Está en la página 1de 62

INSTITUTO PROCESSUS DE CULTURA E APERFEIÇOAMENTO JURÍDICO

Ana Maria da Silva

Princípio da Segurança Jurídica à luz do artigo 54 da Lei 9.784/99 – Decadência

Brasília – DF Novembro/2005

8

ii

Ana Maria da Silva

Princípio da Segurança Jurídica à luz do artigo 54 da Lei 9.784/99 – Decadência
Trabalho apresentado ao Curso de Pós-Graduação em Direito Público como parte dos requisitos necessários à obtenção do titulo de Pós-Graduação em Direito Público, sob orientação do Professor Gelson Dickel

Brasília – DF Novembro/2005

iii

Ana Maria da Silva

Princípio da Segurança Jurídica à luz do artigo 54 da Lei 9.784/99 – Decadência
Trabalho apresentado ao Curso de Pós-Graduação em Direito Público como parte dos requisitos necessários à obtenção do titulo de Pós-Graduação em Direito Público, sob orientação do Professor Gelson Dickel

1. Professor Gelson Dickel. 2. _____________________________ 3. _____________________________

Brasília – DF Novembro/2005

.....................................31 4...4..................................4 Aplicação dos Princípios em harmonia .........38 5......................................1 Constituição Federal ..3 Fins .................iv SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................44 5....................... PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA ........................19 2..................................................10 1....................................................1 Conceito....................3 Jurisprudência ....................................53 CONCLUSÃO ..................................................................................................40 5.................................4 Princípios ..12 1..19 2...................................................3 Composição entre legalidade e Segurança Jurídica ........27 4.............................................1 Ponderações entre os Princípios da Legalidade e da Segurança Jurídica ........................................1 Prescrição Administrativa e Decadência .................. 61 ..................... 54 DA Lei nº 9.....2 Lei nº 9..............................2 Lei nº 9.................. 24 3....................................................................................................46 5.....................15 2........................................ CONFRONTO ENTRE O PRINCÍPIO DA LEGALIDADE E DA SEGURANÇA JURÍDICA ....................784/99 ...........................................................35 4............784/99 ........................................................................................................................19 2.......59 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................12 1..........................11 1.......................... ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA ..................1 Evolução Histórica ..............................................................5 1..............................................10 1......2 Natureza........31 4.....................2 Mitigação da legalidade no ordenamento jurídico brasileiro ............................................................................................................................................................................................ PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ..................................................................2 Relevância da Segurança Jurídica .............................................24 3...................................................................................................... EQUILÍBRIO ENTRE O PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA E DA LEGALIDADE ................2 Enunciados da Súmula do supremo Tribunal Federal .....................................................12 1.........................................................................................................................41 5..............................................................................................................................................................................1 Conceito...............................784/99 e Segurança Jurídica .............................50 6...... CONVALIDAÇÃO À LUZ DO ART..........................................................................................................3 Conflito no Direito Brasileiro ........................................................................................................4.............21 3.........................................................................

consagrado na doutrina e no artigo 54 da Lei nº 9.784. verbis: Art. Quando da dissertação do tema. Neste contexto. só veio a ser consagrado com o advento da Lei nº 9. que em seu artigo 54. 1 BRASIL. de 29 de janeiro de 1999. de 29 de janeiro de1999. Nessa abordagem limitar-me-ei à análise dos atos eivados de vícios de que decorram efeitos favoráveis aos destinatários. o qual. A excessiva valorização do primeiro em detrimento do segundo começa a ser questionada à luz do artigo 54 da Lei nº 9. Lei nº 9. Regula o Processo Administrativo no Âmbito da Administração Pública Federal . o prazo de decadência contarse-á da percepção do primeiro pagamento. contados da data em que foram praticados.1 A abordagem temática deste trabalho se concentrará especificamente na Decadência Administrativa. 54.5 INTRODUÇÃO O tema aqui abordado abrangerá considerações sobre o dever/poder da Administração anular atos quando eivados de vícios em respeito ao Princípio da Legalidade que deve sempre estar presente em toda a Administração Pública. A grande questão colocada em debate neste trabalho é a mitigação do dever da Administração em anular atos ilegais com o advento da Lei nº 9. salvo comprovada má-fé.784. cria-se um conflito entre os princípios da legalidade e da segurança jurídica. Surge assim a decadência administrativa consolidada em instituto normativo que termina por causar um dilema entre legalidade e segurança jurídica. assim dispôs.784/99. na perda do poder da Administração de rever atos quando eivados de vícios em virtude de decurso de prazo em decorrência do Princípio da Segurança Jurídica.784/99. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos. § 1º No caso de efeitos patrimoniais contínuos.784/99. analisarei o conflito/convivência dos Princípios da Legalidade e da Segurança Jurídica. § 2º Considera-se exercício do direito de anular qualquer medida de autoridade administrativa que importe impugnação à validade do ato. embora embutido na doutrina há anos.

6 A abordagem deste tema buscou questionamentos como por exemplo: Por que não poderia ser revista uma aposentadoria concedida pela Administração com flagrante ofensa à lei. como os já citados. pelo simples transcurso de tempo? Por que perpetuar uma situação ilegal ou mesmo não exigir o ressarcimento de uma pessoa que receba proventos muito superiores aos de todos que se aposentaram na mesma situação? Por que deveria a sociedade sustentar tais pagamentos. Após muitos estudos relacionados ao poder/dever da Administração de rever seus atos quando eivados de vícios. Publicidade e Eficiência e ainda os previstos na Lei nº 9. ao lado de outros. insculpido no artigo 54 da Lei nº 9. Transcreverei excertos de doutrinadores que elevam este princípio como basilar da Administração. Trarei à colação valiosos ensinamentos referentes ao princípio da legalidade administrativa. cujos proventos sejam muito superiores aos que determinam a lei.784/99. Moralidade. A escolha do tema deu se em virtude da minha atuação na área de legislação de pessoal. Abordarei os princípios previstos no art. É o que diz o inc.784/99. Para chegar ao foco da questão que envolve estes dois princípios. Após. traçarei considerações sobre o dever/poder da Administração anular atos ilegais quando eivados de vícios. deparei-me com o instituto da decadência administrativa. Sob esta ótica iniciarei meu trabalho apresentando de forma suscinta os Princípios da Administração Pública. previsto na constituição e em toda a Administração Pública.784/99 como princípio a ser observado pela Administração. dever este consagrado no enunciado sumular nº 473 do Supremo Tribunal Federal. quando evidenciada a irregularidade do ato de concessão? Foram estas questões práticas que nos levaram a tecer considerações equilibradas sobre a segurança jurídica. que assim como a legalidade é bem jurídico e princípio a ser respeitado. 2º da Lei . I do parágrafo único do art. apresentarei a s’egurança jurídica elencada pela Lei nº 9. 37 da Constituição Federal: Legalidade.como assevera Hely Lopes Meirelles: A eficácia de toda atividade administrativa está condicionada ao atendimento da Lei e ao Direito. Impessoalidade. Neste trabalho a abordagem dos princípios a serem observados pela Administração Pública limitar-se-á ao Princípio da Legalidade e da Segurança Jurídica.

2005. fica evidente que. a natureza da função pública e a finalidade do Estado impedem que seus agentes deixem de exercitar os poderes e de cumprir deveres que a lei lhes impõe. além da atuação conforme a lei. Hely Lopes. é. o qual. Com isso. a legalidade significa. indiscutivelmente. tecerei considerações sobre o instituto da prescrição administrativa e da decadência. do direito adquirido. Estabelecidos estes parâmetros. Colacionarei lições valiosas de doutrinadores como Celso Antônio Bandeira de Mello. Os institutos da prescrição. 2º da Lei nº 9. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo o que a lei não proíbe. um mínimo de certeza na regência da vida social. conferido à Administração Pública para serem utilizados em benefício da coletividade. p. irrelegáveis pelos agentes públicos. nem mesmo por acordo ou vontade conjunta de seus aplicadores e destinatários. Por outras palavras.2 À luz desta explanação. . igualmente. uma vez que contêm verdadeiros poderesdeveres. Tais poderes. que é o supremo e único objetivo de toda ação administrativa. do usucapião. Na Administração Pública não há liberdade nem vontade pessoal. um dos mais importantes dentre eles. A lei para o particular significa ‘pode fazer assim’. a observância dos princípios administrativos. se não é o mais importante dentre todos os princípios gerais de Direito. não podem ser renunciados ou descumpridos pelo administrador sem ofensa ao bem comum.784/99 que elencou o Princípio da Segurança Jurídica a ser observado por toda a Administração Pública. de ordem pública e seus preceitos não podem ser descumpridos. da decadência. Direito Administrativo Brasileiro. que ao preceituar sobre referido princípio assim dispôs: O Direito propõe-se a ensejar uma certa estabilidade.7 9.784/99. bem por isso. na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza. Daí o chamado princípio da ‘segurança jurídica’. trarei à lume o art. da irretroatividade da lei.88. são expressões 2 MEIRELLES. da preclusão (na esfera processual). normalmente. 30ª edição – São Paulo: Malheiros. para o administrador público significa ‘deve fazer assim’. As leis administrativas são.

Por força mesmo deste princípio (conjugadamente com os da presunção de legitimidade dos atos administrativos e da lealdade e boa-fé).. a da certeza possível em relação ao que o cerca. conquanto seja. portanto. firmou-se o correto entendimento de que orientações firmadas pela Administração em dada matéria não podem. . ao mero sabor do acaso-. Apresentarei uma matéria que está longe de ser trivial e que envolve a tormentosa ponderação ou composição entre o princípio da legalidade.basilar da Administração – e os 3 MELLO. conseqüentemente – e não aleatoriamente. comportamentos cujos frutos são esperáveis a médio e longo prazo. uma conseqüente mutação. o Direito. manifesta e sempre manifestou.] Esta ‘segurança jurídica’ coincide com uma das mais profundas aspirações do homem: a da segurança em si mesma. em épocas de normalidade. pp. que enseja projetar e iniciar.. Dita previsibilidade é. 93-94.8 concretas que bem revelam esta profunda aspiração à estabilidade. Curso de Direito Administrativo. 13ª Edição – São Paulo: Malheiros. pois. como tudo o mais. à segurança. Esta é a normalidade das coisas. agravar a situação dos administrados ou denegar-lhes pretensões. sendo esta uma busca permanente do ser humano. [. ser modificada em casos concretos para fins de sancionar. 2001. A abordagem doutrinária e jurisprudencial que envolvem esta temática. sem prévia e pública notícia. de tal sorte que só se aplicam aos casos ocorridos depois de tal notícia. à relações jurídicas passadas que se perlongaram no tempo ou que dependem da superveniência de eventos futuros previstos. a menor comoção. um compreensível empenho em efetuar suas inovações causando o menor trauma possível. Celso Antônio Bandeira de. 3 Diante desta exposição. o que condiciona a ação humana. Bem por isto. É a insopitável necessidade de poder assentar-se sobre algo reconhecido como estável. para ajustar-se a novas realidades e para melhor satisfazer interesses públicos. o que permite vislumbrar com alguma previsibilidade o futuro. é ela. ou relativamente estável. conatural do Direito. apresentarei o grande conflito entre os Princípios da Legalidade e da Segurança Jurídica.

O princípio da legalidade e o da segurança jurídica. Nesta abordagem. .9 princípios da segurança jurídica e do respeito à boa-fé do administrado – também fundamental na estruturação do Estado Democrático de Direito. a mesma idéia. Demonstrarei que a noção doutrinariamente reconhecida e jurisprudencialmente assente de que a Administração pode desfazer seus próprios atos. em suma. de segurança jurídica cristalizada no princípio da irretroatividade das leis. buscarei o ponto de equilíbrio entre os dois grandes princípios que se contrapõem de maneira quase que inconciliável quando se trata de rever um ato administrativo em prejuízo do beneficiário. surgirá o conflito entre a legalidade e a segurança jurídica. Diante desta acepção. começa a ser mitigada pela insinuação à idéia da proteção à boa-fé ou da proteção à confiança. quando nulos. A questão – diga-se uma vez mais – não é trivial e envolve o sentimento de justiça e de respeito ao princípio da isonomia.

1949.. 84. Administração Pública 1. traçando a sua natureza e fins a que se destina. a Administração centralizada (entidades estatais) e a descentralizada (entidades autárquicas.10 1. Assim sendo. pp. mencionando Renato Alessi. Na amplitude desse conceito entram não só os órgãos pertencentes ao Poder Público como. Assim. p. assim dispõe quanto ao conceito de Administração Pública: No Direito Público – do qual o Direito Administrativo é um dos ramos – a locução Administração Pública tanto designa pessoas e órgãos governamentais como a atividade administrativa em si mesma. in Dirito Amministrativo. pode-se falar de administração pública aludindo-se aos instrumentos de governo como à gestão mesma dos interesses da coletividade. de bemestar individual dos cidadãos e de progresso social. . em conceituamos a Administração Pública no sentido de atividade administrativa em si mesma que visa os interesses da coletividade. ou seja. as instituições e empresas particulares que colaboram com o Estado no desempenho de serviços de utilidade pública ou de interesse coletivo. op. 37 e ss.1 Conceito Antes de tecermos considerações sobre os Princípios da Administração Pública. Milão. cit.. faz-se necessário conceituarmos a própria Administração Pública.4 4 MEIRELLES. também. subjetivamente a Administração Pública é o conjunto de órgãos e serviços do Estado e objetivamente é a expressão do Estado agindo in concreto par satisfação de seus fins de conservação. fundacionais e empresariais) e os entes de cooperação (entidades paraestatais). Hely Lopes Meirelles. Como bem acentua Alessi.

o Administrador estará obrigado a realização do interesse que visará o bem–estar da coletividade. na administração pública essas ordens e instruções estão concretizadas nas leis. uma vez que tais preceitos expressam a vontade dos titulares dos interesses administrativos. Ao ser investido em função ou cargo público. como legítimo destinatário dos bens. assim como a ação de gestão de bens e interesses qualificados da coletividade. todo agente do poder assume para com a coletividade o compromisso de bem servi-la. regulamentos e atos especiais. serviços e interesses administrados pelo estado.. 85. Nas palavras de Hely Lopes Meirelles “é a de um encargo de defesa. tendo natureza de um múnus público. conservação e aprimoramento dos bens. Na administração particular o administrador recebe do proprietário as ordens e instruções de como administrar as coisas que lhe são confiadas. 1. dentro da moral da instituição. . Terá o dever indeclinável de agir segundo os preceitos do Direito e da Moral administrativa. por que outro não é o desejo do povo. serviços e interesses da coletividade. porque tais preceitos é que expressam a vontade do 5 MEIRELLES. importando sempre a idéia de zelo e conservação desses bens e interesses. a Administração Pública constitui o conjunto de órgãos e serviços do Estado. impõe-se ao administrador público a obrigação de cumprir fielmente os preceitos do Direito e da moral administrativa que regem a sua atuação. cit. conservação e aprimoramento dos bens. p.2 Natureza A natureza da Administração Pública é de um múnus público para quem a exerce. op. serviços e interesses da coletividade”5. Como tal. isto é. Daí o dever indeclinável de o administrador público agir segundo os preceitos do Direito e da Moral administrativa. Assim. Para melhor elucidação. a de um encargo de defesa. as lições de Hely Lopes Meirelles assim dispõem: A natureza da administração pública é a de um múnus público para quem exerce.11 Nos termos acima transcritos.

op. moralidade. 2º da Lei nº 9. impessoalidade.12 titular dos interesses administrativos – o povo – e condicionam os atos a serem praticados no desempenho do múnus público que lhe é confiado. do Distrito federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade. ao seguinte: [.. cit..6 1. 85/86 MEIRELLES. Nas lições de Hely Lopes Meirelles. 4. 7 1. também. caput. da Constituição Federal e.784. no que tange aos fins da Administração pode-se. assim dispõe. para consecução de seus fins deve obedecer a princípios. Referidos princípios encontram-se insculpidos no art. 37. dos Estados.]. decorrem do nosso regime político.. 1. p. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União. acima conceituada.3 Fins Finalmente. sendo devidamente enumerados no art. “os fins da administração pública resumem-se num único objetivo: o bem comum da coletividade administrada”. em síntese. que representam os fundamentos da ação administrativa. também. Constituição Federal (1988) . 37. publicidade e eficiência e. op. 8 BRASIL. 87. p.. que disciplina o processo administrativo no âmbito da Administração Pública.1 Constituição Federal A Constituição Federal em seu art. cit. de 29 de janeiro de 1999.8 6 7 MEIRELLES. caput. verbis: Art. dizer que consubstanciam-se na defesa do interesse público. 37. 4 Princípios A Administração Pública.

na Administração Pública só é permitido fazer o que a lei autoriza”10. 11 9 MEIRELLES. 88. sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum. Nos dizeres de Hely. 9 Assevera ainda. no sentido de que tanto atende às exigência da lei como se conforma com os preceitos da instituição pública. vale transcrever: Além de atender à legalidade. publicidade e eficiência são princípios alçados constitucionalmente. 37. op. p. o ato do administrador público deve conformarse com a moralidade e a finalidade administrativas para dar plena legitimidade à sua atuação. conforme o caso. cumprir simplesmente a lei na frieza de seu texto não é o mesmo que atendê-la na sua letra e no seu espírito. op. civil e criminal. impessoalidade. 88.cit.. em toda a sua atividade funcional. decoro e boa-fé. op.Nas lições de Hely Lopes Meirelles: a legalidade. Nesses termos. Administração legítima só é aquela que se reveste de legalidade e probidade administrativa. como princípio da administração (CF. O Princípio da Legalidade condiciona o administrador aos mandamentos da lei. moralidade. cit. sob pena de praticar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar. Passemos a uma breve análise de cada um destes princípios. 87. que “na Administração Pública não há liberdade nem vontade pessoal. art. exigindo que ele não se afaste ou desvie dos preceitos da lei e do direito. 10 .. citado doutrinador. O Princípio da Moralidade é necessário à validade da conduta do administrador Público. p. a legalidade. caput). e deles não se pode afastar ou desviar. p. significa que o administrador público está. cit.13 Nos termos do dispositivo supra. que deve atuar segundo padrões éticos de probidade. Enquanto na administração particular é lícito fazer tudo que a lei não proíbe. MEIRELLES. 11 MEIRELLES..

uma vez que é sempre o interesse público que tem que nortear o seu comportamento. Nas lições de Maria Sylvia Zanella Di Pietro: [.14 O Princípio da Impessoalidade ou Finalidade impõe ao administrador público a prática do ato para o seu fim. O Princípio da Publicidade consiste em definir que. Partindo dessa premissa – a Administração é pública –não somente os atos serão públicos. esta dando margem a diferentes interpretações. no art. Por isso mesmo. uma vez que a Administração que o realiza é pública. .. nem os regulares a dispensam para sua exeqüibilidade. pois. Com muita propriedade assim dispôs Hely. No primeiro sentido.. 37 da Constituição de 1988. Exigir impessoalidade da Administração tanto pode significar que esse atributo deve ser observado em relação aos administrados como à própria Administração. com essa denominação.] 12 DI PIETRO.] este princípio. atos irregulares não se convalidam com a publicação. verbis: A publicidade não é elemento formativo do ato. pela primeira vez. é requisito de eficácia e moralidade. ao contrário dos demais. o princípio estaria relacionado com a finalidade pública que deve nortear toda a atividade administrativa. quando a lei ou regulamento a exige. a priori.. só se admitindo sigilo nos casos de segurança nacional e nas hipóteses previstas na Constituição. Significa que a Administração não pode atuar com vistas a prejudicar ou beneficiar pessoas determinadas.12 O princípio da finalidade veda a prática de ato administrativo sem interesse público ou conveniência para a Administração. todo ato administrativo deve ser publicado. 18ª Edição – São Paulo: Atlas. mas também a conduta interna dos agentes que atuam na Administração. p. Direito Administrativo. que é unicamente o interesse público. que aparece. [. 2005. não tem sido objeto de cogitação pelos doutrinadores brasileiros. Maria Silvia Zanella. 71..

aos princípios da legalidade. não só sob o aspecto de divulgação oficial de seus atos como. perfeição e rendimento funcional. através dos meios constitucionais. p..] A publicidade. op. 2º A Administração Pública obedecerá. 13 14 finalidade. p.2 Lei nº 9. cit. art. passou a ser um direito em sede constitucional. no âmbito judicial e administrativo. 14 1. 2º da Lei nº 9. É o mais moderno princípio da função administrativa. exigindo resultados positivos para o serviço público e satisfatório atendimento das necessidades da comunidade e de seus membros. op. [. dentre outros. ao art. 37 da Constituição Federal.15 O princípio da publicidade dos atos e contratos administrativos. quando a Emenda Constitucional nº 45 introduziu o inciso LXXVIII.13 O Princípio da eficiência visa a presteza no exercício da Administração Pública. cit. A respeito de referido princípio. como princípio de administração pública (CF. MEIRELLES. também.. MEIRELLES. motivação. 37. verbis: Art. abrange toda atuação estatal..784/99 Por sua vez. 5º da Constituição Federal assegurando a todos. verbis: O princípio da eficiência exige que a atividade administrativa seja exercida com presteza. a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade e sua tramitação. além de encontrar-se inserido no art. proporcionalidade.4. .. 96. além de assegurar seus efeitos externos. assim dispõe. que já não se contentar em ser desempenhada apenas com legalidade.. razoabilidade. 94-95.784/99. assim leciona Hely Lopes Meirelles. de propiciação de conhecimento da conduta interna de seus agentes. visa a propiciar seu conhecimento e controle pelos interessados diretos e pelo povo em geral. o art. Referido princípio.. caput).

que a razoabilidade não pode ser lançada como instrumento de substituição da vontade da lei pela vontade do julgador ou do intérprete. A respeito de referido princípio. ainda. p.784. objetiva aferir a compatibilidade entre os meios e os fins. na esfera administrativa. contraditório. 16 MEIRELLES. com lesão aos direitos fundamentais. . Hely Lopes Meirelles assim disciplina: Sem dúvida. mesmo porque ‘cada norma tem uma razão de ser’. 93. com a conseqüente mudança de orientação. de 29 de janeiro de 1999. de modo a evitar restrições desnecessárias ou abusivas por parte da Administração Pública. em caráter normativo. cit. de modo a evitar abusos ou restrições por parte da Administração. aos princípios supracitados. haver mudança de interpretação de determinadas normas legais.15 A introdução deste dispositivo no ordenamento jurídico. Registre-se. parece-nos que a razoabilidade envolve a proporcionalidade. op. ampla defesa. 16 O Princípio da Segurança Jurídica foi inserido pelo art. dos quais tecemos breves comentários. Como se percebe. 2º da Lei nº 9. afetando situações já reconhecidas e consolidadas na vigência de orientação anterior.. além dos princípios traçados na Constituição. O Princípio da razoabilidade e proporcionalidade implícito na Constituição Federal busca compatibilizar os meios e os fins. com lesão a direitos. e vice-versa. que. segurança jurídica. Regula o Processo Administrativo no Âmbito da Administração Publica Federal. interesse público e eficiência.784/99 entre os Princípios da Administração Pública. pode ser chamado de princípio da proibição de excesso. implica na observância pela Administração Pública. Essa possibilidade de mudança 15 BRASIL. em última análise. Referido princípio se justifica pelo fato de ser comum. Lei nº 9.16 moralidade.

Nas lições de Maria Silvia Zanella Di Pietro: [. Referido princípio será abordado em capítulo próprio. mesmo daquelas que na origem apresentam vícios de ilegalidade..17 de orientação termina por gerar insegurança jurídica. um dos subprincípios básicos do próprio conceito do Estado de Direito. 97-98. Ele está consagrado pela doutrina e pela jurisprudência. verbis: O princípio da segurança jurídica é considerado como uma das vigas mestras da ordem jurídica. segundo J..17 O Princípio da Motivação exprime a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos por motivos de interesse público da esfera de sua competência. É ela. cit. . Gomes Canotilho. daí a necessidade de inserção do princípio aqui em comento entre os princípios a serem observados pela Administração Pública. não havendo mais espaço para as velhas doutrinas que discutiam se a sua obrigatoriedade alcançava só os atos vinculados ou só os atos discricionários. sendo. um dos subprincípios integradores do próprio conceito de Estado de Direito. entendido como princípio da boa-fé dos administrados ou da proteção da confiança. um ‘dos temas mais fascinantes do Direito Público neste século é o crescimento da importância do princípio da segurança jurídica. Para Almiro do Couto e Silva. ou se estava presente em ambas as categorias. porque se 17 MEIRELLES. uma vez que é o tema deste estudo. p. A segurança jurídica é geralmente caracterizada como uma das vigas mestras do Estado de Direito. J. leis e regulamentos. Inicialmente. A sua obrigatoriedade se justifica em qualquer tipo de ato. A ele está visceralmente ligada a exigência de maior estabilidade das situações jurídicas.. ao lado da legalidade.] o princípio da motivação exige que a Administração Pública indique os fundamentos de fato e de direito de suas decisões. vale transcrevermos as lições de Hely Lopes Meirelles quanto a este princípio. op.

em especial no seu art.. não. .784/99. porém. cit. no art. LV. assim dispõe sobre referido princípio: Interesse público ou supremacia do interesse público – Também chamado de princípio da supremacia do interesse público ou da finalidade pública. p.19 O Princípio do Interesse Público encontra-se intimamente ligado ao princípio da finalidade. Hely Lopes Meirelles. op. Dele decorre o princípio da indisponibilidade do interesse público. MEIRELLES. prevê expressamente a observância por parte da Administração Pública dos princípios da ampla defesa e do contraditório. op. 102.] administrativo’. em processo administrativo o contraditório e a ampla defesa. assim. com o 18 19 DI PIETRO. 18 O Princípio da ampla defesa e do contraditório termina por regular na esfera infraconstitucional o cumprimento do disposto no art. cit.. em relação aos ‘acusados’ a garantia da ampla defesa e do contraditório já havia. que assegura ‘aos litigantes. Regula.. LV da Constituição Federal que assegura aos litigantes. no qual a Administração não pode dispor desse interesse e nem renunciar a poderes que a lei lhe deu para tal tutela. Ao falar em ‘litigantes’.18 trata de formalidade necessária para permitir o controle de legalidade dos atos administrativos. sem dúvida. a Lei 9. 2º. com os meios e recursos a ela inerentes’. 5º. em processo [. a atual Carta Magna acabou por jurisdicionalizar o processo administrativo. É o fenômeno da processualidade administrativa. uma das grandes novidades da Constituição Federal de 1988. p. ao lado dos ‘acusados’. ‘o contraditório e ampla defesa. na esfera infraconstitucional o cumprimento do disposto na Constituição Federal.. 82. Esta é. Sem dúvida. 5º. Nas lições de Hely Lopes Meirelles: Ampla defesa e contraditório – Como ressaltado. quanto aos ‘litigantes’.

Princípio da legalidade 2. correspondendo ao ‘atendimento a fins de interesse geral. art. sob pena de praticar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar.. 2. 103.] a legalidade. 21 O princípio da legalidade na Administração Púbica impõe ao administrador público somente fazer o que estiver expressamente autorizado em lei e nas demais espécies normativas. parágrafo único. 2º. sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum. vedada a renúncia total ou parcial de poderes ou competência.19 nome de interesse público da Lei 9. o Princípio da Legalidade condiciona o administrador aos mandamentos da lei. MEIRELLES. p. passemos ao estudo mais acurado de dois deles que serão o centro das atenções do objeto tema deste estudo – o Principio da Legalidade e o da Segurança Jurídica. p. e deles não se pode afastar ou desviar. op. os princípios da Administração Pública. caput). II). salvo autorização em lei’ (art. cit.784/99 coloca-o como um dos princípios de observância obrigatória pela Administração Pública (cf..2 Enunciados da Súmula do Supremo Tribunal Federal 20 21 MEIRELLES.20 Apresentados. conforme o caso. Nas lições de Hely Lopes Meirelles: [... cit.1 Conceito Como já mencionado no capítulo anterior. 87. civil e criminal. 2º. em toda a sua atividade funcional. art. 37. significa que o administrador público está. op. caput). 2. em breve histórico. como princípio da administração (CF. . exigindo que ele não se afaste ou desvie dos preceitos da lei e do direito.

com base no seu poder de autotutela sobre os próprios atos. ou revoga-los. não tem o poder ou a competência para praticar atos em desconformidade com a Lei. verbis: Enunciado sumular 346. de ser informado pelo princípio da legalidade. respeitados os direitos adquiridos e ressalvada. a sua vontade ou a de seu agente é a da Lei.20 Em observância à legalidade. 24 FARIA. a produção de um ato administrativo qualquer haverá. Supremo Tribunal Federal. eis o pensamento de autorizados administrativistas: A Administração. A Administração Pública pode declarar a nulidade de seus próprios atos. a apreciação judicial. O segundo significado [a Administração só pode editar atos ou medidas que uma norma autoriza] exprime a exigência de que a Administração tenha habilitação legal para adotar atos e medidas. quando eivados de vícios que os tornem ilegais. conforme entendimento já consagrado pelos enunciados sumulares nº 346 e 473 do Supremo Tribunal Federal. 24 . Supremo Tribunal Federal. porque deles não se originam direitos. Esta 22 23 BRASIL. Enunciado sumula nº 346. sujeita que está ao princípio da legalidade. exige-se base legal no exercício dos seus poderes. Enunciado sumular nº 473. a Administração Pública anulará seus próprios atos quando eivados de vícios. por motivo de conveniência ou oportunidade. sempre. desse modo. Edimur Ferreira de. A Administração pode anular seus próprios atos. . 2001. Curso de Direito Administrativo Positivo. 4ª edição – Belo Horizonte: Del Rey. Nesse sentido.22 Enunciado Sumular 473. Dessa forma. 68. a Administração poderá justificar cada uma de suas decisões por uma disposição legal. p. BRASIL.23 Assim. em todos os casos.

ilegal e conseqüentemente dele não decorreria direitos. conceder direitos de qualquer espécie. p. Numa eventual desconformidade. faltaria ao ato o suporte legal. 2. . 82. obriga o ato aos seus ditames. sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum. A eficácia de toda atividade administrativa está condicionada ao atendimento da lei. Direito Administrativo Brasileiro. art.3 Jurisprudência Em decorrência do Princípio da legalidade. tornando-o nulo. caput). 27 Temos então que a simples existência da lei. Ediciones Depalma. p. 1996. e deles não pode afastar ou desviar. Odete. como princípio de administração (CF. p. significa que o Administrador Público está. criar obrigações ou impor vedações aos administrados. Hely Lopes. 146147. 27 FARRANDO. Manual de Derecho Administrativo. em toda a sua atividade funcional. 1994. A Administração só pode fazer o que a lei permite. a Administração Pública não pode. 5ª Edição – São Paulo: Revista dos Tribunais. 25 A Legalidade. prevalecendo de modo geral. Buenos Aires. conforme o caso. 19ª Edição – São Paulo: Malheiros. 26 MEIRELLHES. 52 (traduzi). Se a Administração não se submete à lei ou seu agir é arbitrário – que é uma forma de não se submeter à lei – seus atos estarão viciados e não constituirão atividade administrativa juridicamente válida. Ismael. Direito Administrativo Moderno. como também requisitos de validade da atividade administrativa. 2001. sob pena de praticar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar. civil e criminal. por simples ato administrativo. 25 MEDAUAR.26 Significa que a submissão da Administração à lei e o exercício razoável de suas atividades são os pressupostos e garantias do Estado de Direito. ainda que desconhecida do Administrador.21 é a fórmula mais consentânea à maior parte das atividades da Administração brasileira. 37.

22

Assim também é o entendimento do Supremo Tribunal Federal (RE n.º 172.531-1) e do Superior Tribunal de Justiça (ROMS 12.815/TO; RMS 12.031/TO; RMS 5.114/TO; RMS 7.442/PB), assim ementados:
PROFESSOR. MEDIANTE ESTADO DE SANTA DE CATARINA. NOVA ACESSO

COMPROVAÇÃO

HABILITAÇÃO

PROFISSIONAL. ESTATUTO DO MAGISTÉRIO PÚBLICO. LEI ESTADUAL N.º 6.884/86. INCOMPATIBILIDADE COM O ART. 37, II, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Não cabe o exame da prejudicialidade do recurso extraordinário argüida em memorial pelas recorridas em face da legislação superveniente, que nem existia à ocasião do julgamento. O sistema constitucional atual, ressalvados os cargos em comissão, exige o concurso público de provas e de provas e títulos para a investidura em cargo ou emprego público. A ascensão que constitui forma de ingresso em carreira diversa daquela para a qual o servidor ingressou em serviço público foi banida das formas de investidura admitidas pela Constituição. Ao permitir o ingresso por acesso de professores ocupantes de carreira inferior para outra mais elevada, sem prévio concurso público, a lei catarinense mostra-se incompatível com o art. 37, II, da Carta Federal.28

CONSTITUCIONAL. ADMINISTRATIVO. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. SERVIDORES PÚBLICOS APOSENTADOS. PROVENTOS CALCULADOS COM BASE EM CARGOS PROVIDOS POR MEIO DE ASCENSÃO FUNCIONAL. IMPOSSIBILIDADE. NULIDADE DO ATO. AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQÜIDO E CERTO. 1. Tendo sido os proventos de aposentadoria recebidos pelos impetrantes calculados com base em cargos de professor, providos por meio de ascensão funcional, esta prevista em lei editada após a promulgação da Constituição Federal de 1988, e revogada,

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 172.531-1, Relator Min. Ilmar Galvão, DJ de 29/09/1995, p. 31917.

28

23

posteriormente, por inconstitucionalidade, não há de se falar em violação a preceitos constitucionais e infraconstitucionais. A

Administração deve utilizar-se de seu poder de auto-tutela, que a possibilita anular ou revogar, a qualquer tempo, seus próprios atos, quando eivados de nulidade. Aplicação da Súmula 473/STF. 2. Observada a inconstitucionalidade da norma revogada (Lei n.º 351/92), tornou-se esta completamente ineficaz desde o seu nascimento (efeito retrooperante), dele não decorrendo qualquer garantia a embasar o pleito. Assim, inexiste direito liquido e certo a ser amparado pela via mandamental, pois ausente ordenamento válido e eficaz capaz de sustentar a pretensão. 3. Precedentes (RMS nºs 5.114/TO e 7.442/PB). 4. Recurso conhecido, porém desprovido.29

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. APLICAÇÃO ERRÔNEA DA LEI. NULIDADE. SÚMULA 473/STF. 1. Conforme entendimento sumulado pelo colendo Supremo tribunal

federal, a administração, verificando a ilegalidade de um ato seu, pode declará-lo nulo (Súmula 473/STF). 2. A investidura em cargo público efetivo submete-se à exigência de

prévio concurso de provas ou de provas e títulos. Recurso desprovido.30

Assim, de atos nulos (eivados de vícios insanáveis), inexistentes (contrários ao direito), iniciados em erro de fato (invalidantes da manifestação de vontade da Administração) ou mesmo aqueles originados em erro de direito decorrente de ignorância da norma não nascem direitos. A estes aplica-se o enunciado nº 473 da Súmula do Supremo Tribunal Federal.

29

BRASIL. Recurso Ordinário em Mandado de Segurança nº 12.815/TO, Relator Min. Jorge Scartezzini, DJ de 29/10/2001, p. 221. 30 BRASIL. Recurso em Mandado de Segurança nº 12.031/TO, Relator Min. Felix Fischer, DJ de 04/02/2002, p. 423.

24

Certo é que na esteira do enunciado sumular nº 473 do STF e do princípio da legalidade, a doutrina tradicional perfilhou a tese de que os atos administrativos ilegais são nulos, não podendo gerar quaisquer efeitos. Não obstante, parte desta mesma doutrina tem se insurgido contra essa inteligência à luz do Princípio da Segurança Jurídica. Antes de entrarmos nesta discussão, faremos uma breve exposição deste Princípio. 3. Princípio da Segurança Jurídica 3.1 Prescrição Administrativa e Decadência Faz-se necessário, antes fazermos uma exposição do Princípio da Segurança Jurídica, tecermos breves comentários a respeito da prescrição administrativa e decadência, institutos intimamente relacionados a este princípio. Para melhor elucidar a questão, valho-me das lições de Celso Antônio Bandeira de Mello, verbis:

A prescrição, instituto concebido em favor da estabilidade e segurança jurídicas (objetivo, este, também compartilhado pela decadência), é, segundo entendimento que acolhemos, arrimados em lição de Câmara Leal, a perda da ação judicial, vale dizer, do meio de defesa de uma pretensão jurídica, pela exaustão do prazo legalmente previsto para utilizá-la. A perda da ação não significa, ou, pelo menos, não necessariamente significa, a perda do direito. Exemplo: não tendo o devedor efetuado o pagamento ao credor, este disporá do tempo ‘x’ para acioná-lo. Não o fazendo dentro da dilação própria, prescreverá sua ação para defender tal direito. Sem embargo, o direito não haverá se extinguido, tanto que, se o devedor ulteriormente vier a pagá-lo, não poderá mais tarde propor ação de repetição do indébito. Tal situação é diversa da que ocorre na decadência, pois esta é a perda do próprio direito, em si mesmo, por não utilizá-lo no prazo previsto para seu exercício, evento, este, que sucede quando a única forma de expressão do direito coincide conaturalmente com o direito de ação. Logo, não exercitado

em todas estas hipóteses. in casu.mais relevante do que isto . 922-923 e 928 .25 este último. cit. ao passo que o prazo de decadência é fatal: nem se interrompe. no Direito Privado. o único modo de o cônjuge coacto exercer o direito a não ser havido como casado. antes que de prescrição. como nesta. Exemplo: a forma única de exercer-se o direito de não ser considerado pai de filho ilegítimo da própria mulher é mover ação contestando-lhe a legitimidade. ao passo que o juiz. nem se suspende.. o exercício do direito confunde-se com o exercício da ação para manifestá-lo. A distinção entre os institutos da prescrição e da decadência é importante porque a prescrição só pode ser argüida pelo interessado. nas ações submetidas a seu juízo. da omissão do tempestivo exercício da própria pretensão substantiva da Administração. é mover ação anulatória sob tal fundamento. de uma via. verifica-se facilmente que a perda da possibilidade de a Administração prover sobre dada matéria em decorrência do transcurso do prazo dentro do qual poderia se manifestar não se assemelha à prescrição. do que corresponderia. ao tecer considerações sobre a configuração da situação de decadência. uma doação efetuada é mover ação para revogá-la. Vê-se que. se o casamento efetuou-se sob coação. isto é. [. de seu dever-poder. ao próprio exercício do direito. a forma única de exercer o direito de revogar. quando cabível.o prazo prescricional pode ser suspenso ou interrompido.31 Em face do que se apontou sobre a diferença entre prescrição e decadência. previsto para defesa de um direito que se entenda ameaçado ou violado. p. pura e simplesmente. não se trata. não terá sido exercitado o próprio direito substantivo. pode decretar de ofício a decadência de direito em razão do transcurso do prazo legal e ... do não-exercício tempestivo de um meio. a bom tempo. logo. Com efeito. op. assim discorreu: 31 MELLO. Weida Zancaner. Trata-se. é o não-exercício.]. o que estará em pauta.

devido ao fato da Administração Pública não precisar valer-se da ação. Por ser assim. 32 ZANCANER.32 Assim. Assim. também.]. em oposição à prescrição. em se tratando de atos inconvalidáveis.. para exercitar o seu poder de invalidar. o outro também não caberá. p. a decadência é o instituto intimamente ligado ao Princípio da Segurança Jurídica. 3ª Edição – São Paulo: Malheiros. Esta situação traduz-se na perda do direito da Administração rever seus atos pelo decurso de tempo – decadência – em virtude da necessidade de segurança e estabilidade jurídica na atuação da Administração. . muito embora a doutrina tenha utilizado o prazo prescricional como forma de sanação dos atos inválidos.. Tanto é exata esta assertiva que não se concebe a possibilidade de interrupção ou suspensão do prazo para a Administração invalidar.] no Direito Privado a prescrição basta para garantir a segurança jurídica [. passemos ao exame do Princípio da Segurança Jurídica.26 [. sempre que for aventado o instituto da decadência.] o mesmo não se dá no Direito Público. este consiste em prazo decadencial [. Onde um não for útil.. Weida. 77.. há de se considerar. o instituto da prescrição não seria suficiente para pacificar a situação que advém da matéria objeto deste estudo. Em razão deste princípio. ao contrário do que se passa com os particulares.. 2001. Da Convalidação e da Invalidação dos Atos Administrativos. a Administração manterá atos ilegítimos praticados e operantes há um certo tempo e que já produziram efeitos perante os seus destinatários. Isto posto.. o princípio da segurança jurídica. Logo. pois o princípio da segurança jurídica só fica resguardado através do instituto da decadência. característica esta da decadência.

34 33 BRASIL. Nos arts. o prazo de decadência contarse-á da percepção do primeiro pagamento. de 29 de janeiro de 1999. salvo comprovada má-fé. Regulamenta o Processo Administrativo no Âmbito da Administração Pública Federal. .784/99. 54. da revogação e da convalidação dos atos administrativos. quando eivados de vício de legalidade. que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal. a lei tratou da anulação. inseridos no capítulo XIV.784. a motivação. § 1º No caso de efeitos patrimoniais contínuos. CAPÍTULO XIV DA ANULAÇÃO. a moralidade. contados da data em que forma praticados. Lei nº 9.33 Art. 54 fixou em 5 anos o prazo decadencial para que a Administração anule os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários. respeitados os direitos adquiridos. ao lado de outros. elencou a segurança jurídica como princípio a ser observado pela Administração. 53 a 55. A Lei nº 9. § 2º Considera exercício do direito de anular qualquer medida de autoridade administrativa que importe impugnação à validade do ato. REVOGAÇÃO E CONVALIDAÇÃO Art.784/99. 53.27 3. A Administração deve anular seus próprios atos. 34 Id. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos. e pode revoga-los por motivo de conveniência ou oportunidade.2 Lei nº 9. salvo nos casos de comprovada má-fé. como a legalidade.784/99 e Segurança Jurídica O Princípio da Segurança Jurídica presente há anos na doutrina só foi inserido dentre os princípios da Administração Pública pelo art. O art. 2º da Lei nº 9.

todavia. Em decisão na qual se evidencie não acarretarem lesão ao interesse público nem prejuízo a terceiros. indisputavelmente.28 Art. 55. 55 prevê as circunstâncias em que o ato poderá ou deverá ser convalidado. se não é o mais importante dentre todos os princípios gerais de Direito. um mínimo de certeza na regência da vida social. à espera de possível mudança de posicionamento da Administração.] 35 Id. conatural ao Direito. é. Nesse sentido. 54 estabelece o prazo de decadência dentro do qual a Administração poderá anular.35 O art. à segurança. Isso não significa. [. do direito adquirido. da preclusão (na esfera processual).. da decadência. Nos artigos seguintes o princípio é mitigado: o art. são expressões concretas que bem revelam esta profunda aspiração à estabilidade. do usucapião. 53 utilizou o verbo dever.. prevalência absoluta do princípio da legalidade. Daí o chamado princípio da ‘segurança jurídica’. A fixação de prazo dentro do qual a Administração exerça seu poder-dever de anular os seus próprios atos eivados de ilegalidade e dos quais decorram efeitos favoráveis para os administrados era exigência antiga de considerável parte da doutrina e da jurisprudência. um dos mais importantes dentre eles. mas um dever. da irretroatividade da lei. aparentemente para deixar claro que a anulação do ato ilegal não é mera faculdade da Administração. que não admitiam que o destinatário do ato vivesse em eterno sobressalto. . bem por isso. Os institutos da prescrição. os atos que apresentarem defeitos sanáveis poderão ser convalidados pela própria Administração. o qual. e o art. a lição valiosa de Celso Antônio Bandeira de Mello: O Direito propõe-se a ensejar uma certa estabilidade.

agravar a situação dos administrados ou denegar-lhes pretensões. o que permite vislumbrar com alguma previsibilidade o futuro. ou relativamente estável. 93-94.. comportamentos cujos frutos são esperáveis a médio e longo prazo. em épocas de normalidade. cit. pois. Dita previsibilidade é. portanto. O tempo é 36 MELLO. ao mero sabor do acaso -. uma conseqüente mutação. a menor comoção. manifesta e sempre manifestou. para ajustar-se a novas realidades e para melhor satisfazer interesses públicos. o que condiciona a ação humana. Esta é a normalidade das coisas.29 Esta ‘segurança jurídica’ coincide com uma das mais profundas aspirações do homem: a da segurança em si mesma. como tudo o mais. 36 Também assim é o entender de José dos Santos Carvalho Filho: O fundamento da prescrição administrativa é o mesmo da prescrição comum: o princípio da segurança e da estabilidade das relações jurídicas. ser modificadas em casos concretos para fins de sancionar. É a insopitável necessidade de poder assentar-se sobre algo reconhecido como estável. o Direito. que enseja projetar e iniciar. o direito não pode ficar à mercê de eternas pendências. Por força mesmo deste princípio (conjugadamente com os da presunção de legitimidade dos atos administrativos e da lealdade e boa-fé). firmou-se o correto entendimento de que orientações firmadas pela Administração em dada matéria não podem. de tal sorte que só se aplicam aos casos ocorridos depois de tal notícia. conquanto seja. De fato. provocando uma situação de instabilidade no grupo social. Bem por isto. a da certeza possível em relação ao que o cerca. conseqüentemente – e não aleatoriamente. é ela. sendo esta uma busca permanente do ser humano. um compreensível empenho em efetuar suas inovações causando o menor trauma possível. op. . sem prévia e pública notícia. às relações jurídicas passadas que se perlongaram no tempo ou que dependem da superveniência de eventos futuros previstos. p.

as situações jurídicas apresentam atributos que impedem a sua eliminação. verdadeiros corolários da segurança jurídica. 2001. Desse modo. vale dizer. Dessa forma. mostra-se assente a presença do Princípio da Segurança Jurídica como um dos elementos formadores da idéia do Estado do Direito. daí a criação da prescrição administrativa. p. A observância do Princípio da Segurança Jurídica reside no cumprimento do devido processo legal. se o titular de um direito fica inerte para exercê-lo. Almiro do Couto e Silva destaca que. 731. passando a fazer parte do patrimônio dos detentores do direito. 7ª Edição – Rio de Janeiro: Lumem Júris. na medida em que a confiança nas instituições organizadoras de uma sociedade se arrima na idéia de justiça e na certeza de que as relações jurídicas admitidas pelo Direito não serão desconstituídas à sorte dos detentores do Poder.. p. 46. situação oposta que passa a impedi-lo do exercício. em nome da estabilidade e pacificação social. 1987. no respeito às linhas mestras traçadas pela lei para a desconstituição dos atos jurídicos. os “[. Ou seja. que acabam por se beneficiar daquela situação de inércia. Almiro do Couto e.30 necessário para proporcionar essa estabilização. Revista de Direito Público. Em conseqüência. Esse é o fundamento do instituto. sobretudo entre a Administração e o administrado. no direito administrativo também é preciso assegurar a estabilidade destas relações. Assim. Manual de Direito Administrativo. a inércia do titular do direito cria situação favorável a terceiros. no aspecto material. É a essa situação que se denomina prescrição.. em certo prazo.37 O Princípio da Segurança Jurídica sempre constituiu um dos pilares do Estado de Direito. nº 84. A alteração destes atos encontra barreira no direito adquirido e no ato jurídico perfeito. surge. 38 SILVA. . 37 FILHO.] elementos estruturantes do Estado de Direito são as idéias de justiça e de segurança jurídica”38. José dos Santos Carvalho.

o principio da res judicata. vale transcrever a evolução descrita por Almiro Couto e Silva. desconstituindo-os de oficio. de segurança jurídica cristalizada no princípio da irretroatividade das leis ou no de que são válidos os atos praticados por funcionários de fato. Se assim efetivamente é.1 Evolução Histórica Apresentados os dois princípios. de que o nulo jamais produz efeitos. Confronto entre os Princípios da Legalidade e da Segurança Jurídica 4. porém.31 4. O ponto inicial da trajetória está na opinião amplamente divulgada na literatura jurídica de expressão alemã do início do século [século XX] de que. desde o Direito Romano. desde que inexista óbice legal e não tenham gerado direitos subjetivos. É interessante seguir os passos dessa evolução. convalesce ou sana. foi-se insinuando a idéia da proteção à boa fé ou da proteção à confiança. a mesma idéia. Esta concepção de que o Estado tem sempre o poder de anular seus atos ilegais era a verdade indiscutida no Direito Privado. quando nulos. em suma. A noção doutrinariamente reconhecida e jurisprudencialmente assente era de que a Administração pode desfazer seus próprios atos. do mesmo modo como sempre será possível. quando válidos. apesar da manifesta incompetência das pessoas de que eles emanaram. sendo ainda insuscetível de ratificação. convalida. Aos poucos. quando eivados de nulidade. a faculdade que tem o Poder Público de anular seus próprios atos tem limite não . revogá-los. então caberá sempre à Administração Pública revisar seus próprios atos. embora inexistente. na órbita da Administração Pública. em razão do princípio da legalidade. passemos à análise do conflito que se desencadeia entre eles quando de sua aplicação aos atos inquinados de ilegalidade. Para tanto.

compreende-se claramente que se cuida. Foi este. O anulamento não seria.. Apesar de Jellinek aludir a revogação (Wiederruf) de atos irregulares. Pode. . também.] Mais incisivo é Walter Jellinek. mas sim de ato facultativo ou discricionário. longamente tolerada pela Administração Pública. se entendesse que é o que melhor consultaria ao interesse público. de anulamento. tacitamente ratificá-lo. todavia. o que hoje seria tecnicamente inaceitável. mas um poder e o ato que o decretasse não teria a natureza de ato vinculado. na verdade. ou resulta de procedimento que gera sua responsabilidade. na metade da década de 50. como é indiscrepantemente aceito pela doutrina germânica moderna. Jellinek via ainda o problema só pelo lado do Poder Público. com a prolongada e complacente inação do Poder Público. o primeiro degrau para que se atingisse o entendimento de que a invalidade.32 apenas nos Direitos Subjetivos regularmente gerados. quando. hajam produzido benefícios e vantagens para os destinatários. tendo em vista. nos anos 50.. na doutrina e na jurisprudência. Informa ainda que a prevalência do principio da legalidade sobre o da proteção da confiança só se dá quando a vantagem é obtida pelo destinatário por meios ilícitos por ele utilizados. especialmente. nas suas Instituições do Direito Administrativo Alemão (cuja primeira edição é de 1911) [. Entretanto. Dizia ele: ‘O agente público pode expressamente ratificar um ato defeituoso e renunciar. que eliminou a faculdade de invalidar os atos administrativos nulos por ilegais. Nesses casos não se pode falar em proteção à confiança do favorecido. salientando apenas a faculdade que teria a Administração de renunciar ao poder de anular. É o que admite expressamente Fritz Fleiner. Esclarece Otto Bachof que nenhum outro tema despertou maior interesse do que este. assim. com culpa sua. um dever. em homenagem à boa fé e à segurança jurídica. convalesce ou sana. a jurisprudência firmada pelos Tribunais alemães. pois agiria contra a boa fé se quisesse valer-se da irregularidade longamente tolerada’. para concluir que o principio da possibilidade de anulamento foi substituído pelo da impossibilidade de anulamento. pois. convalida. mas também no interesse em proteger a boa fé e a confiança (Treut und Glaube) dos administrados. à faculdade de revogá-lo.

p.mesmo prazo concedido aos particulares para postular. o anulamento com eficácia ex tunc é sempre inaceitável e o com eficácia ex nunc é admitido quando predominante o interesse público no restabelecimento da ordem jurídica ferida. nada se alterou no Direito francês em matéria de revogação e anulamento dos atos administrativos. cit. formuladas pelas autorizadas vozes de Forsthoff e Bachof. a invalidade dos atos administrativos. como os de índole social. cit. . p. desde o affaire Dame Cachet. sobretudo no que se refere às técnicas de controle de constitucionalidade das normas e dos efeitos das declarações de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade. sobre este tema.33 Embora o confronto entre os princípios da legalidade da Administração Pública e o da segurança jurídica resulte que. 56 –57. com algumas críticas. fora dos casos de dolo. de 1923.. Rivero esclarece que a razão disto está em que a jurisprudência considera a segurança jurídica mais importante do que a própria legalidade. Completamente uniformes. A influência do Direito alemão para a evolução do Direito Constitucional brasileiro.868/99.40 39 40 SILVA. Enfatiza que. os atos maculados de nulidade só podem ter seu anulamento decretado pela Administração Pública no prazo de dois meses .. é absolutamente defeso o anulamento quando se trata de atos administrativos que concedam prestações em dinheiro. Francis-Paul Benoit. sendo flagrante na Lei 9. op. culpa etc. SILVA..39 Ao examinar o Direito francês. op. George Vedel e Marcel Waline. essa influência se faz sentir também no Direito Administrativo. sendo evidente na Lei 9. o status quaestionis na Alemanha. do caso Cachet até hoje.784/99. É este. que se exauram de uma só vez ou que apresentem caráter duradouro. subvenções. 54 –56. pensões ou proventos de aposentadoria. são as opiniões de Laubadere. Ao Extrapolar o campo do controle de constitucionalidade. Almiro do Couto e Silva destaca que. é indiscutível. em recurso contencioso de anulação. como se pode ver dos manuais mais recentes.

Em seguida. como atesta o magnífico repositório do Direito norteamericano. pelo . sob o ponto de vista legal. cresce a preocupação com a segurança jurídica. antes de analisar o problema no Direito brasileiro. é tido como inválido ou írrito. e resulta manifesta de numerosas decisões que a afirmação inteiramente abrangente do princípio de uma invalidade absolutamente retroativa não pode ser justificada’..34 O Professor Almiro do Couto e Silva prossegue suas incursões no Direito comparado. e cita as soluções para o conflito entre os princípios da legalidade e da segurança jurídica no Direito italiano e no Direito português. Estas questões situam-se entre as mais difíceis das que atraíram a atenção das cortes. A orientação tradicional. desde a data de sua emissão. que tão amplo princípio deve ser entendido como [com] temperamentos e que mesmo uma lei inconstitucional é um fato operativo. admitindo-se muitas exceções ao princípio da nulidade da lei inconstitucional: É o que exprimiu a Suprema Corte americana ao sentenciar que ‘nem sempre o passado pode ser apagado por uma nova declaração judicial. que comporta muitas exceções.. que uma visão realista tem erodido essa doutrina. que é afetada por muitas considerações. [. estadual e federal. do qual herdamos o dogma de que a lei declarada inconstitucional seria null and void. analisa a solução dada para a antinomia entre os princípios da legalidade e da segurança jurídica no Direito Constitucional norte-americano. e não apenas da data na qual foi declarada inconstitucional.] de outro lado. é a de que ‘uma decisão de um Tribunal competente no sentido de que uma lei é inconstitucional tem o efeito de tornar essa lei null and void. mesmo naquele sistema. tem sido sustentado que esta regra geral não é universalmente verdadeira ou nem sempre absolutamente verdadeira. que é o Corpus Juris Secundum. o ato. e conclui que. é tão inoperante como se nunca tivesse sido exarado ou como se nunca tivesse sido escrito.

mas que temporariamente não se havia reconhecido. se considerada abstratamente. Cresce de ponto o significado da penetração do princípio da segurança jurídica no Direito norte-americano. cit. 58-59. SILVA. Nessas situações. cita Seabra Fagundes. ou manter-se em silêncio. duas alternativas poderiam abrir-se ao administrador. sem as deficiências do anterior. op. mas que são.41 4. o Professor Almiro do Couto e Silva passa à análise do problema no Direito brasileiro.. Também as numerosas situações alcançadas e beneficiadas pelo ato vicioso podem aconselhar a subsistência dos seus efeitos. Inicia afirmando que.. salvo poucas exceções. conforme as circunstâncias: praticar novo ato.2 Mitigação da legalidade no ordenamento jurídico Brasileiro Na parte final de seu artigo. aparecerá sempre como prejudicial ao interesse público. vista em face de algum dado concreto pode acontecer que a situação resulte do ato. .35 menos antes da declaração de inconstitucionalidade e que deve ter conseqüências as quais não podem ser ignoradas’. cit. toleradas pela Administração Pública. quando é sabido que lá prepondera.. segundo a qual o juiz não faz outra coisa senão exprimir a verdadeira regra jurídica tal como sempre existiu. torne-se útil àquele mesmo interesse. nascidas de atos administrativos inválidos. Em seguida. embora nascida irregularmente. p. 42 41 42 SILVA. op.. renunciando tacitamente ao direito de invalidá-lo. em tema de inconstitucionalidade das leis.] a infringência legal no ato administrativo. em matéria de efeito retro-operante das decisões dos Tribunais. 60. para quem [. desde as suas origens. por considerável lapso de tempo. a doutrina silencia-se quanto à solução a ser dada a situações irregulares. por outro lado. Mas. a ficção de Blakstone.

máxime quando. Trabalho apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina de Direito Administrativo. iterativamente. de forma pacífica. com jurisprudência administrativa então dominante: [. não menos exato é que a atividade administrativa possui.36 O ordenamento jurídico hodierno. com inquestionada aparência de regularidade”. bem como a doutrina e a jurisprudência. como válido.. 43 Nesse Parecer lembrava José Neri da Silveira a opinião do Ministro Orozimbo Nonato. Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal. por estes aceito. podemos constatar casos em que o Supremo mitigou a aplicação do enunciado sumular nº 473. em 1965. Revogação e Anulação de Atos Administrativos. e cada ato do Poder Público. uma presunção de legitimidade. expressa em voto no Supremo Tribunal Federal. em princípio. têm admitido certa flexibilidade na aplicação do Princípio da Legalidade da Administração Pública. perante os cidadãos. quando Consultor-Geral do Estado do Rio Grande do Sul. em seu favor. . há de ter-se. produza conseqüências de direito. no qual examinou precisamente a possibilidade de anulamento de atos administrativas há muito praticados e em conformidade. no decurso de muitos anos.] se é certo. deve ser examinada à luz de dois princípios que podem entrar em colisão: o da legalidade na Administração Pública e o da Segurança Jurídica dos administrados. Cristiane. oriundo de autoridade competente. nos seguintes termos: 43 ALENCAR. especialmente do Supremo Tribunal Federal.. A questão. consoante ficou largamente firmado no Princípio da Legalidade. em parecer. em principio. ainda. 2002. que não há direito contra a lei e que a administração pode anular os seus atos com infrações a dispositivos legais. em função da segurança jurídica e do respeito à boa-fé do administrado. para tanto. José Neri da Silveira já afirmara. Passando da doutrina brasileira à jurisprudência. em prol dos mesmos.

em todos os casos. guiada pelo voto do Min. ou revogá-los. Não era isso outra coisa do que o reconhecimento da sanatória do nulo. por motivo de conveniência ou oportunidade. da Guanabara (RTJ 45/589). a apreciação judicial”. Pronunciamentos isolados do STF modificaram essa posição extremamente conservadora e que se poderia qualificar até mesmo de atrasada. Cristiane.37 “O que se geralmente aceita é que o ato nascido da ilegalidade. entendeu que a liminar dera causa a uma situação de fato e de direito que não conviria fosse inovada. Assim é que no RMS 13. revogável se mostra pela administração ou por ela é anulável. respeitados os direitos adquiridos. a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal consolidou-se em favor da preponderância do principio da legalidade da Administração Pública sobre o da segurança jurídica. em caso semelhante ao anterior. por que deles não se originam direitos. .144.45 Bem se vê que a faculdade de anulamento dos atos administrativos inválidos por ilegais não comporta. no entanto. Supremo Tribunal Federal. se posta em confronto com as adotadas em outras países. se o ato tem aparência regular e originou direito subjetivo. BRASIL. No RMS 17. nos termos deste enunciado sumular qualquer exceção. Enunciado sumular nº 473. reiterou-se. não pode a revogação ter efeitos”. Op. a 3ª Turma do STF (ao decidir caso relacionado com situação de aluno que se formou e passou a exercer profissão amparado em medida liminar em mandado de segurança. quando eivados de vícios que os tomam ilegais. Mas. Prado Kelly. da Guanabara (RTJ 37/248).807. cit. a mesma orientação. e ressalvada. a priori. cristalizado no conhecido enunciado sumular nº 473: “A administração pode anular seus próprios atos. 44 45 ALENCAR. depois revogada na sentença).44 Depois disso.

a matéria está longe de ser trivial e envolve a sempre tormentosa ponderação ou composição entre o princípio da legalidade – basilar da Administração – e o princípio da segurança jurídica – também fundamental na estruturação do Estado Democrático de Direito. entretanto. numa visão sistemática.3 Conflito no Direito Brasileiro No Direito positivo brasileiro. da revogação e da convalidação dos atos administrativos. Afinal. a motivação. que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal. salvo nos casos de comprovada má-fé. em período recente. a lei tratou da anulação.784/99. A fixação de prazo dentro do qual a Administração exerça o seu poder-dever de anular os seus próprios atos eivados de ilegalidade e dos quais decorram efeitos favoráveis para os administrados era exigência antiga de considerável parte da doutrina e da jurisprudência. que . no exercício da autotutela administrativa. Em que pese tais argumentos. tal princípio não pode ser colocado de lado. elencou a segurança jurídica como princípio a ser observado pela Administração. inseridos no capítulo XIV.784/99 introduziu regra concreta de respeito à segurança jurídica e à estabilidade das relações administrativas. em nome da Segurança Jurídica. A Lei nº 9. se o princípio da legalidade. como a legalidade. sendo um dos elementos estruturantes do aspecto material do Estado Democrático de Direito Brasileiro. 54 fixou em 5 anos o prazo decadencial para que a Administração anule os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários. a Lei nº 9. visto isoladamente. existiriam ocasiões em que as situações jurídicas decorrentes de ato viciado deveriam ser preservadas. O art. 4. a moralidade. pode determinar a anulação de um ato írrito na sua origem. ao lado de outros. Como já mencionado. nos artigos 53 a 55.38 Tendo em vista todo o exposto.

39 não admitiam que o destinatário do ato vivesse em eterno sobressalto. Por que. à espera de possível mudança de posicionamento da Administração. quando evidenciada a irregularidade do ato de concessão? Essas questões práticas devem ser respondidas com equilíbrio. o Professor Almiro do Couto e Silva analisou com profundidade a questão relativa ao conflito entre os princípios da legalidade e da segurança jurídica. não poderia ser revista em razão do simples transcurso do tempo? Por que perpetuar uma situação ilegal ou mesmo não exigir o ressarcimento de uma pessoa que receba proventos muito superiores aos de todos que se aposentaram na mesma situação? Por que deveria a sociedade sustentar tais pagamentos. de 1997. Esse artigo foi fonte fundamental para outro mais recente. do Professor Márcio Nunes Aranha.não é trivial e envolve o sentimento de justiça e de respeito ao princípio da isonomia.46/63). Assim como a legalidade e a isonomia. Ainda em 1987. que seria posteriormente convertido na Lei 9. especialmente no âmbito do Direito Administrativo (RDA 84 . pp.out-dez de 1987. e criticou a excessiva valorização do primeiro em detrimento do segundo. uma aposentadoria concedida pela Administração com flagrante ofensa à lei. a segurança jurídica é bem jurídico e princípio a ser respeitado. cujos proventos sejam muito superiores aos que determina a lei. A questão . por exemplo. abril/junho 1997). intitulado “Segurança jurídica stricto sensu e legalidade dos atos administrativos: convalidação do ato nulo pela imputação do valor de segurança jurídica em concreto à junção da boa-fé e do lapso temporal” (in Revista de Informação Legislativa 34. Esse último artigo fez referência ao então projeto de lei.diga-se uma vez mais .784/99. . em artigo publicado na Revista de Direito Público com o sugestivo título “Princípios da legalidade da Administração Pública e da segurança jurídica no Estado de Direito contemporâneo”.

por motivo de conveniência ou oportunidade. apresentando os princípios que devem ser observados pela Administração Pública. porque deles não se originam direitos. respeitados os direitos adquiridos e ressalvada.46 Contudo.40 5. em todos os casos. Agora nos pautaremos na busca do ponto de equilíbrio entre os dois grandes princípios que se contrapõem de maneira quase inconciliável quando se trata de rever um ato administrativo em prejuízo do beneficiário. 54 da Lei do Processo Administrativo Federal. quando eivados de vícios que os tornem ilegais. Enunciado sumular nº 473. ipsis litteris: 46 BRASIL. que assim dispõe. como já tratado em capítulo anterior. Supremo Tribunal Federal. A Administração pode anular seus próprios atos. verbis: Enunciado Sumular 473. Diante dos Princípios da Legalidade e da Segurança Jurídica traçamos a imprescindibilidade de cada um e o conflito que se configura quando atos viciados de ilegalidade que emanam efeitos favoráveis aos destinatários se perpetuam pelo tempo. O princípio da segurança jurídica e o princípio da legalidade. ou revoga-los. encontra amparo no Enunciado Sumular nº 473 do Supremo Tribunal Federal. No ordenamento jurídico brasileiro a utilização do Princípio da Legalidade da Administração Pública com o intuito de anular os atos desconformes com o ordenamento jurídico. como já observado. ocasionando a decadência administrativa. hoje. o dever de anular apresenta. a apreciação judicial. EQUILÍBRIO ENTRE OS PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA E DA LEGALIDADE Iniciamos nossa análise. . aplicação limitada pelo art.

1 Ponderações entre os Princípios da Legalidade e da Segurança Jurídica O que era apenas construção doutrinária e jurisprudencial.784/99. Lei nº 9. Assim. 54 do normativo legal citado. posiciona-se Hely Lopes Meirelles: A doutrina tem sustentado que não há prazo para anulação do ato administrativo. salvo comprovada má-fé. de 29 de janeiro de 1999. mas depois de um certo tempo existe o dever de convalidar ou de manter essa situação. a qualquer tempo. para manter atos ilegítimos praticados e operantes há longo tempo e que já 47 BRASIL.784. Nesse sentido. tem sido atenuada em homenagem à segurança e à estabilidade das situações juridicamente constituídas. pela Administração. 47 À luz do dispositivo supra e do princípio da legalidade pode se dizer que existe um período inicial em que há o dever de anular. Nessa medida. contados da data em que foram praticados. como uma das inovações introduzidas no ordenamento jurídico pela novel Lei nº 9. O princípio assente no Direito que o ato nulo não gera efeitos em virtude da sobreposição do princípio da legalidade. a regra geral que apregoa a possibilidade de desfazimento do ato ilegal. nos termos do art. começa a ser relativisado. Regula o Processo Administrativo no Âmbito da Administração Pública Federal. . 5. mas a jurisprudência vem atenuando o rigor dessa afirmativa.41 Art. pela manutenção do princípio da legalidade. restou cristalizado em norma legal. 54. o princípio da segurança jurídica tem sido invocado pela moderna doutrina administrativa como contrapeso à aplicação irrestrita do princípio da legalidade no âmbito administrativo. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos.

pressupõe-se. impõe-se a estabilização dos atos que superem os prazos admitidos para sua impugnação. tão relevante quanto os demais. Quando se diz que os atos nulos podem ser invalidados a qualquer tempo. e 15 anos entre 48 MEIRELLES. 1994. Quanto à prescrição administrativa. Entende-se que o interesse público que decorre do princípio da estabilidade das relações jurídicas é tão relevante quanto a necessidade de restabelecimento da legalidade dos atos administrativos. não há como pronunciar-se sua nulidade.42 produziram efeitos perante terceiros de boa-fé... a prescrição administrativa e a judicial impedem a anulação do ato no âmbito da Administração ou pelo Poder Judiciário. [. E justifica-se essa conduta porque o interesse da estabilidade das relações jurídicas entre o administrado e a Administração ou ente esta e seus servidores é também de interesse público. dependerá da norma legal que a institui em cada caso. pois. Hely Lopes. Em tais casos. nesses prazos é que podem ser invalidados os respectivos atos administrativos. 19ª Edição – São Paulo: Malheiros. por via judicial. .] A nosso ver. Embora a doutrina estrangeira negue essa evidência. se os atos se tornaram inatacáveis pela Administração e pelo Judiciário. Diante disso. Esse entendimento jurisprudencial arrima-se na necessidade de segurança e estabilidade jurídica na atuação Administrativa. p. qualquer que seja o vício que se lhes atribua. obviamente. que tal anulação se opere enquanto não prescritas as vias impugnáveis internas e externas. opera-se a prescrição das ações pessoais em 5 anos e das ações reais em 10 anos entre presentes. de forma que deve o ato permanecer seja qual for o vício de que esteja inquinado. os autores pátrios mais atualizados com o Direito Público contemporâneo a reconhecem. considera grande parte da doutrina que ela incide em relação aos atos administrativos inválidos. Direito Administrativo Brasileiro. Como entre nós as ações pessoais contra a Fazenda Pública prescrevem em cinco anos e as reais em vinte. 48 Não é outro o entendimento esposado por José dos Santos Carvalho Filho: Quanto à prescrição. 188190.

se não puder convalida-lo. em princípio. 117.784. também limitou a ação administrativa de anulação de atos administrativos. visto que a manutenção da legalidade. Quando isso ocorrer (e para tanto não se pode fixar um prazo. em função do tempo decorrido desde sua edição. de 29. ainda aqui. p. op. é seu primeiro dever ético e jurídico. a ocorrência de comprovada má-fé. começa então a interferir na questão da anulação do ato administrativo o princípio consagrado na Teoria Geral do Direito denominado ‘princípio da segurança e estabilidade das relações jurídicas’. esmaece-se. não retira a possibilidade de a Administração anular o ato. a Lei nº 9. mas. estabelecendo que o direito da Administração de anular ato que tenham produzido efeitos favoráveis para os destinatários prescreve em cinco anos. dado o surgimento daquele princípio. é possível. tem o dever jurídico de declarar sua nulidade. porque cada caso é um caso).99. contados da data da prática do ato. no Estado de Direito. impor-se-lhe prazo para tal anulação. Em sede administrativa. não vemos como possa.. Nesse momento. ressalvada. e por essa mesma razão.1. cit. pelo menos em princípio.43 ausentes. em face da autotutela administrativa. em razão do atributo de que gozam por natureza os atos administrativos. . que um ato irregular. realmente.49 Sobre a necessidade de ponderação entre os princípios da legalidade e da segurança jurídica. e dá lugar a uma ‘faculdade’. entretanto. que se consolidem faticamente ao abrigo daquele ato. a Administração. Para isto. 49 FILHO. aquilo que era um ‘dever’ da Administração (anular o seu próprio ato). faça nascer situações concretas. que a doutrina denomina ‘presunção de legitimidade’. Entretanto. verifica-se a pertinente lição de Toshio Mukai: Diante de um ato administrativo assim irregular e ilegal. que dispõe sobre o processo administrativo na Administração federal. tão importante para a própria coletividade como o da legalidade administrativa.

.2 Relevância da Segurança jurídica A respeito da relevância do princípio da segurança jurídica. E este é o do interesse público. que não tem sido incluído nos livros de direito administrativo entre os princípios da Administração Pública. pois os interessados nunca sabem quando a sua situação será passível de contestação pela própria Administração Pública. permito-me afirmar que o objetivo da inclusão desse dispositivo foi o de vedar a aplicação retroativa de nova interpretação de lei no âmbito da Administração Pública. em caráter normativo. p. O princípio se justifica pelo fato de ser comum. Direito Administrativo. quando impõe. Direito Administrativo Sistematizado. Toshio.51 50 51 MUKAI. São Paulo: Saraiva. entre os critérios a serem observados. com a conseqüente mudança de orientação. inciso XIII. vedada aplicação retroativa de nova interpretação. vale transcrever a preciosa lição de Maria Sylvia Zanella Di Pietro: O princípio da segurança jurídica. que arbitre sua decisão. ambos de igual importância para a satisfação do interesse da coletividade. porém gera insegurança jurídica. Maria Silvia Zanella. p. caput.784/99. do artigo 2º. DI PIETRO. ‘interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige.50 5. 12ª Edição – São Paulo: Atlas. 225-226. 82. 1999. haver mudança de interpretação de determinadas normas legais. e sua função norteadora na elaboração da Lei nº 9. Essa possibilidade de mudança de orientação é inevitável. Essa idéia ficou expressa no parágrafo único. foi inserido entre os mesmos pelo artigo 2º. o Estado terá sempre de se pautar por um princípio maior.44 É que diante do dilema de atender ora um.784/99. 2000. afetando situações já reconhecidas e consolidadas na vigência de orientação anterior. ora outro princípio. da Lei nº 9. na esfera administrativa. Como participantes da Comissão de Juristas que elaborou o anteprojeto de que resultou essa lei.

Nesse diapasão. 54. contados da data em que foram praticado. de que dispunha a Administração. Gilmar Ferreira Mendes. do Supremo tribunal Federal. como regra geral. em homenagem ao princípio da segurança jurídica. a contar. agora. Regula o Processo Administrativo no Âmbito da Administração Pública Federal. quando se tratar de ato do qual decorram efeitos favoráveis aos administrados.782-1/SP. a qual merece transcrição literal: 52 BRASIL. se desses atos ilegais decorrem efeitos favoráveis aos administrados. No relatório condutor do Recurso Extraordinário nº 108. restando assegurada a perpetuação de seus efeitos. foi acolhida a tese do então Subprocurador da República. de desconstituir a qualquer tempo os atos administrativos surgidos em desconformidade com a lei. Lei nº 9.78/99.52 Doravante. limitação temporal. em julgados dos próprios tribunais superiores. do surgimento do ato. salvo comprovada má-fé. Nesse sentido. de 29 de janeiro de 1999. 54 da Lei nº 9. reputam-se confirmados.784.45 Evidencia-se assim a intenção do legislador de relativizar o poder irrestrito. Nessa linha. a atuação corretiva da Administração encontra. em virtude de operada a decadência do direito da Administração de revê-los. constata-se a existência de temperamentos ao enunciado sumular nº 473. sua desconstituição somente se torna possível se operado no prazo de cinco anos. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos. a seguir transcrito: Art. . ressalvando-se a hipótese de reconhecida má-fé dos interessados. Os atos administrativos de reconhecida invalidade. a redação conferida ao art. cuja desconstituição não for mais possível.

Laudabère Traité de Droit Administratif. Discutia-se apenas sobre a eficácia ex tunc ou ex nunc do ato anulatório (Hans-Uwe Erichsen e Wolfgang Martens. vol. Miguel Reale. Tal postulado contém igualmente os princípios da segurança jurídica (Rechtssicherheit) e da paz jurídica (Rechtsfrieden). pp. 1983. Recurso Extraordinário nº 108782-1 . prelecionam Erichesen e Martens que: ‘O princípio da legalidade da administração constitui apenas um dos elementos do postulado do Estado de Direito. Revogação e Anulamento do Ato Administrativo. Nesse sentido. p. que a simples ilegalidade do ato administrativo não se mostrava suficiente para justificar a declaração de nulidade do ato administrativo. Hely Lopes Meirelles. vol.. VIII. I. o mesmo valor e a mesma hierarquia.] A confiança na legitimidade das providências administrativas e a necessidade de segurança das relações jurídicas acabaram por impor condições ao exercício do poder-dever de autotutela. a Segurança Jurídica é alçada como princípio a ser observado ganhando relevância à luz da legalidade administrativa. pp. devendo levar-se em conta a aparência de legalidade e a convicção na sua legitimidade. posteriormente. Paris. Passou-se a entender. Daí resulta que a solução para um conflito concreto entre matéria jurídica (Rechtsgüter) e interesses há de levar em conta todas as circunstâncias que o caso possa eventualmente ter’. 326/327. 239. Legalidade e segurança jurídica constituem dupla manifestação do Estado de Direito.53 Nesses termos. 1980. [.. 1973. Supremo Tribunal Federal.3 Composição entre legalidade e Segurança Jurídica 53 BRASIL. por isso. tendo. 1984. 5. Berlin. Allgemeines Verwaltgunsrecht. dos quais decorre o respeito ao princípio da boa-fé do favorecido. Estudos e Pareceres de Direito Público.46 Inicialmente. considerava a doutrina européia que os atos administrativos ilegais favoráveis (rechtswidriger begünstigender Verwaltugngsakte) eram passíveis de revisão independentemente de qualquer providência. p. 361/365). 71/72.

o princípio da segurança jurídica. mas como se disse..47 No tocante à composição entre o Princípio da Segurança Jurídica e o da Legalidade. Nesse sentido. cit. cumpre fazer referência à interessante monografia da Prof. Weida Zancaner. op. . pois “[. fundamento do dever de invalidar. pois se não gerassem não haveria qualquer razão para nos preocuparmos com eles. princípio que também visa protegê-los quando de suas relações com o Estado. ou há dever de invalidar ou há dever de convalidar. ou por se referirem ao Direito como um todo. (.. em razão das barreiras ao dever de invalidar.] ressalvados os atos discricionários praticados por autoridade incompetente. pondera. como. Essa terceira hipótese ocorre em razão da existência das chamadas barreiras ou limites à convalidação e à invalidação. colacionada na obra “Da Convalidação e da Invalidação dos Atos Administrativos” Segundo a autora. Claro está que o princípio da legalidade é basilar para a atuação administrativa. Os limites ao dever de invalidar surgem do próprio sistema jurídico-positivo. a boa-fé.) Com efeitos os atos inválidos geram conseqüências jurídicas. com referência a todas as relações inválidas não convalidáveis que se apresentem ao administrador. ou nenhuma das providências pode ser adotada”54. 55.. como todos sabemos. a invalidação não consiste em faculdade da Administração Pública. coexistem com o princípio da legalidade outros princípios que devem ser levados em conta quando do estudo da invalidação.. como por exemplo. obriga a Administração Pública a fulminar seus atos viciados não passíveis de convalidação. p. ou por serem protetores do comum dos cidadãos. Só que a invalidação não pode ser efetuada sempre e indistintamente. encartados no ordenamento jurídico estão outros princípios que devem ser respeitados.. Com 54 ZANCANER. in verbis: O princípio da legalidade. por exemplo. pois.

Institutos como o da coisa julgada ou da preclusão processual. porém. o exemplo famoso da prescrição. impossibilitando. existência de uma regra ou princípio de Direito que lhe teria servido de amparo se houvesse sido validamente constituída. op. o conflito entre justiça e segurança jurídica só existe quando tomamos a justiça como valor absoluto.. pois fazê-lo causaria ainda maiores agravos ao Direito.. [. p. revelam igualmente esse conflito. Se é antiga a observação de que justiça e segurança jurídica freqüentemente se completam.55 Valemo-nos. é certo que também freqüentemente colocam-se em oposição. ainda que injustos. de algumas passagens do artigo do Professor Almiro do Couto e Silva a que nos referimos. podem transformar o contexto em que ela se originou. definitivamente o reexame dos atos do Estado. [. contrários ao Direito ou ilegais. Lembre-se. que ilustra o sacrifício da justiça em favor da segurança jurídica.] As barreiras ou limites ao dever de invalidar ou resultam do mero decurso do tempo (a chamada prescrição) ou. do preenchimento cumulativo dos seguintes requisitos: haver decorrido um certo lapso de tempo desde a instauração da relação viciada. aliados ao tempo.. de maneira que pela justiça chega-se à segurança jurídica e viceversa. a propósito. de tal maneira que o justo nunca pode transformar-se em injusto e nem o injusto jamais perder essa natureza. ou da interrupção da prescrição... cit. por afrontar a segurança jurídica e a boa-fé. nos casos em que o ato inválido produziu situação jurídica ampliativa de direito ou concessiva de benefício ainda não sanada pela completude do prazo prescricional. Estes fatos posteriores à constituição da relação inválida.. A 55 ZANCANER. porque estarão abrigadas por algum princípio de Direito. com o triunfo da justiça sobre a segurança jurídica. e boa-fé por parte do beneficiário. também.] No fundo.48 base em tais atos certas situações terão sido instauradas e na dinâmica da realidade podem converter-se em situações merecedoras de proteção. 60-62 . de modo que fique vedado à Administração Pública o dever de invalidar.

para tornar a fazê-la e tornar a desmanchá-la . é ela a própria justiça. aí. econômicos. dar causa a qualquer conseqüência jurídica para os destinatários. no quadro da condição humana. porém.. é que o princípio da segurança jurídica passou a exprimir. seria iníquo desconstituir. após o transcurso de certo lapso de tempo. o tempo e o espaço . se assim não se proceder. fora do mundo platônico das idéias puras.49 contingência humana. qual o princípio que lhe é adequado. por arraigadas e consolidadas. os condicionamentos sociais. algo que se contraponha à justiça. só pela lembrança ou pela invocação da injustiça ou da ilegalidade originária.56 Assim. cit. 46-47.tudo isso impõe adequações. sob pena de. que eles eram ilegais. como atos nulos. Do mesmo modo como a nossa face se modifica ou se transforma com o passar dos anos. o que se está afirmando. Nisso não há nada de paradoxal.sob o argumento de ter adotado uma nova interpretação e de haver finalmente percebido. diante do caso concreto. a face da justiça. alheias e indiferentes ao tempo e à história.]. diante das peculiaridades da situação concreta. na imperfeita aplicação daquela idéia abstrata à realidade em que vivemos. atônitos. Nem sempre é fácil discernir. em numerosíssimas situações. correr-se o risco de agir injustamente ao cuidar de fazer justiça. Segurança jurídica não é. sempre. que as antinomias e conflitos entre justiça e segurança jurídica. não podendo. Parece-me. fazendo e desmanchando sua teia. a justiça material. [. Na verdade. temperamentos e adaptações.. invalidar seus próprios atos . políticos. defende-se a sanatória ou convalidação dos atos nulos. o tempo e a experiência histórica também alteram.. intranqüilos e até mesmo indignados pela conduta do Estado. a rigor. naquele caso. se a este fosse dado. são falsas antinomias e conflitos. A tolerada permanência do injusto ou do ilegal pode dar causa a situações que. pois. quando se diz que em determinadas circunstâncias a segurança jurídica deve preponderar sobre a justiça. .qual Penélope. culturais. em respeito à boafé do administrado conjugada com o transcurso de razoável lapso temporal em que a 56 SILVA. portanto. de modo a assegurar a realização da Justiça: o da legalidade da Administração Pública ou o da segurança jurídica? A invariável aplicação do princípio da legalidade da Administração Pública deixaria os administrados. op.

do Rio de Janeiro. 57 Assim pode se chegar a duas conclusões: A primeira é no sentido de que tanto a anulação quanto a convalidação são deveres da Administração. .784/99 pela 1ª Turma do STF no RE 85. JA CRIADA SITUAÇÃO DE FATO E DE DIREITO. Bilac Pinto. POSSE E EXERCÍCIO. que deverá optar por uma das duas atitudes. SEU TARDIO DESFAZIMENTO.50 Administração tenha tolerado o ato viciado sem qualquer manifestação no sentido de desconstituir o ato ou seus efeitos. como se 1ê na ementa: ATO ADMINISTRATIVO. COM APROVAÇÃO. que o tempo consolidou. Min. QUE O TEMPO CONSOLIDOU. Recurso Extraordinário nº 85179/RJ. a impossibilidade de tardio desfazimento do ato administrativo. Nesse acórdão. O leading case nessa matéria foi apreciado antes do advento da Lei nº 9. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO CONHECIDO. Rel. em conclusão. Supremo Tribunal Federal. que trata de efeitos gerados por medida liminar em mandado de segurança. no caso concreto. de acordo como o que melhor atenda ao interesse público. DAI A PARTICIPAÇÃO NO CONCURSO PÚBLICO.179.4 Aplicação dos Princípios em harmonia 57 BRASIL. DJ 02/12/1977. são invocados os precedentes jurisprudenciais aqui já referidos e a lição de Miguel Reale para afirmar-se. 5. Bilac Pinto. Relator Min. CIRCUNSTANCIA INALTERABILIDADE EXCEPCIONAL DA A ACONSELHAR DECORRENTE A DO SITUAÇÃO DEFERIMENTO DA LIMINAR. já criada situação de fato e de direito. A segunda é no sentido de que o princípio da legalidade não é absoluto nem pode ser aplicado com total esquecimento do princípio da segurança jurídica.

com a tolerância do Poder Público. Ao dar-se ênfase excessiva ao princípio da legalidade da Administração Pública e ao aplicá-lo a situações em que o interesse público estava a indicar que não era aplicável. mas algo que resulta imperativamente do ordenamento jurídico. quando permanecem por largo tempo. dando causa a situações perfeitamente consolidadas. de regra. convalidam. Este trabalho não tem outro objetivo senão o de. modestamente. O anulamento não é uma faculdade. que é o princípio da segurança jurídica.51 Finalizando e em síntese: os atos inválidos praticados pela Administração Pública. desfigura-se o Estado de Direito. esquecendo-se completamente do princípio da segurança jurídica. Diante deste impasse. contribuir para que a injustiça não continue a ser feita em nome da legalidade. cedendo lugar a outros. na quase generalidade dos casos. pois se lhe retira um dos seus mais fortes pilares de sustentação. A doutrina e jurisprudência nacionais. aplica o princípio da legalidade. tem o poder/dever de anular o ato. convalescem ou sanam. nos deparamos com a grande dificuldade no desempenho da atividade jurídica que consiste muitas vezes em saber o exato ponto em que certos princípios deixam de ser aplicáveis. com as ressalvas apontadas. A idéia de que os princípios da segurança jurídica e da legalidade devem ser ponderados continuou e continua atualíssima na doutrina brasileira. beneficiando particulares que estão em boa fé. estando evidente no . A Administração Pública brasileira. e acaba-se por negar justiça. como é afirmado na doutrina. têm sido muito tímidas na afirmação do princípio da segurança jurídica. Também não podemos olvidar que diante do ato inválido no nosso sistema jurídico a Administração Pública.

razão fundamental do direito. nos casos de complacência do Poder Público.52 conhecido estudo de Weida Zancaner. detém seu significado em preservar. há outro princípio a ser levado em conta para que não persista a injustiça em nome de uma pretensa legalidade. o artigo de Márcio Nunes Aranha: A concepção de segurança jurídica expressa no presente estudo é reflexo de um seu aspecto mais restrito de garantia da boa-fé ou confiança do particular frente aos atos emanados do Poder Público. “Da convalidação e da invalidação dos atos administrativos”... a aplicação rígida de um princípio.] Preenchidas as condições de boa-fé do particular e do razoável transcurso de tempo. desde há muito tempo. cit. pois. torna-se imperativa a preservação do ato administrativo para salvaguarda da segurança jurídica.58 No mesmo sentido. no direito. seja porque encontrarão em seu apoio alguma regra específica. já citado e que merece novamente transcrição: Com efeito. salvar. sem desprezo do perigo de supervalorização da autoafirmação. um esforço. nunca demais. pois fazê-lo causaria ainda maiores agravos ao Direito. por afrontar a segurança jurídica e à boa-fé. p. atos inválidos geram conseqüências jurídicas. aliados ao tempo. muitas vezes. de relembrar que. leva a injustiças. Tal princípio é a manifestação concreta da segurança jurídica. ou mesmo de entendimento seu modificado. 61-62. pois se não gerassem não haveria qualquer razão para nos preocuparmos com eles. dar sobrevida àquilo que se perpetuou no tempo pelo simples fato deste. manter. . de modo a que fique vedado á Administração Pública o exercício do dever de invalidar.. [. chamavam Treu und Glaube (lealdade e confiança). o que os alemães. op. Estes fatos posteriores à constituição da relação inválida. que. e que. auxiliado pela inexigibilidade de 58 ZANCANER. Intenta-se. podem transformar o contexto em que esta se originou. Com base em tais atos certas situações terão sido instauradas e na dinâmica da realidade podem converter-se em situações merecedoras de proteção. seja porque estarão abrigadas por algum princípio de Direito.

O apego à aplicação do princípio da legalidade isoladamente pode determinar a anulação de ato irregular na sua origem. salvo nos casos de comprovada má-fé (art. 54). galgar posição digna de proteção jurídica. Entretanto. que exige a eliminação de atos administrativos antijurídicos. 59 . Revista de Informação Legislativa 34.. abril/junho 1997. uma visão sistemática da aplicação dos princípios da Administração Pública termina por mitigar a aplicação do princípio da legalidade em homenagem ao princípio da segurança jurídica devidamente insculpido no artigo 54 da Lei ARANHA. p. e o da segurança jurídica.784/99. Segurança Jurídica stricto sensu e legalidade dos atos administrativos: convalidação do ato nulo pela imputação do valor da segurança jurídica em concreto à junção da boa-fé e do lapso temporal..53 comportamento diverso . integraram sua própria razão de ser.]’ É pensando nessas questões angustiantes que vale a pena debruçar-se. evoluindo com o sistema jurídico. sobre as situações de fato que. que fez menção expressa à segurança jurídica como princípio a ser observado pela Administração (art. que exige a manutenção do ato administrativo beneficente. O problema tem sua significação mais profunda nas questões de Maurice Hauriou: ‘Mas será que o poder de desfazimento ou de anulação poderá exercer-se indefinidamente e em qualquer época? Será que jamais as situações criadas por decisões desse gênero se tornarão estáveis? Quantos perigos para a segurança das relações sociais encerram essas possibilidades indefinidas de revogação [.59 A influência de todas essas idéias da doutrina nacional e estrangeira e do direito positivo estrangeiro é evidente na Lei nº 9. 54 da Lei nº 9. Marcio Nunes. 2º) e fixou o prazo decadencial de 5 anos para que a Administração anule os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários. 6.Convalidação à luz do art.boa-fé -.784/99 A convalidação ou não de atos beneficentes antijurídicos fica adstrito a dois princípios: o da legalidade. com maior cuidado e respeito. 66.

Neste dispositivo. tem-se.784. Por sua vez. a segurança jurídica por decurso de tempo se funda da mesma forma que as anteriores na consolidação de situações jurídicas.54 nº 9. a não ser no caso de má-fé. A segurança jurídica exprime-se na irretroatividade das leis. a Administração decai do dever de anular atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários em 5 anos. em tese. na coisa julgada. Lei nº 9. contados da data em que foram praticados. 60 Nos termos do artigo supra. verbis: Art. nulo ou anulável. na estabilidade das relações e na garantia dos cidadãos de não serem surpreendidos por efeitos inesperados e intempestivos de atos seus ou 60 BRASIL. que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal. salvo comprovada má-fé. de 29 de janeiro de 1999. 54. não se referiu o legislador se o ato seria sanável ou não. expressamente consagrado no artigo 2º do citado normativo legal. O direito da Administração de anular atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos. de 29 de janeiro de 1999. Deve-se levar em conta a aplicação do princípio da segurança jurídica. Regulamenta o Processo Administrativo no Âmbito da Administração Pública Federal . apenas que a Administração decairia do poder de anular atos administrativos em cinco anos. Se a lei não fez distinção entre atos nulos e anuláveis. salvo comprovada má-fé. que em ambas as hipóteses se admite a convalidação pelo decurso do tempo. no direito adquirido. no ato jurídico perfeito e com ela se impede que situações jurídicas criadas regularmente sejam alteradas em razão de novas regras ou interpretações. sem ressalvas.784/99.

Ausência e excesso de legalidade abrem espaço para o abuso de poder e são controlados pela segurança jurídica. Assim. retirando um dos seus mais fortes pilares de sustentação. quando esta reconhece. ao conceder novo direito. Miguel Reale assim se manifestou. relacionado à situação anterior ignorando esta. efeitos jurídicos dos quais decorrem direitos. o visceralmente nulo jamais pode ser sanado ou produzir efeitos válidos. a uma situação fática. terminaria por ferir frontalmente o princípio da segurança jurídica. dando-se ênfase ao princípio da legalidade da Administração Pública. Entender de outro modo. A observância dos princípios da Administração Pública de forma sistêmica tornase imprescindível ao interesse público e à efetividade dos princípios da Administração Pública. verbis: Se no campo do Direito Privado. nenhuma segurança haveria para os servidores de boa-fé. a vista de uma situação jurídica que ela mesmo já respaldou. termina por desfigurar-se o Estado de Direito. de forma que o tempo transcorrido pode gerar situações de fato . Assim. a convalidação e a sanatória de atos inválidos. crentes na correta atuação administrativa. em razão do princípio da segurança jurídica. acobertados pelo decurso de tempo da Administração em invalidá-los. aplicando-o a situações em que o interesse público estava a indicar que não era aplicável. a aplicação da convalidação dos atos administrativos nulos. A Administração. termina por conferir estabilidade às relações jurídicas e confiança do administrado na Administração Pública.55 de outrem. na esfera do Direito Administrativo a questão se põe com menos rigorismo formal. que é o princípio da segurança jurídica. Sua aplicação está em consonância com o princípio da legalidade. ainda que nascida de maneira irregular. São manifestações dessa face da segurança jurídica a prescrição. em virtude da preeminência do interesse público. Coadunando com este entendimento.

mas revela ainda certo apego a critérios privatísticos. em princípio. O que se não pode é recusar à autoridade administrativa. assim conclui: ‘A solução do Conselho de Estado [francês] consiste. em admitir. não por desamor ou menosprezo à lei. mas à vista de circunstâncias que excluam a existência de dolo. mas eivadas de infrações legais a seu tempo não percebidas ou decretadas. bem como a constituição.56 equiparáveis a situações jurídicas. como expressão que é do organismo estatal. mas por ser impossível desconhecer o valor adquirido por certas situações de fato constituídas sem dolo. que o problema da sanatória ou convalidação dos atos nulos se coloca em termos menos rígidos na tela do Direito Administrativo. sobre os limites da revisão ex offício dos atos administrativos singulares. o poder de convalidar dada situação de fato. de outro lado. A idéia de recorrer à doutrina civilista da prescrição aquisitiva é engenhosa. em suma. b) a de perda pela Administração do benefício da declaração unilateral de nulidade (le bénefice du préalable). de direitos adquiridos. em direito subjetivo. pura e simplesmente. considerando-se exaurido o poder revisional ex officio da Administração. ou quando se revelem. sendo preferível reconhecer. de um lado. em virtude não só do tempo transcorrido. nascer de uma situação irregular da Administração. a doutrina e a jurisprudência têm-se mostrado sensíveis em relação a ambos os aspectos do problema. . expondo e adotando a tese de De Soto. Sob esse prisma. após um prazo razoável. a possibilidade de haver-se como legítimo um ato nulo ou anulável. que nenhum direito subjetivo pode. cuja permanência lhe pareça justa. Oliver Dupeyrux. uma espécie de prescrição aquisitiva de um direito subjetivo à manutenção do ato’. de um lado. admitindo. desse modo. e. de outro. não obstante a nulidade que originariamente as comprometia. No direito Administrativo europeu. é mister distinguir duas hipótese: a) a de convalidação ou sanatória do ato nulo ou anulável. No primeiro sentido. mas. Haveria. em tais casos. em determinadas e especialíssimas circunstâncias. que o decurso de certo tempo cria uma confiança legítima no espírito dos particulares e transforma uma situação de fato em situação jurídica.

a menos. de tal sorte que a desconstituição do ato geraria agravos maiores aos interesses protegidos na ordem jurídica do que os resultantes do ato censurável.57 sem maiores indagações.. Celso Antônio Bandeira de.61 Celso Antônio Bandeira de Mello. valores éticos ou econômicos positivos a favor da permanência do ato irregular. 62 MELLO.42-43. [. portanto. 1999.. Curso de Direito Administrativo. Esta estabilização ocorre em duas hipóteses: a) quando já escoou o prazo. Os vícios insanáveis impedem o aproveitamento do ato. para a Administração invalidar o ato. Em tal caso.] Vícios insanáveis tornam os atos inconvalidáveis. terá obrigação de invalidá-lo. que a situação do ato viciado já esteja estabilizada pelo Direito. Revogação e Anulamento do Ato Administrativo.. ao dispor sobre a diferença entre convalidação e abstenção da decretação de nulidade. 11ª Edição – São Paulo: Malheiros.. simplesmente não se põe o problema. 340. p. já não mais haverá situação jurídica inválida ante o sistema normativo. [.. dito ‘prescricional’. verbis: [.] 61 REALE. partidário da noção acima. ao passo que os vícios sanáveis possibilitam a convalidação. assim se manifestou. o ato viciado se categoriza como ampliativo da esfera jurídica dos administrados e dele decorrem sucessivas relações jurídicas que criaram.] sempre que a [Administração] esteja perante ato insuscetível de convalidação. 1ª Edição – Rio de Janeiro: Forense. para sujeitos de boa-fé. embora não vencido tal prazo.62 Jose dos Santos Carvalho Filho. 1968. situação que encontra amparo em norma protetora de interesses hierarquicamente superiores ou mais amplos que os residentes na norma violada. assim preleciona: Nem todos os vícios do ato permitem seja este convalidado. por sua vez. Miguel.. e. b) quando. p. . evidentemente.

prazo previsto no artigo 54 da Lei nº 9. p.. como é sabido. José dos Santos Carvalho.. por conseguinte. Todavia. quando as conseqüências jurídicas do ato gerarem tal consolidação fática que a manutenção do ato atenderá mais ao interesse público do que a invalidação.. conjugando a boa-fé dos interessados com a tolerância da Administração e com razoável lapso de tempo decorrido. O decurso do tempo. 2001.] e o ato deve permanecer como estava. a única conduta juridicamente viável terá que ser a de não invalidar o ato e deixá-lo subsistir e produzir seus efeitos. estabiliza certas situações fáticas. se o interesse público maior for de que o princípio aplicável é o da segurança jurídica e não o da legalidade da Administração Pública. a autoridade competente terá o dever de não anular.. a prevalência do princípio do interesse público sobre o da legalidade estrita.]. Aparece aqui a hipótese da prescrição para resguardar o princípio da estabilidade das relações jurídicas.784/99.] Nesses casos.. Manual de Direito Administrativo. 63 FILHO. 8ª Edição – Rio de Janeiro: Lumem Júris.] há que se reconhecer que.. em homenagem ao princípio da segurança jurídica previsto expressamente no artigo 2º e implicitamente no artigo 54 da Lei nº 9. Haverá limitação. Desse modo. no caso 5 anos. [. temos que o dever de anular atos administrativos inválidos impõe-se à Administração quando o interesse público recomende que no confronto entre o princípio da legalidade e o da segurança jurídica aquele seja aplicado e este não. transformando-as em situações jurídicas... aplicando a sanatória do inválido. .] Tais situações consistem em verdadeiras limitações ao dever de invalidação dos atos [.58 Entretanto. Nesses caso [. Nota-se.. ocorre a prescrição [.784/99... é de se considerar o surgimento de inafastável barreira ao dever de invalidar da Administração [. 122-127.... ainda. poderão surgir situações que acabem por conduzir a Administração a manter o ato inválido. em certas circunstâncias especiais.]. se o ato é inválido e se torna ultrapassado o prazo adequado para invalidá-lo. [. [.63 Pelo exposto.].

sobre atos administrativos irregulares. em termos de segurança jurídica.59 Nesses termos. que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal O dever de anular os atos administrativos inválidos só existe. então a autoridade competente terá o dever de não anular. assim. à dois princípios o da legalidade que exige a eliminação de atos administrativos antijurídicos e pelo princípio da segurança jurídica. Entretanto. nos aspectos do dever da Administração abster-se de invalidar por decadência como no de convalidar atos irregulares. uma visão sistemática da aplicação dos princípios da Administração Pública terminaria por mitigar a aplicação do princípio da legalidade em homenagem ao princípio da segurança jurídica devidamente insculpido no artigo 54 da Lei nº 9. Resta. de 29 de janeiro de 1999. resultam no reconhecimento de que destes atos decorrem direitos subjetivos. têm admitido certa flexibilidade na aplicação do Princípio da Legalidade da Administração Pública. que exige a manutenção do ato administrativo beneficente. a teor do artigo 54 da Lei 9. incontroversa a possibilidade de prevalência da segurança jurídica sobre a legalidade. O ordenamento jurídico hodierno.784/99. em observância ao princípio da segurança jurídica preceituado no mesmo normativo legal. quando. Todavia. entendemos que as conseqüências do decurso de tempo. O ato administrativo fica adstrito. devidamente incorporadas na legislação. entre outros. . pode determinar a anulação de ato irregular na sua origem. O apego à aplicação do princípio da legalidade isoladamente. no confronto entre o princípio da legalidade e o da segurança jurídica. CONCLUSÃO Por fim já é possível arrolar as conclusões extraídas da pesquisa acadêmica. se o interesse público maior for de que o princípio aplicável é o da segurança jurídica e não o da legalidade da Administração Pública. isto é. bem como a doutrina e a jurisprudência. o interesse público recomende que aquele seja aplicado e este não. se a hipótese inversa verificar-se.784.

. crentes na correta atuação administrativa. devidamente incorporadas na legislação.784/99. Assim. Todavia. que as conseqüências do decurso de tempo. conjugando a boa-fé dos interessados com a tolerância da Administração e com razoável lapso de tempo decorrido. conclui-se. assim. Resta. a autoridade competente terá o dever de não anular. no caso 5 anos. A segurança jurídica por decurso de tempo se funda na consolidação de situações jurídicas. se o interesse público maior for de que o princípio aplicável é o da segurança jurídica e não o da legalidade da Administração Pública. em homenagem ao princípio da segurança jurídica consagrado no artigo 54 da Lei nº 9. ainda que nascida de maneira irregular ao conceder novo direito relacionado à situação anterior ignorando esta. na estabilidade das relações e na garantia dos cidadãos de não serem surpreendidos por efeitos inesperados e intempestivos de atos seus ou de outrem. em homenagem ao princípio da segurança jurídica previsto expressamente no artigo 2º e implicitamente no artigo 54 da Lei nº 9. aplicando a sanatória do inválido. Assim. nos aspecto do dever da Administração abster-se de invalidar por decadência como no de convalidar atos irregulares. sobre atos administrativos irregulares resultam no reconhecimento de que destes atos decorrem direitos subjetivos. A Administração à vista de uma situação jurídica que ela mesmo já respaldou. a teor do artigo 54 da Lei nº 9. terminaria por ferir frontalmente o princípio da segurança jurídica. em observância ao princípio da segurança jurídica preceituado no mesmo normativo legal.784/99. O dever de anular atos administrativos inválidos impõe-se à Administração quando o interesse público recomende que no confronto entre o princípio da legalidade e o da segurança jurídica aquele seja aplicado e este não. Ausência e excesso de legalidade abrem espaço para o abuso de poder e são controlados pela segurança jurídica.60 porque referidos atos foram acobertados pelo manto da decadência. prazo previsto no artigo 54 da Lei nº 9. A observância dos princípios da Administração Pública de forma sistêmica é imprescindível ao interesse público e à efetividade dos princípios da Administração Pública. por fim. nenhuma segurança haveria para os servidores de boa-fé. em termos de segurança jurídica.784/99.784/99. incontroversa a possibilidade de prevalência da segurança jurídica sobre a legalidade.

FARIA. FILHO.Direito Administrativo Brasileiro. 13ª Edição – São Paulo: Malheiros. 2000 3. São Paulo: Saraiva. FARRANDO. Cristiane. 2001 5. Jose dos Santos Carvalho. MEIRELLES. Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal. 7ª Edição – Rio de Janeiro: Lumem Júris. Manual de Direito Administrativo. Revogação e Anulação de Atos Administrativos. Ediciones Depalma. MELLO. DI PIETRO. 8ª Edição – Rio de Janeiro: Lumem Júris. 2005 4. Manual de Direito Administrativo. Maria Sylvia Zanella. MEIRELLES. 2001 9.61 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS As fontes de pesquisas sustentáculos do trabalho a ser apresentado encontram-se sedimentadas em remansosa jurisprudência do Tribunais e nas seguintes obras: 1. 19ª Edição – São Paulo: Malheiros. 12ª Edição – São Paulo: Atlas. Direito Administrativo. Jose dos Santos Carvalho. Maria Sylvia Zanella. 2002 2. Curso de Direito Administrativo. Edimar Ferreira de. Ismael. ALENCAR. 11ª Edição – São Paulo: Malheiros. 18ª Edição – São Paulo: Atlas. 1999 13. 5ª Edição – São Paulo: Revista dos Tribunais.Direito Administrativo Brasileiro. Toshio. Hely Lopes. 1994 10. Celso Antônio Bandeira de. DI PIETRO.Direito Administrativo Sistematizado. Direito Administrativo. 1999 . Odete. 2001 7.Manual de Derecho Administrativo. MEDAUAR. Trabalho apresentado como requisito para aprovação na disciplina de Direito Administrativo. Direito Administrativo Moderno. Buenos Aires. FILHO. 4ª Edição – Belo Horizonte: Del Rey. Curso de Direito Administrativo Positivo. MUKAI. 30ª Edição – São Paulo: Malheiros. 2005 11. MELLO. 2001 8. Hely Lopes. Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 2001 12. 1996 6.

Da Convalidação e da Invalidação dos Atos Administrativos. Revogação e Anulamento do Ato Administrativo. Almiro do Couto e. Revista de Direito Público nº 84.62 14. 3ª Edição – São Paulo: Malheiros. ZACANER. Weida. REALE. 1ª Edição – Rio de Janeiro: Forense. SILVA. 1968 15. Miguel. 1987 16.2001 .