A POLÍTICA EXTERNA NORTE-AMERICANA E O DISCURSO ANTITERRORISMO Graziele Oliveira Saraiva1

Resumo
A política externa norte-americana e suas modificações na esteira dos atentados terroristas ao World Trade Center. Análise da postura no pós Guerra Fria, desde a inaugurada Nova Ordem Mundial, até a chamada Doutrina Bush. A guerra contra o terror, justificando a utilização de ações preventivas, como uma forma de levar a guerra até o inimigo. O 11 de setembro como um divisor de águas dos tempos modernos, inaugurando uma nova fase das relações internacionais e ditando as novas regras na condução da política mundial. Palavras chave: Política externa norte-americana. Petróleo. Oriente Médio. Relações Internacionais. Eixo do Mal. Iraque . 11 de setembro.

Introdução Após os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, o mundo todo incorporou ao seu cotidiano, a palavra terrorismo, expressão até então empregada de maneira muito pontual para representar a ação de milícias armadas em conflitos étnicos, religiosos ou até mesmo de caráter separatista. Todavia, a partir do exato instante em que a primeira das torres gêmeas foi atingida, passou a fazer parte do cotidiano de cidadãos de todas as nacionalidades, credos, ideologias, ultrapassando todas as fronteiras. Analisar como foi construído o mito de um terrorismo universal e as mudanças na política externa norte-americana e do cenário internacional, após o 11 de setembro, é a pretensão deste artigo. Através da análise crítica de alguns referenciais teóricos de Relações Internacionais e de História Recente, busca-se

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FACULDADES PORTO-ALEGRENSES – FAPA -ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA. Orientador: Ana Lúcia Danilevicz Pereira - analuciapereira@fapa.com.br Porto Alegre 2007. grazistars@terra.com.br 181 Monographia. Porto Alegre, n. 3 Disponível em: http://www.fapa.com.br/monographia

identificar os atores deste conturbado cenário internacional, dando ênfase às estratégias americanas e sua relação com o mundo árabe. O que efetivamente mudou após esta fatídica data? De que forma os Estados Unidos conduziram sua política externa na construção deste discurso antiterrorismo? Como auxilio à compreensão do cenário político internacional neste início de século, procurando compreender os mecanismos utilizados pelos estrategistas americanos, no fomento e consolidação de um discurso antiterrorismo e os instrumentos a ele relacionados, utilizaremos como base de análise duas obras que tem se colocado como importantes interpretações do atual período histórico: O Fim da História de Francis Fukuyama e O choque de civilizações de Samuel Huntington, visões que se contrapõem e representam de forma excepcional aquilo a que se propõem. 1. O Império e o Fim da História 1.1. A política externa norte-americana no pós Guerra Fria A emergência de uma força política fora do eixo europeu foi uma das principais modificações no cenário político do século XX. A mutação do sistema político, até então predominantemente europeu, afetou em cheio as relações internacionais, trazendo à tona a necessidade de modificações na cena internacional. Até 1940, os Estados Unidos praticavam uma política isolacionista. Durante a Segunda Guerra, eles configuraram-se como potência militar, política, econômica, inaugurando uma nova fase. Representando e liderando o bloco ocidental, aliaram-se à Europa para fazer frente à ameaça comunista, liderada pela URSS, a potência do bloco oriental. Desta aliança surgiu a OTAN, em 1949, como órgão condutor desta unidade militar. A política externa norte americana, já de caráter intervencionista e conseqüentemente imperialista, não podia deixar ascender um opositor de tal
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que não cabe aqui periodizar. n. ainda em 1989.br/monographia . no início dos anos 90. os conflitos. com maior participação de atores privados e transnacionais no Sistema Internacional. o The National Interest. Entendendo o capitalismo e o liberalismo como modelos triunfantes. o sistema caminhava para um período de paz permanente. assim como pela disseminação da cooperação e dos valores associados à democracia e à liberdade econômica. aparentemente. em um periódico americano. Com a queda do Muro de Berlim. estava fadada a era da bipolaridade e de antagonismos entre as 183 Monographia. capitalismo versus comunismo. Neste novo cenário.magnitude. a guerra deixava de ser um instrumento viável da política internacional e. Nesta lógica. sempre estiveram relacionados a questões ideológicas. É o início de uma nova fase. 3 Disponível em: http://www. em uma região considerada vital. ao longo da história. com ideologia contrária à sua. que muito bem souberam usufruir suas conclusões. em 1989. iniciou-se o conflito da Guerra Fria. A bipolaridade. passando por diversas fases.fapa. mediados por organizações internacionais e relações diplomáticas entre os Estados. que deve ser encarado como complexo e racionalmente explicado à luz das enormes transformações que marcaram o século XX. configurando as origens do conflito. Segundo ele. temos a derrocada do maior símbolo da divisão entre dois mundos. do ponto de vista de estratégia geopolítica. com o desgaste do lado socialista com pontos de estrangulamento internos e frente a pressões externas. Porto Alegre. revestida de uma racional hostilidade controlada e manteve-se por quase quatro décadas. com a derrota do comunismo e a afirmação do capitalismo como modelo triunfante. Sua teoria tornou-se ícone para os liberais e neoliberais. afrontou-se. Frente a esta incompatibilidade ideológica e de objetivos entre os dois lados. dando lugar à supremacia do capital. Francis Fukuyama (1992) decretou o Fim da História. com um período de crescimento econômico e estabilidade internacional desenhando-se no horizonte.com. através da publicação de um artigo de mesmo nome. partidário desta visão otimista de encerramento pacífico da Guerra Fria.

Fukuyama transcorre sobre a política externa de seu país.o que fomenta ainda mais o desequilíbrio ambiental. Hoje em publicação recente. tornando todas organizações sociais parecidas. Porto Alegre. Posiciona-se firmemente contrário às duas guerras . tornando possível a acumulação de riquezas e favorecendo potencialmente o processo de homogeneização das sociedades. 3 Disponível em: http://www. e faz uma espécie de mea culpa com relação à forma e à dimensão que seu famoso artigo atingiu. Defendia que a lógica do capital estaria determinando a vida de toda a sociedade e realmente está. a homogeneização em torno dos avanços tecnológicos. independente de origens históricas ou culturais. mas com a idéia de que ocorrerá. n.Afeganistão e Iraque . já não podemos concordar. quase naturalmente. movendo o mundo em direção ao capitalismo. diretamente atrelada à globalização. à redução dos custos de matérias primas .nações. européias e asiáticas. de influência hegeliana. ao assustador aumento do desemprego global. estava a aproximação maior entre os povos e a disseminação de uma cultura consumista universal. intitulada O dilema americano.fapa. Reflete acerca da mudança na condução da 184 Monographia.especificamente. à valorização e à exploração de mão de obra barata .br/monographia .em que estiveram envolvidos. favorecendo a modernização econômica. Com a chamada Terceira Revolução Industrial. temos assistido à crescente e desenfreada competitividade no mercado internacional. quando da redação de seu controverso artigo. desde os ataques de 11 de setembro. Fukuyama. no momento em que esta tecnologia fosse incorporada. explorada e terceiro mundista pelas grandes corporações norte-americanas. ex-funcionário do Ministério de Defesa norte-americano. considerava-se um neoconservador.com. Conferia às ciências naturais a responsabilidade de uniformizar as sociedades. prevalecendo a tendência da homogeneização de idéias e ações. Como conseqüência deste processo. caracterizando as contradições que envolvem a construção e manutenção desta nova hegemonia. a modernização e o desenvolvimento tecnológico.

A nova ordem mundial e o Sistema Internacional O compartilhamento de valores entre as sociedades. ao neoliberalismo.br/monographia . mais adequados ao mundo globalizado. Como herança. a vitória do capitalismo. que. após os atentados de 11 de setembro. na qual. percebemos que estamos vivendo novamente esta transição e com ela a necessidade de reafirmação norte-americana. Nova Ordem. Para os que criam no efetivo Fim da História. pois antigos padrões e atores. 2006). segundo Vizentini (2005).fapa. dando lugar a programas multilaterais. o que se convencionou denominar nova ordem mundial. A tese do Fim da História aparentemente perdeu a credibilidade conquistada na última década. de maneira realista. contanto. A história tem se delineado em períodos de crise e transição. uma vez que sofreram um enfraquecimento interno.com. se não o esgotamento de um modelo em detrimento da superioridade de outro. apontando assim os erros do governo Bush na condução de sua política para barrar o terror (Fukuyama. deveriam ser revistas as estratégias de guerras preventivas. representando a Revolução Científica Tecnológica (RCT). um futuro de incertezas se apresenta. 3 Disponível em: http://www.política externa. às transnacionais e à globalização. Hoje. na política internacional. n. não representou o fim da história. Desta forma. a Guerra Fria nos deixou o desenvolvimento tecnológico.2. 1. do qual a indústria bélica norte-americana muito se favoreceu. inaugura. que já se arrastavam por 185 Monographia. a idéia da supremacia de um pensamento único apresentava-se vindoura. a ausência de uma ideologia alternativa e eliminadas as divergências entre os povos. Algo novo se desenhava no céu de Nova Iorque. Porto Alegre. o abalo provocado na estabilidade global com a queda súbita das torres gêmeas fez com que revissem seus conceitos. somada ao aprofundamento de novas formas de dominação econômica. no momento em que ocorreram os ataques ao World Trade Center.

sem capacidade militar e econômica de fazer frente às ameaças impostas. Para manterem-se como única e grande potencia hegemônica. Os Estados Unidos estão se tornado um problema para o mundo. A expansão da democracia. quanto às ameaças. p. sua presença militar em todos os continentes. aos fluxos transnacionais e ao terrorismo como crime internacional. sobre as quais exercem influência direta. novos atores e novas ameaças entram em cena. utilizam-se de todos os recursos e mecanismos disponíveis. seus aliados locais e os inimigos em potencial. as campanhas de mídia globalizada. Porto Alegre. à proliferação de armas de destruição em massa. sejam eles políticos. através de sanções aos países mais fracos. A hegemonia norte-americana está diretamente ligada à estabilidade política internacional e para mantê-la. Estávamos acostumados a ver neles uma solução. enfatizando a necessidade de combate o narcotráfico e de controle da economia de mercado. para tanto estabelecem códigos morais. 3 Disponível em: http://www. eles surgem cada vez mais como fator de desequilíbrio internacional. 09). o que tornou necessária uma reflexão e conseqüente alteração na postura com a qual vinha sendo conduzida a política internacional.fapa. Asseguram os objetivos geopolíticos do império. que conta com um vizinho de peso – o Japão. emergem a Ásia. a exemplo dos Blocos Regionais e do poder limitado a um único estado.br/monographia . geralmente países fracos. militares. e a União Européia. tidos como universais. Com esta nova ordem mundial. toda uma cartilha de valores ocidentais. cujo centro é o gigante chinês. fazendo ameaça à manutenção de sua hegemonia. econômicos ou culturais. tendo a Rússia também como forte candidata a este abalo.com. democracia e prosperidade foi caracterizada pela não violência e pela unipolaridade. No curso contrário aos interesses estadunidenses. n. Guardiões da liberdade política e da ordem econômica durante meio século. 2003. Incontestavelmente colocam-se no ranking da liderança internacional.quase quatro décadas mudaram. através do controle de agências de informação espalhadas 186 Monographia. (TODD. promovendo incerteza e conflito sempre que podem. utilizandose das organizações internacionais. Esta nova fase de paz. é necessário que busquem sua afirmação de forma eficiente.

(. 3 Disponível em: http://www. p. um poder econômico rival-. com relativa interdependência e submetidos a regulamentações comuns. mas em toda a sua complexidade e abrangência. 1.pelo mundo. Objetivamente.. pela heterogeneidade de seus membros. são algumas das práticas desta afirmação. onde se desenvolvem as relações internacionais. inseridos em um mesmo meio. acima de tudo. A compreensão de sua dinâmica é fundamental a qualquer análise de conjuntura e política internacional. Entende-se o Sistema Internacional como um espetáculo. 165). descentralizado e sem aplicação de formas de poder coercitivas. como a chave para a organização das relações entre sociedades. Às Organizações Internacionais compete a responsabilidade de condução da diplomacia entre os Estados. caracterizado. 1999. (HALLIDAY. Trata-se de uma espécie de cenário.. Sistema Internacional (SI) refere-se ao conjunto de relações entre atores. surgem no final do século XIX. Porto Alegre. atuando como mediadoras e procurando alternativas às questões internacionais sobressalentes. mas é igualmente importante na constituição e na reprodução de Estados estáveis. aparentemente auto-sustentados e autônomos.br/monographia .) a chave para o entendimento do desafio ideológico da heterogeneidade reside na identificação do papel ideológico preexistente da homogeneidade e de seu fortalecimento. mas efetivamente ganham relevância no século XX.3. de caráter cooperativo. não só nos momentos em que desavenças se desenham. Os referidos atores são os Estados e as Organizações Internacionais regidos pelas leis do Direito Internacional. n. no qual as Organizações Internacionais e os Estados são os responsáveis por sua orquestração. uma invasão.fapa.com. As Organizações Internacionais e os Movimentos Antiglobalização As organizações internacionais são grupamentos políticos que têm nos Estados seus representantes e fundadores. 187 Monographia. Pelo menos isto serve para ressaltar a importância do “internacional” na analise de qualquer ordem social ou política: o “internacional” não somente se torna relevante quando as coisas desmoronam – quando existe uma ameaça política de fora.

188 Monographia. assegurando. porém o escopo. Conselho Econômico e Social.Em torno de um objetivo comum. A ONU. na solidariedade internacional. além dos órgãos especializados. com sede em Haia (Holanda).com. assinaturas de tratados. Porto Alegre.br/monographia . objetiva a manutenção da segurança do planeta. Seu caráter técnico. encontros. aproximando países e fomentando pesquisas e projetos. promovendo o respeito às liberdades individuais e aos direitos humanos é a sua razão de ser. n. estimular a cooperação internacional nas áreas econômica. Fomentar a paz entre as nações e a segurança mundial. Assembléia Geral. Criada no pós Segunda Guerra Mundial. dado seu caráter diplomático e de relevância política no cenário internacional. recebe destaque. Conselho de Tutela. em 1945. versando a multilateralidade e uniformização dos tratamentos. congregam os Estados. e a OMS (Organização Mundial da Saúde). humanitária e cultural. 3 Disponível em: http://www. é a garantia da segurança internacional. os direitos humanos. podendo também ter como membros outros participantes como Organizações Não Governamentais. Corte Internacional de Justiça. em linhas gerais. o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). político e econômico lhes assegura atuar e intervir nas mais diversas áreas de influência. a FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação). respeitando a autodeterminação dos povos e. São anualmente realizadas dezenas de convenções.fapa. podendo a qualquer momento expor ao Conselho de Segurança seus impasses. Ciência e Cultura). Organizações Regionais ou Movimentos de Libertação Nacional. aplicando sanções. social. Atualmente é composta por seis órgãos principais: Conselho de Segurança. em sua essência. quando assinada a “Cartas das Nações Unidas”. em que as pautas variam de acordo com os anseios globais. evitando colocar em perigo a ordem e a paz mundiais. Secretariado. determinando que seus membros busquem soluções pacíficas para os conflitos que se apresentarem. entre os quais os de maior relevância são a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação.

China e França). vêm se submetendo às estruturas de poder norte-americanas. apresentando-se como uma forma de reconquistar a austeridade que até então lhe competia. Mas ela também expôs os limites das instituições internacionais existentes. Japão. Japão e Itália. nem impedir que Washington agisse por conta própria. Índia e o Brasil. está a serviço dos interesses do capitalismo em sua fase 2 Os membros permanentes são os países que lutaram na 2ª guerra mundial contra o eixo. particularmente a Organização das Nações Unidas. a poluição e o aquecimento global. atualizariam seus componentes à nova ordem mundial. 3 Disponível em: http://www. a ampliação da desigualdade e da exclusão social. que asseguram e dão legitimidade a suas ações em nome de uma pseudodemocracia e da expansão do livre mercado. p. Ele é composto por quinze membros. Rússia.fapa. trazendo à tona a latente necessidade de reforma na organização e no Conselho de Segurança. Promovida pelos grandes conglomerados econômicos e financeiros.O Conselho de Segurança da ONU está constantemente em pauta devido às instabilidades globais. ameaçando diretamente a sustentabilidade do planeta. e que assinaram a Carta das Nações em São Francisco (EUA). como representante do terceiro mundo.com. sendo cinco de representação permanente e com poder de veto (Estados Unidos. Da forma como tem sido conduzida. A globalização como processo irreversível foi a marca do chamado fim da história. há algumas décadas.br/monographia . por exemplo. já se faz sentir. Desta forma. composto por Alemanha. 2006. Mas com ela vieram a acelerada concentração de riquezas. Alemanha. em 1945. os outros dez são eleitos pela Assembléia Geral e têm cadeira no órgão por dois anos. n. 150). 189 Monographia. Grão Bretanha. incluindo. A inclusão de novos membros com poder de veto se faz impreterível. A fragilidade da ONU frente ao poder de decisão americano ficou muito clara no momento da invasão do Iraque. Porto Alegre. vaga tão pleiteada pelo Governo Lula. ela fracassou. 2 A Guerra no Iraque expôs os limites da hegemonia benevolente dos Estados Unidos. A ONU não conseguiu ratificar a decisão americana de ir para a guerra. que eram as preferidas pelos europeus como ambientes adequados para as ações internacionais legítimas. Por qualquer perspectiva. (FUKUYAMA. no qual desequilíbrio entre seus membros.

O Fórum Social Mundial é um claro exemplo desta articulação da esquerda e dos movimentos sociais na esfera mundial. são perceptíveis em todas as esferas da sociedade. é sinônimo de negação de direitos e conquistas históricas e não deixa de representar um retrocesso ao defender a idéia de uma visão de mundo dominante. Essa globalização econômica e cultural a que estamos assistindo é excludente. Porto Alegre.mais avançada. contrapondo-se anualmente ao Fórum Econômico de Davos. ao imaginar que um mundo onde a variedade e a diversidade reinam absolutas pode se transformar numa grande rede consumidora de fast foods. desenvolvendo redes de comunicação alternativa. que não se limitam a intervenções em navios ou a protestos em frente a reuniões de cúpula de Estado. A sensação de sufoco sentida por políticos. seja aqui na América Latina. carregada de valores ocidentais tidos como universais. desencadeando ondas de protesto contra a globalização. discutem problemas e alternativas. Ao que assistimos não é a globalização. aglutinam propostas. A vulnerabilidade e a instabilidade. como nos foi apresentada. intelectuais. publicando trabalhos. utilizando-se da tecnologia como a Internet para propagação de suas agendas. Washington.com. para não dizer insignificante. pluralidade de culturas e perspectivas. uma tentativa de “mcdonaldização” do mundo. o Social está em vantagem. dentre tantos outros. frente ao mar de alienação propagado 190 Monographia. n. estão indo além. ou ao menos. organizações e pesquisas. tal como foi idealizada. Desde 2001. Porto Alegre. Essa sensação de opressão ocasionou a organização da sociedade civil. como descrito por Frei Betto (2002). embora muito timidamente. seja no Oriente Médio. principalmente entre os jovens. porém ainda é fraco.fapa. 3 Disponível em: http://www. o despertar das mentalidades. articulando ações. desigual e reducionista.br/monographia . das fábricas e pelas massas de desempregados e sem moradia. Percebe-se. como conseqüência das políticas neoliberais. Ao menos no que tange o número de participantes. Seatle. pessoas relacionadas à cultura é a mesma sentida pelos trabalhadores do campo.

à luta pela reforma agrária. mas o que cabe destacar aqui é a forma como elas vêm pressionando as Organizações Internacionais e os Estados. com a alta incidência de raios ultravioletas nocivos à saúde da população e o degelo das zonas glaciais. Podem ser interpretadas como a nova esquerda. uma vez que demonstram articulação internacional vultosa. Essa luta amplifica o processo de formação de redes e de movimentos civis globais. ao invés de aguardarem mediocremente e entregá-lo ‘de bandeja’ às grandes instituições financeiras e de mercado. Porto Alegre. o ponto de maior relevância e pauta do momento é o aquecimento global. à oposição ao agro-negócio. com redes de ligação planetárias e número de participantes incontável.com. Os principais tópicos de luta estão relacionados aos direitos humanos. culturas. às questões ambientais. 191 Monographia.diariamente em âmbito global.fapa. n. há algumas décadas. As Organizações não-governamentais não são reguladas pelo Direito Internacional e sim pelo Direito Local. como cerne de discussões entre ambientalistas e governantes. Assim como representam grupos de pessoas físicas associadas. Elas são muitas e estão espalhadas por todo o mundo. como o aquecimento global. A questão ambiental e a nuclear são dignas de destaque.br/monographia . ideais. 3 Disponível em: http://www. Não se pode negar o papel destas organizações antiglobalização neste aparente despertar. como conseqüência. são incontáveis e algumas de origem duvidosa. dada a importância vital que exercem. tentando humanizar o mundo. desta maneira variando de acordo com as regras da região onde forem atuantes. integrando grupos. fenômeno este que já estava previsto. O desmatamento desenfreado e a descontrolada emissão de gases na atmosfera fizeram com que a camada de ozônio enfraquecesse a sua proteção ao redor da terra e. podem ser representantes de empresas transnacionais. Com relação à primeira. à oposição aos testes nucleares e à globalização econômica. vieram o famigerado aquecimento global. aos movimentos pacifistas.

Índia. Tal recusa foi baseada no prejuízo à sua economia. organizou-se um tratado internacional. O Governo Bush e o 11 de setembro 192 Monographia. Este ponto tem sido um dos principais focos de tensão contemporânea.Estados Unidos. 3 Disponível em: http://www.br/monographia . n. Firmado na década de setenta. a China. Em suma. Os dois primeiros são reconhecidamente potências nucleares. Porto Alegre. a Grã-Bretanha e a França . 2. ao detonarem duas bombas em solo japonês. A negativa unilateral em assinar o protocolo por parte do Estado americano gerou além de desconforto aos aliados europeus. uma onda de protestos por todo o mundo. como uma forma cruel e arrogante de demonstrar sua supremacia militar. sem levar em consideração os danos ao meio ambiente e sem avaliar o tamanho da responsabilidade das empresas americanas espalhadas pelo mundo.todos membros permanentes do Conselho de Segurança. peça essencial ao bom andamento das Relações Internacionais e atual justificativa para intervenções norte-americanas. que estariam obrigados a não transferir armas nucleares. assegurando cooperação internacional para a utilização civil da energia produzida desta forma. neste processo de desagregação natural. visando à limitação da disseminação de armas nucleares e à utilização pacífica da tecnologia nuclear. Cabe aqui formalizar que o único país da história a usar armas nucleares foram os Estados Unidos.Aspirando limitar a emissão dos gases causadores do efeito estufa e sob pressão de Organizações Não Governamentais. reconhecia somente cinco países . a então URSS.fapa.com. já o governo israelense nega a existência de armas e pesquisas em seu território. no ano de 1997. nem auxiliar sua obtenção por países não autorizados. Outro debate que esta em voga é o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Paquistão e Israel negaram-se a assiná-lo. o tratado objetiva evitar uma guerra nuclear. em um contexto de incontestável superioridade americana. discutido e negociado em Kyoto no Japão. e que oficialmente passou a vigorar somente em 2005. foi ratificado em 2002 e assegurado por mais de 188 países.

p. tal como vinham fazendo os democratas. refletindo o apoio explícito dado pela sociedade civil americana à guerra contra o terror. 2OO5.1. cujas atividades laborais. tiveram início na indústria do petróleo. um tanto quanto contraditório. Importante legado. Sua popularidade.2. Após ter sido declarado vitorioso na conturbada e suspeita eleição em que venceu por uma diferença insignificante de votos o candidato democrata Al Gore.com. quase naturalmente e. enquanto abandonava o papel de mediador (tarefa que cabe ao país hegemônico) em conflitos como o do Oriente Médio. no estado americano do Texas. em janeiro de 2001. ironicamente. que mergulhou em uma espiral incontida de violência. foi completamente abandonada. A idéia de apoiar a liderança americana nas organizações multilaterais. é a herança do Destino Manifesto. 3 Disponível em: http://www. acaba se tornando a tônica de muitos dos discursos em defesa dos interesses estadunidenses. por exemplo. a expressão “Levar a democracia e o livre mercado a todos os povos do 193 Monographia. considerado um dos pilares do sistema de valores e da moral que regem a sociedade americana desde a sua formação e peça fundamental para que compreendamos algumas das diretrizes seguidas pelo governo e seus governados. n. particularmente a ONU. Bush. geralmente. O Destino Manifesto e A Doutrina Bush O Governo do Republicano George W. controlada por sua família. Principalmente em momentos de crise ou ameaça de guerra. dentro da visão de que “os EUA venceram a Guerra Fria e necessitam colher os frutos”. O oportunismo sempre esteve presente na carreira política e empresarial deste filho de ex-presidente. Bush passou a governar ignorando as organizações internacionais. começou a reabrir focos de tensão. ele surge. Porto Alegre. do ponto de vista político. indicador que mede o nível de aceitação e aprovação entre a opinião pública.br/monographia . (VIZENTINI.fapa. teve um vertiginoso crescimento no período subseqüente ao 11 de setembro. dando lugar a uma visão unilateral que contrariou seus próprios aliados da OTAN. cercado de assessores linha-dura e ligados a obscuros lobbies. Um presidente despreparado. 141). Para melhor compreensão desta rápida aprovação à guerra. teve já em seu primeiro ano de governo que conduzir as ofensivas militares no Oriente Médio. desde que ascendeu ao poder. tem se mostrado. relacionamos valores morais e históricos da sociedade americana.

que já se tornou praticamente um jargão ideológico. procurando manter diante do público uma postura de firmeza que seria muito explorada durante a campanha eleitoral. n. hegemonia benevolente. assumiu uma postura que alternou momentos de agressividade e passividade. nos parecia irreal: a superpotência econômica e militar do nosso século. faze parte da estratégia imperial que visa construir uma nova hegemonia americana. 3 Disponível em: http://www. Em momentos de turbulência como este vivido pelos Estados Unidos. de algo que até então. a liderança e a coragem em fazer escolhas são o que contam. está tão enraizada no ideário social. Os estrategistas republicanos não discutiam a eficiência ou idoneidade das decisões de Bush. (PECEQUILO. sem possibilidade 194 Monographia.fapa. intervir em outros países. o exemplo mais preciso é o Iraque. a Casa Branca. 428). Ameaça. Risco e Guerra Preventiva Todos.br/monographia . trata-se de uma agenda para a política externa que envolve conceitos como mudança de regime. Porto Alegre. sendo atacada em seu próprio território. Assim. onde a estratégia não estava só no ataque. como se convencionou chamar esta organização estratégica adotada pelo governo americano no imediato pós atentados. No que tange à mudança de regime. unipolaridade.mundo”.2. guerra preventiva e excepcionalidade. Hoje o problema consiste em como administrar estas transições. A Doutrina Bush. ou até mesmo direito. pararam para assistir às transmissões em tempo de real. 2003. alterando a constituição e a organização política . Diante das pressões. que a grande maioria dos americanos crêem que realmente seus governos têm como meta. mais precisamente aos interesses americanos. 2. tendo os valores individualistas ocidentais como objetivo. considerado malévolo ao mundo. mas também no interesse direto de mudar o regime. A idéia de povo escolhido.com. em todos os cantos. mas sim a sua capacidade em tomá-las. que dificilmente estão acompanhadas de um processo pacífico e não têm a estrutura necessária à sua implementação imediata. como forma de deter o Estado. A busca de uma civilização universal. aplicar rótulos e determinar veredictos.

O objetivo final desta guerra psicológica é proporcionar facilidade para orquestrar. Ela provocou mudanças sociais no comportamento individual e coletivo. quando os EUA colocavam seus indicadores de segurança em alerta máximo. justificando a supressão de direitos civis e até mesmo as guerras. Somado a tudo isso. (CHOMSKY. Este tipo de ação preventiva difere da política de contenção da Guerra Fria. temos um novo fator.br/monographia . formando mentalidades 195 Monographia. a qual se apresenta como uma das principais conseqüências do terrorismo. em frente a todos. significa uma paranóia coletiva. dois dos seus principais símbolos. Até então os norte-americanos gozavam de uma imunidade geográfica. Como resposta imediata a esta violação. o discurso foi simplesmente modificado. manipular a sociedade civil. dando idéia a uma percepção pânica. como conceituou Halliday. cérebro de seu sistema financeiro.de defesa. ele analisa o papel do líder como livre para mudar as regras a seu bel-prazer. prevendo uma possível ameaça de ação química e/ou biológica. como pudemos acompanhar na esteira dos atentados. que se convencionou chamar de Guerra Psicológica. a Guerra Preventiva. criando consentimento às ações do Estado. 2004). desta forma. uma vez que prevê levar a guerra até o inimigo. Segundo Chomsky. No momento em que foi declarada sua inexistência. uma ansiedade global. o governo lançou a diretriz do que seria a principal arma da Doutrina Bush. “suspeitavam” de seu desenvolvimento. na realidade. n. colocando-se como os grandes salvadores. tendo como alvo.fapa. que lhes permitia relativa tranqüilidade com relação à penetração estrangeira em suas fronteiras. que não é real.com. Porto Alegre. citando a justificativa para invasão do Iraque: a localização de armas de destruição em massa. trata-se de algo que pertence à categoria de crimes de guerra. centro de sua organização militar e inteligência. promovendo o medo global e. o World Trade Center. no caso da invasão ao Afeganistão. e o Pentágono. como pudemos assistir. 3 Disponível em: http://www.

se faz necessária uma análise crítica. restrita a poucos. 3 Disponível em: http://www. Emocionante. os direitos humanos são colocados como uma máscara que esconde e justifica as atividades de ocupação norte-americana. Porto Alegre.favoráveis à necessidade de um novo militarismo. despertou em si um sentimento de desprezo. porém. Como mostrar este pesar ao mundo? Como fazer com que todos os povos se solidarizassem com o ocorrido? Simples. repetidas incontáveis vezes. há décadas. Se apreciarmos a cobertura sob a égide do imprevisível.br/monographia . talvez seja mais fácil compreender. cobriu os eventos de 11 de setembro ao vivo. O governo Bush não logrou 196 Monographia. dentre outros. em especial a norte-americana. Mídia e Opinião Pública A mídia. n. de forma maçante e com traços de sensacionalismo explícito.com. 2. A maioria. Assim. não sentiam a dor de perdas conterrâneas significativas desde o Vietnã.3. Lógico que tudo aquilo que passava aos olhos dos americanos e do mundo. visualizando sua capacidade de despertar a sede de vingança no seio da sociedade civil. Acostumados. explosões e música clássica ao fundo.fapa. vítimas das práticas e sanções neoliberais defendidas pela Casa Branca. a história parece ter sido negligenciada e até mesmo manipulada. pelo senso comum. ao suprimir dados como treinamento e armamento da milícia Talibã alguns anos antes. era até então algo incomensurável. Esta sensibilidade crítica é. naquela fatídica manhã de setembro. Os estrategistas norte-americanos souberam muito bem se beneficiar da efervescência e da instabilidade seguidas aos atentados. uma vez que os acontecimentos têm forte apelo psicológico. aos latinos e a todas as nacionalidades de imigrantes não brancos. a atacar. Em virtude disto. sim! Mas nenhum pouco se comparado às milhares de crianças africanas que padecem de fome e de Aids diariamente. hostilidade e até mesmo ódio aos árabes. anglo-saxões ou protestantes. Imagens em câmera lenta. Sob a ideologia da “intervenção humanitária”.

às vezes. n. No caso do Afeganistão. como uma espécie de painel 197 Monographia..o inesperado. (. O mito do terrorismo universal Definiremos terrorismo como o uso da violência.. Não queremos fazer isto. comunicados e homenagens. O tipo Ansiedade Global foi analisado anteriormente como guerra psicológica.e o anonimato . as fontes independentes de noticia não podem competir com o poder e a riqueza das cinco ou seis companhias proprietárias da grande mídia hoje em dia. No mundo globalizado. 12 e 13). Pode ser o Terrorismo de Estado. É preciso resgatar a mídia com o papel de informar e não de formar opinião. 3. podemos citar a surpresa . a exemplo de ditaduras e regimes totalitários. “a informação é poder” e as Agências Internacionais atuam como difusoras da visão ocidental.. políticos e econômicos.) E os Estados Unidos apaziguaram a manipulação envolvida. 3 Disponível em: http://www.. eles nem mesmos fingiram ser humanitários imparciais. que dá à atitude o seu caráter mais assustador . com o objetivo de chamar a atenção da opinião pública à determinada ação.) A tarefa da cobertura objetiva fica realmente delegada a redes alternativas de informação e educação. física ou psicológica. (ALI. foi a prática. quando são ações praticadas pelo governo contra a sociedade com o objetivo de impor definições. p. é praticado por Estados ou grupos clandestinos. desencadeia guerras civis. 2006. Foi uma guerra basicamente rudimentar de vingança.. serve aos interesses ocidentais: estratégicos. nada ética.). Todas estas guerras são similares com relação ao uso da ideologia. o que assistimos. O tipo Comunal é geralmente o que mais produz vítimas e.esforços. O tipo Atentados. mas fazemos pelo bem das pessoas que vivem lá.br/monographia . Porto Alegre.1.. (. praticada por indivíduos ou grupos políticos contra a ordem estabelecida. planejada em grande medida para apaziguar a opinião publica americana. como forma de induzir a opinião pública ao apoio explícito à guerra contra o terror. ainda assim.) Mas. de um jornalismo unilateral e manipulador. no primeiro momento... O Terrorismo e o Choque de Civilizações 3.que faz com que após um ataque vários grupos assumam a sua autoria. Isto é evidentemente um artifício (. A mídia tem um grande papel. pode ocorrer dentro e fora das fronteiras nacionais. Como características comuns. É a ideologia da chamada intervenção humanitária.com. (.fapa.

sem se reconhecer seus reais mentores. tanto no sentido pessoal quanto no social. muitos jovens vinculam-se a grupos extremistas como uma forma luta de libertação. como ocorreu no Afeganistão. motivos esses que a mídia não tem o hábito de mostrar. Centraremos o exame nos grupos islâmicos de forma a tentar identificar em que momento este terrorismo passou a ser uma ameaça à democracia ocidental. tornar-se mártir por lutar pela libertação de seu povo. 3 Disponível em: http://www.fapa. Entendem esta libertação. de sua própria vida.com. tornando práticas ações terroristas. para se livrar das amarras da opressão. utilizado como último recurso.br/monographia . são apresentados como terroristas fanáticos. Dada a instabilidade política e econômica vivida nos países árabes. Porto Alegre. os ataques podem ocasionar guerras e conflitos de maneira súbita. sem qualquer motivo adicional que justifique suas atitudes suicidas. São grupos radicais e violentos sim. É importante procurar compreender o que leva um homem a abdicar de seu convívio familiar e. criam constantemente focos de tensão e isto. no Oriente Médio. ou até mesmo que fiquem em aberto por longos períodos. em busca de um ideal de salvação. 198 Monographia. Ao grande público. declarações de guerra e tentativas de acionar a opinião pública parecem insignificantes. seja na Colômbia. atrelada às questões do fundamentalismo religioso e à ausência de perspectivas. em muitas situações. Essa opção pela “ação” é feita quando percebem que protestos. na Irlanda. n. resistindo às interferências estrangeiras. Hoje a guerra contra o terror mobiliza a todos em termos de armamentos e a indústria bélica norte-americana lucra e muito com esta agitação. Para manter seu status de superpotência mundial. Os grupos terroristas estão espalhados pelo mundo todo. fomentando o crescimento de sua economia. movimenta sua indústria e gera lucro aos empresários.publicitário. Como conseqüência. e a cada atentado voltam às manchetes. mas carregam motivos sérios para sua existência. sem dúvida. esvaziando de essência a ação. como um ato desesperado. na Espanha.

disseminaram ao mundo a imagem dos homens-bomba. A jihad. a luta como um meio para trazer a paz. Os seguidores de Alá acreditam na paz e têm amor ao conhecimento. a religião islâmica e a cultura árabe acabam sempre sendo relacionadas à ameaça desenhada pelos ocidentais.com. para não dizer em nada. devido à instabilidade da região. São tão distantes que um afegão. sempre estar agregando novos seguidores. Antes de qualquer interpretação e análise sobre o Oriente Médio.br/monographia . 3 Disponível em: http://www. rejeitando princípios como o egoísmo. associando o terrorismo ao islamismo. se relaciona com os preceitos propagados aos quatro cantos pelo american way of life. pois enquanto houver ocupação territorial. Porto Alegre. mas recebe os mais diversos significados. neste contexto.Em meio a este fértil terreno.2. almejando a prosperidade a todos os povos do mundo. embora a sua finalidade seja uma só. tão característico do ocidente. Assim. 199 Monographia. haverá resistência e este choque cultural não será amenizado através do uso da força. O código de moral e ética que serve de guia aos povos muçulmanos em pouco. O Alcorão é dotado de uma mobilidade que lhe permite. os Estados Unidos encontraram a personificação do que consideram o mal e. 3. é interpretada como a luta do povo árabe. ele sempre ficará do lado do seu semelhante e não de quem o ocupa ou ameaça. por exemplo. n. assim como é facilmente adaptável às mudanças temporais. O confronto entre Palestina e Israel configura o centro do conflito na região. rechaçando a prática de agressões. muito mais que isso. não consegue encontrar atrativos na recompensa paga para quem der o paradeiro de Osama Bin Laden e. A instabilidade política no Oriente Médio Os fundamentalismos encontram o meio perfeito para a disseminação no Oriente Médio. ao mesmo tempo. Isto configura-se como mais um entrave à diplomacia estadunidense.fapa. é importante frisar o enorme precipício existente entre as culturas árabe e ocidental.

neste cenário. A justificativa para a invasão e conseqüente ocupação do país está no fato de existirem suspeitas de que os talibãs estavam dando abrigo a militantes da rede al-Qaeda da qual o procurado número um do mundo. (ALI.br/monographia . ainda não conseguiu se encontrar política e estruturalmente. como a “polícia do mundo”. uma vez que estes não podem mais viver oprimidos à sombra de helicópteros e tanques israelenses.. às idéias defendidas por Fukuyama e ilustradas anteriormente. pois isto cria o choque civilizacional.O totalitarismo praticado pelo governo israelense é escancaradamente apoiado pelos EUA. mais pessoas procurarão vingar-se. Ao tentar impor seus valores a outras sociedades nãoocidentais. Ele vê o mundo engajado em processos simultâneos de fragmentação e integração. este sim é o maior dos desafios americanos. ou seja.fapa. como ocorre com os paradigmas de um só mundo e de dois mundos e. como um país que. Porto Alegre. propõe: Visualizar o mundo em termos de sete ou oito civilizações (. Osama Bin Laden. Como argumenta ALI. dando maior suporte ao povo palestino na resolução de suas reivindicações territoriais.).. Contrapondo-se. Os americanos potencialmente desperdiçaram a possibilidade de solucionar o impasse na região. faz parte. reina a instabilidade e a violência. o que configura mais uma forte fonte de hostilidade da sociedade civil para com as ações destes dois Estados. 3 Disponível em: http://www. embora “liberto” pelos norte-americanos das estruturas de controle arcaicas e violentas das milícias talibãs. cabendo-lhes o dever de apaziguar os ânimos.com. desconexo e heterogêneo. percebe-se seu declínio. acaba por se enfraquecer. são primordiais ao sucesso de sua implementação estruturas sociais e políticas sólidas. pois quanto mais territórios vocês destrói. porém se comparado a outras civilizações. o terrorismo não se reduzirá enquanto não cessarem as invasões e as ocupações. Com isso não se sacrifica a realidade em favor da parcimônia. 2006). Enquanto o país não encontra seu caminho para a democracia. por completo. O Afeganistão configura-se. A transição para um regime democrático não se configura do dia para a noite. o Ocidente continuará por muitos anos como a civilização mais poderosa. n. Para Samuel Huntington (1996).200 Monographia.

(HUNTINGTON.com.fapa. p. Os Estados-nações são e continuarão a ser os atores mais importantes nos assuntos mundiais. O mundo é. são Estados militarmente 201 Monographia.por outro lado. Síria e Cuba . 3 Disponível em: http://www. O mundo é. O Eixo do Mal e a Guerra no Iraque O termo “eixo do mal” foi utilizado pela primeira vez por George W. As diferentes sociedades que compõem o sistema internacional. de fato.3. um exemplo recente é a manutenção dos laços de cooperação e as semelhanças com a política bélica (estratégica) do estado de Israel. também lhes cabe muito bem. porem seus interesses. há algumas décadas. como os principais financiadores deste mesmo terrorismo internacional.Bush. (. étnicas combinadas com questões territoriais e nacionalismo. Embora pareça irônica esta definição. como o fazem os paradigmas estatista e do caos. Iraque e Coréia do Norte. culturais.têm uma característica comum.Irã. Realmente nos é perceptível que os Estados e a própria sociedade civil tendem a aproximar-se ideologicamente de seu próximo e entendemos este “próximo”. Porto Alegre. culturalmente próximo e aliado. também não se sacrifica a parcimônia em favor da realidade. anárquico. cada qual com suas questões políticas. Os países colocados na berlinda . seguidos de Líbia. pleno de conflitos tribais e de nacionalidade. 39) A análise do ponto de vista civilizacional é bastante apropriada ao atual contexto.br/monographia .. 3. provocando crises e instabilidades. religiosas. em discurso proferido ao Congresso americano no início do ano 2002. 1996...) está dividido entre um ocidental e muitos não ocidentais. (. associações e conflitos são cada vez mais moldados por fatores culturais e civilizacionais. o principal fomentador do terror no Oriente Médio. do ponto de vista civilizacional. uma vez que os EUA se apresentam. de forma a estabelecer quais eram os países que representavam ameaça ao mundo civilizado. em certo sentido.) um enfoque civilizacional sustenta que: As forças de integração no mundo são reais e são precisamente o que esta gerando forças contrarias de afirmação cultural e consciência civilizacional. motivariam as disputas em arena global. porem os conflitos que representam os maiores perigos para a estabilidade são aqueles entre Estados ou grupos de diferentes civilizações. ou seja. por possuírem armas de destruição em massa e por atuarem regionalmente como patrocinadores do terrorismo internacional. duplo. n.

a inserção de capitais. a posse e a concessão de suas reservas. A acusação é a de investirem em projetos de construção de armas de impacto e ameaçarem diretamente a estabilidade global. foi marcada pela resistência e pela hostilidade do povo aos militares americanos e as crescentes baixas de soldados da coalizão ocasionaram o desgaste do Governo Bush frente à opinião pública doméstica e internacional.fapa.inferiores e economicamente insignificantes. O que será que prefeririam os iraquianos? Por que eles não foram alvo de consulta sobre seu futuro? Será que não havia nenhuma outra forma de libertar o povo do Iraque da ditadura de Saddan que não fosse a invasão. a democracia e os direitos humanos no Iraque. A ocupação do Iraque. as 202 Monographia.com. está o recurso natural capital à atual fase de desenvolvimento (ALI. o preço que se paga por tê-lo. o islã torna-se o arquiinimigo do ocidente. do pano de fundo de todo o conflito. 3 Disponível em: http://www. pois. Dificilmente conseguiremos separar o motivo petróleo. pois nada pode ser pior a um povo do que viver em um território ocupado por forças estrangeiras. . como conclui Tarik Ali. em 2003. estudioso paquistanês de assuntos relacionados ao Oriente Médio e Imperialismo. no mundo árabe. A libertação da tirania e a suspeita de existência de armas nucleares serviram de justificativas à invasão. 2005). Ele constata que o fato de a religião muçulmana ter se tornado inimiga é um acidente da geografia e da história. O Oriente Médio como o maior fornecedor deste recurso natural. Os custos da ocupação e as conseqüências da Guerra no Iraque. o envio de grandes contingentes humanos ao Iraque visavam à nobre preocupação norte-americana com o bem estar. produto vital para economia de qualquer país. debaixo de suas terras. A Guerra no Iraque é vista. da cultura e de sua história? Este tipo de reflexão se faz essencial. Porto Alegre. é uma questão de interesse puramente econômico.br/monographia . É muito difícil fazer-se acreditar que toda a movimentação. como uma cruzada pelo petróleo e. n. desta forma. a ocupação e a desagregação da sociedade.

Conclusão A ausência de qualquer contra peso à liderança norte-americana permitiu novas formas de relacionamento internacional. centrado na China. entre os principais teóricos estudados. desde que assumiu a Casa Branca em 20/01/2001.fapa. configurando assim ameaça ao poder de coerção econômica e à manipulação política exercidos pelo império. têm sido a “pedra no sapato” do governo Bush. uma vez que se torna cada vez mais clara a incapacidade de o Estado americano manter sua hegemonia. as baixas civis e militares. Juntos.br/monographia . representam maior importância no cenário internacional e. Não é à toa que a União Européia e o bloco asiático. em que os países periféricos mostraram-se indefesos frente ao processo de globalização. 203 Monographia. Não há mais como. Este processo de regionalização de forças mostra a capacidade de os países aglutinarem-se para poder fazer frente à hegemonia exercida pelos Estados Unidos.estratégias. Porto Alegre. a vitória democrata no Congresso. logo após a posse dos novos congressistas. de maioria republicana. no cenário internacional. o que ficou claro com constituição dos blocos econômicos. é compartilhada. 3 Disponível em: http://www. apenas uma super potência reinar absoluta. liderança que não predominava há exatos 12 anos. A convergência. n. de que o império está declinando e que se vislumbra a emergência de novas potências. permeado pelo processo de globalização.com. Bush gozou da mais baixa popularidade entre os americanos. Este fato acelerou a necessidade de uma junção de forças. além da opinião pública. Em janeiro de 2007. ele deverá enfrentar mais uma oposição interna. acabam exercendo com mais dinamismo as negociações de seus objetivos comerciais e articulando políticas que visam à sua integração e conseqüente desenvolvimento. da confirmação do destino de mais recursos e do envio de mais tropas para o país. Após a divulgação de um novo plano para o Iraque. como uma repulsa as práticas no Oriente Médio. desta forma. agora o próprio congresso americano está contrário às suas ações externas. em 2006. os investimentos.

compreendidas e amenizadas. acreditamos que suas causas sejam administradas em sua essência. na sua raiz. utilizando uma expressão bem simples. principalmente. ouvidos. Será preciso certo distanciamento temporal para podermos ter as reais conseqüências do eventos aqui descritos. justificada com razões políticas. inaugurada em 2001. será de caráter religioso ou civilizacional é difícil precisar. realmente o Ocidente estará destinado a apagar incêndios dentro e fora de casa.É importante compreender os motivos que levaram à Guerra do Iraque. Querer frear o terror extinguindo-o é impossível. 204 Monographia. n. mas completa. valorizando elementos antigos já arraigados em sua identidade. porém tudo nos leva a crer que realmente houve uma grande sacudida. Este abalo ainda se faz sentir e. garantindo que sejam evitadas opressões. mesmo em situações em que eles representem minorias. É isto que define as prioridades e o teor de seu engajamento. por isso mesmo. como o foco em uma ameaça externa. ditos civilizados. tal qual a postura adotada no pós 11 de setembro. Uma das grandes questões que se coloca hoje é como combater o terrorismo. agora terroristas. sempre deixando uma via de expressão aberta para que os anseios sociais possam ser divulgados e. 3 Disponível em: http://www. Ela não deixa de representar uma forma de demonstração de seu poderio militar. não temos como defini-lo sem cair no reducionismo histórico. bandeira tão levantada pelos povos ocidentais.fapa. como puramente econômicos. como um meio para lograr os objetivos de manutenção da hegemonia. podemos esperar sim por um conflito entre culturas. Percebe-se continuidade na forma pela qual os Estados Unidos conduzem sua política externa. Assim como em muitos dos conflitos mundiais. fomentando a incidência de mais conflitos. estando a questão do Petróleo como pano de fundo para a invasão. mas se considerarmos seu impacto e o desgaste da imagem do mundo árabe para com os ocidentais. antes comunistas.br/monographia . se suas raízes não forem analisadas. mas isto está na essência da democracia. Pode parecer utópico.com. Porto Alegre. Se esta nova fase.

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