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Cadernos NAE – Mudança do Clima II

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Ao se pensar nas perspectivas do mercado de carbono para o Brasil,
a primeira questão que se apresenta refere-se a qual seria o tamanho
desse mercado global, para em seguida tentar se estimar o potencial
de negócios para o país. No entanto, dimensionar o tamanho do
mercado não é uma tarefa simples. As metas para Quioto são de
redução de emissões 5,2 % em média relativo ao ano de 1990. Como
as emissões futuras de GEE são um produto de sistemas dinâmicos
muito complexos, determinados por forças motrizes tais como
desenvolvimento demográfico, desenvolvimento sócio-econômico e
mudança tecnológica, o volume de reduções a ser realizado pode
variar enormemente em função do desempenho de cada país e, por
conseguinte, o preço do carbono. Além disto, há mercados voluntários
que se formam, tornando essa estimativa mais complexa ainda.

Alguns cenários realizados estimam quantidades e preços para o
carbono em períodos diferentes. Eyckmans J. (2001) realizou uma
projeção quantitativa das emissões de GEE para a implementação
do Protocolo de Quioto com base na não adesão dos EUA e com os
acordos de Bonn48

e Marraqueche49

. A análise utilizou o modelo
MacGem, baseado em funções de custo marginal de abatimento de
emissões de fontes fósseis derivadas do modelo de equilíbrio geral
Gem-E3-World.

As conclusões de Eyckmans apontam para um crescimento das
emissões globais de 30,1% em comparação a 1990, em uma situação
business-as-usual, ou seja, na ausência de acordos internacionais

48

COP 6, onde se selaram acordos
políticos importantes referentes à
implementação do Protocolo de
Quioto tais como inexistência de
percentuais de reduções
obrigatoriamente domésticos
(restando uma perspectiva apenas
qualitativa sobre a questão); limites
para comercialização do hot air
(que se refere à redução no
volume de emissões de GEE –
transacionáveis no esquema de
comércio de emissões – gerada
por retração econômica e
diminuição de atividades industriais
em países do Leste Europeu e em
ex-Repúblicas da União Soviética);
regras para LULUCF; entre outros.
49 COP 7, onde se estabeleceram
novas regras referentes à
implementação do Protocolo de
Quioto, conhecidas como Acordos
de Marraqueche. As questões
principais referem-se a sumidouros
(favorecendo à Rússia), criação
das removal units (RMUs) –
unidades de remoção –
provenientes de projetos LULUCF ,
permissão de uso livre de AAUs e
restrito de CERs e ERUs
provenientes do primeiro período
de compromisso no segundo
período de compromisso (vetado a
RMUs) e regras do MDL que
permitiram seu início antes mesmo
da ratificação do Protocolo de
Quioto, entre outras.

100

Mudança do Clima

de redução de emissões. Com o Protocolo de Quioto em sua forma
original de 1997, as emissões cresceriam apenas 15,5%. No entanto,
a não participação dos EUA resultaria em um aumento de 25,5% em
2010, conforme ilustra a Figura 13, a seguir.

Figura 13. Emissões globais de GEE em 2010

Fonte: Eyckmans (2001).

Em termos absolutos, analisando-se os dados de Eyckmans, pode
se estimar que os países do Anexo B (excluindo-se os EUA e a ex-
União Soviética) deveriam reduzir 1,76 bilhão de tCO2e em 2010.
Apenas para se ter um parâmetro, extrapolando-se esses valores
para os cinco anos do compromisso de Quioto, tem-se uma redução
de emissões estimada em 8,78 bilhões tCO2e. Admitindo-se que,
teoricamente, pelo menos 50% das emissões seriam feitas
domesticamente, pode-se supor que poderiam ser comercializadas
4,39 bilhões tCO2e via mecanismos de flexibilização, conforme valores
constantes da Tabela 6, a seguir.

101

04. 2005

Tabela 6. Emissões de GEE evitadas com o Protocolo de Quioto50

– (bilhões 50

Cálculos realizados a partir de
Eyckmans (2001).

de tCO2e)

* somente manejo florestal, incluindo acordos de Marraqueche.
** Artigo 3.3 do Protocolo de Quioto.

A EcoSecurities51

estima que, do total de reduções a serem realizadas,
haveria uma demanda de 1,02 bilhões de tCO2e a serem adquiridas
anualmente em cada ano do período de compromisso do Protocolo
de Quioto, ou uma demanda total de 5,1 bilhões de tCO2e (excluindo
se os EUA que sozinhos teriam uma demanda por 2 bilhões de tCO2e).

Jotzo e Michaelowa (2001)52

estimam, também a partir de curvas de
custo marginal de abatimento, que o MDL poderá absorver cerca de
32% da demanda do mercado, que corresponderiam a 300 milhões
de tCOe anualmente ou 1,5 bilhão tCOe no período de

2

2

compromisso do Protocolo de Quioto.

Com relação a preços há várias estimativas. A Figura 14 a seguir
apresenta valores estimados por diferentes fontes53

, que variam entre

US$ 8 e US$ 32 / tCOe.

2

51

De acordo com Cepal 2004.

52

De acordo com Cepal 2004.

53 As fontes utilizadas são:
PointCarbon, União Européia (UE),
Agência Internacional de Energia
(AIE), McKinsey&Company,
Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico
(OCDE), Institute for Economy and
the Environment
(IWOe) e Banco
Mundial.

102

Mudança do Clima

Figura 14. Preços médios estimados no período 2008-2012 em US$/ tCO2e

Fonte: PriceWaterHouseCoppers – Apresentação no II Simpósio Latino Americano
sobre Fixação de Carbono, Curitiba, 24 abril de 2004.

No que se refere à repartição do MDL, o estudo de Jotzo e Michaelowa
(Cepal 2004) sugere que, de acordo com os custos marginais de
mitigação, a China e a Índia tenderiam a ter uma maior participação
no mercado – 52% e 12%, respectivamente – em razão de seus baixos
custos de mitigação, devido ao uso atual de tecnologias muito velhas
e intensivas em carbono. No Brasil e em muitos países da América
Latina, as oportunidades de projetos no setor energético são mais
escassas, pelo uso corrente de energias de fontes mais limpas. No
entanto, ainda segundo a CEPAL, China e Índia também têm
demonstrado uma certa prudência, e tido uma participação ainda
tímida nesse mercado, em função de que os preços de CERs estariam
relativamente baixos. Com efeito, a manutenção dos preços nos
níveis que vêm sendo praticados até o momento serve principalmente
para subsidiar a redução de emissões de GEE dos países ricos54

,
favorecendo pouco a transferência de tecnologia e de recursos para

54 O estabelecimento de uma
política nacional para comércio de
carbono deve considerar a
hipótese de que os países Não-
Anexo B do Protocolo de Quioto
poderão vir a ter compromissos de
redução de emissões em um
segundo período de compromisso
da Convenção (regime pós-
Quioto). Nesta perspectiva, a
questão que se coloca para os
países Não-Anexo B é: qual o
volume de reduções de carbono
de baixo custo seria interessante
vender aos atuais preços de
mercado?

103

04. 2005

atender à dimensão desenvolvimento sustentável dos países onde
os projetos se instalam.

Nessa perspectiva, considerando as fatias de mercado da China e
da Índia da ordem de 64% do volume a ser transacionado via MDL,
o restante dos países Não-Anexo B do Protocolo dividiria entre si
36% mercado MDL, o que representaria entre US$ 4,3 bilhões e US$
17,3 bilhões, considerando a estimativa dos autores sobre volume e
as faixas de preços da apresentação da PriceWaterHouseCoopers55

. 55

De acordo com Kossoy (2004), o
Brasil, cujo principal mote para o
MDL seriam projetos ligados a
A partir das estimativas de volume e de valor do carbono aterros sanitários, responderia por
uma demanda da ordem de 10%
anteriormente apresentadas, pode-se chegar aos valores totais do volume de CERs. Segundo este
especialista do Banco Mundial, tal
apresentado na Tabela 7, para o primeiro período de compromisso percentual corresponderia à cerca
de US$ 1,5 bilhão até 2010.

do Protocolo de Quioto. É importante frisar que essas estimativas
visam apenas dar uma ordem de grandeza do tamanho do mercado,
não sendo resultado da aplicação de nenhum modelo específico de
cálculo. Vale mencionar ainda que não estão incluídos outros
mercados, além do mercado definido pelo Protocolo de Quioto.

Tabela 7. Estimativas de possível dimensão do mercado de carbono para
2008-2012 (5 anos)

Fonte: Elaboração própria.
*somente CO.2

104

Mudança do Clima

Considerando as projeções realizadas a partir dos inventários
nacionais encaminhados à Convenção do Clima, a EcoSecurities
(Cepal 2004) calculou a distribuição do mercado entre os países do
Anexo B do Protocolo de Quioto, conforme apresentado na Figura
15 a seguir, que permite uma visualização do fluxo futuro da demanda
por créditos de carbono. Destacam-se como futuros principais
compradores o Japão, o Canadá e a Itália, seguidos da Espanha,
França e Alemanha. Pode-se observar também os principais
concorrentes do MDL, por meio de CE e IC, que seriam Ucrânia,
Rússia e Polônia.

Figura 15. Compradores e vendedores de créditos de carbono em 2010
(países do Anexo B do Protocolo de Quioto).

Fonte: CEPAL (2004).

105

04. 2005

Outro aspecto do mercado futuro de carbono a se considerar é o
que diz respeito a fontes estacionárias de GEE não contempladas
no Protocolo. Alguns países, entre eles os Estados Unidos, Canadá
e Austrália, estão propondo medidas alternativas ou adicionais para
a redução das emissões, que dizem respeito à captura de CO2
diretamente das fontes emissoras e o seu armazenamento definitivo
em estruturas geológicas ou mesmo no fundo dos oceanos. Nesse
sentido, há um fórum internacional sobre o tema (Carbon
Sequestration Leadership Forum – CSLF
), que conta com a
participação brasileira, criado em 25 de junho de 2003, cuja página
eletrônica – www.cslforum.org – reúne vários documentos e
informações relevantes sobre esse assunto. Essa nova perspectiva
de mercado pode se constituir em uma atividade promissora na
questão a mudança climática.

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