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GEO

PERSPECTIVAS DO
MEIO AMBIENTE
NA AMAZÔNIA

amazonia
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Publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), pela Organização do Tratado de
Cooperação Amazônica (OTCA) e em colaboração com o Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP).

É permitida a reprodução total ou parcial desta publicação para fins educativos, ou não-lucrativos, não sendo necessário
qualquer tipo de autorização especial do titular dos direitos, desde que indicada a fonte. O Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica e a Universidad del Pacífico agradecem a
gentileza de receber um exemplar de qualquer texto cuja fonte tenha sido a presente publicação.

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organizações parceiras com relação à situação jurídica de um país, território, cidade ou área sob sua autoridade, ou
com relação à delimitação de suas fronteiras ou limites.

Copyright ©2008, PNUMA e OTCA


ISBN: 978-92-807-2947-4
Job Number: DRC/1075/PA

Para mais informação:


Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
Escritório Regional para a América Latina e o Caribe – Divisão de Avaliação e Alerta Rápido
Clayton, Ciudad del Saber, Edificio 132, Avenida Morse – Corregimiento de Ancón
Ciudad de Panamá – Panamá
Código postal 03590-0843
Telefone: (507)305-3100
Fax: (507) 305-3105
www.pnuma.org

Organização do Tratado de Cooperação Amazônica


HIS – QI 05, Conjunto 16, casa 21 – Lago Sul
Brasília – DF – Brasil
Código postal: 71615-160
Telefone: (55-61) 3248-4119/3248-4132
Fax: (55-61) 3248 4238
www.otca.info

Universidad del Pacífico


Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico
Av. Salaverry 2020 – Jesús María
Lima – Perú
Código postal: Lima 11
Telefone: (51-1)2190100
www.up.edu.pe/ciup
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❱❱❱ Equipe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente Venezuela:
(PNUMA) Ministério do Poder Popular para o Ambiente: Maritza Reechinti; Insti­
• Ricardo Sánchez Sosa - Diretor Regional do Escritório Regional para a tuto Venezuelano de Pesquisas Científicas -IVIC: Ángel Fernández
América Latina e o Caribe
• Kakuko Nagatani - Oficial de Programa da Divisão de Avaliação e ❱❱❱ Assistentes
Alerta Rápido- Coordenadora do Projeto GEO Amazônia • Assistentes PNUMA
❱❱❱ COORDENAÇÃO TÉCNICA: • Cristina Montenegro - Coordenadora, PNUMA Brasil • Teresa Hurtado
• Ricardo Mellado
❱❱❱ Equipe da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica • Esther Mendoza
(OTCA)
• Francisco Ruiz – Secretário-Geral a.i. ❱❱❱ Assistentes CIUP
• Luis Alberto Oliveros - Coordenador de Meio Ambiente. • Daniel Anavitarte
• Aura Benavides
❱❱❱ COLABORAÇÃO: ❱❱❱ COM O APOIO DE: ❱❱❱ Equipe do Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico • Úrsula Fernández Baca
(CIUP) • Isabel Guerrero
• Rosário Gómez - Pesquisadora, Responsável Técnico do Projeto • Mariella Zapata
• Elsa Galarza - Pesquisadora, Responsável Técnico do Proyecto
BOLÍVIA ❱❱❱ Equipe de elaboração de mapas
Ministério do Desenvolvimento Rural, Agropecuário e Meio Ambiente ❱❱❱ Coordenação Geral Adolfo Kindgard. Universidade de Buenos Aires, Faculdade de Agrono-
• PNUMA: Kakuko Nagatani mia -Argentina; Hua Shi. UNEP/GRID - Sioux Falls - Estados Unidos
• OTCA: Luis Alberto Oliveros
BRASIL • CIUP: Rosário Gómez e Elsa Galarza ❱❱❱ Colaboradores:
Ministério do Meio Ambiente • Andrea de Bono. UNEP/GRID
❱❱❱ Comitê Técnico • Hugh Eva. JRC da União Européia - Itália
Bolívia: • Jaap van Woerden. UNEP/GRID
COLÔMBIA Vice-Ministério de Biodiversidade, Recursos Florestais e Meio Ambiente; • Mark Bryer. The Nature Conservancy.
Ministério do Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial Direção Geral de Recursos Florestais: Jorge Antônio Arnez Martínez; Instituto
de Ecologia - Universidade Mayor de San Andrés: Mário Baudoin; Centro de ❱❱❱ Fotografia
Pesquisa em Agricultura Tropical -CIAT: Hugo Serrate, Raúl Aguirre • Diario El Comercio, Peru
EQUADOR • Conservation International, Peru, Bolívia
Ministério do Ambiente Brasil: • Programa de Desenvolvimento Alternativo nas Áreas de Pozuzo e
Ministério do Meio Ambiente: Muriel Saragoussi, Kelerson Costa; Insti- Palcazu, Peru
tuto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia -Imazon: Carlos Souza, • Arquivo da Biblioteca Amazônica, Peru.
GUIANA Kátia Pereira; Instituto Socioambiental, ISA: Alícia Rolla • GTZ - Cooperação Alemã para o Desenvolvimento
Agência de Proteção Ambiental • Ernesto Ráez, Peru
Colômbia: • Zaniel Novoa, Pontifícia Universidade Católica-Peru
Ministério do Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial. • Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana, Peru
PERU Direção de Ecossistemas: Leonardo Muñoz; Instituto Amazônico de • Guiana: Sociedade de Pássaros Tropicais da Amazônia (agradecimento
Ministério do Ambiente Pesquisas Científicas, Sinchi: Uriel Múrcia, Juan Carlos Alonso; Instituto ao Fundo Mundial para a Natureza-WWF)
Alexander Von Humboldt: Dolors Armenteras, Mônica Morales • Instituto Imazon, Brasil
• Organização do Tratado de Cooperação Amazônica
SURINAME Equador: • Greenpeace
Ministério do Trabalho, Desenvolvimento Tecnológico e Meio Ambiente Ministério do Ambiente: Camilo Gonzales
❱❱❱ Editoração gráfica, layout, diagramação e infografias
Guiana: Fábrica de Ideas
VENEZUELA Agência de Proteção Ambiental, Divisão de Gestão de Recursos Natu- Direção de arte e edição fotográfica: Xabier Díaz de Cerio
Ministério do Poder Popular para o Ambiente rais: Navin Chandarpal, Indarjit Ramdass Layout: Roger Hiyane
Capa: Xabier Díaz de Cerio
Peru: Diagramação: Ingrid Landaveri
Ministério do Ambiente (ex-Conselho Nacional do Am­biente). César Villa- Infografias: Mário Chumpitazi
corta; Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana: Fernando Rodríguez Multimídia: Frederik Corazao
Cuidado de edição em português: Simone Bastos Craveiro
Suriname: www.fabricadeideas.pe
Ministério do Trabalho, Desenvolvimento Tecnológico e Meio Ambiente:
Mariska Milieu
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❱❱❱ Tradução dos documentos de trabalho Peru: • Bolívia: Instituto de Ecologia da Universidade Maior de San Andrés:
• Phil Linehan Associação Peruana para a Conservação da Natureza (Apeco); Governo Mário Baudoin
Regional de Loreto; Instituto Nacional de Recursos Naturais (Inrena) • Brasil: Ministério do Meio Ambiente: Kelerson Costa
❱❱❱ Tradução dos documentos em português • Colômbia: Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (Sinchi):
• Antonio Ribeiro de Azevedo Santos Suriname: Uriel Gonzalo Murcia
Centro de Pesquisa Agrícola no Suriname; Fundo de Conservação • Colômbia: Instituto de Pesquisa Alexander Von Humboldt: Dolors
❱❱❱ Revisão do texto em português (Suriname); Milieu Sektie; Ministério do Planejamento, Florestas e Armenteras
• Claudia Helena Carvalho Ordenamento Territorial; Centro de Coordenação Nacional para o • Equador: Ministério do Ambiente: Camilo González
Atendimento de Desastres; Instituto Nacional para o Meio Ambiente e • Equador: Fundação Equatoriana de Estudos Ecológicos (Ecociencia):
❱❱❱ Organização de plataformas de comunicação Desenvolvimento do Suriname; Universidade do Suriname; Fundação Malki Sáenz
Karlos La Serna, Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico para a Conservação da Natureza (Suriname); Companhia de Água do • Peru: Conselho Nacional do Ambiente (Conam) (atual Ministério
Germán Chión, Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico Suriname; Fundo Mundial para a Natureza (WWF) do Ambiente): Carlos Loret de Mola, César Villacorta, David Solano,
Verónica Mendoza
❱❱❱ Agradecimentos ❱❱❱ Colaboração especial • Peru: Instituto Nacional de Recursos Naturais (Inrena): Carlos Salinas
Nosso agradecimento a todas as pessoas e instituições que contribuíram Tim Killeen, Conservation Internacional • Peru: Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana: Alberto Garcia Maurício
com informação e sugestões para a elaboração do GEO Amazônia. • Peru: Centro de Pesquisa da Universidade do Pacífico: Elsa Galarza,
❱❱❱ Colaboradores Rosário Gómez, Joanna Kámiche
❱❱❱ Contribuições institucionais • Adriana Rivera, Assessora do Programa Regional Amazônia OTCA- • Venezuela: Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC):
Brasil: DGIS-GTZ Ángel Fernández
Agência Nacional de Águas (ANA); Conselho Nacional de Seringueiros • Adriano Venturieri, Embrapa – Brasil • Conservation International: Carlos Ponce, Peru
(CNS); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); Grupo • Antonio Brack, Ministério do Ambiente – Peru • Organização do Tratado de Cooperação Amazônica: Rosalia Arteaga,
de Trabalho Amazônico (GTA); Instituto Brasileiro do Meio Ambiente • Annie Pitamber, Agência de Proteção Ambiental – Guiana Luis Alberto Oliveros
e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama); Instituto Brasileiro de • Carlos Amat y León, Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico– Peru • Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente: Ricardo
Geografia e Estatística (IBGE); Instituto Nacional de Colonização e • Carlos Aragón, Coordenador do Componente Florestal do Programa Sánchez, Kakuko Nagatani
Reforma Agrária (Incra); Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia Regional Amazônia OTCA-DGIS-GTZ
(Ipam); Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA); Ministério • Carlos Ariel Salazar, Instituto Sinchi – Colômbia Oficina de apresentação do projeto e identificação de problemas
da Educação; Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG); Ministério das • Carol Franco, Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander ambientais. Villa de Leyva-Colômbia, de 16 a 19 de maio de 2006
Relações Exteriores; Ministério da Saúde; Universidade Federal do Acre; von Humboldt – Colômbia • Bolívia: Vice-Ministério de Biodiversidade, Recursos Florestais e Meio Am
Universidade Federal do Amazonas; Fundo Mundial para a Natureza • Cláudia Villa, Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander biente – Direção Geral de Recursos Florestais: Jorge Antonio Arnez Martínez
(WWF) von Humboldt – Colômbia • Bolívia: Centro de Pesquisa Agrícola Tropical (CIAT): Raúl R. Aguirre Vásquez
• Edith Alcorta, Plano Binacional Peru-Equador – Peru • Bolívia: Instituto de Ecologia da Universidade Maior de San Andrés:
Colômbia: • Eduardo Gudynas, Centro Latino-Americano de Ecologia Social, Claes– Mário Baudoin
Instituto Geográfico Agustín Codazzi; Instituto de Hidrologia, Meteorolo- Uruguai • Brasil: Ministério do Meio Ambiente: Kelerson Costa
gia e Estudos Ambientais (Ideam) • Fernando León, Instituto Nacional de Recursos Naturais, Inrena – Peru • Brasil: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon):
• Hans Thiel, Consultor florestal – OTCA Kátia Pereira
Equador: • Joanna Kámiche, Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico – Peru • Brasil: Instituto Socioambiental (ISA): Alícia Rolla
Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso); Fundação • João Paulo Viana, Ministério do Meio Ambiente, Projeto Aquabio – Brasil • Brasil: Grupo de Trabalho Amazônico: Rosenilde Gregório dos Santos Costa
Equatoriana de Estudos Ecológicos (Ecociencia); União Internacional • Jorge Meza, Projeto Biodiversidade – OTCA • Colômbia: Ministério do Ambiente, Moradia e Desenvolvimento
para a Conservação da Natureza – Escritório Regional para América do • José Antônio Gómez, Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Territorial (MAVDT): Sandra Suárez
Sul (UICN-Sul) Alexander von Humboldt – Colômbia • Colômbia: Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (Sinchi): Luz
• Juan Carlos Bethancourt, Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Marina Mantilla Cárdenas e Uriel Gonzalo Múrcia
Guiana: Alexander von Humboldt – Colômbia • Colômbia: Instituto de Pesquisa Alexander Von Humboldt: Fernando
Agência de Proteção Ambiental; Autoridade Central de Habitação de • Marlúcia Bonifácio, Museu Goeldi – Brasil Gast, Dolors Armenteras, Mónica Morales
Planejamento; Comissão Florestal da Guiana; Comissão de Terras e • Maria Luisa del Rio, Ministério do Ambiente – Peru • Equador: Ministério do Ambiente: Camilo Gonzales
Registros da Guiana; Conservation International-Guiana; Guyana Sugar • Paulo Roberto Martin, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, • Equador: Fundação Equatoriana de Estudos Ecológicos (EcoCiencia):
Corporation; Centro Internacional Iwokrama; Instituto Nacional de INPE – Brasil Malki Sáenz
Pesquisa Agrícola; Ministério da Agricultura; Ministério de Assuntos • Rita Piscoya, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária • Peru: Conselho Nacional do Ambiente (Conam) (atual Ministério do
Ameríndios; Ministério da Habitação e Águas; Guyana Water Incorpo- (Incra) – Brasil Ambiente): César Villacorta Arévalo
rated; Ministério dos Governos Locais e de Desenvolvimento Regional; • Sílvia Sânchez, Associação Peruana para a Conservação da Natureza, • Peru: Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana: Alberto Garcia
Conselho de Desenvolvimento do Arroz da Guiana; Ministério de APECO – Peru Maurício
Assuntos Exteriores; Universidade da Guiana; Centro de Capacitação • Peru: Governo Regional de Loreto: Nélida Barbagelata
Florestal; Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; ❱❱❱ Participantes nas oficinas • Suriname: Ministério do Trabalho, Desenvolvimento Tecnológico e
Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola; Comissão Nacional de Oficina Metodológica. Lima-Peru, 27 e 28 de fevereiro de 2006 Meio Ambiente – Divisão de Meio Ambiente: Mariska Riedewald
Parques; Presidência da Guiana • Bolívia: Centro de Pesquisa Agrícola Tropical (CIAT): Raúl R. Aguirre • Venezuela: Escritório de Gestão e Cooperação Internacional, Ministério
Vásquez do Ambiente e dos Recursos Naturais da República Bolivariana da
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Venezuela: Maritza Reechinti • Bolívia: Instituto de Ecologia da Universidade Maior de San Andrés: • Comissão Nacional de Parques: Yolanda Vasconcellos
• Venezuela: Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC): Mário Baudoin • Presidência da Guiana: Leroy Cort
Ángel Fernández • Brasil: Ministério do Meio Ambiente: Kelerson Costa
• Conservation International: Tim Killeen • Equador: Ministério do Ambiente: Camilo Gonzales Oficina de revisão final, Belém-Brasil, agosto de 2007
• União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN-Sul), • Colômbia: Instituto Sinchi: Juan Carlos Alonso, Uriel Murcia • Bolívia: Centro de Pesquisa Agrícola Tropical (CIAT): Hugo Serrate
Escritório Regional para América do Sul – Equador: Consuelo • Colômbia: Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander • Bolívia: Instituto de Ecologia da Universidade Maior de San Andrés:
Espinoza von Humboldt : Dolors Armenteras, Mónica Morales Mário Baudoin
• Peru: Conselho Nacional do Ambiente (Conam) (atual Ministério do • Brasil: Ministério do Meio Ambiente: Muriel Saragoussi
Oficina de apresentação do projeto e diálogo. Brasília-Brasil, 6 e 7 de Ambiente): César Villacorta • Brasil: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon):
dezembro de 2006 • Peru: Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP): Fernando Carlos Souza, Kátia Pereira
• Agência Nacional de Águas, ANA: Paulo Augusto Tatsch, Viviani Rodríguez • Brasil: Instituto Socioambiental (ISA): Alícia Rolla
Pineli Alves • PNUMA: Kakuko Nagatani • Brasil: Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam):
• Conselho Nacional de Seringueiros (CNS): Atanagildo de Deus Matos • OTCA: Luís Alberto Oliveros Marcos Ximenes
• Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa): Adriano • Associação de Universidades Amazônicas (Unamaz) • Brasil: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra):
Venturieri, Braz Calderano Filho • Conservation International: Tim Killeen Rita Piscoya, Thiago Silva Gomes
• Grupo de Trabalho Amazônico (GTA): Rosenilde Gregório dos • Brasil: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa):
Santos Costa Oficina de apresentação e discussão. Paramaribo-Suriname, de 17 a Adriano Venturieri, Adilson Serrão
• Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais 18 de maio de 2007 • Brasil: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama): Adriana Carvalhal, Cláudia Enck de Aguiar, Gui • Centro de Coordenação Nacional para o Atendimento de Desastres: Renováveis (Ibama): Guilherme Pimentel Holtz
lherme Holtz, Humberto Colta Jr., Juan Marcelo de Oliveira, Kátia Cury R. Nasibdar • Brasil: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): José
Roseli, Rodrigo Paranhos Faleiro, Rodrigo Rodrigues • Centro de Pesquisa Agrícola no Suriname: K. Tjon Rocha Collares, Denise Kronemberger
• Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Adma Hamam • Companhia de Água do Suriname: H. Telgt • Brasil: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa): Arnaldo
de Figueiredo, Guido Gelli, José Enílcio Rocha Collares • Fundo de Conservação - Suriname: L. C. Johanns. Carneiro Filho
• Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra): Rita • Fundo Mundial para a Natureza, WWF-Guianas: H. Malone • Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG): Marlúcia Bonifácio Martins
de Cássia Condé de Piscoya, Thiago Silva Gomes • Fundação para a Conservação da Natureza – Suriname: Mohadin • Brasil: Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – Universidade Federal
• Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam): Marcos • Instituto Nacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento do do Pará: Edna Castro
Ximenes Suriname: D. Burospan, S. Ramcharan • Colômbia: Ministério do Ambiente, Moradia e Desenvolvimento
• Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA): Luiz Cezar • Milieu Sektie: H. Uiterloo, M. Riedewald, S. Soetosenojo, H. Aroma, Territorial (MAVDT): Sandra Suárez
Loureiro de Azeredo A. Khoenkhoen, T. Elder, S. de Meza, P. Karjodromo, N. Tjin Kong Foek • Colômbia: Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (Sinchi):
• Instituto Socioambiental (ISA): Fernando Mathias • Ministério do Planejamento, Florestas e Ordenamento Territorial: Uriel Gonzalo Murcia, Juan Carlos Alonso
• Ministério da Educação: Fábio Deboni Ch. Sieuw • Colômbia: Instituto de Pesquisa Alexander von Humboldt: Mónica
• Ministério do Meio Ambiente: Alexandre R. Duarte, Cláudia Ramos, • Universidade do Suriname: R. Nurmohamed Morales
Flávia Pires Lima, Kelerson Costa, Klinton Senra, Leonel Teixeira, Marcelo • Equador: Ministério do Ambiente: Camilo Gonzales
Mazzola, Márcia Paes, Marco Antônio Salgado, Marly Santos, Muriel Oficina de apresentação e discussão. Georgetown-Guiana, junho de 2007 • Guiana: Agência de Proteção Ambiental: Indarjit Ramdass
Saragoussi, Silvana Macedo, Volney Zanardi Jr. • Agência de Proteção Ambiental: Indarjit Ramdass, Khalid Alladin. • Peru: Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana: Fernando Rodríguez
• Museu Paraense Emilio Goeldi, MPEG: Marlúcia Bonifácio Martins • Autoridade Central de Moradia e Planejamento: Fayola Azore • Suriname: Ministério do Trabalho, Desenvolvimento Tecnológico e
• Ministério das Relações Exteriores: Sérgio Paulo Benevides • Comissão Florestal da Guiana: James Singh, Sonya Reece Meio Ambiente – Divisão de Meio Ambiente: Mariska Riedewald
• Ministério da Saúde: Kátia Regina Ern • Comissão de Terras e Registros da Guiana: Andrew Bishop, • Venezuela: Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC):
• Universidade Federal do Acre: Irving Foster Brown Bramhan and Singh Ángel Fernández.
• Universidade Federal do Amazonas: Jackson Fernando Rêgo • Conservation International – Guiana: Curtis Bernard
• Fundo Mundial para a Natureza (WWF): Ekena Rangel • Guyana Sugar Corporation: Anton Dey
• Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (Sinchi) – Colômbia: • Centro Internacional Iwokrama: Raquel Thomas
Juan Carlos Alonso • Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola: Cleveland Paul
• Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt – • Ministério da Agricultura: Denzil Roberts
Colômbia: Dolors Armenteras • Ministério de Assuntos Ameríndios: Ronald Cumberbatch
• Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico – Peru: Elsa Galarza, • Ministério da Habitação e Água: Deborath Montouth-Hollingsworth
Rosário Gómez • Guyana Water Incorporated: Gladwin Tait
• Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA): Luís • Ministério dos Governos Locais e de Desenvolvimento Regional:
Alberto Oliveros Ramnarine Singh
• Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – Brasil: • Conselho de Desenvolvimento do Arroz da Guiana: Kuldip Ragnauth
Cristina Montenegro, Bernadete Lange • Ministério de Assuntos Exteriores: Peggy McClennan
• Universidade da Guiana: Paulette Bynoe, Suzy Lewis
Oficina de revisão, Santa Cruz-Bolívia, de 11 a 13 de dezembro de 2006 • Centro de Capacitação Florestal: Rohini Kerrett
• Bolívia: Centro de Pesquisa Agrícola Tropical (CIAT): Raúl Aguirre, • Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento: Nadine Livan
Hugo Serrate • Instituto Interamericano de Cooperação Agrícola: Ignatius Jean
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PREFACIO:
Culminando um processo que tomou dois anos de tra- A falta de informação científica e de dados estatísticos consistentes dificulta que se
balho, do qual participaram cerca de 150 cientistas e façam comparações ou a agregação de tópicos ambientais, e a informação disponível
localmente não foi analisada e sistematizada de modo a contribuir para uma visão am-
pesquisadores de todos os países amazônicos, o Progra- biental sólida e integral.
ma das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) O GEO Amazônia tem como objetivo servir de subsídio aos tomadores de decisão das
e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica esferas nacional, subnacional e local dos países amazônicos, na construção de uma base
(OTCA) têm a grata satisfação de apresentar o relatório sólida para suas ações, de modo a assegurar a sustentabilidade a longo prazo das iniciati-
vas de desenvolvimento.
Perspectivas do Meio Ambiente na Amazônia – GEO
Amazônia. Queremos agradecer aos ministérios ou autoridades nacionais de meio ambiente e
demais entidades ligadas a essa área, assim como aos cientistas, aos pesquisadores e às
instituições dos países amazônicos pela valiosa colaboração, que tornou possível elabo-
Baseado na metodologia GEO (Global Environment Outlook), este singular relatório compre- rar o presente relatório. Destacamos particularmente a contribuição da Universidad del
ende uma avaliação completa e integral do estado de um ecossistema da maior relevância Pacífico, do Peru, na coordenação do complexo processo de formulação deste relatório.
para o planeta, compartilhado por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Suriname
e Venezuela. Não obstante todos os riscos ambientais a que a Amazônia está exposta, temos a convic-
ção de que os líderes regionais tomarão as decisões mais acertadas para deter a degra-
A Amazônia abriga uma enorme variedade de espécies da flora e da fauna e é uma impor- dação do meio ambiente e promover o desenvolvimento sustentável, fonte de bem-estar
tante área de endemismo, constituindo, assim, uma reserva genética de relevância mun- para seus habitantes e para toda a humanidade. Nosso maior desejo é que este relatório
dial. Além disso, em termos de recursos hídricos, a água produzida pela bacia amazônica contribua para esse processo.
representa aproximadamente um quinto de todo o escoamento superficial do planeta. E
não menos significativa é a função desempenhada por suas florestas, que atuam como um
importante sumidouro de carbono, absorvendo anualmente centenas de milhões de tonela-
das de gases causadores do efeito estufa.

A Amazônia tem uma longa e rica história de ocupação humana e cultural – atualmente,
mais de 38 milhões de habitantes vivem na região, cerca de 60% em cidades. A região está
vivendo uma rápida expansão da agricultura de monocultura e da pecuária tecnificada, bem
como das megaobras de infra-estrutura viária e energética, em conseqüência do crescimento
econômico regional e da globalização e expansão dos mercados internacionais.
ACHIM STEINER FRANCISCO J. RUIZ M.
Os países que compartilham essa rica e frágil região vêm dedicando seus esforços para con- Subsecretário-Geral das Nações Unidas e Secretário-Geral da Organização do
servar e desenvolver de forma sustentável a Amazônia, mas ainda têm de alcançar uma visão Diretor Executivo do Programa das Nações Tratado de Cooperação Amazônica a.i.
ambiental amazônica conjunta. Unidas para o Meio Ambiente
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INTRODUcaO:
Ainda é limitado o conhecimento a respeito o conceito de desenvolvimento sustentável
A Amazônia é um ecossistema de grande do funcionamento do complexo ecossiste- foi definido, e 7 anos desde a Cúpula Mun-
ma amazônico, que vai além das fronteiras dial sobre Desenvolvimento Sustentável,
valor por sua riqueza natural e cultural. entre os países que o integram. Apesar da onde se adotou o Plano de Implementação
existência de vários estudos sobre a região, de Johanesburgo da Agenda 21. Dentre as
Trata-se de um território ocupado por po- Amazônia sem mitos (Banco Interamericano iniciativas dessa natureza, os “Objetivos de
de Desenvolvimento; Programa das Nações Desenvolvimento do Milênio” podem ser
pulações de diversas origens, desde tem- Unidas para o Desenvolvimento; Secretaria destacados como a somatória dos esforços
Pro Tempore do Tratado de Cooperação para alcançar o desenvolvimento sustentá-
pos imemoriais. Além disso, é reconhecida Amazônica, 1992) foi o que expôs com vel e justo.
mais clareza os prejulgamentos ou mitos a
mundialmente por fornecer uma varieda- respeito da Amazônia. Esse trabalho foi uma Apesar disso, as evidências indicam que a
importante contribuição para promover uma Amazônia, um dos ecossistemas mais valio-
de de serviços ecossistêmicos não apenas visão regional da Amazônia. Dentre os diver- sos do planeta, está se deteriorando a um
sos mitos tratados pelo estudo, destacam- ritmo acelerado, sobretudo devido ao fun-
à população local, mas a todo o mundo. se: (i) a homogeneidade da Amazônia; (ii) cionamento não-sustentável das atividades
o vazio ou a virgindade amazônica; (iii) a ri- e pela predominância do critério de lucrativi-
queza e, ao mesmo tempo, a pobreza ama- dade no curto prazo, desconsiderando-se as
zônica; (iv) a Amazônia “pulmão da Terra”; externalidades das decisões econômicas. As
A Amazônia está vivendo um processo de (v) o indígena “freio ao desenvolvimento”; diferenças constituem um desafio impor-
(v) a Amazônia como solução ou panacéia tante ao gerenciamento dos problemas
degradação ambiental que se evidencia no para os problemas nacionais; e, por último, ambientais amazônicos, tanto no âmbito
(vi) a internacionalização da Amazônia. nacional como regional, mas, em vez de nos
aumento do desmatamento, na perda da fazerem recuar ou de nos dividirem, devem
O GEO Amazônia busca apresentar uma ser aproveitadas como uma oportunidade
biodiversidade, na contaminação da água, visão da Amazônia do ponto de vista dos para seguir fortalecendo a colaboração entre
países amazônicos com a participação dos os países amazônicos. A esse respeito, sua
na fragilização dos valores e modos de atores amazônicos e explicar, baseando-se preocupação com os problemas ambientais
em evidências científicas, que a Amazônia na Amazônia é inquestionável, traduzindo-se
vida dos povos indígenas, na deterioração é uma região heterogênea, de grandes em planos, programas e projetos. No entan-
contrastes tanto em riqueza natural e nos to, as respostas e ações ainda são limitadas
da qualidade ambiental nas áreas urba- aspectos físico-geográficos quanto nos se comparadas com a magnitude dos pro-
socioculturais, econômicos e político-institu- blemas ambientais a serem enfrentados.
nas. Essa situação é resultado de um con- cionais. As diferenças podem ser ressaltadas
inclusive em questões tão preliminares de Nessa conjuntura, o objetivo do GEO
junto de processos e forças motrizes que seu estudo como a própria denominação da Amazônia é contribuir com uma avaliação
região (o acento tônico da palavra “Amazô- ambiental integral do ecossistema amazôni-
afetam de maneira negativa seu complexo nia” recai na sílaba "ni" em alguns países) ou co à formulação de políticas e aos pro-
sua superfície. cessos de tomada de decisão, visando ao
ecossistema e os serviços proporcionados desenvolvimento sustentável na Amazônia.
Vários anos transcorreram desde os memo- Na avaliação ambiental integral, utilizou-se
por este, e que se traduzem em perdas na ráveis primeiros acontecimentos e cúpu- a proposta metodológica formulada pelo
las internacionais em que se assumiram projeto GEO (Global Environment Outlook)
qualidade de vida para a população local, compromissos a favor do desenvolvimento do Programa de Nações Unidas para o Meio
sustentável. São 22 anos desde o lançamen- Ambiente (PNUMA), que foi adaptada para
nacional e de toda a região. to do relatório Nosso futuro comum, no qual fazer uma análise ecossistêmica. Ressalte-se
>15

que o GEO Amazônia, assim como os ou- pesquisa, as características mais marcantes
tros processos GEO, caracteriza-se por uma da Amazônia e seus antecedentes históri-
abordagem participativa, multidisciplinar, cos, a modo de contextualização do objeto Os resultados do GEO Amazônia não deixam dúvida
multissetorial e multiproduto. de estudo. No segundo capítulo, abordam-
se os diversos processos ligados à situação de que o chamado feito em Amazônia sem mitos se
A proposta metodológica de avaliação ambiental, como as tendências sociode-
ambiental integral consiste em analisar mográficas e econômicas, os processos de mantém vigente. Todos concordamos que é possí-
as pressões e forças motrizes por trás da mudança no uso do solo e as mudanças
situação ambiental, explicar a situação climáticas. No terceiro são tratados o estado vel pensar em uma Amazônia que avance rumo ao
dos principais componentes ambientais, e as tendências da biodiversidade, da flo-
avaliar os impactos da degradação do meio resta, dos recursos hídricos e ecossistemas desenvolvimento sustentável e que assegure o bem-
ambiente sobre os ecossistemas e o bem- aquáticos, dos sistemas agroprodutivos e
estar humano e estudar as principais ações dos assentamentos humanos. No quarto, estar humano das gerações presentes e futuras da
e respostas empreendidas pelos diversos analisa-se o impacto gerado pela degra-
atores para reverter o processo de degra- dação ambiental na Amazônia sobre os região, mas para isso se fazem necessários compro-
dação ambiental. Finalmente, concluído o ecossistemas naturais e sobre o bem-estar
diagnóstico, consiste em apresentar as pers- humano. No quinto capítulo, são tratadas as misso, determinação e ações coordenadas.
pectivas ambientais futuras da Amazônia, principais respostas direcionadas a frear o
baseadas na análise de cenários e de temas processo de degradação ambiental e seus
emergentes. respectivos impactos. No sexto, são traça-
dos quatro cenários prováveis e se busca Por último, deve-se lembrar que um projeto desta
Em síntese, a avaliação ambiental integral explicar a situação ambiental que poderá
procura dar resposta às seguintes perguntas: ocorrer na Amazônia, levando em conside- natureza não teria sido possível sem o apoio incon-
ração as hipóteses de cada cenário; além
1. O que está acontecendo com o am- disso, são apontados os temas emergentes dicional de pessoas e instituições dos oito países-
biente amazônico e por que razão? que demandam atenção. Finalmente, no
capítulo sete, são apresentadas as princi- membros da OTCA, que contribuíram com infor-
2. Quais são os impactos sobre o pais conclusões do estudo e se expõe um
ecossistema amazônico e o bem-estar conjunto de linhas de atuação que podem mação e dados para a elaboração e revisão deste
humano dessa situação ambiental? contribuir para se reduzir a degradação da
Amazônia. documento. Merecem destaque especial os partici-
3. O que está sendo feito em termos
de reação a essa situação ambiental? O GEO Amazônia contém um valioso pantes das diversas oficinas, graças a quem, atra-
levantamento de dados e fontes de informa-
4. Quais são as perspectivas ambien- ção que se espera servir de referência no vés de sugestões, contribuições e comentários, foi
tais futuras da Amazônia? processo contínuo de avaliação e monito-
ramento. Nesse sentido, buscou-se apoiar possível ter uma melhor compreensão regional dos
5. Que propostas de ação viabiliza- e aprofundar as instâncias de diálogo e de
riam um futuro desenvolvimento intercâmbio de informação, a fim de, dessa problemas ambientais da Amazônia. Finalmente,
sustentável? maneira, constituir-se em uma plataforma
para a coordenação e sistematização da expressamos nosso sincero reconhecimento a co-
Nessa avaliação, foram consultadas fontes informação disponível.
de informação importantes e atualizadas. operação germano-holandesa que, através do Pro-
É preciso destacar que nesse estudo se
trabalhou principalmente com a informação grama Regional Amazônia OTCA/DGIS/BMZ-GTZ,
disponível nas instituições oficiais dos res-
pectivos países amazônicos. Nesse sentido, cobriu os custos da presente publicação, assim
o GEO Amazônia está promovendo o mo-
nitoramento de indicadores ambientais nas como as também às pessoas e instituições que ge-
respectivas áreas amazônicas dos países,
com a finalidade de avaliar as mudanças nerosamente contribuíram com material fotográfi-
num futuro próximo.
co, que permitiu comunicar com mais objetividade
Este relatório está dividido em sete capí-
tulos. O primeiro apresenta o âmbito da os resultados do estudo.
>17

MENSAGENS-
CHAVE
❱❱❱ AMAZÔNIA, REGIÃO As mudanças ocorridas no uso do solo Ao longo da história, a mudança nas formas de produção que
DE GRANDES RIQUEZAS E amazônico decorrentes do crescimento afetam os ecossistemas e a qualidade
MUITOS CONTRASTES. de atividades econômicas, da construção
Amazônia foi o centro de de vida da população. Por outro lado, as
Desde as ocupações de infra-estrutura e do estabelecimento atração da população ex- políticas públicas também geram incen-

pré-colombianas e, mais
de assentamentos humanos têm gerado
uma acelerada transformação do ecos-
pulsa de áreas com limi- tivos para o desenvolvimento de ativi-
dades produtivas, que nem sempre são
recentemente, pelos co- sistema amazônico. Até 2005, o desma- tada atividade produtiva e criteriosas com a sustentabilidade.

lonizadores europeus, a
tamento acumulado na Amazônia era de
857.666km2, o que significa que ao longo
poucas possibilidades de ❱❱❱ AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Amazônia é uma área de do tempo, a cobertura vegetal da região foi emprego, ou, ainda, alvo SÃO UMA AMEAÇA PARA A
reduzida em aproximadamente 17%. Isso da colonização promovida AMAZÔNIA.
diversidades culturais, equivale a dois terços do território peruano
A região amazônica tem
sociais e biológicas. ou a 94% da superfície da Venezuela. pelas políticas públicas.
sido afetada pelo aumen-
A Amazônia abriga uma grande variedade Na primeira década do século XXI, a
de espécies da flora e da fauna e é tam-
A perda de biodiversida- maioria dos países amazônicos registrou
to da temperatura mé-
bém uma importante área de endemismos, de se evidencia no maior nessa região taxas de crescimento po- dia e pela modificação
que fazem da região uma reserva genética
de importância mundial para o desenvol-
número de espécies pulacional acima do respectivo patamar
nacional. Em quatro dos oito países ama-
do regime das chuvas.
vimento da humanidade. Por exemplo, ameaçadas. zônicos, mais da metade da população Tais mudanças alteram
numa área de apenas dez hectares da flo-
resta equatoriana de Yasuni, foram encon- Embora não se tenha informação preci-
amazônica é urbana, sendo afetada por
problemas ambientais, como o volume
o equilíbrio dos ecos-
tradas 107 espécies de anfíbios, concentra- sa, diversos estudos apontam para um cada vez maior de resíduos sólidos, a de- sistemas e aumentam a
ção que faz desta a região mais biodiversa
do planeta em relação a esse grupo e um
processo de erosão genética alarmante.
Apesar das mudanças ambientais, ainda
terioração da qualidade do ar e a conta-
minação dos corpos d'água.
vulnerabilidade tanto do
hotspot de biodiversidade. Se, por um lado, existem espaços sem intervenção ou que ambiente natural como
a Amazônia é conhecida pela abundância apresentam escassos sinais de interven- Em contrapartida, os recursos naturais das populações humanas,
em recursos naturais, como minérios, pe- ção na Amazônia, o que deveria ser um amazônicos atraíram importantes inves-
tróleo e gás natural, por outro, seus habi- estímulo para que todos os países se mo- timentos para megaprojectos de minera- particularmente das mais
tantes vêm enfrentando altos índices de bilizem conjuntamente em prol do desen- ção, de exploração de hidrocarbonetos e pobres.
pobreza, acima da média nacional. volvimento sustentável da região. de geração de energia hidrelétrica, bem
como para os setores agrícola e pecuá- A Amazônia também contribui para a geração
❱❱❱ A AMAZÔNIA ESTÁ MUDAN- ❱❱❱A DEGRADAÇÃO rio – em resposta às tendências do mer- de gases de efeito estufa por meio do desma-
DO A UM RITMO ACELERADO, AMBIENTAL DA AMAZÔNIA cado mundial de alimentos e de energia. tamento e da queima da floresta. As mudan-
E AS MODIFICAÇÕES NO ECOS- É RESULTADO DE FATORES Isso deu lugar a um desenvolvimento ças climáticas poderiam transformar 60% da
SISTEMA SÃO PROFUNDAS. INTERNOS E EXTERNOS. atípico da infra-estrutura viária e a uma região em savana ainda neste século.
>19

❱❱❱ A DEGRADAÇÃO DOS SER- hídricos da região poderia ser suficiente DE CIVIL, DEMONSTRARAM cada país. Portanto, é fundamental que
VIÇOS ECOSSISTÊMICOS AMA- para influenciar algumas das grandes cor- GRANDE DINAMISMO NOS as ações conjuntas dos oito países da
ZÔNICOS AFETA O BEM-ESTAR rentes oceânicas, que são importantes re- ÚLTIMOS ANOS AO EMPRE- região sejam fortalecidas para capitalizar
HUMANO, MAS É POUCO CO- guladoras do sistema climático global. A ENDER INICIATIVAS PARA as oportunidades de cooperação e in-
NHECIDA, INCLUSIVE QUAN- valoração econômica possibilita a adoção TRATAR DOS PROBLEMAS tegração amazônica. Assim, as políticas
TO A PERDAS ECONÔMICAS. de comportamentos estratégicos quanto AMBIENTAIS AMAZÔNICOS. públicas direcionadas à região têm de ser
ao aproveitamento do ecossistema ama- formuladas de modo coordenado, atri-
A riqueza da Amazônia zônico, por meio da determinação dos
No contexto de um pro- buindo ou reconhecendo novos papéis
não se baseia apenas na valores associados ao uso e ao não-uso cesso de integração, para os atores regionais e locais em todas
dos recursos. Em vista disso, promover as iniciativas de desenvolvimento susten-
oferta de bens tangíveis, estudos e ações de valoração econômi-
articulação e descentra- tável regional. Nesse sentido, os países
sustenta-se também no ca dos serviços ambientais amazônicos é lização, foram implemen- amazônicos deveriam buscar potenciali-
funcionamento dos seus uma prioridade regional.
tados vários instrumen- zar a atuação da Organização do Tratado
de Cooperação Amazônica (OTCA) como
vários ecossistemas na- ❱❱❱ A AMAZÔNIA COMEÇOU A tos nacionais que visam organismo intergovernamental.
turais e sistemas socio- SE ARTICULAR COM O SISTEMA à gestão planejada da
E A ECONOMIA DOS PAÍSES. ❱❱❱ O PAPEL DAS POLÍTICAS
culturais, que oferecem Nos países amazônicos Amazônia. De um modo PÚBLICAS RELATIVAS AO
uma gama de serviços subsistiu a visão da re- geral, os países contam APROVEITAMENTO DOS RE-
CURSOS NATURAIS, O FUN-
ecossistêmicos. gião como espaço peri- com planos de desen- CIONAMENTO DO MERCADO

férico pouco articulado volvimento sustentável, E A APLICAÇÃO DA CIÊNCIA,


Infelizmente, o bem-estar humano na re- TECNOLOGIA E INOVAÇÃO
gião está sendo afetado pela degradação com a economia nacio- estratégias de desenvol- PARA O DESENVOLVIMEN-
ambiental, o que se constata na maior
nal, em razão da distân- vimento regional, instru- TO SUSTENTÁVEL SÃO TRÊS
incidência de doenças entre a população, DOS DETERMINANTES DAS
na elevação dos custos operacionais das cia com os principais mentos de zoneamento PERSPECTIVAS AMBIENTAIS
atividades econômicas, no agravamento
centros político-adminis- ecológico-econômico, DO FUTURO DA AMAZÔNIA.
dos conflitos sociais e no aumento da
vulnerabilidade em relação às mudanças trativos e da formulação além de programas e pro- A Amazônia é muito sensível a mudan-
climáticas.
de políticas fragmenta- jetos de âmbito regional, ças no funcionamento dos mercados,
razão pela qual a esse aspecto é dado
Há evidências de um aumento na inci- das e setoriais, que leva entre outros. maior peso na visão e na estratégia de
dência de doenças como a febre amarela, desenvolvimento regional. É necessário
a malária e o mal de Chagas, associado a uma gestão ambiental Os países têm empreendido novas concentrar esforços em três linhas de
a mudanças no uso do solo e a deter- limitada em termos de ações a fim de implementar instrumen- trabalho: conservação da floresta ama-
minadas intervenções antrópicas, dentre tos de gestão ambiental tais como os zônica e mudanças climáticas; manejo
elas a migração, o desmatamento e o ga- eficiência e eficácia. instrumentos financeiros ambientais, in- integrado de recursos hídricos; e manejo
rimpo. A Organização Mundial da Saúde clusive fundos de financiamento criados sustentável da biodiversidade e serviços
contabiliza entre 400 mil e 600 mil casos A Amazônia ainda não é considerada inteira- para viabilizar a execução de programas ambientais.
de malária por ano na Amazônia, de for- mente parte do “espaço ativo” nacional, na ambientais na Amazônia. Um exemplo
ma que, por menor que seja o aumento maior parte dos países da região, mas está deles é o Fundo Amazônia, do Brasil, A harmonização das políticas ambien-
no nível dessas doenças, o impacto nas se articulando, gradualmente, com o siste- que foi criado por meio do Decreto no tais em questões de relevância regional,
populações locais não será desprezível. ma político-administrativo, a sociedade e a 6.527, de agosto de 2008, para investir a geração e difusão de informação am-
economia nacional. Entre os países que con- em ações de prevenção, monitoramento biental na região e a promoção da valora-
Sabe-se, ainda, que, se as perdas de flo- seguiram isso, provavelmente o que mais e combate ao desmatamento. A expec- ção econômica dos serviços ambientais
resta na Amazônia passarem de 30%, progressos teve foi o Brasil. Por outro lado, tativa do Ministério do Meio Ambiente é amazônicos são exemplos de ações re-
haverá uma redução na liberação de va- os processos de descentralização em curso, de que esse fundo capte algo em torno comendadas para melhorar a perspectiva
por de água, o que implicará uma dimi- com diferentes níveis de avanço, procuram de um bilhão de dólares no primeiro ano ambiental da região. Os países amazô-
nuição das chuvas. Considerando que a fortalecer a governança ambiental a partir de funcionamento. nicos devem estender seus esforços de
água que escoa das florestas da Amazô- dos governos regionais e locais. integração e cooperação regional para a
nia para o oceano Atlântico representa Mas a Amazônia é uma unidade natu- construção de uma visão e um modelo
entre 15 e 20 por cento da descarga total ❱❱❱ OS ATORES DA REGIÃO ral e, por funcionar como tal, não pode conjuntos ao desenvolvimento sustentá-
mundial de água doce fluvial, uma alte- AMAZÔNICA, TANTO OS GO- ser conservada e gerida de forma isola- vel, em áreas que vão além da integração
ração na quantidade de água nos ciclos VERNOS COMO A SOCIEDA- da, baseada nos esforços individuais de energética e de infraestrutura.
>21

SUMARIO
EXECUTIVO
PARA OS TOMADORES DE DECISÕES

Capítulo 1 sentamentos humanos, etc. O GEO Amazônia utilizou gás. Não se pode afirmar, porém, que essas regiões ram nos últimos anos a expansão de um modelo de
AMAZÔNIA: TERRITÓRIO, informação geoespacial (referente aos três critérios tenham um nível de desenvolvimento elevado, já que produção que não leva em consideração critérios de
SOCIEDADE E ECONOMIA AO LONGO citados) para delimitar a Amazônia, gerando, assim, na maior parte dos casos os lucros não são reinvesti- aproveitamento sustentável e que acaba sendo muito
DO TEMPO um mapa composto da região: a "Amazônia maior" dos na região. mais danoso ao ambiente pelo fato de trazer con-
(8.187.965 km²) e a “Amazônia menor” (5.147.970 sigo recursos tecnológicos sofisticados. Ademais, a
A Amazônia é uma região da América do Sul km²). infra-estrutura viária e o desenvolvimento energético
caracterizada por riquezas e contrastes na- Capítulo 2 acompanham o crescimento do setor produtivo sem
turais e culturais. Dividida em florestas de terras A Amazônia é habitada desde tempos ime- DINÂMICAS NA AMAZÔNIA levar em consideração a perda de bens e serviços
baixas, ou planície amazônica, florestas de terras altas moriais. A questão da ocupação originária da re- ecossistêmicos. Paralelamente, a crescente demanda
e florestas alto-montanas, ("ceja de selva" ou "yun- gião apresenta lacunas e ainda hoje gera controvérsia, A dinâmica sociodemográfica está trans- por espécies da flora e da fauna selvagens estimula
gas"), drenada pelo rio Amazonas – o mais extenso sobretudo no que diz respeito à densidade e à forma formando rapidamente a Amazônia em uma o comércio ilegal de espécies, que é um importante
do mundo em comprimento e bacia hidrográfica – e como teria se dado esse processo. As ocupações região de maior densidade populacional e fator de erosão da biodiversidade.
seus mais de mil afluentes, a Amazônia abriga uma pré-colombianas na Amazônia foram formadas pelos de crescimento acelerado.
grande variedade de espécies da flora e da fauna, que povos Arawac, que se expandiram até as Antilhas, A população da Amazônia, que na década de 70 era Os processos socioeconômicos promove-
fazem dela uma importante área de endemismo. Por pelos Tupi-Guarani, da região do Chaco, e pela família de pouco mais de 5 milhões, atingiu 33,5 milhões de ram uma mudança acelerada no uso do solo
outro lado, a Amazônia também é sinônimo de diver- etnolingüística de origem Caribe, que adentrou a ba- habitantes em 2007, o que equivale a 11% da popu- na Amazônia. O crescimento da população, a
sidade cultural, com 420 povos indígenas diferentes, cia amazônica por um corredor de baixa pluviosidade. lação total dos países amazônicos. Trata-se de uma expansão de atividades econômicas e o desenvolvi-
86 línguas e 650 dialetos. Na zona peruano-equatoriana, registram-se vínculos população cujo crescimento está acima da taxa média mento de infra-estrutura levaram a uma modificação
culturais e comerciais entre a costa do Pacífico, o anual dos países, fruto de um processo associado às significativa da utilização do solo na região, resultando
Não existe uma definição universal para altiplano andino e a vertente oriental dos Andes (alta migrações espontâneas e às políticas de Estado de na fragmentação de ecossistemas, no desmatamento
a área amazônica. A Amazônia é heterogênea. Amazônia) no período de 3500 a 300 a.C. A atual colonização e povoamento. Como resultado, a densi- e na perda de biodiversidade. No Peru, por exemplo,
Assim, delimitá-la constitui tarefa por demais com- configuração do território que conhecemos como dade populacional da região amazônica passou de 3,4 a agricultura migratória e a pecuária foram responsá-
plexa. Desse modo, cada um dos países-membros da Amazônia resulta, em linhas gerais, do processo de hab./km², na década de 90, para 4,2 hab./km², no veis pelo desmatamento, até 2005, de uma área de
Organização do Tratado de Cooperação Amazônica ocupação da região pelos colonizadores europeus período 2000-2007. 857.666 km². Na Amazônia brasileira, a rede rodo-
(OTCA), instrumento de cooperação regional para entre os séculos XVI e XIX. viária decuplicou em 30 anos (1975-2005), dando
assuntos amazônicos comuns aos países-membros lugar ao desenvolvimento de novos assentamentos
– Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, O nível de desenvolvimento econômico A dinâmica econômico-produtiva, reagindo humanos. A produção cada vez maior de biocombus-
Suriname e Venezuela –, emprega critérios próprios varia muito na Amazônia. Existem áreas como à demanda dos mercados internacionais, tíveis dos últimos anos poderia acelerar mudanças no
na sua definição de Amazônia. Os mais comuns são: Orellana, no Equador, com um PIB per capita de gera uma pressão para o uso intensivo dos uso do solo na região.
físicos (p.ex., bacia hidrográfica), ecológicos (p.ex., US$25.628,22, e Putumayo, na Colômbia, onde esse recursos naturais na região. A produção de
cobertura florestal) e/ou de outro tipo (p.ex., político- indicador é de US$705,33. O fato de alguns locais madeira e de produtos florestais não-madeireiros A dinâmica econômica e social na Amazô-
administrativo). registrarem valores acima do PIB nacional se deve ao (particularmente a castanha-do-brasil), a explora- nia é responsável pela erosão cultural das
número relativamente pequeno de habitantes dessas ção de hidrocarbonetos e minérios, assim como a populações nativas. A população das comunida-
Além disso, é uma região heterogênea tanto em regiões e à exploração de uma grande quantidade expansão das lavouras e da pecuária para atender aos des nativas da região foi afetada pela degradação do
aspectos físicos quanto em diversidade de etnias, as- de recursos naturais, como minérios, petróleo ou mercados globalizados de commodities, estimula- meio ambiente, pela maior incidência de doenças,
>23

pelas carências alimentares e pela transculturação. É da bacia amazônica representa cerca de 20% A Amazônia tem cidades grandes, com mais de um dência na Amazônia. Nesse sentido, estudos indicam
ponto pacífico o fato de as dinâmicas econômica e de toda a água doce do mundo – a bacia capta milhão de habitantes, e cidades médias, que apresen- que há um aumento significativo na atividade do seu
social trazidas pela “modernidade” terem minado as entre 12.000 e 16.000 km³ de água por ano. No taram taxas de crescimento consideráveis nos últimos vetor e, portanto, na incidência da doença, quando o
instituições e práticas tradicionais, como o sistema de entanto, a disponibilidade de águas superficiais anos. Constata-se, ainda, um dinamismo na articulação desmatamento atinge 20% de uma determinada área
reciprocidade, afetando os modos de produção e a em cada um dos países da bacia amazônica de- entre os assentamentos humanos contíguos em zonas (Walsh; Molyneux; Birley, 1993; Foley et al., 2007). A
coesão social e cultural dos povos indígenas. pende, em grande medida, do tipo de uso e manejo de fronteira (p.ex., Cobija, Epitaciolândia e Brasiléia, ocorrência de doenças respiratórias também aumen-
que se faça neles. Por outro lado, a qualidade das na fronteira entre a Bolívia e o Brasil; e Caballococha, tou, neste caso devido aos incêndios florestais cada
O desenvolvimento científico e tecnológico águas superficiais da região amazônica está sendo Letícia e Tabatinga, na fronteira entre o Peru, a Colôm- vez mais freqüentes, assim como a do mal de Chagas,
na região foi limitado quanto à geração de afetada por diversas atividades antrópicas: rejeitos de bia e o Brasil). Todas elas apresentaram problemas favorecido pela substituição de vegetação primária e
alternativas para o aproveitamento sus- mineração, vazamentos de hidrocarbonetos, emprego ambientais, como maior volume de resíduos sólidos, pela expansão dos centros habitados, principalmente
tentável dos recursos naturais. Na Amazô- de agroquímicos na agricultura, despejos sólidos das perda de qualidade do ar e contaminação dos corpos daqueles com moradias precárias.
nia foram feitas importantes contribuições a fim de cidades e resíduos da transformação de culturas de d'água devido ao não-tratamento de esgoto.
aprofundar o conhecimento e o emprego de diversas uso ilícito, como a coca. A degradação ambiental está atingindo
espécies da flora e da fauna, mas o desafio está a economia local. São exemplos das perdas
em articular e difundir esses resultados. Na região Nítida expansão de sistemas agroproduti- Capítulo 4 econômicas causadas pela degradação dos serviços
também foram colocadas em prática inovações sem vos não-sustentáveis. A região apresenta siste- AS MARCAS DA DEGRADAÇÃO econômicos os seguintes: o aumento das pragas na
uma devida avaliação de seus impactos, por exemplo, mas de produção muito diferenciados em termos AMBIENTAL agricultura devido ao desaparecimento dos agentes
o uso de agroquímicos na monocultura e a incorpora- de escala, processos produtivos e articulação com naturais que as controlam, acarretando um aumento
ção de espécies da flora ou florestais. o mercado. Por um lado, viveu uma importante A degradação ambiental cada vez nos custos de produção em razão da maior demanda
expansão da agricultura de monocultura (soja) maior está alterando os serviços de agroquímicos; o desaparecimento de atividades
A Amazônia tem uma base institucional científico- e da pecuária intensiva, particularmente no Brasil ecossistêmicos amazônicos. O desma- turísticas com a perda de recursos paisagísticos e
tecnológica ampla, mas, apesar dos esforços de arti- e na Bolívia, onde avançaram sobre as áreas des- tamento compromete a capacidade de absor- da beleza cênica; e a redução na qualidade e dispo-
culação interinstitucional, predominam as iniciativas matadas, contribuindo, assim para o aquecimento ção de carbono da floresta e ainda contribui para nibilidade de água doce, cuja conseqüência é uma
independentes, pouco coordenadas entre si e restri- global e a perda de biodiversidade. No entanto, nos a liberação de carbono por meio das queimadas, demanda por mais investimentos em água e sanea-
tas em termos de difusão. A baixa disponibilidade de últimos anos também se observou o aparecimento que afetam a qualidade do ar. A fragmentação e a mento, a serem arcados pelo governo e pelas popula-
recursos financeiros e humanos na região representa de sistemas agroprodutivos sustentáveis, viáveis alteração das florestas por si sós já causam um im- ções locais. A pesca, um setor que movimenta entre
uma importante barreira para o desenvolvimento em pequena, média e grande escala, que se pacto considerável nos ecossistemas. Na Bolívia, por US$100 milhões e US$200 milhões por ano, poderá
científico e tecnológico. Em vários países da região baseiam no manejo integral dos componen- exemplo, as florestas que não sofreram perturbações ser afetada pela redução de espécies (Bayley; Petrere,
o orçamento total destinado à ciência, tecnologia tes econômico, social e ambiental. Esses têm uma quantidade de biomassa 43% maior que 1989; Petrere, 1989; Almeida et al., 2006; Barthem;
e inovação (CTI) representa menos de 1% do PIB, sistemas (agrosilvipastoril, agroflorestal e aquelas que foram afetadas por atividades econômi- Goulding, 2007).
como resultado da baixa prioridade dessa área na silvipastoril) conciliam a conservação dos cas, bem como 70% mais diversidade em espécies
agenda pública. serviços ecossistêmicos amazônicos e a de mamíferos de pequeno porte. O problema é que A degradação ambiental afetou as rela-
melhoria da qualidade de vida da população as evidências sobre os efeitos da degradação ambien- ções sociais e vem gerando cada vez mais
com a rentabilidade da atividade econômica. No tal nos serviços ecossistêmicos são ainda limitadas, o situações de conflito. O limitado alcance dos
Capítulo 3 entanto, os sistemas agroprodutivos sustentáveis têm que demanda mais pesquisa científica interdisciplinar marcos regulatórios, a falta de clareza na definição
A AMAZÔNIA HOJE tido um avanço limitado em comparação com com o propósito de melhorar a compreensão sobre dos direitos de propriedade e a escassez de recursos
os não-sustentáveis, devido aos incentivos a magnitude dos custos ambientais na Amazônia e para fazer cumprir a legislação em vigor ensejaram a
O desmatamento e a redução da biodiversi- do mercado e ao alcance limitado e pouco alertar para a urgência de uma ação conjunta a fim de invasão de terras, a ocorrência de processos de colo-
dade são responsáveis pela perda de hábi- duradouro das políticas públicas. tratar essa questão. nização não-planejados e o desenvolvimento de ati-
tats e pela fragmentação dos ecossistemas. vidades produtivas informais. Essa situação estimulou
A redução da cobertura florestal na Amazônia é uma A Amazônia viveu um processo de A degradação ambiental está afetando o emprego de meios escusos para obter acesso aos
realidade sem paralelo. No período 2000-2005 foram urbanização acelerado e não-plane- a saúde. O desaparecimento dos predadores recursos naturais, que são explorados de forma indis-
desmatados, por ano, 27.218 km², o que também jado que levou aproximadamente naturais dos agentes transmissores de doenças, criminada, sem levar em consideração os impactos
representa perdas em espécies da flora e da fauna. 62,8% de sua população a migrar a colonização/imigração, a exploração mineral, ambientais e sociais e desrespeitando os direitos de
Mas não é possível calculá-las devido a restrições de para as cidades. a construção de barragens e outras atividades que diversos grupos sociais locais. Nesse contexto, a che-
informação. A informação que existe sobre a situação Aproximadamente 21 milhões dos 33,5 alteram drasticamente as características do ecos- gada de modelos de ocupação do território indiferen-
da biodiversidade nos respectivos países se aplica ao milhões de habitantes da Amazônia sistema amazônico estão afetando a epidemiologia, tes às dinâmicas econômica, social e ambiental locais
nível local, não havendo dados estatísticos ou carto- vivem em zonas urbanas. Cinco dos a ecologia, os ciclos de vida e a distribuição de vírus. modificou o modo de vida tradicional, os costumes e
grafia geral para ilustrar essa realidade em nível de oito países que compartilham a região Na ilha de Marajó, registrou-se uma alta incidência de as crenças dos povos indígenas.
ecossistema. têm mais de 50% de sua população febre amarela em decorrência da migração, portada
amazônica assentada em áreas urbanas, para as áreas de ocorrência do vetor por pessoas Registra-se uma tendência ao aumento da
A Amazônia é da maior importância para o fato que reflete a importância do proces- não-imunes (Vasconcelos et al., 2001). vulnerabilidade diante de inundações, se-
equilíbrio hídrico global e continental, mas so de urbanização para a construção da cas e mudanças no clima. A ocupação desorde-
as ações voltadas à gestão integrada da estratégia de desenvolvimento sustentá- A malária, por outro lado, é uma das doenças nada do território com o estabelecimento de assenta-
bacia ainda são limitadas. O volume de água vel da região. transmissíveis que apresentam alta inci- mentos humanos precários em áreas sujeitas a risco,
>25

o uso inadequado da terra para atividades produtivas da última década, diversos instrumentos nacionais a outros tipos de ações, como se dá com as iniciativas sa na perda da cobertura florestal e na escassez de
e a falta de conhecimento sobre o funcionamento do voltados ao manejo planejado da Amazônia foram da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica água limpa, atingiu níveis alarmantes. Por último, os
ecossistema amazônico, sobretudo por parte da popu- implementados, no âmbito de um processo de inte- (OTCA), voltadas às questões ambientais de interesse impactos das mudanças climáticas já se fazem sentir
lação imigrante, tornam mais vulneráveis as comuni- gração, articulação e descentralização nos diversos mútuo (p.ex., gestão integrada da biodiversidade ou na região.
dades amazônicas. países. De um modo geral, os países contam com de recursos hídricos).
planos de desenvolvimento sustentável, estratégias ❱❱❱ No cenário "Luz e sombra" os países amazônicos
O aumento do desmatamento nas áreas de piemonte de desenvolvimento regional, instrumentos de zone- dedicaram muita atenção à área de ciência, tecnologia
dos Andes expõe as encostas à erosão hídrica, pro- amento ecológico-econômico, bem como programas Capítulo 6 e inovação para atingir o desenvolvimento sustentá-
duzindo o arrasto significativo de solo para as partes e projetos regionais, entre outros; em muitos casos, O FUTURO DA AMAZÔNIA vel. A OTCA participa como facilitadora de diversas
baixas. Isso leva ao desbarrancamento das margens porém, a carência de recursos financeiros e a sobre- iniciativas e a integração e o intercâmbio científico
dos rios e ao alargamento da calha destes, podendo posição ou falta de clareza sobre as competências Os atores amazônicos consideram que, no período com a rede de entidades acadêmicas estão em pleno
até resultar na modificação de seu curso. Se a perda dos governos nacionais, subnacionais e locais, freia o 2006-2026, as três principais forças motrizes das desenvolvimento. Fora isso, as parcerias entre os se-
de florestas for maior que 30%, a inibição das chuvas ritmo de aplicação desses instrumentos. mudanças ambientais na Amazônia serão: o papel das tores público e privado foram fortalecidas, com o que
será ainda mais intensa, dando lugar a um círculo políticas públicas relacionadas ao aproveitamento dos se conseguiu iniciar o diálogo entre ciência, iniciativa
vicioso que favorecerá incêndios na floresta, reduzirá As ações voltadas para a gestão integrada recursos naturais; o funcionamento do mercado; e o privada e demandas locais. Em 2026, a região amazô-
a liberação de vapor d'água e elevará a emissão de da bacia amazônica ainda são limitadas. A estímulo às áreas de ciência, tecnologia e inovação nica está dando seus primeiros passos em direção ao
fumaça na atmosfera, com a conseqüente supressão Amazônia é altamente importante para o equilíbrio para o desenvolvimento sustentável da região. Cabe desenvolvimento sustentável, tentando frear o avanço
drástica da precipitação (Nepstad et al., 2007). hídrico global e continental, mas a disponibilidade destacar que a Amazônia é muito sensível a mudan- dos inevitáveis impactos adversos das atividades
contínua de águas superficiais em cada um dos paí- ças no funcionamento dos mercados. produtivas tradicionais, que ainda têm importância na
A fragmentação e a degradação tornam a floresta ses amazônicos depende em larga medida do uso e economia regional.
mais vulnerável a incêndios florestais, pois permitem manejo adequados em cada um deles, num contexto Quatro cenários foram construídos: “Amazônia
a entrada de raios solares no interior da mata, aque- em que a gestão integrada dos recursos hídricos emergente”; “À beira do precipício”; “Luz e sombra”; e ❱❱❱ O mito da “Amazônia vazia” ainda está muito
cendo-a. Nesse contexto, os resultados obtidos por amazônicos é uma meta fixada, mas que ainda não “Inferno ex-verde”. enraizado na mentalidade dos servidores públicos
Nepstad (2007) são motivo de grande preocupação. foi alcançada. A OTCA, por exemplo, desenhou um e da sociedade dos países amazônicos em geral, no
Ele prevê que, até 2030, o desmatamento na floresta programa regional de gestão de recursos hídricos, jun- ❱❱❱ No futuro da “Amazônia emergente”, a gestão cenário “Inferno ex-verde”. O processo de ocupação
úmida amazônica poderá atingir 55% de sua superfí- to com o PNUMA e o GEF, a ser executado em breve. ambiental se aperfeiçoou, tanto pelo maior compro- e desenvolvimento dessa extensa região ainda se
cie. As taxas de mortalidade (doenças infecciosas/ve- Trata-se de um desafio de grande envergadura para a metimento dos governos como pela maior conscien- dá de forma pouco coordenada entre as iniciativas
tores, problemas de saúde e danos na infra-estrutura Amazônia. tização dos cidadãos a respeito da importância dos de cada país amazônico. A OTCA avançou pouco em
de atendimento médico) aumentarão devido às ondas ecossistemas e dos recursos naturais. As atividades termos de consenso para encontrar uma resposta à
de calor, à estiagem, aos incêndios e às enchentes A informação disponível sobre a Amazônia produtivas (mineração, hidrocarbonetos, agricultura) questão da insegurança ambiental e da disparidade
decorrentes das mudanças climáticas. ainda está fragmentada. A informação dispo- estão sujeitas a um controle maior e a requisitos mais econômica entre os países-membros e em nível
nível sobre os recursos e o meio ambiente da Ama- estritos, de acordo com o conceito “poluidor paga”. nacional. O quadro de pobreza entre a população
zônia encontra-se fragmentada, apresenta diferentes A principal carência da Amazônia nesse cenário é a amazônica se agravou, e a desigualdade atingiu
Capítulo 5 níveis de tratamento e não foi harmonizada entre os disponibilidade e o acesso limitados quanto a alterna- os maiores níveis registrados. Embora o mercado
RESPOSTAS DOS ATORES À países. Nos últimos anos, trabalhou-se para entender tivas tecnológicas ecoeficientes e ao aproveitamento mundial tenha apresentado oportunidades para que
SITUAÇÃO AMAZÔNICA os processos ecossistêmicos e humanos na região, da biodiversidade que beneficia as comunidades.. a Amazônia utilizasse os serviços ambientais de
mas ainda há muito que se aprender e entender. A forma sustentável, a limitada capacidade institucional
Atores amazônicos atuantes. Os atores da informação básica, assim como o monitoramento ❱❱❱ No mundo do cenário "À beira do precipício”, do setor público e o escasso desenvolvimento nas
região amazônica têm demonstrado grande dina- permanente, são as bases de um processo decisório a Amazônia se transformou no “último celeiro do áreas de ciência, tecnologia e inovação dos países
mismo nos últimos anos. Da parte dos governos, acertado, e esse é um desafio para os países amazô- mundo”, atendendo ao mercado internacional, que amazônicos não permitiram que questões-chave
evidenciam-se alguns esforços no que diz respeito nicos em conjunto. demanda produtos em maior quantidade e a pre- para a Amazônia fossem incorporadas a sua agenda
ao gerenciamento dos problemas ambientais amazô- ços mais baixos. O desenvolvimento de atividades internacional, e agora já é tarde: os ecossistemas
nicos, embora seu progresso em termos de planeja- Existem oportunidades para a cooperação econômicas na região para atender às demandas estão degradados e fragmentados, houve uma perda
mento e gestão estratégicos com visão de longo prazo e capacidade para agir. Enfrentar os desafios globais propiciou a execução de megaprojetos de irreparável de riqueza natural e cultural.
ainda seja limitado. No que se refere à sociedade da Amazônia requer o fortalecimento da capacidade infra-estrutura, como a IIRSA e a IIRSA II, voltados à
civil, sua atuação em termos de programas e projetos dos países e de suas redes institucionais conjuntas, expansão da malha rodoviária e da rede energética, Infelizmente, os cenários ora apresentados eviden-
para atender às suas prioridades foi bem-sucedida, o no sentido de facilitar a geração e o intercâmbio de visando melhorar a integração regional, o intercâmbio ciam que o estilo de desenvolvimento pelo qual os
que estimulou uma maior participação de sua parte conhecimento, promover a pesquisa/inovação e a de produtos e a mobilização dos fatores de produção, países amazônicos e suas sociedades optaram está
no processo decisório. A cooperação internacional e transferência e difusão de tecnologias e dar projeção como mão-de-obra. No que diz respeito ao marco reduzindo tanto as opções para o desenvolvimento
os organismos internacionais tiveram um importante à Amazônia entre os países da região e do mundo. regulatório, o aspecto mais importante a se destacar sustentável da região no futuro como a esperança
papel, contribuindo com recursos financeiros e tecno- Os países amazônicos têm trabalhado pela integração são as políticas públicas, que estão cumprindo seu de um desfecho alternativo para a Amazônia. Não há
lógicos para a execução dessas atividades. e cooperação regional nas áreas de integração física papel de promover a entrada de mais investimento na dúvida de que já é tarde para conservar a integridade
(p.ex., infra-estrutura para escoar a produção e desen- região, e não o contrário. O agravamento dos conflitos do ecossistema amazônico, no entanto muitas das
Os instrumentos para a gestão ambiental volvimento de serviços) e energética, mas a coopera- internos nas proximidades das fronteiras é motivo de decisões que tomemos hoje são cruciais para se de-
amazônica apresentaram avanços. Ao longo ção regional também tem de direcionar seus esforços grande preocupação. A degradação ambiental, expres- terminar em que medida “perder ou ganhar” entre a
>27

degradação ambiental e o desenvolvimento socioeco- países constitui uma base para a discussão desses tunidades de discussão e ação relativas às prioridades - Desenvolver pesquisa aplicada na área de ciências
nômico seria aceitável para os cidadãos amazônicos. temas em nível regional. Além disso, cabe destacar ambientais da região sejam aproveitados adequada- sociais visando aperfeiçoar o processo de formulação
que a implementação harmonizada desses instru- mente. Desse modo, é fundamental o fortalecimento de políticas específicas para a região.
Capítulo 7 mentos constitui-se em um passo estratégico para o da Organização do Tratado de Cooperação Amazôni-
A AMAZÔNIA POSSÍVEL planejamento do desenvolvimento amazônico com ca, assim como de outros organismos regionais que - Fortalecer os sistemas de informação existentes e
uma perspectiva regional. promovem o diálogo entre as autoridades nacionais, promover a sua articulação com os setores público e
A situação ambiental da Amazônia impõe grandes regionais, estaduais e/ou locais, e entre os especia- privado.
desafios à região, que apontam para a importância de ❱❱❱ Elaborar e implementar estratégias listas nos principais temas ambientais amazônicos. É
uma ação conjunta. As linhas de ação propostas resul- regionais que viabilizem o aproveitamento preciso, ainda, promover a participação dos diferentes - Elaborar e implementar uma estratégia de difusão
tam tanto de uma avaliação ambiental integral como sustentável do ecossistema amazônico. atores da sociedade civil nos processos de tomada de que permita uma adequada divulgação das questões
de um processo de consulta entre os oito países ama- Considerando que os países da Amazônia compar- decisão e elaborar mecanismos e meios para viabili- ambientais relativas à Amazônia entre diferentes
zônicos. Constituem um esforço voltado a impulsionar tilham diversos ecossistemas, faz-se necessária a zar as ações acordadas. setores do público.
o desenvolvimento sustentável da região. elaboração de estratégias conjuntas ou estreitamente
articuladas de gestão integral dos bens e serviços - Constituir o Fórum de autoridades ambientais regio- ❱❱❱ Promover estudos e ações de valorização
As linhas de ação sugeridas são: ecossistêmicos. Nesse aspecto, é preciso concentrar nais e locais da Amazônia e avaliar a necessidade e econômica dos serviços ambientais amazô-
esforços em três linhas de trabalho: conservação da a viabilidade da reativação e do aperfeiçoamento da nicos.
❱❱❱ Construir uma visão ambiental amazôni- floresta amazônica e mudanças climáticas; gestão in- Comissão Especial de Meio Ambiente da Organização A valorização dos serviços ambientais amazônicos é
ca integrada e definir o papel da região no tegrada de recursos hídricos; e gestão sustentável da do Tratado de Cooperação Amazônica. um assunto em torno do qual a região pode somar
desenvolvimento nacional. biodiversidade e dos serviços ambientais. Por outro esforços no sentido de que se reconheça o valor dos
A construção dessa visão será possível se alicerçada lado, é importante que as estratégias definidas sejam - Elaborar e implementar mecanismos, instrumentos diversos serviços ecossistêmicos proporcionados pela
no diálogo entre os diferentes atores amazônicos, em socializadas entre todos os atores, de modo a assegu- e meios para promover e viabilizar a coordenação, a região. Com base nisso, será possível formular políti-
articulação com os diversos níveis de governo. Esse rar sua participação para a consecução dos objetivos execução, o monitoramento e a avaliação dos acordos cas e instrumentos de remuneração que incentivem
processo enriquecerá os esforços dos países amazô- previamente definidos. regionais em vigor. o aproveitamento sustentável dos serviços ecossistê-
nicos no intuito de estabelecer uma visão ambiental micos.
integrada. Para tanto, propõe-se inicialmente a criação Com o intuito de facilitar a implementação dessas As redes universitárias existentes na região podem
do Fórum de Ministros de Meio Ambiente da Região estratégias, faz-se necessário elaborar uma estraté- ❱❱❱ Fortalecer os esforços de geração e difu- ser aproveitadas para identificar temas de interesse
Amazônica, o que facilitará o desenvolvimento de gia conjunta de financiamento. Tal medida permitirá são de informação sobre meio ambiente na comum e modalidades de colaboração para o desen-
uma agenda ambiental de ação conjunta, sendo este aprimorar as capacidades técnicas nacionais, realizar região. volvimento de estudos de valorização econômica nas
o primeiro passo para a constituição de fóruns de dis- investimentos de acordo com cronogramas compa- Considerando a importância da produção científica e áreas de recursos hídricos e biodiversidade.
cussão multissetoriais que envolvam atores relevantes tíveis para todos os países amazônicos e estreitar os da geração de dados nos países da região para a ade-
ao desenvolvimento dos Estados que compartilham a vínculos com a cooperação internacional. quada gestão das questões ambientais na Amazônia, ❱❱❱ Criar um sistema de monitoramento e
região. é crucial estabelecer medidas de sistematização e de avaliação dos impactos de políticas, pro-
❱❱❱ Incorporar a gestão de riscos à agenda articulação dos diversos esforços em curso, com a fina- gramas e projetos.
❱❱❱ Harmonizar as políticas ambientais pública. lidade de criar um sistema integrado de informação e, A fim de dar prosseguimento à implementação da
quanto aos temas de relevância regional. A heterogeneidade e a complexidade da Amazônia mais especificamente, de dados ambientais. Por outro agenda ambiental amazônica, deve-se contar com um
Serão necessários mecanismos que facilitem esse em um contexto de crescente vulnerabilidade a lado, é necessário estreitar os vínculos de cooperação sistema de monitoramento baseado em indicadores
processo, de modo a compartilhar as experiências eventos climáticos exigem a elaboração de políticas e científico-tecnológica entre os países, com o propósito de desempenho para os diversos temas abordados
nacionais, as lições aprendidas e a tecnologia de- medidas que estimulem uma adaptação às mudanças de elaborar e pôr em prática uma agenda de pesquisa pela agenda. De igual forma, é necessário realizar
senvolvida, e construir e implementar uma agenda climáticas. Assim, é importante que a gestão de riscos científica, com ênfase na pesquisa aplicada. periodicamente a avaliação do cumprimento das
conjunta de trabalho ou uma estratégia regional de seja incorporada nas avaliações ambientais estratégi- metas, segundo indicadores preestabelecidos. Nesse
gestão de recursos naturais (florestas, biodiversidade cas, quando da definição das estratégias de desenvol- Ademais, deve-se elaborar uma estratégia de difusão aspecto, um observatório ambiental amazônico cons-
e recursos hídricos, entre outros), capitalizar as boas vimento amazônico. Isso permitirá evitar ou reduzir os e comunicação de questões ambientais prioritárias tituiria uma ferramenta estratégica para a formulação
práticas desenvolvidas e construir sinergias em torno custos associados à ocorrência de desastres. levando em consideração os diversos segmentos do de políticas e de instrumentos de gestão.
da gestão de assuntos ambientais prioritários. público interessado (formuladores de políticas, em-
Um elemento fundamental associado à gestão de presários, estudiosos, ONGs e público em geral).
❱❱❱ Elaborar e implementar instrumentos de riscos é o monitoramento ambiental baseado em indi-
gestão ambiental integrada. cadores previamente definidos. Esse monitoramento As principais ações sugeridas a esse respeito são:
Reconhecendo que os países avançaram no desen- propiciará que futuras fontes de risco sejam identifi-
volvimento e na implementação de instrumentos cadas, facilitando o funcionamento dos sistemas de - Criar um sistema amazônico de informação ambiental
voltados à gestão ambiental na Amazônia, é preciso alerta antecipado. tendo em conta as plataformas existentes (sistemas de
somar esforços a fim de desenhar instrumentos de georreferenciamento e de estatísticas, entre outros).
ordenamento territorial e critérios para a condução
de avaliações de impacto ambiental e de avaliações ❱❱❱ Fortalecer a base institucional ambien- - Produzir pesquisa científica e tecnológica, para atender
ambientais estratégicas. Nesse sentido, o intercâmbio tal amazônica. aos problemas ambientais prioritários da região, e pro-
de experiências sobre os progressos obtidos pelos É importante que os instrumentos criados e as opor- mover o intercâmbio de experiências e de especialistas.
>29

INDICE
Prefácio

Apresentação
10

12
Capítulo 4
As marcas da degradação
ambiental 194

Mensagens-chave 16 4.1 Impactos sobre os serviços ecossistêmicos 196

Sumário executivo 20 4.2 Impactos sobre o bem-estar humano 202

4.3 Vulnerabilidade 212


Capítulo 1
Amazônia: território, sociedade e eco-
nomia ao longo do tempo 30 Capítulo 5
Respostas dos atores à situação
1.1 Características geográficas 32 amazônica 220

1.2 Âmbito do estudo 38 5.1 Governança ambiental 222

1.3 História e cultura 42 5.2 Atores na região 236

1.4 Novos modelos de ocupação territorial 56 5.3 Principais ações ambientais 240

Capítulo 2 Capítulo 6
Dinâmicas na Amazônia 64 O futuro da Amazônia 252

2.1 Dinâmica sociodemográfica 66 6.1 Apresentação 254

2.2 Dinâmica econômica 80 6.2 Hipóteses fundamentais 256

2.3 Mudanças no uso do solo 94 6.3 Uma visão da Amazônia no futuro 258

2.4 Ciência, tecnologia e inovação 96 6.4 Temas emergentes 274

2.5 Mudanças climáticas e eventos naturais 100 6.5 Conclusões 276

Capítulo 3 Capítulo 7
A Amazônia hoje 106 A Amazônia possível 282

FOTOGRAFÍAS: JUAN PRATGINESTÓS / acervo PPG7-GTZ


3.1 Biodiversidade 109 7.1 Conclusões 286

3.2 Florestas 130 7.2 Linhas de ação 288

3.3 Recursos hídricos e ecossistemas aquáticos 147 Bibliografia 292

3.4 Sistemas agroprodutivos 162 Índice de tabelas, gráficos, mapas e quadros 317

3.5 Assentamentos humanos 176 Acrônimos e siglas 320


a
AmazOnia:
TERRITÓRIO, SOCIEDADE E ECONOMIA

ao longo
do tempo
1.1
1.2 1.4

CARACTERÍSTICAS
AUTORES:

1.3

GEOGRÁFICAS
KELERSON COSTA Ministério do Meio Ambiente – Brasil
ELSA GALARZA Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP) – Peru

NOVOS MODELOS
ROSÁRIO GÓMEZ Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP) – Peru

DE OCUPAÇÃO
ÂMBITO DO

HISTÓRIA E

TERRITORIAL
COAUTORES:

CULTURA
MARIO BAUDOIN Instituto de Ecologia / Universidade Mayor de San Andrés – Bolívia

ESTUDO
ZANIEL NOVOA Centro de Pesquisa em Geografia Aplicada/PUCP – Peru
RITA PISCOYA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – Brasil
LUIS ALBERTO OLIVEROS Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)
FERNANDO RODRÍGUEZ Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP) – Perú
CARLOS ARIEL SALAZAR Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP) – Peru
MURIEL SARAGOUSSI Ministério do Meio Ambiente – Brasil
KAKUKO NAGATANI Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
32
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>33

A AMAZÔNIA É EXTENSA, HETEROGÊNEA E OCUPADA PELO HOMEM DESDE


tempos remotos. Nela diversos ecossistemas funcionam em estreita relação. FLORESTAS E RIOS; ABUNDÂNCIA DE
ÁGUA E DE VIDA NATURAL: ESSÊNCIA
Com a finalidade de oferecer um panorama da análise apresentada nas seções DA PAISAGEM AMAZÔNICA.
seguintes, neste capítulo identificamos as características geográficas que mais se
destacam na região, delimitamos o âmbito do estudo, apontamos os antecedentes
históricos da região e apresentamos os novos modelos de ocupação do território.

1.1|CARACTERÍSTICASgeográficas
As riquezas naturais e a diversidade social e cultural da Amazônia A Bacia Amazônica possui
fizeram dela o centro das atenções tanto entre os próprios países
amazônicos (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Suriname, afluentes nos dois hemisférios
Peru, Venezuela)1 como em todo o mundo. Esse enorme ecossis-
tema, complexo e heterogêneo, abriga a floresta tropical e a rede
do planeta; portanto o seu
hídrica mais extensas do planeta, sendo responsável por uma grande comportamento hídrico está
variedade de serviços ecossistêmicos. O rio Amazonas, que atravessa
essa extensa e valiosa área de vida natural e cultural, transmitindo uma sujeito à alternância das estações
sensação de vastidão e majestade, é reconhecido como o mais longo,
caudaloso, largo e profundo do planeta.
seca e chuvosa dos dois
hemisférios.
As características da Amazônia foram determinadas pelos diversos
processos geológicos, geomorfológicos, climatológicos, hidrográficos e
biológicos que ocorreram na América do Sul. O ecossistema amazôni-
co é resultado desses processos, e a interação deste com a população
humana moldou os padrões ambientais presentes na região.

Há mais de 100 milhões de anos, os territórios da América do Sul


(naquele período geológico só existia o atual escudo das guianas) e
da África começaram a se separar. Esses dois continentes comparti-
lham diversos grupos de plantas e animais nos níveis taxonômicos
de gênero, família e ordem. Até se unir fisicamente à América do
Norte, há aproximadamente 4 milhões de anos, a América do Sul foi
uma grande ilha. Esse encontro propiciou uma invasão de plantas e
animais de um bloco continental ao outro, e a influência de diversos
grupos de animais provenientes do norte gerou grandes mudanças na CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

fauna amazônica (Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana


[IIAP], 2001).

A subdução ou deslocamento da placa tectônica de Nasca por sob


a Placa Continental Sul-Americana deu início ao processo de formação
1AFrança possui um território na Amazônia com status de departamento ultramarino:
a Guiana Francesa.
34
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>35

QUADRO 1.1

ZANIEL NOVOA
ORIGEM ANDINO DO RIO AMAZONAS

A localização da nascente do rio Amazonas é um assunto que


há muito vem suscitando o interesse de cientistas, tendo
rendido diversas expedições ao longo do tempo. Todas as
expedições apontam para uma origem andina, na província de
Caylloma, na região de Arequipa (Peru).

Segundo o relatório da expedição Amazon Source, realizada em


1996, o Amazonas nasce na quebrada Apacheta, nas faldas do
nevado Quehuisha (5.170 m.s.n.m), nas coordenadas geográficas
15°31’05’’ de latitude sul e 71°45’55’’ de longitude oeste. Após
pequeno percurso, a quebrada Apacheta recebe as águas do rio
Ccacansa e, a seguir, do rio Sillanque. Na confluência dos rios
Carhuasanta e Apacheta, este passa a se chamar Loqueta, correndo
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

de sul a norte. O rio Carhuasanta nasce no nevado Choquecorao. Os


nevados Quehuisha e Choquecorao pertencem à cordilheira Chila,
uma seção da cordilheira ocidental dos Andes. A cordilheira Chila
constitui o divisor das águas continentais.
❱❱❱ O Amazonas inicia o seu percurso na
O relatório aponta os seguintes critérios por que o Apacheta é quebrada de Apacheta.
❱❱❱ Os formadores do rio Amazonas são rápidos e turbulentos na sua cabeceira ao atravessar o acidentado relevo andino. considerado o principal manancial: vazão (é seis vezes maior que a
do Carhuasanta) e morfologia. Esse último corresponde à ação das
águas do rio na definição do seu leito ao longo do tempo.
da cordilheira dos Andes. Entre essa cadeia O Amazonas nasce na quebrada Apache-
de montanhas e o escudo das guianas, há ta, das geladas águas que brotam de uma pe- A seguir apresentamos uma relação de alguns dos autores que se
O RIO AMAZONAS cerca de 15 a 20 milhões de anos, formou-se quena nascente localizado aos pés do monte debruçaram sobre a questão da nascente do Amazonas:
DESPEJA uma bacia estrutural sedimentar (IIAP, 2001). Quehuisha, na cordilheira de Chila, em Are-
NO OCEANO Cabe destacar que a bacia amazônica é bi- quipa (Peru), a 5.170 metros de altitude. O
ATLÂNTICO, EM hemisférica, motivo pelo qual seu comporta- Amazonas segue um percurso de aproximada-
mento hídrico está condicionado pela alter- mente 7.000 km até desembocar no oceano
MÉDIA, 220.000
nância das estações seca e chuvosa dos dois Atlântico. A determinação exata da extensão
M³/S, EMBORA NA
hemisférios. O rio Amazonas descarrega no do Amazonas é tarefa por demais complexa AUTOR ANO ORIGEM/NASCENTE
ÉPOCA DAS CHUVAS oceano Atlântico em média 220.000 m3/s em razão do deslocamento do seu curso, so-
POSSA ATINGIR S.J. SANTOS GARCÍA 1935 LAGUNA VILAFRO
de água. Quando a temporada das chuvas bretudo quando forma meandros divagantes
UMA VAZÃO DE ATÉ predomina na maior parte da sua bacia, sua na zona do rio Ucayali (Novoa, 1997; Martini, MICHEL PERRIN 1953 CERRO HUAGRA
300.000 M³/S. vazão atinge 300.000 m3/s. A maior capta- Duarte, Shimabukuro, Arai y Barrios, 2007). GERARDO DIANDERAS 1953 CERRO HUAGRA - RIO MONIGOTE
ção de água na bacia amazônica provém do
rio Madeira, afluente do rio Amazonas pela Sua largura varia com o regime das cheias, HELEN E FRANK SCHREIDER 1968 LAGUNA VILAFRO
margem direita. atingindo um máximo relativo de 5 km, em- NICOLÁS ASHESHOV 1969 NEVADO MINASPATA
bora, na época da cheia, em alguns setores,
CARLOS PEÑAHERRERA DEL ÁGUILA 1969 NEVADO MISMI - RIO CARHUASANTA
Uma característica da bacia amazônica encontrem-se alagadas faixas de 20 a 50 km
são os ciclos de vazante e cheia, que con- para além de ambas as margens. Há no seu LOREN MCINTYRE 1971 NEVADO CHOQUECORAO
dicionam diversos processos biológicos. Na leito numerosas ilhas, às vezes formando um WALTER BONATTI 1978 RIO HUARAJO
cheia o nível da água, e, por conseguinte, labirinto de canais. Na foz, o delta do Amazo-
a vazão do rio, aumenta significativamente, nas tem 320 km de largura. Os dois principais JEAN-MICHEL COUSTEAU 1982 NEVADO CHOQUECORAO
o que permite a dispersão dos elementos braços fluviais do delta, Macapá e Pará, com- JACEK PALKIEWICZ, ZANIEL NOVOA
1997 NEVADO QUEHUISHA - RIO APACHETA
aquáticos e melhora as condições de ali- põem a ilha de Marajó, sendo esta a maior GOICOCHEA
mentação dos recursos hidrobiológicos. Na ilha fluvial do mundo (48.000 km2). De acor- BOHUMIR JANSKÝ 1999 NEVADO MISMI - RIO CARHUASANTA
vazante há uma redução gradual da vazão, do com dados oficiais dos países-membros
NEVADO MISMI – REGIÃO ONDE SE LOCALIZAM AS
favorecendo a concentração da ictiofauna de OTCA, a região amazônica tem uma área
BOHUMIR JANSKÝ 2000 NASCENTES DOS RIOS CARHUASANTA, CCACANSA,
nos principais cursos d'água. Nessa época, de 5.147.970 a 8.187.965 km2, dependendo
APACHETA E SILLANQUE
o rendimento da pesca aumenta devido à do critério utilizado, abrangendo tanto terras
facilidade de captura. altas e das vertentes da cordilheira dos Andes Fonte: Novoa (1997), Janský et al. (2008)
36
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>37

QUADRO 1.2
predominam as formações próprias de floresta tropical úmi-
A AMAZÔNIA E O RIO AMAZONAS:
da, são identificadas três sub-regiões com características
SUAS PRINCIPAIS DIMENSÕES
específicas de clima e relevo, que podem ser delimitadas
de acordo com cotas de altitude. A floresta de planície ou
1. O Amazonas é o rio mais extenso do mundo, com planície amazônica, que se estende da foz do rio até 500
6.992,06 km (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais m.s.n.m., tem clima quente e úmido e precipitação entre
[INPE], 2008). 1.500 mm/ano e 3.000 mm/ano ou mais; apresenta um
relevo quase plano, com esporádica alternância de sistemas
2. O rio Amazonas tem a bacia hidrográfica mais extensa de colinas. A floresta alta, de clima quente e úmido, porém
do planeta. Diversos estudos fazem menção à área da com uma variação de temperatura entre o dia e a noite,
bacia amazônica. Alguns indicam 7.165281 km2 (Novoa, que ocorre até 1.000 m.s.n.m e possui vales estreitos de
1997; INPE, 2008); o da Agência Nacional de Águas do grande comprimento, onde os rios formaram terraços es-
Brasil (Brasil: Ministério do Meio Ambiente – Agência calonados em vários níveis; dependendo da orientação do
Nacional de Águas, 2006), 6.100.000 km2. relevo, as precipitações anuais podem passar de 5.000 mm/
ano em alguns locais. O clima e o relevo da alta montanha
3. O Amazonas possui a maior vazão (220.000 m3 por influenciam a rede hidrográfica. Por último, a floresta alto-
segundo, em média). Escoa mais água que os rios montana, “ceja de selva”, “yungas” ou outra denominação
Missouri-Mississipi, Nilo e Yangtzê juntos. local, que pode ocorrer até acima de 3.000 m.s.n.m., com
predominância de relevo muito abrupto, cânions profundos,
4. O Amazonas tem mais de mil afluentes, três dos quais gargantas e rios de correntezas rápidas e turbulentas; seu
têm mais de 3.000 km de extensão (Madeira, Purus e clima é úmido, porém muito contrastado no que se refere à
Juruá). temperatura, o que favorece a alta nebulosidade (setores da
“floresta de neblina”).
5. As bacias tributárias mais importantes do rio Amazonas
têm origem na cordilheira dos Andes; os demais tributários Em linhas gerais, a precipitação média na Amazônia varia
provêm da meseta brasílico-guianense e de setores que muito, entre 1.000 e 3.000 mm/ano. Estima-se que 60%
divisam com a bacia do Orinoco na Colômbia. das precipitações são recicladas por evapotranspiração, en-
tretanto, em áreas muito específicas, a precipitação é baixa,
6. A Amazônia contribui com aproximadamente 20% da por vezes inferior a 300 mm/ano. A temperatura média é
água doce que flui dos continentes para os oceanos. alta na região, embora mostre grande variabilidade espacial
e temporal (diminui à maior altitude). A temperatura média
7. A floresta amazônica representa mais da metade das anual flutua entre 24 e 26 °C.
florestas tropicais úmidas do planeta.
A marcada variação de temperatura e de umidade atmos-
8. É uma região megadiversa: dois dos países amazônicos férica com a altitude, tanto entre o dia e a noite como ao longo
– Brasil e Colômbia – têm um terço das plantas vasculares do ano, explica a configuração de “andares ecológicos” que
conhecidas no mundo. O Peru detém o recorde mundial favorecem a efervescência de biodiversidade nos setores da
❱❱❱ Os últimos contrafortes da cordilheira anunciam a proximidade da grande planície amazônica. de maior número de espécies de borboletas. vertente oriental dos Andes (floresta alto-montana e floresta
GUYANA AMAZON TROPICAL BIRDS´ SOCIETY / WWF
de nevoeiro), porém não impede a existência de uma impor-
9. Expressão de diversidade cultural: 420 povos indígenas tante ligação entre as áreas altas e baixas da Amazônia. Para
“A terra recebe como planícies tropicais. Assim, representa
entre 4% e 6% da superfície total da Terra
segundo a época do ano e o local; no es-
treito de Óbidos (Brasil) a sua profundidade
diferentes, 86 línguas e 650 dialetos. Aproximadamente
60 povos vivendo em situação de isolamento.
informação mais detalhada, veja as seções sobre biodiversi-
dade e florestas, no capítulo 3.
insultos e oferece e de 25% a 40% da superfície da América se aproxima dos 300 m. Na seção sobre
suas flores como Latina e o Caribe. recursos hídricos e ecossistemas aquáticos,
no capítulo 3, tais características são apre-
Nesses andares ecológicos ocorre uma variedade de ecos-
sistemas, reconhecidos como os mais ricos do mundo, onde
resposta.” Ao longo do seu curso, as águas do Ama- sentadas com maior detalhe. vivem povos indígenas desde tempos remotos. Os povos in-
zonas arrastam um enorme volume de se- dígenas são depositários de conhecimentos tradicionais sobre
dimentos em suspensão, que lhe conferem Cabe destacar que outras bacias e micro- Fontes: Novoa (1997), Organização do Tratado de Cooperação Amazônica as características e o uso da rica diversidade biológica: “Os
um aspecto barrento. Segundo estimativas, bacias hidrográficas, apesar de não perten- (OTCA), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e povos indígenas conheceram milhares de espécies vegetais
Global Environment Facility (GEF) (2006); OTCA (2007); Eduardo (2005);
106 milhões de pés cúbicos de sedimentos cerem à do rio Amazonas, têm uma estreita Brackelaire (2006). e as utilizaram com diversas finalidades. Coletaram frutos e
RABINDRANATH TAGORE são despejados diariamente no oceano. A relação com esta (p.ex.: a do rio Tocantins, sementes, utilizaram trepadeiras e cipós para construir suas
(1861-1941), FILÓSOFO massa de água que chega ao oceano Atlân- no Brasil). moradias e utensílios básicos; troncos de grandes árvores para
E ESCRITOR INDIANO. tico tem um raio de influência de mais de fabricar canoas e balsas, folhas de palmeiras para se prote-
100 km mar adentro. A profundidade média Na Amazônia, entendida neste contexto ger das inclemências do clima; bem como espécies com fins
do baixo Amazonas varia entre 10 e 30 m, como o setor da bacia amazônica em que mágico-medicinais” (Wust, 2005).
38
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>39
>39
SERGIO AMARAL / OTCA
MAPA 1.1a QUADRO 1.3
Contorno da Amazônia segundo o critério ecológico
A REGIÃO AMAZÔNICA PARA OS PAÍSES DA OTCA DE
ACORDO COM TRÊS CRITÉRIOS ALTERNATIVOS

Em razão da complexidade e heterogeneidade da região,


uma definição rígida da Amazônia geraria restrições. Por
esse motivo, neste documento utilizamos três critérios,
que são os mais empregados em diversos estudos:

a. Ecológico (ou biogeográfico): usa como indicador a


extensão correspondente ao bioma floresta tropical úmida
e subtropical sul-americano, localizado ao leste da
cordilheira dos Andes.

b. Hidrográfico: considera a extensão total da bacia


amazônica. No entanto, é preciso destacar que, quando
este critério é empregado na análise, faz-se também
referência a outras bacias ou microbacias que têm uma
estreita ligação com a amazônica.
MAPA 1.1b
Contorno da Amazônia segundo o critério hidrográfico
c. Político-administrativo: refere-se à área compreendida
pelos limites político-administrativos de diferente hierar-
quia estabelecidos para cada país e definidos como parte
❱❱❱ Entardecer em um rio da planície amazônica. da sua Amazônia.

1.2| ÂMBITODOESTUDO NOTAS:


a) O mapa segundo o critério ecológico ou biogeográfico foi elaborado com
base em arquivos e informação proporcionados por: Conservation Internatio-
nal / WWF, Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (Sinchi) – Colombia,
Programa de Ordenamento Ambiental do Instituto de Pesquisas da Amazônía
A Amazônia é heterogênea. Assim, delimitá-la constitui tarefa por de- Peruana (IIAP), Centro de Pesquisa Agrícola Tropical – Bolivia (CIAT-Bolivia) e
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
mais complexa. Por esse motivo, cada um dos países-membros da Or-
ganização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), instrumento
da cooperação regional para assuntos amazônicos comuns aos países- b) O mapa segundo o critério hidrográfico ou de bacia foi elaborado mediante
membros – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Surina- arquivos e informação obtidos de: HydroShed (USGS/WWFInstituto
Amazônico de Pesquisas Científicas (Sinchi) – Colombia, Programa de
me e Venezuela –, emprega critérios próprios na definição nacional de Ordenamento Ambiental do Instituto de Pesquisas da Amazônía Peruana
Amazônia. Tais critérios são: físicos (p.ex., bacia hidrográfica), ecológicos (IIAP), Centro de Pesquisa Agrícola Tropical – Bolivia (CIAT-Bolivia) , Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto Geográfico da
(p.ex., cobertura florestal) e/ou de outro tipo (p.ex., político-adminis-
MAPA 1.1c Venezuela Simón Bolívar.
trativos). Até países que utilizam os mesmos critérios podem empregar
Contorno da Amazônia segundo o critério político-administrativo
limiares diferentes (p.ex., cotas de altitude para diferenciar as regiões
andina e amazônica) ou definições próprias do que é contemplado por c) O mapa segundo o critério político-administrativo foi elaborado com base
cada critério. Além disso, a heterogeneidade da região não se refere em arquivos e informação da Colômbia: Ministério do Ambiente, Habitação e
Desenvolvimento Territorial e Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas
apenas aos aspectos físicos, mas também à multiplicidade de etnias, a (Sinchi); Peru: Conselho Nacional do Ambiente; Programa de Ordenamento
assentamentos humanos, etc. Ambiental do Instituto de Pesquisas da Amazônía Peruana (IIAP); Bolívia:
Devido à complexidade e Vice-Ministério de Biodiversidade, Recursos Florestais e Meio Ambiente;
Centro de Pesquisa Agrícola Tropical (CIAT-Bolívia); Brasil: Ministério do Meio
De acordo com o critério político-administrativo, a região amazônica ocupa Ambiente do Brasil; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE);
uma superfície de 7.413.827 km2, que representa 54% do território dos heterogeneidade da região, neste Venezuela: Ministério do Ambiente e dos Recursos Naturais da Venezuela;
Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC); Instituto Geográfico da
oito países-membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazô-
documento são usados três Venezuela Simón Bolívar; Equador: Ministério do Ambiente; Centro de
nica (OTCA). No Brasil concentram-se 68% de toda a população amazô- Levantamentos Integrados de Recursos Naturais por Sensores Remotos
nica, seguido do Peru, com 9%. Em cinco dos oito países (Bolívia, Brasil, critérios fundamentais para definir (Clirsen) do Equador; Guiana: Agência de Proteção Ambiental; e Suriname: e
Minstério do Trabalho, Desenvolvimento Tecnológico e Meio Ambiente.
Guiana, Peru e Suriname), a área amazônica representa mais da metade
do respectivo território nacional (tabela 1.1). Levando-se em consideração a Amazônia: um critério ecológico,
esse critério, a Amazônia representa 3,5 vezes a soma dos territórios da outro hidrográfico e um terceiro Fonte: Produção original do GEO Amazônia, com a colaboração técnica do
PNUMA/GRID – Sioux Falls e da Universidade de Buenos Aires.
Espanha, França, Alemanha, Itália e do Reino Unido, 3,6 vezes o do México
e 75% o da China (mapa 1.3). político-administrativo.
40
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>41

QUADRO 1.4 MAPA 1.2a MAPA 1.3


CONTORNO DA AMAZÔNIA MAIOR Cobertura vegetal da Amazônia (2006)
A REGIÃO AMAZÔNICA PARA OS PAÍSES DA OTCA DE
ACORDO COM TRÊS CRITÉRIOS COMBINADOS
Áreas cultivadas e manejadas
A sobreposição de informação geoespacial referente aos Áreas de lavoura pós-inundação ou de irrigação (ou aquática)
Áreas de lavoura de sequeiro
três critérios anteriormente indicados para definir a Áreas de lavoura em mosaico (50 -70%) /vegetação (pastagem/ mata secundária/ floresta)(20 - 50%)
Amazônia gerou um mapa composto da região, no qual se Vegetação em mosaico (50 -70%) /vegetação (pastagem/capoeira/floresta) lavoura (20 – 50%)
Floresta perenifólia o semidecídua (>5m) aberta (15 - 40%)
identificam duas áreas: “Amazônia maior” e “Amazônia Floresta latifoliada (>5m) fechada (>40%)
menor”. A Amazônia maior compreende uma área de Região com florestas / floresta latifoliada decídua ( >5m) aberta (15 - 40%)
Floresta aciculifoliada decídua (>5m) fechada (>40%)
8.187.965 km2, o equivalente a 6% da superfície terrestre Floresta aciculifoliada decídua (>5m) fechada (>40%)
do planeta, 40% da superfície da América Latina e o Floresta aciculifoliada decídua ou perenifólia (>5m) aberta (>40%)
Floresta combinada latifoliada e aciculifoliada (>5m) fechada ou aberta (>15%)
Caribe, 85% do território dos Estados Unidos, mais de Floresta secundária e pastagem em mosaico
quatro vezes o território do México e 33 vezes o território Pastagem e floresta ou mata secundária em mosaico
Mata secundária fechada a aberta (>15%) (latifoliada ou aciculifoliada, perenifólia ou decídua)(<5m)
do Reino Unido. Em comparação com os países-membros Vegetação herbácea fechada a aberta (>15%) (pastagem, savana ou líquens / musgos)
da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica Vegetação escassa
Floresta latifoliada fechada a aberta (>15 %) regularmente alagada (de maneira temporária ou
(OTCA), corresponde a 60% da superfície total dos oito semipermanente), água doce ou salobre

países. A Amazônia menor abarca uma área de 5.147.970 Floresta secundária latifoliada fechada (>40%) permanentemente alagada, água salina ou salobre-
Pastagem ou vegetação florestal fechada a aberta (>15%) sobre solo regularemente alagado ou
km2, o equivalente a 4% da superfície da Terra e a 25% encharcado, água doce, salobre ou salina o empapado, água doce, salobre ou salina

da superfície da América Latina e o Caribe. Superfícies artificiais e áreas relacionadas (zonas urbanas >50%)
Áreas sem vegetação
Amazônia maior
Amazônia menor

MAPA 1.2b
CONTORNO DA AMAZÔNIA MENOR Fonte: Elaborado pela Faculdade de Agronomia da
Universidade de Buenos Aires e por GRID-Genebra/
PNUMA para o GEO Amazônia, com dados do GlobCover
ÁREA TOTAL ÁREA DE CONSERVAÇÃO (1) land cover data v2 2005-2006. European Space Agency,
(km²) (km²) kilômetros 2008, disponível em: <http://ionia1.esrin.esa.int>.
ÁREA %
AMAZÔNIA TABELA 1.1
8.187.965 1.713.494 20,93
MAIOR Superfície da Amazônia segundo critérios

AMAZÔNIA SUPERFÍCIE DA ÁREA SUPERFÍCIE DA ÁREA SUPERFÍCIE DA ÁREA AMAZÔNICA:


5.147.970 1.159387 22,52 ÁREA DO PAÍS (KM2) AMAZÔNICA: CRITÉRIO AMAZÔNICA: CRITÉRIO CRITÉRIO POLÍTICO-
IMPORTÂNCIA REGIONAL DA IMPORTÂNCIA NACIONAL
MENOR PAÍS AMAZÔNIA NACIONAL (%) DA AMAZÔNIA (%)
(A) HIDROGRÁFICO (km2) ECOLÓGICO (km2) ADMINISTRATIVO (km ) 2

(D PAÍS/D TOTAL) (D/A)


(B) (C) (D)

MUNDO 134.914.000(2) 13.626.314 10,10 BOLÍVIA 1.098.581* 724.000* 567.303** (b) 724.000* 9,8 65,9
BRASIL 8.514.876* 3.869.953* 4.196.943* 5.034.740* 67,9 59,1
COLÔMBIA 1.141.748 345.293* 452.572* 477.274* 6,4 41,8
ECUADOR 283.561* 146.688**(a) 76.761** (b) 115.613* 1,6 40,8
NOTAS:
GUIANA 214.960* 12.224** (a) 214.960* 214.960* 2,9 100,0
Amazônia maior: corresponde à maior extensão da área amazônica
com base em pelo menos um dos seguintes critérios: hidrográfico,
PERU 1.285.216* 967.176* 782.786* 651.440* 8,8 50,7
ecológico ou político-administrativo. SURINAME 142.800* - 142.800* 142.800* 1,9 100,0
VENEZUELA 916.445* 53.000* 391.296** (b) 53.000* 0,7 5,8
Amazônia menor: corresponde à menor extensão da área amazônica TOTAL 13.598.187 7.413.827 100
considerando-se os três critérios simultaneamente. Notas:
(1) É preciso lembrar que o cálculo da superfície da bacia amazônica é uma questão em aberto para a pesquisa. A informação inserida no mapa foi trabalhada com base em
(1) Área de conservação, na definição de The International Union for dados SIG fornecidos pelos países ao PNUMA. Deve-se salientar, ainda, que a superfície da bacia amazônica varia entre os estudos em questão, de 7.165.281 km2 (Novoa,
Conservation of Nature (IUCN): “Área de terra e/ou mar dedicada
especialmente à proteção e manutenção da diversidade biológica,
A região amazônica representa 1997; INPE, 2008) até 6.100.000 km2 (Agência Nacional de Água do Brasil – ANA). Essa diferença se explica, no segundo caso, pela exclusão dos rios Tocantins e Araguaia,
bem como de seus afluentes, da bacia do Amazonas. A bacia do Tocantins tem uma superfície aproximada de 900.000 km2. Para mais informações, consultar <http://www.
bem como de recursos naturais e culturais, que são geridas por meio
de instrumentos legais”. Fonte: World Commission on Protected Areas
60% da superfície total dos oito ana.gov.br/hibam>.
(WCPA, s.d.)
países amazônicos membros (2) A Venezuela e a Bolívia utilizam unicamente o critério hidrográfico na definição da Amazônia, entretanto essa superfície também é reconhecida como critério político-
administrativo, conforme explicação das autoridades responsáveis pelo assunto nesses países.
(2) A superfície mundial compreende todo o planeta Terra, incluídos os
corpos d'água continentais. Fonte: The United Nations Statistics da Organização do Tratado de (3) A informação foi inserida de acordo com os critérios usados pelos países.
Division (s.d.).
Cooperação Amazônica (OTCA). * Fontes oficiais nacionais: Bolívia: Instituto Geográfico Militar. Brasil: Ministério do Meio Ambiente (2006a). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] (2004b).
Colômbia: Ministério do Ambiente, Habitação e Desenvolvimento Territorial – Instituto Sinchi (2007). Equador: Instituto para o Ecodesenvolvimento Regional Amazônico
(Ecorae) (2006). Guiana: Agência de Proteção Ambiental (2007). Peru: Instituto de Pesquisa da Amazônia Peruana [IIAP] (2007). Suriname: Escritório Geral de Estatística.
Elaborado por: PNUMA/GRID – Sioux Falls e da Universidade de Buenos Aires. Venezuela: Instituto Geográfico da Venezuela Simón Bolívar (2008).
** Fontes não-oficiais nacionais que produziram informação sobre a Amazônia mediante pesquisas: (a) Freitas (2006). (b) Martini et al. (2007). Projeto Panamazonia II. INPE.
42
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>43

1.3| Históriaecultura
Considerada do ponto de vista continental, a história da Amazônia A outra corrente, mais recente, sustenta que a floresta
deve levar em conta pelo menos três aspectos: a diversidade geográ- tropical não teria sido apenas um receptor de tradições
fica e ecológica, que exerce influência nos processos e nas formas de culturais, mas também um centro gerador de inovações.
ocupação humana; a continuidade da presença humana na região, Baseia-se no fato de a Amazônia ser considerada um cen-
que remonta a mais de 12 mil anos atrás, apresentando rupturas e tro de domesticação de plantas, dentre as quais podemos
descontinuidades de forma e de processos de ocupação; e a diversi- citar a mandioca (Manihot esculenta) e a pupunha (Bac-
dade dos processos de colonização, iniciados pelos países europeus tris gasipaes).
no século XVI e retomados pelos novos Estados independentes que
surgiram na primeira metade do século XIX. Não obstante essa divergência, é fato que os povos
andinos e amazônicos mantiveram, por milênios, um in-
tenso relacionamento, que se dava na região de monta-
Habitantes da Amazônia Pré-Colonial nha entre 500 e 2.000 m.s.n.m., tendo como eixos de
deslocamento, de um modo geral, os rios que interliga-
A Amazônia é habitada desde tempos imemoriais. A questão da ocu- vam a região de serra com as áreas de floresta de menor
pação originária da região apresenta lacunas e ainda suscita muita altitude. Há vários registros arqueológicos relacionados à
polêmica, sobretudo no que diz respeito à densidade e à forma como presença desses povos desde o período pré-incaico, mas
teria se dado esse processo. São poucos os trabalhos de pesquisa foi somente durante o império Inca que essas relações se
sobre a sociedade amazônica pré-colombiana (Heckenberger, 2005; estreitaram. Cabe lembrar que os incas não conseguiram
Calandra; Salceda, 2004; Meggers, 1996), e se observam duas cor- submeter os povos amazônicos, como fizeram com ou-
rentes que buscam explicar a ocupação humana na região. A primeira, tros povos na região andina (Santos Granero, 1992).
a da arqueologia amazônica, desenvolvida a partir da década de 50
do século XX, por considerar que os grupos indígenas anteriores à Na zona peruano-equatoriana, a costa do Pacífico,
chegada dos europeus se organizariam como os de hoje (população o altiplano andino e a vertente oriental dos Andes (alta

FUNDACIÓN DEL BANCO CONTINENTAL


pouco numerosa e baixa densidade demográfica, sociedades pouco Amazônia) mantiveram vínculos culturais e comerciais no
hierarquizadas, etc.), aponta o meio ambiente, particularmente a po- período de 3500 a 300 a. C. A cerâmica da época é teste-
breza dos solos, como fator limitante para as sociedades humanas munha dessas trocas culturais e comerciais, processo que
locais, que as impediu de desenvolver culturas complexas no trópico foi liderado por grupos étnicos com freqüência de origem
úmido. Segue-se a essa afirmação que inovações culturais como a distante, caracterizados por serem sociedades complexas
cerâmica e a agricultura não poderiam ter surgido ali; logo deveriam e hierarquizadas. Essas trocas situaram-se ao longo dos
ter sido trazidas à Amazônia por diferentes grupos de imigrantes pré- eixos que correspondem aos rios Napo, Marañón, Ucayali e
coloniais, oriundos das áreas de difusão localizadas nos Andes e no Huallaga. Sal, ouro, algodão e óleo de tartaruga são alguns ❱❱❱ Índios da “montanha” em canoa. Aquarela de Baltazar Jaime Martínez Compañón (século XVIII). Extraído de
noroeste da América do Sul. dos produtos que eram negociados (De Saulieu, 2007). Macera, P., Jiménez Borja, A. e Francke I., Trujillo del Perú, editado por Fundación del Banco Continental, 1997, p. 190.
44
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>45

condicionaram o grau de desenvolvimento amazônica se assentava em núcleos de alta


das atividades econômicas nas diversas áreas densidade demográfica.
amazônicas: caça, extração, pesca, agricultu-
ra, entre outras (Meira, 2006). Algumas populações amazônicas pré-
coloniais produziram alterações na paisagem
A ocupação pré-colombiana da Amazô- com a drenagem e elevação de terrenos para
nia se deu a partir de diversos lugares. Uma a agricultura, habitação, defesa e sepultura,
das correntes migratórias chegou dos flan- por exemplo, em áreas da Bolívia, do Brasil,
cos orientais dos Andes, formada pela famí- da Guiana e da Venezuela (Beckerman, 1991,
lia Arawak, e se expandiu para o nordeste, p. 145; Roosevelt, 1991, p. 120), ou com a
até as Antilhas. A Tupí-Guaraní partiu da re- formação, involuntária, das chamadas "terras
gião do Chaco e seguiu duas direções: uma pretas de índios", que são terrenos de alta
chegou à porção central do Brasil; a outra, à fertilidade formados pela decomposição da
costa do Atlântico, no nordeste. Por último, matéria orgânica de antigos assentamentos
houve a corrente migratória da família etno- humanos. A descontinuidade na ocupação
lingüística de origem Caribe, que adentrou humana que se sucedeu à chegada dos eu-
a bacia amazônica por um corredor de baixa ropeus permitiu à floresta crescer novamente
pluviosidade. Os caribes introduziram cultu- nas áreas antes habitadas, ocultando as mar-
ras como o amendoim (Arachis hypogaea), cas da ação humana (Costa, 2002).
o milho (Zea mays) e o feijão (Phaseolus
vulgaris) (Morey; Sotil, 2000). Configuração
do território
Com as correntes migratórias, chegou
uma diversidade de formas de organização Em linhas gerais, a configuração atual do
social e de línguas. Por exemplo, os povos território que conhecemos como Amazônia
indígenas das famílias Máku, Tukano e Ara- é resultado do processo de ocupação da re-
wak, que vivem há mais de 2.000 anos na gião pelos colonizadores europeus entre os
região do rio Negro e nas áreas adjacentes. séculos XVI e XIX, que motivou não apenas
A família Arawak vive atualmente na Ama- conflitos entre os recém-chegados e os diver-
zônia brasileira, colombiana e venezuelana. sos povos autóctones, mas também disputas
Desse modo, nas línguas amazônicas estão entre Espanha, Portugal, Inglaterra, Holanda
presentes vozes andinas, guaranis e caribe- e França, no contexto das diferentes guerras
nhas. coloniais deflagradas nesse período. Segundo
o Tratado de Tordesilhas (1494), a América do
Na Guiana, os índios Warrau se estabe- Sul deveria ser dividida entre Espanha e Por-
❱❱❱ “O treze capitão, Cápac Apo Ninarua. Andesuyo.” (Huamán Poma de Ayala) leceram no ano 900 a. C. e as tribos Caribe tugal. No entanto, Inglaterra, França e Holanda, ❱❱❱ “Segunda senhora Cápac Mallquima. Andesuyo.” (Huamán Poma de Ayala)
e Arawak chegaram posteriormente. As prin- ao ocupar boa parte do litoral norte do conti-
cipais atividades realizadas pelos habitantes nente a partir do fim do século XVI, região que
Questionando a idéia de que o meio ambiente teria sido um fator limitante, nativos eram a agricultura de subsistência, hoje corresponde à Guiana, Guiana Francesa ções inglesas e holandesas que adentraram o grande rio pelo norte, partindo da
vários arqueólogos afirmam que havia condições para o desenvolvimento de a caça e a pesca. O termo guiana é um dos e Suriname, frustraram o pretendido domínio ilha de Marajó, até chegar à confluência do rio Xingu, travando longas batalhas
grupos humanos numerosos, especialmente nas várzeas (áreas de aluvião do legados dos habitantes nativos, que signifi- ibérico sobre todo o continente. com os portugueses pelo controle do curso inferior do rio e de sua foz. Não tendo
rio Amazonas e de alguns de seus afluentes). Esses grupos, organizados em ca “terra de muitas águas” (Guiana: Environ- sido bem-sucedidos nessa empreitada, conseguiram consolidar seu controle tão-
sociedades relativamente complexas, teriam se desenvolvido aproximadamente mental Protection Agency, 2007). Registros cartográficos holandeses e somente sobre a Guiana.
2.000 anos antes da chegada dos europeus. As margens do Amazonas teriam franceses do século XVII projetavam os do-
sido contínua e densamente povoadas entre 1000 a. C. e o século XVI. Estudos Na Amazônia peruana, destaca-se o de- mínios virtuais de seus países sobre o territó- Os franceses, estabelecidos em Caiena desde fins do século XVI, empreen-
na área de demografia histórica conduzidos por William Denevan na década de senvolvimento da cultura pré-incaica Cha- rio à época denominado “Região da Guiana”, deram várias tentativas de ocupar o atual litoral norte do Brasil, onde fundaram a
70 salientam que a população de toda a Amazônia passava de 5 milhões de chapoyas. Mas, de acordo com pesquisas muito mais extenso do que a que hoje co- cidade de São Luís, em 1612, e de onde depois se lançaram em direção ao oeste,
habitantes (Ribeiro, 1992, p. 79). do Instituto de Arqueologia Amazônica, esta nhecemos, também chamado de “Reino das até chegar ao rio Tocantins, num amplo projeto colonial denominado “França Equi-
tem como origem os Andes. O esplendor Amazonas”, delimitado, ao sul, pelo rio Ama- nocial”. Fracassadas suas pretensões de expansão territorial, estabeleceram-se na
Os assentamentos humanos pré-colombianos eram marcados por grandes dessa cultura se reflete em sítios arqueológi- zonas; ao oeste, pelo rio Orinoco; ao norte, Guiana (Costa, 2002).
contrastes. Existiram, por exemplo, comunidades grandes e sedentárias, e eco- cos, como as ruínas de Kuélap, os sarcófagos pelo Caribe; e ao leste, pelo oceano Atlântico
nomias de subsistência relativamente intensas (Heckenberger, 2005). A hete- de Carajia, os mausoléus de Revash, entre (Costa, 2002). Holandeses e ingleses concentraram-se particularmente nas regiões dos rios
rogeneidade da natureza amazônica deu lugar ao desenvolvimento de diversas outros. Quanto à população e densidade de- Essequibo, Demerara, Berbice e Suriname, alternando o controle dessas áreas
estratégias nas áreas de alimentos, tecnologia, medicina e comércio para melhor mográfica, Joaquín García (1993) cita diver- Nas quatro primeiras décadas do século desde meados do século XVII até o início do XIX. As colônias de Essequibo, De-
aproveitar os recursos naturais e, assim, assegurar a sobrevivência. Tais estratégias sas pesquisas que indicam que a população XVII, o Amazonas foi navegado por expedi- merara e Berbice foram fundadas e controladas pelos holandeses até as últimas
46
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>47

décadas do século XVIII. As diversas iniciati- uma estrutura administrativa relativamente


vas comerciais privadas daqueles primeiros complexa (Deler, 1987).
anos foram substituídas, em 1621, pelo mo-
nopólio da Companhia das Índias Ocidentais, No fim do século XVI, com o declínio da
que se estendeu até a segunda metade do exploração de ouro, o deslocamento dos inte-
século XVII, quando tanto o controle como resses para as minas de prata descobertas em
a administração das colônias passaram às Potossi e as grandes insurreições indígenas do
mãos das câmaras das cidades holandesas período, como a sublevação geral da Audiência
de Veere, Middelburg e Vlissengen (Farage, de Quito e a rebelião dos jívaros na Amazônia,
1991, p. 88-89). No final do século seguinte, a vertente oriental entrou em plena decadência
em 1796, os ingleses ocuparam esse territó- e os estabelecimentos espanhóis foram aban-
rio pela força das armas. Após uma sucessão donados ou destruídos (Deler, 1987).
de conflitos e a alternância do domínio, foi
comprado dos holandeses, em 1814, e inte- Após o fracasso dessas primeiras inicia-
grado às três colônias sob o nome de Guiana tivas, entre fins do século XVI e meados do

ARCHIVO BIBLIOTECA AMAZÓNICA: PRADO MAYOR Y GABEL SOTIL, RED AMBIENTAL


Inglesa, em 1831. XVII, a colonização espanhola da Amazônia
ficou praticamente nas mãos dos missioná-
Os ingleses foram os primeiros euro- rios. Isso porque, a fim de conter os excessos
peus a se instalar permanentemente no cometidos pelos conquistadores, a Coroa es-
rio Suriname, em 1656, dedicando-se ao panhola, por meio da Real Cédula de 1573,
cultivo da cana-de-açúcar. No entanto, em proibiu novas expedições armadas ao Orien-
1667, o Tratado de Breda pôs um fim à te e determinou que somente as ordens reli-
guerra anglo-holandesa, passando o con- giosas levassem a efeito a colonização dessa
trole da região aos holandeses com a as- região (Tibesar, 1989 p.16).
sinatura do acordo que selava a troca do
Suriname por Nova Amsterdã, na América O avanço português sobre a Amazônia,
do Norte, dentre outros. A região recebeu cujos primeiros marcos foram a conquista de
lavradores de cana-de-açúcar chegados do São Luís, tomada dos franceses em 1615, e a
litoral nordeste do Brasil, de onde os holan- fundação de Belém, no ano de 1616, seguiu
deses foram expulsos em 1654. o leito do rio Amazonas, em torno do qual se ❱❱❱ Colonizadores europeus exploraram e ocuparam a região entre os séculos XVI e XIX.
estruturou seu espaço de domínio na Ama-
Ainda na primeira metade do século XVI, zônia. Essa extensa planície revelava-se aos
os espanhóis empreenderam uma série de colonizadores portugueses como uma região que cobrou a vida de milhares de indígenas dores estabeleceram relações com os povos
incursões ao leste dos Andes, das quais a a ser explorada e ocupada, sobretudo depois A configuração atual da obrigados a trocar a cordilheira pela selva tro-
“Não herdamos a indígenas, seus habitantes originais.
mais célebre é a expedição de Gonzalo Pi- que Pedro Teixeira, fazendo o percurso opos- Amazônia é resultado do pical, para trabalhar em regime de servidão. terra dos nossos
zarro e Francisco de Orellana (1541-1542), to ao de Orellana, chegou a Quito subindo o Trabalhadores indígenas,
que desceu o rio Napo e foi a primeira de Amazonas e deslocando para muito além do processo de ocupação Ao longo dos séculos XIX e XX, as dispu-
antepassados; africanos e asiáticos
europeus que navegou até a foz do Amazo- meridiano de Tordesilhas os limites mais tar-
da região pelos tas fronteiriças na região foram aos poucos ela nos foi
de reivindicados por Portugal, na confluência se resolvendo. Algumas eram legado de
nas. Entretanto, várias incursões entre 1536
emprestada pelos As crônicas do século XVI, das quais se des-
e 1560 “permitiram adentrar de forma mais dos rios Napo e Aguarico, hoje em território colonizadores europeus antigas indefinições de limites; outras, da tacam as de Gaspar de Carvajal, que integrou
sistemática e fazer o reconhecimento de equatoriano. expansão territorial puxada pela intensifica- nossos filhos.” a expedição de Orellana, e as dos diversos
uma faixa de aproximadamente cem qui- entre os séculos XVI e ção da exploração de produtos da floresta. cronistas da expedição de Pedro de Ursua
lômetros de largura, compreendendo a Embora não possa ser considerado um As principais divergências quanto a limites e Lope de Aguirre, relatam a existência de
vertente externa da cordilheira oriental e o elemento determinante, o fator geográfico
XIX, o que motivou não entre os domínios espanhol e português na populações muito numerosas vivendo às
sistema subandino (depressões, pequenas exerceu um importante papel a favor dos apenas conflitos entre Amazônia foram solucionadas pelos tratados margens do Amazonas e na confluência des-
cordilheiras paralelas ao eixo geral dos An- portugueses, facilitando o deslocamento a de Madri (1750) e de São Ildefonso (1777), PROVÉRBIO SIOUX te com seus principais afluentes. Menos de
des e conjuntos de colinas formados pelas montante do Amazonas em um ambiente os recém-chegados que traçaram o contorno político do territó- um século depois, porém, a situação havia
terminações de seus contrafortes), que foi relativamente uniforme em toda a sua ex- rio amazônico. mudado: referindo-se à atuação dos jesuítas
incorporada provisoriamente à economia tensão, se comparando com as dificuldades
e os diversos povos
nas missões de Maynas, instaladas em 1638,
colonial” (Deler, 1987, p. 55). Tais incur- enfrentadas pelos espanhóis: o grande des- autóctones, mas também A colonização da Amazônia não se deu Jean Pierre Chaumeil (1988) observou que
sões marcaram o início de atividades como nível entre os Andes e as áreas amazônicas em espaços vazios. O território disputado e as sociedades com as quais os missioná-
o garimpo de ouro e o cultivo de algodão, de florestas de terras baixas, que significava disputas entre Espanha, dividido entre as potências coloniais euro- rios mantiveram contato haviam diminuído
assim como da formação de diversos nú- não apenas um obstáculo ao deslocamento Portugal, Inglaterra, péias não era de forma alguma um lugar de- bastante e seu modo de vida havia sofrido
cleos de população, edificados de acordo (relevo abrupto, rios não-navegáveis), mas sabitado, muito pelo contrário, e foi durante profundas mudanças com a presença dos
com um rigoroso plano de construção e de também uma rigorosa diferença climática Holanda e França. o processo de colonização que os coloniza- europeus, quer direta quer indireta.
48
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>49

canos foram muito importantes em algumas Fronteiras internas


regiões. Na Amazônia colonizada pelos portu-
gueses, os escravos africanos foram mais nu- Nas primeiras décadas do século XIX, os Esta-
merosos na porção oriental (São Luís e arredo- dos recém-independentes (Guiana e Surina-
res, Belém, baixo Tocantins, baixo Amazonas), me só conquistaram sua independência em
empregados principalmente nos canaviais e nas 1966 e 1975 respectivamente; a Guiana Fran-
lavouras de arroz e algodão; o mesmo aconte- cesa ainda é território francês) dispunham de
ceu no vale do Guaporé, perto da atual fronteira extensos territórios ainda não ocupados por
entre o Brasil e a Bolívia, desde a segunda me- suas incipientes sociedades, e, na maioria
tade do século XVIII. Essas populações negras dos casos, totalmente desconhecidos por
deram origem às centenas de quilombos que elas. Tratados do século XVIII, assim como as
até hoje existem na Amazônia brasileira. áreas de jurisdição das antigas unidades ad-
ministrativas do domínio espanhol, definiam,
Mas foi na Guiana, no Suriname e na embora freqüentemente de forma precária,
Guiana Francesa que, a partir do século os limites entre os novos países. No entanto,
XVII, os escravos africanos constituíram a uma grande distância separava os territórios

ARCHIVO BIBLIOTECA AMAZÓNICA: PRADO MAYOR Y GABEL SOTIL, RED AMBIENTAL


mão-de-obra principal, muito embora nos delimitados dos territórios efetivamente ocu-
domínios holandeses o trabalho escravo in- pados. De fato, a “conquista” e a ocupação
dígena tenha persistido quase até o século do território constituíram um processo com
XIX. Nessas colônias, a principal atividade avanços e retrocessos. Nesse sentido, nos se-
econômica não foi o extrativismo, mas a guintes parágrafos o termo “fronteira” alude
agricultura, quer em pequenas unidades, não aos limites entre Estados nacionais, mas
como aconteceu na Guiana Francesa, quer à frente de expansão de uma sociedade para
em unidades produtivas de grande porte o interior de seu próprio território, avançando
nas colônias holandesas, onde predominava sobre as terras ocupadas por povos indígenas
o sistema de plantação, cultivando-se exten- (Leonardi, 1996; Martins, 1997).
samente a cana-de-açúcar e, no século XVIII,
cacau, algodão e anil. No caso das antigas colônias espanholas,
a ocupação da região de floresta, baseada até
O Suriname foi a colônia que recebeu aquele momento principalmente na ação de
o maior contingente de escravos africanos. missionários, sofreu um grande revés com a
Ali, entre os séculos XVII e XIX, a população crise do sistema colonial e o enfraquecimento
branca residente nunca representou mais das missões nos territórios das antigas Audi-
Chaumeil aponta que, mesmo que a dores europeus foram responsáveis pelo No caso das antigas do que 7% da população escrava. Os es- ências de Lima, Quito, Charcas e Bogotá, bem
presença dos colonizadores não tenha sido despovoamento de áreas muito remotas, cravos promoviam fugas em massa, insta- como no Vice-Reinado de Nova Granada. Tal
No imaginário europeu, permanente e contínua em determinadas nas quais ainda não haviam conseguido se colônias espanholas, lando-se na mata, no interior do país. Ao situação foi gerada ainda pela grande rebelião
os povos indígenas regiões, em poucas décadas havia levado instalar, mas aonde chegaram, de maneira contrário do que ocorreu em outras regiões indígena liderada por Juan Santos Atahualpa,
amazônicos viviam em
vários povos à desestabilização, bem como direta ou indireta, por meio das expedições
a ocupação da região da América, onde os escravos fugitivos for- entre 1742 e 1752, pela qual diversos gru-
condições primitivas.
à diminuição da sua população, tanto pela para coletar produtos florestais ou das di- da floresta sofreu um mavam pequenas comunidades (que foram pos indígenas (como os Conibo, os Piro e os
disseminação de doenças quanto pelas versas ramificações do comércio de escra- destruídas pela repressão do homem bran- Amuesha) recuperaram o controle da selva
guerras cujo objetivo era capturar escravos. vos indígenas. grande retrocesso com a co ou permaneceram isoladas), no Surina- central do atual Peru, que estivera nas mãos
Esse fenômeno se acentuou nas décadas me os escravos mantiveram-se hostis ao dos espanhóis. Nesse país, por exemplo, o
seguintes, tanto que em meados do século As atividades econômicas desenvolvidas
crise do sistema colonial colonizador durante décadas. Dessas fugas avanço da fronteira interna em direção ao les-
XVIII quase todos os povos que habitavam na maior parte da Amazônia (pesca, agricul- e o enfraquecimento originaram-se grupos étnicos tais como os te foi praticamente nulo na primeira década
as várzeas do Amazonas foram extintos ou tura e coleta de produtos como cacau, cravo, Saramacá, Djuka, Paramaka, Matawai, Aluku após a independência (García Jordán, 1995).
sua população havia encolhido, e muitos quina, salsaparrilha, entre outros) baseavam- das missões nos e Kwinti, cujo direito sobre partes do terri- Continuaram a existir importantes núcleos
outros fugiram rumo aos altos cursos dos se na utilização de mão-de-obra indígena, tório surinamês é atualmente reconhecido. de população em Moyobamba e arredores,
afluentes (Porro, 1996, p. 37). Esses indí- explorada em diferentes modalidades de tra-
territórios das antigas Após a abolição da escravidão (na Guiana, no rio Marañón, mas até a década de 40 do
genas foram parcialmente substituídos por balho forçado. Tal situação perdurou no perí- audiências de Lima, em 1837, e no Suriname, em 1863), traba- século XIX a região ainda aparecia nos mapas
aqueles que se deslocaram para as mis- odo colonial, estendendo-se bem entrado o lhadores de diversas nacionalidades, parti- como “terras desconhecidas”.
sões, que se disseminaram de leste para século XIX e, em algumas áreas, inclusive nas Quito, Charcas, Bogotá, cularmente indianos, foram recrutados em
oeste, acarretando uma grande alteração primeiras décadas do século XX. regime de semi-servidão para substituir a Na Bolívia, as fronteiras de exploração da
e no Vice-Reinado de
na composição étnica e cultural das vár- mão-de-obra de origem africana, e as levas quina, embora de maneira tímida, continua-
zeas amazônicas. Transcorridos duzentos Embora tenha sido o trabalho indígena o Nova Granada. de novos imigrantes alteraram a composi- ram a avançar no Alto Beni, da mesma forma
anos das primeiras incursões, os coloniza- que predominou na Amazônia, os escravos afri- ção étnica da população. que a pecuária, a partir de Santa Cruz de la
50
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>51

QUADRO 1.5
Houve uma continuidade no emprego dos mé-
BOLÍVIA: ELOS ENTRE A AMAZÔNIA E OS ANDES
todos coloniais de ocupação do território e de ex-
ploração da força de trabalho. Em muitas regiões, a
violência praticada contra os povos indígenas foi ainda No fim do século XIX e início do XX, a região amazônica da
mais intensa do que no período colonial. O tráfico Bolívia viveu o auge da exploração da borracha. A borracha
de escravos indígenas para o Brasil – atividade ilegal gerou riqueza nas regiões em que era explorada, funda-
– praticado na região do rio Caquetá, Colômbia, re- mentalmente nos arredores de Cachuela Esperanza,
gistrou um crescimento de meados do século XIX até Riberalta e Guayaramerín. O desenvolvimento dos
1880 (Domínguez et al., 1996), e, ao longo do século departamentos de Bêni, Pando e do norte de La Paz foi
XX, as populações indígenas dessa região ainda eram muito limitado, principalmente pelas dificuldades de
submetidas à exploração de caráter semi-escravo (Hil- comunicação.
debrand; Bermúdez; Peñuela, 1997).
A criação da Corporação de Mineração da Bolívia, em
Fronteiras de expansão 1952, gerou um drástico aumento no consumo da carne
no século XIX produzida no Bêni, que era transportada por via aérea.
Esse auge foi a base do aumento do poder econômico na

ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP


Ao longo do século XIX, as diversas sociedades na- Amazônia boliviana. O rio Mamoré sempre foi uma das
cionais projetaram-se sobre seus territórios amazô- vias de comunicação com o resto do país, apesar de
nicos, motivadas, sobretudo, pelas diversas corridas extremamente custosa.
extrativistas, como as da quina e da borracha. Mas
esse avanço não se deu de modo uniforme em Não obstante as dificuldades de comunicação, sempre
todos os países. houve uma relação entre os Andes e o Trópico: as rotas de
extração da quinina em épocas pré-coloniais, a mineração
Nos países andino-amazônicos, o primeiro pro- do ouro no norte e, em décadas recentes, os processos
duto que implicou a migração para as áreas amazô- iniciados em 1985, quando do colapso da mineração nos
Sierra. No entanto, a maior parte do que até (1987), entre os séculos XVIII e XIX a histó- nicas, no século XIX, foi a quina, explorada nos An- Andes, que intensificou os fluxos migratórios em direção
então recebia a denominação de “Oriente”, rica soberania de Quito sobre as missões Povos indígenas: os valores des desde o século anterior e que possuía grande ao leste. Os corredores de comunicação Cochabamba-
conceito que abrangia todo o território ama- de Maynas, já decadentes naquela época, culturais são transmitidos aceitação nos mercados europeus em virtude de Santa Cruz e La Paz-Bêni viveram uma expansão da
de geração a geração.
zônico da Bolívia e também o Chaco, per- era apenas formal. Até mesmo depois de suas propriedades medicinais. A quina é produzida fronteira agrícola com a imigração de populações dos
manecia praticamente desconhecido e iso- criada a nova República do Equador (1830), numa área muito vasta e não se limita às terras Andes, processo que ocorre há mais de 50 anos.
lado do resto do país. Durante os primeiros a região amazônica só veio a receber mais amazônicas. No entanto, à medida que se esgotava
cinqüenta ou sessenta anos da República, os atenção do Estado equatoriano a partir de nas regiões próximas aos centros mais habitados – Elaboração: Baudoin, Mario (2007). Instituto de Ecologia. Universidade Mayor de

governantes concentraram seus esforços em 1860 (Esvertit Cobes, 1995). Na Venezuela, o método de extração consistia simplesmente em San Andrés. Bolívia.

projetos de concessão de terras públicas para o limite natural das “regiões selvagens e ig- derrubar as árvores –, a sua exploração avançava
colonização, em campanhas de reconheci- notas do interior”, para Alexander von Hum- rumo ao leste. Durante 34 anos, o comércio da
mento e na busca de uma saída ao Atlântico boldt, em 1800, eram as grandes cataratas quina foi muito significativo para as economias na-
pelos rios amazônicos (Jordán, 2001). do Orinoco, muito mais do que as decaden- Ao longo do século cionais, sendo esta, entre 1881 e 1883, o principal
tes missões jesuítas (Humboldt, 1985). produto de exportação da Colômbia, onde come-
Na Colômbia, a ocupação colonial do
XIX, as diversas çou a ser explorado na década de 70 daquele sé-
território do Caquetá, que correspondia a No caso do Brasil, pode-se identificar sociedades nacionais culo, nas regiões do alto Caquetá e alto Putumayo.
toda a floresta amazônica do país, sofreu diferentes situações no que diz respeito à Na Bolívia, a quina foi explorada em Caupolicán e,
um grande retrocesso com a expulsão dos ocupação da Amazônia, nas duas ou três projetaram-se sobre mais tarde, em Larecaja e no alto Beni. Esse pro-
jesuítas, em 1767, e a falência das missões décadas que sucederam à independência. duto foi tão importante para a economia boliviana
franciscanas, em fins do século XVIII. Tanto Em um dos extremos encontram-se: Belém,
seus territórios que levou o governo central a tomar medidas para
que a expedição do geral Agustín Codazzi antiga capital da Amazônia, colonizada pelos amazônicos, controlar sua comercialização (Domínguez; Gómez,
àquela região, iniciada na década de 50 do portugueses; o estado do Grão-Pará; e Ma- 1990; Zárate, 2001).
século XIX no âmbito da Comissão Coro- ranhão, independente do Estado brasileiro, motivadas,

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
gráfica Nacional, “importou uma mudança com autoridades coloniais próprias e subor- Nas áreas que dependiam exclusivamente da
fundamental na compreensão do Oriente dinadas diretamente a Lisboa, que impôs
sobretudo, pelas extração e do comércio da quina, houve um defi-
de Nova Granada e a conscientização tanto grande resistência à ruptura dos laços colo- diversas corridas nhamento geral da economia e da sociedade, le-
dos Governos como dos próprios granadi- niais e à integração ao Império do Brasil, em vando empresas à falência e povoados inteiros ao
nos” (Domínguez et al., 1996, p. 45). 1822. Belém foi o principal centro urbano a extrativistas, como abandono. No entanto, especialmente nos casos da
partir do qual portugueses e brasileiros se alta Amazônia colombiana e da Amazônia boliviana,
as da quina e da
A situação foi semelhante no território lançaram à Amazônia e o porto por meio do restou uma infra-estrutura de serviços e de sistemas ❱❱❱ A canoa é um veículo fundamental para o transporte
do atual Equador. Segundo Jean Paul Deler qual a região se comunicava com Portugal. borracha. viários mínima, que foi aproveitada quando tais áre- familiar ou de curta distância nos rios amazônicos.
52
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>53

as foram incorporadas à exploração de gomas elásticas.


Aliás, alguns dos principais comerciantes de quina con-
seguiram transformar seus negócios a fim de explorar e
comercializar borracha (Zárate, 2001).

O conhecimento sobre as propriedades e usos do


látex da seringueira foi transmitido aos portugueses
pelos Omágua, povo indígena do alto Amazonas, na
primeira metade do século XVIII, bem como a outros
grupos indígenas.

Durante décadas, o látex extraído na Amazônia bra-


sileira foi utilizado localmente apenas, limitando-se à
produção de seringas e à impermeabilização de roupas
e calçados. Em 1820, calçados produzidos com látex co-
meçaram a ser exportados pelo porto de Belém (Santos,
1980). Mas, na verdade, foi somente com o advento da
vulcanização, técnica que ampliou as possibilidades de
utilização industrial do látex, em 1841, que a demanda
mundial pelo produto cresceu ao ponto de deflagrar um
boom comercial que durou cerca de 70 anos, envolven-
do, em vários graus, todos os países amazônicos à época
independentes.

Foi também na década de 80 daquele século que a


produção de látex registrou um grande aumento na Bo-
lívia, na Colômbia, no Peru e no Equador, embora haja
registros de que era explorado desde a década de 60.
Disputas por territórios antes considerados espaços re-
REPORTAJE FOTOGRÁFICO: ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP

motos e “vazios” também foram movidas pela expansão


dessa atividade.

Na Colômbia, a produção de látex das décadas de 60


e 70 provinha das florestas da área de influência de Carta-
gena e do Panamá, na época ainda território colombiano.
Somente na década de 80 chegou à Alta Amazônia, onde
ocupou o lugar que havia pertencido à exploração de qui-
nina, e também às regiões dos rios Guaviare, Vaupés e
Negro. Na década seguinte atingiu o médio Caquetá e
o médio Putumayo, expulsando vários grupos indígenas
de suas terras, dentre eles os Witotos e os Boras (Domin-
guez; Gómez, 1990). Na Amazônia venezuelana, embora
economicamente menos importante que nos demais pa-
íses, seu impacto traduziu-se na exploração do território,
no fortalecimento dos poderes locais e na disseminação
de relações de trabalho semi-escravo (Iribertegui, 1987).
Na Guiana, praticava-se a coleta da balata nas cabeceiras

70
do Essequibo e em algumas áreas das margens do rio ANOS DUROU
Rupununi (Silva, 2005). A borracha foi explorada
APROXIMADAMENTE intensivamente durante o
Na Bolívia, as primeiras explorações de borracha nas
O BOOM COMERCIAL século XIX e contituiu na base

regiões do norte, no Acre, ocorreram na década de 70, e


DO LÁTEX EXTRAÍDO NA de uma importante dinâmica
AMAZÔNIA, EM BOA PARTE econômica e social. No
as empresas de grande porte se estabeleceram na déca- entanto, essa atividade esteve
da seguinte. As primeiras povoações da região, como Ri- DEVIDO AO ADVENTO DA associada à exploração da
beralta, instalaram-se junto com as operações de estabe- VULCANIZAÇÃO, EM 1841. mão-de-obra.
54
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>55

na vila com edificações muito precárias, na


década de 50, tornou-se uma grande cidade
no século XIX e foi, assim como Belém, uma
das primeiras do Brasil a contar com ilumina-
ção elétrica e água encanada.

As mudanças também afetaram o mundo


do trabalho: a mão-de-obra indígena conti-
nuou sendo usada em grande escala, quase
sempre nas mesmas condições do período
colonial, mas a Amazônia também incorpo-
rou grandes contingentes de trabalhadores
provenientes de outras regiões, como as
serras andinas e o semi-árido do Nordeste
do Brasil, que acabaram ultrapassando em
número os trabalhadores indígenas, produ-

SERGIO AMARAL / OTCA


zindo-se, assim, uma nova ruptura na com-
posição da população regional.

A região também acolheu imigrantes de


diversos países. Por exemplo, na construção
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

da estrada de ferro Madeira-Mamoré, no


Brasil, trabalharam pessoas de aproxima- O mundo do durante a Segunda Guerra Mundial, quando
damente 50 nacionalidades diferentes: da os consumidores europeus e estadunidenses
região, bolivianos, brasileiros, colombianos, trabalho também não puderam mais contar com a produção
equatorianos, peruanos e venezuelanos; de do sudeste asiático. A exploração da borracha
fora, cubanos, granadinos, irlandeses, suecos,
foi afetado pelas teve grandes impactos negativos nos povos
❱❱❱ Despovoamento e regime de servidão: conseqüências da colonização européia da Amazônia. belgas, chineses, japoneses, indianos, turcos, mudanças: a mão- indígenas em termos de autonomia e valores
russos, etc. (Hardman, 1988). O trabalho nas tradicionais.
matas de onde se extraía a borracha e nas de-obra indígena
“Não temos outro lecimentos comerciais, como a Casa Braillard, trada em áreas não-ocupadas pelas socieda- grandes obras cobrou seu preço em vidas hu-
continuou sendo Quanto à fauna, utilizada na alimentação
fundada em 1892 (Beltrán, 2001). des nacionais, como também facilitou o aces- manas: uma morte por tonelada de borracha principalmente, mas também destinada à
mundo para onde so ao Atlântico a partir das áreas amazônicas exportada; nas obras da Madeira-Mamoré, usada em grande exportação de peles e plumas, destaca-se a
nos mudar.” A expansão relativamente rápida das áre- das vertentes dos Andes. Além disso, permi- entre 1907 e 1912, cerca de seis mil homens
escala, mas a
grande pressão sofrida pelas espécies aquá-
as de exploração da borracha em boa parte tiu que locais extremos da região estivessem deram a vida por uma ferrovia que nunca foi ticas, como o pirarucu (Arapaima gigas) e o
da bacia amazônica, com o deslocamento ligados aos principais centros articuladores de concluída. peixe-boi (Trichechus manatus). Além des-
Amazônia também sas, diversas espécies de quelônios de água
de homens e mercadorias por milhares de comércio, independentemente das fronteiras
quilômetros, não teria sido possível sem a nacionais, bem como a vinculação de todos Na segunda década do século XX, o preço incorporou grandes doce, em particular a Podocnemis expanda,
Gabriel García Márquez. introdução da navegação a vapor, em 1853. estes a um mesmo processo de circulação do látex sofreu uma queda irrecuperável com conhecida como charapa, arrau ou tartaruga-
Esse avanço, fundamental para os meios de de mercadorias, sustentado pela extração e o surgimento das plantações no sudeste asi- contingentes de do-amazonas. Essa espécie, consumida des-
transporte regionais, além de aumentar sig- comercialização do látex. ático, que levou ao colapso da economia ba- trabalhadores de tempos pré-coloniais, difundiu-se bas-
nificativamente a capacidade de carga das seada nessa espécie (Santos, 1980, p. 237). tante nos séculos seguintes, principalmente
embarcações, reduziu de modo drástico a O crescimento da exportação de borracha Muitas áreas incorporadas pela fronteira de provenientes de nas áreas de colonização portuguesa, onde a
duração das viagens pelos rios amazônicos. produziu grandes mudanças na região, que extração de látex foram abandonadas, e an- exploração da tartaruga foi uma atividade co-
Até então, o transporte regional dependia recebeu investimentos inclusive de empresas tigos laços comerciais se fragilizaram e até outras regiões. mercial de grande importância regional (IIAP,
exclusivamente de pequenas embarcações européias e norte-americanas. A aceleração mesmo se desfizeram. Essa situação desatou 2001).
a vela ou a remo, motivo pelo qual uma via- do desenvolvimento urbano foi resultado não um processo de diversificação comercial das
gem de Belém a Manaus podia durar entre apenas do surgimento de novas povoações atividades extrativistas – extração de madeira, Os danos ambientais, embora não re-
40 e 90 dias, conforme a variação da vazão nas fronteiras de expansão, mas também do coleta de resinas, caça para comercialização presentassem uma ameaça maior à integri-
dos rios, a intensidade dos ventos e a estação crescimento de antigos núcleos urbanos. No de peles – e de abertura de novas fronteiras dade do bioma amazônico, com freqüência
do ano. Com os barcos a vapor, a mesma Peru, Iquitos, que tinha somente algumas extrativistas, como a da castanha-do-pará, colocaram em xeque a sustentabilidade da
viagem podia ser feita em oito dias. centenas de habitantes em 1870, transfor- no alto Tocantins. Vale lembrar, porém, que ocupação colonial: o esgotamento de alguns
mou-se numa cidade de dez mil habitantes, isso não significou o fim do comércio das recursos naturais deflagrou crises de natureza
A introdução dessa inovação técnica nos em 1896. Manaus também experimentou gomas elásticas. Este passou a ser realizado local, inviabilizando a permanência de assen-
rios amazônicos não apenas estimulou a en- um crescimento vertiginoso: de uma peque- em pequena escala e teve uma breve alta tamentos humanos nas áreas afetadas.
56
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>57

TABELA 1.2
Taxa de crescimento e PIB per capita das regiões amazônicas (em US$, ano 2000)

PBI PER CAPITA PBI PER CAPITA REGIÃO / TAXA DE CRESCIMENTO DO


REGIÕES 2005 NACIONAL 2005 (%) PIB 1995-2005
BOLÍVIA (a) 1.178,07 3,23%
BÊNI 817,81 69,42 0,84%
PANDO 1.489,10 126,40 4,75%
SANTA CRUZ 1.586,22 134,64 3,95%

ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP


BRASIL (b) 3.609,52 2,34%
ACRE 1.908,13 52,86 4,42%
AMAPÁ 2.521,51 69,86 3,60%
AMAZONAS 4.242,13 117,53 4,69%
MARANHÃO 1.019,55 28,25 4,45%
MATO GROSSO 3.769,99 104,45 7,70%
❱❱❱ O meio natural sustenta diversos modos de PARÁ 1.852,04 51,31 2,81%

1.4|Novosmodelos
vida na Amazônia. RONDÔNIA
RORAIMA
2.314,37
1.810,99
64,12
50,17
4,66%
7,79%

deocupação TOCANTINS 1.400,98 38,81 6,26%


COLÔMBIA (c) 2.018,35 12,95%
territorial AMAZONAS 940,95 46,62 13,90%
CAQUETÁ 1.111,15 55,05 11,63%
GUAINIA 769,73 38,14 12,72%
Os modelos de ocupação do território amazônico de séculos anteriores visão comum da Amazônia. As visões parciais e particulares
passaram por importantes mudanças até chegar ao que são hoje em dia: de cada país implicam uma diversidade de estruturas de GUAVIARE 1.210,03 59,95 5,75%
a velocidade de deslocamento dessas fronteiras e a intensidade das trans- organização da temática ambiental, e da amazônica, em PUTUMAYO 705,33 34,95 11,70%
formações que são capazes de promover levam a crer que o processo de particular, bem como de políticas, instrumentos e níveis de VAUPÉS 1.424,66 70,59 13,28%
ocupação dessas “últimas fronteiras do planeta” é irreversível. implementação (para mais detalhes, ver o capítulo 5). EQUADOR (d) 1.605,58 3,22%
MORONA SANTIAGO 705,94 43,97 -2,52%
Enquanto nos Andes a direção de avanço das fronteiras de expansão Atualmente, os países que fazem parte da região ama-
é a mesma de antigamente, no Brasil a situação mudou: uma alteração zônica apresentam níveis de desenvolvimento econômico NAPO 871,43 54,28 -4,13%
nas rotas de penetração acrescentou uma nova forma de ocupação muito diferentes. Um importante indicador disso é diferen- ORELLANA 25.628,22 1.596,20 97,61%
territorial ao antigo modelo. Até meados do século XX, a foz do rio Ama- ça entre os produtos internos brutos (PIB) dos países, ou PASTAZA 6.620,34 412,33 33,58%
zonas foi a porta de entrada para a Amazônia brasileira e a ocupação seja, o nível de valor agregado gerado por suas economias. SUCUMBIOS 10.083,96 628,06 63,86%
foi predominantemente ribeirinha. As principais cidades amazônicas Assim, países como o Brasil e a Venezuela têm um PIB ZAMORA - CHINCHIPE 990,77 61,71 0,21%
localizavam-se nas margens dos grandes rios, como ainda ocorre nos per capita de mais de US$3.000, e outros, como a Guia-
dias de hoje. As terras mais elevadas, na região do planalto brasileiro, na, de menos de US$1.000. Uma análise das economias
GUIANA (e) 960,61 1,73%
ao sul, e das guianas, ao norte, eram de difícil acesso, pois a navegação amazônicas fornece uma imagem mais clara dos níveis de PERU (f) 2.352,47 3,32%
pelos rios para chegar a elas é limitada por grandes cachoeiras que desenvolvimento econômico, como pode ser observado AMAZONAS 1.247,53 53,03 1,19%
correspondem à transição entre o planalto e a planície fluvial. Desde pelos indicadores da tabela 1.2.2
LORETO 2.136,18 90,81 0,31%
meados da década de 50 do século passado, quando o planejamento
regional definiu o que se conhece como a “Amazônia Legal”, a direção
MADRE DE DIOS 3.223,56 137,03 6,47%
desse avanço mudou e a ocupação passou a se dar a partir do centro SAN MARTIN 1.323,30 56,25 5,04%
do país, com estradas atravessando o planalto e ligando o resto do país A velocidade de deslocamento das UCAYALI 1.601,35 68,07 3,17%
às principais cidades amazônicas. Foi por essas estradas que se deslo- SURINAME (g) 2.551,00 3,35%
caram as novas fronteiras de expansão.
diferentes frentes de expansão
VENEZUELA (h) 5.117,04 1,97%
parece tornar irreversível o processo
O processo histórico de ocupação do território amazônico deu lu-
gar ao desenvolvimento de estruturas políticas, econômicas, sociais e de ocupação dessas “últimas (a) Fonte: Bolívia: Instituto Nacional de Estatística. (b) Dados de 2004. Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (c) Dados de 2003.
Fonte: Departamento Administrativo Nacional de Estatística da Colômbia. (d) Dados de 2004. Valores das províncias correspondem ao valor
ambientais diferenciadas. A institucionalidade ambiental amazônica é bruto agregado. Fonte: Banco Central do Equador. (e) Fonte: Escritório de Estatística da Guiana. (f) Fonte: Peru: Instituto Nacional de Estatística e
gerida de maneira independente em cada país; apesar dos esforços
fronteiras do planeta”. Informática. (g) Fonte: Suriname: Escritório Geral de Estatística. (h) Fonte: Banco Central da Venezuela.

para empreender programas e projetos conjuntos, ainda não existe uma


2Para a elaboração da tabela utilizou-se o critério de divisão política maior
dos países, uma vez que os dados de PIB só estão disponíveis nesse nível.
58
CAPÍTULO1
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo

TABELA 1.3
Principais atividades produtivas na Amazônia

PAÍS PRINCIPAIS ATIVIDADES PRODUTIVAS NA AMAZÔNIA


Agricultura (milho, mandioca, legumes)
Hidrocarbonetos (petróleo, gás natural)
BOLÍVIA
Mineração (ouro, lítio, bauxita)
Exploração florestal (madeireira e não-madeireira [castanha])
Agricultura (milheto, pecuária)
Exploração florestal
BRASIL
Indústria (agroindústria, petroquímica, manufatura)
Mineração (ouro, cobre, bauxita, ferro)

SERGIO AMARAL / OTCA


Agricultura (café), pecuária
Exploração florestal
Hidrocarbonetos (petróleo)
COLÔMBIA Pesca (para consumo e ornamentais) ❱❱❱ A exploração de hidrocarbonetos e os megaprojetos de infra-estrutura alteram a integridade da floresta.
Indústria (agroindústria, aqüicultura)
Serviços (turismo, bancos, restaurantes)
Agricultura (banana, flores, cacau, café) “Em vez de pro- 27%, e Orellana, de 19%, ao passo que a na-
cional é de 48%. Enquanto na primeira região
cultura, a mineração e a exploração de hidro-
carbonetos, assim como a produção florestal,
EQUADOR Exploração florestal curar o que não apenas 14% da população são atendidos pela são muito importantes na geração de riqueza
Hidrocarbonetos (petróleo)
Agricultura (açúcar, arroz)
tens, encontra rede de água, e na segunda, 13%, esse índice para as nações amazônicas. No caso da agri-
no país é de 48%. cultura, destacam-se espécies como o milhe-
GUIANA Exploração florestal aquilo que nunca to, o arroz e o café. Os recursos minerais e
Mineração (bauxita, ouro) perdeste.” Destaque-se, ainda, que as regiões que energéticos encontram-se amplamente dis-
concentram atividades produtivas significati- tribuídos na Amazônia: bauxita, zinco, carvão,
Agricultura (dendê, café, milho)
vas experimentam um fluxo migratório mais manganês, ferro e uma grande quantidade
Mineração (ouro) intenso devido à maior oferta de emprego, o de outros minérios são explorados na região
PERU
Exploração florestal qual ocasiona um aumento na demanda por – e há vários outros a serem explorados –,
Hidrocarbonetos (petróleo, gás natural) serviços básicos que, em muitos casos, não bem como petróleo e gás natural. A explora-
Agricultura (arroz, banana) NISANGARATTA pode ser atendida. Some-se a isso o fato de ção florestal é também uma atividade econô-
SURINAME Mineração (ouro, bauxita) (HIMALAIA, 2000 A.C.) que apenas pequena parte dos ganhos eco- mica em crescimento, embora não-uniforme
nômicos é aplicada na região, resultando em quanto ao nível de industrialização. A maioria
Hidrocarbonetos (petróleo)
níveis de desenvolvimento muito reduzidos. dessas atividades são extrativistas e geram
Hidrocarbonetos (petróleo) O estado do Amazonas (Brasil) é uma exce- pouco valor agregado, fato que revela o po-
VENEZUELA ção: o crescimento da atividade industrial, de tencial de crescimento econômico da região
Turismo
caráter não-extrativista, foi responsável por um (para mais detalhes, ver capítulo 2).
Elaboração: Autores. desenvolvimento significativo.
Deve-se destacar que, no Brasil, ao contrário
Algumas regiões com níveis de PIB per dos demais países da região, desenvolveu-se
A análise do PIB per capita das regiões muito pelo contrário, o que se observa em sua capita 50% abaixo da média nacional (Ma- um cluster industrial de manufatura, localizado
amazônicas mostra que algumas regiões re- maioria são indicadores de pobreza elevados. ranhão e Tocantins, no Brasil; Amazonas, na cidade de Manaus. O principal estímulo para

500
gistram valores superiores aos do respectivo O Equador é um exemplo dessa situação. O Guainia e Putumayo, na Colômbia; e Morona esse crescimento foi a criação da zona franca,
país. Tal situação resulta do número relativa- PIB per capita de Orellana e Sucumbios é par- Santiago, no Equador) ainda têm recursos na- em meados da década de 60 do século XX.
mente pequeno de habitantes dessas regiões ticularmente alto porquanto nessas regiões se turais a ser explorados. A zona franca emprega diretamente em torno
e da exploração de uma grande quantidade concentram as principais jazidas de petróleo de 50.000 pessoas e indiretamente, 350.000,
INDÚSTRIAS de recursos naturais, como minérios, petró- do país, com cerca de 5 milhões de hectares Apesar das desigualdades no que tange distribuídas entre cerca de 500 indústrias, que
OPERAM NA leo ou gás (Amazonas, no Brasil, e Orellana, em regime de concessão; seus índices de po- ao desenvolvimento econômico, como se fabricam predominantemente eletrodomésti-
ZONA FRANCA no Equador), que constituem uma fonte de breza, no entanto, são mais elevados que o pôde observar na análise anterior, é possível cos, produtos de informática, equipamentos
DE MANAUS E valor agregado. Não se pode afirmar, porém, nacional: 84,2% em Sucumbios, 80,2% em apontar um aspecto comum entre os oito profissionais e componentes eletrônicos. Pro-
GERAM 400.000 que essas regiões tenham um nível de desen- Orellana e 55% no âmbito nacional. No que países: as principais atividades produtivas duzem-se também motocicletas, instrumentos
EMPREGOS DIRETOS volvimento elevado, pois na maior parte dos se refere ao saneamento público, Sucumbios desenvolvidas na Amazônia dependem da de relojoaria, produtos químicos, equipamentos
E INDIRETOS. casos os lucros não são reinvestidos na região; apresenta uma taxa de cobertura de esgoto de disponibilidade de recursos naturais. A agri- ópticos, brinquedos, etc.
60
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>61

ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP

DANTE PIAGGIO / EL COMERCIO


ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP

JUAN PRATGINESTÓS / acervo PPG7-GTZ


O processo histórico de ocupação territorial da
Amazônia levou ao desenvolvimento de estruturas
políticas, econômicas, sociais e ambientais
diferenciadas. A institucionalidade ambiental da
ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP

ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO


Amazônia é gerida de maneira independente entre
os países; apesar dos esforços para empreender
programas e projetos conjuntos, ainda não existe
uma visão comum da Amazônia.
62
CAPÍTULO1
Amazônia: território, sociedade
e economia ao longo do tempo
>63

OS RIOS DA AMAZÔNIA: EIXOS DE


DRENAGEM, FONTE DE VIDA E MEIO
DE COMUNICAÇÃO.
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
A REGIÃO AMAZÔNICA
A Amazônia é uma região privilegiada em Francisco de Orellana Áreas de concentração da A biodiversidade amazônica
O conquistador espanhol, que integrava a biodiversidade no mundo A Amazônia ocupa apenas 6% da
biodiversidade. De acordo com o critério político- expedição empreendida por ordem de Francisco Existem quatro regiões no mundo superfície dos continentes, mas
administrativo, ocupa uma superfície de 7.413.827 Pizarro em busca do “País da Canela”, chegou privilegiadas em diversidade biológica, representa mais da metade das
com um grupo de homens ao Amazonas. Em florestas tropicais úmidas do planeta.
km2, que representa 54% do território dos oito fevereiro de 1542, tornou-se o primeiro europeu
todas elas florestas tropicais. Essas
florestas tropicais úmidas vêm sendo Abriga mais de 10% das espécies de
Selva africana
países-membros da OTCA. a percorrer o Amazonas em toda a sua extensão,
Amazonas
Selva asiática devastadas a um ritmo acelerado, que plantas do planeta, bem como uma
até sua foz, no oceano Atlântico. compromete a disponibilidade de bens quantidade de espécies animais
Madagascar e serviços ecossistêmicos no futuro. difícil de calcular.

Área total
Colômbia Área da Amazôn
1.141.748 km2 ia
477.274 km2 Venezuela
VENEZUELA Bacia Amazônica 916.445 km2

Equador
Equador 53.000 km2
SUPERFÍCIE DA FLORESTA AMAZÔNICA Território biodiverso
40%
GUIANA
283.561 km2
COLÔMBIA SURINAME 115.613 km2 O ecossistema amazônico é a maior área contínua de
Rio Branco Peru Colômbia Brasil Amazônia peruana
Rio Caquetá 8.514.876 km2 floresta tropical úmida do mundo, com aproximadamente 6 A Amazônia peruana detém o recorde mundial de
Do território Rio Negro
Rio Trombetas
Peru 5.034.740 km2 milhões de km2. Seu papel é essencial à diversidade e maior número de espécies de borboletas (4.000).
sul-americano é EQUADOR Rio Japura IQUITOS 1.285.216 km2
conservação da vida natural do planeta. Também se destaca pela concentração de répteis
considerado Rio Napo Rio Putumayo Turismo. Em 2007, os Bolívia Venezuela 782.786 km2
Amazônia. Peru (48%) e anfíbios (79%) com relação ao resto do
40 Rio Marañon Rio Jurua
países-membros da
Organização do Tratado
Fundada em 1757
Os solos amazônicos país.

mil 396.615
Rio Purús Rio Tapajós
Rio Ucayali de Cooperação Guiana Bolívia

1
Rio Madeira Rio Xingú habitantes (2005) 1.098.581 km2 Na floresta amazônica, os nutrientes encontram-se
Amazônica (OTCA) 724.000 km2 Amazônia brasileira Amazônia equatoriana
Espécies de plantas PERU BRASIL
lançaram a Iniciativa principalmente na biomassa.
foram identificadas na Rio Tocantins Concentra 54% das espécies de Concentra 53% do total
2009: Ano do Destino plantas, 73% das espécies de
2
bacia amazônica. As árvores têm alta capacidade de reabsorver os nacional de espécies de
Amazônia, com a mamíferos e 80% das espécies de mamíferos.
BOLÍVIA
finalidade de promover a Brasil nutrientes provenientes da decomposição de
O rio Amazonas nasce no matéria orgânica, através das raízes superficiais e aves existentes no território nacional.
desfiladeiro de Apacheta, no região amazônica como
departamento de Arequipa, destino de turismo
Suriname da abundância de fungos. Tucano

Peru. sustentável. Amazônia colombiana


6
5.000 m.s.n.m.
Florestas de Florestas das áreas
nevoeiro de piemonte
Florestas
de planície
3 São cobertos por uma camada de matéria
orgânica, fonte de nutrientes para as plantas. Os
nutrientes contidos na matéria orgânica são
Concentra 46% das aves
registradas no território
Onça

2 4.000 m.s.n.m. disponibilizados pela rica microfauna do solo. Para nacional.


Milhões de km , Amazônia Alto Amazonas. MANAUS Rã do gênero dendrobates
aproximada- 3.000 m.s.n.m. (critério hidrográfico) serem destinados à agricultura permanente,
mente, é a área
Bolívia, Colômbia, Brasil
2.000 m.s.n.m. Equador e Peru. Fundada em 1669 precisam primeiro ser desmatados. O efeito das
atual da
cobertura 1.000 m.s.n.m. Amazônia 1.646.602
BELÉM intensas chuvas nas áreas desmatadas provoca o
(critério ecológico) Baixo Amazonas.
florestal. 0 m.s.n.m. Brasil, Guiana, habitantes (2007) Brasil empobrecimento do solo, reduzindo, assim, sua
Suriname e Fundada em 1616 fertilidade.
Oceano Pacífico Oceano Atlântico Venezuela. 1.408.847 Boto-cor-de-rosa
habitantes (2007)
4 Nas áreas aluviais inundáveis, o solo é mais fértil
em razão da deposição de silte e argila, porém sua
Tucunaré

POPULAÇÃO AMAZÔNICA drenagem é deficiente. Os solos das áreas

39
não-aluviais nas restingas, nos morros e nas
Diversa e antiga, formada por variados grupos humanos: povos montanhas são enriquecidos pela biomassa que
indígenas, caboclos, ribeirinhos, população urbana, entre outros. sustentam.
Constitui a base de um complexo mosaico social e econômico. milhões de pessoas Camada superficial rica em
vivem na Amazônia húmus (material orgânico
Aguaruna maior, entre eles parcialmente decomposto) e

420
(Peru) diversos organismos. Jacaré-açu Pirarucu Pacu
Yagua
(Peru) Maku
(Brasil) BIODIVERSIDADE
povos indígenas, E PRODUTOS
detentores de valores Mais de 2.000 espécies de plantas identificadas
e de conhecimentos pela utilidade, como alimentos, medicamentos
tradicionais. Macrofauna.
e outros fins. Embuás,
minhocas,
Auca kunamaris minhocuçus,
indígena
Shipibo (Peru - Brasil) centopéias,
População e
(Equador) (Peru) formigas, etc.
Número de A ilha de Marajó é a maior
Número d enas ilha fluvial do mundo (48.000 km2).
País povos indíg pulação indí
gena Tambaqui
habitantes * Inclui a po
andina .
007) 175 de origem O zooplâncton é uma fração
sil 300.000 (2 Parcela da população Mesofauna. do plâncton constituída por
Bra 005) 59 0,28% (2001) Colêmbolos,
300.000 (2
seres que se alimentam de
Peru 005) 62 amazônica em cada país 16,0% (2005)
100% (2004) opiliões, matéria orgânica.
107.231 (2 100% (2002) nematóides, etc.
Colômbia 01) 25 5,0% (2005)
48.123 (20 2,2% (2005)
Bolívia 001) 17 13,6% (2007) Venezuela
37.362 (2 9,7% (2001) Suriname
Venezuela - Peru
- A camada inferior é formada por
Guiana 006) 10 Guiana um componente mineral de O fitoplâncton representa, junto
369.810 (2 Colômbia Equador com as plantas superiores que
Equador * - Brasil
partículas muito finas. Sua coloração
vivem na Amazônia, o primeiro
12.000 Bolívia Microfauna. Fungos, vermelha se deve da acumulação
Suriname bactérias e algas. de óxidos de ferro e alumínio. elo da cadeia alimentar.
>65
AUTORES:
ROSARIO GÓMEZ Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP) – Peru
ELSA GALARZA Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP) – Peru
JUAN CARLOS ALONSO Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas, Sinchi – Colômbia
DOLORS ARMENTERAS Instituto Alexander von Humboldt – Colômbia

2.1
MÓNICA MORALES Instituto Alexander von Humboldt – Colômbia
CARLOS SOUZA Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) – Brasil DINÂMICA
SOCIODEMOGRÁFICA
COAUTORES:
LUIS ALBERTO OLIVEROS Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)
MURIEL SARAGOUSSI Ministério do Meio Ambiente – Brasil

2.2
FERNANDO RODRÍGUEZ Instituto de Pesquisa da Amazônia Peruana – Peru
URIEL MURCIA
MARLÚCIA BONIFACIO
Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas, Sinchi – Colômbia
Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) – Brasil
DINÂMICA
MARCUS XIMENES PONTE Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (IPAM) – Brasil ECONÔMICA
LEONARDO DE SÁ Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) / Museu Paraense Emílio
Goeldi (MPEG) / Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) – Brasil
ARNALDO CARNEIRO FILHO Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) – Brasil

2.3 MUDANÇAS NO
USO DO SOLO

DINAMICAS 2.4 CIÊNCIA,


TECNOLOGIA E
INOVAÇÃO

NA 2.5 MUDANÇAS CLIMÁTICAS


E EVENTOS NATURAIS

AMAZONIA
66
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >67

TABELA 2.1
A SITUAÇÃO AMBIENTAL DA REGIÃO AMAZÔNICA É O RESULTADO DA População aproximada da Amazônia maior e da Amazônia menor (2005)

interação de um conjunto de forças motrizes sociodemográficas, econômicas, político- PRESSÃO DEMOGRÁFICA


institucionais e científico-tecnológicas, bem como da pressão exercida pelas mudanças ÂMBITO
POPULAÇÃO TOTAL
DENSIDADE
POPULACIONAL
(% DA AMAZÔNIA)
(2005)
no clima e no uso do solo, em estreita combinação. Esse conjunto de forças motrizes (HABITANTE/km²) ALTA
>100
INTERMEDIA
25 -100
BAXIA
< 25
é responsável por processos que condicionam as mudanças nos padrões de utilização
AMAZÔNIA MAIOR 38.777.600 4,74 0,61 2,81 96,58
dos recursos naturais e os impactos ambientais decorrentes desse uso, afetando
AMAZÔNIA MENOR 11.037.260 2,14 0,32 1,23 98,45
diretamente os serviços ecossistêmicos. Assim, é importante analisar as características
MUNDO 6.453.628.000 47,83 8,28 12,61 79,11
dessas forças e suas ligações com o funcionamento do ecossistema amazônico.
Notas:
Pressão demográfica: alta = mais de 100 hab./km2; intermediária = entre 25 e 100 hab./km2; baixa = menos de 25 hab./km2.

2.1|Dinâmica
Elaborado pelo PNUMA/GRID Sioux Fall a partir de GPWv3 e informação da Rede de Informação Internacional de Ciências da Terra (CEISIN) do
Instituto da Terra da Universidade de Columbia.

sociodemográfica MAPA 2.1a MAPA 2.1b


Densidade populacional da Amazônia maior e Densidade populacional da Amazônia maior e da
Conforme descrito no capítulo 1, do ponto de vista sociocultural a da Amazônia menor (1990). Amazônia menor (2005).
população amazônica distingue-se pela diversidade. Trata-se de uma
população heterogênea, com diferentes padrões de aproveitamento 0
1-4
0
1-4
dos serviços ecossistêmicos amazônicos. O crescimento populacional 5-9
10 - 14
5-9
10 - 14
na Amazônia está associado à progressiva demanda de seus habitan- 15 - 24
25 - 49
15 - 24
25 - 49
tes por bens e serviços tais como alimentos, energia elétrica, água 50 - 99
> 100
50 - 99
> 100
potável, esgoto, saúde, para atender às suas necessidades básicas. Amazônia maior
Amazônia menor
Amazônia maior
Amazônia menor
Fronteira internacional Fronteira internacional

POPULAÇÃO E FLUXOS MIGRATÓRIOS

A determinação do número de habitantes da região amazônica variará


de acordo com o critério empregado na definição da própria Amazô-
nia, assim como com a metodologia e o critério escolhidos por cada
país para definir sua respectiva população amazônica. Assim, a seguir
apresentaremos as populações correspondentes às Amazônias maior
e menor, conforme definidas no capítulo 1, calculadas com base em
informação demográfica georreferenciada e fontes internacionais. Na
seqüência, faremos uma análise da população amazônica mediante
informação estatística oficial dos países amazônicos.

Considerando os âmbitos das Amazônias maior e menor, em


2005 a população amazônica foi de, respectivamente, 38.777.600
e 11.037.260 habitantes (Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente [PNUMA], 2008), como pode ser observado na tabela 2.1.
ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP

Comparando os mapas 2.1a e 2.1b, fica evidente não apenas o cres- Com base na informação divulgada pelos países amazônicos e
cimento da população, mas também a sua concentração no sul da nas taxas médias de crescimento anual registradas nos dois últimos ESTIMA-SE QUE CERCA DE

75%
Amazônia brasileira, no oeste da Amazônia (principalmente no Peru) períodos censitários, estima-se que em 2007 viviam na Amazônia
e ao longo do eixo do rio Amazonas (na área de Iquitos, Peru, na região 33.485.981 habitantes (cálculos do GEO Amazônia). Essa população
de fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru e nas aglomerações urbanas representa 11% da população total dos países-membros da OTCA.
de Manaus e Belém, no Brasil). Observa-se ainda um quase vazio O Brasil concentra 76% da população amazônica total, seguido do
demográfico na planície amazônica colombiana, equatoriana e vene- Peru, com 13% (tabela 2.2). Depreende-se desses dados que o Peru DA POPULAÇÃO TOTAL
zuelana, muito embora os dois primeiros países apresentem focos de ❱❱❱ Família de colonos, habitantes freqüentes das é o país andino-amazônico que tem a maior proporção de população DA AMAZÔNIA SE
população na base dos Andes. margens dos rios amazônicos. nacional assentada na região amazônica (16%). CONCENTREM NO BRASIL.
68
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >69

TABELA 2.2 O crescimento da população


População na Amazônia
amazônica está associado às
PAÍSES NÚMERO DE HABITANTES TAXA DE CRESCIMENTO MÉDIO ANUAL
Notas: migrações, que são resultado
* Dados fornecidos por Melvy Aidde Vargas
BRASIL
1980
11.015.363
1991
16.146.059
2007
24.970.600
1980-1991
3,5
1991-2007
2,8 (“Demografía de la región amazónica: el das políticas nacionais de
caso de Bolivia”, 2005), baseados nos Cen-
COLÔMBIA
1985
1.607.093
1993
658.723
2005
960.239
1985-1993
-10,5
1993-2005
3,2
sos Nacionais Populacionais da Bolívia. Em:
Aragón (2005).
colonização e povoamento,
EQUADOR
1982
263.797
1990
372.533
2005
629.373
1982-1990
4,4
1982-2005
3,6
da expansão de atividades
No Peru, considera-se o critério ecológico.
GUIANA
1980 1991 2002 1980-1991 1991-2002
Fontes: Aragón (2005). Bolívia: Instituto Na- produtivas, do deslocamento
759.568 723.673 751.223 -0,4 0,3
cional de Estatística. Brasil: IBGE. Colômbia:
PERU
1981 1993 2005 1981-1993 1993-2005 Instituto Sinchi. Equador: Ecorae (2006). da população para
1.253.355 3.542.391 4.361.858 9,0 1,38 Guiana: Agência de Proteção Ambiental
1980 1993 2004 1980-1990 1980-2004
(2007). Peru: INEI-IIAP (2006). Suriname: regiões mais pacíficas, em
SURINAME Escrutório Geral de Estatística. Venezuela:
354.860 s.i 492.823 s.i 1,38
INE. Censo Geral Populacional e Domiciliar,
1981, 1990 e 2001.
decorrência da violência, e
1981 1990 2001 1981-1990 1990-2001
VENEZUELA*
45.667 55.717 70.464 2,2 2,16
do desenvolvimento de infra-
estrutura de transportes.
A população amazônica cresceu a uma taxa GRÁFICO 2.1
média anual de 2,3% no período 1990-2007, Taxa de crescimento médio anual da população amazônica (por país)
e o Equador foi o país que registrou a maior sionou-se a expansão em direção à região e
Década 1990-1980 Década 2000-1990
taxa média de crescimento anual (3,6%). Crescimento da população do país na década de 2000-1990
grandes fluxos migratórios adentraram áreas
Deve-se destacar que, nos primeiros anos indígenas no nordeste da região. A geografia
do presente século, o ritmo de crescimento 4,4 amazônica foi transformada e adaptada ao
Equador 3,6
da população amazônica tem sido superior à 1,8 desenvolvimento de um modelo de pecuária
taxa de crescimento populacional nacional da extensiva e ao surgimento da intensa explora-
maioria dos países amazônicos, sobretudo no 0,0 ção de petróleo, que impulsionaram a colo-
Equador, Colômbia e Brasil (gráfico 2.1). Bolívia 3,2 nização, gerando grandes impactos sobre os
2,9
territórios dos povos indígenas (Cofán, Inga,
O crescimento da população amazônica entre outros).

ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO


-10,5
está associado às migrações, que têm sido Colômbia 3,2
1,4
um processo contínuo na região. As migra- A região amazônica do Peru também
ções são resultado de condicionantes de experimentou, de modo precoce, um gran-
natureza diversa: por um lado, as políticas Brasil
3,5
2,8
de crescimento da população, que quadru-
nacionais de colonização e povoamento 1,4 plicou entre 1940 e 1981 (de 414.452 para
(p.ex., no Brasil e Peru) e a expansão de 1.796.283 habitantes), devido principalmente
atividades produtivas (p.ex., agricultura de 2,2 aos movimentos migratórios, que se intensifi-
Venezuela 2,2
monocultura, pecuária, mineração e explo- 2,1 caram na década de 60. Os departamentos
ração de hidrocarbonetos e de madeira); por para incentivar a ocupação da Amazônia, com de San Martin e Ucayali, por exemplo, torna-
outro, o contingente de pessoas deslocadas Família e moradia a criação de colônias agrícolas ao longo da es- ram-se importantes pólos migratórios em ra-
9,0
pela violência para regiões vizinhas mais Peru 1,7 indígenas na região de trada Transamazônica. Ademais, a expansão zão da expansão da fronteira agropecuária, e,
1,5 selva alta da Amazônia.
pacíficas. Além dessas, o desenvolvimento de pólos de desenvolvimento como Manaus, recentemente, por funcionarem como centros
de infra-estrutura de transportes estimula o por meio do turismo e da indústria, o desen- estratégicos de produção e processamento de
1,4
desenvolvimento de povoados. Tais fatores Suriname volvimento de projetos de geração hidrelétri- coca. No departamento de Madre de Dios, o
1,4
transformaram a Amazônia em uma válvula ca e de infra-estrutura rodoviária, assim como garimpo de ouro, a extração de madeira, a ex-
de escape para as tensões sociais da região de empreendimentos agrícolas, pecuários e ploração florestal não-madeireira (p.ex., casta-
-0,4
e levaram à ocupação de terras e ao desen- 0,3
florestais, atraíram um importante fluxo de nha) e, no período mais recente, a expansão
Guiana
volvimento de assentamentos humanos e 0,3 imigrantes, principalmente no norte do Mato do ecoturismo foram os responsáveis pela
empreendimentos agropecuários. -15 -10 -5 0% 5 10 15
Grosso e em Rondônia e Roraima. imigração. Com o crescimento demográfico e
as mudanças em referência ao uso do solo,
No Brasil, “Uma terra sem homens para Fontes: Aragón, Luis (2005). Bolívia: Instituto Nacional de Estatísticas. Brasil: IBGE. Colômbia: Instituto Sinchi. Na Colômbia, a Amazônia foi uma válvula a Amazônia peruana passou a ocupar uma
homens sem terra” foi o slogan usado pelos Equador: Ecorae (2006). Guiana: Agência de Proteção Ambiental (2007). Peru: INEI-IIAP (2006). Suriname: de escape durante a chamada “etapa da vio- posição de destaque na economia nacional
Escritório Geral de Estatística. Venezuela: INE. Censo Geral Populacional e Domiciliar, 1981, 1990 y 2001.
governos da década de 70 do século passado lência”. Entre as décadas de 50 e 70, impul- (Barclay et al., 1991).
70
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >71

GRÁFICO 2.2 GRÁFICO 2.3


Densidade demográfica da Amazônia (por país) Amazônia: população urbana (%)

Década 1990 Década 2000 Década 1990 Década 2000

4,53
Peru 5,57

3,21 64,8
Brasil 4,96 Venezuela 75,22

3,22 55,79
Equador 5,44 Brasil 68,22

3,77 56
Guiana 3,92 Peru 61,67

2,49 47,5
Suriname 3,45 Bolívia 51,6

1,38 35,9
Colômbia 2,01 Colômbia 49,6

0,84
Bolívia 1,11 Guiana 28,4

0,30 22,0
Venezuela 0,38 Equador 24,9

Hab/km² 0 1 2 3 4 5 6 0 10 20 30 40 50 60 70 80
Nota: Não há informação disponível para o Suriname.
Fonte: Aragón (2005). Bolívia: Instituto Nacional de Estatísticas. Brasil: IBGE. Colômbia: Instituto Sinchi. Equador: Ecorae (2006). Guiana: Agência de Proteção Ambiental (2007). Fontes: Aragón (2005). Bolívia: Instituto Nacional de Estatísticas. Brasil: IBGE. Colômbia: Instituto Sinchi. Equador: Ecorae (2006). Guiana: Agência de Proteção Ambiental (2007).
Peru: INEI-IIAP (2006). Suriname: Escritório Geral de Estatística. Venezuela: INE. Censo Geral Populacional e Domiciliar, 1981, 1990 e 2001. Peru: Instituto Nacional de Estatística (2002). Suriname: Escritório Geral de Estatística. Venezuela: INE. Censo Geral Populacional e Domiciliar, 1981, 1990 e 2001.

Na Bolívia, o processo migratório teve início na década


de 70 com a distribuição gratuita de grandes extensões
que põe em evidência o dinamismo do cres-
cimento das cidades. No Brasil, a população
“Os negócios A população amazônica é diversa e antiga
e foi gradualmente formando um complexo
de terra a particulares, sob a condição de que estes inves- urbana passou de 55,8%, em 1991, para florestais podem mosaico social e econômico (ver capítulo 1).
tissem em produção – o que não aconteceu na maioria
dos casos. A política de conceder terras a quem estivesse
68,2%, em 2007 (ver gráfico 2.3). Somen-
te o Equador e a Guiana têm uma parcela
contribuir à Ela é composta de diversos grupos humanos,
tais como indígenas, colonos, habitantes ri-
interessado e praticamente de modo gratuito levou a uma de população rural de mais de 60% de sua geração de um beirinhos e urbanos, que formam a base da
reconcentração da propriedade agrária no leste do país
(Urioste, 2004). Os processos de colonização propicia-
população amazônica.
grande número diversidade cultural amazônica.

ram a expansão da fronteira agrícola na Amazônia bolivia- A dinâmica populacional no território de empregos Ainda nestes primeiros anos do sécu-
na, estabelecendo-se na região culturas como cana-de-
açúcar, milho, algodão, arroz e soja, no departamento de
amazônico levou ao surgimento de cidades
de diferentes tamanhos, que correspondem
e produtos de lo XXI, há locais remotos e quase intactos,
semelhantes aos que, 500 anos atrás, fo-
Santa Cruz, e coca, no Chapare (Unidade de Análise de aos núcleos produtivos e sociais em expan- exportação e ram descobertos pelos homens de Alonso
Políticas Sociais e Econômicas [Udape], 2004). são. Existem cidades de grande porte, como tornar produtivas Mercadillo, Díaz de Pineda ou Francisco de
Manaus (1.646.602 habitantes [Brasil: Insti- Orellana. Nas florestas da Bolívia, do Brasil,
De igual forma, no Equador, a exploração de petróleo, tuto Brasileiro de Geografia e Estatística – as terras da Colômbia, do Equador e do Peru ainda vi-
seguida da agropecuária, incentivou fluxos migratórios IBGE, 2007]) e Belém (1.408.847 habitan- degradadas, com vem povos que não mantêm contato com a
para a Amazônia. Na Guiana, a expansão da mineração tes [IBGE, 2007]), no Brasil; Santa Cruz de sociedade (grupos “não-contatados”). Esses
atraiu trabalhadores tanto do próprio país como de países la Sierra (1.545.648 habitantes [Instituto Na- base no manejo povos indígenas em isolamento ou não-con-
vizinhos. cional de Estatística da Bolívia - INE, 2008]), sustentável da tatados habitam lugares de difícil acesso na
na Bolívia; e Iquitos (396.615 habitantes floresta tropical, vivendo do aproveitamento
A densidade populacional da região amazônica pas- [Peru: Instituto Nacional de Estatística e In- floresta.” dos recursos desta. Os países com maior
sou de 3,4 hab./km2, na década de 90, a 4,2 hab./km2, formática - INEI, 2005]), no Peru; e cidades número de povos indígenas em situação de
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

no período 2000-2007. Tal incremento concentrou-se de porte médio, com menos de 100.000 isolamento são Brasil (40) e Peru (20) (Bra-
no âmbito urbano. Brasil, Colômbia e Equador registra- habitantes, através das quais as regiões pro- ckelaire, 2006).
ram os maiores crescimentos em densidade populacio- dutoras se articulam entre si, viabilizando a
nal na região, de 45% (gráfico 2.2). atividade econômica regional (p.ex., Yurima- ANTÔNIO BRACK Os povos indígenas são detentores de
guas, no Peru, e Lago Ágrio, no Equador). (EXTRAÍDO DE: BRACK, cultura e valores próprios e estão assentados
No que se refere à distribuição da população urbana A seção sobre assentamentos humanos, no A., LA BUENA TIERRA) em áreas as mais diversas. Tradicionalmen-
e rural no território, a primeira experimentou um aumen- ❱❱❱ O modo de vida dos povos indígenas baseia-se nos capítulo 3, dedica-se ao crescimento urbano te, convivem em harmonia com a natureza
to, principalmente no Brasil, na Bolívia e na Venezuela, o bens e serviços proporcionados pela natureza. na Amazônia. e possuem extenso conhecimento sobre os
72
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >73

TABELA 2.3 QUADRO 2.1


Povos indígenas – população
SURINAME:
POVOS INDÍGENAS E DIREITOS DE PROPRIEDADE
PAÍS NÚMERO DE HABITANTES NÚMERO DE GRUPOS ÉTNICOS NÚMERO DE FAMILIAS LINGÜÍSTICAS
O Suriname é um dos países da América do Sul que não
BOLÍVIA 48.123 (2001) 25 18 reconhece os direitos de posse da terra dos povos indíge-
nas. Em sete regiões do país vivem 45 povos indígenas,
BRASIL 300.000 (2007) 175 34 com uma população de cerca de 12.000 habitantes.
Para resolver essa situação, a Associação de Líderes das
COLÔMBIA 107.231 (2005) 62 n.d. Vilas Indígenas (VIDS, na sigla em inglês) vem promo-
vendo o diálogo com o governo. Nesse sentido, elaborou
EQUADOR 369.810 (2006) 10 n.d. uma proposta de lei sobre direitos dos povos indígenas
e apresentou abaixo-assinados aos órgãos de direitos
GUIANA n.d. n.d. n.d. humanos da Organização das Nações Unidas.

PERU 300.000 (2005) 59 15 Com isso, a VIDS está buscando melhorar a compreen-
são sobre a questão tanto no Suriname como no exterior.
SURINAME 12.000 n.d. n.d. Além dessa atuação no exterior, dá apoio aos diversos
povos indígenas do país nas áreas de mapeamento e
VENEZUELA 37.362 (2001) 17 n.d.

DANTE PIAGGIO / EL COMERCIO


capacitação para o uso sustentável dos recursos naturais.
n.d.: não disponível.
Notas: (1) Os dados do Brasil não incluem indígenas em situação de isolamento voluntário ou suas famílias lingüísticas. Elaboração: Mariska Millieu (2007). Ministério da Saúde. Suriname.
(2) No Equador, considera-se como população indígena tanto a amazônica quanto a andina assentada nessa região, procedente de outros povos indígenas da serra. Outra
fonte, Outra fonte, como o Serviço de Iniciativas Locais para a Amazônia Equatoriana (Silae) (disponível em: <http://www.silae.org>), registra uma população indígena
amazônica de 160.000 habitantes stricto sensu, i.e., com modos de vida ancestrais próprios da região e contato reduzido com o mundo exterior.

Fontes: Aragón (2005). Brasil: Instituto Socioambiental - ISA (2007). Bolívia: INE (2003), Ecorae (2006). Guiana: Agência de Proteção Ambiental (2007). Peru: INEI-IIAP ❱❱❱ Mulher indígena descascando mandioca ou yuca,
(2006). Suriname: Escritório Geral de Estatística.
base da alimentação da população amazônica.

Os povos indígenas vários usos da flora e da fauna. Na Amazô- Há pouca informação disponível sobre a se contexto, grupos ecologistas e de defesa conflitos entre comunidades indígenas e em-
nia, existem 420 povos indígenas diferentes, área ocupada pelos povos indígenas da Ama- dos povos da floresta intensificaram as suas presas privadas são ainda comuns.
em isolamento ou 86 línguas e 650 dialetos (OTCA, 2007), nú- zônia. O Brasil registra 175 povos indígenas, ações políticas.
meros que traduzem a diversidade cultural com uma população de 300.000 habitantes Em muitos países amazônicos, a questão
não contatados amazônica. Esses povos têm uma dinâmica (1% da população brasileira amazônica) vi- A exploração dos recursos naturais da da exclusão social dos povos indígenas foi
vivem do demográfica própria, apresentando diversos vendo em 107.721.017 ha, área que repre- Amazônia em territórios indígenas por em- atendida em certas circunstâncias. O poder
níveis e perfis de fecundidade e mortalidade senta 21,52% da Amazônia Legal. No Brasil, presas madeireiras e de exploração de petró- estatal central criou e promoveu instâncias
aproveitamento dos e padrões de assentamento. Por exemplo, as terras indígenas recebem o devido reco- leo, por exemplo, sem a realização de consul- mais permeáveis voltadas aos povos indí-
transitam entre fronteiras e deslocam-se nhecimento como uma importante forma de ta às comunidades pertinentes ou sem seu genas, que facilitaram a negociação de me-
recursos da floresta, segundo padrões sociais, e não padrões proteger os direitos coletivos e a identidade consentimento, é responsável por inúmeros lhores condições ou de garantias para terem
em lugares de difícil geográficos. As mudanças socioeconômicas cultural dos povos indígenas. Além disso, casos de degradação do meio ambiente e atendidas suas necessidades. (OIT, 1996).
e ambientais ocorridas na região afetaram essas terras têm grande valor para a con- por expor ao perigo a sobrevivência desses
acesso na floresta profundamente a população indígena ama- servação da floresta, apesar de terem sido povos indígenas. A Convenção 169 da Orga- Pobreza
zônica, obrigando-a a modificar seu modo invadidas por garimpeiros, produtores agrí- nização Internacional do Trabalho (OIT) dis- O conceito de pobreza evoluiu, passando de
tropical. O Brasil e de vida e reduzindo seu número. No Peru, colas, madeireiros, pescadores e caçadores, põe sobre a participação e a consulta prévia um entendimento que se restringia ao ní-
o Peru são os dois por exemplo, em 1997 foram registrados 11 a fim de aproveitar seus recursos naturais, aos povos indígenas no que se refere ao uso vel de renda para uma visão mais integral e
grupos étnicos extintos e 18 em perigo de suscitando conflitos entre os invasores e os dos recursos naturais e ao seu direito de ter complexa, que leva em consideração fatores
países com o maior extinção. O processo de desaparecimento habitantes indígenas. Embora a população participação nos lucros e ser indenizados por culturais, geográficos e ambientais. Os povos
se dá de forma gradual, remontando à ocu- indígena tenha experimentado uma redução quaisquer danos que venham a sofrer em de- indígenas, assim como outras populações
número de povos
pação européia do território (ver capítulo 1). drástica nos últimos 25 anos, ultimamente corrência dessas atividades. No caso do Bra- tradicionais, vivem dos produtos da floresta
nessa situação. Some-se à chegada dos europeus o cresci- vem registrando uma recuperação numérica sil, país que também subscreveu essa Con- ou dos rios, fazendo uso de práticas extrati-
mento demográfico, o processo de desin- significativa (ISA, 2007). venção, os indígenas têm o usufruto exclusivo vistas (coleta de frutos, pesca ou caça). As-
tegração social e cultural de alguns grupos dos recursos naturais de seus territórios, tan- sim, seu bem-estar depende não apenas de
indígenas, a assimilação por outros grupos Por outro lado, a partir da década de 80 to para fins hídricos como energéticos ou de renda, mas também da disponibilidade e do
e a incapacidade de manter seus níveis de aumentaram as pressões nacionais e interna- mineração. Apesar de existirem normas que acesso aos recursos naturais, bem como de
população (Brack, 1997b) (tabela 2.3). cionais pela preservação da Amazônia. Nes- reconhecem esses princípios de participação, sua capacidade para manejá-los (Celentano;
74
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >75

Verissimo, 2007). Os pobres estão expos- à falta de água e a condições precárias de


tos a eventos que fogem de seu controle higiene, entre outros; e são vulneráveis aos
(doenças, violência, fenômenos naturais, fenômenos climáticos.
entre outros) e são mais vulneráveis a essas
situações. Carentes dos meios necessários Em 2004, 35% da população da Ama-
para se proteger, aproveitar oportunidades, zônia brasileira viviam em lares com insegu-
desenvolver aptidões e fazer valer seus di- rança alimentar média ou grave, enquanto
reitos, são excluídos e vivem precariamente no âmbito nacional a média foi de 21% da
(Roca Rey; Rosas, 2002). Somem-se a isso população. Mas há diferenças importantes
as maiores chances de serem pobres nos entre os estados: Roraima (52%) e Mara-
povoados e aldeias indígenas, além de a nhão (50%) detêm os piores índices (Ce-
brecha social ser mais profunda e diminuir lentano; Veríssimo, 2007).
muito lentamente.
No caso da Guiana, a pobreza diminuiu
A região amazônica é um bom exemplo tanto na área urbana como no litoral, sendo
da dualidade riqueza-pobreza. Trata-se de a maior redução observada em Georgetown.
uma área dotada de grande quantidade e A maioria dos pobres desse país vive na área
variedade de recursos naturais e culturais, rural e trabalha por conta própria no campo
onde boa parte da população vive em con- ou em atividades manuais.
dições de pobreza ou de pobreza extrema.
Embora a análise da pobreza se veja limitada A desigualdade social vai além das diferen-
do ponto de vista comparativo, pois esbarra ças de renda, estando também relacionada à
na diferença de metodologias empregadas discrepância no acesso aos serviços básicos
para sua medição, é evidente que a parcela (p.ex., água potável, esgoto, energia, coleta
da população que vive em situação de po- lixo, qualidade da construção da moradia e
breza é maior em boa parte da região ama- acesso à casa própria). A cobertura dos servi-
zônica do que no âmbito nacional. No Peru, ços básicos é diferenciada entre os países. A
por exemplo, a porcentagem da população Amazônia brasileira registra uma melhoria na
em situação de pobreza na região amazônica cobertura de abastecimento de água, que pas-
(48,4%) foi maior que a nacional (39,3%) sou de 48%, em 1990, para 68%, em 2005,
em 2007, num contexto em que esse grupo assim como na cobertura do saneamento, de
diminuiu na Amazônia de 60,3%, em 2005, 33% a 48% no mesmo período (IPEA, 2006
para 48,4%, em 2007. Além disso, a maior citado por Celentano; Veríssimo, 2007).
redução nos níveis de pobreza registrou-
ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP

se nas zonas urbanas, passando de 53,9% Na região andino-amazônica, deficiências


para 40,3% entre 2005 e 2007. A pobreza na cobertura dos serviços de água potável
extrema, de igual forma, apresentou uma e esgoto são um denominador comum en-
redução importante, de 25,5% para 17,8%, tre os países, afetando mais de 4 milhões
no mesmo período (Peru: INEI, 2008). de pessoas. 61% da população não contam
com água potável e 70% não têm serviço de
Na Amazônia brasileira, a avaliação do esgoto (Nippon Koei; Secretaria Geral da Co-
cumprimento dos Objetivos de Desenvolvi- munidade Andina [SGCA]; Programa de Água
mento do Milênio permitiu concluir que a e Saneamento [WAP], 2005).
parcela da população que vive em situação Embora o nível de pobreza na região amazônica seja uma

35% 4.000.000
de extrema pobreza diminuiu em 6 pontos A ausência de serviços básicos entre os ci- questão importante, a percepção predominante entre os próprios
percentuais, de 23%, em 1990, para 17%, dadãos excluídos, além de limitar sua qualidade povos indígenas e, principalmente, entre seus líderes é a de que
em 2005. No entanto, o quadro da pobreza de vida, afeta o meio ambiente local, já que eles não são pobres, e sim com outro modo de vida, mais harmo-
não mudou, mantendo-se em 45%. Outro aumenta a contaminação da água e do solo e nioso com a natureza, muito embora aos olhos de um ocidental
indicador de pobreza é a proporção de resi- danifica a fauna e a flora. De um modo geral, os DA POPULAÇÃO DA AMA- DE PESSOAS NA AMAZÔNIA DOS isso possa ser sinônimo de pobreza. São essas populações as que
dências em situação de insegurança alimen- grupos excluídos são os primeiros a ser atingi- ZÔNIA BRASILEIRA EN- PAÍSES ANDINOS NÃO TÊM ACES- geralmente se encontram entre os grupos mais vulneráveis da
tar. Segundo a FAO, entende-se por “inse- dos pela degradação ambiental, por exemplo, FRENTAVAM CONDIÇÕES SO AOS SERVIÇOS DE ÁGUA POTÁ- sociedade. Sua situação de pobreza, como nos demais casos, im-
gurança alimentar” a conjuntura em que as com a proliferação de mosquitos transmissores DE INSEGURANÇA ALI- VEL E ESGOTO. plica desemprego, desnutrição, analfabetismo (entre as mulheres
pessoas carecem de alimentos; têm acesso de malária, febre amarela e dengue, que têm especialmente), riscos ambientais e acesso limitado aos serviços
limitado a estes pelo baixo nível de renda; um profundo impacto na saúde humana e na
MENTAR MODERADA OU sociais e de saneamento, inclusive ao atendimento de saúde em
preparam-nos de forma inadequada devido qualidade de vida da população. GRAVE (2004). geral (OEA, 2000).
76
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >77

DANTE PIAGGIO / EL COMERCIO


❱❱❱ População em crescimento e maior demanda por serviços de saúde.

A taxa de mortalidade infantil é um indi-


cador que contempla as condições socioe-
conômicas, nutricionais e de saúde das fa-
mílias, como o acesso a serviços de saúde,
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

num contexto em que grande parte dos fato-


res que contribuem para a elevação da mor-
talidade infantil podem ser administrados de
maneira preventiva. Na Amazônia brasileira,
é notória a melhoria deste indicador. A taxa
de mortalidade infantil em crianças de um

LINO CHIPANA / EL COMERCIO


❱❱❱ A vacinação infantil ajuda a prevenir doenças e a reduzir a mortalidade infantil ano caiu de 51 para 36 mortes por mil nas-
cidos vivos entre 1991 e 2000. No grupo de
crianças abaixo de cinco anos, o número de
Saúde nização contra nenhum tipo de doença. A mortes teve queda ainda maior, de 67 para
A condição de saúde da população de- saúde dos imigrantes também está exposta 46 mortes por mil nascidos vivos (Celenta-
NO EQUADOR, pende do acesso a serviços de saúde e de às doenças tropicais, associadas ao ecossis- ❱❱❱ O Estado e as agências internacionais contribuem para melhorar as condições no; Veríssimo, 2007).
A TAXA DE infra-estrutura hospitalar e, sobretudo, da tema da floresta. Estudos conduzidos recen- de vida da população amazônica.
disponibilidade de pessoal médico para temente em Iquitos (Peru) mostraram que No Equador, a taxa de mortalidade in-
MORTALIDADE fantil foi de 39,5 por mil nascidos vivos
atender às suas necessidades. De um modo a transmissão de malária é maior nas áreas
INFANTIL FOI DE geral, os serviços de saúde existentes na desmatadas, porque o vetor dessa doença
TABELA 2.4
em 2001 (Instituto para o Ecodesenvol-

39,5
Amazônia brasileira: saúde e meio ambiente vimento Regional Amazônico do Equador
região amazônica são limitados em relação se prolifera abundantemente em terrenos
aos de outras regiões. Por esse motivo, a com água estagnada, característica dessas [ECORAE], 2006). No estado venezuelano
população vulnerável é mais suscetível a regiões (Vittor et al., 2006). DOENÇA NÚMERO DE CASOS POR 100.000 HABITANTES de Amazonas, o volume de investimentos
doenças gastrointestinais e respiratórias, públicos em saúde é limitado e a principal
PARA CADA 1.000
causadas pela contaminação da água e do O Instituto Socioambiental do Brasil (ISA), causa de consultas médicas é a diarréia
NASCIDOS VIVOS ar, assim como aquelas que se proliferam em publicação recente sobre a situação dos
AIDS Aumentou de 1,2, em 1990, para 12,4, em 2004
(Aragón, 2005).
(2001). em diversas condições ambientais, como povos indígenas brasileiros, destacou o au-
a malária. mento do número de mortes causadas por MALÁRIA Caiu de 3,3, em 1990, para 2,0, em 2004 AIDS, malária, dengue e tuberculose são
desnutrição infantil no Mato Grosso e o rea- as principais enfermidades registradas na
No passado, os booms de produção na parecimento da malária em Roraima. A essa TUBERCULOSE Caiu de 73, em 1990, para 48, em 2004 região amazônica, apresentando diferentes
Amazônia e a imigração desencadearam epi- situação soma-se a maior incidência de casos níveis de incidência. O aumento na incidên-
demias entre a população local e, particular- de tuberculose, epidemia que atinge várias tri- cia de malária nas áreas urbanas é particu-
Fonte: Aragón (2005).
mente, os nativos, que não recebiam imu- bos indígenas (ISA, 2006b). larmente significativo (tabela 2.4).
78
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >79
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

JUAN PONCE / EL COMERCIO


Educação de baixa qualidade e condições
de acesso difíceis, particularmente para
a população indígena, são desafios que
precisam ser enfrentados.

Educação
A região amazônica apresenta altas taxas de Na Guiana, o nível de escolarização nos domi- Infra-estrutura qualidade do serviço, situação esta que limita
analfabetismo, que variam segundo o país. cílios pobres está abaixo da média da popu- precária limita a o desenvolvimento de capacidades de uma
aprendizagem das
Na Bolívia e no Equador, por exemplo, o anal- lação. Menos de 15% dos chefes de famílias população altamente vulnerável, como expli-
crianças.
fabetismo atinge 12% da população amazô- pobres sequer concluíram o ensino médio. cado anteriormente (Hall; Patrinos, 2004).
nica, ao passo que na Venezuela 93% da Nas áreas rurais, a freqüência escolar é baixa.
população com mais de 10 anos não sabe A situação é ainda pior no interior do país, Assim, um desafio importante no que se re-
ler nem escrever. Na Amazônia brasileira, onde menos de 13% dos lares pobres termi- fere à educação na Amazônia é desenvolver
registrou-se uma redução de sete pontos naram o ensino médio. Além disso, 41% das programas coerentes com a realidade local,
percentuais, diminuindo de 20% para 13% famílias que vivem abaixo da linha da pobre- que propiciem uma compreensão dessa
da população acima de 15 anos entre 1990 za se dedicam à agricultura (Guiana: Agência complexa e rica região com base numa visão
e 2005. Além disso, o número de anos de de Proteção Ambiental [EPA], 2007) holística. De igual forma, deve-se monitorar a

JUAN PONCE / EL COMERCIO


estudo aumentou de 4,1, em 1990, para 5,9 qualidade do serviço em relação à desistên-
anos, em 2005. Observa-se, ainda, uma ele- Deve-se destacar que os resultados obtidos cia escolar e às competências conquistadas.
vação no número de meninos e meninas de no quesito educação são substancialmente Para tanto, tornam-se necessários sistemas
7 a 14 anos inscritos no ensino fundamental, piores entre a população indígena, o que de informação que possibilitem um acom-
de 85% para 96% entre 1990 e 2005 (Ce- coloca em evidência as restrições de acesso panhamento adequado do desempenho dos
lentano; Veríssimo, 2007). desse grupo ao ensino, bem como a baixa serviços de educação. ❱❱❱ As crianças se esforçam para chegar à escola.
80
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >81

A expansão da pecuária é
um estímulo a mudanças
no uso do solo e afeta os
serviços ecossistêmicos.

2.2|Dinâmica
econômica
Ao longo dos últimos 50 anos, a Amazônia foi ocupada por diver-
sos grupos humanos, que exploraram seus recursos naturais, como a
borracha, até aproximadamente 1945, e, num período mais recente,
A pequena
petróleo, gás e metais. A população que vive da mineração é cada vez porcentagem
mais importante na região: os garimpeiros são uma realidade que não
pode ser ignorada. A exploração florestal e de hidrocarbonetos cons- de terras usadas
titui também uma fonte importante de trabalho e de divisas; e, como
com eficiência
conseqüência dessas atividades, a infra-estrutura de comunicação na
é um aspecto
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

Amazônia teve um crescimento significativo no período recente.

De um modo geral, todas as atividades econômicas desenvolvidas preocupante da


na região amazônica geram pressão sobre os recursos naturais, que agropecuária na
variam em forma e magnitude. A seguir serão analisadas as tendências
das principais atividades produtivas na Amazônia nos últimos anos: Amazônia
agricultura e pecuária; exploração madeireira; mineração e energia; e
desenvolvimento da infra-estrutura viária.
Diversos tipos de atividades agrícolas são desenvolvi- rapidamente: em 1990 havia na Amazônia brasileira 26
A expansão da agropecuária dos na região (ver o capítulo 3 para mais detalhes sobre milhões de cabeças de gado; em 2006, 73,7 milhões.
os sistemas agroprodutivos). Há áreas agrícolas dedica-
A partir da década de 70, os governos de diversos países empreende- das, em boa parte, a culturas de subsistência, em especial Um aspecto preocupante das terras destinadas à agri-
ram grandes projetos de desenvolvimento e de construção de estradas mandioca, milho, arroz, feijão, banana e diversas fruteiras cultura e à pecuária na Amazônia é a baixa porcentagem
na Amazônia, incentivando a migração de pequenos agricultores com nativas ou introduzidas; e áreas onde são cultivadas es- de terras efetivamente usadas. O abandono de terras é
subsídios de diversos tipos. De maneira concomitante, instalaram-se pécies voltadas para a agroindústria, como dendê, cacau, muito alto em determinadas áreas da Bolívia e do Peru.
grandes propriedades na Amazônia, viabilizadas também por políticas urucum, fibras, chá, café. Mais recentemente, a consolida- Segundo Antonio Brack Egg (1997), entre 0,8 e 1 milhão

ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP


de Estado, fundamentalmente no Brasil. Com o tempo, ambas as si- ção, liderada pelo Brasil, do complexo de grãos (soja, ar- de quilômetros quadrados de terra na floresta amazônica
tuações produziram impactos na Amazônia. Tais impactos são visíveis roz, girassol, sorgo e milho), produtos que estão entrando foram colonizados ou ocupados. Dessa área, 40% cons-
hoje em dia, evidenciando-se pelos padrões de desmatamento tipo gradualmente na Bolívia, está expandindo rapidamente a tituem terras de uso agropecuário e florestal; 60% es-
“espinha de peixe” nos estados brasileiros de Rondônia, Acre e Rorai- fronteira agrícola para o interior da Amazônia (Soya en Bo- tão abandonadas, cobertas por florestas secundárias, ou
ma, no núcleo central, nas proximidades de Santa Cruz, na Bolívia, e livia, 2005; Sindicatos e Meio Ambiente na América Latina degradadas. Isso se deve à implantação de sistemas de
num de tipo menos ordenado, porém relacionado às rodovias, nas e o Caribe, 2005; PASQUIS, 2006). No que diz respeito à produção agropecuária sobre solos com aptidão florestal,
proximidades de Pucallpa e Iquitos, no Peru. pecuária, o Brasil é um dos países onde esta cresceu mais que transformaram a floresta em lavouras e pastagens.
82
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >83

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

DANTE PIAGGIO / EL COMERCIO


❱❱❱ Muitas áreas da floresta amazônica são convertidas para a agricultura de mercado sem as ❱❱❱ O cultivo da coca está muito arraigado nas regiões de selva alta e floresta de
devidas licenças ou cuidados ambientais. altitude (yungas) da Bolívia e do Peru.

Um dos A porção sudeste da Amazônia brasileira tores e pecuaristas a adentrar ainda mais as Esse tipo de produção, somado ao uso de 2007) indiquem que a economia de energia
apresenta cerca de 500.000 km2 de terras áreas de floresta à procura de novas terras. agroquímicos (fertilizantes, pesticidas e her- e a redução nas emissões de CO2 não sejam
agronegócios degradadas, das quais 15% se encontram A esse respeito é preciso lembrar que, se- bicidas), acelerou o ritmo do desmatamento NO CASO DA tão altos. Ainda não está clara qual a magni-
abandonadas (Ministério do Meio Ambiente gundo Nepstad e Campos (2006), ultima- em extensas áreas de floresta também nas COLÔMBIA, A ÁREA tude dos custos e benefícios da produção de
que mais cresceu do Brasil, 2004). As pastagens constituem mente o mercado vem exigindo um maior províncias amazônicas de Napo, Sucumbios, CULTIVADA DE biocombustíveis (Ballenilla, 2007).
e recebeu um sistema de produção inadequado às con- cumprimento da legislação e um melhor ge- Morona Santiago e Pastaza, no Equador. COCA CRESCEU

4,5
dições ecológicas da região amazônica, ten- renciamento de todas as fases da cadeia de A coca é um cultivo ancestral que se de-
investimentos do sido estabelecidas em áreas de encosta e produção de carne e grãos provenientes da Outra tendência recente que está afetan- senvolve nas regiões de floresta de altitude
de florestas de terras baixas, que vêm sendo Amazônia, o que se traduz em incentivos à do, e que poderia afetar ainda mais, os países e de nevoeiro (ver capítulo 1), e a ela se so-
nos últimos anos desmatadas em conseqüência da expansão conservação da floresta tropical. O desenvol- da Amazônia é a produção de biocombus- maram culturas como a papoula. Ambas se
é o da soja. da pecuária, da agricultura extensiva e da ex- vimento da produção agrícola extensiva nos tíveis (p.ex., biodiesel e etanol) derivados
VEZES em 19 ANOS. destinam principalmente, hoje em dia, à fa-
tração de madeira. oito países da região levou a uma elevação de produtos orgânicos, principalmente do bricação de entorpecentes. Concentrada na
nas taxas de desmatamento, que, no caso da milho e da cana-de-açúcar. A produção da Bolívia, na Colômbia e no Peru, a produção
A área do agronegócio que mais cresceu Amazônia brasileira, significou um aumento matéria-prima dos biocombustíveis exige de coca veio crescendo nos últimos anos
e recebeu investimentos nos últimos anos da superfície desmatada acumulada, de 41,5 uma agricultura intensiva, o que implica o com relação a 2003, ano em que foi regis-
é a da soja, e as tendências apontam para milhões de hectares, em 1990, para 58,7 emprego em grande escala de fertilizantes, trada a menor superfície cultivada de coca
uma maior demanda por este produto nos milhões de hectares, no ano 2000. Dessa pesticidas e maquinaria. Métodos agrícolas do período de 2000-2006. Na Colômbia, a
setores de ração para aves, suínos, peixes, área, boa parte acabou sendo convertida menos intensivos demandariam mais terras área de 15.500 hectares cultivada com coca
entre outros, assim como para alimentar a em pastagens. Contudo, há que se esclare- e custos muito elevados. Embora o Brasil seja em 1985 subiu para 85.750 em 2005. Isso
cada vez maior população mundial. No es- cer que a soja está ligada a apenas 5% da o principal produtor e exportador mundial de significa que a superfície cultivada com coca
tado de Mato Grosso, por exemplo, a soja área desmatada – a pecuária, por outro lado, açúcar e etanol, respectivamente 30 milhões no país se multiplicou por 4,5 no espaço de
ocupa mais de 5 milhões de hectares; a área responde por 75% das áreas desmatadas –, de toneladas e 17.500 milhões de litros por dezenove anos (Ministério do Meio Ambien-
total de lavouras desta espécie no Brasil é de muito embora o crescimento da sojicultura ano, a Amazônia Legal participa com menos te da Colômbia – Instituto Sinchi, 2007).
21 de milhões de hectares. A produção de seja uma ameaça em potencial. de 3% da produção nacional de cana-de-
algodão também teve um acentuado cres- açúcar, matéria-prima de ambos os produtos. Os impactos ecológicos do cultivo da
cimento nesse estado – a produtividade das De igual forma, o auge de monoculturas O principal argumento a favor da introdução coca e da produção da cocaína são os se-
lavouras passou de 1.390 kg/ha para 3.302 tais como o arroz e a cana-de-açúcar na re- dos biocombustíveis é que estes ajudariam guintes: forte erosão dos solos pelo manejo
kg/ha. Tal expansão da sojicultura na região gião de Bêni e de Santa Cruz, na Bolívia, foi a reduzir a emissão de gases de efeito es- inadequado e pelo estabelecimento de cul-
do cerrado e nas florestas estimula agricul- um importante fator de perda de floresta. tufa, muito embora estudos recentes (Russi, turas em áreas extremamente íngremes (que
84
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >85

GRÁFICO 2.4
Cultivo da coca nos países andino-amazônicos (hectares)
Bolívia Peru Colômbia

250.000 ha

200.000

150.000

100.000

50.000

0
1996 97 98 99 2000 01 02 03 04 05 06

Fonte: Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (2007).

deveriam funcionar como mata de proteção); invasão de No entanto, a perda da cobertura florestal decorrente do ❱❱❱ Toras de madeira apreendidas em operações de combate ao corte e comércio ilegal de produtos florestais.
ROLLY REYNA/ EL COMERCIO
áreas protegidas e destruição de ecossistemas únicos e não-cumprimento das normas levou alguns operadores
de sua biodiversidade; e grave contaminação dos cursos econômicos a definir a exploração florestal na Amazônia
de água pelo uso de grandes volumes de uma série de como uma atividade seletiva, oportunista e anárquica, “Somos a favor de queda desde 1998. Na Bolívia são pro- Ressalte-se que a maioria dos países ama-
substâncias tóxicas utilizadas na fabricação da droga, par-
ticularmente a pasta-base de cocaína. Estima-se que as
que resiste a todos os esforços no sentido de organizá-
la e adotar práticas de manejo florestal (Dourojeanni,
(de estradas), sim, duzidos aproximadamente 500.000 m3 por
ano; e, no Peru, 1,8 milhões de m3 por ano.
zônicos tem regimes de concessão florestal
ou propriedade privada regidos por normas
áreas desmatadas na Amazônia boliviana, colombiana e 1998). Nesse contexto, somente uma pequena parte do desde que exista Embora a exploração florestal desordenada de manejo florestal sustentável. Na Bolívia,
peruana para o plantio de culturas ilícitas variem entre
200 e 500 km2 em cada país, dependendo do ano avalia-
desmatamento da floresta amazônica pode ser atribuído
à exploração florestal.
uma política sem planos de manejo dificilmente leve à
extinção de espécies, é responsável pela di-
por exemplo, há dois milhões de hectares de
florestas certificadas; no Brasil, essa área che-
do e da fonte consultada (Sistema Integrado de Monitora- de preservação minuição da população e extinção comercial ga a 1,8 milhão de hectares. Observa-se, no
mento de Cultivos Ilícitos [Simci] II, 2005). Acrescente-se
a isso a contaminação decorrente do uso de herbicidas no
A pressão gerada pela exploração madeireira sobre a
floresta pode levar à extinção de espécies de grande valor
da floresta que de muitas delas. entanto, que a falta de controle e fiscalização
leva à ocorrência de práticas florestais não-
combate ao narcotráfico e nos programas de erradicação, econômico (Tabarelli; Cardoso da Silva; Gascón, 2004). incentive a Um fenômeno recente em matéria de ex- sustentáveis. Nesta área são os pequenos
tendência que, ao que tudo indica, não deverá mudar.
Nesse sentido, na Colômbia lançou mão da pulverização,
Há casos documentados de ciclos de crescimento eco-
nômico seguidos do colapso da atividade que geraram
agricultura e impeça ploração florestal na Amazônia é a chegada
de grandes investidores estrangeiros, princi-
extrativistas ilegais que geram os impactos
negativos mais sérios na floresta amazônica,
em especial com glifosato, para erradicar a coca, e isso fez desmatamento. No Brasil, durante a fase de crescimento a concentração palmente asiáticos, interessados na explora- por ser muito difícil controlar sua atuação.
com que a produção de coca se deslocasse para regiões econômico, a exploração madeireira gera receitas signi- da propriedade da ção florestal de grande escala. Esse proces-
onde antes não estava presente, aumentando, assim, o ficativas para os municípios, além de empregos diretos so, que teve início no Suriname e na Guiana, A extração ilegal de madeira, como qual-
desmatamento e a contaminação (Nações Unidas, 2007). e indiretos. No entanto, tais receitas mínguam com a terra nas mãos dos vem se expandindo rapidamente para o Brasil quer outro crime ecológico, é um problema
(gráfico 2.4). escassez de espécies de valor comercial, o que leva os latifundiários.” (Traumann, 1997) e outros países da região, que repercute nos planos econômico, so-
madeireiros a migrar para outros municípios, afetando sendo motivo de grande preocupação, já que cial e ambiental, ameaçando os esforços do
A exploração florestal novamente as economias locais (Schneider et al., 2000). nem todas as empresas oferecem garantias governo para conduzir uma boa gestão dos
não-sustentável Nesses casos, perdem-se ainda serviços ecossistêmicos quanto ao manejo (Sizer; Rice, 1995). Outro recursos naturais. Por outro lado, desesti-
(biodiversidade, ciclo hidrológico, entre outros). problema associado à atuação das madeirei- mula os países, os proprietários ou as em-
A exploração florestal, quando bem-manejada, não re- CHICO MENDES, ras de grande porte na Amazônia é a provável presas florestais que investem no manejo
presenta uma ameaça para os recursos da Amazônia. As tendências da produção florestal variam de país PRESIDENTE DO SINDICATO invasão por parte de camponeses sem terra sustentável dos recursos florestais, mas
Muitos países amazônicos contam com legislação que para país. Segundo o Imazon, em 2004 o indicador de DE TRABALHADORES que se segue à abertura de extensas áreas, que não são recompensados pelo merca-
regula o acesso aos recursos florestais, estabelecendo re- volume produzido (madeira em tora) para o Brasil foi RURAIS DE XAPURI, ACRE, com a conseqüente aceleração do desmata- do com melhores preços devido à grande
quisitos mínimos para o manejo sustentável da floresta. de 24,5 milhões de m3, apresentando uma tendência ASASSINADO EM 1988. mento na região. oferta de madeira barata, porém extraída
86
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >87
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO
TABELA 2.5
Exploração de petróleo na Amazônia (2006)

PAÍS PRODUÇÃO DE PETRÓLEO (BARRIS/ANO) PRINCIPAIS ÁREAS DE PRODUÇÃO

COLÔMBIA 4.611.786 PUTUMAYO

BOLÍVIA 2.744.161 SANTA CRUZ

BRASIL 16.753.500 URUCU (AMAZONAS)

EQUADOR 182.693.891 SUCUMBIOS, NAPO, ORELLANA, PASTAZA

GUIANA - -

PERU 16.500.615 UCAYALI, LORETO

SURINAME 4.800.000 -

VENEZUELA - -

TOTAL 243.822.237 -

Fontes: Ministério de Minas e Energia da Colômbia <http://www.minminas.gov.co>, Ministerio de Minas e Energía do Brasil <http://www.mme.gov.br>, Ministério de
Minas e Energía do Ecuador <http://www.mEnergia.gov.ec>, Ministério de Energia e Minas do Perú <http://www.minem.gob.pe>, Ministério de Hidrocarbonetos e
Energia da Bolívia <http://www.hidrocarburos.gov.bo>.
❱❱❱ As técnicas artesanais utilizadas no garimpo são um importante fator de contaminação da água e do solo.

ilegalmente. Trata-se de uma situação alarmante nos temente. O enorme volume de recursos hídricos da Ama- A exploração Santiago e Zamora-Chinchipe. Estima-se que estuário do Amazonas e o piemonte dos An-
países amazônicos, cujas autoridades nem sempre têm zônia possibilita ainda a geração de energia hidrelétrica, 40% do território de Morona Santiago esteja des (TCA, 1995; Barthem; Goulding, 1997;
estrutura suficiente para fiscalizar e controlar a ativida- fundamental para o crescimento da economia. mineral é uma sob concessão de mineradoras, situação que Goulding; Barthem; Ferreira, 2003a).
de. De acordo com os dados para 2005 do Inrena e da dá origem a sérios conflitos com as comunida-
Comissão Multissetorial de Combate ao Corte Ilegal, Mineração importante ameaça des indígenas pelo uso e pela contaminação A mineração clandestina também está
estima-se que mais de 221.000 m 3 de madeira, ou A mineração sempre foi, e ainda é, uma ameaça impor- aos ecossistemas da água. Calcula-se que existam entre cem mil presente na fronteira entre o Brasil e a Ve-
15% da produção nacional do Peru, sejam extraídos tante para os ecossistemas aquáticos e terrestres da ba- e duzentos mil garimpeiros na Colômbia, algo nezuela. Na Amazônia venezuelana encon-
ilegalmente todos os anos, o equivalente a US$44,5 cia amazônica, especialmente no escudo guianense, nas aquáticos e próximo disso no Peru e o dobro no Brasil (Ins- tram-se tanto garimpos como operações de
milhões (Banco Mundial, 2006). montanhas andinas da Bolívia e do Peru, e na região do tituto Socioambiental [ISA], 2006). mineração de bauxita de grande escala, mas
piemonte, na Colômbia. O garimpo de ouro é mais extenso
terrestres da bacia não ocorre a exploração de hidrocarbonetos.
A exigência de certificação pelo Conselho de Manejo e destrutivo quando feito em pequena escala, já que em amazônica. A produção de ouro na Amazônia brasilei- Os níveis de contaminação por mercúrio em
Florestal (FSC, na sigla em inglês) para a comercialização de grande escala as operações industriais costumam ser ob- ra vem declinando desde o início da década grande parte do pescado consumido pela
produtos madeireiros no exterior é o principal incentivo para jeto de uma melhor regulação. Até o momento, a contami- de 90, mas se estendeu até a bacia do alto população desses lugares estão acima do li-
a erradicação da extração ilegal. No entanto, cerca de 70% nação por mercúrio nos tributários amazônicos decorrente Madre de Dios (Peru) e as terras altas da re- mite recomendado pela legislação brasileira
da madeira da Amazônia são destinados ao mercado interno do garimpo de ouro parece ter sido mínima e localizada. gião de Bêni, na Bolívia. Hoje em dia, a exis- (Goulding et al., 2003b; Barthem, 2004). Na
(Rodríguez, 1995), com a exceção do Peru, onde nos últimos No entanto, em alguns rios com alto teor de acidez e pouca tência de milhares de garimpeiros de ouro na fronteira entre a Colômbia e o Brasil, existem
anos mudanças no regime de uso das florestas exploradas sig- carga de sedimentos, a atividade pode gerar problemas bacia alta do Madre de Dios gera uma série problemas com a mineração de ouro, e no
nificaram um aumento no volume e no valor das exportações, mais sérios ao aumentar a sedimentação, alterando o leito de problemas ambientais em decorrência da Equador a contaminação se dá por arsênico.
que passaram de US$45,3 milhões, em 1997, para US$169 natural desses rios (Franco; Valdés, 2005; Usaid, 2005). contaminação da água por mercúrio, do des-
milhões, em 2005 (Banco Mundial, 2006). vio do rio por meios artesanais e da lavagem Na Guiana, somente os diamantes são
Na bacia amazônica, o ouro se origina nos escudos guia- com metais pesados. No entanto, há tam- produzidos por empresas de mineração de
Mineração e energia: nense e brasileiro, sendo extraído de depósitos aluviais lo- bém a possibilidade de que a concentração grande porte de capital estrangeiro; o ouro e
novas fontes, mais produção calizados nos grandes rios e desfiladeiros. No caso do Brasil, de mercúrio na bacia do Madre de Dios seja a bauxita são explorados por pequenas e mé-
entre 1960 e 1990 as principais regiões produtoras de ouro mais elevada que em outras regiões ao les- dias empresas. O investimento externo na mi-
Ouro, bauxita, zinco, carvão, manganês, ferro e um grande foram o norte do estado de Mato Grosso, às margens do rio te da bacia amazônica por causa do intenso neração é muito dinâmico. O mercado é for-
número de outros minérios e recursos energéticos encon- Tapajós, o garimpo de Serra Pelada, no Pará, e o estado de processo de erosão nos Andes. No que se mado por empresas canadenses, australianas
tram-se amplamente distribuídos na bacia amazônica. A Amapá, onde essa atividade era realizada tanto por empre- refere à pesca, conforme foi mencionado no e brasileiras. Em menor escala, os garimpeiros
Amazônia também possui grandes reservas de petróleo sas de grande porte como por garimpeiros. No Equador, a capítulo 3, a mineração afeta particularmente do Brasil também exercem uma forte pressão
e gás natural, muitas das quais foram descobertas recen- mineração de ouro e cobre ocorre nas províncias de Morona os grandes bagres que se deslocam entre o sobre a Amazônia guianense.
88
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >89

MAPA 2.2 QUADRO 2.2


No Suriname, a situação não é muito diferente. O garimpo
Principais estradas na Amazônia ENERGIA NA AMAZÔNIA BRASILEIRA
de ouro em pequena escala tem uma longa história no
país, ao passo que a de grande escala não prosperou de-
vido à falta de estradas, o que encarece a produção. Além O Brasil prioriza a energia gerada pelas usinas hidrelétricas
População 2006 dos garimpos, a mineração do tipo "porknokking" reali- na sua matriz energética. Em 2004 a geração hidrelétrica re-
0 - 50000 zada pelos maroons (ver descrição no capítulo 1) tam- presentou cerca de 94% do consumo total de eletricidade
50001 - 100000 bém gera sérios problemas de contaminação pelo uso de do país, cuja capacidade instalada atual é de 90.732 MW. O
100001 - 200000 mercúrio, da mesma forma que na Guiana. No Suriname Brasil desenvolveu uma ampla capacidade tecnológica na
Anna Pegina
200001 - 500000
predomina o capital canadense na mineração, com im- área de construção de grandes barragens. Desde a década
Georgetown
Bartica Rose Hall
Nieuw-Nikerina Paramaribo
500001 - 1636837
Puerto Ayacucho New Amsterdam Corriverton Spring
portantes concessões no distrito de Brokopondo. de 80, vem acumulando experiência na gestão de comple-
Amazônia maior
xos energéticos, tendo criado uma base institucional que
Pacaraima Uiramuta
Normandia Olapoque
Amazônia menor
Exploração de petróleo
Boa Vista Bonfim

San José del Guavia Pavimentada assegura aos atingidos e interessados participação na toma-
San Vicente del Cag
Florencia
Não pavimentada Embora exista petróleo em toda a bacia, boa parte dos de- da de decisões. O potencial energético de origem hídrica
Puerto Asis

Nueva Loja
Macap
pósitos passíveis de exploração encontra-se no oeste da da Amazônia brasileira é de 112.039 MW, o que representa
Castanhal
Francisco de Orellana
Puyo
Ananindeua
Aabaetetuba
Braganta
Amazônia, e os maiores campos de petróleo e gás estão 43% do potencial hidrelétrico nacional, mas somente 10%
Belém
Macas
El Estrecho
Manaus Parintins
Santarém
Paragominas
Sao Luis
localizados perto dos Andes, na Colômbia, no Equador, no são aproveitados.
Iquitos Itacoatira

Zamora
Caballococha Tefé
Manacapuru
Altamira
Tucuruí Peru e na Bolívia. A exploração comercial de petróleo na
Leticia Itaituba Caxias

Yurimaguas
Marab Imperatriz
Timon
Amazônia brasileira praticamente limita-se à região do rio No que se refere aos aspectos socioambientais relaciona-
Tarapoto
Parauapebas
Urucu, um tributário do Coari, de onde é bombeado para dos à construção de barragens, o Brasil conta com uma
Tocache
Pucallpa Ji-Paran
Araguaína
as margens do rio Tefé – do rio Urucu extrai-se também legislação avançada, uma sociedade civil organizada e um
Tingo María Santa Rosa do Purus
Porto Velho
gás natural. As maiores refinarias de petróleo da Amazônia ministério público preocupado em minimizar as conseqü-
Ariquemes
situam-se nas proximidades da confluência dos rios Ama- ências negativas advindas da execução dessas obras. Além
Rio Branco

Capixaba Nova Mamoré Palmas


Assis Brasil
Guayaramerin
Ibería
Cobija
Riberalta Cacoal
Sinop Gurupi
zonas e Negro, em Manaus, mas há pouca informação disso, foram estabelecidos métodos complexos de gestão
Puerto Maldonado Costa
Marques Vilhena sobre a contaminação por petróleo no rio Amazonas. nas áreas afetadas. Por isso, é muito provável que a hidroe-
letricidade continue sendo a principal fonte de energia elé-
Pimenteiras do Oest

Tangar da Serra
San Borja
Trinidad
Ascension de Guaray
Vrzea Grande
C. ceres
Cuiabá Primavera do Leste Peru, Colômbia e Equador têm oleodutos que se esten- trica do Brasil e que a Amazônia seja o principal fornecedor.
Barra do Garças

Yapacani Montero
San Ignacio San Matias Rondónopolis
dem dos campos de petróleo até as refinarias localizadas nos Uma iniciativa brasileira de destaque no campo energético
Andes e na costa do Pacífico, como o Terminal Yanácu, por é o uso dos biocombustíveis produzidos com cana-de-açú-
Santa Cruz

Puerto Suarez
exemplo, sobre o rio Marañón. Situado ao norte da reserva car. O Brasil produz 32 bilhões de litros de álcool por ano,
Pacaya-Samíria, dele parte o oleoduto do norte do Peru, que metade de toda a produção mundial.
transporta óleo cru do rio Amazonas através dos Andes. Só
Fonte: produção original do GEO Amazônia, com a colaboração técnica de UNEP/GRID - Sioux Falls e da Universidade de Buenos Aires, com dados de Bolívia:
Conservation International e INE; Brasil: IBGE; Colômbia: CIAT e DANE; Equador: INEC; Guiana: EPA; Peru: INEI; Suriname existe um poço de petróleo em Pacaya-Samíria, e o governo
detém os direitos de exploração em duas áreas dentro da re- Elaboração: Marcos Ximenes Ponte. Instituto de Pesquisa Ambiental da
Amazônia [IPAM].
serva. Na Guiana, a única informação disponível revela que,
na bacia do rio Takatu, vêm sendo desenvolvidos programas
de exploração de petróleo (TCA, 1995; Goulding; Barthem;
Ferreira, 2003a). Como se pode observar na tabela 2.5, o situados em áreas protegidas ou de amortecimento
Equador é o país que tem a maior produção de petróleo na estão sendo licitados para exploração de petróleo
região amazônica (74,9% da produção total). As províncias (Peru: Defensoria do Povo, 2007). Essa situação
de Sucumbios, Napo, Orellana e Pastaza registram os maio- reflete a grande pressão da indústria do petróleo
res níveis de atividade petrolífera, mas também apresentam sobre o ecossistema amazônico.
uma grande diversidade humana e natural. Infelizmente, os
impactos ambientais do setor de petróleo não foram devi- Embora algumas dessas áreas de exploração
damente controlados e os vazamentos de petróleo e outros de petróleo tenham sido descartadas no passa-
tipos de contaminação constituem uma ameaça para a flo- do devido ao difícil acesso, neste momento os
resta e seus habitantes. altos preços do petróleo e do gás justificam a
retomada dos trabalhos de exploração. Manter
As reservas de petróleo e gás natural estão localizadas um equilíbrio adequado entre a exploração de
em algumas das áreas mais sensíveis em termos ecológicos. hidrocarbonetos e a conservação de ecossiste-
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

Um exemplo claro dessa situação é a sobreposição de lotes mas críticos só é viável se forem estabelecidas
destinados à exploração de petróleo e áreas naturais protegi- exigências e condições ambientais rigorosas e
das (ANP). No Peru, por exemplo, encontram-se operações específicas, incluindo o fortalecimento dos mar-
de exploração nas seguintes áreas naturais protegidas: Reser- cos regulatórios nacionais e a garantia de parti-
va Nacional Pacaya-Samíria, Reserva Comunal Machiguenga cipação nos lucros e de compensações para as
e Zona Reservada Pucacuro. Além disso, outros onze lotes áreas afetadas e as populações locais.
90
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >91

TABELA 2.6
já concedeu as licenças para a construção das
Principais hidrelétricas da bacia amazônica
usinas de Santo Antônio e Jirau. Os estudos de
impacto ambiental das duas usinas do comple-
xo localizadas a jusante, em território brasileiro,
PAÍS USINA HIDRELÉTRICA ÁREA DO RESERVATÓRIO (km²) POTÊNCIA INSTALADA (MW) identificaram impactos de grandes proporções,
que afetariam os peixes, a fauna, a flora, a po-
SERRA DA MESA 1.784 1.275
pulação, os sedimentos e a propagação de do-
CANA BRAVA 139 465
enças tropicais.
SÃO SALVADOR 104 243
PEIXE ANGICAL 294 452
Os impactos diretos das barragens sobre
IPUEIRAS 934 480
LAJEADO 626 902 a população são a malária e a esquistos-
TUPIRANTIS 370 620 somose, que já ocorrem na região. Dada a
BRASIL ESTREITO 590 1.087 experiência adquirida com a construção de
SERRA QUEBRADA 386 1.328 outras grandes barragens na região amazô-
nica, como a de Tucuruí, é preciso levar em
MARABÁ 1.115 2.160
consideração a expansão do hábitat dos veto-
TUCURUÍ I 4.200*
TUCURUÍ 2.430 res (mosquitos e moluscos) dessas doenças
TUCURUÍ II 8.370

SERGIO AMARAL / OTCA


(FOBOMADE, 2005). A construção de barra-
COARACY NUNES 23 68 gens implica o alagamento de grandes áreas.
SAMUEL 579 216 No Suriname, por exemplo, a construção da
BALBINA 2.360 250 barragem de Afobaka, em 1963, resultou no
TOTAL BRASIL** 11.734 13.746 alagamento da metade do território do povo ❱❱❱ Novas estradas, mais desenvolvimento?
SURINAME AFOBAKA 1.560 100 saramacca (cerca de 1.560 km2 de florestas
* Capacidade atual. tropicais), deslocando 6.000 habitantes.
**Total referente às hidrelétricas presentes nesta tabela.
aumentado para 268.900km. Entre o Brasil
Fontes: Adaptado do Plano Estratégico de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica dos Rios Tocantins e Araguaia. Em: Agência Nacional de Água (2006); Goulding; Barthem;
Existem ainda esforços locais no senti- e os demais países amazônicos foram regis-
Ferreira (2003a); Namuncura (2002); Lopes; Cardoso (2006).
do de adotar fontes alternativas de energia, trados, nos últimos dois anos, dois projetos EM 1975, A
como os painéis solares usados em comu- de infraestrutura viária com a Bolívia, quatro
AMAZÔNIA
nidades isoladas do Brasil. A necessidade com o Peru, e um projeto com cada um dos
BRASILEIRA TINHA
O complexo As reservas de gás natural da Amazônia os do rio Negro, Anisa, Zamora, Hidroabanico de conciliar as demandas energéticas com a demais países. Dentro de cada país amazô-
29.400 KM DE
foram descobertas há bem menos tempo. A (esse último atualmente em execução). Muitos proteção e conservação de áreas importantes nico existem também numerosos projetos
hidrelétrico do jazida de gás de Camisea, no Peru, é um dos desses projetos estão associados ao desenvol- para a biodiversidade criou novos desafios de estradas novas ou de melhoramento das ESTRADAS. EM 2004,
maiores projetos energéticos da América do vimento da mineração. tanto para a indústria energética como para existentes, o que totaliza um custo de muitos QUASE 30 ANOS
rio Madeira terá Sul. Este megainvestimento, de 1,4 bilhão de a comunidade ambientalista. Os países ama- bilhões de dólares, cuja previsão é de que DEPOIS, A REDE
impactos de dólares, bombeia gás natural de depósitos lo- Na maior usina hidrelétrica da Amazô- zônicos apresentam uma demanda de mo- provenha de capital público e privado. RODOVIÁRIA DA
calizados a quatro mil metros de profundidade, nia, de Tucuruí, foram conduzidos estudos dernização e expansão econômica e novas REGIÃO AUMENTOU
grande magnitude na região de floresta do baixo Urubamba. A Bo- de impacto ambiental que revelaram alguns empresas estrangeiras vêm demonstrando O desenvolvimento da infra-estrutura viária PARA 268.900 KM.
lívia também possui reservas de gás capazes de dos efeitos variáveis e complexos desses em- um interesse crescente em investir na região no Brasil é o caso de maior destaque da Amazô-
sobre os peixes, abastecer os países da região, o que implicará preendimentos na atividade pesqueira local, devido ao potencial dos recursos de petróleo nia, refletindo em certa medida o momento que
a fauna e flora, no futuro a execução de projetos de infra-estru- como uma significativa elevação do risco de e gás para atender à demanda internacional. estão atravessando os demais países. O Plano
tura na Amazônia para escoar o produto. desaparecimento das populações de peixes de Integração Nacional de 1970 promoveu uma
a população, os nas proximidades das cachoeiras (Usaid, Ampliação da grande mudança na infra-estrutura da região,
sedimentos e a 2005; Fórum Boliviano do Meio Ambiente e infra-estrutura viária não só em termos de construção de rodovias,
Usinas hidrelétricas Desenvolvimento [FOBOMADE], 2005). mas também de portos e aeroportos, e o início
propagação de A construção de usinas hidrelétricas e de bar- O aproveitamento das enormes reservas de de uma complexa rede de comunicações.
ragens para outros fins não alterou o fluxo de Destaque-se que o maior projeto hidroe- recursos naturais na Amazônia gera a ne-
doenças tropicais. água na região, mas tem potencial para modifi- nergético da Amazônia, o Complexo Hidrelétri- cessidade de desenvolver projetos de infra- Além da construção da rodovia Belém-
car o ciclo de descarga dos rios. No entanto, até co do rio Madeira, se vier a se concretizar, irá re- estrutura. Nesse sentido, os grandes projetos Brasília, observou-se uma alta densificação
o momento não há indícios de redução do nível presar o segundo rio mais caudaloso da bacia. de energia, transporte e comunicação são da malha rodoviária nos estados do Ma-
anual de descarga dos rios amazônicos. O Brasil Devido às suas características e à sua origem uma tendência crescente. ranhão e Tocantins e no leste do Pará, de
é o único país amazônico que tem represas de andina, o rio Madeira transporta a metade da Mato Grosso e de Rondônia. As primeiras
grande porte na região, e as maiores são as de carga de sedimentos da bacia e drena uma das A respeito da infraestrutura viária, em estradas, precárias, foram abertas por fazen-
Tucuruí e Balbina (Goulding Barthem; Ferreira, regiões de maior diversidade física e biológica particular, em 1975, a Amazônia brasileira deiros e madeireiros e depois pavimentadas
2003a), muito embora o Equador tenha deze- do mundo, que é compartilhada por três paí- contava com 29.400km de estradas que, pelos estados e municípios, embora ainda
nove projetos de represamento em vista, como ses: Bolívia, Brasil e Peru. O governo do Brasil em 2004, quase 30 anos depois, haviam existam muitas não-pavimentadas.
92
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >93

QUADRO 2.3
A maior extensão de rodovias pavimentadas da região
encontra-se nos estados do Maranhão, Pará e Tocantins, jus- BRASIL: PLANO SUSTENTÁVEL DA RODOVIA BR-163
tamente onde estão os grandes eixos viários que avançam
pela Amazônia. Em 1975, a Amazônia brasileira tinha 29.400 O Plano de Desenvolvimento Sustentável Regional da área de influ-
km de rodovias, dos quais 5.200 km eram pavimentados. ência da rodovia BR-163 para o trecho Santarém-Cuiabá foi elaborado
Em 2004, a extensão da malha rodoviária da região passou com o intuito de garantir o desenvolvimento sustentável e evitar os
para 268.900 km, dos quais 246.600 km não-pavimenta- impactos negativos dos processos que historicamente acompanharam
dos, ou seja, em pouco menos de trinta anos cresceu dez o asfaltamento de rodovias na Amazônia. O Plano foi preparado com
vezes (Ximenes, 2006). Dadas as tendências atuais, é previ- base na experiência adquirida com o Programa Piloto para a Proteção
sível que o aumento no número de rodovias venha a ocorrer de Florestas Tropicais do Brasil – PPG7 e em conformidade com os
nas regiões em que há uma carência destas, como nos es- princípios do Plano Amazônia Sustentável. Essa rodovia atende uma
tados do Amazonas e Acre, significando possivelmente uma das áreas de maior potencial econômico e diversidade social e biológi-
maior pressão sobre os ecossistemas e os recursos naturais ca da Amazônia. Ali vivem comunidades tradicionais, populações urba-
amazônicos nos próximos anos. nas e rurais e mais de trinta povos indígenas, totalizando de 2 milhões
de pessoas numa área que representa 24% da Amazônia brasileira.
As estradas informais merecem uma análise especial
pelo importante papel que tiveram na ocupação da Amazô- Um grupo de 21 ministérios e órgãos federais definirá suas ações com
nia. Existem milhares de quilômetros de estradas informais, base nas prioridades estabelecidas pelos governos estaduais e munici-
construídas em terras públicas, particularmente em áreas pais e pela sociedade civil.
de floresta, sem nenhum planejamento e sem as devidas Considerando que o Plano de Desenvolvimento Sustentável Regional
autorizações exigidas por lei. Um estudo feito pelo Imazon e o governo buscam fortalecer as políticas de gestão participativa, fo-
no estado do Pará, na área com a maior concentração de ram realizadas quinze consultas para tratar da criação de áreas protegi-
rodovias ilegais abertas para ter acesso aos recursos naturais, das, da viabilização de oportunidades econômicas de base sustentável
revelou que a extensão das estradas quadruplicou em um e da consolidação de políticas de monitoramento e controle ambiental
período de dez anos, passando de 5.042 km, em 1990, com o objetivo de reduzir a degradação dos recursos naturais.
para 20.769 km, em 2001. A maioria encontra-se em terras
públicas, reservas e áreas indígenas. Assim que as ações forem implementadas, muitas empresas e órgãos
governamentais terão de intensificar a fiscalização da agricultura e do
Assim, os novos projetos têm de contemplar ações sociais transporte de produtos madeireiros ilegais. O Ministério do Meio Am-
e ambientais com o objetivo de reduzir seu impacto. A Inicia- biente, em parceria com a Fundação Nacional do Índio (Funai), vem
tiva de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-Americana trabalhando no combate ao desmatamento no Parque Xingu e nas
(IIRSA) objetiva promover o desenvolvimento da infraestrutu- terras indígenas Kaiabi, Baú e Menkrangnoti. A região será beneficiada
ra sob uma perspectiva regional, buscando a integração física com a criação de 10,6 milhões de hectares de unidades de conser-
dos países da América do Sul. É um ambicioso programa vação. Outras unidades de conservação serão criadas pelos governos
multinacional financiado BID, pela CAF e em parte pelo Brasil, dos estados do Amazonas e Pará, com o apoio do governo federal.
que envolve pela primeira vez os doze países do continente.
Entre suas metas está a construção de rodovias (em torno O Plano prevê ainda investimentos em infra-estrutura viária e em
de 300), pontes, hidrelétricas, gasodutos e outras obras de redes de energia elétrica. O governo investiu também no zoneamento
infra-estrutura. Segundo Killeen (2007), embora não exis- econômico-ecológico de toda a área de influência da BR-163. Além
tam previsões quanto ao impacto total dos investimentos da disso, serão desenvolvidos instrumentos para viabilizar o ordenamento
IIRSA, sabe-se que estes irão desencadear uma combinação territorial e a gestão ambiental da área. O Instituto Nacional de Coloni-
de forças que gerará uma perfeita tempestade de destruição zação e Reforma Agrária (Incra), a Polícia Rodoviária Federal e o Insti-
ambiental e social na Amazônia, além de colocar em perigo tuto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
a sobrevivência de comunidades indígenas que tentam se (Ibama) serão fortalecidos na região. Órgãos como a Polícia Federal e o
adaptar a um mundo globalizado. A IIRSA poderá intensificar Exército também integram o plano de operações conjuntas com a mis-
ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

os fatores que põem em risco a sobrevivência da Amazônia, são de desarticular quadrilhas de invasores de terras públicas e com-
entre os quais as mudanças climáticas e a derrubada das bater a ilegalidade e o crime na região. Serão desenvolvidas ações para
florestas para fins agrícolas (Killeen, 2007). a promoção da cidadania por meio de programas de assistência social
às famílias mais pobres, erradicação do trabalho infantil e combate ao
As rodovias são instrumentais para o desenvolvimento, e a trabalho escravo. O Programa Nacional de Educação e Reforma Agrária
sua necessidade é indiscutível. A questão é o planejamento do (Pronera) também ampliará suas redes de atendimento na região.
território. A história da Amazônia está repleta de desastres eco-
A CONSTRUÇÃO DE
lógicos e sociais e, em muitos casos, econômicos associados
ESTRADAS NA AMAZÔNIA
às rodovias, como a Marginal da Selva, no Peru, e a BR-364, no Elaboração: Muriel Saragoussi, Ministério do Meio Ambiente (Brasil).
AVANÇA SEM PARAR. Brasil, entre outras tantas dezenas (Dourojeanni,1998).
94
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >95

o desmatamento (COE, 2008). (Ver capítulo


3.)

Na maioria dos países evidencia-se um


avanço limitado na implementação de proces-
sos de ordenamento territorial para organizar o
desenvolvimento sustentável local, nacional e
regional que contribuam para o aproveitamento
sustentável do território e a redução do número
de conflitos. As políticas públicas de ocupação
da Amazônia concentraram-se no desenvol-
vimento de infra-estrutura viária para promo-
ver a conectividade e o acesso ao mercado. É
preciso destacar o compromisso do Brasil de
implementar políticas públicas que promovam
o desenvolvimento sustentável da região, para
o qual conta com o Plano de Desenvolvimento
Sustentável da Amazônia. O Brasil começou a
dar impulso a essa visão em 2000, assumindo
o compromisso de transversalizar a gestão am-
biental nas políticas públicas. A Guiana e o Suri-
name, por outro lado, têm áreas com baixo nível

2.3|MudançasNO de exploração ou inexploradas, tendo, portanto,


a oportunidade de planejar e organizar o apro-
veitamento sustentável dos seus recursos com
usodOsOlo base numa abordagem integral, multissetorial e

ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP


participativa que permita reavaliar a relação en-
tre cultura-natureza e bem-estar. A Colômbia,
No decorrer da história, o processo de ocupação territorial na grande por outro lado, estabeleceu os fundamentos de
região amazônica não ficou à margem das dinâmicas socioeconômi- sua política para o desenvolvimento sustentável
cas. A percepção da Amazônia como um enorme espaço vazio com da região amazônica como parte do processo
grandes riquezas e oportunidades para o desenvolvimento de ativida- da Agenda Amazônia 21.
des econômicas diversas incentivou processos de ocupação que não
levaram em conta a interação com as culturas nativas nem com os ❱❱❱ O desmatamento é o primeiro passo do intenso Assim, o processo acelerado de ocupação
frágeis ecossistemas. Essas mudanças, aceleradas pelo uso do solo, processo de mudança no uso do solo na Amazônia. territorial em uma região caracterizada pela
principalmente a perda significativa de área de floresta, chamam a fragilidade dos ecossistemas não só pertur-
atenção e causam preocupação na comunidade internacional. bou o equilíbrio destes como também acar-
expandir a fronteira agrícola e descongestionar as zonas As mudanças mineração informal; a exploração ilegal de madeira; os me- retou dinâmicas socioeconômicas e gerou
Hoje, quinze anos após a apresentação da obra Amazônia sem periféricas com a transferência dessas populações para gaprojetos de infra-estrutura, como barragens e rodovias (ver demandas, que constituem fatores de pres-
mitos (Banco Interamericano de Desenvolvimento [BID]; Programa lá, ignorando que a região já está habitada e que as no uso do a seção 2.2); as lacunas do ordenamento jurídico, como a são sobre a qualidade ambiental. O cresci-
das Nações Unidas para o Desenvolvimento [PNUD]; Tratado de Co- pessoas que ali vivem também têm direitos. não-definição dos direitos de propriedade; a limitada capa- mento das cidades sem sistemas adequados
operação Amazônica [TCA], 1992), que assinala que um dos mitos é
solo são o cidade de fazer cumprir a lei e de aplicar sanções; os incen- de gestão de resíduos sólidos, por exemplo,
o “vazio amazônico”, é importante reiterar e enfatizar o tema de modo A Amazônia não é nem virgem nem um espaço vazio, resultado de tivos do mercado; e as mudanças de atitude e de valores leva à disposição inadequada destes nos cor-
a organizar e ordenar o aproveitamento da região. Nesse sentido, vale onde a natureza se preserva tal qual o fora no passado, intac- da população. A força e a importância relativas de cada fator pos d´água ou no solo, afetando a oferta de
relembrar o exposto no relatório: ta. Mas também não constitui um imenso laboratório onde um processo variam de país a país (ver capítulo 1 e seção 2.1). bens e serviços ecossistêmicos.
as forças da natureza atuam sem a intervenção humana.
“É comum referir-nos à Amazônia como uma das últimas fron- Na realidade, a região tem uma longa história de ocupação
de ocupação Considerando que o uso do solo é determinado por suas Por outro lado, o desenvolvimento inten-
teiras da humanidade e como um imenso espaço vazio que é pre- humana [...]” (BID; PNUD; TCA, 1992, p. 16-7). acelerada e características físicas, químicas e ecológicas, qualquer modifi- sivo de atividades como a agricultura, a mi-
ciso ocupar. Alguns até acreditam tratar-se de uma região virgem. cação nestas afetará o funcionamento de seus ecossistemas neração e a exploração de hidrocarbonetos,
Essas idéias são comuns tanto em países extra-regionais, especial- As mudanças no uso do solo na Amazônia são resulta- desordenada e, conseqüentemente, o fornecimento de bens e serviços. assim como a eliminação de resíduos quími-
mente do hemisfério norte, como naqueles da própria região. Os do de um processo de ocupação acelerada e desordenada As mudanças no uso do solo afetam a disponibilidade e/ou cos, também afetam a qualidade dos corpos
primeiros preocupam-se sobretudo em manter a Amazônia intacta, do território ao longo do tempo, que modificou a cobertura
do território qualidade dos recursos naturais e serviços ecossistêmicos, d´água e do solo.
como uma reserva natural para toda a humanidade, esquecendo vegetal amazônica. Entre os fatores subjacentes dessas mu- ao longo do por exemplo, a erosão do solo e o assoreamento dos corpos
que há pessoas que vivem na região e que precisam prosperar. danças no uso do solo encontram-se a dinâmica regional de d'água, a fragmentação da paisagem, a introdução de espé- Entre 1986 e 2006, por exemplo, na re-
Já as nações que têm a Amazônia sob sua jurisdição a conside- produção, tal como a expansão da fronteira agrícola (impul- tempo. cies e a retirada de espécies nativas, a alteração dos ciclos gião peruana de Huaypêtue, Madre de Dios,
ram uma grande oportunidade de explorar as riquezas naturais, sionada principalmente pelas monoculturas) e a pecuária; a hidrológico e biogeoquímico, a contaminação atmosférica e a paisagem típica da floresta amazônica se
transformou num deserto em decorrência do
garimpo de ouro (IIAP, 2007).
96
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >97

GRÁFICO 2.5
Amazônia: número de artigos publicados (por ano)

850
800
750
700
650
600
550
500
450
400
350
300
250
200
150
100
50
0
1956 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 00 01 02 03 04 05

FÁBRICA DE IDEAS
Fonte: CLAES (2008).
Elaboração para PNUMA.

❱❱❱ O número de pesquisas e publicações científicas sobre a Amazônia é cada vez maior.

melhoradas, sementes transgênicas, produ- Apesar dos esforços de coordenação inte-


“A informação
2.4|Ciência,tecnologia tos agroquímicos, etc. Alguns dos avanços
obtidos foram introduzidos na Amazônia sem científica e
rinstitucional, predominam as iniciativas inde-
pendentes. Assim, embora se desenvolvam

einovação
a devida avaliação de seus impactos, entre
eles o emprego de agroquímicos na mono-
tecnológica é a importantes pesquisas na região, estas esbar-
ram na limitada divulgação, articulação e aplica-
cultura e a incorporação de espécies da flora chave para um ção. A Organização do Tratado de Cooperação

A riqueza natural e cultural da Amazônia faz com que a região seja Por tratar-se a Amazônia de um importante centro de
ou florestais. O desenvolvimento científico e
tecnológico também está associado ao regis-
desenvolvimento Amazônica (OTCA) realiza simpósios, seminá-
rios e oficinas regionais e internacionais com
muito atraente como espaço para a promoção do desenvolvimento megabiodiversidade, os estudos sobre variados aspectos tro de patentes, por meio das quais se pro- inovador na a finalidade de socializar e capitalizar os traba-
científico e tecnológico. De fato, os cientistas de outras regiões do
mundo costumam ver a Amazônia como um laboratório aberto e de
da biodiversidade amazônica são muito numerosos. Mais
da metade dos artigos científicos registrados no banco
tege a propriedade intelectual da inovação,
resguardando-se, assim, o retorno do investi-
Amazônia.” lhos de pesquisa, bem como de promover a
coordenação e o intercâmbio interinstitucional
fácil acesso. Nesse aspecto, o desenvolvimento científico e tecnológi- de dados GEO Tracking tratam da Amazônia, abordando mento privado. para o desenvolvimento científico e tecnológi-
co se constitui numa força motriz que pode alterar a disponibilidade assuntos como ecologia, ciência ambiental, geociência e co regional. Em 2006, por exemplo, a OTCA e
e qualidade dos recursos naturais, bem como a qualidade ambiental meteorologia. No entanto, há uma demanda cada vez A Amazônia deu importantes contribui- o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia
na região, além de, obviamente, contribuir para o seu progresso eco- maior pelo aprofundamento da caracterização e avaliação ções para melhorar o conhecimento e o uso (Concytec) organizaram o Primeiro Simpósio
nômico. nutricional de espécies priorizadas, crescimento e desen- de diferentes espécies da flora e da fauna: ANTONIO BRACK Científico Amazônico, em Iquitos, Peru. Os
volvimento vegetativo, caracterização do desenvolvimen- nela foram descobertas novas formas de (EXTRAÍDO DE: BRACK, seguintes temas foram considerados prioritá-
Um indicador sobre o interesse científico pela Amazônia é o nú- to reprodutivo, tecnologia para o aproveitamento integral vida e desenvolvidos métodos alternativos A., LA BUENA TIERRA) rios para a região: gestão da água, criação de
mero de artigos publicados nos periódicos científicos especializados. e desenvolvimento de estratégias de comercialização e que permitem aumentar a produtividade do peixes de água doce para consumo humano
Desde 1956, observa-se um crescimento gradual no número de ar- marketing, entre outros (Mantilla, 2006). solo, ao mesmo tempo em que se preservam (aqüicultura), biotecnologias aplicadas ao cul-
tigos publicados e, da década de 90 em diante, esse número tem os serviços ecossistêmicos, etc. Contudo, o tivo de plantas de interesse comercial, manejo
experimentado um aumento significativo (gráfico 2.5). A Amazônia não é alheia ao desenvolvimento cientí- desafio reside em articular e difundir esses das florestas e conservação da biodiversidade
fico e tecnológico internacionais, que experimentou um resultados. (Concytec, 2006). Nesse sentido, a OTCA está
Mais de 95% dos artigos sobre a Amazônia publicados nas revis- aumento considerável em razão das crescentes deman- formulando uma Estratégia de Ciência e Tecno-
tas científicas arbitradas contidas no banco de dados Web of Science das dos setores agroprodutivo, alimentar, cosmético e A institucionalidade científico-tecnológica logia para a Conservação e o Aproveitamento
foram escritos em inglês, o que mostra o interesse da comunidade farmacêutico. Esse desenvolvimento está voltado princi- da Amazônia é ampla. Os países da região con- Sustentável da Biodiversidade Amazônica.
acadêmica internacional pela Amazônia. É curioso notar que o número palmente para a elevação da produtividade das lavouras tam com institutos de pesquisa especializados
de artigos publicados em português é mais que o dobro dos publica- e a redução dos custos de manejo, entre outros aspectos. na Amazônia, que desenvolvem redes de cola- A baixa disponibilidade de recursos fi-
dos em espanhol (análise do GEO Tracking). Nesse sentido, foram desenvolvidas sementes e mudas boração e intercâmbio (ver quadro 2.4). nanceiros e humanos, contudo, representa
98
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >99

QUADRO 2.4
uma importante barreira para o desenvol-
vimento científico e tecnológico. Como se INSTITUIÇÕES DE PESQUISA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA
não bastasse a baixa prioridade da ciência, SEDIADAS NA AMAZÔNIA
tecnologia e inovação na agenda pública,
em vários países da região o orçamento Os países amazônicos compreenderam que, para valorizar
total destinado à área representa menos os recursos naturais, conservar a biodiversidade e admi-
de 1% do PIB. Não foram encontradas nistrar adequadamente os ecossistemas desse território,
informações específicas sobre a dotação é preciso contar com instituições de ciência e tecnologia
orçamentária para o desenvolvimento de especializadas na Amazônia. Atualmente existem três que
ciência e tecnologia na Amazônia. se destacam na Amazônia, caracterizadas principalmente
por ter certo grau de autonomia e sua sede principal em
Contrastando com esse cenário, cabe cidades amazônicas. Por ordem de antiguidade, são elas:
destacar os avanços científicos, tecnológicos
e de inovação capitaneados pelo Brasil na O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
região. Nessa área, a Ministério de Ciência (INPA), criado em 1952 e inaugurado em 1954, na cidade
e Tecnologia, em coordenação com outros de Manaus, Brasil, tem como objetivo pesquisar o meio
ministérios, criou um Programa de Pesquisa físico, as condições de vida e o bem-estar humano na
para o Desenvolvimento Científico e Tecno- Amazônia Legal do Brasil. É uma unidade de pesquisa que
lógico da Amazônia. goza de relativa autonomia e depende do Ministério de
Ciência e Tecnologia.

ENRIQUE CASTRO MENDÍVIL / PRODAPP


O Brasil conta ainda com a Empresa Bra-
sileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
vinculada ao Ministério de Agricultura, Pecu-
ária e Abastecimento. Esta instituição tem
como objetivo gerar tecnologia para o setor
agroindustrial e, em especial, desenvolver ❱❱❱ A inovação tecnológica na produção industrial permite melhorar o
3 IMPORTANTES INSTITUIÇÕES
DA ÁREA DE CIÊNCIA E
TECNOLOGIA ESTÃO SEDIADAS
alternativas tecnológicas para melhorar a efi- aproveitamento dos produtos amazônicos. EM CIDADES DA AMAZÔNIA.
ciência dos sistemas agroprodutivos.

Além disso, o desenvolvimento da ro- por meio de consultas a indígenas, a proba- de alimentos, fármacos e cosméticos. A constante pro-
bótica aplicada a diferentes campos trouxe bilidade de sucesso aumenta para uma de cura por medicamentos novos e mais eficientes para

95%
vantagens como a identificação oportuna de cada cinco mil. Dessa forma, de acordo com combater o câncer, o diabetes, as infecções microbia- O Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP),
problemas ambientais e a redução dos cus- tais evidências, os conhecimentos tradicio- nas, os problemas cardíacos, as dores e as inflamações organismo criado pelo artigo 120 da Constituição peruana
tos sociais. A cidade de Manaus, no Brasil, nais permitem reduzir o tempo necessário levou a um incremento nas pesquisas sobre produtos de 1979, é uma instituição técnica e autônoma respon-
é um importante pólo de desenvolvimento para o desenvolvimento de novos produtos, naturais vegetais. sável pelo inventário, pela pesquisa, pela avaliação e pelo
dessa área. ao mesmo tempo em que aumentam a pro-
DOS ARTIGOS controle dos recursos naturais da Amazônia peruana. É
babilidade de que estes produtos venham a SOBRE A AMAZÔNIA Assim, o desenvolvimento científico e tecnológico considerado pessoa jurídica de direito público interno e
As áreas de ciência e tecnologia baseiam- ser desenvolvidos de fato (Chadwick, 1990 PUBLICADOS na Amazônia pode optar entre dois caminhos a seguir: tem autonomia econômica e administrativa. Sediado na
se cada vez mais nos bens oferecidos pela citado por Belmont; Zevallos, 2004). NAS REVISTAS o da conservação dos serviços ecossistêmicos, da valo- cidade de Iquitos, está ligado ao poder executivo por meio
natureza e nos conhecimentos tradicionais CIENTÍFICAS rização dos conhecimentos tradicionais e da geração de do Ministério da Produção.
para desenvolver novos produtos alimentí- As universidades também são atores im- benefícios econômicos no médio e longo prazo; e o que
ARBITRADAS FORAM
cios, farmacêuticos e cosméticos. No entan- portantes no desenvolvimento da ciência e é alheio à conservação dos serviços ecossistêmicos e O Instituto Amazônico de Pesquisas Científicas (Sin-
to, as comunidades locais nem sempre par- tecnologia na Amazônia. Um dos temas que ESCRITOS EM visa apenas aos ganhos econômicos no curto prazo. chi), criado pela Lei 99 de 1993 como entidade científica
ticipam de forma equitativa na distribuição vêm sendo cada vez mais pesquisados é o INGLÊS. vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, possui auto-
dos benefícios derivados do aproveitamento grande número de espécies vegetais com Desenvolver o conhecimento científico sobre a nomia administrativa, personalidade jurídica e patrimônio
da biodiversidade e dos conhecimentos tra- propriedades medicinais. Essa linha de pes- Amazônia de modo a contribuir para melhorar as con- próprio. Sediado na cidade de Letícia, tem por objetivo a
dicionais. Segundo cálculos de M. J. Balik, quisa tem contado com o valioso apoio de dições de vida da população num contexto de desen- realização e divulgação de estudos e pesquisas científicos
a identificação etnobotânica realizada por grupos indígenas, que oferecem os seus co- volvimento sustentável é um desafio que há de ser de alto nível relacionados com a realidade biológica, social
membros das comunidades indígenas pode nhecimentos sobre as propriedades curativas encarado. Para promover a pesquisa básica e aplicada e ecológica da Amazônia colombiana.
ser de quatro a cinco vezes mais eficaz na das diversas espécies da flora. e o intercâmbio dos conhecimentos existentes, é pre-
detecção de compostos ativos para o de- ciso que exista maior cooperação. Entre as linhas de
senvolvimento de produtos farmacêuticos. Os últimos quinze anos viveram o res- pesquisa que necessitam ser desenvolvidas, destacam- Elaboração: Fernando Rodríguez Achung, IIAP.
Através de amostragem aleatória, identifi- surgimento do interesse por produtos natu- se: bioprospecção, cadeias produtivas (pesca e agroin-
cou-se um espécime com potencial comer- rais e suas possíveis aplicações no controle dústria), manejo florestal, recursos hídricos, saúde e
cial para cada dez mil espécies amostradas; de pragas agrícolas, bem como nos setores tecnologia de alimentos e modelagem ambiental.
100
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >101

GRÁFICO 2.6
Níveis da seca na região amazônica
30
MENOS DE nivel de agua (m)

1%
25

20

15
DA MASSA ANUAL
DO RIO AMAZONAS 10
PROVÉM DO DEGELO
5
NOS ANDES. Rio Negro em Manaus-anos secos

S O N D E F M A M J J A
HLT
2004-05
1925-26
1963-64
1982-83
1997-98

❱❱❱ As inundações atingem cada vez mais a Amazônia: a perda de cobertura florestal expõe o solo e
favorece o avanço da erosão e do assoreamento.
DANIEL BELTRA / GREENPEACE

118
HLT
116 2004-05

2.5|Mudanças curto prazo. O IPCC reafirmou que as principais mudan-


ças no regime climático são o aumento da temperatura
mundial, a elevação do nível dos oceanos e uma maior
Embora a Amazônia não tenha uma par-
ticipação importante na geração dos gases
de efeito estufa, responsáveis pelo aqueci-
114
112

CLIMÁTICASE freqüência dos eventos climáticos extremos. É possível mento global, a situação se inverte se levar- 110
constatar a ocorrência de alterações no clima de todo mos em consideração a emissão de gases 108
EVENTOSNATURAIS o nordeste da América do Sul, incluindo a região ama- decorrente de mudanças no uso do solo (o 106
zônica, no último século, seguindo essa tendência. No capítulo 4 detalha os possíveis impactos do 104
Às diversas forças motrizes que incidem sobre a Amazônia já apre- século XX, o recorde de temperatura média mensal foi desmatamento no clima da região amazôni- Rio Amazonas-Iquitos (nível de água)
102
sentadas neste capítulo, soma-se a pressão exercida pelas mu- superado em 0,5 a 0,8 °C (Pabón, 1995; Pabón et al., ca e do mundo em geral). Fonte: Marengo et al. (2007). S O N D E F M A M J J A
danças no clima mundial. A Amazônia tem um forte vínculo com a 1999; Quintana-Gómez, 1999), e na região amazônica
GRÁFICO 2.7
configuração e modificação do clima. Em primeiro lugar, a floresta registrou-se uma tendência de aquecimento de +0,63 A tendência para o aumento da seca e
Precipitações na região amazônica
age como um gigantesco consumidor de calor, absorvendo a me- °C em um período de 100 anos (Vitória et al., 1998). Di- do calor poderia ser reforçada pela morte da
Índice de precipitação fluvial no norte da Amazônia
tade da energia solar que chega até ela por meio da evaporação versos estudos confirmam o aumento das temperaturas, floresta úmida na Amazônia oriental, em con-
da água pela folhagem. Os efeitos da energia captada pela floresta todavia em diferentes magnitudes. seqüência da substituição da floresta por ve-
amazônica estendem-se pelo mundo por meio de ligações deno- getação de savana e do semi-árido. Segundo
minadas “teleconexões climáticas”, muitas das quais ainda se está Nobre e Oyama (2003), essa situação pode-
começando a compreender. Em segundo lugar, trata-se de uma rá levar à transformação de 60% do território
reserva ampla e relativamente delicada de carbono, que pode ser da Amazônia em savana ainda neste século.
liberado na atmosfera por meio do desmatamento, da seca e do O gráfico 2.6 ilustra as tendências do volume
fogo, contribuindo para o aumento de gases de efeito estufa. Em e nível de água dos rios Negro e Amazonas
terceiro lugar, a água que escoa das florestas amazônicas para o A seca e o calor possivelmente nos anos secos em comparação com a mé- 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990
oceano Atlântico constitui entre 15 e 20% da descarga total mun- dia, pondo em evidência seu impacto em
dial de água doce fluvial, volume talvez suficiente para influenciar se tornariam mais intensos com termos de diminuição do volume de água, e,
Índice de precipitação fluvial no sul da Amazônia

3
algumas das grandes correntes oceânicas, que são importantes portanto, na intensidade da seca.
reguladoras do sistema climático. (Nepstad, 2007).
a morte da floresta úmida na 2

1
Amazônia oriental e sua substituição As tendências de precipitação na Amazô-
0
A mudança do clima constitui uma ameaça para a Amazônia, nia não estão totalmente claras. Como se de-
com implicações de escala global. O Painel Intergovernamental so- por vegetação do tipo cerrado e preende do gráfico 2.7, a variação no nível de
-1

-2
bre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Chan- chuva ao longo de várias décadas apresentou
semi-árido, processo que poderia -3
ge, ou IPCC na sigla inglesa) salientou no seu último relatório que tendências opostas nas regiões norte e sul 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990
as mudanças climáticas já estão ocorrendo e são irreversíveis no atingir 60% do seu território. da bacia amazônica (Marengo; Bhatt; Cun- Fonte: Marengo (2004) TAC.
102
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >103

QUADRO 2.5
ningham, 2000). O período de 1950-1976 foi chuvoso
no norte da Amazônia, ficando mais seco a partir de 1977 AMAZÔNIA: REGULADORA DO CLIMA
(IPCC, 2001), o que sugere uma variabilidade climática,
mas não um padrão definido de chuvas. A Amazônia exerce uma grande influência no transporte
de calor e de vapor d´água para as regiões localizadas em
Por outro lado, as mudanças climáticas influenciam di- latitudes mais altas. Tem ainda um papel muito importante
retamente o derretimento das geleiras dos Andes. Mas, se- no seqüestro de carbono atmosférico, com o que contri-
gundo Carlos Nobre, mesmo que as geleiras desapareçam bui para a redução do aquecimento global.
totalmente devido ao aquecimento global, seu efeito na va-
zão do rio Amazonas será muito pequeno e possivelmen-
te imperceptível na foz. Algumas constatações do projeto Com o desmatamento, a floresta deixará de atuar como
Páramo Andino (Páramo Andino Project, 2007) corrobo- reguladora do clima. O aumento da temperatura e a
ram essa afirmação: especialistas andinos calcularam que diminuição do nível das precipitações nos meses secos
o degelo representa aproximadamente 7 bilhões de m3/ poderão significar a savanização da Amazônia. Segundo
ano, o que representaria menos de 1% da massa anual do Marengo et al. (2007), os mapas de futuros cenários
rio Amazonas, isso sem levar em consideração que parte climáticos gerados pelos diferentes modelos do IPCC
do degelo escoa para os rios da vertente do Pacífico. Os apontam para um aquecimento sistemático em diferentes
pequenos rios dos Andes serão, portanto, muito afetados, regiões da América do Sul, inclusive na Amazônia, muito
gerando impactos ecológicos na região e afetando o abas- embora diferentes modelos com concentrações de gases
tecimento de água e o aproveitamento hidrelétrico. de efeito estufa iguais indiquem projeções climáticas re-
gionais discrepantes, especialmente com relação à chuva.
Um dos eventos climáticos cujas freqüência e intensida-
de aumentarão será o El Niño Oscilação Sul (ENOS), o qual
é, por sua vez, uma força motriz que explica a variabilidade
climática na América Latina (IPCC, 2007). O ENOS está as- ESSAS AMEAÇAS IMPÕEM GRANDES
sociado a estiagens no nordeste brasileiro, no altiplano pe- DESAFIOS. PARA SUPERÁ-LOS,
ruano e boliviano e na costa pacífica da América Central, DEPENDEMOS DA CRIATIVIDADE E DA ❱❱❱ A alteração do ciclo de chuvas na Amazônia já está ocasionando secas intensas, que
bem como anomalias nas precipitações no sul do Brasil e INICIATIVA DO MEIO CIENTÍFICO E, NO têm um forte impacto na ictiofauna e nas características dos solos.
no noroeste do Peru (Horel; Cornejo-Garrido, 1986). Foi o QUE SE REFERE À TOMADA DE DECISÕES, DANIEL BELTRA / GREENPEACE

que aconteceu nos anos 1997-1998, quando a seca foi res- DA ESFERA POLÍTICA.
ponsável por incêndios devastadores no estado de Roraima, Os rios amazônicos cia negativamente muitos sistemas hídricos ra todos os anos, contribuindo assim para o
e, no ano de 2005, quando um El Niño moderado reduziu amazônicos; (iii) mudanças na composição aquecimento global. Os incêndios são parti-
as chuvas ao longo do rio Negro, um importante tributário Marengo et al. (2007) também indicam que as áreas mais têm um papel de nutrientes dos rios devido a alterações na cularmente prejudiciais por fragmentarem os
do rio Amazonas. Cabe dizer que, de acordo com estudo sensíveis da floresta estariam localizadas entre o Tocan- produtividade da floresta, as quais atingem hábitats e gerarem impactos mais extremos
recente de Marengo et al. (2008), a seca que assolou o tins e a Guiana, atravessando a região de Santarém, que
importante no ciclo os organismos aquáticos; e (iv) níveis mais (Nepstad, 2007; Laurance; Williamson, 2001;
Brasil em 2005 foi causada pelo aquecimento das águas do apresenta padrões de precipitação mais parecidos com os e balanço hídricos elevados de sedimentação e assoreamento Cochrane; Laurance, 2002).
oceano Atlântico, e não pelo El Niño. No entanto, é consenso do Cerrado. Essa Amazônia seca teria uma vegetação do dos leitos dos rios que nascem na base da
no meio científico que o evento El Niño será mais freqüente tipo savana e apresentaria taxas mais elevadas de evapo- da região. Mudanças cordilheira dos Andes. Estudo divulgado em fevereiro de 2008
e intenso por causa do aquecimento global. transpiração, fazendo com que seus solos tendessem a ser por uma equipe composta de cientistas de
mais secos durante os meses de estiagem. A região ficaria
nesse regime Os rios da Amazônia exercem um impor- várias nacionalidades, da Universidade de
Todas essas mudanças ameaçam os ecossistemas muito mais vulnerável aos incêndios florestais, o principal afetam o hábitat e tante papel no ciclo e no balanço hídrico da re- Oxford, do Instituto Potsdam, entre outros,
terrestre e aquático da Amazônia. Esse último será parti- agente de conversão da floresta em savana. gião. As mudanças nesse regime (quantidade, concluiu que a floresta amazônica é a segun-
cularmente atingido pelo aumento da temperatura, que o comportamento qualidade e temporalidade) afetam o hábitat e da região mais vulnerável do planeta, depois
resulta em maior evaporação da água superficial e maior Essas ameaças representam um grande desafio. Enfrentá- o comportamento de muitas plantas e espécies do Ártico. Assim, em razão do desmatamento
transpiração das plantas, produzindo, assim, um ciclo hi- las demandará muita criatividade e iniciativa do meio
de muitas plantas de animais; algumas delas já estão apresentan- acelerado que vem causando a savanização
drológico mais intenso. Caso de fato ocorra uma redução científico, bem como da esfera política, no que se refere à e espécies de do sinais de adaptação às mudanças. gradual do seu território, a Amazônia, além de
no nível de precipitação durante a estação da seca, os tomada de decisões, exigindo grandes articulações multi- ser gravemente afetada pelas mudanças cli-
impactos no regime hidrológico da Amazônia serão mais institucionais e interdisciplinares para encontrar soluções animais. Outro efeito das secas ocorridas na Ama- máticas globais, poderá fechar um círculo vi-
intensos (Nijssen et al. , 2001). tecnicamente inovadoras e comprovadamente sustentáveis. zônia em razão das mudanças climáticas foi cioso no comportamento do clima em escala
o aumento na freqüência, e possivelmente global. As sociedades amazônicas reconhe-
As mudanças climáticas ameaçam os ecossistemas na intensidade, dos incêndios florestais (ver cem que as alterações climáticas terão como
aquáticos amazônicos de várias formas, por exemplo: Elaboração: Leonardo de Sá (INPE/MPEG/MCT). mais detalhes na seção 3.2). O desmatamen- conseqüências uma piora dos problemas de
(i) aquecimento da temperatura das águas, o que afe- to e os incêndios florestais são responsáveis saúde da população e a elevação os níveis de
ta algumas espécies de peixes e animais; (ii) redução pelo lançamento de centenas de milhões pobreza da região. Assim, é imperioso que as
da precipitação durante os meses secos, o que influen- de toneladas de gás carbônico na atmosfe- providências pertinentes sejam tomadas.
104
CAPÍTULO2
Dinâmicas na Amazônia >105

O PIRARUCU OU PAICHE (ARAPAIMA GIGAS)


É O MAIOR PEIXE DOS RIOS AMAZÔNICOS.
DANIEL SILVA / EL COMERCIO
A oferta hídrica da bacia amazônica é resultado da combinação de seis Principais rios do mundo. Não há RIO AMAZONAS, com 6.992,06 km
Os cinco principais contaminantes.
unanimidade a respeito da extensão dos Garimpo de ouro (lavagem da areia com o
afluentes que nascem na Cordilheira dos Andes, captando as águas principais rios do mundo. A dificuldade de uso de bombas e dragas, nos rios, e dos
das geleiras e das chuvas, e de outros seis que se originam na planície medir seu comprimento total decorre do
RIO NILO, com 6.671 km
veios), com o emprego de mercúrio como
amazônica. Seus doze principais afluentes são responsáveis pela grande tamanho das bacias hidrográficas e do RIO YANGTZÉ, com 6.380 km método de amalgamação.
fato de que os rios correm, em parte, por Exploração de petróleo.
captação total de 12 mil a 16 mil km3/ano de água líquida. territórios muito acidentados, tornando RIO MISSOURI, com 6.270 km Culturas ilícitas.
bastante complexa a tarefa de localizar suas Culturas industriais que usam agroquímicos.
nascentes. RIO AMARELO OU HUANG HE, com 5.464 km Resíduos urbanos.

Agentes químicos. Aumentam as


concentrações de nitratos, o que propicia
CONTAMINAÇÃO POR HIDROCARBONETOS Águas residuais. Volume de PROBLEMÁTICA o crescimento de algas e a eutrofização de LEITO DOS RIOS E TIPOS DE ÁGUA
salmoura produzida pela exploração lagos e várzeas, afetando os demais
Quando os hidrocarbonetos, os rejeitos da mineração ou outros dejetos Extração de ouro. Para se Cursos e corpos d'água organizados sob diferentes condições
de petróleo na Amazônia. organismos dos ecossistemas aquáticos.
contaminantes entram em contato com o solo, inicia-se um processo de evaporação obter um grama de ouro, são geológicas, topográficas e geomorfológicas, gerando ambientes
e percolação que altera a troca gasosa da cobertura vegetal com a atmosfera. utilizados de um a três gramas aquáticos diferenciados.
Produção de salmoura
(barris/ano) de mercúrio, além de cianureto
e detergentes. Isso significa que
1 Na superfície, animais
invertebrados, como 7 Os peixes contaminados
afetam a saúde dos
EQUADOR 496.030.437 são lançados cerca de 24 kg de
mercúrio por quilômetro
Produção de cocaína. A produção de
pasta-base de cocaína utiliza em média duas
aranhas e centopéias, e animais e dos seres 41.883.750 toneladas de precursores químicos (ácido
vertebrados, como humanos que se
BRASIL quadrado de rio.
mamíferos ou répteis, alimentam deles. sulfúrico, cal, gasolina, querosene, permanganato Águas brancas
conseguem fugir com PERU 41.251.537 de potássio e amônia) por hectare de coca
Nascem nas regiões mais antigas da bacia (escudos
mais facilidade. Água potável. Só 46% da processada, elementos tóxicos que são
do Pré-Cambriano e Paleozóico). Como seu nome
COLÔMBIA 11.529.465 população têm acesso a esse despejados nos rios amazônicos após serem
indica, trata-se de sistemas com alta transparência,
serviço. A água para consumo usados.
baixo pH e reduzida produtividade, pelas
2 Os seres microscópicos
que participam do
humano está contaminada em
grande medida, porque quase
características de seus solos, em geral arenosos.
processo de formação e Bacia de drenagem. Porção do
território de cada país cujas águas 70% dos aterros sanitários são a
oxigenação do solo
morrem instantaneamente. céu aberto. Estima-se que os rios Corte. O desmatamento é uma
escoam para a bacia amazônica.
amazônicos recebam 1,7 milhões ameaça cada vez maior à Águas brancas Várzeas
de toneladas de dejetos e 600 l/s disponibilidade de água, uma vez São águas bastante produtivas e com muitos Corpos d'água formados pelas cheias dos rios
3 No rio, a primeira
comunidade biológica a PERU 66,5 %
de lixiviados. que interfere no ciclo hidrológico. nutrientes. Possuem um pH neutro, entre 6,2 e 7.
Sua turbidez se deve à carga de sedimentos
na planície amazônica, dotados de uma grande
riqueza em fauna e flora aquática. Constituem
ser afetada é a de o meio de vida para uma importante parte da
inorgânicos, argilas illita e montmorillonita,
plâncton, que morre por BOLÍVIA 66 % população ribeirinha amazônica.
asfixia. transportadas dos Andes para as planícies aluviais.
BRASIL 57,7 % Cobertura do serviço de água ASSOREAMENTO
4 Morrem também as potável e saneamento (países andino-amazônicos) Em razão do intenso desmatamento, principalmente nas vertentes
plantas responsáveis pela EQUADOR 46 % do piemonte dos Andes, o assoreamento está aumentando nos rios
produção de alimentos e
oxigênio para os demais
Rede de água Saneamento da planície amazônica, favorecendo transbordamentos e a
animais. COLÔMBIA 38,5 %
45,2% 24,4%
alteração do curso e da dinâmica dos rios. Aguas negras
BOLÍVIA
Meandros Nascem na planície amazônica. Apresentam baixos
6 Nos peixes, os
contaminantes
COLÔMBIA 33,5% 26,0% Esgoto. A maior parte das áreas
habitadas da Amazônia não conta com
Escassez de peixes. Redução da
quantidade de algumas espécies de peixes.
Curvas pronunciadas na trajetória dos rios
quando estes chegam à planície amazônica.
valores de pH, maior transparência e alta concentração
de ácidos orgânicos, como os húmicos, que lhes
bloqueiam as vias Apresentam formas e desenvolvimento conferem essa cor. Tais condições fazem com que os
respiratórias, e os que EQUADOR 29,0% 21,1% rede de esgoto. O esgoto é lançado no rio Em determinadas regiões, a população O desmatamento
conseguem se salvar sem tratamento, tornando-se uma fonte enfrentou fome por esse motivo. A morte dos
produz freqüentes variados, mas geralmente se caracterizam pela ecossistemas de águas pretas tenham menor
desbarrancamentos na erosão das margens côncavas e acumulação produtividade. As áreas alagadas por esses rios são
apresentam altos níveis 40,3% 33,7%
5 Nos mamíferos
aquáticos, o petróleo de contaminação.
PERU de contaminação para a fauna, a flora e os
seres humanos.
peixes por contaminação e a sua posterior
decomposição causam doenças. A atividade
época das chuvas.
de sedimentos nas margens convexas. conhecidas no Brasil como igarapés.
destrói sua camada
natural de isolamento
VENEZUELA 20,0% 15,0% pesqueira não corre sério risco, mas a Rios rápidos
térmico. Também afeta exploração indiscriminada de certos recursos Na sua breve passagem pelo setor da
ocasiona a diminuição da oferta natural de Isso contribui para o
sua capacidade de assoreamento dos rios cordilheira, os rios correm encaixados e
flutuação, fazendo com peixes. quando estes atingem a turbulentos, em conseqüência das condições
que morram afogados.
Pesca na Amazônia PIRARUCU planície amazônica. topográficas e geológicas predominantes.
A pesca é a principal fonte de proteína das populações
Saltos e cachoeiras
locais da Amazônia, sendo mais importante do que a caça. São formações geológicas presentes no curso
NAVEGAÇÃO FILHOTE
dos rios quando estes atravessam terrenos
Apesar de ser a via de comunicação natural mais importante da América do Sul, o tráfego internacional de embarcações no rio Amazonas rochosos resistentes à erosão das águas.
Consumo diário. Encontram-se nos contrafortes dos Andes e Santarém.
é modesto, devido ao reduzido número de núcleos comerciais e industriais nas suas margens e à falta de infra-estrutura de navegação. (g/pessoa/dia) Conta com um porto privado, que
no Escudo das Guianas.
CACHARA dispõe de silo gigante capaz de
Iquitos e Yurimáguas. Letícia. Tabatinga. Médio Amazonas 369 armazenar 60 mil toneladas de grãos. A Belém.
São portos do tipo flutuantes. Contam Situa-se na margem esquerda do rio Porto com grande atividade Manaus. Situada às margens do rio partir daqui, a soja é exportada para o Seu porto fluvial é a porta de entrada para a
com infra-estrutura de atracamento, Amazonas. Por ser uma cidade de comercial, localizado na fronteira Baixo Amazonas 490-600 TUCUNARÉ Negro, principal afluente da margem mercado europeu. Está ligada com o sul Amazônia brasileira e é considerado o mais dinâmico
armazenagem e equipamento fronteira, possui características com a Colômbia e o Peru, a 1.600 esquerda do Amazonas . Por suas da Amazônia por meio da rodovia do norte do Brasil. Belém é o ponto de partida para
necessário para manipulação de carga. especiais para o comércio fluvial. km acima de Manaus. Alto Amazonas 500-800 docas passa boa parte do comércio BR-163 Cuiabá–Santarém. visitar praias e locais ecoturísticos.
TAMBAQUI fluvial brasileiro.
Alto e médio Putumayo 246
IQUITOS LETICIA 0,5 m 1 m 1,5 m 2 m MANAOS SANTARÉM BELÉM
TABATINGA
370 km 1.461 km 427 km 321 km
>107

ECOSSISTEMAS AQUÁTICOS
RECURSOS HÍDRICOS E

AGROPRODUTIVOS
BIODIVERSIDADE

FLORESTAS

ASSENTAMENTOS
SISTEMAS

HUMANOS
3.2 3.3
3.1 3.4
3.5

A
En esta sección se identifican los factores

AMAZONIA
que afectan la situación ambiental en la región.

HOJE
108
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >109

AUTORAS:
DOLORS ARMENTERAS - Instituto Alexander Von Humboldt – Colômbia
MÓNICA MORALES - Instituto Alexander Von Humboldt – Colômbia

CO-AUTORES:
MARLÚCIA BONIFÁCIO - Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) – Brasil
MARIA LUÍSA DEL RIO - Ministério do Meio Ambiente – Peru
CAMILO CADENA - Instituto Alexander Von Humboldt – Colômbia
ELSA GALARZA - Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP) – Peru
ROSÁRIO GÓMEZ - Centro de Pesquisa da Universidad del Pacífico (CIUP) – Peru

3.1|Biodiversidade A biodiversidade amazônica é


A Amazônia é uma região com extraordinária biodiversidade de impor-
sinônimo de abundância e de
tância mundial, tanto em termos de espécies e ecossistemas como de complexos ecossistemas que se
variações genéticas, com grande potencial econômico a ser explorado.
Evitar que essa diversidade biológica diminua em decorrência da per- desenvolveram sobre um vasto
da e transformação de habitats e ecossistemas, da extinção de espé-
cies, da redução da diversidade genética e da introdução de espécies
território.
exóticas, entre outras causas, é um dos maiores desafios ambientais
enfrentados pelos países que compõem a região.

Apesar de sua grande heterogeneidade, de um modo geral, a Ama-


zônia apresenta muitas semelhanças nos padrões de biodiversidade,
riqueza de espécies e endemismo, o que também se verifica nas
causas e nos impactos das alterações ambientais, bem como em
oportunidades de proteção e aproveitamento.

BIODIVERSIDADE AMAZÔNICA

A biodiversidade amazônica é sinônimo de abundantes e complexos


ecossistemas, que se desenvolveram em um vasto território sem ter
seus padrões de funcionamento afetados por fronteiras geopolíticas.
A Amazônia contribui com diversos produtos de grande importância
SEBASTIÁN CASTAÑEDA/ EL COMERCIO

para o mundo (p.ex., a borracha e o cacau). Contudo, evidencia-se na

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
região um processo de degradação da biodiversidade compreendida
não só como um conjunto de ecossistemas e espécies, mas também
como diversidade genética e cultural.

Os povos indígenas da região são detentores, usuários e pro-


tetores da diversidade genética e de conhecimentos tradicionais
A CRIAÇÃO DE TRACAJÁ PERMITE O de valor ancestral. Alguns estudos indicam que os povos indígenas ❱❱❱ Biodiversidade exótica e de rara
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DE UMA ATIVIDADE da Amazônia utilizam aproximadamente 1.600 espécies de plantas beleza que surpreende o mundo.
PRODUTIVA QUE BENEFICIA A POPULAÇÃO. medicinais para curar diversos males, número este possivelmente
maior em razão do alto grau de endemismo das plantas amazônicas.
110
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >111

TABELA 3.1 TABELA 3.2


Tipos de florestas inundáveis na Amazônia Número de espécies por grupos reportados nos países da Amazônia

TIPO DE PLANTAS MAMÍFEROS AVES RÉPTEIS ANFÍBIOS


TIPO DE CICLO TIPO DE ÁGUA TIPO DE FLORESTA INUNDÁVEL PAÍS
INUNDAÇÃO TOTAL / AMAZÔNIA TOTAL / AMAZÔNIA TOTAL / AMAZÔNIA TOTAL / AMAZÔNIA TOTAL / AMAZÔNIA
Branca Várzea estacional
Anuais e regulares dos rios BOLÍVIA 20.000 / n.d. 398 / n.d. 1.400 / n.d. 266 / n.d. 204 / n.d.
Negra e cristalina Igapó estacional
BRASIL 55.000 / 30.000 428 / 311 1.622 / 1.300 684 / 273 814 / 232
Água salgada Manguezal
SAZONAL COLÔMBIA 45.000 / 5.950 456 / 85 1.875 / 868 520 / 147 733 / n.d.
Movimentos da maré
Recirculação de água doce Várzea de maré EQUADOR 15.855 / 6249 368 / 197 1.644 / 773 390 / 165 420 / 167
GUIANA 8.000 198 728 137 105
Eventos torrenciais (chuvas) Florestas de planos de inundação
PERU 35.000 / n.d. 513 / 293 1.800 / 806 375 / 180 332 / 262
Branca Florestas de pântanos permanentes SURINAME 4.500 200 670 131 99
PERMANENTE
Negra e cristalina Igapó permanente VENEZUELA 21.000 / n.d. 305 / n.d. 1.296 / n.d. 246 / n.d. 183 / n.d.
Fonte: Prance (1979).
n.d.: Não disponível para os países cujos territórios se estendem além da Amazônia.

Fontes: Castaño (1993); Rueda-Almonacid, Lynch e Amezquita (2004); Mojica et al. (2002); Ecociência, Ministério do Ambiente (2005); Ibisch e Mérida (2004); Funda-
ção Amigos da Natureza (FAN, s.d). Brasil: Sociedade Brasileira de Herpetologia. Disponível em: <http://www.SBherpetología.org.br> (para o total do Brasil), Ávila-Pires,
Hoogmoed e Vitt (2007). Peru: Sistema de Informações sobre a Diversidade Biológica e Ambiental da Amazônia Peruana (Siamazonia). Disponível em: <http://www.
A região amazônica Infelizmente, grande parte desses conheci- derada uma área relativamente homogênea, siamazonia.org.pe>.
mentos etnobotânicos está se perdendo de- estudos recentes revelam uma heterogenei-
é fundamental vido à aculturação ou ao desaparecimento dade espacial e diferenças florísticas em locais
de alguns povos indígenas (Álvarez, 2005). que anteriormente se acreditava semelhantes
para a manutenção (Tuomisto; Ruokolainen, 1997). tação (agricultura ou coleta de produtos natu- Perigo de Extinção (CITES) em todos os
do equilíbrio PADRÕES DA rais), na produção de artesanato e na medicina países amazônicos.
BIODIVERSIDADE As explicações sobre a grande diversida- tradicional. Existem mais de 2.000 espécies
climático global e de de espécies e padrões biogeográficos da de plantas identificadas como de utilidade na A alta biodiversidade da região também
De um modo geral, os ecossistemas seguem Amazônia baseiam-se em diferentes fatores, alimentação e na medicina, bem como na pro- favoreceu o desenvolvimento de atividades
a conservação e o um padrão latitudinal no planeta: os ecossis- como climáticos e históricos (Simpson; Ha- dução de óleos, graxas, ceras, etc. (Secretaria econômicas como aqüicultura, ecoturismo,
uso da diversidade temas tropicais são mais ricos em espécies ffer, 1978; Josse et al., 2007), e nas dife- Pro Tempore do Tratado de Cooperação Ama- zootecnia, agroindústria, caça ou extração
que os temperados frios de altas latitudes renças geológicas e geomorfológicas para zônica, 1995). A pesca é a principal fonte de florestal (de espécies madeireiras e não ma-
biológica, cultural e (Walter, 1985; Gaston; Williams, 1996). Ob- a heterogeneidade espacial, que originaram proteínas das populações locais da Amazônia, deireiras) (ver seções 3.2 e 3.4).
serva-se um padrão semelhante em níveis ambientes com uma alta diversidade no que mais importante que a caça.
dos conhecimentos taxonômicos mais altos (gêneros, famílias) se refere a sistemas de drenagem e à quali- A característica mais marcante dessa
tradicionais. (Blackburn; Gastón, 1996), atribuído tanto a dade do solo, responsáveis por importantes A caça e pesca da fauna silvestre ama- região é a sua floresta (ver seção 3.2). Na
fatores físicos (por exemplo, clima, geologia, diferenças na composição e estrutura dos zônica tem como principal objetivo servir Amazônia, há cinco grandes categorias
edafologia, barreiras geográficas, etc.) como ecossistemas. Josse et al. (2007) destacam de alimento para as populações locais; sua de vegetação (Kalliola; Puhakka; Danjoy,
à capacidade das espécies de ocupar e se a importância de se aplicar critérios especí- utilização na medicina ou na produção de 1993; Dominguez, 1987; Prance, 1979,
adaptar às condições abióticas e bióticas do ficos de acordo com as diferentes zonas, so- artesanato tradicional é menos freqüente. 1985; Huber, 1981; Sierra, 1999):
meio ambiente. bretudo quando estas apresentam grandes Assim, grandes mamíferos, por exemplo,

MUSUK NOLTE/ EL COMERCIO


diferenças entre si, como ocorre na Amazô- porcos-do-mato, antas, roedores, veados ❱❱❱ Florestas inundáveis: divididas em sete sub-
A Amazônia é considerada uma das áreas nia. Por exemplo, indicam que, no caso da e primatas, bem como tartarugas aquáti- categorias segundo o regime de inundação e o
mais ricas do mundo em termos de diversida- zona montanhosa, os pisos altitudinais e o cas e terrestres, representam a principal tipo de água (Prance, 1979).
de biológica – estima-se que cerca de 10% bioclima são critérios essenciais, ao passo fonte de carne de silvestre (Secretaria Pro
do total das espécies de plantas se encontram que na planície aluvial, topografia, hidrogra- Tempore do Tratado de Cooperação Ama- ❱❱❱ Florestas de terra firme: incluem as flores-
nessa região (Prance et al., 2000). Além disso, fia e dinâmica das cheias são fatores que zônica, 1995). Outra destinação da fau- tas de campina (campinarana) e os comple-
a região é fundamental para a manutenção explicam a distribuição espacial das comu- na amazônica é a captura para servir de xos de florestas altas (piemonte, serra). Os ricos ecossistemas
do equilíbrio climático global, a conservação nidades vegetais. animais de estimação, atividade comercial aquáticos oferecem aos
e uso da diversidade biológica e cultural e a limitada e regida pelas normas da Conven- ❱❱❱ Tepuis e pantepuis habitantes da Amazônia
preservação dos conhecimentos tradicionais. A grande diversidade de espécies da flora ção sobre o Comércio Internacional das muitas espécies de peixes
Embora por muitos anos tenha sido consi- e fauna amazônica é aproveitada na alimen- Espécies da Fauna e Flora Selvagens em ❱❱❱ Savanas montanhosas para sua alimentação.
112
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >113

BIODIVERSIDADE:
grande variedade de
espécies de animais e
plantas/endemismos/
gradiente de diversidade

❱❱❱ Savanas secas e úmidas: encontram-se O Brasil, além de ter a maior extensão ter-
junto a diversos tipos de vegetação aquática ritorial do continente, registra o maior núme-
e de brejo ao longo do sistema fluvial da ba- ro de espécies de plantas, mamíferos, aves,
cia amazônica. répteis e anfíbios dos oito países em questão,
com algo em torno de 58.000 espécies. Em
As plantas apresentam de leste a oeste termos de riqueza biológica, atrás do Brasil
um claro gradiente de diversidade, e a maior vêm a Colômbia, com cerca de 49.000 es-
abundância de espécies encontra-se nos pécies, o Peru, com 38.020, e a Bolívia, com
contrafortes dos Andes (Gentry, 1988). O 22.268, considerando-se os cinco grupos
mesmo pode ser observado com relação às anteriores (tabela 3.2).
espécies de animais (Brown, 1999). Gentry
(1988) atribui esse fenômeno à presença de Na Amazônia brasileira concentram-se
solos mais férteis, à maior precipitação pluvial 54% das espécies de plantas, 73% das de
e ao menor grau de sazonalidade dos climas mamíferos e 80% das de aves existentes
do alto Amazonas. no território nacional. O Peru se destaca
pela concentração de espécies de répteis
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

Além disso, muitas das espécies de plan- (48%) e anfíbios (79%) com relação ao
tas podem ser especialistas edáficas, e sua número total de espécies no território na-
distribuição geográfica estaria correlacionada cional, para os grupos anteriormente refe-
à distribuição de tipos específicos de vegeta- ridos. A Amazônia equatoriana concentra
ção, como ocorre na região amazônica (De 53,3% do total nacional de espécies de
Oliveira; Daly, 1999). No entanto, o que tam- mamíferos; e a colombiana, 46% das aves
bém acontece com freqüência é uma área registradas em seu território nacional.
com um mesmo tipo de vegetação, ou pouca
variedade, possuir espécies com padrões ge- Dinerstein (1995) destaca o arco ociden- pteridófitas (levando em conta apenas as No caso do Equador, o instituto Ecociência
ográficos de distribuição totalmente diferen- tal da Amazônia, em particular as áreas próxi- partes baixas), 311 de mamíferos, 1.300 de e o Ministério do Ambiente (2005) distinguem Mais de 30.000 plantas,
muitas delas espécies
tes, atribuídos geralmente a eventos históri- mas ao piemonte dos Andes, como uma zona OS POVOS aves, mais de 163 de anfíbios e 1.800 de dois grandes ecossistemas na Amazônia: a
arbóreas, estão
cos e à divergência evolutiva das populações de conhecida e extraordinária diversidade de AMAZÔNICOS peixes continentais. floresta úmida amazônica e a floresta inundá-
presentes na Amazônia
(Prance, 1982; De Oliveira; Daly, 1999). espécies e endemismos. Em todo caso, é vel amazônica. No primeiro, são conhecidas
amplamente aceito que a flora e fauna ama-
UTILIZAM Na Amazônia colombiana, o Instituto 8.042 espécies, divididas em plantas (6.249),
brasileira.

DIVERSIDADE DE ESPÉCIES zônica não só não foram documentadas em APROXIMADAMENTE Sinchi, com base em dados do Herbário aves (773), peixes (491), mamíferos (197),

1.600
sua totalidade, como que tampouco há uma Amazônico Colombiano (COAH), relata anfíbios (167) e répteis (165). No segundo,
Seis dos oito países que integram a OTCA contagem total para a região, e que novas um total de 214 famílias botânicas com menos rico em biodiversidade, há um total
pertencem ao grupo de países megadiver- espécies são incorporadas constantemente 5.950 espécies, das quais 226 são plantas de 1.060 espécies, representadas por peixes
sos. Apenas para citar um grupo biológico, aos inventários da fauna e flora amazônicas não-vasculares e 5.274 vasculares (Institu- (425), aves (366), répteis (139), anfíbios (83)
ESPÉCIES DE PLANTAS
Brasil, Colômbia e Peru abrigam um terço (Da Silva; Rylands; Da Fonseca, 2005; Prance to de Hidrologia, Meteorologia e Estudos e mamíferos (47). Por último, cabe ressaltar
de todas as plantas vasculares conhecidas et al., 2000). MEDICINAIS NA Ambientais [Ideam], 2004); e o Sistema que muitas dessas espécies provavelmente
no planeta (Mittermeier et al., 1999; Peru: CURA DE DIVERSAS de Informações sobre a Biodiversidade da ocorrem em ambos os ecossistemas.
Sistema de Informações sobre a Diversidade No caso da Amazônia brasileira, Lewin- DOENÇAS. Colômbia aponta um total de 868 espécies
Biológica e Ambiental da Amazônia Peruana sohn (2005) afirma que há 30.000 espé- de aves, 140 de anfíbios, 85 de mamíferos O Peru detém o recorde mundial de nú-
[Siamazonia], 2007). cies de plantas superiores, 300 de plantas e 147 de répteis. mero de espécies de borboletas (4.200), e
114
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >115

tabela 3.3
Áreas protegidas restritas na bacia amazônica

SUPERFÍCIE PROTEGIDA
CATEGORIA N°
(HECTARES)
Parques nacionais 9 2.865.656
Reservas nacionais 6 3.990.900
Estações biológicas 1 135.000
BOLÍVIA
Refúgios da vida silvestre 3 270.000
Santuários 1 1.500
TOTAL 20 7.263.056

Parques nacionais 21 19.101.420


Reservas biológicas 9 3.638.184
Estações ecológicas 15 6.765.915
BRASIL Estações ecológicas estaduais 8 4.590.225
Parques estaduais 42 6.623..239
Reservas biológicas estaduais 5 1.284.513
TOTAL 100 42.003.496

Parques nacionais naturais 11 4.904.768


Reservas nacionais naturais 2 1.947.500
COLÔMBIA
❱❱❱ Os lepidópteros (borboletas), de múltiplas combinações de cores, Santuários de fauna e flora 1 8
encontram-se entre os insetos mais belos e variados da Amazônia. TOTAL 14 6.852.276
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

Parques nacionais 3 1.098.435


contabiliza 20% das espécies de aves do A diversidade biológica aquática da Ama- Reservas ecológicas 1 403.103
planeta (Peru: Sistema de Informações so- zônia também é muito rica e, do mesmo EQUADOR Reserva de produção faunística 1 655.781

4.200
bre a Diversidade Biológica e Ambiental da modo que a química de suas águas, diversa Reserva biológica 1 4.613
Amazônia Peruana [Siamazonia] disponível e complexa. Diferentes estudos reportam TOTAL 6 2.161.932
em: <ht tp://w w w.siamazonia.org.pe>; haver em torno de 3.000 espécies de algas
Parques nacionais 2 7.870.000
Brack, 2004). Parte dessa riqueza ficou na região (Ehrenberg, 1843; Forsberg et al., GUIANA
ESPÉCIES DE evidenciada no Projeto Binacional Peru- 1993; Putz; Junk, 1997; Sant’anna; Martins,
TOTAL 2 7.870.000
BORBOLETAS Equador intitulado “Paz e Conservação da 1982; Scott; Gronblad; Croasdale, 1965; Parques nacionais 9 7.467243
FORAM Biodiversidade”, apoiado pela Conservation Thomasson, 1971; Uherkovich, 1976, 1984; Reservas nacionais 3 2.412.759
REGISTRADAS NO International (Peru: Instituto Nacional de Uherkovich; Rai, 1979; Uherkovich; Franken, PERU Santuários nacionais 2 131.609
Recursos Naturais [Inrena] – Conservation 1980). Em contraste com essa riqueza, a Santuário histórico 1 32.592
PERU, NÚMERO
International, 1997), que, em apenas três densidade de microalgas é muito baixa, o
CONSIDERADO TOTAL 15 10.044.203
semanas, coletou 800 espécies vegetais que se explica pela reduzida mineralização
RECORDE pertencentes a 94 famílias na Cordilheira das águas amazônicas. Parques nacionais 1 8.400
MUNDIAL. do Condor (departamento de Amazonas), SURINAME Reservas naturais 5 544.170
muitas delas desconhecidas da ciência. As plantas aquáticas (macrófitas) são as de TOTAL 6 552.570
Uma das famílias que se destacou foi a das maior produção primária anual e representam
orquídeas, com 26 espécies. Entretanto, o 65% do total da rede alimentar aquática, se- Parques nacionais 1 1.360.000
projeto também revelou que nessa área de guidas pelas florestas inundadas, com 28%. VENEZUELA Monumentos naturais 4 300.015
grande diversidade de flora há muitas es- Por outro lado, em termos de biomassa, as flo- TOTAL 5 1.660.015
pécies de animais ameaçados de extinção, restas ocupam o primeiro lugar, devido a suas
como o macaco-aranha (Ateles belzebuth), grandes árvores, e são seguidas por perifiton e TOTAL DA BACIA 168 78.407.518
o urso-de-óculos (Tremarctos ornatus), a fitoplâncton, com 5% e 2%, respectivamente
lontra (Lontra longicaudis), entre outros. (Barthem; Goulding, 2007).
Fonte: Adaptado e atualizado da Iniciativa Amazônica, com base nas fontes originais seguintes: Tratado de Cooperação Amazônica (TCA) – Comissão Especial do Meio
No lado equatoriano, foram encontradas Ambiente para a Amazônia. Brasil: Ministério do Meio Ambiente (2008). Colômbia: Unidade de Parques Nacionais Naturais (UAESPNN). Peru: Instituto Nacional de
2.030 espécies de plantas, 613 de aves, Na Amazônia, foram identificadas 2.500 Recursos Naturais (Inrena) (2007a).

56 de sapos e rãs, etc. espécies de peixes, número maior que o re-


116
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >117

ramente em território brasileiro; os demais Quadro 3.1


endemismos também ocupam áreas nos ÁREAS MANEJADAS NA AMAZÔNIA
outros países amazônicos.
Este mapa inclui “Áreas de Conservação”
Tais áreas variam consideravelmente em e outras áreas manejadas que contribuem,
tamanho nos oito países estudados, bem ao menos em parte, para a conservação
como no que se refere à perda, degradação da biodiversidade. As “Áreas de Conser-
e fragmentação de hábitat em decorrência vação” são aquelas cuja principal
do desmatamento, da pecuária, de cultivos função é a proteção e a manutenção
ilícitos e, principalmente, da extração de da biodiversidade, bem como dos

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
madeira (Gascon et al., 2001; Sierra, 1999; recursos naturais e culturais associa-
Armenteras et al., 2006). Esses processos dos. Além disso, essas áreas são
não estão distribuídos de forma uniforme manejadas de acordo com instrumen-
entre essas oito grandes áreas. As de Ron- tos jurídicos e estão em conformida-
dônia e Xingu, por exemplo, perderam en- de com as categorias I – VI da UICN.
tre 10% e 50% de sua cobertura florestal
original. A de Belém representa um caso Estão representadas no mapa as seguin-
extremo, onde resta menos de um terço tes áreas, por país:
gistrado no oceano Atlântico. Sabe-se tam- da floresta original. Napo, Inambari, Guiana
Tartarugas aquáticas e bém que a maior parte da biomassa pesquei- e Tapajós, por outro lado, perderam menos ❱❱❱ Bolívia: Áreas de Conservação: Parque
terrestres ocorrem em ra, em particular a dos peixes detritófagos de 10% de suas florestas (Da Silva; Rylan- Nacional, Reservas da Vida Silvestre e Área
abundância nos rios e nas
(que se alimentam de matéria orgânica de- ds; Da Fonseca, 2005). Natural de Manejo Integrado (inclui as Áreas
lagoas da Amazônia, mas
seu hábitat está cada vez
composta), está relacionada à produtividade Protegidas de Cotapata, Aguaragüe e Iñao,
mais ameaçado. primária de lagoas e áreas inundáveis (Arau- Alguns estudos binacionais fornecem que ainda não contam com Planos de
jo-Lima et al., 1986; Forsberg et al., 1993). exemplos das especificidades dos ende- Manejo e cuja gestão se baseia em Planos
mismos na Amazônia. Por exemplo, o pro- Operacionais Anuais); outras áreas: Terras
Entre os peixes, destaca-se o pirarucu jeto binacional Equador-Peru, mencionado Indígenas (inclui áreas reivindicadas). Amazônia maior Áreas de conservação
(Arapaima gigas), que mede mais de 2,5 anteriormente, concluiu que a Cordilheira Amazônia menor Outras áreas manejadas

214
m e chega a pesar 200 quilos. Nos brejos e do Condor apresenta um alto nível de en- ❱❱❱ Brasil: Áreas de Conservação: Parques Divisa nacional
nas lagoas de águas tranqüilas vivem diver- demismo devido à sua proximidade com Nacionais, Reservas Biológicas, Estações
sos tipos de cobras, como a sucuri (Eunectes a região conhecida como “depressão de Ecológicas, Parques Estaduais, Estações
murinus), e de jacarés (Alligatoridae). A tarta- Huancabamba” ou passagem de Porculla, Ecológicas Estaduais e Reservas Biológicas
FAMÍLIAS Fonte: Produção original do GEO
ruga aquática conhecida como tartaruga-da- que é o limite de distribuição de muitas Estaduais. Outras áreas: Terras Indígenas. ❱❱❱ Peru: Áreas de Conservação: Parques Amazônia, com a colaboração técnica
BOTÂNICAS amazônia (Podocnemis expanda), a maior espécies da flora das regiões norte e cen- Nacionais, Reservas Nacionais, Santuários do UNEP/GRID – Sioux Falls e com
COM 5.950 de água doce do mundo, que chega a pesar tral dos Andes (Peru: Inrena – Conservation ❱❱❱ Colômbia: Áreas de Conservação: Nacionais, Santuários Históricos.
dados de Conservation International
(para a Bolívia); IBGE e MMA (para
ESPÉCIES FORAM até 45 kg, e o tracajá (Podocnernis unifilis), International, 1997); e o estudo binacional Parques Nacionais Naturais, Reservas o Brasil); Unidade Administrativa
Especial do Sistema de Parques
RELATADAS assim como rãs e anfíbios (Álvarez, 2005) da NatureServe (2007) sobre os sistemas Nacionais Naturais, Áreas Naturais Únicas ❱❱❱ Suriname: Áreas de Conservação: Nacionais Naturais e CIAT (para a
também vivem nas lagoas. ecológicos da bacia amazônica do Peru e (Monumentos Naturais), Santuários de Flora, Parques Nacionais, Reservas Naturais. Outras Colômbia); OTCA (para o Equador);
NA AMAZÔNIA Agência de Proteção Ambiental (para
da Bolívia identificou 84 desses sistemas Santuários de Fauna, Vias Parques. Outras áreas: Reserva Florestal, Áreas de uso
COLOMBIANA. ÁREAS DE ENDEMISMO ao longo de 1.249.281 km 2 . Sabe-se que áreas: Resguardos indígenas (constituídos múltiplo.
a Guiana); IIAP (para o Peru); Serviço
Florestal do Suriname, Ministério do
quinze deles são comuns aos dois países, pelo INCORA e, mais recentemente, pelo Trabalho e OTCA (para o Suriname e a
Venezuela).
As áreas de endemismo (i.e., áreas bem dos quais sete ocorrem apenas na Bolívia e INCODER. Estabelecidos pelo Decreto n.o ❱❱❱ Venezuela: Áreas de Conservação:
definidas com concentração de espécies dez no Peru (Josse, 2007). 1320, de 1998). Parques Nacionais, Monumentos Naturais

2.500
de distribuição restrita, compondo uma
biota única e, por esse motivo, insubstituí- ÁREAS DE CONSERVAÇÃO ❱❱❱ Equador: Áreas de Conservação: Parques
veis) são particularmente importantes para Nacionais, Reservas Ecológicas, Reservas de
a Amazônia, pois contribuem com elemen- Todos os países amazônicos têm um sistema Produção Faunística, Reservas Biológicas.
ESPÉCIES DE tos para a reestruturação dos processos nacional de áreas protegidas, além de alguma
PEIXES FORAM de formação da biota da região (Da Silva; outra categoria de conservação e uso sustentá- ❱❱❱ Guiana: Áreas de Conservação: Parques
IDENTIFICADAS Rylands; Da Fonseca, 2005). Estes auto- vel dos recursos naturais. As áreas de conserva- Nacionais (por exemplo, o Parque Nacional
NA AMAZÔNIA, res (2005) identificam oito grandes áreas ção vêm aumentando em número e extensão, de Kaieteur e a Floresta Tropical de Iwokra-
NÚMERO SUPERIOR de endemismo de mamíferos terrestres na sobretudo desde a década de 90 do século ma, cada um dos quais com sua própria
Amazônia, quais sejam: Napo, Imeri, Guia- XX. As áreas protegidas cobrem uma superfície legislação – de origem parlamentar) e a
AO REGISTRADO NO na, Inambari, Rondônia, Tapajós, Xingu e de mais de 700 mil quilômetros quadrados, o Reserva de Moraballi (protegida no marco da
OCEANO ATLÂNTICO. Belém. Dessas oito, quatro se situam intei- equivalente a 12% da bacia amazônica e a 4% Lei Florestal). Outras áreas: Terras Indígenas.
118
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >119

MAPA 3.1 PERDA DE BIODIVERSIDADE


Mapa das principais áreas de fronteira com ocorrência de tráfico ilegal
A biodiversidade amazônica está sob uma
pressão cada vez maior, que tem como
resultado a redução da diversidade. Essa
pressão é exercida, diretamente, pela des-
truição dos ecossistemas amazônicos e,
indiretamente, através do uso e aproveita-
mento não-sustentáveis da biodiversidade,
bem como da introdução de espécies exó-
ticas. Além disso, o aquecimento global e
a maior ocorrência de incêndios florestais
alteram as condições necessárias ao fun- Flores amazônicas:
cionamento adequado dos ecossistemas. expressão da
biodiversidade de
As políticas públicas promoveram pro- grande beleza natural.
cessos de colonização e o desenvolvimen-
to de atividades produtivas sem levar em
consideração a ocupação ordenada do ter-
ritório. Nesse sentido, os diferentes países
desenvolveram programas de expansão da
fronteira agrícola, para a qual o desmata-
mento (corte ou queima) é uma atividade

SEBASTIÁN CASTAÑEDA / EL COMERCIO


SEBASTIÁN CASTAÑEDA/ EL COMERCIO
prévia necessária. Somam-se a esse cená-
rio atividades como a exploração mineral e
petrolífera e a execução de obras de infra-
Fonte: Rivera (2007). (O documento da referência ainda possui caráter de Documento de Trabalho não-referendado pelos países.) estrutura.

A superexploração dos recursos naturais


da soma dos territórios dos oitos países mem- tada afetam a eficiência e eficácia de sua renováveis da Amazônia, sobretudo madei-
bros da OTCA. Os países com maior superfície gestão (OTCA, 2007). ra e diversos outros componentes da biodi-

84
protegida são Brasil e Peru, com respectiva- versidade, é resultado dos incentivos ofere-
mente 54% e 13% da superfície protegida da Além dos sistemas nacionais de áreas cidos aos diferentes atores sociais. A falta
Amazônia (tabela 3.3). protegidas, os países podem adotar medi- de definição sobre os direitos de proprie-
das alternativas para a conservação da bio- dade, bem como de um sistema eficaz que
SISTEMAS
As categorias de manejo das áreas pro- diversidade. O Peru, por exemplo, elaborou garanta a sua aplicação, estimula um com-
tegidas variam. Algumas fontes indicam um Sistema Regional de Áreas Protegidas
ECOLÓGICOS portamento predatório que visa à obtenção
que há pelo menos vinte e três categorias para a Região de Loreto (Procrel) em 2007, FORAM de benefícios no curto prazo sem levar em
diferentes na região amazônica, que além que recebe apoio do governo regional de IDENTIFICADOS consideração os custos ambientais, sociais
de proteção da biodiversidade, pesquisa, Loreto e foi desenvolvido no marco do pro- EM 1.249.281 KM² e econômicos intergeracionais envolvidos.
educação e ecoturismo, incluem o mane- cesso de descentralização como um pro- DA BACIA De igual modo, o escasso conhecimento
jo de recursos florestais, como se dá nas grama inovador para a Amazônia peruana. a respeito dos diversos serviços ecossis-
unidades de conser vação no Brasil. No Além dele, outras formas de conservação
AMAZÔNICA DO têmicos e de seu valor não contribui para
caso da Guiana, em 2001 foi formulada a cargo da iniciativa privada vêm ganhando PERU E DA a adoção de práticas de manejo sustentá-
uma estratégia para a criação de um sis- impulso, quais sejam: servidão ambiental, BOLÍVIA. vel. No caso da exploração madeireira, por
tema de áreas protegidas. Apesar de ain- áreas de conservação particular, conces- exemplo, de início se emprega o corte se-
da não haver um sistema estabelecido, sões para a conservação, concessões para letivo, mas, no médio prazo, predominam
já existem duas áreas protegidas, criadas o ecoturismo, etc. de um modo geral o corte indiscriminado
por lei: o Parque Nacional de Kaieteur e a e a conversão do solo para outros fins. Em

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
Reserva de Floresta Tropical de Iwokrama A despeito dos esforços nacionais, a bai- países como Peru e Bolívia, o desenvolvi-
(Agência de Proteção Ambiental [EPA] , xa disponibilidade de recursos econômicos mento da agricultura migratória é respon-
2007). Embora as áreas de conservação e a limitada coordenação regional condi- sável pelo desmatamento acelerado da flo-
sejam um instrumento valioso, alguns cionam a efetiva conservação por meio de resta e, por conseguinte, por alterações nas
estudos indicam que a insuficiência de sistemas de áreas protegidas ou unidades condições do hábitat da biodiversidade (ver
recursos e a coordenação regional limi- de conservação (OTCA, 2007). seção 3.4). O uso não sustentável também
120
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >121

o aproveitamento não sustentável desses A destruição das


bens e serviços acarretou a redução de
grandes extensões naturais, gerando des- florestas tropicais
matamento e a fragmentação de hábitats. A
destruição de florestas tropicais tornou-se
chamou a atenção
foco das atenções no mundo pelo fato de do mundo, porque
esses ecossistemas serem fundamentais
para a estabilidade de processos globais, esses ecossistemas
como o ciclo do carbono, a regulação hi-
drológica, a conservação e manutenção da
são elementos
biodiversidade, entre outros, assim como fundamentais
por sua possível influência sobre o clima
global (Fearnside, 1995; Fearnside, Lima à estabilidade
De Alencastro; Alves Rodríguez, 2001).
de processos
De um modo geral, os processos de ocu- globais, como o
pação do território amazônico se dão em
três etapas. A primeira envolve atividades ciclo do carbono,
típicas de extração de madeira, lenha e fi- a regulação
bras, que levam à diminuição do número
de árvores adultas (Nepstad et al., 1999). A hidrológica, a
segunda gira em torno das queimadas, que
tendem, por um lado, a reduzir o banco de conservação e
sementes do solo e, por outro, a elevar as manutenção da
taxas de mortalidade de sementes e plântu-
las em razão da concorrência com espécies biodiversidade, e
pioneiras e trepadeiras (Cochrane; Schulze,
1999; Gascon; Williams; Da Fonseca, 2000, por seus possíveis
Perez-Salicrup, 2001). A terceira etapa está efeitos no clima
ligada à caça e à perda de hábitats, proces-
sos que eliminam os agentes dispersores de global.

SEBASTIÁN CASTAÑEDA / EL COMERCIO


sementes (Laurance, 2001; Silva; Tabarelli,
2000, 2001) e, por conseguinte, ocasionam
a perda, muitas vezes irrecuperável, de es-
pécies nos ecossistemas amazônicos.

A fragmentação dos ecossistemas na-


turais (por “fragmentação” entende-se a
divisão de áreas contínuas em subunida-
está relacionado à extração de espécimes fauna silvestre (principalmente a avifauna) os Estados Unidos, maior comprador de des parcial ou totalmente desconexas) é
da biodiversidade ou de parte destes, que (mapa 3.1). Apesar dos esforços da Con- animais silvestres do mundo. Segundo es- resultado do desenvolvimento de infra-
A NATUREZA
geralmente está ligada ao comércio ilegal. venção Internacional sobre o Comércio In- timativas do Herbário do Brasil, 38 milhões estrutura, da ocupação humana ou de prá-
A introdução de espécies está associada ternacional das Espécies da Fauna e Flora
AMAZÔNICA É de animais silvestres são contrabandeados ticas agrícolas de menor ou maior escala
principalmente aos sistemas agrícolas e Selvagens em Perigo de Extinção (CITES) TÃO ABUNDANTE, pelas fronteiras brasileiras todos os anos. (monocultura) (ver seção 2.2). Esse pro-
pecuários. Como era de esperar, tudo isso para freá-lo, esse tipo de comércio é pro- DIVERSA E cesso afeta em grande medida a qualidade
acarreta a modificação e/ou perda dos há- piciado, em alguns casos, pelo desenvol- SURPREENDENTE QUE REDUÇÃO DO HÁBITAT, do hábitat e acarreta uma perda importante
bitats amazônicos. vimento de projetos de infra-estrutura e AS PROPRIEDADES FRAGMENTAÇÃO E na riqueza de espécies (Laurance, 1998;
pelos assentamentos humanos em suas DE MIMETISMO TRANSFORMAÇÃO DE Laurance et al., 2000). Esses impactos es-
O tráfico ilegal de espécies é a terceira áreas de influência (Rivera, 2007). Dos DE ALGUMAS ECOSSISTEMAS tão relacionados aos efeitos de borda, que
maior atividade ilícita do mundo. A diversi- vinte e um países onde é permitida a ven- produzem mudanças físicas e bióticas nos
ESPÉCIES, COMO fragmentos remanescentes, traduzindo-se
dade biológica amazônica não está alheia da dessas espécies, cinco fazem parte da Não há dúvida de que os ecossistemas na-
à dinâmica desse mercado: na região trafi- bacia amazônica (Brasil, Peru, Venezuela, ESTA ORQUÍDEA, turais fornecem bens e serviços essenciais em uma abundância de espécies pioneiras
cam-se ilegalmente espécies madeireiras, Bolívia e Colômbia) e têm como mercado NÃO PASSAM para o homem (Millennium Ecosystem e em alterações nos bancos de germoplas-
não madeireiras (p.ex., orquídeas) e da um grupo de onze países, entre os quais DESPERCEBIDAS. Assessment [MEA], 2006). No entanto, ma que afetam consideravelmente a demo-
122
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >123

grafia e as características da comunidade, um aumento de 15% em relação ao ano


além de pôr em risco a regeneração natural anterior, decorrente do crescimento acele-

15%
e o funcionamento da floresta (Laurance rado dos preços internacionais dos alimen-
et al., 1997; Gascon et al., 2000; Benítez; tos, que estimulou a expansão da produção
Martínez, 2003). agropecuária (Brasil: Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais [INPE], 2008).
FOI O AUMENTO O desenvolvimento de obras de infra-es-
DA TAXA DE trutura (promovido pelo governo ou ilegal) Embora concentre mais da metade das
DESMATAMENTO EM desencadeia uma série de eventos que, além áreas de floresta tropical do mundo, o ritmo
2007 COM RELAÇÃO de afetar a biodiversidade e os ecossistemas, do desmatamento na Amazônia segue muito
AO ANO ANTERIOR. geram mais destruição que as florestas plan- acelerado, produzindo alterações nos padrões
tadas (Fearnside, 2005; Soares-Filho et al., de perda de ecossistemas (Malhi; Baldocchi;
2004). As trilhas que facilitam a extração de Jarvis, 1999; Laurance, 1998; Whitmore, 1997;
madeira geralmente antecedem as estradas Brasil: INPE, 2008; Lima; Gascon, 1999).
e ampliam a fronteira para a exploração agrí- Como conseqüência desse processo, têm-se a
cola e pecuária (ver capítulo 2, seção 2.2). perda de hábitats de diversas espécies e uma
A extração de madeira provocou a degrada- maior fragmentação e isolamento dos ecos-
ção dos ecossistemas e, além disso, tornou sistemas remanescentes, que podem afetar

27.151
algumas áreas mais suscetíveis a incêndios seus processos ecológicos, sua estrutura, sua
em decorrência: (i) do aumento da inflama- dinâmica e seu funcionamento, tanto em nível
bilidade da floresta e (ii) da diminuição do de ecossistemas como de espécies e genes
número de dias de estiagem, fazendo com (Carvalho; Vasconcelos, 1999; Gascon et al.,
Km² FORAM que o sub-bosque (grupo de arbustos en- 1999; Davies; Margules, 1998; Laurance; Fer-
DESMATADOS contrado abaixo ou perto de uma floresta) reira; Ranking-de Merona, 1998; Laurance et
ANUALMENTE NA alcance condições de inflamabilidade (Fearn- al., 2000; Nepstad et al., 1999).

ERNESTO ARIAS/ EL COMERCIO


AMAZÔNIA NO side, 2005; Nepstad et al., 2004).
PERÍODO 2000- Variações na cobertura florestal causam
A conversão e a perda de hábitats na mudanças climáticas em escala local e regio-
2005.
Amazônia têm ocorrido de forma intensa, nal, bem como alteram os ciclos hidrológicos
e as taxas de desmatamento vêm aumen- e até mesmo aceleram os processos de de-
tando. Esse cenário está ligado à elevação sertificação. No período 2000-2005, a área ❱❱❱ A abertura de estradas prejudica a integridade da floresta, inclusive da fauna que esta abriga.
dos preços dos produtos agropecuários no desmatada na Amazônia foi de 27.151 km2
mercado internacional, tendência por sua por ano (ver a seção 3.2 deste capítulo).
vez associada às políticas públicas desen- Eventos extremos (p.ex., inundações, e Equador são os países que apresentam Os serviços
volvidas para frear o desmatamento (Soa- Laurance et al. (2002) apontam a seve- tempestades e terremotos), que em geral a maior quantidade relatada, seguidos de
res-Filho et al., 2006) (ver seção 3.4). Os ridade da estação da seca, além da infra- vêm aumentando em freqüência e intensida- perto pelo Peru. No entanto, é importante ecossistêmicos e
índices de desmatamento na Amazônia bra- estrutura de transporte e da densidade de no mundo todo, notadamente na região, esclarecer que os critérios utilizados pelos
sileira aumentaram no período 1988-2004 demográfica, como fator responsável pelo também alteram as características do hábitat países para determinar o grau de ameaça
a biodiversidade
(Fearnside, 2005), principalmente devido desmatamento e pela perda de hábitats na e, conseqüentemente, afetam a biodiversida- varia muito, bem como entre os diferentes apresentam sinais
à expansão da pecuária, mais da metade Amazônia brasileira. Algumas evidências de. Isso significa que o aumento da vulnerabi- grupos de organismos vivos. Cabe ressal-
atribuída às fazendas de médio e grande mostram que o desmatamento tropical da lidade da biodiversidade não é conseqüência tar ainda que algumas espécies em risco de deterioração: o
porte (Laurance et al., 2002). Por outro Amazônia brasileira e boliviana se concen- apenas da ação antrópica, mas também da não constam da lista vermelha.
lado, as taxas de desmatamento caíram sig- tra nos ecossistemas mais secos, pelo fato ocorrência de eventos extremos.
número de espécies
nificativamente no período 2005-2006. Em de serem mais vulneráveis ao fogo (Lau- Após uma análise das categorias de ameaça extintas, ameaçadas
2006, esse processo registrou uma queda rance et al., 2002; Steininger et al., 2001). ESPÉCIES AMEAÇADAS E “em perigo crítico”, “em perigo” e “vulnerável”,
de 25%, que pode ser explicada pela efi- Por outro lado, os efeitos do aumento das PERDA DE ESPÉCIES por grupo biológico (quadro 3.5), o Equador foi e em perigo crítico
cácia dos programas e projetos públicos de emissões de CO 2 na fixação de nitrogênio apontado como o país com o maior número de
combate ao desmatamento que envolvem ou os relacionados à poluição atmosférica e O maior número de espécies extintas foi espécies relatadas, seguido do Brasil. Esse últi-
aumentou.
a participação das populações locais (Brasil: às mudanças climáticas, por exemplo, ainda relatado no Brasil, um dos países com mo constitui o território onde aparentemente
Ministério de Relações Exteriores, Ministério não são inteiramente compreendidos, mas maior riqueza biológica entre os oito ana- prevalecem os níveis mais elevados de amea-
da Ciência e Tecnologia, Ministério do Meio dados preliminares sugerem que maiores lisados (tabela 3.4), conforme destacado ça a mamíferos, aves, répteis, peixes e inverte-
Ambiente, Ministério de Minas e Energia e emissões podem causar alterações signi- anteriormente. Quanto às demais catego- brados diferentes de moluscos, em categorias
Ministério do Desenvolvimento, Indústria ficativas na composição de espécies e na rias de ameaça, segundo as listas verme- médias e altas de ameaça. A Colômbia, por sua
e Comércio Exterior, 2007). Em 2007, no estrutura da floresta amazônica (Clark et al., lhas da União Internacional para a Con- vez, ocupa o primeiro lugar entre as oito nações
entanto, a taxa de desmatamento registrou 2003; Lewis et al., 2004). servação da Natureza (UICN), Colômbia em termos de quantidade de anfíbios amea-
124
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >125

TABELA 3.4 çados. Por último, para moluscos e plantas, o


Número de espécies extintas, ameaçadas de extinção e outras em cada categoria da lista vermelha, por país (2006) Equador apresenta os níveis mais elevados de
espécies consideradas vulneráveis, em perigo e
EXTINTAS EM SOB RISCO / em perigo crítico.
EM QUASE DADOS NÃO INSPIRA
PAÍS EXTINTAS NA PERIGO VULNERÁVEIS DEPENDE DE
PERIGO AMEAÇADAS INSUFICIENTES PREOCUPAÇÃO
NATUREZA CRÍTICO CONSERVAÇÃO
Até o momento, não há informações
suficientes para a elaboração de uma lista
BOLÍVIA 1 0 14 32 108 5 65 47 1.611
de espécies ameaçadas da Amazônia, com
a exceção da Guiana e do Suriname, que
BRASIL* 10 2 125 163 342 ** ** ** **
consideram seu território parte da Amazô-
nia. O Brasil, por meio do Ministério do Meio
COLÔMBIA 6 0 106 210 298 7 133 204 2.049
Ambiente (Fundação Biodiversitas), informa
que há 60 espécies ameaçadas nessa parte
EQUADOR 6 0 311 778 1.091 6 347 367 1.859
do país, entre mamíferos (19), aves (16),
GUIANA 0 0 6 10 55 4 21 53 922 outros invertebrados (5) e plantas (20).

PERU 2 0 45 90 389 11 105 197 1.912 Os serviços ecossistêmicos amazôni-


cos e, particularmente, sua biodiversidade
SURINAME 0 0 7 9 49 1 17 39 823 apresentam um processo de sensível de-
terioração: o número de espécies extin-
VENEZUELA 1 0 30 52 151 6 52 135 1.497 tas, ameaçadas e em perigo crítico é cada
vez maior. Evidencia-se também o pouco
Fonte: Para todos os países, exceto o Brasil: International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2006). conhecimento a respeito desses ecossis-
O Brasil não adota oficialmente a classificação da UICN. As ONGs comprometidas com a conservação da biodiversidade utilizam a classificação da UICN, motivo pelo que temas complexos e do seu valor, situação
os totais aqui apresentados não coincidem com os totais do quadro mostrado a seguir.
que não contribui para melhorar a forma
Fonte: Relatório técnico – Revisão da lista de espécies da fauna brasileira ameaçada de extinção. Conservation Internacional. Dezembro/2002. ** Sem informações. como são tratados nem para sua conser-
vação. Por último, para completar esse ce-
nário, os conhecimentos tradicionais dos
TABELA 3.5 povos indígenas, que são os mais afetados
Número de espécies ameaçadas, por grupo de organismos, por país por essa mudança acelerada no hábitat e
pela redução de biodiversidade, são pouco
OUTROS valorizados.
PAÍS MAMÍFEROS AVES RÉPTEIS ANFÍBIOS PEIXES MOLUSCOS PLANTAS TOTAL
INVERTEBRADOS
Os serviços ecossistêmicos amazôni-
BOLÍVIA 24 32 3 23 0 0 1 71 154 cos e, particularmente, sua biodiversida-
de apresentam um processo de sensível
BRASIL 69 160 20 16 154 40 163 108** 622 deterioração: o número de espécies ex-
tintas, ameaçadas e em perigo crítico é
COLÔMBIA 38 88 16 217 28 0 2 225 614 cada vez maior. Evidencia-se também o
pouco conhecimento a respeito desses
EQUADOR 34 76 11 165 14 48 0 1.832 2.180 ecossistemas complexos e do seu valor,
situação que não contribui para melhorar
GUIANA 11 3 6 9 18 0 1 23 71 a forma como são tratados nem para sua
conservação. Por último, para completar
PERU 46 98 8 86 8 0 2 276 524 esse cenário, os conhecimentos tradicio-
nais dos povos indígenas, que são os mais
SURINAME 11 0 6 2 19 0 0 27 65 afetados por essa mudança acelerada no

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
hábitat e pela redução de biodiversidade,
VENEZUELA 26 25 13 71 26 0 3 69 233 são pouco valorizados.

Fontes: IN MMA N.° 3 de 27/05/2003; IN MMA N.° 5 de 21/05/2004 e IN N.° 52 de 08/11/05; IN MMA N.° 5 de 21/05/2004, IN N.° 52 de 08/11/05 e IN N.° 3 Muito embora estejam sendo desenvol-
de 27/05/2003 – inclui invertebrados aquáticos e terrestres; Portaria N.° 37-N de 3 de abril de 1992; contudo, o MMA está atualizando a lista da flora em extinção com
uma previsão atual de que o número de espécies de flora ameaçada de extinção alcançará a marca de 1.500. vidos programas e projetos com o objetivo
Brasil: A lista de espécies da fauna ameaçadas de extinção pode ser encontrada nas Instruções Normativas (IN) do Ministério do Meio Ambiente. A IN N.° 5, de de estimular a conservação da biodiversi-
21/05/04, possui dois anexos: o primeiro, com a lista das espécies de peixes e invertebrados aquáticos, e o segundo com uma lista de peixes e invertebrados aquáticos
sobreexplotados ou ameaçados de sobreexplotação. Algumas das espécies apresentadas no relatório da Conservation Internacional foram removidas da lista de espécies ❱❱❱ Dentre os habitantes da Amazônia, destaca-se o grande número de espécies de dade, seu alcance, diante da magnitude da
ameaçadas e incorporadas na lista de espécies sobreexplotadas ou ameaçadas de sobreexplotação. anuros, de diferentes formas e tamanhos e de cores chamativas. degradação, ainda é limitado.
126
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >127

Quadro 3.2
BOLÍVIA: USO E APROVEITAMENTO DE RECURSOS
FLORESTAIS NÃO MADEIREIROS: A CASTANHA
(BERTHOLLETIA EXCELSA H.B.K.)

A Bertholletia excelsa HBK (família Lecythidaceae) é


uma das espécies predominantes no alto das florestas
de terra firme da Amazônia, especialmente no Brasil,
no Peru e na Bolívia, com uma área de distribuição de
aproximadamente 325 milhões de hectares. Às vezes,
chega a ter mais de 50m de altura, e seus frutos, de
tamanho considerável, armazenam entre 15 e 25 se-

SERGIO AMARAL / OTCA


mentes envolvidas por uma casca lenhosa e dura. Essas
sementes são conhecidas como castanhas e, apesar de
não serem um dos frutos secos mais comercializados
do mundo (1% ou 2% do volume total comercializado
❱❱❱ A Amazônia abriga uma grande variedade de espécies internacionalmente), são consideradas uma das alter-
de macacos. nativas mais viáveis para o uso sustentável da floresta
amazônica, em virtude das características auto-ecológicas
da espécie e do fato de o grosso da colheita ser realizado
em floresta naturais com níveis mínimos de alteração.

No norte da Bolívia, essa espécie concentra-se nas regiões


de Pando, Bêni e La Paz, onde também ocorre o benefi-
ciamento e a comercialização da castanha. Embora alguns
questionem a importância desse produto para a melhoria
da qualidade de vida das populações rurais amazônicas,
atualmente cerca de 170.000 pessoas tiram o seu susten-

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
to de alguma atividade relacionada à produção da casta-
nha. Além disso, ela representa uma parcela significativa
das estatísticas de exportação da Bolívia como produto
não tradicional, particularmente desde que a produção
de borracha natural sofreu uma redução significativa.
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
❱❱❱ O galo-da-serra andino. Muitos consideram a castanha uma das espécies-bandeira
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

da conservação da floresta amazônica, apesar de cálculos


mostrarem que a área que seria efetivamente preservada
com a extração dessas sementes corresponderia a cerca
de 6% da área total de distribuição potencial da espécie.

MILHÕES DE ANIMAIS Somando-se a isso o crescente interesse por iniciativas


SILVESTRES SÃO como a certificação orgânica, o agronegócio e o comércio
CONTRABANDEADOS TODOS justo, aparentemente estão dadas todas as condições
OS ANOS NA AMAZÔNIA. para que a castanha seja transformada em um produto
modelo de uso sustentável da floresta amazônica.
FALHAS NA DEFINIÇÃO
DOS DIREITOS DE
PROPRIEDADE ESTIMULAM Fonte: Stoian (2004).
UM COMPORTAMENTO
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

PREDATÓRIO COM RELAÇÃO


À BIODIVERSIDADE,
NO INTUITO DE OBTER
BENEFÍCIOS NO CURTO
PRAZO.
128
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >129

A ONÇA, JAGUAR
OU OTORONGO
(PANTHERA ONCA)
É O MAIOR FELINO
DA AMAZÔNIA E O
TERCEIRO MAIOR
DO MUNDO.

CONSERVACIÓN INTERNACIONAL
130
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >131

AUTORES:
CARLOS SOUZA - Instituto do Homem e Meio Ambiente da
O BURITI, AGUAJE OU MORICHE (MAURITIA
Amazônia (Imazon) – Brasil FLEXUOSA) É UMA PALMEIRA TÍPICA DAS
ELSA GALARZA - Centro de Pesquisa da Universidad del FLORESTAS INUNDÁVEIS DA AMAZÔNIA.
Pacífico (CIUP) – Peru

CO-AUTORES:
LUIS ALBERTO OLIVEROS - Organização do Tratado de Coo-
peração Amazônica (OTCA)
KATIA PEREIRA - Instituto do Homem e Meio Ambiente da
Amazônia (Imazon) – Brasil

3.2|FLORESTAS
A floresta amazônica, considerada uma das mais importantes do pla-
neta, é formada por vários ecossistemas naturais (Foley et al., 2007).
Sua importância reside na vasta área de floresta tropical remanescen-
te, que oferece vários serviços e produtos ambientais valiosos (fárma-
cos, enzimas, banco genético, etc.). Dentre os serviços ambientais,
destacam-se o fato de a floresta possuir alta diversidade biológica
(Fearnside, 1999; Dirzo; Raven, 2003), sua capacidade de captura e
armazenamento de carbono (Defries; Asner; Houghton, 2004), além
CONSERVACIÓN INTERNACIONAL

do balanço energético e da regulação hidrológica em escala continen-


tal e global (Foley et al., 2007).

A floresta amazônica está sujeita a fortes pressões de fenômenos


naturais (secas e incêndios) e de origem antrópica (principalmente
atividades produtivas). Diferentes atividades econômicas, tais como
a agricultura migratória, a pecuária extensiva, a agroindústria, a explo-
ração madeireira não-regulada e a urbanização acelerada, causam a
degradação e/ou a perda de cobertura florestal, afetando os ecossis-
temas muitas vezes de forma irreversível.
Quadro 3.3
A FLORESTA AMAZÔNICA COBERTURAS DA AMAZÔNIA COLOMBIANA

Dentre as inúmeras propostas de classificação das florestas amazôni- Em 2001, as coberturas naturais ou que apre- ha (1,12%); e, com menos de 1%: arbustos
A importância da floresta
cas (Moran, 1993; Whitmore, 2001; Stone et al., 1994; Saatchi; Stei- sentavam processos mínimos de transformação (44.050 ha); vegetação secundária (328.755
nenger; Tucker, 2008), a mais recente (Saatchi et al., 2008) permite amazônica reside na extensa área totalizavam cerca de 95%. As coberturas estão ha); culturas anuais ou transitórias (12.698
identificar dezesseis classes de cobertura vegetal. Em conjunto, es- distribuídas da seguinte forma: florestas naturais, ha); áreas agrícolas heterogêneas (72.475
sas classes constituem quatro categorias: florestas densas, florestas de floresta tropical remanescente 43.311.755 ha (90,75%); pastagens cultivadas, ha); e zonas urbanas (5.178 ha).
abertas, florestas inundáveis e vegetação não-florestal. Ayres (1993) e nos valiosos serviços e produtos 2.186.524 ha (4,58%); vegetação herbácea natu-
sustenta que na floresta tropical amazônica podem ser encontrados ral, 833.232 ha (1,75%); corpos d'água, 535.614 Fonte: Sinchi (2007).
tipos vegetacionais complexos, como floresta de terras altas, floresta ambientais que ela proporciona.
132
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >133

Quadro 3.4
DIVERSIDADE DA VEGETAÇÃO DA AMAZÔNIA PERUANA
A classificação da diversidade de plantas da Amazônia peruana, elaborada em 2004 pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia Peru-
ana por intermédio do Projeto Biodamaz (Convênio Peru-Finlândia), baseia-se na composição de um mosaico de imagens Landsat
TM e na identificação de 24 unidades vegetais.

I. VEGETAÇÃO NATURAL
1. PLANÍCIE AMAZÔNICA
a. Vegetação de planície aluvial. Exposta à inundação sazonal do fluxo das cheias dos rios; em planícies baixas de origem recente
e sub-recente.

- Floresta sucessional arbustivo-arbórea (vegetação do complexo de orillares – igarapés)


- Pântanos herbáceos com predominância de gramíneas
- Pântanos herbáceo-arbustivos, associados a palmeiras espinhosas
- Buritizais densos ou comunidades puras de Mauritia flexuosa
- Buritizais mistos ou associações mistas com “renacos” (Ficus sp. e Coussapoa sp.)
- Buritizais mistos ou comunidades dispersas de Mauritia flexuosa
- Pântanos arbustivo-arbóreos e buritizais do setor “Abanico de Pastaza”
- Vegetação tipo savana com predominância de gramíneas e palmeiras dispersas (pampas do Heath)
- Florestas de várzea cobertas pelas águas negras do Rio Nanay
- Bambuzais densos ou comunidades puras de Guadua (ver grupo B)
- Bambuzais mistos ou comunidades de Guadua e outras árvores (ver grupo B)
- Campinas de areias brancas (Varillales) (laterais dos rios Nanay, Pintoyacu e Chambira) (ver grupo B)

SERGIO AMARAL / OTCA


b. Vegetação de terrenos de altura ou “de terra firme”. Não inundável pelas cheias dos rios, com exceção da vegetação em terrenos
de drenagem pobre devido ao acúmulo de água da chuva; em planícies onduladas, planícies altas e colinas.

- Bambuzais densos ou comunidades puras de Guadua (ver grupo A)


❱❱❱ Aspecto da floresta arbustivo-arbórea, produto das inundações estacionais.
- Bambuzais mistos ou comunidades de Guadua e outras árvores (ver grupo A)
- Buritizais de altura ou palmeirais de Mauritia flexuosa em terraços altos de planície com drenagem pobre (ver grupo C)
- Campinas de areias brancas (Varillales) (setor Allpahuayo – Mishana) (ver grupo A)
A floresta densa densa, cerrado inundável e floresta inundável. (Cochrane; Laurance, 2002). A floresta den- - Florestas de planícies altas coluviais úmidas ou florestas de terrenos em delta do piemonte andino
Fora dos limites da floresta amazônica, a ba- sa, predominante na Amazônia, estende-se - Florestas de planícies coluviais altas em terrenos do tipo glacis do piemonte andino
predomina na cia amazônica está coberta por uma extensa por uma área de 3,936 milhões de km2. O - Florestas de colinas da planície amazônica
savana nas cabeceiras de bacia dos escudos Brasil abriga a maior extensão de florestas - Florestas de colinas dissecadas com padrão de drenagem dendrítico, do setor Pucacuro – Nanay – Chambira (Hoja Seca del Nanay)
Amazônia e está brasileiro e guianense. A floresta de neblina densas do mundo, com 2.538 milhões de
2. MONTANHAS
distribuída em é um tipo especial de vegetação que ocorre km2, seguido do Peru, com 446,6 mil km2, e
c. Florestas de montanhas baixas
entre 1.500 e 3 mil metros de altitude, na da Colômbia, com 324,6 mil km2. Os demais
uma área de 3,936 vertente oriental dos Andes, exposta a cons- países, em conjunto, respondem por 1%-3% - Buritizais de altura ou de Mauritia flexuosa em terraços altos intermontanhas, com drenagem pobre (ver grupo B)
tantes ventos carregados de umidade. Acima do total de florestas amazônicas densas.
milhões de km². de 3 mil metros de altitude, a vegetação pode
- Florestas de colinas altas de planície ou florestas de montanhas baixas dissecadas da Serra do Divisor
- Florestas secas tropicais
A maior parte das mudar bruscamente (Goulding; Barthem; Fer- Nas florestas abertas, que apresentam - Florestas úmidas de montanhas andinas (ver grupo D)
reira, 2003a). um dossel menos fechado do que o das flo-
florestas densas restas densas, predominam palmeiras, cipós d. Florestas de montanhas altas
A área de cobertura florestal estima- e bambus. Esse tipo de floresta prevalece no
encontra-se no da para a Amazônia varia de acordo com a leste da Amazônia, no Brasil; no Sudoeste, na
- Florestas úmidas de montanhas andinas (ver grupo C)

Brasil, seguido do fonte, oscilando em torno de 6 milhões de fronteira entre o Brasil, a Bolívia e o Peru; e II. VEGETAÇÃO ANTRÓPICA
km2 (Saatchi et al., 2008). A floresta densa no noroeste, na Colômbia. Há também áre-
Peru e da Colômbia. é composta de florestas tropicais ombrófilas as menores de florestas abertas na porção e. Complexos de vegetação sucessional com mais de três séculos
úmidas, de terra firme e de florestas em tran- norte, no Escudo Guianense. Estima-se que - Restolhais
sição. A predominância de árvores de grande esse tipo de floresta ocupe aproximadamen- f. Complexos de vegetação sucessional com mais de três séculos
porte e valor comercial para a produção de te 610.000 km2.
madeira (Lentini et al., 2005) torna essas flo- - Áreas desmatadas (centros habitados e complexo de chácaras e vegetação secundária (purmas) em “terra firme")
restas suscetíveis à pressão da atividade ma- Por sua diversidade e produtividade - Áreas desmatadas com cultivo de palmeiras (por exemplo, Palma de El Espino)
deireira (Uhl; Vieira, 1989; Asner et al., 2005) aquática, as planícies aluviais ou várze- - Áreas desmatadas em floresta tropical seca.l
e, em algumas regiões, também a incêndios as representam um importante ambien- Fonte: Projeto Diversidade Biológica da Amazônia Peruana (Biodamaz) (2004).
134
CAPÍTULO3
A Amazônia hoje >135

682.124
Km² É A ÁREA DESMATADA
ACUMULADA REGISTRADA
NO BRASIL ENTRE 2000 E 2005,
REPRESENTANDO 79,5% DO
DESMATAMENTO TOTAL DO
PERÍODO.

A vegetação não-florestal é encontrada


te ecológico (Goulding, 1980; Goulding, em diferentes tipos de savanas com árvores
1988; Forsberg et al., 1993; Araújo-Lima et de pequeno porte e fuste freqüentemente
al., 1986; Junk 1983, 1997). Essas áreas se retorcido, espaçadas no terreno. Nessa classe
estendem ao longo dos rios e permanecem incluem-se, ainda, áreas desmatadas ou flo-
quase que inteiramente submersas durante restas secundárias. Segundo estimativas, esse
a estação das chuvas. No entanto, a com- tipo de vegetação abrange 1,131 milhões de
plexidade do sistema de inundações, que km2 da Amazônia (Saatchi et al., 2008).
pode ser influenciado por chuvas locais,
pelo transbordamento de rios e pela maré DESMATAMENTO
(Goulding; Barthem; Ferreira, 2003a), difi- NA AMAZÔNIA
culta a identificação exata das áreas sujeitas ENRIQUE CÚNEO / EL COMERCIO

a alagamento. As várzeas dos rios de águas Diversas pesquisas foram realizadas em to-
brancas estão relativamente bem conserva- dos os países que compõem a Amazônia,
das na região a montante da confluência do com o objetivo de determinar o ritmo do
Purus com o Amazonas, no Brasil, onde o desmatamento na região. No entanto, seus
impacto da pecuária ou da agricultura ainda resultados divergem em razão da ausência
é muito baixo. Por outro lado, as várzeas do de sistemas de monitoramento precisos e do
rio Amazonas encontram-se alteradas no emprego de diferentes metodologias, ou, ain-
baixo Purus, notadamente em Santarém, da, devido ao difícil acesso a esses dados ou O processo de to está associado às pressões das ativida- biodiversidade, particularmente naquelas
no estado do Pará. Na área onde o baixo por estes não estarem atualizados. Não obs- des agrícolas e pecuárias (Hecht, 2005) e áreas onde há redução de ecossistemas O desmatamento
Amazonas recebe os rios Tapajós e Xingu tante, é possível afirmar que a floresta tropi- desmatamento nas da extração de madeira (tanto legal como naturais remanescentes e alto grau de en- nas encostas
há um tipo especial de várzea, influenciada cal úmida amazônica foi seriamente afetada ilegal) (Asner et al., 2005); ao uso de seus demismo (Capobianco, 2001 citado por favorece a erosão,
por inundações e o transbordamento de nos últimos anos, sofrendo uma redução de
florestas tropicais recursos naturais em geral (mineração, re- Fearnside, 2005). O desmatamento pro- sendo responsável
pela perda de solo
rios (Barthem, 2001). No Brasil, as várze- sua cobertura vegetal. acarreta uma cursos florestais não-madeireiros) (Peres; voca, ainda, erosão, compactação do solo
e pelo arrasto de
as de marés podem ser vistas ao longo da Barlow; Laurance, 2006); a políticas go- e perda de nutrientes (Fearnside, 2005),
sedimentos para os
área compreendida entre a confluência do A tabela 3.6 revela que no período 2000- perda global de vernamentais, por exemplo, a construção conforme mencionado na seção 3.1. rios amazônicos.
Xingu com o Amazonas e os manguezais. 2005 o desmatamento acumulado na Ama- de rodovias (Neptstad et al., 2001; Soares-
Essa vegetação é intensamente explorada zônia atingiu 857.666 km2 (85,8 milhões
biodiversidade, Filho et al., 2004) e outras obras de infra- O Brasil apresenta a maior área desma-
por empresas madeireiras e agricultores de de hectares), provocando uma redução da especialmente em estrutura; e ao crescimento demográfico tada acumulada: 682.124 km2. Isso signifi-
pequena escala (Anderson, 1999; Barros; cobertura vegetal da região de aproximada- (Fearnside, 1993; Kaimowitz, 1997), den- ca que, do total desmatado entre 2000 e
Uhl, 1995). Segundo Saatchi et al. (2008), mente 17% – o equivalente a cerca de 67% áreas com alto