante do risco de morte é preciso tomar muito cuidado com quem se fala e do que se fala. quando ela me narrou uma situação em que andava de ônibus pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro e. já que esta última não se encontra presente para testemunhar. na medida em que não há corpo. certo mal estar. São essas marcas que Maria gentilmente compartilhou comigo durante a entrevista. desceu do ônibus e saiu à procura dessa pessoa. Em relação à entrevista. e quem também acompanhava o caso. Ao falar sobre o caso. como argumentou adequadamente a antropóloga Ludmila Catela. ao lembrar. por exemplo. a tragédia que se abateu sobre o filho. porque não me conhecia. ao encontrá-la constatou que não era seu filho. tinha medo e seus relatos na imprensa estavam lhe rendendo muitos problemas. com uma riqueza impressionante de detalhes. O teor dos acontecimentos narrados chega a provocar. torna-se testemunha da testemunha (Jelin. seguindo seus passos e rastros. o que me contou aos prantos. em razão da não localização do corpo do filho. nem vivo nem morto. Descrevo estes detalhes da negociação da entrevista para enfatizar o silenciamento e os obstáculos a serem enfrentados pela mãe para se fazer ouvida. Sua família a criticava muito por sua exposição pública diante do caso. nessas horas. até encontrá-la e. para pedir referências sobre mim. Segundo ela. desenvolve um trabalho de escuta da testemunha que fala em nome da vítima. E o pesquisador. Vive-se um luto permanente. Só depois da mediação de Patrícia ela se sentiu mais segura. conforme se poderá perceber na descrição da entrevista. de dentro do ônibus. A confiança é construída através dos laços de solidariedade que se estabelecem a partir do compartilhamento da dor e do sofrimento da experiência traumática. foi impressionante como Maria narrou com detalhes os acontecimentos. Isso aconteceu. Desesperada. parecia até que os tinha vivido em primeira pessoa. 2001: 142). ao estudar os casos de desaparecimento forçado relacionados à ditadura argentina.

Manoel e Alexandre. com medo de receber broncas da mãe. em um bairro da Zona Sul. conversávamos de um lugar da igreja. segundo ela. porém. Essas favelas ficam na Zona Norte do Rio de Janeiro. A resposta que obteve foi que Alexandre havia passado em casa antes de ela voltar do trabalho e depois disso não aparecera novamente. ainda havia outra jornada a cumprir: a jornada escolar. Como não há o corpo para comprovar a morte. sem passar na casa de sua mãe para ver se seu filho já havia voltado para casa. no dia seguinte.mortais. de se vestir. Maria identificou e me mostrou uma pessoa que parecia muito com seu filho. Maria prefere acreditar que o filho esteja vivo. era dia de pagamento dos aposentados. Na época do desaparecimento do filho. Quando acordou no dia seguinte. como se isso fosse uma pista que ajudasse a identificar e localizar o filho. de gesticular e de andar das pessoas passaram a ser observadas por Maria. Maria olhou e viu que Alexandre ainda não estava em casa. Quando chegou em casa. Maria perguntou à sua mãe se Alexandre já havia chegado. 176 . Em certo momento da entrevista. seus olhos se encheram de lágrimas e ela começou a me descrever os gestos corporais de seu filho. O “sumiço” do filho: tomando conhecimento da notícia e dos fatos Maria tem dois filhos. Ao voltar da escola. seguiu direto para lá. As formas de falar. quando chegava muito tarde. Estávamos no alto de uma igreja e. depois. Mora na proximidade de uma favela que faz divisa com outra. o andar da pessoa que estava passando lá fora era muito parecido com o andar de Alexandre. devia chegar mais cedo no local de trabalho pois. havia saído novamente para jogar bola e. ela trabalhava como auxiliar de serviços gerais em um banco. Antes de seguir para a escola. após voltar do trabalho. Segundo ela. ao observar o movimento no ponto de ônibus. em que facções rivais do tráfico de drogas vivem em conflito há décadas. segundo ela. era sempre mais uma tentava de visualizar e encontrar o filho. no dia 12 de dezembro de 2005.2. Como trabalhava em um banco e. Nesse instante. passou em casa rapidamente e sua mãe lhe informou que Alexandre já havia retornado da escola. Alexandre tinha o costume de dormir na casa da avó. Por onde seu olhar passasse. às dez da noite. Disse não ter dado muita importância e fora dormir porque. ainda passaria na casa da namorada. 4. Ela me contou várias situações em que saía procurando o filho aleatoriamente pelas ruas da cidade. pelo qual era possível avistar a movimentação da rua.1.

que.A primeira notícia Maria recebeu da irmã pelo telefone. como forma de evitar a estigmatização. sabe? E eu ligava pra casa e ninguém atendia e ligava pra casa ninguém atendia. apesar de não conhecer ninguém. e a resposta que ouviu da irmã foi que Alexandre estava saindo da favela. Maria foi conversar com o gerente do banco e pediu para ser liberada mais cedo. quando foi abordado. meu coração está apertado. que morava na rua de cima. o filho mais velho de Maria. até a favela. o que houve com o Alexandre? O que foi? Aconteceu alguma coisa com o Alexandre?”. Maria seguiu do trabalho direto para a favela. Informaram-lhe que todos ali estavam se dirigindo ao batalhão responsável pela área. no meio do desespero. porque algo de errado estava acontecendo em casa com seu filho. Quando os familiares de outros jovens se aproximaram de Maria. O simples fato de circular à noite pela favela é compreendido pela irmã de Maria como motivo suficiente de suspeição. Maria trocou de roupa para ir embora. e aquela coisa. ela foi logo perguntando o que estava acontecendo. porque também pra não me atrasar. Aí eu me lembrei que tinha a minha irmã. o que aconteceu?”. Teria ocorrido uma operação policial na favela e alguns jovens teriam sido levados dentro do “caveirão”. Pelo telefone Conceição disse que mandaria Manoel. para saber o que havia ocorrido. minha irmã falou: “Cê tá sentada?”. Passei pela minha mãe direto. “O que aconteceu. Quando ela chegou à comunidade40 havia uma van estacionada e dentro estavam as mães e outros familiares dos jovens desaparecidos. compreendeu sua preocupação e a liberou. Acompanhemos um trecho do relato de Maria: E aí. de madrugada. E eu falei: “O que foi Conceição. eu acordei muito cedo e não vi ele. Fica uma angustia. Enquanto Manoel ia à favela. mas antes ligou novamente para a irmã. Aí ela falou pra mim assim: “Maria o que aconteceu foi o seguinte. Eu falei. Outra versão que circulou era que os jovens menores de idade teriam sido levados para o Juizado de Menor. Maria conta que. favela onde o tráfico é comandado por uma facção rival à da Favela Samambaia. O gerente do banco. pra mim ligar pra casa da minha irmã. porque a informação que havia chegado era a de que Alexandre fora levado pelo “caveirão” e entregue aos traficantes da Favela Cutelo. para conversar com o comandante Obreira da igreja: na linguagem evangélica. Ela falou. A irmã de Maria lhe perguntou se já estava a caminho de casa e recomendou que andasse rápido. Por ser obreira da igreja39 as pessoas rapidamente a identificaram. Quando liguei pra minha irmã. perguntava-se por que seu filho teria sido levado ao Juizado de Menor. aconteceu uma operação dentro da comunidade e alguns meninos foram levados dentro do caveirão”. A esse respeito conferir o texto de Birman (2008). 40 Comunidade: termo utilizado em substituição à palavra favela. chorando. E eu fiquei o dia inteiro com aquele aperto no peito todo. aquela pessoa que se engaja nas atividades e no trabalho da igreja. entre eles seu filho. e fui embora. era muito seu amigo. segundo Maria. 39 177 . “Cê tá sentada?”.

quando o caveirão passou. e cortou um pedaço do nariz do garoto. Porque meu filho tinha o nariz fino. mas fininho. os jovens não foram levados para a delegacia. diz que um dos chefes do tráfico falou o seguinte: ‘Ganhei na loteria. filho de um dos donos da favela. 4. alcagüete. Segundo os moradores ouvidos por Maria. com a participação da polícia e de um X-9. que estava no grupo de familiares dos jovens desaparecidos foi quem trouxe a informação. Entretanto. traidor. no entanto. o menino virou pra um dos traficantes que estava dentro do caveirão. ‘Nunca vi negro de nariz fino!’. Mas não era. circunstância na qual os jovens teriam desaparecido. eu soube que quando o X9 viu ele saindo de dentro da comunidade. porque foram treze sequestrados. Uma menina. Quando pegaram meu filho. tirou um cortador de unha. Ela. Maria ficou curiosa em saber “quem estava ali”. mas sim entregues aos traficantes rivais da Favela Cutelo. dizendo: “Ele ta aí! Ele ta aí!”. Aí pararam o caveirão. Ao ouvir a fala dessa menina. Seguraram-na dentro da Favela Samambaia e depois seguiram para a delegacia de polícia. eu não sei. Diz que pegou o cortador do bolso. Foram os três sobreviventes identificados que relataram a versão de que eram treze os jovens sequestrados por traficantes da favela rival. Ele estava preso e os familiares dos jovens desaparecidos não sabiam. dedo-duro. Um X941 teria se aproveitado da situação para se vingar do filho de Maria. e colocaram ele’. Ao tomar conhecimento de que traficantes da Favela Cutelo estavam envolvidos no sequestro.sobre a operação policial que ocorrera de madrugada. Aí. 178 .2. diz que ele ainda olhou para o meu filho e falou pro meu filho: ‘Nunca vi negro de nariz fino!’. Maria ficou espantada ao saber 41 X-9: na gíria do crime significa delator. Cortou um pedaço do nariz do meu filho. Quem conta essa história é um dos sobreviventes. Da favela à delegacia Na delegacia. Maria quis seguir para lá. um dos meninos que foi liberado. Guardava a esperança de ouvir que fosse filho. quem estava ali era o X-9. mas os outros familiares não a deixaram ir. segundo rumores que circularam. pequei o filho do cara’. os policiais entraram na Favela Samambaia com o caveirão para dar cobertura aos traficantes da facção rival que desejavam tomar as bocas da favela. Dos treze jovens sequestrados. e continuava fazendo essa pergunta às outras mães e aos familiares dos outros jovens sequestrados. e falou assim: ‘ Esse é da favela.2. cinco foram liberados. dos quais dois nunca foram identificados. encontraram o rapaz acusado de ser X-9. continuava sem entender por que levaram logo o seu filho. Até que obteve uma resposta mais precisa de alguém que lhe disse: Maria. informante da polícia.

Segundo ela. Aí eu perguntei por que não. Fiquei paralisada. fala pra mim. oito horas sem falar. quando olhava para as outras mulheres. não era dessa vida”. quando eu acordei eu já estava lá dentro. para quem. quase não mexendo. “Esse menino tava junto com vocês? Você viu se eles pegaram esse menino?”. Após desmaiar na delegacia. Eu abria a boca e não saía. porque eu queria andar e minha perna não respondia. andando pra lá e pra cá. Ao acordar. sabe? Eu via o terror no olho dele. era como se eu tivesse tomado uma anestesia. Segundo seu relato. eu vivo a minha vida. Lá estava o X-9. Aí eu fui tirada dali. você não pode voltar pra sua casa”. Ele olhava fixo dentro dos meus olhos e ele ficava paralisado assim. para o Getúlio Vargas. familiares dos outros jovens. Maria começou a se sentir mal na delegacia. Aí ele pegou e ficou assim. desde muito cedo. foi levada para a casa de uma “moça da igreja”. me pegaram pelas pernas. o que foi que você viu? Esse menino tava no meio deles?”. ficou “assim meio sem graça” e baixou o olhar. Maria relata que olhou “na parte de cima da delegacia”. o teu filho foi pego por causa do seu ex-marido. quando ele “bateu o olho nela”. Ai eu falei: “Meu filho. E ele balançou um pouquinho a cabeça. mas não conseguia me responder. Esse menino não piscava nem nada. Era um rapaz conhecido seu. e perguntei pra ele assim: “Meu filho. pelo amor de Deus. Ele olhava pra mim. Eu fiquei paralisada. e eu sou separada desse homem há doze anos. ele trabalhava. e se você voltar pra casa eles vão lá pra te matar”. Eu desmaiei e não conseguia falar. Não queria dormir. quando voltou a si já era madrugada do dia seguinte. Ao avistarem esses jovens os familiares passaram a perguntar por cada um dos desaparecidos.quem era o X-9. Maria se dirigiu a um deles para solicitar notícias de seu filho: Virei pra esse rapaz. com as mãos algemadas. de madrugada. mas ainda deu tempo de reconhecer dois jovens moradores de Samambaia. que me olhava muito arregalado. alguma coisa. Maria foi levada ao hospital. Eu trabalho. Aí eu não via mais nada. Aí eu falei: “Gente. ele as ameaçava. sabe? E aí ele abaixou a cabeça e a lágrima desceu no olho dele.. Eu não conseguia falar uma palavra. A mãe desse rapaz era frequentadora da mesma igreja que Maria. No entanto. mas eu não tenho nada a ver com essa história. segundo ela. e ele também tinha o hábito de acompanhar sua mãe à igreja. já que foram todos pegos juntos. “cansou” de fazer doações de alimentos já que sua mãe era muito pobre. e eu falei: “Meu filho. me colocaram dentro de um carro e dali me levaram para um Hospital. naquele desespero. Porque eu olhei pra ele e tipo como se ele não quisesse falar! Aí eu virei as costas e bati com a mão na parede e falei: “O meu filho está morto! Eles mataram o meu filho e ele viu o meu filho morrendo”. “Porque segundo o comentário que tá tendo aqui dentro da comunidade. que também estavam na delegacia. de madrugada. Do hospital. e peguei a foto do meu filho e mostrei pra ele. assim pra mim. O olhar dele me deu medo. E a menina disse: “Não. de desespero. Ele abaixou a cabeça.. eu 179 . Ele ficou paralisado. E aí eu fiquei lá dentro da comunidade. me responde! Esse menino tava com vocês?”. no rosto dele. ficou desesperada ao ver que não estava em casa e perguntou o que estava fazendo ali: Aí a menina disse pra mim: “Você não pode voltar pra tua casa”. a lágrima dele descia. Eu fiquei oito horas sem ter voz. dentro da comunidade Samambaia. por favor”. Quando eu vivia com ele.

as mães disseram ao comandante que conversariam com quem quer que fosse. Construído para resistir às armas de alta potência e aos explosivos. mas não foram atendidas. Os familiares entraram na van e dali mesmo se dirigiram ao hospital. ao final da conversa. Para encerrar a conversa. (Fonte: Relatório da Anistia Internacional: “Vim buscar sua alma”: o caveirão e o policiamento no Rio de Janeiro. o caveirão tem duas camadas de blindagem. Entre as modificações feitas nos caminhões blindados originais estão o acréscimo de uma torre de tiro. Junto com as mães. lanchando. que aparece com destaque na lateral do veículo.queria meu filho. mas. O comandante do batalhão perguntou às mães se elas garantiriam a segurança dos policiais e se falariam com os “bandidos” para a polícia entrar. capaz de girar em 360 graus. Embora pese cerca de 8 toneladas. as mães pediram ao comandante que enviasse uma equipe à favela para procurar “os meninos”. estava o presidente da Associação de Moradores. que também ouviu da boca do comandante que este não arriscaria seus policiais em Samambaia porque. Blindado: o mesmo que caveirão. era impossível que o caveirão43 tivesse circulado pela comunidade. segundo ele. Diante do impasse. As quatro portas travam automaticamente e não podem ser abertas pelo lado de fora – dois alçapões de escape. podem ser usados em emergências. carro blindado da polícia. assim como uma grade de aço para proteger as janelas quando sustenta fogo pesado. 43 42 180 . ele não havia liberado nenhum carro blindado42. a ocupação saiu da comunidade à uma e quarenta da manhã. o caveirão pode alcançar velocidades de até 120km/h”. As mães ficaram irritadas ao ouvirem da boca do comandante que. E eu andava dentro da comunidade.3.2. 19/07/2006). na porta do batalhão. amanheceu o dia e nós fomos para o batalhão. um dos familiares dos jovens recebeu um telefonema informando que eles estariam no Hospital Getúlio Vargas. “porque lá é mais tranquilo”. No meio do desespero. o comandante chegou a afirmar que se o acontecimento tivesse ocorrido na Favela Cutelo. Maria contestou o comandante dizendo que na Favela Samambaia há uma ocupação policial que chega às dezoito horas e sai às seis da manhã. As mães insistiram nesse pedido. o comandante disse que nesse momento era horário escolar e que seus soldados estavam ocupados. Vários moradores teriam visto dois caveirões entrando na favela. para dar cobertura aos traficantes. Segundo o relato de Maria. Quando as mães estavam de saída. mas. Os pneus são revestidos com uma substância glutinosa que impede que sejam furados. “o pessoal de Samambaia tem mania de dar tiro em polícia”. saíram dali sem resposta alguma. Caveirão: “O caveirão é um carro blindado adaptado para ser um veículo militar. um na torre e outro no piso. Da delegacia ao batalhão: a conversa com o comandante A conversa com o comandante foi marcada pela tensão. os policiais iriam. Sendo assim. naquela madrugada. e fileiras de posições de tiro em cada lado do caminhão. 4. A palavra caveirão refere-se ao emblema do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). O caveirão tem capacidade para até 12 policiais com armas pesadas. nesse dia.

e um grupo de PMs formava uma roda de conversa. Aí eu perguntei para o rapaz assim: “Meu filho. Para pressionar. A fotografia rodou nas mãos de todos os policiais. eu não sei de Samambaia não. Do lado de fora da grade. Esse policial que a atendeu seria um dos quatro policiais que receberam os cinquenta mil reais pagos pelos traficantes pelo “aluguel” do caveirão. Um estava com a cabeça aberta. E o rapaz todo arrebentado. Quando eu cheguei lá dentro tinha dois rapazes numa maca. onde estavam os demais policiais. Eu não 181 . não. quando um deles seguiu em sua direção. pois havia uma grade de emergência colocada justamente na entrada para impedir a passagem. Sem saber que o policial que a atendeu era um dos envolvidos no caso. Um falava com o outro e alguns riam balançando a cabeça. que circulava de mão em mão entre os policiais. uma abertura horrível. que havia machucado a perna e passado no hospital para se medicar. né? Eu tenho um monte de fotos do meu filho dentro da bolsa. Do lado de dentro. com o rosto todo inchado. fiz uma ficha como se eu tivesse lá passando mal. Consegui entrar. desci e fui sozinha. Maria estava acompanhada da irmã. Maria se agarrou à grade e olhou para dentro do hospital. Maria tentava conversar com esses policiais.4. mostrou a ele e perguntou se aquela pessoa estava ali. Do batalhão ao hospital: a presença ostensiva da polícia Ao chegarem ao hospital não puderam entrar. Enquanto a irmã tentava reaver a foto. no hospital.2. tipo que tinha ganhado uma machadada na cabeça. o policial pegou a foto. Dei a volta por baixo do setor de entrada de emergência. Ela então lhe explicou o que havia acontecido e qual era o caso. Esse guardador disse a Maria que viu o filho dela com o nariz cortado e muito sangue escorrendo. assim: “Não. O policial seguiu com a foto e entrou no setor de emergência do hospital. o policial olhava para a foto e olhava para Maria. E eu tinha a outra foto comigo. Maria pensou uma estratégia para conseguir entrar no hospital. Me afastei dali. e pediu a ela que desse um jeito de recuperar a fotografia. todo arrebentado. Após ouvir Maria. morador da Favela Samambaia. Do lado de fora da grade. olhou e pediu para que esperasse um minuto. disse ainda ao policial que esta informação de que o filho estava no hospital lhe havia sido transmitida por um guardador de carro. Fez uma ficha médica. você é do caso Samambaia?”. Maria via esse policial mostrar a foto de seu filho aos colegas de profissão. segundo ela. “Havia muita polícia”.4. como se estivesse passando mal. fiz uma fichinha e entrei no hospital. Os familiares só souberam dessa informação mais tarde. Maria pegou uma foto do filho.

Esperança e desespero Após o hospital. Os familiares dos jovens desaparecidos se reuniram novamente. Ou seja. aí eu voltei e falei: “Eu não falei que você era de Samambaia? Você era do caso Samambaia?”. O poder sobre a vida e a morte do filho do traficante rival era uma forma de vingança. numa quinta-feira à tarde. menos o filho de Maria. 4. De qualquer maneira. Aí eu virei as costas. Poucos dias depois outra informação chocante chegou aos ouvidos de Maria e das outras mães: Teve na sexta-feira um baile funk em comemoração a isso. convertido ao tráfico. conforme o espeto do churrasco ia esquentando. foram parar no Ministério Público. conhecido pelo apelido de Cafunga. não podia liberar o filho de Maria porque o pai do garoto era um dos chefes do tráfico de uma facção rival. os jovens sequestrados poderiam ser utilizados como escudo humano durante a invasão de uma favela pela facção rival. ele virou e falou assim: “A senhora é a mãe do K?”. em Cutelo. isso significava que até aquele momento os jovens ainda estariam vivos. falou com o chefe do tráfico. Na interpretação de Maria. O ex-pastor. quando eu dei uns cinco passos assim. de novo. A passagem pelo Ministério Público parece ter sido tão irrelevante que sequer mereceu uma descrição mais longa na fala de Maria. se o pastor recebeu a notícia de que poderia liberar qualquer um. Aí eu falei pra ele assim. eles furavam os 182 .5. ou também poderiam servir de moeda de troca para negociações. o Ministério Público fora comunicado.2. passando a ter conhecimento do que estava acontecendo. não encontrou nada. quando eu virei as costas pra ele. Maria percorreu todo o hospital e. Aí eu senti que era. entraram na van e prosseguiram na peregrinação em busca de informações. porque esse era o filho do “cara”. Depois de muito insistir com esse garoto e não obter nenhuma informação. amarrados e nus e. Os dias iam passando e a angústia das mães só aumentava.sei de nada não!”. nenhum indício. menos esse. O sentimento de desespero se misturava ao sentimento de esperança. Tampouco ouviu alguma coisa relacionada ao caso Samambaia. E a informação que chegou em Samambaia era que os meninos estavam todos sentados. Até que. e ambos se embaralhavam. Aí ele falou assim: “Eu não sou de Samambaia”. Afinal. e este respondeu que liberava qualquer um dos meninos. Maria foi a uma igreja evangélica e o pastor lhe disse que ligara para “dentro da comunidade” e falara com um rapaz que já havia sido pastor dessa mesma igreja e agora era traficante.

e eles ficavam furando os meninos e fazendo aquelas torturas. 45 44 183 . Albrecht. quando aplicado o luminol. Porque eles estavam no subterrâneo44. Para ela. na ocasião em que realizei a entrevista com Maria. Então a vingança era do K. Ele usou o dono de Cutelo para concluir a vingança. Parece que Cutelo fez um subterrâneo. Aqui. Por isso que na manhã seguinte a Policia Civil vasculhou tudo dentro da comunidade e não achou esses meninos. Levou o chefe do tráfico somente na casa dos meninos que na época deram a surra nele. E encontraram pedaços de dedos. E aí os meninos gritavam. Maria não acredita nessa possibilidade. objetos ou lugares. os traficantes foram enganados pelo X-9. onde ele [o coronel] encontrou uns cobertores. que joga pra investigar sangue. Todas as denúncias que eu tive de lugares onde eles pudessem estar eu passei adiante. Subterrâneo: porão utilizado pelos traficantes como cativeiro. 46 “Luminol: é uma substância química criada em 1928 por H. (Fonte: Wikipédia). para esconder pessoas sequestradas. as fibras do tecido absorvem partes do composto de ferro. ainda prefere acreditar que o filho está vivo. Forense (exame forense): exame pericial para encontrar material que sirva como prova nos autos de um processo jurídico. Os meninos iam mostrar a cara dos traficantes. a gente tá assando a carne dos filhos de vocês. O. e assim. O coronel [nome] investigou e realmente encontrou vestígios. No decorrer do tempo fui recebendo bastante informação. ficando uma cor azul-fluorescente. tinha sido expulso da comunidade pelo traficante. Quem mora na divisa viu pela janela que os meninos passaram todos eles amarrados. Ele enganou os traficantes de Cutelo dizendo que sabia onde moravam os [traficantes de Samambaia]. podendo-se assim ver mais claramente as evidências de sangue”. por ter caguetado o pessoal do tráfico. Encontraram vestígios de que realmente os garotos passaram por ali. É mais útil quando usado junto com luz-negra. utiliza o ferro presente na hemoglobina como agente catalisador causando uma reação de quimiluminescência. passou para o pessoal de Cutelo e achou que ia concluir a vingança dele. No caso de tecidos. de que os jovens teriam sido mortos. Que eles tiraram as roupas deles e os levaram para Cutelo nus. E eu fiquei sabendo que meu filho participou de bater nele. Por isso que nós nunca conseguimos encontrar os nossos filhos. Porque um dos meninos que foi libertado levou a polícia até esse local. quando necessita saber se há vestígios de sangue em roupas. não teria como em dois dias aqueles porcos comerem oito pessoas. Apesar das versões do caso que circularam. que eles iam usar aqueles meninos quando eles invadissem. É um produto que é preparado misturando-se o luminol propriamente dito. Encontraram nove tipos de sangue diferentes. Foi ali que foi feito aquele exame que se chama forense45. ao entrarem em Samambaia. que reage muito lentamente. [O traficante] saiu de dentro da comunidade Samambaia de caveirão. mas o dono não sabia disso. Do outro lado da favela. tinha um galpão abandonado. picados e jogados para os porcos. Passados mais de dois anos de quando ouvi o primeiro relato sobre o caso. Quando essa mistura entra em contato com o sangue humano. ele causa uma reação de oxidação e 'ilumina'. né? Aquele exame que joga o luminol46. que eles iam trocar aqueles meninos de lugares. literalmente.meninos. E depois desses anos todos eu descobri que os meninos saíram de dentro da comunidade Samambaia nus. oh!”. mesmo que a cena do crime tenha sido limpa. E aí houve o comentário que eles tinham sido mortos e picados e jogados para os porcos e os policiais mataram os porcos fizeram análise e não tinha vestígio de carne humana. encontraram muito sangue naquele lugar. teve denúncia de que eles foram torturados dentro dessa casa. colocavam eles no telefone para os traficantes de Samambaia ouvirem e falavam: “Oh. É tipo um porão. Como K. o local. E uma casa que ia ser uma igreja. seu entendimento era de que a intenção dos traficantes de Cutelo. era tomar o tráfico de drogas e não sequestrar os jovens. choravam no telefone. Muito utilizado pela polícia cientifica. com uma substância à base de peróxido de Hidrogênio que possui o mesmo efeito da água oxigenada.

6. Aqueles que são obrigados a sumir. É a desova. pode ser uma casa. Porque sempre alguém delata. dentro do tráfico de drogas. dentre eles o rapaz reconheceu quatro. e ali mesmo dão cabo do cara. Maria faz questão de lembrar que todas essas informações foram divulgadas pela imprensa. nesse dia. joga em qualquer canto.é o cerol. […] Também pode ser num porta-mala. porque tinha policiais envolvidos. Tem que ser um negócio muito bem feito. Na versão dos policiais acusados. aí você já sabe. mas os policiais teriam recebido mais dez mil para o liberarem. No dia da reconstituição. 'Passa o carro. direcionado aos inimigos: “Tem os defuntos vivos.. Roubam muito carro pra isso. 48 Na etnografia de Antônio Rafael Barbosa sobre o tráfico de drogas. alguém vai cair. tem que falar com alguém pra ir lá. em um buraco no alto do morro. que pouca gente vê. Esse carrinho é um carrinho de lixo. eles teriam realmente sido chamados à Samambaia e houve uma operação policial. os traficantes com farda e a corrupção policial Um dos garotos liberados participou da reconstituição dos fatos e apontou a casa de onde teria saído o açougueiro47. encontrou os policiais contando dez mil reais da propina que receberam. mandar carta. para conduzi-lo ao batalhão. que acharam o corpo de um policial em determinada área. Tem um gari que tá ali com eles que bota o defunto no carro. outro.' . Levam lá pra cima.. aliviar o flagrante. esse dinheiro não foi citado como prova contra os policiais. Esses quatro policiais eram exatamente aqueles que estavam escalados para o policiamento em Samambaia. mas. um de seus informantes ao falar do tratamento dispensado aos mortos. taca cal. o caveirão.. matar. quando os policiais voltaram ao Posto de Policiamento. responsável por picotar e sumir com os corpos48. é porque foi outro que fez. e nenhuma medida foi tomada. joga um lixo por cima.2. e assim é menos um crime para botar nas costas. […] Aí você pega e bota debaixo do morro do alemão. o açougueiro foi preso e seria levado pela Polícia Civil ao batalhão. […] Quando você ouve a expressão ‘panha o carrinho’. pra um lugar em que ninguém vê. Ainda segundo Maria. […] Joga no poço.. Não tem dúvida” (Barbosa.4. Quando você vê isso aí no jornal. difere dois tipos. foram publicizadas.. constataram que ele já havia sido liberado. esses policiais ficaram em prisão administrativa durante trinta dias”. a família do cara pode delatar. Foram colocados duzentos policiais para que K. Aí pra ver a mãe. Açougueiro: expressão utilizada para designar a pessoa. que fica na divisa de Samambaia com Cutelo. e vai desovar em um lugar mais longe. um dirigido para membros do próprio grupo de traficantes e moradores da localidade. a sair fora.. responsável por torturar. um irmão. A expectativa de Maria era que o açougueiro fosse dizer onde estavam os corpos dos jovens desaparecidos.. marcar um lugar longe dali. Um local próximo e longe da favela. […] Geralmente são esses polícia que já deu muito derrame no morro.. um castigo de exemplo. O açougueiro. 1998: 104-5). 47 184 .. Porque se matar polícia acaba com a boca. aí tortura longe dos olhos da comunidade. fazer o reconhecimento. Porque se pisar ali ele morre. Entretanto.. Nas palavras dela: “Colocaram uma pedra em cima disso. Polícia também faz. esquartejar e “sumir” com os corpos das vítimas. Polícia não se mata. quando o delegado chegou à delegacia.. deschavado.. porque os envolvidos eram policiais. […] Quando não é pra ser exemplo. Maria contou também que o X-9 foi conduzido ao batalhão para fazer o reconhecimento dos policiais que haviam liberado o caveirão para que fosse utilizado na invasão da favela.

Porque muitos moram na divisa de Samambaia e Cutelo. tinha um menino que ia dizer pra eles onde os traficantes estavam e onde estavam as armas. elas não achavam que eram bandidos. catando os documentos. ia conduzi-los às casas dos bandidos. então eu tinha que fazer aquilo. indo atrás deles. Disseram o seguinte: “Não. tá tranquilo. Mas mesmo assim. Eu fui ameaçada pelo comandante do [número do batalhão] várias vezes. E aí eles entraram em Samambaia dessa maneira. outro traficante magro. os nomes dos policiais denunciados e os respectivos batalhões aos quais eram vinculados. As mães só acreditaram quando tiveram acesso ao inquérito. No caso do meu filho. Mas como tinha polícia ali sempre. a polícia sempre vem contra a gente. com farda da PM. A polícia sempre diz: “Cuidado com o que você diz. os familiares descobriram que eles eram de vários batalhões diferentes. mas até então ninguém acreditava. pode [deixar].Quando eles chegaram lá. Ele dependia de mim. E aí diz que os policiais do posto de policiamento tranquilizaram os policiais que estavam indo ajudar eles. 185 . Então ele [o X-9] levou os traficantes na casa desses meninos. E alguns meninos foram tirados de dentro de casa. os traficantes. teve muitas vezes que eu ia pra abrir o portão e eu dava de cara com ele num gol bolinha. K. mas moradores de Samambaia ficam com medo de denunciar. Só que quando o Cafunga entrou na casa de uma delas ela reconheceu. porque se não as matariam. Eles estavam todos fardados. vamos levar que é bandido”. e o Cafunga. Essa informação também já havia sido passada pelo X-9. Eles estavam sempre falando esse tipo de coisa. E eu fui muito ameaçada. pelos becos da comunidade. perto da minha casa. Só que em depoimento K não diz isso. pode entrar que eles são amigos”. Fui eu quem o botou no mundo. estava com granadas penduradas. Contaram no depoimento que foi isso que foram fazer lá. mas a gente vai levar para averiguação. Alguns eles encontraram pelas vielas. Maria contou que. Na casa da minha mãe. Diz o seguinte: que eles [os policiais] ficaram encarregados de trazer o caveirão e dentro do caveirão estavam ele. E essas mães alegam que eles. o motorista do carro blindado falou o seguinte: “Uê! O que quê tá acontecendo? Oh. Só que pra gente comprovar! Se a gente fala essas coisas. Maria tomou conhecimento. a gente pode te processar”. com traficantes dentro do caveirão. elas tinham muito medo. E aí. porque elas olhavam para a cara de alguns que estavam vestidos de policiais e elas achavam que eram rostos conhecidos. Eles bateram de porta em porta. era meu filho. cara! Você vai entrar aqui assim?”. Eles são amigos. [Os moradores] alegaram que eram dois carros blindados. Porque as mães que moravam na comunidade. os traficantes. E aí eu sei que elas [as outras mães] ficaram com muito medo. porque ele era de Samambaia e as pessoas conheciam. as mães naquele desespero. e eu já não tinha medo porque eu morava fora. a partir do relato das outras mães de que alguns dos “meninos” foram retirados de dentro de casa por traficantes vestidos com o uniforme da polícia. que antigamente eram amigos dele. Com o passar do tempo novos detalhes e informações apareceram e novas surpresas também. já descendo. E diz que os policiais falaram o seguinte [para as mães]: “Se ele não for bandido ele vai ser liberado. na Ponte. Porque esse traficante estava armado. através dos depoimentos dos policiais. estavam vestidos de PM. E aí [os policiais] alegam que só tinha um carro blindado. Bateram na porta e falaram: “Vamos embora. onde constam os depoimentos dos policiais. Algumas mães foram atrás e eles gritaram pra elas voltarem. Todos eles serão levados pra averiguação”. eu tinha que correr atrás. E quando eles chegaram na porta do caveirão. Só que elas achavam muito estranho.

Andei na comunidade toda espalhando papel. Teve que abandonar tudo várias vezes. Já a interpretação que Maria faz de si mesma é a de que levantou uma bandeira. Entendeu? Então tem sido uma luta muito grande. autorização para entrar na área. Eu cheguei pra uma das mães e falei pra ela: “Por que você não vai comigo?”. só sendo permitida a entrada com a autorização desta. cinquenta metros. morar na casa de pessoas que não a conheciam. conversou com autoridades públicas que atuam na área dos direitos humanos. eu tenho certeza de que eles teriam encontrado pelo menos cem corpos. Uma carta chegou a ser enviada por uma autoridade à Caixa Econômica Federal. eu não quero 186 . Ia ser um escândalo. depois de muito empenho e mobilização. por intermédio de uma assessora do então senador e ex-ministro da justiça Renan Calheiros (PMDB/AL). manifestações. Disseram que dragaram ali não sei quantos metros. foi contra traficante. porque achava um absurdo ninguém fazer nada. porque.Em razão das ameaças que sofreu. tratando de uma casa para Maria. conseguiu. “Maria. e a [governadora] Rosinha não queria isso no final do mandato dela. viagens para denunciar o caso e reivindicar providências. mobilizando pra poder pedir para dragar o rio. Uma das peregrinações solitárias de Maria se deu quando ela decidiu solicitar uma dragagem de um rio que fica em Samambaia. é melhor você botar uma pedra em cima disso. o que oferecem pra elas. E não dragaram. porque foi contra a polícia. cem metros. mas não obteve resposta alguma. diz ela. as cestas básicas eram dadas para poder calar a boca das mães. “nós sabemos que as pessoas que vivem na comunidade. No seu entendimento. foram algumas cestas básicas. [apareceriam] milhares de corpos. inclusive com o Ministro da Justiça Tarso Genro. também não resultou em nada. Diz que teve a promessa do governador de que teria outra casa. mas que foram solidárias oferecendo-lhe abrigo. A única coisa que as mães receberam. elas aceitam”. Conta ainda que convidava as outras mães para reuniões. Para Maria. chegando a ter dezesseis endereços diferentes. Maria chegou a conseguir a draga para fazer a busca no rio e. Fui a única que botou peito pra dragar o rio. O valão ficava próximo a um terreno da Marinha. Por isso preferiram se calar (ou melhor. mas ninguém aparecia. foi contra todo mundo. foram silenciadas). Porém. Maria teve que se mudar de casa consecutivamente. Mas se eles tivessem dragado pelo menos cinquenta metros. Qual foi o medo de dragar aquele rio? Porque se eles dragam aquele rio [seria] pior do que o Tsunami. e este foi o maior obstáculo. após receber uma denúncia de que os corpos poderiam ter sido jogados em um valão. por curto período de tempo. as outras mães tiveram medo de se manifestar porque moravam dentro da favela e qualquer manifestação significaria risco de morte. colhendo assinatura. A partir desse fato Maria elabora uma crítica às outras mães.

cada um daqueles meninos é teu filho. Mas outras dificuldades permaneceram. era eu. não vivia presa dentro daquilo ali. dentro de comunidade. Então eu sei que elas tiveram muito medo e elas largaram tudo. Vai pra uma manifestação. Embora não tenha achado o corpo do filho. eu tinha como me locomover. ela é de lá. O choque do acontecimento foi tão forte e provocou impacto tão grande sobre as outras mães. tinham muita experiência a contar. de choque. era eu. A Ângela e a Joana sofrem. E eu não. Maria justifica sua força para prosseguir na luta recorrendo à religião. que não saía nem pra ir ao supermercado fazer compra. E eu sei que elas têm medo. e a construção da denúncia pública. apesar de não ter encontrado o filho. A Ângela até hoje sofre.saber dessa coisa. Em todas as audiências só estava eu. Não conta com elas. familiares e entidades de direitos humanos. lugares. E tinham medo porque foram ameaçadas naquela época. Maria lembra. É possível dizer que essa capacidade de socializar a maternidade constitui-se numa competência que é desenvolvida a partir do momento em que a dor e o sofrimento são politizados. Maria sentiu que não adiantava mais contar com elas. Viagem pra Brasília. muitas portas se abriram. Porque nós estivemos no batalhão e elas tinham medo. Em sua fala expressa uma grande indignação com o fato de as mães se recusarem a procurar os filhos. porque você não pode contar com elas”. porque cada um tem o seu sentimento e cada um reage de uma maneira. a importância que foi para ela conhecer Vera e Marilene (Mães de Acari). diz que sentiu Deus falando dentro de seu coração: “Maria. era eu. O contato com outras mães. 187 . Diz que conheceu pessoas. O processo de socialização da dor e do sofrimento. são momentos de aprendizagem política. E até foi ter o julgamento e só a Maria estava no julgamento. Eu ia pra qualquer lugar. portanto. teu filho não é só o Alexandre. A Joana foi embora pra Pernambuco. o esforço de publicização. é praticamente uma forma de transmissão de saber. Acabou. Ela foi embora e não quer mais voltar pra cá. em nossa conversa. por causa de tudo. Maria considera uma vitória a aprendizagem que teve. como eu já morava fora. A crítica de Maria ao envolvimento das mães se situa na fronteira entre a compreensão e a resignação. Direitos humanos. É melhor deixar essa coisa pra lá”. que Maria acaba relativizando a própria crítica: Eu só via naquelas mães [sofrimento]. entrou em estado de depressão. Você não é mais mãe só do Alexandre. falar com o Ministro da Justiça. dentro de favela. Então eu não estou questionando o sentimento das mães. Diante da negativa das outras mães em participar e levar o caso adiante. Duas mães que passaram por experiências muito semelhantes à que Maria estava passando e que.

Os delegados responsáveis pela investigação não lhe inspiravam nenhuma confiança. As investigações do caso pelos delegados e pelas delegacias por onde passou não progrediram em nada. no entendimento de Maria. é prova suficiente para demonstrar que a tragédia aconteceu e que é preciso que providências sejam tomadas.4. O jogo de denúncias e a manipulação das provas Uma das principais dificuldades na luta das mães por justiça e reparação é a produção de provas que incriminem os acusados. Pode deixar que eu te defendo. eu te aconselho o seguinte: a senhora comprar uma pistola. numa ocasião. esperar ele sair de dentro da delegacia e matar ele. aos acontecimentos. Ele falou o seguinte: “É dona Maria. segundo Maria. “sangue”. ou até a se mudarem de cidade. “restos de roupa”. Ela então perguntou ao defensor público o que seria das mães com a libertação de Cafunga: Eu falei pra ele: “Doutor. Maria enumera o que considera provas suficientes para que sejam tomadas providências urgentes e sérias: “dedos”. de dentro de casa. Percebe-se que cada visita a um órgão público se tornava mais decepcionante e traumática que a outra. A libertação dos “traficantes” presos apavorou as mães. relatos das mães que tiveram suas casas invadidas e o exame de DNA. “ossadas”.2. pois eles andavam dizendo que as matariam. tentou esconder os exames de DNA que as mães dos jovens desaparecidos fizeram. o corporativismo policial aparece como obstáculo ao prosseguimento dos processos e/ou as testemunhas e os familiares são intimidados e forçados a mudarem seus depoimentos. acabaram colocados em liberdade e não mais apareceram no julgamento dos mesmos. Tudo isso. Maria argumentou que era impossível que eles não existissem. chegaram a ser presos e foram em juízo fazer o reconhecimento dos policiais. Mesmo quando existem fartas e evidentes provas. Diante da negação do comandante de que teria ocorrido uma operação policial naquela madrugada e que nenhum caveirão havia entrado na favela. Maria conta que estava dentro da Defensoria Pública quando recebeu o telefonema da delegada dizendo que o advogado de Cafunga havia conseguido uma liberdade condicional. já que foram esses exames que serviram como prova 188 . Um deles. Quando o delegado tentou negar a existência dos exames de DNA das três mães. testemunhos de moradores que assistiram. acusados de serem “traficantes”.7. no entanto. estão falando que o Cafunga vai sair hoje [da prisão]. grande quantidade de dinheiro encontrada com policiais. Alguns rapazes. como vão ficar as mães? Ele vai querer matar as mães”. você não vai presa não”.

“Ah! Porque o exame não ficou pronto. No seu entendimento. Aí ele falou que ia fazer de novo. Eu via que ele não tava olhando nada. um mês depois da gente [que elas vieram a fazer]”. perturbando. o resultado de vocês não chegou pra mim. havia evidências suficientes para que a investigação progredisse. “Pode deixar que nós temos o sangue da senhora aqui e nós vamos resolver isso”. Aí eu falei: “Mas. e ele virou pra mim e falou o seguinte: “Não tem nenhum nome da senhora.. pois o exame tinha dado positivo e isso serviria para manter Cafunga preso. Ele olhava pra mesa. sete. Aí ele falou pra mim o seguinte: “Espera só um minutinho”. No entanto. oito pessoas. só pode pegar o teu”. da dona Joana e da dona Rosiléia”. Foi confirmado a veracidade do exame de quatro pessoas. “Não. com ele. pra eu poder conduzir o caso”. o de dona Valdeci e da fulana e da ciclana” . O resultado de outros quatro exames havia dado positivo. Nunca me ligaram pra me falar o resultado do exame e eu fiquei perturbando. olhou. no mês passado o meu exame estava com ele [o delegado titular] e essas [mães] daí nem tinham feito o exame. elas me deram procuração. Tinha nove tipos de sangues diferentes naquele lugar. E eu falei pra ele o seguinte: “Doutor José. Depois eu liguei e nada. senhora Maria. não olhava dentro dos meus olhos. se no mês passado o doutor Nílson diz pra mim que tinha e que foi o que manteve o Cafunga preso?”. dizendo pra mim: “Não é assim não. olhou. pegou umas papeladas. Mas o do Mário. Quem a atendeu. mas ele não me encarava. Depois de uma longa espera. não! Deve ter tido um engano. Porque as amostras de sangue que pegamos era muito pouca. Veio uma equipe de umas seis. Tenho procuração delas assinada até hoje. Além de quatro resultados de DNA positivos. vocês vão ligar para o departamento tal e procura saber direitinho”. o que bastava. ele olhava pro lado. Ele olhava pra baixo. e eu tinha feito primeiro”. “Como que demora se eles têm os resultados de outras pessoas lá. Esses resultados demoram”. sei lá. foi o delegado substituto. Sentaram numa mesa ali pra me explicar. Aí ele: “Ah! Mas você não pode pegar o delas. novamente com a mostra do sangue que tinha lá. Ele não olhava nos meus olhos. E eu num tô vendo o que ele tava olhando. E aí a Carolina olhou pra mim e achou estranho. Ele tava levantando e olhando por debaixo das folhas. Aí aquilo me desesperou. segundo Maria. aí cheguei até lá e conversei com eles. Maria pergunta: “Cadê o dedo que 189 . Aí começou a minha luta tudo de novo. perturbando. aquele que havia prometido matar as mães. E diz ele que fez o exame de novo. Aí nós fomos lá.. Em umas das idas à delegacia. E aí o doutor Arcanjo. mas não mostrou o exame a ela.. olhava pra tudo quanto é lado. da Ângela e da Joana”. nessa ocasião. o exame que eu tenho aqui é do Carlos. doutor. Eu falei: “Não. para os papéis. E eu quero o resultado do exame de DNA. sentou e olhou. me deixou em pânico. Até hoje ninguém nunca recebeu resultado desse exame e aí vem dizer que o nosso exame deu negativo. ela foi informada que o delegado titular havia entrado de férias. passando os papéis. E eu falava com ele e ele não olhava pra mim. Ele falou pra mim o seguinte: “Olha. e aquilo. Acho que foi quase vinte dias depois da gente. o do Felisberto e do Alexandre não tem”. as autoridades policiais disseram a ela que os resultados haviam sido negativos. eu vim pegar o exame de DNA que ficou pronto. E eu fui até lá. Falei: “Como é que o doutor Fabrício disse que já tinha chegado?”.. E eu falei: “Como. “Não. para ela isso não importava.contra um dos traficantes. Apesar de Maria nunca ter visto o resultado do seu exame e o das duas outras mães. O delegado titular que acompanhava o caso chegou a dizer à Maria que ela poderia ficar tranquila. veio a decepção. meu. Aí ele levantou e foi lá. Sabe? Que ele ia fazer de novo o exame. não”.

Então eu levei a gravidez toda só. lugares e interações sociais que simbolicamente são associados ao mal e. três meses depois. eventos. O envolvimento do pai de Alexandre com o crime acabou por produzir uma “contaminação moral” aos familiares e às pessoas mais próximas. arriscados e condenáveis moralmente. um dos motivos mencionados para justificar o desaparecimento era o fato de Alexandre ser próximo de uma pessoa que já havia sido “do tráfico”. eventos. Não a deixaram ver o saco com as ossadas. por isso. devem ser evitados. Maria não se conforma com a associação que é feita dela e do filho ao ex-marido. Ela relata que era vista pelos policiais como a mãe “cricri”.8. A respeito das ossadas. Situações que Maria tentava evitar ou recomendava ao filho que evitasse. Na delegacia os policiais estavam mostrando dois sacos pretos às mães: um de roupas parcialmente queimadas e o outro com a ossada. eu 190 . e. como forma de gestão do risco e como medida de segurança. mas mesmo assim foram levadas para a delegacia junto com alguns restos de roupas para a perícia. Até pedaços de carne humana e ossadas foram encontrados.encontraram na casa?”. As mães foram até lá fazer o reconhecimento do material encontrado e Maria foi a última a chegar. Ao mal está associada a ideia de poluição. O pai. o pai de seu filho. lá em Copacabana. ao impuro e ao perigo. Gerir o risco significa evitar todo um repertório de relações e práticas sociais identificadas com o mal. 4. e situações sociais associadas ao perigo e ao risco. 1976). Quando eu engravidei do Alexandre o pai dele foi morto. Quando o Alexandre nasceu. Por isso é preciso afastar-se. No exame realizado pela polícia o resultado informava que a ossada seria de um animal. Para Maria mostraram apenas o saco de roupas. Quando chegou à delegacia um policial tocava no outro com o objetivo de informar que era ela a mãe “cricri”. lugares e interações sociais que ela elege como perigosos. a favela e o baile funk: a presença do perigo e do mal Na narrativa de Maria é possível identificar um conjunto de pessoas. a favela e o baile funk são figuras. que “gostava de criar problemas”. Pessoas. seria preciso evitá-los. Ela mesma se encarrega de responder que ninguém nunca viu. Nas versões que circularam sobre o caso. De acordo com Maria. por isso. mas as mães que viram lhe informaram que era uma ossada humana e que tinha uma perfuração na cabeça. os policiais disseram que seriam de cavalo. manter distância.2. de algo que contagia e contamina (Douglas. lugares.

Quando ela o conheceu. ele estudava. né!? E. Então a distância foi nos afastando. só tinha mais ou menos dois anos que ele tava na rua. graças a Deus. ele não era do crime e hoje também já não é mais. ele largou tudo. Maria chega a subir o morro para buscar o filho nos bailes. ele está associado. Cuidar significa. à promiscuidade sexual. e quando ele voltou o Alexandre era um rapaz. pra mim 191 . ele ficou quatro anos preso. né!? Eu vivi com ele durante quase oito anos. Ele devia ter o quê? Nove. quando o Alexandre desapareceu. E quando eu fiquei com esse rapaz o Alexandre tinha três meses. E quando ele entrou pra vida do crime eu fiquei morando com ele por um tempo. Então. como a favela e o baile funk. Mas ele ficou muitos anos preso. Eu só [o] vi naquela época. E eu achava que ele não deveria dar aquela quantidade toda de dinheiro. dez anos. Eu me separei porque eu sempre tive medo desse negócio todo de arma. Há toda uma noção de cuidado em sua fala. porque quando ele foi preso o Alexandre era pequeno. né!? E eu não tirei isso dele porque o Alexandre amava ele como pai mesmo. Eu cansei. Por tudo isso. ele trabalhava e depois ele entrou pra vida do crime. Diz que esse rapaz que ela conheceu não era o pai biológico de Alexandre. O baile funk é um desses lugares. Ele arrumou outras mulheres lá dentro e a gente acabou se separando. Então o Alexandre ficou muito apegado. já era quase um quase homem. eu morava em outro lugar. sabe!? Ele jogou tudo pro alto.conheci esse rapaz. favela. Porque quando eu fui viver com ele. independente de qualquer coisa. dava as coisas. A favela e o baile funk Tinha baile e o Alexandre tava lá. Então todo mundo achava que ele era o pai do Alexandre. há mais ou menos um mês. nas representações sociais hegemônicas. mas o Alexandre sempre teve contato com ele. E eu brigava muito. né? Ele sempre tava dando as coisas pra ele. cansei de subir no moto táxi e pedir pra me levar dentro da comunidade. Maria tenta demarcar uma distância dela e do filho em relação ao pai. Um mês que eu vi ele. ao uso e tráfico de drogas. desapareceu. tentar prever todas as possíveis situações de risco e perigo e evitá-las. porque o Alexandre [era] bebezinho e ele ficava andando com o Alexandre no colo pra lá e pra cá. Só que quando ele voltou o Alexandre tava com dezesseis. quando ele foi preso. Na época. Eu só vim encontrar ele agora. A preocupação e o amor materno levam Maria a passar por situações e lugares compreendidos por ela como poluídos moralmente. Ela não consegue entender como isso poderia justificar o desaparecimento do filho. Então eu falei pra ele: “Já que você vai viver lá. dava dinheiro. Tudo em nome da segurança do filho. e quando eu vim morar em Samambaia [foi] durante só um mês. não quer saber mais de nada. eu vou viver por aqui”. por dois motivos: ao mesmo tempo em que descreve uma relação de proximidade entre Alexandre e o pai envolvido com a criminalidade. Aí eu fui morar com esse rapaz quando meu filho tinha três meses de nascido. quando o Alexandre sumiu. ao perigo de chegar a polícia ou uma facção rival “invadir”. Todo mundo pensa que ele era o pai do Alexandre. nesse caso. na hora do baile. mas depois eu me separei quando ele resolveu entrar pra dentro da favela. às facções.

Ele não jogava bola do lado de fora. deram um monte de tapa na cara dele. ela falou pra mim: “Maria! Eu tava lá na janela e eu vi o seu filho passar. “Onde é que você tava?”. Ele não era traficante. Eu sei que meu filho não era bandido. deram o fuzil no peito dele três vezes. só tem uma escola.. no baile funk. Pode ir lá ver se ele não está com as costas roxas!”.. o meu filho não saía de lá de dentro. mas o Alexandre vivia lá dentro. que nem o delegado perguntou pra mim uma vez. uma e pouco da manhã. 2008) tornava-se mais difícil. e mandaram ele ir embora pra casa. ele havia “passado pelas mãos da polícia”. mas ele não era bandido.. Eu sei! Mas eu não posso dizer também pra você assim. Maria conta toda a rotina diária e a ocupação do tempo de Alexandre como prova moral de que ele não tinha tempo para se envolver em atividades criminosas e. tava lá na favela na casa da minha namorada”. Pouco antes de ocorrer o desaparecimento de Alexandre. porque era divisa de Samambaia com Cutelo. E eu falava pra ele: “Não! Volta pra casa agora”. A “dura” e o “esculacho” da polícia Quinze dias antes de acontecer isso [o desaparecimento]. pela boca de uma vizinha. esta é mais uma forma de racionalizar e evitar a exposição do filho ao perigo do crime. Porque as pessoas da comunidade. Mas para mostrar que o filho não era bandido.buscar o Alexandre. oh: “Ah! Maria”. Então o caso do meu filho eu sei o porquê que foi. eu levantei a blusa dele e a costa dele tava toda roxa.. vou dormir na casa do meu pai”. portanto. “Não. uma moça que mora em um prédio lá em Samambaia. Só que a minha revolta [era] que ele não jogava bola [nas] quadras lá fora. E eu saía com ele. “Meu filho não é bandido”: a limpeza moral Então. Ele jogava bola dentro da favela. ele jogava bola dentro da favela. As pessoas me viam e diziam: “Olha! Mas ela não é da igreja? Olha a obreira da igreja! O que ela tá fazendo aqui. [. “Aí os policiais bateram nele. à noite. Eu falei pra ele: “Não sei!”. Chegou a ser agredido fisicamente. não era bandido.] lá da igreja. Meu filho vivia lá dentro. Porque eu tinha aquele medo de acontecer alguma coisa com ele lá dentro. ali fora. Meu filho foi pego. era só ir dentro da favela que eu achava. Não vou dizer pra você assim: “Ah! Meu filho foi pego por engano”. puxando pelo braço. Eu falei: “Não! Porque eu acho que um bandido não pode sair sete horas da manhã pra treinar futebol até meio dia e meia pra chegar em casa e uma hora ir pro colégio e chegar seis hora da noite”. “O teu filho era bandido?”. e ele não podia estudar no Brizolão. Como o filho tinha o costume de frequentar a favela. o trabalho de limpeza moral (Leite. “o teu filho fumava maconha?”. todo mundo conhecia o Alexandre. aumenta as chances de se levar uma “dura” da polícia. Frequentar o baile era um fato negativo que pesava contra a imagem do filho. Os policiais pegaram ele.] A vida do Alexandre era jogar bola. mas sua mãe só ficou sabendo disso tempos depois. Bateram nele e perguntaram pra ele: “Cadê a sua mãe?” Ele falou: “Minha mãe tá em casa dormindo”. Ocupar o tempo do filho de todas as maneiras possíveis para evitar contato com o mundo da rua e do crime. Circular pela favela. né! [. E ele não me falou que a polícia 192 . [E ele] não sei o que: “Para mãe. Então pra ele ser bandido era de noite. Ele chegava da escola e era bola de novo. Se eu queria ir atrás dele. Quando ele dormiu. Entendeu? Ele vivia dentro da favela. de madrugada?”.

Comercializado de forma clandestina os proibidões tratam da realidade das comunidades onde ocorrem o tráfico de drogas. nunca mais vai cantar”. E naquele dia. Viver o luto corresponde a reivindicar Proibidões (de proibidão): é um estilo de funk carioca surgido durante a década de 1990 nas favelas do Rio de Janeiro. Segundo Maria. o rap da cabeça arrancada e a vingança Ele fazia [funk]. proibida. ela se dirige ao Instituto Médico Legal (IML) para verificar se seu filho encontra-se na lista dos mortos. ele ia arrancar ia fazer ia acontecer. O baile funk. Nas letras de funk de Alexandre ele cantava que iria arrancar a cabeça de Cafunga. o tiroteio acabou por representar a salvação de Alexandre. Então eu acho que isso colaborou para o sequestro do meu filho. E aí ele cantava aquelas músicas e ele fez uma musica pro Cafunga que se o Cafunga botasse a cabeça no beco ele ia arrancar a cabeça. uma relação entre luto e justiça. Outra situação que deixa Maria desesperada era o fato de Alexandre compor letras de funk. 49 193 . Os caras do comando vermelho tentaram invadir e meu filho conseguiu fugir. E ele ficava todo bobo: “Meu filho! Meu filho! Meu filho!”. que não sabe se é verdadeira ou não. Os proibidões49 seriam uma forma de mandar recado e ridicularizar a facção rival. celebrar o poder e a força da facção à qual se está associado. ao mesmo tempo. No relato acima. pegava o microfone e cantava. aquelas coisas de favela mesmo. porque diz que quando tinha baile na favela meu ex-marido pegava o cordão de ouro jogava no pescoço do Alexandre e o Alexandre subia no palco. O tiroteio é outra forma de se medir o risco e o perigo na favela. muito provavelmente. Dentre as representações sociais hegemônicas sobre o funk há aquelas que o associam a uma forma de expressão e linguagem do tráfico. estabelece-se na trajetória de Maria. e. É considerado por muitos como uma forma de apologia ao tráfico de drogas e há também uma forte conotação sexual nas letras. 4. Caso contrário. que dava vontade de bater nele.cercou e bateu nele. porque entregou na mão do Cafunga e o Cafunga falou: “Eu vou arrancar tua língua fora. E o pai ficava satisfeito com aquilo. a cada nova chacina que acontece na cidade do Rio de Janeiro. Eu rasgava tudo quando ouvia. poderia ter sido levado pela “moçada do movimento” e. Mas só aquelas coisas mesmas que você não pode ouvir. Quando realizei a entrevista com Maria. ela contou que havia recebido uma notícia. Práticas de luto reivindicativas de justiça A partir do desaparecimento forçado e da ausência dos corpos. de que seu filho estaria vivo. E aí nessa hora houve um tiroteio. seria morto. quando eles pegaram o meu filho. ele escrevia.3. teria virado traficante e estaria morando numa favela na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Por que “fulano” desapareceu? Será que “devia” alguma coisa e por isso teve que se mudar? Era “metido com coisa errada”? Por onde e com quem andava? Usava drogas ou era ligado ao tráfico? Tinha o hábito de frequentar baile funk? Por que frequentava a favela? Havia algum motivo para justificar uma possível morte? Enfim. no que diz respeito à integridade física e ao direito à vida. principalmente. mas não só. pessoas mais próximas das vítimas e testemunhas. Esse conjunto de questões que o desaparecimento provoca expressa os fundamentos de uma moralidade que coloca em suspeita e estigmatiza a pessoa desaparecida. implica em um cuidadoso processo de gestão do risco por parte dos sobreviventes. Em trabalho anterior (Araújo. por viverem em contiguidade com o “tráfico de drogas”. alguns temas como. O desaparecimento do filho provoca uma série de alterações na vida de Maria e. por exemplo. Nesse contexto. os segmentos da população que moram nas favelas do Rio de Janeiro estão mais expostos. gerando constrangimentos. O amor ao filho desaparecido torna a luta por justiça uma forma de vivenciar o luto. 194 . Essa gramática política busca tematizar no espaço público. entre a vizinhança. através de um esforço tremendo de publicização das denúncias. Mas. especulações. familiares. ofensas e humilhações.justiça. Desse modo. o amor materno é o que move Maria em busca de justiça. a violência policial nas favelas e o direito à segurança e à justiça dos seus habitantes. também gera algum tipo de solidariedade entre os mais próximos. o que se evoca em termos de moralidade no contexto de desaparecimento de um morador de favela são exatamente as representações sociais sobre a favela. com uma forte dimensão moral. surge uma gramática política. hipóteses e interpretações. ao crime violento. 2008). a respeito da pessoa desaparecida. o que se expressa são as representações sociais que associam a favela ao mal. estão rotineiramente sujeitos a vivenciar experiências traumáticas como a vivida por ela. Tudo isso em um contexto no qual o tráfico de drogas e a violência policial aparecem como o cerne do “problema”. em relação a moradores de outras áreas da cidade. o que se coloca em questão é o estatuto moral da vítima. gera uma série de fofocas. A favela aparece no relato de Maria como um lugar em que os moradores. sugeri que entre os coletivos de familiares de vítima de violência. 2002) pode ser pensado como práticas de luto reivindicativas de justiça. com os quais os familiares passam a lidar. associadas principalmente. ao risco e ao perigo. ao crime. Estão também à margem do acesso à justiça. cujo idioma de ação (Steil. Mais ainda. Na verdade. Em maior ou menor grau. ao imoral. Trata-se de um tipo de luto cuja perda se originou de um ato de injustiça e violência física.

do perigo. A favela é tida como o locus do mal. transformam-se em risco e ameaça à integridade física. do ilegal e do ilícito. como se ela mesma não fizesse parte da cidade. ocupando o lugar de “o outro” da cidade. do impuro.As rotinas são. seja em razão da ação letal da polícia. não poderia vir de outro lugar. a favela aparece como um lugar-trauma. No relato de Maria. há um grande esforço na gestão do risco cotidiano. Portanto. alteradas por conta do evento crítico. da sujeira moral. senão do universo simbólico da morte e da maternidade. associado ao desaparecimento forçado do filho e às histórias de terror e sofrimento que o envolvem . nesse caso. de repente. Diante de tamanho preconceito. seja em razão do poder de vida e de morte através do qual os traficantes de droga submetem os moradores. Por outro lado. que desestabiliza e rompe a vida cotidiana. 195 . Trauma. da desordem que ameaça a cidade. lutar por justiça torna-se quase impossível. imprevisivelmente. Situações as mais corriqueiras. Trauma que também está vinculado ao conflito armado concentrado em torno da favela. implica um tremendo esforço em lidar com o estigma e administrar a apresentação de si no espaço público. o idioma de ação acionado para reivindicar justiça.

PARTE III CRÍTICAS. DENÚNCIAS E PROTESTOS .

eis algumas imagens do choque em Benjamin e Baudelaire. mortes. e pensar como os lugares são vividos e experimentados por seus citadinos. Em relação ao Rio de Janeiro. a multidão. de tão bem tramadas e costuradas as relações entre um autor e outro. percepções de justiça e direitos. o efeito entorpecente do haxixe e a experiência urbana que possibilita. o tráfego. Baudelaire fala do homem que mergulha na multidão como em um tanque de energia elétrica” (Benjamin. A partir das experiências dos familiares de violência e sofrimento é possível acessar certos mapas da cidade.5. então. a partir da experiência de familiares de vítima de violência. GRAMÁTICAS MORAIS E POLÍTICAS DOS FAMILIARES DE VÍTIMA DE VIOLÊNCIA Neste capítulo. 1989: 124-125). Dentre as várias imagens utilizadas por Benjamin para escrever sobre a cidade. A descrição das experiências dos familiares de vítima permite analisar a sociabilidade produzida diante dos eventos críticos e da memória dos traumas urbanos relacionados à violência urbana e ao crime violento. invasões. Lembrei-me. a partir das formas de viver e morrer em cada território da cidade. como descargas de uma bateria. enquanto a linguagem do sofrimento apresenta-se aos familiares como uma linguagem alternativa para reivindicar direitos. de Walter Benjamin. 50 . onde conforme se caminha e se descortina os espaços. o impacto sensorial das tecnologias e equipamentos urbanos. a circulação na cidade grande.) tem sido a própria expressão do choque e do trauma. Esta referência benjaminiana ao choque deve-se ao fato de ela ser pertinente para se pensar a experiência dos familiares de vítima de violência nos termos de uma experiência do choque. Certos lugares tornam-se lugares-trauma e a experiência social é marcada pelo choque50. pode-se dizer que a linguagem da violência urbana é incompatível e conflitante com a linguagem dos direitos. Dialogando com o modelo teórico dos regimes de ação da sociologia pragmatista de Boltanski e Thévenot (1991). certas leituras do espaço Ao me deparar com os relatos e experiências dos familiares. a linguagem dos direitos humanos e a linguagem do sofrimento. interpretações e sentidos para as emoções e os sentimentos dos familiares de vítima de violência. “O mover-se através do tráfego implicava uma série de choques e colisões para cada indivíduo. analiso as tensões entre a linguagem da violência urbana. está a imagem da cidade como um labirinto ou um caleidoscópio. para quem a experiência urbana nas grandes cidades é marcada pelo choque. o choque aparece como princípio poético: o tumulto das ruas. chacinas. uma das primeiras ideias e imagens que me apareceram foi a de choque. inervações fazem-no estremecer em rápidas sequências. É neste contexto que são construídas sociologicamente as categorias vítima e familiar de vítima de violência. experimenta-se o choque. desaparecimentos etc. ponto de partida da análise de Benjamin. Nos cruzamentos perigosos. quase-cidadãos e pelos não-cidadãos. É nessa trama que se situa o agir e a produção de práticas e significados políticos/existenciais. a ocorrência de episódios violentos (tiroteios. Os temas de um confundem-se com os temas do outro. A experiência da guerra é lembrada por Benjamin como a experiência por excelência do choque. O choque aparece como princípio da experiência urbana. Também permite pensar – para usar uma expressão cara a Walter Benjamin (1989) – a fisiognomia da cidade. É principalmente pela via do sofrimento que os familiares falam de violência e direito e reivindicam a condição de vítima que busca um reconhecimento público das mortes dos familiares. Assim como para o poeta Baudelaire.

(Freire. Uribe argumenta que a animalização pode ser lida como uma metáfora da dominação. que pode ser entendida como uma metafísica. Jussara Freire (2010) formulou um esboço de modelo para análise da sociabilidade urbana na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Mais humanos e menos humanos: agir diante de modalidades de desumanização As histórias e os relatos dos familiares sobre o terror. a qual os familiares recorrem para justificar seu senso de justiça ou injustiça. em vez disso. como os de Das (1995. No regime de desumanização. 2008. Alguns trabalhos antropológicos.urbano e das relações de força. resistir e levar a vida e a luta adiante. no qual formula a questão da desumanização nos seguintes termos: O que chamarei de regime de desumanização não equivale a um regime de violência. o princípio de humanidade comum é também – como no regime de justificação pública analisado pelos autores – a premissa das justificações públicas na cidade do Rio de Janeiro. E como. sugerindo uma relativização da ideia de humanidade e mostrando como tal ideia é construída sociologicamente. ainda que esta seja afetada por situações de recurso à força) sem exigência de justificação e com estados fixos dos seres. 2010: 120) Essa desumanização pode ser pensada como uma modalidade específica de relação social. se caracteriza por uma metafísica (no mesmo sentido daquele proposto pelos autores) orientadora de uma gramática de justificação pública que busca extrair certos seres de uma humanidade comum. 1993). têm explorado ideias de desumanização e humanização diante de diferentes contextos nacionais de situações de terror relacionados à “linguagem dos conflitos armados”. referem-se a situações de animalização das vítimas. como um estágio de mediação entre um regime de força e um regime de justificação. como passaram a ser referidas as mortes produzidas pela violência do Estado argentino. Ao analisar as experiências dos familiares das vítimas do gatillo fácil. Entretanto. mas dificilmente a sociabilidade do Rio de Janeiro. O regime de desumanização. a tortura e as formas das mortes permitem identificar o aparecimento de certa ideia de desumanização/humanização51. essa gramática se articula em torno não da dignidade dos seres. 51 198 . 2008a) e Uribe (2008). através das quais o estigma e a desconfiança marcam as interações e a sociabilidade. por não se tratar de um regime no qual se enfrentam meras forças (que podem explicar estados de guerra ou de exceção. a partir de seus materiais etnográficos. um estado liminar entre um regime de força e um regime de justificação. 5. conforme os contextos e as situações.1. especificamente pelas polícias. ainda assim. Tanto Pita como Uribe. Estes autores têm destacado o papel que tem tido o terror como elemento pedagógico e dissuasivo nas “culturas do terror” (Taussig. e sim do pertencimento a uma humanidade comum. A metafísica da desumanização/humanização possibilita aos atores questionar a aplicabilidade universal da categoria “humano”. no sentido de Boltanski e Thévenot. Pita (2010) também faz referência ao “trabalho simbólico de restituição da humanidade” que os familiares levam a cabo para reconstruir a dignidade dos filhos assassinados como a un perro.

Decorre então que. de luta para se humanizar. denúncias. Mais direitos para os mais humanos e menos direitos para os menos humanos. ou seja. são intercambiáveis e podem mudar conforme o desenrolar das situações de denúncia (Boltanski. pode ser entendida como um continuum de posições intercambiáveis dentro de um sistema actancial em que os actantes ora podem acionar recursos e dispositivos de humanização. algo que é próprio do regime de desumanização é certo endurecimento de posições e das hierarquias. Na linguagem dos direitos. Daí a disputa para ver quem se estabelece como o juiz definidor da humanidade de cada um em cada situação. a ideia de “metáfora da guerra” (Leite. em que pesem hierarquias sociais. ora sendo os algozes da desumanização. por analogia. A desumanização/humanização. Destituir e restituir a humanidade de certos grupos sociais ou pessoas pertencentes a grupos sociais específicos. a humanidade é um pressuposto universal contextualizado por algum princípio superior comum. desde o processo de colonização do Brasil. em um de seus aspectos. 2001) leva a pensar na extração total da humanidade. expressão usada para referir-se às desigualdades no acesso aos direitos. embora as posições possam ser intercambiáveis.Como viver. ora de desumanização. de uma cidadania de geometria variável. Decorre então que. Ora ocupando o lugar de vítimas da desumanização. diante do dispositivo segregatório que é a desumanização. críticas e acusações em que as posições e os lugares de cada um. Por outro lado. 1991). seria possível pensar. as pessoas se qualificam e se hierarquizam em 199 . a cada um conforme a sua humanidade. em uma espécie de geometria variável das humanidades. entendida como a redução da humanidade do outro. Nesse ponto. havendo relação direta entre a humanidade de cada um e o grau de acesso aos direitos de cidadania e justiça. Recuperando a ideia de Lautier (1997). 2001). inversamente. as pessoas se qualificam e se hierarquizam em termos de humanidade. Na linguagem da violência urbana a humanidade é uma prova de acessos diferenciados aos direitos. muitas vezes funciona como dispositivo de ação diante de situações de opressão em que a eliminação moral e física da pessoa era iminente. uma ressalva deve ser feita. Essa hierarquização de humanidades é que organiza o debate sobre o acesso aos direitos de cidadania e justiça no julgamento moral cotidiano e o merecimento ou não da violência. conviver e agir diante de contextos envolvendo eventos violentos disruptivos da vida cotidiana? Agir diante de modalidades de desumanização implica situar-se em um jogo de disputas. Qual humanidade (ou quais humanidades) comporta os direitos humanos? Direitos humanos podem ser pensados como um dispositivo de proteção que busca incluir alguém ou algum grupo social em uma humanidade comum (Boltanski e Thévenot. diante desse quadro de desumanização do outro e.

a guerra contra a pobreza. Ao analisar a circulação de metáforas da guerra. 5. pode-se pensar em uma espécie de escala de humanidade. os conceitos de “conflito armado” que se formularam pela primeira vez nos discursos do presidente George Bush. usado em relação a causas denominadas como “boas”. como argumenta Freire. originalmente. como a guerra contra a enfermidade. testemunha e sobrevivente. Mais direitos para os mais humanos e menos direitos para os menos humanos. é preciso delimitar o sentido exato desta noção para podermos nos referir a um contexto tão específico e particular como a violência urbana no Rio de Janeiro. de maneira razoável. tal metafísica e os dispositivos a ela associados passaram a ser adotados pelos atores sociais como forma de nomear a violência. remete-se à linguagem da guerra. Compreender essas conexões lineares é fácil. Veena Das sustenta que o conceito de “circunstâncias excepcionais” para a aplicação do direito não é novo. as ideias de desumanização/humanização. Segundo Das. que também tiveram suas reapropriações para usos políticos em outros contextos históricos de conflitos armados. em referência ao 11 de setembro. constitui-se em uma metafísica que. havendo uma relação direta entre a humanidade de cada um e o grau de acesso aos direitos de cidadania e justiça.1. Essa hierarquização de humanidades organiza o debate sobre o acesso aos direitos de cidadania e justiça no julgamento moral cotidiano. seus perpetradores e suas vítimas. A metáfora da guerra e as tensões na definição das humanidades Para se levar adiante. tem o potencial de oferecer uma 200 . Correlatos dessa linguagem da guerra são as noções de vítima absoluta. 2008: 507). a guerra contra as drogas etc.termos de humanidade. ou seja. A desumanização/humanização. mas a linguagem do conflito armado ganhou força e se firmou a partir do 11 de setembro de 2011. Deste modo. A autora argumenta que uma das maiores dificuldades nas análises de questões de segurança é a “destruição contínua de materiais relevantes”. e. na medida em que a violência urbana tomou de empréstimo a linguagem da guerra. ainda assim. Daí a disputa para ver quem se estabelece como juiz definidor da humanidade de cada um. difícil é compreender a circulação da metáfora da guerra: O mais difícil é ver como a linguagem do “conflito armado”..1. a cada um conforme a sua humanidade. crime contra a humanidade. “já estavam disponíveis nos diversos exercícios teóricos simulados que realizaram os institutos de investigação especializados para conceitualizar as ameaças aos Estados Unidos” (Das. a partir de sua leitura de Boltanski.

como forma de “interromper qualquer discussão acerca dos direitos dos cidadãos uma vez que se descreve uma situação como constitutiva de uma emergência”. Deste modo. outros agentes. assim. aos conflitos entre policiais e bandos criminosos e destes entre si. marcada pela violência. a “metáfora da guerra” tornou-se um “pacote interpretativo” para a violência da cidade. No lugar de uma “cidade maravilhosa” emergia agora uma “cidade partida” (Ventura. que não o Estado. Segundo a análise de Leite (2001). ao longo da década de 1990. aparece como o grande dispositivo da desumanização: ela produz uma situação de excepcionalidade e o saber sobre o outro. A metáfora da guerra. como uma doença viral. essa linguagem tem o efeito de dissolver em última instância as distinções entre o que significa ter que tratar com outro ser humano e o que significa tratar com um agente infeccioso. Em relação ao Rio de Janeiro. cujos interesses por controlar as condições laborais ou o crime em um determinado lugar possam dar origem a certas áreas declaradas como fora da soberania de um Estado. (Das. Como argumenta Leite. a linguagem da guerra tem se “normalizado”. 1994). a “metáfora da guerra” passou a ser utilizada como forma de interpretar e compreender a violência urbana carioca. Ou uma empresa global. Os estados de exceção se transformam em algo cotidiano. Movendo-se de uma configuração a outra entre diferentes classes de agentes humanos e agentes não humanos. a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar um estado de exceção. 2008a: 509) Para Das. argumenta Veena Das. irradiaram no imaginário coletivo a imagem de uma cidade em guerra: uma guerra da cidade contra seus morros e favelas. a cidade assistiu apavorada e amedrontada à emergência de uma nova representação que fez ruir a imagem de “cidade maravilhosa”. Liderada por parte do aparato policial civil e militar e contando com adesão de políticos. diferentemente da ideia de Agamben (1998). “da conexão entre soberania e direito na hora de declarar um estado de exceção. aqui a ideia mesma de soberania tem se tornado plural e com frequência se dissolve”. setores da mídia e parcela dos moradores da cidade (oriunda principalmente das camadas abastadas).solução a qualquer ameaça recorrendo à linguagem da erradicação. a saúde e o desenvolvimento em formas que incidem na vida cotidiana e fazem erodir a normalidade da linguagem (Das. mas. por exemplo. A circulação da metáfora da guerra é a possibilidade de “trasladar ideias e instituições a outros lugares” que terminam por configurar a segurança. Novas modalidades de violência associadas ao tráfico de drogas. que legitima e justifica o exercício de um poder sobre ele. 2008a: 515). essa perspectiva interpretativa considerava que “a situação de excepcional da cidade – de guerra – não admitia contemporizações com políticas de direitos humanos e com reivindicações pelo 201 . podem decretar um estado de exceção. Pode ser. para manejar uma epidemia.

de outro. mas que também opera. 1994). além de bandidos e traficantes que. É neste contexto que categorias como vítima e familiar de vítima emergem no cenário público e político como uma forma de interpretar a violência através de uma outra chave de leitura. a “pacificação e integração da cidade”. as favelas espalhadas nos morros de suas áreas mais valorizadas e nos bairros pobres em seus subúrbios. em agosto de 1993. e a chacina de Vigário Geral. distribuíam a droga na cidade. com o sequestro e desaparecimento dos corpos (jamais encontrados) de onze jovens de Acari. tortura. 2001: 76). A ideia de desumanização/humanização. por isso. desaparecimentos. tráfico de drogas e meninos de rua. delinquência e desordens urbanas. de um lado a “metáfora da guerra”. tiroteios. 53 O fato de tomar as duas perspectivas para análise. a da “metáfora da guerra” e a da “pacificação da cidade”. A “metáfora da guerra” foi gestada a partir de uma série de episódios violentos e reafirmada. em julho de 1993. para analisar a violência urbana na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. já que fala em “pacificação e integração da cidade”. 52 202 . que faz sentido falar em desumanização/humanização53. em 1990. envolvendo a participação de policiais. Como chama atenção a própria autora. entrincheirados nas favelas. com a “metáfora da guerra”. em especial seu segmento mais jovem. Diante desse contexto. aludindo à quebra do pacto civil/civilizatório e à irrupção do estado de guerra: os 'bárbaros' invadiam a cidade” (Leite. que se transmutava em crimes. a via de pacificação proposta por esta interpretação alternativa à “metáfora da guerra”. Seus personagens seriam os moradores desses locais. com vinte e um mortos. ao longo da década de 1990 toda vez em que se ampliou a percepção do agravamento da violência52. Porém. passa a fazer sentido com a circulação da “metáfora da guerra”. Evocava como seu espaço privilegiado e eixo de irradiação para a cidade. 2001: 81). não significa que as interpretações para o fenômeno se resumem a estas duas. espraiando-se ainda por sua periferia. Considero que é a partir deste contexto de disputa entre os dois “pacotes interpretativos” apresentados por Leite. os arranjos discursivos e as interpretações são reelaborados e novos sentidos são criados. perdera o controle de suas 'classes perigosas'. “Essa versão sobre a violência sustentava que o cenário de paraíso chocara em suas entranhas um 'ovo de serpente' (Ventura. Difundia a ideia de uma sociedade em crise. sendo as três mais marcantes desse período: a chacina de Acari. a violência policial em territórios e sobre os grupos estigmatizados ganhou grande aceitação e inaugurou-se a “era das chacinas”. a chacina da Candelária.respeito aos direitos civis dos moradores nos territórios conflagrados” (Leite. cerco etc. 2001: 79).) propiciaram o desenvolvimento de uma “cultura de medo”. A percepção de ineficiência das políticas de segurança pública e a vivência de situações características de contextos de guerra (alto índice de mortos. com o assassinato de sete menores que dormiam às portas da igreja da Candelária. que não mais dispunha de mecanismos institucionais eficazes para administrar os conflitos sociais e. As demandas por ordem encontravam justificativa em Hobbes. em certa medida. seria através da combinação de “valores associados à noção de cidadania e a redes de solidariedade constituídas com o objetivo de promovê-las” (Leite. invasões.

Ainda sobre este aspecto, gostaria de chamar atenção para a forma como certas ideias, interpretações, categorias, visões de mundo, dispositivos, circulam de uma situação para outra conforme as apropriações políticas realizadas pelos atores no curso de suas ações. Se, por um lado, o dispositivo de desumanização/humanização como repertório da linguagem da guerra tem relação histórica com o surgimento das categorias vítima absoluta e crime contra a humanidade, por outro, no contexto da linguagem da violência urbana no Rio de Janeiro, desumanização/humanização tem relação direta com categorias como vítima, bandido54 e polícia. Essas três categorias são significativas na análise das gramáticas da violência urbana e também na gramática dos direitos humanos, na medida em que violência coloca à prova a humanidade de cada um. O intuito dessa discussão sobre desumanização não é elaborar uma teoria geral dos regimes de desumanização, mas sim analisar como essa metafísica é acionada pelos atores sociais concretos no curso de suas ações igualmente concretas, sobretudo em situações em que está em jogo o poder de matar. O objetivo aqui é analisar como os atores sociais e políticos, ao adotarem a linguagem da guerra e a metafísica da desumanização, se hierarquizam em termos de humanidade, agindo entre a desumanização e a humanização. Nesta perspectiva, desumanizar corresponde a colocar a humanidade de alguém para baixo, equivale a rebaixar a humanidade. Por sua vez, humanizar significa reintegrar a uma humanidade comum. A linguagem da guerra suspende as equivalências, afinal, em um regime de força não há equivalência, há força. A metafísica da desumanização/humanização é acionada pelos familiares de vítima de violência para realizar julgamentos morais e políticos sobre a grandeza ou a pequenez da humanidade de cada um sobre o merecimento ou não dos infortúnios e sofrimentos a que cada um é submetido e sobre o direito ou não de ter direitos e em que grau. Diante de situações específicas, os familiares de vítima mobilizam repertórios de desumanização/humanização, hierarquizando humanidades, para formular suas críticas e justificar suas reivindicações, suas denúncias e seus protestos. O trabalho dos familiares é, sobretudo, um trabalho simbólico e político de restituição da humanidade de seus mortos (Pita, 2010) diante da desumanização da qual denunciam ser vítimas. O que as experiências de sofrimento e os relatos de violência dos familiares parecem demonstrar é que a violência que se abate sobre as vítimas é tão exagerada, tão radical, que contém certa dimensão de extremo, de algo que passa dos limites. As queixas ora tornam-se

54

Para uma discussão da categoria bandido, conferir Misse (2010) e Teixeira (2011).

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críticas mais ou menos orgânicas, ora não passam de lamentos e sentimentos de indignação em relação à crueldade expressa no exercício, praticamente ritual, do ato de matar. O simbolismo da morte fere o limite daquilo que é considerado pelos familiares como humano.

5.2. A figura da vítima Não é minha intenção aqui reificar a categoria vítima. Vítima aparece aqui como uma categoria nativa e minha intenção é analisar como se dá o uso político desse estatuto. A noção contemporânea de vítima vincula-se às políticas de reparação de danos, inicialmente frente às atrocidades da guerra e, posteriormente, de regimes totalitários e autoritários como, por exemplo, as ditaduras latino-americanas. A figura da vítima surge simultaneamente com a construção da noção de crime contra a humanidade e de uma justiça penal internacional que consistiria, enquanto projeto, basicamente em aplicar a justiça a crimes de massa que dizem respeito a toda a comunidade internacional.
O crime contra a humanidade introduz-nos na categoria da vitimização absoluta. A ideia de vítima vem do vocabulário religioso do sacrifício, correspondendo a um ser – animal ou humano – morto ritualmente em homenagem aos deuses. Simboliza, portanto, a passividade total, a vitória definitiva sobre o corpo do outro, excluído do próprio combate. A figura do herói, tal como a do vencido, subsiste ligada ao combate, logo, à acção. A vítima absoluta encarna um novo ser no mundo ou, mais exactamente, um não ser. O aparecimento da vítima é inseparável de uma experiência histórica radicalmente inédita, que é a negação de qualquer laço humano. Se o combatente ocupa um lugar, o do adversário, já a vítima não tem lugar para ocupar, mesmo no meio da pátria humana. Ter um lugar é, efetivamente, reconhecer a possibilidade de fazer valer direitos, mesmo que extremamente reduzidos. O combate permanece uma forma de reconhecimento, enquanto crime contra a humanidade é um crime de indiferença. (…) O que caracteriza a vítima é o involuntário, a impossibilidade de exercer um qualquer tipo de controle sobre a sua sorte, a incapacidade de agir, inclusive de fugir ou de se render, duas saídas possíveis para o combate. Para ela, não há refúgio algum sobre a terra, nem mais nenhum recurso. As vítimas designadas vivem na expectativa de uma morte atroz a todo o momento e em qualquer lugar: de dia ou de noite, tanto em casa como na rua. O domicílio familiar, o lugar mais íntimo, é escolhido para cometer os raptos, seguidos de desaparecimento, de forma a tornar o mundo definitivamente indiferenciado e hostil. É vítima aquele a quem não é dada outra escolha senão a de deixar-se levar para o matadouro, ou até, como na Ruanda, implorar – e pagar – para não ver o seu próprio corpo mutilado. (Garapon, 2004: 108)

Desde então a noção de vítima ampliou-se e passou a ser usada em diversos contextos para conferir legitimidade moral às reivindicações daqueles que são afetados por algum tipo de sofrimento decorrente de experiências traumática em diversos contextos políticos. A antropóloga Cynthia Sarti, ao refletir sobre o sofrimento associado à violência, tem se 204

indagado a respeito da construção social e histórica da pessoa como vítima e a extensão que essa figura tem adquirido na sociedade contemporânea como forma de legitimação moral de demandas sociais. Como é “produzida” a vítima? Qual a perspectiva dos atores envolvidos nessa produção e seus modos de agência? Em que contextos emerge a figura da vítima e que significados assume? A análise de Sarti tem como ponto de partida a construção da violência como problema na área de saúde, interrogando-se sobre “o contexto em que se nomeia a violência, que agentes sociais a nomeiam, como e quem define a vítima e o agressor e como se expressa o sofrimento por quem a vivencia ou vivenciou” (Sarti, 2011: 51). A partir desta perspectiva, Sarti buscou problematizar como políticas públicas de atendimento aos casos de violência na área de saúde são desenhadas a partir da noção de vítima. A autora argumenta que essa noção constitui a razão de ser das políticas públicas, não só de atendimento aos vitimados, como também de prevenção e combate à violência, abrangendo as áreas de saúde e segurança pública. O campo empírico das pesquisas de Sarti inicialmente foi o atendimento em um hospital de emergência de casos de violência. A entrada da questão da violência na área da saúde, segundo o argumento de Sarti, se deu em razão, entre outros fatores, do impacto social e político de movimentos sociais de cunho identitário, a partir de suas reivindicações de direitos. A forte presença do movimento feminista nesse processo tornou a perspectiva de gênero significativa e marcante na orientação do atendimento à vítima de violência na área da saúde, sendo a figura da mulher construída como vítima potencial da violência. Disso resultaram ações focalizadas de atendimento à violência na área da saúde para atender a demandas de grupos específicos. A construção da vítima e a constituição de uma noção de direito, em termos particulares, focalizando-se em grupos identitários específicos compreendidos como vulneráveis, têm como dilema, a cristalização de certas identidades tidas como merecedoras de uma ação reparatória, enquanto outros grupos não têm o mesmo mérito. Ou seja, há uma tensão entre particularidade e universalidade dos direitos na administração social dos conflitos. Se, por um lado, os movimentos sociais de cunho identitário serviram para dar visibilidade a certas violências até então invisíveis, por outro, incorre-se no problema da “delimitação do que constitui culturalmente um grupo discriminado” (Sarti, 2011: 53). Como alerta Sarti, o problema na definição de quem é a vítima e de quem é o agressor é a construção de identidades positivas de certos grupos, diante das quais a alteridade é vista como polo negativo. O dilema de uma definição rígida da figura da vítima, na medida em que esta definição 205

pode priorizar alguns grupos e desconsiderar a vulnerabilidade de outros, é ilustrado por Sarti quando ela apresenta um caso que registrou durante o trabalho de campo no hospital em que realizou sua pesquisa. Trata-se de um homem jovem que se dirigiu ao hospital buscando atendimento frente à violência sexual por ele sofrida. Este homem foi dispensado segundo a justificativa inicial de que o serviço de atendimento era integrado exclusivamente por ginecologistas e obstetras, restrito às mulheres, vistas como vítimas potenciais. A situação desestabilizou a figura da vítima que os profissionais tinham em mente e apontou para as os deslocamentos que podem ocorrer quando se trata de definir quem ocupa o lugar de vítima e o lugar de agressor. Ao se problematizar o lugar atribuído à vítima e ao agressor no processo de construção social da violência, o que se tem é não apenas uma indagação sobre a definição de prioridades no desenho das políticas públicas, mas também a problematização e reflexão sobre as “formas contemporâneas de sociabilidade entre as quais se circunscreve o sofrimento e o cuidado que lhe corresponde” (Sarti, 2011: 52). A construção da pessoa como vítima no mundo contemporâneo tem como objetivo conferir-lhe reconhecimento social em relação ao seu sofrimento.
O alargamento do espaço social ocupado pela vítima no mundo atual está historicamente relacionado às melhores intenções. Daí a delicadeza da questão em pauta. No que se refere, pelo menos, ao mundo ocidental moderno, a identificação da vítima faz parte dos anseios de democracia e justiça, dentro do problema da consolidação dos direitos civis, sociais e políticos de cidadania. Remete à responsabilização social pelo sofrimento em face de catástrofes de várias ordens, desde guerras até acidentes naturais (terremotos, etc.) e à questão do reconhecimento como exigência básica do ser no mundo. Categoria histórica, seu significado definese contextualmente, na dinâmica dos deslocamentos de lugares que marca as relações intersubjetivas, situadas em estruturas sociais de poder no interior das quais os conflitos são negociados. Trata-se de compreender os mecanismos sociais e políticos de reconhecimento e nomeação da violência pelos quais a pessoa, na acepção de Mauss, é construída como vítima, a gramática moral que lhe dá a sustentação e, no plano do sujeito, a percepção subjetiva de si mesmo como tal. (Sarti, 2011: 54).

Na mesma linha de argumentação desenvolvida por Sarti, Kleinman e Kleinman (1997) argumentam que o sofrimento é o assunto mestre do nosso tempo mediatizado. Imagens de vítimas de desastres naturais, conflitos políticos, migrações forçadas, fome, abuso de substâncias, a pandemia de HIV, doença crônica de dezenas de tipos, crime, abuso doméstico, e as privações profundas da miséria estão por toda parte. E as câmeras de vídeo nos leva e traz os detalhes íntimos de dor e desgraça, tornando-nos espectadores do “sofrimento à distância” (Boltanski, 2007). As memórias de violação são transformadas em 206

histórias-trauma e estas, por sua vez, tornam-se moeda política e são apropriadas profissional, econômica, política e culturalmente de diversas formas. Kleinman e Kleinman chamam atenção para os processos de patologização do sofrimento social que reescrevem as experiências sociais em termos médicos, reduzindo os eventos reais a uma imagem de núcleo cultural de vitimização – “a marca pós-moderna”. “A pessoa que sofre tortura, primeiro, torna-se uma vítima, uma imagem de inocência e passividade, alguém que não pode representar a si mesmo, que deve ser representada. Então ela se torna um paciente, especificamente um paciente com o transtorno por excelência do fim de século (ou seja, transtorno de estresse pós-traumático)”. (p. 9-10). Os autores acrescentam que as imagens do trauma são parte da nossa economia política e as imagens de sofrimento tornaram-se uma forma de entretenimento. Um obstáculo para a passagem de uma situação de violência à uma situação de paz, ou de um regime de força para um regime de justificação cívica nos termos de Boltanski e Thevenot (1991), é a não aplicação de uma política sistemática de justiça punitiva contra agentes estatais, principalmente policiais criminosos. Reconhecer o sofrimento da vítima significa reconhecer a necessidade de reparação, portanto, de agir em seu benefício. Um dos pontos centrais e que se torna obstáculo para a aplicação da justiça, nos casos envolvendo violência policial, consiste em reconhecer a responsabilidade dos agentes policiais e puni-los. Neste caso, reconhecer a vítima significa reconhecer os crimes praticados por policiais e punilos. É preciso retomar aqui o contexto em que se dá a produção da figura da vítima e o jogo de posições que se estabelece em torno dela. Ser vítima não significa ocupar um lugar fixo em um sistema de denúncia. Tanto a condição de vítima como a de algoz podem sofrer alterações conforme as disputas políticas e simbólicas. A violência urbana, pensada enquanto representação social (Machado, 1993; 2004), traz em seus repertórios uma coleção de personagens, cenários, figuras, categorias e situações, que conformam certo imaginário. Gostaria de destacar uma tríade de figuras que corresponde a certas posições que cada agente social ocupa diante dos processos de acusação e dos jogos de denúncia em que cada um se movimenta e se mobiliza para formular suas críticas e fazer suas reivindicações e protestos. Essa tríade é composta pelas figuras da vítima, do bandido e da polícia. Essas figuras ocupam lugar central nas gramáticas da violência urbana e podem ser substituídas por categorias equivalentes como acusador, réu e juiz. É neste contexto do agir competente, de passagem de uma situação a outra, de um regime de ação a outro, que os agentes sociais são envolvidos numa situação que vai se fabricando, inventando e 207

conformando os princípios e as gramáticas morais e políticas que coordenam as ações.

5.3. A construção da categoria familiar de vítima: tensões entre ser familiar de vítima e ser familiar de bandido A família constitui, na sociedade brasileira como um todo, mas especialmente entre as camadas populares, um valor muito importante na produção de significados e formas de compreensão do mundo. Seria impossível discutir a experiência dos familiares de vítima sem nos determos sobre o lugar da família entre os pobres (pobres aqui é categoria nativa), afinal, uma das questões centrais que aparecem nos relatos é o que significa ser mãe nos espaços populares, em contextos de violência urbana e sem recursos para se proteger. E, no caso dos familiares de vítima de violência, o parentesco, a família e a maternidade aparecem como recursos morais, fontes de legitimação moral, que autorizam a falar em nome da vítima, dada a proximidade em razão dos laços de sangue. A família, enquanto unidade simbólica, estrutura formas e regras de convivência que permitem pensar, organizar e dar sentido ao mundo social, dentro e fora do âmbito familiar. Em muitos contextos, como, por exemplo, as periferias de São Paulo estudadas por Cíntia Sarti, na década de 90, a família “se torna o parâmetro simbólico para definir, inclusive, os termos da atuação dos indivíduos no plano político (2003: 9)”. A autora complementa seu argumento dizendo que essas formas de se fazer política a partir da família “não se associam necessariamente a formas populistas de fazer política, mas ao fato de que as demandas e práticas políticas de qualquer segmento da população estão associadas ao seu modo de viver e ao sentido que atribui à sua vida”. E dentre os vários modos de se viver das camadas populares, as redes de parentesco sempre foram uma das principais formas de proteção social, sobretudo a figura da mãe, que corresponde à ideia de proteção no seio familiar. No caso dos familiares de vítima de violência que esta pesquisa investigou, nota-se um ponto de confluência em relação ao argumento de Sarti. Nota-se nesse caso como a família e a maternidade representam duas gramáticas morais que fornecem um quadro de referências para produzir sentido sobre suas “experiências subjetivas de opressão” cujo episódio central é a morte dos filhos, mas cuja dor e sofrimento não cessam com ela. O desenrolar jurídico do caso e a luta por condenação dos envolvidos, reparações morais e financeiras (na forma das indenizações), coloca os familiares diante de situações e relações que até então não faziam parte de suas rotinas, mas que, agora, diante do evento 208

Um desses pontos convergentes é a aparição pública e a centralidade da categoria familiar no contexto de denúncia contra a violência policial. guardadas as devidas especificidades dos contextos locais. As experiências dos atores envolvidos nas diversas formas de coletivização da dor e do sofrimento e os reclames por justiça e reparação ante a violência patrocinada pelo Estado foram conformando certo campo de atuação que genericamente podia denominar-se o movimento de direitos humanos da Argentina. Birman e Leite. Pita. reclamar o esclarecimento dos fatos e demandar justiça. Embora essas mortes também se enquadrem no espectro de violações de direitos humanos praticadas pelo Estado. conformando um campo próprio de protesto. especialmente a imagem da mãe. Pita (2010) descreve um contexto semelhante ao que acontece no Rio de Janeiro. 2008. A luta em prol dos direitos humanos foi o tópico que organizou a resistência ao Terrorismo de Estado. aparece com força uma alusão aos laços de sangue como o motivo que impulsiona a intervenção e ação pública de reclame. Alguns estudos sobre a construção das categorias vítima e familiar de vítima. ver o tempo passar sem muita possibilidade de que a justiça seja feita. relacionado agora à violência policial. várias ações foram desenvolvidas buscando esclarecer o destino das vítimas. entre outros). passam a ocupar boa parte de seu tempo e de suas vidas. para os familiares de vítima. A evocação da dor 209 . Uribe.crítico. 2008. 2010. As demandas por justiça diante de casos de violência policial têm constituído um campo de protestos e reivindicações protagonizado pela figura dos familiares de vítima. Lutar nos tribunais pela condenação de policiais é na maior parte das vezes. Diante da impunidade e da barreira que existe na justiça brasileira para a condenação de policiais. 2004. 2007. Através do contato com os familiares de vítima de violência foi possível acompanhar certos momentos de construção das categorias familiar de vítima e vítima. 2004. Neste contexto. apareceu no cenário público um novo campo de protestos. simultaneamente ao movimento de direitos humanos. Esta autora argumenta que os organismos de direitos humanos constituíram um vigoroso campo de protestos e intervenções contra a violência estatal promovida pela última ditadura militar. Através da figura do familiar de vítima. começaram a ganhar lugar como questão particular. em diferentes contextos de violência. Jimeno. Araújo. 1995. Ao analisar a experiência dos familiares de vítima de violência policial em Buenos Aires. com entidade e visibilidade própria. para os familiares fica a sensação marcante de que a justiça tarda e falha. Com o fim da ditadura. sob o regime democrático. têm possibilitado a realização de análises comparativas sobre o tema (Das. um universo moral baseado no mundo dos familiares.

Ser ou deixar de ser vítima depende da capacidade de se engrandecer ou não. A própria categoria familiar de vítima. 1998). Nesse ponto. así como de obligaciones. retomando um texto da antropologia política de Balandier (2004). es decir. faz-se presente certa dimensão do sagrado que. portanto. 2001). retirando-os da categoria matáveis (Agamben. revelando de este modo su valor político. 1998. Distingue as pessoas implicadas diretamente no sofrimento e. como entre estos y no familiares. autoridades y jerarquías. corresponde a uma das dimensões do 210 .e do sofrimento e o uso da linguagem das emoções são traços sempre presentes para falar e estabelecer o estatuto de vítima e o uso político que dela se pode fazer. ao estudar os familiares do gatillo fácil. O uso da condição de vítima ocorre conforme a conveniência política de cada situação. algumas vezes pode ser interessante apresentar-se enquanto vítima. aqueles que sofrem diretamente com o evento daqueles que não. porque ela também serve para apagar qualquer possibilidade de agência dos atores. em um sistema de obrigações diante da vítima. É utilizada com o sentido político de diferenciar aqueles que encontram-se enlutados daqueles que não. simultaneamente. A mesma definição elaborada por Pita. aplica-se para pensarmos os familiares do Rio de Janeiro: Familiar puede definirse entonces como una categoría nativa del campo de la protesta contra la violencia policial. em Buenos Aires. de fazer uso político da categoria quando for útil ou não. elaborando o evento como um caso. Pero también la nominación de familiar – en tanto categoría nativa – funciona como un demarcador de posiciones respecto de los actores que intervienen em este campo de protesta. condensada em esta figura. 2010: 185) O trabalho político dos familiares consiste em ressignificar a morte violenta ou o desaparecimento dos filhos. Em outros momentos é preciso se desvincular da categoria de vítima. que revela una dimensión moral que. Serve tanto para demarcar hierarquicamente a proximidade e o sofrimento de familiares e amigos da vítima e reivindicar a legitimidade para falar em nome da vítima. su análisis posibilita dar cuenta de posiciones diferenciales. como para indicar a distância daqueles que não sofrem. tanto entre familiares. (Pita. aproxima e afasta. social e moral. incide en la construcción de significados que potencian la politización de la protesta. outras vezes pode ser mais eficiente afastar-se da vitimização. como nota Pita. Boltanski. O tratamento dado aos mortos converte-se em um valor exibido e manipulado durante as denúncias e protestos e compreende um tremendo esforço de restituição da humanidade dos filhos. aqueles que têm uma relação direta com a vítima daqueles que não. como una categoría nativa que interviene en la deficinión de un tipo particular de activista político en este campo de protesta. Así. A condição de vítima não significa ocupar sempre o mesmo lugar na ordem política. qualquer capacidade de ação. enquanto uma forma política (Claverie.

2008). como os denominou Novaes e Catela (2004). 2010). Por viverem emparedados pela sociabilidade violenta (Machado. Os familiares constroem uma forma de protesto que é também uma forma de luto e vice-versa (Pita. recordar a identidade do morto. um conjunto de perguntas com uma forte carga moral logo se coloca. A dor pela morte violenta do filho pode significar a construção de um espaço social a partir da esfera moral que se constrói em torno da dor e do sofrimento e em torno da figura da vítima. Tudo com base no vínculo com o morto. Há também uma forte dimensão moral que traduz percepções e representações em relação à vítima. com o objetivo de saber se a vítima era passível de compaixão ou não. no Rio de Janeiro. os protestos e as manifestações de indignação diante da morte violenta não são as mesmas em todos os casos. sobretudo no que diz respeito às variáveis de classe e local de moradia.campo político que intervêm na construção da legitimidade daquele que age. pela violência criminal e pela violência policial. Nos rituais da dor há todo um trabalho simbólico de restituição da humanidade negada às vítimas: lembrar o nome. são geralmente desacreditados no espaço público. mesmo quando não há corpo. pela classe média que acusa e associa este segmento à criminalidade e à violência. variam em intensidade e força conforme o perfil da vítima. que geram velórios sem corpo. que inclusive influi muito na intensidade da indignação ou da falta dela. E. 2007: 84-85) 211 . Pelo simples fato de morar em territórios onde se estabeleceu uma modalidade do tráfico de drogas baseada numa sociabilidade armada. por outro. reafirmar as qualidades de pessoa. Quando ocorre uma morte violenta. Quem era a vítima? Era uma pessoa do “bem”. todos os moradores são associados indistintamente ao crime. tirar a morte do anonimato e nomear os responsáveis. recuperar o status social do morto. A estratégia de manipular o sagrado equivale a uma forma de competência política que visa construir e legitimar a autoridade moral. porque são vistos como bandidos ou coniventes com a bandidagem. Ocorre uma retomada da palavra a partir da dor e de uma linguagem das emoções. por um lado. é representado pela favela – são silenciados. tornando-se atores quase-sagrados. marcada pelo recurso permanente ao uso da força. É como se houvesse necessidade de atestado de bons antecedentes para que a moral humanitária seja evocada em sinal de compaixão pela vítima. “boa” gente? Ou seria um menino de rua? Ou seria um bandido? Ou um favelado? Ou um traficante? (Araújo. Os moradores dos chamados territórios da pobreza – cujo arquétipo. O próprio enterro. A revolta. A figura do morto associada à noção de vítima torna-se o centro do protesto e o elemento a partir do qual os familiares constroem e manifestam sua autoridade moral. quando há corpos a serem enterrados. converte-se em um ato de denúncia. há os rituais para a dor.

Quando vão às delegacias de polícia registrar os casos. né? [Eu disse]: “Eu não sei. entendeu? A dor pela morte violenta do filho pode significar a construção de um espaço social a partir da esfera moral da dor e do sofrimento e em torno da figura da vítima. né. o fato de que os familiares que mais aparecem em público para denunciar os casos são os familiares cujos filhos não tinham envolvimento com a criminalidade. porque sabe que há um entendimento dominante de que bandido merece e deve morrer. de depuração do social. nós tínhamos que achar os nossos filhos. ela é justificável. Tínhamos que falar com ele porque nossos filhos foram sequestrados.... [O policial] queria saber porque os nossos filhos estavam sumidos. na Policia Civil. vende e fuma maconha”. abriria mão do direito de procurar. Isso justifica. Ilustrativo desse entendimento é o relato de uma mãe que diz: “Se tivesse essas três coisas: se ele [o filho] estivesse roubando. pelo menos em parte. e chegando lá eles queriam saber. foi que eles foram imprensando. aí eu deixava para lá”. Abriria mão de procurar ou se sentiria sem esse direito. Eu saio de manhã para trabalhar.. porque o uso de castigos físicos e a inflição da dor diretamente nos corpos têm ampla aceitação na sociedade brasileira. Se soubesse que ele “rouba.Outro fator que se apresenta como obstáculo para o acesso ao espaço público desse segmento de moradores da cidade é a predominância na sociedade como um todo (inclusive entre muitos familiares) e no Estado brasileiro de um entendimento segundo o qual o uso da violência policial é aceitável e desejável para a manutenção da ordem pública. mas tínhamos que falar os nomes do pessoal de onde a gente morava. Desde que a violência seja aplicada aos elementos devidos (para usar o jargão policial). né? Que nós moramos na favela. como forma de limpeza social. portanto. que nós tínhamos que saber o nome dos caras. como suspeitos. Nesse ponto. Veja-se o relato a seguir em que o policial orienta os familiares a procurar o “dono da favela” para obter informações sobre o paradeiro do filho: Quando a gente foi na Civil. nós não sabemos. vendendo e fumando maconha e eles pegassem assim. A morte pública do bandido no Rio de Janeiro é experimentada como um rito de purificação do tecido social. Os familiares se queixam por serem tratados pela polícia sempre como familiares de bandidos. a reclamação dos familiares é que passam a ter que provar para a polícia que o caso merece ser investigado. para a cidade. O que move esta mãe a buscar pelo filho desaparecido é a presunção de sua inocência. Eu não sei. Nós não sabemos o nome de ninguém”. são colocados em suspeita e a responsabilidade pela investigação do caso é repassada aos familiares. nós fomos todo mundo lá. 212 . que merece entrar na lista de prioridades dos casos que serão investigados. Meu filho saiu para fazer um passeio e não retornou mais. que eles imprensaram ali as mães para querer saber. Então.

porque ambos causam sofrimento. familiares também desumanizam os policiais. Então por isso o Caso Acari não foi pra frente. E nesse processo de lutar por justiça. como é geralmente argumentado por policiais. podendo se deslocar facilmente dela. E nas críticas que fazem à polícia. [Disseram] que eu era mãe de bandido. Isso aí eu ouvi de todas as autoridades. desapareceram. ou de parentes. 213 . Polícia e bandido seriam iguais. mas sim como fruto de uma injustiça praticada pelos mesmos. por outro.4. Infelizmente você ainda tem que escutar isso. por policiais. praticamente uma missão de fazer justiça (Leite. raiva. A compreensão da morte do filho não como uma fatalidade. Mas há que se notar que não se trata de um inverso recíproco. medo. indignação. manifestando um entendimento de que polícia e bandido se equivalem. enquanto os policiais adotam uma justificação cívica de bastidor. porque eles dizem que são onze traficantes. combinada com outra. amor aos filhos) e o conteúdo. humilhação. Os policiais que estavam me ouvindo na delegacia falaram para mim: “Seu filho é bandido. a forma é marcada pela linguagem das emoções (dor. ofensas morais. Humanizar e desumanizar são recursos acionados por todos. doméstica. no entendimento geral dos familiares de vítima. Onze pessoas que sumiram. Os relatos a seguir exemplificam bem o entendimento dos familiares de vítima acerca da compreensão que os policiais fazem de seus filhos como “bandidos”. e que hoje a mamãe chora porque hoje não tem mais dinheiro do filhinho. As críticas dos familiares de vítima à polícia O quadro cognitivo que conforma seu regime de ação tem como núcleo central a experiência e a situação dolorosa da morte dos filhos. nos embates travados. policiais acionam a categoria bandido para justificar moralmente o “direito de matar” (“porque eram bandidos”). por um lado. luto. os familiares de vítima acionam essa mesma categoria para criticar a polícia. A polícia nos considera todos bandidos.5. os familiares de vítima adotam uma justificação cívica propriamente dita. a polícia é o alvo central das críticas. sofrimento. da mesma forma que policiais desumanizam os bandidos. seu filho está sendo procurado pela polícia”. Se. Antigamente nós éramos taxadas de mães de bandido. pelo questionamento de uma humanidade comum. Eu tive constrangimento por duas vezes. por isso. impulsiona e alimenta uma vontade. 2006).

tem um poder impressionante de produzir “contaminações morais” das quais todos os envolvidos precisam se livrar. Eu costumo falar para minha mãe que são dois diabos brigando. Bandido é uma categoria acusatória usada também pelos familiares para se referir aos policiais e igualá-los aos bandidos que eles se encarregam de eliminar. e estão fazendo e acontecendo. entendeu? Se você tivesse um caso. Entendeu? E ser dado como foi o caso do [nome do filho] é simplesmente um desvio de conduta ou se a instituição que os torna bandidos. porque eles são bandidos oficiais. A sociedade é a grande culpada disso tudo porque se fosse um caso isolado é uma coisa. a sociedade não se movimenta. Porque o bandido é assim: ele faz tudo que ele faz de ruim. eu acho que se tivesse. Estão todos juntos. porque os polícia estão agindo da mesma forma. Eu acho muitas vezes que o governo tem muita culpa. “Meu filho não era bandido”. As relações perigosas envolvendo polícia. 2010). porque não são somente os traficantes [os responsáveis pela violência]. “Polícia é igual ou pior que bandido”. exatamente por saberem que policiais pensam desta forma. que tem sua subjetividade marcada pelo crime e pela violência. Eles [os policiais] têm licença para matar sim e a instituição passa a mão pela cabeça.Desse modo. Porque eles estão misturados. infelizmente. mas toda semana é um caso e. Ele faz porque ele é drogado. eu queria saber até onde eles vão assim e até onde a própria sociedade vai permitir entendeu? Porque eles só estão continuando. Entendeu? A gente não tem a menor dúvida sobre isso. Não sabe quem é a policia e quem é o bandido. e o cara dá um tiro na nuca. se nós tivéssemos políticos sérios. Por outro lado. né? Então agente não sabe quem é quem. Porque eles já sobem os morros atirando. hoje eu já questiono se eles entram já com a intenção de cometer todos os atos ilícitos e serem absolvidos. aí você vê auto de resistência com mão na nuca né. Porque antigamente a polícia ajudava agente. eis uma frase comum de acusação aos policiais. É uma coisa assim. “os direitos humanos” dos policiais são questionados pelos familiares. seria uma coisa. O núcleo central da crítica dos familiares é que. Eis alguns relatos de familiares de vítima que demonstram a incorporação do policial na categoria bandido: Para mim. estão agindo juntos. ele faz dominado pela droga. Porque são pessoas. Se na narrativa policial o bandido é um sujeito criminal (Misse. eis uma frase sempre dita pelos familiares e que expressa o tremendo esforço que fazem para limpar a moral e a memória dos filhos. mas a sociedade continua permitindo. crime e violência. este é um dos tópicos que mobiliza as falas dos familiares tanto em relação aos policiais como em relação os filhos. Entendeu? Já chegam atirando. então ele faz aquilo ali. Quantas vezes pessoas inocentes já morreram aí. eles já teriam exterminado a PM ou teriam feito uma reformulação muito grande. uma galera séria no poder sabe? Que se preocupasse realmente com a população. auto de resistência. a polícia é pior do que bandido. hoje em dia eles estão lá em cima do morro. Então a gente não sabe quem é quem. em razão de morarem em territórios 214 . agora toda semana tem policial militar envolvido em morte de inocente. Ele é usuário de droga. um caso. porque os casos acontecem nas comunidades. porque os políticos não vão fazer nada de fato.

a crítica dos familiares de vítima replica o mesmo recurso para provar como policiais também são bandidos na mesma proporção. eu procurando. Eles estavam de carro. andando tudo. Aí eu falei: ”[Fulano]. passeata e pedindo paz e elas são ridicularizadas. pela moralidade do crime. Quebrem aquilo tudo. voltaram para a rua principal. presas fáceis da violência policial. vai para a casa”.. Infelizmente tem essa desigualdade. eu sou totalmente a favor de que a sociedade vá lutar mesmo. Uma mãe de vítima. enquanto agentes da lei que são. vá para frente da Secretaria de Segurança. Essa desigualdade de tratamento e de direitos aparece reconhecida no relato dessa mãe de classe média alta. moradora de favela. infelizmente. Ao invés de orientarem suas condutas pela moralidade pública e pela legalidade. Exijam que todos os policiais envolvidos em crime. para a calçada do posto policial. e isso se manifesta na forma violenta como a polícia age contra este grupo específico. é lamentável esse fato também. sejam expulsos. chega a dizer numa entrevista que “Eu tenho que preservar a minha vida. O relato a seguir é emblemático neste sentido: Um policial prendeu [meu filho] e mais um menor na comunidade. mãe. E ele: “Mãe. eu cheguei perto. não vai mudar. de [os policiais] acharem que eles [os moradores de favelas] não têm direitos. Na fala acima da mãe. ou mais. Eu lamento muito. trabalhava como segurança em uma boate: Infelizmente. Não é violência. O negócio não é por aí: “ah. os policiais se orientariam. Ficou a tarde toda rodando na D20. com os dois dentro. assim. Porque ele sabia que eles queriam dinheiro para soltar os dois. Mais do que apenas ‘não dar segurança’. que. Da mesma forma que a polícia.de pobreza. utiliza sempre como recurso construir uma “carreira criminosa” para comprovar que uma pessoa era bandida. E eles dois dentro da viatura. Não adianta passeata pedindo paz. quando age no regime de desumanização. o que é que 215 . mas eu acho. mas eu acho que você tem que se rebelar de alguma forma. vistos todos como bandidos. moradora do Leblon. pedir paz há quantos anos tem essas mães aí? Há 20 anos estão fazendo caminhada. A desproteção social e civil torna os moradores de favelas expostos ao risco de morrer. eles saíram de onde eles estavam lá escondidos com eles. Entendeu? Que eles não são seres humanos como os outros que moram em Ipanema. gente. não vai mudar. quase bandidos ou coniventes com bandidos. aparece claramente a distância que separa os moradores das favelas do pertencimento a uma humanidade comum aos demais moradores da cidade. Se você está vindo pedir paz há uma vida. pela frestinha e falei: “[Fulano]”. representam ameaça à vida. Querendo o quê? Dinheiro. não adianta.. segundo as críticas. Olha a ousadia deles. no momento do crime. Aí. que teve um filho assassinado por um policial. moradora do Leblon. em autos de resistência. mas isso é partir pra violência”. que era uma mulher envolvida na época com os rapazes lá do Terceiro Comando. Eu acho que tem que ser por aí. Leblon etc. né? Quando uma certa hora eles foram. ao corpo. na medida em que cometem crimes com o pretexto de combatê-los. eles não vão me dar segurança”. cara. Aí. Não adianta. procurando uma tal de [nome da pessoa]. têm seu pertencimento a uma humanidade comum questionado ou negado.

que não reconhece as hierarquias sociais locais e identifica todos como suspeitos potenciais. porque lá todo mundo pensava que eu era irmã dele. como ficaram conhecidas... pude observar alguns impactos que a presença permanente dos policiais provocou e provoca na sociabilidade local. dentro da tua casa a polícia chegar. E ele disse: “Vai chamar [Fulana] que a gente quer conversar”. Nota-se em sua fala a perplexidade diante do fato e a falta de recursos para lidar com a situação. Aí ele “Vai embora. 5. e os rearranjos nas disputas para definir a organização das formas de viver nesses territórios. O próximo relato é de um pai que teve seu domicílio invadido por policiais que procuravam seu filho. Quer dizer. Aí ele: “Vai chamar [Fulana]”. as UPPs. Falaram para mim que se botasse a mão nele que era um abraço. O relato acima denuncia algumas práticas ilícitas de policiais como tentativa de extorsão e detenção policial arbitrária de um menor. mãe. tia”.você está fazendo aqui. para além do uso comedido e legal da força. ele é de menor. E como bandido é visto como algo que deveria ser eliminado. O 9º Batalhão quando eu morava na [nome da rua] com ele. vocês vão pegar o dinheiro e eu vou na delegacia fazer uma queixa de vocês”. amplia-se conforme os relatos de familiares de vítima. porque ainda não foi para a delegacia?”. Não sabia nem que eu era mãe dele. afasta. sujeitos ao poder discricionário do policial. todos os moradores de favela se encontram em risco. Ele disse “Tia. E vocês não vão levar eles na delegacia. né. Falei assim: “Vocês pegaram ele que é de menor e está esse tempo todo dentro da caçapa do camburão. diante da indistinção. Um policial. Aí um careca que eu não lembro o nome veio e disse: “Tia. Aí eu falei: “Vocês querem dinheiro. Foi aí que eles levaram os dois para a DP. E eu disse: “Vou chamar [Fulana] por quê?”. E ele: “Que filho?”. às mudanças que tiveram que efetivar na forma de olhar os moradores a partir desta nova modalidade de policiamento. e mandar. O que eu posso responder para você? As queixas e denúncias dos familiares geralmente têm como fundamento principal a crítica à indistinção dos policiais entre “bandido” e “pessoa do bem”. O argumento 216 . Aí ele: “Vai chamar [Fulana]”. meu filho está aí”. Vai embora”. Aí eu falei: “Afastar porque. afasta”.5. O primeiro deles diz respeito aos policiais. os caras foram lá na minha casa atrás dele. Mas o repertório de denúncias de corrupção policial e práticas violentas. Então. coisa que é errada. Que era essa mulher que. não é?”. Mudanças na figura do bandido e o impacto no trabalho policial nas UPPs Durante a realização de trabalho de campo em duas favelas cariocas. acompanhando as atividades rotineiras do trabalho policial nas Unidades de Polícia Pacificadora.

a expectativa era de que a implementação das UPPs seria o carro chefe de um conjunto de intervenções estatais. que garantissem a passagem de uma situação de violência para uma situação de paz. O tráfico de drogas não teria acabado. é o acirramento dos conflitos. como tem acontecido. isso é reconhecido por todos os policiais. particularmente. principalmente as mães. o poder discricionário do policial. já que houve uma mudança visual e corpórea destes para disfarçar da polícia. aliás. inclusive sobre a vida privada dos moradores. porque este agora se disfarça. Havia uma expectativa de que as equivalências entre os moradores da cidade fossem restabelecidas e todos se reconhecessem numa humanidade comum. teria saído de cena. às vezes. em algumas favelas com UPP. sem a ostensividade e visibilidade das armas. transformou-se este dado da realidade em justificativa para ampliar a área de abrangência do trabalho policial. de que a presença policial significasse de fato um processo de pacificação e uma atuação policial que respeitasse os direitos destes moradores e que as mortes violentas de jovens cessassem. que se imaginava e buscava ser mais controlado. os policiais afirmam que ficou mais difícil identificar o bandido. A paz sonhada pelos moradores pode não acontecer em razão do aumento do poder discricionário dos policiais que passam a ampliar seu escopo de atuação. de um regime de força para um regime de justificação. Os pontos de vista das expectativas dos policiais (combater o crime) e dos moradores (viver com segurança) encontram-se em um dilema. E o dilema que se coloca é o de como combater o crime sem violar a segurança e a vida privada dos moradores. Na medida em que os policiais argumentam que a dificuldade para identificar o bandido aumentou. se camufla e não corresponde mais à figura midiática a que estávamos acostumados. através de políticas públicas em todas as áreas sociais. 217 . A figura midiática do bandido com cabelo pintado. porque alguns fugiram da favela com a ocupação policial. associado ao funk e segurando um fuzil. Neste sentido. como combater o crime agindo dentro da lei.dos policiais de rua é que a presença ostensiva da polícia interferiu na dinâmica local do crime. Esta é a imagem central de bandido presente no imaginário coletivo em geral e. O que pode ocorrer. mas os que ficaram e não tinham passagem pela polícia tiveram que mudar o visual e a hexis corporal para não serem identificados. Neste sentido. corre o risco de não se dar desta forma. mas teria passado a funcionar de outra maneira. dos policiais. O segundo ponto diz respeito às expectativas dos moradores desses territórios. Diante da dificuldade por parte dos policiais de identificar quem são os bandidos.

o corpo incircunscrito não tem barreiras claras de separação ou evitação. é um corpo permeável. justiça e exemplo no Brasil. Ao examinar a reação de não-indignação e aceitação de violações do direito à vida provocadas pelo Estado. A inviolabilidade do corpo. porém nem todos são considerados humanos. aberto à intervenção. mulheres. o que todas as intervenções revelam é uma noção de corpo incircunscrito. torturados. sendo aqueles considerados não-humanos abstraídos da proteção do direito e excluídos moralmente da humanidade. Cardia (1995) argumenta que essa não-indignação pode ser o indicador de um processo coletivo de exclusão moral que tem como consequência a exclusão de certos grupos sociais da comunidade moral e. Todavia. ou nem todos são dignos de serem incorporados acertas humanidades comuns. maltratados. O próprio status de ser humano é colocado à prova. Por outro lado. as relações com esses grupos não mais envolvem princípios de justiça.6. Ao contrário. A noção de direitos do homem. advinda de uma concepção liberal de indivíduo possuidor de direitos naturais. negros.5. portanto. melhorar seu comportamento e produzir submissão. Ele é concebido pela maioria como o lugar apropriado para que a autoridade se afirme através da inflição da dor. assassinados. sem que isso viole as regras consensuais de justiça. por meio da inflição da dor. na verdade. corpos incircunscritos e formas de matar e morrer A violência é uma experiência que afeta os direitos civis. resulta historicamente da sua 218 . Nos corpos dos dominados – crianças. corrigir seu caráter. o corpo incircunscrito é desprotegido por direitos individuais e. pobres ou supostos criminosos – aqueles em posição de autoridade marcam seu poder procurando. estes procedimentos são considerados desejáveis e até mesmo indispensáveis. Eles podem ser humilhados. a proteção da pessoa e a liberdade de ir e vir com segurança constituem as bases do direito civil moderno e da ideia de direitos humanos. Por um lado. purificar as almas de suas vítimas. Este argumento de Cardia pode ser associado e relacionado ao argumento de Caldeira (2000). A humanidade comum não é dada a priori. no qual as manipulações de outros não são consideradas problemáticas. pressupõe consequentemente que direitos são para humanos. 2000: 370) Teresa Caldeira chama a atenção para a naturalidade com que os brasileiros veem na inflição da dor com objetivos corretivos toda legitimidade para intervir e manipular o corpo de outras pessoas ou o próprio corpo em muitas áreas da vida social. Direitos civis. (Caldeira. segundo o qual persiste na sociedade brasileira uma associação da violência com o desrespeito aos direitos civis e a uma concepção de corpo que a autora denomina de corpo incircunscrito: O corpo é concebido como um locus de punição.

Caldeira busca mostrar como a formação da modernidade significou nesse tipo de sociedade a prevalência de novas sensibilidades e valores culturais.). Elias descreve esta passagem nos termos de um “processo civilizador” caracterizado pela formação dos Estados-nações modernos baseados no monopólio legítimo do uso da força e pelas teorias de cidadania e direitos. No Brasil. O indivíduo moderno europeu aprendeu a circunscrever o corpo (Elias. controlar seus fluídos. Concomitante ao contexto de formação dos Estados-nações europeus. Diante do processo de pacificação interna das sociedades nacionais. a pacificação do modo de vida e o maior grau de pacificação interna das sociedades possibilitaram pensar a morte primordialmente como algo não violento. o corpo (e a pessoa) em geral não é protegido por um conjunto de direitos que o circunscreveriam. sobre a passagem.ausência. Também correspondeu ao triunfo de novas relações sociais. na América Latina ocorriam as marcações dos corpos durante os processos de colonização e a criação de uma cultura do terror e de um espaço da morte (Taussig. foi enterrada com a primazia da “era dos direitos”. 2000: 370). conforme a interpretação de Elias. Em terceiro lugar.. que configura o processo civilizador moderno.. inclusive a punição violenta. Em segundo lugar está a representação da morte como fim natural do ciclo da vida. onde o sistema judiciário é publicamente desacreditado. Além disso.. como as de Bakhtin e Elias.) O espaço da morte é importante na criação do significado e da consciência. em que a violência generalizada. sobretudo em sociedades onde a tortura endêmica e onde a cultura do terror floresce.. no sentido de estabelecer barreiras e limites à interferência ou abusos de outros.. 1993) 55 55 “A inefabilidade é o traço mais marcante deste espaço da morte. como uma morte pacífica.. Embasando-se em algumas interpretações clássicas. branda. 2001). A primeira diz respeito ao prolongamento da vida e da esperança de vida. nas sociedades europeias. (. De vez em quando uma pessoa a ultrapassa e volta até nós para dar seu depoimento. o processo civilizador descrito por Elias aponta para o autocontrole das pulsões e do corpo. 1994 apud Caldeira. em um leito de hospital (Elias. bem como a extinção. Podemos pensar no espaço da morte como uma soleira que permite a iluminação. construído por meio do progresso da ciência médica e das práticas de higiene. controle e sujeição. também houve mudanças em relação à representação da morte e das formas de morrer na vida moderna. consequência da velhice ou do adoecimento. de modo que a pessoa civilizada aprendeu a encerrar seu corpo. 2000: 372). da predominância de “imagens grotescas do corpo” para “imagens de um corpo civilizado”. (. o que faria com que as pessoas afastassem de si por um tempo da vida o pensamento da própria morte. No entanto este espaço da morte é proeminentemente um espaço de transformação: através de uma experiência de 219 . (Caldeira. evitar a mistura e controlar a agressividade.

andei tudo sozinha. podem ser encontradas nos relatos dos familiares de vítima: Degolado: uma cabeça em decomposição Eles sumiram com o corpo dele. Aí eles falaram: “Vai no IML de Magé que de repente está lá”. Então. Eu estava indo no IML quase todos os dias. tem uma cabeça. E eu falei assim para ela: “Foi encontrado no dia dezenove. Nem existe IML em Magé. e conforme o espeto do churrasco ia esquentando. Eu fui lá em Magé. choravam no telefone. a gente tá assando a carne dos filhos de vocês. um belo dia a menina que sempre me atendia. Estes três personagens aparecem sempre nos relatos. acusados pela responsabilidade das mortes de filhos e parentes. prezando a segurança da pessoa. eu não queria chamar ninguém para ir comigo. (Taussig. Eu falei: “Foi no dia quinze de julho”. mas não estaria assim”. eu vim a achar a cabeça no IML. em lugares perto”. eles furavam os meninos.. No IML da Mém de Sá eu fui para perder as contas. Policiais. grandes segmentos da população convivem rotineiramente com a morte violenta em seus espaços de moradia. que eles iam usar aqueles meninos quando eles aproximação da morte poderá muito bem surgir um sentimento mais vívido da vida. porque eu tive uma discussão com eles e eles me juraram de morte. a [Fulana]. Apesar da dissimulação cotidiana da morte. amarrados e nus. Aí ela me explicou. Isso tudo sozinha. porque fica na água. começou-se a falar da atuação de milícias no Rio de Janeiro e sua região metropolitana. 220 . tem umas partes que foram encontradas entre dois e oito dias depois da morte do seu filho. não é? Então. e eles ficavam furando os meninos e fazendo aquelas torturas. Rechaçada como tabu na vida cotidiana.que perduram e se reatualizam com o tempo e conforme os novos contextos políticos. Ele foi degolado. através do medo poderá acontecer não apenas um crescimento de autoconsciência. Picados e jogados para os porcos No decorrer do tempo fui recebendo bastante informação. Aí. falou: “Quando foi mesmo o desaparecimento?”.1993: 25-26-28-29). traficantes e milicianos são atores com marcante presença nos relatos dos familiares que entrevistei e com quem tive contato. resultante de conflitos armados envolvendo disputas entre facções do tráfico. Dois meses depois. Aí ela me mostrou a cabeça que já estava em estado de decomposição. E aí os meninos gritavam. oh!”. E ela falou assim: “Olha só. mas igualmente a fragmentação e então a perda de autoconformismo perante a autoridade. Eu fui no IML de Niterói. entre estas e a polícia e. Expressões dessa cultura do terror e da constituição de um espaço da morte. colocavam eles no telefone para os traficantes de Samambaia ouvirem e falavam: “Oh. Torturado com um espeto de churrasco A informação que chegou em Samambaia era que os meninos estavam todos sentados. descritas no contexto do processo de colonização da Colômbia. Aqui. Ela explicou. mais recentemente. ainda assim a morte insiste em se fazer presente entre os vivos.”. que eles iam trocar aqueles meninos de lugares. que já estava lá há um certo tempo..

A morte põe à prova a manutenção ou a destruição do vínculo social. estas mortes provocam mudanças radicais na vida dos familiares das vítimas e das pessoas mais próximas. nos manicômios eu entrei em todos os manicômios do Rio de Janeiro. que ouviu dizer. não teria como em dois dias aqueles porcos comerem oito pessoas. porque se está dentro do carro tinha que aparecer o carro velho não é. Porque meu filho tinha o nariz fino. Os meninos iam mostrar a cara dos traficantes. quebra o curso normal da vida e questiona as bases morais da sociedade. Corpo queimado Aí minha prima foi ligou para lá. Aí diz que ele ainda olhou para o meu filho e falou pro meu filho: “Nunca vi negro de nariz fino!”. Lutar contra a morte é lutar pela preservação do grupo. tirou um cortador de unha. de lá. e cortou um pedaço do nariz do garoto. Diz que pegou o cortador do bolso. em outros. a morte põe em risco a vida social. Em alguns casos. porque aqui não registrava queixa. que tinham trazido ele vivo. ameaçando a coesão e a solidariedade do grupo ferido em sua integridade e dignidade. e muitos passam a ver em estado de “perturbação”. porque aqui não fazia parte para lá. 1975). porque foram treze sequestrados. que ela foi na Décima Quarta. quando 221 . o menino virou pra um dos traficantes que estava dentro do caveirão e falou assim: “ Esse é da favela. mas fininho.. diz que um dos chefes do tráfico falou o seguinte: “Ganhei na loteria. “Nunca vi negro de nariz fino!”. eu não vi corpo. aí uma hora eles diziam que tinham mandado o corpo. já seria numa segunda-feira nós saímos.invadissem. Pedaço de nariz Maria. falaram que estava no valão eu fui. aí a moça disse que a gente teria que ir em Caxias na delegacia mais próxima. “Deparei com uma ossada espalhada no meu portão” E eu continuei a procurar nas lixeiras. fizeram análise e não tinha vestígio de carne humana. Aí pararam o caveirão e colocaram ele”. falaram que viram o corpo vagando no Guandu. Rodrigues. Cortou um pedaço do nariz do meu filho. E nós ficamos procurando e não ficamos sabendo de nada. nos lugares de desova. A família que falou por telefone. filho de um dos donos da favela. E aí houve o comentário que eles tinham sido mortos e picados e jogados para os porcos e os policiais mataram os porcos. eu fui atrás No Guandú não era meu filho e foi passando o tempo. É um evento de enormes proporções para os parentes. eu soube que quando o X9 viu ele saindo de dentro comunidade. eu não sei. Aí quando foi no dia vinte e quatro. e eles tinham falado que ouviram dizer que tinham tacado fogo nele. para eles. quando o caveirão passou. um dos meninos que foi liberado. porque a morte mutila. Mas nós não vimos. eu não vi onde está. Quando pegaram meu filho. eu fui pras colônias procurar meu filho. 1981.. a morte de familiares de maneira violenta como as descritas aqui pode ser vivida de maneira indiferente. os caras disseram que tinha trazido ele vivo para o morro. produz um estado afetivo marcado pela cobrança dos sentimentos que devem ser expressos através de determinados códigos da emoção (Mauss. pequei o filho do cara”. com as ossadas dentro e nós ficamos rodando. Quem conta essa história é um dos sobreviventes.

por exemplo. nos casos de desaparecimento. Mas como eu sou meio assim. Você enterra o seu morto. quando eu corri. que foi que eu consegui depois. eu gosto. quando eu fui ao IML. eu abri o portão e levei um susto. aquilo já esta na sua mente. levei aquele susto. Nos relatos dos familiares nota-se. é da sua família. Meu pai enterrou normal que nem todo ser humano. Mas no caso do meu esposo e do sobrinho dele como é que pode? Como é que vai provar? Na justiça que tinha alguém da sua vida.” Quando eu cheguei ao IML no dia para enterrar. Acho que foi dezoito ou dezessete. nisso meus filhos. Você enterrou. Até para você falar com as pessoas que fulano morreu é uma coisa engraçada. pensei até que alguém tava querendo ajuda de alguma coisa. Aí. Isso acontece.” [A funcionária do IML falou]: “Então a gente vai fazer um exame. Mas no que eu ia me conformar: que eu enterrei. Sou pastora. um negócio assim. ele estava lá. como eu falei... né? Estava em estado de decomposição. dá nove dias. “A pessoa não tem como enterrar” Veio o comentário que mataram ele e sumiram. expressivamente. então eu levei o susto e corri. E de repente aquela pessoa desapareceu. mas você sabe que seus vizinhos vão lá em condolência aquela pessoa. Porque a moça falou que eu não podia enterrar ele com o nome dele porque estava muito em estado de decomposição. eu vou morrer. não tem isso. eu assim eu vou logo para resolver as coisas que eu abri o portão e dei de cara com aquela ossada eu dei um grito e bati de novo o portão porque eu fiquei assustada com aquilo ali então eu fiquei dentro de casa aqui e eu não sabia o que fazer. até nos meus últimos momentos em que eu respirar de vida. Apagar a morte e o outro. aquilo ali vai ficar na minha mente: “Puxa. Eu só consegui lá para o dia dezoito. morreram como pessoas direitinhas dentro dos padrões normais. minha mãe também. meu marido. Agora.. “Meu filho não tinha cabeça” Acharam ele dentro d’água. Não é complicado? Outra coisa é você ver aquela pessoa sair. sempre os direitos da gente. E aquilo ali vai ficar assim. o susto e o choque que desamparam e o desenraizamento que o sofrimento decorrente da morte associada à violência produz.” Eu falei: “Eu aceito fazer. porque eu estava resolvendo os negócios. E você fica pensando assim: “Caramba.. em alguns casos. mas eu digo que é assim: eles não deixam direito nenhum da família enterrar. mais do que matar a pessoa. antes de morrer. se aproximar para ver o que estava acontecendo aqui fora que eu não sabia o que estava acontecendo. ao que parece. porque do dia cinco até o dia treze. como é que pode?”. da sua família que viveu e daqui a pouco aquela pessoa sumiu da face da terra. 3 horas da manhã deram um soco no meu portão e eu peguei. não tem. meu filho não tinha cabeça. Então que nem você me perguntou se o processo ia ser o mesmo da dor? Ia. Ai eu comecei a ligar pros vizinhos que moram aqui perto que se eles podiam olhar das janelas. matar a morte. Então eu falei: “Então tá. eu deparei com uma ossada espalhada no meu portão. aqui fora não tem ninguém.. não realmente aqui tem uma ossada aqui no seu portão. porque eu sei que é ele. porque as vezes as pessoas me procuram muito entendeu pra pedir oração.. busca-se. E a pessoa não tem como enterrar.. em que os 222 . A forma e o simbolismo das mortes ferem a dignidade da vítima e da família e... vou ser enterrada e aquela pessoa não. quando eu deparei com essa ossada. todo mundo acordou.. Ele ficou nove dias. Eles arrancam. que eu consegui fazer o enterro no [Cemitério do] Caju. né? É uma coisa dolorosa.tinha 4 meses de desaparecido eu tava dormindo uma volta 2 e meia.. porque você querendo ou não aquele morto ali é seu.. Não teve direito”. Aí os vizinhos começaram a olhar. teve óbito. Mas ali não. depois no dia que era para fazer o enterro. você vai para casa. e ela estava bem. Entendeu? Porque a primeira coisa que vem na sua cabeça: eu perdi meu pai e minha mãe.

claramente física. A morte ocorre de tal forma que não se encerra em si mesma. Uma pessoa sem cabeça é o sinal mais evidente do rompimento com a humanidade comum. em novas pesquisas. ou quando os corpos são mutilados e esquartejados. 2004) tão somente formas de se precaver contra eventuais ações penais. aterroriza. a segunda. Apagar todos os vestígios passíveis de comprovar a existência de uma pessoa. Na “cultura do terror e no espaço da morte”. ao se debruçar sobre os apavorantes relatos de torturas e massacres a que eram submetidos. a morte violenta se executa e se representa em quatro atos: a execução. A morte prolonga-se no terror que se inscreve nos corpos das vítimas. mesmo correndo o risco de perder parte da mão-de-bra indígena morta diante dos excessos de castigos. onde se apresentam os símbolos que são capazes de reconstruir as significações do ato. servir os corpos das vítimas a animais como jacarés. torturas e todas as formas de violência física às quais eram submetidos. Pode até ser que “matar a morte”. “fazer desaparecer” sejam para os protagonistas da sociabilidade violenta (Machado. seu impacto extrapola e multiplica-se sob a forma de narrativas sobre o terror e de sofrimento que se reproduzem ad infinitum. escreve Taussig (2003). Para os familiares. mas foi possível identificar pontos de interesse comuns que futuramente serão explorados. pelo menos em uma parte das mortes violentas. e possui duas dimensões. na Colômbia. É uma forma extrema de matar e inscrever a dor. marcadas pelo excesso. seja mais do que isso. 56 57 56 223 . A linguagem do terror é uma Quando me encontrava em fase de conclusão da tese. Taussig chama atenção para o fato de que um dos traços característicos da “cultura do terror e do espaço da morte” é o excesso da violência física – a tortura principalmente – no processo de dominação . reduzir a nada. tomei conhecimento do trabalho da antropóloga colombiana Elsa Blair Trujillo (Blair Trujillo. Mutilar. a fim de facilitar a “desova” de um cadáver. porcos e leões. simbólica. destruir ou apagar qualquer resquício de humanidade . observável pelas estatísticas. picotar um corpo produz medo. a interpretação. intitulado Muertes violentas: la teatralización del exceso. 2005). Segundo o argumento da antropóloga. numa espécie de teatro do absurdo. muitos exploradores de borracha optaram por efetivar a “conquista” através da força e do terror. 57 Tausssig (1993). Ele observou que. por volta de 1910. destroçar. A violência desproporcional que desfigura os corpos tem o objetivo de fazer ecoar o medo através do terror. “sumir com o outro”. além de uma mera questão de logística. a política operante é o medo através da tortura. Terror que se expressa na exacerbação dos suplícios e nas formas de mortes violentas. Não me foi possível fazer uso da obra no âmbito desta tese. de controle social através de uma política do medo. Insultar e ofender através de uma linguagem do terror. Mas é possível que. pelos integrantes das companhias exploradoras de borracha. a divulgação e a ritualização. notou o excesso de violência física. buscando-se diminuir. O argumento geral da obra é que a morte é a expressão máxima da violência na Colômbia.familiares não têm sequer o direito de enterrar os corpos. os índios da região do rio Putumayo. Um dos traços característicos do processo de desumanização no contexto da “violência urbana” na Região Metropolitana do Rio de Janeiro expressa-se no simbolismo das mortes violentas. a primeira.

Todos estes atores recorrem à linguagem do terror. a forma de matar.6. caracterizando-o. de modo a evidenciar cadeias causais que criassem um elo entre a ação dos leitores e o sofrimento dos sujeitos. detalhes e a narrativa humanitária. quando um policial vira e pergunta à sua vítima como prefere morrer. Quando um “traficante” mata uma pessoa no “micro-ondas”. Os corpos sofredores e a capacidade de suscitar compaixão Se. por outro. o qual analisa a partir de diversas formas. ou quando milicianos esquartejam e espalham pela favela partes dos cadáveres. no começo do século XIII.1. Outras vezes não fica tão claro. Algumas vezes o simbolismo da morte permite reconhecer a autoria. segundo. O autor toma o empreendimento estético. e de que modo esta compaixão passa a ser entendida como um imperativo de ações mitigatórias” (Laqueur. mas o importante é que tanto traficantes. O ensaio trata das origens do humanitarismo do século XVIII e primórdios do XIX. o de destituir a humanidade daquele que morre (a vítima). lança uma pergunta e uma reflexão muito pertinentes para se analisar os relatos dos familiares de vítima sobre as formas violentas das mortes dos filhos e a inscrição da dor e do sofrimento em seus corpos. os sofrimentos e as mortes das pessoas comuns. O autor se coloca a questão sobre “como os detalhes sobre os corpos sofredores dos outros suscitam a compaixão. em seu ensaio intitulado Corpos. como milicianos e policiais. sob a rubrica de “narrativa humanitária”. Thomas Laqueur. Nele Laqueur argumenta que. para que ela desapareça do social.linguagem do excesso: excesso de significado. as formas de matar que infligem sofrimento extremo sobre os corpos das vítimas têm a intenção de destruir os corpos e a linguagem das vítimas. acionam um modus operandi baseado na violação e destruição extrema dos corpos. O que está em jogo nessas formas de matar são as disputas entre estes atores para ver quem ditará as regras do jogo. os detalhes sobre os corpos sofredores também têm a capacidade de suscitar a compaixão. por um lado. em primeiro 224 . 1992: 240). O simbolismo dessas mortes violentas tem pelo menos dois significados importantes: primeiro. de forma extraordinariamente minuciosa. se como um cachorro ou um porco. o de colocar-se no lugar de juiz. um novo corpo de narrativas passou a abordar. As formas de matar são usadas como provas de força. abusam do excesso da violência e de seus significados. Destruir os corpos e a linguagem das vítimas. no lugar daquele que define e julga a humanidade de cada um e o merecimento ou não de viver ou morrer. 5.

o cadáver. não apenas como o locus da dor . e com o objeto do discurso científico através do qual se estabelecem as ligações causais entre um infortúnio. Laqueur também apresenta como a dimensão mais importante da política humanitária o fato de a ação mitigatória “ser representada como possível. O corpo sofredor. mas é. o sofrimento dos familiares poderia ter sido evitado. os relatos dos familiares representam formas e possibilidades de produzir sentimentos de solidariedade a partir da dor e do sofrimento. 1992: 241). No caso dos familiares. através de um trabalho de generalização. muito útil para analisar o relato dos familiares de vítima. uma vítima e um benfeitor”. 225 .lugar. que levaram muitos a aderir à causa abolicionista. Embora o trabalho político de denúncia consista em transformar o particular em geral. o sofrimento é relatado em detalhes ao serem narradas as formas violentas das mortes. moralmente imperativa”. vivo ou morto. sobretudo. O corpo de Cristo serve como elo entre o sofredor e aquele que pratica o ato de misericórdia. marcadas pela exacerbação dos suplícios. são os detalhes específicos dos casos particulares que possuem a capacidade de suscitar a compaixão. ao analisar a piedade ou a compaixão que o sofrimento pode inspirar. ao oferecer um modelo de ação social. Foram os sofrimentos de um homem e não os crimes abstratos da escravidão. (Laqueur. na narrativa humanitária do século XVIII e XIX. portanto. 1992: 240). que “permitiu que a imaginação penetrasse a vida de um outro” (Laqueur. Segundo o argumento de Laqueur. os atos de vestir. Além de objeto do discurso científico o corpo é também objeto da misericórdia cristã. Em segundo lugar. Assim como Boltanski. eficaz e. A narrativa humanitária oferece um modelo de ação social e. mas também como o elo comum entre os que sofrem e os que ajudariam. “ainda mais que a carne vivificada”. afirma Laqueur. Mas. alimentar e abrigar os necessitados são interpretados no sentido de fazer o mesmo ao seu corpo. “por sua confiança no detalhe enquanto signo de verdade”. na exortação de Cristo. teve um papel fundamental na exposição do mal e na criação de uma sensibilidade humanitária. adquiriu um poder próprio. Ao contrário de uma tragédia ou fatalidade. portanto. E é o sofrimento específico que tem o poder de mobilizar e não a generalidade. significa que a morte e o sofrimento poderiam ser evitados. a narrativa humanitária “fundamenta-se no corpo pessoal. o corpo individual. Neste contexto da ação humanitária.

Formas de morte que desumanizam As formas e estilos de matar também dizem muito sobre as formas de vida. criticando o sentido convencional da ideia de forma de vida que enfatiza a forma. 2008: 312). como el matrimonio y la propiedad. O argumento de Das é que. Manjit. o tomarla con las garras o picotearla. Em um fecundo diálogo da antropóloga Veena Das (Das. a qual foi submetido o esposo de Manjit. para él.6. Veena Das. 2008) com a filosofia de Wittgenstein. Para pensar a ideia de forma de vida. quizá con un tenedor. Manjit foi raptada e violada durante a Partição da Índia e logo foi desposada por um parente. Das se questiona sobre como ideias semelhantes a esta podem ressoar na imaginação antropológica. Veena Das retoma uma questão levantada por Stanley Cavell. ao longo de seu trabalho. Entre as formas de morte e as formas de vida. Cavell deseja chamar atenção para a absorção mútua.5. por ejemplo. El sentido biológico se refiere a las distinciones implicadas em el lenguaje entre “las formas de vida llamadas 'inferiores' o 'superiores'. marca el límite de lo que se considera humano en una sociedad. entre o natural e o social. el criterio del dolor. mas não a vida. varían de una sociedad a otra. y suministra las condiciones para el uso de criterios como se aplican a los demás. A antropóloga indiana escreve que Wittgenstein considera a linguagem como a marca da socialidade humana.2. puyar la comida. na ideia de forma de vida. Es el sentido vertical de forma de vida el que. Das apresenta a história de uma mulher. tem empenhado-se em compreender a relação entre a violência nos contextos domésticos (em especial a violência sexual) e a violência no contexto extraordinário dos distúrbios ocorridos com motivos políticos. a autora argumenta que a pertinência do pensamento de Wittgenstein para a sociologia e a antropologia reside na ideia de formas de vida. y su sentido vertical o “biológico”. por ejemplo. Consideremos a argumentação de Das a respeito deste assunto: Cavell sugiere una distinción entre lo que llama el sentido etnológico u horizontal de forma de vida. “daí que as formas de vida se definam pelo fato de que são formas criadas por quem possui a linguagem e para quem possui a linguagem”. Así. quando este analisa a obra de Wittgenstein. entre. El sentido etnológico implica la idea de la diversidad humana. como a Partição da Índia e a violência contra os sijs depois do assassinato da primeira Ministra Indira Gandhi . o que se tem é a interrogação sobre os limites daquilo que pode ser representável como humano. el hecho de que las instituciones sociales. que sempre aparece em seus textos. enquanto a violência súbita e traumática que fez parte da Partição. A questão de interesse para Veena Das é “o que é que as sociedades humanas podem representar como o limite?”. no se aplica a lo que no exhibe signos de ser una forma de vida – no preguntamos si una grabadora que puede reproducir alaridos está sintiendo el dolor (Das. parece ter a 226 .

hubiera sido quemado o anestesiado. Comparemos esto con la violencia temible em la cual las mujeres fueran desnudadas y se las hizo marchar desnudas por las calles. todo el relato de Manjit muestra que se la resiente profundamente –). o la fantasía de escribir lemas políticos em las partes privadas de las mujeres. como tampoco el alcance preciso del significado de una palabra. en su sentido vertical de probar los criterios de qué significa ser humano. Si ahora aparecen palabras. ainda tratando do caso de Manjit. puede mover-se a través de la inimaginable violencia de la Partición (ejemplos similares pueden hallarse em muchas de las contemporáneas etnografías de la violencia) hacia formas de vida que no se consideran como pertenecientes a la vida en sentido propio. Pero la intuición de que algunas violaciones no pueden verbalizarse em la vida cotidiana equivale a reconocer que no se puede trabajar en ellas dentro de una cotidianidad quemada y anestesiada. pero era como si el roce con estas palabras y. por ejemplo. fue tal que los reclamos sobre la cultura a través de la disputa se hicieran imposibles. através de suas próprias palavras. pues estas son vistas como violaciones contra la naturaleza. cometen agresiones sexuales. Tales palabras fueron ciertamente pronunciadas y han sido grabadas por otros investigadores. como algo que define los límites de la vida misma. um do qual se fala e outro do qual não se fala: Es esta idea de forma de vida. Creo que los límites de las formas de vida – los límites el los cuales las diferencias dejan de ser diferencias de criterio – se encuentran em el contexto de la vida como se vive y no solo em la reflexión del 227 . ¿Fue un hombre o una máquina el que clavó un cuchillo en las partes pudendas de una mujer después de violarla? ¿Eran hombres o animales quienes se dedicaran a matar y a coleccionar penes como signos de sus proezas? Hay una profunda energía moral em la negativa a representar algunas violaciones del cuerpo humano. como se esta tivesse o sentido de um passado contínuo. con la vida misma. a través de una etnografía. por tanto. que se vio que destrozaba el tejido de la vida. la que creo que está implicada em la comprensión de la relación de Manjit con la no-narrativa de sua experiencia de abdución y violación. porque correspondem a “formas de vida que não são consideradas como pertencentes à vida”.. sin embargo. son “decibles” en la vida punjabí a través de diversos tipos de gestos performativos y a través de relatos (no quiero decir con esto que se la acepte em forma pasiva – por el contrario. Das considera que os limites horizontais e verticais são de particular importância para a formulação desta diferença entre um tipo de violência e outro. las avergüenzan dentro de sus propias creaciones de masculinidad. Esta producción de cuerpos a través de la violencia. Llegamos a través de una ruta diferente a la pregunta acerca de qué significa tener un futuro en el lenguaje. o las magnitudes implicadas. indizível. O que Das está a dizer é que há certos tipos de violência que encontram resistência em serem incorporados ao cotidiano. He tomado este ejemplo en algún detalle porque sugiere.. algo diferente ocorre com a violência que passa pelo tecido da vida vivida no universo do parentesco. 1996: 23 apud Das. se define y se extiende em las disputas características de la vida cotidiana. do qual é possível falar. tales agresiones. 2008: 313). Los hombres golpean a sus esposas. que aun cuando el rango y la escala de lo humano se prueba. El alcance y la escala precisos de la forma de vida humana no se conocen de antemano. son como sombras rotas del movimiento de las palabras cotidianas.qualidade de um tempo congelado. La hipérbole en la narración que hace Manjit de la Partición recuerda la idea de Wittgenstein de la conjunción de lo hiperbólico con lo carente de fundamento (Das. Acompanhemos um pouco mais do raciocínio de Veena Das.

2008: 314) Vários trabalhos etnográficos em contextos de violência permitem colocar em uma perspectiva comparada as formas de violações do corpo humano que. a autora busca explicar alguns procedimentos mediante os quais aqueles que têm sido violentados e marginalizados pela ação da guerra e do conflito armado na Colômbia se valem de recursos materiais e simbólicos com o fim de lidar com a violência que tem dilacerado suas vidas. Enquanto. como assinala Veena Das. Gestos de humanización em medio de la inhumanidade que circunda a Colombia. e que interessam diretamente para as questões que me mobilizam nesta tese. os membros do grupo Janata Vimukti Peramuna. (Das. está o papel que tem desempenhado o terror “como elemento pedagógico e dissuasivo em ambos contextos” (Uribe. 2008: 175). Dentre os vários traços de semelhança entre os dois países. no qual ela se dedica a sistematizar e analisar os processos de construção e formalização das memórias acerca do conflito armado e suas modalidades gestadas na sociedade colombiana. para não fugir demais da discussão que me interessa aqui. Mata. como cabeças decapitadas colocadas ao lado de um reservatório de água e em proximidade a um templo religioso. para. ambos em contextos de violência política. a dimensão da desumanização presente nas formas de violências e. No caso do Sri Lanka. um partido singalês de extrema esquerda. o trabalho de humanização que as pessoas imersas na violência levam adiante para reconstruir os mortos como pessoas. são vistas como “violações contra a natureza. Apenas gostaria de destacar. que Dios perdona. os bandoleros utilizaram a mesma intenção 228 . por outro lado. Estos son los momentos em que podemos estar tan envueltos por la duda sobre la humanidad del otro que el mundo parece perdido. presentes nos contextos nacionais da Colômbia e do Sri Lanka. em seguida. se dedicar sobre as “táticas de resistência que buscam a humanizar seres humanos que foram assassinados no curso do conflito e condenados ao esquecimento” (Uribe. como algo que define os limites mesmos da vida”. 2008). sobre os quais Uribe centra suas análises.filósofo sobre ella. Em um texto já sugestivo pelo título. Um desses interessantes trabalhos é o de María Victoria Uribe. A autora parte inicialmente de uma comparação entre o que ela denomina as “tecnologias do terror”. 2008: 172). com dimensões macabras e com o objetivo de causar espanto e desordem. para fins comparativos com meu material empírico e minhas questões de pesquisa. Não me deterei aqui em apresentar uma contextualização histórica dos conflitos internos nos dois países. na Colômbia. sobre a situação da Colômbia (Uribe. O terror tem sido usado nos dois países por diversos atores envolvidos nos conflitos armados. construíram cenas surrealistas associando elementos dificilmente associáveis para os budistas.

desde a década de 1960. as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) instalaram uma de suas 229 . Extraíam as vísceras e as instalavam para fora do corpo. que indica que aqueles são seres anônimos. “O rio Magdalena é o maior cemitério que existe na Colômbia”. por exemplo. vários jornais publicaram reportagens que corroboravam o argumento dessa mãe.000. porque se tratava de gente humilde que vivia nas zonas rurais.desordenadora durante um período de conflitos que ficou conhecido como La Violencia. sete corpos foram encontrados. Uribe apresenta dois casos deste tipo de morte diante do qual é impossível encontrar palavras que lhe deem sentido. Algumas pessoas desaparecidas figuram nas listas oficiais. mas há milhares que figuram apenas na memória de seus familiares. a história de uma mãe de doze filhos. Em novembro de 2009. a partir de la década de 1980”. outros em 20. cuja identidade se desconhece. “La trágica figura del NN em Colombia es el prototipo de essa muerte que no encuentra palabras que le den un sentido” (idem. A prática de desaparecer com corpos atirando-os em rios não é nova na Colômbia. Localizado na província de Huila. Relato semelhante me foi feito por uma mãe que me disse que se realmente houvesse interesse em investigar os casos de desaparecimento de pessoas no Rio de Janeiro. que ficou viúva desde que grupos paramilitares levaram seu esposo. o terror também deixou várias fossas comuns. os cemitérios de alguns povoados têm uma grande quantidade de tumbas marcadas com a sigla NN. A antropóloga colombiana relata. O primeiro caso é a existência de um cemitério onde se observa uma geografia política das tumbas. Segundo o depoimento dessa mãe à antropóloga Maria Victoria Uribe. não há dados confiáveis sobre o número de desaparecidos nos conflitos armados na Colômbia. depósitos de ossos em abismos e aterros e numerosas tumbas na parte traseira dos cemitérios. argumenta Uribe (2008: 177). Em meu trabalho de campo ouvi relatos similares aos registrados por Uribe na Colômbia.000. com a intenção de aterrorizar a partir da introdução de uma desordem absoluta no sistema de classificação corporal (ibidem. ibidem: 178). Além de jogar corpos em rios. 2008: 176). e mostra como as pessoas buscam incorporar estes eventos críticos ao cotidiano. seria preciso começar por fazer a drenagem de rios e córregos próximos às favelas da cidade. Desmembravam os corpos colocando a cabeça decapitada sobre a região do púbis e o pé na boca. o assassinaram e jogaram seu corpo em um rio. Segundo Uribe. entretanto. Durante os trabalhos de dragagem para a despoluição de um canal na Baía da Guanabora. região onde. “es una práctica deshumanizante que se intensificó com el crecimiento de los grupos paramilitares. Devido ao grande número de desaparecidos. há quem fale em 10.

Segundo ela. ouviu de uma mulher que ali estava enterrado um guerrilheiro. os rebeldes e os marginais. que remonta aos princípios do século XX. a menina também era milagrosa. Uribe escreve em seu texto que. de pele escura e feições indígenas. Ao perguntar porque essas duas tumbas estavam ali e não do outro lado. ao percorrer esta parte do cemitério. desfigurado. o homem que havia sido enterrado. Na outra tumba. nessa parte do cemitério haviam sido enterrados os excluídos.”. e aos poucos começou a fazer milagres. (Uribe. que não faziam parte do pacto social. Após ouvir a história dos dois casos. foi se transformando no imaginário popular em um homem alto. o cemitério é dividido em dois setores claramente diferenciados. em princípio.000 habitantes e que tem sido flagelado pelo conflito social e político. 2008: 179). Rompendo a lógica binária do cemitério. Seres anônimos transformam-se em santos e passam a ser devotados por pessoas dos setores populares em razão do sofrimento e da dor oriundos da morte violenta. as relações entre a violência e o sagrado apontam para operações simbólicas de santificação das vítimas de morte violenta. sobre as quais havia letreiros rudimentares que diziam: “N. No lado direito encontram-se várias tumbas com mausoléu e lápide de pedra que conformam um tipo de grupo. estão enterrados os mortos anônimos. A resposta que obteve foi: “Porque morreram de morte violenta”. a antropóloga descobriu em meio às tumbas correspondentes aos NN duas que tinham lápide de pedra e sobre as quais haviam sido depositadas algumas flores. destroem todo sentido e toda linguagem. O que gostaria de destacar na história contada por Uribe é a forma como as pessoas lidam com a violência. Alguns civis pegaram o corpo. Igual ao guerrilheiro. jaziam os restos mortais de uma menina de treze anos que havia sido esquartejada pela madrasta em um ataque de ciúmes. havia sido arrastado por um mula até as ruas do povoado. de olhos claros e cabelos longos. que se ocupam de fazer a manutenção das tumbas e levar flores aos mortos. costuraram as feridas e o sepultaram. Uribe 230 . No lado esquerdo.bases. Este setor é frequentado por habitantes do povo. foi descobrindo por entre o matagal várias tumbas marcadas com cruzes de madeira. que era baixo. Em razão dos constantes massacres que assombram a vida cotidiana.N. uma clara alusão a figura de Cristo. Com o passar do tempo. com cerca de 40. Nesses dois casos. que morreu durante os combates do Exército na parte alta das montanhas e cujo corpo. O outro caso narrado por Uribe se passa na província de Antioquia. Segundo Uribe. incorporando-a ao cotidiano e atribuindo um sentido para situações que. ELN e FARC. a pergunta que Uribe fez foi: “Por que faziam milagres?”. coberto pelo mato que cresce descontroladamente. em um povoado chamado Puerto Berrío. Os soldados que o levaram atiraram o corpo na entrada do cemitério e disseram aos poucos paroquianos presentes que enterrassem o corpo.

Sus tumbas son rudimentarias e individuales y están ubicadas una al lado de la outra formando un grand muro en el cual se materializa una serie de operaciones de grand contenido simbolico y en las cuales están implicados los habitantes pobres del pueblo. lo vuelve parte de sua familia. para destacar um aspecto que Barman considera mais cruel da crueldade: desumanizar as vítimas antes de destruí-las (Uribe. Uribe remete-se ao livro de Janina Barman. São mortos que foram enterrados sem identificação e. com o fim de pedir favores ao morto. os retiram do anonimato e do esquecimento. Os habitantes de Puerto Berrío. 231 . em la ofrenda permanente de flores y en la colocación de placas conmemorativas que recuerdan los favores recibidos. Em relação às formas das mortes. 2008: 183). al terror y al olvido que compromete a quienes están empeñados en construir un nuevo tejido de significaciones sociales profundamente humanizantes Los habitantes pobres de Puerto Berrío adoptan a los NN a partir de marcar su tumba con la palabra “escogido” y desde ese momento el NN tiene dueño. ao incorporarem os mortos anônimos em suas vidas. Outra parte recebe os corpos de pessoas mortas em combates entre o Exército. Um dos entrevistados contou que havia marcado uma tumba com um X. Winter in the Morning. El muro deja ver la existencia de una serie de prácticas de resistencia a la violencia. Cuando el ánima le hace favores al rogante. 2008: 181). Los adoptantes establecen con los NN un trato de reciprocidad que implica un intercambio: al NN se le pide que cumpla con los deseos de su adoptante a cambio de sus cuidados. Estos se traducen en el arreglo y pintura de la tumba. aos quais havia dado um nome. Outro entrevistado de Uribe tinha escolhido vários NN. María Victoria Uribe realizou várias entrevistas com pessoas que se encontravam no cemitério. El pacto entre el NN y su adoptante está sustentado em la creencia popular que obliga a los creyentes a darle descanso a las ánimas mediante rezos que buscan aliviar su sufrimiento.define os moradores de Puerto Berrío como um povo de “testemunhas e sobreviventes do horror”. a guerrilha e os grupos paramilitares. Produto da violência histórica e da presença de cadáveres que descem pelo rio e concentram-se em um redemoinho em frente ao povoado. El osario y el nombre convierten al NN nuevamente en persona. o cemitério da cidade também está repleto de uma grande quantidade de tumbas anônimas marcadas com a sigla NN. Decorridos seis meses. dando-lhes um lugar social. escolheu esse mesmo NN e obteve resposta aos seus desejos. (Uribe. Durante meses esteve pedindo. sem obter resultados. não têm familiares. este le promete osario y le da su apellido. La adopción es temporal y permite al NN que cumple con su papel de benefactor adoptar una nueva identidad y entrar a formar parte del mundo de los vivos. Uma parte das tumbas abriga indivíduos mortos que pertenceram a organizações gremiais e juntas de ação comunal e que morreram enredados pelos paramilitares. chegou outra pessoa. portanto. no setor correspondente aos NN.

portanto. é a distribuição injusta das injúrias e feridas que forças sociais infligem sobre a experiência humana. O Estado não leva a sério suas vidas. ao crime violento e ao tráfico de drogas. tampouco se esforça para agir em nome das vítimas e dos familiares. A crítica também se dirige à falta de interesse do Estado em fazer suas instituições funcionarem eficientemente. repletos de atividades ilícitas e criminosas. Afinal. Estas imagens de sofrimento devem ser compreendidas dentro do contexto político em que a segurança pública é pensada a partir da “metáfora da guerra”. As imagens que circulam abundantemente sobre as favelas e os espaços populares representam esses territórios como ilegais.) à violência. é colocada à prova. Mais do que produzir indignação. pela entrada em cena de milicianos como protagonistas também da violência urbana.5. As críticas dos familiares a um Estado que não reconhece seus sofrimentos A dor de quem sofre uma injustiça demanda reparação. ao falarem de suas experiências de sofrimento. É preciso provar primeiro que se sofre e. periferias etc. Neste sentido. da suposta guerra às drogas e aos traficantes e da criminalização e estigmatização dos territórios da pobreza e de seus moradores. Essa é a crítica dos familiares ao Estado. os familiares necessitam que essa possibilidade de despertar indignação venha acompanhada de engajamentos em ações de solidariedade àqueles que sofrem. Afinal. para isso. marcados pela presença de traficantes armados até os dentes e. como pode ser capaz de produzir indignação. As imagens de sofrimento que emergem das experiências relatadas pelos familiares de vítima não podem ser compreendidas dissociadas das imagens e discursos que circulam e associam favela e outros espaços populares (subúrbios. a vítima é aquele que sofre injustamente. o trabalho dos familiares consiste em politizar as mortes dos parentes. Sofrimento infligido com justiça não produz vítima. acrescida da 232 .7. uma comprovação moral do não merecimento do sofrimento do qual se padece O núcleo da crítica dos familiares. em relação ao sofrimento dos familiares. o lugar da vítima exige uma justificação moral. recorrem à construção da figura do morto como vítima. O conteúdo da crítica é que as instituições protegem uns e expõem outros. mais recentemente. O que está em jogo. o sofrimento pode tanto ser transformado em espetáculo e comercializado como uma mercadoria qualquer. são os significados atribuídos e as apropriações políticas de tal sofrimento. mas. da política do enfrentamento e da repressão.principalmente quando se trata do exercício do poder policial. depois. que o sofrimento do qual se padece é injusto. Para isso. a ponto de intervirem e fazerem cessar a dor e o sofrimento dos familiares daqueles que o braço armado do Estado matou.

com o fim de assegurar a sobrevivência política e econômica. que se dedica a analisar as práticas. políticos. juntamente com outros pesquisadores. O senso dominante de que os problemas são tão complexos que não podem ser compreendidos nem enfrentados pode produzir fatiga moral. através das quais os estados intentam “manejar” e “pacificar” estas populações. O conteúdo político da denúncia que os familiares tentam fazer circular é o de que as mortes são produzidas pela forma como o Estado opera nas “margens” (Das e Poole. mas também como lugares de práticas nos quais a lei e outras práticas estatais são colonizadas mediante outras formas de regulação que emanam das necessidades prementes das populações. A proposta das autoras compreende uma crítica às teorias do estado. têm investido na proposta de uma “antropologia das margens do Estado”. esgotamento de empatia e desespero político (Kleinman e Kleinman. tanto através da força como através de uma pedagogia da conversão que logra transformar “sujeitos rebeldes” em sujeitos legais do 233 . consequentemente. lugares e linguagens que são consideradas às margens do Estado-nação. onde estão contidas aquelas pessoas consideradas insuficientemente socializadas nos marcos da lei.violência policial. Estes lugares são considerados não apenas no sentido territorial. Este excesso de circulação de imagens do sofrimento pode acabar tornando o espectador insensível. Que tipos de significados e apropriações podem ocorrer com o sofrimento dos familiares diante de uma política de segurança pública baseada na guerra e através da qual. A estratégia analítica e descritiva adotada pelos autores foi o distanciamento da ideia consolidada do estado como forma administrativa de organização política racionalizada. Deste modo. Há um excesso de sofrimentos e experiências traumáticas que emergem dos eventos críticos que irrompem no cotidiano dos moradores dos espaços populares (sendo a favela o arquétipo desses espaços). midiáticos etc. A ideia geral é tratar as formas como o Estado se faz e desfaz a partir das “margens”. justiça e reparação para os danos sofridos. Drama e aflição que só aumentam ao não disporem de recursos (econômicos. quais as possibilidades dos familiares de vítima ganharem visibilidade e reconhecimento? A experiência dos familiares é vivenciada como um drama. 1997). demandar reconhecimento para seus sofrimentos e. todos os moradores se tornam alvo? Diante de uma percepção de esgotamento dos mecanismos institucionais de preservação e manutenção da ordem pública e de uma perspectiva hegemônica que defende o uso da violência policial como única solução possível. 58 58 Veena Das e Deborah Poole. A primeira é a ideia de margem como periferia. O sofrimento dos familiares é um ponto de partida através do qual constitui-se uma esfera moral e uma “comunidade emocional”. O interesse é analisar as tecnologias específicas de poder.) para dar visibilidade a seus casos. Sobrecarregado pelo grande número de atrocidades. As margens exploradas no livro são aqueles lugares onde a natureza pode ser imaginada como selvagem e descontrolada e onde o estado está constantemente redefinindo seus modos de governar e de legislar. sugerindo que este se torne objeto de uma inspeção etnográfica. o espectador pode se deparar com situações de sofrimento em que parece ter muito para ver e pouco ou nada a fazer. que tende a debilitar-se ou desarticular-se ao largo de suas margens territoriais e sociais. sob o pretexto de pacificar um território. os trabalhos reunidos no livro Anthropology in the Margins of the State compõe-se de etnografias do Estado. Os temas do livro foram articulados a partir de três noções de “margens”.

aparece encapsulado no imbróglio da violência urbana e da segurança pública. Relatos de familiares de desaparecidos apontam que o simples fato de se estar sem o documento de identificação. portanto. os territórios e as vidas. documentos e palavras”. através da pesquisa documental e estatística. e a possibilidade de terem seus direitos civis violados é sempre grande. Os autores se posicionam contrários à ideia de que o Estado relaciona-se exclusivamente em termos de sua legibilidade. Estado. neste caso. de modo que todos se tornam suspeitos e alvos da abordagem policial. as interpretações em torno da circulação e o uso de documentação de identificação pessoal. O sofrimento dos familiares. mas também sobre os próprios corpos. Este ponto é útil e relevante para pensar a forma como a polícia atua nos territórios da pobreza e a questão da circulação e documentação/identificação dos moradores. Denunciam que as operações policiais não se preocupam com a integridade física dos moradores. Um segundo enfoque das margens gira em torno dos temas da legibilidade e ilegibilidade. a forma de colonização da lei e disciplinamento dos corpos. neste ponto. Dentre os tipos de práticas consideradas nesse enfoque estão os deslocamentos. as populações. circulando por áreas consideradas “perigosas” e “suspeitas”. através do crescente poder da medicina em definir o “normal” e o “patológico”. formas e práticas através dos quais o Estado está constantemente sendo experimentado e desconstruído mediante a ilegibilidade de suas próprias práticas. As autoras lembram. estão a serviço da consolidação do controle estatal sobre os sujeitos. em virtude da presença do tráfico de drogas nessas áreas. 234 . A terceira noção compreende a margem como o espaço entre os corpos. que muitos antropólogos têm usado a noção de biopoder para rastrear as formas pelas quais o poder estende seus tentáculos pelos ramos capilares do social. Os familiares buscam criar mecanismos e recursos para denunciar a indiferença e a desimportância com que as mortes dos entes queridos são tratadas no espaço público. e argumentam que seus trabalhos apontam “diferentes espaços. Destaca-se. a lei e a disciplina. O poder soberano exercido pelo estado não é exercido apenas sobre o território. pode significar o ponto de partida de um desaparecimento forçado.2004): sem levar em conta a segurança e a proteção dos moradores. as falsificações. As práticas escritas para o estado moderno.

seus agentes e suas instâncias. sobreviventes de chacina. O Tribunal Popular significou politicamente a construção de um espaço político de fortalecimento de laços de solidariedade e de formulação e fundamentação de críticas políticas capazes de mobilizar atores políticos na defesa de uma causa: a luta contra a violência estatal e por justiça. analiso o que chamarei de um evento-ação político. memória e experiência traumática. de uma denúncia. na realização de um evento/ato político. procuradores. Minha intenção é descrever e analisar momentos e situações de construção de uma causa. deputados. sofrimento. reparação. Estou aqui considerando a realização do Tribunal Popular como uma ação política. denúncia. a partir destes eventos. sindicalistas. Trata-se do “Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus”. sobrevivente de chacina. reivindicação. é repertoriar os objetos. imprensa. advogados. ONGs. entre outros. colocou em ação vários atores políticos com objetivos igualmente políticos: familiares de vítimas. dispositivos e críticas políticas mobilizados na ação política. unificadas pela categoria violência de Estado. testemunho. O Tribunal Popular pode ser entendido como um evento-ação político. meu objetivo. comunidades morais. pesquisadores. militantes de direitos humanos. movimentos e familiares comprometidos com a causa . práticas políticas. ENGAJAMENTO POLÍTICO E MOVIMENTO CRÍTICO: A CONSTRUÇÃO DA CRÍTICA E DA DENÚNCIA Neste capítulo. voz e silêncio. um conjunto de argumentações que fundamenta críticas. de um protesto. emoções. Cada um desses atores corresponde a uma fala. protesto. organizado por um conjunto de entidades. Afinal. juízes. promotores. circulam experiências e conformam-se atores e práticas políticas? Mais uma vez categorias centrais de análise utilizadas nesta tese aparecem com toda a força: vítima. um evento organizado por movimentos sociais ligados à causa dos direitos humanos com o objetivo de denunciar as violações dos direitos humanos por parte do Estado. Dedico-me a explorar situações que permitem uma ação coletiva a diferentes modalidades de vítimas. protestos e reivindicações. familiar de vítima. Nesse sentido. Busco explorar também questões sobre como são organizados e construídos dispositivos de denúncia e que tipos de recursos e apoios são mobilizados e acionados.6. instituições. neste capítulo. Que condições precisam ser rompidas para se ter acesso ao espaço público? Como construir espaços políticos? Que tipos de argumentos e críticas (internas e externas) são formulados nas acusações? Qual o conteúdo e o significado político das críticas? Como. movimentos sociais.

Segundo Claverie. O que Voltaire teria feito de novo seria atribuir ao termo uma significação mais ampla ao por em questão um juiz institucional. (2) os profissionais do direito que colocam o trabalho e a linguagem jurídica a favor da construção do caso e da causa. oferecida ao julgamento público que. 59 6. seu sofrimento e sua luta por justiça. hoje banal. desse modo. principalmente ONGs. libera as vítimas de suas funções iniciais no processo e lhes proporciona mobilidade dentro de um sistema até então rígido onde cada um ocupa um Esta ideia das entidades de direitos humanos. A forma caso consiste em uma operação para manifestar um desacordo valendo-se de uma réplica do processo judiciário. cada um com tarefas políticas diferentes em relação ao evento: (l) entidades e movimentos de direitos humanos. 59 236 . sendo que uma de suas terminologias mais correntes já o ligava à noção de “coisa debatida na justiça”. Foi ele quem inventou o “tríptico moderno”. O sentido analítico que Claverie atribui ao termo caso é o de coisa julgada em tribunal e então contestada do exterior e. no controverso sistema político da esquerda: a transformação de um processo em um caso e de um caso em causa. em nome dos quais todos os engajados na atividade se movimentam. particularmente da violência policial.dos direitos humanos. foi Voltaire que. ao construir um juízo oposto ao oficial. a emergência da forma caso e a construção da concepção republicana de cidadania.1. 1988) ao estudo da constituição da causa como forma social nos séculos XVIII e XIX – debruçando-se mais precisamente sobre o caso Calas e o caso Dreyfus. Em sua perspectiva. como especialistas em criar dispositivos de denúncia foi sugerida por Luiz Antonio Machado da Silva numa das reuniões de pesquisa do CEVIS. um acusado. podendo ser encontrado nos dicionários do século dezessete e dezoito. com a pretensão de unir e organizar a luta das vítimas da violência estatal. o acusador. Segundo a análise de Claverie. apoiado nos processos de Calas e de La Barre. estão estreitamente vinculados história judicial e história política. o compromisso de engajamento em nome das vítimas da violência estatal. Analiticamente. seu veredicto e seu raciocínio: ele fez do juiz. o vocábulo caso já existia na época do caso do Cavaleiro La Barre. podemos distinguir três atores e esferas de ação. que podem ser considerados como especialistas em criar dispositivos de denúncia . A forma caso como dispositivo de denúncia Elisabeth Claverie tem se dedicado em recentes trabalhos (Claverie. (3) as vítimas. inventou o caso enquanto forma política. O evento representou o encontro e a passagem entre o tempo do choque e o tempo da política.

a dinâmica da ação política. São os processos. Boltanski propõe apreender as operações de construção dos coletivos examinando a formação das causas políticas. portanto. ou seja. a renúncia a qualificar previamente o objeto de estudo e estabelecer suas dimensões. Para ambas as partes. portanto. própria de uma sociedade determinada. Boltanski. como operação de construção de coletivos. O estudo dos casos supõe. que estabelecem o caráter individual ou coletivo do objeto. Em lugar de tratar com coletivos já estabelecidos ou com indivíduos isolados. 2000: 23). A ideia do caso como forma de construção de uma causa. no curso de um caso. Como argumenta Boltanski (2000: 25). argumenta que tomar os casos como objeto e tratá-los como uma forma social. tanto seres humanos como coisas são arrolados nas disputas. o justo é sempre o público. de acordo com o formato recém adquirido e experimentado de uma gramática política. a partir dos estudos sobre a forma caso elaborados por Claverie. Neste sentido.lugar fixo. a serem analisados pelo sociólogo. A eficácia do caso enquanto um dispositivo que opera a construção de coletivos consiste exatamente na capacidade de dessingularização. acusação e defesa. e a vítima se torna acusador. 193-94). Uma denúncia pública é tanto mais eficaz quanto mais capaz ela for de provar que concerne a “todo o mundo”. por sua vez. “é a esse preço que se transforma em uma causa coletiva”. singular ou geral. São essas operações de qualificação das coisas e das pessoas que interessam acompanhar. de designação comum. No curso de um processo de denúncia. e a partir desta situação é possível acompanhar as operações cognitivas fundamentais das ações sociais cuja coordenação exige um trabalho contínuo de reconciliação. é muito adequada para pensarmos o que foi a realização do Tribunal Popular. O Tribunal Popular consistiu na 237 . é precisamente essa dimensão mais individual ou coletiva. ou ao individual de um lado e o coletivo do outro. que a aposta principal da disputa. Afinal. o microssocial e o macrossocial (Boltanski. implica em romper com a separação sobre a qual descansam as disciplinas dentro das ciências humanas – e mesmo dentro das ciências sociais –. sendo sempre suscetível a ser mobilizada e de reconstruir situações diversas. o Tribunal Popular é tomado aqui como uma situação. Desse modo. São essas relações entre estados-pessoas e estados-coisas que constituem o que Boltanski e Thévenot (1991) chamam de situação. há uma inversão: aquele que era o acusador se torna acusado. A noção de caso passou a fazer parte do repertório de recursos políticos. cuja história poderia elaborar-se. O caso faz daquele que é acusado pelo tribunal uma vítima para o público. de identificação. entre o que remete ao singular e o que remete ao geral. em sua totalidade (Claverie: 1998.

O Tribunal Popular foi uma iniciativa que nasceu em 2008. com um gesto judiciário e seus atores: o acusado. Mas quem julga os crimes do Estado? Uma delegação do Rio de Janeiro. 60 Toda a reconstrução do Tribunal Popular apresentada neste capítulo foi escrita a partir de minha presença no evento. 238 . O julgamento é feito com advogados de acusação e defesa. com o aniversário de 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. sobretudo as “peças” das sessões de instrução. 6.1. testemunhas. o público e o juiz. promotores. com dois ônibus. os acusadores. apresentação de provas etc. 5 e 6. disponibilizadas no blog do Tribunal Popular. Nos dias 4. juízes. tribunal de júri. dos registros que fiz e dos que foram feitos pela organização do evento. Durante o processo de organização. desencadeando vários momentos e situações de mobilização. o “Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus”. O evento de julgar acontece dentro de um espaço judiciário.elaboração de uma situação em que se colocam sob análise as dimensões e os princípios de justiça do Estado. O Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus Milhares de pessoas são julgadas todos os dias e sentenciadas pelo Estado. ocorreu em São Paulo. quando uma série de entidades começou a discutir e refletir sobre as violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro e como se organizar neste contexto60.1. várias reuniões e atividades preparatórias foram organizadas em vários estados. um tempo judiciário. seguintes. saiu no dia 03 de dezembro de 2008 para participar das atividades do Tribunal Popular. A maior parte das citações refere-se aos textosdenúncia apresentados pelos acusadores do Estado Brasileiro durante as sessões de instrução. na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Bahia. várias entidades de direitos humanos. depoimentos orais. O objetivo do evento era dar forma e visibilidade às críticas à criminalização da pobreza e à construção de um Estado Penal. sob a forma de análises. Espírito Santo. movimentos sociais. repertoriando os dispositivos jurídicos dos quais o Estado 239 . familiares de vítima de violência policial. elaboraram um conjunto de denúncias baseadas em provas e testemunhas. vídeos. sindicatos. Buscava-se evidenciar como as próprias instâncias do Estado não cumprem a legislação do Estado democrático de direito. laudos periciais. bem como militantes de diferentes estados (São Paulo. A ideia era reunir uma farta documentação para julgar simbolicamente os crimes cometidos pelo Estado brasileiro. Rio de Janeiro. Rio Grande do Sul e Pará – estes dois últimos estados participaram com casos envolvendo a questão agrária). peças de processos jurídicos. A ideia era utilizar a linguagem jurídica do Estado para desconstruir sua própria lógica de ação.Figura 2: Logo do Tribunal Popular – O Estado brasileiro no banco dos réus – Charge de Diego Novaes Desde maio de 2008. segundo o entendimento dos organizadores. para apresentá-las no Tribunal Popular.

prisões ilegais. entre os quais o Tribunal que julgou o Estado estadunidense pelo descaso em relação às vítimas do Furacão Katrina. em 1993. em 2007. conforme os organizadores. além do Tribunal Tiradentes que. é necessário passar da singularidade à generalidade. suas práticas violentas e o julgamento simbólico por meio de leis internacionais e nacionais que ele mesmo reconhece. planejado. construir uma denúncia pública e para isso. sobretudo. abordando temas como redução da maioridade penal. em evento realizado no TUCA/PUC-SP. desaparecimento de pessoas. evidenciar como o mesma lógica se opera em todas as situações. era analisar profundamente e julgar alguns “crimes institucionais” emblemáticos inspirando-se em eventos similares. tipificação de pequenos delitos como crimes hediondos etc. Para levar a cabo a tarefa de formular a crítica e a denúncia do Estado brasileiro como um todo. no âmbito da ação cívica. a questão racial e a racialização da violência e a criminalização dos movimentos sociais. através da realização do Tribunal Popular. e impulsionar a denúncia dos casos e a luta por justiça e reparação. classificação de homicídios cometidos por policiais em categorias como “resistência seguida de morte” ou “auto de resistência”. Em torno da condição de vítima de violência do Estado buscava-se. A proposta de realização do Tribunal Popular. julgou os crimes cometidos em nome da Lei de Segurança Nacional. da denúncia do uso que este faz das instâncias e mecanismos jurídicos e policiais para violar direitos. buscava-se relacioná-los entre si. específicos. por meio de vasta 240 . que se repete em muitas situações. mas que existe uma articulação entre elas. De um modo geral. a fim de mostrar que tais situações não constituem fatos isolados. o Tribunal Popular foi organizado com as seguintes características.lança mão nessa empreitada. de modo a transformar um caso isolado em um procedimento rotineiro. acusação de esbulho possessório contra movimentos sociais que praticam ocupação de prédios públicos. flagrante forjado. violência policial contra adolescentes e jovens pobres e negros. intentava-se tecer os fios que ligam um caso a outro. conformar uma “comunidade moral e política” capaz de agregar pessoas e movimentos. O evento buscou articular diferentes casos emblemáticos. formato e procedimentos: partindo-se de casos ocorridos recentemente nos estados participantes do evento. tinha-se em vista focalizar o olhar sobre a lógica violenta e autoritária do Estado. Alguns desses dispositivos jurídicos elencados e denunciados foram: utilização de interditos proibitórios. como argumenta Boltanski (2001). No caso do Tribunal Popular. em New Orleans. a denúncia põe em relação os atores envolvidos na situação – os actantes – e visa oferecer à opinião pública a injustiça cometida por um grupo contra outro. portanto. Ainda seguindo com Boltanski. Visava-se. através.

4ª Sessão de instrução: Violência estatal contra movimentos sociais e a criminalização da luta sindical. testemunhos. Foram realizadas quatro sessões de instrução para acusação. sintetizando traços comuns presentes em todos os casos. ao mesmo tempo.). como por exemplo. narrava a história de seu filho. mobilizassem e reforçassem apoios internacionais. defesa etc. O caso principal apresentado foi o Caso do Complexo do Alemão. Um desses momentos ocorreu quando uma mãe. dados. em São Paulo. Como a ideia era criar um espaço de encontro e. o da Anistia Internacional. com a seguinte organização: 1ª Sessão de instrução: Violência estatal sob pretexto de segurança pública em comunidades urbanas pobres. que tratou do tema da morte de jovens na Fundação Casa. 3ª Sessão de instrução: Violência estatal contra a juventude pobre. buscar parcerias e adesões. Também foi providenciado o registro audiovisual das atividades do Tribunal. sendo que a parte do testemunho mais chocante é sempre a descrição das formas macabras como os filhos foram mortos. era preciso mobilizar apoios. Era preciso lançar mão de todas as vias e recursos possíveis e acessíveis para a realização do evento. 2ª Sessão de instrução: Violência estatal no sistema prisional: a situação do sistema carcerário e as execuções sumárias da juventude negra pobre na Bahia.documentação e testemunhas. Esta história está registrada nos autos da sessão de instrução III. engrandecer a causa. no Rio de Janeiro. Eis o registro: 241 . chegando à sessão final com um veredicto referente ao Estado brasileiro como um todo. foram convidados observadores internacionais com o objetivo de que estes contribuíssem na circulação internacional das denúncias. pela terra e pelo meio ambiente. em sua maioria negra: os crimes de maio de 2006 em São Paulo e o histórico genocida de execuções sumárias sistemáticas. de denúncia e protesto. Nesse sentido. Sessão final de acusação e defesa. cujo filho foi morto na Fundação Casa. As situações experimentadas a partir dos relatos traumáticos dos familiares das vítimas podem ser definidas como catarses da dor. Há que se destacar a dimensão emocional transbordante nos relatos apresentados por familiares e sobreviventes de chacinas policiais. procedendo aos passos de um julgamento convencional com sessões de instrução (acusação. com o objetivo de produzir materiais de divulgação e de trabalho político. apresentação de provas.

não têm como comprovar os rumores que chegam aos ouvidos. a psicóloga ligou para sua casa comunicando que havia acontecido algo grave com o Sidnei. os pés. Eram relatos e mais relatos de dor. Solange. sendo que o pescoço. as execuções sumárias foram classificadas em três categorias: 1. vendo fumaça saindo do quarto. Enquanto narrava essa história para o público presente no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. cujos corpos nunca apareceram até hoje. o que teria sido fatal. Execuções sumárias realizadas por "grupos de extermínio". destacar a categorização do desaparecimento como um tipo de extermínio. a mãe não aguentou e acabou desmaiando. Execuções sumárias feitas por policiais a serviço. que geralmente são os principais reclamantes. Muitas das pessoas presentes naquele salão nobre enxugavam as lágrimas enquanto era providenciado o socorro. A polícia sempre lança mão do argumento de que “não tem corpo não tem crime” e os familiares. Desaparecidos. e morreu queimado de forma misteriosa. a linha da cintura. pediram ajuda aos funcionários que levaram um bom tempo para encontrar a chave. informações. Ao chegar lá ela levou um choque quando ficou sabendo que ele estava com 70% do corpo queimado. Diante da rica sistematização dos casos que fizeram parte das sessões de instrução do Tribunal Popular. são difíceis de serem feitas pela falta de provas. Em que pesem as dificuldades de publicização. às vezes por cima das fardas. no dia 20/08/2003. considero importante explorar essa riqueza de dados. As denúncias sobre desaparecimentos de pessoas. pessoas que foram vistas pela última vez dentro de um camburão da polícia ou sendo abordadas por policiais. Mas a tragédia aconteceu sobretudo porque os outros adolescentes. Os momentos mais fortes do evento eram sempre quando se tratava da participação dos familiares de vítima. os braços e as unhas pareciam carvão. Durante o tempo em que esteve hospitalizado foi vigiado por funcionários da Febem. 3. por volta das 20 e 30. o que constitui um crime continuado de ocultamento de cadáver. 2. Começarei por registrar e destacar as denúncias referentes a execuções sumárias praticadas por agentes do Estado em São Paulo. entre essas três modalidades. Gostaria de. relacionados a práticas de extermínio. caracterizada como RSM (resistência seguida de morte). estava internado na Unidade de Tatuapé. policiais em trajes civis. Sidnei estava em um quarto isolado e de castigo e a Febem diz que foi ele que ateou fogo ao colchão. "legalizadas" com a desculpa de um enfrentamento e da reação de legítima defesa. Segundo nos relatou sua mãe. relatos de testemunhas etc. Ao chegar o diretor a fez esperar para só depois avisar que seu filho estava internado no Hospital do Tatuapé. com documentos. da Febem. Na “peça de instrução”.. várias denúncias de desaparecimentos de pessoas 242 . fato que geralmente a imprensa costuma classificar de "chacina". encapuzados. O médico disse que Sidnei havia engolido muita fumaça. em uma tentativa de suicídio.Sidnei Moura Queiroz. de 18 anos. Pediram para que ela comparecesse no outro dia à Febem.

Mas os exames de DNA. de 17 anos. sete anos depois. encontraram outros rapazes. Após insistência por parte de seus familiares. Estou falando de uma delas. o governo não diz quem são 22 dos enterrados como "indigentes". foi visto pela última vez dentro da parte traseira de um camburão da Polícia Militar (viatura Vtr-M 31114. percorrendo IMLs e lugares de desova de cadáveres. começou a ser extorquido por eles e por policiais. Durante muito tempo. no bairro de Gostaria uma vez mais de deixar claro que não estou considerando que desaparecimento corresponde sempre a práticas de extermínio. Os avanços na investigação foram todos devidos ao trabalho do Sr. Enterrado numa vala comum como “indigente” Maycon Carlos Silva desapareceu no dia 15 de Maio de 2006.relacionados a grupos de extermínio começam a circular com mais frequência61. quando chegaram os policiais militares. Foi o Sr. no bairro da Casa Verde (zona norte de São Paulo). bem próximo à sua casa. e pôde reconhecê-lo por um par de tênis. esta é apenas uma entre várias. Elias que encontrou partes do corpo de seu filho. deram negativo. Tendo contraído dívidas com traficantes locais. Só três anos depois o DHPP chamou o Sr. do 31º Batalhão da Polícia Militar) na madrugada de 19 de novembro de 2001. conforme duas testemunhas oculares. Voltava com cinco amigos de uma discoteca. No Inquérito Policial Militar um dos policiais testemunhou ter visto Rodrigo no camburão. Até hoje. porque é a que me possibilita uma perspectiva empírica e analítica para discutir alguns temas de meu interesse como: polícia. Desaparecido após abordagem policial da Rota Paulo Alexandre Gomes. sofrimento. Elias para prestar depoimento sobre o desaparecimento. a família sofreu perseguições e provocações por parte de policiais. entre outros. no dia 16/05/06. Todos correram. que depois desse assassinato passou a provocar a família cercando a casa e ameaçando. e seu corpo foi enterrado numa vala comum como "indigente". saiu de sua residência. já em decomposição. até que foi baleado em uma loja próxima à sua casa. O corpo de Rodrigo nunca apareceu. a Polícia de São Paulo descobriu que Maycon era um dos 38 mortos no Estado que haviam sido enterrados sem identidade. um amigo e uma vizinha. Selecionei quatro desses casos para apresentar aqui: Desaparecimento após prisão Rodrigo Isac dos Santos. Rodrigo ficou bastante revoltado com o envolvimento da polícia. Elias Isac dos Santos. perto da quadra da Escola de Samba Império da Casa Verde. que passou 40 dias buscando pessoalmente o cadáver do filho. apesar dos esforços do pai. o processo se encontra ainda em fase de instrução na Vara do Júri de Guarulhos. Na Corregedoria da Polícia Militar tentaram desacreditar a denúncia do Sr. 23 anos. na mesma noite. em dezembro de 2001. da Av. Os outros seis envolvidos nesse desaparecimento chegaram a ficar presos por 11 dias. mas Rodrigo foi preso. Mas foram soltos porque a Justiça Militar rejeitou o pedido de prisão preventiva deles. feitos de forma a misturar restos mortais de várias pessoas. jamais esclarecida. em uma via secundária na altura do nº 3000. A prisão de Rodrigo foi precedida pelo assassinato de seu irmão Leandro Isac dos Santos. antes e depois da morte de Rodrigo. Documentos da Ouvidoria da Polícia apontam fortes indícios de que Silva foi levado por PMs da Força Tática. por volta das 21 horas. por volta das 23 horas. Foi visto pela última vez. de 19 anos. Durante a realização do Tribunal Popular vários desses casos de desaparecimento praticado por policiais foram relatados. violência. Há várias modalidades de desaparecimento de pessoas. comunidades morais. Elias. em Guarulhos. circulação de relatos da dor. Hoje. Sr. ação política. dizendo que ia para casa da namorada Janaína. Miguel Ackel. construção da categoria vítima e familiar de vítima. Elias. 61 243 .

As duas famílias das vítimas registraram queixa na Delegacia de Polícia. com Paulo por volta das 23 horas do dia 16/05 e depois o deixou no ponto de ônibus para que o mesmo fosse à casa da namorada. Afirma Leandro que Paulo entrou em uma viela. outro referiu ao pai que Everton estava. Segundo as informações fornecidas pela família. sim. zona leste da capital. o Sr. Os familiares de Paulo procuraram o 103º D. Os pais de Everton referem que. mesmo sem Paulo. nenhuma viatura da ROTA esteve nesta região. desapareceu no Bosque Maia. Ambos foram abordados e detidos por policiais militares da Força Tática. 15 anos. era dependente químico e. de 26 anos. Tais amigos. Everton já estaria visado por estes PMs que já tinham-no ameaçado após um desentendimento. Na data do desaparecimento dos dois amigos. Saiu sozinho. alguns de seus amigos disseram ao Sr. Em 12/06/06 participaram de uma reunião com o secretário de Segurança Pública. 244 . No entanto. por volta das 20 horas. Com relação a seu desaparecimento. no mesmo dia. Ronaldo Marzagão. além de terem feito buscas. à época de seu desaparecimento.P. 15 de maio de 2006. Segundo a versão da testemunha Leandro. no cemitério. sequer esteve detido ali na noite anterior. detido no local e que no dia seguinte ele seria levado ao Centro de Detenção Provisória. Leandro negou esta versão na Corregedoria de Polícia e na Delegacia de Desaparecidos. negro. Nestes órgãos ele referiu que esteve. em IMLs da capital e região metropolitana. Agostinho. em companhia de Everton Pereira dos Santos. sim. Everton tinha passagem pela polícia por envolvimento com drogas. que não deu nenhum resultado. Desde então. Em 12/06/06 participaram de uma reunião com o secretário de Segurança Pública. Leandro ficou aguardando Paulo por cerca de 30 minutos. sem a companheira Daniela. disseram aos policiais que Diego e Everton teriam ido para Santos. saiu do local. na 2ª Delegacia de Desaparecimento de Pessoas do DHPP. na noite de 16/05/06. Antes de Paulo entrar foi possível que ambos visualizassem uma viatura da ROTA entrando na mesma favela. Leandro e outros amigos foram abordados por uma viatura da ROTA. rumo à biqueira. Desaparecidos após detenção policial No dia 14/05/06. sem lograr êxito. Quando chegou no Bosque ficou sabendo que Everton e Diego tinham sido abordados e levados pela viatura da Força Tática. localizada bem próxima do local. em virtude de ter se envolvido em um furto de vasos de bronze. Esta teria ido ao encontro de Everton. da favela Vila Progresso. que o sequestro de Diego e Everton foi realizado por policiais da Força Tática. por volta deste horário. Paulo não foi mais visto. As investigações da Corregedoria afirmam ainda que. Segundo os policiais. em ao menos 6 IMLs da capital e região metropolitana. Everton saiu de casa por volta das 16 horas. No local receberam informações desencontradas. quando souberam que o filho foi detido. Ronaldo Marzagão. Diego cumpria medida sócio-educativa de prestação de serviço à comunidade. desde então. pai do adolescente. por uma rua paralela. região central da cidade de Guarulhos. a 2ª Delegacia de Desaparecimento de Pessoas do DHPP. Alguns correram. Mesmo vendo a viatura Paulo teria entrado na viela. Paulo o teria chamado para ir a uma biqueira (ponto de vendas de droga). estiveram na 1ª Delegacia de Polícia. sem lograr êxito. João esteve no local e desesperou-se ao saber que o filho não estava na Delegacia. além de terem feito buscas. a Corregedoria da Polícia Militar. que não teve nenhum resultado. na Corregedoria da Polícia Militar. estava em liberdade condicional.Itaquera. fato facilmente contestável tendo em vista que a própria família viu ao menos duas viaturas circulando na rua onde residem. que. Diego Augusto Sant’anna. local onde nunca chegou. Seguramente com medo. Um policial lhes disse que Everton não estava detido ali. ao serem ouvidos na Corregedoria da Polícia Militar. No dia seguinte. negaram a versão contada ao pai. Sem dúvida por estar com medo. Outros amigos de Paulo afirmam que souberam por Leandro que naquela noite Paulo. nunca mais foi visto. dentre eles Leandro e Paulo. Ao ver a viatura da ROTA sair da favela.

Reparar significa recompor os 245 .6.1. porque Estado não comete crime. ou pelo menos têm tido essa atribuição até o momento. foi questionada e criticada. A reparação financeira não deve ser entendida como um pagamento pelos mortos de cada um. A reparação financeira deve fazer parte de um programa de ações que vise reconstruir o mundo daqueles que foram abalados por experiências desestabilizadoras de violência. Outra. que questionavam a eficácia e a estratégia do movimento social usar a mesma linguagem jurídica do Estado para criticá-lo. Crítica externa: crime de Estado ou crime dos agentes do Estado Outra crítica que registrei no debate público que a organização e realização do Tribunal Popular suscitou foi de origem principalmente acadêmica. Consequentemente. e as indenizações financeiras são parte das reivindicações dos familiares. que pelos menos então os lugares na hierarquia fossem quebrados.3. argumentando que a justiça popular não deve adotar os mesmos instrumentos e a mesma linguagem jurídica de um Estado burguês. se é para usar a ideia do Tribunal. procuradores. condenar ou punir indivíduos. por exemplo. por outro lado. o empenho em realizar denúncias internacionais e recorrer a dispositivos jurídicos internacionais. Esta crítica procede só em parte. ou pelo menos não deveria ser.1. não podem julgar. como a OEA. é pouco eficaz porque as sanções que estes mecanismos podem aplicar são apenas ao Estado e não aos agentes do Estado. Crítica interna: questionando o uso da linguagem jurídica Alguns poderiam questionar a eficácia de se realizar um Tribunal Popular para julgar simbolicamente o Estado.2. vinda de certos “militantes de esquerda”. Estes críticos defendiam um outro formato de evento. de primeira ordem. 6. como a Organização dos Estados Americanos (OEA). é a condenação penal de cada um dos envolvidos nos crimes. eles podem condenar o Estado a pagar indenizações e recomendar a implementação de políticas reparatórias. desembargadores. Reclamava-se que as vítimas continuavam ali enquanto vítimas. a centralidade dos operadores do direito (advogados. nem simbolicamente mudavam de status. Não é disso que se trata. juízes. Que eficácia teria julgar apenas simbolicamente? Esta é um crítica que ouvi durante o evento. e sustentava que não tem cabimento falar em crime de Estado. Quem comete crime são os agentes do Estado. Nesse sentido. defensores públicos) na participação do evento. Esta crítica sustentava que. porque se é verdade que estes Tribunais Internacionais. promotores.

sobretudo através das instâncias jurídicas e policiais.1. os organizadores do evento destacam: (1) a construção de uma rede nacional e local de familiares que sofreram violações do Estado. de dados e textos referentes aos temas tratados pelo Tribunal. vítimas e familiares que sofreram a violência do Estado durante a ditadura militar e familiares e vítimas da violência do Estado hoje”. Nota-se. jornalistas. O evento propiciou um espaço importante para a elaboração das experiências traumáticas originárias dos eventos críticos relacionados ao repertório da violência urbana. socializar e politizar a dor. Sem dúvida uma das mais importantes foi ter conseguido unir uma diversidade de setores sociais. Foi um espaço para a politização das mortes provocadas pela violência do Estado. políticos e profissionais. Ex-presos políticos. da luta e do trabalho político dos familiares de vítima. A dimensão pedagógica do evento: espaço de troca.vínculos sociais e os laços de pertencimento a uma comunidade moral e política. Recompor equivalências perdidas. sindicalistas. uma pretensão pedagógica na realização do evento. sobreviventes de chacinas. 246 . Entre eles. de vários estados do país. porque foi um espaço para os familiares trocarem experiências de como levar as denúncias adiante. assim. o evento em si. (2) utilização do Site do Tribunal Popular para servir como uma rede de divulgação de denúncias. em um texto intitulado “A importância do Tribunal Popular: o Estado brasileiro no banco dos réus”.4. pesquisadores etc. ressalta que “algumas atividades do Tribunal permitiram estreitar laços entre ex-presos políticos. 6. A Comissão Organizadora do Tribunal. O período de organização do evento. familiares de vítima de violência policial. familiares de presos comuns de hoje. Foi um espaço para trocar experiências. aprendizado político e denúncia Para além dessas críticas. há também as conquistas. os materiais produzidos apontaram caminhos que possam se desdobrar no fortalecimento dos laços. (3) importância do registro e da construção de formas pedagógicas de socializar e difundir o que ocorreu no Tribunal através da edição de vídeos e livro.

foram as operações militares no Complexo do Alemão. no Rio de Janeiro. portanto.2. A desumanização seria marcada pela supressão de princípios de equivalência (Boltanski e Thévenot. Um caso exemplar nesse sentido. Para isso. apresentado no Tribunal Popular. ficou a cargo dos advogados do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos. realização de megaoperações policiais. apresentação dos fatos. de excepcionalidade. 1991). caveirão. Circulação e atualização da metáfora da guerra No início deste capítulo me referi à discussão coletiva que um grupo de pesquisadores. passando as relações sociais a serem coordenadas pela força.6. e faz-se a guerra. A denúncia foi apresentada sob a forma de um processo contra crime de lesahumanidade e estruturada da seguinte forma: inicialmente uma contextualização histórica das práticas institucionais voltadas para a gestão violenta da pobreza e o aprimoramento de uma política militarizada de segurança pública. Também expressei o entendimento de que a desumanização é o repertório da linguagem da guerra. A apresentação da denúncia da situação do Rio de Janeiro. cobertura do caso pelos veículos de comunicação. O argumento que busquei apresentar era o de que a desumanização pode ser pensada como um estágio de mediação entre um regime de força e um regime de justiça. apresentação dos direitos violados. Em nome da segurança constrói-se a política e. momentos e decisões que foram legitimando publicamente uma política pautada na suspensão de direitos em nome da segurança diante de situações de guerra: auto de resistência. de justiça. Vale a pena retomar de perto alguns pontos da denúncia elaborada pelos advogados do IDDH: 247 . ideologicamente. do conflito armado. particularmente da Chacina do Complexo do Alemão. O Rio de Janeiro foi apresentado no Tribunal Popular como um laboratório militar. mandado de busca e apreensão genérico. Na construção desse argumento. retomei um texto de Veena Das sobre os significados da segurança no contexto da vida cotidiana. tem estimulado sobre a ideia de um dispositivo ou regime de desumanização para pensar a sociabilidade urbana na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. a fim de evitar qualquer discussão sobre o respeito aos direitos do cidadão. destacou-se uma série de mecanismos. e recomendações. gratificação faroeste. dispositivos. é normalizado. um contexto em situação de emergência. ao qual pertenço. A contextualização dos advogados do IDDH buscou apresentar o processo histórico de construção da política de segurança baseada na guerra. no qual ela manifesta sua preocupação com a circulação de metáforas da guerra e de como a linguagem da guerra.

propõe a construção de muros de concreto para cercar as favelas da Rocinha. que tenha. Folha de São Paulo. Em 2004.No plano da racionalidade governamental do Estado do Rio de Janeiro atualmente impera o uso oficial de um discurso que prega a necessidade de proteção da sociedade em situação de guerra. foi a vez do novo secretário de segurança pública. o então vice-governador Luiz Paulo Conde. após uma operação policial que contou com 180 agentes e deixou nove mortos e sete feridos. ganhar destaque na edição do dia 11 de maio de 2003.o tráfico de drogas. quando da implementação do programa “Operação Rio Seguro”. o coronel da Polícia Militar Marcus Jardim. O então Secretário Nacional de Segurança Pública. se tiver que ter conflito armado. após uma operação policial na Vila Cruzeiro que deixou 16 mortos e mais de 50 pessoas feridas por balas perdidas. Em 15 de abril de 2008. do Vidigal e do Parque da Cidade. Josias Quintal: “Nosso bloco está na rua e. Nós vamos partir pra dentro. disse que “os mortos e os feridos geram um desconforto. em 27 de fevereiro de 2003. Sr. O texto-denúncia registra uma série de declarações de autoridades emitidas diante de situações e episódios de violência que marcaram a cidade. pelo então Secretário de Segurança Pública. Três meses depois da declaração de Josias Quintal. com referência ao modelo de política criminal adotado no Rio de Janeiro. calcula-se que “os despojos de ‘guerra’ – as armas. Luiz Fernando Corrêa. a morte do inimigo. Se alguém tiver que morrer por isso. mas não tem outra maneira”62. 16/04/2008. Em maio de 2007. 29/06/2007. declarou: “A PM é o melhor inseticida contra a dengue. A PM é o melhor inseticida social”63. o território – encontram-se muito acima. como supostos resultados da proteção da vida”. o Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame declarou: “Não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns ovos” e que “o remédio para trazer a paz. A eficiência policial era medida então em termos de quantidade de mortos de supostos “bandidos”. Conhece aquele produto. Tal ótica militarizada se baliza na demonização das áreas pobres da cidade e na glorificação do combate armado contra o atual “inimigo público” do Estado . [inseticida] SBP? Não fica mosquito nenhum em pé. o Chefe do Comando de Área da Capital. coronel diz que PM do Rio é o 'melhor 248 . muitas vezes. alguns casos e situações repercutindo internacionalmente. A8. 62 63 Jornal do Brasil. que morra. – como tão bem exemplifica a declaração feita ao jornal “O Globo”. visando “conter a violência” das ruas nas áreas nobres da cidade. pp. comemorando abertamente a morte de mais de 100 pessoas em menos de 15 dias no cargo. passa por alguma ação que traz sangue”. Desta forma. Anthony Garotinho. do jornal O Globo. O governo Sérgio Cabral é identificado como o ápice da institucionalização de uma política de segurança baseada na guerra e no extermínio. Secretário Estadual de Meio Ambiente. “Nove morrem em ação do Bope.

numa decisão do juiz Alexandre Abrahão Dias inseticida social'”. uma gratificação monetária para os policiais que mais matassem. criou. o governador do Rio de Janeiro.3. O mandado de busca e apreensão genérico Outro dispositivo acionado pelo Estado para fazer a repressão e o controle social das favelas e seus moradores é o “mandado de busca e apreensão genérico”. mais eficiência: esta tem sido a lógica da segurança pública. Com este decreto. E ainda: “Na rotina de operações policiais nas favelas.4. Para legitimar o uso arbitrário de um instrumento jurídico recorre-se novamente à noção de “circunstâncias excepcionais”. Enquanto esteve em funcionamento houve um aumento mensal grande do número de civis mortos pela polícia. A eficiência é medida no número de mortes. 6. 249 . Quanto mais mortes. Marcelo Alencar.folha.shtml. Fonte: http://www1. o policial que participasse de uma operação com morte de supostos criminoso era premiado por seu trabalho.753/95. foram execuções. premiar por bravura a capacidade de matar dos policiais.br/folha/cotidiano/ult95u392620.uol. passou de 15 para 30. antes mesmo de se ter iniciado o inquérito policial. fazer a revista de qualquer morador e invadir qualquer residência sem individualização e especificidade. Premiação por bravura: a “gratificação faroeste” A racionalidade do modelo se segurança pública baseado na guerra aparece na adoção de vários instrumentos e recursos considerados eficientes na “cruzada contra o mal”. Uma pesquisa do ISER. Segundo a argumentação dos advogados: “Consiste na extrapolação do direito processual brasileiro pelo poder judiciário que age em cumplicidade com a política de segurança do Governo Estadual do Rio de Janeiro”. a “Gratificação por Encargos Especiais”. Vale. com tiros na nuca.com. sendo que. A justificação do abuso deste instrumento legal é exemplificada no primeiro mandado deste tipo. Essa gratificação ficou conhecida como “gratificação faroeste” e foi extinta em 1998. em 1996 e 1997. contrariando todas as garantias constitucionais que regem o ordenamento jurídico brasileiro”.6. Sr. através do Decreto 2. apontou que em muitas dessas mortes não houve confrontos. o mandado de busca apreensão é formulado pelos juizes em termos tão gerais e abstratos que permitem à polícia. Em novembro de 1995. Malu Toledo. sem perícia ou testemunhas. inclusive. citada pelos advogados no texto-denúncia.

é padrão sueco. busca o único meio de reagir à impunidade crescente neste país. não pode simplesmente encastelar-se de forma alienada para discutir meras filigranas jurídicas”. Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. ou seja. É padrão Zâmbia. Não sei por que não é fechado. neste caso. pode-se entender todos os direitos de todos os moradores do Alemão. Dubner). o governador Sérgio Cabral também aproveitou o momento para emitir suas opiniões. Estado não dá conta. Fico muito aflito. o juiz argumenta que não se deve ficar preso a “filigranas jurídicas”. Leva na Barra da Tijuca. este grito de socorro e justiça promovido pelo povo deve ser atendido COM URGÊNCIA E RIGOR. Isso é uma fábrica de produzir marginal. provavelmente endereçadas por cidadãos humildes e honestos da comunidade local que. principalmente. As declarações das autoridades e as decisões judiciais são carregadas de preconceito. Sou cristão. seus direitos podem ser violados pelo Estado. Diante do “grito de socorro” dos cidadãos que se aventuraram em “denunciar”. Estas declarações de Cabral não foram incluídas no texto-denúncia. mas também e. cala e mata. bem como o triste envolvimento de parca parcela de policiais corruptos com estes elementos espúrios. que a medida excepcional está calcada em diversas denúncias semelhantes. a fim de erradicar o “lixo genético”.Teixeira. Não vejo a classe política discutir isso. as favelas seriam “verdadeiras fábricas de marginais”. o que provoca situação gravíssima. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas. são os autores do livro "Freakonomics" (Steven Levitt e Stephen J. a filha do favelado vai levar para onde. pega na Rocinha. contra a Comunidade da Grota. Segundo ele. Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela suprema corte americana. mas vale a pena recuperá-las: A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência pública. se o Miguel Couto não atende? Se o Rocha Faria não atende? Aí. Méier e Copacabana. Quem diz isso não sou eu. católico. todo mundo sabe onde fica. Em 25 de outubro de 2007. numa entrevista ao Portal G1. tenta desesperadamente uma interrupção. que ciente e consciente das dificuldades investigatórias dos incorruptíveis policiais e da fragilidade dos cidadãos que se aventuram em “denunciar” o lixo genético que lhes amedronta. o governador declarou que defendia a legalização do aborto como forma de controlar a violência nas favelas. (Grifos dos advogados. Tijuca. Agora. mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não tem oferta da rede pública 250 . Porque uma filha da classe média se quiser interromper a gravidez tem dinheiro e estrutura familiar. Tem tudo a ver com violência. pelo Poder Judiciário. certamente indignados com os desmandos do Elias Maluco e sua gangue. Por filigrana jurídica. não só pelos policiais honestos. conforme o texto-denúncia apresentado na I Sessão de Instrução) Atenção aos termos utilizados pelo juiz para se referir aos traficantes: “lixo genético”. por derradeiro. denunciar as escuras! Destarte. No mesmo diapasão do juiz que emitiu esse mandado genérico de busca e apreensão. Em nome do bem destes moradores. Agora. que assim se expressou: “Frise-se. Gabão. não sei onde.

Deste modo: No tratamento jurídico dado às mortes pela Polícia. 5 e 6 de dezembro de 2008) ainda não havia sido inaugurada a primeira Unidade de Polícia Pacificadora/UPP.com/Noticias/Politica/0. o que aumenta as possibilidades de absolvição por parte do júri. Mesmo sendo preocupante o número de policiais mortos. é policial que mata bandido. mais alarmante ainda é o número crescente de civis mortos pela polícia65 e as ilicitudes na produção da legalidade dessas mortes. Quem passa a ser julgado é o morto. Um dos dados apresentados é o de que a polícia do Estado do Rio de Janeiro é a polícia que mais mata e mais morre no mundo. 65 Na época de realização do Tribunal Popular (4. em 19 de dezembro de 2008. Portal G1 – Cabral defende aborto contra violência http://g1. Isso é uma maluquice só64. Se “bandido bom é bandido morto”. dentro desta mesma lógica. Em função disso. A primeira UPP foi inaugurada no Santa Marta. 64 251 . nos poucos casos em que os fatos chegam a ser julgados. o ponto chave da defesa costuma estar centrado em mostrar que o falecido era realmente um bandido. evitar o nascimento do favelado (bandido potencial).para que essas meninas possam interromper a gravidez. policial bom. os advogados retomam algumas pesquisas com o objetivo de demonstrar. por sua vez. A questão da UPP corresponde a um novo capítulo na discussão sobre segurança pública/linguagem da guerra/pacificação.globo. Melhor seria. A utilização de qualificativos como “lixo genético” (para referir-se a “traficantes de droga”) e “fábrica de marginais” (para referir-se às favelas). com vários dados. muitas vezes quem é julgado é o morto e não o autor. mas como isso não é possível. já dá uma ideia da inversão que ocorre no tratamento jurídico das mortes consequentes da violência policial. o que resta a fazer é matar.. Na construção dos argumentos da denúncia. conforme o tratamento epidemiológico proposto por Cabral.00.MUL1557105601. para isso recorre-se à figura do bandido e à política do confronto. que será realizada em outra ocasião. como todas as conclusões apontam para um uso desmedido e exacerbado da letalidade policial.

simulação do conflito. Os estudos de Verani (1996) e Cano (1999). foram encontrados 40 casos de disparos à queima-roupa. 252 . um terço das vítimas tinha lesões adicionais às provocadas por arma de fogo. Os indicadores médico-legais confirmaram o uso excessivo da força e a ocorrência de execuções sumárias: • • • • • 46% dos cadáveres apresentavam 4 ou mais perfurações de bala. que analisou as mortes entre 1993 e 1996. Os fatos são apresentados na versão dos policiais como confronto e há relatos de que os policiais colocam armas nas mãos das vítimas para sustentar a tese de que houve troca de tiros. o que poderia indicar que muitas foram golpeadas antes de ser executadas. A pesquisa de Cano indica que o excesso da violência policial. citados na argumentação da denúncia. feitos à curta distância.Ano 2007 2006 2005 2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 Número de Civis Mortos Pela Polícia (Autos de resistência) 1330 1069 1104 983 1. as vítimas são geralmente levadas para o hospital. 61% dos mortos tinham recebido ao menos um disparo na cabeça. numa tentativa de produzir a legalidade da morte alterando a cena do crime e inviabilizando a perícia.195 897 596 427 289 397 Fonte: Instituto de Segurança Pública (ISP) Uma pesquisa de Ignácio Cano (1988). mesmo mortas. o sinal mais evidente de execução. Após os incidentes armados. o uso abusivo da força. estudou as necropsias dos cadáveres das vítimas da intervenção policial. apontam para outro aspecto importante referente ao desdobramento jurídico dos casos. 65% deles mostravam ao menos um disparo na região posterior (pelas costas). Essa versão – a dos policiais – é a privilegiada no sistema de justiça criminal. ocorre de maneira mais dramática nas favelas do que no restante da cidade. e pobres. pardos ou pretos. Os dois autores comentam que os casos de autos de resistência são sistematicamente arquivados. As vítimas fatais costumam ser homens jovens.

Segundo a denúncia. ativista israelense com cidadania britânica. para apurar esse tipo de mortes. conhecido como caveirão. A rigor. situação semelhante ocorreu quando três jovens foram detidos quando pichavam o símbolo dos jogadores Pan-Americanos. Em 24 de julho de 2007. foi ameaçado de deportação. e batizado ironicamente pelos críticos à segurança pública do governo Sérgio Cabral como Caô. a apreciação de excludentes de ilicitude caberia ao juiz ou ao jurado. A criminalização de ativistas e defensores de direitos humanos Os responsáveis pela acusação do Estado também destacam no texto da denúncia a desqualificação que é feita por parte das autoridades públicas das críticas à violência policial por parte de entidades defensoras dos direitos humanos. de sindicância em vez de inquérito. mesmo quando há fortes indícios de execução. 6. em alguns casos. e um deles. com relação à operação no Complexo do Alemão. cartazes. Por iniciativa da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência. faixas e grafites espalhados pela cidade. no centro do Rio de Janeiro. em um muro do Colégio Pedro II. a charge foi parar em camisas. os pichadores desenharam um fuzil no símbolo do Pan.5. Os três presos foram autuados por apologia ao crime e pichação. Cauê segurava um fuzil ao lado do carro blindado da Polícia Militar. A aplicação de uma espécie de “arquivamento preventivo” nesses casos. Duas irregularidades jurídicas contribuem para esta situação: 1. como de fato acontece quando um civil mata outro em legítima defesa. sem intervenção de um juiz. A imagem do Cauê armado com um fuzil foi uma criação do cartunista Latuff. Para protestar contra a segurança pública. O símbolo do Pan foi apelidado oficialmente de Cauê. uma das formas de criminalizar os defensores de direitos humanos tem sido historicamente a associação destes ao tráfico de drogas. apesar de existir prova de materialidade e indícios de autoria. 253 .a pedido da promotoria. A sindicância não tem validade jurídica e constitui um expediente que pode ser arquivado administrativamente. como forma de expressar uma crítica à militarização da segurança pública e de replicar as acusações de que os movimentos sociais que se opunham à realização dos jogos Pan-Americanos não passam de grupos que fazem apologia ao crime. 2. No desenho de Latuff. A charge do Cauê armado passou a ser utilizada nos vários protestos organizados pelos movimentos sociais contra a realização dos jogos Pan-Americanos. como ocorreu em junho de 2007. A abertura. nos quais o promotor pede arquivamento.

A circulação e repercussão pública do desenho do Cauê armado irritaram o governador Sérgio Cabral e o então prefeito César Maia. a Rede Contra a Violência vinha produzindo e distribuindo camisetas com a charge do cartunista Latuff e com os dizeres: “Jogos Panamericanos/Rio de Janeiro 2007/Sol e lucros para os ricos/Violência contra os pobres”. em 2007. com o título “Pandemônio: sem-teto espalham imagens de Cauê de fuzil e vendem camisetas”. 254 . que trazia um lote de camisetas. Desde o início do mês de junho de 2007. O ativista que 66 A íntegra da nota da Rede está incluída nos Anexos. A reportagem publicada pelo jornal O Dia tinha um tom criminalizante. defendendo-se das acusações apresentadas pelo jornalista e solicitando que fossem feitas as devidas retificações66. o que levou a Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência a enviar uma nota pública de esclarecimento. para autuá-lo em “flagrante”. do jornal O Dia. em 12 de julho.Figura 3: Cauê armado – charge do cartunista Latuff criticando a militarização da segurança pública durante o período de realização dos jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro. e utilizada nos protestos políticos dos movimentos sociais. no dia 20 de junho. policiais civis da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial aproveitaram a chegada de um ativista da Rede. por violação de direito autoral (artigo 184 do Código Penal). A charge chegou a virar matéria do repórter André Zahar. Embora tudo tivesse sido abertamente divulgado no site e em outros locais.

chegava com as camisas, outra que se encontrava na sala da Rede e outro que chegou depois foram então levados para a DRCPIM. Os três foram autuados, prestaram depoimentos e, em seguida, foram liberados. Após a detenção, os policiais chamaram a imprensa e exibiram as camisas apreendidas. No dia 23 de julho, uma semana após a abertura do Pan, o cartunista Latuff foi intimado a prestar depoimento na Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). Em uma entrevista, publicada no jornal da Associação Brasileira de Imprensa, o cartunista Latuff assim se expressou sobre o caso:
Não cheguei a ser maltratado pela Polícia. Fui intimado e resolvi comparecer à Delegacia no mesmo dia em que os policiais foram à minha casa. Mas duas pessoas da ong foram presas e indiciadas por uso indevido de marca. Para o Poder Público, quem luta por direitos humanos nas favelas está a serviço do tráfico. Na minha opinião, o fato se desenrolou baseado em dois motivos: o primeiro, porque eu não trabalho para jornalões; o segundo porque se trata de repressão a uma ong que denuncia violência contra moradores de favelas. Fica então evidenciado que a liberdade de expressão está ligada à conta bancária de quem se expressa. (Jornal da ABI, nº 321, setembro/2007).

Na ocasião desses fatos, a Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) chegou a aprovar e publicar uma moção de solidariedade ao cartunista Latuff. A nota destaca que o fato de os policiais aparecerem na casa do cartunista de camburão representou visivelmente uma tentativa de intimidação, e as acusações de violação de direitos autorais, por ter usado o mascote do Pan para denunciar a violência policial, não teriam o menor fundamento, já que outros cartunistas também utilizaram a marca para fazer “gozações” e nada aconteceu.

6.6. A política do caveirão: o blindado da polícia que diz que vai levar a alma das pessoas A política do caveirão também é apresentada como um dos dispositivos mais emblemáticos da política de segurança que vem sendo implementada, desde a década de 90, pelos governos do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um automóvel militar de combatente utilizado pelas Polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro nas incursões às favelas e outros espaços populares compreendidos como “focos de perigo” em razão da presença de “bandidos”. Contra o terror dos bandidos é oferecido aos moradores desses territórios o terror da polícia. Este automóvel, que se tornou o símbolo da política do confronto do governo Sérgio 255

Cabral, também ficou conhecido como blindado e pacificador. É equipado com alto-falantes e duas camadas de blindagem (a máxima permitida no Brasil). É munido de uma torre de tiros rotatória capaz de girar 360 graus e dispõe de cavidades laterais para tiros estratégicos. Possui janelas retangulares, de tamanho reduzido e à prova de bala. O para-brisa do caveirão leva uma chapa de aço que serve de proteção durante tiroteios. O automóvel é totalmente preto, com vidros fumê e marcado pelo símbolo sinistro do Bope: uma caveira empalada numa espada sobre duas pistolas douradas. Expressa de longe o confronto, a guerra e a morte. Inicialmente utilizado apenas pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE), o “blindado” agora vem sendo usado em vários Batalhões de Polícia Militar e pela Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil. O caveirão tem capacidade para até 12 pessoas com armas pesadas. Os pneus são revestidos com uma substância glutinosa que impede que sejam furados. As quatro portas travam e não podem ser abertas pelo lado de fora. Dois alçapões de escape, um na torre e outro no piso, podem ser usados em emergências.

Figura 4: Mãe com filho baleado por policial e o caveirão ao fundo. Charge do cartunista Latuff utilizada por movimentos sociais em campanhas contra o uso do caveirão pela polícia do estado do Rio de Janeiro. A Anistia Internacional chegou a elaborar um relatório em 2006 intitulado “'Vim 256

buscar sua alma': o caveirão e o policiamento no Rio de Janeiro”. Logo na página de introdução, consta o seguinte depoimento de uma moradora do Caju sobre o caveirão:
Imagine um carro oficial blindado, tendo como distintivos uma caveira e uma espada, com policiais que entram atirando nos postes de iluminação primeiro e depois nos moradores do seu bairro... isto é o caveirão. Um garoto de 11 anos teve a cabeça arrancada do corpo com os tiros que partiram do caveirão. E nós, moradores, ainda temos que provar que foi a polícia. (Moradora do Caju, Rio de Janeiro, 2 dezembro 2005. In: Anistia Internacional. Relatório “Eu vim buscar sua alma”. Rio de Janeiro/Londres, 19/07/2006)

Ainda segundo informações do Relatório da Anistia Internacional, o modelo inicial do caveirão custou R$ 135.000,00, e, apesar do alto valor, tem sido adquirido por governos de outros estados, como Santa Catarina, que, em 2004, realizou a compra de um blindado. Planejado para ser usado em situações “especiais”, de “exceção”, seu uso tem praticamente se tornado regular. A Anistia Internacional afirma ter recebido relatos de moradores dando conta de que o caveirão entra em favelas atirando a esmo e colocando a vida das pessoas em risco, que têm que sair correndo para escaparem com vida. O trecho a seguir, do Relatório da Anistia, descreve um dia de terror na favela de Acari, protagonizado pelo caveirão:
No dia 1° de setembro de 2005, a favela de Acari viveu um dia de terror, quando o BOPE montou um ataque-relâmpago com o caveirão. De acordo com relatos de alguns membros da comunidade, durante o ataque-relâmpago, um rapaz de 17 anos, Michel Lima da Silva (Michelzinho) levou um tiro na cabeça. Seu corpo foi então içado num gancho no caveirão que transitou pela favela, exibindo o cadáver e exigindo dinheiro pela entrega do corpo. Sancleide Lima Galvão, de 46 anos, morreu cerca de uma hora depois de Michelzinho. Ela estava sentada nos degraus de sua loja de roupas com o neto no colo, e seu filho, que estava tocando violão, ao seu lado. Quando o caveirão virou a esquina, uma bala atingiu Sancleide no peito, por pouco não atingindo seu neto. Ela havia batalhado incansavelmente para melhorar as condições no bairro Fim do Mundo na extremidade da favela de Acari. (Anistia Internacional. Relatório “Eu vim buscar sua alma”. Rio de Janeiro/Londres, 19/07/2006)

Há registros de que os alto-falantes, localizados na parte externa do veículo, anunciam aos moradores a chegada do caveirão e se comunicam com frases das mais variadas, como: “Senhores moradores, estamos aqui para defender a comunidade. Por favor, não saiam [de casa], é perigoso”; “Crianças, saiam da rua, vai haver tiroteio”; “Se você deve eu vou pegar sua alma”; “Ei, você aí! Você é suspeito. Ande bem devagar, levante a blusa, vire... pode ir”. O tom e a linguagem agressivos e hostis têm provocado efeitos traumatizantes nas favelas, principalmente nas crianças, que passam a sofrer com problemas emocionais e psicológicos; o medo do “bicho papão” tem sido substituído pelo medo do caveirão. Há inclusive no relatório 257

referências a casos de crianças que urinam na roupa toda vez que vêem um caveirão. Ao final do Relatório, a Anistia Internacional resume suas principais preocupações:

O caveirão muitas vezes é usado em operações que fazem uso excessivo de força, infringindo o Artigo 3 do Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, das Nações Unidas, que afirma que só se deve usar força quando estritamente necessário e que “a força usada não deve ser desproporcional aos objetivos legítimos a serem alcançados”. O caveirão é usado como parte de uma estratégia geral de policiamento discriminatório para intimidar comunidades inteiras, através de tiroteios a esmo, o uso agressivo de megafones e o simbolismo ameaçador (o emblema da caveira). Longe de dar proteção, o caveirão é detestado pelas comunidades nas quais é usado, que temem e ressentem a forma insensível e desrespeitosa do policiamento dos seus bairros. As operações que usam o caveirão colocam em perigo as vidas dos residentes, vários dos quais foram mortos ou feridos por balas atiradas pela polícia de dentro do caveirão. O uso de equipamento de estilo militar agravou ainda mais a corrida às armas entre a polícia e as gangues de traficantes, contribuindo para a escalada da violência e dos abusos dos direitos humanos. O caveirão oferece anonimato aos policiais, tornando muito mais difícil a instauração de processos contra eles. (Anistia Internacional. Relatório “Eu vim buscar sua alma”. Rio de Janeiro/Londres, 19/07/2006)

A Anistia Internacional conclui o relatório “clamando” que as autoridades estaduais deixem de usar o caveirão para matar indiscriminadamente, intimidar comunidades inteiras e realizar operações policiais violentas, envolvendo o uso excessivo da força.

6.7. As megaoperações policiais e o excesso de uso da força Outro dispositivo que compõe o repertório da militarização da segurança pública e dos territórios da pobreza, e que aparece denunciado pelos acusadores do Estado, de seus agentes e suas instâncias, é a realização de megaoperações policiais sob pretexto de repressão ao tráfico de drogas. Mais uma vez o excesso da força aparece como alvo da denúncia. São operações marcadas por uma grande quantidade de agentes das forças de segurança estadual e federal (incluindo as polícias militar, civil e federal), com uso de armamentos de guerra e com ampla cobertura midiática, muitas vezes sendo transmitidas em tempo real. Essas megaoperações, segundo as autoridades da segurança pública, têm como objetivo “uma ação pacificadora para erradicar a força armada”. Nota-se aqui mais uma vez a presença da linguagem da guerra e da erradicação (Das, 2008a) como justificação para intervir de maneira violenta. Dois exemplos recentes são as megaoperações ocorridas no 258

Complexo do Alemão, no dia 27 de junho de 2007, e na favela da Coréia, em 17 de outubro de 2007. No primeiro caso houve uma matança, enquanto o segundo notabilizou-se pelas imagens, exibidas em tempo real, que mostravam um policial atirando de um helicóptero e matando um “traficante”, que corria como um animal em perseguição para não ser abatido. Os advogados argumentam, no entanto, que há um paradoxo pelo fato de que estas “ações para erradicar a força armada” acabam na maior parte das vezes produzindo ações policiais com alta letalidade, e acionam novamente um artigo do sociólogo Ignácio Cano, intitulado “Política de segurança a sangue e fogo”, publicado no jornal O Globo, do dia 24 de agosto de 2007, em que este apresenta as seguintes ponderações e questionamentos:
Não se discute que um dos principais legados que um governo poderia deixar no Rio seria libertar as comunidades carentes do domínio dos narcotraficantes e de qualquer outro grupo armado irregular. O que está em discussão é como e a que custo. Operações como as do Alemão precisam responder a três questionamentos. O primeiro é se elas são realizadas dentro da lei. O segundo é se elas compensam os danos e a insegurança (balas perdidas, crianças sem escola etc.) causados àquelas comunidades as quais, em tese, se pretende proteger. O terceiro é que tipo de plano existe para garantir que, depois de intervenções policiais desse porte, que não podem ser mantidas indefinidamente, o controle do tráfico não será retomado.

Para reforçar a linha de argumentação de que o padrão “pacificador” das megaoperações policiais tem mobilizado um grande número de policiais e deixado um elevado saldo de mortos, sempre apresentados como “traficantes”, é apresentada também pelos autores da denúncia uma seleção de casos noticiados pela mídia, todos referentes ao ano de 2007:

Operação policial no Rio deixa 5 mortos Tiroteio no Complexo do Alemão pára trânsito e deixa dois mortos Madrugada violenta deixa dois mortos no Complexo do Alemão Desvio de fuzis: 500 PMs poderão depor No terceiro dia de ações policiais depois do Pan, 20 morrem em 24 horas segundo IML Jovem baleado na Grajaú-Jacarepaguá será enterrado na quintafeira Polícia mobiliza 500 homens, mata duas pessoas e prende 9 Mãe que levava filhos para escola é morta durante operação policial no Jacarezinho Megaoperação em Vigário Geral deixa cinco mortos e sete feridos Operação policial deixa 4 mortos no Rio Moradores do Muquiço dizem que jovens foram executados

O Globo OnLine 06/03/2007 O Globo On Line 15/05/2007 O Globo On Line 23/06/2007 O Globo OnLine 15/07/2007 O Globo OnLine 01/08/2007 Portal G1 01/08/2007 Folha de S. Paulo, 11/08/2007 O Globo On Line 15/08/2007 O Globo OnLine14/08/2007 Terra Notícias 15/08/2007 O Globo OnLine 24/08/2007

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Mãe acusa PMs de matar portador de deficiência mental no Rio de Janeiro Sete morrem em ação policial no RJ Suspeita de envolvimento com tráfico de drogas leva 52 PMs para a cadeia Operação da PM no Complexo do Alemão deixa três feridos Ação policial deixa três mortos no Complexo do Alemão Operação policial deixa sete suspeitos mortos em favela do Rio Operação da polícia termina com 2 mortos e 2 presos no Rio Megaoperação policial em favelas do Rio deixa 12 mortos Polícia mata Thiaguinho, traficante acusado de assassinar policial e universitária Operação policial em Vigário Geral deixa dois mortos Operação do Bope na Favela da Rocinha deixa mais de duas mil crianças sem aula Operação deixa três mortos em Realengo

Folha de S. Paulo, 28/08/2007 O Tempo, 04/09/2007 O Globo, 17/09/2007 O Tempo, 20/09/2007 Agência Brasil 26/09/2007 Bol Notícias 03/10/07 Folha On Line 03/10/2007 O Globo On Line 17/10/07 O Globo On Line 31/10/2007 O Globo On Line 31/10/07 O Globo On Line 31/10/07 O Globo On Line 01/11/07

Os autores da denúncia ressaltam ainda que, além dos mortos nas megaoperações, amplamente divulgados nos veículos de comunicação, há inúmeros homicídios e desaparecimentos que não são registrados pela mídia, mas que fazem parte do cotidiano dos moradores de favelas. Para mostrar a desproporção entre o número de civis mortos pela polícia e o número de policiais (militares e civis) assassinados, são citados dados divulgados pelo jornal Folha de São Paulo, em 16 de julho de 2007. Segundo estes dados, na gestão Sérgio Cabral, a proporção de civis mortos para cada policial assassinado é quatro vezes maior que a média internacional. Para cada grupo de 41 pessoas mortas pelas força de segurança do Estado morre um policial. Segundo a reportagem da Folha de São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública diz reconhecer que o número de pessoas mortas pela polícia é alto e que isso se deve à adoção de uma postura “mais ativa” do governo. A reportagem traz ainda a opinião de especialistas consultados pelo jornal. José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da PM, ex-secretário nacional de Segurança Pública e diretor do Instituto Pró-Polícia, observa que: “Quando passa da taxa de dez civis mortos para um policial e, principalmente, acima de 20 para um, não há dúvidas de que há excesso de força e execuções”. Outra entrevistada pela reportagem, a socióloga Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Cândido Mendes (Cesec), afirma que “o caso [de uso de força excessiva pela polícia] do Rio é não apenas o mais grave do Brasil, 260

Durante o trajeto. correram para sala para ver o que se tratava. Nas imediações do local conhecido como Areal. A metáfora da guerra havia sido efetivada. carros queimados. A polícia de Portugal. matou só uma pessoa em 2006. mas uma guerra onde as baixas são apenas de um lado. Segundo informações apresentadas pelos advogados no texto-denúncia e na sessão de instrução. O Complexo do Alemão é formado por 16 favelas e está localizado na zona norte do Rio de Janeiro. A megaoperação policial no Complexo do Alemão O caso mais emblemático das megaoperações policiais no Rio de Janeiro.1. ainda crianças. no dia 28 de junho de 2007. que matou 375 em 2006. Só a polícia do Rio mata mais que a polícia dos EUA inteira. um dia após a operação policial. além de nove feridos. em uma população de 300 milhões de pessoas. um morador informou que. Uma comissão de entidades e defensores de direitos humanos esteve na comunidade da Grota. civis e membros da Força Nacional. apresentado no Tribunal Popular foi a megaoperação policial no Complexo do Alemão. repúdio e repercussão internacional. deixara de ser metáfora para se tornar política realizada. região onde ocorreu o maior número de mortes. estavam escondidos dentro do banheiro da sua casa tentando se proteger dos tiros. durante a entrada da polícia. Os moradores também foram ouvidos e relataram a violência a que foram submetidos no dia anterior. ele. sendo que. casas incendiadas e lojas saqueadas”. foram contabilizados 44 mortos e 81 feridos durante as operações policiais militares no Complexo do Alemão. país com população semelhante à do Rio. contra 1. entre o dia 2 de maio e 17 de agosto de 2007.como o mais grave do mundo. O massacre do dia 27 de junho de 2007 representou o ápice de um período marcado pelo confronto sistemático. 6. no dia 27 de junho de 2007.063 do Rio”. que os acompanharam numa caminhada pelas ruas das favelas. participaram da megaoperação mais de 1300 (mil e trezentos) militares. As operações suscitaram indignação. Foram observados “rastros de sangue pelo chão. colchões e fios utilizados para remover corpos.7. Os integrantes da comissão se encontraram com presidentes das associações de moradores de diversas “comunidades” que formam o Complexo do Alemão. sentindo então 261 . sua companheira e seus três filhos. o que se viu foi um cenário de guerra. A taxa de mortos é realmente digna de uma guerra. e resultou na morte de 19 pessoas. no Complexo do Alemão. em determinado momento eles perceberam uma fumaça. incluindo crianças.

Nesse sentido. Uma bomba de pimenta tinha sido jogada dentro da casa. muitos moradores relataram que policiais colocaram armas na cabeça de crianças e jovens.que seus olhos e boca começavam a arder. não foram realizados. Segundo a moradora. de que ocorreram execuções sumárias. Relatou que os policiais roubaram seu celular. “perguntando se sabiam o que acontecia com quem era do bando do Tota”. vários peritos foram convidados a se manifestar tecnicamente sobre os fatos. com 78 tiros desferidos. “eles são abusado demais. Em suas conclusões o médico legista ressaltou que exames complementares. para se chegar à conclusão se houve ou não execuções sumárias. que identificaria se houve disparos a curta distância”. Diante dos desacordos na interpretação e explicação dos acontecimentos.. Isso levou ao entendimento. Também não foram usados equipamentos adequados. Ele relatou que ligou o ventilador e colocou seus filhos para respirar próximos ao aparelho em uma tentativa de aliviar a ardência dos olhos e bocas das crianças. “a chamada 'orla de tatuagem'. como. impossibilitando a localização de projéteis nos corpos. que chegaram despidas ao IML. Ela encontrou cartuchos de balas dentro de casa. sequer a preservação dos mesmos”. O balanço da megaoperação policial no Complexo do Alemão constatou 19 pessoas assassinadas. As crianças que apanharam ficaram escondidas dentro do banheiro. a máquina de raio-X estava inoperante. aparelho que lhe auxiliava em seu trabalho. Isso impossibilitou a verificação de marcas de pólvora. O morador contou que foram horas de pânico enquanto eles estavam sufocados com a fumaça da bomba de pimenta. exame nas vestes das vítimas. sendo que 32 foram disparados pelas costas das vítimas. O perito salientou ainda que “não houve realização de exames no local das mortes. As conclusões foram semelhantes às do perito consultado pela Comissão de 262 . Um dos mais graves relatos foi feito por uma moradora que viu policiais invadirem sua residência – estava escondida na casa de uma vizinha na companhia de seus cinco filhos – e espancarem com um fio duas crianças que lá se encontravam.. De acordo com os moradores.” Segundo a denúncia. por exemplo. uma perícia também foi encomendada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal e elaborada por três peritos. que analisou os 19 laudos cadavéricos produzidos pelo Instituto Médico Legal (IML) do Estado do Rio de Janeiro. os policiais teriam entrado no Complexo do Alemão gritando “eu quero sangue”. os policiais mataram um outro rapaz na sala da casa com uma faca e depois teriam colocado os outros dois para limpar o local. não deixando marcas do que havia acontecido. pois não podiam sair de casa por causa do tiroteio na rua. quase as matando. por parte dos denunciantes. O morador que teve sua casa violada pela bomba de pimenta mostrou ainda um saco plástico com mais ou menos 40 cartuchos de balas colhidos na frente da sua casa após o conflito. eles não respeitam. mais importantes. A Comissão de Direitos Humanos da OAB consultou o médico legista Odoroílton Larocca Quinto. Diferentemente do que divulga a mídia sobre a suposta aprovação dos moradores do Complexo do Alemão em relação da megaoperação realizada. o que a comissão que visitava o local ouviu foram depoimentos unânimes de desaprovação e medo: “Você não imagina quando a polícia [es]tá aqui o que a gente passa”.

Entre seis vítimas havia um total de oito perfurações nos crânios e nas faces. Com as conclusões apresentadas nos laudos periciais. realizada pelo Ibope. apesar de fotos publicadas em jornais apresentarem a presença de populares e jornalistas. como a megaoperação que ocorreu no dia 27 de junho. os responsáveis pela denúncia argumentam que “a não adoção pelas autoridades de segurança pública dos procedimentos técnicos recomendados pelos princípios internacionais de investigação prejudica a produção de provas técnicas necessárias para uma comprovação legal de execução sumária”. Não foram coletadas amostras de sangue das vítimas. disseram não apoiar as invasões da polícia.8 disparos por vítima. Não foram coletados estojos (cápsulas das balas) no local. além de suspeitas de execuções em outros casos. Não foram feitas radiografias nos corpos. A pesquisa do jornal O Globo. no dia 10 de julho de 2007. Os autores da denúncia ainda reservam um espaço no texto para comentar a cobertura do caso pelos veículos de comunicação. finalmente são apresentados os direitos humanos violados: 263 . que chegava a uma constatação diferente: a maioria absoluta (91%) dos 787 moradores residentes nas favelas da Grota. sob o título “População aprova operação policial”. da apresentação dos fatos e da cobertura pelos veículos de comunicação. todas pertencentes ao “Complexo do Alemão”. uma vez que o disparo letal foi dado de trás para a frente. Nestes dois casos. verifica-se a impossibilidade de defesa da vítima. limitando-se a informar apenas que mil pessoas foram entrevistadas entre 3 e 4 de julho. Entre 14 vítimas havia um total de 25 projéteis na região posterior. Cinco vítimas sofreram disparos à queima roupa. Duas execuções comprovadas pela trajetória das balas em vítimas que se encontravam em posição decúbito dorsal. Todos os corpos chegaram despidos no Instituto Médico Legal. Morro do Alemão e Morro dos Mineiros. em parceria com o jornal Fazendo Media. Em contraposição a uma pesquisa divulgada pelo jornal O Globo. • • • • • • • • • • Não houve perícia do local. é citada outra pesquisa realizada pelo Grupo Cultural Raízes em Movimento. Após a contextualização histórica das políticas de segurança pública. Esse é um dos fatores responsáveis pela garantia de impunidade dos agentes de segurança pública envolvidos em atos ilegais. Pedra do Sapo. Houve uma média de 3. é criticada por não especificar a residência dos entrevistados. ainda.Direitos Humanos da OAB.

Nestes dois casos. 5°. Liberdade. Os autores da denúncia também apresentam uma série de recomendações aos governos 264 . Entre seis vítimas havia um total de oito perfurações nos crânios e nas faces. Ubiratan Ângelo: Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Não foram coletados estojos (cápsulas das balas) no local. assinado pelos advogados João Tancredo do IDDH/RJ e Nilo Batista) Diante do conjunto de direitos violados. Direito à locomoção. Direito à convivência comunitária. oferecem denúncia contra crime de lesa-humanidade contra: • • • • • • • Luiz Inácio Lula da Silva: Chefe Executivo do Governo da República Federativa do Brasil. A incolumidade física e psicológica das crianças e dos adolescentes. XLIII da Constituição Federal. uma vez que o disparo letal foi dado de trás para a frente. Crime de lesa-humanidade. verifica-se a impossibilidade de defesa da vítima. apesar de fotos publicadas em jornais apresentarem a presença de populares e jornalistas. Houve uma média de 3. Inviolabilidade de domicílio Art 5º.8 disparos por vítima. Gilberto Ribeiro: Chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Sérgio Cabral Filho: Chefe do Executivo do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Não foram coletadas amostras de sangue das vítimas. Prestação universal do serviço público de segurança. Duas execuções comprovadas pela trajetória das balas em vítimas que se encontravam em posição decúbito dorsal. Todos os corpos chegaram despidos no Instituto Médico Legal. XI da Constituição Federal de 1988 (CF/88) Princípio da legalidade e devido processo legal. Vedação da tortura ou tratamento desumano ou degradante Art.DOS DIREITOS HUMANOS VIOLADOS • • • • • • • • • • Não houve perícia do local. Luiz Fernando Corrêa: Chefe da Secretaria Nacional de Segurança Pública. além de suspeitas de execuções em outros casos. Cinco vítimas sofreram disparos à queima roupa. Luiz Antônio Ferreira: Comandante Geral da Força Nacional de Segurança Pública. Entre 14 vítimas havia um total de 25 projéteis na região posterior. Proteção à vida e dignidade da pessoa humana. José Mariano Beltrame: Chefe da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. • • • • • • • • • • • (Texto-denúncia apresentado na Sessão I de Instrução. e demais moradores das comunidades atingidas. os advogados João Tancredo e Nilo Batista. os representantes dos movimentos sociais e da sociedade civil que subscrevem a denúncia. Não foram feitas radiografias nos corpos. ainda.

instrumentos técnico-investigativos. 265 . ter o poder de tomar testemunhos sob pena de perjúrio e requerer documentos sob pena de omissão de provas). 4. da punição de policiais infratores e responsáveis. de modo a incluir homicídio culposo. lesão corporal e tortura. assim como submeter propostas de representação aos promotores. Os ouvidores devem ser autorizados a examinar integralmente cada queixa. as autoridades devem garantir a integridade física e a segurança dos ouvidores e suas equipes. Finalmente. As autoridades brasileiras devem elaborar e regulamentar a criação de órgão de investigação dentro dos Ministérios Públicos estaduais e federais. 5. o uso dos CARROS BLINDADOS pelas polícias militar e civil do Estado do Rio de Janeiro induzindo a uma reformulação das políticas governamentais de segurança pública para uma estratégia pautada na inteligência policial e no policiamento sócio-comunitário. fim do uso do caveirão. bem como ampliação e modernização de sua estrutura e desvinculação dos setores periciais da área de Secretaria da Segurança Pública. 7. inclusive delegacias e outros centros de detenção para conduzir investigações completas e independentes. 6. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de efetivação do Controle Externo da Atividade Policial pelo Ministério Público e criação de órgãos de investigação independentes. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de DESAUTORIZAR. além de recursos suficientes para sua capacitação e desempenho competente das funções.federal e estadual e demais autoridades públicas. que tratam desde as formas de treinamento e abordagem policial. intimar testemunhas e investigar repartições públicas. através de utilização de policiamento preventivo. entre outras instâncias. 2. Abaixo segue a íntegra das recomendações: RECOMENDAÇÕES 1. e do controle e fiscalização de armas. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de dar plena autonomia e independência as Corregedorias e Ouvidorias de Polícia. os ouvidores devem ter o poder de requisitar judicialmente pessoa e documentos (ou seja. independência dos Institutos Médico Legais. das Corregedorias e Ouvidorias de Polícia. Estes órgãos devem estar autorizados a requerer judicialmente documentos. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de adoção por parte das autoridades da segurança pública do Estado de um plano semestral de redução de homicídio. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de valorização do enfoque preventivo. ao invés de investir simplesmente na representação aos crimes já ocorridos. por completo. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de dar independência e controle social dos Institutos de Medicina Legal. ampliando a capacidade do sistema de justiça e segurança pública de evitar a ocorrência de danos. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de APROVAR o projeto de Lei que prevê a ampliação da competência da justiça comum na elucidação e no julgamento dos crimes praticados por policiais militares em suas atividades de policiamento. comunitário e permanente que vise a redução de danos. 3. Além disso.

identificação de impressão digital e identificação fotográfica. 14. 11. usados pela polícia através da ampliação do uso de sistemas como o GPS. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de melhorar a remuneração dos policiais e busca de alternativas como o pagamento de horas-extras para evitar os “bicos” dos policiais. 16. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de elaborar rigoroso estatuto sobre abordagem de suspeitos. greves e outros eventos com multidões. identificação balística. com modernização e capacitação da polícia técnica e científica. 18. 17. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de implementar um programa eficaz de proteção à testemunha e vítimas da violência. 9. 13. e estabelecimento de convênios com as Universidades para formação do corpo policial. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido da não utilização de armas de fogo em operações como reintegração de posse. a fim de reduzir o número de vítimas fatais durante esses procedimentos e unificação progressiva das Academias e Escolas de Formação.para diminuir ações vingativas. forma de abordagem.). Todos aqueles que defendem os direitos humanos. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de facilitar os relatos de abuso. até que se investigue as motivações e proceda a necessária avaliação psicológica do envolvido. 15. devem ter acesso a um procedimento efetivo para apresentação das queixas sem medo de represálias. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de treinamento para todos os policiais no emprego de técnicas não letais nas operações policiais (tiro defensivo. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de modificar os regulamentos policiais para que agentes que sofram atentados ou que de alguma forma estejam envolvidos com o episódio não continuem participando das investigações. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de ampliar a capacidade investigativa da Polícia Civil. estádios de futebol.8. criação imediata dos sistemas de rastreamento de armas e de veículos. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de criação de programas que retirem das ruas policiais que se envolverem em eventos com resultado de morte. inclusive os oficiais. assim como garantia de investigações isentas e apuração de todos os casos de ameaça à vida e integridade pessoal denunciados por testemunhas. 12. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de criar um único órgão de informação 266 . assim como todos os que tiverem direitos humanos violados. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de garantir a investigação policial e a comunicação obrigatória ao ministério público para qualquer caso de execução dentro das prisões. etc. 10. Tais queixas deveriam ser automaticamente levadas às divisões de direitos humanos dos Ministérios Públicos estaduais.

durante a fase de investigação. em especial aquelas que visam restringir direitos e garantias individuais. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de priorizar o combate dos homicídios dolosos com policiamento investigativo e preventivo e repressão sistemática aos grupos de extermínio. com objetivo exclusivo de combater o crime organizado. em caráter de imprescindibilidade. o agente penitenciário ou policial acusado de tortura. homicídio ou corrupção. José Luís (Acari). prevenir e inibir a prática de delitos cometidos por agentes do Estado. Que a Organização das Nações Unidas (ONU) recomende ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de afastar. todos familiares de vítima do Rio de Janeiro. imediatamente. 6. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de afastar. como a atual tentativa de redução da idade mínima de responsabilização penal (maioridade penal). Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de apuração e conclusão dos inquéritos policiais arquivados permitindo o acesso à justiça aos familiares de vítima de violência institucional. e subsidiar o planejamento estratégico da ação policial. Marilene (Mães de Acari).e inteligência. [Grifos do original] (Texto-denúncia apresentado na Sessão I de Instrução. imediatamente. 23. sob controle do executivo e com Regimento Interno único. durante a fase de investigação. 19. Recomenda-se ao Governo da República Federativa do Brasil e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro que sejam tomadas medidas no sentido de impedir quaisquer tentativas de mudanças nas cláusulas pétreas da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. assinado pelos advogados João Tancredo do IDDH/RJ e Nilo Batista) Em relação às violações de direitos humanos no estado do Rio de Janeiro. Márcia Jacintho (Lins de Vasconcelos). No rol de testemunhas arroladas no processo estão: Lúcia (Complexo do Alemão). o agente penitenciário ou policial acusado de tortura. 22.8. 21. os representantes jurídicos dos denunciantes requerem ainda a notificação de vítimas e testemunhadas para deporem no plenário. A sessão final de acusação e defesa do Tribunal Popular A presidência da mesa que conduziria os trabalhos da sessão final foi composta coletivamente por Hamilton Borges – Membro da Associação de Familiares e Amigos de 267 . homicídio ou corrupção. foram basicamente estas as denúncias oferecidas contra o Estado brasileiro perante o Tribunal Popular brasileiro. 20. Vinculado ao cumprimento das referidas recomendações.

E como o Estado não havia mandado representante para sua defesa. Plínio pediu a pena máxima: a destruição do Estado burguês e em seu lugar o poder popular. E essa condenação moral dele [do Estado]. mas o Estado está corrompido de uma tal maneira que nenhuma reforma o salvaria. uma cadeira vazia representava simbolicamente o Estado brasileiro. O Estado brasileiro. Ela é a grande motivação pra nós fazermos a condenação que está nas nossas mãos. ao fazer tal afirmação.. Ao pedir a pena para o Estado. Nós aqui. a efetivação dessa pena. [Fala de Plínio Arruda Sampaio na sessão final do Tribunal Popular]. Ele também ressaltou a necessidade das entidades e dos movimentos participarem ativamente da política. que é a condenação política. pediria uma reforma do aparelho estatal. que começou sua defesa elogiando o acusador. execução sumária. presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (e também ex-promotor público e ex-deputado federal constituinte). insuficiência no gasto social nas periferias pobres da cidade. Plínio passou a acusação. é acusado de: tortura. e dizendo que se encontrava numa situação delicada tendo que defender o Estado naquela situação. mas sim de uma política pública de extermínio da população “excedente”. Assim. vale pra nós. e Kenarik Boujikian. Depois de uma breve retrospectiva das sessões anteriores. o promotor expressou exatamente os argumentos que geralmente são utilizados na defesa de policiais acusados de homicídios ilegais e. ela ficou a cargo do promotor Roberto Tardelli. Nós vamos através da condenação política tirá-los do poder. Tem o seguinte problema: quando o Tribunal da Justiça impõe uma pena. Seu argumento era que o Estado realmente deveria ser julgado por crime doloso. qual é a eficácia da nossa pena. afirmando que o Estado deve ser julgado por crime doloso. pois os casos comprovavam que não se tratavam de casos isolados. A condenação política. No lugar do réu. ela é feita pela polícia. Dentro da encenação do ritual judiciário. A acusação final ficou a cargo de Plínio de Arruda Sampaio. se fosse pedir uma pena média.Presos e Presas da Bahia e militante do Movimento Negro Unificado. tratamento desumano de presos e menores.. 268 . recebeu uma grande vaia do público. E o Estado cometeu o delito de criminalização da pobreza e não tem idoneidade moral para conduzir o povo brasileiro. juíza e diretora da Associação de Juízes para a Democracia.Olha! Então. a eficácia dessa pena. mas as mortes têm uma justificativa: são consequências do combate ao crime. ela é feita pelo oficial de justiça. Plínio argumentou que. como forma de enfraquecer o Estado burguês. no banco dos réus. coordenadora do Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (SP). A nossa pena é uma condenação moral. o cidadão é preso. Valdênia Paulino. Mas prosseguiu sua defesa concluindo com um pedido de pena média ao Estado.

Kenarik Boujikian. presidente GrupoTortura Nunca Mais-RJ. através da ação ou omissão de seus poderes. assim que acontecesse alguma violação de direito por parte do Estado. Marcelo Freixo. José Arbex Jr. que julgou que “o Estado brasileiro é implementador e sujeito ativo das políticas neoliberais.. diretor do Fórum Permanente de Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo. A posição do júri foi unânime em condenar o Estado. militante de movimento indígena.” Ainda segundo a juíza. Marcelo Yuka. Cecília Coimbra. pedindo que todos aqueles que condenassem o Estado brasileiro ficassem de pé. Maria Rita Kehl. A fala final foi da juíza e diretora da Associação Juízes para a Democracia. escritor e MC. Todos se levantaram e. o caso fosse julgado no Tribunal Popular. Muitas das falas dos jurados destacavam a importância da organização e da mobilização para monitorar. filósofo. metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operaria da Arquidiocese de São Paulo. Em sua fala. Terminou propondo uma votação. Ferréz. músico. Ivan Seixas. com uma salva de palmas. também foi convidado. mostrou as faces ocultas e não ocultas do Estado. emergiu o grito 269 . Wagner Santos. A sessão final também teve uma participação especial de Kali Akuno. que utiliza o instrumento do medo para que o povo não queira alterar a ordem das coisas. e convidado como observador internacional. Bispo Emérito da cidade de Goiás Velho e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra. seja através dos tiros disparados pela polícia ou da não garantia de condições básicas para uma vida digna da maioria da população. Waldemar Rossi. Alguém chegou a propor que o Tribunal Popular fosse um espaço permanente. Paulo Arantes. coordenador do Black Panthers e Grass Roots Mouvement (EUA). sobrevivente da chacina da Candelária. de modo que. jornalista e escritor. mas não pôde comparecer. integrante da Associação de Familiares e Amigos de Presos e Presas da Bahia. denunciar e impedir a violação de direitos por parte do Estado. membro do Centro de Étnico Conhecimento Sócio-Ambiental Cauieré. Entre os convidados estavam: Adriana Fernandes. A composição dos jurados buscava representar a diversidade da sociedade civil e dos movimentos sociais. segundo ela. Índio Guajajara. Dom Tomás Balduíno. Kenarik fez uma retrospectiva das sessões. professor aposentado da USP. psicanalista e escritora.Em seguida vieram as avaliações dos jurados sobre os crimes a serem julgados. deputado estadual PSOL-RJ. o medo é um instrumento utilizado pela globalização hegemônica e seu principal meio é a repressão penal. Todos consideraram que o Estado tem descumprido as normas dos Direitos Humanos. destacando os testemunhos das vítimas que. músico e compositor.

o ato culminou numa vigília em frente ao Tribunal de Justiça e. em frente à Faculdade de Direito. como a das artes. Cada entidade com seus símbolos e palavras de ordem. Apresentações de grupo de teatro e de hip hop. houve uma caminhada seguida de vigília na frente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Com fotografias. cartazes. exibição de vídeos. faixas. denunciavam a continuidade histórica da violência estatal: a violência estatal da ditadura civil-militar e a violência contra os pobres de hoje. movimento do Rio de Janeiro. realizações de reuniões políticas. a religiosa e a política. foi a realização de uma caminhada da Faculdade de Direito da USP (no Largo São Francisco) até o Tribunal de Justiça de São Paulo (na Praça da Sé). em seguida. Entre os textos das faixas lia-se: “31de março – Golpe Militar de 1964 / 31 de março – Chacina da Baixada em 2005 / A ditadura continua na violência contra os pobres”. no dia 05 de dezembro.coletivo de: “Viva!”. encerrou-se na escadaria da Igreja da Sé. lançamentos de livros e relatórios de denúncia. nem remoção: favela é cidade”. criticava-se a violência policial e a política de remoções de favelas no Rio de Janeiro. que reproduziam e teatralizavam o ritual judiciário. no dia 04 de dezembro de 2008. nós queremos paz para continuar vivos”. Outra faixa trazia os dizeres: “Os ricos querem paz para continuar ricos. no chão foram expostos banners com fotos de vítimas e várias faixas da Rede Contra a Violência. Após a sessão final. além das sessões de instrução.9. Mateus. Durante a concentração. A própria diversidade dos atores presentes em cada situação definia a pluralidade de linguagens usadas e expressas em cada momento e formato do evento. 6. velas acesas. Caminhada e vigília: ato em memória das vítimas da violência estatal Durante os dias de realização do Tribunal Popular. Desse modo. Essa faixa trazia a seguinte frase: “Nem caveirão. Poderíamos dizer que as sessões de instrução eram as atividades principais do evento. Existiam duas formas de expressão da voz: a voz que se expressava dentro do ritual judiciário e a voz que se expressava através de outras linguagens. palavras de ordem e consígnias de protesto. Uma dessas atividades realizadas nos marcos da programação do “Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no Banco dos Réus”. no Rio de 270 . Uma terceira faixa foi utilizada para aproveitar a ocasião e expressar no espaço público o tema da integração das favelas à cidade e se posicionar contrariamente à política de remoções. e as demais. atividades complementares. Durante os dias de realização do Tribunal Popular. um garoto morador da Maré. ocorreram outras atividades culturais e políticas. mais uma vítima do Estado foi somada às estatísticas.

como. assim como várias outras. consequência das práticas englobadas pela categoria violência urbana. que interpreta as mortes violentas e o sofrimento provocado pela violência policial ou pelo crime violento como frutos da luta de classes. Os manifestantes concentraram-se em frente ao Tribunal de Justiça. No relato abaixo. os militantes se engajam pela via de uma compreensão política da luta de classes. foi lembrada durante a vigília. e contra as classes trabalhadoras e populares. O chão se transformou em um tapete com banners. ser visto e compreendido como defensor de bandido. segundo porque muitos familiares de vítima acabam abrindo mão de denunciar seus casos porque no fundo compartilham do entendimento de que futuro de bandido é a morte precoce e o fato de ter se envolvido com a criminalidade retira-lhe todos os direitos.9.1. pela via do amor materno e dos laços de parentesco. Se os familiares se engajam pela via do conhecimento venenoso. Como consequência de uma sociedade capitalista. O clima foi marcado por muita emoção e muito choro.Janeiro. em que os aparelhos repressivos do Estado. Morte violenta. faixas. os militantes se engajam por razões e convicções político-ideológicas. fotos. estão a serviço dos poderosos. Alguns familiares queixam-se em seus relatos de que se apresentam como defensor de direitos humanos pode soar mal. enunciar a voz para dizer o contrário é correr o risco de ser acusado de cumplicidade com a “bandidagem”. por exemplo. coloca em movimento vários atores sociais. agindo em diferentes regimes de ação. movimento crítico e engajamento político A morte violenta. Familiares de vítima e militantes de direitos humanos fizeram falações lembrando as vítimas e responsabilizando o Estado pelas mortes. velas. decorrente de uma operação policial. havia saído de casa para ir à padaria comprar pão e levou um tiro. que se veem ameaçados constantemente. Sua morte. Enquanto os familiares se engajam na luta por justiça e contra a violência policial. inclusive o direito de a família enterrar o corpo do filho. ela denuncia que o enraizamento e aceitação desse tipo de pensamento e mentalidade constituem um duplo obstáculo: primeiro para o trabalho dos defensores de direitos humanos. de uma mãe de vítima. Como boa parte da população da cidade (principalmente as camadas abastadas e as camadas médias. mas também entre segmentos populares) compartilha do entendimento que bandido bom é bandido morto. 271 . principalmente do poder econômico. 6. pode produzir consequências negativas.

Ser familiar de vítima não significa necessariamente tornar-se um militante dos direitos humanos. que era uma forma. porque não é nem a família. ponto de contato entre “violência urbana” e “direitos humanos”. buscando fornecer um repertório de críticas sociais e políticas aos familiares e promover uma politização do sofrimento. tem essa coisa de achar que ele tem que morrer mesmo. para estes autores. ele vai morrer mesmo. Não existe. se meu filho está dentro do tráfico. não pensa nem na prisão. A politização do sofrimento consiste. O Tribunal Popular foi um espaço político de encontro entre as duas lógicas. e sim como alternativa entre duas linguagens incomensuráveis. ela está infiltrada na sociedade. os registros de 272 . ao mesmo tempo. o sobrinho. Nesse sentido. é uma questão de cultura da própria família que acha que.Uma coisa que eu percebo. Se acha que isso é justiça? Não existe pena de morte aqui. não se cogitando nem mesmo a prisão. Na experiência dos familiares há um ponto de contato entre “violência urbana” e “direitos humanos”. eu acho que há esse conformismo da própria família antes do acontecido: “Não. Nesse caso. eu sou militante de direitos humanos”. Então. E essa cultura. as possibilidades de engajamento dos familiares são reduzidas. Geralmente. em linhas gerais. o Tribunal Popular foi marcado por uma coleção de testemunhos e de casos. é a linguagem do sofrimento. mas ele não se apresenta como mediação ou contradição. Por quê? “Direitos humanos! Direitos humanos é pra bandido!”. Por que isso? Você sabe explicar isso? Assim. na passagem do caso singular ao geral. Da própria família não. Ao apresentar. como intelectuais orgânicos.. Em um primeiro momento você é mal vista. uma condenação. não há nenhum horizonte de direito para quem está envolvido no “movimento”. Que é um caso em que já está preservando a vida. Os militantes. da sociedade. porque é a descrição do detalhe que sensibiliza. para usar o conceito gramsciano. e de situá-lo em algum grau de generalização. eu já estou esperando ele morrer”. Nesse contexto. é a sociedade que cultua que bandido bom é bandido morto. sobretudo. no primeiro capítulo desta tese. A mãe que fala no relato acima chama atenção para o fato de que o envolvimento com o “tráfico” é tido praticamente como sinônimo de morte. na dessinguralização dos casos. ONGs e movimentos sociais atuam. é uma questão de cultura das comunidades. ou dois regimes de ação: a dos familiares e a dos militantes. O que é que tem que acontecer? Uma prisão. Mas eu vejo muito esse conformismo. E aí se cria essa dificuldade quando se chega e você fala assim: “Ah. Por quê? A morte ficou banalizada. destaquei que. O sofrimento é o ponto de interseção entre os familiares para criticarem a violência e ajustaremse à linguagem dos direitos. O sofrimento gerado pela morte do filho pode levar ou não a algum tipo de engajamento. você não consegue mudar isso.. assim. Essa linguagem alternativa. alguns aspectos da teoria de Luc Boltanski e Laurent Thévenot. de considerar o detalhe. geralmente quando as famílias sabem que o filho está envolvido.

no sentido de construir uma coleção de casos que sustente uma crítica à violência promovida pelo Estado. por sua vez. que visa a generalização. estatísticas. cujos objetos correspondem apenas a peças de natureza jurídica. Dentro deste quadro político geral. diferente do caso enquanto forma jurídica. Estes objetos. incluem. Vários objetos são reunidos com o objetivo de fornecer elementos para se produzir uma crítica que seja capaz de ultrapassar os casos específicos e atingir a generalidade. Neste capítulo. ao descrever o Tribunal Popular enquanto um evento político. Os mundos são feitos também de objetos e dispositivos convencionais que podem. na capacidade de generalização. o uso político dos testemunhos dos familiares. o caso enquanto forma política considera como peça tudo aquilo que possa ser arrolado como prova no debate político e moral.justificação de cada cité não dependem apenas de princípios de justiça. 273 . Cada objeto e cada dispositivo manipulado corresponde a uma peça na construção de um caso. Nisto consiste o trabalho de politização. o uso de argumentos acadêmicos. travado no espaço público. assim. são apresentados e trabalhados os casos particulares. charges. tentei identificar alguns dos objetos e dispositivos sobre os quais se apoiam as críticas políticas dos militantes e dos movimentos sociais em interação no âmbito desse espaço político. Só que. entre outros. reportagens. ancorar o modelo de justificação na realidade.

cidade de São Paulo. com os dizeres: “Nem caveirão nem remoção.IMAGENS DA VIGÍLIA Foto 5: Concentração do ato em memória das vítimas da violência estatal em frente à Faculdade de Direito da USP. Faixas e murais com fotografias das vítimas de ontem e de hoje. Foto 6: Faixa da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência/RJ. no Largo São Francisco. favela é cidade”. 274 .

cartazes. bandeiras e instrumentos musicais: objetos do protesto 275 .Foto 7: Faixas de protesto Foto 8: Fotografias.

Foto 9: Luto e protesto: fotos de mortos e desaparecidos de ontem e de hoje Foto 10: Maicon X Justiça Foto 11: O cenário do protesto 276 .

Foto 12: Criança observa e participa da vigília Foto 13: Colocando uma foto no mural Foto 14: Ajeitando a foto Foto 15: Uma ajuda da mãe e o interesse do fotógrafo 277 .

símbolos do protesto Foto 20: A cobertura midiática do ato Foto 21: A chama da esperança 278 .Foto 16: Mural com fotos de presos políticos da ditadura Foto 17: Moradora de rua se junta à vigília Foto 18: Mural com fotos dos mortos e desaparecidos de hoje Foto 19: Vela e foto .

familiar de vítima e desaparecimento forçado. tocar ou converter-se em corpos textuais sobre os quais se escreve esta dor. luto. conforme os usos políticos que dela fazem os atores envolvidos na disputa. a partir do qual analisei as relações entre violência. a de vítima. o desaparecimento forçado foi usado como método de repressão política. o que busquei nesta tese foi aproximar-me do mundo dos familiares de vítimas de desaparecimento forçado. durante a última ditadura brasileira. As histórias analisadas apontaram o envolvimento de policiais. compartilhando as preocupações também colocadas por Veena Das (Das. sofrimento. sofrimento e política. O desaparecimento forçado corresponde. 1995). corresponde a uma modalidade particular de casos que pode ser classificada como desaparecimento forçado. construí pequenos mapas da dor contando as trajetórias dos familiares diante do evento. como alerta Pereira (2004: 15). dentro da problemática geral dos desaparecimentos de pessoas. sendo o desaparecimento tematizado ora como “questão de segurança pública”. A partir das histórias de desaparecimento forçado. Ao percorrer essas histórias e narrativas. entre elas. Para isto. Uma destas figurações possíveis. através de um projeto de lei do senado federal brasileiro. O centro das histórias foi o desaparecimento dos filhos. Argumentei que as possibilidades de abordagem do fenômeno do desaparecimento de pessoas são diversas e a categoria desaparecido engloba uma pluralidade semântica capaz de abarcar situações e circunstâncias bem diferentes. Se.NOTAS FINAIS Longe de querer excursionar pela miséria alheia e consolidar na academia os profissionais do sofrer. várias categorias foram se construindo. Procurei abordar as linguagens da dor através das quais as ciências sociais poderiam olhar. morte violenta. a um “caso particular do possível”. O desaparecimento foi tomado como um evento crítico. Dada esta pluralidade. trabalhada nesta tese. a categoria desaparecido é marcada pela ambiguidade e passível de várias figurações. milicianos e traficantes neste tipo de crime. terror. que atualmente passa por um processo de tipificação penal. compartilhei das histórias e narrativas sobre o terror e o sofrimento destes familiares e também das formas de resistência através das quais se busca reabitar a vida e o cotidiano. ora como “questão de assistência social”. para usar a expressão de Bachelard (1995: 55). de um mundo que se torna estranho pela experiência desoladora da violência. Este foi o fio condutor que nos levou a um emaranhado de temas que trataram de dor. hoje ele corresponde a uma prática do repertório da linguagem da violência urbana. .

conforme as conveniências de equivalência que organizam as ordens de grandeza entre os seres que agem em um mesmo mundo. permite criar uma comunidade emocional que alenta a recuperação das pessoas enquanto sujeito “e se converte em um veículo de recomposição cultural e política” (Jimeno. referentes ao desaparecimento dos filhos e. O testemunho dos familiares é uma das modalidades principais de comunicação e politização do sofrimento. que os familiares de vítimas se constroem enquanto sujeitos da dor e agentes da dignidade. outras vezes. sinônimo de uma morte inconclusa (Catela. por um lado. O tempo é um agente que “trabalha” nas relações. regido pelo mesmo princípio superior comum. O sofrimento e a forma como ele é expresso e socializado ocupam papéis centrais no trânsito entre uma política da piedade e uma política da justiça. numa política da justiça a generalização. é buscada pela via da denúncia pública e da crítica. por outro. É que as emoções que o sofrimento mobiliza no quadro de uma política da piedade são diferentes daquelas mobilizadas no quadro de uma política da justiça. 2008). bem como uma das vias de recomposição cultural e política dos 280 . de resignação e esperança. tentei mostrar como as experiências dos familiares situam-se entre um tempo do choque e um tempo da política. Quando o sofrimento insere-se numa política da piedade. como forma de romper a distância. de passagem de um tempo do choque para um tempo da política. em meio a um sentimento. Ao longo dos capítulos. a atenção tem como foco o infeliz e seus sofrimentos. É neste contexto de liminaridade. por um lado. às vezes. a partir de quem sofre. Crítica e denúncia que se apoiam em provas e objetos. E não é que não haja lugar para a emoção no quadro de uma política da justiça. Se. Se.saudade. 2001). de tensão entre a voz e o silêncio. a dor destrói ou estabelece obstáculos à capacidade de comunicação. neste caso. Por outro lado. por outro. a dor é o meio através do qual a sociedade estabelece sua propriedade sobre os indivíduos. a atenção é orientada face ao perseguidor da vítima. emocional e política. a de uma memória inscrita sobre o corpo. também são histórias que falam de amor e justiça. Já numa política da justiça. As histórias tratam de experiências desenraizadoras cujo limite é a percepção e o sentimento de não pertencer a uma humanidade comum. conforme o argumento de Boltanski. também cria uma comunidade moral. ao mesmo tempo. transformando sentidos e significados das experiências de dor e violência vividas pelos familiares. A comunicação das experiências de sofrimento dos familiares. Enquanto numa política da piedade a tentativa de generalização ocorre pela via do sentimento e da emoção. é também o meio disponível de representar para um indivíduo o dano histórico que lhe tem sido causado. toma a forma de uma descrição dos sintomas individuais. E que.

O testemunho deve ser compreendido tanto no sentido jurídico e de testemunho histórico. pelo desaparecimento. também ganham forma práticas de luto. A vida e a morte correspondem a dois polos entre os quais os familiares se movem. A pessoa em estado de ágape não recorda as ofensas sofridas nem espera boas ações como reparação. 1997). consequentemente. porque raramente há processos judiciais. representada pela maternidade. 2002) mediante o qual familiares engajam-se na luta por justiça. que estabelecem uma relação entre luto e justiça. pela razão de ser família (Godbout e Caillé. são dois acontecimentos marcados por profunda energia moral e emocional. depois estendeu-se para a análise de diversos traumas sociais. o dom da vida é o dom por excelência. envolvendo outros eventos críticos. o sentido jurídico tem sido pouco valorizado.familiares. 2000: 166). É do universo da vida e da morte e dos significados elaborados para estes fenômenos. Para uma mãe. que não tem visibilidade nem importância pública. no sentido jurídico. Afinal. Sair da violência e reabitar o mundo só é possível com a realização do perdão ou da justiça. não tem crime”. O conceito de testemunho recebeu um impulso decisivo com os estudos sobre a experiência concentracionária. A linha divisória que estabelece a passagem dos familiares de vítima de um regime do amor a um regime de justiça é a violação do dom da vida. como é comum policiais dizerem aos familiares. os testemunhos dos familiares que entrevistei têm o sentido de testemunhar a morte violenta. se não tem crime. Contra o direito de matar do Estado é mobilizado o direito à maternidade e o direito familiar. E. a morte violenta do filho significa uma violação do dom de dar a vida. mas é carregado de obrigações. é a mais frequentemente associada à noção de ágape (Boltanski. Para além do sentido jurídico. O amor das mães pelos filhos corresponde a uma forma de amor conceituada como ágape. “não tem corpo. da 281 . No caso dos familiares de vítimas de desaparecimento forçando. A maternidade transfigura-se em um dom violado e essa violação torna-se o idioma de ação (Steil. clandestina e silenciosa. A vida. São as pequenas mortes do dia a dia. que se transformam em práticas reivindicativas de justiça. e a morte. Consequência destas pequenas mortes cotidianas. para muitos impossível e inalcançável. As mães podem perdoar os filhos pelos atos mais violentos que estes cometerem. somada a de dar gratuitamente. a partir da maternidade. por isso a faculdade de perdoar. violação do direito à maternidade. como no sentido de “sobreviver”. No interior da família. A mulher foi em todos os tempos um símbolo do dom. porque o amor materno fundamenta-se na ausência de cálculo e não tem limites. porque a justiça encontra-se em um horizonte muito distante. não tem porque haver testemunho.

Neste sentido. ao subir no terraço de um prédio. Sérgio Cabral. a prima da viúva disse que a família não aceitava o pedido de desculpas e repudiou as explicações do comandante do Bope para o crime: “Mostrar que uma furadeira pode ser confundida com uma metralhadora? Para um policial. 67 67 Depoimento publicado em matéria do portal do jornal O Estado de São Paulo: http://www.cabral-se-desculpa-com-familia-de-homem-morto-por-engano-pelo- 282 . eles atiram” .com.religião. estressados e com medo. não é possível fazer o mesmo em relação a seus assassinos. durante sua folga. porque a polícia goza da permissividade de grande parcela da população para abusar do direito de matar. o exame de vista deve estar ok para poder distinguir os dois. é possível para as mães perdoar os filhos. para consertar um toldo de plástico. supressão ou refundação do direito não podem ser consideradas como momentos jurídicos. Os policiais teriam confundido a furadeira usada por Hélio para reformar o toldo com uma metralhadora. Quando se trata da violência praticada por agentes do Estado. É o que tem feito o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) em várias ocasiões. É praticamente impossível aplicar uma justiça punitiva quando há autorização para o excesso do uso da força e do direito de matar.estadao. Diante do erro da polícia. perdão e ordem jurídica são incompatíveis. que se constituem as gramáticas morais e políticas e os modos de fazer política dos familiares. Se a atitude é suspeita.br/noticias/cidades. O que tem aparecido muitas vezes como equivalente ao pedido de perdão é o pedido de desculpas. Os policiais estão nervosos. que morreu no mesmo instante. ao analisar as políticas do perdão aplicadas como recurso para transição política de regimes autoritários. em um dos acessos ao Morro do Andaraí. quando a reivindicação se der pela via da justiça. A morte ocorreu quando policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) checavam uma denúncia sobre um ponto de venda de drogas nos arredores de uma vila de classe média. a introdução do perdão representa uma forma de negação do direito. Uma destas ocasiões foi a morte de um trabalhador. por sua vez. após mortes de inocentes cometidas por policiais. a neutralização. No dia do enterro. de percepções de justiça e injustiça. e o Estado. Quando se trata da realização da justiça. Se. é difícil realizar a justiça. em 19 de maio de 2010. por outro. Segundos após subir ao terraço um projétil de fuzil atingiu o corpo de Hélio Barreira Ribeiro. tem operado a partir da linguagem da guerra e da metafísica da desumanização. por um lado. Este tem sido um obstáculo enfrentado pelos familiares de vítima de violência no Rio de Janeiro. pediu desculpas à família. principalmente a polícia. o governador do Rio de Janeiro. Como argumenta Lefranc (2005).

como diz uma mãe de desaparecido. 283 . nem mesmo o pedido de desculpas aparece no horizonte de reconhecimento do sofrimento dos familiares. quando o interesse é pensar as forma de gestão e administração de territórios e populações. por um lado. Acessado em 07 de julho de 2012. Esses atores se movimentam ora “colaborativamente” ora em disputa. corpos e pessoas desaparecidas fazem parte da linguagem do confronto entre tais atores. mas compartilham de certas doxas comum (por exemplo. especialmente aquelas que dizem respeito às relações entre violência. Quando não há. que valem a pena serem observadas. que algumas pessoas sejam desaparecidas/“desaparecíveis”). apesar da especificidade. o que eles ouvem é que. é necessário registrar o limite de qualquer generalização que se deseje fazer a partir dessas histórias e da dimensão empírica do material de campo utilizado nessa pesquisa.554423.O pedido de desculpas aparece quando há corpo e evidência absoluta da morte e do erro.0. em nome de algo como o território. pela combinação de variáveis territórios/condição social/atividade/suspeição. Nesse sentido. como não há corpo. Por outro lado. a autoridade. Pelo contrário. *** As histórias apresentadas nessa tese foram selecionadas com o objetivo de se discutir um conjunto particular de questões.htm. Uma primeira questão que gostaria de sugerir é que o desaparecimento forçado de pessoas corresponde a um dispositivo de governo-gestão e que há um campo de continuidades. O ato de desaparecer corpos – enquanto prática-evento. podendo inclusive ser objeto de transação. como no caso dos desaparecidos. Enquanto a justiça não se realiza. Por outro lado. fornece um denominador comum para atores que geralmente são colocados como distintos ou mesmo antagônicos. milícia e “traficantes” se aproximam ou se afastam. Nesses termos. o terror aparece como parte de um mecanismo de poder e bope. se combatem ou cooperam entre si. o lucro do comércio de drogas e serviços e uma diversidade de atividades ilícitas. Nesse sentido. sofrimento e política. que envolve polícia/milícia/ “traficantes”. Polícia. a partir da categoria desaparecimento forçado de pessoas. não há crime. no plano dos perpetradores. há um universo de vítimas possíveis que têm em comum sua vulnerabilidade a esse dispositivo de gestão. os casos considerados apontam para dinâminas mais amplas. não para de crescer no Rio de Janeiro a família dos familiares de vítima.

O excesso é parte de uma economia semântica. cuja linguagem pode ser dirigida ora aos próprios atores em disputa/composição. que podem ter sido devorados. aqueles que sofrem por ele também se constroem nesse processo como vítimas.o desaparecido . da suposição. que podem ter sido esquartejados. além do morto/desaparecido.mas desloca-se para aqueles que sofrem por ele. ora ainda dirigido a sujeitos específicos em condições de vulnerabilidade (territórios/condição social/atividade/suspeição). mas cuja corporalidade não está materializadas mas se faz do rumor. Uma dimensão do terror que emerge nos casos de desaparecimento forçado seria aquela que se inscreve sobre os corpos virtuais: corpos que podem ter sido torturados.não como algo que o extrapola. dos fragmentos. em termos de suspensão da vida. transforma-o em um drama não apenas para a vítima direta . ora a segmentos de moradores de determinados territórios. O excesso que o desaparecimento provoca. 284 . Desse modo.

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ANEXOS .

Durante anos participou das reuniões das Mães da Cinelância na escadaria da Câmara de Veradores do Rio de Janeiro. o marido sumiu quando foi visitar a família que morava numa área dominada por milicianos. também desapareceu. Em alguns casos a citação não ocorrer de maneira nominal. precisando se mudar constantemente em razão das ameaças que sofre. [Maria Regina]: Moradora de uma área na zona norte do Rio de Janeiro dominada por milicianos. tem três filhos. trabalhava como auxiliar de serviços gerais na época em que o filho desapareceu juntamente com mais doze pessoas. [Maria do Retiro]: Moradora de uma área na zona norte do Rio de Janeiro dominada por milicianos. quando uma ossada representando seus restos mortais foram deixados numa madrugada no portão de casa. segundo ela policiais à paisana teriam levado o filho quando este esperava em um ponto de ônibus. O filho ficou desaparecido por um período e após alguns meses encontrou apenas a cabeça do filho no Instituto Médico Legal. [Maria Clara e Rosa]: Maria Clara não tem endereço fixo. após uma briga. [Heloísa]: Moradora do Leblon. filho de Rosa. Vive pequenos períodos de tempo em cada lugar.ANEXO 1 – RELAÇÃO DE ENTREVISTADOS Com o objetivo de situar os entrevistados e suas histórias ou áreas de atuação elaborei uma lista com a relação de entrevistados citados na tese. Conforme o pedido dos entrevistados em alguns casos nomes verdadeiros foram mantidos e em outros substituídos por nomes fictícios. O filho encontra-se desaparecido. [Áureo]: Feirante. quando saíam de um bar. Familiares [Izildete]: Viúva. com um bilhete da milícia. Anos mais mais tarde seu neto. [Maria de Fátima]: Moradora de uma área na zona norte do Rio de Janeiro. [Maria das Dores]: Moradora de uma área dominada por milícia e pastora evangélica. aberto. Um dos filhos desapareceu junto com um colega. mora na zona norte do Rio de Janeiro. . Há suspeita de envolvimento de policiais no caso do filho e da nora desaparecidos. [Maria]: Moradora de uma favela na zona norte do Rio de Janeiro. Dois filhos foram mortos pela polícia e um terceiro e a nora estão desaparecidos. O filho ficou alguns meses desaparecido. o filho foi morto por um policial que trabalhava como segurança numa boate. em um sítio numa região cercada por favelas. A ossada estava sobre um saco preto. mora na Baixada Fluminense. Segundo a versão da mãe traficantes teriam alugado um caveirão e como o apoio da polícia sequestraram 13 pessoas de uma facção rival. após uma abordagem policial. Jamais teve notícias do marido ou encontrou o corpo. O filho ficou desaparecido por um período e após alguns meses encontrou o corpo sem a cabeça no Instituto Médico Legal. valendo-me apenas do relato ou de informações contidas nas entrevistas.

[Celso e Tânia]: Pais da engenheira Patrícia. que era policial. [Leonardo Chaves]: Subprocurador-Geral de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público. [Maria da Glória]: Moradora de uma favela na zona norte do Rio de Janeiro e mãe de um jovem desaparecido em uma chacina cuja denúncia aponta o envolvimento de policiais que atuariam como um grupo de extermínio. [Marilene Lima]: Mãe de uma das jovens desaparecidas no Caso Acari. Segundo os rumores que chegaram aos ouvidos de Maria Cecília. Outros [Simone]: defensora pública que atua na área da criança e do adolescente. [Fábio]: assistente social que atua na ong Projeto Legal. 296 . [Antônio]: advogado que atua na ong Projeto Legal. por um policial vizinho. desapareceu. próxima de sua casa. o filho foi morto por milicianos e o corpo carbonizado. [Amaral]: delegado de polícia lotado numa delegacia na Baixada Fluminense. [Mara e Eloísa] Assistentes sociais da FIA. desaparecida após um acidente na Barra da Tijuca. em Duque de Caxias. moradora de uma área popular.[Maria Cecília e Laura]: Gari. [Maria de Fátima]: Moradora de uma favela na zona norte do Rio de Janeiro e mãe de um jovem desaparecido em uma chacina cuja denúncia aponta o envolvimento de policiais que atuariam como um grupo de extermínio. entretanto o cadáver jamais foi localizado ou identificado. o marido. O filho de 20 anos desapareceu após sair de casa para ir a uma festa da família da namorada. na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os indícios apontam envolvimento de policiais. [Cláudia Helena]: Moradora da Baixada Fluminense. [Isabel Mansur e Rafael Dias]: pesquisadores da ong Justiça Global. o filho foi sequestrado dentro de uma lan house. [Maria Auxiliadora]: Moradora da Pavuna.

por quarenta e oito horas. mas de qualquer . em caráter terminativo. do Senador Vital do Rêgo. portador de necessidade especial. d. do Regimento Interno do Senado Federal. o Projeto de Lei do Senado (PLS) nº 245.ANEXO 2 – PARECER E PROJETO SUBSTITUTIVO DE LEI DO SENADO SOBRE DESAPARECIMENTO FORÇADO SENADO FEDERAL Gabinete do Senador Pedro Taques PARECER Nº . gestante. aumentamos de metade a pena. de 2011. ou da falta de amparo legal. ou tiver diminuída. pretende tipificar o crime de desaparecimento forçado de pessoa. 149-A ao Código Penal. destacamos: Em termos gerais. Da justificação do autor. sua capacidade de resistência (§3º do art. seguida da não informação de sua sorte ou paradeiro. II. DE 2011 Da COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO. cuja aprovação foi realizada pelo Congresso Nacional. de 08 de abril de 2011. sobre o Projeto de Lei do Senado nº 245. 101. Se for superior a trinta dias o desaparecimento. o tipo penal delineado começa com a privação de liberdade de alguém. na esteira da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos proferida no Caso Gomes Lund e outros em 24 de novembro de 2010. De igual modo. merece ser destacado que o Brasil assinou a Convenção Interamericana sobre Desaparecimentos Forçados. Por percepção interna. por qualquer causa. no mínimo. para análise. que acrescenta o art. JUSTIÇA E CIDADANIA. de autoria do Senador Vital do Rêgo. conforme redação proposta). em caráter terminativo. A proposição legislativa em exame. não fixada em instrumentos internacionais. que na origem é de doze a vinte anos. nos termos do art. para tipificar o crime de desaparecimento forçado de pessoa. acreditamos que para caracterizar esse crime a pessoa deve ficar desaparecida. dando o mesmo tratamento quando a vítima for criança ou adolescente. Inspirados pelo Estatuto de Roma. RELATOR: Senador PEDRO TAQUES I – RELATÓRIO Vem a esta Comissão. por meio do Decreto Legislativo nº 127. que ora aguarda a ratificação e o decreto presidencial de execução. 149-A. consideramos que a ação ora censurada pode ser cometida não apenas em nome do Estado. de 2011.

lesão corporal e homicídio. membros do Ministério Público Federal com destacada atuação na área objeto da proposição. temos que o respectivo projeto de lei pode ser aperfeiçoado com base em sugestões que nos foram encaminhadas por Luiz Carlos dos Santos Gonçalves e Marlon Alberto Weichert. pretendemos abranger o comportamento doloso. I. mas entre as causas de aumento de pena previstas inicialmente pelo PLS nº 245.organização política. Com a nova redação do § 1º. II – ANÁLISE Registramos que a matéria sob exame não apresenta vícios de constitucionalidade. e o segundo. com penas de reclusão de vinte a trinta anos. impõe-se a ação do Parlamento diante da decisão da Corte Interamericana e dos termos da Convenção Interamericana de que o Brasil é signatário citados acima. No caso do desaparecimento forçado de pessoa. apoio ou aquiescência). como as referentes à tortura. […] Por fim. determinamos no § 2º do art. procuramos evitar a invocação da obediência devida como causa de exculpação. pelo emprego de tortura ou outro meio insidioso ou cruel. 39 do Código Penal (CP). o que é muito comum. por isso a pena base pode ser considerada pequena (de dois a seis anos). da Constituição Federal. enquanto não for esclarecida a sorte ou destino da pessoa desaparecida. propomos substitutivo com nova redação para o tipo principal com penas de reclusão de seis a doze anos e multa. Também fazemos a previsão de dois tipos qualificados: o primeiro. Com o novo § 2º. 22. Nesse contexto. Para o fiel cumprimento do Artigo III da Convenção Interamericana sobre os Desaparecimentos Forçados. O crime é comum. indicando o caráter ilegal e ilícito de qualquer ordem para a prática do desaparecimento forçado. Ademais. 149-A. sem excluir a responsabilidade penal dos agentes envolvidos de forma indireta (mediante autorização. reformulamos a disposição sobre o caráter permanente do novo tipo penal e estabelecemos hipótese 298 . Igualmente. consoante dispõe o art. 149-A proposto que o desaparecimento forçado de pessoas terá caráter de crime permanente. com mais razão ainda. porque o direito penal está compreendido no campo da competência legislativa privativa da União. destacamos o fato de que a aplicação desta não elide a das penas correspondentes a outras infrações penais. de 2011. Não foram oferecidas emendas até o momento. qualificado pelo resultado morte. negar informação e deixar a vítima sem amparo legal. conforme redação proposta). Contudo. mesmo quando. por exemplo. comissivo e omissivo. acrescentamos a de ser o agente funcionário público. Assim. o crime for praticado por grupos irregulares. ou se do fato resultar aborto ou lesão corporal de natureza grave ou gravíssima. embora louvando a iniciativa e competência do Senador Vital do Rêgo no enfrentamento de tão intrincado tema. importa esclarecer que o tipo penal básico ora alvitrado concentra-se nas ações de ocultar o fato. na mesma pena incorrerá o mandante do crime ou qualquer pessoa que colabore para ocultar os fatos ou a pessoa desaparecida (§ 3º do art. de colaboração posterior à privação da liberdade não alcançado pela cláusula genérica do art. com penas de reclusão de doze a vinte anos e multa.

de 6 (seis) a 12 (doze) anos. § 6º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) até 1/2 (metade): 299 . § 3º Ainda que a privação de liberdade tenha sido realizada de acordo com as hipóteses legais. Desaparecimento forçado qualificado §4º Se houver emprego de tortura ou outro meio insidioso ou cruel. 1º da Lei nº 8. § 5º Se resulta morte: Pena – reclusão. sequestrar. DE 2011 Acrescenta o art.específica de colaboração premiada que permita a localização da vítima com a sua integridade física preservada ou a identificação dos demais coautores ou partícipes do desaparecimento ou de suas circunstâncias. inclusive deixando de prestar informações ou entregar documentos que permitam a localização da vítima ou de seus restos mortais ou mantém a pessoa desaparecida sob sua guarda. opinamos pela aprovação do Projeto de Lei do Senado nº 125. autoriza. Apreender. em nome de organização política.848. O CONGRESSO NACIONAL decreta: Art. na forma do substitutivo a seguir: EMENDA Nº – CCJ (SUBSTITUTIVO) PROJETO DE LEI DO SENADO Nº 245. Por fim. convencidos de que o desaparecimento forçado de pessoa atende aos requisitos de hediondez material. § 2º Para efeitos do presente artigo. procedemos a sua inclusão no rol do art. consente ou de qualquer forma atua para encobrir. ocultando ou negando a privação de liberdade ou deixando de prestar informação sobre a condição. III – VOTO Por essas razões. sorte ou paradeiro da pessoa a quem deva ser informado ou tenha o direito de sabê-lo: Pena – reclusão. impedir a livre circulação ou de qualquer outro modo privar alguém de sua liberdade. 1º O Decreto-Lei nº 2. de 2011. 149-A: “Desaparecimento forçado de pessoa Art. ou de grupo armado ou paramilitar. decisão ou determinação de praticar o desaparecimento forçado de uma pessoa ou ocultar documentos ou informações que permitam a sua localização ou a de seus restos mortais. apoio ou aquiescência de qualquer destes. arrebatar. suas instituições e agentes ou com a autorização. do Estado. 149-A. de 1990. ou ausência de informação sobre o paradeiro da pessoa. 149-A ao Código Penal. de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal. e multa. considera-se manifestamente ilegal qualquer ordem. manter em cárcere privado. e multa. passa a vigorar acrescido do seguinte art. § 1º Na mesma pena incorre quem ordena. para tipificar o crime de desaparecimento forçado de pessoa. e multa. de 12 (doze) a 24 (vinte e quatro) anos. sua posterior ocultação ou negação da privação da liberdade. ocultar ou manter ocultos os atos definidos neste artigo. é suficiente para caracterizar o crime.072. deter. ou se do fato resulta aborto ou lesão corporal de natureza grave ou gravíssima: Pena – reclusão. custódia ou vigilância. de 20 (vinte) a 40 (quarenta) anos.

..... ainda que ela já tenha falecido. por qualquer causa... 1º...... 2º O art......... 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação....... desde que dessa colaboração contribua fortemente para a produção dos seguintes resultados: I – a localização da vítima com a sua integridade física preservada ou.... . se reconhecer que tiveram por objetivo subtrair o acusado à investigação ou responsabilização por seus atos ou tiverem sido conduzidas de forma dependente e parcial........ sua capacidade de resistência.. conceder a redução da pena..” (NR) Art........... § 8º Os delitos previstos neste artigo são imprescritíveis.... ............. ............ Sala da Comissão... sendo primário.......... portadora de necessidades especiais..... passa a vigorar acrescido do seguinte inciso VIII: “Art.......... podendo o juiz desconsiderar eventual perdão.. extinção da punibilidade ou absolvição efetuadas no estrangeiro.. de 25 de julho de 1990.. § 9º A lei brasileira será aplicada nas hipóteses da Parte Geral deste Código. que se revele incompatível com a intenção de submeter a pessoa à ação da justiça.............” Art.. VIII – desaparecimento forçado de pessoa (art...... de ofício ou a requerimento das partes. ao acusado que......... condição e paradeiro... …........ 1º da Lei nº 8...... II – a identificação dos demais coautores ou partícipes da ação criminosa e das circunstâncias do desaparecimento.. III – se a vítima for criança ou adolescente.. 149-A)............................. II – se o agente for funcionário público............. Consumação do desaparecimento § 10 A consumação dos delitos previstos nesse artigo não ocorre enquanto a pessoa não for libertada ou não for esclarecida sua sorte.................. tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e o processo criminal.. Relator 300 .....072...... Presidente ... idosa...... de um a dois terços.......... gestante ou tiver diminuída....I – se o desaparecimento durar mais de 30 (trinta) dias.. Colaboração premiada § 7º Poderá o juiz........

divulgamos as denúncias em entrevistas a meios de comunicação e reuniões com organismos defensores dos direitos humanos.ANEXO 3 – NOTA DE ESCLARECIMENTO E SOLICITAÇÃO DE RETIFICAÇÃO DA REDE CONTRA VIOLÊNCIA AO JORNAL O DIA Ao Jornal o Dia A/C Redator-chefe À Imprensa do Rio de Janeiro e do Brasil Nota de Esclarecimento e Solicitação de Retificação Em relação à notícia “‘Pandemônio’: sem-teto espalham imagens de Cauê de fuzil e vendem camisetas”. 2) O companheiro Joel Valentim. inclusive em nosso site. A faixa e as camisetas. dentre outras formas. que infelizmente parece que estamos voltando a viver nesses dias de realização do Pan no Rio de Janeiro. provocadora e digna dos piores tempos do regime de exceção no Brasil. sem cumprir função social conforme determina a Constituição. portanto. bem como contra a conivência governamental com a corrupção policial. as declarações do prefeito César Maia sobre a mesma e aquelas publicadas hoje no Jornal O Estado de São Paulo. conforme informa falsamente a matéria. citada na matéria. Versões em inglês tanto da faixa como das camisetas foram inclusive levadas para a Europa na recente viagem feita por dois companheiros nossos. muitas das quais já podem ser caracterizadas como execuções sumárias. vem esclarecer o seguinte: 1) A faixa e uma das camisetas expostas em fotografias no site são de fato da Rede e seus desenhos e dizeres vêm sendo divulgados por nós já há algum tempo. junto com a notícia sobre o ato de amanhã. É particularmente grave que esta tentativa de criminalização aconteça às vésperas da realização do ato de protesto contra a violência e a corrupção no Pan. são manifestações legítimas de protesto e denúncia contra a prática e política de extermínio e criminalização da pobreza conduzidas pelo Estado no Rio de Janeiro. com concentração às 11h em frente ao Centro Administrativo da Prefeitura na Cidade Nova. a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. A realização desse ato foi notificada a todas as autoridades devidas e divulgada publicamente. Esse tipo de atitude é irresponsável. podem ser vistas como tentativas de se justificar uma ação repressiva violenta da polícia contra a manifestação. afirmam pessoalmente que “em nenhum momento deram qualquer declaração ao jornal admitindo a autoria dos grafites executados no Maracanã e outras partes da cidade”. organizada e convocada por mais de 30 organizações e movimentos sociais para amanhã. 13/07. Além da notícia de O Dia. publicada no Dia Online hoje 12/07/2007. como parte das denúncias que temos feito da intensificação da violência e da arbitrariedade policial que cerca a realização dos Jogos Panamericanos no Rio. trata-se de uma tentativa flagrante de criminalizar movimentos sociais legítimos como a Rede e o movimento dos sem-teto que ocupam organizadamente prédios públicos abandonados há anos. cujo exemplo mais trágico foram as mortes nas operações no Complexo do Alemão. A informação veiculada pelo jornal. fatos que têm sido objeto de denúncias internacionais há vários anos. . se não é um equívoco. baseado em depoimentos e laudos. Nesta viagem. numa coletiva de imprensa realizada ontem 11/07. a companheira Antônia Ferreira dos Santos e vários outros moradores e moradoras da Ocupação Zumbi dos Palmares.

Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência Rio de Janeiro. estamos publicamente denunciando os fatos acima. Entretanto. da maneira como vem sendo feita pelos governos federal. e solicitando correção da informação incorreta publicado por O Dia. É inevitável que partes dela ou sua idéia geral (associar a realização dos Jogos. Diante disso tudo. com o aumento da violência policial sobre os moradores de favelas e periferias no Rio) tenham sido apropriadas por indivíduos ou grupos dos mais diferentes tipos. 302 . em todos os meios e espaços em que ela tenha sido feita. sites e materiais impressos desde setembro de 2006. Repetimos. ou às organizações e movimentos que convocam o ato de amanhã. A imagem do Cauê com o fuzil foi percebida por setores importantes da população como símbolo do que tem sido reservado à população pobre da cidade no Panamericano: violência. estadual e municipal. descaso e inexistência de verdadeiros investimentos sociais. fazer isso é mais uma demonstração da sórdida estratégia de criminalização dos movimentos e lutas sociais que vêm sendo posta em ação pelos governos no Brasil. 12 de julho de 2007. tem sido utilizada publicamente por diversos movimentos e organizações. não há como daí associar qualquer coisa que tenha sido feito com essa imagem aos movimentos organizados contra a violência do Estado ou por moradia. bem como direito de resposta nos termos da lei.3) A caricatura do companheiro Latuff. que nunca foi condenado por anti-semitismo conforme parece sugerir a matéria de O Dia.

o Caso Acari completou 22 anos. .ANEXO 4 – CADERNO DE IMAGENS Reportagem 4: Mães de Acari: um parto que já dura 15 anos 68 68 Em 26 de julho de 2012.

Reportagem 5: Polícia procura ossadas e acha leões em Magé 304 .

Reportagem 6: Milícia é acusada de sequestrar dois jovens em Ramos Reportagem 7: Milícia acusada de sumiço de jovens na Praia de Ramos 305 .

Reportagem 8: Menores somem na Baixada Reportagem 9: Seis corpos achados no Juramento Reportagem 10: Corpos fatiados em Manguinhos 306 .

Reportagem 12: PMs suspeitos de matar engenheira Reportagem 11: Jovem some após acidente Reportagem 13: Mais PMs suspeitos 307 .

Reportagem 14: Uma nova esperança para achar desaparecidos 308 .

assassinada em 1993 quando saía de uma visita em um presídio 309 .Foto 22: Manifestação em memória dos 20 anos do Caso Acari Foto 23: Painel com imagem de Edméia. uma das Mães de Acari.

Foto 24: Bonecos no chão representando os jovens desaparecidos de Acari e faixas com consígnias de protesto 310 .

As Mães de Maio estiveram presentes em Acari para participar do ato em memória dos 20 anos do caso. cartazes e fotos Foto 26: Faixa das Mães de Maio: grupo de mães e familiares de mortos e desaparecidos durante os ataques do PCC em São Paulo e a represália da polícia.Foto 25: Faixas. 311 .

Foto 27: Os objetos do protesto Foto 28: Concentração para o ato em frente ao Hospital de Acari 312 .

Foto 29: A memória afetiva .objeto de lembrança de Patrícia Foto 30: Mãe da engenheira desaparecida com fotos de recordação 313 .

Foto 31: Cláudia Helena com reportagem de jornal sobre o caso do filho desaparecido 314 .

Foto 32: Manifestação em memória dos 4 anos da chacina da Baixada Fluminense Foto 33: Cenário do ato – faixas e banners 315 .

Foto 34: Flores e jornais com notícias sobre a chacina Foto 35: Manchete do jornal – Ele queria voltar para a nossa terra 316 .