A POLÍTICA EXTERNA NORTE-AMERICANA E O DISCURSO ANTITERRORISMO Graziele Oliveira Saraiva1

Resumo
A política externa norte-americana e suas modificações na esteira dos atentados terroristas ao World Trade Center. Análise da postura no pós Guerra Fria, desde a inaugurada Nova Ordem Mundial, até a chamada Doutrina Bush. A guerra contra o terror, justificando a utilização de ações preventivas, como uma forma de levar a guerra até o inimigo. O 11 de setembro como um divisor de águas dos tempos modernos, inaugurando uma nova fase das relações internacionais e ditando as novas regras na condução da política mundial. Palavras chave: Política externa norte-americana. Petróleo. Oriente Médio. Relações Internacionais. Eixo do Mal. Iraque . 11 de setembro.

Introdução Após os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, o mundo todo incorporou ao seu cotidiano, a palavra terrorismo, expressão até então empregada de maneira muito pontual para representar a ação de milícias armadas em conflitos étnicos, religiosos ou até mesmo de caráter separatista. Todavia, a partir do exato instante em que a primeira das torres gêmeas foi atingida, passou a fazer parte do cotidiano de cidadãos de todas as nacionalidades, credos, ideologias, ultrapassando todas as fronteiras. Analisar como foi construído o mito de um terrorismo universal e as mudanças na política externa norte-americana e do cenário internacional, após o 11 de setembro, é a pretensão deste artigo. Através da análise crítica de alguns referenciais teóricos de Relações Internacionais e de História Recente, busca-se

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FACULDADES PORTO-ALEGRENSES – FAPA -ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA. Orientador: Ana Lúcia Danilevicz Pereira - analuciapereira@fapa.com.br Porto Alegre 2007. grazistars@terra.com.br 181 Monographia. Porto Alegre, n. 3 Disponível em: http://www.fapa.com.br/monographia

identificar os atores deste conturbado cenário internacional, dando ênfase às estratégias americanas e sua relação com o mundo árabe. O que efetivamente mudou após esta fatídica data? De que forma os Estados Unidos conduziram sua política externa na construção deste discurso antiterrorismo? Como auxilio à compreensão do cenário político internacional neste início de século, procurando compreender os mecanismos utilizados pelos estrategistas americanos, no fomento e consolidação de um discurso antiterrorismo e os instrumentos a ele relacionados, utilizaremos como base de análise duas obras que tem se colocado como importantes interpretações do atual período histórico: O Fim da História de Francis Fukuyama e O choque de civilizações de Samuel Huntington, visões que se contrapõem e representam de forma excepcional aquilo a que se propõem. 1. O Império e o Fim da História 1.1. A política externa norte-americana no pós Guerra Fria A emergência de uma força política fora do eixo europeu foi uma das principais modificações no cenário político do século XX. A mutação do sistema político, até então predominantemente europeu, afetou em cheio as relações internacionais, trazendo à tona a necessidade de modificações na cena internacional. Até 1940, os Estados Unidos praticavam uma política isolacionista. Durante a Segunda Guerra, eles configuraram-se como potência militar, política, econômica, inaugurando uma nova fase. Representando e liderando o bloco ocidental, aliaram-se à Europa para fazer frente à ameaça comunista, liderada pela URSS, a potência do bloco oriental. Desta aliança surgiu a OTAN, em 1949, como órgão condutor desta unidade militar. A política externa norte americana, já de caráter intervencionista e conseqüentemente imperialista, não podia deixar ascender um opositor de tal
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a guerra deixava de ser um instrumento viável da política internacional e.magnitude. Sua teoria tornou-se ícone para os liberais e neoliberais. sempre estiveram relacionados a questões ideológicas. os conflitos. em 1989. no início dos anos 90. com maior participação de atores privados e transnacionais no Sistema Internacional. configurando as origens do conflito. passando por diversas fases. dando lugar à supremacia do capital. A bipolaridade. com o desgaste do lado socialista com pontos de estrangulamento internos e frente a pressões externas. Francis Fukuyama (1992) decretou o Fim da História.fapa. o The National Interest. que muito bem souberam usufruir suas conclusões.com. em um periódico americano.br/monographia . temos a derrocada do maior símbolo da divisão entre dois mundos. Porto Alegre. aparentemente. com um período de crescimento econômico e estabilidade internacional desenhando-se no horizonte. Nesta lógica. Com a queda do Muro de Berlim. estava fadada a era da bipolaridade e de antagonismos entre as 183 Monographia. Entendendo o capitalismo e o liberalismo como modelos triunfantes. assim como pela disseminação da cooperação e dos valores associados à democracia e à liberdade econômica. que deve ser encarado como complexo e racionalmente explicado à luz das enormes transformações que marcaram o século XX. mediados por organizações internacionais e relações diplomáticas entre os Estados. com a derrota do comunismo e a afirmação do capitalismo como modelo triunfante. ainda em 1989. ao longo da história. Neste novo cenário. capitalismo versus comunismo. iniciou-se o conflito da Guerra Fria. 3 Disponível em: http://www. o sistema caminhava para um período de paz permanente. Segundo ele. É o início de uma nova fase. com ideologia contrária à sua. revestida de uma racional hostilidade controlada e manteve-se por quase quatro décadas. partidário desta visão otimista de encerramento pacífico da Guerra Fria. Frente a esta incompatibilidade ideológica e de objetivos entre os dois lados. afrontou-se. em uma região considerada vital. n. do ponto de vista de estratégia geopolítica. que não cabe aqui periodizar. através da publicação de um artigo de mesmo nome.

a homogeneização em torno dos avanços tecnológicos. desde os ataques de 11 de setembro. tornando todas organizações sociais parecidas. a modernização e o desenvolvimento tecnológico.especificamente. Conferia às ciências naturais a responsabilidade de uniformizar as sociedades.com.fapa. Porto Alegre. no momento em que esta tecnologia fosse incorporada. considerava-se um neoconservador. européias e asiáticas. Fukuyama transcorre sobre a política externa de seu país. ao assustador aumento do desemprego global.o que fomenta ainda mais o desequilíbrio ambiental. quase naturalmente. à redução dos custos de matérias primas . intitulada O dilema americano.nações.br/monographia . Como conseqüência deste processo. e faz uma espécie de mea culpa com relação à forma e à dimensão que seu famoso artigo atingiu. Fukuyama. prevalecendo a tendência da homogeneização de idéias e ações. Hoje em publicação recente. de influência hegeliana. temos assistido à crescente e desenfreada competitividade no mercado internacional. Reflete acerca da mudança na condução da 184 Monographia. diretamente atrelada à globalização. quando da redação de seu controverso artigo. à valorização e à exploração de mão de obra barata . Posiciona-se firmemente contrário às duas guerras .Afeganistão e Iraque . Com a chamada Terceira Revolução Industrial. explorada e terceiro mundista pelas grandes corporações norte-americanas. caracterizando as contradições que envolvem a construção e manutenção desta nova hegemonia. mas com a idéia de que ocorrerá. estava a aproximação maior entre os povos e a disseminação de uma cultura consumista universal. independente de origens históricas ou culturais. 3 Disponível em: http://www. ex-funcionário do Ministério de Defesa norte-americano. n.em que estiveram envolvidos. já não podemos concordar. tornando possível a acumulação de riquezas e favorecendo potencialmente o processo de homogeneização das sociedades. movendo o mundo em direção ao capitalismo. favorecendo a modernização econômica. Defendia que a lógica do capital estaria determinando a vida de toda a sociedade e realmente está.

Porto Alegre. do qual a indústria bélica norte-americana muito se favoreceu. pois antigos padrões e atores. n. Para os que criam no efetivo Fim da História. que já se arrastavam por 185 Monographia. inaugura. 1. uma vez que sofreram um enfraquecimento interno.br/monographia . Desta forma. apontando assim os erros do governo Bush na condução de sua política para barrar o terror (Fukuyama. o que se convencionou denominar nova ordem mundial. a ausência de uma ideologia alternativa e eliminadas as divergências entre os povos. na política internacional.com. um futuro de incertezas se apresenta. a Guerra Fria nos deixou o desenvolvimento tecnológico. de maneira realista. ao neoliberalismo. percebemos que estamos vivendo novamente esta transição e com ela a necessidade de reafirmação norte-americana. às transnacionais e à globalização. Como herança. somada ao aprofundamento de novas formas de dominação econômica. 2006). dando lugar a programas multilaterais. deveriam ser revistas as estratégias de guerras preventivas. no momento em que ocorreram os ataques ao World Trade Center. na qual. Hoje. a idéia da supremacia de um pensamento único apresentava-se vindoura. se não o esgotamento de um modelo em detrimento da superioridade de outro. representando a Revolução Científica Tecnológica (RCT). A história tem se delineado em períodos de crise e transição.fapa. Algo novo se desenhava no céu de Nova Iorque. que. mais adequados ao mundo globalizado.política externa. contanto. 3 Disponível em: http://www. após os atentados de 11 de setembro. a vitória do capitalismo. Nova Ordem. A tese do Fim da História aparentemente perdeu a credibilidade conquistada na última década. o abalo provocado na estabilidade global com a queda súbita das torres gêmeas fez com que revissem seus conceitos.2. não representou o fim da história. A nova ordem mundial e o Sistema Internacional O compartilhamento de valores entre as sociedades. segundo Vizentini (2005).

através do controle de agências de informação espalhadas 186 Monographia.br/monographia . geralmente países fracos. Guardiões da liberdade política e da ordem econômica durante meio século. democracia e prosperidade foi caracterizada pela não violência e pela unipolaridade. toda uma cartilha de valores ocidentais. tendo a Rússia também como forte candidata a este abalo. eles surgem cada vez mais como fator de desequilíbrio internacional. econômicos ou culturais. Estávamos acostumados a ver neles uma solução.quase quatro décadas mudaram. fazendo ameaça à manutenção de sua hegemonia. A hegemonia norte-americana está diretamente ligada à estabilidade política internacional e para mantê-la. seus aliados locais e os inimigos em potencial. militares. sejam eles políticos. sua presença militar em todos os continentes.com. Incontestavelmente colocam-se no ranking da liderança internacional. as campanhas de mídia globalizada. 2003. o que tornou necessária uma reflexão e conseqüente alteração na postura com a qual vinha sendo conduzida a política internacional. Para manterem-se como única e grande potencia hegemônica. promovendo incerteza e conflito sempre que podem. à proliferação de armas de destruição em massa. Os Estados Unidos estão se tornado um problema para o mundo. n. sem capacidade militar e econômica de fazer frente às ameaças impostas. que conta com um vizinho de peso – o Japão. Com esta nova ordem mundial. emergem a Ásia. Esta nova fase de paz. quanto às ameaças. para tanto estabelecem códigos morais. a exemplo dos Blocos Regionais e do poder limitado a um único estado. p. aos fluxos transnacionais e ao terrorismo como crime internacional. através de sanções aos países mais fracos. No curso contrário aos interesses estadunidenses. A expansão da democracia.fapa. (TODD. novos atores e novas ameaças entram em cena. utilizandose das organizações internacionais. utilizam-se de todos os recursos e mecanismos disponíveis. 09). Asseguram os objetivos geopolíticos do império. é necessário que busquem sua afirmação de forma eficiente. tidos como universais. sobre as quais exercem influência direta. cujo centro é o gigante chinês. 3 Disponível em: http://www. Porto Alegre. enfatizando a necessidade de combate o narcotráfico e de controle da economia de mercado. e a União Européia.

onde se desenvolvem as relações internacionais. 165). mas em toda a sua complexidade e abrangência. 1.fapa. pela heterogeneidade de seus membros. Sistema Internacional (SI) refere-se ao conjunto de relações entre atores. acima de tudo. caracterizado. 3 Disponível em: http://www. p. Às Organizações Internacionais compete a responsabilidade de condução da diplomacia entre os Estados.) a chave para o entendimento do desafio ideológico da heterogeneidade reside na identificação do papel ideológico preexistente da homogeneidade e de seu fortalecimento. surgem no final do século XIX.3.br/monographia . de caráter cooperativo. (. Os referidos atores são os Estados e as Organizações Internacionais regidos pelas leis do Direito Internacional. descentralizado e sem aplicação de formas de poder coercitivas. um poder econômico rival-. uma invasão. 187 Monographia. A compreensão de sua dinâmica é fundamental a qualquer análise de conjuntura e política internacional. com relativa interdependência e submetidos a regulamentações comuns. no qual as Organizações Internacionais e os Estados são os responsáveis por sua orquestração. inseridos em um mesmo meio. Trata-se de uma espécie de cenário.pelo mundo.com. (HALLIDAY. Objetivamente. aparentemente auto-sustentados e autônomos. atuando como mediadoras e procurando alternativas às questões internacionais sobressalentes. como a chave para a organização das relações entre sociedades. não só nos momentos em que desavenças se desenham.. 1999. mas efetivamente ganham relevância no século XX. são algumas das práticas desta afirmação. As Organizações Internacionais e os Movimentos Antiglobalização As organizações internacionais são grupamentos políticos que têm nos Estados seus representantes e fundadores. Porto Alegre. Entende-se o Sistema Internacional como um espetáculo. mas é igualmente importante na constituição e na reprodução de Estados estáveis.. n. Pelo menos isto serve para ressaltar a importância do “internacional” na analise de qualquer ordem social ou política: o “internacional” não somente se torna relevante quando as coisas desmoronam – quando existe uma ameaça política de fora.

n. político e econômico lhes assegura atuar e intervir nas mais diversas áreas de influência. São anualmente realizadas dezenas de convenções. quando assinada a “Cartas das Nações Unidas”. Ciência e Cultura). Seu caráter técnico. estimular a cooperação internacional nas áreas econômica. Corte Internacional de Justiça. recebe destaque. em 1945. Assembléia Geral. promovendo o respeito às liberdades individuais e aos direitos humanos é a sua razão de ser. em que as pautas variam de acordo com os anseios globais. determinando que seus membros busquem soluções pacíficas para os conflitos que se apresentarem. podendo também ter como membros outros participantes como Organizações Não Governamentais. congregam os Estados. em linhas gerais. social. assegurando. podendo a qualquer momento expor ao Conselho de Segurança seus impasses. Atualmente é composta por seis órgãos principais: Conselho de Segurança. porém o escopo. e a OMS (Organização Mundial da Saúde). aproximando países e fomentando pesquisas e projetos. evitando colocar em perigo a ordem e a paz mundiais. aplicando sanções. na solidariedade internacional.fapa. respeitando a autodeterminação dos povos e. Criada no pós Segunda Guerra Mundial. o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância).Em torno de um objetivo comum. dado seu caráter diplomático e de relevância política no cenário internacional. humanitária e cultural. versando a multilateralidade e uniformização dos tratamentos. A ONU. é a garantia da segurança internacional. 188 Monographia.br/monographia . Organizações Regionais ou Movimentos de Libertação Nacional. 3 Disponível em: http://www. com sede em Haia (Holanda).com. Secretariado. objetiva a manutenção da segurança do planeta. encontros. entre os quais os de maior relevância são a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação. a FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação). além dos órgãos especializados. Conselho de Tutela. Fomentar a paz entre as nações e a segurança mundial. Porto Alegre. Conselho Econômico e Social. em sua essência. assinaturas de tratados. os direitos humanos.

br/monographia . sendo cinco de representação permanente e com poder de veto (Estados Unidos. vêm se submetendo às estruturas de poder norte-americanas. apresentando-se como uma forma de reconquistar a austeridade que até então lhe competia. no qual desequilíbrio entre seus membros. Promovida pelos grandes conglomerados econômicos e financeiros. China e França). A fragilidade da ONU frente ao poder de decisão americano ficou muito clara no momento da invasão do Iraque. (FUKUYAMA. A ONU não conseguiu ratificar a decisão americana de ir para a guerra. que eram as preferidas pelos europeus como ambientes adequados para as ações internacionais legítimas. 2006. 189 Monographia. A inclusão de novos membros com poder de veto se faz impreterível. 150). e que assinaram a Carta das Nações em São Francisco (EUA). Por qualquer perspectiva. Desta forma. a poluição e o aquecimento global. A globalização como processo irreversível foi a marca do chamado fim da história. particularmente a Organização das Nações Unidas. vaga tão pleiteada pelo Governo Lula. Japão e Itália. Porto Alegre. incluindo. n. atualizariam seus componentes à nova ordem mundial. Rússia. por exemplo. ela fracassou.fapa. 3 Disponível em: http://www. composto por Alemanha. há algumas décadas. nem impedir que Washington agisse por conta própria. como representante do terceiro mundo.O Conselho de Segurança da ONU está constantemente em pauta devido às instabilidades globais. 2 A Guerra no Iraque expôs os limites da hegemonia benevolente dos Estados Unidos. em 1945. Grão Bretanha. Alemanha. p. Da forma como tem sido conduzida. os outros dez são eleitos pela Assembléia Geral e têm cadeira no órgão por dois anos. está a serviço dos interesses do capitalismo em sua fase 2 Os membros permanentes são os países que lutaram na 2ª guerra mundial contra o eixo.com. Mas ela também expôs os limites das instituições internacionais existentes. Ele é composto por quinze membros. já se faz sentir. Índia e o Brasil. Japão. ameaçando diretamente a sustentabilidade do planeta. Mas com ela vieram a acelerada concentração de riquezas. trazendo à tona a latente necessidade de reforma na organização e no Conselho de Segurança. a ampliação da desigualdade e da exclusão social. que asseguram e dão legitimidade a suas ações em nome de uma pseudodemocracia e da expansão do livre mercado.

Porto Alegre. estão indo além. tal como foi idealizada. porém ainda é fraco. publicando trabalhos. intelectuais. Desde 2001. n. utilizando-se da tecnologia como a Internet para propagação de suas agendas. são perceptíveis em todas as esferas da sociedade. Essa sensação de opressão ocasionou a organização da sociedade civil. desigual e reducionista. organizações e pesquisas. Ao que assistimos não é a globalização. seja no Oriente Médio. que não se limitam a intervenções em navios ou a protestos em frente a reuniões de cúpula de Estado. para não dizer insignificante.br/monographia . desencadeando ondas de protesto contra a globalização. Percebe-se. como conseqüência das políticas neoliberais. uma tentativa de “mcdonaldização” do mundo. O Fórum Social Mundial é um claro exemplo desta articulação da esquerda e dos movimentos sociais na esfera mundial. dentre tantos outros. aglutinam propostas. carregada de valores ocidentais tidos como universais. A sensação de sufoco sentida por políticos. das fábricas e pelas massas de desempregados e sem moradia. como descrito por Frei Betto (2002). o Social está em vantagem. Essa globalização econômica e cultural a que estamos assistindo é excludente. 3 Disponível em: http://www. Porto Alegre. principalmente entre os jovens. ou ao menos. pessoas relacionadas à cultura é a mesma sentida pelos trabalhadores do campo. contrapondo-se anualmente ao Fórum Econômico de Davos. Washington. Seatle. Ao menos no que tange o número de participantes. ao imaginar que um mundo onde a variedade e a diversidade reinam absolutas pode se transformar numa grande rede consumidora de fast foods. embora muito timidamente.fapa. como nos foi apresentada.com. A vulnerabilidade e a instabilidade. discutem problemas e alternativas. seja aqui na América Latina. pluralidade de culturas e perspectivas. desenvolvendo redes de comunicação alternativa. o despertar das mentalidades.mais avançada. é sinônimo de negação de direitos e conquistas históricas e não deixa de representar um retrocesso ao defender a idéia de uma visão de mundo dominante. frente ao mar de alienação propagado 190 Monographia. articulando ações.

As Organizações não-governamentais não são reguladas pelo Direito Internacional e sim pelo Direito Local. n. tentando humanizar o mundo. fenômeno este que já estava previsto. como o aquecimento global.com. Não se pode negar o papel destas organizações antiglobalização neste aparente despertar. com redes de ligação planetárias e número de participantes incontável. 3 Disponível em: http://www. Os principais tópicos de luta estão relacionados aos direitos humanos.br/monographia . ideais. Essa luta amplifica o processo de formação de redes e de movimentos civis globais. são incontáveis e algumas de origem duvidosa. A questão ambiental e a nuclear são dignas de destaque. mas o que cabe destacar aqui é a forma como elas vêm pressionando as Organizações Internacionais e os Estados. Assim como representam grupos de pessoas físicas associadas. O desmatamento desenfreado e a descontrolada emissão de gases na atmosfera fizeram com que a camada de ozônio enfraquecesse a sua proteção ao redor da terra e. à luta pela reforma agrária. como cerne de discussões entre ambientalistas e governantes. uma vez que demonstram articulação internacional vultosa. desta maneira variando de acordo com as regras da região onde forem atuantes. como conseqüência. às questões ambientais. há algumas décadas. Podem ser interpretadas como a nova esquerda. à oposição ao agro-negócio. o ponto de maior relevância e pauta do momento é o aquecimento global. aos movimentos pacifistas. com a alta incidência de raios ultravioletas nocivos à saúde da população e o degelo das zonas glaciais. Com relação à primeira. podem ser representantes de empresas transnacionais.diariamente em âmbito global. Elas são muitas e estão espalhadas por todo o mundo. à oposição aos testes nucleares e à globalização econômica.fapa. 191 Monographia. vieram o famigerado aquecimento global. Porto Alegre. integrando grupos. ao invés de aguardarem mediocremente e entregá-lo ‘de bandeja’ às grandes instituições financeiras e de mercado. dada a importância vital que exercem. culturas.

Índia. assegurando cooperação internacional para a utilização civil da energia produzida desta forma. uma onda de protestos por todo o mundo. Firmado na década de setenta. a então URSS. Outro debate que esta em voga é o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. peça essencial ao bom andamento das Relações Internacionais e atual justificativa para intervenções norte-americanas. A negativa unilateral em assinar o protocolo por parte do Estado americano gerou além de desconforto aos aliados europeus. Porto Alegre. reconhecia somente cinco países . Cabe aqui formalizar que o único país da história a usar armas nucleares foram os Estados Unidos. já o governo israelense nega a existência de armas e pesquisas em seu território.fapa. 2. Paquistão e Israel negaram-se a assiná-lo. nem auxiliar sua obtenção por países não autorizados. a China.com. Tal recusa foi baseada no prejuízo à sua economia. O Governo Bush e o 11 de setembro 192 Monographia.Estados Unidos. como uma forma cruel e arrogante de demonstrar sua supremacia militar.br/monographia . Os dois primeiros são reconhecidamente potências nucleares. foi ratificado em 2002 e assegurado por mais de 188 países. Em suma. 3 Disponível em: http://www. visando à limitação da disseminação de armas nucleares e à utilização pacífica da tecnologia nuclear. discutido e negociado em Kyoto no Japão. n. ao detonarem duas bombas em solo japonês. Este ponto tem sido um dos principais focos de tensão contemporânea.Aspirando limitar a emissão dos gases causadores do efeito estufa e sob pressão de Organizações Não Governamentais. organizou-se um tratado internacional. em um contexto de incontestável superioridade americana. no ano de 1997. sem levar em consideração os danos ao meio ambiente e sem avaliar o tamanho da responsabilidade das empresas americanas espalhadas pelo mundo. o tratado objetiva evitar uma guerra nuclear. que estariam obrigados a não transferir armas nucleares. e que oficialmente passou a vigorar somente em 2005.todos membros permanentes do Conselho de Segurança. a Grã-Bretanha e a França . neste processo de desagregação natural.

cercado de assessores linha-dura e ligados a obscuros lobbies. 141). considerado um dos pilares do sistema de valores e da moral que regem a sociedade americana desde a sua formação e peça fundamental para que compreendamos algumas das diretrizes seguidas pelo governo e seus governados. Principalmente em momentos de crise ou ameaça de guerra. tiveram início na indústria do petróleo. Bush. controlada por sua família. desde que ascendeu ao poder. relacionamos valores morais e históricos da sociedade americana. Para melhor compreensão desta rápida aprovação à guerra. 3 Disponível em: http://www. Porto Alegre. Um presidente despreparado. por exemplo. ele surge. (VIZENTINI. Importante legado. em janeiro de 2001. dentro da visão de que “os EUA venceram a Guerra Fria e necessitam colher os frutos”.2. Após ter sido declarado vitorioso na conturbada e suspeita eleição em que venceu por uma diferença insignificante de votos o candidato democrata Al Gore. foi completamente abandonada. tal como vinham fazendo os democratas. indicador que mede o nível de aceitação e aprovação entre a opinião pública. Bush passou a governar ignorando as organizações internacionais. dando lugar a uma visão unilateral que contrariou seus próprios aliados da OTAN. teve já em seu primeiro ano de governo que conduzir as ofensivas militares no Oriente Médio. a expressão “Levar a democracia e o livre mercado a todos os povos do 193 Monographia.fapa. p. particularmente a ONU. cujas atividades laborais. um tanto quanto contraditório. O oportunismo sempre esteve presente na carreira política e empresarial deste filho de ex-presidente. tem se mostrado. começou a reabrir focos de tensão. geralmente. acaba se tornando a tônica de muitos dos discursos em defesa dos interesses estadunidenses. 2OO5. no estado americano do Texas. ironicamente. n.br/monographia . do ponto de vista político. é a herança do Destino Manifesto.com. Sua popularidade. O Destino Manifesto e A Doutrina Bush O Governo do Republicano George W.1. que mergulhou em uma espiral incontida de violência. quase naturalmente e. enquanto abandonava o papel de mediador (tarefa que cabe ao país hegemônico) em conflitos como o do Oriente Médio. teve um vertiginoso crescimento no período subseqüente ao 11 de setembro. refletindo o apoio explícito dado pela sociedade civil americana à guerra contra o terror. A idéia de apoiar a liderança americana nas organizações multilaterais.

sendo atacada em seu próprio território. A Doutrina Bush. hegemonia benevolente. Risco e Guerra Preventiva Todos. está tão enraizada no ideário social. trata-se de uma agenda para a política externa que envolve conceitos como mudança de regime. Ameaça. 2. em todos os cantos. Assim. Porto Alegre.2.com. sem possibilidade 194 Monographia. 428). mas sim a sua capacidade em tomá-las. de algo que até então.br/monographia . o exemplo mais preciso é o Iraque. alterando a constituição e a organização política . n. guerra preventiva e excepcionalidade. Hoje o problema consiste em como administrar estas transições. Os estrategistas republicanos não discutiam a eficiência ou idoneidade das decisões de Bush. a liderança e a coragem em fazer escolhas são o que contam. pararam para assistir às transmissões em tempo de real. que dificilmente estão acompanhadas de um processo pacífico e não têm a estrutura necessária à sua implementação imediata. 3 Disponível em: http://www. onde a estratégia não estava só no ataque. ou até mesmo direito. mais precisamente aos interesses americanos. tendo os valores individualistas ocidentais como objetivo. 2003. intervir em outros países. nos parecia irreal: a superpotência econômica e militar do nosso século. a Casa Branca. Diante das pressões. como forma de deter o Estado. considerado malévolo ao mundo. Em momentos de turbulência como este vivido pelos Estados Unidos. que a grande maioria dos americanos crêem que realmente seus governos têm como meta.fapa.mundo”. como se convencionou chamar esta organização estratégica adotada pelo governo americano no imediato pós atentados. unipolaridade. No que tange à mudança de regime. A idéia de povo escolhido. que já se tornou praticamente um jargão ideológico. mas também no interesse direto de mudar o regime. procurando manter diante do público uma postura de firmeza que seria muito explorada durante a campanha eleitoral. aplicar rótulos e determinar veredictos. assumiu uma postura que alternou momentos de agressividade e passividade. A busca de uma civilização universal. faze parte da estratégia imperial que visa construir uma nova hegemonia americana. (PECEQUILO.

colocando-se como os grandes salvadores. no caso da invasão ao Afeganistão.de defesa. ele analisa o papel do líder como livre para mudar as regras a seu bel-prazer. uma vez que prevê levar a guerra até o inimigo. centro de sua organização militar e inteligência. o World Trade Center. e o Pentágono. temos um novo fator.br/monographia . como pudemos assistir. No momento em que foi declarada sua inexistência. “suspeitavam” de seu desenvolvimento. n. cérebro de seu sistema financeiro. dois dos seus principais símbolos. o governo lançou a diretriz do que seria a principal arma da Doutrina Bush. manipular a sociedade civil. O objetivo final desta guerra psicológica é proporcionar facilidade para orquestrar. justificando a supressão de direitos civis e até mesmo as guerras. tendo como alvo. uma ansiedade global. dando idéia a uma percepção pânica. Até então os norte-americanos gozavam de uma imunidade geográfica. (CHOMSKY. trata-se de algo que pertence à categoria de crimes de guerra.fapa. 2004). o discurso foi simplesmente modificado. em frente a todos. citando a justificativa para invasão do Iraque: a localização de armas de destruição em massa. Ela provocou mudanças sociais no comportamento individual e coletivo. que não é real. Este tipo de ação preventiva difere da política de contenção da Guerra Fria. Porto Alegre. como pudemos acompanhar na esteira dos atentados. Somado a tudo isso. 3 Disponível em: http://www. promovendo o medo global e. Como resposta imediata a esta violação. que se convencionou chamar de Guerra Psicológica. na realidade. formando mentalidades 195 Monographia. prevendo uma possível ameaça de ação química e/ou biológica. significa uma paranóia coletiva. como conceituou Halliday. Segundo Chomsky.com. quando os EUA colocavam seus indicadores de segurança em alerta máximo. a qual se apresenta como uma das principais conseqüências do terrorismo. a Guerra Preventiva. que lhes permitia relativa tranqüilidade com relação à penetração estrangeira em suas fronteiras. criando consentimento às ações do Estado. desta forma.

br/monographia . em especial a norte-americana. há décadas. Porto Alegre. despertou em si um sentimento de desprezo. visualizando sua capacidade de despertar a sede de vingança no seio da sociedade civil.com. Acostumados. 2. se faz necessária uma análise crítica.3. ao suprimir dados como treinamento e armamento da milícia Talibã alguns anos antes. a história parece ter sido negligenciada e até mesmo manipulada. pelo senso comum. restrita a poucos. Como mostrar este pesar ao mundo? Como fazer com que todos os povos se solidarizassem com o ocorrido? Simples. Esta sensibilidade crítica é. uma vez que os acontecimentos têm forte apelo psicológico. talvez seja mais fácil compreender. era até então algo incomensurável. aos latinos e a todas as nacionalidades de imigrantes não brancos. os direitos humanos são colocados como uma máscara que esconde e justifica as atividades de ocupação norte-americana. Sob a ideologia da “intervenção humanitária”. vítimas das práticas e sanções neoliberais defendidas pela Casa Branca. a atacar. 3 Disponível em: http://www. explosões e música clássica ao fundo. O governo Bush não logrou 196 Monographia. de forma maçante e com traços de sensacionalismo explícito. Mídia e Opinião Pública A mídia.fapa. Emocionante. Os estrategistas norte-americanos souberam muito bem se beneficiar da efervescência e da instabilidade seguidas aos atentados. A maioria. Em virtude disto. anglo-saxões ou protestantes. Assim. Lógico que tudo aquilo que passava aos olhos dos americanos e do mundo. hostilidade e até mesmo ódio aos árabes. n. porém. Imagens em câmera lenta. repetidas incontáveis vezes. dentre outros. cobriu os eventos de 11 de setembro ao vivo. não sentiam a dor de perdas conterrâneas significativas desde o Vietnã.favoráveis à necessidade de um novo militarismo. Se apreciarmos a cobertura sob a égide do imprevisível. naquela fatídica manhã de setembro. sim! Mas nenhum pouco se comparado às milhares de crianças africanas que padecem de fome e de Aids diariamente.

(.) E os Estados Unidos apaziguaram a manipulação envolvida. como forma de induzir a opinião pública ao apoio explícito à guerra contra o terror. planejada em grande medida para apaziguar a opinião publica americana. que dá à atitude o seu caráter mais assustador .o inesperado. políticos e econômicos.. como uma espécie de painel 197 Monographia. física ou psicológica.. podemos citar a surpresa ..br/monographia . O tipo Comunal é geralmente o que mais produz vítimas e. 2006. “a informação é poder” e as Agências Internacionais atuam como difusoras da visão ocidental. quando são ações praticadas pelo governo contra a sociedade com o objetivo de impor definições.fapa. Porto Alegre. nada ética. às vezes.e o anonimato . O Terrorismo e o Choque de Civilizações 3. é praticado por Estados ou grupos clandestinos. o que assistimos. Todas estas guerras são similares com relação ao uso da ideologia. É preciso resgatar a mídia com o papel de informar e não de formar opinião. mas fazemos pelo bem das pessoas que vivem lá. (. n. A mídia tem um grande papel.com. 12 e 13). (ALI. eles nem mesmos fingiram ser humanitários imparciais. desencadeia guerras civis. 3 Disponível em: http://www. O tipo Ansiedade Global foi analisado anteriormente como guerra psicológica. p. Como características comuns. Isto é evidentemente um artifício (. O mito do terrorismo universal Definiremos terrorismo como o uso da violência. (. de um jornalismo unilateral e manipulador. serve aos interesses ocidentais: estratégicos. comunicados e homenagens.esforços.que faz com que após um ataque vários grupos assumam a sua autoria. praticada por indivíduos ou grupos políticos contra a ordem estabelecida. Pode ser o Terrorismo de Estado. Foi uma guerra basicamente rudimentar de vingança. É a ideologia da chamada intervenção humanitária. as fontes independentes de noticia não podem competir com o poder e a riqueza das cinco ou seis companhias proprietárias da grande mídia hoje em dia.). ainda assim. no primeiro momento.) Mas. Não queremos fazer isto.. pode ocorrer dentro e fora das fronteiras nacionais. a exemplo de ditaduras e regimes totalitários..) A tarefa da cobertura objetiva fica realmente delegada a redes alternativas de informação e educação.. No mundo globalizado. O tipo Atentados. No caso do Afeganistão.. 3. foi a prática. com o objetivo de chamar a atenção da opinião pública à determinada ação.1..

sem se reconhecer seus reais mentores. É importante procurar compreender o que leva um homem a abdicar de seu convívio familiar e. ou até mesmo que fiquem em aberto por longos períodos. Porto Alegre. utilizado como último recurso. Para manter seu status de superpotência mundial. esvaziando de essência a ação. tanto no sentido pessoal quanto no social.fapa. tornando práticas ações terroristas. Ao grande público. fomentando o crescimento de sua economia. São grupos radicais e violentos sim. sem qualquer motivo adicional que justifique suas atitudes suicidas. para se livrar das amarras da opressão. Essa opção pela “ação” é feita quando percebem que protestos. 198 Monographia.publicitário. Hoje a guerra contra o terror mobiliza a todos em termos de armamentos e a indústria bélica norte-americana lucra e muito com esta agitação. atrelada às questões do fundamentalismo religioso e à ausência de perspectivas. criam constantemente focos de tensão e isto. motivos esses que a mídia não tem o hábito de mostrar. sem dúvida. muitos jovens vinculam-se a grupos extremistas como uma forma luta de libertação. 3 Disponível em: http://www. na Irlanda. Os grupos terroristas estão espalhados pelo mundo todo. Entendem esta libertação. Centraremos o exame nos grupos islâmicos de forma a tentar identificar em que momento este terrorismo passou a ser uma ameaça à democracia ocidental. tornar-se mártir por lutar pela libertação de seu povo. em busca de um ideal de salvação. Como conseqüência. declarações de guerra e tentativas de acionar a opinião pública parecem insignificantes. movimenta sua indústria e gera lucro aos empresários. os ataques podem ocasionar guerras e conflitos de maneira súbita. n. de sua própria vida. são apresentados como terroristas fanáticos. seja na Colômbia. resistindo às interferências estrangeiras. como um ato desesperado. na Espanha.com.br/monographia . em muitas situações. e a cada atentado voltam às manchetes. mas carregam motivos sérios para sua existência. como ocorreu no Afeganistão. Dada a instabilidade política e econômica vivida nos países árabes. no Oriente Médio.

ele sempre ficará do lado do seu semelhante e não de quem o ocupa ou ameaça. é importante frisar o enorme precipício existente entre as culturas árabe e ocidental. para não dizer em nada. Os seguidores de Alá acreditam na paz e têm amor ao conhecimento. pois enquanto houver ocupação territorial. 3.Em meio a este fértil terreno. neste contexto. ao mesmo tempo. O Alcorão é dotado de uma mobilidade que lhe permite. Isto configura-se como mais um entrave à diplomacia estadunidense. A instabilidade política no Oriente Médio Os fundamentalismos encontram o meio perfeito para a disseminação no Oriente Médio. mas recebe os mais diversos significados. O código de moral e ética que serve de guia aos povos muçulmanos em pouco. a religião islâmica e a cultura árabe acabam sempre sendo relacionadas à ameaça desenhada pelos ocidentais. a luta como um meio para trazer a paz. O confronto entre Palestina e Israel configura o centro do conflito na região. rechaçando a prática de agressões. é interpretada como a luta do povo árabe. rejeitando princípios como o egoísmo. devido à instabilidade da região. se relaciona com os preceitos propagados aos quatro cantos pelo american way of life. embora a sua finalidade seja uma só. almejando a prosperidade a todos os povos do mundo. Porto Alegre. não consegue encontrar atrativos na recompensa paga para quem der o paradeiro de Osama Bin Laden e. disseminaram ao mundo a imagem dos homens-bomba. por exemplo. muito mais que isso. tão característico do ocidente. haverá resistência e este choque cultural não será amenizado através do uso da força. n. associando o terrorismo ao islamismo. 3 Disponível em: http://www.com. 199 Monographia. sempre estar agregando novos seguidores. A jihad.2. São tão distantes que um afegão. assim como é facilmente adaptável às mudanças temporais. Assim. os Estados Unidos encontraram a personificação do que consideram o mal e.fapa.br/monographia . Antes de qualquer interpretação e análise sobre o Oriente Médio.

acaba por se enfraquecer. Como argumenta ALI. por completo. porém se comparado a outras civilizações. Enquanto o país não encontra seu caminho para a democracia. Os americanos potencialmente desperdiçaram a possibilidade de solucionar o impasse na região. são primordiais ao sucesso de sua implementação estruturas sociais e políticas sólidas. neste cenário. este sim é o maior dos desafios americanos. como a “polícia do mundo”. Ao tentar impor seus valores a outras sociedades nãoocidentais. dando maior suporte ao povo palestino na resolução de suas reivindicações territoriais. ainda não conseguiu se encontrar política e estruturalmente. o que configura mais uma forte fonte de hostilidade da sociedade civil para com as ações destes dois Estados. uma vez que estes não podem mais viver oprimidos à sombra de helicópteros e tanques israelenses. percebe-se seu declínio.fapa.. pois quanto mais territórios vocês destrói. pois isto cria o choque civilizacional.O totalitarismo praticado pelo governo israelense é escancaradamente apoiado pelos EUA. (ALI. às idéias defendidas por Fukuyama e ilustradas anteriormente. A transição para um regime democrático não se configura do dia para a noite. como um país que.br/monographia . o Ocidente continuará por muitos anos como a civilização mais poderosa. cabendo-lhes o dever de apaziguar os ânimos. desconexo e heterogêneo.com. 2006). reina a instabilidade e a violência. como ocorre com os paradigmas de um só mundo e de dois mundos e.). faz parte. Ele vê o mundo engajado em processos simultâneos de fragmentação e integração. Osama Bin Laden. embora “liberto” pelos norte-americanos das estruturas de controle arcaicas e violentas das milícias talibãs. o terrorismo não se reduzirá enquanto não cessarem as invasões e as ocupações. ou seja.200 Monographia. propõe: Visualizar o mundo em termos de sete ou oito civilizações (.. Contrapondo-se. Com isso não se sacrifica a realidade em favor da parcimônia. Porto Alegre. mais pessoas procurarão vingar-se. A justificativa para a invasão e conseqüente ocupação do país está no fato de existirem suspeitas de que os talibãs estavam dando abrigo a militantes da rede al-Qaeda da qual o procurado número um do mundo. O Afeganistão configura-se. Para Samuel Huntington (1996). n. 3 Disponível em: http://www.

O mundo é. Porto Alegre. de forma a estabelecer quais eram os países que representavam ameaça ao mundo civilizado.Bush.por outro lado. Realmente nos é perceptível que os Estados e a própria sociedade civil tendem a aproximar-se ideologicamente de seu próximo e entendemos este “próximo”. cada qual com suas questões políticas. de fato. 1996. uma vez que os EUA se apresentam. culturalmente próximo e aliado. um exemplo recente é a manutenção dos laços de cooperação e as semelhanças com a política bélica (estratégica) do estado de Israel. étnicas combinadas com questões territoriais e nacionalismo. como os principais financiadores deste mesmo terrorismo internacional. O Eixo do Mal e a Guerra no Iraque O termo “eixo do mal” foi utilizado pela primeira vez por George W. (HUNTINGTON.fapa.3. Embora pareça irônica esta definição. porem seus interesses. Os países colocados na berlinda . também lhes cabe muito bem. por possuírem armas de destruição em massa e por atuarem regionalmente como patrocinadores do terrorismo internacional. associações e conflitos são cada vez mais moldados por fatores culturais e civilizacionais. em certo sentido. (.. 3. são Estados militarmente 201 Monographia. porem os conflitos que representam os maiores perigos para a estabilidade são aqueles entre Estados ou grupos de diferentes civilizações. culturais. Iraque e Coréia do Norte. em discurso proferido ao Congresso americano no início do ano 2002. anárquico. As diferentes sociedades que compõem o sistema internacional. pleno de conflitos tribais e de nacionalidade. p.com.) está dividido entre um ocidental e muitos não ocidentais. também não se sacrifica a parcimônia em favor da realidade.. motivariam as disputas em arena global. provocando crises e instabilidades.br/monographia . Síria e Cuba . seguidos de Líbia. duplo. religiosas.Irã. ou seja. O mundo é. n. do ponto de vista civilizacional. como o fazem os paradigmas estatista e do caos. Os Estados-nações são e continuarão a ser os atores mais importantes nos assuntos mundiais.têm uma característica comum. 3 Disponível em: http://www.. o principal fomentador do terror no Oriente Médio. 39) A análise do ponto de vista civilizacional é bastante apropriada ao atual contexto. (. há algumas décadas.) um enfoque civilizacional sustenta que: As forças de integração no mundo são reais e são precisamente o que esta gerando forças contrarias de afirmação cultural e consciência civilizacional.

como uma cruzada pelo petróleo e.com. A ocupação do Iraque. no mundo árabe. O que será que prefeririam os iraquianos? Por que eles não foram alvo de consulta sobre seu futuro? Será que não havia nenhuma outra forma de libertar o povo do Iraque da ditadura de Saddan que não fosse a invasão. pois nada pode ser pior a um povo do que viver em um território ocupado por forças estrangeiras.br/monographia . produto vital para economia de qualquer país. debaixo de suas terras. Os custos da ocupação e as conseqüências da Guerra no Iraque. a ocupação e a desagregação da sociedade. pois. 2005). O Oriente Médio como o maior fornecedor deste recurso natural. a inserção de capitais. A Guerra no Iraque é vista. o islã torna-se o arquiinimigo do ocidente. estudioso paquistanês de assuntos relacionados ao Oriente Médio e Imperialismo.fapa. é uma questão de interesse puramente econômico. como conclui Tarik Ali. Dificilmente conseguiremos separar o motivo petróleo. em 2003. a posse e a concessão de suas reservas. as 202 Monographia. n. Porto Alegre. A acusação é a de investirem em projetos de construção de armas de impacto e ameaçarem diretamente a estabilidade global. o preço que se paga por tê-lo. está o recurso natural capital à atual fase de desenvolvimento (ALI. da cultura e de sua história? Este tipo de reflexão se faz essencial. É muito difícil fazer-se acreditar que toda a movimentação. Ele constata que o fato de a religião muçulmana ter se tornado inimiga é um acidente da geografia e da história. o envio de grandes contingentes humanos ao Iraque visavam à nobre preocupação norte-americana com o bem estar. foi marcada pela resistência e pela hostilidade do povo aos militares americanos e as crescentes baixas de soldados da coalizão ocasionaram o desgaste do Governo Bush frente à opinião pública doméstica e internacional.inferiores e economicamente insignificantes. do pano de fundo de todo o conflito. 3 Disponível em: http://www. . desta forma. A libertação da tirania e a suspeita de existência de armas nucleares serviram de justificativas à invasão. a democracia e os direitos humanos no Iraque.

representam maior importância no cenário internacional e. Este processo de regionalização de forças mostra a capacidade de os países aglutinarem-se para poder fazer frente à hegemonia exercida pelos Estados Unidos. Após a divulgação de um novo plano para o Iraque. 3 Disponível em: http://www. uma vez que se torna cada vez mais clara a incapacidade de o Estado americano manter sua hegemonia. Conclusão A ausência de qualquer contra peso à liderança norte-americana permitiu novas formas de relacionamento internacional. têm sido a “pedra no sapato” do governo Bush. em 2006. Não há mais como. Porto Alegre. centrado na China. Em janeiro de 2007. acabam exercendo com mais dinamismo as negociações de seus objetivos comerciais e articulando políticas que visam à sua integração e conseqüente desenvolvimento. desta forma. Não é à toa que a União Européia e o bloco asiático. os investimentos. é compartilhada. liderança que não predominava há exatos 12 anos. n. Este fato acelerou a necessidade de uma junção de forças. além da opinião pública.fapa. Bush gozou da mais baixa popularidade entre os americanos. em que os países periféricos mostraram-se indefesos frente ao processo de globalização.estratégias. configurando assim ameaça ao poder de coerção econômica e à manipulação política exercidos pelo império. desde que assumiu a Casa Branca em 20/01/2001. A convergência. da confirmação do destino de mais recursos e do envio de mais tropas para o país. entre os principais teóricos estudados. logo após a posse dos novos congressistas. de que o império está declinando e que se vislumbra a emergência de novas potências. Juntos. como uma repulsa as práticas no Oriente Médio. agora o próprio congresso americano está contrário às suas ações externas. as baixas civis e militares. permeado pelo processo de globalização. a vitória democrata no Congresso. 203 Monographia. ele deverá enfrentar mais uma oposição interna.br/monographia . o que ficou claro com constituição dos blocos econômicos. de maioria republicana.com. no cenário internacional. apenas uma super potência reinar absoluta.

Este abalo ainda se faz sentir e. porém tudo nos leva a crer que realmente houve uma grande sacudida. Se esta nova fase. ouvidos. por isso mesmo. Assim como em muitos dos conflitos mundiais. mas se considerarmos seu impacto e o desgaste da imagem do mundo árabe para com os ocidentais. É isto que define as prioridades e o teor de seu engajamento. Ela não deixa de representar uma forma de demonstração de seu poderio militar. agora terroristas.com. principalmente. 3 Disponível em: http://www. bandeira tão levantada pelos povos ocidentais. garantindo que sejam evitadas opressões. Porto Alegre. mesmo em situações em que eles representem minorias. podemos esperar sim por um conflito entre culturas. será de caráter religioso ou civilizacional é difícil precisar. ditos civilizados. Uma das grandes questões que se coloca hoje é como combater o terrorismo. não temos como defini-lo sem cair no reducionismo histórico. sempre deixando uma via de expressão aberta para que os anseios sociais possam ser divulgados e. realmente o Ocidente estará destinado a apagar incêndios dentro e fora de casa. mas isto está na essência da democracia. Será preciso certo distanciamento temporal para podermos ter as reais conseqüências do eventos aqui descritos. se suas raízes não forem analisadas. 204 Monographia. Pode parecer utópico. como puramente econômicos. Percebe-se continuidade na forma pela qual os Estados Unidos conduzem sua política externa. estando a questão do Petróleo como pano de fundo para a invasão. acreditamos que suas causas sejam administradas em sua essência. n. como o foco em uma ameaça externa. utilizando uma expressão bem simples.fapa. Querer frear o terror extinguindo-o é impossível. antes comunistas. na sua raiz. mas completa. justificada com razões políticas.É importante compreender os motivos que levaram à Guerra do Iraque. fomentando a incidência de mais conflitos. inaugurada em 2001. tal qual a postura adotada no pós 11 de setembro. valorizando elementos antigos já arraigados em sua identidade. compreendidas e amenizadas.br/monographia . como um meio para lograr os objetivos de manutenção da hegemonia.

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