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05- História de Um Homem - Pietro Ubaldi (Volume Revisado e Formatado em PDF para iPad_Tablet_e-Reader)

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05- História de Um Homem - Pietro Ubaldi (Volume Revisado e Formatado em PDF para iPad_Tablet_e-Reader)
Neste livro, Pietro Ubaldi retrata a experiência de um homem pleno de Ideal, em meio às lutas comuns e muitas vezes brutais das criaturas vulgares. Cedo compreendeu ele o artificialismo da cultura humana; as mentiras convencionais da sociedade, uma filosofia de vida antagônica ao Evangelho que trazia no coração e que não podia deixar de aplicar em sua existência. Quem estaria certo: o Evangelho, com seus apelos a uma vida moral e espiritual superior, ou o mundo com sua psicologia materialista, marcada por fortes instintos? Mas esse mundo era o natural campo de provas a que o destino o havia projetado e onde esse homem deveria viver, compreendendo e amando os seus semelhantes, como eram, e não como ele quereria que eles fossem.
Sem trair o seu ideal, entendeu que tinha que conviver com criaturas comuns, suportando-as e participando de suas lutas, pois assim queria o seu destino. Era preciso amar o próximo, por pior que fosse, já que assim lhe pedia o Evangelho, como uma ordem de Cristo. Descer à criatura humana era o novo dever, como seu Mestre Cristo havia descido e amado. A experiência tinha que ser feita, e ele a fez! Que importavam a dor, as decepções, a pobreza, as traições, as agressões humanas, se esse homem havia nascido para amar o seu próximo, e amando-o também o ajudaria a iniciar a sua elevação moral e espiritual?
Assim esse homem, vivendo experimentalmente o Evangelho, compreendeu que as criaturas normais, com seus instintos primários e necessidades sensoriais, viviam a sua natural fase biológica e mais não se lhes podia pedir. Mas ele devia compreendê-las e amá-las, ajudando-as a subir para Deus.
O livro termina com a visão do Cristo, como a premiar esse homem que tanto sofreu e tanto amou! É uma visão, com rápido diálogo, na intimidade de um quarto humilde, em que esse homem solitário e sofredor, ao receber a visita da Irmã Morte, se alegra com a sua libertação espiritual, pois não havia vivido em vão.
05- História de Um Homem - Pietro Ubaldi (Volume Revisado e Formatado em PDF para iPad_Tablet_e-Reader)
Neste livro, Pietro Ubaldi retrata a experiência de um homem pleno de Ideal, em meio às lutas comuns e muitas vezes brutais das criaturas vulgares. Cedo compreendeu ele o artificialismo da cultura humana; as mentiras convencionais da sociedade, uma filosofia de vida antagônica ao Evangelho que trazia no coração e que não podia deixar de aplicar em sua existência. Quem estaria certo: o Evangelho, com seus apelos a uma vida moral e espiritual superior, ou o mundo com sua psicologia materialista, marcada por fortes instintos? Mas esse mundo era o natural campo de provas a que o destino o havia projetado e onde esse homem deveria viver, compreendendo e amando os seus semelhantes, como eram, e não como ele quereria que eles fossem.
Sem trair o seu ideal, entendeu que tinha que conviver com criaturas comuns, suportando-as e participando de suas lutas, pois assim queria o seu destino. Era preciso amar o próximo, por pior que fosse, já que assim lhe pedia o Evangelho, como uma ordem de Cristo. Descer à criatura humana era o novo dever, como seu Mestre Cristo havia descido e amado. A experiência tinha que ser feita, e ele a fez! Que importavam a dor, as decepções, a pobreza, as traições, as agressões humanas, se esse homem havia nascido para amar o seu próximo, e amando-o também o ajudaria a iniciar a sua elevação moral e espiritual?
Assim esse homem, vivendo experimentalmente o Evangelho, compreendeu que as criaturas normais, com seus instintos primários e necessidades sensoriais, viviam a sua natural fase biológica e mais não se lhes podia pedir. Mas ele devia compreendê-las e amá-las, ajudando-as a subir para Deus.
O livro termina com a visão do Cristo, como a premiar esse homem que tanto sofreu e tanto amou! É uma visão, com rápido diálogo, na intimidade de um quarto humilde, em que esse homem solitário e sofredor, ao receber a visita da Irmã Morte, se alegra com a sua libertação espiritual, pois não havia vivido em vão.

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“Durch Sturm empor”16

(Beethoven)

Já agora, o nosso personagem tinha diante dos olhos, bem clara, a visão da
verdade biológica, bem como da verdade evangélica, e podia dirigir com per-
feito conhecimento a continuação do seu caminho. Compreendera que, colo-
cado assim, biologicamente, o problema se tornava compreensível e que a
solução somente podia ser oferecida pelo bom-senso prático em contato expe-
rimental com a vida, e não por erudição, abstração ou processos racionais.
Encontrara assim, na realidade, outra lógica, diferente daquela dos silo-
gismos, e compreendera que a sábia resposta do oráculo especulativo de
nada serve para a vida prática, onde um homem qualquer sabe mais que um
grande filósofo. De fato, este mínimo e sólido bom-senso do homem comum
é a pedra de toque dos grandes filósofos, o filtro que controla o seu valor
prático, a medida de sua atuação. Se o homem da terceira lei não quer que o
seu pensamento seja letra morta, deve estar sempre em contato com os ho-
mens da primeira e da segunda lei, aos quais aquele pensamento se dirige
para sua aplicação. Muitos problemas propusera o nosso personagem a estes
homens e obtivera as respostas.
Compreendera que era incompleto qualquer conhecimento que não levasse
em conta a realidade biológica, à qual todos devem descer para atuar e onde
tantos fenômenos falam, revelando seu pensamento diretor e animador. Com-
preendera que os pioneiros na vanguarda da evolução, especializados na obra
criadora de novos modelos de vida, atuando como células sociais de função
nervosa e cerebral, aí estavam, por delegação da raça, para cumprir o especí-
fico trabalho de antecipação evolutiva das futuras formas a serem realizadas
pelas massas. Compreendera a razão de seu desequilíbrio e de seu fatal desti-
no de solidão e martírio. Mas compreendera também a sua inderrogável fun-
ção biológica, tão importante como a conservação individual da espécie;
compreendera que, apesar de todos os obstáculos, a sua posição era verdadei-
ra e se mantinha inviolável, acima de todas as condenações. Compreendera
toda a lógica do complexo fenômeno da redenção humana e a fatalidade de
suas leis; compreendera também a que explorações humanas os ideais deviam
submeter-se no ambiente terrestre, onde tudo, a fim de sobreviver, deve servir

16

“Arrastado para o alto pelo vendaval”. (N. do T.)

Pietro Ubaldi

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para produzir um rendimento útil, condição esta indispensável para a sobrevi-
vência na Terra. Compreendera a degradação que os ideais deviam suportar,
para tornar possível a sua assimilação na Terra e como o homem normal im-
põe os seus limites e as sua condições, reduzindo tudo, inexoravelmente, à
medida de sua própria compreensão. Compreendera o aviltamento e as de-
formações que são necessárias para fazer descer o céu aos usos comuns da
Terra, a fim de possibilitar o homem comum apossar-se dele e utilizá-lo na
sua própria evolução! Quão imensa resistência oferece a inércia das grandes
massas humanas e quantas dificuldades para vencê-la.
Mas só assim o ideal pode germinar e frutificar. A visão da fatalidade da
traição do mestre por parte de seus companheiros, das explorações e dos aco-
modamentos humanos, das distorções de consciência, das adaptações defor-
madoras – condições necessárias para aplicação do ideal a uma realidade di-
versa – eis os maiores tormentos do homem que luta pelo ideal.
Não são os discípulos, geralmente, os maiores deformadores? No entanto
eles são necessários. Causava-lhe sofrimento esta fatalidade que assalta a
criação mais querida do homem da terceira lei, golpeando-o justamente no
coração de seu trabalho.
Chegando a este ponto, o nosso personagem se impunha algumas graves

questões:

O ser evoluído tem realmente, e até que ponto, o dever de sacrificar-se pe-
lo involuído? Tem o ser inferior, para sua elevação, o direito de tudo abaixar
até si próprio? Tem o ser normal o direito de trazer até seu próprio nível o
supernormal, para ascender à sua custa? Quais são as relações entre o superior
e o inferior e vice-versa, na hierarquia dos verdadeiros valores da vida que o
homem representa? Tem o gênio o direito de sacrificar-se, descendo e avil-
tando sua superioridade em honra do amor evangélico, a serviço do próximo?
Por que, para um homem que sofre, não seria uma injustiça que outro homem,
embora sendo um gênio, tentasse eximir-se, fugindo ao peso da inferioridade,
a fim isolar-se no culto único da elevação individual? Ou terá o super-homem
o dever de salvar-se primeiro a si mesmo, fugindo à normalidade se necessá-
rio? Terá ele o dever, para servir à sua própria elevação, de isolar-se e voltar
as costas impiedosamente aos inferiores, deixando-os entregues ao seu triste
destino? Este abandono será um dever ou um crime? Se não se deve dar péro-
las aos porcos, deve-se então deixá-los na pocilga? Ou será que cada aristo-
crático refinamento no espírito, como ciência, arte ou santidade, é um roubo à

Pietro Ubaldi

HISTÓRIA DE UM HOMEM

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vida subterrânea dos primitivos e abandonados, que pedem fraternal socorro?
Se quem sofre é um homem irmão, como se pode ter direito à isenção de sua
dor e à tentativa de fuga na alegria do triunfo espiritual no próprio e egoístico
superamento? Pode-se, diante de um ser involuído, pensar primeiro e somente
na evolução de si mesmo? Deve-se, então, impiedosamente abandonar para
trás os que valem menos, a fim de manter na frente os que valem mais? Na
luta entre homem e super-homem, quem tem mais direito à vida? Até que
ponto a piedade pode impor-se à justiça, e qual será o limite dos direitos do
amor ante os direitos do progresso? O que valerá mais, biologicamente, a evo-
lução ou o altruísmo evangélico? A qual deles deve-se dar a preferência?
Orientemo-nos. Todos os homens podem ser individualizados, agrupados
e distinguidos segundo as três leis biológicas que, segundo vimos, presidem
ao funcionamento da vida. Estas três leis são os três planos ou níveis de altu-
ra do edifício da evolução. Os homens que estão situados em cada um destes
três planos são seus representantes e mantêm-se em posições diversas, pelas
quais, mesmo sem perceberem, lutam constantemente. Trata-se, porém, de
uma luta de seres que buscam um ao outro, porque, não podendo existir se-
não vivendo no mesmo edifício, têm necessidade de se unirem. Cada homem
luta para defender e afirmar os valores da própria lei, porque vê neles a sua
própria função vital. A vida é sempre luta, que forma as qualidades, reforça
as posições, estabelece as defesas e garante os valores reais. Assim, os ho-
mens de cada uma das leis são rivais entre si, porque cada um, vendo apenas
o seu próprio campo, acredita ser o centro da vida e, no impulso pelo cum-
primento do próprio destino, é levado a invadir o campo dos outros, chocan-
do-se contra eles. Todos acreditam, reciprocamente, que nenhuma outra po-
sição tem valor a não ser a sua própria. O homem da 1a

lei pensa na conser-

vação individual com o seu egoísmo, enquanto o da 2a

lei pensa na conserva-
ção coletiva e na reprodução, porém ambos não se preocupam com o pro-
gresso social, que é o escopo do homem da 3a

lei.
Mas, se o super-homem não se encontrasse com o ser normal – o qual, sen-
do representante dos seres humanos, não apenas mantém-se vivo pela proteção
necessária e salutar do seu egoísmo, mas também, com o seu instinto de repro-
dução, frustra a obra da morte, provendo a continuidade da raça – com que
outro material poderia ele trabalhar? Nada lhe restaria para plasmar, para fazer
progredir, para imprimir sua própria visão de um mais elevado modelo de vi-
da. Sem os menos evoluídos, ele seria um solitário pregador no deserto e não

Pietro Ubaldi

HISTÓRIA DE UM HOMEM

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poderia realizar a própria missão. Do lado oposto, contudo, se os normais não
se encontrassem com o supernormal – o qual conhece, antecipa e guia, de-
sempenhando a função cerebral e espiritual da vida, para fazê-la progredir –
todo o trabalho deles também permaneceria estéril e sem sentido. Tal é o edifí-
cio das funções da vida. Se colocarmos cada coisa em seu respectivo lugar
neste edifício, teremos as respostas para as perguntas precedentes.
Em primeiro lugar, para cada homem, segundo a sua natureza, lei e posi-
ção no edifício, é um dever a realização da própria função vital. Cada um vê
como um dever seu alcançar o máximo rendimento da própria capacidade,
sendo levado pelo egoísmo de seu nível à defesa do cumprimento deste de-
ver. Se os outros, por inconsciência, tentam invadir o seu campo e prejudicar
a sua função, ele tem o dever de defender-se, porque, no pleno respeito a
todos os representantes das outras forças da vida, ele também tem direito a
ser respeitado, como representante de uma força que, assim como as outras,
deve ser conservada e frutificar.
Assim, se o super-homem não é compreendido, ele tem o dever de expulsar
os profanadores inconscientes de sua missão, porque seria crime não se impor
para seu bem e ceder aos obstáculos, renunciando à utilidade coletiva que po-
deriam produzir os recursos de sua personalidade. O super-homem, que repre-
senta o bem de todos, seria um traidor de sua função, se permitisse aos que não
a compreendem serem obstáculos à sua missão. Seu dever é defender o bem de
todos, representado por ele. Se isto implica para ele o direito à própria defesa e
ao próprio trabalho, implica também o dever de se dar até ao extremo, a fim de
fazer frutificar suas qualidades para o bem geral, estando implícito nisso o
direito à proteção e ao reconhecimento necessário para que o fruto possa ama-
durecer, porquanto o seu interesse é o interesse de todos.
Portanto também o super-homem deve lutar pelo que ele é, na defesa das
coisas superiores, representadas por ele. O espírito de sacrifício, a piedade e o
altruísmo evangélico encontram um limite neste dever. Quem possui qualida-
des não têm o direito de sacrificar seu rendimento para o prazer dos que não
merecem tal sacrifício, pois, fazendo isso, estaria privando dos resultados
aqueles que o merecem. O amor ao próximo se torna defeito quando se desen-
volve no sentido destrutivo, em vez de construtivo. É verdade que a dor é a
grande mestra da vida, mas não basta sofrer – é preciso sofrer utilmente. A
resignação estupidamente passiva, onde as próprias energias são desperdiçadas
para suportar pacientemente as contrariedades, é inútil, pois, sendo moralmen-

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te improdutiva, torna-se culpa, e não virtude. Não se tem o direito de se auto-
consumir para suportar um choque, nem de se sacrificar um nobre trabalho
para renunciar ao necessário. A vida deseja rendimento, e não sufocação das
qualidades. A dor deve ser escola e instrumento de ascensão, e não suicídio.
Ela não deve ser renúncia, senão enquanto esta é dinamismo construtivo para o
alto. Trata-se de lutar sem piedade de si mesmo, porque somente o ideal triun-
fa. Quando do outro lado está o rendimento espiritual, então é lícito o martírio
que maltrata o corpo. Se não for assim justificado, o martírio se torna suicídio,
pois a renúncia sem tal rendimento reduz-se a um errôneo senso de sacrifício,
que, voltado apenas à comodidade do próximo, constitui um verdadeiro suicí-
dio. Está justamente na finalidade de bem, contida no rendimento da ação, a
distinção entre o suicida – cujo ato se reduz a uma inútil tentativa de fugir à
vida, por vileza – e o mártir, que, pelo triunfo de um ideal capaz de fazer pro-
gredir o mundo, oferece a si mesmo em holocausto.
Resumindo, a moral biológica não tolera esbanjamentos, dispersão ou des-
falecimentos. Ela quer cada um corajosamente colocado em seu posto de com-
bate, como vencedor; quer cada um fazendo frutificar utilmente para si e para
os outros as qualidades que lhe foram confiadas, as quais ele representa e per-
sonifica. Àqueles que têm qualidades cabe o dever de sacrificar tudo pelo seu
rendimento e de defender esse sacrifício, para que alcance o seu fim.
Para concluir, é admissível apenas o sacrifício evolutivo, que conduz ao
alto; é lícito apenas a queda que leva à ascensão. As leis da vida não admi-
tem que o egoísmo, cuja ação é na defesa do ser, ceda lugar à sua negação –
o altruísmo – exceto quando, em compensação, é possível adquirir um ren-
dimento capaz de superar ou ao menos valer aquilo que se perde. Um sacrifí-
cio louco, um altruísmo simplesmente destruidor, uma perda de utilidade que
não consegue ressurgir em alguma reconstrução, é um erro biológico, um ato
antivital condenável.
Colocado diante de tais conclusões, o nosso personagem queria orientar-se
numa nova posição. Ele era inexoravelmente o homem da 3a

lei. Sentia isso
claramente e não podia negar o fato a si mesmo. Tinha, então, não apenas o
dever de aceitar e proteger a sua missão, mas também de dar rendimento com-
pleto de acordo com a sua natureza e capacidade. Enfileirou-se ao longe, atrás
dos grandes idealistas. Considerou a situação, reconhecendo em primeiro lugar
suas próprias limitações. Sabia que era limitado e que não lhe competia refor-
mar o mundo, mas simplesmente dar a sua contribuição, fazendo florescer e

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frutificar aquele pouco que possuía. Não podia cometer o delito de desperdiçar
aquilo que ele tinha e que ele devia oferecer, razão pela qual iria até ao limite
de sua capacidade e de suas forças. Mais não podia, nem tinha. Entre o limite
do que ele era e o superlativo que ele não sabia ser, queria agir em plena cons-
ciência e a fundo, até à exaustão de todas as possibilidades interiores. Tinha o
dever desse rendimento máximo dentro do relativo. Não iam além disso o di-
reito de sua própria realização e o dever de justificar a própria missão. E aqui
ele parou, consciente de sua relatividade e pequenez, confiando o resto a Deus.
Os anos seguintes seriam para ele uma lenta realização do bem alheio, o que
daria à sua vida o máximo rendimento. Um sacrifício de si mesmo que não era
suicídio nem aniquilação, e sim maceração elaboradora de espírito, porque sua
morte lenta dava vida aos outros. Morreria, pois, exausto de fadiga, mas satis-
feito em sua paixão de bondade e amor para com o próximo, tendo cumprido o
dever de nada esbanjar de si – nem um minuto de tempo, nem um grama de
força – para dar tudo quanto tinha e, fazendo tudo o que sabia e podia, utilizar
tudo para o bem dos outros. Dados os limites da sua vida, essa era de fato a
medida de sua completa realização na oferta e no sacrifício.
Portanto sua posição agora era clara. Sendo homem da terceira lei, devia,
em primeiro lugar, aceitar todos os respectivos trabalhos e deveres. Oferta e
sacrifício eram regras para ele. Sentia, de resto, que todos os caminhos de eva-
são, até agora tentados, não exauriam e não resolviam o problema da sua vida
de espírito. Era impossível a fuga da Terra através da ascensão mística, mas
também era impossível a sua anulação na tentativa de se animalizar no plano
da realidade humana. Não lhe restava outra alternativa senão o caminho da
cruz. Os últimos obstáculos, ofensas e condenações nada mais tinham feito,
afinal, do que reforçar nele o sentido de sua missão. Sua queda fora profunda,
e a reação fora enérgica mas breve, exaurindo-se em doze meses. Isso fora
necessário para que pudesse resistir a todos os assaltos. Mas a reação continha
um impulso de ressurreição, que, embora iniciado a partir de baixo, não podia
ser detido. A experiência fora útil, e ele trazia consigo agora uma nova sabedo-
ria, com nova solidez. E as forças do espírito que se moviam no seu destino
agarravam-no pelos cabelos, para arrastá-lo novamente ao alto, a fim de que
tudo se cumprisse. O homem é indestrutível em suas notas fundamentais, por
isso o ataque das forças contrárias jamais tem o poder de desviar um destino
fora de seu binário. Neste período de prova, conseguira dominar a onda. Era
necessário agora, por aquela mesma lei de sua vida que primeiro o derrubara,

Pietro Ubaldi

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tornar a sair. Os assaltos estavam esgotados. Pagara, em moeda de dor, ao
mundo inferior o seu preço pelo progresso conseguido. Agora podia retomar o
seu trabalho. E observava admirado como o espírito, em vez de se esgotar,
temperava-se no trabalho do superamento das provas. Quantos novos conhe-
cimentos trazia consigo nesta nova síntese experimental, ao emergir das pro-
fundidades do mundo em que fora atirado! A sua fé superara a prova e fora
consolidada. Durante um ano ficara cego no inferno terrestre, mas, agora, o
vórtice da paixão santa por Cristo o apanhara de novo. Retomava o caminho
nas pegadas Dele, para vencer o mundo não com ódio, mas sim com amor.
Recomeçava a sua missão, corrigida, temperada, purificada. Ninguém a pode-
ria destruir, porque isso significaria a possibilidade da anulação de um espírito
e de um destino. Bastava uma centelha para reacender o velho incêndio, gran-
de demais para acabar assim. Que misteriosa sabedoria das leis da vida se ma-
nifestava nestas provas da alma! O retrocesso não fora senão um meio de to-
mar impulso em direção a novos superamentos no caminho da evolução, para
a própria realização e para o bem de todos. Então Cristo não o traíra. Era ele
que não tinha aprendido o significado mais profundo do Evangelho, o qual
agora, em vez de ficar desmentido, tinha sua verdade reafirmada. Tendo con-
cluído esta sua tão tempestuosa viagem pelo mundo, podia retomar plenamen-
te, no mundo e ante o mundo, em completa consciência, a experiência evangé-
lica. Tudo isso lhe mostrava que a ascensão espiritual nem sempre é retilínea,
não podendo, muitas vezes, ser conseguida senão por ação e reação, como as
oscilações de um pêndulo entre o bem e o mal. Não devemos temer as quedas
quando temos a paixão da ascese, quando temos uma alma ardente, capaz de
se reerguer. O terrível é, ao contrário, possuir uma alma inerte, restrita, formal,
sem oscilações, incapaz de grandes quedas e, especialmente, de grandes im-
pulsos de reação. No rebanho, em geral, todos estão adormecidos, razão pela
qual ninguém cai, mas também ninguém ressurge. E é assim que todos, com
esta sua grande virtude do não fazer, julgam, escandalizam-se e, desejando
reduzir tudo à sua vida negativa, pesam o homem de Deus.

A última palavra que escrevera fora “silêncio” e a mantivera. Decidira

quebrar a pena, renunciar a escrever, renunciar a compreender e, por fim, re-
nunciar a pensar. Sua vida estava no pensamento, e isso significaria para ele o
suicídio espiritual, a aceitação, pelo senso do respeito e do dever, da morte da
alma. Oferecera a Deus o sacrifício máximo. Impusera-se, sem indagar, os
últimos limites. Mas não compreendera que sua vontade não bastava, por-

Pietro Ubaldi

HISTÓRIA DE UM HOMEM

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quanto não é possível, mesmo que se queira, sufocar o espírito. Deixara-se
precipitar, mas não podia destruir-se. Sua mente não podia ser fechada e, com
o tempo, mesmo sem que ele soubesse, pelo simples fato de continuar a exis-
tir, ela permaneceu funcionando, superando inevitavelmente os limites impos-
tos, ultrapassando instintivamente a decisão de não pensar e não compreen-
der, elaborando inadvertidamente uma nova forma de pensar e de compreen-
der. Se bem que estivesse armado de retidão e decisão, a suspensão das fun-
ções da alma resultou em alguma coisa superior ao seu próprio poder. Certa-
mente, as leis da vida não permitem a consumação de tais atentados, embora
ditados por nobres e heroicas intenções. Não conseguiria fechar o pensamen-
to, que, assaltando os limites impostos, venceu o abatimento e a crise, ressus-
citando mais fortalecido. Não é divina a impossibilidade de uma autodestrui-
ção, apesar de todas as dores, de todas as adversidades, de todos os assaltos,
da própria fraqueza e mesmo do abatimento de nossa vontade, demasiada
cansada de sofrer? Não é divina a impossibilidade de se anular? Não é, por-
tanto, a vida um superamento contínuo irresistível, mais forte que nós mes-
mos? É impossível inverter a essência das coisas.
Assim, ele experimentou o funcionamento da lei do equilíbrio, cuja atua-
ção traz justiça – tanto mais quanto menos se reagir – para os que estão esgo-
tados e indiretamente destruídos. Ele compreendeu então o mecanismo da
falsificação evangélica pelas leis do mundo, que faz a derrota se transformar
em triunfo. Compreendeu que, além do simplismo brutal da lei biológica,
havia outras forças, as quais não apenas agem plenamente num mundo mais
alto, mas também irrompem sobre a Terra, impondo-se, invisíveis e imponde-
ráveis. Assim, depois de ter sentido o sabor amargo da injustiça do mundo,
pôde saborear a justiça do céu e compreender, ante as leis do mundo, a supe-
rior potência e a maior estabilidade do equilíbrio das leis do céu, que, na Ter-
ra, são consideradas ingênuas pelos astutos e fraquezas pelos fortes. Alguma
coisa nos mais elevados planos da evolução sentira e registrara o fato de sua
queda. Podia-se dizer que, além das aparências, pesara a substância, na qual
havia sido encontrada, além da forma condenável, uma realidade de sacrifí-
cio. Um organismo de forças conscientes interviera em defesa do inviolável
princípio da divina ordem da justiça e agira na Terra, transformando aquela
derrota, queda e mutilação numa ressurreição.
Tudo isto lhe demonstrava como, além da injustiça superficial, havia em
sua vida e em todas as coisas a inviolável justiça de substância, dada por uma

Pietro Ubaldi

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ordem que compreende, domina e absorve os elementos de desordem. E tudo
isso lhe dava uma nova e evidente demonstração da verdade prática daquele
Evangelho que a Terra considera absurdo.
Admirava a fatalidade da lei do retorno a Deus, observando em si mesmo o
fenômeno da ressurreição. Deus é invisível e irreal sobre a Terra. Quanto mais
se desce em direção ao humano, tanto mais sua imagem se reduz, ficando apa-
gada e antropomorficamente diminuída, para tornar-se, porém, mais compreen-
sível, acessível e confortante. À medida que nos avizinhamos do divino, sua
imagem se assemelha cada vez mais ao Deus verdadeiro, fazendo-se também
mais elevada, abstrata, longínqua e inacessível, pois, nesse ponto, o espírito se
encontra diante de um abismo tão profundo, que Deus se desvanece, perdendo-
se no vácuo do inconcebível. Então o Deus verdadeiro se torna tão alto, que não
se sabe mais invocá-Lo e amá-lo como o Deus antropomórfico, o qual já não é
mais sentido como Deus. Mas – não obstante a sua imensa distância, que assusta
quantos desejem medi-la, e apesar de estar oculto por sua altura, profundidade e
abstração, a ponto de sugerir o ateísmo aos cegos do mundo – quão irresistível
atração exerce este centro invisível e inalcançável, quão premente e suprema é a
necessidade de subir para nos avizinharmos de Deus, a fim de retornar a Ele, tão
logo O tenhamos conhecido! Quantos cansaços, sofrimentos e lutas enfrentam
as almas, para reencontrá-Lo! A marcha do progresso do mundo não é senão
uma afanosa busca por Deus, uma insatisfeita tentativa de retornar para Ele.
Nosso personagem poderia ficar no mundo em que caíra. Algo, porém, o
impedia. Ele não era um inepto e, certamente, teria sabido realizar o ataque
para vencer pelo sistema da Terra. Por que, então, não o queria? Por que não o
podia? A rebelião que ele começara morria-lhe na mão. Por quê? Tudo isso
pela terrível utopia do Evangelho, pelo insensato amor a Cristo, pela doida fé
em Deus. Então ele, após tantas desilusões, sobrecarregando-se ainda com o
peso de novos deveres, retomava destemidamente, como se nada tivesse acon-
tecido, o velho e cansativo caminho.
Agora que reencontrara o sentido do Evangelho, percebia que a realidade
biológica na qual acreditara, colocada diante da consciência evangélica, era
uma torpe paródia. Apesar de tudo e de todos, surgia em seu espírito a supre-
ma contradição da cruz repelida e amada, do martírio e do triunfo, da longín-
qua, inatingível, traída, maldita, mas sempre invencível cruz. Símbolo do tra-
balho da redenção humana, sintetizando a superação biológica que leva da fase
evolutiva humana à super-humana, ela o fitava muda em sua luz e o chamava.

Pietro Ubaldi

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Ele devia retomar agora a tarefa na qual sabia, sem sombra de dúvida, estar o
único significado da vida. Se não desejava involuir e destruir-se, seguindo o
caminho do animal, nada mais lhe restava senão seguir o caminho da cruz.
O que acontecera com ele? Como ocorrem estas estranhas maturações, que
aparecem subitamente como síntese realizada? Sentia-se ressurgir como um
homem diferente, tão diferente do que ele fora no último ano, que nem mesmo
reconhecia a si mesmo. Quão maravilhoso é reencontrar a vida, sobretudo a
vida do espírito, para os seres amadurecidos! É uma revivescência além de
todas as mortes, um renascer de todas as crises, um triunfar de todos os abis-
mos. Os velhos germes, em vez de morrerem sob a neve, tinham amadurecido
e agora germinavam. Ao invés de ficar abatido, o espírito havia-se reforçado
na tempestade. Tais experiências estampam-se tão profundamente na alma,
que se tornam inesquecíveis, não podendo ser destruídas por nenhum assalto
ou vicissitude. Ele compreendeu então a grandeza da divina lei de justiça, pela
qual, uma vez que se conquistou uma realidade, jamais se pode perdê-la; uma
vez que o caminho foi percorrido e o esforço realizado, eles jamais se perdem,
mesmo quando estacionam. Compreendeu então a impossibilidade, para ele,
de se animalizar, de descer, de involuir; a impossibilidade da matéria vencer o
espírito, do mal anular o bem. Compreendeu a indestrutibilidade dos valores
morais, das conquistas realizadas. As próprias leis da vida se opunham à sua
degradação, que seria injusta.
Cedo ou tarde, uma vez elaborado, o eu desperta. E o seu despertar não é o
cauteloso tatear do novato inexperiente, nem a trabalhosa conquista do inex-
plorado, mas sim o rápido reencontrar-se de quem reconhece o caminho, por
havê-lo percorrido. Despertou nele, assim, a velha fome do espírito, onde re-
encontrou e retomou as experiências anteriores, que ele já possuía em síntese,
pois lançara-se cedo pelos caminhos do espírito.
Em vez de começar pela vida física, como é normal na fase da juventude,
ele já havia, desde os verdes anos, alcançado rapidamente a plenitude espiritu-
al, a qual, às vezes, somente é alcançada na maturidade do velho, que, tarde
demais, adquire o profundo sentido da vida.
Assim, voltaram para ele os grandes silêncios, túrgidos de pensamento;
reabriram-se os abismos do céu; reacendeu-se o vórtice de sua paixão; voltou a
tempestade de seu destino, para que ele reencontrasse, continuasse e comple-
tasse o caminho da ascese.

Pietro Ubaldi

HISTÓRIA DE UM HOMEM

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