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Sumário

Sumário..........................................................................................................1 “A gente comia farinha do engenho...”.........................................................2 O engenho como espaço de memória. Tradição, folclore, imagens...........2 Vida e trabalho no engenho de farinha: imagem de tradição e folclore .2 O engenho como legado açoriano: imagem do turismo cultural...........10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................18

“A gente comia farinha do engenho...”

O engenho como espaço de memória. Tradição, folclore, imagens.

No dia 21 de setembro de 1996, um crime abalou os moradores do Sertão do Ribeirão da Ilha: a morte de Francisco Tomás dos Santos, o seu Chico. Preocupado com o destino do engenho deste, um leitor escreve ao jornal:
“ Seu Chico Seu Chico se foi, barbaramente. Assim parou o último engenho de cachaça e farinha tocado a boi ainda existente na Ilha de Santa Catarina. No entanto, não podemos deixar seu engenho abandonado ao tempo ou, simplesmente, que vire peça de decoração de alguma casa de praia. Ali podemos ter uma visão completa de como funcionava uma das principais atividades dos colonos açorianos. Atenção Fundação Franklin Cascaes, Floram, Fundação Catarinense de Cultura, UFSC, UDESC, enfim, autoridades relacionadas a nossa cultura: criem condições para que esse engenho volte a funcionar lá no próprio local.” (Arante José Monteiro Filho. Carta ao Diário Catarinense, 28/10/96).

O texto acima reproduzido indica alguns pontos interessantes a ser desenvolvidos. Nele, aparecem o fim do engenho, a apropriação de sua imagem no turismo cultural e sua associação com o assentamento de colonos açorianos na Ilha de Santa Catarina, os quais adaptaram a produção da farinha e construíram em volta desta sua vida e relações sociais. Mostra, também, uma certa mudança no discurso sobre o engenho: de centro produtor da farinha a símbolo da cultura açoriana e, recentemente, como produto a ser vendido no turismo cultural. A imprensa, a memória e a historiografia tecem suas imagens do engenho, onde tal mudança pode ser detectada. Se antes o andar do progresso matou o engenho, agora ele está sendo saudado como portador legítimo da tradição e da cultura. Já não se aceita, como a carta deixa claro, que o engenho morra com seu dono... Vida e trabalho no engenho de farinha: imagem de tradição e folclore A importância econômica da farinha foi muito grande, na região de Florianópolis, por mais de duzentos anos. Em torno de sua produção, diversas práticas e discursos se ergueram, muito embora nem sempre a tenham atingido, como pode verificar-se com relação às preocupações com a modernização e higiene do início do século XX1. O fim do engenho, como centro produtor, está situado num período posterior àquela etapa da modernidade. Ele está muito mais ligado ao avanço da cidade, à descontinuidade das práticas rurais e artesanais: “O filho não queria nada com nada, né... Morava na cidade, só queria negociar. Não queria saber de lavoura ” (José Victorino, apud Andermann, anexos).

Mas o engenho, o tipo de vida e de trabalho nele desenvolvido deixou marcas profundas na memória das pessoas. O tipo de cultura em torno dele erguida tem sido alvo de diversos tipos de estudo, e também de propaganda, na imprensa, que usa o estereótipo do manezinho da ilha, do
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Conferir: Relatórios da Inpectoria de Hygiene (vide referências) e leis sanitárias do período de 1917-1920. Ver também: Andermann, 1996- cap. 2.

Mostrando que a distribuição de alimentos por políticos e seus partidários não é uma atitude recente. neste sentido. colheu. ãh. eu já tô muito zaranzo da cabeça. se dá pra fazer algum remédio com a farinha de mandioca.Sim. que dava pra fazer. e diversas outras datas). pela freguesia de Santo Antônio (de Lisboa) . Então esse remédio. JV . o Estado publica a doação de farinha de mandioca (20 sacos)... encarregada do “Natal dos Pobres”. o que mostra a importância do produto. Isso já vem.. Uma comissão. Referências à mandioca e sua farinha. mandioca. valorizada na época por sua qualidade (O Estado. sendo que. pra secar mais rápido. a farinha de mandioca e o polvilho (anúncios do Estado: 3/11/18.Ãh.. daquela massa. devido a 2 Eduardo Horn era proprietário de uma firma de importação e exportação de diversos produtos. aparecem no Estado.. apesar do “preço elevadíssimo” da farinha. que era uma atitude também tomada pelo Hospital de Caridade a pela Irmandade do Senhor dos Passos. A utilização medicinal da farinha também aparece na memória: “ASA . Noticia-se. No período de 1917 a 1920. né. entre eles.. entre notícias. por exemplo. tanto na economia como na alimentação. azeite de dendê? ASA .Ajudava.. num lugar. para ser distribuída aos necessitados em diversas ocasiões.. incluindo a farinha de mandioca “dos Barreiros”. O sr. vindo a falecer em decorrência de seu consumo..”. bem como a publicação dos preços assim propostos pelos comerciantes (O Estado. numa chácara. onde seu uso “afina” o sangue e diminui os ardores da doença [febre?]. JV . não é apenas na imprensa atual que se encontram notícias sobre o engenho. 3 A solicitação de preços de mantimentos .. e que constrói sua imagem de engenho nesse sentido. misturada com vinagre. bem como a doação desse e outros gêneros a instituições como o Hospital de Caridade e Asilo Irmão Joaquim (25/12/19). ASA .Ah. por exemplo. de antigamente.Aí depois botava o. uma delas descreve formas medicinais do uso da farinha de mandioca: como refresco. 28/09/18). emplastro de farinha de mandioca bem escaldadinha.. ASA ..Sabe por quê? Porque eu vi. 12 e 15/12/19). aquele da Bahia.Não me alembra..Se fazia aquele. a doação. .. Misturada com. incluindo a mandioca. pela Junta Republicana. também. mas era misturada com azeite.... noticia-se. a doação de farinha de mandioca. O contexto dá a entender que o fato foi investigado. pra botar em cima de ferida. 20/12/18 e 20/11/19). O sr. o vô conhece? JV Conheço.. ou com vinagre. e se botava em cima do machucado. artigos. com não sei o quê que eu não me lembro. há também espaço para acontecimentos do cotidiano. anúncios e reclamações. vô? JV . isso ajudava a curar.descendente e mantenedor da cultura açoriana. tá. ié! Aquele azeite se falhava ali em cima daquele. em honra de Hercílio Luz. sobre feridas supuradas (24/03/17). incluindo a farinha de mandioca (20 sacos).É. o gesto é louvado pela redação do jornal O Estado(19/ 12/17).. ainda. adicionada a água e açúcar. confundindo-a com aipim. 5/2/20. Contudo. e botavam em cima das feridas.. Não tenho recordação. E se botava um papel pardo. governador recém eleito de Santa Catarina (O Estado. no trato da gonorréia. para que sejam distribuídos os pobres.Ah. O vô ouviu falar dessa história. tu conhece o. de diversos alimentos aos pobres. algum tipo de remédio? JV . (Entrevista com José Victorino. anexos) Outra notícia encontrada no Estado relata um envenenamento: um “preto velho. ASA . e o oferecimento da farinha de Barreiros a duzentos e vinte réis o quilo (17/12/19). em carta fechada. pois “constatou-se o envenenamento pela mandioca cozida que restava na panela” (23/05/17).. ASA .. paupérrimo”. né. apud Andermann. Já é velho. cuja venda seria revertida aos flagelados da seca do Nordeste (4/5/20). sabe se tinha. sei. Eduardo Horn 2. O mesmo jornal noticia a doação de farinha. doa 300 sacos do produto às damas de caridade de Laguna. ou não? JV . Ainda referente a este assunto. como anti-séptico e cicatrizante... relata diversas doações e anuncia que aceita propostas em carta fechada para o fornecimento de diversos produtos 3.Ah.

como o fragmento de entrevista a seguir deixa claro: “ASA . apud Schroeder.” (1991:189-190). de fazer despesa extra. dono do engenho] era uma pessoa muito. davam festa assim. Sendo ou não usado para festas. além da produção de farinha: nas brincadeiras (esconde-esconde: a parte interior do engenho. de acordo com D. talvez não me chamasse atenção. A infância. op.Ah. o conjunto dos objetos domésticos. Inclusive os objetos auxiliares do engenho estão bem presentes nessas memórias. entretanto. eu ouvi falar que alguns donos de engenho. os tipitis). Aqui por perto. então. apud Andermann. E ele[ o sr. Iltolomeu Victorino. eles davam festa no final da farinhada..Outra coisa que eu tenho curiosidade de saber com relação a isso. ibid. Aparece. cit.Mas a senhora já ouviu falar disso? BVS . para guardar objetos de metal (paióis com farinha). para pôr galinhas a chocar (tipitis velhos). conforme a entrevista com D. talvez. como camas (cochos. Mesmo o convívio com os bois que tocavam o engenho marcou a memória das pessoas. Nilza Damásio (id.É ? BVS . são lugares de memória da infância e da juventude. esta notícia e as demais encontradas nesta época não têm este sentido. não. 4/12/20) A notícia acima indica que o engenho. etc. por exemplo. ficar andando em volta. commemorando o fim da safra da farinha de mandioca. de ter.” (A Época. eu acho que nem tinha. né. sim.)..” ( Sr. que alguns enge. compareceu á brilhante festa.:307). ver aquele boi ali. residente na séde da freguezia [Rio Tavares].. econômica.. que alguns donos de engenho. Nem todos os donos de engenho. tinham o costume de festejar. mas porque ele era movido por um boi. o trabalho e até mesmo a morte estão ligados à rotina do engenho.. É.” (Entrevista com Benta Victorino Schroeder. depois de uma farinhada. o casamento. Conforme pondera Flores. a elite riotavarense. certamente que sim.) . Os assuntos do cotidiano também freqüentam o jornal A Época.. O pessoal mais conspicuo.. ASA .. então era aquilo que me cativava. Estes objetos eram utilizados para fins diversos. Etelvina Silva Heinrich (apud Pereira. se ele fosse a motor. assim. a prensa.... o engenho constitui-se como cenário para os acontecimentos desenrolados na vida das pessoas. BVS . na paiolagem. foi doada às casas de Caridade de Florianópolis (20/05/18). é...Aqui não tinha disso. ASA . porque eu li num jornal que um. não gostava de. Bento Ouriques.É. Benta Victorino Schroeder (apud Andermann..diversas dificuldades relativas à venda da mesma.Ah. como percebemos pelo trecho abaixo: “Era um engenho que. uma festa: “Um senhor de engenho.. era importante tanto no aspecto econômico quanto no social.. como é que era feito assim. não. . 1991:3) e até mesmo como esconderijo. op. lá na Ilha.. o namoro. anexos)... um pedaço da rua e do bairro. deveria. os objetos do engenho eram também parte dessa interação entre a produção e o convívio social bem como os demais espaços da socialização: “A casa materna. BVS ... cit. ou pelo menos.Não... mas ainda não pertencia ao folclore. as pedras da cidade. É. estando fortemente marcada às imagens e sons que evocam a infância.. abriu os vastos salões de sua residência para um retumbante fandango. segundo o depoimento de D. eu. o quintal.. fora da época da farinhada)... ASA .

a gente tinha. entre uma e meia e duas horas já começava a trabalhar.). né? BVS .. iluminando transversalmente o terreiro arenoso e branco (. a gente sempre dizia: “Olha o barulho dentro do engenho.quando. da roda girando. Mesmo em seus escritos ficcionais. né. Um autor que trouxe. entremeados com o trabalho do engenho. era muito bom mexer (.No trecho de entrevista a seguir.. largo e suavíssimo.” (Benta Victorino Schroeder... bem mesclados.” (Transcrito em Várzea.. significa uma qualidade a mais da farinha — com explicações de fundo cultural para o atraso tecnológico ou para o tradicional sistema de produção.... o clarão avermelhado do forno do engenho. (. cantando a Bela Menina. então o barulho. por trabalhar tanto tempo.. para uns.ss. percebe-se que até mesmo os sons insinuaram-se pelas lembranças das pessoas. já quase ao chegar à encruzilhada que ia dar ao engenho. trazendo consigo memórias de medos.. a massa que já tava pronta do outro dia. mesmo. a massa que tinha sobrado do outro dia. estes espaços do cotidiano estão bem demarcados nas linhas do tradicional e do folclórico.No caso. mesmo esses autores trazem os aspectos culturais do engenho embutidos em suas linhas. Talvez não sei.Apesar do frio? BVS .. que se projetava através da porta.. Entre os autores catarinenses. que mal ramalham pelas frondes.. Por isso. né. ficava. os aspectos econômicos e culturais foi Virgílio Várzea. p. enquanto que para outros. E.Ahã. ASA . sim... porque dizia que aquilo ali era. a madeira trabalha. com as estrelas a piscarem no alto do azul-ferrete do céu no seu crivo de ouro vivo.Ah. quando ele ano. e a gente acordar de madrugada. são elementos do quadro cultural que o autor procura descrever... me apegava muito. Mas. 20) O canto e a dança aparecem em diversos outros autores. ASA . dedicando-se mais à importância do seu produto do que a estudar o tipo de relações em torno dele estabelecidas.. Então as pessoas supersticiosas botavam medo na gente. A sombra sepulta ainda os vegetais.). mas a gente tava acostumada com aquilo.Alguma alma.. todos fazem parte do conjunto do engenho. de porrete em punho e chapéu à banda. tinha que tar tudo quase pronto. não tava trabalhando. no caso. conferir: Crema. bulhando de alegria. o ambiente da produção e do trabalho no engenho: “Tudo isso [o trabalho do engenho] se faz ainda escuro. os carros de boi 4.É.Do quê? BVS ..Era alma. onde o engenho do tio Luís Dutra. Medo.188) Assim. 1985.. 1990. logo adiante. ela.De manhã.. Em Santa Catarina — A Ilha. de fornalha acesa. do barulho que fazia. BVS . o atraso tecnológico... ASA . Crispim Mira (1920).. ela estalava. é. farinhava para todo lado. ao descrever uma brincadeira de dança e desafio... BVS . assim (. . as danças. 4 Sobre a importância e tradições envolvendo este meio de transporte. Ainda em caminho..A fazer farinha.!” e a gente escutava. ele descreve de forma às vezes poética. encaminhou-se cantando para a Várzea de Baixo. Várzea faz este tipo de descrição: “O rosado vivo do crepúsculo esmaiava já uma palidez que um azul-ferrete invadia. né. o André ouviu bem clara no ar a voz melancólica e sonora e sonora do forneador. ASA . apud Andermann.. era muito gostoso.). ansioso por chegar de uma vez. significa um produto de má qualidade. avistou. o processo produtivo. como se diz.. porque a madeira... a alegria. com o barulho do engenho. né. por exemplo.[Fiquei triste quando o engenho foi desmontado ]Porque a gente se apegou muito..) o barulho. anexos). a gente tinha medo. BVS . especialmente a ligação do engenho com a cultura açoriana. depois de arrumar o gado. à primeira aragem fria da alvorada” (Várzea. Uma coisa boa era raspar a mandioca.. a torrar.. né? Então estalava. ASA .Da madrugada.... barulho dentro do engenho. ASA . embora uma boa parte deles veja o engenho mais pelo ângulo econômico. e as frescas e tintilantes risadas das moças (.) Brincava-se a cabra-cega.. sei lá. pra. ela.A massa. quando o André. Não fosse bom.. estugando logo o passo. 1962/1963:71.. com a tradição — que. de alegrias e mesmo de limitações pelos quais as pessoas passavam: “BVS .

onde o (a) mais rápido (a) detinha a vitória.o sarrabalho. 5 Pereira cita algo semelhante.. oferta de namoro entre um moço e uma moça. e colhido no Alto Ribeirão em 1971. um cavalheiro e uma dama. Rapaz (responde) (. Pois o nosso matutino.ss. Ella Não quero moço do sitio. Via. que devia 5 Em entrevista informal com a sra. e insinua um certo namoro entre os desafiantes. O capote consistia em uma espécie de aposta na roda raspagem. cujos versos podiam ser cantados na hora do capote. Benta Victorino Schroeder. . pessoas com quem tinha convivido na juventude.” (Mira.(. quantas namora (. Câmara Cascudo cita o sarrabalho como um tipo de dança que faz parte do fandango. já bem velhinha e confusa. lhe contava que uma bisavó dessa. confirmando a descrição de Várzea: “Desafio no sarrabalho No sarrabalho dançam em ligeiro passeado na ponta dos pés. informou o seguinte : que sua mãe. Vá embora sua boba Que este não é pra ti. Cabeça de ‘tipiti’. 1991: 203). José Victorino em 04/05/91. cit.. Também era uma espécie de desafio. mencionado. Moça (começa) (. O cavalheiro a convida e lhe atira um verso.) Quem é aquele que vem lá Cai aqui... também aparece nas descrições de autores como Piazza ( 1951. desagradável. com as quais dançava o sarrabalho. Quero moça da cidade.) _______ (') O cantador refere-se á massa da mandioca. cai acolá. lembrava da mocidade.. p. ao ser informada sobre o sarrabalho. para “apressar o tempo” (informação que coincide com o registrado nas entrevistas. onde novamente o trabalho no engenho é. chamado pelo autor de desafio. desta vez indiretamente.) apresentamos um pequeno ‘desafio’. Maria de Campos Victorino. Uma pessoa raspava a metade da raiz. jogando-a para outra pessoa.11. e 1992:445-455) e Pereira (1991: 189-218) . Barriga de ‘saburá’. feita em abril de 1996. Elle Não quero moça do sitio Que catinga á massa (') crua. então. Que sabe pisar na rua. apud Schroeder. a que foi feita com o sr. Quero só moço de fóra. no Rio Grande do Sul (1954) . 1920:132-133 — incluindo a nota do autor).). Ela responde e trava-se o desafio. Quantas vê.. op. cita quadras onde aparece uma referência ao trabalho no engenho. que tem realmente um cheiro acre..) Barriga de ‘saburá’. através da comparação da cabeça com o tipiti (usado para secar a massa da mandioca): “DESAFIO . a ratoeira. como por exemplo. Cabeça de ‘tipiti’. Uma outra dança de roda.” (Pereira .

e referências ao namoro e ao casamento: “Eu marquei meu casamento Pro tempo da farinhada Hai muita tainha e laranja Hai fogaréu na moçada. Moça que peneira a massa Separa bem a caroeira Trata logo de casar Que é triste ficar solteira! Eu coloquei os tipitis Muito certo em camadinha Pra mostrar ao meu bem Como se faz farinha.. O vencedor era quem ficava com menos capotes para raspar. O boi preso na manjarra Usa óculo pra não vê O coitado do meu bem Usa óclo pra mode lê! O tempo da farinhada É um tempo divertido É quando as moças solteiras Tentam arranjar marido! Vou fazer minha farinha Pra fazê o meu biju E oferecer a um amor Queira Deus sejas tu (ou não sejas tu) [ 7 ] Peneirei massa ralada Mode tirar a caroeira Ó meu amor casa comigo Cansei de ficar solteira” Na mesma pesquisa (p.. bem como um espaço privilegiado de convívio e socialização.” 7 Variante anotada por Pereira (1983:73) .dar conta da velocidade da primeira.. com a ratoeira): “Num engenho de farinha. traz a faca E vai chamar o Migote Que está fazendo frio E está na hora do capote. além de um jogo.106-108). 64) cita a quadra assim: “Maria. como o capote. Pereira cita também a cantoria do engenho. oi.. era também uma forma de passar o tempo e de acelerar a produção. Ó Maria pega a faca E vai chamar o Migote Que já está chegando gente Mode jogar o capote [6 ]. colhidos por Pereira (1993: 72-73) de versos da ratoeira. pela forma das quadrinhas.ai m pra prensa outro pro forno oi. mostram esta ligação entre o trabalho e a convivência no engenho. oi. ai 6 Cascaes ((198l.. onde aparecem algumas brincadeiras. Alguns exemplos. ai Deve ter três cantadô. o capote. de “melodia perdida no tempo” (mas que têm suas semelhanças..

oi. Dentro desse aspecto de tradição e folclore. como lembra Benjamin. os cuidados com esta e as relações sociais e lúdicas. Esse aspecto também aparece nas quadrinhas acima transcritas. Costa (1995: 29). o trabalho no engenho abria espaço para essas interações entre a produção... 11 Há um artigo especialmente escrito sobre os tipitis (Blaske. ligados ao trabalho do engenho.. 13-26 e entrevista com Benta Victorino Schroeder. e mesmo em alguns que têm um ponto de vista mais ligado à economia. por exemplo: Cascaes (1981: 64-65). ai Que está bem no inverno oi. 1962/1963: 25.. [9]” As quadrinhas citadas por Piazza (1951 e 1956) são mais de fundo amoroso. palavras encontradas com freqüência nesses autores.. Oivirá. a aposta em si. os cuidados na produção com a interação e social os jogos amorosos. Anda. 10 Conferir.). op. Cada uma delas. e apontam a esta convivência do trabalho com as brincadeiras. A alegria e o convívio social fazem parte da lida. Schroeder (1991: 23-44).. São “as lembranças da dimensão cômica do cotidiano e do sagrado... 1962/63: 71-72) .). onde a raspagem..: 191). Diversos autores tratam da questão do capote. ai Vai pro pasto descansá. de acordo com diversos que tratam do tema 10. cit. oi.. o jogo do capote na farinhada (. mesclando o trabalho à brincadeira.ai Não é mais tempo de poda. 8 A mesma quadrinha .. aparecendo de forma intensa na memória. Um último exemplo de quadrinha onde há essa mescla é uma citada por Cascaes (1981:57): “Quando o engenho de farinha Está coberto de poeira É sinal que neste ano Foge muita moça solteira. na qual o capote é envolvido. oivirá! Um pra prensa e um pro forno.ss. ai Terminada a farinha. de apressar o trabalho eram incorporadas à faina do engenho. às vezes pelas crianças. Oivirá! Oivirá! E outro pro cevadô! Oivirá! Oivirá!” 9 Os bois eram levados. ou quando eram revezados.). onde ficavam . A mais significativa talvez seja a aposta do capote. onde a vida dessas pessoas desenrolavam-se. é chamada de mutirão. 183-188) até Pereira (1993: 147). Piazza (1956: 31. oi. Oi.” (Flores..ai.. é descrita e apresentada dentro do contexto do tradicional e do folclórico. a cantoria e a ratoeira (. a ligação do engenho com a colonização luso-açoriana aparece com muita força.. as conversas e causos. do engenho em si (a casa do engenho) até os tipitis e os carros de boi 11 .ai Cuidado com o dedo na roda. Oivirá! Oivirá! Deve ter três cantadô.) e outro especialmente sobre o carro de bois (Crema. ligadas (como uma grande parte das músicas de ratoeira) a frustrações ou alegrias do namoro.ai Não te canse de andá. 1992. oi. cit. onde interligava-se o cuidado com a limpeza da farinha.. anda meu boizinho. após a fornada de farinha. é apresentada com variações: “Num engenho de farinha.ai! [8 ] Menino que tás sevando.. op. Outra preocupação dos autores catarinenses é a descrição das peças dos engenhos. ai. Sendo uma produção manual e demorada. Oi. comuns ao ambiente artesanal (1989:25-30). apud Andermann.O melhor pro sevadô oi. transcrita por Oswaldo Ferreira Melo e citada por Piazza (1956:31). Vide: Prost. desde Várzea (p. as trocas de informações. oi..ss. a produtividade do engenho e diversas brincadeiras..... diversas outras formas de passar o tempo.” Além do canto e da dança.. a descansar no pasto.

. nem nada.) Ah.. o Ribeirão era o lugar de mais lavoura da Ilha de Santa Catarina. cit.. Bento [ 12 ]. e aquilo eu quero manter porque é uma coisa raríssima. Pessoas pobres.. não houve mais trabalho..”( Iltolomeu Victorino. elas iam lá.). anexo) . tava tudo desmanchado. entre o trabalho e a brincadeira.” (Miguel Saturnino da Silva. o que se percebe.).. julho e agosto) todos os engenhos estavam trabalhando.) O avô do meu pai tinha. de manter o engenho. o grande problema hoje em dia é a manutenção dessas pecinhas. (. foi uma decepção.. op..) e com Benta Victorino Schroeder.. terça e quarta parte da produção ou do alqueire..... Pedro Vieira..(. assim. (. né. o trabalho e as brincadeiras. nem nada. Depois que ele morreu. havia 65 engenhos de farinha.) Outra coisa que chamava a minha atenção era que o engenho não era encimentado. ajudavam a raspar a mandioca. e sempre veio passando de pai para filho... não tinha mais nada. na minha infância. Era da poeira da farinha. Nem engenho.).) “É. ele tava funcionando não. Inclusive. é igualmente a associação entre os aspectos econômicos e sociais com a tradição. não sei se Rio ou Natal. ainda(.”( Sr.. porque as partes que eram pra utilizar no plantio tinham sido loteadas (. também consta na memória: “Além daquilo que eu já descrevi. isso pela parte materna.. apud Schroeder. cit. aquilo me deu uma tristeza. fiquei triste (.. nem casa. eu sei que o engenho ainda tava ali. Nos meses que não têm ‘r’ (maio. pra poder ter direito de ganhar massa pra fazer beijú.. só tinha a área. op.... congregava em torno de si e de seu dono toda uma rede de trabalhadores: dos empregados a pessoas da comunidade que a ele acorriam na época da farinhada. quando eu cheguei lá. o meu avô tinha e meu pai continuou.. conforme a função ou trabalho desempenhado). 1991) O engenho é. (.. em alguns...... junho. 13 12 13 Bento Ouriques. as razões e explicações desse fim também freqüentam as recordações. indicações de um certo orgulho das pessoas por esta importância do engenho (talvez fruto do atual interesse acadêmico e da imprensa pelo mesmo) que desperta também o desejo de preservar o engenho. Quando eu cheguei.em face da morte do primeiro dono (. então você observou que eu deixei ele assim de chão batido pra manter assim a memória.) o sr.(. quando eu tomei consciência da vida. nem a casa não tinha mais. Miguel Saturnino da Silva. porque não tem.. que iam fazer beijús. op. né. apud Pereira...).).. o engenho. eles chegaram a ser senhor do engenho. cuja lembrança evoca os sons. porque hoje não tem mais isso. para ajudar na lida e ganhar seu quartinho de farinha até a forma de pagamento (de meia. o espaço de memória. ou de sentimento de perda pelas “coisas que não voltam mais”. cit.) porque eu gostaria que ele estivesse ali. na nossa família.) O trabalho morreu com ele.”( Sr... (.) É. ligada à importância social e econômica. cit. quando eu. aquilo ali é um negócio que vem acompanhando os nossos antepassados. op. proprietário do engenho onde o entrevistado viveu sua infância) Conferir com as entrevistas feitas com José Victorino e Miguel Saturnino da Silva (Apud Schroeder. além da interação... você não consegue pessoas pra repor aquelas peças (.. porque eles tinham escravos. pra ganhar. mas eu acho que não funcionava mais..).. eu consigo descrever tudo que for possível. era até bonito de se ver os telhados dos engenhos branquinhos como neve. os avós. assim. pela parte da minha mãe. São coisas que não voltam mais. também. desperta o sentimento de importância. Então. Então... eu achei que ia encontrar o engenho.. os bisavós da minha mãe. já encontrei aquele engenho. (. Isso eu tenho memórias vivas assim da gente.. Só aqui.. aquela parte vaga. não existe mais. nenhum engenho era encimentado.. que também aparece na memória. Eu não sabia. Este tipo de informação . ficou muito esquisito. onde a descontinuidade do trabalho artesanal e o avanço da cidade parece ter a culpa pelo desaparecimento do engenho: “ Eu estava no Rio de Janeiro. quando eu fui pra Marinha. aquela mulherada que iam lá em casa que iam lá em casa pedir farinha. que olhei... O engenho morreu com ele. tataravô... quando eu cheguei. como verificamos nos dois trechos a seguir: “No tempo que eu era moço.. eu estava fora daqui. Mostrando sua importância social. O “fim do engenho”. bisavô. Aparecem... das coisas.Nos textos levantados dos autores catarinenses. com relação ao tipo de vida no engenho.. apud Schroeder.) Eu não tenho certeza se. sendo um bem difícil de ser adquirido. apud Schroeder.

às recordações da infância e. referências a fantasmas de pessoas trabalhando no engenho: “(. os caminhos viraram ruas. É aqui que o açorianismo aparece.. ao comércio. mas interligado aos aspectos de uma vida que foi deixada para trás. cit.” (Iltolomeu Victorino. o Cadete. depois. Era uma vez uma cidade que não tinha idade. (.. até mesmo o ranger das engrenagens.” O engenho de farinha aparece nessas palavras não apenas como centro produtor. pois. encontrar suas origens e destacar suas especificidades. na névoa doce do passado. à própria morte: “Esta casa que eu moro é que era a casa do Cadete e o Engenho aí na frente foi onde ele se enforcou(. naquela época e se chamava de causo.) Ele ia de madrugada para lá. 1991: 290). ele parava no mesmo lugar onde ele tinha deixado. foi publicado no jornal Diário Catarinense um anúncio em comemoração ao acontecimento. algumas vezes. pelo progresso. as ruas avenidas [sic]. que morreu um empregado dele. e quando ele abria a porta. do namoro ao casamento. reproduzindo. Fez muito açúcar. o carro de boi deu lugar ao automóvel. a vida no engenho marcou essas lembranças. e a gente cresceu.. nos causos.. ele parava no.. apud Schroeder. que sentia lá pra cima do engenho. Com cuidado às vezes pictórico. Das cantorias e brincadeiras na hora do capote.O engenho é. era um homem bom e trabalhador. fez muita farinha(. à sua sociabilidade. e a cidade cresceu. buscando interpretá-las.). existam. aniversário de emancipação do município de São José.).. ao seu aprendizado. ele chegava lá.. uma hora e meia. op. música. morria de medo. Este anúncio . eles ficavam contando esses causos assim. Ele contava muito caso que viram fantasmas. uma hora da manhã começava.” (Concilino Tristão... Dessas lembranças e imagens os autores tem se apropriado para construir sua própria imagem do engenho. a gente ficava só ouvindo. que trabalhou muito tempo com ele.) “A memória do trabalho é tão viva e tão presente que se transforma no desejo de repetir o gesto com as mãos e ensinar o ofício a quem escuta.. deixando-lhes uma certa nostalgia por ser agora todo esse convívio perdido no tempo.. e onde a imprensa vem buscar um engenho que possa ser vendido como produto de turismo cultural.. as pessoas descrevem com detalhes sua vida e seu trabalho. esta praias com este baixio dá muito.. apud Pereira. Talvez por estar tão interligado à vida das pessoas. comia farinha no engenho. os engenhos deram lugar às indústrias.”. com os seguintes dizeres: “ERA UMA VEZ UMA CIDADE QUE NÃO TINHA IDADE. Como bem destaca Flores (1991.). enfim. isso tudo ele contava antigamente. encontrou o marido pendurado e enforcado. o lugar ligado à vida cotidiana das pessoas. algumas vezes. A gente corria pelas ruas. lá.. uma hora. É. Era uma vez uma cidade. da infância à morte. o engenho tava funcionando sozinho. O seu Manoelzinho. A mulher dele estava apanhando berbigão ali na praia. O engenho como legado açoriano: imagem do turismo cultural Em dezenove de março de 1991. e quando voltou pra casa passando por dentro do engenho. 1991). tomava banho de mar.

era que tinha muitos engenhos de farinha. tinha um engenho que era tudo ‘tocado à mão’. A carta citada já reflete um outro tipo de discurso: “(. de açúcar e alambique. cit. Tinha um outro. como na imprensa e na historiografia ligada à esse tipo de construção da imagem do engenho. às vezes com exagero — como lembra Pereira (1989:317-321). Tudo começou com aquela igrejinha lá no Barro Vermelho. sua construção e maquinário. o próprio engenho em si. Entre os dias 25 de agosto a 1º de setembro de 1996. logo assim que acaba a Freguesia. A mudança de discurso sobre o engenho e sobre essa cultura. Atenção(. incorporando-o ao açorianismo e sua herança. (. desde sua origem. é a imagem de uma cultura a ser preservada e vendida. O engenho tem sido alçado entre estes ícones.. e o colonizador açoriano foi erguido à condição de portador oficial dessa brasilidade. apud Pereira. o I Encontro Sul Brasileiro de Comunidades Luso-Açorianas. A imprensa. op. mas um deles é prover aqueles que a escrevem ou a lêem de um sentido de identidade. Entretanto. que representa para alguns a vitória da cultura açoriana.) 14 Pereira expõe a necessidade de se estudar os pontos de contato entre a cultura açoriana e a litorânea catarinense e acrescenta : “(.. A partir do I Congresso Catarinense de História. Em um nível mais amplo. começou com os portugueses e os açorianos. já são todos nascidos aqui. mais que um legado cultural. “ O nosso engenho de farinha estava lá no Alto Ribeirão. hoje estão desaparecendo. comemorando os 250 anos do decreto Real que deu início à colonização luso-açoriana (baixado em 31 de agosto de 1646).. foi inaugurado um obelisco em homenagem à colonização açoriana. o segundo parece ter sido erguido à cultura açoriana desses brasileiros e aos ícones dessa cultura. simplesmente. à bravura açoriana em construíla. Algumas pessoas têm essa noção de herança. que vire peça de decoração de alguma casa de praia. os autores talvez estejam tentando utilizar-se de um dos propósitos da história.) não podemos deixar seu engenho abandonado ao tempo ou. Ao discutir a origem do engenho. deixam seduzir-se pela sereia açorianista. este pode tomar a forma do papel da história (. e outros chegam a referir-se à sua origem: “Como começou isto aqui? Bom..” (Antônio Antunes Cruz.. passou a ser envolvido nessa herança 14. ocasião em que foi inaugurado um outro monumento à colonização. no legado cultural. mergulhando. tanto no próprio monumento.. nas raízes açorianas da história local.).. na porta de entrada da Ilha de Santa Catarina. Perto da casa do Padre. mas este é o preço do progresso”. na casa que hoje é do Doutor Modesto.” O engenho parece. o anúncio parece refletir um pensamento que aceita o fim do engenho. Entretanto. ocorreu. é menos recente. Portugueses e açorianos não têm mais nenhum. onde uma roda de carro de bois e uma representação do boi (elementos fortemente ligados ao engenho) foram colocados. passando pela sua evolução tecnológica..) O estudo que desenvolvo em relação aos engenhos tem essa linha de abordagem” (1989:321). que também reflete-se na carta citada sobre a morte de Seu Chico. e algumas vezes a própria memória. para usar um termo empregado por Piazza (s/d: título). por ocasião do primeiro Congresso Catarinense de História. O Alto Ribeirão. passados quarenta e oito anos daquele evento. Dizem que um tal Manoel da Nóbrega foi quem deu início ao Ribeirão isto há mais de duzentos anos. se o primeiro monumento foi erguido à brasilidade. do tipo de cultura nele desenvolvido.)” (1992: 59-60)..representa bem a visão mais comum do engenho na imprensa atual. assim. Os alemães eram muitos. contudo. . como se dissesse “é uma pena que o engenho se foi. como lembra Jim Sharpe: “Os propósitos da história são variados.) autoridades relacionadas a nossa cultura: criem condições para que esse engenho volte a funcionar lá no próprio local. à cabeceira da ponte Pedro Ivo Campos. No ano de 1948. em Florianópolis. de um sentido de sua origem. Começava a preocupação dos autores catarinenses em destacar a singularidade e brasilidade da cultura catarinense. Ali podemos ter uma visão completa de como funcionava uma das principais atividades dos colonos açorianos.

não deixou esconder a cordialidade da boa matuta que é. apud Pereira. Esta foi uma imigração planeada. Ao chegarmos lá.” (Waldemar J. Numa mão a enxada. o tempo voando. Uma imigração para nós é porém especial. eles metiam o arpão com a mão e iam bem perto do bicho. na segunda metade do século XVIII. são discutidas. às origens e à memória do passado. Desde logo na arquitetura.. E hoje por todo o Brasil Meridional podemos encontrar sobrevivências culturais que ligam essa Região aos Açores. Fomos pioneiros. É o caso do jornal Ô Catarina! . cit. Mostrou-nos sua morada. preparamos a chegada de outros povos com quem hoje. Deixamos nossa marca. que possa ser vendida. Aquela que. onde essa questão. do qual têm se utilizado os historiadores. Como encaram os próprios açorianos todas essas questões? Abaixo. (. Por ordem de El-Rei! Não partimos isolados para nos integrarmos em sociedades pacificadas. A cachacinha era a mais pura que já tomamos. Aqui partimos com uma missão previamente definida: povoar e defender os agricultores e soldados. outras idéias referentes à história catarinense também freqüentam as páginas dos jornais contemporâneos. da Silva Neto e Maria Albertina Emerim. Lá bebemos uma água muito gostosa que dá em todos os cantos por essas Bandas do Ribeirão. como acompanhando nosso choro.A minha mãe contava.. op. apud Pereira. nos levou até Santa Catarina.” (Etelvina L. (. (.). Entretanto. De facto. Recentemente (julho/agosto de 1996). como vimos. Pelo perigo. 26 e 27 de Agosto [de 1996]. e as origens açorianas de nossa cultura novamente levantadas. e a imprensa. É difícil descobrir se essa noção de herança açoriana é expontânea ou se foi adquirida com leituras ou informações. ainda em uso. na culinária nos usos e nos costumes.. Sinhá Alaíde nos apresentou ao alambique e nos serviu cachaça de um barril. uma edição dedicada aos 250 anos da imigração açoriana foi lançada. Além do anúncio em homenagem ao aniversário de São José. das quais a imprensa apropria-se para formar outra imagem do engenho.). na outra o fuzil. Com os naturais. temos um exemplo: “É hoje um lugar comum dizer-se que os açorianos são um povo de imigrantes. cit. e convidou-nos a entrar. op. antes de saírem. é interessante que a memória se aproprie desse discurso açorianista. transcrito. levando o progresso e desmontando o engenho. e há jornais específicos.. que nos cativou. Mas ainda remete-se ao legado açorianista.. A cada porteira fechada sentíamos que voltávamos à civilização. as peculiaridades e “costumes tão bonitos e perdidos no tempo”.. que é o único em atividade em todo o Desterro. marcamos uma presença cultural e ajudamos à construção de grandes e prósperos países. Na casa encontramos duas relíquias remanescentes da época da colonização — o engenho de farinha de mandioca. (. as nuvens. as histórias.. Em alguns. começaram a nos molhar.) (. e um alambique. a presença do Presidente do Governo da Região Autônoma dos Açores e de uma numerosa caravana cultural testemunhará o orgulho e a gratidão dos açorianos de .. eles se confessavam e tomavam comunhão. e também outras..). O andar lento do tempo. no artesanato. Na volta. publicado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC). em meados do século XVIII. viemos ‘cangados’ com coisas boas do Sertão e felizes por estarmos novamente em contato com a natureza. Também envolvido nesse discurso está o aspecto de rusticidade e beleza que evoca (ou ultimamente tem evocado) o campo. convivemos e ajudamos a prosperar o Estado de Santa Catarina. já organizadas. Nossos corações começaram a chorar. Era assim como lá nos Açores. as cantorias. que quando eles iam para o mar pescar baleia. foi substituído pelo correr dos automóveis. quando sucessivas levas se dirigem para o Brasil. acima transcrito.) Fundamos cidades.) A 25. mas também na música e na dança. com outras línguas e outras culturas onde seríamos mais uma minoria a juntar com outras minorias. agora os descendentes. Apesar da pressa.. O cheiro daquele lugar era contagiante. a História registra saídas de açorianos para se fixarem noutras terras logo após o povoamento das Ilhas. Silva Heidenreich. existem seções especialmente dedicadas ao resgate cultural. encontramos Sinhá prontinha para dar trato aos animais. como se percebe no texto a seguir: “No Sertão dos Indaiás vive Seo ‘Chico’ e sua companheira ‘Sinhá Alaíde’. em Santa Catarina.). pelas rodas do carro de boi. Sobraram do engenho as lembranças. Por outro lado.

sem a observância de critérios ambientais. Ô Catarina! . necessita abandonar a dimensão contemplativa . valores e crescem juntos. necessariamente. passa pela via da sua incorporação sustentada como componente do produto turístico: (. representarem-se como portadores da História de Santa Catarina . Uma ressurreição do conhecimento da origem.. as árvores genealógicas. causará inúmeros impactos. aponta o açorianismo como pertencente à invenção e criação historiográficas. portanto. e também faz parte do discurso da imprensa sobre o tema.) Portanto. Uma concepção que possibilitasse ao litoral e seus habitantes. ou pelo menos alguns deles. fundamentada numa ascendência comum.espetáculo e em prol da interativa.. Levantou as questões das realizações. surgidos num momento específico como contraponto ao germanismo (não querendo afirmar.. dentro da política de nacionalização. passará a receber contínuos fluxos de visitantes que provocarão inúmeros impactos sócio .  Os aspectos gastronômicos necessitam estar disponíveis em espaços que permitam o contínuo acesso dos visitantes. no âmbito do turismo. necessitam ser concebidos e operados sob a dimensão interativa. Ô Catarina! . 15 Duarte Manuel Bettencourt Mendes é diretor do Gabinete de Apoio às Comunidades açorianas. era uma história quase silenciada. no período de instalação da República. O incremento do turismo cultural. 1995: 4). a inexistência de uma cultura.” (Luis Moretto Neto. num artigo enviado ao jornal citado. O tipo de discurso detectado no texto citado e na pesquisa da referida autora é comum entre os autores que tratam de questões relativas à cultura de Florianópolis. enquanto alternativa ao desenvolvimento econômico. Agora. no espaço. esta festa comemorativa do bicentenário da colonização açoriana. os ofícios e as letras.. os objetos artesanais. cit). B. para usar um termo empregado por Pereira. Procurou-se remexer na memória guardada nos arquivos e ‘resgatar’ as tradições que legitimassem a história: a língua. no contexto desse Congresso. O sítio dotado de singular base de atrativos naturais e/ou culturais. em nosso país. inclusive sob o ponto de vista cultural. a preservação dos elementos de referência. era um fenômeno de construção de uma unidade cultural.) Nesse contexto. do legado cultural. as festas. de modo a representar a história viva dos povos. tem como maior desafio. A preservação dos aspectos culturais dos povos. já incorporaram esse nosso produto intelectual. após ser descoberto pelo mercado.. sem que estes venham a sucumbir frente a dimensão da modernidade. (. ainda não se aperceberam que o turista que viaja está em contínua busca de aspectos culturais e geográficos diversos daqueles existentes no seu espaço habitual. segundo depreendemos do texto a seguir. o caráter das regiões colonizadas pelos alemães” (Flores. pautadas pelos ideais e práticas da modernidade.. tendo como eixo polemizador. dos sucessos e fracassos. op. A preservação da dimensão cultural.” (Duarte M.. que resume sua análise do assunto (vide: Flores. A açorianitite. na Região Autônoma dos Açores.hoje pela bela página da História que os nossos antepassados souberam escrever em terras do sul do Brasil. mudanças históricas clamavam pela criação de um novo homem-habitante do litoral catarinense. Os atores sociais responsáveis por esta prática. A história da população do litoral catarinense originária doa casais açorianos. e escreveu este artigo especialmente para o jornal Ô Catarina! . mas situando historicamente o discurso açorianista).)  Os Museus. e definiu culturalmente a identidade açoriana.culturais. em locais que abrigavam edificações de cunho histórico regional e/ou internacional é usual. a autora lembra que: “ No começo do século. quando as elites ansiavam por modernizar a cidade. Esse discurso não modifica muito. em se tratando de autores catarinenses. o açorianismo. e que define um exagero de entusiasmo com a questão açorianista (1989:317-321).. Mendes. Foi a realização do congresso que tematizou a colonização açoriana. (. a partir do Primeiro Congresso de História Catarinense (1948). op. 1991. cit. no âmbito da atividade turística. 1996:2)15 Parece que os próprios açorianos. particularmente. Situando este discurso historicamente. a construção de grandes obras. Flores (1995:4).) . onde residente e visitante permitam conhecimento. envolvendo direta ou indiretamente o engenho e a farinha. configurada como indolente e incapaz de abraçar as causas do progresso. produziu-se uma imagem negativa da população litorânea. com isso. que fala da preservação desta tradição açoriana como importante ao turismo cultural: “A incorporação da atividade turística. que definisse a brasilidade do Sul do Brasil. parece ser uma inflamação bastante útil ao marketing turístico.

pela semelhança cultural. cit. neste sentido? Para ilustrar este questionamento.. desembarcaram na Ilha de Santa Catarina os primeiros colonos açorianos e madeirenses. fruto da diáspora espontânea empreendida pelos moradores do arquipélago em meados do sec. ao cardápio dos colonizadores. Aqui. um conjunto de produtos. Os artigos foram escritos por professores ligados à pesquisa e ao debate desta questão. pois o trigo não se prestava ao cultivo e a mandioca era já utilizada pela população local como um dos principais alimentos. acima transcrito em parte. ou por outras pessoas diretamente envolvidas nela.. Nos Açores. Rapidamente desenvolveu mecanismos de adaptações. Dentre as transformações perceptíveis que tiveram reflexos profundos nas suas vidas e dos seus descendentes aponta-se: — A quase toda substituição da farinha de trigo pela da de mandioca. procuram a união através da identidade cultural. Os textos acima são muito significativos. 16 O professor Vilson Francisco de Farias é Coordenador do Núcleo de Estudos Açorianos. conforme lembra o texto abaixo: “ Trouxeram para Santa Catarina uma bagagem de conhecimentos técnicos. e foi desenvolvida graças à criatividade dos povoadores açorianos. Mas o jornal Ô Catarina! é editado com um fim especifico. que somada a seus donos foram fundamentais na consolidação do processo povoador da região. os descendentes de açorianos somam mais de um milhão de indivíduos. — A mudança do padrão alimentar. pois a mandioca é nativa das Américas e sua farinha. é ilustrado por duas fotografias. Em Santa Catarina. usada pelos nativos muito antes de sequer suspeitarem os europeus da existência deste continente. ela incorporou-se. estes dois pontos do globo” . tradições. . tanto em qualidade quanto na produtividade. aos engenhos de farinha.). Origens e Destinos de Uma Cidade à Beira-Mar. por produtos abundantes na região. A farinha.) Estes açorianos que o tempo separou por mais de duzentos anos. Será o jornal um bom exemplo do que a imprensa traz. tais como: beiju. Entretanto. de Farias. A maior parte deles se encontram no suplemento Florianópolis. — A aplicação da tecnologia dos moinhos de trigo. como padrão alimentar básico. assim. (. entre outros. serão colhidos exemplos do jornal Diário Catarinense. um saco de farinha de mandioca.. costumes. op.). que nem o tempo foi capaz de apagar. transformando alguns dos seus valores básicos e adaptando outros que encontrou em uso na região. uma delas. Conseqüentemente. São produtos comestíveis. XVIII. Ô Catarina! . por uma fundação ligada ao governo (FCC). de cinco de março de 1996. O conjunto dos suplementos traz artigos referentes à história. lançado pelo jornal em séries (sendo este o quinto número) em homenagem à capital.. um vencedor. Mas ela não pode ser chamada de herança açoriana. onde vários deles morrem — muitos sonhos e quase nenhum direito. (Vilson F. inclusive dos açorianos.. são raros os que conhecem a existência de uma população tão numerosa. só agora tomando consciência das suas origens culturais. no ‘Novo Mundo’.. entre os seus 250 mil habitantes. e representam bem a busca das raízes e origens. Esta tecnologia é exclusiva do litoral catarinense. Sebrae e FCC). Entre eles. que construíram em torno dessa produção toda uma cultura. hoje. caldo de peixe e camarão(. que una. qualificados como “artesanato de referência cultural”. havendo uma progressiva substituição dos cereais (trigo e cevada) e carne. como substituta do trigo. uma manchete anuncia: “ CHEGAM OS AÇORIANOS Em 1749 [sic]. (.O artigo. como a farinha de mandioca e o peixe. Superou os desafios em adaptar os seus tradicionais cultivos e presença de novas doenças tropicais. por outros que têm no peixe e na farinha de mandioca os ingredientes básicos. à cultura e a debates desses aspectos. está inserida no contexto das referências culturais. substituiu-se muitos dos pratos gastronômicos dos Açores. Neste número. foram mantidos pela cozinha dos descendentes dos açorianos..(. O açoriano mostrou-se forte. Trazem na bagagem — depois de uma dura travessia oceânica.) 16. da Universidade Federal de Santa Catarina. abrindo perspectivas à criação de um corredor turístico. de uso no arquipélago. que fazem parte de um projeto chamado Valorização do Produto Artesanal Catarinense (do SENAI/LBDI. os quais revolucionaram o processo produtivo da farinha de mandioca. rosca de polvilho. grande parte.) Que este mergulho no tempo sirva de motivação a uma aproximação efetiva entre os habitantes dos Açores e os do litoral Catarinense. dentro do discurso açorianista. esperam encontrar o eldorado que lhes foi descrito: terra fértil.

também na imprensa. Os engenhos. os usos e costumes têm raízes açorianas. a roda cevadeira e a hélice do forno. e apresenta um foco de resistência às mudanças.. O engenho.. à qual poucos resistiram.” Essa resistência. morrendo. Explica. No engenho moravam e trabalhavam 12 pessoas.) O engenho. manifestação cultural.. o texto continua informando sobre Seu Chico: “(. (.(. mais uma vez. eu cobro pelo meu’. como a carta transcrita anteriormente. ‘As pessoas iam casando.” O artigo é ilustrado com uma fotografia de Seu Chico no engenho.) Seu Chico vive (. vai avisando. Isso conduz a duas idéias básicas: o tempo da tradição e a importância econômica do produto. como nos velhos tempos. Francisco Tomás dos Santos. e. o engenho do sr.) ‘distante da cidade’. . ‘Todo mundo cobra pelo seu trabalho.. ( o Seu Chico.. Com o subtítulo O último senhor de engenho da cidade.) A vida já foi diferente lá para aqueles lados do Sul da Ilha. personagem erigido como foco de resistência de uma cultura. Estaremos assistindo ao renascimento do engenho.. Nela. hoje a farinha tem pouco valor econômico. mudando de lugar. adaptando a tecnologia das atafonas. suscitou uma série de preocupações neste sentido. ou como um artigo de decoração? Ou o engenho. que morre como centro produtor e reencarna como peça de museu. entretanto. como é conhecido — que ali vive e trabalha há mais de 50 anos.. agora pode ser fonte de renda.. pela força elétrica. herdado do avô. explicando que ele “mantém no Sul da Ilha de Santa Catarina um engenho movido por tração animal.’ Soçobrou! Ironia para uma atividade que caiu em declínio a partir da década de 60. animais.implementos agrícolas. Essa busca desemboca. de porta em porta.. azenhas e moinhos à produção da farinha até a evolução tecnológica. fazendo girar com tração animal velhas engrenagens com nomes esquisitos — ‘a almanjarra faz girar a roda bolandeira que move. e tem mais duas chamadas que servirão para exemplificar o tipo de imagem feita tanto do engenho como das discussões sobre as origens açorianas: “Colonos implantam os engenhos de farinha” e “Resgate da memória tem origem em confronto”. através do turismo. ainda. atrai a visita de turistas. poucas foram cumpridas. É o engenho de Francisco Tomás dos Santos — Seu Chico. Mas o questionamento desse tema também está presente no suplemento do Diário Catarinense. (. moendo cana. a manchete é ilustrada com uma fotografia colorida de uma das ilhas do arquipélago dos Açores. Ele é o representante de uma cultura. Seu Chico começou a ajudar no serviço desde os sete anos e não parou mais.. antes força econômica pela produção. Sinal dos tempos. compradores — principalmente de cachaça — e pesquisadores universitários. mantendo o uso da tração animal.). sob o título Portugal x Alemanha: Confronto resgatou memória. como era o trabalho no engenho. Restou aos colonizadores a tarefa de fazer prosperar a Vila de Nossa Senhora do Desterro. uns 3000 sacos de farinha.”. Desde a vinda dos açorianos. finalmente. representante do legado açoriano. informa com jeito de quem aprendeu ligeirinho a lição da cidade. com a intuição de que já se transformou em atração turística. que substituíram o trigo pela mandioca. mantendo suas características originais e tradicionais. farinha e dinheiro. ele está na raiz cultural que precisa ser buscada..) ‘Agora estou cobrando R$ 40. a reportagem.00 para tirar fotografias do meu engenho’. praticamente inalterado por mais de um século. De todas as promessas. só sobrou eu. com o boi cangado. reaparece nas buscas às raízes da cultura e da história da Ilha? O recente assassinato de Seu Chico.(. hoje Florianópolis. Há 15 anos vendia. são estas as idéias trabalhadas no texto. ao mesmo tempo. Apresenta também a substituição da tração humana pela animal. morto recentemente) no sul da Ilha: “Na parte Sul da Ilha de Santa Catarina.’.” Apropriadamente. como nos velhos tempos.. apenas um engenho resistiu à chegada da eletrificação nas zonas interioranas.. o tema “não deixe o engenho morrer” vem à tona. A primeira chamada leva a uma reportagem com o título : O tempo gira da roda do engenho. no açorianismo. Hoje produz 35 a 40 sacos de 44 quilos por ano. sucumbiu diante do apelo turístico. encimada pela expressão engrenagem econômica. bem como pela matéria publicada no Diário Catarinense em 16 de outubro de 1996.

abre-se um novo ângulo ao debate açorianista: o primeiro foi a busca da identidade. uma Ópera da Ilha. É o exemplo do musical Catharina.” Já o professor Luís Felipe Falcão apresenta usa dúvidas com relação ao açorianismo. deixa bem claras estas intenções. como por exemplo distinguir hábitos e costumes já praticados anteriormente pelos vicentistas (como o uso da farinha de mandioca ou a construção de canoas) daqueles que teriam sido introduzidos pelos açorianos. da valorização açoriana como contraponto à teuto-germânica. inclusive contrapondo pontos de vista distintos. O texto da coluna Variedades. Trouxeram ainda valores culturais fortes. o que facilitou a transmissão cultural e a ampliação da população pelos anos seguintes. O engenho e sua farinha estão. É claro que não existem motivos para colocar em dúvida as tradições genuínas preservadas pelas pessoas mais velhas. A visão do professor Farias já foi pontuada acima. Participam desta seção estão os professores Vilson Francisco de Farias e Luiz Felipe Falcão. acima). como os textos deixam a entender.O artigo traz à tona as origens açorianistas. o curioso é esta população litorânea ter sido muito criticada por sua suposta indolência ou aversão ao progresso. que também busca integrar-se com a linguagem popular. Também destaca que a “meta era redefinir a imagem” do povo litorâneo. devido ao fato de terem vindo com estruturas familiares completas (pai. e pondera: “ Os açorianos são os responsáveis pela marca cultural da Ilha de Santa Catarina. dotados de conhecimentos técnicos. Em Santa Catarina. que fundiu-se com os valores assemelhados já praticados na região. Mas a sereia açorianista é encantadora. mãe. na cultura refinada. onde procurou definir-se o caráter brasileiro de Santa Catarina. em oposição ao avanço do germanismo. e não apenas a “preocupação com a sobrevivência de uma cultura”. onde levanta a questão A cultura açoriana é realmente predominante na Ilha?. e o segundo mergulha na legitimidade desta busca. filhos). aqui ou em qualquer outro lugar do planeta. em dois pontos principais: a especificidade e a originalidade. De imediato. E busca sua legitimidade tanto no debate intelectual (do qual tivemos uma amostra. transformando-o qualitativamente e incorporando em seu processo a população local. Além disso. Neste contexto. de grande apelo religioso e místico. representa sobretudo o esforço de alguns intelectuais para ressaltar sua própria importância e singularidade. por outros grupos ou indivíduos (é o caso entre outros. situadas no I Congresso de História Catarinense. explica de que tipo de cantorias são apresentadas: .” Assim. a partir de meados deste século. eram numericamente superiores. pode-se afirmar que este assunto traz consigo várias dificuldades. recentemente. a começar pela chamada: “Memória CANTO DA ALMA AÇORIANA Antigas tradições já recebem a atenção após o resgate das cantorias com três ilhoas que as apresentam em Catharina” Em seguida. como deixa claro seu texto: “É um tanto difícil avaliar com precisão o significado da chamada ‘cultura açoriana’ entre a população residente na faixa litorânea do Estado de Santa Catarina. ou como estimar e conceituar a especificidade açoriana no contexto da cultura portuguesa (Uma outra cultura? Uma cultura regional?). porém. o que permitiu adaptarem-se ao sistema de produção local. no Diário Catarinense (de doze de julho de 1996). do tema do boi em divertimentos populares de várias partes do Brasil). visto até então como indolente e preguiçoso. através da seção Ponto de Vista. Os problemas aparecem quando se percebe que algumas dessas tradições são também partilhadas. é inegável que a descoberta da açorianidade. ao noticiar o fato. como. em meio aos impactos da modernidade e á ascensão sócio-econômica de elites provenientes das zonas de colonização alemã e italiana. na qual apresentou-se um trio de senhoras cantando versos da ratoeira. certamente com variações. ele apoia-se nas estatísticas populacionais e imigratórias. Na sua resposta à questão. Apresenta um debate atual da questão. no interior deste debate. incluindo aí a região de Florianópolis.

A lida do engenho. E hoje. até mesmo restaurantes (que usam suas peças na decoração) e uma manufatura de bijú e outros derivados da mandioca (Engenho dos Açores) remetem a ele. viram nascer seus netos. Dorília. Mas. portanto. Em troca. outro motivo foi a preocupação em preservar este tipo de expressão folclórica’. 17 É interessante observar que Orleans não possui o açorianismo como foco de identidade. ‘Queríamos mostrar as coisas como elas realmente são. montado ao ar livre). Maria e Rosalina. uma Ópera da Ilha. não se interessam em preservá-la.“ A cantilena de roda é um misto de choro. Os aplauso foram generalizados. elas viveram esta tradição em seu cotidiano. participando de um musical peculiar: Catharina.. ‘Do ponto de vista humano. acham-na feia. a tradição legitima a Ópera: “Marisa Naspolini. e até (por que não?) se posicionarem. No Canto da Lagoa. como Urussanga (onde fotos de um engenho enfeitam um restaurante). Desde meninas. roda bolandeira e canga como lustres. e nos colhidos do jornal Ô Catarina! . Existem. Não apenas a imprensa utiliza-se do engenho como imagem da cultura local. bares (na região de Paulo Lopes. o engenho e seu produto. Foi lá também que criaram seus filhos. infelizmente. Houve quem perguntasse : “como é que no teatro ficou tão bonito?”. salienta o museólogo Gelsi José Coelho. As mulheres se uniam para lamentarem. Em princípio. reproduções de engenhos na UFSC (pertencente ao conjunto do Museu de Antropologia) e na cidade de Orleans (Museu ao Céu Aberto) 17. Sempre discreta. peças do engenho estão em exposição em diversos locais. mas artisticamente. seria ideal’. quer para exaltá-lo. de alívio. ainda. ‘Entretanto a identificação ocorrida entre a platéia e as senhoras do Canto da Lagoa é um exemplo de que elas ainda são capazes de aflorar uma alma bem açoriana’. nestes textos. coordenadora geral de Catharina. entre 69 e 75 anos. difere dos textos anteriormente colhidos na intenção: o suplemento foi elaborado com o fim de se montar um caderno de artigos sobre a capital. e para isso um elemento nativo. conta que a opção de inserir Dorília. de prece. Agências de propaganda. ... como no anúncio citado do aniversário de São José. entre outras cidades.. o Peninha. permanece o discurso em torno do açorianismo.” O artigo acima não faz parte do suplemento em homenagem à capital. cedia tempo e lugar aos folguedos exclusivamente femininos da ratoeira. reclamarem. algumas delas são usadas como enfeites de jardins e pavilhões de exposição (fusos da prensa como suporte de vasos. nestes momentos. complementa Marisa. A ratoeira está entre as tradições que já não encontram muito espaço na sociedade. E neles aparecem. criticarem. A propósito.. Rosalina e Maria no elenco teve dois bons motivos. ” Feitas as explicações. a partir da apresentação das cantadeiras no teatro..). direta ou indiretamente. Mas acabou se decidindo por uma linguagem mais popular. há um bar com o nome Engenho. mas sim o “italianismo”. edifícios e escolas (Escola Engenho) o usam como nome. que não fosse apenas uma releitura. Em princípio a direção do espetáculo pensou em transmitir estas manifestações através de atores profissionais. Até que o grupo apresentou-se no Centro Integrado de Cultura. Talvez porque o palco tenha legitimado a tradição. se acostumaram a cantar logo que terminavam de raspar a mandioca. de lá saíram para mostrar um pouco da tradição açoriana no palco.. e o acima transcrito de identificar um interesse na tradição. tendo ao seu lado o próprio. quer para debatê-lo. o lamento da descontinuidade da tradição é abordado: os jovens não compreendem a tradição. uma Ópera da Ilha. solicitarem. engenhos esuas peças estão presentes em outros locais de colonização não açoriana.

a melhor farinha de engenho já foi produzida). Muito mais que marketing turístico. E.São José.. recentemente (a partir de 1990). assumiu o caráter de defensora da brasilidade e agora vem sendo usada no turismo cultural . ainda tem muita história para contar..Ainda há as feiras especiais. em Barreiros (onde. P.(Diário Catarinense.) A Festa é(.. organizando um programa em torno dessas atrações. Santa fé. os eventos culturais. e mesmo um grupo musical catarinense já teve o nome de Engenho. tem muita coisa pra contar... cujo idealizador foi o Padre Agostinho Staelhein.) a confraternização especial que desfruta da memória dos produtores de farinha da região. ele comenta na crônica “Luz sobre as águas”: “O dia em que Floripa [Florianópolis] iluminar um simples engenho de farinha ou as dunas da [Lagoa da] Conceição. o seu produto ganhou uma festa temática.” (Folder da VII Festa da Farinha de 6 a 9 de junho de 1996.). Um exemplo forte desse último aspecto foi levantado por Sérgio da Costa Ramos.. ela foi qualificada como atrasada. É sinal de que. sobre o engenho. Farinha.) farinha • Peças de Engenho com explicações sob [sic] funcionamento. em erguê-lo como chamariz para um turismo cultural mostra. 12/11/96) Símbolo de uma cultura.) OUTRAS ATRAÇÕES • • Parque de diversões Rosca. Beijú.. (. na realidade. Antônio A. desde objetos até acidentes naturais. agora isto é uma questão de sinal de vida inteligente. mas vou parar por aqui. Lembramos a seguir alguns dos produtores da época: • Vitalino • Belarmino • José Zuíno • Antônio França • Antônio Cândido • José Antônio • Guilherme Zuíno • Domingos Pedro Hermes (.. Toda essa preocupação com o engenho.” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE. “ Trabalho e lazer numa localidade pesqueira . Como diria o sr. articulista do Diário Catarinense. como é o caso da iluminação das cataratas do Niagara. Rosca de Massa. C. uma mudança de discurso. depois. Cuscus [sic] Melado e todos os produtos derivados de (. produzida pela paróquia da Igreja Católica: “POR QUE A FESTA DA FARINHA? A Festa dos Sagrados Corações na Paróquia vem sendo comemorada desde 1990. monumento da vitória açoriana. foram destaques no passado. o engenho não pode mais morrer com seu dono.. É preciso iluminá-lo e erguer em torno dele eventos. de acordo com diversas informações. É preciso salvá-lo. Primeiramente. não apenas sobre o engenho. Fazendo um comentário de como são hábeis os ingleses e norteamericanos em aproveitar ao máximo dotes turísticos. os ingleses vão começar a achar que há sinais de vida inteligente no Sul do Brasil ”. de. mas sobre a própria cultura local. A produção de farinha e seus derivados na região de Barreiros . Cleide M.. da Cruz (apud Pereira:264): “Bom.

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