A POLÍTICA EXTERNA NORTE-AMERICANA E O DISCURSO ANTITERRORISMO Graziele Oliveira Saraiva1

Resumo
A política externa norte-americana e suas modificações na esteira dos atentados terroristas ao World Trade Center. Análise da postura no pós Guerra Fria, desde a inaugurada Nova Ordem Mundial, até a chamada Doutrina Bush. A guerra contra o terror, justificando a utilização de ações preventivas, como uma forma de levar a guerra até o inimigo. O 11 de setembro como um divisor de águas dos tempos modernos, inaugurando uma nova fase das relações internacionais e ditando as novas regras na condução da política mundial. Palavras chave: Política externa norte-americana. Petróleo. Oriente Médio. Relações Internacionais. Eixo do Mal. Iraque . 11 de setembro.

Introdução Após os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, o mundo todo incorporou ao seu cotidiano, a palavra terrorismo, expressão até então empregada de maneira muito pontual para representar a ação de milícias armadas em conflitos étnicos, religiosos ou até mesmo de caráter separatista. Todavia, a partir do exato instante em que a primeira das torres gêmeas foi atingida, passou a fazer parte do cotidiano de cidadãos de todas as nacionalidades, credos, ideologias, ultrapassando todas as fronteiras. Analisar como foi construído o mito de um terrorismo universal e as mudanças na política externa norte-americana e do cenário internacional, após o 11 de setembro, é a pretensão deste artigo. Através da análise crítica de alguns referenciais teóricos de Relações Internacionais e de História Recente, busca-se

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FACULDADES PORTO-ALEGRENSES – FAPA -ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA. Orientador: Ana Lúcia Danilevicz Pereira - analuciapereira@fapa.com.br Porto Alegre 2007. grazistars@terra.com.br 181 Monographia. Porto Alegre, n. 3 Disponível em: http://www.fapa.com.br/monographia

identificar os atores deste conturbado cenário internacional, dando ênfase às estratégias americanas e sua relação com o mundo árabe. O que efetivamente mudou após esta fatídica data? De que forma os Estados Unidos conduziram sua política externa na construção deste discurso antiterrorismo? Como auxilio à compreensão do cenário político internacional neste início de século, procurando compreender os mecanismos utilizados pelos estrategistas americanos, no fomento e consolidação de um discurso antiterrorismo e os instrumentos a ele relacionados, utilizaremos como base de análise duas obras que tem se colocado como importantes interpretações do atual período histórico: O Fim da História de Francis Fukuyama e O choque de civilizações de Samuel Huntington, visões que se contrapõem e representam de forma excepcional aquilo a que se propõem. 1. O Império e o Fim da História 1.1. A política externa norte-americana no pós Guerra Fria A emergência de uma força política fora do eixo europeu foi uma das principais modificações no cenário político do século XX. A mutação do sistema político, até então predominantemente europeu, afetou em cheio as relações internacionais, trazendo à tona a necessidade de modificações na cena internacional. Até 1940, os Estados Unidos praticavam uma política isolacionista. Durante a Segunda Guerra, eles configuraram-se como potência militar, política, econômica, inaugurando uma nova fase. Representando e liderando o bloco ocidental, aliaram-se à Europa para fazer frente à ameaça comunista, liderada pela URSS, a potência do bloco oriental. Desta aliança surgiu a OTAN, em 1949, como órgão condutor desta unidade militar. A política externa norte americana, já de caráter intervencionista e conseqüentemente imperialista, não podia deixar ascender um opositor de tal
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afrontou-se. que muito bem souberam usufruir suas conclusões. a guerra deixava de ser um instrumento viável da política internacional e. em 1989. no início dos anos 90. Sua teoria tornou-se ícone para os liberais e neoliberais. partidário desta visão otimista de encerramento pacífico da Guerra Fria. com a derrota do comunismo e a afirmação do capitalismo como modelo triunfante. com maior participação de atores privados e transnacionais no Sistema Internacional. configurando as origens do conflito. o sistema caminhava para um período de paz permanente. que deve ser encarado como complexo e racionalmente explicado à luz das enormes transformações que marcaram o século XX. Nesta lógica. dando lugar à supremacia do capital. estava fadada a era da bipolaridade e de antagonismos entre as 183 Monographia. capitalismo versus comunismo. o The National Interest. Neste novo cenário. Com a queda do Muro de Berlim. Segundo ele. que não cabe aqui periodizar. temos a derrocada do maior símbolo da divisão entre dois mundos. em uma região considerada vital. ao longo da história. com ideologia contrária à sua. sempre estiveram relacionados a questões ideológicas. Entendendo o capitalismo e o liberalismo como modelos triunfantes. ainda em 1989. É o início de uma nova fase. com um período de crescimento econômico e estabilidade internacional desenhando-se no horizonte. A bipolaridade. revestida de uma racional hostilidade controlada e manteve-se por quase quatro décadas. assim como pela disseminação da cooperação e dos valores associados à democracia e à liberdade econômica. Francis Fukuyama (1992) decretou o Fim da História. Porto Alegre. em um periódico americano. os conflitos.fapa.br/monographia . 3 Disponível em: http://www. com o desgaste do lado socialista com pontos de estrangulamento internos e frente a pressões externas. Frente a esta incompatibilidade ideológica e de objetivos entre os dois lados. aparentemente. iniciou-se o conflito da Guerra Fria.com. mediados por organizações internacionais e relações diplomáticas entre os Estados. do ponto de vista de estratégia geopolítica. n.magnitude. passando por diversas fases. através da publicação de um artigo de mesmo nome.

a homogeneização em torno dos avanços tecnológicos. Fukuyama. intitulada O dilema americano. independente de origens históricas ou culturais. considerava-se um neoconservador. Reflete acerca da mudança na condução da 184 Monographia. mas com a idéia de que ocorrerá. explorada e terceiro mundista pelas grandes corporações norte-americanas.com.Afeganistão e Iraque . Conferia às ciências naturais a responsabilidade de uniformizar as sociedades. Defendia que a lógica do capital estaria determinando a vida de toda a sociedade e realmente está. Fukuyama transcorre sobre a política externa de seu país. européias e asiáticas. à redução dos custos de matérias primas .fapa. prevalecendo a tendência da homogeneização de idéias e ações. ao assustador aumento do desemprego global. Posiciona-se firmemente contrário às duas guerras . de influência hegeliana. n. favorecendo a modernização econômica. quase naturalmente. Porto Alegre. tornando possível a acumulação de riquezas e favorecendo potencialmente o processo de homogeneização das sociedades. tornando todas organizações sociais parecidas. à valorização e à exploração de mão de obra barata .br/monographia . desde os ataques de 11 de setembro. ex-funcionário do Ministério de Defesa norte-americano. diretamente atrelada à globalização. caracterizando as contradições que envolvem a construção e manutenção desta nova hegemonia.nações. movendo o mundo em direção ao capitalismo.o que fomenta ainda mais o desequilíbrio ambiental. quando da redação de seu controverso artigo. Como conseqüência deste processo. no momento em que esta tecnologia fosse incorporada.em que estiveram envolvidos. a modernização e o desenvolvimento tecnológico. Com a chamada Terceira Revolução Industrial. 3 Disponível em: http://www. temos assistido à crescente e desenfreada competitividade no mercado internacional.especificamente. e faz uma espécie de mea culpa com relação à forma e à dimensão que seu famoso artigo atingiu. já não podemos concordar. Hoje em publicação recente. estava a aproximação maior entre os povos e a disseminação de uma cultura consumista universal.

política externa. não representou o fim da história. de maneira realista. um futuro de incertezas se apresenta. se não o esgotamento de um modelo em detrimento da superioridade de outro. A tese do Fim da História aparentemente perdeu a credibilidade conquistada na última década. Porto Alegre. dando lugar a programas multilaterais. às transnacionais e à globalização.2.com. mais adequados ao mundo globalizado. a vitória do capitalismo. a Guerra Fria nos deixou o desenvolvimento tecnológico. que já se arrastavam por 185 Monographia. 1. na política internacional. Hoje. somada ao aprofundamento de novas formas de dominação econômica. o que se convencionou denominar nova ordem mundial. na qual. contanto. Para os que criam no efetivo Fim da História. A nova ordem mundial e o Sistema Internacional O compartilhamento de valores entre as sociedades. a ausência de uma ideologia alternativa e eliminadas as divergências entre os povos. Algo novo se desenhava no céu de Nova Iorque.fapa. uma vez que sofreram um enfraquecimento interno. 2006). Como herança. pois antigos padrões e atores. percebemos que estamos vivendo novamente esta transição e com ela a necessidade de reafirmação norte-americana. segundo Vizentini (2005). apontando assim os erros do governo Bush na condução de sua política para barrar o terror (Fukuyama. Desta forma. após os atentados de 11 de setembro. representando a Revolução Científica Tecnológica (RCT). A história tem se delineado em períodos de crise e transição. que. a idéia da supremacia de um pensamento único apresentava-se vindoura. do qual a indústria bélica norte-americana muito se favoreceu. n. inaugura. Nova Ordem. ao neoliberalismo. deveriam ser revistas as estratégias de guerras preventivas.br/monographia . no momento em que ocorreram os ataques ao World Trade Center. 3 Disponível em: http://www. o abalo provocado na estabilidade global com a queda súbita das torres gêmeas fez com que revissem seus conceitos.

aos fluxos transnacionais e ao terrorismo como crime internacional. é necessário que busquem sua afirmação de forma eficiente. militares. toda uma cartilha de valores ocidentais. p. Com esta nova ordem mundial. sua presença militar em todos os continentes. as campanhas de mídia globalizada. e a União Européia. seus aliados locais e os inimigos em potencial. cujo centro é o gigante chinês.quase quatro décadas mudaram.fapa. utilizam-se de todos os recursos e mecanismos disponíveis. A expansão da democracia. democracia e prosperidade foi caracterizada pela não violência e pela unipolaridade. tidos como universais. eles surgem cada vez mais como fator de desequilíbrio internacional. sobre as quais exercem influência direta. (TODD. sejam eles políticos. No curso contrário aos interesses estadunidenses. sem capacidade militar e econômica de fazer frente às ameaças impostas. quanto às ameaças. através de sanções aos países mais fracos. que conta com um vizinho de peso – o Japão. a exemplo dos Blocos Regionais e do poder limitado a um único estado. para tanto estabelecem códigos morais. Os Estados Unidos estão se tornado um problema para o mundo. 2003. através do controle de agências de informação espalhadas 186 Monographia.br/monographia . o que tornou necessária uma reflexão e conseqüente alteração na postura com a qual vinha sendo conduzida a política internacional. fazendo ameaça à manutenção de sua hegemonia.com. geralmente países fracos. emergem a Ásia. à proliferação de armas de destruição em massa. utilizandose das organizações internacionais. 3 Disponível em: http://www. promovendo incerteza e conflito sempre que podem. Porto Alegre. A hegemonia norte-americana está diretamente ligada à estabilidade política internacional e para mantê-la. econômicos ou culturais. n. Guardiões da liberdade política e da ordem econômica durante meio século. Incontestavelmente colocam-se no ranking da liderança internacional. novos atores e novas ameaças entram em cena. Esta nova fase de paz. 09). Para manterem-se como única e grande potencia hegemônica. Estávamos acostumados a ver neles uma solução. Asseguram os objetivos geopolíticos do império. tendo a Rússia também como forte candidata a este abalo. enfatizando a necessidade de combate o narcotráfico e de controle da economia de mercado.

Entende-se o Sistema Internacional como um espetáculo. uma invasão. aparentemente auto-sustentados e autônomos. 187 Monographia. mas efetivamente ganham relevância no século XX.. Porto Alegre. no qual as Organizações Internacionais e os Estados são os responsáveis por sua orquestração. 165). Às Organizações Internacionais compete a responsabilidade de condução da diplomacia entre os Estados.3. caracterizado. p. n. Objetivamente. mas é igualmente importante na constituição e na reprodução de Estados estáveis.. não só nos momentos em que desavenças se desenham. 1999. 3 Disponível em: http://www. Pelo menos isto serve para ressaltar a importância do “internacional” na analise de qualquer ordem social ou política: o “internacional” não somente se torna relevante quando as coisas desmoronam – quando existe uma ameaça política de fora.fapa. A compreensão de sua dinâmica é fundamental a qualquer análise de conjuntura e política internacional.) a chave para o entendimento do desafio ideológico da heterogeneidade reside na identificação do papel ideológico preexistente da homogeneidade e de seu fortalecimento. descentralizado e sem aplicação de formas de poder coercitivas. com relativa interdependência e submetidos a regulamentações comuns.pelo mundo. um poder econômico rival-. são algumas das práticas desta afirmação. inseridos em um mesmo meio. de caráter cooperativo. acima de tudo. onde se desenvolvem as relações internacionais. atuando como mediadoras e procurando alternativas às questões internacionais sobressalentes. pela heterogeneidade de seus membros. (HALLIDAY. Os referidos atores são os Estados e as Organizações Internacionais regidos pelas leis do Direito Internacional. surgem no final do século XIX. As Organizações Internacionais e os Movimentos Antiglobalização As organizações internacionais são grupamentos políticos que têm nos Estados seus representantes e fundadores.br/monographia . Trata-se de uma espécie de cenário. Sistema Internacional (SI) refere-se ao conjunto de relações entre atores. 1.com. como a chave para a organização das relações entre sociedades. mas em toda a sua complexidade e abrangência. (.

promovendo o respeito às liberdades individuais e aos direitos humanos é a sua razão de ser. Organizações Regionais ou Movimentos de Libertação Nacional. na solidariedade internacional.br/monographia . São anualmente realizadas dezenas de convenções. 3 Disponível em: http://www.Em torno de um objetivo comum.com. assinaturas de tratados. e a OMS (Organização Mundial da Saúde). n. Seu caráter técnico. quando assinada a “Cartas das Nações Unidas”. 188 Monographia. aplicando sanções. a FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação). em que as pautas variam de acordo com os anseios globais. além dos órgãos especializados. dado seu caráter diplomático e de relevância política no cenário internacional. o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). em linhas gerais. com sede em Haia (Holanda). estimular a cooperação internacional nas áreas econômica. A ONU. Secretariado. Assembléia Geral. Corte Internacional de Justiça. Ciência e Cultura).fapa. respeitando a autodeterminação dos povos e. determinando que seus membros busquem soluções pacíficas para os conflitos que se apresentarem. aproximando países e fomentando pesquisas e projetos. assegurando. objetiva a manutenção da segurança do planeta. Porto Alegre. Atualmente é composta por seis órgãos principais: Conselho de Segurança. político e econômico lhes assegura atuar e intervir nas mais diversas áreas de influência. versando a multilateralidade e uniformização dos tratamentos. podendo a qualquer momento expor ao Conselho de Segurança seus impasses. congregam os Estados. Fomentar a paz entre as nações e a segurança mundial. em 1945. evitando colocar em perigo a ordem e a paz mundiais. humanitária e cultural. Criada no pós Segunda Guerra Mundial. Conselho Econômico e Social. Conselho de Tutela. em sua essência. é a garantia da segurança internacional. porém o escopo. social. os direitos humanos. encontros. podendo também ter como membros outros participantes como Organizações Não Governamentais. entre os quais os de maior relevância são a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação. recebe destaque.

há algumas décadas. (FUKUYAMA. Mas com ela vieram a acelerada concentração de riquezas.br/monographia . 3 Disponível em: http://www. vêm se submetendo às estruturas de poder norte-americanas. ela fracassou. por exemplo. como representante do terceiro mundo. ameaçando diretamente a sustentabilidade do planeta. Porto Alegre. n. Rússia. e que assinaram a Carta das Nações em São Francisco (EUA). trazendo à tona a latente necessidade de reforma na organização e no Conselho de Segurança.fapa. Japão. A ONU não conseguiu ratificar a decisão americana de ir para a guerra. Grão Bretanha. está a serviço dos interesses do capitalismo em sua fase 2 Os membros permanentes são os países que lutaram na 2ª guerra mundial contra o eixo. a poluição e o aquecimento global. os outros dez são eleitos pela Assembléia Geral e têm cadeira no órgão por dois anos. que asseguram e dão legitimidade a suas ações em nome de uma pseudodemocracia e da expansão do livre mercado. Japão e Itália. que eram as preferidas pelos europeus como ambientes adequados para as ações internacionais legítimas. 150). Da forma como tem sido conduzida. Mas ela também expôs os limites das instituições internacionais existentes. 2006. Desta forma. sendo cinco de representação permanente e com poder de veto (Estados Unidos. em 1945. particularmente a Organização das Nações Unidas. a ampliação da desigualdade e da exclusão social. no qual desequilíbrio entre seus membros. China e França). Índia e o Brasil. atualizariam seus componentes à nova ordem mundial. A fragilidade da ONU frente ao poder de decisão americano ficou muito clara no momento da invasão do Iraque. Por qualquer perspectiva. A inclusão de novos membros com poder de veto se faz impreterível. Alemanha. vaga tão pleiteada pelo Governo Lula.O Conselho de Segurança da ONU está constantemente em pauta devido às instabilidades globais. nem impedir que Washington agisse por conta própria. apresentando-se como uma forma de reconquistar a austeridade que até então lhe competia. incluindo. Promovida pelos grandes conglomerados econômicos e financeiros.com. Ele é composto por quinze membros. A globalização como processo irreversível foi a marca do chamado fim da história. 2 A Guerra no Iraque expôs os limites da hegemonia benevolente dos Estados Unidos. composto por Alemanha. 189 Monographia. p. já se faz sentir.

articulando ações. para não dizer insignificante. discutem problemas e alternativas. Desde 2001. são perceptíveis em todas as esferas da sociedade. A vulnerabilidade e a instabilidade. Ao que assistimos não é a globalização. carregada de valores ocidentais tidos como universais. utilizando-se da tecnologia como a Internet para propagação de suas agendas. n. estão indo além. A sensação de sufoco sentida por políticos. como descrito por Frei Betto (2002). tal como foi idealizada. Porto Alegre. ao imaginar que um mundo onde a variedade e a diversidade reinam absolutas pode se transformar numa grande rede consumidora de fast foods. 3 Disponível em: http://www.com. que não se limitam a intervenções em navios ou a protestos em frente a reuniões de cúpula de Estado. Ao menos no que tange o número de participantes. das fábricas e pelas massas de desempregados e sem moradia. porém ainda é fraco. como nos foi apresentada.fapa. intelectuais. Porto Alegre. principalmente entre os jovens. Essa globalização econômica e cultural a que estamos assistindo é excludente. organizações e pesquisas. Essa sensação de opressão ocasionou a organização da sociedade civil.br/monographia . pluralidade de culturas e perspectivas. ou ao menos. Washington. como conseqüência das políticas neoliberais. seja no Oriente Médio. uma tentativa de “mcdonaldização” do mundo. o despertar das mentalidades. é sinônimo de negação de direitos e conquistas históricas e não deixa de representar um retrocesso ao defender a idéia de uma visão de mundo dominante. desigual e reducionista. pessoas relacionadas à cultura é a mesma sentida pelos trabalhadores do campo. desenvolvendo redes de comunicação alternativa. aglutinam propostas. publicando trabalhos. O Fórum Social Mundial é um claro exemplo desta articulação da esquerda e dos movimentos sociais na esfera mundial. o Social está em vantagem.mais avançada. seja aqui na América Latina. contrapondo-se anualmente ao Fórum Econômico de Davos. dentre tantos outros. Percebe-se. embora muito timidamente. desencadeando ondas de protesto contra a globalização. frente ao mar de alienação propagado 190 Monographia. Seatle.

culturas. 3 Disponível em: http://www.br/monographia . desta maneira variando de acordo com as regras da região onde forem atuantes. integrando grupos. à oposição aos testes nucleares e à globalização econômica. com redes de ligação planetárias e número de participantes incontável. ao invés de aguardarem mediocremente e entregá-lo ‘de bandeja’ às grandes instituições financeiras e de mercado. como o aquecimento global. como cerne de discussões entre ambientalistas e governantes. A questão ambiental e a nuclear são dignas de destaque. vieram o famigerado aquecimento global. fenômeno este que já estava previsto. Com relação à primeira. Essa luta amplifica o processo de formação de redes e de movimentos civis globais. como conseqüência. às questões ambientais. uma vez que demonstram articulação internacional vultosa. aos movimentos pacifistas. há algumas décadas. n. à oposição ao agro-negócio. ideais. podem ser representantes de empresas transnacionais.fapa. à luta pela reforma agrária. Os principais tópicos de luta estão relacionados aos direitos humanos. Não se pode negar o papel destas organizações antiglobalização neste aparente despertar. dada a importância vital que exercem. Podem ser interpretadas como a nova esquerda. Porto Alegre. mas o que cabe destacar aqui é a forma como elas vêm pressionando as Organizações Internacionais e os Estados.com. o ponto de maior relevância e pauta do momento é o aquecimento global. 191 Monographia. tentando humanizar o mundo. Elas são muitas e estão espalhadas por todo o mundo. com a alta incidência de raios ultravioletas nocivos à saúde da população e o degelo das zonas glaciais.diariamente em âmbito global. O desmatamento desenfreado e a descontrolada emissão de gases na atmosfera fizeram com que a camada de ozônio enfraquecesse a sua proteção ao redor da terra e. Assim como representam grupos de pessoas físicas associadas. são incontáveis e algumas de origem duvidosa. As Organizações não-governamentais não são reguladas pelo Direito Internacional e sim pelo Direito Local.

Paquistão e Israel negaram-se a assiná-lo. O Governo Bush e o 11 de setembro 192 Monographia. reconhecia somente cinco países . organizou-se um tratado internacional. foi ratificado em 2002 e assegurado por mais de 188 países. a Grã-Bretanha e a França . que estariam obrigados a não transferir armas nucleares. uma onda de protestos por todo o mundo. assegurando cooperação internacional para a utilização civil da energia produzida desta forma.br/monographia . o tratado objetiva evitar uma guerra nuclear. já o governo israelense nega a existência de armas e pesquisas em seu território. discutido e negociado em Kyoto no Japão. e que oficialmente passou a vigorar somente em 2005. no ano de 1997. Os dois primeiros são reconhecidamente potências nucleares. Firmado na década de setenta. neste processo de desagregação natural. visando à limitação da disseminação de armas nucleares e à utilização pacífica da tecnologia nuclear. a China. a então URSS. A negativa unilateral em assinar o protocolo por parte do Estado americano gerou além de desconforto aos aliados europeus.Aspirando limitar a emissão dos gases causadores do efeito estufa e sob pressão de Organizações Não Governamentais. nem auxiliar sua obtenção por países não autorizados. Cabe aqui formalizar que o único país da história a usar armas nucleares foram os Estados Unidos. Outro debate que esta em voga é o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Este ponto tem sido um dos principais focos de tensão contemporânea. sem levar em consideração os danos ao meio ambiente e sem avaliar o tamanho da responsabilidade das empresas americanas espalhadas pelo mundo.fapa.Estados Unidos.todos membros permanentes do Conselho de Segurança. Porto Alegre. Em suma. n. como uma forma cruel e arrogante de demonstrar sua supremacia militar. Tal recusa foi baseada no prejuízo à sua economia. em um contexto de incontestável superioridade americana. 3 Disponível em: http://www. ao detonarem duas bombas em solo japonês. peça essencial ao bom andamento das Relações Internacionais e atual justificativa para intervenções norte-americanas.com. 2. Índia.

um tanto quanto contraditório. controlada por sua família. Bush passou a governar ignorando as organizações internacionais. Porto Alegre. 2OO5. (VIZENTINI. 3 Disponível em: http://www. tal como vinham fazendo os democratas. O oportunismo sempre esteve presente na carreira política e empresarial deste filho de ex-presidente. em janeiro de 2001. Sua popularidade. Para melhor compreensão desta rápida aprovação à guerra. por exemplo. do ponto de vista político. foi completamente abandonada. que mergulhou em uma espiral incontida de violência. quase naturalmente e.com. considerado um dos pilares do sistema de valores e da moral que regem a sociedade americana desde a sua formação e peça fundamental para que compreendamos algumas das diretrizes seguidas pelo governo e seus governados. é a herança do Destino Manifesto. tem se mostrado. Bush. 141). geralmente. Um presidente despreparado. dentro da visão de que “os EUA venceram a Guerra Fria e necessitam colher os frutos”. a expressão “Levar a democracia e o livre mercado a todos os povos do 193 Monographia. Importante legado. teve um vertiginoso crescimento no período subseqüente ao 11 de setembro. cujas atividades laborais. cercado de assessores linha-dura e ligados a obscuros lobbies.2. Após ter sido declarado vitorioso na conturbada e suspeita eleição em que venceu por uma diferença insignificante de votos o candidato democrata Al Gore. começou a reabrir focos de tensão. refletindo o apoio explícito dado pela sociedade civil americana à guerra contra o terror. relacionamos valores morais e históricos da sociedade americana. teve já em seu primeiro ano de governo que conduzir as ofensivas militares no Oriente Médio. tiveram início na indústria do petróleo. ele surge. A idéia de apoiar a liderança americana nas organizações multilaterais. ironicamente. indicador que mede o nível de aceitação e aprovação entre a opinião pública. acaba se tornando a tônica de muitos dos discursos em defesa dos interesses estadunidenses. particularmente a ONU. dando lugar a uma visão unilateral que contrariou seus próprios aliados da OTAN. p. enquanto abandonava o papel de mediador (tarefa que cabe ao país hegemônico) em conflitos como o do Oriente Médio. O Destino Manifesto e A Doutrina Bush O Governo do Republicano George W.1. n. no estado americano do Texas.br/monographia .fapa. desde que ascendeu ao poder. Principalmente em momentos de crise ou ameaça de guerra.

a liderança e a coragem em fazer escolhas são o que contam.br/monographia . o exemplo mais preciso é o Iraque. mais precisamente aos interesses americanos. Hoje o problema consiste em como administrar estas transições. nos parecia irreal: a superpotência econômica e militar do nosso século. que a grande maioria dos americanos crêem que realmente seus governos têm como meta. Assim. alterando a constituição e a organização política .fapa. 3 Disponível em: http://www. (PECEQUILO. Os estrategistas republicanos não discutiam a eficiência ou idoneidade das decisões de Bush.com. sem possibilidade 194 Monographia. A busca de uma civilização universal. faze parte da estratégia imperial que visa construir uma nova hegemonia americana. Diante das pressões. a Casa Branca. procurando manter diante do público uma postura de firmeza que seria muito explorada durante a campanha eleitoral.2. Risco e Guerra Preventiva Todos. que dificilmente estão acompanhadas de um processo pacífico e não têm a estrutura necessária à sua implementação imediata. Porto Alegre. unipolaridade. trata-se de uma agenda para a política externa que envolve conceitos como mudança de regime. mas sim a sua capacidade em tomá-las. sendo atacada em seu próprio território. aplicar rótulos e determinar veredictos. onde a estratégia não estava só no ataque. pararam para assistir às transmissões em tempo de real. Ameaça. como forma de deter o Estado. ou até mesmo direito. hegemonia benevolente. No que tange à mudança de regime. Em momentos de turbulência como este vivido pelos Estados Unidos. A idéia de povo escolhido. que já se tornou praticamente um jargão ideológico. 2003. n. 428). considerado malévolo ao mundo.mundo”. como se convencionou chamar esta organização estratégica adotada pelo governo americano no imediato pós atentados. 2. A Doutrina Bush. tendo os valores individualistas ocidentais como objetivo. assumiu uma postura que alternou momentos de agressividade e passividade. intervir em outros países. está tão enraizada no ideário social. de algo que até então. em todos os cantos. guerra preventiva e excepcionalidade. mas também no interesse direto de mudar o regime.

a qual se apresenta como uma das principais conseqüências do terrorismo. a Guerra Preventiva. e o Pentágono. justificando a supressão de direitos civis e até mesmo as guerras. criando consentimento às ações do Estado. prevendo uma possível ameaça de ação química e/ou biológica. colocando-se como os grandes salvadores. Como resposta imediata a esta violação. citando a justificativa para invasão do Iraque: a localização de armas de destruição em massa.br/monographia .fapa. significa uma paranóia coletiva. como pudemos acompanhar na esteira dos atentados. 2004). “suspeitavam” de seu desenvolvimento. promovendo o medo global e. manipular a sociedade civil. dando idéia a uma percepção pânica. que não é real. centro de sua organização militar e inteligência. Até então os norte-americanos gozavam de uma imunidade geográfica. 3 Disponível em: http://www. que se convencionou chamar de Guerra Psicológica. o World Trade Center. na realidade. em frente a todos. como conceituou Halliday.de defesa. cérebro de seu sistema financeiro. Ela provocou mudanças sociais no comportamento individual e coletivo. No momento em que foi declarada sua inexistência. no caso da invasão ao Afeganistão. dois dos seus principais símbolos. temos um novo fator. o governo lançou a diretriz do que seria a principal arma da Doutrina Bush.com. tendo como alvo. ele analisa o papel do líder como livre para mudar as regras a seu bel-prazer. O objetivo final desta guerra psicológica é proporcionar facilidade para orquestrar. Segundo Chomsky. o discurso foi simplesmente modificado. Porto Alegre. uma ansiedade global. quando os EUA colocavam seus indicadores de segurança em alerta máximo. Somado a tudo isso. n. que lhes permitia relativa tranqüilidade com relação à penetração estrangeira em suas fronteiras. formando mentalidades 195 Monographia. trata-se de algo que pertence à categoria de crimes de guerra. como pudemos assistir. Este tipo de ação preventiva difere da política de contenção da Guerra Fria. desta forma. uma vez que prevê levar a guerra até o inimigo. (CHOMSKY.

pelo senso comum. vítimas das práticas e sanções neoliberais defendidas pela Casa Branca.br/monographia . Lógico que tudo aquilo que passava aos olhos dos americanos e do mundo. uma vez que os acontecimentos têm forte apelo psicológico.fapa. 3 Disponível em: http://www. talvez seja mais fácil compreender. Assim. visualizando sua capacidade de despertar a sede de vingança no seio da sociedade civil. aos latinos e a todas as nacionalidades de imigrantes não brancos.com. não sentiam a dor de perdas conterrâneas significativas desde o Vietnã. os direitos humanos são colocados como uma máscara que esconde e justifica as atividades de ocupação norte-americana. Porto Alegre. A maioria. restrita a poucos. a história parece ter sido negligenciada e até mesmo manipulada. Se apreciarmos a cobertura sob a égide do imprevisível. cobriu os eventos de 11 de setembro ao vivo. n. Esta sensibilidade crítica é. de forma maçante e com traços de sensacionalismo explícito. Os estrategistas norte-americanos souberam muito bem se beneficiar da efervescência e da instabilidade seguidas aos atentados. O governo Bush não logrou 196 Monographia. a atacar. hostilidade e até mesmo ódio aos árabes. ao suprimir dados como treinamento e armamento da milícia Talibã alguns anos antes. há décadas.favoráveis à necessidade de um novo militarismo. naquela fatídica manhã de setembro. anglo-saxões ou protestantes. 2. Em virtude disto. Como mostrar este pesar ao mundo? Como fazer com que todos os povos se solidarizassem com o ocorrido? Simples.3. se faz necessária uma análise crítica. Acostumados. porém. Imagens em câmera lenta. explosões e música clássica ao fundo. Mídia e Opinião Pública A mídia. Sob a ideologia da “intervenção humanitária”. repetidas incontáveis vezes. em especial a norte-americana. sim! Mas nenhum pouco se comparado às milhares de crianças africanas que padecem de fome e de Aids diariamente. era até então algo incomensurável. despertou em si um sentimento de desprezo. dentre outros. Emocionante.

(.que faz com que após um ataque vários grupos assumam a sua autoria.. É a ideologia da chamada intervenção humanitária.esforços. como forma de induzir a opinião pública ao apoio explícito à guerra contra o terror. que dá à atitude o seu caráter mais assustador . n.) A tarefa da cobertura objetiva fica realmente delegada a redes alternativas de informação e educação. O tipo Ansiedade Global foi analisado anteriormente como guerra psicológica. É preciso resgatar a mídia com o papel de informar e não de formar opinião.. o que assistimos. é praticado por Estados ou grupos clandestinos. podemos citar a surpresa . No caso do Afeganistão. 2006. p. 12 e 13). A mídia tem um grande papel. como uma espécie de painel 197 Monographia. as fontes independentes de noticia não podem competir com o poder e a riqueza das cinco ou seis companhias proprietárias da grande mídia hoje em dia.). Como características comuns.. comunicados e homenagens.1. (. Porto Alegre.o inesperado. com o objetivo de chamar a atenção da opinião pública à determinada ação. Foi uma guerra basicamente rudimentar de vingança. No mundo globalizado. O tipo Comunal é geralmente o que mais produz vítimas e. “a informação é poder” e as Agências Internacionais atuam como difusoras da visão ocidental.) E os Estados Unidos apaziguaram a manipulação envolvida. Pode ser o Terrorismo de Estado. políticos e econômicos. 3. praticada por indivíduos ou grupos políticos contra a ordem estabelecida. eles nem mesmos fingiram ser humanitários imparciais.. ainda assim. Não queremos fazer isto. desencadeia guerras civis. (.br/monographia .) Mas. às vezes.. planejada em grande medida para apaziguar a opinião publica americana.e o anonimato . O mito do terrorismo universal Definiremos terrorismo como o uso da violência. Todas estas guerras são similares com relação ao uso da ideologia. nada ética. mas fazemos pelo bem das pessoas que vivem lá.. física ou psicológica.fapa. quando são ações praticadas pelo governo contra a sociedade com o objetivo de impor definições. pode ocorrer dentro e fora das fronteiras nacionais.com.. O Terrorismo e o Choque de Civilizações 3. 3 Disponível em: http://www. O tipo Atentados. (ALI. a exemplo de ditaduras e regimes totalitários. no primeiro momento. serve aos interesses ocidentais: estratégicos. Isto é evidentemente um artifício (. foi a prática.. de um jornalismo unilateral e manipulador.

seja na Colômbia. É importante procurar compreender o que leva um homem a abdicar de seu convívio familiar e. na Espanha. para se livrar das amarras da opressão.fapa. em muitas situações. resistindo às interferências estrangeiras. os ataques podem ocasionar guerras e conflitos de maneira súbita. e a cada atentado voltam às manchetes. tornando práticas ações terroristas. Dada a instabilidade política e econômica vivida nos países árabes.com. utilizado como último recurso. Centraremos o exame nos grupos islâmicos de forma a tentar identificar em que momento este terrorismo passou a ser uma ameaça à democracia ocidental. sem qualquer motivo adicional que justifique suas atitudes suicidas. como um ato desesperado. n. sem se reconhecer seus reais mentores. 198 Monographia. Entendem esta libertação. são apresentados como terroristas fanáticos. Para manter seu status de superpotência mundial. na Irlanda. de sua própria vida. declarações de guerra e tentativas de acionar a opinião pública parecem insignificantes. atrelada às questões do fundamentalismo religioso e à ausência de perspectivas. Como conseqüência. como ocorreu no Afeganistão. criam constantemente focos de tensão e isto. motivos esses que a mídia não tem o hábito de mostrar. Ao grande público. no Oriente Médio. ou até mesmo que fiquem em aberto por longos períodos. mas carregam motivos sérios para sua existência. 3 Disponível em: http://www. esvaziando de essência a ação. São grupos radicais e violentos sim.publicitário. sem dúvida. Essa opção pela “ação” é feita quando percebem que protestos. movimenta sua indústria e gera lucro aos empresários. fomentando o crescimento de sua economia. muitos jovens vinculam-se a grupos extremistas como uma forma luta de libertação. Porto Alegre. Os grupos terroristas estão espalhados pelo mundo todo. em busca de um ideal de salvação. Hoje a guerra contra o terror mobiliza a todos em termos de armamentos e a indústria bélica norte-americana lucra e muito com esta agitação. tanto no sentido pessoal quanto no social. tornar-se mártir por lutar pela libertação de seu povo.br/monographia .

ele sempre ficará do lado do seu semelhante e não de quem o ocupa ou ameaça. 3 Disponível em: http://www. Assim.com. associando o terrorismo ao islamismo. por exemplo. pois enquanto houver ocupação territorial. haverá resistência e este choque cultural não será amenizado através do uso da força. Isto configura-se como mais um entrave à diplomacia estadunidense. neste contexto. 3. é importante frisar o enorme precipício existente entre as culturas árabe e ocidental.fapa. é interpretada como a luta do povo árabe. O código de moral e ética que serve de guia aos povos muçulmanos em pouco. não consegue encontrar atrativos na recompensa paga para quem der o paradeiro de Osama Bin Laden e.br/monographia . muito mais que isso. disseminaram ao mundo a imagem dos homens-bomba. assim como é facilmente adaptável às mudanças temporais. mas recebe os mais diversos significados. ao mesmo tempo. Os seguidores de Alá acreditam na paz e têm amor ao conhecimento. rechaçando a prática de agressões. A instabilidade política no Oriente Médio Os fundamentalismos encontram o meio perfeito para a disseminação no Oriente Médio.2. se relaciona com os preceitos propagados aos quatro cantos pelo american way of life.Em meio a este fértil terreno. Porto Alegre. devido à instabilidade da região. a religião islâmica e a cultura árabe acabam sempre sendo relacionadas à ameaça desenhada pelos ocidentais. embora a sua finalidade seja uma só. os Estados Unidos encontraram a personificação do que consideram o mal e. 199 Monographia. para não dizer em nada. O confronto entre Palestina e Israel configura o centro do conflito na região. tão característico do ocidente. A jihad. São tão distantes que um afegão. a luta como um meio para trazer a paz. Antes de qualquer interpretação e análise sobre o Oriente Médio. rejeitando princípios como o egoísmo. sempre estar agregando novos seguidores. almejando a prosperidade a todos os povos do mundo. n. O Alcorão é dotado de uma mobilidade que lhe permite.

desconexo e heterogêneo. às idéias defendidas por Fukuyama e ilustradas anteriormente. 2006).fapa. Com isso não se sacrifica a realidade em favor da parcimônia. Como argumenta ALI. o que configura mais uma forte fonte de hostilidade da sociedade civil para com as ações destes dois Estados.br/monographia . pois isto cria o choque civilizacional.). propõe: Visualizar o mundo em termos de sete ou oito civilizações (. cabendo-lhes o dever de apaziguar os ânimos. Para Samuel Huntington (1996). são primordiais ao sucesso de sua implementação estruturas sociais e políticas sólidas.O totalitarismo praticado pelo governo israelense é escancaradamente apoiado pelos EUA. O Afeganistão configura-se.200 Monographia. este sim é o maior dos desafios americanos. como ocorre com os paradigmas de um só mundo e de dois mundos e. 3 Disponível em: http://www. A justificativa para a invasão e conseqüente ocupação do país está no fato de existirem suspeitas de que os talibãs estavam dando abrigo a militantes da rede al-Qaeda da qual o procurado número um do mundo. por completo. porém se comparado a outras civilizações. como a “polícia do mundo”. percebe-se seu declínio. ainda não conseguiu se encontrar política e estruturalmente. A transição para um regime democrático não se configura do dia para a noite.. dando maior suporte ao povo palestino na resolução de suas reivindicações territoriais. Os americanos potencialmente desperdiçaram a possibilidade de solucionar o impasse na região. como um país que. Ao tentar impor seus valores a outras sociedades nãoocidentais. neste cenário. Enquanto o país não encontra seu caminho para a democracia. reina a instabilidade e a violência. Contrapondo-se. uma vez que estes não podem mais viver oprimidos à sombra de helicópteros e tanques israelenses. Porto Alegre. embora “liberto” pelos norte-americanos das estruturas de controle arcaicas e violentas das milícias talibãs. ou seja. pois quanto mais territórios vocês destrói. Ele vê o mundo engajado em processos simultâneos de fragmentação e integração. acaba por se enfraquecer. Osama Bin Laden. o terrorismo não se reduzirá enquanto não cessarem as invasões e as ocupações. n.com. o Ocidente continuará por muitos anos como a civilização mais poderosa. mais pessoas procurarão vingar-se.. (ALI. faz parte.

também lhes cabe muito bem. ou seja. Síria e Cuba . (. (HUNTINGTON. um exemplo recente é a manutenção dos laços de cooperação e as semelhanças com a política bélica (estratégica) do estado de Israel. como o fazem os paradigmas estatista e do caos. O mundo é. 1996.fapa. há algumas décadas. 3. provocando crises e instabilidades. pleno de conflitos tribais e de nacionalidade. do ponto de vista civilizacional. associações e conflitos são cada vez mais moldados por fatores culturais e civilizacionais.Bush. motivariam as disputas em arena global. porem seus interesses. (. também não se sacrifica a parcimônia em favor da realidade. culturais. 39) A análise do ponto de vista civilizacional é bastante apropriada ao atual contexto. são Estados militarmente 201 Monographia. anárquico. Realmente nos é perceptível que os Estados e a própria sociedade civil tendem a aproximar-se ideologicamente de seu próximo e entendemos este “próximo”.. religiosas. Porto Alegre. O Eixo do Mal e a Guerra no Iraque O termo “eixo do mal” foi utilizado pela primeira vez por George W.3. duplo.) um enfoque civilizacional sustenta que: As forças de integração no mundo são reais e são precisamente o que esta gerando forças contrarias de afirmação cultural e consciência civilizacional. de fato. seguidos de Líbia.Irã..) está dividido entre um ocidental e muitos não ocidentais. o principal fomentador do terror no Oriente Médio. em discurso proferido ao Congresso americano no início do ano 2002. por possuírem armas de destruição em massa e por atuarem regionalmente como patrocinadores do terrorismo internacional.. As diferentes sociedades que compõem o sistema internacional. em certo sentido. O mundo é.br/monographia . Os países colocados na berlinda . uma vez que os EUA se apresentam.têm uma característica comum. Os Estados-nações são e continuarão a ser os atores mais importantes nos assuntos mundiais.por outro lado. porem os conflitos que representam os maiores perigos para a estabilidade são aqueles entre Estados ou grupos de diferentes civilizações. culturalmente próximo e aliado. como os principais financiadores deste mesmo terrorismo internacional.com. 3 Disponível em: http://www. p. de forma a estabelecer quais eram os países que representavam ameaça ao mundo civilizado. cada qual com suas questões políticas. Iraque e Coréia do Norte. étnicas combinadas com questões territoriais e nacionalismo. Embora pareça irônica esta definição. n.

A ocupação do Iraque. a posse e a concessão de suas reservas. n. 3 Disponível em: http://www. no mundo árabe. como conclui Tarik Ali. 2005). É muito difícil fazer-se acreditar que toda a movimentação. do pano de fundo de todo o conflito. debaixo de suas terras. pois. foi marcada pela resistência e pela hostilidade do povo aos militares americanos e as crescentes baixas de soldados da coalizão ocasionaram o desgaste do Governo Bush frente à opinião pública doméstica e internacional. as 202 Monographia. da cultura e de sua história? Este tipo de reflexão se faz essencial. está o recurso natural capital à atual fase de desenvolvimento (ALI. o preço que se paga por tê-lo.com. O que será que prefeririam os iraquianos? Por que eles não foram alvo de consulta sobre seu futuro? Será que não havia nenhuma outra forma de libertar o povo do Iraque da ditadura de Saddan que não fosse a invasão.inferiores e economicamente insignificantes. desta forma. Ele constata que o fato de a religião muçulmana ter se tornado inimiga é um acidente da geografia e da história. a ocupação e a desagregação da sociedade. estudioso paquistanês de assuntos relacionados ao Oriente Médio e Imperialismo. Porto Alegre. produto vital para economia de qualquer país.br/monographia . O Oriente Médio como o maior fornecedor deste recurso natural. Dificilmente conseguiremos separar o motivo petróleo. . é uma questão de interesse puramente econômico. o envio de grandes contingentes humanos ao Iraque visavam à nobre preocupação norte-americana com o bem estar. A Guerra no Iraque é vista. a inserção de capitais. em 2003. o islã torna-se o arquiinimigo do ocidente. pois nada pode ser pior a um povo do que viver em um território ocupado por forças estrangeiras. A acusação é a de investirem em projetos de construção de armas de impacto e ameaçarem diretamente a estabilidade global.fapa. como uma cruzada pelo petróleo e. A libertação da tirania e a suspeita de existência de armas nucleares serviram de justificativas à invasão. Os custos da ocupação e as conseqüências da Guerra no Iraque. a democracia e os direitos humanos no Iraque.

Bush gozou da mais baixa popularidade entre os americanos. ele deverá enfrentar mais uma oposição interna. 3 Disponível em: http://www. têm sido a “pedra no sapato” do governo Bush. a vitória democrata no Congresso.estratégias. o que ficou claro com constituição dos blocos econômicos. desta forma.com. 203 Monographia. de maioria republicana. em 2006. Porto Alegre. Não há mais como. logo após a posse dos novos congressistas. configurando assim ameaça ao poder de coerção econômica e à manipulação política exercidos pelo império. agora o próprio congresso americano está contrário às suas ações externas. liderança que não predominava há exatos 12 anos. n. acabam exercendo com mais dinamismo as negociações de seus objetivos comerciais e articulando políticas que visam à sua integração e conseqüente desenvolvimento. em que os países periféricos mostraram-se indefesos frente ao processo de globalização. de que o império está declinando e que se vislumbra a emergência de novas potências. uma vez que se torna cada vez mais clara a incapacidade de o Estado americano manter sua hegemonia. Conclusão A ausência de qualquer contra peso à liderança norte-americana permitiu novas formas de relacionamento internacional. Este processo de regionalização de forças mostra a capacidade de os países aglutinarem-se para poder fazer frente à hegemonia exercida pelos Estados Unidos. permeado pelo processo de globalização. no cenário internacional. da confirmação do destino de mais recursos e do envio de mais tropas para o país. centrado na China. Juntos. Após a divulgação de um novo plano para o Iraque. desde que assumiu a Casa Branca em 20/01/2001. A convergência.br/monographia .fapa. apenas uma super potência reinar absoluta. é compartilhada. Não é à toa que a União Européia e o bloco asiático. Em janeiro de 2007. representam maior importância no cenário internacional e. como uma repulsa as práticas no Oriente Médio. Este fato acelerou a necessidade de uma junção de forças. as baixas civis e militares. além da opinião pública. entre os principais teóricos estudados. os investimentos.

utilizando uma expressão bem simples. sempre deixando uma via de expressão aberta para que os anseios sociais possam ser divulgados e.br/monographia . estando a questão do Petróleo como pano de fundo para a invasão. por isso mesmo. como o foco em uma ameaça externa. mas isto está na essência da democracia. porém tudo nos leva a crer que realmente houve uma grande sacudida. será de caráter religioso ou civilizacional é difícil precisar. se suas raízes não forem analisadas. Percebe-se continuidade na forma pela qual os Estados Unidos conduzem sua política externa. como um meio para lograr os objetivos de manutenção da hegemonia. Assim como em muitos dos conflitos mundiais. acreditamos que suas causas sejam administradas em sua essência.É importante compreender os motivos que levaram à Guerra do Iraque. justificada com razões políticas. Será preciso certo distanciamento temporal para podermos ter as reais conseqüências do eventos aqui descritos.com. realmente o Ocidente estará destinado a apagar incêndios dentro e fora de casa. como puramente econômicos. tal qual a postura adotada no pós 11 de setembro. Porto Alegre. 204 Monographia. compreendidas e amenizadas. Uma das grandes questões que se coloca hoje é como combater o terrorismo. mas se considerarmos seu impacto e o desgaste da imagem do mundo árabe para com os ocidentais. não temos como defini-lo sem cair no reducionismo histórico. Pode parecer utópico. É isto que define as prioridades e o teor de seu engajamento. antes comunistas. inaugurada em 2001. ditos civilizados. 3 Disponível em: http://www. bandeira tão levantada pelos povos ocidentais. Ela não deixa de representar uma forma de demonstração de seu poderio militar. n. garantindo que sejam evitadas opressões. agora terroristas. fomentando a incidência de mais conflitos. Este abalo ainda se faz sentir e. podemos esperar sim por um conflito entre culturas. ouvidos. Se esta nova fase. mas completa. valorizando elementos antigos já arraigados em sua identidade. principalmente. mesmo em situações em que eles representem minorias. Querer frear o terror extinguindo-o é impossível. na sua raiz.fapa.

Rio de Janeiro: Editora Record.fapa. Noam. TODD. Rio de Janeiro: Campus. Rio de Janeiro: Ediouro. O fim da História e o último homem. Repensando as relações internacionais. Ascensão e queda das grandes potências. A nova face do império. THOMPSON. Editora Leitura XXI. 2002. São Paulo: Rocco. Peter. Cristina Soreanu. Tarik. A política externa dos Estados Unidos – Continuidade ou Mudança. n. 2004. HOBSBAWN. KENNEDY. 2000. Era dos Extremos. Paul. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Porto Alegre: Editora da Universidade.com. _____. Noam. Depois do Império – A decomposição do Sistema Americano. Porto Alegre: Editora Record. Eric. Porto Alegre: Novo Século. 2005. História do Século XX. 2003. 2005. Referências ALI. 2003. PECEQUILO.1992. Os porquês da desordem mundial. Porto Alegre. 2003. VIZENTINI. Fred. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998. 11 de setembro. Rio de Janeiro: Vozes. 3 Disponível em: http://www. FUKUYAMA.Recebido em julho de 2007. O império americano: Hegemonia e Sobrevivência. 2004. O mundo pós Guerra Fria: O desafio do (ao) “Oriente”. Uma história social da mídia. CHOMSKY. Rio de Janeiro: Elsevier. CHOMSKY. Porto Alegre: Editora da UFRGS. 2004. Asa & BURKE. Porto Alegre: 205 Monographia. São Paulo: Companhia das Letras. 1989. Paulo Fagundes. A mídia e a modernidade: Uma teoria social da mídia. Francis. HALLIDAY. Aprovado em agosto de 2007.br/monographia .1999. _____. BRIGGS. Emmanuel. John B.

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